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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Augusto Vieira   
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Por Augusto Vieira - 25/5/2015 15:24:37
SUZANA THEREZA PRATES GONALVES DE QUADROS

Ela viveu, para minha alegria e de inmeros amigos e admiradores, intensamente, sua liberdade, sem jamais prejudicar algum. E por se saber to livre que era dotada de um dos mais incrveis sensos de responsabilidade, para com tudo que fazia, e de um profundo respeito pela dignidade das pessoas com quem conviveu. Acho que herdou isso do bero. De um pai cultssimo, grande mdico, e de uma me, dedicadssima professora e diretora de escola primria, ambos levados poltica, muito mais pela vontade do povo de minha aldeia, do que pela vontade deles prprios. Minha ligao com este mdico consangunea, porque ele filho de uma irm de minha av materna. E mais: foi um dos maiores e mais queridos amigos que a vida j me deu. Daquele tipo de amigo de todas as horas, confidente, que chegava junto a qualquer momento, de alegria ou de tristeza, dando os melhores e mais sbios conselhos, sempre desejando o que de melhor um ser humano poderia desejar a outro.
Essa mulher, filha de meu primo Alpheu Gonalves de Quadros e de "Dindinha" Helena Prates, quando minha aldeia no tinha sequer paraleleppedos, fumava seu cigarrinho, em pblico, como faziam as grandes atrizes de Hollywood. Quando nenhuma mulher dirigia carros, l vinha ela, tomando suas aulas de direo, com Alcebades, num aero-willys vermelho, novinho. Quando nenhuma mulher assumia uma gravidez fora do matrimnio ela o fez com a maior dignidade. Quando havia um tremendo preconceito contra mulheres estudarem direito, l estava ela, na Faculdade de Direito da UFMG, destacando-se nos cursos de Bacharelado e Doutorado. Quando no era comum as mulheres se inscreverem em concursos pblicos de provas e ttulos, l estava ela, sendo aprovada no de Procuradora do antigo INPS, atividade que exerceu com incrvel competncia, at aposentar-se. De volta a Montes Claros, especialista em Finanas Pblicas, ainda foi, por longos anos, titular da cadeira de Direito Financeiro, na Faculdade de Direito do Norte de Minas. E como era querida pelos colegas de magistrio, pelos estudantes e pelos funcionrios da faculdade!
Superou pesadas perdas: dos pais, da nica irm, do nico cunhado e de um filho. Dedicou-se tambm atividade rural, conservando e aumentando o patrimnio que amealhou com seu trabalho e que herdou dos pais. L estava ela, sempre alegre, em sua confortvel e aconchegante residncia, no Bairro Todos os Santos, de nossa aldeia. Sempre foi uma das minhas mais caras musas. Sou apenas um pouquinho mais novo do que ela. Essa prima sempre me fascinou. Aplicou-me a poesia de Vinicius de Moraes e lindas msicas, clssicas e populares.
Na foto, histrica, na sala da casa dos pais dela, o antigo palacete da Rua Doutor Santos, a vemos cercada pelo carinho de minha me Lena, de tia Mercs e tia Clarice.
Voc, querida Su, foi uma das pessoas mais lindas, inteligentes e competentes que j amei nesta vida.
Descanse em paz!


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Por Augusto Vieira - 17/4/2015 22:36:29
Catrumanos se do bem em todo tipo de casa. Muitos comerciantes da terra batizaram seus pontos com essa palavra. Quem ainda no entrou na Casa Alves, na rua Quinze (Presidente Vargas) com Praa Dr. Carlos? A Faculdade de Direito do Norte de Minas foi batizada, por mim, quando seu Diretor, de Casa de Joo Luiz de Almeida. Casa era to importante para os ingleses do incio do sec. XIII, que eles cunharam o magnfico lema: My home, my castle. A Igreja sempre foi cognominada Casa de Deus. A umbanda consagrou at a Casa de Me Joana. Dizem que os chamados afrodescendentes esto pensando em exigir do Vaticano um regime de cotas, pois s h dois santos negros: Cidinha e Ben. Cidinha tornou-se padroeira do Brasil. Ben o patrono dos nossos catops, marujos e caboclinhos. Casa , pois, aconchego, lugar sagrado, recanto de amor, paz e carinho, cantinho de descanso e sossego, altar de cada um de ns. Ou, ainda, como diz o poeta Georginho Jnior, lugar onde um tal Bala Doce faz sua literatura, sem terno, chatice e gravata, caracterizando um modo de ser de quem ama profundamente a liberdade. Maluquice-beleza. Sim, poeta, maluquice-beleza, mas muito mais dos acadmicos que, no final dos anos 70, tornaram-me titular da cadeira n 34, da Academia Montes-clarense de Letras, como sucessor do grande Jos Correia Machado, na presena de Cyro dos Anjos, que veio do Rio de Janeiro testemunhar a loucura. Larguei a chatice e a formalidade da toga para continuar trilhando caminhos libertrios. Mas a toga desvestida que hoje me prov materialmente para que eu possa me expressar atravs de meus livros, pelo Jornal de Notcias, pelo Mural e pela internet, em vrias redes. E me inspiro muito no mestre Oswaldo Antunes. E tenho a sorte de contar com Lus Carlos Novaes, nosso Per, meu editor amigo, e com Paulinho Narciso, meu querido crtico literrio. Vocs acreditam que o pessoal daqui de Bel est me chamando de Vinicius mineiro? Ser pelo fato de eu ter, depois da magistratura, dedicado minha vida literatura e a outros movimentos culturais? Ter abolido dela coisas tais como reunies, palets, gravatas, meias, cuecas e horrios? muita honra para um pobre marqus essa comparao!
Com uma menina de 94 anos que vive em minha aldeia um pouco diferente. Nada de maluquice-beleza. Ela se dedicou, com muita seriedade, sem perder sua alegria e seu requintado senso de humor, a semear generosas sementes sem a ambio de colher frutos. o prottipo da educadora. Uma lady. E como escreve gostoso! E como fala bem! Outro dia mesmo vi uma entrevista que ela deu a minha querida prima Felicidade Tupynamb, no Canal 20. Vi duas vezes, porque eles reprisam os programas. Coisa mais linda! Falou de nossa Academia. Ouvi-la ou ler o que ela escreve, so deleites para minhalma. E me emociono quando ela se lembra de seu querido Olyntho, de cuja amizade sincera tive o prazer de desfrutar por longos anos. Os dois se tornariam muito grandiosos para uma s casa na Padre Augusto. Muita luz para lugar to pequeno. A fulgurante estrela chamada Olyntho foi brilhar no firmamento, num recanto muito especial. E l se encontra espera da amada de sua vida, que ns no queremos deixar partir. Ele j deve estar se queixando da demora.
Essa amada de Olyntho realmente uma mestra. Nossa mola mestra. Lder inconteste de todo um processo cultural que vem fazendo uma verdadeira revoluo em nossas plagas. Dentre os acadmicos e tive o prazer de conviver com os mais antigos, desde Cndido Simes Canela, Arthur Jardim de Castro Gomes, Simeo Ribeiro Pires e Joo Valle Maurcio ela a estrela mais brilhante e merece, como ningum, ter seu nome como epteto de nossa Academia que, na verdade, a filha que ela e Olyntho no tiveram.
Que o nome dessa nossa musa atravesse geraes e seja sempre lembrado. Afinal, somos imortais, pelo menos no territrio de uma aldeia que nasceu entre montes to claros e cuja grandeza se reflete neste nosso cu to lindo.
Viva a Casa de Yvonne Silveira!


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Por Augusto Vieira - 26/11/2014 15:07:30
ZIM BOLO

Para minha gerao, tornou-se um cone, um smbolo, um corifeu, um paradigma. Ele se chama Joo da Silva Prates e ficou conhecido pelo histrico apelido de Zim Bolo, embora nunca tenha sido um bolo propriamente dito, mas um homem forte e musculoso. Zim, de uma das mais tradicionais famlias da cidade, praticava todos os esportes especializados. Nadava vrios estilos, era um exmio levantador de voleibol e jogava basquete muito bem. Cidado modelo, amante de sua terra, trabalhador, honesto, solidrio, culto e profundamente sincero, no era apenas nosso tcnico de basquete, mas nosso orientador para os embates da vida. Um filsofo-educador, posso dizer hoje, sem medo de errar. Quantos problemas de ajustamento social de seus pupilos ele resolvia com sbios conselhos e atitudes firmes! s vezes, poucas, quando rude, suas broncas eram de amor, desejando mostrar novos caminhos a quem deles carecia para se tornar homem de bem. Paizo mesmo, esse exigente treinador tratava todos igualmente e acompanhava, interessado, os passos de nossas vidas. Depois dos bons tempos do basquete, quando obtnhamos alguma vitria, sentamos logo creio que isso acontecia com todos aquele ansioso desejo de encontr-lo, s para contar-lhe e ver o brilho de seu bondoso olhar abenoando nossa conquista. E normalmente o fazamos em seu famoso e inesquecvel bar, na rua Simio Ribeiro.
Em 1965 fui convocado para a seleo mineira universitria de basquete e disputei o Campeonato Brasileiro. Antes j participara de dois campeonatos mineiros, jogando pelo Cruzeiro e pelo Amrica, O Galo no tinha time de basquete. Fiz amigos excelentes nestes dois clubes e at hoje exibo, orgulhoso, minha carteira de scio atleta deles e um trofu a mim entregue por titio Felcio Brandi, quando fui eleito craque do ano, pelo colunista Ildio Costa, do Dirio de Minas. Houve uma festa na antiga sede social do Cruzeiro, no Barro Preto, tipo Trofu Bola Cheia, que nosso querido Denarte promove em Montes Claros. Um reprter, da TV Italocomi, fazia a cobertura do evento e resolveu gravar uma entrevista comigo. Eu estava paquerando minha futura esposa e no queria saber de perder tempo com outras coisas. A ele me tirou da pista de dana e perguntou onde eu tinha aprendido a jogar basquete. Respondi: com Zim Bolo, l na Praa de Esportes. E sa apressado do local para retornar aos braos da quase namorada. O rapaz deve estar procurando saber, at hoje, decorrido mais de meio sculo, quem esse tal de Zim Bolo e onde fica essa tal de Praa de Esportes...
Zim Bolo fechou seu bar, que era frequentado por pessoas maravilhosas e foi, por muitos anos, um importante centro cultural de nossa aldeia, com inmeros habitus no cito nomes para no cometer injustias que ora homenageio na pessoa do saudoso Raymundo Muniz de Carvalho, nosso General Mundinho Atleta, eterno presidente de uma imaginria repblica de amizade e afeto. Gostava muito de ler bons livros e de trabalhar. Era dono de um famoso buf, com magnfica sede, que leva o nome da meeira de sua vida, D. Duca, que deixou imensa saudade em nossos coraes quando partiu e que, com ele, legou nossa gente, Joozinho, Catarina Maria e ngela, herdeiros da inteligncia, da honradez e da dignidade de ambos.
Meu querido Zim, mais uma vez, emocionado, ofereo-lhe todas as minhas cestas e todas as minhas vitrias. Muito obrigado pelo que voc fez por mim. uma honra poder cham-lo de amigo. S Deus saber lhe recompensar tanta pacincia e bondade. E que voc seja sempre esse majestoso e brilhante farol a nos guiar. Descanse em paz, amigo. Sua vida valeu a pena.


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Por Augusto Vieira - 16/11/2014 10:01:53
ADEUS, QUERIDA "TIA" RUTH TUPINAMB!

Aqui, aos prantos, depois de saber por intermdio de Rogrio Borges, quero abraar Norma, Mrcia, Nara, Teca, Alberto, Armeninho e demais familiares. O Conde Armnio Graa estava reclamando muito, dizendo que o cu estava ficando sem graa sem ela.
Vai uma crnica a ela dedicada em meu livro Bala 60 e que est aqui no site do Facebook tambm. Mudei para minha aldeia e meus amigos comearam a viajar. Primeiro Cludio Athayde, depois Haroldinho Veloso e, agora, minha querida "tia" Ruth. Recebemos, juntos, a medalha do Movimento Catrumano. No tenho a capacidade de retribuir altura a crnica que Armeninho dedicou memria de meu pai, mas vai a que pude fazer:

Minha querida tia, pelo corao. Primeiro, devo dizer-lhe que recentemente tive o prazer de falar, por telefone, com seus filhos Alberto e Armnio, meus fraternos amigos. Segundo, que li, em nosso Mural, sua crnica Ciberntica, assim caminha a humanidade e a notcia da concluso da pesquisa da UNICAMP, no sentido de que o uso do computador pode piorar o desempenho dos estudantes. Louvando suas teses, seu romantismo, seu otimismo, sua eterna juventude e esposando a tese da universidade paulista, envio-lhe esta singela mensagem.
Certa feita, tia Ruth, recebi um hspede indesejvel: um vrus no disco rgido {(HD = hard (quente) disk)} de meu PC (Personal Computer = computador pessoal). Ento fui obrigado a aprender a dar o famoso boot (p na bunda, pontap) em todos os softwares (programas) instalados. Resolvi faz-lo sozinho, para aprender. Fui ao BIOS (vida), que uma espcie de retrato da placa-me (tero do computador), onde voc l todas as caractersticas bsicas da mquina e pode configur-la. como entrar na alma do bicho. Sabia que o macete era colocar o CD de instalao no driver (condutor) e dar uns toques repetidos na tecla delete (apagar). Hoje nem isso mais necessrio. tudo automtico. Basta a presso de duas teclas. Teclado chama-se Keyboard = chave de bordo. A bordo de qu? Seria o timo de um navio singrando mares? Teria surgido da a expresso navegar na Internet? Minha sorte que havia feito backup (cpias de meus arquivos) em CD. Reinstalei todos os softwares (programas) e, como no tinha problemas de hardware (equipamentos), copiei-os e tudo funcionou s mil maravilhas.
E foi assim, minha jovem e amada escritora, que me rendi aos novos tempos, perplexo por j estar falando a linguagem da informtica com a maior naturalidade. Logo eu que, s depois dos cinquenta anos, influenciado por meu filho, o Combat, passei a usar essa milagrosa maquininha. Acostumado a ler romances de fico, livros de filosofia, direito, poltica e histria, li e gostei do livro do Bill Gates, A estrada do futuro. Mal fechei sua ltima pgina assaltou-me o seguinte pensamento: j pensaram se o canadense Marshall Mcluhan quando, no incio dos anos 60, do sculo prximo passado, lanou a expresso aldeia global, tivesse imaginado a revoluo da informtica, ou seja, que quase tudo poderia lhe vir s mos, instantaneamente, de qualquer canto deste nosso vasto mundo? Pouco tempo depois passei a defender a democratizao dos PCs. Toda morada do Brasil deveria ter, pelo menos, um. Tal qual luz eltrica, geladeira e telefone. O PC, principalmente depois da navegao em banda larga e hoje j navegam at sem fio , simplificou nossas vidas porque no mais enfrentamos aquelas filas quilomtricas dos bancos; escrevemos, produzimos, alteramos e corrigimos textos, salvando tudo em arquivos; fazemos pesquisas sobre todos os temas que quisermos; mandamos documentos e mensagens instantaneamente; passamos e recebemos faxies (permitam-me esse plural); imprimimos o que nos interessa; ouvimos msicas; vemos filmes e televiso; escaneamos (permitam-me esse verbo), editamos e arquivamos fotos; produzimos filmes caseiros e mil coisas mais. Logo, logo, livros e jornais impressos sero coisas do passado, principalmente depois que minha gerao passar e amadurecer a moada que conviveu com a informtica desde a infncia. Meus netos usam um computador com a mesma naturalidade com que eu uso um garfo e uma faca para comer um arroz com pequi e carne de sol.
No entanto, grande Ruth Tupinamb, e a bem da verdade, h momentos que, como toda mquina, computador enche o saco, satura, cansa. Todos eles deveriam ter uma teclazinha chamada foda-se, para acionarmos nessas ocasies. A gente no pode nem deve se viciar nessa cativante maquininha, porque isso poderia levar-nos a deixar de lado os prazeres maiores da vida, tais como beber uma cervejinha batendo papos com amigos em volta das mesas dos bares; fazer amor gostosamente; ler um bom livro ou uma crnica de Ruth Tupinamb; tocar um instrumento musical; andar pelas ruas, sem rumo e sem nada para fazer, s admirando a obra-prima da criao: gente. E o que seria pior: o vcio ciberntico pode tambm mandar para o espao toda nossa criatividade, a ponto de nos transformar em meros manipuladores de informaes, o que nada tem a ver com o processo conhecimento.
Computador que nem bebida: gostosa, mas deve ser usada mo-de-ra-da-men-te. valioso instrumento, preciosa ferramenta para facilitar nossa existncia, cujos valores maiores, encabeados pelo amor, foram to bem ressaltados em sua artstica crnica, eivada da mais profunda filosofia. J imaginou, minha querida e ciberntica Ruth Tupinamb, se Machado de Assis tivesse um PC?
Voc, minha querida amiga, , no altar de seus mais de 90 anos, a grande escritora de minha aldeia. Um smbolo de inteligncia e honradez para as novas geraes. Obrigado por seus livros, artigos e crnicas. Obrigado pela homenagem que voc prestou memria de meu pai, numa de suas crnicas, relatando a amizade entre ele e seu marido, nosso saudoso Conde Armnio Graa. Querida "tia", sua bondade te fez Santa. Descanse em paz, sua vida valeu a penha.


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Por Augusto Vieira - 21/5/2014 02:02:14

ADEUS, QUERIDO COMPADRE!

, s Deus sabe o quanto voc lutou pela vida. Ela queria te deixar, mas voc, com a percia do grande atleta que foi na juventude, dava um lao nela e a fazia voltar pra bem pertinho de voc. E tambm s Deus sabia o quanto voc gostava de viver. Sob o manto daquela seriedade congnita escondia uma alma branda, sempre em busca de algo inteligente para alegrar os amigos, a cidade e o pas. Voc era to inteligente e lder que dava o mote das coisas para depois curtir as consequncias das aes dos outros sobre elas. Da ter-se tornado nosso grande Chefe. E fazia isso com a boa-f dos homens de bem, dos homens de corao puro, dos poucos homens que conquistam aquela to sonhada intimidade com Deus. Voc a conquistou, compadre. E eu sabia disso. Conquistou sem fazer alarde, como era prprio de sua personalidade, de uma maneira sublime e, porque no dizer, sutil. Devagar, sem a mnima pressa, ela foi chegando em voc e purificando, cada dia mais um pouquinho, com gotas de amor, sua nobre vida. Compadre, se eu for lembrar aqui os momentos que vivemos juntos escreveria - e voc sabe disso - um livro de mais de trezentas pginas. Alguns deles remontam nossa juventude, ao segundo andar do casaro de Wilson Veloso e de D. Neuza. Nunca me esqueo do piano da sala. E da imensa travessa de arroz branco, fumegante, para alimentar a crianada da casa e os convivas. Lembra daquela noite em que ficamos, os dois, at o dia amanhecer, sentados no cimento frio da redonda bomba da Esso, perto de sua casa, violo em punho, ensaiando a msica "O Amor em Paz", do Tom Jobim? Anos depois, j velhos, repetiramos aquele momento, s que, desta feita, no bar de sua majestosa residncia, para criarmos a pardia "S Nem", tambm com msica do grande maestro. Juntos estudamos, residimos em repblicas em Bel e juntos praticamos alguns esportes, inclusive o basquete, at em seu querido Cruzeiro que, juntos, em Santiago do Chile, vimos ganhar a primeira Libertadores. E eu, atleticano, a gritar o nome de seu time depois da conquista, acho que mais para homenage-lo do que a qualquer outra coisa. Voc e comadre ngela batizaram minha Thet. Quis demonstrar, nesta escolha, apenas o quanto lhe queria bem, porque a gente escolhe para estes misteres apenas as pessoas que mais amamos. Estivemos juntos nos nascimentos de seus dois filhos e nos casamentos deles. Celebramos suas bodas de prata, no casamento de Vanessa. meu compadre, viajamos muito juntos. Agora no posso te acompanhar nesta sua mais nova viagem. Sabe que gostaria de estar a seu lado tambm neste momento? Sabe que seria at prazeroso para mim? No entanto, Deus quis que eu ficasse por aqui mais um tempinho, sem voc, com um pedao de mim mutilado por sua partida. Voc encantou, como dizia o grande Rosa, muito cedo, mas sua vida, como cantava o vate lusitano, valeu a pena, porque sua alma nunca foi pequena. At breve, Compadre! V se encontra por a com Cludio Athayde, Wanderley Fagundes, Dcio Cabeludo, Afrnio Temponi e outros amigos. Pensem, por favor, em preparar as recepes dos que ainda ficaram por aqui.
Grande Haroldo Furtado Veloso!
Palmas, cheias de lgrimas, para voc!


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Por Augusto Vieira - 10/5/2014 20:43:04
JOO CARLOS SOBREIRA

Falar de voc, meu querido amigo, vai na porrada mesmo. As coisas esto, h muito tempo, acumuladas em minha mente. Estava procura de uma foto sua e s hoje achei uma na Internet. Voc foi e um dos maiores amigos que a vida j me ofereceu. Desde minha juventude, voc um pouquinho s menos jovem, j estudando arquitetura na UFMG, em Bel, e residindo naquele castelo da rua Curitiba. Nas frias jogvamos basquete juntos, na Praa de Esportes, sob o comando daquela figura maravilhosa chamada Zim Bolo, que o vulgo conhece por Joo da Silva Prates.
E como ele gostava de voc! Joo, falso magro, forto, com aquelas pernas e aqueles braos imensos no era fcil de ser marcado. E o Conjunto Musical do Clube Montes Claros? Voc, Mrio Bode, Carlos Alberto Prates e outros gals da poca. Eu, mais novo, aplaudindo e querendo imit-los. Da, descoberto seu lado musical, por sinal muito forte, j estudando Direito, em Bel, passei a frequentar sua casa, ali na Dr. Veloso, durante minhas frias, ao ponto de provocar cimes em minha me. Sentvamos na imensa varanda e ficvamos ouvindo jazz, atravs da eletrola da sala. E voc imitava todos os instrumentos com a boca. E eu ficava impressionado com aquela sua musicalidade.
Mas o bom disto foi que ganhei uma adorvel "tia", pelo corao: tia Za. E sempre um caf vespertino dos mais fartos que j vi. Voc, j exercendo a profisso, descia as escadas do escritrio, por volta das trs da tarde e eu, vagabundo de frias, j estava na mesa, com tia Za, s te esperando para atacar aquelas coisas deliciosas. Lembra, amigo, que logo que me formei, vim para nossa aldeia e o pessoal me lanou para ser seu vice, na casa de "tio" Zeca Guimares. N, que alegria! Que honraria. Ser vice de um dos meus dolos. Da houve uma reviravolta, que no interessa contar aqui, e eu sa para vereador. Estava no topo e, logo depois, voltei plancie. Mas no desertei. Fui at o final a seu lado e, podes crer, fizemos a maior campanha poltica de todos os tempos, cientes de que no teramos condies de ganhar as eleies. Queramos - e o fizemos - apenas firmar valores perante a opinio pblica, tais como Plano Diretor e outros. Que dignidade e que honradez, hein, amigo? Isso, hoje em dia, quase no mais existe. Lembra, amigo, que, logo que adquiri condies, voc fez o projeto de minha residncia e que comeamos a obra? Lembra da reforma do prdio da rua Quinze? Voc, Rays e Pedro Piteira. Repito aqui, falando agora do profissional, o mesmo que disse em relao sua atuao na poltica: que dignidade e que honradez! E seu casamento com Baby, de "tio" Jder e "tia" Lygia? E o nascimento de Izabella? Combinamos logo o casamento com meu Luiz Gustavo. Meu querido Joo Carlos, voc nem imagina o quanto te prezo e respeito. Receba, com esses pobres escritos, meus sinceros cumprimentos pelos seus, que tenho sempre lido, e a certeza absoluta de que lhe considero, como j disse, uma preciosidade que Deus colocou em meu caminho para ser amigo. Te amo Joozo! Beijos.


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Por Augusto Vieira - 10/5/2014 02:48:02
REFLEXES E POEMAS DE TANCREDO MACEDO
Caro amigo.
Na honrosa condio de ser um dos duzentos proprietrios de seu livro, devo dizer-lhe que comecei a leitura ontem por volta das oito da noite e s parei agora, quase trs horas da madrugada de hoje. Eu j imaginava o que seria, pelo que conheo de voc. E o conhecia muito mais como admirador, porque convivi mesmo, pra valer, foi com seu irmo, nosso inesquecvel Jomar. Acompanhava-lhe os passos, sempre, para servirem-me de exemplo. Exemplo de dignidade humana, de respeito ao semelhante, de desprendimento da riqueza material e cultivo aos valores do esprito, como manuscreveram seus filhos na quarta capa. Conheo, agora, de perto, o Tancredo poeta e o Tancredo escritor. Interessante, no ? O pessoal, nunca chama os poetas de escritores. Ser porque os poemas so, antes de tudo, inscritos nas almas dos vates? Suponho que sim. Adorei seu livro. Grande mdico e, agora, para mim, grande poeta e grande escritor ser sempre esse craque em tudo que j fez, inclusive no futebol. Que garra e que raa! E eu na arquibancada gritando seu nome, junto a milhares de pessoas. Um poema seu me emocionou, o "Choro Doloroso", especialmente quando voc diz: "...tambm quero cheirar o esqulido vagabundo, to guardado no bojo da crueldade do mundo". Parabns por este legado, no s a seus familiares, mas a seus amigos e a toda nossa querida aldeia. Parafraseio Vininha e Ivan Lins pra dizer, finalmente: se todos fossem iguais a Tancredo Macedo a vida poderia ser maravilhosa. Vamos brigar por nosso sonho de amor? T nessa, contigo, caro amigo. Muito obrigado pela linda dedicatria! Seu livro, sobre ficar exposto na estante, estar sempre em mim, como uma estrela guia.


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Por Augusto Vieira - 6/5/2014 04:01:11
OS CASOS DO LORD AIR VIEIRA

Tio Air uma pessoa agradabilssima. Fiquei 31 anos fora de Montes Claros e estou morando aqui h quatro meses. Quando a gente chega de fora percebe melhor as coisas. Impressionante como ele querido. J lhe dediquei meu dcimo-primeiro livro "O Roubo do Pequi Atmico", alis, escrito para ele, em comemorao a seus 90 anos. J aos 91, ele continua forte e lcido, de bem com a vida e curtindo quase vinte bisnetos. As meninas de Mrcio e Marta, Paulinha e Cristina, lhe deram dois, recentemente que, combinamos, iremos conhecer, em Bel, o mais breve possvel. Mrcio, meu querido primo "Tina Veio", deve estar babando. Demoraram, hein primo? Mas vieram, finalmente.
Considero tio Air, hoje em dia, meio que um pai substituto. Logo ele, que sempre me dissera que fora criado por meu pai, Non, um de seus oito irmos. Sempre, aos domingos, vamos almoar no restaurante "Recanto do Rio", de nossa amiga Vanessa Ramos. Neste ltimo fim de semana fomos no sbado e no domingo e, nos dois dias, mandamos ver em duas deliciosas feijoadas, regadas a caipirssimas.
Tio Air, quando jovem, pegava quatro sacos de 60 quilos e colocava um em cada ombro e dois entre os braos. Um touro. Mas fora acostumado, trabalhando, a fazer isto. Desde menino era o guia dos carros de bois de meu pai e de um irmo deles, tio Moacyr. Veio para Montes Claros com 14 anos e... tome servios, sob o comando de nosso autoritrio patriarca, tio Augusto Getlio Vieira, irmo dele. E o menino se virou. E se virou muito bem. At hoje anda a cavalo trs horas por dia, em sua belssima fazenda, a histrica "Vaca Brava". Nos finais de semana vem para cidade e fica num lugar maravilhoso, cujo nome retrata o que realmente : seu stio "Paraso". A cidade o cercou pra tudo quanto lado. A soluo, qualquer hora, ser transformar o stio num loteamento e ns perderemos este local to lindo, que nos traz gratas recordaes de tia Clarice, especialmente no que diz respeito s plantas e jardins, ainda cuidados com muito carinho.
O mais gostoso desse nosso ltimo encontro dominical foi o papo. Tio Air me revelou coisas interessantssimas de nossa famlia e da histria de nossa aldeia. Houve momentos que eu fazia quem nem Zezito, meu primo e sobrinho dele: chorava de tanto rir. Ele estava inspiradssimo. Contou-me vrias histrias e a que me mais me marcou foi a que envolveu Z Piriquitinho.
O Prefeito da cidade era Dr. Santos, segundo tio Air, um homem pequeno, mas de uma valentia monstruosa. E eram amigos, ele muito mais jovem. Pois bem, estavam no Clube Montes Claros, jogando uma sinuca, quando entrou Z Piriquitinho, que era bom de briga, todo machucado. Dr. Santos perguntou o que ocorrera e Z narrou quer fora vtima de uma imensa covardia. Seguro por dois policiais civis, fora espancado por um desafeto, cujo nome, evidente, no declinarei. Dr. Santos viu aquilo e disse:
- Aqui nessa cidade no tem homem, no? Cs vo atrs desses malvados e faam justia, que eu garanto o resto.
Abro um parntesis para contar que meu pai havia me contado que tio Air, certa feita, dera um murro to bem dado num sacana que o cara bateu com tanta fora numa parede que a derrubara. E ele me contando essa histria, descobri que o que meu pai me dissera era a mais pura verdade, pois foi justamente para vingar a covardia sofrida por Z Piriquitinho que ele fizera isso, no Bar de Sinval Amorim, bem ali na Rua Quinze.
Encorajada pelo Prefeito, a turma foi l e cobriu o cacete nos covardes. Quebraram todo o bar. Tio Air me contou e eu quase morri de tanto rir nessa hora, que aproveitou a ocasio e ainda deu uma boa porrada num cara chatssimo que ele no topava e que estava no bar, sem nem saber o que estava ocorrendo. Nessa hora eu desabei. Quer dizer, aproveitando o ensejo, dou logo uma naquele chato, sabendo que ficaria tudo bem, porque teria a meu favor a defesa de que estava todo mundo brigando. Vingado Z Piriquitinho, retornaram ao clube e contaram a Dr. Santos o estrago que haviam feito. Ele simplesmente respondeu:
- No se preocupem com o restante. Deixem que eu resolvo tudo sozinho.
Saiu do clube, foi ao detonado bar e resolveu tudo com o proprietrio. E ainda fez correr mais uns dois chatos, gatos pingados, que l estavam querendo apanhar mais.
O arremate dessa histria? Foi simplesmente genial. Ele me disse que naquela poca s havia seis soldados aqui e que eles, quando viam a turma, mudavam de direo, morrendo de medo de sobrar pra eles tambm, como sobrara para os covardes detetives que haviam segurado Z Piriquitinho. Nessa hora eu no resisti e chamei a ateno dos demais fregueses do restaurante, soltando uma estrondosa gargalhada, com os olhos lacrimejando.
Esse meu tio mesmo um homem fora de srie. Se pudesse almoava e jantava com ele todos os dias. E sabem que ele comparece, sem remdios, at hoje? E sabem que Betinha, aquela senhora que governa a Gr-Bretanha, ainda est apaixonada por ele? Que belo exemplo para toda a famlia! Sarav, Lord Air Vieira!


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Por Augusto Vieira - 22/3/2014 06:17:49
ALPHEU GONALVES DE QUADROS

Era meu primo em segundo grau, porque sua me era irm de minha av materna. Tornou-se um dos maiores amigos de meu pai e fui, por longos anos, o herdeiro dessa grande amizade. Nosso santo combinava. Era um homem bonito, alto, elegante, de voz branda e extremamente culto. Humilde, no alardeava seus conhecimentos literrios e suas virtudes profissionais. Grande mdico, devo a ele a vida de minha me. A ele e a Dr. Fbio Ribeiro. Batamos longos papos, em minha casa ou na dele, ou quando viajvamos em sua caminhonete com destino a alguma fazenda. Aparentemente srio, adorava dar boas e genunas gargalhadas. Sempre de terno e meias cinzas, sapato marrom, camisa impecvel e gravata borboleta vermelha, ou com seu bluso cqui ou guarda-p branco, camisa, cala e botinas de fazendeiro nas viagens pelas estradas empoeiradas, nas quais, muitas vezes, eu me tornava seu cuidadoso motorista. Menino, participei de suas campanhas polticas. Por trs vezes foi Prefeito de minha aldeia e eu sentia o maior orgulho de ter aquele primo to querido no comando da coisa pblica. Tinha inigualvel senso de justia e no perseguia ningum. Respeitava os adversrios polticos de um modo reverente e agia com muita tica e serenidade nas questes que os envolvia. Nunca o vi abrir a boca para falar mal de algum. Nas horas felizes sempre estava em minha casa. Nas tristes era o primeiro a chegar, perguntando se eu estava precisando de alguma coisa. O ltimo almoo, um arroz com pequi e carne de sol, em minha casa da Irm Beata, depois de minha separao, contou com sua honrosa presena. Fiquei uns tempos meio descontrolado e ele, semanalmente, me visitava para saber como estava minha vida. Quando adoeceu, com mais de 90 anos, eu estava judicando em Pirapora e sempre o visitava no casaro da Dr. Santos, ao lado do prdio onde funcionava O Jornal de Montes Claros. Ficava beira de seu leito a bater os bons papos, relembrando coisas do passado e contando a ele as novidades. Sentia em seu semblante a alegria e um certo orgulho por me ver homem renovado e juiz de direito, depois do sofrimento. Ele gostava muito de mim e me desejava tudo de bom que o mundo poderia me ofertar. Eu tambm era assim em relao a ele. Tio Joozinho e Dindinha Honorina tiveram um grande filho. Dindinha Helena Prates teve um grande marido. Suzana e Snia tiveram um grande pai e eu tive um grande primamigo, por quem, at hoje, choro de saudade. Que homem maravilhoso foi esse Alpheu Gonalves de Quadros!


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Por Augusto Vieira - 4/12/2013 03:22:44
DISCO AVUADԔ

Augusto Vieira

Corria o ano de 1958. Em outubro de 1957 os russos haviam lanado o primeiro satlite, o Sputnik, tema predileto, por muito tempo, das conversas montesclarinas. Muitos ficaram a imaginar, para breve, uma viagem ao cosmo, em busca do desconhecido, para alguns, poucos malucos-beleza da cidade, conhecidssimo. Geraldo Tatu, com uma folha de papel numa das mos, narrava como fora sua viagem ao planeta Marte. A meninada, influenciada pelo seriado Flash Gordon, o grande heri estelar, dava a maior ateno a seus enfumaados relatos. E sonhava, nas noites quentes, com viagens interplanetrias. Volta e meia algum dizia que visitara os anis de Saturno e que eles eram lindos, causando inveja aos no sonhadores.
Numa linda noite de outono, lua cheia, cu coalhado de estrelas, jogavam pife-pafe, na casa de Geraldo Prates, inteligentssimo Escrivo do Crime da Comarca, o prprio; Sinh Oliveira, esposa do grande jornalista Jair Oliveira; Antnio Rodrigues, corretor de seguros, tocador de viola, cantador e futuro artista de cinema; o fazendeiro e comprador de bois Joo de Quirino; seu Correia, pai do futuro cineasta Carlos Alberto Prates Correia e Alfeuzo, filho de Geraldo Prates. Pela madrugada, D. Alice, dedicada esposa do serventurio da justia, pediu ao marido que levasse a sogra, D. Maricas, em casa, na Praa da Matriz, ali pertinho. Geraldo prontamente atendeu e, quando retornava da casa da sogra, passou pelo casaro colonial de Jair Oliveira e Sinh, na Dr. Veloso, esquina com a praa. De repente viu uma coisa no meio da Dr. Veloso, em frente ao porto que dava acesso lateral ao Solar dos Oliveira, parecendo uma caamba de entulho, emitindo uma luz branca, fortssima, e soltando irrespirvel cheiro de enxofre. Assustado, retornou praa e chegou a um posto de gasolina cujo vigia era o velho Nestor, com quem comentou o fato. Nestor disse que, realmente, havia visto uma luz brilhando pelos lados do sobrado. Foi ento que, para surpresa de ambos, o objeto iluminado levantou-se do cho, perdeu a claridade lateral e sua luz se focou exclusivamente no piso da rua, aumentando assustadoramente de intensidade. Logo em seguida, decolou, em altssima velocidade, sem fazer qualquer rudo. Geraldo Prates retornou casa apavorado, arfante, quase sem flego. Parecia que no corria mais sangue em suas veias. O pessoal ainda jogava e, de imediato, nem deu bola para o que ele, ansioso, tentava contar. At que Antnio Rodrigues se levantou da mesa e conclamou os presentes:
- Gente, Geraldo t ficando doido. Vamos l, com ele, no lugar em que ele viu o disco voador. Essas geringonas sempre deixam algum vestgio.
E todos saram em direo ao porto do casaro. No viram nada de anormal, mas ainda sentiram o forte cheiro do enxofre no ar.
Poucas semanas depois uma equipe da Fora Area Norte-Americana chegou a Montes Claros e submeteu Geraldo Prates a um longo questionrio, tendo seu filho Jlio como intrprete.
Esta deve ter sido primeira visita dos ETs nossa aldeia. Por ser Geraldo Prates um homem de muita credibilidade e nosso digno Escrivo do Crime, o fato repercutiu, inicialmente no Forum Gonalves Chaves para, logo depois, tomar conta da cidade, na poca com umas trinta a quarenta mil almas.
At surgiu uma conversa no sentido de que Mundinho Atleta, nosso querido e saudoso Raimundo Muniz de Carvalho, havia sido abduzido. S que ele, nosso General e Chefe Supremo das Foras Armadas do Brasil, ao invs de se tornar refm dos ETs, passou a lider-los e, dois meses depois, era trazido de volta, com honras militares, em frente ao Bar de Zim Bolo, na rua Simeo Ribeiro. Quando Mundinho descia do disco, por ali passava - dizem que por castigo devido a no ter acreditado em Geraldo Prates - Antnio Rodrigues, que retornou imediatamente janela da sala da casa do farmacutico Mrio Velloso para narrar a cena que presenciara aos companheiros de jogo de baralho que acabara de deixar. E eles no lhe deram a mnima ateno, to concentrados que estavam nas cartas. Um deles apenas comentou:
- Montes Claros, gente, ganhou mais um maluco.
Carlos Alberto Prates Correia colocaria esta cena em seu festejado e premiado filme Cabar Mineiro, no final dos anos 70, do sculo prximo passado.
Devo mencionar anda que nosso General, quando veio o golpe militar, em 1964, ameaava queles que criticavam as foras armadas, de abduo e, conforme a gravidade da ofensa, abduo sem retorno.
Na poca, perguntaram a Pedro Canela, irmo de nosso escritor, poeta e tabelio Cndido Simes Canela:
- Pedro, oc viajaria nesse tar de disco avuad?
E ele, na bucha:
- Viajaria, sim, mas s se me deixassem levar uma mulher bonita, um pacote de cigarro Continental e um 38, cano longo, carregado de balas dum-dum.
Tempos depois surgiria a sigla ET, para identificar os extra-terrestres que, aqui, em nossas plagas, para o velho Pedro Montes Claros, jamais deixariam de ser, pura e simplesmente, uns istrangeiro.
Em 20 de julho de 1969, Neil Armstrong pousaria in riba da lua e gravaria para o mundo a mensagem: este um pequeno passo para o homem, mas um salto gigantesco para a humanidade." S que muitos de nossos conterrneos, antes dele, j haviam feito esta pitoresca viagem.


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Por Augusto Vieira - 18/8/2013 12:54:00
A CHEGANA DE Z BENTO

Depois de atravessar vrias esferas do firmamento, finalmente, pela pureza de sua alma, meu querido Z Bento, chegou aos prticos celestiais. Pedroca abriu-lhe a imensa porta de madeira talhada. Z Bento fixou aquele seu olhar penetrante em suas barbas brancas e foi logo perguntando:
- aqui que a gente tem que "coisar"?
O bom velhinho, perplexo, nada entendeu. A Z Bento voltou:
- Diz logo a, amigo, pois se no for aqui que a gente "coisa" eu vou tratar, logo, de me "descoisar".
Pedroca arregalou os olhos. Pensou com seus botes: esse cara doido. Mas aqui anda precisando de umas pessoas assim, diferentes. T muito formal, burocrtico e montono. Deixou o velho Teixeira de Salles transpor os umbrais, aps responder a uma pergunta sobre onde se encontraria uma cervejinha bem gelada.
A, ento, o Luziense apaixonado foi encontrando amigos. O Neves o abraou, deu uma estrondosa gargalhada ao notar o semblante do santo porteiro, e foi logo dizendo:
- Z Bento, c demorou chegar, hein? T tudo bem l embaixo? E o Roberto Elsio, continua na cabeceira da mesa, inventando frases espirituosas para arrematar os papos? E o Fausto Mata Machado ainda usa seu famoso "data vnia" antes de expor uma ideia? E o Bala Doce continua falando que nem uma gua gorda e velha? E o "figueiredo" do Leopoldo Bessone, como vai?
Foi ento que aproximaram-se o Viotti e o Z Ramos Filho. Z Ramos com uma bandeira do Galo, aos gritos, ainda comemorando efusivamente a conquista da Libertadores. Viotti com um pedacinho de papel, dobrado, nas mos, que entregou a Z Bento e pediu para que ele s abrisse depois de se acomodar em seus novos aposentos.
Mesmo fatigado pela longa e cansativa viagem, o festejado escritor ainda reviu mais alguns amigos e parentes. Finalmente recolheu-se. Tomou um bom banho, barbeou-se, vestiu um pijama azul e deitou-se numa confortvel cama. Pegou, na cabeceira, o papelzinho do Viotti, onde leu, escrita, lpis, a seguinte trovinha:

O meu amigo Z Bento
Que acaba de chegar
Introduziu no firmamento
Um novo verbo: "coisar".

E foi assim, que esse Z, de Santa Luzia, que j nascera bento, adormeceu, cansado e feliz, em sua primeira noite de cu, ou melhor, "coisou" feliz.


