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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Saulo   
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Por Saulo - 8/3/2016 12:30:22

Luto entre os bicentenrios catops de M. Claros. Faleceu no final da manh de hoje o lder do nico terno de So Benedito das Festas de Agosto. Morreu Expedito, o mais simples, o mais humilde, o mais terno entre os catops. Um dos mais antigos, e admirado. De 72 anos, 64 de catop, 4 filhos, 11 netos, 4 bisnetos. Carroceiro de ofcio. Carroceiro como a maioria dos chefes catops. Sentiu uma dor. O suficiente para morrer no seu estado de debilidade fsica.

A sade vinha frgil, h anos. Nas ltimas cinco Festas de Agosto, comparecia ao dever de cantar e danar pelas ruas vencendo penosas limitaes do corpo, antpodas ao vigor de suas obrigaes. Mais de uma vez, saiu e voltou para a mquina de hemodilise depois de envergar as vestes - para ele sagradas, de danante de Agosto, de lder do cortejo rosa, do Reinado de So Benedito.

Seu terno historicamente foi o menor. O menos destacado. O que, por tradio, no pode ter o "chama", o instrumento marcante dos catops que fundo toca, e chama as almas, e as convoca, e as arrebata, a tempos imemoriais. A convico do lder, o exemplo de uma vida, sua dedicao canhestra levada ao ponto extremo, tudo fazia armazenar admirao, respeito, aplausos, e lgrimas, muitas lgrimas, em torno do chefe humilde, esconso; invisvel mesmo, numa modstia comovente, e trmula.

No ltimo ano de Joaquim Pol, o mtico chefe dos Caboclinhos, os dois reservadamente, nas sombras e desvos do caminho, trocavam comprimidos para alviiar a dor - um com cncer, o outro, Expedito, com severos problemas causados por hemodilise prolongada.

A maior festa de Montes Claros est de luto pelo seu catop mais autntico, (e anglico); inversamente, o mais simples, e para quem devem ser levantadas todas as homenagens. E ser pouco, para exemplo to devotadamente rebuado pela alma nobre.

(Aui!, dizem catops, marujos e caboclinhos quando hora de deter a msica, silenciar os tambores, calar. Aui!, respondemos todos. Mas, no demorem, sigamos).


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Por Saulo - 10/7/2015 08:56:10
No estava l. Sequer sou testemunha ocular. Isto , algum que viu o acontecimento, sem nele interferir ou tomar parte. Mas, posso dizer - estive presente, ainda assim. Todos dizem que foi bela a cerimnia do adeus de Vanda Pereira Souto, de 75 anos. Esposa, desde 1959, do soldado da PM Joo Souto, que tambm no conheo, mas que tambm admiro.
Os dois se conheceram na 1 Igreja Batista de M. Claros, em 1952, naquele ermo atrs do Cine Coronel Ribeiro, ao lado da estao meteorolgica. Poderia dizer: a nica igreja "crente", "protestante", que havia em M. Claros naqueles dias e noites, cercada de desconfianas, e de indagaes. Vanda era do coro, cantava no Coral. Assim, persistiu.
Tera-feira - aqui que devo chegar, tera-feira toda a assemblia crist se reuniu para as suas despedidas. O hinrio de sua preferncia foi esgotado, uma por uma das msicas que amou, e cantou. Seis pastores se revezaram na predicao. Uma beleza, e sinto que no de tristeza, mas de magnfica esperana.
Na imaginao, ainda vi: foi coisa to bela como fazem os originais seguidores de Francisco de Assis - quando hora de um deles partir. Cantam a "cerimnia da passagem", creio que dura uma noite, sem trao de tristeza que ouse entrar, a perfeita alegria. H, e s, um rio de esperana, o "oceano sem margens", de que muito se ouvir falar.
("Alm do Rio Azul", cantaram todos, nas dobras da despedida de Vanda Pereira Souto, 75 anos, dona de casa. Exuberantemente dona de casa, como pouco se usa dizer agora. No estive l. Mas um claro percorreu a cidade. Nem s de notcias tristes vivem os homens nestes tristes tempos).