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Por Augusto Vieira - 14/7/2013 10:48:04
A HOMENAGEM DO ESPN A JOMAR

Ontem me emocionei e fui s lgrimas duas vezes durante o bloco do programa "O Brasil da Copa do Mundo", em homenagem memria de meu querido amigo Jomar, na ESPN. A primeira grande emoo foi quando Tancredo Macedo, irmo do craque, tambm craque do futebol e da medicina, o definiu numa s palavra: amor. Acho que foi a primeira vez que uma pessoa, na televiso brasileira, conseguiu ficar no ar por tanto tempo, depois de usar unicamente esta palavra mgica na resposta a uma pergunta de um reprter. Momento divino, que deve ter paralisado do entrevistador ao porteiro da emissora e tocou profundamente os coraes de todos os telespectadores. Assim so esses meninos de meu querido "TiJuca", um homem exemplar, que percorria as ruas e os lares de minha aldeia, exercendo a nobre profisso de carteiro, amigo de todos ns, que ornamentou sua vida por uma bondade e por uma modstia de dar inveja ao mais puro cristo. Esqueceram de dizer de outros craques da famlia, a comear por Vivaldo, passando por Alexander, pelo prprio Tancredo, por Danilo e Joo Batista. E aqui me recordo tambm de Padre Joaquim, tambm bom de bola que, no campinho do Seminrio Diocesano, arregaava a batina e corria como um foguete pela ponta esquerda, produzindo jogadas geniais. Coisa gentica: todo Macedo de minha aldeia inteligente e bom de bola! Padre Joaquim foi meu grande professor de Portugus, no curso cientfico, no casaro de nossa eterna Escola Normal, onde Jomar tambm concluiu seus estudos do segundo grau e bacharelou-se em Direito.
A outra grande emoo foi ver o homenageado, poucas horas antes de se encantar, comandar um pai-nosso, num encontro de antigos craques do grande futebol de minha terra, sugerido por ele ao grande jornalista Denarte D`Avila. Jomar, ali, deve ter sentido que se despedia da vida e, como disse Tancredo, amoroso, quis rever os antigos amigos das quatro linhas, antes de viajar. E ele era assim mesmo. Nunca o vi, em nossa longa e fraterna convivncia, abrir a boca para falar mal de algum, semear a discrdias ou espalhar dios. Viveu muito perto da santidade.
A participao de Nicomedes, no programa, foi excelente. Nosso maior zagueiro retratou, com maestria, o palco em que Jomar brilhou como artista da bola. A Montes Claros de um futebol espetacular, a nvel de qualquer Copa do Mundo. Helton levantou um brinde ao homenageado, no Tip Top, de meu querido diretor Vivaldo, o que tambm teve para mim uma significao muito especial. Ambos, ele e Nic, foram meus atletas quando dirigi o Cassimiro de Abreu e ainda so queridos amigos que muito prezo e guardo, a sete chaves, em meu velho e marcapassado corao.
Parabns, Denarte! Tenho certeza de que esta ideia foi sua. E muito obrigado por voc dar essa imensa alegria aos exilados de nossa aldeia, que nem eu, de ver imagens de nosso cho e de nossa gente espalhadas por todo este nosso vasto mundo.
E que Deus continue a derramar suas bnos a todos os filhos, filhas e descendentes do grande Juca Carteiro, nosso querido "TiJuca"! E que ns jamais deixemos apagar a memria deste inesquecvel conterrneo Jomar Geraldo dos Santos Macedo.


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Por Augusto Vieira - 11/6/2013 09:56:44
Geraldo Prates

Sempre me lembro de meu querido amigo Geraldo Prates com imensa saudade. Foi na casa dele, com Jlio, que aprendi todas as msicas do Pacfico Mascarenhas, nos anos 60, do sculo passado. De vez em quando, indo s aulas da Escola Normal, manh, bem cedinho, filava uma beirada do lanche dos "meninos", na vasta cozinha de sua casa. Acho que Norberto nem era nascido. Lanche? Qual o qu! Aquilo era um verdadeiro almoo. Alvenaria! E os bifes, com ovos estrelados, que Alfeuzo traava? E D. Alice ali, feliz, por nos ver bem alimentados, antes de nossa viagem aos domnios da educao e da cultura.
, Norberto, por favor, me mande uma foto de seu pai para eu colocar aqui e em meu site, ilustrando uma crnica a ele dedicada, em que ressalto, como no poderia deixar de ser, sua bondade, sua fulgurante inteligncia e inigualvel presena de esprito.
Ei-la:
Quando a poltica de Montes Claros era mais radical, meu pai, pessedista de quatro costados, disse num comcio que, quando o padre rezava na missa Orater Fratres, estava dizendo Orai prus Prates. O radicalismo era to forte que se um menino da parte de baixo da cidade pegasse uma doena venrea, os pais logo reclamavam:
Esse menino andou frequentando as putas l de cima, do PR.
E vice-versa.
Com o tempo o sectarismo foi se aplacando, at que a Turma de Haroldinho uniu a todos. Por exemplo, Cludio Athayde e eu, do PSD, nos tornamos grandes amigos de Haroldinho e Odorico, do PR. Casamentos uniram famlias antes adversrias. O tempo foi aplacando as iras, os atavismos e as mazelas...
Quando me formei, fui brincar com o saudoso Escrivo do Crime, meu fraterno amigo Geraldo Prates, de bondade imensa. Disse a ele:
Geraldo, esse Frum uma oligarquia: o Juiz Prates, Cndido Canela casado com uma Prates, Pedro Prates e voc Prates. Os Escrives so todos, portanto, Prates.
Geraldo no responde. Vai ao arquivo do Cartrio e retorna, pouco tempo depois, com uns dez processos criminais e me mostra, dizendo:
Olha aqui, todos esses acusados tm o seu sobrenome, Vieira. Tudo ladro!!!


75444
Por Augusto Vieira - 18/5/2013 11:02:22
GERALDO ATHAYDE CENTENRIO

Foi um dos grandes amigos de meu pai, correligionrios do antigo PSD. Seu centenrio foi comemorado no dia 1 de maio de 2013, numa missa. Recebi convite, mas no pude comparecer a Montes Claros porque estava internado num Hospital de Belo Horizonte para colocar marca-passo no corao. Eu o conheci quando ainda era criana. Meu tio, Air, irmo de meu pai, casou-se com uma irm dele, minha querida e inesquecvel tia Clarice. Admirava aquele seu jeito calmo e educado de falar, sua alegria, seu culos com lentes brancas e armao preta, seu bigode bem aparado, seu vasto sorriso, sua alegria contagiante e sua elegncia em se vestir. Quando tinha 13 anos ele foi o Prefeito do centenrio de minha aldeia. Era muito amigo de JK, de quem teve ajuda para fazer uma revoluo na cidade, preparando-a para a efemride. Meu pai, vereador, apoiava todos os seus projetos. Gosto muito de seus filhos Maria Eugnia (Maruja), Ceclia e Cludio, que nos deixou recentemente, no esplendor da vida. Minha amizade com Cludio se aprofundou de tal forma que nos tornamos meio que irmos. E como eu gostava de tia Lia Prates, sua esposa, que, embora no fosse mulher de muita conversa, espelhava a pureza de sua alma, cheia de bondade, caridosa e solidria.
Uma vez ele me apresentou a JK e eu consegui angariar uma boa doao para a nossa Comisso de Formatura do curso ginasial, da Escola Normal. De outra feita, na Vista Alegre, fazenda de seu irmo Carlcio, ele e meu pai proporcionaram aos convidados de uma festa de aniversrio uma cena inusitada. Beberam umas pingas e resolveram brincar de boi e vaqueiro. Sabem como? Ora um era o boi, ora o vaqueiro. Quem conseguisse laar o outro mais vezes seria o campeo. Meu pai saiu correndo atrs dele, de lao em punho. Jogava o lao e ele desviava. Quando cansavam, paravam, davam uma descansada e os papis se invertiam. Num certo momento, sentindo-se quase encurralado, ele fez uma coisa que levou todos os convidados a cair na gargalhada: segurou um fio de arame de uma cerca com as duas mos e simulou que iria cort-lo com os dentes, para fugir da perseguio do vaqueiro, como fazem os bois. Foi um grande deputado estadual e defendeu com dignidade os interesses de nossa aldeia e de nossa pobre regio. Era querido por todos, at pelos adversrios, porque, bondoso, no perseguia e nem guardava dio ou rancor de algum. Parece que foi a mo de Deus que o fez Prefeito do centenrio. Era Presidente da Cmara Municipal e assumiu o Executivo justo na ocasio.
Irmo de Wilson, tia Nenzinha, tia Maria Augusta, Carlcio, Cssio, tia Clarice e Armando; filho de seu Ataidinho e de D. Alda, assim foi, para mim, esse grande homem chamado Geraldo Athayde, bacharel em Direito, cultivador de amigos e dono da fazenda Carabas, terras fertilssimas onde engordava seus boizinhos. Um grande amante da vida, que nos deixou muito cedo. Visitei-o no Hospital So Lucas, em Belo Horizonte, pouco antes de sua viagem. Sempre me lembrarei dele como smbolo de honradez, de dignidade e de respeito ao semelhante. Que Deus o tenha, bem pertinho, para algum novo projeto de amor ao prximo.


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Por Augusto Vieira - 28/3/2013 10:35:57
Uma mulher revolucionria

Ela viveu e ainda vive, para minha alegria e de inmeros amigos e admiradores, intensamente, sua liberdade, sem jamais prejudicar algum. E por se saber to livre que dotada de um dos mais incrveis sensos de responsabilidade, para com tudo que j fez e faz, e de um profundo respeito pela dignidade das pessoas com quem convive. Acho que herdou isso do bero. De um pai cultssimo, grande mdico, e de uma me, dedicadssima professora e diretora de escola primria, ambos levados poltica, muito mais pela vontade do povo de minha aldeia, do que pela vontade deles prprios. Minha ligao com este mdico consangunea, porque ele filho de uma irm de minha av materna. E mais: foi um dos maiores e mais queridos amigos que a vida j me deu. Daquele tipo de amigo de todas as horas, confidente, que chegava junto a qualquer momento, de alegria ou de tristeza, dando os melhores e mais sbios conselhos, sempre desejando o que de melhor um ser humano poderia desejar a outro.
Essa mulher, filha dele, quando minha aldeia no tinha sequer paraleleppedos, fumava seu cigarrinho, em pblico, como faziam as grandes atrizes de Hollywood. Quando nenhuma mulher dirigia carros, l vinha ela, tomando suas aulas de direo, com Alcebades, num aero-willys vermelho, novinho. Quando nenhuma mulher assumia uma gravidez fora do matrimnio ela o fez com a maior dignidade. Quando havia um tremendo preconceito contra mulheres estudarem direito, l estava ela, na Faculdade de Direito da UFMG, destacando-se no Curso de Bacharelado. Quando no era comum as mulheres se inscreverem em concursos pblicos de provas e ttulos, l estava ela, sendo aprovada no de Procuradora do antigo INPS, atividade que exerceu com incrvel competncia, at aposentar-se. De volta a Montes Claros, especialista em Finanas Pblicas, ainda foi, por longos anos, titular da cadeira de Direito Financeiro, na Faculdade de Direito do Norte de Minas. E como era querida pelos colegas de magistrio, pelos estudantes e pelos funcionrios da faculdade!
Superou pesadas perdas: dos pais, da nica irm, do nico cunhado e de um filho. Hoje em dia, dedica-se tambm atividade rural, conservando e aumentando o patrimnio que amealhou com seu trabalho e que herdou dos pais. L est ela, sempre alegre, em sua confortvel e aconchegante residncia, no Bairro Todos os Santos, de nossa aldeia. Sempre foi uma das minhas mais caras musas. Sou apenas um pouquinho mais novo do que ela. Essa prima sempre me fascinou e fascina. Aplicou-me a poesia de Vinicius de Moraes e lindas msicas, clssicas e populares. Uma de minhas filhas se chama Ana Thereza, creio que, de certa forma, em homenagem a ela, inclusive na grafia do nome Thereza: com t-ag e z.
Na foto, histrica, na sala da casa dos pais dela, o antigo palacete da Rua Doutor Santos, num aniversrio dela, esto: Bernardo Kaufman e tia Maria Augusta Athayde; Guilherme, meu irmo; Snia, irm dela; meu pai, Non, e minha me, Lena; ela; tia Mercs Prates; tia Clarice Athayde e Dcio Machado. Destes, apenas ela e Guilherme esto aqui conosco. Todos os demais j encantaram.
Querida prima Suzana Thereza Prates Gonalves de Quadros, continuo seu f, sempre pedindo a Deus para te dar muita sade e uma vida cada vez mais longa. Voc uma das pessoas mais lindas, inteligentes e competentes que conheo. Orai prus Prates!.


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Por Augusto Vieira - 10/3/2013 23:39:42
Moacir Lopes

Famlia Lopes. Povo danando de inteligente, trabalhador e honesto. Todo o territrio de minha aldeia vem deles, atravs de uma doao que o Alferes Lopes fez a So Sebastio. Quem no tiver escritura de qualquer terreno em Montes Claros s pedir Mitra Diocesana que tudo ficar legal. Ela, representante da Santa S, como administradora dos bens doados igreja aqui em nossas plagas, tem legitimidade jurdica para tal, atravs do Bispo Diocesano. Os Lopes j comearam, historicamente, mostrando sua generosidade e sua religiosidade. Desde menino tornei-me admirador do Coronel Domingos Lopes, lder do PTB, sempre coligado ao nosso PSD. Homem austero, bonito, elegante, inteligente, usou seu prestgio perante vrios governos para trazer muitos benefcios para ns. Depois conheci Valeriano, seu Valu, que era muito amigo de meu pai. Gostava de ouvir as conversas dos dois. A, ento, fiquei conhecendo uma prola de pessoa, um nosso vizinho de fazenda, o velho Josefino Lopes, l do Levantado, isto sem falar de um cavalheiro chamado Nozinho Lopes, que fazia divisa conosco no rio Caititu. Conheci Maria Lopes atravs de ligao familiar, por ter sua filha, Mundinha, casado com meu tio Luiz Quintino, irmo de minha me. Que mulher extraordinria! Extremamente caridosa, sempre a resolver problemas dos menos favorecidos pela riqueza material. Passei a admirar seu dinamismo e sua capacidade de se comunicar com as pessoas. D. Maria era conhecida e querida por todas as geraes. Depois dessa ligao familiar, conhecer pessoalmente Donana, que residia ao lado do Bispo Diocesano, foi um pequeno passo. Ela sempre estava na varandinha de sua casa, na Praa Dr. Chaves. Eu passava e ela me cumprimentava com um belo sorriso, at que um dia criei coragem e resolvi parar e conversar. Quanta sabedoria encontrei naquela mulher to simples! Sabia tudo de Montes Claros e da regio. Meu pai dizia que ela era extraordinria porque, tendo se enviuvado muito cedo, criou a filharada com a maior dignidade e com muito trabalho. Disse-me at que ela sabia como ningum comprar animais de carga e revend-los, nos tempos em que eles eram o meio de transporte mais usado na regio. Moacir um dos filhos dela. Foi deputado estadual, federal e prefeito de minha aldeia, mas, antes disso tudo, um grande mdico. Meu tio Luiz Quintino uma vez me disse que ele era um virtuoso com um bisturi na mo. Construiu, com recursos prprios, um hospital na cidade e ali nunca deixava algum sem assistncia mdica. Quando prefeito, seu Chefe de Gabinete era seu primo, o inesquecvel Hamilton Lopes, um cavalheiro, culto e educadssimo, irmo de um santo vivo chamado Padre Joo. Hamilton era marido de minha querida prima Snia Prates Gonalves de Quadros, grande educadora. Ambos j encantaram. Trabalhei com Moacir alguns meses, presidindo, por indicao dele, o Montes Claros Tnis Clube. Pedi demisso porque ele autorizou que se pulasse carnaval no Ginsio Darcy Ribeiro, o que, como desportista, considerei inadmissvel. Sa numa boa e ele continuou a me respeitar, como sempre. E eu a ele. Depois de brandas e tumultuadas andanas pelo poder, como si acontecer a quase todos os polticos, Moacir voltou medicina e vidinha gostosa de fazendeiro. Sempre, nas minhas idas minha aldeia, tinha o prazer de rev-lo no restaurante do Automvel Clube, no horrio de almoo, degustando as delcias da cozinha do pessoal de Zim Bolo. Todo de branco, ou seja, vestido de mdico, cumpriu seu juramento at no mais ter foras fsicas para trabalhar. Faleceu no CTI de nossa Santa Casa. Era homem de palavra, profundamente leal aos amigos, muito franco e sincero. O que tinha que falar, dizia na presena da pessoa. No mandava recados. Corajoso, nada lhe metia medo. Tinha monstruosa capacidade de trabalho. Sua pele, grossa, prpria dos homens incansveis, o protegia das adversidades fsicas. Moacir amou como ningum nossa terra e nossa gente. Foi um homem bondoso em sua travessia e merece colher generosos frutos, em recompensa pelo bem que fez a muita gente pobre dessa nossa regio to sofrida, mas altiva e rauda, que nem ele e sua me. Descanse em paz, meu caro amigo!


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Por Augusto Vieira - 19/11/2012 21:52:33
OSWALDO ANTUNES, UM AMIGO ENCANTADO

Aqui, no rol de meus amigos, ainda consta o mestre Oswaldo Antunes. No o deletarei, jamais, do rol de meus amigos, a no ser que sua pgina seja extinta, porque quero sempre me lembrar dele, com carinho
e muito respeito. Nossa amizade se aprofundou depois que eu envelheci. Sempre o tinha como um cavalheiro. Tivemos conflitos, causados por matrias jornalsticas, no dele, mas do jornal dele, quando fui vereador. Conversei com ele e ele me recebeu na maior educao em sua residncia. Fiquei chateadssimo quando, pouco antes de minha posse, saiu numa coluna que eu precisava me impor "melhor comportamento" para me "fazer respeitado". Dei o troco da tribuna da Cmara, no famoso "Pinga Fogo", que ia ao ar pela ZYD-7. Ele, compadre de Toninho, chegou a pedir minha cabea ao Prefeito. Toninho respondeu que escolher seu lder era a mesma coisa que escolher um padrinho de batismo para um filho e que eu seria mantido no cargo. Fiquei Porta-Voz do Prefeito mais trs anos. A reconduo era anual e Toninho me prestigiou at eu renunciar ao mandato, quando houve sua prorrogao por dois anos, pela ditadura, temerosa de um vexame nas eleies municipais.
Acho que eu tinha cimes amorosos, pelo fato de no ter pertencido escola de jornalismo do mestre Oswaldo. Fui da escola do Dcio Queiroz. Muito boa tambm. Mas o fato que eu procurei me aproximar dele e me dei bem. Levei sua residncia meu livro Bala 60. Depois fui ao lanamento de seu festejado livro de memrias, o "A tempo", porque ele me mandara o texto para examinar, antes de envi-lo editora, o que me encheu de brios e me fez receber afetuoso agradecimento pblico.
A tivemos encontros memorveis no Caf Galo, onde ele sempre me incentivava a escrever e me dada excelentes conselhos literrios. Passei a amar o mestre, depois de conhec-lo mais intimamente, com a mesma intensidade com amei e ainda amo seu compadre Toninho Rebello.
Ainda que sua pgina no Face seja deletada, sua memria jamais se apagar de minha mente, sempre disposta a exaltar suas virtudes pessoais e cvicas, agora na condio de eterno amigo. Ele tornou-se, para mim, uma estrela que eu sempre verei a brilhar no firmamento.
Grande mestre Oswaldo Antunes!


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Por Augusto Vieira - 12/11/2012 13:29:27
Joo Avelino Neto

Ontem eu falava dos espinhos da vida. Acordei feliz pelo sucesso de meu novo livro. Mas logo a vida me deu uma tremenda pancada. Perdi um grande amigo. Uma das pessoas que mais respeitei e pela qual fui respeitado durante toda essa minha breve travessia. Nossa amizade nasceu da de nossos pais. Ele era um exemplo de respeito dignidade da pessoa humana. Desde estudante secundarista tornou-se um grande lder. Liderana nascida da espontaneidade, por sua conduta tica e por sua ilibada reputao. E no mais parou de servir sua comunidade, dedicando-se, com maestria, difcil arte de fazer poltica com p maisculo. A vida nos separou, mas nossos raros encontros tornaram-se marcados por um profundo respeito mtuo, que nos uniu desde nossa meninice. Grandioso Joo, descanse na mais absoluta paz. Invocando Fernando Pessoa, s me resta dizer que sua vida valeu a pena, porque sua alma sempre foi grandiosa. E voc sempre ser lembrando por todos ns como um grande amigo de todas as horas. Daqueles que chegavam junto. Daqueles que sempre encontravam palavras certas nas horas certas. Daqueles que, ao partir, levam consigo um bom pedacinho da gente. Restou a mim, como lembrana, a foto de sua participao no lanamento de meu primeiro livro em nossa aldeia. Descanse em paz, querido amigo. At breve!


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Por Augusto Vieira - 27/10/2012 19:18:47
Meu caro Manoel Hygino.
Cumprimento-o pela justa homenagem ao mestre Mello Canado. Tive a honra de ser seu aluno, no primeiro ano do curso de doutorado em direito pblico, na "Vetusta Casa de Afonso Pena", juntamente com os colegas norte-mineiros Antnio Soares Dias e Ccero Dumont. Sua crnica um retrato fiel dessa bela figura humana, de uma cultura monstruosa e de uma humildade prpria dos gnios. Voc recebe muitos cumprimentos e est acostumado a eles, mas esse de um conterrneo, seu admirador desde a juventude, brotado do fundo do corao. No podemos deixar morrer a memria de homens to fabulosos com foi o mestre Mello Canado.


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Por Augusto Vieira - 25/10/2012 11:45:23
Woodstock na "Vetusta"

Um japinha acaba de comprar o cabacinho de uma brasileira por um milho e meio de reais. Nos idos de 1964 filosofvamos muito sobre a virgindade. Horas e horas, nos bares prximos faculdade. At que Z Carlos Mata Machado veio com a soluo:
- Por que no retiram essa membraninha das mulheres no momento em que nascem?
Props a circunciso, na hora do parto. Assim, argumen
tou, acabaramos com essa viadagem. E arrematou:
- Mulher tem vergonha na cara, no no xibiu. L na Praa Sete j h at uma clnica de recuperao de hmens.
Vivamos a poca da liberao sexual. Fizemos nosso Woodstock. As meninas comearam a transar com a maior naturalidade. Livravam-se gradativamente do medo do pecado original e do tabu da virgindade. E a gente dava a maior fora a elas. No mais discriminvamos as descabaadas e gozvamos as virgens, dizendo que virgindade dava cncer e que elas at poderiam ter seus hmens intactos, mas que estavam riscadas de pau pra tudo quando lado.
Tnhamos uma colega muito gostosona, cheia de dramas existenciais pequeno-burgueses. S frescuras. Um dia, depois de ouvi-la se queixar da vida por quase umas duas horas, no Albamar, Z Carlos sentenciou, numa frase: - c tem mais que dar. Um ms depois ela desfilava entre ns, feliz, sorridente, cheia de vida, falando coisas importantes, discutindo sobre as transformaes sociais e querendo participar do movimento estudantil.
Crepaldi era jornalista da "ltima Hora". Estava tramitando o projeto Nlson Carneiro sobre o desquite. A me entrevistou e perguntou: - voc a favor do desquite? Respondi: sou contra o casamento. E ele publicou.
Tnhamos o maior respeito pelas freiras paulinas que desciam a lvares Cabral, em duplas, com aqueles pesados hbitos marrons, de um tecido grossssimo, num caloro danado. Um dia passaram duas e ns, bbados, gritamos para elas o famoso "tira a roupa, mui". Para ns, toda nudez, ao invs de ser castigada, seria bem-vinda. A palavra de ordem era "todo mundo nu". Elas se benzeram, perdoando, de antemo, as loucuras daqueles vndalos, que adoravam escandalizar os "bons costumes".
Vi, com Z Carlos, o filme "Mundo Co". A msica o emocionou. Quase vinte anos depois, em 1983, no momento em que recebi a notcia de seu assassinato, pela ditadura, cai em prantos, sentei ao piano e compus a msica "Amigo Z", no mesmo ritmo fnebre da do filme e enxerguei aquela figura iluminada, um Gandhi, que tanto sonhou com um mundo mais justo, subindo aos cus por uma bela estrada.
Hoje em dia ningum mais se preocupa com essa tal de virgindade. S psicopatas, compradores de subdesenvolvidos cabaos, por uma fortuna que, pessoas normais, aqui no Brasil, no amealhariam durante toda uma vida de trabalho. Calculem quanto essa menina ganhar por hora, se que o japinha "trabalhar" mais de uma hora para deflor-la.


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Por Augusto Vieira - 6/10/2012 03:59:25
"Tio" Digas

Quando escrevemos sobre pessoas que j nos deixaram sempre retratamos momentos nos quais convivemos com elas, ou as lembranas delas guardadas em nossa mente, ainda que s pelo simples fato de as termos presenciado fazendo ou dizendo algo que teve significao para ns.
Vou falar aqui de um homem que, de to querido por minha gerao, tornar-se-ia uma espcie de tio de todos ns, por sua pacincia com os mais jovens e por sua imensa bondade, que sempre o levavam a compartilhar seus sucessos, suas alegrias, suas tristezas e sua riqueza material com o semelhante. A primeira imagem que me vem cabea quando me lembro dessa figura a dos momentos em que havia algum circo fazendo temporada em nossa aldeia. Ele sempre pagava as entradas de toda aquela meninada pobre que se aglomerava nas imediaes das bilheterias, inclusive as dos que pediam apenas alguns trocados para inteirar o dinheiro do ingresso. Eu, que ganhava o ingresso de meu pai, vibrava, das arquibancadas, quando via entrarem, normalmente por um comprido corredor entre as arquibancadas, muitas vezes j ao apagar das luzes do picadeiro para as aberturas dos espetculos, debaixo daquela imensa lona com piso de serragem, aquele bando de crianas pobres, provocando o maior rebulio, no por algazarra, mas pela alegria que expressavam por participar de mais uma sesso circense. E quando perguntvamos de que modo haviam conseguido entrar, sempre respondiam, com largos sorrisos:
Tio Digas pagou pra ns.
E assistamos aos espetculos, emocionando-nos com os nmeros de trapzio, dando estrondosas gargalhadas com as brincadeiras dos palhaos, tremendo de medo de algum bicho feroz que aparecia em cena, sem que ningum fizesse qualquer tipo de discriminao contra aqueles afilhados, protegidos do bondoso tio. Isso sempre se repetia e chamava minha ateno, porque, tinha vontade de fazer o mesmo e no podia. S me restava oferecer alguma bala doce que estivesse sobrando ou alguns gros de pipoca queles meninos mais pobres do que eu, que recebiam, de bom grado, minhas insignificantes oferendas.
Vi, muitas vezes, aquele homem bondoso fazer o mesmo nas bilheterias dos cinemas, especialmente nas do Cine Cel. Ribeiro, prximo a seu escritrio e a sua residncia. Foi assim que entrei para o clube dos fs de tio Digas. Anos depois, Edgar, seu filho, meu colega de colgio e fraterno amigo, me diria que seu pai agia daquela forma com as crianas pobres porque tambm fora uma delas, sem grana para entrar em circos e cinemas.
Conto em meu livro de memrias o momento em que D. Quita Pereira, sua me, pagou a meu pai seiscentos e cinquenta contos, em dinheiro vivo, dentro de um saquinho de papel, daqueles que os armazns colocavam os produtos depois de pesados nas balanas, pela compra da Varginha, que depois se transformaria na famosa Vila Ip, o grande reduto da honrada famlia Pereira.
Aos doze anos fui colega de trs filhos de tio Digas, no Colgio D. Bosco, em Cachoeira do Campo, em 1957. Edgarzinho era meu protetor. Era da diviso dos maiores e, quando algum queria fazer alguma covardia comigo, bastava eu dizer que era seu conterrneo para que o cara me respeitasse. Era forto e bom de briga, embora no as procurasse. Ivan vivia estudando e rezando e era da minha diviso, os sub-mdios. Ernane, o mais novo, era dos mdios. Nossas amizades da juventude permaneceram inclumes. Perdemos Ernane, fora de hora, no esplendor de sua vida. Carlinhos eu j conheceria grando, deputado estadual. Quase no convivi com Luis Eugnio. De Orlando, que tambm j partiu, fui professor, na Faculdade de Direito do Norte de Minas. D. Zulma, me deles, era muito amiga de minha me e de minha tia Consuelo. De vez em quando eu ia casa de tio Digas, ali na Dr. Veloso, perto da Delegacia de Polcia. Aquele casaro era, para mim, uma monstruosidade, um palacete. No tive o prazer de conhecer Jos e Cssia Maria, filhos do segundo casamento dele, com D. Ozira.
Jovem, admirava a capacidade empreendedora daquele homem bondoso, que estudara no Liceu Mineiro e no Colgio Pedro II, do Rio de Janeiro. E o vi montando indstrias, construindo fazendas, praticando o comrcio, sempre alegre, promovendo e ajudando pessoas das mais variadas formas, at descobrir que ele havia nascido em Brasilhinha, nome pelo qual sempre chamamos nossa querida Braslia de Minas, depois que JK construiu aquela Brasilhona, l no planalto central, para onde Tio Digas iria, deputado federal, por duas vezes, com votaes consagradoras, representar nossa gente. Quis o destino, no entanto, lev-lo precocemente, num acidente, em abril de 1973, quando exercia o segundo mandato, com pouco mais de sessenta anos de idade.
Maduro, quando presidi o Cassimiro, descobri que ele doara os refletores ao clube, depois que o time de seu bairro, o Ip, no mais disputaria o campeonato da cidade. Tio Digas tornou-se grande benemrito e torcedor do Cassimiro. Num jogo contra o Vila Nova, no chamado Alapo do Bonfim, em que ganhvamos por trs a dois e tentavam coagir nosso time, ele tomou o microfone da ZYD-7 e aprontou o maior berreiro, mostrando torcida contrria que no tnhamos medo e que continuaramos a lutar por aquela vitria com todas as nossas foras. E ganhamos o jogo, coisa rara de acontecer, naqueles tempos, l dentro daquele temido espao esportivo. Glson Dias quem sabe contar bem esse caso.
H uma estria hilria de Tio Digas com um guarda paulista, que nem sei se verdadeira, mas que j ouvi de vrias pessoas. Ele, deputado federal, dirigindo seu carro, entrou na contramo, na rua famosa Rua Augusta, na capital de So Paulo. O guarda o para e pede a carta. Gozador e brincalho, respondeu:
Que carta qual o qu, s, eu nem te conheo. Como iria te escrever?
O guarda quis engrossar, mas ele retrucou:
Olha aqui, moo, sou o deputado federal Edgar Martins Pereira e quem resolve problemas de trnsito pra mim meu assessor, Josu, l na Valsa. Procura ele, pois t com pressa. T logo.
Arrancou, deixando o guarda com cara de tacho e queixo na mo.
Valsa era o nome de uma empresa da qual Tio Digas era scio em Montes Claros e que era administrada por Josu, esposo de Valquria, sobrinha dele, meus queridos ex-vizinhos em Montes Claros, na rua Irm Beata, pais do grande poltico Gil Pereira.
Meu ltimo contato com tio Digas foi dramtico. Estvamos, s ele e eu, tomando uma cerveja, e era o ltimo dia da apurao da eleio em que Moacir Lopes e Crisantino Borm disputavam a Prefeitura. Ele apoiara Moacir. A luta se feria voto a voto e s foi decidida na ltima urna a favor de Moacir. Tio Digas nunca perdia a esperana da vitria e me dizia que se Moacir perdesse aquela eleio se mudaria de Montes Claros. Eta sertanejo raudo!
Essas so algumas de minhas mais caras lembranas de Edgar Martins Pereira, nosso eterno e querido tio Digas, figuraa, indelevelmente gravada nos coraes norte-mineiros que, neste 31 de outubro de 2012, estaria completando 100 anos de idade.


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Por Augusto Vieira - 1/10/2012 21:02:09
O casamento de Sofia e Andr em Campo Grande (Campusca, o novo xod do Bala Doce). Meu Deus, que cidade maravilhosa! Cheguei l na sexta, por volta onze e meia-noite. Voos tranquilos. Fui ao Novotel, de primeiro mundo, e fiz a ficha. Nem entrei no apartamento. Peguei logo um txi, do Enorildo, que trabalha no ponto ao lado do suntuoso prdio plano, entrei no carro e disse a ele que, quela hora, queria fazer um tour. E ele me levou aos principais pontos. Impressionante o planejamento urbano. Avenidas extensas (Afonso Pena e outras), com trs pistas de cada lado e imensos jardins centrais. Gigantescas e belas rotatrias. Ruas largas. Ingazeiros de troncos imensos. rvores pra tudo quanto lado. No vi uma folha papel ou um entulho, sequer, nas ruas. Que limpeza! Bares e restaurantes maravilhosos. Belos prdios, belos hotis e belas casas. Uma senhora Feira de Artesanato. Esto construindo outra, s de lanches. Conheci o prdio do Colgio D. Bosco. Dormi at o meio-dia do sbado. Sa do apartamento e fui ao restaurante. Que alegria! A primeira pessoa que vi foi meu compadre Haroldo Veloso. Depois chegaram minha comadre ngela, Luciano e Patrcia. Luciano, filho de Haroldinho e ngela. Esto morando numa cidade linda a duzentos quilmetros de Campo Grande. Ele Procurador Federal l. Como esto felizes! Comemos aquela feijoada. Joenildo mandou pra mim um litro de Buchanan`s 18 anos. Depois da comilana, outro sono, at a hora do casamento. Na lindssima igreja uma histria de conto de fadas. Que cerimnia mais linda! Chorei o tempo inteiro por causa das msicas, especialmente da Ave Maria cantada por Clarice, do altar. Eta povo bonito, gente! Cada mulher mais linda do que a outra. Saindo da igreja encontrei Lilico (filho de Odorico e Regina, Delegado de Polcia numa cidade prxima a Campo Grande) e esposa. A fomos para a sede da Associao dos Magistrados do Mato Grosso do Sul. Que festa! L revi amigos fraternos como Paulinho Santiago, Waldeir Barreto, Nvio Gonalves, vrios representantes da famlia de Clarice, especialmente meu querido amigo Murilo, irmo dela. Senti ali o quanto Joenildo querido na cidade. Gente de todos os nveis econmicos. E como fiquei orgulhoso disto! Do Governador do Estado ao lixeiro. Depois da festa retornei ao Hotel e apaguei. Acordei quase na hora do voo de volta. Joenildo foi se despedir de mim no aeroporto. No pude trazer o litro que ele me dera de presente, porque j tinha quebrado o lacre e bebido at o ombro. A devolvi a ele e disse: guarda a, Baiano, que eu volto pra ns terminarmos, juntos, essa prola. Cheguei aqui em casa muito feliz. Contei tudo a Clia que ouviu emocionada. Ela no pde ir. E gosta muito de Joenildo e Clarice. Sofia e Andr so amigos de Almir Sater. So lindos pessoalmente. Ela, uma artista na flauta. Ele, no violo. E tocou uma linda msica para ela, no altar, no final da cerimnia. Isso que marido! Tenho certeza que sero muito felizes. Parabns a eles; aos pais; aos irmos maravilhosos, inclusive Jos e Mateus, e pelos inmeros amigos que cultivam, dos quais eu tenho a honra de ser um. Em fevereiro e 2013, se Deus me permitir, estarei l, na posse de Joenildo na presidncia do Tribunal de Justia. Ax!


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Por Augusto Vieira - 24/9/2012 19:00:50
QUIDIALAS

Quidialas uma expresso usada apenas pelos que se pretendem mais sbios e letrados no serto. Ao invs de dizerem o tradicional advrbio alis para dar incio a um novo assunto ou a um causo, preferem essa forma catrumanamente latinizada.
Um candidato visitou a fazenda de um coronel da regio de Montes Claros. Bem recebido e alimentado, como soia acontecer a todos os visitantes, comeou a deitar falao, apresentando suas metas, caso fosse eleito. O coronel, fazendo pacientemente seu cigarrinho de palha, sem nada dizer, ouvia todo aquele chato e longo discurso, sombra uma frondosa rvore, com um dos ps apoiado na beirada de um cocho de sal. O candidato encerrou sua longa pregao cvica e, logo depois, ante o silncio do interlocutor, quis puxar assunto para saber se receberia, finalmente, to sonhado, precioso e disputado apoio. Perguntou:
Coronel, esse fumo de rolo dos bons?
sim, seu moo, quidialas, igualzinho ao que o senhor vai levar na eleio.


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Por Augusto Vieira - 20/9/2012 02:50:10
"Diretas j" no Judicirio brasileiro!

No XI Congresso Brasileiro de Magistrados, em 1990, em Balnerio Camburi, Santa Catarina, promovido pela Associao dos Magistrados Brasileiros AMB -, qual ainda sou filiado, apresentei a tese Democracia interna, a melhor forma de democratizao do poder judicirio. Preguei tambm a extino do quinto constitucional. Minhas teses foram aprovadas pela Assembleia Geral e, depois, esquecidas nas prateleiras bolorentas do poder. Fui muito perseguido por causa destas ideias, das quais nunca desertei. Hoje recebi um livrinho da AMB. A entidade e os juzes brasileiros esto defendendo as "Diretas J" para os rgos de direo dos tribunais, menos para o STF, os Tribunais Superiores e os TREs. J tramitam emendas no Congresso Nacional. Quando ao STF, acho que o povo poderia escolher os ministros. Quanto aos Tribunais Superiores, acho que nada impediria que seus menbros tambm fossem eleitos diretamente por todos os juzes, sendo elegveis apenas juzes eleitos de segunda instncia, guardada a proporcionalidade em relao aos estados-membros da federao. Quanto justia eleitoral, acho que ela precisa ser implantada no pas, para funcionar sem necessidade de auxlio ou emprstimos de outros rgos do judicirio. Ela, na verdade, nunca existiu autonomamente. Seria uma justia altamente especializada, com uma composio simples, prevista na Constituio, para funcionar em carter permanente. Decorridos, pois, mais de 20 anos, vejo brotar uma fumacinha de esperana no sentido de termos um judicirio que realmente represente os anseios do cidado brasileiro em relao prestao jurisdicional. No cruzarei meus braos. Continuarei participando, atravs da AMB, da AMAGIS, da ANAMAGIS e da OAB-MG, de todas essas lutas democrticas, procurando ampliar seus campos de batalha, agora como um velho soldado, j um pouco cansado, mas que nunca deixar morrer nele a vontade inquebrantvel de vencer batalhas em prol da democracia que , na definio de Hans Kelsen, sobretudo um caminho: o da progresso para a liberdade.
E mais: minha tese foi selecionada para ser debatida no Congresso dentre milhares. A apresentao foi presidida por um Ministro do STJ, que tentou cercear minha palavra e eu fui obrigado a dizer a ele que ali ele era um colega de Congresso como outro qualquer e que observasse o regimento interno em relao ao tempo de que eu dispunha para a apresentao. Felizmente esqueci o nome deste ditadorzinho. E presenciaram, dos que me lembro, tudo isto, os colegas Reynaldo Ximenes, Cantdio Dias de Freitas, Joenildo de Souza Chaves e um colega de So Paulo, por nome Lacastra, que pediu para incluir na tese a proibio de juiz ser membro de entidades privadas secretas, o que eu aceitei de bom grado.


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Por Augusto Vieira - 7/9/2012 14:29:18
A "FESTA MESTIA" DE YURI POPOFF

Acabo de ler o livro "Festa Mestia, o congado na sala de aula", de autoria da doutora em educao musical, Ceclia Cavalieri Frana, e de meu conterrneo e querido amigo Yuri Popoff, publicado pela Editora UFMG. Ao mesmo tempo em que lia, ouvia as msicas, de um CD encartado ao livro. Coisa mais linda!
Tenho que falar um pouco sobre esse catrumano, que conheo deste a infncia e que considero um gnio da msica. Yuri Popoff Prmio Sharp de msica e muitos outros. , hoje, festejado no meio artstico brasileiro e internacional, por sua obra pessoal, por sua participao em obras de renomados artistas - como arranjador e instrumentista - e por seu trabalho no magistrio dessa sublime arte, em conservatrios e universidades.
Uma vez, estando ele em Belo Horizonte, eu o convidei a cear em minha casa, numa noite de Natal. De repente ele aparece com umas dez meninas japonesas, que haviam chegado ao Brasil naqueles dias e no entendiam patavina de nosso idioma. que elas, certamente, haviam aprendido a gostar do trabalho de Yuri depois que ele se apresentou em vrios shows na terra delas e vieram comemorar o Natal brasileiro com seu dolo. E assim que a gente percebe a importncia que seu trabalho atingiu. E no poderia ser de outra forma, porque a msica que Yuri elabora, ou a de outros que ele canta ou acompanha, inclusive as de domnio pblico, assumem em sua voz, em seu ritmo, em seus arranjos e nos vrios instrumentos que ele toca uma dimenso quase divina. muito especial. S ouvindo ou vendo que a gente percebe isto.
Sou do congado deste os sete anos, portanto, h seis dcadas, do terno de Nossa Senhora do Rosrio, de Mestre Zanza. Vrios escritores de minha aldeia abordaram a Festa do Divino em suas obras, mas de forma esparsa. H vrios artigos e crnicas sobre nossos marujos, catops e caboclinhos. At eu j me aventurei e fiz uma crnica abordando o tema. Mas trabalho monogrfico, de flego, cientfico, numa linguagem simples - como no poderia deixar de ser face popularidade do tema -, com anlise profunda das origens do congado, de suas msicas, seus ritmos e do sentido da festa, creio ser este o primeiro no Brasil, ao que me consta, claro. E por este motivo - fui ao lanamento do livro e o recebi autografado -, quero cumprimentar os autores, especialmente ao grande Yuri Popoff, um dos mais caros orgulhos de nossa congada aldeia, cercada por claros montes que recebem um luar lindssimo, que certamente o inspiraram a tornar-se um artista to competente e respeitado.
Sarav!


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Por Augusto Vieira - 3/9/2012 07:44:17
Montesclaros.com Amor
A leitura durou quatro felizes horas, encerrando-se com os primeiros raios de sol de um novo dia. O livro ficara quase um ms em cima de uma mesinha de cabeceira. Namorei-o por um bom perodo. s vezes o abria e passava os olhos em alguns trechos. Belo ttulo, bela capa uma tela do autor e primorosa edio. Um pouco cansado, tantas foram outras coisas que me absorveram nos ltimos vinte dias, inclusive viagens, decidi s fazer a leitura quando me sentisse mais tranquilo. Terminei-a envaidecido, como no poderia deixar de ser. A generosidade do autor fez constar longo trecho de minha autoria na crnica Igrejinha do Rosrio. Sou personagem da saborosa crnica De trem pra Montes Claros. O autor publicou, no apndice, uma breve anlise literria que fiz de seu livro anterior, o j consagrado A Fruta Amarela. Mas essas minhas trs vaidades, com toda pureza dalma, so insignificantes quando comparadas ao fato de eu poder dizer que fui amigo de infncia e sou velho amigo e amigo velho deste grande escritor-poeta chamado Flvio Pinto.
Por que escritor-poeta? Porque quando leio suas crnicas e artigos sinto-me viajando em lindssimos cantos sobre nossa aldeia e nossa gente, enfim, sobre nossas vidas. Uma vez, h muitos anos, eu lia Jorge Amado e parei num captulo. Reli-o quatro vezes, to lindo era o texto. E foi ento que percebi que era possvel algum fazer poesia no apenas em versos, na forma usual, mas tambm na escrita comum, seja narrando um fato ou expressando um sentimento. E afirmo aqui, sem medo de ser feliz, que, analogicamente ao belo ttulo, esse novo livro de Flvio Pinto um poema de amor. Amor vida. Amor sua terra natal. Amor as seus pais. Amor a seus irmos. Amor a seus filhos. Amor a seus parentes. Amor a seus amigos. Amor a seus colegas de trabalho, dos jornais e do Banco do Brasil tanto que nos foi apresentado por trs deles, Waldyr Senna, Haroldo Lvio e Paulo Narciso, em textos da melhor qualidade literria. A forma pela qual Flvio conta as histrias, seu estilo, especial. Ele sabe, como ningum, escolher as palavras certas e orden-las no contexto de uma maneira tal que elas produzem no leitor reaes e emoes profundas, porque dotadas de veracidade, suavidade e musicalidade. A gente sente que so textos gestados e no, pura e simplesmente, vindos luz num momento breve de exploso criativa. Certamente ele aprendeu a escrever to bem na generosa escola do saudoso mestre Oswaldo Antunes, que tantos frutos legou s letras mineiras. E confesso aqui meus amorosos cimes por no ter tambm frequentado esta escola. Este montesclaros.comAMOR to autobiogrfico quanto A Fruta Amarela, s que mais vasto. Nele Flvio Pinto apresenta s novas geraes ldica fotografia de um tempo precioso de nossa Histria que, certamente, as ajudar a compreender melhor o mundo em que vivem. Vale a pena uma releitura e, depois de guard-lo por uns tempos na estante, matar a saudade. E repetir esse ritual tantas vezes quantas a vida nos permitir.


72624
Por Augusto Vieira - 27/8/2012 17:41:03
Bala doce para massagista do galo!

Na gesto do Z Carlos Mata Machado frente de nosso histrico Centro Acadmico Afonso Pena, ganhamos o campeonato universitrio. Metemos um a zero na Medicina, numa final espetacular, na preliminar de Atltico X Corinthians, no Mineiro, quase lotado. Fui o massagista do time. Em nosso banco fiquei ao lado de Padre Cristvam, futuro Reitor da Universidade de Go
is. Ele era atleticano doente e queria tirar fotos com seus dolos Lacy e Buio. Quando eu tirava as fotos para ele veio um cartola querendo obrig-lo a sair do tnel e Z Carlos no permitiu, ao argumento de que ele era Diretor Espiritual de nosso time. Fomos, assim, o nico time do mundo que levou para dentro das quatro linhas do jogo um Diretor Espiritual.
No finalzinho da partida, faltando um minuto, nosso ponta-esquerda caiu contundido. Atravessei, sem preparo fsico adequado, todo o Mineiro com o equipamento de massagem numa malinha. Que sacrifcio! A torcida assoviando para mim e eu quase desmaiando de tanto cansao. medida que eu corria parecia que meu caminho at nosso atleta ia se encompridando. Quando cheguei perto dele, arfante, ele disse que o jogo estava ganho e pediu que eu o carregasse nos ombros, at o tnel. Pra qu! Dei-lhe o maior esporro e arrematei: se voc no se levantar agora e sair jogando eu vou enfiar meu dedo no seu rabo aqui, na vista deste povo todo. Meu colega se levantou na hora, voltou ao jogo a quase marcou nosso segundo gol, nos acrscimos, depois de um milimtrico lanamento do Massinha.
Pois , se o Jnior Csar ontem no tivesse feito aquela cera, no teramos dado a nosso grande rival o tempo que ele precisava para empatar o jogo, claro que com auxlio do juiz, que no marcou a falta do Montijo antes de ele fazer a jogada.
Bala Doce pra massagista do Galo!


72589
Por Augusto Vieira - 23/8/2012 12:17:33
Tio Luiz Quintino

Ele irmo de minha me e um dos tios de quem mais gosto e que mais admiro. A primeira imagem dele em minha vida foi na Varginha, um stio fora da cidade em que residamos e onde vivi minha primeira infncia. Dele e de sua majestosa bicicleta. Tio Luiz ia l muitas vezes para aplicar injees na irm, o que fazia com o maior carinho. Quando completei sete anos mudamos para a cidade. Eu o vi uma vez cuidando do equipamento do Cine So Luiz, passando o filme para os espectadores. Depois descobri que ele gostava muito de cinema, que entendia do riscado e trabalhava neste mister, em suas frias, para ganhar uns trocados. Ele fora estudar medicina em Belo Horizonte, na UFMG, e eu sempre, orgulhosamente, acompanhava seus passos atravs dos relatos de minha me, at sua triunfal volta, especializado em otorrinolaringologia. A veio seu casamento com tia Mundinha, o grande amor de sua vida. Com um tempo e alguns cursos, tio Luiz tornou-se competentssimo anestesista.
Uma vez, eu j advogando em Montes Claros, Felipe Medrado e eu fomos presos por fazermos uma serenata para tio Luiz, num seu aniversrio, porque um Delegado cala curta ignorante proibira serenatas depois das dez horas da noite, na terra das serestas. A rapa chegou e fez com que parssemos nossa cantoria. Ignoramos e os caras resolveram nos prender. Fomos privados de nossa liberdade com o maior prazer. Soltos logo depois, demos homricas gargalhadas e lembramos de Henrique Chaves dizendo: aqui nesta cela no h nada que nos agrade.
Quando estudava Direito em Bel meus pais se mudaram e muitas vezes, em minhas frias moquenhas, eu me hospedava na casa desses meus queridos tios, onde era tratado com o maior desvelo. Luiz Cludio, Alex, Ivana e Vanelli, meninos, alegravam meus dias. Eu dormia num quarto que dava para a rua. Numa madrugada uma senhora pobre, desesperada, com uma criancinha no colo, aos gritos, chamou por ele. Eu o acordei e ele, extenuado porque chegara de um planto hospitalar, atendeu aquela mulher, salvando a vida da criana e ainda dando a ela remdios de amostras grtis. Impressionou-me a mudana de seu semblante no momento em que examinava a criana. Parecia uma transfigurao. Senti o cheiro de Deus naquele momento.
Tornamo-nos, com o decorrer do tempo, amigos fraternos. Tenho por este tio gratido incomensurvel. Numa delicada cirurgia de minha me, feita por meu primo Dr. Alpheu e por Dr. Fbio Ribeiro, no antigo Hospital Santa Therezinha, ele salvou a vida da irm, praticamente ligando suas veias s dela, transferindo-lhe seu sangue. Na cirurgia cardiovascular que meu pai Non fez na Beneficncia Portuguesa, em So Paulo, l estava ele, acompanhando tudo, confortando-nos e orientando-nos naqueles momentos aflitivos. Non considerava tio Luiz um irmo. Eles se respeitavam muito e eu adorava ver os dois conversando sobre a vida. Aprendia muito com eles.
Recentemente visitei tio Luiz, por ocasio das Festas do Divino, em sua linda residncia. Encontrei-o feliz, com tia Mundinha sempre bonita e jovial, cercado pelo carinho dos filhos e se vangloriando do sucesso dos netos nos estudos. Dentre eles j h estudantes de medicina que, certamente, tero por escudo a capacidade, a experincia, a dignidade e a tica profissional do feliz av.
Nesta minha visita, depois de tantas outras, resolvi contar a meu querido tio uma antiga histria. E exponho-a aqui, para que sirva de lio a vivas que costumam se despojar de bens de raiz e que, normalmente, terminam suas vidas em asilos. Vi muito isso acontecer em minha experincia de advogado e de juiz de direito. Gosto tanto desse tio e prezo tanto sua amizade que, por vrias vezes, em minhas visitas anteriores, quis comentar o assunto e no o fizera por receio de feri-lo. Desta ltima vez resolvi abrir o verbo. Fiz uma pequena introduo, manifestando a ele esse meu sentimento, ao que ele me respondeu dizendo que eu pudesse contar tudo, sem qualquer receio.
Pois bem, aqui vai a histria. Na herana de vov Donato, pai de tio Luiz e de minha me, coube a esta a parte de cima de um prdio no centro da cidade. E ficou acertado que ela teria o direito de construir em toda a parte area do imvel, o que certamente acarretaria um aumento das reas construdas dos que haviam herdado na parte de baixo. Resolvi, sob a orientao de meu pai, construir duas salas a mais. Joo Carlos Sobreira fez o projeto para mim e executou a obra. Meu pai deu a meu tio Carlyle, que ocupava uma parte do imvel, que era um apartamento, vinte milhes de cruzeiros para que ele nos liberasse a posse. Transformamos o segundo andar do prdio num belo imvel, com oito amplas salas. E eu o batizei de Edifcio Jacyntha de Quadros, em homenagem memria de minha av. Eu era inquilino de meus pais, porque ali montara meu escritrio e, desde o incio, como qualquer outro, pagava religiosamente os aluguis. Jamais exploraria quem j havia feito tanto por mim. Em 1982 deixei a advocacia e tornei-me juiz de direito. Assumi a comarca de Jequitinhonha. Depois fui para Ipanema, Pirapora, Betim e Belo Horizonte, onde encerrei minha carreira. Quando eu estava numa dessas comarcas do interior minha me me ligou, comunicando-me que havia vendido o prdio por cinco milhes de cruzeiros. Dei a maior bronca nela. Falei que, se eu soubesse antes, tudo faria para impedir que ela vendesse e argumentei que vivas que vendiam imveis sem necessidade costumavam terminar seus dias em asilos. Ela tambm foi brusca comigo, dizendo que eu estava era de olho em sua herana. Respondi com mais arrogncia ainda, dizendo que dava valor era no dinheiro que eu ganhava com meu prprio esforo e que dinheiro de herana eu gastava era em noitadas com raparigas. Depois falei calmamente a ela que minha preocupao no era com herana, mas sim, caso ela continuasse a vender seus imveis, com a possibilidade de eu que ter, no futuro, de tirar do meu dinheiro para ampar-la na velhice.
Fiquei grilado com aquilo e por um bom tempo minha relao com minha me andou meio estremecida. Depois fui ligando os fatos. Pensava com meus botes: como Lena foi fazer uma burrice desta? A me veio mente um telefonema que recebi do advogado Pio Leo Godinho, dizendo que entraria com uma ao na justia contra minha me, representando tio Luiz, que estaria inconformado com a reforma que eu fizera no prdio, entendendo que ele quem teria o direito de construir na parte area, onde eu edificara as duas salas. Tio Luiz acompanhara a execuo de toda a obra, realizada de comum acordo com ele. Respondi ao advogado que pudesse ajuizar a ao que quisesse contra minha me e que eu tinha certeza de que uma das provas a favor dela seria o depoimento pessoal de meu prprio tio, que era um homem honrado e jamais faltaria com a verdade perante a justia. Nunca mais voltei a falar com o advogado sobre esse assunto. Ele, infelizmente, j nos deixou. E nunca ajuizaram qualquer ao contra minha me que, felizmente, parou de vender bens de raiz e hoje sobrevive da renda dos aluguis dos imveis que conservou.
Depois que terminei meu relato, na presena de tia Mundinha, tio Luiz, na maior tranquilidade, me respondeu:
Voc nem sabe como foi bom voc me dizer isto. Finalmente consegui ligar as peas do quebra-cabeas. Eles quiseram comprar tambm minha loja e meu stio.
Descobri, ento, que meu tio jamais contratara qualquer advogado para ajuizar ao contra minha me e que minha me fora induzida por algum a vender o prdio para impedir um litgio judicial contra um irmo que tanto amava. E foi assim que, infelizmente, sem necessidade, Lena disps daquele inestimvel patrimnio, at histrico de nossa famlia, porque construdo por vov Donato, sob a batuta do grande mestre Chiquinho Guimares. O que sei que, conforme meu vaticnio, o dinheiro que minha me recebeu evaporou e ela perdeu um patrimnio valiosssimo, de oito salas de aluguel, no miolinho da cidade. E ainda tiraram a placa com o nome de v Zizinha da entrada do prdio. Ainda bem que a vida me permitiu conversar sobre este assunto to delicado com meu querido tio Luiz, de quem tenho o maior orgulho de ser sobrinho.
Meu querido tio Luiz, muito obrigado por tudo o que voc e tia Mundinha fizeram por mim, por meu pai e por minha me. Adoro seus filhos e agora estou a conhecer seus netos. Que voc, tio Luiz, orgulho de nossa famlia, colha da vida os melhores frutos que sua imensa bondade lhe fez merecedor e que seja cada dia mais feliz. No h dinheiro neste mundo que pague o que lhe devo. Te amo.


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Por Augusto Vieira - 18/7/2012 18:02:48
TURMA DE HAROLDINHO

Essa turma j no to grande. Por ser eterna, ainda somos uns gatos pingados dispostos a sempre nos confraternizarmos. Perdemos vrios amigos: Luclio e Wanderley Fagundes, Tone Abreu, Dcio Cabeludo, Afrnio Temponi, Nem Passarela e Affonsinho Ramos. Ainda estamos na ativa, com nosso Chefe Haroldinho, sempre que possvel nos congregando, seja em nossa aldeia ou em qualquer outro lugar deste mundo. A chefia una, hereditria e vitalcia. O prximo chefe ser Luciano. Dentre os vivos ainda estamos Odorico Mesquita, Cludio Athayde, Roberto Gomes, Joenildo Chaves, Marinho Alaor, Carlos Alberto Prates Correia e esse pobre escriba. Nosso chefe tinha um corcel branco, placa 8157. Depois de uma jornada de trabalho a gente saa de nossos locais e parecia que sentamos o cheiro desse carro. Onde ele estivesse estacionado chegvamos para nossas horas felizes, que o pessoal chama de happy hour. No Quintal, no Espeto de Ouro, no Skema, no Intermezzo ou em qualquer outro bar ou restaurante da cidade os carros iam se enfileirando atrs do corcel branco, quando as vagas permitiam.
Quanto aos que a vida roubou de ns, Luclio era o frio. Nada alterava seu temperamento. Haroldinho dizia que um dia o levaria aos maiores cassinos do mundo para jogar e limpar a grana deles. Podia estar com um royal straight flus que sua fisionomia permanecia inaltervel. Wanderley era sempre o mais preocupado com nossa harmonia. Quando um chato chegava s nossas mesas ele logo dizia: esse a dos contra. Numa virada de ano fizemos uma serenata para Toninho Rebello que, de pijama, abriu a porta de sua residncia, foi at o corcel estacionado na garagem, o famoso 2121 marrom, e colocou para ns, em cima do teto do veculo, um litro do melhor escocs. Como chovia torrencialmente a garrafa comeou a escorregar porque a superfcie estava meio molhada. Quando ela ia ao solo Wanderley se adiantou a todos e literalmente voou, caindo abraado ao litro do precioso lquido. Que bela defesa! Goleirao! Tone Abreu, nosso querido professor, dizia que todo homem deveria ter historiografia, o que ele definia como ter histrias alegres pra contar na velhice. E arrematava: o que esse povo que no faz farra ter pra contar de interessante quando ficar velho? Escrevi uma crnica narrando como ele, Secretrio Municipal de Educao, com tiros de revlver, detonou uma escola rural que caa aos pedaos, dizendo que estava a impedir que uma criana morresse. E era verdade. O estado da escola era to precrio que o telhado, a qualquer momento, poderia desabar em cima dos meninos. Toninho logo mandou construir outra no lugar. Cabeludinho, Dcio Cabeludo, foi e ainda um de nossos dolos. Tantas so as histrias sobre ele que daria para escrever um livro. Sua memria cantada em verso e prosa pelos montesclarinos. Afrnio Tempone veio de Valadares e usava pulseiras e cordes de ouro. Ns o apelidamos de Six Million Dollar Man. Bom de prosa e viola, nos brindava com lindas msicas em nossos encontros. Nem Passarela, nosso querido S Nem, craque no futebol, acometido por uma grave doena que o impediria de beber conosco, s curtia os papos e a gente ficava doido para que ele tomasse uma, ao mesmo tempo que nossa razo nos aconselhava a proibi-lo caso ele tivesse vontade. Vinha aquela dvida atroz: deixemos S Nem beber? No deixemos S Nem beber? O Chefe e eu at fizemos uma pardia em cima de uma msica de Tom Jobim que retrata um amigo dele, chamado Miguel, que teve o mesmo problema. Affonsinho Ramos, vermelhinho, inteligente como ningum, jornalista de escol, era presena das mais queridas. Criou o famoso nibus dos Chatos, com passagens s de ida para a Cordilheira dos Andes. Uma vez trouxe Miltinho para dar uns shows na cidade. O famoso cantor conheceu e gostou tanto da Turma de Haroldinho que no queria mais voltar para o Rio de Janeiro.
Quanto aos que ainda esto por aqui, Odorico Mesquita advoga a todo vapor, em Belo Horizonte e no Rio de Janeiro. Sempre se encontra com Cludio Athayde, na cidade maravilhosa. Quando a coisa fica boa demais, nos telefonam, dizendo onde esto e o que esto fazendo, para nos matar de terrveis cimes amorosos. Um dia sa para o Aeroporto da Pampulha para pegar um avio e encontrar com os dois no calado de Copacabana. S no fui porque no consegui lugar no voo. Roberto Gomes s aparece de vez em quando. Depois do casamento sumiu. Nunca vi um casamento mudar tanto uma pessoa. Quando ele aparece em algum evento a maior festa. Joenildo Desembargador do Tribunal de Justia do Mato Grosso do Sul. Vive em Campo Grande, onde muito querido. Marinho Alaor, certinho, caladinho, arrumadinho, continua assim at hoje, para nossa alegria. Carlos Alberto, que durante as filmagens do Cabar Mineiro se dizia o cineasta da Turma de Haroldinho, permanece no Rio de Janeiro, fazendo filmes e ganhando prmios em festivais.
Haroldinho, nosso Chefe vitalcio, agora, av, sempre em Montes Claros, dando de vez em quando, como diria Tone Abreu, suas crises de franqueza, com o corao voltado para o cultivo de nossas amizades, no perdendo uma oportunidade sequer de nos reunir. Quanto a mim, aposentado, continuo em Bel, atualmente s escrevendo, em busca de novos horizontes, com saudade de todos e orgulhoso por integrar essa turma de gente to boa e amiga.



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Por Augusto Vieira - 16/6/2012 00:00:19
SILVINHA NA ZONA

Quando meu querido amigo, o Professor Marcelo Leonardo, era Presidente da Seccional Mineira da OAB, minha aldeia, Montes Claros, sediou, em 1998, um Congresso Mineiro de Advogados. E l fui eu, ento Procurador-Chefe da Defensoria Pblica, participar do evento. J sabia que encontraria meus fraternos amigos Mrcio Augusto Santiago (Santa), Jos Benedito Miranda (Ben) e Slvia Rodrigues de Oliveira (Silvinha), integrantes da famosa "Turma do 6 e 1". Conversa vai, conversa vem, disse para Silvinha que a melhor cozinheira da cidade era a dona de um randevu, conhecida por "Tia Zinha". Ela, ento, respondeu:
Bala, no quero ir embora de sua terra sem conhecer a zona e sem comer um bom franguinho caipira.
Liguei para "Tia Zinha" e perguntei se ela poderia fazer um jantar para ns. Ela acedeu prazerosamente e marcou para as oito horas da noite. E foi assim que Silvinha e eu fomos parar no quintal do randevu, numa imensa mesa, debaixo de uma frondosa rvore. Estavam l mais uns sete a oito amigos, cujos nomes no declinarei para salv-los de conflitos matrimoniais. Quando me viram sentado com Silvinha, logo se arrancharam na mesa, curiosos por saberem quem era aquela nova estrela do puteiro. Apresentei-a a todos, sem qualific-la. "Tia Zinha" teve que reforar o cardpio, porque eles, impregnados pela novidade, decidiram jantar conosco. De repente aparece um violo. E comeamos uma tremenda cantoria, s de msicas regionais. Silvinha se deliciava com cada uma delas, esperando o to badalado franguinho caipira, com arroz branquinho. E haja cerveja. Querendo agrad-la, l pelas tantas, um advogado pediu a palavra. Solenemente saudou todos os comensais e comeou um discurso em homenagem quela mulher, cuja beleza o empolgara. S que o discurso foi ficando cansativo, porque, j bem "truviscado", o ilustre causdico falava compassadamente e ainda parava pra pensar entre uma e outra palavra. A homenageada perdeu a pacincia, levantou-se da cadeira e esbravejou:
Doutor, v se termina logo, que esse seu discurso t muito chato.
O homem se ofendeu, aproximou-se dela, passou uma das mos em seu rosto e disse:
Cale a boca, sua rameira!
Ao ouvir isso, imediatamente tomei a palavra e esclareci a todos que Silvinha era brilhante advogada em Belo Horizonte, participante do Congresso, e que apenas desejara conhecer o randevu de "tia Zinha" e saborear sua deliciosa comida. Foi ento que o orador caiu na real e, percebendo sua mancada, aproximou-se mais uma vez dela para, com voz brandssima, exclamar, em escorreito francs:
Pardon, Mademoiselle!
Silvinha no se abalou e respondeu:
Senta a logo, seu chato, e vamos tratar de cantar, beber e comer. No quero saber de discursos. J ouvi muitos hoje no Congresso.
E a farra continuou, at ser servido o farto e delicioso jantar. No sobrou nada. Famintos, devoramos tudo o que foi servido.
Antes de deixarmos o local um fregus do randevu aproximou-se de nosso alegre grupo e me perguntou quem era aquele "avio" que estava comigo e quanto cobrava para dar uma trepadinha. Respondi, gozando o atrevido:
Ali, meu filho, pra comer, o cara precisa ter Banco. C tem Banco?
No dia seguinte contamos a histria para o Santa e o Ben. Eles a espalharam no Congresso. Vrias advogadas que visitavam a cidade manifestaram desejo de viver a mesma aventura da colega que, toda empertigada, dizia a elas que fora chamada de "mademoiselle" e que um fregus ainda quisera transar com ela.
Essa histria sempre relembrada em nossos alegres encontros aqui em Bel. Muitas vezes a prpria Silvinha que me pede para recont-la.


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Por Augusto Vieira - 6/6/2012 16:18:57
A TURMA DO BASQUETE

Aprendi a jogar basquete com Joo da Silva Prates (Zim Bolo), em Montes Claros. Espelhava-me nos mais velhos e tinha por eles o maior respeito: Geraldo Barata, Dcio Cabeludo, Sabu, Raimundo Chupa Dedo, Marquinho Vale, Walduck Wanderley, Hlio Alcntara, Diu Colares, Amauri Fraga, Tutica, Roberto Amaral, Ronaldo Veloso, Mrio Bode, Gilberto Lafet, Joo Carlos Sobreira e alguns outros. Depois veio minha gerao e com ela, dentre outros, Duto Figueiredo, Armeninho, Haroldinho, Maninho, Valtinho, Aristteles, Major, Z Carlos Periquitinho, Guigi, Joozinho e Jairo.
Sou atleticano, mas, quando vim estudar em Belo Horizonte, o Galo no tinha time de basquete. Com dezoito anos, tornei-me atleta da Raposa. Nosso Presidente era Felcio Brandi, que todos admirvamos pelo carinho que nos dedicava. Ns o chamvamos de Titio Felcio. Os conterrneos Armeninho, Haroldinho e Xando (meu irmo) tambm jogaram nesse time. Dos demais atletas me lembro de Hlcio, Armando, Dcio, Plnio, Roberson, Roninha, Helder e Linco. Nosso abnegado roupeiro era o Dalmo. Tosto (Eduardo Gonalves de Andrade) era do juvenil de futebol e tinha mania de entrar na quadra de basquete, antes de nossos treinos, para bater bola com Dirceu Lopes e Natal. Cansei de chutar seu bumbum, de leve, pedindo-lhe que desocupasse o local para que pudssemos treinar em paz. Dizia-lhe: menino, o horrio, agora, do basquete. Jamais poderia imaginar que aquele menino que eu retirava da quadra, poucos anos depois, se tornaria o autor das jogadas mais geniais e decisivas da Copa do Mundo de 1970, um grande mdico e, na minha modesta opinio, o melhor comentarista esportivo do Brasil. "Titio" Felcio, certa feita, contratou uma exibio dos "Harlem Globetrotters" e l fomos ns jogar contra os "nego americano". Foi a maior festa. Pintaram e bordaram conosco e s nos deixaram fazer uma cesta, assim mesmo, de lance livre. Na apresentao, apertei a mo de um deles e disse:
Pleased to meet you, Sir: Sweet Candy!
Ser que "sweet candy" pode mesmo ser traduzido por Bala Doce? S sei que deixei o gringo na maior perplexidade.
Meu pai havia comprado um apartamento na Av. Caranda, perto da Alameda lvaro Celso, ento sede do Amrica. Quando ficou pronto, em 1964, eu, j universitrio, por comodidade, me transferi para Coelho, onde tambm fui muito feliz. J saa de casa uniformizado e fazia meu aquecimento, correndo at a alameda. A alegre turma do Amrica deixou muita saudade em mim, especialmente os companheiros Ahmed, Ponte Nova, Paulinho, Z Ernesto, Celso, Tonho e os tcnicos Dalmo e Miguel. Bolo, famoso massagista, de vez em quando, me aplicava aquela massagem antes dos jogos e eu entrava na quadra a mil por hora. Apelidaram-me de "Parede", porque quem batia em meu corpo, num rebote, sempre levava a pior. Por duas vezes, ao cair ao solo disputando um rebote, quebrei uma tbua da quadra do Minas Tnis Clube e os jogos tiveram que ser paralisados para que um carpinteiro, rapidamente, consertasse o estrago. Meu maior f, na diretoria do clube, era o Ben, dono da Camisaria Cadilac. Jair Bala e Davi, centroavante e goleiro do futebol, respectivamente, sempre nos prestigiavam, assistindo aos nossos jogos nas quadras adversrias.
A impressa elegeu-me o craque do ano do campeonato mineiro da segunda diviso de 1964 e, no dia 23 de janeiro de 1965, recebi um lindo trofu, numa festa na sede social do Cruzeiro, que era no Barro Preto, onde "Titio" Felcio, alm de me entregar o trofu, me presenteou com um disco do hino de seu clube. Um reprter veio me entrevistar e perguntou:
Onde voc aprendeu jogar basquete?
Respondi:
Com Zim Bolo, l na Praa de Esportes.
E sa, apressadamente, em busca de uma colega de turma da faculdade, que eu pedira para me acompanhar na festa e que se tornaria, trs anos depois, minha esposa. Esse reprter deve estar se perguntando at hoje quem esse tal de Zim Bolo e onde fica essa tal Praa de Esportes...
Fui convocado, pelo Miguel, que fora meu tcnico no Amrica, para disputar os XVII Jogos Universitrios Brasileiros, pela seleo mineira, em Pernambuco. Ficamos em terceiro lugar. Subi ao pdio e recebi as medalhas, na solenidade de encerramento, no belo Ginsio do Esporte, representando meus companheiros.
At hoje encontro muita gente dessa boa turma do basquete. Os papos so sempre no sentido de recordarmos um passado no qual vivemos momentos muito felizes de nossas vidas. Essas amizades histricas, conquistadas atravs do esporte, jamais fenecem.


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Por Augusto Vieira - 28/5/2012 23:43:21
possvel que o processo de fabricao do cimento, anos depois, derrube casas por ele edificadas. Dinamitaram loucamente a natureza. Ela sofreu e pode se vingar. o "progresso" destruindo a vida. Os terremotos de minha aldeia so muito maiores do que se pensa. Sudenizaram-na. Gigols usaram recursos pblicos para cobrir rombos de caixa em outras plagas. Despovoaram nossos campos. Descalejaram mos trabalhadoras e enfavelaram a cidade. Criaram falsas esperanas. Depois fecharam fbricas. Minha gente, rauda, nunca deixou de ir avante. Gente prejudicada em seu caminhar para o futuro. Gente que no se rende. Gente que vai sempre em frente. Gente de muita garra. Podem crer! Somos "interremotveis."


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Por Augusto Vieira - 23/5/2012 20:04:05
Um abrao em Tet Vasconcelos. Jaiminho se foi, mas sempre estar entre ns. Meu pai foi padrinho do casamento de vocs, cujo amor eterno, jurado, permanecer sempre vivo. Jaiminho foi umas das figuras mais queridas de nossa aldeia. Que ele descanse em paz, num lugar muito bonito, destinado aos homens de bem!


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Por Augusto Vieira - 19/4/2012 03:31:30
Segredo de um juiz criminal.

Vou contar um segredinho a vocs. Nunca havia escrito sobre esse fato. Quando assumi a vara criminal de Betim, o Corregedor de Justia pediu-me que a moralizasse. Prefiro no dizer as razes. Ao dar incio ao interrogatrio de um ru, ele logo me disse, baixinho, no maior descaramento: - doutor, se o senhor me absolver lhe dou dez mil. A vara criminal funcionava no segundo andar de um prdio nas proximidades de uma praa, aonde ficava o Frum. No havia um policial, sequer, no local. S ele, o escrevente e eu. Sabem o que fiz? Dei-lhe voz de priso. O descarado correu. Eu, gordo, corri, de beca, atrs dele. Desci dois andares de escada e sa pela rua, at chegar praa onde se localizava o Frum. Enquanto corria gritava para o povo: - me ajudem a pegar aquele filho da puta ali, que ele tentou me corromper. E apontava para o safado, que corria desesperadamente. Foi ento que ele entrou num txi e sumiu, para sua sorte. Depois do fato formou-se um aglomerado humano em volta de mim e eu contei o caso, enquanto, arfante, descansava. O corruptor nunca mais apareceu na cidade. O fato teve repercusso altamente positiva. No aconselho ningum a fazer isso. Acho que nem eu mesmo o faria novamente. Mas que funcionou, funcionou. Logo depois transferiram a vara criminal para o prdio do Frum. Trabalhei tranquilo, em Betim, por mais de dois anos, com toda segurana e tranquilidade. Fernando Pedroso, Tarcsio Martins Costa e eu, ficamos to amigos, que ramos chamados pelo povo de "Os Trs Mosqueteiros". Betim foi meu paraso na magistratura. Adoro aquela gente. Em minha despedida da comarca, na festa que fizeram, havia gente sando pelo ladro. Tornara-me um homem querido por aquele bom povo, honesto e trabalhador. O povo gosta mesmo de justia.


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Por Augusto Vieira - 12/4/2012 17:31:44
Adeus, caro mestre!

Perdemos o grande Oswaldo Antunes, uma das maiores expresses culturais de minha aldeia. Fui a Montes Claros para o lanamento de seu livro "A Tempo". O salo do Automvel Clube estava lotado de pessoas do mais elevado nvel intelectual. Ouvimos as palavras introdutrias de Waldyr Senna Batista, a apresentao da obra pelo escritor Petrnio Braz e a breve e calorosa fala do autor. Corri para a fila de autgrafos, porque tambm representava dois grandes amigos do mestre: Jos Bento Teixeira de Salles (...) e Roberto Elsio de Castro Silva. O mestre sorriu quando me viu e deu os trs autgrafos. Agradeceu, na dedicatria, minha modesta colaborao, porque eu havia feito uma breve reviso, a pedido dele. Em casa, antes de dormir, abri o livro e s o fechei depois de reler sua ltima pgina, na manh do dia seguinte. Mais uma vez vi desfilar sob meus olhos a vida pessoal do escritor, que tambm a vida do seu e nosso Jornal de Montes Claros. Mas o que mais me fascinou foi saber, pelo artstico marcador de pginas, em que est inscrito o poema Caminho, que o mestre est preparando mais um: Estrela Final. , minha gente, esse macabeuzinho-caramuru-brasilminense-moquenho, em sua longa e merecida vida, jamais deixou o comando da resistncia invaso dos bors, s que, aps a infncia, passou a usar sua arma predileta: a escrita precisa, honesta, artstica, profundamente eivada de filosofia de vida, de amor sua famlia e ao semelhante. Publiquei em meu site um de seus ltimos textos, "O Deus em que no creio", onde ele mostra sua grande intimidade com Deus. Espero que a famlia rena, na Estrela Final, todos os seus poemas, prolas literrias que no podem ficar escondidas em ostras. Descanse em paz, mestre Oswaldo Antunes, na Nova Estrela que surgiu para abrig-lo, carinhosamente, no firmamento e para iluminar nossas vidas, tanto quanto voc o fez enquanto esteve aqui conosco!


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Por Augusto Vieira - 10/4/2012 21:04:11
Nossa aldeia culta

Nasci em Montes Claros. Prestei servios a ela e dela recebi muitas coisas. Hoje estou no exlio, forado pelas circunstncias da vida, principalmente pela magistratura. Resido em Bel, mas conservo um pequeno apartamento l. Minha me de l, est viva, com 86 anos, e reside na casa em que me criou. Sa de l, mas a cidade nunca saiu ou sair de mim. Pode ter algum que ame minha terra igual a mim, mas mais do que eu, duvido. Infelizmente sou obrigado a dizer que l ainda h pessoas muito medocres que se julgam donas da cultura do pedao. Egostas, s pensam em aparecer, usar a gente e levar vantagens, inclusive financeiras, s nossas custas. Muitos so forasteiros, recebidos por nossos bondosos coraes, mas que no se integraram a ns, por no terem ou no quererem ter aprendido ser mais um de ns. Deus me livre dessa tralha! Quando sa de minha terra fiz at um versinho para esses becios: Minhas mgoas/So sepultas/Nestas guas/Incultas. Abaixo essa porcalhada cultural que deslustra nossas tradies e nossa Histria, to cheia de vultos da maior grandeza. A continuar assim, dentro de pouco tempo, as novas geraes no mais sabero quem foram homens como Joo Chaves, Dr. Santos, Dr. Velloso, Joo Alves, Alpheu de Quadros, Nlson Vianna, Hermes de Paula, Simeo Ribeiro Pires, Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos, Joo Valle Maurcio, Mrio Ribeiro e muitos outros. E quero, ainda, falar especialmente s mulheres de minha aldeia, neste mesmo tom, invocando a grandeza de Dulce Sarmento, de Dona Tiburtina e de Irm Beata, s para mencionar trs nomes. No deixem a barangolndia tomar conta de nossa aldeia. Deem um solene no galinhada inculta que s pensa, como diria Darcy Ribeiro, em furunfar. Minha terra terra de grandes mulheres. Essa gente medocre no pode nos representar e nos caracterizar perante outras cidades, outros estados e outros pases. Vamos dar um basta subcultura. Temos muito mais valores para mostrar a Minas, ao Brasil e ao mundo, minha gente. Nossa aldeia culta. Muito culta. E assim que deve continuar a ser reconhecida e cantada pelas pessoas, em verso e prosa.


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Por Augusto Vieira - 5/4/2012 01:15:47
Ccero Dumont

Conheci-o, ainda menino, em minha casa. Era amigo de meu pai. Quando visitava a cidade dava uma passadinha l em casa para um cafezinho e um rpido bate-papo. Ficava impressionado com a educao e a elegncia daquele bonito homenzarro, que mais parecia um lorde ingls. Foi deputado estadual por seis legislaturas e sempre lutou pelas grandes causas norte-mineiras. Nunca sua honorabilidade foi manchada por qualquer deslize no exerccio da funo pblica. Falo do grande Ccero Dumont. Seu irmo, Wandick era prefeito de Bocaiva. Quando eu estava com meus 14 anos ele me convidava para as festas no pomposo clube da cidade. Meu pai me liberava e eu ficava que nem um reizinho na mesa do Prefeito, tomando os melhores drinques por conta dele e paquerando as mais lindas donzelas vestais da cidade. At namorico arranjei por l. E quase virou coisa sria.
Depois, quando eu estava fazendo meu doutorado em direito pblico, na Faculdade de Direito da UFMG ele, j bem mais antigo, matriculou-se no curso e tornou-se meu colega de sala de aula. Juntos, por dois longos anos, curtimos as aulas de Antnio Augusto Melo Canado, Lydio Machado Bandeira de Mello, Adalmo de Arajo Andrade, Raul Machado Horta, Jos Fernandes Filho e Simo Pedro Casassanta. Terminamos o doutorado, fizemos nossos trabalhos finais e eu voltei a Montes Claros e fui trabalhar com Joo Valle Maurcio, na Fundao Norte Mineira de Ensino Superior. Para minha alegria, descobri que fora ele o autor da Lei Estadual 2.615, de 26 de maio de 1962, que criara a Universidade Norte Mineira. Posteriormente ela passaria a denominar-se Fundao Norte Mineira de Ensino Superior, pela Lei Estadual 6.361, de 03 de julho de 1974. Hoje a nossa to respeitada e festejada Unimontes.
Li um livro dele, chamado Direito Municipal Brasileiro, uma das grandes obras existentes sobre a tpica autonomia municipal de nosso sistema federativo. Escreveu outros. Depois ele ingressou, por mrito, no magistrio, em nossa querida e vetusta "Casa de Afonso Pena", onde lecionou brilhantemente at aposentar-se.
Doutor Ccero Dumont foi um grande poltico e um grande jurista. Cidado exemplar. Fui herdeiro de uma profunda amizade que uniu nossas famlias num serto to cantado por Joo Guimares Rosa. Saudade de voc, meu querido Doutor Ccero. Muito obrigado por tudo que voc fez por por mim e por todos ns! Que Deus o guarde com muito carinho. At breve, caro amigo. Foi uma honra ter sido seu colega de estudos, seu amigo e admirador.


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Por Augusto Vieira - 3/4/2012 23:58:29
Carlos Prates, nosso cineasta maior

Vejam os textos da Curadoria do Festival de Buenos Aires. E neles, uma coisa que me fascinou: a referncia a nossa aldeia, nossa querida Montes Claros, enfim, nossa cultura (nossos cantares, danares, falares, comeres e fazeres). Quero cumprimentar o vereador Athos Mameluque pelo ttulo de cidado benemrito outorgado a nosso cineasta-maior e ao pessoal da Secretaria de Cultura, por desejar homenage-lo em nosso III Festival de Cinema. Infelizmente ele, por estar se recuperando de duas cirurgias, no poder comparecer por agora, nem a Buenos Aires, nem a Montes Claros. Espero, em breve, que ns possamos organizar uma grande festa em sua homenagem, quem sabe at com uma mostra de seus filmes to festejados no Brasil e no mundo.
Carlos Prates pela curadoria do Festival de Cinema de Buenos Aires (Bafici) - Abril de 2012.
Nem os caminhos serranos por onde passeiam as moas em Noites do Serto, nem a carruagem caindo no tiroteio do western, logo no incio de Minas Texas. Nem mesmo o trem de ferro, em que o elegante personagem de Cabaret Mineiro conhece a mulher de seus sonhos, atravessa o eixo Ro-So Paulo, as duas cidades que disputam o ttulo de epicentro cultural brasileiro.
Carlos Alberto Prates Correia (1941), que hoje prefere ser chamado simplesmente de Carlos Prates, encontrou em sua terra (Montes Claros, Minas Gerais) a slida matria prima e o sentido de seu cinema.
Este cineasta secreto, que trabalhou com Joaquim Pedro de Andrade em alguns filmes, no s est localizado margem, geograficamente, mas tambm no mapa imaginrio das correntes e vanguardas reconhecidas pela elite cultural. E no s dessas: Prates est fora, inclusive, do cinema marginal de Sganzerla e Bressane, ainda que se descubram afinidades entre seus filmes, todos feitos durante os anos da ditadura. O erotismo extravagante, os personagens renegados, o humor excntrico, as danas, o piscar de olhos: tudo aquilo que as palavras no traduziam e dessa forma conseguia ser contrabandeado na censura.
Mas esses desabafos formais com inteno conspiratria prprios de um cinema maldito, marginal, contravanguardista foram para Prates muito mais que uma posio esttica. Eles no pretendiam revolucionar o cinema nem atrair ou escandalizar os espectadores; simplesmente o seduzia a oportunidade de fazer experincias com aquilo que o envolvia: a mtica Montes Claros, sua msica, suas paisagens, seus amores, a brisa que corria de trs para frente da cmera desde o primeiro filme.
Para cada um de seus planos de composio simples, mas extraordinariamente refinada e detalhista, Prates orquestra situaes em que se imagina at que ponto suas filmagens foram experincias nicas, carregadas de vitalidade. Atores totalmente entregues a seu histrionismo, desfrutando cada gesto e cada som; atrizes vestidas ou desnudas que explodiam de sensualidade. Planos como peas nicas, que Prates reunia e logo desfazia, na singularidade de suas articulaes.
Em sua obra, apresentada agora neste Bafici, Prates promove a convivncia fluida de realidade e imaginao. Com o talento, entre outros, que demonstra bem atrs da cmera, o ttulo de um de seus filmes. Esse homem fugidio, que no gosta de ser fotografado, se apresentar em pblico nem viajar de avio, sabe, como poucos, deixar correr a brisa pelas telas.
Elosa Solaas
Festival Internacional de Buenos Aires
A Filmografia
Cabar mineiro j referido no texto introdutrio.
Castelar e Nelson Dantas no Pas no generais
Em Minas, nos anos da ditadura militar, cineastas atormentados pelas personagens de seus filmes lanam a pergunta fulminante: por que as mulheres so to belas? Nenhum cometeu o erro de imaginar que a razo fosse o vestido. Mesmo quando as mulheres se encontram bem cobertas, a nudez sob as vestes pode ser possuda pelos olhos do bicho homem. Basta que ele saiba olhar com concentrada gana..
Com esse estranho resumo do (no) argumento se apresentava o ltimo filme de Prates no Festival de Gramado, em 2007 quando terminaria ganhando o prmio de melhor longa-metragem brasileiro. Estranho, porm mais que apropriado para um objeto flmico que resiste a qualquer tentativa de classificao. Cruzando autobiografa com fragmentos de seus prprios filmes e daqueles que, de uma forma ou de outra, marcaram sua vida, Prates (psico) analisa a relao que teve com a cinematografia brasileira (e no somente, como prova a foto de Humphrey Bogart) para construir uma espcie de ensaio metafsico coerente com sua ideia do cinema como fonte inesgotvel de indagaes.
Crioulo Doido
Em 1970, Prates filmou na cidade histrica de Sabar seu primeiro longa-metragem. O protagonista era um ator negro fato nada habitual no cinema brasileiro da poca e essa era a menor das raridades de Crioulo Doido, expresso local que muito apropriadamente se emprega para descrever o nonsense, o delrio. Combinando, como explicou Prates, racismo com ascenso social e Contos da Lua Vaga, de Mizoguchi, o filme narra o projeto de Sebastiana e o Amigo da Famlia para levar loucura um bem sucedido alfaiate negro, e apoderar-se de seu dinheiro. Enquadramentos simples, fotografia em preto e branco de alto contraste, interttulos e outras marcas do cinema mudo, atuaes caricaturais: muitas constantes da obra de Prates j aparecem bem delineadas nessa fantasia transbordante de ideias que o diretor voltou a montar no faz muito, cortando 17 minutos, mas nada de sua fascinante ambiguidade. O que levou um crtico a escrever que Crioulo Doido bem poderia ser um drama de costumes, uma comdia sobre a pilhagem ou uma fico cientfica do Terceiro Mundo.
Minas Texas
Em Minas Texas, s uma coisa resiste passagem do tempo: a fantasia romntica de Januria pelo peo de rodeio Roy, imagem de heri americano como que sada da tela. A donzela foge do altar para escapar de um marido imposto pelos pais e rene um bando para lutar contra a quadrilha que tenta vingar o noivo abandonado enquanto espera em sua fazenda por seu amado Roy, que nunca chega.
O delirante western mineiro de Prates (ou Charles Stone), em que o heri monta um cavalo com o escudo do Clube Atltico Mineiro, menos uma pardia do gnero que um metafilme, uma alegoria sobre a realizao de um faroeste no Brasil. Como escreveu o crtico Gabriel Martins, construindo uma obra de dilogos inspiradssimos, Prates/Stone filma sua prpria criatividade, com uma inspirao claramente nascida de sua viso particular da vida e do cinema que divertem, sem deixar de ter, em sua eloquncia, uma dose de poltica e de poesia.
Noites do Serto
Belo Horizonte, dcada de 1950. Desquitada de Irvino, que fugiu com outra mulher, a bela e frgil Lalinha vai morar no Buriti Bom com as duas cunhadas e o sogro vivo. A amizade da famlia a conforta e aos poucos ela conhece a gente do lugar. O veterinrio Miguel chega para vacinar o gado e desperta o amor da mais nova. Quando ele parte, uma inesperada movimentao ertica se estabelece.
Prates conseguiu transportar para a tela toda a sensualidade da novela Buriti, do grande Guimares Rosa, e converter em cinema puro e em msica, como demonstra a notvel trilha sonora a cargo de Tavinho Moura as imagens e os dilogos desse sutil estudo sobre as relaes entre homens e mulheres. Da insnia morte, dos cimes aos sonhos, das paixes cruzadas ao pranto, as mil formas de amor que vive ou encontra Lalinha em seu caminho (platnico, sexual, entre pais e filhos, entre amigos...) modelam um melodrama coletivo to poderoso como elegante.
Perdida
Depois de vrios anos trabalhando como produtor executivo para quitar as dvidas de Crioulo Doido, Prates voltou realizao com esse durssimo melodrama, que segue o calvrio da Estela de Maria Slvia, uma empregada domstica em perptua fuga at parte alguma. Cansada das aplicaes cotidianas de violncia na casa onde trabalha, Estela decide escapar. Leva apenas uma trouxa com seus pertences na cabea. atacada num bar de beira de estrada, um caminhoneiro a resgata, s para deix-la num prostbulo. L, um poeta prope-lhe casamento e mudana para a roa, mas ferido de morte. Nenhum sonho de vida melhor dura muito para Estela que, buscando a redeno, abandona tudo para trabalhar numa fbrica. Quando os problemas voltam a alcan-la, sobrar apenas um destino possvel em sua fuga da subocupao, da prostituio e da asfixia: Belo Horizonte, a cidade grande que, como diz seu prprio nome, tem algo de mito e algo de promessa.