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Por Saulo - 14/3/2015 15:56:15
Uma cidade que perde a sua memria uma cidade destinada a perder tambm a sua identidade, e at o nome que a faz reverenciada entre as demais, especialmente em matria de cultura, arte e histria.
Leio hoje convite para Missa de 7 Dia, de Mary Wilson Maldonado Dutra Niccio.
Poderia ser simplesmente Mary Maldonado, e muitas excelentes e gratas recordaes brotariam de todos os pontos, por variados motivos.
Foi moa lindssima. Exemplar dona de casa. Irm em familia numerosa. Artista inigualvel.
Aqui, devo me deter. Cantava como um anjo - e me lembro do que grafou JK , no seu dirio ntimo, nos dias mais doridos, "hoje, ouvi um anjo cantar...".
Vou de volta aos anos 70, creio que numa noite de apresentao da requisitada Seresta de M. Claros. Ou foi numa exibio do Banz, nas suas melhores ocasies, numa manh de domingo.
Mary Maldonado arrebatou o grande auditrio do Palcio das Artes, ja transformado em nosso Carnegie Hall. Quando ela acabou de cantar uma de nossas msicas de seresta, hoje to negligenciada, e era nada menos que um Querubim cantando, o auditrio veio abaixo, com igual arrebatamento que s vi outra vez.
Foi por aquele mesmo tempo, quando o Bal Bolshoi se exibiu em Belo Horizonte pela primeira vez, com o seu corpo principal. Os aplausos s foram comparveis aos enviados nossa Mary quando, por fim, pisou o palco - ltimo nmero - a diva do bal, nada menos que Maya Pllisetskaya, que no danava, flutuou ali diante de todos, arrancando aplausos que pareciam no ter fim. A suprema danarina de todas as Rssias...e a Flor do Campo, nossa Mary.
A comparao do aplauso, em datas prximas, foi inevitvel, automtica, compulsria, pois jamais vi coisa parecida.
Vvida, a lembrana me vem agora, quando triste leio, necessitado de mais explicaes, o convite para irmos todos, hoje, neste sbado, s 19h, Capela do Colgio Imaculada, para a Missa de 7 Dia, da Ressurreio, da notvel Voz de nossa cidade.
Voz que migrou para os Cus, em silncio. Como fazem os anjos. Cantar l, e recolher o mesmo, e intenso, e interminvel, e inapagvel, e eterno aplauso, que um dia a consagrou. E que ainda ouo agora, vindo de um domingo, no Palcio das Artes, na cidade de Belo Horizonte, nos anos 70. Pobre cidade que perde a sua memria pelos caminhos.


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Por Saulo - 8/1/2015 11:01:57

Igreja cheia e cantoria bonita. Assim foi a Missa de Ressurreio do escritor Haroldo Lvio, ontem s 18h no Colgio Imaculada. O templo ficou pequeno para tantos amigos. Impossvel no sentir a presena do ressurrecto nesta tradio de 7 Dia, que muito brasileira e praticamente no existe no resto do mundo. Herdoto, pai da Histria, viveu 500 anos antes de Cristo e narrou que no princpio dos tempos se comemorou, com alegria, mais o Dia da Morte do que o Dia do Nascimento - ao contrrio de hoje. Assim tambm foi nos primeiros sculos Cristos. O Dia do que chamamos Morte era visto como o verdadeiro dieis natalis, porque marca o nascimento para a Vida Eterna. Mudaram-se os tempos, tornados menos divinos e mais humanos.
O fato que ontem, na Ressurreiao do grande, imenso Haroldo Lvio, havia esta certeza de permanncia, de que ele est Vivo, na melhor tradio crist. Maria do Carmo, viva, e as trs belas filhas distriburam "santinhos" de Haroldo, j de regresso ao Pai, e no verso a poesia de Augusto Frederico Schmidt, bardo que escrevia os discursos de JK. "Quando me levareis em mim mesmo mudado? Para o grande mar, o grande mar, o grande mar...". O poema alcana, toca a melhor definio de Deus da tradio Vedanta - o "oceano sem margens". Haroldo est feliz. Por muitos motivos, e tambm pela presena, luminosa, na sua Missa de Ressurreio, da tambm celebrada escritora Yvonne Silveira, que acaba de comemorar os 100 anos.