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Por Augusto Vieira - 26/3/2012 08:37:38
Meu caro amigo Denarte, fiquei emocionado ao saber que serei homenageado pelo "Trofu Bola Cheia - 2012" por ter sido o primeiro presidente de um time profissional de nossa aldeia, o Cassimiro de Abreu. Em 1971 disputamos o Campeonato Mineiro e ficamos em quarto lugar, abaixo apenas de Atltico, Cruzeiro e Amrica. Tel Santana, o grande mestre, esteve a no jogo de inaugurao de nossos refletores, assumiu a direo do Galo e foi campeo brasileiro no final do ano. Jantei com ele e j seu f como jogador (ainda menino eu o vira jogar no Maracan, pelo Fluminense, contra o Bangu, que tinha Zizinho) minha admirao s aumentou. Nunca mais deixei de admir-lo e de me aconselhar com ele. Nunca consegui torcer contra um time que ele dirigia. A imprensa escolheu a seleo do campeonato e dentre os craques estavam dois beques de nosso time, Afrnio e Nicomedes. Divido esta homenagem com Joo Melo, Z Maria Melo, Edgar Martins Pereira, Aristteles Mendes Ruas, Tio Boi, Xando (meu irmo), Affonso Prates Borba, Vivaldo Porreta, Marcelino Paz do Nascimento, Bonga, Raimundo Pereira Veloso (Dim), Manoelzinho, Ozias, Afrnio, Nicomedes, Jurandir, Nogueira, Hlton, Sabar, Moiss, Professor Nilson, Ben, Jacy, Elsio, Milton Henrique, Nona, Malveirinha, Glson e com os demais atletas. Divido-a tambm com nosso mdico Alfredo Barreto, com Geraldino Ferreira Vargas (Castilho, nosso massagista), com "Doutor" Satyro (nosso enfermeiro), e com Joo Raimundo (nosso roupeiro). E porque no faz-lo tambm com nosso mascote, aquela criancinha bonita que sempre entrava com nosso time em campo, o Barretinho, que chamvamos carinhosamente de "cornetinha". Compartilho-a tambm com nosso torcedor-smbolo da poca, o saudoso Chiquinho Santiago, que j velhinho ajudava-nos com sua sabedoria, incentivando-nos sempre a buscar novas vitrias. Se Deus quiser (estou me restabelecendo de uma gripe que me levou ao leito) estarei a no Automvel Clube, no prximo dia 27 de maro, para receber esta honraria, que preservarei com todo meu carinho e orgulho enquanto durar minha vida e que carregarei comigo para o tmulo. Muito obrigado!


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Por Augusto Vieira - 16/3/2012 09:54:55
O M E A COPA DO MUNDO.

Quem errou no caso da venda de bebidas alcolicas nos estdios durante a Copa do Mundo? Claro que foi quem apresentou o projeto da candidatura do Brasil. Se a lei brasileira proibia a venda de bebidas alcolicas nos estdios, o Brasil jamais poderia ter pactuado com a Fifa que isso seria permitido durante a Copa. E agora veio essa confuso toda. O ministro, ontem, defendeu a modificao da lei para se permitir a venda apenas durante a Copa. Est passando um atestado, perante o mundo, de que o povo brasileiro no civilizado e que s os estrangeiros que viro aqui participar do evento tm condies de ingerir bebidas alcolicas nos estdios, durante os jogos, e se comportarem dignamente. Nunca aceitei este tipo de vassalagem cultural. Quando estudei em Harvard entrei na biblioteca fumando e a bibliotecria, sabendo ser eu brasileiro, veio logo em minha direo e me advertiu para no jogar cinza no cho. Fui direo da Faculdade de Direito e pedi meu desligamento da bolsa que recebera para ali estudar, porque no admitia aquele tipo de comportamento em relao a mim e minha brava gente brasileira. Eles tiveram que se desculpar perante mim. A Fifa no tem o poder de interferir em nossa soberania, que de nosso povo (nossa), que delega ao governante apenas seu exerccio, conservando sua titularidade. Temos que abandonar essa mania de nos passarmos por seres inferiores perante o mundo. As chamadas grandes naes tambm tm seus problemas com o alcoolismo e muitas delas em propores bem mais graves do que ns. Ou deixam os torcedores beberem moderadamente ou no deixam. Quem abusar e agir incivilizadamente, por causa da bebida, que deve ser reprimido. justo, por causa de alguns que pegam mal, impedir todos de praticarem determinado ato socialmente aceitvel?


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Por Augusto Vieira - 13/3/2012 02:16:11
PEDRO MALASARTES, A VELHA AVARENTA E A SOPA DE PEDRAS

Era uma viva muito avarenta, sem filhos, dona de imensa faixa de terras e muitas cabeas de gado. Nem o caixo para enterrar o marido a megera pagara. Nunca dera nada a ningum. Sua fama corria mundo. Na vendinha do povoado quase todos falavam de sua mesquinhez. Um dia parou l um rapaz alto e forte, de cabelos negros, bigodinho ralo, usando cala cqui, camisa listrada, palet branco, longas botinas vermelhas e chapu de palha. Fumando seu cigarrinho, tambm de palha, ouvia vrios fregueses contarem vrias histrias sobre o po-durismo da anci. Resolveu ganhar um dinheirinho extra e apostou com cinco pessoas, dez reais com cada uma, que conseguiria fazer com que a velha lhe desse alguma coisa. Casaram o dinheiro. Um dos apostadores perguntou-lhe o nome e ele respondeu:
Meu nome Pedro, Pedro Malasartes.
Pedro comprou um caldeiro de ferro fundido, daqueles grandes, arranjou duas barras de ferro e foi at a porteira de entrada das terras da velha. Ali armou duas fileiras de pedras grandes, firmou nelas as barras de ferro, encheu o caldeiro de pedras pequenas e colocou-o por cima. Em seguida, usando uma caneca esmaltada, pegou gua num crrego prximo e derramou-a no caldeiro. Depois cortou lenha no mato e atiou fogo. Logo, logo, a velha viu a fumaa, mas no deu trela, com medo de que fosse algum que poderia lhe dar alguma despesa. Malasartes, muito paciente, ficou ali por mais de trs horas, jogando lenha no vo dos tijolos e gua no caldeiro. A curiosidade da velha aumentava a cada momento, at que ela no resistiu e foi at a porteira.
O que o senhor est fazendo aqui?
Pedro, que estava agachado, soprando as brasas, levantou-se e disse:
T vindo da Bahia e me deu fome. Ento resolvi fazer essa sopa de pedras.
Sopa de pedras?
Sim. Aprendi com meu av. Daqui a umas trs horas ficar pronta. deliciosa, tima pra sade e a gente nada gasta pra fazer, a no ser o tempo e o caldeiro. A natureza j nos d todos os ingredientes: as pedras, a lenha e a gua, que pode at ser de chuva.
A velha gostou do baixo custo da sopa e ficou observando. Pedro trocava a gua e a lenha, de quinze em quinze minutos.
Dentro de meia hora estar no ponto. Se a senhora quiser pode pegar um prato e provar. E ainda deixo o que sobrar pra senhora. J tenho meu prato.
Tirou de seu embornal um imenso prato fundo de lato e uma colher. A velha, interessada em comer de graa e na sobra, aceitou o convite e disse que iria at a casa pegar um prato, um garfo e uma faca. Pedro, ento, sugeriu:
Se a senhora quiser pode trazer uns tomates e umas batatas que a gente pe na sopa.
Ela fulminou Pedro com o olhar, mas sua curiosidade sobre sopa to barata era to grande que resolveu atender. Trouxe seu prato, os talheres, duas batatas e dois tomates. Entregou as batatas e os tomates a Pedro. Ele nem descascou as batatas. Jogou-as na panela. Guardou os tomates em seu embornal. Apenas disse que logo que as batatas cozinhassem ele cortaria os tomates e serviria a sopa. A velha ficou ali, ansiosa, esperando. De repente, Pedro pergunta:
A senhora quer melhorar a sopa? Se puser um pedao de carne fica mais gostosa ainda.
A velha vacilou, mas foi at sua dispensa, pegou dois pedaos de carne, j temperados, e os entregou a Pedro, que os jogou no caldeiro.
Por acaso a senhora no teria umas salsinhas e umas cebolinhas pra dar mais gosto ainda?
A velha foi at sua horta ali pertinho e voltou com as salsas e as cebolinhas. Pedro jogou tudo no caldeiro e disse:
Agora terei que retirar as pedras e a gua do caldeiro e esperar a sopa esfriar um pouco, at ficar no ponto de ser comida.
Ficaram ali, os dois, esperando a panela desaquecer. De repente Pedro pega as duas barras de ferro, coloca-as em seu embornal e sai correndo, segurando o caldeiro. Quando corria, antes de chegar venda, com o juiz da aposta, que ficara observando tudo de uma moita, ainda ouviu um tiro de espingarda. Chegou venda, recebeu seus cinquenta reais e ainda dividiu o gostoso guisado, de carne com batata, tomate, salsa e cebolinha com um garotinho pobre que lhe pedira um dinheirinho pra comprar comida.


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Por Augusto Vieira - 5/3/2012 19:03:47
JOO DA SILVA PRATES

Dentre todos os desportistas de minha aldeia ainda vive um que, para minha gerao, tornou-se um cone, um smbolo, um corifeu, um paradigma. Ele se chama Joo da Silva Prates e conhecido pelo histrico apelido de Zim Bolo, embora nunca tenha sido um bolo propriamente dito, mas um homem forte e musculoso. Zim, de uma das mais tradicionais famlias da cidade, praticava todos os esportes especializados. Nadava vrios estilos, era um exmio levantador de voleibol e jogava basquete muito bem. Cidado modelo, amante de sua terra, trabalhador, honesto, solidrio, culto e profundamente sincero, no era apenas nosso tcnico de basquete, mas nosso orientador para os embates da vida. Um filsofo-educador, posso dizer hoje, sem medo de errar. Quantos problemas de ajustamento social de seus pupilos ele resolvia com sbios conselhos e atitudes firmes! s vezes, poucas, quando rude, suas broncas eram de amor, desejando mostrar novos caminhos a quem deles carecia para se tornar homem de bem. Paizo mesmo, esse exigente treinador tratava todos igualmente e acompanhava, interessado, os passos de nossas vidas. Depois dos bons tempos do basquete, quando obtnhamos alguma vitria, sentamos logo creio que isso acontecia com todos aquele ansioso desejo de encontr-lo, s para contar-lhe e ver o brilho de seu bondoso olhar abenoando nossa conquista. E normalmente o fazamos em seu famoso e inesquecvel bar, na rua Simio Ribeiro.
Em 1965 fui convocado para a seleo mineira universitria de basquete e disputei o Campeonato Brasileiro. Antes j participara de dois campeonatos mineiros, jogando pelo Cruzeiro e pelo Amrica, O Galo no tinha time de basquete. Fiz amigos excelentes nestes dois clubes e at hoje exibo, orgulhoso, minha carteira de scio atleta deles e um trofu a mim entregue por titio Felcio Brandi, quando fui eleito craque do ano, pelo colunista Ildio Costa, do Dirio de Minas. Houve uma festa na antiga sede social do Cruzeiro, no Barro Preto, tipo Trofu Bola Cheia, que nosso querido Denarte promove em Montes Claros. Um reprter, da TV Italocomi, fazia a cobertura do evento e resolveu gravar uma entrevista comigo. Eu estava paquerando minha futura esposa e no queria saber de perder tempo com outras coisas. A ele me tirou da pista de dana e perguntou onde eu tinha aprendido a jogar basquete. Respondi: com Zim Bolo, l na Praa de Esportes. E sa apressado do local para retornar aos braos da quase namorada. O rapaz deve estar procurando saber, at hoje, decorrido quase meio sculo, quem esse tal de Zim Bolo e onde fica essa tal de Praa de Esportes...
Zim Bolo fechou seu bar, que era frequentado por pessoas maravilhosas e foi, por muitos anos, um importante centro cultural de nossa aldeia, com inmeros habitus no cito nomes para no cometer injustias que ora homenageio na pessoa do saudoso Raymundo Muniz de Carvalho, nosso General Mundinho Atleta, eterno presidente de uma imaginria repblica de amizade e afeto. Hoje em dia, vivo, ainda deve gostar muito de ler bons livros e de trabalhar. dono de um famoso buf, com magnfica sede, que leva o nome da meeira de sua vida, D. Duca, que deixou imensa saudade em nossos coraes quando partiu e que, com ele, legou nossa gente, Joozinho, Catarina Maria e ngela, herdeiros da inteligncia, da honradez e da dignidade de ambos.
Meu querido Zim, mais uma vez, emocionado, ofereo-lhe todas as minhas cestas e todas as minhas vitrias. Muito obrigado pelo que voc fez por mim. uma honra poder cham-lo de amigo. S Deus saber lhe recompensar tanta pacincia e bondade. E que voc permanea entre ns por muitos anos, sendo esse majestoso e brilhante farol a nos guiar. Um grande abrao!


70413
Por Augusto Vieira - 13/2/2012 14:10:51
ARTISTAS X IMPRENSA

Valeu a pena interromper minhas frias em Cabo Frio para vir a minha querida aldeia e ser tcnico de um time de futebol de artistas, num momento sublime de confraternizao com o pessoal da imprensa, tendo por palco o agradvel espao do clube da turma do Banco do Brasil. Nosso time, que fez at camisas para o evento, foi chamado de Bagaceira de Leobina, em homenagem a um antigo randevu, aonde vrias geraes viveram momentos inesquecveis com belas raspadeiras tristezas. Lus Carlos Novaes, nosso querido Per, intimou-me a ser tcnico desse time e cheguei a tempo para assumir, com prazer, mais este cargo honorfico em minha vida.
Os atletas foram recebidos por um excelente pblico, que vibrou, nas arquibancadas.
O time adversrio, que poderia ser batizado de Egressos de Roxa Futebol Clube, enaltecendo outra casa de amor bandido, mais antiga ainda, da cidade, era composto por pessoas to bacanas que, mesmo como tcnico adversrio, em alguns momentos no resisti e aplaudi seus craques, principalmente dois deles. O primeiro, meu irmozinho Glson Dias que, no altar de seus 73 anos, alm de comandar os colegas em campo, ainda jogou uns dez minutos aquele seu futebol de classe e arte, bem antigo e gostoso. O segundo, meu caro amigo Z Vicente, com seus quase 70, sempre vibrante, ainda acariciando o gomo 13 da G18 com maestria. E nele outros craques como Karoba e Benedito Said, dois tratores de esteira, raudos que s eles, para compensar o pouco gs de suas idades provectas e o peso de seus corpos.
Meu time foi o maior barato. Per de goleiro, que nem Gilmar dos Santos Neves. Na defesa um craque chamado Maya, que joga to bem que, quando ele saiu para uma descansadinha de cinco minutos, tomamos dois gols. Danilo Campos, artista tambm na magistratura, sempre ali na meiuca, procurava conter as investidas dos adversrios, que o eterno futebol-arte de Denarte transformava rapidamente em chances de gol, desperdiadas por nossos atacantes. Tive a ousadia de lanar dois atletas, depois que nosso craque Hilton teve cimbra: nosso querido Janaba, que jogou com muita eficincia, e Joo Jorge, com seus belos e fartos cabelos e porte atltico de fazer inveja a muito profissional.
Perdemos de quatro a um, por culpa de um rapazinho de Mirabela, chamado Luiz Ribeiro, que entrou no final e logo marcou o terceiro gol dos adversrios, justo no momento em que havamos perdido vrias chances de empatar e estvamos em busca de uma virada. Gravei entrevista com ele, findo o jogo, e ele exaltou, com belas palavras, o sentido da confraternizao e me rasgou um elogio, ao que eu respondi:- Voc ferra meu time e depois vem me elogiar, n, seu sacana!?
Depois do jogo a turma se reuniu num galpo e foram entregues as medalhas e os trofus. Em seguida foram abertas garrafas da famosa cachaa Balalaika, cervejas estupidamente geladas, refrigerantes e servidos deliciosos tira-gostos. A veio a viola de Hilton, que passava por vrias mos e acompanhava deliciosas canes nacionais e regionais.Permitam-me exaltar meu craque Maya, compositor das mais belas msicas norte-mineiras, com quem tive a honra de cantar sua mais recente criao, o Catrumano, um dos mais fieis retratos potico-musicais de nossa gente.
Obrigado, Per, por me proporcionar momentos to felizes, em companhia de pessoas to especiais, que representam, com tanta dignidade e arte, o momento atual desta nossa maravilhosa civilizao do ciclo do gado.Abrao a todos vocs, na pessoa de meu querido Nascimento Silva, a quem tive a alegria de rever em to gostosa jornada etlico-gastro-esportiva.


70349
Por Augusto Vieira - 6/2/2012 20:25:22
AROLDO "CENTENRIO" DA COSTA TOURINHO

At o trmino de meu curso cientfico, no final do ano de 1962, com quase 18 anos, eu o conhecia apenas de nome. Era considerado por meu pai como um dos grandes mdicos da cidade. Convivi muito mais, nesse perodo, com minha querida e saudosa tia Lourdes do que com ele, porque ela era muito amiga de minha me e de minha mestra D. Marina. E passei a admirar seu... gnio sempre alegre, sua capacidade de resolver problemas com simplicidade e rapidez e seu esprito bastante evoludo, muito frente das mulheres da poca.
A fui estudar em Belo Horizonte, onde permaneci at o ms de dezembro de 1969, presente em nossas vidas o AI-5, um dos mais violentos instrumentos da opresso dos chamados anos de chumbo. Retornei a minha aldeia para iniciar a vida profissional, depois de lutar contra a ditadura durante toda minha passagem pela UFMG e sofrer na prpria pele as consequncias de meus atos. Enveredei-me pelos caminhos do magistrio e da advocacia, mas meus sonhos no envelheciam. A luta continuava. E me liguei ao pessoal do MDB, do qual ele era um dos mais conceituados militantes. Participei de vrias reunies do partido, muitas delas na residncia de meu querido tio Zeca Guimares, e l estava ele, sempre altivo, com aqueles inteligentssimos e pequeninos olhos negros, medicinalmente trajado, sempre disposio para as lutas pela redemocratizao do pas. E foi assim que nasceu uma grande amizade que, com o passar do inexorvel tempo, s fez se aprofundar e tornar-se cada vez mais sincera, perdurando at seu encantamento. Sentamos imenso prazer em nos encontrarmos em qualquer local, desde uma solenidade a uma festinha em casa de amigos. Como eu j tratava sua esposa por tia Lourdes, passei a trat-lo por tio Aroldo.
Quando sua filha, Layce, dirigiu a Faculdade de Filosofia eu lecionava Poltica, no curso de Cincias Sociais. E em homenagem a ela fiz o roteiro e dirigi o I Show Fafil, apresentado uma nica vez, no Clube Montes Claros, com o salo do quarto andar lotado. Sucesso estrondoso, com reiterados pedidos de reapresentaes que, esnobemente, negvamos, argumentando que jamais conseguiramos alcanar novamente aquele sucesso, que marcou profundamente a arte universitria de minha aldeia. Adorvamos deixar as pessoas na saudade daquele show, cujos artistas foram os prprios alunos da faculdade. No fosse minha diretora filha de meu grande amigo, acho que eu no teria me empenhado tanto naquela empreitada. Layce me agradeceu de uma maneira to carinhosa que jamais esquecerei seu gesto e suas palavras, ditas no palco, no encerramento da jornada.
Claro que eu gostava muito de Raimundo, de Aroldo (Cabar) e de Henrique, mas dos filhos de tio Aroldo, meu grande amigo foi Roberto (Didu), que se tornou personagem de meu livro Estrias do Bala, num dos causos mais engraados que j escrevi, que a histria dele com um dono de bar chamado Pedro Babo. Didu frequentava minha casa e uma vez me deu para ler um livro, prontinho, com seus poemas, para que eu fizesse a crtica. Foi uma das coisas mais lindas que j li em toda minha vida.
Pois , meu querido tio Aroldo, nesse seu centenrio, em que toda a cidade reverencia sua memria, quero que voc receba mais um afetuoso abrao de seu eterno amigo Augusto Bala Doce. Abrao sincero, como sinceros foram tantos outros que j trocamos, dessa vez, com meu corao cheio de saudade de voc, que merece de todos ns as mais efusivas homenagens, pelo tanto que voc fez por ns e por nossa cidade em toda sua honrada e alegre travessia. Daqui de sua Bahia, sarav, baiano porreta, montes-clarense da gema! E que o dia 20 de fevereiro de 2012 fique eternamente marcado como o Dia do Centenrio de Aroldo da Costa Tourinho.


70289
Por Augusto Vieira - 1/2/2012 10:03:41
UMA DCADA AO LADO DE MAURICINHO

Felipe Gabrich me pediu que escrevesse uma crnica sobre o tempo em que trabalhei na Fundao Norte Mineira de Ensino Superior, com o Magnfico Reitor Joo Valle Maurcio, para ilustrar uma publicao comemorativa do cinquentenrio da instituio, que hoje uma das mais conceituadas universidade do pas.
Viajo no tempo para dizer que minha gerao, nascida no ps-segunda guerra mundial, cresceu numa Montes Claros com pouco mais de vinte mil almas, sem um paraleleppedo sequer, onde todo mundo conhecia todo mundo. Os partidos polticos que se revezavam no poder eram PR e PSD. Maurcinho era do PR. Minha famlia do PSD. E fomos caminhando, juntos, construindo a cidade. A rivalidade entre as faces era intensa, mas respeitosa, com raras excees. Poucos sectrios, intransigentes, quebravam a harmonia social.
Quando terminei o antigo curso ginasial, na Escola Normal, ainda no havia o curso cientfico na cidade. Somente os jovens cujos pais podiam arcar com o pesado nus de sustent-los em centros urbanos mais desenvolvidos poderiam continuar os estudos. Em 1960 iniciamos, no Diretrio dos Estudantes, sob a liderana de Jos Gama Dias, um movimento pela criao do curso cientfico e contamos com o apoio de dois grandes amigos do ento governador Magalhes Pinto: Euler de Arajo Lafet e Alcides Martins Loyola. O Governador veio a Montes Claros e eu fui o orador do palanque, na Praa Dr. Chaves, em nome dos estudantes.
Comecei meus estudos do cientfico no Colgio Santo Antnio, de Belo Horizonte. Logo depois foi instalado o curso em Montes Claros e eu tratei logo, prevendo inclusive uma estrondosa bomba no final do ano, de voltar para meu cantinho. E terminei o cientfico junto a colegas maravilhosos, que hoje despontam no culto cenrio catrumano. E depois? O que faramos? O mesmo problema anterior nos afligiu. No havia cursos superiores na cidade. Fui embora para Belo Horizonte e fiz vestibulares. No s eu, mas muitos moos e moas, em busca do saber.
Montes-clarenses, muito poucos, nascidos nos anos 20 e 30 do sculo prximo passado, de famlias abastadas, com raras excees, j haviam concludo cursos superiores e exerciam suas profisses na cidade. E ns? O que fazer? Enfrentar a estrada sem asfalto ou as gostosas viagens pelos vages da Central do Brasil, em memorveis viagens. Fora de nosso rinco morvamos em repblicas. Alguns pais at se mudaram ou passaram a ter duas residncias para acompanhar os estudos dos filhos.
O que seria dessa gerao? Ela sonhava, quase toda, em terminar os estudos superiores e voltar para o aconchego de sua aldeia. A gente sai de Montes Claros, mas Montes Claros nunca sai da gente. E foi essa turma, associada a antigos intelectuais da cidade, que deu os primeiros passos para a criao de nossa universidade. Mauricinho e Mrio Ribeiro batalhavam para criar a Faculdade de Medicina. Izabel Rebello, Mary e Baby Figueiredo, Snia Prates e outros por uma Faculdade de Filosofia. Joo Luiz de Almeida por uma Faculdade de Direito. E estes sonhos, com o decorrer do tempo, foram se tornando realidades.
Quando cheguei, em 1970, trs faculdades j estavam autorizadas a funcionar, pelo Conselho Estadual de Educao e pelo MEC: medicina, direito e filosofia, esta ltima com vrios cursos. Estavam lanadas as sementes. E o campo era frtil. Recm-casado, minha esposa, Helosa Combat, era funcionria pblica concursada, da Secretaria de Estado da Administrao. Tnhamos doutorado, eu em direito pblico, ela em direito privado. Fui residncia de Mauricinho, na Dr. Santos e pedi a ele que estudasse a possibilidade de ela ficar disposio da Fundao. Ele simplesmente me mandou datilografar o ofcio solicitando ao governo. Pouco tempo depois a nomearia Diretora Executiva, cargo que exerceria at o ltimo dia de seu mandato. Mauricinho e Helosa montaram um embrio de Reitoria, num cmodo do lado esquerdo do Centro de Sade, na Dr. Veloso, e ali iam administrando a futura universidade. Mauricinho pediu-me para ser seu assessor jurdico, sem remunerao. Aceitei o cargo orgulhosamente e exerci a funo por mais de sete anos, ao mesmo tempo em que lecionava nas Faculdades de Direito (Teoria do Estado e Direito Constitucional), Filosofia (Poltica. no curso de Cincias Sociais) e Economia (Finanas Pblicas).
O grande valor que vi naquele homem foi sua capacidade de superar o antigo rano poltico e tratar com o mesmo senso de fraternidade e justia, tanto os descendentes de seus correligionrios, quanto os de seus adversrios polticos. Ele, com esprito magnnimo, norteado por seu ideal de levar a educao superior aos norte-mineiros, to carentes de cultura, agia com a maior imparcialidade, exaltando os mritos de todos, recrutando todos para a empreitada, sem qualquer discriminao. Sacrificava seus interesses pessoais pela instituio e, pelo que eu observava, gastava muito mais de seu prprio dinheiro do que a simblica remunerao que seu cargo de Reitor passou a ter, depois de implantada a universidade. E ainda se preocupava com aqueles que no podiam pagar as mensalidades. Assessorei-o num Congresso de Reitores, em Manaus, e ele me ordenou que fizesse um projeto de financiamento dos cursos superiores aos estudantes carentes. Fiquei emocionado quando ele leu, na assembleia, o esboo de uma lei que redigi e que foi submetido votao e aprovado unanimemente. E ele alardeava para todos que eu fora o autor, por ordem dele, do projeto da lei que instituiu o crdito educativo no Brasil.
Quando tudo se estruturou, quando todos comearam a receber salrios, inclusive eu, surgiram o que chamamos vulgarmente de olhos gordos e comearam uma insidiosa campanha contra Mauricinho, at derrub-lo do poder. Fiquei revoltado com isto. Ele se sacrificara anos a fio por um ideal e no poderia deixar o barco daquela maneira, premido por circunstncias da baixa poltica. Liguei para Francelino Pereira, ento Governador, e mencionei a injustia, a ingratido e a covardia que estavam fazendo com aquele grande cidado. Francelino, poltico como ningum, resolveu compor a situao para, depois, em recompensa, nomear Mauricinho para o cargo de Secretrio de Estado da Sade, que ele aceitou e exerceu, com o brilhantismo de sempre, nos ltimos dois anos de seu governo. Ainda assim, aquela injustia no parou de doer em mim.
O ltimo ato de Mauricinho como Reitor da FUNM foi escolher-me, numa lista trplice, para dirigir a Faculdade de Direito do Norte de Minas. Ele foi minha casa e entregou-me pessoalmente o ofcio. S aceitei o cargo depois de uma votao de todos os alunos. Ganhei a eleio e dirigi nossa Fadir por trs anos, muito mais em homenagem Mauricinho do que para engrandecer meu currculo. E s sa de l para tornar-me Juiz de Direito.
Foi Mauricinho que conseguiu com o governo estadual e com o Bispo D. Jos a desapropriao do terreno do campus. Eu era advogado da Mitra e da FUNM e fiz todo o trabalho jurdico gratuitamente. Hoje passo de carro por aquele complexo universitrio levei meus filhos e netos para conhec-lo e sinto o maior orgulho da pequena contribuio que dei cultura de minha querida aldeia.
Maurcinho cardiologista, poeta, escritor, seresteiro, fazendeiro, fabricante de cachaa da boa, marido de Milene, esposa maravilhosa, sempre solidria e amorosa, pai de Mnia, Nairzinha, Vitorinha e Liliane , para mim, a estrela mais brilhante dessa constelao de cultura. Outros viriam e lanariam tijolos. Mas o pai da obra, a base de tudo, o alicerce, foi ele, com sua abnegao, seu idealismo e seu amor por Montes Claros.


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Por Augusto Vieira - 8/1/2012 21:13:22
A "CASA DE YVONNE SILVEIRA".
Catrumanos se do bem em todo tipo de casa. Muitos comerciantes da terra batizaram seus pontos com essa palavra. Quem ainda no entrou na Casa Alves, na rua Quinze (Presidente Vargas) com Praa Dr. Carlos? A Faculdade de Direito do Norte de Minas foi batizada, por mim, quando seu Diretor, de Casa de Joo Luiz de Almeida. Casa era to importante para os ingleses do incio do sec. XIII, que eles cunharam o magnfico lema: My home, my castle. A Igreja sempre foi cognominada Casa de Deus. A umbanda consagrou at a Casa de Me Joana. Dizem que os chamados afro-descendentes esto pensando em exigir do Vaticano um regime de cotas, pois s h dois santos negros: Cidinha e Ben. Cidinha tornou-se padroeira do Brasil. Ben o patrono dos nossos catops, marujos e caboclinhos. Casa , pois, aconchego, lugar sagrado, recanto de amor, paz e carinho, cantinho de descanso e sossego, altar de cada um de ns. Ou, ainda, como diz o poeta Georginho Jnior, lugar onde um tal Bala Doce faz sua literatura, sem terno, chatice e gravata, caracterizando um modo de ser de quem ama profundamente a liberdade. Maluquice-beleza. Sim, poeta, maluquice-beleza, mas muito mais dos acadmicos que, no final dos anos 70, tornaram-me titular da cadeira n 34, da Academia Montes-clarense de Letras, como sucessor do grande Jos Correia Machado, na presena de Cyro dos Anjos, que veio do Rio de Janeiro testemunhar a loucura. Larguei a chatice e a formalidade da toga para continuar trilhando caminhos libertrios. Mas a toga desvestida que hoje me prov materialmente para que eu possa me expressar atravs de meus livros, pelo Jornal de Notcias, pelo Mural e pela internet, em vrias redes. E me inspiro muito no mestre Oswaldo Antunes. E tenho a sorte de contar com Lus Carlos Novaes, nosso Per, meu editor amigo, e com Paulinho Narciso, meu querido crtico literrio. Vocs acreditam que o pessoal daqui de Bel est me chamando de Vinicius mineiro? Ser pelo fato de eu ter, depois da magistratura, dedicado minha vida literatura e a outros movimentos culturais? Ter abolido dela coisas tais como reunies, palets, gravatas, meias, cuecas e horrios? muita honra para um pobre marqus essa comparao!
Com uma menina de 94 anos que vive em minha aldeia um pouco diferente. Nada de maluquice-beleza. Ela se dedicou, com muita seriedade, sem perder sua alegria e seu requintado senso de humor, a semear generosas sementes sem a ambio de colher frutos. o prottipo da educadora. Uma lady. E como escreve gostoso! E como fala bem! Outro dia mesmo vi uma entrevista que ela deu a minha querida prima Felicidade Tupynamb, no Canal 20. Vi duas vezes, porque eles reprisam os programas. Coisa mais linda! Falou de nossa Academia. Ouvi-la ou ler o que ela escreve, so deleites para minhalma. E me emociono quando ela se lembra de seu querido Olyntho, de cuja amizade sincera tive o prazer de desfrutar por longos anos. Os dois se tornariam muito grandiosos para uma s casa na Padre Augusto. Muita luz para lugar to pequeno. A fulgurante estrela chamada Olyntho foi brilhar no firmamento, num recanto muito especial. E l se encontra espera da amada de sua vida, que ns no queremos deixar partir. Ele j deve estar se queixando da demora.
Essa amada de Olyntho realmente uma mestra. Nossa mola mestra. Lder inconteste de todo um processo cultural que vem fazendo uma verdadeira revoluo em nossas plagas. Dentre os acadmicos e tive o prazer de conviver com os mais antigos, desde Cndido Simes Canela, Arthur Jardim de Castro Gomes, Simeo Ribeiro Pires e Joo Valle Maurcio ela a estrela mais brilhante e merece, como ningum, ter seu nome como epteto de nossa Academia que, na verdade, a filha que ela e Olyntho no tiveram.
Que o nome dessa nossa musa atravesse geraes e seja sempre lembrado. Afinal, somos imortais, pelo menos no territrio de uma aldeia que nasceu entre montes to claros e cuja grandeza se reflete neste nosso cu to lindo.
Viva a Casa de Yvonne Silveira!


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Por Augusto Vieira - 3/1/2012 06:36:09
O MAGISTRADO E A BICHA CEARENSE

E l foi ele para um congresso de magistrados no Cear. Horas e horas de aeroportos e finalmente um voo num airbus que mais parecia um pau de arara voador. Orla com muito vento e hotel cinco estrelas o aguardavam na gostosa Fortaleza. Depois de encontrar vrios conhecidos, inclusive da cidade, perguntou onde poderia se divertir. Trs colegas cearenses se ofereceram para cicerone-lo e disseram que a melhor boate da cidade ficava numa rua prxima ao hotel. Combinaram que o pegariam por volta das dez horas.Chegaram os quatro e pegaram uma mesa de pista numa bela e espaosa casa noturna, com msica mecnica de alto nvel, perfumada e aprazvel. O local foi se enchendo de gente. Por volta da meia-noite ficou lotado. Vrios casais de namorados, jovens, adultos e velhos, lindas moas e belos rapazes solteiros se paquerando e ele ali, caa de sua presa. De repente flertou com uma morena deslumbrante, sentada sozinha numa mesa ao canto do local onde se encontrava. Ela correspondeu com um sorriso disfarado. No resistiu, levantou-se e abordou-a, convidando-a para danar. Bailaram mais de meia hora at colarem seus rostos numa msica romntica. Ela se chamava Irene. Convidou-a para a mesa onde estava com os colegas, o que ela aceitou de bom grado. Fez as apresentaes de praxe. Ofereceu uma bebida gata, que escolheu uma dose de usque. Entusiasmado, pediu logo um litro de Chivas 12 anos. Ela merecia. Depois de umas quatro doses j se beijavam afetuosamente, daqueles beijos de lngua que pareciam sugar seus rgos inferiores para suas goelas. E os colegas ali, s observando, parecendo felizes ante tamanha sorte do visitante. Um deles at comentou com aquele sotaque tpico:
A gente que daqui nunca encontra coisa linda assim. Os caras de fora mal chegam e logo tiram sorte grande.
E ele l, orgulhoso, sentindo-se o maior casanova daqueles mares nunca dantes navegados, curtindo aquele monumento. Por volta das quatro horas da madrugada foi ao banheiro. Um rapaz que urinava a seu lado disse:
O senhor sabe que est namorando uma bicha?
No possvel. Aquilo mulher. No bicha, nada. C t querendo me enganar pra paquer-la.
No, t falando a verdade.
S acredito se ela mesma me disser.
Voltou mesa e convidou Irene para danar. Na pista, depois de vasculhar seu corpo sutilmente com as mos e nada perceber, perguntou. Veio a revelao. Ela se disse surpresa pelo fato de ele no ter desconfiado. Na maior educao respondeu que respeitava sua opo, mas que no transava com homossexuais. Facultou-a permanecer na mesa. Ela topou e agradeceu a gentileza. Despediram-se, todos, quase o dia amanhecendo, na porta da boate. No aceitou a carona dos colegas cearenses e entrou num txi, com Irene, dizendo que a levaria em casa. Deixou-a na portaria de um prdio, num bairro bem distante do centro da cidade e, quase uma hora depois, chegou ao hotel. Tomou um bom banho. No conseguiu dormir. L pelas dez horas da manh, depois de um farto caf, foi ao centro de convenes do hotel, onde se realizava a abertura do congresso. Ao entrar viu uma imensa faixa afixada sobre um majestoso quadro de avisos: JUIZ DE FORA SE APAIXONA POR BICHA CEARENSE.


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Por Augusto Vieira - 15/12/2011 10:29:08
CAUSAS DA VIOLNCIA

A onda violncia que nos aflige jamais ser abrandada se no atacarmos as causas do problema. Di, e di muito em minha alma, ler, ouvir e ver os lamentos de pessoas vtimas de crimes ou que tiveram familiares ou outros entes queridos em tal situao. J me senti assim e pude avaliar o quanto isso doloroso. No entanto, tinha conscincia de que o crime, sobre ser leso a um bem jurdico individual, , antes de tudo, leso ordem, paz e harmonia social. Se o tratarmos apenas sob o enfoque individual jamais conseguiremos venc-lo. Seremos, todos, sociologicamente falando, apenas seres vingativos. E sabemos que vingana, inclusive aquela do tipo em que legisladores despreparados aprovam leis draconianas, s gera mais violncia.
A verdade que, meus caros leitores, os corruptos criam, para enganar o povo, vrios mitos. Um deles o mito da marginalidade, que abordei em meu livro Judicirio Penal e Cidadania, editado pela Del Rey, em 1998. mera justificativa imensa corrupo que h no pas e tem por pressuposto que todo cidado presumido criminoso, at prova de no o ser (inverso da garantia da presuno da inocncia, prevista no inciso LVII do citado artigo 5 da CF). Esquecem-se os corifeus dessas teorias nazistas que o povo brasileiro, ao contrrio do que pensam, , em sua esmagadora maioria, trabalhador e honesto, vtima de um sistema econmico elitista, concentrador da riqueza social, que o obriga a sobreviver com salrios que ferem a dignidade da pessoa humana, em franco descumprimento do disposto na cabea do art. 170 de nossa Lei Maior.
Reduzir a idade para a responsabilizao penal ser apenas mais uma dessas leis draconianas. O maior problema do menor o maior. Menor precisa de boas escolas. de ser tratado com bondade. de sair das ruas. de boa alimentao. de assistncia mdica, odontolgica e mental. Nossas cadeias j esto abarrotadas de jovens no esplendor da vida. Acaso reeducam algum? Normalmente s os tem transformado em criminosos cada vez mais sofisticados e violentos.
Esses intelectuais valentes que desafiam marginais so por eles adorados, simplesmente porque fazem seu jogo, ou seja, do-lhes justamente o que mais necessitam para tentarem justificar suas condutas antissociais: o desprezo do semelhante e da sociedade.
Cuidado, minha gente! O problema da criminalidade de todos ns. E ser somente com uma mudana radical nesta estrutura social extremamente injusta que nos asseguraremos uma vida mais tranquila e harmoniosa.


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Por Augusto Vieira - 5/12/2011 10:02:54
ALBERTO DEODATO

Houve um tempo em que mulher que estudava Direito era chamada de puta. O rompimento desse preconceito comeou pouco antes de entrarmos na faculdade, o que se deu em 1964. J havia vrias nas sries subsequentes, mas foi nossa turma que encheu a vetusta de mulheres, ento chamadas de sexo oposto. Que contrassenso! Onde se localiza essa oposio? E, por acaso, putas no podiam estudar Direito?
Havia uma estudante de me muito religiosa. Suas pernas eram as mais bonitas do pedao. Coitada da moa, no tinha paz. Ns ficvamos na Biblioteca s para olh-las por baixo das mesas. No Restaurante a mesma coisa. Quando subia a rampa, era uma festa. Amontovamos no vo para tentar ver melhor aqueles monumentos.
A me procura, com a filha, o Diretor Alberto Deodato, para se queixar dos tarados.
Professor, eu vou ter que tirar minha filha daqui. Ela no tem sossego. At na sala de aula eles no tiram os olhos de suas pernas.
Deodato, que atendia na sala de nosso secretrio, o Tancredinho, no andar trreo, d uma girada na cadeira a parede j estava descascada de tanto ele fazer isso olha as pernas da moa e exclama:
Eta meninada de bom gosto!!!
Restou me aceitar a realidade e donzela continuar a conviver conosco e a admitir nossos sedentos e voluptuosos olhares s suas lindas pernas.
Deodato era um grande contador de piadas. Estava no Conselho Federal de Educao e trazia, do Rio, as mais novas, quentinhas e contava para ns, na porta da faculdade. Fazamos uma roda em volta dele s para ouvi-las e ali ficvamos horas, curtindo seu excelente papo. Certa feita disse:
Olha, gente, no h mais uma virgem nesta escola.
Um colega, Jos Eduardo Carreira Alvim, cuja irm, Maria Helena, tambm estudava conosco, retruca:
Professor, minha irm estuda aqui!
O mestre responde:
Mas sua irm sobe pelo elevador. Estou me referindo apenas s que sobem pela rampa.
Em 1966, batendo papo no saguo da faculdade, ele me ofereceu essa interessante definio:
Broxura quando a gente v passando uma mulher lindssima e gostosa e sente apenas imensa ternura.
Numa roda de colegas, um deles props a criao de randevus de homens para as mulheres, argumentando que ns, estudantes, quebrados, seramos os putos e ganharamos dinheiro para pagar nossos estudos. Deodato, no ato, lanou a instituio que batizou de gigolato pblico. E isto foi cantado em verso e prosa.
Quando Zezinho da Viola morreu, eu lhe dei a triste notcia e ele escreveu, em sua coluna do Estado de Minas, magnfica crnica em homenagem pstuma ao grande violeiro de Montes Claros, que ele conhecia muito bem e amava, desde os tempos em que fora Promotor de Justia em Rio Pardo de Minas.
Deodato era assim: competente, alegre, satisfeito, amante da vida, apaixonado por D. Helena, pelos filhos e por ns, seus alunos, a quem sempre pedia para lhe fazer serenatas. E lhe fizemos vrias, no casaro da rua Rio de Janeiro. Sorridente, considerava aquilo uma grande homenagem, abria as portas da sala, convidava-nos a entrar e nos servia um magnfico Vinho do Porto.
Figuraa esse mestre Alberto Deodato Maia Barreto! Sempre me lembro dele, com muita saudade.


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Por Augusto Vieira - 28/11/2011 11:15:42
Entristeceu-me receber aqui a notcia da viagem de Geraldino, meu querido Gera. Lembro de quando ele chegou, conquistou a todos ns e especialmente o amor de sua vida, D. Vanda. E acompanhei seu sucesso como empresrio trabalhador e honesto. Ao ponto de receber um acrscimo a seu nome e passar a ser conhecido por Geraldino Boutique. Elegantssimo, inteligente, pontificou como aluno de nossa Fadir. Com minhas filhas, menininhas, vestidas carter, desfilei na escola de samba que ele comandava, curtindo a alegria das duas pelas ruas da cidade. Gera fazia questo de participar de tudo quanto era bom para nossa aldeia. Ajudava todo mundo. Gostava de compartilhar as alegrias da vida com o semelhante. Descanse em paz, caro amigo.


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Por Augusto Vieira - 10/10/2011 02:10:07
Dois amigos no "Mala e Cuia".

Minha missa, neste segundo domingo de outubro do ano da graa de dois mil e onze, foi ver e ouvir, em nosso Canal 20, na telinha do monitor de meu computador, aqui em Bel, dois amigos de juventude, colegas do curso cientfico da Escola Normal, Luiz Giovanni Santa Rosa e Glson Dias, no programa Prosa e Cuia. Giovanni, o entrevistador; Glson, o entrevistado. Ambos falaram sobre uma figuraa de minha aldeia, de nosso querido Cumpade Nlson, irmo e pai adotivo de Glson.
Giovanni, como responsvel pelo programa, vem resgatando um pouco de nossa histria, enfocando personalidades do passado que engrandeceram nossa terra. E cumpade Nlson, seja em sua barbearia, seja nas apresentaes de seu Conjunto Lord, seja em seu lar, no convvio com a famlia e com os amigos, sem sombra de dvida, foi uma das pessoas mais significativas com quem minha gerao conviveu. E digo mais: ele, um irmo de sangue que Glson considera pai, foi tambm para mim e Giovanni, que ramos colegas de estudo de seu filho-irmo-adotivo, um grande conselheiro. Cumpade me dava muitas broncas quando eu dizia besteiras e quando me enveredava por algum caminho tortuoso da vida. Bastava seu olhar severo para me avisar que elas viriam, educadas, mas objetivas e incisivas. E como me fizeram pensar! E como me ajudaram! Hoje me vem um sentimento de gratido a uma pessoa que auxiliou o velho Non na difcil e rdua tarefa de criar aquele menino travesso, muitas vezes chamado de impossvel.
Non gostava muito de Glson e sempre me dizia, quando amos para a fazenda:
Duto, v se Glson pode ir com a gente.
E fizemos memorveis caadas no Levantado, na regio do Caititu.
A barbearia ficava quase na esquina da Simeo Ribeiro com a Governador Valadares. Algumas passagens ali vividas, felizmente j mencionadas em meu livro de memrias, o Balorizonte, publicado em 1999, sempre so relembradas em nossas prosas sertanejas. Elas tm como personagens no apenas meu inesquecvel Cumpade Nlson, mas tambm componentes da alegre turma que ali fazia ponto. E eu fui um deles, motivo pelo qual Glson se tornou, com o decorrer do inexorvel tempo, um de meus mais queridos amigos, de amizade nascida na rocha, indestrutvel, que ainda cultivo com carinho e espero cultivar por mais muitos anos. Vocs no imaginam a emoo que senti na primeira vez que Cumpade Nlson cortou meu cabelo. Eu no merecia tanto.
Meu caro amigo GD, fui juiz na terra em que voc e Cumpade nasceram, porque Joama integrava minha primeira Comarca, que tinha sede ali bem pertinho, em Jequitinhonha. Isto se deu de setembro de 1982 a dezembro de 1986, muitos anos depois de nossa amizade ter nascido em nossa amada Montes Claros, que tambm sua, oficialmente e pelo corao. Voc est parecendo um garoto, viu? No envelhece. E est muito bonito. Cuidado com essa mulherada quente da, lindos enfeites de nossas vidas, t? Acho que voc ainda joga futebol na lateral direita do Ateneu e pode voltar, tranquilamente, aos palcos da vida para representar personagens, como festejado ator de teatro que sempre foi.
Meu caro amigo Gi, parabns pelo que voc vem fazendo, no Mala e Cuia, por nossa cultura e nossa histria. Voc, tal qual GD, um afetuoso captulo do meu Bala 60 e espero que o seja tambm dos livros que ainda viro, com a graa de Deus.
E parabns a vocs dois por mostrarem s novas geraes quem foi Nlson Dias e por arrematarem o programa com o toque sublime do Ben, naquele saxofone que tanto acompanhou nossas danas com as donzelas vestais, especialmente na boate diurna da Praa de Esportes.
Um afetuoso abraamigo, cheio de saudade, a vocs dois.


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Por Augusto Vieira - 27/9/2011 18:37:37
Maconha liberada em paredo de Minas

Quando a Rede Globo produziu o famoso seriado Grande Serto: Veredas eu era Juiz de Direito na comarca de Pirapora, cidade gostosa beira do So Chico. Joo Guimares Rosa andara por toda a regio, com seu caderninho, fazendo as anotaes que o levariam a escrever o maior romance da lngua portuguesa. Paredo era distrito de Buritizeiro, municpio que pertencia minha Comarca. L havia um Cartrio de Registro Civil de Pessoas Naturais. No final do ano era meu dever inspecion-lo. E l fui eu, feliz por conhecer aquele lugar to famoso, citado na grande obra literria. Peguei o carro e tomei o rumo do Rio do Sono. Quase 90 quilmetros, em mais de duas horas de viagem em estrada de cho.
Ao chegar, a primeira coisa que fiz foi me dirigir s margens do rio e ver a praia e o famoso paredo. Emocionei-me ao conhecer pessoalmente aquele lugar to lindo, bastante preservado, que era atrao turstica de um distrito com pouco mais de quinhentas almas. Depois fui visitar a sede, o casario, o sobrado to usado nas filmagens e, finalmente, me dirigi ao cartrio, que ficava num cmodo, anexo residncia do Oficial do Registro. O servidor era educadssimo, versado no idioma, organizado e competente. Tudo estava em ordem. Finda a inspeo ele me ofereceu um caf com pes de queijo, na cozinha de sua casa. Assinamos o termo da Corregedoria e nos dirigimos ao local. Fogo de lenha dos grandes, mesa grandona, de madeira rolia, fortes e confortveis cadeiras, veio o delicioso caf. E com ele o papo agradvel. Perguntei ao servidor sobre o seriado e ele, ento, me disse, orgulhosamente:
A televiso arrumou este lugar todinho. Alugou vrias casas para o pessoal da equipe e as reformou. Era muita gente. E usaram os daqui como figurantes. Alguns at alugaram suas casas e foram para as dos parentes, para ganharem um dinheirinho extra. E eles pagaram muito bem. O povoado ficou lindo. Toda noite era uma festa. Fiquei amicssimo de seu Tarcsio e de Dona Bruna. Gostei muito tambm de seu Tone Ramos. Eles no saam daqui de casa. De noitinha, depois do trabalho, vinham aqui para essa mesa tomar meu cafezinho e comer os biscoitos feitos por minha mulher, que a biscoiteira mais famosa aqui da regio. Contei a eles toda a nossa histria. So artistas famosos, mas muito simples e sabem cativar os coraes das pessoas. Tenho muita saudade dos trs.
J anoitecendo, despedi-me do Oficial e cumprimentei-o pela ordem de seu cartrio. Ao passar por um descampado senti um forte cheiro de maconha. Fiquei com aquilo na cabea e, no dia seguinte, resolvi descobrir o que era. Comentei com meus colegas de Frum. Eles me disseram que mais de duzentas pessoas que trabalhavam na equipe do seriado ocuparam as casas do distrito. Muitas delas usavam maconha e aplicaram a erva a muitos nativos que, inclusive, plantaram sementes em seus quintais. Trocaram o cigarro convencional dizendo, inclusive, que faziam economia, pelo novo cigarrinho, que era feito com fumo caseiro. E ainda diziam que curava vrias doenas, que os deixava tranquilos, com um tremendo apetite e com disposio para executarem suas tarefas dirias. Em Paredo no havia posto policial e o pessoal curtia sua maconhinha numa boa, sem que ningum importunasse.
No , pois, sem motivo que Fernando Henrique Cardoso defende a descriminalizao do uso da cannabis sativa. L em Paredo de Minas no havia necessidade de traficantes, porque os usurios colhiam a erva em seus prprios quintais e a consumiam abertamente, especialmente na linda praia, morena, s margens do caudaloso Rio do Sono. Coisa que s acontece neste nosso grande serto.


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Por Augusto Vieira - 13/8/2011 09:15:33
TURMA DO PT109 - seu Jarbas, pelamordedeus, v se reconhece logo que sou pobre e t precisando do cartucho pra ganhar uns dindins. Tiu Ariri, ao ministro Jarbas Passarinho, no Gabinete dele, pedindo o reconhecimento da Faculdade de Medicina do Norte de Minas. E eu l, chefiando a delegao, morrendo de rir por dentro. Na volta, perto de Braslia, em Quirinpolis, o nibus parou para a gente fazer um lanche e mexeram com a mulher de um cara. Ele sacou um 38. Sa do nibus, entrei na frente da arma e expliquei que eram estudantes de medicina, que poderiam salvar a vida das pessoas e pedi mil desculpas, dizendo que era professor deles e que puniria rigorosamente o atrevido logo que chegasse a nosso destino. Entrei no nibus e mandei todo mundo deitar no piso. Samos esperando ouvir tiros que no vieram. Depois de uns dez minutos de estrada veio a comemorao: celebrao da vida com muita pinga da boa. Nunca fiquei sabendo quem "cantou" a mulher do valento. Trs dias depois saiu o ato do Dirio Oficial da Unio. Alugamos um caminho e fizemos o maior desfile pela cidade, comemorando. Turma maravilhosa: Tiu Ariri, Aurelino Cachacinha, Ibsen Alcntara, Fernandinho e tantos outros, da embaixada que ficou conhecida por PT109, nome de um dos quartos de nosso alojamento em Braslia, onde a galera se reunia para as cantorias e os goles. Debaixo das camas uma multido de garrafas vazias...


68014
Por Augusto Vieira - 21/6/2011 10:55:31
Maro

O lanamento de meu segundo livro, o volume II, das Estrias do Bala, em 1997, foi includo na programao de uma Exposio Agropecuria, em Montes Claros, na data em que se comemorava mais um aniversrio da cidade. O evento coincidiu com a visita de um monto de autoridades ao Parque Joo Alencar Athayde, o que esvaziou minha festa. Tanto que foram vendidos apenas vinte livros, a alguns parentes e amigos, gatos pingados. No deu nem para as despesas da viagem. Minha sorte foi que o lanamento anterior, em Belo Horizonte, pagara a edio. Mas esse fracasso foi um dos momentos mais caros de minha vida. Passado o affaire poltico, j bem vazio o Parque, avistei uma pessoa que vinha caminhando, lentamente, em direo ao estande a mim reservado, parecendo bem doente, praticamente se arrastando nos prprios ps, com movimentos lentos nas pernas. Minha ateno se fixou exclusivamente naquele cidado, alto, cabelos negros e abundantes, corpo ereto, elegante, vindo em minha direo. No consegui mais dar ateno a qualquer outra coisa. De repente minha viso o alcanou e pude identific-lo. Abri-me num imenso e feliz sorriso. L vinha meu amigo Mrio Ribeiro da Silveira minha festa. S esse fato a justificou.
A primeira vez que o vi, eu ainda era menino. Ele e meu pai eram vereadores e, de vez em quando meu pai me levava s reunies da Cmara Municipal de Montes Claros. Depois o conheci, pessoalmente, nos meus 13 anos h mais de meio sculo, portanto , em seu consultrio mdico, na rua Dr. Santos, numa das partes frontais da casa da mestra Fininha, sua dileta me, quando fui fazer um exame para nadar nas piscinas do Montes Claros Tnis Clube. Da, ento, nunca mais se afastou de minha vida a figura do Doutor Mrio.
Um dia perguntei a Maria Jacy como foi que ela, de uma famlia rica, culta e tradicional de Pedra Azul (os Faria) havia conhecido o Mrio Comunista de Montes Claros, ento estudante de medicina em Belo Horizonte. Jacy me contou que o conhecera numa hora-danante da Faculdade e que, sem que ela lhe desse, descobriu o nmero do telefone de sua casa. E ligava o dia inteiro. Incomodada, narrou me o motivo daquelas insistentes chamadas telefnicas. A me a aconselhou a marcar um encontro e a dizer ao pretendente, com toda franqueza, que no queria nada com ele e a solicitar, educadamente, que parasse de telefonar. Jacy, que seguiu o conselho da me, arrematou:
Bala, encontrei com Mrio, na lvares Cabral com Joo Pinheiro, conversamos por alguns minutos, e nunca mais consegui deix-lo.
Minha querida Maria Jacy, o mesmo aconteceu comigo. Conheci Mrio nos meus 13 anos e nunca mais consegui deixar de admir-lo e de gostar dele. Imagino, pela intensidade da minha, a saudade que voc sente dele.


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Por Augusto Vieira - 13/6/2011 15:43:22
As "Quebradas"

Sbado, de tardinha.
- Pai, dex, pelamordedeus, me, dex!
- No, minino, vai d trabalho pra eles.
A ele, pitando seu Continental, com aquele bigodo, aquela impecvel camisa de linho, aquele vozeiro estrondoso e aquela vistosa e brilhante botina marrom dava o veredito:
- Que isso N, que isso Lena, o minino nunca nos deu trabalho. Ns gostamos muito dele. Dexeli que tomamos conta direitinho. Segunda, trago de volta.
E os velhos:
- T bom, pode ir.
Nesse momento meu corao quase saltava de meu peito juvenil, de tanta alegria pelos momentos felizes que, j sabia, viveria em mais um fim de semana, num dos lugares mais lindos do mundo, uma verdadeira ilha da fantasia, recanto de meus sonhos. E j comeava a sentir o gosto das comidinhas deliciosas, dos doces de leite, de buriti, de casca de laranja e de goiaba. E o cheiro das guas doces do riacho a banharem meu corpo.
Entrava levitando na boleia do caminhozinho Ford, com a carroceria carregada de mantimentos e de amigos que habitualmente pegavam carona. Ele era to solidrio que mandou fixar fortes tiras de madeira na carroceria, para que eles viajassem sentados. Eu gostava tanto dele que o chamava de tio e, quando acordava, dia nascendo, lhe pedia a beno. Viajvamos pouco tempo, parando muitas vezes beira da estrada para deixar um caroneiro, para admirar a corrida de alguma perdiz ou codorna, para ouvir melhor o piar de uma zabel, ou para sentir, mais de perto, alguma catinga de veado e ver se havia algum nas imediaes ele era um exmio caador, com suas espingardas maravilhosas e seu imenso embornal bege, feito mo. Motorista habilidosssimo, conhecia todos os buracos do caminho. Subamos a serra e percorramos um planalto verdoengo. Eu descia, orgulhoso, para abrir as cancelas e colchetes e o fazia com o maior prazer. A, ento, de um leve declive verdinho, quase sem rvores, cheio de vacas, bezerros, bois, cavalos, cabritos e bodes, descortinava-se aquele lindo casario, iluminado por um sol j cansado de tanto brilhar, pondo-se por detrs dos montes. Em frente sede havia uma montanha em cujo cume se destacava uma cruz, misteriosa sepultura de um escravo que, para mim e para o primo Gaiola, ainda pairava por ali nas noites de lua cheia e vinha at os ps de nossas camas para curar nossas doenas. Escravo milagroso que, rezava a lenda, morrera num tronco ainda existente no imenso ptio, ao lado da misteriosa senzala, de tanto aoite.
Ela j nos esperava, com a comida quentinha e deliciosos quitutes, numa imensa mesa de madeira da sala. Confortveis banhos preparavam nossos corpos para manjares de deuses. Satisfeitos, amos imensa varanda, s espreguiadeiras, ver a lua surgir, esplndida e soberana, no majestoso cu j estrelando. Eu me deliciava com os casos que ele me contava, especialmente os de suas caadas. E com suas histrias de Pedro Malasartes. O sono vinha chegando devagarinho. L a gente literalmente apagava, porque no havia rudos, a no serem os sutis, de pssaros noturnos. Tudo dormia. A natureza dormia. Com os primeiros raios de sol eu era despertado pelo agudo canto dos bem-te-vis e pelo mugido das vacas que estavam sendo ordenhadas no curral, para viver mais um domingo naquele paraso que nunca me sai do pensamento, naquele lugar abenoado por Deus, naquela inesquecvel e gostosa Fazenda Quebradas, de meu querido tio Pedro Veloso e de minha querida Dindinha Arynha.


67850
Por Augusto Vieira - 6/6/2011 23:55:35
A junta de bois.

Essa estria quem me passou foi Jackson Athayde, odontlogo em Montes Claros, filho do saudoso Wilson, companheiro de Non, meu pai, em muitas noitadas. Jackson tambm j fez sua viagem, prematuramente, para nossa imensa tristeza.
Zeferino, sitiante na beira do Rio Verde, tinha o maior cime de sua junta de bois. O compadre Juquita precisava arar uma terra e a pediu emprestada. Depois de muito relutar, Zeferino atende o amigo, mas recomenda:
ia, cumpade, c tem o mai cuidado pruqu s to cumigo desde bizirrim e eu nunca imprestei pra algum.
Podex, cumpade, vou trat seus boi mi do qui trato mui e fio.
Comea o servio. Arava beira de uma grota, quando um dos bois escorrega, cai e quebra uma perna. Teve de execut-lo.
Como dizer o acontecido ao compadre?
Trs dias depois, chega, macambzio, ao stio de Zeferino.
Dia, cumpade.
Dia.
ia, cumpade, nunca vi junta to boa. C imagina qui gostei tanto deles qui vim prop compr os boi pelo preo qui oc pidi.
Num tem preo. Nem todo ouro do mundo tira aqus boi di mim.
Mas, cumpade, oc num vai lev s quando morr.
Se pudesse, levava.
Pe preo, cumpade, eu pago.
J disse, num tem preo.
T bo, vou fal logo a verdade. Nis muito amigo e eu t triste. Um ds morreu onte. Iscorreg no groto, quebrou uma perna e tive qui mat.
Bo, cumpade, nesse causo os boi j tm preo...


67613
Por Augusto Vieira - 17/5/2011 04:22:41
SANTA IRM BEATA
A pedido de Alberto Sena Batista

Final do sculo dezenove
Deus uma santa enviou,
vilazinha holandesa.
Num janeiro, vinte e nove.
A criancinha chorou
Pro mundo ouvir a beleza.

Confirmada no batismo
Wilhelmina Luwen
Cresceu no bom catecismo
Das religiosas de Etten.

Caridosssima freira,
A servio do Senhor,
Procurou outra trincheira
Para expressar seu amor.

Viajora singrou mares
Para adorar a Jesus
Nos mais longnquos altares
Da Terra de Santa Cruz.

Ele entrou em Jerusalm
Num jumentinho montado.
E isto ela fez tambm
No seu caminho traado.

Mil novecentos e doze
Primeiro de fevereiro
Humilde, sem qualquer pose,
Chega ao destino estrangeiro.

Jesus aos trinta e trs.
E a holandezinha tambm.
E todos, de uma s vez,
Agradeceram: Amm!

Eram nortistas gerais
De uma Minas catrumana,
To longe da terra dos pais
Da religiosa to humana.

Claros altaneiros montes
Da Princesinha do Norte
Seriam preciosas fontes
De um amor de mulher forte.

Semeou sua cultura
quela gente bondosa
Da forma mais bela e pura,
Da forma mais carinhosa.

No ento nico hospital
Que havia na cidade
Serviu de forma abissal
A Deus e irmandade.

A incansvel enfermeira
Do rebanho das pastoras
Tornou-se exmia parteira
De vidinhas promissoras.

Da santa casa de sade
Cuidou por quatro decnios,
At chegar ao atade
Para atravessar milnios.

Agosto, no oitavo dia,
Do ano cinquenta e dois
Do sculo em que chegaria
Esse anjo partiria. E depois?

Foram setenta e trs anos
De vida laboriosa
A servio dos humanos
Com uma f grandiosa.

E hoje brilha no cu,
J que a vida ningum mata,
Essa estrela, com seu vu,
Essa santa Irm Beata.


67596
Por Augusto Vieira - 15/5/2011 05:14:26
PIQUI E MUI

Tudo comeou numa postagem, no Facebook, de Maristela Mello Kosinski sobre mulher e cerveja. A eu perguntei: qual mi, mui ou piqui? E foram surgindo espontaneamente interessantssimas brincadeiras. Ento resolvi sistematiz-las e editar. Os autores so Bala Brando, Emily Guimares, Maristela Kosinski e Leonardo Ferreira da Silva. Usarei linguagem catrumana para expor. Espero que nossa turma da arte ilustre com uma mulher muito gostosa roendo um pequi carnudo. Quem sabe um pequi atmico? E aguardamos outras frases para se incorporarem nossa relao.

1 Piqui c ri; mui c lambe;
2 Piqui tem castanha; mui castanhola;
3 Piqui tem polpa; mui tem popa;
4 Piqui tem ispinho; mui tem ispinha;
5 Piqui d na arvre; mui d na cama;
6 Piqui c congela e disfruta anintirim; mui congela se oc num disfrut;
7 Piqui c cumpartia cus amigo; mui, no;
8 Piqui c come na vista dus tro; mui, no;
9 Piqui tem muita receita pra cum; mui num carece receita pra cum;
10 Piqui sempre afrodisico; mui, nem sempre;
11 Piqui deixa gosto; mui deixa disgosto;
12 Piqui c cuzinha pra cum; mui c come prela cuzinh.
13 Piqui c pe sal pra cum; mui c come at as sem sal;
14 Piqui c come uma dzia duma vis; mui, se oc cum uma dzia, morre;
15 Piqui te d energia quando c come; mui te tira energia quando c come;
16 Piqui sempre fica na memria; mui, nem sempre;
17 Piqui bom at cumo tira-gosto; mui tira gosto quando ruim;
18 Piqui c conserva; mui, nem sempre;
19 Piqui comido at pelos piriquito; mui comida pelas piriquita e,
20 Piqui mi qui mui; mi qui piqui s mui.


67495
Por Augusto Vieira - 3/5/2011 19:15:41
Adeus, dona Syria

E l se foi, aos 106 anos, encontrar com seu amado, que partira 28 anos antes - o competente e caridoso farmacutico de Santa Luzia, Antnio de Castro Silva, mais conhecido por "Seu Castrinho" -, minha querida amiga Dona Syria Gonalves Teixeira de Castro.
Partiu em plena lucidez, muito mais pelo peso das longas primaveras que, pelo menos aqui, no mais compartilhar com seus filhos Roberto, Mrcio, Denha e Maria Helena.
Uma vez um larpio invadiu a residncia de Dona Syria. Ela o dissuadiu da inteno de furtar, deu-lhe dinheiro, comida e quase uma hora de bons conselhos, para que ele, um jovem, deixasse a senda do crime. E conseguiu convenc-lo. Quando ele se levantou para ir embora ela o acompanhou at o elevador.
O jovem indagou-lhe sobre a razo de tamanha gentileza:
Eu vim aqui furtar da senhora, a senhora me d dinheiro, me alimenta, me enche de bons conselhos e ainda me leva at o elevador?
Ao que Dona Syria respondeu:
Meu jovem, resido aqui h mais de 40 anos e toda visita que vem aqui em casa eu levo at o elevador.
Assim era essa grande mulher, sempre alegre, cheirosa, elegante e culta, eterna mestra dos Luzienses. Roberto Elsio, seu filho, grande jornalista e colunista do "Hoje em Dia", dedicou-lhe uma crnica que encerrou assim:
Agora, partiu. O Cu, certamente, abriu-lhe logo as portas. E bem entrada, o marido que a esperava h quase 28 anos:
Syria, voc demorou muito a chegar, minha filha. Eu j no estava aguentando de tanta saudade. Sem voc do meu lado, at o Cu era incompleto.
Agora, para ns, sem Dona Syria, ser a Terra que estar incompleta.


67481
Por Augusto Vieira - 2/5/2011 01:02:19
MEU QUERIDO VOV DONATO

Donato Alves Quintino, filho de Olympio Quintino, que quase foi padre, e de uma linda morena de olhos verdes, Carolina Alves Quintino, conhecida por Calu, foi criado na Fazenda das Quebradas, a uma lgua de Montes Claros. Mudou-se para a cidade e estabeleceu-se no comrcio de loterias. Jogou baralho, amigou na zona, bebeu e fumou. Um dia perdeu quase tudo que tinha no jogo. Jacyntha escorraou a mulher da cidade, negou-se a assinar escrituras aos credores e foi mquina de costura ajudar a pagar dvidas. Nunca mais jogou esse Donato. Bebida s moderadamente e, de vez em quando, com prazer, um cigarrinho, fazendo biquinho, com os lbios, para expelir a fumaa. Tornou-se po-duro e, com os lucros da agncia lotrica A Preferida, construiu prdio no centro da cidade e adquiriu outros imveis. Tocava violo divinamente, compunha e fazia fundo musical dos filmes do cinema mudo. Vivia cercado de amigos. At bem pouco antes de morrer, quando o visitava, me oferecia um drink dreher numa tacinha, pegava outra na qual eu lhe servia uma dose, pedia que eu lhe lesse a correspondncia e as respostas tornara-me seu secretrio que trazia e, depois, que portasse o pinho e lhe tocasse algumas msicas. Afinava o instrumento como ningum. Tratvamo-nos por Zeb, apcope de Zebedeu. Foi meu padrinho de batismo, com v Menininha. Sovina, num aniversrio de tio Augusto Getlio, deu-me uma nota de vinte, novinha. Estranhei, acostumado a ganh-las apenas em ocasies especiais e, surpreso, disse-lhe que no era o aniversariante, mas o tio xar. Ele, de imediato: me devolve o dinheiro, menino! J comeara a sonhar com as balas e os picols. Odiava futebol. Dizem que tio Carlyle veio estudar em Belo Horizonte e Zeb ligou o rdio e ouviu o locutor gritar: gol de Carlyle! Mandou buscar o filho de volta, na suposio de que o famoso goleador do Atltico fosse o prprio. Quando inauguraram o Estdio Joo Rebello, do Ateneu, Zeb compareceu e foi aplaudido, de p, por mais de cinco mil pessoas. Eu, menino, na arquibancada, senti o maior orgulho em ver como meu av era querido. Os aficionados pelo esporte breto devem ter pensado que, a partir daquele momento, Zeb mudaria de opinio. Que nada, essa foi a nica vez que ele frequentou um estdio de futebol. Deve ter ido porque haviam dado o nome do estdio a um filho de um de seus maiores amigos, seu Jayme Rebello. Contaram-me que, j com as vises obnubiladas pela idade, sentados na porta de A Preferida, agncia lotrica de Zeb, ele, Z Luiz Barbosa e seu Mundinho Dias, batiam papo. Passaram duas mulheres gostosas e eles comearam a fazer fiu-fiu para elas, exclamando: que bundas, que coxas, que seios! Eram as filhas de Zeb, Lena e Consuelo. Numa tarde de vero, Zeb estava no quintal, tomando banho de sol e algum, da rua, quis derrubar um abacate. A pedra atingiu-lhe a cabea e deu cogulo. Operou em Belo Horizonte. Inventamos que havia recebido sangue de um rapaz de dezoito anos, para anim-lo a recuperar-se. O velho sentiu-se moo e virou ona. Quis, v Zizinha j falecida, at casar-se com uma empregada novinha que cuidava dele. A moa no aceitou a proposta e casou-se com um PM. Tio Geraldo, solteiro e comedor, apelidado Cabacinha, filho que residia com Zeb, quando ele chegou, restabelecido, dele se aproximou, carinhoso, ainda na rua, pedindo-lhe a beno. Zeb respondeu, nervoso: que bena qual o qu, corno! Cabacinha ficara em casa, durante toda sua doena, sozinho, com a moa. Senil cime doentio. Alguns dias depois Zeb pediu-me que o levasse a uma visita ao casal. Entrou no casebre, em bairro perifrico, estando o soldado a limpar um revlver, e disse nervoso: pois , foi casar com soldado, t morando, dormindo e comendo mal. Se tivesse casado comigo, estaria andando de Ford Galaxie. Corri, temeroso, para perto do marido e convenci-o a relevar o que ouvira, fundamentando minha tese em doutoral palavrrio sobre arteriosclerose. Felizmente o homem compreendeu a senilidade de Zeb. Ele censurava meu pai pelo alcoolismo, cujos danos vida bem conhecia. Quanto eu tinha dez anos, discutimos acaloradamente, porque, um dia, em nossa casa, ausente meu pai, ele o feriu moralmente. Deve ter-se arrependido do que dissera, porque na manh seguinte apareceu sorridente, puxou conversa e fizemos as pazes. Meu pai, por sua vez, tinha algumas mgoas da famlia de Zeb que, com o tempo, se dissiparam. Quando nervoso, querendo chamar-nos de ignorantes, externando esses seus sentimentos, esbravejava: Quintino! Queixava-se de que Zeb no o indenizara por um barraco e muro que fizera num terreno que lhe havia dado para construir casa, logo depois do casamento, e que lhe tomara para que nele residisse tia Babia, separada do marido. Queixava-se tambm de que ele lhe negara um aval. Hoje, s consigo me lembrar desse meu querido amigo Zeb, grande av, com um apertozinho no corao, que quase me leva a chorar de tanta saudade.
Conheci alguns irmos e irms de Zeb, meus queridos tios Job e No, e minhas queridas tias Generosa (Yay), Bemvida e Flora. Tia Yay eu dizia que era minha terceira me, porque a primeira era Nossa Senhora e a segunda minha me mesmo. Ela cercou-me de carinho em minha primeira infncia e participou de quase todos os eventos importantes de minha vida, especialmente do primeiro casamento e das formaturas. Tia Bemvida tocava violo muito bem e com ela e tia Yay aprendi os primeiros acordes de violo.
Convivi bastante com meus tios, filhos de Zeb. Eles so sete, pela ordem de nascimento: Geraldo (Cabacinha), Maria Jos (Babia), Consuelo (Yey), Carlyle (Lai), Graice (Dei), Luiz e Margarida (Marg). Deles, atualmente, s esto vivos minha me Maria Helena (Nininha ou Lena, com quase 86 anos), Graice (com 80 anos) e Luiz, tambm com mais de 80 anos, que se tornou fraterno amigo de meu pai e um dos maiores mdicos que Montes Claros j conheceu. Devo a ele, pela amizade e carinho dedicados a meus pais, favores que dinheiro nenhum deste mundo pagar. Em todos os momentos aflitivos de nossas vidas ele sempre se fazia presente e uma vez salvou a vida de minha me, doando a ela seu precioso sangue, numa complicada cirurgia que quase a levou de ns.
Zeb e v Zizinha (Jacyntha de Quadros S Quintino) foram pais extremosos e queridssimos por todos os netos.


67346
Por Augusto Vieira - 25/4/2011 02:40:06
JDER DE OLIVEIRA

Faleceu, na quarta-feira, 20 de abril de 2011, aos 76 anos, depois de lutar por mais de quatro anos contra um cncer, um dos expoentes do jornalismo brasileiro e internacional, meu querido amigo Jder de Oliveira. Mineiro da gema, apaixonado por Belo Horizonte, nasceu no dia 02 de dezembro de 1934. Impregnado de mineiridade, grande contador de causos, entendia de msica como ningum e poderia, tranquilamente, alcanar o mesmo sucesso de sua carreira jornalstica se tentasse a de cantor. Sua voz era aveludada e afinadssima. Esse seu amor msica certamente nasceu dos acordes de sua me ao bandolim. Jder era tambm um apaixonado pelo rdio. Imitador de primeira qualidade, falando ou cantando, fazia com que a gente enxergasse os imitados em sua pessoa, dentre eles Orlando Silva e Cyro Monteiro. Sabia os nomes dos compositores e dos autores das letras de quase todas as msicas brasileiras. Pena que s lanou um livro. Tinha muito mais coisa para nos contar. Mas em compensao, o seu No tempo mais que perfeito, retrata magistralmente a Belo Horizonte dos anos 50.
Jder comeou no jornalismo muito jovem, aos 17 anos, no Dirio de Minas. Foi redator da Rdio Inconfidncia. Trabalhou na Rdio Guarani, na TV Itacolomy, no Dirio da Tarde e no Estado de Minas. Serviu BBC Brasil por 31 anos, antes de assumir o posto de correspondente da Globo News, funo que acumulou com a de colaborador do Correio Brasiliense, da Rdio CBN e de muitos outros meios de comunicao. Na Inglaterra, onde viveu por mais de 40 anos, Jder casou-se com a argentina Nelly, com quem teve dois filhos, Marcelo e Eddie. Junto a Nelly, esses seus dois filhos, aliados ao rdio e ao quintal de sua casa, em Cobham, no Condado de Surrey, nas imediaes de Londres, foram suas grandes paixes.
Conheci-o em 1999, atravs de Roberto Elsio de Castro Silva e de Jos Bento Teixeira de Salles. Mostrei a ele meu livro de poesias, o Baladas, pedi-o para fazer a orelha e ele o levou para Cobham. Pouco tempo depois, em julho de 2001, me brindou com o texto que orna meu livro, editado pela Mandamentos e lanado no mesmo ano.
Em 2002, como era seu hbito, Jder esteve aqui em Bel, de frias, e eu o homenageei em minha residncia. Convidei o grande msico Marcelo Drummond. Vieram nossos amigos comuns, Jos Bento Teixeira de Salles, Roberto Elsio de Castro Silva, Fausto Mata Machado e Jos Ramos Filho. Foi uma das grandes noites de minha vida. Na verdade, ns que fomos homenageados. Jder cantou lindas msicas, ao microfone, acompanhado pelo saboroso toque de piano do Marcelo e, em algumas, por meus pobres acordes de violo. Guardo com o maior carinho uma foto de ns trs nos apresentando a nossos amigos, num palco imaginrio, cheio de amor e pureza dalma.
A voz desse grande brasileiro, seja no rdio, na televiso, na sala de minha casa ou nas mesas dos bares da vida, jamais se apagar de nossas memrias. Sua alma generosa ser sempre um exemplo de dignidade humana para todos ns, especialmente por nunca termos ouvido de seus lbios qualquer maledicncia. A vida de Jder foi uma imensa cachoeira de tica, inteligncia e cultura. Cultura vastssima, em todas as reas, especialmente na literria, em que ele conhecia quase todos os autores dos livros mais importantes do Brasil e do mundo, antigos e modernos.
Adeus e at breve, grandioso Jder de Oliveira. Guardo comigo o maior orgulho de ter sido um de seus amigos. Mais uma vez, muito obrigado pela orelha de meu livrinho de poemas. Que Deus o guarde eternamente num lugar muito especial, destinado aos homens honestos, puros e bondosos.


67204
Por Augusto Vieira - 11/4/2011 10:18:34
Bala Doce e o motoqueiro.

Se h neste mundo de meu Deus uma pessoa que defende os motobois (eles no constam de nossos dicionrios e detesto usar palavras estrangeiras quando podemos ter a nossa, original), o velho Bala. So cidados trabalhadores, ganhando o po de cada dia, prestando relevantes servios a todos ns. Di-me o corao, e muito sempre vejo a cena , me deparar com algum deles cado no asfalto, ao lado de sua moto, na loucura de nosso trnsito, com algum ferimento grave. Os poderes pblicos deveriam cuidar deles com mais carinho, destinando-lhes pistas especiais, pelo menos nas vias pblicas de maior circulao de veculos. Nossos motobois, no entanto, se transformam, a cada dia, naqueles habilidosos artistas do barulhento Globo da Morte, que acostumei a ver nos circos, em minha juventude. E esto, como no poderia deixar de ser, cada vez mais tensos.
Num sbado, tarde, eu me dirigia Pampulha para a festa dos 90 anos do Desembargador Elisson Guimares. Descia a Contorno para pegar a Tereza Cristina e o sinal fechou. Estava atrs de um carro, na pista do meio. Como a pista lateral esquerda estava desocupada, sem dar sinal, fiz, vagarosamente, uma pequena converso e parei ao lado do carro que estava minha frente. O trfego no era intenso no local. De repente me aparece, do lado direito de meu carro, um motoboi me dando o maior esporro. Argumentei com ele que no precisava me xingar daquele jeito, que eu tinha 66 anos e que, no meu entender, no fizera nada errado. Ele, ento, aumentou o tom de sua voz e me chamou de velho babaca. Pra qu! Consegui raciocinar um pouco e, fingindo estar encolerizado, retruquei:
Olha aqui, seu filho da puta, eu sou Delegado de Polcia e vou mandar te prender agora.
O pobre moo arrancou, atravessou frente dos carros enfileirados que esperavam o sinal abrir e, ao invs de entrar na Tereza Cristina, sumiu, na contramo, a toda velocidade, por uma via lateral.
Fica aqui, pois, este conselho aos motoristas idosos: quando forem desrespeitados, no trnsito, por uma besta fera que nem esse pobre rapaz, mintam para o infeliz, dizendo serem Delegados de Polcia. Parece que isso uma das poucas coisas que muitos deles ainda esto respeitando. E, pelos menos os que passarem por isto, pensaro dez vezes antes de ofenderem algum no trnsito.


66924
Por Augusto Vieira - 21/3/2011 20:18:58

Ars longa, vita brevis.

A TV da Assemblia Legislativa de Minas Gerais realizou um especial do programa Memria, com meu querido amigo Konstantin Cristoff. Aprendi a cham-lo de Konsta e Baro ele se parecia com um baro europeu atravs de Joo Carlos Sobreira, quando batamos longos papos, sentados em cadeiras da varanda da casa de tia Nazar, me de Joo, na Dr. Veloso com Governador Valadares. Ele estudava arquitetura e entendia muito de arte. Eu, curioso capiau, pouco ou quase nada versado na matria, sedento de aprender, ficava ouvindo atentamente suas palavras. E como ele conhecia a vida e a obra de Konstantin!
Anos depois eu trabalharia com Yedde, filha do grande Dr. Plnio Ribeiro, esposa do Baro, na reitoria da universidade e passaria a admir-la pela vasta cultura, pela tranquilidade e pela bondade. Foi fcil ficar amigo dela porque eu j era f incondicional de seu marido..
O especial da TV Assembleia emocionou-me. Deveria ser reproduzido em todas as faculdades do pas, porque uma verdadeira aula de histria da arte, num linguajar simples, embalado pela sinceridade e pela pureza. Baro falou de sua grande amizade, desde a juventude, com Guignard e dos quatro autorretratos que esse grande artista pintou dele. Falou da influncia da semana da arte moderna na sociedade de ento, falou de sua vida pessoal e de seus vrios momentos artsticos. Falou da influncia que sobre ele exerceu Godofredo Guedes. Falou dos nus, do misticismo, dos quase-cartuns, das quase-pinturas e do Konstantin, artista pleno e maduro, que trocaria a arte de cuidar da sade dos homens pela de retratar as pessoas e a vida, em telas. Telas, digo eu, que ficaro na Histria, para o bem das geraes porvindouras. Baro ainda dissertou ainda sobre poltica com p maisculo, exaltou a impactante arte contempornea e fechou o programa dizendo da importncia de Yedde em sua vida, numa linda declarao de amor.
Neste 21 de maro de 2011, como diria o Rosa, ele encantou. Ouso dizer, no entanto que, pelo encanto de sua vida, sua partida foi um desencanto. Desencanto que se transformar numa fulgurosa estrela, lindssima, que se instalar harmoniosamente num lugar muito especial do firmamento.
Muito obrigado, grandioso Konstantin, pelo que voc fez por todos ns. Obrigado por sempre ter-nos embriagado do mais profundo orgulho de sermos montesclarinos. Como so pobres as palavras ante a magnitude de sua arte!


66725
Por Augusto Vieira - 8/3/2011 13:40:59
Minha homenagem s mulheres

"Pulchrum sane aurum, sed femina pulchrum auro"

Em meio a desfiles de escolas de samba e terremotos, no devo esquecer de homenagear as mulheres neste seu dia. Tanto no calendrio internacional quanto nos nacionais h esse negcio de dia de algum ou de alguma coisa. Nunca aceitei pacificamente a idia. Por exemplo, em relao mulher, seria mesmo necessrio o estabelecimento de um dia dedicado a ela para os homens se lembrarem de que lhe devem todo o respeito do mundo?
Na verdade, a realidade bem outra. O que se v neste nosso mundo meio doido so mulheres violentadas, humilhadas, tratadas como objetos, independentemente da classe social a que pertencem. E a grande maioria delas se acomoda, no reage, no vai luta, no protesta, para extirpar da sociedade preconceitos atvicos, herdados de uma milenar cultura machista que, infelizmente, muitas aceitam, at por convenincia, numa espcie de vingana tcita, silenciosa, como se fssemos obrigados a pagar a imensa conta dos graves erros de nossos antepassados.
Da mesma forma que tenho imenso prazer em me sentar mesa de um bar com meus amigos e bater grandes papos, tenho-o ao fazer o mesmo com minhas inmeras amigas, s que ante elas o prazer adquire conotao especial pela presena da mais linda emanao de Deus. Quantas amigas maravilhosas tenho feito ao longo de minha vida! Quantas e quantas lutadoras, batalhadoras que, vencendo barreiras sociais quase intransponveis, ao invs de aceitarem a humilhao, se afirmaram perante todos como seres humanos autnomos, provando no serem meros apndices de pais, maridos, noivos, namorados ou companheiros? E continuaram amorosas, sem perderem a feminilidade.
a essas amigas, pelo encanto que do ao mundo e minha vida, que desejo homenagear no Dia Internacional da Mulher. No citarei nomes, mas sabero que pensei nelas quando escolhi a frase latina que citei acima, inspiradora desse breve texto: por mais belo que seja o ouro, a mulher mais bela. A elas dedico tambm o seguinte poeminha:

Tu tens uterinidade
E te entranhaste em mim.
Carrego-te, de verdade,
Pela vida, at o fim.

Tu foste, primeiro lar,
O meu mais puro alimento.
Teu leite puro, a jorrar,
Meu mais sublime fermento.

Foste a menina faceira,
Comigo sempre a brincar,
Subindo na goiabeira
Pra ver o tempo passar.

Foste, ainda, a namorada,
Candura em plenitude,
Que me alegrou a jornada
Da saudosa juventude.

Depois foste a companheira
De minha maturidade,
A guardi da trincheira
De minha felicidade.

E, ainda, em ti nasceu
O fruto de nosso amor,
Muito mais teu do que meu,
Porque parido na dor.

Paciente madroeira,
Envelheceste comigo.
Passaste tua vida inteira
Dando-me fora e abrigo.

Meu dias foram os teus,
Sonhando te ver feliz,
Pedindo perdo a Deus
Pelo bem que no te fiz.