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Por Saulo - 4/1/2015 10:45:37
Ainda o imenso Haroldo Lvio, sbio e modesto, que estas coisas costumam andar juntas. Haroldo gostava do poeta Tagore, indiano que viveu na Inglateerra. Indiano prmio Nobel de Literatura. Indiano, claro, da linha dos Vedas, de Shankara, de 10 mil anos de tradio discipular. Indiano, que sem nunca ter ouvido falar do nosso Scrates particular, e do seu Jardim de Academus, predisse o seu caminho, que de todos que atingem tal compreenso. Diz o poeta, Grande Cisne de Outras Margens:

hora de partir, meus irmos, minhas irms
Eu j devolvi as chaves da minha porta
E desisto de qualquer direito minha casa.
Fomos vizinhos durante muito tempo
E recebi mais do que pude dar.
Agora vai raiando o dia
E a lmpada que iluminava o meu canto escuro
Apagou-se.
Veio a intimao e estou pronto para a minha jornada.
No indaguem sobre o que levo comigo.
Sigo de mos vazias e o corao confiante.


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Por Saulo - 6/12/2014 15:39:58
Creio que muitos se lembraro do comerciante Z Amro, amigo de toda gente l pelos anos 50, 60 e 70. Mantinha o armazm mais movimentado do antigo Mercado de M. Claros, na Praa Dr. Carlos, cuja lamentvel demolio privou Montes Claros de um dos seus smbolos, de uma de suas marcas.
Z Amaro, voltemos a ele e sua alegria, era ruidoso.
Falava muito alto, era pequenito, gordinho.
Vivia esbaforido, de um lado para o outro, sempre empinando os culos, suando. Era personagem central da vida de uma Montes Claros hoje submersa, mas nunca morta, burgo sentimental que encontrava nele a traduo lrica e divertida. Rocambolesca, at.
Aqui, entro na histria, ditada num improviso e numa saudade.
Z Amaro tinha muitos filhos. Quando nasceu o ltimo, ou um dos ltimos, ela propagandeou: "vai ser general, ser general...". Todos se deliciavam com suas histrias, sua sinceridade, a autenticidade e pureza do serto profundo, ditas a todo vento, repartidas com a freguesia annima, e tambm para os de cumeeira, como o historiador Nelson Viana, sempre louvado, seu confidente preferencial.
O mltiplo Dr. Konstantin, mdico, blgaro, humanista, filsofo, retratista, pintor e cartunista, dr. Konstantin imortalizou o pequeno grande Z Amaro em dezenas de bicos de pena publicados nas nossas revistas, em especial na Encontro, de Lcio de Benquerer (e acrescentei o de, de propsito, e todos entendero o propsito, e o endossaro).
ramos felizes naqueles dias de doce isolamento, quando conseguir algum falar para B. horizonte, por telefone, era o acontecimento do dia....
E Ze Amaro sempre repetindo... "vai ser general..."
A cidade, antes de crescer, inchou, como segue inchada, incapaz de se reencontrar; Z Amaro subiu para os pramos, levando o seu folclore; o mercado foi derrubado, virou cimento, virou praa de comcio, virou nada, e por fim virou...shopping popular - quando hoje seria o solar da nossa cultura; a avenida Coronel Prates, coitada dela, peitou a Cruz, provou do martrio e descendo vai, reduzida a correia de transmisso de um supermercado, irreconhecvel, desventrada, exausta; tudo mudou, mudou muito, nem sempre para melhor, mas a profecia de Z Amaro, recolhida por tantos, esta no desapareceu. "Ser general, vai ser generalll..."