66702
Por Augusto Vieira - 7/3/2011 17:15:30
A resposta da natureza

Nabonosseu um contrafilsofo nietzschiano que criei nas frias do vero de 2010. Montei at um blog sobre ele. Hermito, vive pelo mundo, em companhia de um sapo chamado Zebedeu e de uma coruja chamada Turmalina, espalhando sua doutrina. Vejam o que ele disse, indagado por uma jovem, sobre os terremotos e outros abalos naturais:
"A ambio do homem, minha filha, que causa tudo isso. Em busca das riquezas ele agride a natureza e ela responde impiedosamente. Veja esse imenso campo. Destruram quase toda vegetao para plantar a soja. Os ventos tornaram-se, na falta de anteparos naturais, arrasadores. J nas cidades, as contrues verticais, impedem que eles fluam normalmente e o ar torna-se seco, praticamente irrespirvel, misturado aos gases que saem dos canos de descarga dos veculos. Tanta rea para construir na horizontal, mas os donos da Terra preferem ganhar mais dinheiro com espiges, engaiolando pessoas que lhes pagam regiamente os investimentos, atravs de financiamentos cuja fonte o prprio dinheiro do povo. Essas torres, dentro de pouco tempo, em relao existncia do universo, envelhecero, como tudo que edificado pelo homem, e certamente sero implodidas, por mais resistentes que sejam os materiais usados em suas estruturas. Por outro lado, os homens retiram muitas riquezas do subsolo, mas a Terra sempre responde. Qualquer vo criado pela atividade humana, aliado aos naturalmente existentes, tende a compactar-se, a acomodar-se. E quando isso acontece vm os abalos ssmicos, os terremotos e os tsunamis. O que torna ainda mais catastrficos os tsunamis que o gelo dos polos est derretendo devido ao aquecimento do planeta e isso aumenta o volume das guas dos mares. O mar como uma imensa bacia. Qualquer alterao em suas extremidades provoca distrbios na gua que ela contm. Os "donos do progresso" contam com o apoio de "cientistas" regiamente pagos por eles, que procuram, doutoralmente, justificar a destruio de nossa casa. J at disseram que o aquecimento da Terra uma balela inventada por despreparados profetas do desespero. Aprenderam, nas universidades, a serem intelectualmente desonestos. Pensam de acordo com os interesses dos donos da riqueza. Inventam as mais estapafrdias teorias. E ainda contam com o apoio da mdia, sustentada pelas propagandas das empresas desses ambiciosos que destroem a vida."
Assim falou Nabonosseu!


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Por Augusto Vieira - 28/2/2011 14:48:09
JooMaia

Companheiro da velha guarda, filho do grande Quinto Maia, conservou do pai aquele semblante sbrio que, na verdade, enfeitou, por mais de setenta anos, um ser humano inteligente e brincalho. Para vocs terem uma idia contarei apenas um caso. Meu irmo caula, Xando, levou a esposa, Guida, renomada intelectual, para conhecer o restaurante de Joo Maia. Fizera to entusistica propaganda da farofa ali servida, que ela desejou conhecer a maneira como a guloseima era preparada. Joo Maia, ao saber disto, convidou-a cozinha. Aproximaram-se de um panelo, com farofa j pronta. Enquanto ele dissecava as artimanhas utilizadas para se chegar quele ponto de perfeio culinria, Guida pediu para dar uma experimentada. Xando, prevendo o que poderia acontecer, antecipou-se esposa e estendeu logo uma das mos, onde Joo Maia depositou uma colherada. Na maior habilidade, como fazemos desde a infncia em nosso Norte de Minas, arremessou, num nico e hbil movimento, toda aquela poro em sua boca, sem nada desperdiar. Joo Maia fez o mesmo. Guida, impressionadssima com a percia dos dois, quis imit-los. A farofa foi depositada em uma de suas mos. Ela, ento, no conseguindo arremessar a poro boca, elevou as duas mos, em cunha, at os lbios e comeou a lamber o contedo. Joo Maia, srio que nem o pai, lamentou:
Xando, pra que essa mulher sua estudou tanto? No aprendeu nem a comer uma farofa?!?!
Esse catrumano, montes-clarense da gema, batizado Joo lvaro Maia, que a vida acaba de nos roubar, far muita falta sua famlia, a ns, seus amigos e nossa querida aldeia.


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Por Augusto Vieira - 21/2/2011 05:04:28
ARMANDO ATHAYDE

Armando Prates Athayde, filho caula de seu Athaydinho e de D. Alda, irmo de Geraldo, Wilson, Maria Augusta, de minha tia Clarice (porque casada com o irmo de meu pai, meu tio Air), de Carlcio e de Cssio foi uma das pessoas mais inteligentes e espirituosas que j conheci. Fui muito ligado ele, apenas uns cinco anos mais velho do que eu, devido amizade que unia nossas famlias. Estudou no Grambery, um dos melhores colgios que j existiram em Minas Gerais. Eu gostava muito de D. Alda. Tanto que, menino, estava beira de seu leito no momento em que ela se despedia de ns. Armando gostava muito de fazenda e passava grandes temporadas na de seu pai, a aconchegante Vaca Brava. Era, desde a juventude, devorador de livros. Sistemtico, muito organizado, metdico, obstinado em conquistar objetivos, trazia dentro de si um corao extremamente generoso. Conversava com a gente com voz meio rouca e branda, segurando-nos fortemente com uma de suas mos em um de nossos braos, e constantemente parando uma frase para usar, antes de dizer a seguinte, a clssica expresso c t entendendo?.
Eu gostava muito de papear com ele. Foi cliente de meu escritrio, nos anos 70, do sculo prximo passado, quando advoguei em minha aldeia. Filosofvamos, desde sobre os grandes problemas de nosso ento pequeno vasto mundo, ainda no to tecnolgico, at sobre o comportamento de uma formiga. Ele era um exmio observador da vida. Dominador de palavras, expressava-as, oralmente ou por escrito, com maestria. Sua caligrafia era bela.
Armando tornou-se, ainda jovem, abastado fazendeiro. Casou-se com Marlice Silva, gerou filhos e os criou com o maior carinho. Larissa, sua filha, hoje advogada em Montes Claros, foi brilhante aluna de meu filho, o Combat, na Universidade Federal de Uberlndia, o que me encheu de alegria.
A vida nos separou por muitos e muitos anos. De repente, eu j quase nos meus sessenta, comeo a ler crnicas escritas por Armando nos jornais de minha aldeia. At que, no dia 10 de maro de 2004, ao ser assaltado em seu stio, prximo cidade, ele foi assassinado por dois menores, fato este que consternou toda a sociedade norte-mineira e que me entristeceu profundamente.
Pouco tempo depois fui a Montes Claros. Num sbado, com vrios amigos, numa mesa do Restaurante Skema, comentei com eles sobre o infausto acontecimento e, depois, manifestei minha satisfao por ainda ter lido vrios textos produzidos por Armando, publicados em nossos jornais. E perguntei aos presentes porque ele s comeara a public-los tardiamente. Algum me esclareceu, no me lembro mais quem:
Bala, Armando era muito trabalhador, metdico. Ficou independente e com muita sade com menos de meio sculo de vida. Fizeram-lhe essa mesma pergunta e voc sabe o que ele respondeu?
No.
Fiquei independente muito cedo, (c t entendendo?), sem precisar mais de dar duro para ganhar a vida (c t entendendo?). Comecei a observar alguns amigos que estavam na mesma situao (c t entendendo?). Alguns deles, na ociosidade, comearam a ter comportamentos estranhos e uns at passaram a entregar suas roscas ao prximo (c t entendendo?). Fiquei com medo e desandei a ler, a escrever e a publicar meus textos, com medo de que o cio no criativo me levasse simples cogitao de fazer o que aqueles poucos amigos, de minha gerao, resolveram fazer (c t entendendo?) Deus me livre! cio perigosssimo!
Grande Armando Athayde! Montesclarense da gema, aquariano (09 de fevereiro, pertinho de Non, que era de 10), tragicamente roubado de ns, na plenitude de sua vida. Que Deus o guarde! At breve, caro amigo! C t entendendo?


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Por Augusto Vieira - 17/2/2011 02:41:32
DR. HERMES

Em minhas ltimas frias levei o livro Hermes de Paula Passado e Presente, organizado e escrito por Amelina Chaves, e o curti durante vinte dias. Prazerosos, todos eles, iluminados pela presena deste inesquecvel montes-clarense em minha mente. Quem, em minha aldeia, no tem uma histria dele pra contar?
Eu o conheci quando tinha sete anos, porque minha famlia se mudara da Varginha (stio onde vivi toda minha primeira infncia) para a cidade e meu pai alugou uma casa, vizinha dele, que, me parece, ainda estava em construo, na Avenida Coronel Prates. E fiquei amigo Virglio, seu filho, que me convidava para nadar na piscina. Naquele tempo, ter piscina em casa era um luxo. Eu vibrava com os convites e largava tudo para atend-los. Esta sua casa, onde at hoje residem sua esposa, D. Fina, e sua filha Virgnia, era uma espcie de centro cultural da cidade. Os marujos e catops ali iniciavam suas alegres caminhadas. As vitrias do Cassimiro de Abreu eram ali comemoradas. Dr. Hermes foi presidente do Mais Querido, certamente pelo fato de o time levar o nome de um parente de D. Fina. Depois ganhou um genro, Mauro, esposo de sua filha Valria, que era festejado craque cassimirense. Quase todas as pessoas importantes que vinham cidade ou se hospedavam em sua casa ou passavam por l para visit-lo.
Meu pai e ele eram amigos fraternos e depois que nos mudamos para o casaro da Presidente Vargas ele tornou-se assduo frequentador de nossos seres noturnos, no passeio pblico, regados a cafezinhos, pes de queijo e biscoitos de fofo, emoldurados pelo lindo cu estrelado e pela beleza inigualvel dos luares de Montes Claros. Sua grande obra literria, Montes Claros, sua Histria, sua Gente e seus Costumes, passou a ser uma espcie de bblia l de casa. Meus irmos e eu sabamos, de cor, vrias partes do livro, especialmente as adivinhaes e trovinhas, que recitvamos naqueles seres. Quando ele nos ouvia, na sua costumeira humildade, apenas esboava um grato sorriso, certamente orgulhoso pelo fato de se ver lido e cantado, em verso e prosa, at pelos meninos da terra que adotou como sua e pela qual foi adotado como cidado benemrito.
Quando resolveu construir o Penturea, chamou meu pai para visitar o terreno. Fui com eles, no carro de Non. Acho que Dr. Hermes no dirigia veculos, pois nunca o vi ao volante de um carro. Ele sempre pedia a meu pai para opinar sobre as coisas do Clube e eles iam l, frequentemente, durante as obras. Eu, j grandinho, os acompanhava. Foi a que passou a me chamar de Augusto, tratamento carinhoso que me dedicou at sua morte.
Depois que fui estudar em Belo Horizonte perdi um pouco o contato com ele. Mas a partir de 1970, trabalhando com Mauricinho na implantao da ento Fundao Norte-Mineira de Ensino Superior, de cujo Conselho Diretor ele era membro, retomei essa saudvel convivncia. Ele, sob a batuta de Mauricinho, foi um dos esteios da construo de uma universidade que, hoje, nos orgulha a todos.
O conjunto de serestas que Dr. Hermes fundou e manteve at sua morte e que ainda continua graas aos esforos de D. Fina , ainda um dos mais significativos cartes de visita de Montes Claros. Ganhou fama nacional e internacional. Coroava os grandes acontecimentos sociais e polticos com msicas nossas e de outros rinces, no estilo serenata, tocadas e cantadas pelos mais competentes artistas da terra. Esse seu conjunto fez com que a cidade se tornasse mais conhecida ainda por este nosso imenso Brasilzo afora. Eu ficava impressionado com sua energia e seu bom astral. Podia estar extenuado pelo exerccio da profisso de mdico, mas ainda encontrava foras para viajar, em finais de semana, para os mais distantes lugares, com a maior alegria, animando todo mundo com suas espirituosas brincadeiras. Nunca o ouvi proferir maledicncias, nem o vi ofender algum. Discutia calmamente as idias, sem ferir pessoas. Um exemplo, para todos ns, de respeito dignidade humana.
Dr. Hermes foi um dos maiores homens que conheci em minha vida. Um grande escritor e pesquisador, um competente cientista e mdico, um extremoso amante da arte, um homem extremamente bondoso e um honrado cidado que nunca deixava morrer a eterna criana que lhe habitava o ser.
Que Deus o guarde, grandioso Hermes Augusto de Paula, ao lado de Joo Walmor e de Virglio!


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Por Augusto Vieira - 7/2/2011 07:44:59
NON, MEU PAI CENTENRIO.

Na regio conhecida por Violeiros, do municpio de Queluz de Minas, hoje Conselheiro Lafayette, no final do sculo XIX e incio do XX, viveu um agricultor, pequeno proprietrio rural, chamado Augusto Jos Vieira, casado com Maria Elisena Lelles Vieira, conhecida por Menininha. O casal teve vinte e um filhos, dez mulheres e onze homens. Os machos, desde infantes, trabalhavam para possibilitar estudo s fmeas. Impossvel tanta gente sobreviver apenas da labuta dos dois. O primognito era Jos de Paula Vieira que, depois da morte do pai, substituiu-o na descendncia e passou a ser chamado v Juquita. Depois nasceu Augusto Getlio que, rapazinho, foi ao mundo, tornou-se viajante, conheceu o Norte de Minas, gostou e abriu comrcio. Sonhador, religioso, dinmico, amigo de boas leituras, autoritrio, ganhou dinheiro e, medida que a sorte o bafejava, convidava irmos e cunhados ao eldorado. Alguns, poucos, preferiram as origens. Outros, mais ambiciosos, cientes do sucesso do parente, aceitaram os sedutores convites e rumaram a Montes Claros, a Princesa do Norte. Norival, apelidado Non, o terceiro varo, nasceu no dia 10 de fevereiro de 1911. Menino, engraxava sapatos na estao ferroviria e, num burrinho, vendia leite e lenha na cidade. Moo bonito, alto e forte, de olhos verdes, covinhas e furinho no queixo, xod das moas, inclusive de donzelas de famlias abastadas, era namorador. Roupa de domingo, dirigia-se, a cavalo, aos encontros, at que um dia, humilhado por rapaz rico, invejoso de suas conquistas, deu-lhe, desarmado, tremenda surra. Esse fato marcou-lhe a vida e o fez carregar certo complexo. Juntou cobres, montou vendinha e prosperou. Noivou sete vezes e no se casou. Gandaiava, bebia imoderadamente e, organismo propenso, tornou-se alcolatra. Sabedor dos infortnios do irmo, Augusto Getlio o convida para scio. Norival, esperando cura em mudana de vida, vende comercinho, por sete contos, a irmo Antnio, passa nos cobres pertences de menor valor e sai ao Norte, aonde chega em 1937, com 26 anos. Constituram sociedade em comandita simples, com firma Vieira & Cia., na qual Augusto Getlio era comanditado, e Norival, com capital integralizado de dez contos de reis, comanditrio. Este tipo de sociedade comercial caracteriza-se pelo fato de ter o comanditado responsabilidade ilimitada e o comanditrio s at o limite de sua cota. Segunda Guerra Mundial. Empresa a prosperar, vendendo de tudo, desde bugigangas a ouro, a ela chegavam outros parentes. Norival, muito ativo e com acentuado tino comercial, enriquecia-se. Comprava imveis, namorava formosas moas casadoiras, andava de baratinha, frequentava cabars, fazia amizade com polticos e influentes funcionrios pblicos. Tinha at mulher, por conta, na famosa e nacionalmente conhecida zona bomia norte-mineira, onde se apresentava a danarinha espanhola que inspirou Carlos Drummond de Andrade ao poema Cabar Mineiro. J com trinta e um anos, bateu olhos em normalista linda, de dezessete, que jogava vlei, chamada Maria Helena que, menina, j se sentara em seu colo, velando namoro da irm mais velha, Consuelo. A mooila era a quarta, de oito filhos de Donato Alves Quintino e Jacyntha de Quadros S Quintino. No dia 16 de maio de 1944, ele, com trinta e trs anos, e Maria Helena, com pouco mais de dezoito (nascera no dia 13 de agosto de 1925), em festa de arromba, casaram-se e viajaram, em lua-de-mel, para o Rio de Janeiro, pela Panair do Brasil. O casal teve trs filhos: Augusto Jos, Carlos Guilherme e Marcus Alexandre. Crianas, Non os chamava de Dutim, Diemim e Xandim. Adolescentes e adultps de Duto, Di e Xande.
Non, antes riqussimo, empobrecia, porque Vieira & Cia. entrara em crise, devido a um problema no mercado de tecidos e a uma malsinada parceria com banqueiros belo-horizontinos. O escritor e poeta Cndido Canela, Tabelio, disse-me que meu pai fora o homem que mais vendera propriedades para manter o nome limpo. Sua responsabilidade nos negcios era limitada ao capital que integralizara, mas no podia deixar o irmo mais velho na mo e o nome da famlia sujo. A ele, depois da bancarrota de Vieira & Cia., que, diga-se de passagem, cerrou portas sem falir ou dar prejuzo a quem quer que fosse, s restou a opo de residir numa chcara, chamada Varginha, distante. poca, uns cinco quilmetros do centro da cidade e ir acertando a vida. A Varginha , hoje, um dos bairros maiores bairros de Montes Claros, chamado Vila Ip. Sua casa principal ainda se encontra intacta, quase com a mesma arquitetura.
Non era alegre e brincalho. Uma vez fiz um coc durinho, amarelinho, em gomos simtricos e unidos, num dos cantos de um dos quartos da casa. Ele descobriu, pegou com uma das mos e, s gargalhadas, exibiu a todos os presentes na casa, que estavam na copa, em volta de uma mesa redonda com tampo giratrio, exclamando:
Olha o coc bonito que Dutim fez!
Nessa mesa ele fazia grandes pilhrias nas refeies. Convidados, no sabedores de que o tampo circular era mvel, levantavam-se de suas cadeiras para se servirem. Quando a pessoa dava a volta e chegava frente da travessa do petisco que desejava servir-se, ele, despistadamente, com as mos por baixo da madeira, girava o tampo da mesa, fazendo com que a travessa ficasse em frente cadeira de onde o conviva se levantara. Dinda, tia de Maria Helena, era a que mais penava. A pobre velhinha ficava exausta de circular em volta da mesa, em busca de seus pratos prediletos. Demorou a descobrir. Durante a brincadeira sufocvamos nossas gargalhadas, que, depois, vinham homricas. Depois que a tia descobriu, passou a trazer os alimentos at a frente de sua cadeira. S que havia uma trava e, quando ela tentava faz-lo, Non parava o tampo giratrio. Compadre Toninho, vtima dessa brincadeira, saiu da sala de jantar apavorado, achando que era coisa do outro mundo e no quis mais saber de ali tomar refeies. Era servido por Maria Helena, na varanda.
Recordo-me de Non, completamente bbado, chegando a casa, montado num burro chamado Soberbo, vestido com uma cala branca, rasgada numa das pernas, da cintura at a barra. Parou o animal no ptio, caiu da sela e, ali mesmo, comeou a dormir e roncar. Todos, juntos, o carregamos at sua cama. Soberbo sabia ir e vir, sem guia, da Varginha cidade. Non podia at dar-se ao luxo de dormir ou apagar na sela. Contam que uma vez ele entrou num bar, montado em Soberbo, foi ao balco e, sem apear, pediu uma pinga, foi servido, pagou e deixou o local, todo feliz.
Em 1950 Non vendeu a Varginha para D. Quita Pereira, por seiscentos e cinquenta contos, e mudou-se para a cidade, para uma casa, alugada, na Av. Coronel Prates, que ele batizou de Avenida de Nis.
Neste mesmo ano vim com ele a Belo Horizonte, mais de dezoito horas de viagem, em estrada de cho, num sed Ford. Pousamos em Vrzea da Palma, meio do caminho. Chegamos, pegamos hotel, nos arrumamos e samos a andar. Non no desgrudava suas mos grossas das minhas, ora a esquerda, ora a direita, certamente com medo de que eu me desgarrasse e sumisse no meio daquele formigueiro. Tiramos uma foto, em frente ao Campeo da Avenida. Estou com cara de besta, capiau mesmo, todo frajola, com sapato branco, de solado grosso e bico acinzentado. Ele, de terno preto, camisa branca, sem gravata, todo elegante.
Um prefeito, a quem, anos antes, em tempos de bonana, Non emprestara quinhentos contos, numa dificuldade de momento, seu grande amigo, Capito Enas Mineiro de Souza, arranjou-lhe obras para tocar. Ele passou a derrubar casas velhas o espantoso progresso da cidade o exigia , comercializando o madeirame e outros materiais. A situao econmica da famlia ia se estabilizando, com participao efetiva de Maria Helena, que se tornou exmia costureira de crianas, com seleta freguesia, para ajudar o marido. Nesta poca lembro-me de Non, com os braos apoiados na janela da sala, que dava para a rua, fumando seu Continental, com barba por fazer, tomando ch de mastruz para curar uma lcera duodenal, comendo arroz com jil e ansioso por voltar ativa. Pouco tempo antes ele, bbado, capotara uma caminhonete velha, que cara no leito de um rio. Chovia muito e no morrera por milagre. Conseguira quebrar o vidro do pra-brisa e sara nadando, antes que afundasse com o carro.
Non entrou na poltica e elegeu-se vereador, por duas vezes, pelo PSD, praticamente sem fazer campanha, porque, vicentino caridoso, era muito querido na zona rural, urbana e bomia. JK, seu amigo, era o Non de Diamantina, e ele o Non de Montes Claros. Ficou conhecida sua atitude de ter pego, nos braos, nos trilhos da estrada de ferro, um leproso que havia sido atropelado por um vago. Internou o indigente num Hospital, s suas expensas e lhe deu toda a assistncia. Naquele tempo o preconceito contra a hanseniase era muito intenso.
Um Prefeito o nomeou, temporariamente, Secretrio da Educao e Sade e ele, no discurso de posse, disse o seguinte:
Educao, no tenho muita no, mas sade tenho pra dar e vender. Vamos trabalhar pelo povo!
Ele tinha o maior orgulho em dizer que estudara na famosa Escola de Comrcio, do Dr. Joo Luiz de Almeida, e que devia muito ao grande mestre pelo que ali aprendera.
Non comprou fazendinha, na Vargem Grande, onde passou a criar vacas holandesas mestias e a comercializar leite. Sonhava transform-la num celeiro de produo de alimentos. Tentou irrig-la, por gravidade, furando poo tubular no alto de uma serra. Infelizmente no jorrou o precioso lquido. Construiu um campinho de peladas para ns, com duas traves, onde nos divertamos a valer. Quando estava construindo o curral, queria fazer cercados individuais para ordenhar vacas. No havia nenhuma nas proximidades. Ele, ento, chamou uma sua irm que nos visitava, tia Dila, gordona, de mais de cem quilos, que ali passeava, mandou que ficasse em p, no local. Em seguida, fincou um pau de cada lado de sua bunda, tirou o alinhamento e disse aos operrios:
Podem meter cerca, onde esta minha irm passa, passa uma vaca!
A Vargem Grande teve o mesmo destino da Varginha: virou bairro da cidade, com supermercados e tudo o mais.
Numa manh amos missa da Matriz, meus irmos e eu vestidos com terninhos brancos. Descamos a Dr. Veloso, a p, quando Walduck Wanderley, comeando vida, subia num jipe sem capota, com vrios rapazes, certamente voltando de uma farra. Amigo de Non, gritou:
A, N, leva os meninos de dia pra missa que noite eu levo pra zona!
Non deu aquele sorriso gostoso e Maria Helena se benzeu, tambm sorrindo.
Uma vez, s escondidas, tirei do bolso de sua cala uma nota de vinte cruzeiros. De vez em quando surrupiava dinheiro da gaveta da mquina de costura de Lena. Descobriram. Esperei surra. Non chamou-me a seu quarto, trancou a porta, mostrou-me a cala dependurada e disse:
Tenho pouco dinheiro, mas quando voc precisar pode pegar no bolso e me dizer depois quanto.
Nunca mais furtei.
Nas frias de fim de ano de 1956, Non resolveu passear com a famlia no circuito histrico de Minas Gerais, para nos proporcionar cultura e dar uma chegada at sua terra natal. Quando chegamos a Ouro Preto, perguntou a uma velhinha onde ficava o monumento a Tiradentes. Ela, surda, abriu um largo e bochechudo sorriso. No tinha um dente na boca. Non, ento, tirou sua dentadura, estendeu um dos braos, com ela segura pelos dedos, em direo mulher e perguntou-a:
Quer proc, fia?
A anci arreganhou as bochechas de tanto rir e no aceitou o inusitado presente, que foi reposto a seu devido lugar.
Non prosperou e comprou outra fazenda, para engordar bois. Era no Levantado, na regio de Burarama, hoje Capito Enias, e foi batizada por Maria Helena de Fazenda Santa Mnica. Adolescente, passando frias nesta fazenda, tive acalorada discusso com ele por no ter permitido que eu fosse a um forr, no Caititu. Amigos foram me buscar e ele no cedeu. Fui dormir emburrado. De madrugada chegou um baleado. Non pegou a caminhonete, ps a vtima na carroceria e a trouxe a MOC, internando-a num hospital. Nem conhecia o infeliz, e ainda acordou mdico, que lhe abriu a cabea, no tendo ele resistido e morrido na mesa de cirurgia. Non pagou tudo. Depois, voltando para a fazenda, aps o meio-dia, disse-me:
Agora c viu por que no te deixei ir... podia ser voc... festa naquele lugar sempre tem tiro... no podia dizer isto na frente deles.
Quando fomos estudar em Belo Horizonte Non comprou um apartamento na Av. Caranday. Permanecia uns tempos em MOC e outros em Bel. Maria Helena ficava sempre conosco. Ele continuava fazendo seus negcios, batalhando nosso sustento. Preocupava-me sua solido, que poderia lev-lo a beber desbragadamente. Lembro-me dele falando a um companheiro que fizera o mesmo para acompanhar os estudos dos filhos:
Compadre, j que estamos toa, vamos fazer um nigucin?
Era seu grande amigo Aleixo Pereira Lopes. Os dois, brincalhes, uma vez se sentaram no meio-fio da Avenida Afonso Pena, em horrio de movimento intenso, em frente ao Caf Prola. Cortaram fumo de rolo, enrolaram compridos cigarros de palha, que fumaram, enquanto simulavam estar negociando boiada, para espanto dos metropolitanos transeuntes, que paravam ante rurcola e cmica cena, em pleno corao de Belo Horizonte.
Nessas idas e vindas Non comeou a permanecer longos perodos conosco, acompanhando nossos estudos e proporcionando-nos inesquecveis momentos de alegria, em passeios de finais de semana, especialmente nas fazendas de v Juquita, de Tio Chiquinho (esposo de sua irm, Tia Maria) e de Tia Dila, nas proximidades de Lafayette. Ensinou os trs filhos a dirigir. Punha-nos ao volante e ficava ao lado, observando nosso desempenho e, ansiosamente, advertindo-nos nas barbeiragens. Ele acompanhou todos os nossos exames de motorista, no DETRAN. Seu carro predileto passou a ser o Itamaraty, que anualmente trocava na CISA, diretamente com o dono da empresa, seu amigo, dizendo que a melhor marca de carro era novo. Depois que tirei carteira fizemos vrias viagens, s ns dois. J fumava em sua presena e nossos papos eram timos.
Tia Dila doara uns terrenos aos Padres do Trabalho, em Lafayette. L fomos ns ao banquete. Non e eu enchemos a cara de vinho. Bebemos tanto que a soluo foi Carlinhos, o Tiboy, seu sobrinho, voltar dirigindo o carro, madrugada a dentro e cerrao brava. Chegamos, despedimo-nos do querido parente e, quando j amos subir as escadas, para o segundo andar ele no conseguiu galgar os degraus. Voltou rua, quase correndo, foi ao canteiro central, abaixou as calas e soltou o barro ali mesmo. Manh, cedinho, estava na janela, rindo de um cachorro, que cheirava o que despejara no canteiro. Chamou-me para ver. Maria Helena, ao lado, de cara fechada. Doravante teria que aguentar as cachaadas do marido e do filho mais velho...
Na Faculdade de Direito, em 1965, ficamos entrincheirados dois dias, aps uma manifestao pblica. Tomamos conta do prdio e da cantina, onde fazamos nossa comida. A polcia tentou invadir e no permitimos. Um batalho da policia militar e vrios policiais civis ficaram nas imediaes, esperando nossa rendio. Mas resistimos. Mandamos mensagem a eles no sentido de que s sairamos quando no houvesse nenhum policial nas ruas. Capitularam e samos, pela madrugada, unidos, grandiosos, vitoriosos e tranquilos. Esse fato teve repercusso nacional, apesar da censura imprensa. Mostramos ao Brasil que era possvel lutar contra a prepotncia e o arbtrio. Non tornou-se muito querido por meus colegas por ter furado o cerco policial, levado a ns vrios maos de cigarro, que jogou pelo vo de um vidro que se partira, e por ter dito a mim:
S saia com a turma!
Depois disso, quando nos reunamos, muitos me perguntavam como estava seu Non?
Xande, meu irmo caula, ainda secundarista, foi para a guerrilha. Recordo-me de Non, debruado na janela de seu quarto, chorando copiosamente, com saudade do filho. Ele me dava dinheiro para mandar para o filho atravs dos colegas-pontes entre os militantes da Ao Popular, da cidade e do campo.
Guilhermo, meu outro irmo, foi estudar em Lisboa e Non e Maria Helena o visitaram. Alugaram carro e, com ele, rodaram quase toda a Europa. Contaram-me que Non, cansado de no entender o que os gringos diziam, gritou, numa praa em Frankfurt:
No tem nem um fi duma gua aqui pra conversar comigo, no?
Apareceram dois brasileiros, que lhe ofereceram feijoada e ele ainda trouxe um certificado de cadastro do INCRA de um deles, para regularizar a declarao de umas terras que o conterrneo deixara no Brasil.
Minha relao com Non era muito carinhosa, desde a meninice. Quando ele e Lena chegaram da viagem, no Aeroporto da Pampulha, trocamos beijos e um rapaz, que estava ao lado, estranhou nosso afeto. S perguntei a ele:
, bicho, voc tambm no beija seu pai?
Em 1970, Non fez cirurgia cardiovascular, com Dr. Adib Jatene, no Hospital da Beneficncia Portuguesa, em So Paulo. Pegou uma infeco no soro, que lhe atacou o j debilitado fgado. Ainda viveria sete anos. ramos confidentes e ele me revelava suas angstias e preocupaes. Eu tambm muito triste nesta poca a ele revelava as minhas. Foi obrigado a residir em Bel por um ano, onde era assistido pelos cardiologistas Mrio Carlos Chagas Gomes (Cacau, craque do futebol de salo e meu amigo desde os tempos do Colgio Santo Antnio), Vieira de Mendona e Marclio Stortini, este ltimo seu mais afetuoso mdico, desde as primeiras crises de angina. Alguns anos antes de ser operado, Non brincava com Juquinha Pimenta, dizendo que se viesse a morrer de alguma doena, queria uma que tivesse nome bonito como strongiloides stercoralis e angina pectoris.
Em 1975, Non compareceu formatura de Xando, em Bel e, emocionado, disse:
Agora posso ir, realizei meu sonho. Formei meus trs filhos.
Contra minha vontade, ele e Maria Helena dividiram os bens, em vida. Cada um de ns ganhou valioso imvel. Deitado em seu brao, chorando e pedindo-lhe que me perdoasse pelos sofrimentos que lhe causara durante a vida, disse-me:
Cuide da parte jurdica. Sei que estou partindo e sua me tem temperamento muito difcil. No pode ficar dependendo de ningum.
At na hora da morte manteve a alegria esse Non. Quando me viu, disse:
Duto, j me despacharam, mas eu t indo contrariado. Isto aqui bom demais.
Aproximei-me do leito, levantei-lhe a cabea com uma das mos e sussurrei-lhe ao ouvido:
V, em paz, voc foi muito bom.
Chamou pelo irmo Moacir e por v Zizinha, me de Maria Helena. Foram suas ltimas palavras. Em seguida, dado o ltimo suspiro, beijei-lhe a face e, chorando, cerrei-lhe os olhos verdes. Sa, com Xando, andando pela Avenida de Nis, em caminhada nunca feita antes, sem destino e tempo, ns que tantas outras havamos feito juntos, por tantos outros motivos.
Non era to popular que tivemos que levar seu corpo para uma Igreja. L ficamos, Lena e ns trs, enfileirados, sentados em cadeiras colocadas em frente ao altar, o caixo logo abaixo, onde desfilavam amigos que nos consolavam. De repente, recebo um tapa nas costas. Era Santim Amorim que, olhando o corpo de Non, me abraa e diz:
Eta defunto grande e corado! Vai ser duro levar essa fera pru jazego! A viva t ali, chorando, de culos escuro. T inteira ainda. Se num abri o olho, logo, logo, vai ter nego assoviando no banheiro dele.
Sa para no rir em frente ao corpo e fui sacristia com Santim e Tel, onde encontrei Padre Dudu aos prantos pela perda de seu grande amigo e compadre. Choramos todos. Depois de meia-hora de bons papos, Tel disse:
Bala, vamos l no altar ver como que seu pai t passando?
O enterro de Non, em 07 de julho de 1976, foi um dos mais movimentados que j vi. O cemitrio encheu de gente. Como tinha amigos esse meu velho pai! Vi vrios pobres chorando copiosamente beira de seu caixo, agradecendo publicamente ajudas que dele recebera.
Non recebeu duas grandes homenagens pstumas. O legislativo de Montes Claros deu seu nome a uma avenida da cidade de Montes Claros e o maestro Armnio Graa Filho dedicou-lhe belssima crnica
E aqui encerro esta homenagem a meu pai, no seu centenrio, dizendo a ele as seguintes palavras: pai, voc sempre esteve e estar vivo em mim, pelo amor e pelo carinho que me dedicou durante toda sua vida. Te amo!


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Por Augusto Vieira - 7/1/2011 09:52:01
NATAL E ANO NOVO EM MINHA ALDEIA

22 de dezembro de 2010, quarta-feira. Depois do almoo, em Bel, Clia e eu pegamos estrada. A obra da reforma da rodovia estava quase finda. S umas trs pontes em fase de acabamento, perto de Curvelo e Bocaiva. Piso liso, mais de cem quilmetros de pista dupla no incio da viagem e, portanto, p no acelerador, sem medo de ser feliz. Fizemos uma s parada, ao entardecer, em Augusto de Lima, para saborear uns biscoitos fritos. Quatrocentos e vinte quilmetros em cinco horas e meia. Antes de irmos a nosso apartamento, passamos pelo Caf Galo para dar um alozinho turma. De l, ao Skema, onde entregamos uma grande e bela bandeira a Z Maria, para enfeitar o local onde seria realizado, dia seguinte, o primeiro Natal Pequistans. Depois passamos numa imensa padaria da Mestra Fininha, compramos alguns produtos indispensveis a saborosos lanches e rumamos para nossa rua, que homenageia Olmpio Guedes (irmo de Godofredo Guedes), no Morada do Sol. A temperatura baixou uns trs graus. No conseguimos disfarar nossa alegria ao entrar na garagem de nosso bonito prdio, enfeitado pela majestosa serra, que transmite aprazvel ar rurcola ao local. Depois de ajudar Clia a arrumar os terns, tirei logo o violo do armrio e de sua capa, liguei o piano digital e, sentado no sof da sala, toquei e cantei umas modinhas pra ela. Clia literalmente apagou. L bom demais pra dormir. Quase no h rudos. Se os houver, sero formosos cantos de pssaros. A gente dorme e acorda naturalmente, conforme a necessidade do organismo. Beleza pura!
No dia 23, quinta-feira, acordei por volta das oito horas da manh, fui visitar minha me e levar a ela nosso presente de natal, um perfume francs. Combinei com ela que faramos uma ceia l em casa. Liguei pra Marcelo Athayde e encomendei os pratos. Depois fui ao Caf Galo matar a saudade de vrios amigos e tomar aquele caf com leite com deliciosos pasteizinhos de carne moda, que s montes-clarenses sabem fazer. Encontrei com a prima Mrcia Vieira e fomos almoar no Automvel Clube, aquela comida deliciosa da famlia de meu queridssimo amigo e mestre Zim Bolo, vulgo Joo da Silva Prates. L tive o prazer de rever nosso ex-Prefeito e ex-Deputado Federal, o grande mdico Moacir Lopes, e Dirceu Pereira, com quem batemos longo papo. Quando retornei, por volta das duas da tarde, Clia estava acordando e preferiu comer uma lasanha, que esquentou no micro-ondas. Depois de uma boa dormida, logo que anoiteceu cheguei ao Restaurante Esquema, onde uma boa turma do grupo da repblica j se encontrava para nossa festa. Clia no foi porque faltou gua no prdio, devido a um probleminha na caixa-dgua, que nosso zeloso sndico j resolvera, mas no dera tempo de encher os trs reservatrios, que no haviam sido interligados por um fdp que trabalhara na obra. Era aniversrio de Vanessa, esposa de Rodrigo Braz e filha de meus compadres Haroldinho e ngela. Estavam comemorando ao lado do prdio, no Clube Sirius.
A festa pequistanesa foi maravilhosa. Contei cinquenta e duas pessoas. To boa quanto a de Bel, que se realizara uma semana antes. Tive o prazer de conhecer pessoalmente muitos cidados de nossa repblica, especialmente um dos trs mosqueteiros, o Rogrio Borges, com a esposa e um de seus filhos, um garoto inteligentssimo. Todos fizeram questo de bater fotos, emolduradas por nossa linda bandeira. Elas j esto publicadas em nossa pgina do Facebook. Z Maria serviu um arroz com pequi e carne de sol supimpa. Sa por volta de uma hora da madrugada e ainda tentei pegar a festa do aniversrio de Vanessa. Infelizmente no consegui chegar a tempo. Mas, da janela de meu apartamento, tive o prazer de falar com meu compadre Haroldo Veloso, pai da aniversariante, que ainda se encontrava no clube que ele construiu, com o mesmo carinho com que dirigiu a obra de nosso prdio.
Acordei feliz na sexta-feira, 24 de dezembro, vspera do Natal. Visitei minha me e depois, no Caf Galo, participei do sorteio de duas cestas de natal, que meu querido amigo Gil Pereira realiza todos os anos. Sa, peguei almoo no Esquema e, por volta das seis horas da tarde, liguei a minha me, para traz-la para nossa ceia, conforme havamos combinado. Ela simplesmente me disse que no viria, porque estava indisposta. Desejei a ela um feliz natal e fiquei em casa, com Clia, onde recebemos e demos inmeros telefonemas a vrios amigos, ouvimos timas msicas e saboreamos a deliciosa ceia, um pouco tristonhos, claro, pela ausncia da grande homenageada daquela noite de Natal.
Descansamos, como nunca, no sbado e no domingo.
Na segunda-feira, 27 de dezembro, resolvemos instalar um ar condicionado em nosso quarto de dormir, ventiladores nos outros dois quartos, pontos de TV a cabo e internet, e comprar umas telas para enfeitar nossa sala de visitas. Ficamos felizes com o sucesso dessas empreitadas. Tudo deu certo e, j na vspera do Ano Novo, dormimos no maior conforto, felizes por vermos em nossas paredes uma tela de Afonso Teixeira (catop) e trs (pinturas rupestres) de minha querida prima Mrcia Prates, cujos ateliers visitamos. No de Afonso Teixeira fui com Tico Lopes e tive o prazer de conhecer pessoalmente o mosqueteiro pequistans Armando Barros, que me brindou com belas msicas ao saxofone. O cara bo dimuais.
Na quarta-feira, 29 de dezembro, tivemos uma bela noitada na casa de Rogrio Borges. O cardpio foi uma deliciosa paoca, feita pela esposa dele, e um arroz com pequi e carne de sol, feito pelo prprio Rogrio. Tico Lopes presente. Ouvimos dois filhos de Rogrio tocar lindas canes ao violo. Tambm l, conosco, o pequistans Carlos Jos Leal e esposa. Figuraa esse Carlos! Que educao! E que astral maravilhoso! Tico e eu resolvemos agradecer aos filhos de Rogrio, tocando vrias msicas de nosso tempo, recitando poemas e contando alguns causos. Que bela famlia! Pais e filhos parecem mais amigos fraternos. Que carinho uns com os outros! Bateu saudade de meu querido Ewany Borges, to carinhoso quanto.
Na sexta-feira, 31 de dezembro, visitamos minha me e ela resolveu sair conosco para um passeio pela cidade e para um barzinho. Fomos ao Esquema e ali, numa mesa repleta de amigos, minha velha bebeu duas doses de usque e teve a alegria de rever filhos e netos de vrias pessoas a ela ligadas. Depois a levamos sua casa, desejamos-lhe um feliz ano novo e fomos nos preparar para virar o ano na casa de D. Aparecida Carvalho, a convite de meu compadre Haroldo Veloso.
Belssima virada de ano. Rezamos um tero, com D. Aparecida ajoelhada perante um lindo altar caseiro, todo o tempo, comandando a orao. Depois do foguetrio e das confraternizaes saboreamos uma deliciosa ceia. Tomei vrias doses de usque com meu compadre e ficamos, na sala, a bater maravilhosos papos at a madrugada. Clia adorou D. Aparecida. Ela a convidou para um cruzeiro. Contou suas viagens internacionais, sem saber que Clia morre de medo de navegar e que enjoa facilmente no mar. Quando a estava quase convencendo a viajar, narrou que, no ltimo cruzeiro que fizera, a sogra de um de seus filhos, Juninho, falecera no navio, e que uma outra amiga cara da cama durante uma tempestade em alto-mar. Haroldo e eu, sabedores do medo de Clia, quase morremos de rir. Quando D. Aparecida terminou a narrativa, com a maestria que s ela tem, Clia deu dois beijos em sua face, em agradecimento ao afetuoso convite. Pode esquecer-se desta companheira para suas futuras aventuras martimas, minha querida D. Aparecida. Sua famlia uma das coisas mais lindas de minha aldeia. Se pudermos, e Deus nos permitir, sempre viraremos novos anos em companhia de vocs, mas nunca num transatlntico. Felicidades para a senhora, querida amiga! E para todas as pessoas que a senhora ama.
Depois da festa da virada, passamos o sbado, primeiro dia do novo ano, descansando em nosso apartamento, todo arrumadinho, e ainda almoamos arroz com pequi e picanha, em companhia de Haroldinho e Rodrigo Braz (nunca vi sogro e genro to amigos!).
No domingo, segundo dia do novo ano, aps as despedidas de praxe, retornamos a Bel, numa viagem tranquila, de apenas cinco horas, trazendo, com carinho, trs mudas de pequizeiro para Daniel Jobim, neto do grande Tom, plantar em seu stio, em Petrpolis.
Ainda com as cabeas voltadas para os momentos felizes que vivemos em Montes Claros, estamos de malas prontas para a Bahia de Todos os Santos, onde Clia certamente ficar quietinha, na beiradinha do mar, sem sequer pensar em entrar num barquinho, sempre nos lembrando da alegria do convvio com to generosos e fraternos amigos, especialmente de nossa virada de ano, sob o comando desta extraordinria navegante e conquistadora de coraes chamada Aparecida Carvalho.
Muito obrigado por tudo, especialmente pelo carinho, gente boa de minha adorada e pequistanesa aldeia! Tudo de bom pra vocs!


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Por Augusto Vieira - 14/12/2010 13:29:50
A CHARADA DO CAIPIRA

1960, ms de junho. Meu pai resolveu fazer uma festa de So Pedro na Fazenda Santa Mnica, no Levantado, perto do rio Caititu. Convidamos amigos e parentes. Foi um festo. Por volta da meia-noite, reunimos uma turma em volta da fogueira, onde assvamos batatas-doces e milhos-verdes e comeamos a fazer charadas. Cumpade Z Lopes, um dos empregados da fazenda, assuntava a prosa e, depois de ouvir muitas charadas, resolveu fazer uma. Levantou-se, mirou-nos a todos, pigarreou e disse:
Onde o avio passa o boi berra. 10 e 12.
Matutamos bom tempo e nada de matarmos.
, cumpade, num deu, desembucha logo.
Cumpade Z Lopes sai com esta:
Onde o avio passa: ari; onde o boi berra: bu. Aribu.
Cumpade, e os 10 e 12???
Ele responde:
Sei l, aprindi faz charada hoje?!?!


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Por Augusto Vieira - 27/11/2010 14:22:58
TRAIANA

Este caso foi contado a mim por "Baiano", na Fazenda Vaca Brava, de meu tio Air Vieira. Baiano trabalha l. Foi recentemente escolhido para ser o "James Bondimuais" da Repblica do Pequisto, cuja capital nossa aldeia.
Vejam que histria bacana.
Aquele, sim, que era um capataz de confiana. Bom de gatilho, excelente vaqueiro, tocador de viola, valente e forte como um touro. J trabalhava na fazenda h mais de vinte anos. Mandara uns quatro cabras safados comer capim pela raiz, po...r causa do patro que, propriamente falando, no lhe ordenava matar ningum: simplesmente dizia ao leal escudeiro que estava com antipatia de determinada pessoa. Essa palavra era o cdigo. Pouco depois o dito cujo se despedia deste vasto e perigoso mundo de Deus, com um furo de bala dundum do lado esquerdo do peito.
O patro era herdeiro nico daquela fortuna, lotada daqueles bois brancos, gordssimos, que passavam a maior parte de suas vidas com a cabea inclinada para baixo e a boca colada ao frtil solo, pastando calmamente aquele nutritivo capim nativo. Criado na mordomia, no era muito chegado ao trabalho. Recebera muito peixe e no se habituara a pescar. Gostava mesmo era de praticar esportes de alcova. E no media esforos nem dinheiro para tal. Com a gorda, alegre e palradeira esposa, apadrinhara o casamento do capataz com Tonha, moa faceira, criada na fazenda e que, sobre ser prendada, ativa e caprichosa, se transformara na mais cobiada beleza matuta das redondezas. Logo aps o casamento comeou a mandar o capataz entregar boiadas em plagas longnquas, vrios dias de viagem. E o assdio era dirio e sutil. A empreitada, em tais circunstncias, s poderia ser vitoriosa.
Um belo dia o capataz aproximou-se do patro e, em tom grave, disse:
Patro, preciso ter uma conversa muito sria com o senhor.
O homem tremeu na hora. O que ser, meu Deus? Ser que ele est desconfiando? Ser que ela contou? Mas controlou-se, pensou um pouco e jogou gua fria na fogueira, combinando que, no sbado, iriam cidade e conversariam.
Cedinho, mal o galo cantou pela primeira vez, sem que ningum ainda tivesse acordado, saram na caminhonete, os dois na bolia, taciturnos. O nico rudo que se ouvia era o do motor do veculo. Quando o sol j esquentava o capataz rompeu o silncio:
Patro, chegou a hora de nossa conversa sria.
Novo tremor, desta vez nas pernas. A nica coisa que conseguiu fazer foi por a mo direita na coronha do 38 que, deliberadamente, colocara na cintura. Era s dar logo um tiro certeiro, queima-roupa, e deixar o corpo naquele geraizo. Quem desconfiaria?
Desembucha logo, cabra.
O capataz, na maior tranqilidade:
Patro, Tonha t traindo ns dois?!?!


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Por Augusto Vieira - 24/11/2010 01:45:25
Jos Luiz Barbosa e a "Menina de Salinas"

Fantstico tocador de violo, contador de piadas, leitor voraz de bons livros, segundo marido de nossa querida tia Antnia Veloso, de nossa Escola Normal, sempre elegante, l vai meu querido Jos Luiz Veloso, de terno, gravata e chapu. Pai, dentre outros, de Osmane Barbosa, Cor, Chiquito Moria, Tereza e Silvinha, frequentava minha casa, na Presidente Vargas, porque amicssimo de meu pai. Era mais assduo, no entanto, na Agncia Lotrica A Preferida, de meu av materno, Donato Quintino. Gostava muito tambm do bar de seu Tito dos Anjos.
Uma vez, sentados em cadeiras, no passeio da agncia, ele, seu Mundinho Dias e meu av, j bem velhinhos, foram surpreendidos, em suas vises obnubiladas por cataratas, com a imagem de trs lindas moas, desfilando na Rua Quinze. Mexeram com elas, jogaram piadas sutis, fizeram fius-fius e, depois, levaram a maior bronca. Eram Tereza Dias, Silvinha e minha me. Incrvel coincidncia. Uma filha de cada um deles.
Iara Tribuzzi, grande escritora, autora de Menina de Salinas, neta por afinidade, gostava muito de Z Luiz e lhe dava o brao, passeando por nossas ruas. Explico: Iara filha de D. Wanda, que filha de tia Antnia, no seu primeiro casamento com Jos Versiani dos Anjos. Iara contou-me duas histrias interessantssimas. Vamos a elas.
Num certo domingo, indo missa com familiares, ao atravessar a Praa da Matriz, Z Luiz comentou:
Gosto muito mais de missa que no demora tanto, daquelas em que o padre d trs gemidos e acaba.
Depois da celebrao, do saudoso Padre Dudu, subindo a Dr. Veloso, antes de cruzar a Governador Valadares, ainda com os parentes, Z Luiz deu uma paradinha e decidiu enftico:
Olha, gente, j rezamos demais por hoje. Padre Dudu tomou l a bebida dele e nem nos ofereceu. Ento, vocs me do licena que eu vou ali no Tito tomar a minha.
Bastante idoso, Z Luiz j andava devagarzinho, quase arrastando os ps ao cho. Uma vez, durante sua costumeira ducha matinal, ainda debaixo do chuveiro, gritou filha:
Acode, Tereza, estou paraltico!
Tereza, preocupada, chamou Cor para ajud-la. Encontraram o pai trmulo. Fecharam a torneira e constataram que ele se esquecera de tirar os chinelos, daqueles fofos, antigos, que, molhados, se tornavam pesados que nem chumbo.
Figuras como Jos Luiz Barbosa e tiaAntnia Veloso se eternizaram na memria de nossa aldeia, como exemplos marcantes de dignidade humana, do querer bem aos conterrneos e do amor vida. E como eles fazem falta neste nosso mundo to louco, intolerante e cheio de ausncia de amor, como diria o tambm imortalizado Henrique Chaves!


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Por Augusto Vieira - 20/11/2010 06:13:20
AMO-TE MUITO, NOSSO CANTO CENTENRIO

Minha querida amiga Lola Chaves. Acabo de receber seu convite para comparecer s comemoraes do centenrio de Amo-te muito. Estava de malas prontas e levaria comigo os amigos Raphael Reys e Nadim Bechara Andere, mas Clia teve um problema de sade e no pude viajar. J que no viajei, quero fazer, por estas linhas, uma curta excurso ao tempo. Conheci seu pai, quando menino, na agncia lotrica A Preferida, de meu querido e saudoso av materno, Donato Quintino. E da, ento, nunca mais deixei de gostar dele e do precioso cl dos Chaves. No dia em que o conheci ele estava com um terno cinza, gravata borboleta vermelha e sapatos marrons. Elegantssimo e cheiroso. Curti muitas vezes os papos dele, de seu Mundinho Dias, de Jos Luiz Veloso e de Joo Flix com meu av, todos sentados no hall de entrada da agncia, em pequenas e bem torneadas cadeiras de madeira. No escritrio de meu av sempre ficavam um violo e uma pinguinha da boa, hbito que herdei e conservo. E vi, muitas vezes, seu pai e meu av, l dentro, fugindo do murmurinho, a curtir msicas. E como eram amigos! Herdei essa amizade, que se estendeu, no decorrer de nossa travessia, a voc, Sidney e, muito mais, a Henrique. Com voc ainda tenho a alegria de cultiv-la. Com Sidney e Henrique no mais, nesta vida. Mas nunca me esqueo dos momentos de fraterno respeito e coleguismo que compartilhamos. Tenho muita saudade de seus dois irmos e gostaria imensamente de estar a, nesse momento to sublime, para homenagear tambm s suas memrias.
Amo-te muito, Lola, nosso hino. a msica que habita o corao de toda as gentes de nossa pequistanesa aldeia. a msica que o pas inteiro conhece e canta e, por isto, a cano que nos orgulha. Neste momento to importante, em que celebramos o centenrio dessa obra de arte de seu querido pai, imortalizado por tudo o que fez por vocs e por ns, abrao, com carinho e afeto, todos os Chaves.
Um grande beijo, minha cara amiga! Muito obrigado pelo amvel convite, que j est colado no lbum das coisas que me so mais caras nesta vida.


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Por Augusto Vieira - 25/10/2010 19:02:12
PARA RUTH TUPINAMB

Suas eternas lembranas e as narrativas sobre momentos da grande amizade que existiu entre meu pai, Lucinho Narciso, Wilson Athayde e seu amado Armnio Graa me encheram de saudade, esse barco sem rumo que jamais ancora.
O Conde Armnio Graa parecia artista de cinema. No foi toa que um de seus filhos, Alberto, tornou-se um dos grandes cineastas brasileiros. A chegada dele minha casa, na Presidente Vargas, era passaporte da alegria. Impecavelmente bem trajado, perfumado, parecia Gary Cooper se preparando para atuar numa cena de mais um filme. Minas mos sumiam nas dele, imensas, na hora do cumprimento. Eu ficava ali curtindo seus causos e suas brincadeiras, vez por outra tambm participando. Sua retirada nos entristecia.
Esses quatro fazendeiros (Armnio Graa, Wilson Athayde, Lucinho Narciso e Norival Vieira), personagens de meus livros, foram, todos eles, pessoas interessantssimas, emblemticas de nossa aldeia. Lembro que, adolescente, disse a Lucinho e a Non para deixarem de comprar e vender, um ao outro, a mesma vaca, que j estava ficando velha e cansada de tanto transitar entre as duas fazendas. Ningum tirava deles o prazer do nigucin. Ao contrrio de Lucinho, Non me dizia que fazenda empobrecia, embrutecia e envelhecia e que s era bom quando era vendida. Comprava uma, dava uma arrumada, que chamava de mel de coruja, passava pra frente e ganhava um bom dinheiro para nos proporcionar a melhor vida possvel. Que nem o Conde, s que ele as arrumava muito melhor, transformando-as em verdadeiros brincos. Conheci quase todas. Hoje tudo mudou. asfalto pra tudo quanto lado, produtos vontade para cuidar dos rebanhos e das plantaes e muita tecnologia. Tudo ficou mais fcil, o que suponho, embora quase todos os fazendeiros que conheo continuem a se queixar dos negcios.
Amizades iguais s deles, hoje em dia, coisa muito rara. As pessoas se tornaram muito competitivas e intolerantes. Eles, ao contrrio, celebravam os ganhos financeiros e as alegrias familiares uns dos outros. E como foram honrados! No precisavam de documentos para concretizar os nigucins. Documento, para eles, era a palavra dada. Gente assim est acabando, minha querida e renomada escritora.
A maior homenagem pstuma que meu pai recebeu foi uma crnica de seu filho, o festejado maestro Armenio Graa Filho, relembrando fatos de sua infncia. Non e Armeninho foram muito ligados e batiam longos papos. E como filosofavam, aquele velho catrumano maduro e aquele menino inteligente e audacioso! Non, que partiu to cedo, completaria 100 anos no prximo dia 10 de fevereiro de 2011. Imagino como seria a festa. Cu coalhado de estrelas, luar maneiro e romntico e os quatro sentados beira de uma imensa fogueira, assando uns milhos-verdes e umas batatas-doces. Non, chumbado, cantando umas modinhas; Lucinho confeccionando e depois fumando seu cigarrinho de palha; Wilson tomando caf bem quente com paoca e o Conde Armnio Graa alegrando a todos com suas espirituosas brincadeiras. Que astral!
Muito obrigado, minha querida tia Ruth Tupinamb, em meu nome, no de Lena, e de Guilhermo e Xando, pela maneira to afetuosa e sincera com que voc retratou nosso Non, em sua belssima crnica.


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Por Augusto Vieira - 28/9/2010 10:30:19
MALUCOS-BELEZA

O grande pinguo de minha aldeia foi Bem Pau Vio, de estatura elevada e traos finos, irmo de Santim, Sinval e Z Amorim. Quando parava, por uns tempos, de beber, a abastada famlia o produzia com um belo terno de linho branco, gravata vermelha, camisa de seda e sapatos caros. Inesperadamente, dava uma recada e virava um molambo. Vendia as roupas e os sapatos para golear. Aproximava-se das pessoas e ia logo dizendo:
Morreu, leo, eh, tigro!
Um alto funcionrio do Banco do Brasil, Leo Cassulo, aporta em MOC. No primeiro dia de trabalho, indo o digno bancrio agncia, cruza com Bem Pau Vio, que o encara e exclama:
Morreu, Leo!
O homem quis deixar a cidade, na hora, no fossem os convincentes esclarecimentos dos colegas.
A ltima vez que vi Geraldo Tatu ele j estava velhinho, mas com a mesma alegria, residindo numa casa de caridade. Conheci-o em minha infncia. Sempre sorridente, com seus cabelos lisos, dentes falhos nicotinados, rosto magro e plido, barba rala por fazer, dedos longos e unhas amareladas, Geraldo fumava sem parar e dava apenas trs a quatro tragadas para consumir um cigarro. Cantava o Ouvirundum, o Japonis tem quatro fio, Chiquita bacana, Encosta sua cabecinha no meu ombro e chora e muitas outras msicas da poca. Quando no sabia toda a letra criava trechos e mesclava com os originais, simulando estar lendo o que cantava numa folha acinzentada, de papel de embrulhar po. Aps cada msica balanava a cabea como que buscando aprovao e aplausos, que sempre vinham efusivamente. Passada a cantoria, vinha um bom papo, regado a caf grosso e imensas baforadas:
Geraldo, quantos anos c tem?
Tenho trinta e cinco e doze ani, fora cinco qui eu mamei, fora deis qui eu morei na barriga de mame e fora treis qui eu tinha quando era piquene!
Onde c mora, Geraldo?
Bem, qui eu moro l atrs da Fbrica de leo Mariprsa (o nome era Mariflor). A oc passa numa casa qui tem um tanto de cachorro, mas os cachorro num morde no e num ainda l qui eu moro no! Dispois oc caminha cinco metro e v uma casa qui tem uma arvre grande. Mas num l ainda qui eu moro no. Passa essa casa e encontra um monte de bosta de boi no caminho. Cuidado pra num pis nela. Anda mais trs casa e chega numa casa azul. Mas num l qui eu ainda moro no.
Eu morria de medo de Requeijo. Soturno, grandalho, longa barba e bigode espesso, vozeiro tonitruante, sempre carregando um saco s costas. Era s a meninada gritar Requeijo e ele soltava os mais feios nomes do vocabulrio de ento. O interessante que ele gostava muito de requeijo. Chegava ao bar de Santim Amorim, na antiga Rua Quinze, apontava para a bandeja e exclamava:
Me d logo um pedao dessa disgraa, a!!!
Estava na Matriz e um gaiato o chamou pelo apelido. Levantou-se, fixou os olhos na figura e bradou, no meio da missa:
Olha aqui seu filha da puta, eu num te xingo agora di fi duma gua porque t aqui dentro da Igreja, mas quando eu sair l fora oc me paga!
Quinhento Pro Cadver, o Paulista, residia num barraco, no bequinho, ao lado da antiga fbrica de tecidos, ali na Coronel Prates, perto da Santa Casa. Deve ter sofrido grande drama, porque vivia na mais absoluta solido, amparado apenas, suponho, pela famlia de seu Meinardo, seu elegante e bondoso vizinho, que residia em frente avenida. Seus cabelos, sedosos, eram cinzentos. Sua barba fechada, ponteada por fios embranquecidos, ora feita, ora por fazer, emoldurava um rosto fatigado e um olhar tenebroso. Fumava desbragadamente, ora cigarros, ora um cachimbo, e cuspia grosso. Seus dentes, escurecidos pela nicotina, eram grandes e pontiagudos. Sempre andava com um terno cinza, ora limpinho, ora sujo. Em certos dias, de lucidez, penso, limpava seu corpo, sua roupa e seus sapatos, para caminhar pelas ruas, usando uma gravata borboleta vermelha e um elegante chapu cinza, relembrando o tempo em que fora feliz e saudvel. Tinha uma doena crnica nas pernas. Seus passos eram milimtricos. Andava com o corpo inclinado para baixo. Gastava horas para fazer o percurso, de menos de um quilmetro, de seu barraco at o antigo mercado da Praa Dr. Carlos. E a meninada, ao v-lo passar, gritava, em coro, para irrit-lo: Quinhento pro Cadver!!! E recebia de volta os mais requintados xingamentos daquele moribundo que mal conseguia se manter nas prprias pernas e erguer a cabea, especialmente nesses momentos de extrema ira. Com o tempo passou a usar uma bengala, o que impedia a garotada de aproximar-se de seu dbil corpo para provoc-lo.
Minha me fala muito num tal de Sacudo, mas desse eu no me lembro.
Tenho vagas lembranas de Lala, renomado pintor. A meninada cantava: alala, , , , , , ! E vinha a resposta: a puta que pariu, riu, riu, riu, riu, riu, riu!
De Joo Doido sei apenas um caso. Ele comprou um pastel no Bar de seu Tito, na Governador Valadares com Simeo Ribeiro. Saiu do bar e retornou logo depois, querendo devolv-lo e receber o dinheiro de volta, alegando que no tinha carne. Seu Tito no aceitou seus argumentos e ele deixou o bar esbravejando:
Comprei um pastel no bar de seu Tito. O pastel no tinha carne. Seu Tito no quis devolver meu dinheiro. Seu Tito ladro.
Beto j foi dos mais modernos. Um negro de quase dois metros de altura, protegido pela turma das casas de peas de automveis, da regio da Praa de Esportes. Andava, a carter, pela cidade, conduzindo seu carrinho de madeira, com pequenas rodas de borracha e um imenso volante. Parava o trnsito. Dava sinal para os carros e ai de quem lhe tolhesse as caminhadas! A buzina vinha de sua voz, alta e grossa.
Marreco era protegido de seu Antnio Reino, da Sorveteria, e no importunava ningum. Muito alto e desengonado, costumava frequentar reunies de nossa Cmara Municipal e dar palpites do plenrio.
Das mulheres me recordo de Mila e Lena Doida. Mila, quando provocada, levantava a saia e mostrava suas intimidades s pessoas. Lena era mais comedida. Engravidava quase todo ano. Frequentava o Bar de Zim Bolo. Uma vez ela foi ao Cine So Luiz ver o filme Cabar Mineiro, de Carlos Alberto Prates Correia. Eu fizera uma ponta, como figurante. Quando me viu na tela Lena aprontou o maior escarcu, gritando, vrias vezes, mesmo depois da cena: Augusto Bala Doce!
Gaguinho o apelido de Felcio Fernandes. Jogava futebol na ponta-esquerda. Era assduo frequentador da Sapataria Nossa Senhora de Ftima, de Tio Boi. Semianalfabeto, um dia deu uma de poeta e recitou:
Tu, no seja j.
Vem, vrgola,
parte omana.
Me chama Judite,
Me chama Zabel.
E vem sabe.
E ponto final.
Choveram entusisticos aplausos. Recentemente o revi no Caf Galo e ele, a meu pedido, recitou esse indecifrvel nico poema de sua vida, sem nome e sentido.
E para terminar, recordo-me de um vizinho de nossa aldeia. Era o famoso Leonel do P de Caf, de Corao de Jesus. Vinha a Montes Claros, aos sbados, e seu ponto predileto era a vendinha de Orcio, na Av. Afonso Pena, quase com Presidente Vargas. Pedia uma banana e uma pinga, pagava adiantado e as degustava. Depois falava, com lngua presa e voz tonitruante:
Cunstru um roporto ni Corao de Jesuzi sumana passada. Gastei dois bilo de doles, por segundio!!! Cs num ouviu o bario do Consteleicho, zuando no cu? Tava ino inaugur. Foi um festo. Trezentas mil pessoa pru minutcho! O Prisidente da Repblica, Getuio Varga, cumeu pequi qui nem uma mula! At pass mar o coitado! Pegou um piriri danado.
De todos esses malucos-beleza o nico que ainda sei estar vivo, para minha alegria, Gaguinho. Mas tenho certeza de que, especialmente os aldees de minha gerao, prantearam os que partiram, na esperana de que eles tenham encontrado, numa linda estrela, a paz que no tiveram entre ns.


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Por Augusto Vieira - 23/9/2010 06:50:50
FICHA LIMPA E ELEIO

muito perigoso para a cidadania o fato de seus representantes baixarem leis que ferem princpios fundamentais da ordem jurdica, estabelecida pelo poder constituinte originrio. Aristteles chamava o governo de todos por todos de demagogia. Infelizmente ainda no chegamos a um nvel de civilizao em que todo cidado seja capaz de governar. O governo direto pelo povo um ideal a ser atingido, mas ainda um perigo para a democracia que , sobretudo, um caminho: o da construo da liberdade. Liberdade no coisa estratosfrica. conquista histrica dos homens e, portanto, nossa. Deve ser cada vez mais pujante, concreta e menos formal.
H muita gente aplaudindo a chamada lei da ficha limpa. Com todo respeito aos que pensam assim, nunca a enxerguei com bons olhos. Todo cidado presumido inocente, at deciso definitiva do poder judicirio. No se pode, pois, cercear direitos, inclusive os de natureza eleitoral, a um cidado que responda a um processo, de qualquer natureza, em tramitao na justia, sem deciso definitiva.
Devemos, neste momento de fulgor cvico que a eleio, cada um de ns, de acordo com nossa conscincia, escolher os melhores. Anular o voto ou votar em branco nunca foram contribuies construo da democracia. Ouo muita gente dizer que est desiludida e que, se pudesse, nem votaria. Sem embargos da discusso sobre a obrigatoriedade do voto, a esses digo: ruim com nossos polticos atuais? Pior sem eles. Ns que devemos escolher bem. E ainda h muita gente boa para ser escolhida. Tenho visto e ouvido, diariamente, o horrio poltico da TV. Todas as propostas de governo esto divulgadas e esclarecidas opinio pblica. Basta que eu julgue o que ser melhor para meu pas e para meu estado e faa minha escolha. E sentirei, no dia 3 de outubro prximo, aquele orgulho cvico de ter exercido minha cidadania.
O que espero que o STF tenha o bom senso de no ferir o direito fundamental da presuno da inocncia, pilar do Estado democrtico de direito. Amanh, qualquer um de ns poder ser vtima desse desatino. Uma das piores coisas do mundo ser condenado em prejulgamento de um juiz no natural, a quem a constituio e as leis no atribuem o sagrado poder de julgar. Espero que nossos maiores representantes nessa nobre funo pblica no atendam ao clamor de massas incultas, industriadas por mdias irresponsveis, que vm se erigindo em autnticos tribunais de justia.


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Por Augusto Vieira - 2/9/2010 07:24:08
CAIA NAS REDES!

Confesso que eu tinha um certo preconceito contra as redes da internet. Estava acostumado a comunicar-me, por e-mails, apenas com os amigos que constavam de minha lista de contatos. Com o passar do tempo comecei a ouvir, de vrias pessoas mais jovens, referncias a um tal de Orkut. Entrei timidamente e vasculhei o programa. Senti que a rede era segura e convidei gente que eu conhecia a esse novo tipo de relacionamento, a amizade ciberntica. E no que deu certo? Do Orkut parti para o MySpace, dele para o Facebook e finalmente cheguei ao Twitter.
Hoje converso com amigos espalhados pelo mundo inteiro. Claro que h aqueles que preferem uma rede a outra. Mas como estou nas mais conhecidas, uso todas para matar saudade deles, dar notcias minhas e saber o que andam fazendo. Atualmente a quase totalidade de meus contatos so feitos atravs de redes eletrnicas, de forma instantnea, ao vivo. E como tenho feito novas amizades!
A verdade que a internet facilita a vida da gente. s saber us-la. E isso fcil de aprender, porque os programas modernos so autoexplicativos. Hoje, em sua telinha particular, voc l livros e quase todos os jornais do mundo, v inmeras emissoras de televiso e filmes, ouve msicas, produz e grava vdeos, fala com amigos vendo as imagens deles e eles vendo a sua, pesquisa qualquer assunto que lhe interessa, faz compras, paga contas e ainda monta seu site e seu blog sem gastar um tosto. Basta ter um bom provedor de banda larga e navegar a uma razovel potncia. Que ferramenta maravilhosa! Revolucionou minha vida e espero e desejo que faa isto com as de milhares de brasileiros, especialmente os de menor poder aquisitivo, porque internet, diferentemente do que eu imaginava, tambm cultura. Ela no nos afasta. Ao contrrio, atravs dela timos encontros so programados. E voc pode at namorar, o que no mais o meu caso.
Quem diria que esse dinossauro se adaptaria a esses novos tempos! Dinossauro que, antes, tivera preconceitos at contra computadores individuais e que, agora, no vive sem o seu e ainda divulga seus escritos pela internet.
Caia nas redes, amigo, no fuja das mordomias da modernidade. Entre de cabea, sem medo de ser feliz e deixe a vida te levar. Vale a pena.


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Por Augusto Vieira - 19/8/2010 09:13:29
NAS ASAS DA COWAN

Sempre que vou para os lados do Aeroporto da Pampulha, de preferncia tardinha, dou uma passada na sede administrativa da COWAN, especialmente para visitar trs amigos de juventude: Saulo, Ricardo e Lindolfo. Revi o primeiro trator da empresa, recuperado pelos empregados e dado de presente de aniversrio a Walduck, antes de ele no deixar. Bateu mais forte a saudade quando vi seu busto, ao lado da entrada do prdio da diretoria. Desta vez cheguei numa hora muito boa. Saulinho e Bruno, filhos de Saulo, estavam em seu primeiro dia como diretores. O pai, agora, preside o Conselho de Administrao. Saulo triplicou a COWAN, que hoje comanda mais de vinte associadas espalhadas pelo Brasil, em diversas reas da economia: transportes, petrleo, construo pesada e minerao. Estava tranquilo, como sempre, e muito feliz pela desconcentrao de poder. Perguntou-me se eu j havia visto petrleo. Respondi que s em filmes. Ele, ento, abriu um pequeno cilindro de plstico que estava sobre sua mesa, contendo uma poro do ouro negro e entregou-me. No sabia que era to pastoso e que tinha cheiro de piche. Visitei Saulinho, Bruno, Ricardo e Lindolfo. Encontrei Cludio, que foi meu centroavante no Cassimiro de Abreu e engenheiro da empresa, saindo do trabalho. Disse-me que estava de partida para o Mato Grosso do Sul, para tocar uma obra, perto de Corumb.
Despedi de todos e fui at meu carro. Lindolfo acompanhou-me. Relembramos, ainda, histrias do velho Wanderley e de Walduck, at surgirem outras, mais recentes, das quais trs merecem meno.
No ltimo julho, Saulo foi buscar um novo avio em Miami e levou alguns amigos, inclusive Odorico. Disseram-lhe que a embaixada, em So Paulo, estava rigorosssima, exigindo vrios documentos, alm do passaporte, para dar o visto. Odorico, mesmo acostumado a viagens internacionais, meticuloso, foi na onda dos malandros e levou uma pasta, tipo James Bond, repleta de documentos. Segundo Lindolfo, nela havia at diploma de congregado mariano, assinado por Padre Dudu. Na embaixada, para sua surpresa, um funcionrio apenas pegou seu passaporte, conferiu a foto, disse OK e meteu o carimbo. Depois, j em Miami, os sacanas induziram-no a usar terno e gravata para receber o avio. Disseram-lhe que todos iriam assim. Vi a foto. Todo mundo vontade, parecendo estar indo a uma praia, e ele ali, naquele imenso calor de vero, trajado como se fosse (o que ele habitualmente faz) adentrar a uma Cmara de um tribunal para sustentar oralmente uma causa.
Odorico, que no de levar desaforo pra casa, deu o troco. Inventou a seguinte histria: voavam, neste mesmo novo avio, alguns diretores e funcionrios da COWAN, com vrios tcnicos da Petrobras, para uma visita ao poo perfurado no Esprito Santo. Lindolfo junto. Um dos tcnicos tinha pavor de avio e, para segurar a barra, no permanecia quieto em sua poltrona. Percorria o corredor, sentava um pouquinho, levantava-se e repetia a caminhada. Aquilo foi irritando Lindolfo. Os demais passageiros tambm estavam incomodados, mas faziam olhos e ouvidos de mercador ao irrequieto e palrador caminhante, que j perturbava o vo por mais de meia hora. De repente Lindolfo encarou o sujeito e perguntou:
Escuta aqui, meu amigo, por acaso voc tem algum problema no fiof?
Lvido, o impaciente cientista, desacostumado a tanta franqueza, nem respondeu. Saiu de mansinho, ocupou sua confortvel poltrona e nela permaneceu at a aterrissagem. Desembarcados, Lindolfo apontou o dedo para o dito cujo e exclamou para todos ouvirem:
Feliz o cara que tem um professor de minha envergadura. Esse companheiro aqui nunca mais perturbar um voo.
Gargalhada geral, inclusive do mais novo discpulo do mestre Lindolfo, Ministro da Aeronutica da Repblica do Pequisto, cujo Premier Tino Gomes e cuja capital Montes Claros, nossa querida aldeia.


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Por Augusto Vieira - 14/8/2010 18:33:28
A era do livro digital

Estamos na era do livro digital. Grandes empresas esto copiando e digitalizando todos os livros existentes no mundo. Vrios programas esto sendo postos em prtica. A Google saiu na frente. Um jovem amigo meu, dono de livraria, j fez vrios cursos e participou de seminrios sobre o assunto, em So Paulo. Disse-me que hoje possvel voc viajar ouvindo um livro. No precisa mais nem de ler. Levou-me at seu carro e demonstrou. Ouvi, atravs de um CD, um captulo inteiro de um livro, narrado, com os dilogos protagonizados por atores. Achei genial. E o CD oferecia opes: alm de poder ser ouvido, o texto poderia ser lido em computadores. J pensaram que barato? Viajar ouvindo um bom livro?
Livros tcnicos e didticos, estes ento, todos, sero digitais. Os meninos no precisaro mais daquelas pesadas mochilas, que afetam suas colunas vertebrais. Levaro apenas seus crebros para as escolas.
E a ecologia? Ser preservada, pois a indstria do papel, altamente poluente, perder muito mercado.
Digitalmente muito mais fcil preservar a cultura da humanidade. Voc pe fogo numa biblioteca comum (j queimaram at a de Alexandria), mas jamais conseguir apagar uma biblioteca digital, porque ela estar nos satlites e em milhares de computadores do mundo.
Ainda veremos, por algum tempo, a convivncia dos dois sistemas, mas ningum me convence de que essa meninada que vem vindo a ler jornais, revistas ou livros impressos. Sero legatrios de grandes homens, como Jos Mindlin e outros amantes e colecionadores de livros impressos em papel, porque, no fossem eles, certamente as bibliotecas digitais no teriam em seus acervos grandes obras da humanidade. Os espaos sero reduzidos aos que, como eu, ainda gostam de sentir, antes de ler, o cheirinho de um livro. Mas os meninos de hoje tambm gostam do cheirinho de um software. Ns, os dinossauros, que nos adaptemos aos novos tempos.


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Por Augusto Vieira - 6/8/2010 19:15:09
BALA 70

Picolino mandou-me um e-mail que disse ser a entrevista de um mdio gacho, Dr. Paulo Ubiratan, a uma emissora de televiso. Vejam o texto:

P: Exerccios cardiovasculares prolongam a vida?
R: O seu corao foi feito para bater por uma quantidade de vezes e s. No desperdice essas batidas em exerccios. Tudo se gasta e eventualmente. Acelerar seu corao no vai fazer voc viver mais. Isso como dizer que voc pode prolongar a vida de seu carro dirigindo mais depressa. Quer viver mais? Tire uma soneca.

P: Devo cortar carne vermelha e comer mais frutas e vegetais?
R: Voc precisa entender a logstica da eficincia. O que a vaca come? Feno e milho. O que isso? Vegetal. Ento, um bife nada mais do que um mecanismo eficiente de colocar vegetais no seu sistema. Precisa de gros? Coma frango.

P: Devo reduzir o consumo de lcool?
R: De jeito nenhum. Vinho feito de fruta. Brandy um vinho destilado, o que significa que tiram a gua da fruta pra voc tirar maior proveito dela.

P: Quais as vantagens de um programa regular de exerccios?
R: Minha filosofia : se no tem dor, t bom!

P: Frituras so prejudiciais?
R: Hoje em dia a comida frita em leo vegetal. Como pode maior quantidade de leo vegetal ser prejudicial?

P: Flexes ajudam a reduzir gordura?
R: Absolutamente, no! Exercitar um msculo faz apenas com que ele aumente seu tamanho.

P: Chocolate faz mal?
R: T maluco? Cacau vegetal. comida boa pra se ficar feliz.

A vida no deve ser uma viagem para o tmulo, com a inteno de se chegar l so e salvo, com um corpo atraente e bem preservado. Se caminhar fosse saudvel carteiro seria imortal. Baleia nada o dia inteiro, s come peixe, s bebe gua e gorda. Coelho corre muito e pula, mas s vive 15 anos. Tartaruga no faz nada e vive 450.

Depois de dar boas gargalhadas, pensei com meus botes: nem tanto ao cu, nem tanto ao mar, caro mestre. Isso porque quando fui, recentemente, renovar minha carteira de motorista, o mdico-perito constatou que minha presso estava muito alta. Com muita justia, negou-me o laudo favorvel. Recomendou-me procurar um cardiologista. Disse-me, inclusive, que, pelo exame que fizera, eu poderia estar com algo mais grave no msculo cardaco. Foi um martrio. Meu pai falecera, h mais de trinta anos, devido a problemas cardiovasculares. Esse negcio gentico. Senti a morte pertinho de mim. A procurei o mdico de minha associao, a AMAGIS. Fui atendido pelo cardiologista Dr. Marcelo Sady Curi. Pediu-me vrios exames. Fiz todos e levei-lhe os resultados. Que alvio! Disse-me, com o maior carinho, que meu corao no tinha problemas to graves. Apenas uma hipertrofia. Explicou-me que, pelo esforo, o msculo estava a ocupar um lugar um pouquinho maior em meu peito. Passou-me um comprimido e recomendou-me sorrindo:
Voc ter que tomar esse comprimidinho, uma vez por dia, at os 98 anos. Aparea aqui de, trs em trs meses, para eu dar uma olhada. Tente parar de fumar que ser muito bom.
Voltei ao perito credenciado pelo DETRAN com o laudo do Dr. Marcelo. Ele leu, examinou minha presso, j quase em 12 por 8, e autorizou a renovao de minha carteira, sem o uso de culos, porque eu fizera cirurgia nos olhos, com meu sobrinho, Carlos Gustavo, conhecido como Dr. Vieira, e ele substitura meus cristalinos por lentes corretoras.
Agora estou aqui, passado o drama, pronto pra outra, cheio de esperanas, tomando meu comprimidinho e medindo minha presso diariamente, num aparelhinho alemo que comprei numa drogaria. A vida voltou a sorrir pra mim. At j ando tomando meu uisquinho, moderadamente, de vez em quando. Renovei meu passaporte, estou de carteira de motorista nova e com muita vontade de viajar. Veremos depois o que ela e a grana reservam para mim nos prximos cinco anos, aps os quais pretendo lanar o livro comemorativo, cujo ttulo j escolhi: Bala 70.


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Por Augusto Vieira - 29/7/2010 13:05:58
Minhas putas

Gabo (Gabriel Garca Mrques) escreveu o magnfico livro Memria de minhas putas tristes, lanado no Brasil pela Record, em 2004, numa bela edio de 127 pginas. O jornalista de vida montona, aos 90 anos, reencontra o amor em Delgadina, ninfeta com quem dorme no randevu de Rosa Cabarcas, e, da, passa a fazer coisas mirabolantes, provando que o amor que nos vivifica.
Li o livro h uns quatro anos e sempre, quando a histria me vem cabea, penso nas putas de meu tempo. No quanto alegraram minha vida. Sou grato a elas, tal qual o genial escritor colombiano sua ninfeta. Tanto s que viveram quase na misria, quanto s que encontraram bons abrigos, boas camas e comida. Recatadas, no usavam drogas. Religiosas, respeitavam o prximo, o parceiro de cada dia ou de cada momento. Asseadas, ainda que os recursos da medicina lhes fossem escassos, no eram prdigas. Quase no fumavam. Ingeriam, com moderao, bebidas alcolicas e raramente aprontavam um barraco ou pegavam mal. Muitas se apaixonavam. No havia motis. No se usavam camisinhas. No havia AIDS. As mais sortudas residiam em casas de renomadas cafetinas, onde se alimentavam e usavam confortveis leitos para ganharem o po de cada dia. Ao fim do expediente, cansadas, adormeciam sozinhas ou acompanhadas, dando s patroas um bom percentual do que faturavam a cada jornada.
O advento dos motis fez cair assustadoramente o movimento das chamadas casas de prostituio. Muitas fecharam as portas. As profissionais foram sucumbindo concorrncia das amadoras e um novo tipo de puta apareceu, as meninas de programas. So moas que levam vida normal no seio de suas famlias algumas trabalham e estudam e frequentam bares, restaurantes, boates e similares, aonde se encontram, normalmente noite, com homens carentes de amor, que as remuneram regiamente para usufrurem de seus corpos. Excessivamente profissionais, chamam os locatrios simplesmente de clientes. Homem, para elas, somente sinnimo de dinheiro. Algumas guardam amor a namorados. Quanto a esses, alguns sabem e admitem a vida dupla de seus amores e at levam vantagens, outros, no. Muitas enveredam pelo caminho das drogas para suportarem os traumas existenciais que lhes causa o aluguel de seus corpos.
Essas putas modernas foram perdendo o charme das do meu tempo. Tornaram-se fteis. Seus belos sorrisos, emoldurados por caros perfumes e vestidos formosos, so falsos. J as do meu tempo, algumas hoje na misria, sobrevivendo da caridade, pensaram mais em ofertar e desfrutar prazeres do que em acumular riquezas. Escreveram pginas que poderiam abrigar um belssimo livro de Gabo. O certo que falar das vidas de umas e de outras, com rarssimas excees, sempre ser escrever sobre tristes memrias de putas, ou sobre memrias de putas tristes.


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Por Augusto Vieira - 14/7/2010 16:28:49
Beto Guedes lota palcio das artes - esgotados, desde segunda-feira, os ingressos do show de beto guedes, hoje, no palcio das artes. o show ser gravado, ao vivo, e transformado em dvd. os fs escolheram as msicas. mais de quinze mil pessoas votaram. ter a participao de daniela mercury, de wagner tiso, dos filhos de beto (gabriel e ian) e de muitos outros artistas da msica mineira e brasileira. beto apresentar vrios de seus consagrados sucessos, alguns com roupagem nova, e at msicas inditas. imperdvel. mais uma vez me encho de orgulho por causa desta gente bacana de minha aldeia. sarav!


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Por Augusto Vieira - 11/7/2010 10:14:24
O FUTEBOL DA FIFA

Despretensiosa crnica de Paula Bicas e Chico Porras, reprteres de O Dirio do Pequisto, sobre a XIX Copa do Mundo.

O futebol globalizado , hoje, o esporte mais dominado pelo vil metal. Movimenta milhes e milhes de euros. Patrocinadores milionrios nele investem quantias astronmicas em busca do retorno de seus capitais. Da o surgimento da filosofia do ganhar a qualquer preo, que retirou desse esporte, que nasceu na Inglaterra, seu carter fundamental, que o de uma competio saudvel, para tornar-se meramente um grande negcio, sustentado pela paixo de torcedores incultos. Ao invs de palcos de congraamento humano, os suntuosos estdios foram se transformando em arenas de enfrentamentos de pessoas, influenciadas por uma mdia corrupta, tambm sustentada por patrocinadores.
Vejam, agora, o que a FIFA obrigou a frica a fazer. Vejam, agora, o que ela est obrigando o Brasil, sede da prxima Copa do Mundo, a fazer. Quantos milhes de dlares sero retirados da incluso social para a construo de elefantes brancos ou para obras correlatas que s endividaro mais ainda os minguados cofres pblicos, apenas para enriquecer mais ainda a uma minoria, j to bem aquinhoada pela riqueza material? A FIFA no respeita a realidade econmica dos povos. Ela os obriga a um luxo que no podem ter. a mesma coisa que acontece na vida privada quando, para receber um hspede, um cidado constri luxuoso anexo sua residncia, fora de seus padres normais de existir, e se endivida de uma forma que sacrificar imensamente a si, sua famlia e seu futuro. Vocs que me contem, daqui a um ano, a utilidade destes novos estdios africanos. Por que tanta exigncia? Por que, ao invs de obrigar os povos a se adaptarem a seus hbitos burgueses, a FIFA no se adapta s realidades deles? Aquele hspede poderia perfeitamente ocupar as dependncias normais da casa, caso fosse recebido apenas pelo sentimento de nobreza de seu anfitrio.
Esse desvio humano influencia at o modo de se jogar futebol. A dicotomia entre o futebol-arte e o futebol de resultados est a, cada vez mais presente. Vejam o que acontece nesta grande deciso da XIX Copa do Mundo. A Holanda, que perdeu duas vezes jogando futebol-arte, pratica, hoje, futebol de resultados. A Espanha, que praticava futebol de resultados e no ganhava, joga, no momento, futebol-arte. A Holanda o time que mais faltas fez na competio. A Espanha o que mais tocou a bola dentro das quatro linhas. Quem vencer? No sabemos. S sabemos que torceremos pelos espanhis, unicamente pelo motivo de sermos adeptos do futebol descompromissado com o resultado, do futebol-prazer. Futebol-prazer, por sinal, levado aos castelhanos, paradoxalmente, por um holands chamado Johan Cruyff, em Barcelona, grandioso pas basco, amante da arte, dentro da prpria Espanha. A Espanha futebolstica de hoje o Barcelona em campo.
Quem sempre praticou o futebol como profisso foi o povo. Ele que o faa retomar suas origens, deixando de lado a famigerada FIFA e seus empresrios. Ele que jogue para a linha de fundo as negociatas, a empfia e o autoritarismo e faa com que o futebol volte a ser o esporte das multides alegres, pacficas e felizes. Ele que faa o futebol ressurgir das cinzas como um saudvel exerccio da arte humana. Ele que, sombra das chuteiras imortais e em busca do sobrenatural de Almeida, jogue para o lixo da Histria este to badalado e inexpressivo fair-play, que s fez agravar a misria dos povos.


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Por Augusto Vieira - 5/7/2010 04:18:10
NOITES DO SERTO

Meu querido amigo Carlos Alberto Prates Correia submeteu-se, no Rio de Janeiro, a uma delicada cirurgia. Cludio Athayde, seu primo, ligou, dizendo que, felizmente, tudo correra bem e que ele est animado. Pensei no que ele, na sua virtuosa humildade, representa para todos ns e nossa cultura. No que ele representa para o cinema brasileiro. Pensei no amigo carinhoso e sincero de sempre. Aqui vai, dedicado a ele, um canto sertanejo:
Acaso h, neste mundo de Deus, coisa mais linda do que as noites do serto? Elas falam com a gente. E no s falam. Filosofam com a gente. nelas que captamos a vida. O ruflar do vento nos mostra essncias. O farfalhar das folhagens fundo zezinhomusical perene do caminhar em busca de decifrao de mistrios. O cheiro da mata irresistvel convite arrozpequizense ao indevassvel. O murmrio das guas chamado jucapratista a beirarmos infinitos, representados pelo brilho das estrelas e pela grandeza do firmamento. Sempre retornaremos antoniorodriguesmente s nossas noites do serto, muito nossas e do povo de nossa aldeia. Diferente, em tudo, das noites das metrpoles. O serto que a metrpole de nossas vidas. nele que tudo foi aprendido, sabido e ressabido. Realidade juntinha do pensamento. Sem passado e futuro. Eta travessia mais desmilinguida! Mas boa! cheirosa! To gostosa que vale a pena!


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Por Augusto Vieira - 2/7/2010 13:41:02
O FIM DE UMA ERA

Em homenagem memria do garoto Mardem

Essa derrota de hoje para os holandeses deve servir de marco para uma total mudana do futebol brasileiro. Ainda bem que ela veio antes da prxima Copa, que ser aqui. Teremos tempo suficiente para voltar a jogar o futebol arte e abandonarmos o futebol de resultados, o futebol preconizado pelos Parreiras e Dungas da vida. E digo isso sem o emocionalismo do momento desta desonrosa desclassificao. O erro comeou nas convocaes. Nossos comandantes no se curvaram ante as evidncias. Fizeram uma panelinha, tal qual a da FIFA e a da CBF, e foram at o fim, empafiosamente, crentes que fariam sucesso. Eu j esperava por isto, h muito tempo. No quero escolher um Cristo. muito fcil crucificar algum na derrota. Desde o incio afirmei que no gostava deste futebol que qualifiquei de "dungado". O que diferencia nosso futebol e o fez grandioso foi o talento de nossos atletas. Hoje temos uns tanques bem preparados fisicamente que nada jogam, com rarssimas excees.
Os times brasileiros esto, quase todos, com dvidas impagveis. hora de rever muita coisa em nosso futebol. hora de um novo tempo, de voltarmos a ter a humildade e a arte dos campees de 1958.
Muito triste, senti falta de Neymar, de Ganso, de Alexandre Pato, de Hernanes, de Lucas, de Anderson e de tantas outras promessas que foram "queimadas" por jogarem diferente, por no entrarem no "esquema". Muito triste, espero que entrem novos dirigentes na CBF com uma viso menos empresarial e mais voltada para o esprito esportivo.
Nlson Rodrigues e Joo Saldanha devem estar lamentando. O mesmo, certamente, deve estar fazendo o mestre Armando Nogueira. Que saudade do mestre Tel Santana! Todos eles, cultores de um futebol arte, leal, competitivo sem atavismos, grandioso com humildade e vencedor sem arrogncia.


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Por Augusto Vieira - 1/7/2010 01:45:30
REGINAURO SILVA

Nos chamados anos de chumbo, em que enfrentvamos a ditadura, correndo riscos at de vida, para desespero de nossos pais, estudei Direito na UFMG, de Belo Horizonte. Costumava me esconder e passar frias escolares em minha aldeia. E foi assim que me tornei admirador dos escritos de um jovem, nascido s margens do Rio Jequitinhonha, na antiga Vigia do Vale, a belssima Almenara.
Em 1970, ps-graduado, voltei para ficar, para ganhar a vida, corao cheio das mais sublimes esperanas. E l estava o jovem escriba, preparando-se para prestar vestibular na Faculdade de Direito do Norte de Minas. Rebelde e artista at porque o pai se chamava Rebeldino e a me levava o nome de uma das mais lindas musas do cancioneiro popular brasileiro, Laura seria, pouco tempo depois, o lder universitrio que enfrentaria o autoritarismo, presidindo o Diretrio Central dos Estudantes. Ao mesmo tempo exerceria seu jornalismo com a maior coragem, independncia e dignidade. Tornamo-nos amigos. Foi ento que conheci para valer um brilhante, lapidado nas benditas terras e guas do Vale do Jequitinhonha, que transformam quase todos os seus filhos em artistas. E esse brilhante, como no poderia deixar de ser, reluziu Brasil afora, em duas profisses, advocacia e jornalismo, misteres cujos exerccios no deixam de tambm ser uma arte. Mas abraaria tambm outra arte, a literatura, o que s os mais corajosos, despojados e destemidos conseguem. E o fez com muito carinho e esmero. Escreveu peas teatrais que foram reverenciadas por todos ns. Hoje um dos orgulhos culturais de nossa aldeia, que tambm dele, por adoo. Editor de um dos mais conceituados jornais de papel da regio, ainda mantm um jornal eletrnico, chamado A Provncia, sempre inspirado por Laura Walma, o grande amor de sua vida, que carrega o mesmo nome de sua me. Certamente deve perguntar a ela, quando sente saudade de suas razes:
Laura, que do Vale sempre em flor?
Assim este meu grande companheiro de vrias lutas democrticas, o intrpido Reginauro Silva, que eu trato, com o maior prazer, simplesmente por Regis, genitivo singular de Rex, palavra latina que significa rei, porque ele , para mim, um dos cones de nossa cultura e, por que no dizer como os baianos, meu rei. Sarav!


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Por Augusto Vieira - 21/6/2010 00:35:43

TIOZINHO DO BANCO

Meus pais foram padrinhos de seu casamento, da a amizade histrica de nossas famlias. Era conhecido como Tiozinho do Banco, porque foi fundador e primeiro gerente da agncia do Banco Econmico da Bahia em Montes Claros, aonde, aos 14 anos, por causa dele, abri minha primeira conta bancria. Nasceu em Buenpoplis, MG, e, antes de chegar a este importante cargo, foi motorista de caminho. A famlia fixou residncia na Princesa do Norte e a matriarca tratava meu pai como se fora seu filho. Essa amizade estendeu-se aos descendentes de ambos e perdura at nossos dias. Tio era extremamente leal aos amigos, que eram muitos, dada sua facilidade em conquistar os coraes das pessoas. Gostava de beber seu uisquinho. Usava copo longo e ficava com uma das mos tapando as bordas, mas com o dedo indicador dentro, mexendo o gelo. Quando o usque amarelava ele dava sua primeira talagada. Sabia beber. Nunca abusava ou ficava de fogo. Sempre rodeado de amigos e msica, foi marido e pai exemplar. Tininha (Ernestina Marques da Silva) foi o grande amor de sua vida, junto aos filhos Hlio, Rosarinha, Mazinho, Tininho, Paulinho, ngela, Claudinho, Z Alencar e Tiozinho.
Tenho umas passagens interessantes vividas com ele para contar, porque, alm de amigo, fui seu advogado, depois que ele deixou o banco e tornou-se grande empresrio, em Montes Claros e no sul da Bahia (Brumado).
Logo que iniciei minha vida profissional ele, Mauricinho, Dcio Cabeludo e Z Piriquitinho me convidaram, num sbado, para um poquerzinho na fazenda Lagoa do Peixe, de Mauricinho. L fui, pato, para, em menos de meia hora, perder mais de um ms de salrio. Nunca mais joguei. Fiquei sem dinheiro para a feira do sbado. Que vergonha! Minha sorte foi que Z Periquitinho me deu prazo para pagar o que perdera.
Mauricinho, Tone Mamoeiro, Walter Brasileiro e Z Periquitinho, seus grandes amigos, sempre exaltavam sua lealdade. Quando derrubaram Mauricinho da universidade ele o procurou para hipotecar solidariedade e disse que se fosse algum problema de caixa, colocaria imediatamente sua disposio um milho de cruzeiros. Nosso Reitor, espantado, entendeu o gesto amigo, embora no tivesse gostado da dvida sobre a lisura financeira da instituio que comandara por anos a fio.
Acompanhei alguns processos judiciais para as empresas de Tio, em Brumado. Quando o caso era urgente ele fretava um teco-teco para me conduzir. Tornei-me amigo da juza, Dra. Magda, que gostava de uma viola. Ela passou a marcar minhas audincias s sextas-feiras para que eu permanecesse na cidade nos fins de semana. Fazamos belas serenatas para a me de Newton Cardoso, D. Dezinha, uma pessoa maravilhosa, mestra de todos brumadenses, que preparava para ns, nessas ocasies, uma senhora feijoada de fogo de lenha.
Depois que Tio foi para o andar de cima, continuei e continuo convivendo com Tininha e com os meninos. Compareci festa dos 85 anos de Tininha, na casa de Claudinho. Depois que cantamos parabns ela se levantou e saiu danando pela sala, gritando e rebolando: eu quero sexo, eu quero sexo! Quase nos matou de tanto rir. Que mulher extraordinria! Sempre alegre, brincalhona e de um otimismo inigualvel. um exemplo de vida para todos ns. Nos 60 anos de Tininho perguntei-lhe o que desejava de presente e ele respondeu: uma mulher linda para fazer um strip-tease durante a festa. E no que lhe dei esse presente? Tininha adorou o show da atriz, que causou verdadeiro frisson.
Imaginei o que Tio, se ainda estivesse conosco, diria, comentando esse presente maravilhoso. Certamente me faria, logo, aquela sua costumeira pergunta:
Companheiro o qu?
E antes que eu respondesse retrucaria, enfaticamente:
Companheiro!
E balanaria, sorrindo, o couro cabeludo para cima e para baixo, coisa que muito poucas pessoas conseguem fazer.
Quando tocvamos viola e cantvamos em algum lugar e ele sentia que o violeiro estava cansado, ordenava imediata paralisao da msica e cantava, pausadamente:
No vs me abandonar, linda flor maravilhosa! O tocador quer beber. Pr?!
E dava um pequeno intervalo para que o tocador tambm se aproveitasse das bebidas e guloseimas da jornada.
Esse o meu grande amigo Sebastio Alves da Silva, que deixou muita saudade em meu corao e de quem sempre me lembro, especialmente por suas espirituosas brincadeiras e pelo afeto que me dedicou. Meu caro Tio, onde voc estiver, receba estas minhas pobres palavras, regadas a um bom uisquinho e a um delicioso tiragosto. Sua vida valeu a pena.


59167
Por Augusto Vieira - 10/6/2010 08:38:59
RAMOS FELIZES E SABAMOS

Depois do sucesso alcanado em Braslia (DF), foi lanado, aqui em Bel, no dia 4 de junho, o livro ramos felizes e sabamos, que o prefaciante e coautor Tininho chama carinhosamente de meu livro. Nenzo comandou tudo, desde o Encontro dos Sessentes, realizado em 2009, em MOC, at a organizao, publicao e lanamento do livro, com o maior desvelo. So 18 autores: Ademir Fialho, Carlos Lindemberg, Eduardo Lima, Felipe Gabrich, Haroldo Tourinho, Luiz Milton Velloso, Mrcia Vieira, Murilo Antunes, Nilo Pinto, Paulo Henrique Souto, Raphael Reys, Ruth Tupynamb, Tio Martins, Tininho Silva, Virglio, Virgnia e Walmor de Paula. Estou no livro, com trs crnicas, no como membro da brilhante gerao que realizou o Encontro, mas, suponho, como um fraterno amigo mais velho que deu a ela, antigamente, todos os maus exemplos possveis, inclusive tocar bossas-novas ao violo.
Lugar melhor no poderia ter sido escolhido para o lanamento em Bel do que o Caf Viena Beer, que tem ligaes ntimas com a Repblica do Pequisto (o mais novo epteto atribudo a nossa aldeia, por Tino Gomes). Sobre ser aprazvel e servir coisas da melhor qualidade, a empresa pertence a gente nossa, fundada que foi pelo inteligente e simptico Wilhelm Shlad, nosso querido Vili (tnica na primeira slaba), marido de Neize Melo Franco, minha querida professora de Geografia, na Escola Normal, que eu chamo at hoje de Zizi, filha de vov Aristeu e de vov Pilucha, meus vizinhos na Coronel Prates, na minha infncia. Vili veio da ustria. Foi fazenda de meu pai e ali um marimbondo o ferroou. Ficou aquele calombo vermelho no local e meu pai disse a ele que teria apenas mais trs dias de vida. Foi dificlimo convenc-lo de que era uma brincadeira. Afinal ele nunca tinha visto um marimbondo. Foi dono da Mercearia Viena, na Simio Ribeiro, cujos frequentadores mais assduos eram Walmor, Virglio, John e Z Guedes. Tive o prazer de rever o casal to logo entrei, depois de abraar Xando (meu irmo) e cumprimentar Clio Balona e Eduardo Lima. Subi as escadas para o piso reservado ao lanamento. Quando vi aquele mundo de moquenhos reunidos saudei logo: - oi, tropa de fi duma gua!
A noitada foi maravilhosa. Muitos livros vendidos. Essa turma mesmo feliz e sabe que . Raphael Reys veio de MOC. Joel Antunes, meu querido Joe Cachorro Doido, veio de Uberlndia e quase nos matou de tanto rir contado seus famosos causos. Ademir Fialho, de So Joo da Ponte, to bom quanto, no ficou pra trs. Tino Gomes e Genival Tourinho prestigiaram o evento. meia-noite, felicssima coincidncia, comemoramos o aniversrio de Clia, minha esposa. Publiquei em meu blog inmeras fotos dos presentes. S gente fina ou, como diria Henrique Chaves, bacana.
Em agosto o livro ser lanado em MOC. J comecei a economizar sade.


58904
Por Augusto Vieira - 31/5/2010 13:59:57
COPA DO MUNDO - FRASES DOS NIBUS

frica do Sul: Futebol aqui preto no branco.
Alemanha: A caneca nossa!
Arglia: Sem essa de nadar, nadar, nadar e morrer nas dunas.
Argentina: Gracias, Dunga.
Austrlia: Tirando onda dos adversrios.
Brasil: Um nibus, 10 volantes.
Camares: Um time meio sem cabea, mas cheio de pernas.
Chile: Um pas inteiro tremendo de esperana.
Coreia do Norte: Vamos bombar nesse mundial!
Coreia do Sul: Vamos nos matar em campo. Mas se o jogo for contra a Coreia do Norte, matamos eles.
Costa do Marfim: Vamos, Elefantes! E ai de quem trombar com a gente.
Dinamarca: Ficaremos com os louros da vitria.
Eslovquia: Perdemos a Tcheca, mas no perdemos a honra.
Eslovnia: Pela milsima vez, no temos nada a ver com a Eslovquia.
Espanha: No vamos fazer feio: convocaremos a Penlope Cruz.
Estados Unidos: , , o Osama um terror.
Frana: Desodorantes podem estar vencidos, o time nunca.
Gana: Gatos em pele de lees.
Grcia: Chuto, logo existo.
Holanda: nibus ecolgico: fumaa s do lado de dentro.
Itlia: A Copa do Mundo massa.
Japo: A gente caberia numa van, n?
Mxico: Se buscamos nosso lugar ao sol, porque temos que usar esses malditos sombreros?
Nigria: Vamos tirar a barriga da misria.
Paraguai: Copa do Mundo por apenas R$ 1,99.
Portugal: Seremos campees em plena sia!
Srvia: Vai dar Zebracovic.
Sua: Vamos dar um chocolate neles.
Uruguai: Gacho a me, tch.


58878
Por Augusto Vieira - 30/5/2010 19:50:56
REPBLICA DO PEQUISTO

Em minha aldeia, Montes Claros, terra de Darcy Ribeiro, Cyro dos Anjos, Carlos Alberto Prates Correia e Godofredo Guedes, nasceu um artista chamado Tino Gomes, cujo pai, Dito, foi craque de futebol. O menino cresceu e tambm tornou-se craque, mas na msica, na poesia e nas artes cnicas. Inteligentssimo, simples, alegre e sorridente, hoje em dia conquista todas as pessoas que dele se aproximam, simplesmente por abrigar profundo sentimento de amor ao prximo em seu bondoso corao sertanejo. um autntico profeta do querer bem. Extremamente criativo, redesenhou o mapa do Brasil, com base na imensa rea aonde existe a frondosa e famosa rvore chamada pequizeiro (nordeste/centro-oeste do Brasil e norte de Minas Gerais) e, em homenagem sua fruta amarela, tpica do cerrado, chamada pequi (cariocar brasiliense), criou a Repblica do Pequisto, escolhendo Montes Claros para sua capital. E foi assim que ele e outros catrumanos malucos-beleza, (Picolino, Flvio Pinto, Odorico Mesquita e o autor deste artigo), comearam a desenvolver a temtica e chegaram a algumas interessantes concluses. Nosso balnerio ser Porto Seguro; nosso museu barroco ser Diamantina; nossa highland ser Salinas (por causa da melhor cachaa do mundo); nossos mais importantes portos de rio sero Januria e Pirapora; Salvador ser nosso principal porto de mar; nosso planetrio ser Bocaiuva; nosso pentgono ferrfero, que vai de Pirapora at a famosa Chapada Diamantina, ter sede em Rio Pardo de Minas; nosso centro de produo de carne de sol ser em Mirabela; nossa indstria de farinha de mandioca ser em Morro Alto, e nosso centro de pesquisas (palavra que j contm o nome da fruta) ser em Campo Novo.
A Rpublica do Pequisto ter uma populao de cerca de 80 milhes de pessoas. Sua bandeira ser verde e amarela, com a fruta amarela ao centro e a inscrio trem bo dimuais, de autoria do imortal roedor de pequi, de Corao de Jesus, Gentil de Queiroz.
Fica, portanto, lanada para o mundo a promissora Repblica do Pequisto.


58704
Por Augusto Vieira - 25/5/2010 11:39:51
AMIZADE A UM CO - J que vrias pessoas vm se manifestando neste Mural sobre a amizade entre pessoas e ces, no poderia deixar de incluir o grande mineiro Belmiro Braga que, em homenagem a seu cachorro de estimao, chamado "Prncipe", legou-nos um dos mais famosos epigramas da lngua ptria.BELMIRO Belarmino de Barros BRAGA (07.01.1872 a 30.03.1937) nasceu em Vargem Grande, lugarejo antigo de Juiz de Fora, hoje municpio que leva seu nome. um dos fundadores da Academia Mineira de Letras. Escreveu contos, crnicas, peas teatrais e foi iluminado trovador.Vai o epigrama, com um abrao a todos, especialmente a Ucho Ribeiro:
Pela estrada da vida subi morros,
Desci ladeiras... e afinal te digo:
Se entre amigos encontrei cachorros,
Entre os cachorros encontrei-te, amigo!


58445
Por Augusto Vieira - 17/5/2010 12:34:59
Li a mensagem 58417, do Alan e, tamanha foi minha alegria que quase pulei da cadeira. Deu vontade de soltar foguetes. Montes Claros, novamente, na elite do futebol mineiro. Deixo aqui mais um apelo a meu amigo Luiz Tadeu Leite para que construa o MOCO. Vamos caminhar juntos, no vlei e no futebol, honrando nossas tradies esportivas e divulgando o nome de nossa aldeia. Ax!!!PS: Na minha crnica sobre Tio Boi quero fazer uma retificao: onde se l "tio" Loureno Sant`Ana, leia-se "tio" Loureno Miranda.


57702
Por Augusto Vieira - 26/4/2010 11:20:55
TIO BOI

Eu tinha vizinhos maravilhosos em minha aldeia. De uma lado minha querida Zinha, que era Alice dos Anjos, em cuja casa viviam tambm suas duas irms Biela e Carlotinha. Do outro lado seu Marinho Portugus e minha querida D. Xininha, com aquela filharada bacana, pais do chefe de minha trinca, Gerinha Portugus, a quem Raphael Reys cognominou Lenda Viva. frente, numa esquina, o Prof. Joo Neto e D. Maria, pais de Carminha, Edmundo, Branca e Paulinho, ao lado da casa de seu Mundinho e de D. Marieta. Ainda frente meu querido e saudoso tio Loureno SantAna, pai de Boyzinho (Moacyr) e, depois, Wilson Athayde. Nas esquinas ficavam a vendinha de Orcio e a Sapataria de Lourival. Do lado esquerdo da casa de seu Mundinho, na Presidente Vargas, havia um imenso corredor interno, tendo sua frente um pequeno cmodo, que dava para a rua. Foi alugado, l pelos idos de 1957, a um jovem sapateiro, cujo nome era Sebastio Ramos Guimares e cujo apelido era Tio Boi. Nasceria, ento, a Sapataria Nossa Senhora de Ftima, que se tornaria um dos grandes pontos de encontro dos moquenhos. Tio, bom de prosa, com aquele seu jeito simples, sincero e, s vezes, at deselegante, devido a sua intrpida franqueza, tinha mania de filosofar sobre a vida. Exercia a profisso com maestria e era um touro no trabalho. Talvez aqui, suponho, a origem de seu apelido. Jogamos futebol no juvenil do Cassimiro de Abreu: Gerinha e eu de zagueiros, Alpheuzo de goleiro e ele e Haroldinho de laterais, tendo como tcnico o grande Castilho. Nesse contexto fui me tornando seu amigo e, devido a isso, meus pais tambm, a ponto de ele ser um dos mais frequentes convidados de minha casa para um almoo ou lanche, ou para um fim de semana na fazenda. Ouvimos, em 1958, pelo rdio Semp, na voz de Jorge Curi, o Brasil sagrar-se campeo do mundo pela primeira vez e fizemos o maior carnaval l em casa.
Tio Boi consertava sapatos na parte direita, aos fundos, sentado num banquinho, tendo ao lado uma pequena prateleira e sua frente uma mesinha. Tudo de madeira e feito por ele. Em frente mesinha havia um pequeno balco, que deixava uma passagem do lado esquerdo, espao dos banquinhos (muitos deles tocos de troncos de rvores) para receber os inmeros amigos. Na parede, ao alto, em cima de uma porta, um poster de Nossa Senhora de Ftima e, logo abaixo, um outro, imenso, do Flamengo, duas de suas paixes. O prprio Tio pintava de azul as peas de madeira, para reverenciar sua terceira paixo, o Cassimiro de Abreu, que eu teria a honra de presidir, em 1971/2, tendo-o como membro da diretoria e abnegado conselheiro. A sapataria sempre era visitada por Aristbolo Mesquita, que vinha do Rio de Janeiro caa de talentos para o Flamengo.
Tio Boi tornou-se tcnico de futebol de salo e fez times brilhantes. Ganhou muitos ttulos. Eu j havia parado de jogar, mas ele sempre me inscrevia em seus times. Uma vez exigiu minha presena. Eu j trabalhava no Servio de Assistncia Judiciria da Faculdade de Direito da UFMG, mas como no atender convocao daquele grande amigo? Parafraseando Charles Boa Vista, fui de trem pra Montes Claros. Faltando dois minutos para terminar o jogo ele me colocou na quadra e, por incrvel sorte, num chute que nunca mais darei, a bola quase sando para a linha de fundo, marquei o gol do ttulo no grande amigo e goleiro Pindoba (Eustquio Milo). Fomos comemorar no Espeto de Ouro e a turma deitou-me, de barriga pra cima, nas mesas unidas e me deu o maior banho de cerveja.
Tio se casou e no foi feliz. Como desgraa pouca bobagem, ainda pegou uma doena alrgica na pele, talvez causada por seu contato dirio com o couro de boi. Teimoso, no seguia as normas do tratamento. Paulinho Dias quis lev-lo para o Rio de Janeiro para tentar cur-lo, mas ele no aceitou. Faleceu, no esplendor da vida, muito sozinho, numa casa que construra, com imenso sacrifcio, no Bairro Todos os Santos. Sempre que ia a Montes Claros o visitava e ficava muito triste em v-lo naquela situao.
Dos frequentadores mais assduous da sapataria, em meu tempo, recordo-me, dentre muitos outros, de Beto Viriatinho, Gentil, Beto e Quincas de Queiroz, seu Lucinho Narciso, Jackson Athayde e Ricardo Tupynamb (grandes amigos que recentemente nos deixaram), Ruizo e Berilo Maia, Z Carlos Gomes, Z Csar Vasconcelos, Cor e Chiquito Barbosa, William e Z Geraldo Santos, Valmir Alencar, Taque Maia e Tidinho Xorr, Paulinho Dias, Nlson e Nivaldo Santos, Xando (meu irmo), Tatu, Felcio Fernandes (Gaguinho), Z Venncio e seu irmo, um garotinho bom de bola e letras chamado Alberto Sena.
Felcio Fernandes, o Gaguinho, famoso ponta-esquerda aquele que deu uma gacha em Almerindo e deixou imediatamente o treino no campo do Cassimiro, de uniforme e chuteiras, para comemorar no Bar de Z Piriquitinho, na Praa Dr. Carlos , uma vez, elaborou e recitou para ns um poema ininteligvel, que at hoje repito quando me lembro da turma da Sapataria Nossa Senhora de Ftima e de seu artfice, nosso querido e inesquecvel amigo Tio Boi.
Tu,
No seja j!
Vem, vrgola,
parte omana!
Me chama Judite.
E vem zabel,
E vem sabe.
E ponto final.

PS: Quem tiver uma foto de Tio Boi, por favor, envie para mim, pela internet ([email protected]) para que eu ilustre essa crnica, que tambm foi publicada em meu site de literatura (http://sites.google.com/site/quidialas), no link AMIGOS.


57572
Por Augusto Vieira - 22/4/2010 11:51:55
Z AMARO

Bateu saudade de Jos Mrio de Arajo. Ele sempre ia minha casa, na Presidente Vargas, porque era amigo de meu pai. Essa amizade, suponho, deve ter nascido nos tempos em que o velho Non era scio de seu irmo, meu tio Augusto Getlio, na firma Vieira&Cia, ou seja, durante ou pouco antes dos anos 30, do sculo passado. No fim dos anos 50, adolescente, deliciava-me com aquele seu jeito espalhafatoso de falar: voz de timbre agudo, em tom elevado, intercalando entre as frases homricas gargalhadas e finalizando-as com as interrogaes ouviu? ou t ouvindo?, que repetia e pronunciava ourriu? ou t orrino?. Jamais esquecerei de sua botina rangideira marrom-glac, de sua cala de brim e de suas belas camisas. De baixa estatura, barrigudinho, rpido em tudo, to logo chegava alegrava qualquer lugar. Ele chamava Non de Norica. O que a vida: duas dcadas depois, Non faleceria nas mos de Paulinho, competente cardiologista, filho de Z Amaro. Eu estava junto, sofrendo a irreparvel perda de meu pai. Paulinho chorou conosco, porque tambm gostava muito de Non. A gente herda os amigos de nossos pais.
Quando eu tinha pouco mais de doze anos, Z Amaro candidatou-se a vereador e dediquei-lhe a seguinte poesia, que foi publicada na Gazeta do Norte, jornal do inesquecvel Jair Oliveira. Ei-la, com os retoques do tempo:

Ele um grande homem
Candidato a vereador
Em sua ilustre carreira
S falta ttulo de doutor.

tambm negociante
Poltico de corao
E est bem convencido
Que vai ganhar a eleio.

Trinta votos garantidos
O Z Amaro j tem
Mais oitenta ou cento e vinte
Ele disse que inda vem.

Quem votar em Z Amaro,
Aqui no nosso rinco,
Gastar menos moedas
Pra comprar o seu feijo.

Z Amaro conseguiu dar cama, comida e escola a sua filharada, tendo como atividade o comrcio num armazm da Ruy Barbosa, ao lado do antigo Mercado. Inteligente, esperto, trabalhador e pai extremoso, deu a todos o maior conforto, moral e material. E como ele se orgulhava dos sucessos daquela inteligente ninhada! Alardeava-os aos amigos, naquela poca em que as alegrias da vida eram muito mais compartilhadas. Fez um estardalhao quando um passou no vestibular de medicina e outro foi aprovado nos exames da Academia Militar de Agulhas Negras. Quanto ao ltimo, vaticinou logo: esse ser Presidente da Repblica, ourriu?
H duas estrias que me contaram dele que so antolgicas. Era compadre de Pedro Santos. O consultrio de Pedro ficava na esquina da Dr. Veloso com Padre Augusto. A sala de espera sempre lotada. Pedro examinava as partes ntimas de sua esposa quando, de repente, Z Amaro abriu a porta e disse, alto e bom som: compadre, faa de conta que voc est examinando sua prpria me, t ourrino? A outra a dos penicos. Ele estocara muitos e no os vendera. Sabia que um colega comerciante no os tinha no estoque. Combinou com mais de dez meninos para irem, em espaos regulares e dias diferentes, mas seguidos, loja do outro perguntar se tinha penicos. Livrar-se-ia, assim, de empacados urinis, transferindo-os ao colega, que dele compraria, poucos dias depois, quase todos, para tentar revender, ante aquela inusitada procura.
Z Amaro deixou esta vida feliz e realizado. Embora tivesse fama de sovina, foi extremamente bondoso, sem alardear o bem que fazia ao semelhante. Eu o vi ajudar muita gente, especialmente os pobres e miserveis. Tornou-se figura emblemtica de minha aldeia, caricaturada por nosso fabuloso artista e mdico Konstantin Christoff. Estrias tendo-o como personagem rodaram mundo. Hoje, certamente, estaro a circular em bem-aventuranas, onde ele deve ter encontrado muitos companheiros bons de prosa, que tiveram a felicidade conhec-lo aqui embaixo.
Que Deus o tenha, meu caro Z Amaro! T orrino?

***
Meu caro Raphael Reys.O que fao, quando os recebo aqui, apenas em retribuio ao que vocs, Imperadores do Divino, fazem por mim quando vou a rever minha me e matar um pouco da imensa e constante saudade da gente de minha aldeia.Que Deus nos permita repetir sempre esses indelveis bons momentos de amizade e alegria! isso que vale a vida!Muito obrigado!


57030
Por Augusto Vieira - 9/4/2010 06:39:01
DAS REGULAES ESTAPAFRDIAS

O Mestre passava em frente a um restaurante, quando dele se aproximaram dois senhores, idosos, com mais de oitenta anos, e lhe perguntaram a respeito de uma lei que os proibia de fumar naquele local. Os dois revelaram que tomavam sua cervejinha, uma vez por semana, h mais de sessenta anos e que, agora, se sentiam privados do prazer de faz-lo acompanhado de um cigarrinho. Veio a resposta:
- Vocs so de uma gerao em que o cigarro era considerado charmoso. As mooilas gostavam mais de namorar os fumantes do que os no fumantes. Era chique, o hbito de fumar demonstrava maturidade e independncia e era amplamente divulgado nas telas dos cinemas. Casablanca, por exemplo, um filme todo enfumaado. Quem no se lembra das longas tragadas de Humphrey Bogart? A comearam a atribuir ao uso do fumo as causas de vrias doenas, inclusive do cncer. Foi um Deus nos acuda. Est virando moda no fumar. E os prprios no fumantes passaram a fiscalizar os fumantes em ambientes onde proibido o uso do cigarro, muito mais devido intolerncia social do que por zelo pela sade pblica. Isso, no entanto, meus caros, faz parte de um esquema muito maior, que o da dominao das pessoas. necessrio manter o povo alienado, ignorante e medroso para que sua vontade possa ser manipulada nas campanhas eleitorais. A melhor maneira de dominar uma pessoa proibi-la de fazer algo corriqueiro. A surgem leis estapafrdias, draconiamas, lesivas liberdade individual, como essas do tipo antifumo e anti-lcool. A continuar assim, qualquer hora regularo quantas vezes por semana o cidado poder manter relacionamentos ntimos. Agora, desmatar florestas, poluir rios, expelir gases malficos pelos canos de descarga de veculos e chamins das fbricas, isso permitido. O cidado moderno um simples pagador de pesados tributos e vtima de grandes desfalques de seu dinheiro por empresrios, polticos e funcionrios pblicos corruptos. E, ainda por cima, privado dos mais elementares prazeres da vida. Ou seja: prevaricar, pode; poluir, pode; pagar tributos, pode. O que no pode mais beber uma cervejinha, moderadamente, com os amigos e voltar para casa dirigindo um carro. O que no pode mais fumar em locais fechados destinados ao pblico, ou seja, principalmente nos bares e restaurantes onde nos congraamos e nos comunicamos, at para falar de poltica e nos queixarmos das leses a nosso patrimnio comum. Isso tudo sem contar que ainda somos aconselhados a s fazer amor com uso de preservativos emborrachados , quando se sabe que dificilmente uma pessoa sadia que no pratica sexo anal e no usa drogas contrair esse tal de HIV. Mas as grandes multinacionais da farmacologia tm que vender seus medicamentos e recuperarem o que investiram em pesquisas e produo deles. Ento vai meu conselho a vocs dois: sempre que puderem burlem leis e normas estapafrdias como estas, seno vocs ficaro enclausurados em suas casas, fumando e bebendo sozinhos. Vivam o resto de suas vidas felizes. Seria muito constrangedor polcia prender octogenrios por fumarem e dirigirem aps beberem, com moderao, apenas um pouquinho acima do permitido.
Assim falou Nabonosseu.


56992
Por Augusto Vieira - 8/4/2010 10:17:22
ZEZINHO DA VIOLA

Dizamos, orgulhosos, que os momentos mais propcios s reunies de amigos em mesas de bares no eram os finais de semana. Que eles eram destinados aos amadores. Que o dia dos profissionais era a segunda-feira. E assim nos habituamos a encontros semanais no Bar Brasil, o que ficou batizado de segunda sem lei. De repente o pessoal foi se dispersando. Infelizmente o Bar Brasil fechou. O imvel, histrico, foi vendido e dar lugar a mais um espigo. Paulinho Pedra Azul, sugeriu que revivssemos a segunda sem lei. Resolvemos faz-lo s que, ao invs de num bar, em minha casa. Mal anoiteceu a turma foi chegando, a festana foi crescendo e minha sala se transformou num palco de harmoniosa orquestra, at a ltima msica, cantada quase ao amanhecer. E ela foi justamente O Sonho, de Zezinho da Viola, sob os comandos de Paulinho e Tadeu Franco, com acompanhamentos de Yuri Popoff e Marcelo Drummond. Despedi-me do ltimo convidado e, antes de dormir, resolvi abrir meu correio eletrnico. Dois dias antes, uma pessoa chamada Anna Patrcia Dias Silva me lera pela Internet e me indagara se eu tinha alguma informao sobre Zezinho. Respondera, apenas perguntando quem e de onde era ela. E l estava a resposta:
Sou neta de Zezinho da Viola. Quando a minha av Joaquina era viva, eu era nova e no perguntava muito sobre ele. Agora que tenho conscincia da sua importncia. claro que tenho meu pai, Jos Pedro, e meus tios para conceder informaes, mas depoimentos de terceiros so sempre interessantes. Abraos. Anna.
Que incrvel coincidncia! Pareceu coisa vinda diretamente de Deus. Emocionado, respondi: Anna, que beleza falar com uma neta de Zezinho da Viola. Sabe? So mais de quatro horas da madrugada. Aqui em casa ocorreu uma segundona sem lei e cantamos vrias msicas de seu av, inclusive O Sonho, encenada por Tnia Alves, no filme Cabar Mineiro, de nosso conterrneo Carlos Alberto Prates Correia. Seu av trabalhou com meu pai, na Vargem Grande, e eu o conheci nos meus oito anos. Quando morreu, abraado viola, numa enxurrada, comuniquei o fato (eu j estudava na Faculdade de Direito da UFMG e j tinha dezenove anos) ao Prof. Alberto Deodato. Logo depois o mestre publicou, no Estado de Minas, uma belssima crnica em homenagem sua memria. Seu av era forte, bonito e artista. Seu sorriso era largo. Sempre alegre e feliz transmitia a todos a bondade de seu nobre corao. Anna, voc pode acessar o site montesclaros.com e ver o quanto ns ainda somos uma aldeia, uma tribo de gente amiga. Obrigado e um grande abrao.
Adormeci com o nascer do sol, pensando em Zezinho e em sua neta. E foi ento que sonhei qui tinha morrido e vi gente pra me guard. Fiquei muito avechado, quando fro me lav. qui eu tava cum corpo sujo e pegaro a cao. Lavareu cum sabo, marrarasminhamo e me pusero num caxo. Gente em alta escala pegaro a chor. Me levareu pra igreja pru santo me recumend. Me pusero um castecismo qui tava l no artar. Rezaro s cinco minuto e cumearo a retir. Tava chegano a hora do povo me sepurt. Acordei nessa hora, gritei minha Nossa Senhora e garrei a chorar...
Chorar, sim, Anna Patrcia, de saudade. Saudade de seu av Zezinho e de sua viola de dez cordas. Saudade de seus doces acordes sertanejos que ainda ressonam no lindo luar de Montes Claros e continuaro a me fazer feliz e a embalar meus sonhos pelo resto de minha vida.


56868
Por Augusto Vieira - 5/4/2010 09:35:33
PEDOFILIA

A prtica da pedofilia por religiosos muito antiga. S que sempre se ps pano quente nela, at porque os criminosos confessam os atos libidinosos a seus colegas, obtm perdo e cumprem penitncias, na esperana de encontrarem o caminho de suas redenes.
A gravidade maior do problema reside nas infelizes e inocentes vtimas, porque carregaro dentro delas, enquanto viverem, indelvel chaga.
Houve, sim, omisso da Igreja Catlica, j assumida por muitos de seus membros, no combate pedofilia praticada por clrigos, o que fez com que o caso assumisse as atuais propores. Estamos aguardando enrgicas providncias do Vaticano, sem prejuzo das aes cabveis na justia comum, com punies severas aos autores dos crimes e ressarcimento dos danos morais s suas infelizes vtimas.
A continuar essa imperdovel omisso, qualquer hora um pedfilo bater s portas do cu s porque soube que l reside um tal de Menino Jesus...

PS. Para Carmem (MS56864). Sua mensagem mostra que voc est ansiosa para que o Brasil comece em 2010. S que depois da Semana Santa vm a Copa do Mundo e as eleies, essas certamente com segundo turno nas proximidades do ms do Natal.


56780
Por Augusto Vieira - 1/4/2010 03:15:45
JORNAL DE MONSCLARO DE HOOOJJ!!!

Tomava uns chopes no ex-Bar Brasil com Paulinho Pedra Azul e Beto Guedes. De repente Beto nos surpreende, quase cantando, com as seguintes palavras: Jornal de Monsclaro de hooojj!!! Claro que logo entendi o que ele estava relembrando. Era do musical grito, indelvel em nossas memrias, dos meninos que saam a vender o Jornal de Montes Claros, to logo a edio ficava pronta. Grito de crianas felizes porque ganhariam uns trocados para comprar refrigerantes, pipocas, balas-doces, quebra-queixos e picols, ou para ajudar suas famlias. No anncio omitiam a letras t e e e o ltimo esse do substantivo composto Montes Claros, bem como a pronncia da vogal e na segunda slaba da palavra hoje, de modo que o brado juvenil ficava realmente como Beto o cantara: Jornal de Monsclaro de hooojj!!!
Logo depois Beto nos revelaria que, menino, pedira a God uns trocados, que lhe foram negados com a maior educao. Resoluto, fora sede do Jornal de Montes Claros, pegara dez exemplares para vender e sara gritando pelas ruas da cidade: Jornal de Monsclaro de hooojj!!! Foi to legal o modo pelo qual ele reviveu essa sua faceta de ex-vendendor do Mais Lido, que, marmanjos, ficamos a cantar naquela mesa do calado do bar, qual meninos, para a perplexidade dos demais presentes, dos transeuntes e dos amigos que se acercavam de ns: Jornal de Monsclaro de hooojj!!! Paulinho Pedra Azul vaticinou que aquilo daria refro para uma bela msica. Concordei, no ato. Belo refro, sim, meu caro Paulinho, que, at hoje, decorridos mais de vinte anos do fechamento do jornal, ainda ressona nos ouvidos da gente norte-mineira, nos quais ecoou por mais de trinta e oito anos. O Mais Lido no morreu. Continua vivo, principalmente nas pessoas de seu grande artfice, o mestre Oswaldo Antunes, e de seus escribas e demais servidores, espalhados por estes brasis, cultivando um jornalismo de alto nvel, saboroso e tico, bebido em fonte to lmpida.


56701
Por Augusto Vieira - 29/3/2010 17:46:49
QUINHENTO PRO CADVER!!!

Era conhecido simplesmente por Paulista. Residia num barraco, no bequinho, ao lado da antiga fbrica, ali na Coronel Prates, perto da Santa Casa. Era paulista. Deve ter sofrido grande drama, porque vivia na mais absoluta solido, amparado apenas, suponho, pela famlia de seu Meinardo, seu elegante e bondoso vizinho, que residia em frente avenida. Seus cabelos, sedosos, eram cinzentos. Sua barba fechada, ponteada por fios embranquecidos, ora feita, ora por fazer, emoldurava um rosto fatigado e um olhar tenebroso. Fumava desbragadamente, ora cigarros, ora um cachimbo, e cuspia grosso. Seus dentes, escurecidos pela nicotina, eram grandes e pontiagudos. Sempre andava com um terno cinza, ora limpinho, ora sujo. Em certos dias, de lucidez, penso, limpava seu corpo, sua roupa e seus sapatos, para caminhar pelas ruas, usando uma gravata borboleta vermelha e um elegante chapu cinza, relembrando o tempo em que fora feliz e saudvel. Tinha uma doena crnica nas pernas. Seus passos eram milimtricos. Andava com o corpo inclinado para baixo. Gastava horas para fazer o percurso, de menos de um quilmetro, de seu barraco at antigo mercado da Praa Dr. Carlos. E a meninada, ao v-lo passar, gritava, em coro, para irrit-lo: Quinhento pro Cadver!!! E recebia de volta os mais requintados xingamentos daquele moribundo que mal conseguia se manter nas prprias pernas e erguer sua cabea, especialmente nesses momentos de extrema ira. Com o tempo passou a usar uma bengala, o que impedia a garotada de aproximar-se de seu dbil corpo para provoc-lo. Acredito ter sido um homem culto, trabalhador e de recursos, que deve ter perdido tudo e sado, por este mundo, procura de paz, at chegar a minha aldeia, onde se fixou. Mas continuou carregando sua cruz, agora acrescida do peso da falta de misericrdia da crianada. Esse pobre homem marcou a vida de um menino, cujo corao ainda di pela impiedade e que tem muita curiosidade em saber sua verdadeira histria, antes que ela morra. Histria de um ser humano, que pode ser inspiradora de um grande romance. Meu caro Quinhento pro Cadver, hoje, aos sessenta e cinco anos, aquele menino traquinas roga, ajoelhado e contrito, seu perdo. Que Deus o guarde!




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