O "mais pequeno" dos filhos de Z Amaro, como me autoriza dizer o maior dos poetas portugueses, o mais pequeno cresceu, matriculou-se na Academia das Agulhas Negras, recebeu a espada de oficial e - no sei se ainda na presena fsica de Z Amaro, empreendeu um carreira vertiginosa no Exrcito Brasileiro.

hoje general. Creio que esperando a ltima e definitiva estrela - das 4 possveis. "Em tempos de paz", replica Z Amro, do cu.
Comanda as tropas terrestres em Minas, subordinado apenas ao Comandante do Leste, antigo 1 Exrcito, e ao ministro. A profecia de Z Amaro foi muito alm.
No sei se o General Arajo j esteve em M. Claros na qualidade de comandante em chefe do Exrcito em Minas. Ou se esteve discretamente.

Daria tudo para v-lo passando em revista as tropas locais, sob o olhar, de pranto e alegria, do nosso insubstitvel Z Amaro.

(Este desfile fica portanto transferido ao corao de quantos conheceram, amaram e se recordam de Z Amaro, cone de um tempo e de uma cidade - que nunca jamais morrero, enquanto existirem doces lembranas, e profecias tais, como esta).

Que Viva Z Amaro!


78468
Por Saulo - 17/8/2014 14:40:22
Chove desde a manh a norte e a leste de M. Claros, a cidade. Esta chuva - que est constante atrs do Morro dos Dois Irmos - s vezes entra na rea urbana, faz de conta que vem, e volta. Brinca. Algo querem dizer aos Catops, desconfio.
(Creio que chama ateno para o Morro smbolo de nossa ajuntamento, e do qual resta tnue casca, pois foi transformado em cimento, ao longo dos ltimos 50 anos. Cimento hoje que de um fabricante francs, que nenhuma "bola" d para a cidade de quem engole o smbolo, bem diferente dos primeiros donos.)
Falemos da chuva: ela parece constante para alm do desfigurado, ao revs, Morro dos Dois Irmos.
Tive notcias que da mesma safra da chuva que hoje, bendita seja ela, cai na regio leste de Minas, beneficiada por ventos martimos. Pois pela previso do tempo no h nenhuma chuva a ns dedicada. Bom que a meteorologia erre.
Bom que tambm se engane algum, de bom corao, que culpa os nossos Catops pelo que no fizeram.
O que fazem, fazem por 200 anos - cantam, danam, louvam, exercitam sua pequena grande f, no limite da nobreza e do sacrifcio, na fronteira do esgotamento pessoal, fsico, humano.
Mas com uma alegria que s pode vir mesmo do cu.
No vendem sanduches.
No exploram comrcio, bebidas e refrigerantes.
Nunca, jamais, pedem alm do que vale o feijo com arroz, a carne de sol com mandioca, o arroz com pequi- que muita vez lhes fazem falta.
No gostam daquela festa que se apropriou do seu nome, que at fecha o seu caminho. Festa, ou festival, que devia convergir para les, mas diverge, h tantos anos.
E ainda h quem os culpe, mas so inocentes. Inocentes.
Devolvem, cantando: ""Deus te Salve Casa Santa, onde Deus fez a morada...".

A vida feita de pequenas e grandes injustias. Eles aprenderam, e perdoam - enquanto se vo. cantando, cantando, junto com a Marujada e os Caboclinhos - "A retirada, meus camaradas. A retirada, a retirada...".

Muito provavelmente hoje ainda se encontraro com a chuva, que veio busc-los, e os espera,
por trs da cortina do Morro dos Dois Irmos.


78455
Por Saulo - 15/8/2014 15:16:36

Ligeiras anotaes da presente Festa de Catops:
1 - Toda Festa de Agosto tem seu trao de forte emoo, quase sempre oculto de quem v os desfiles. Um exemplo a visita anual que os Marujos, incorporados, solenes, fazem ao Cemitrio. Vo l cantar e celebrar os "marujos mortos", os que se foram ao longo de quase 200 anos.
2 - A comoo deste ano, silenciosa e sabida por poucos, veio do Terno mais humilde dos Catops. O Terno de So Benedito. (Os outros 2 so dedicados Nossa Senhora). O seu chefe homem humlimo, frgil, mas de uma pacincia infinita, e de uma doura e f incomuns. Uma integridade que ilumina. Chama-se Expedito, e tambm carroceiro. Est h 60 anos nos Catops, e nunca faltou a um mastro. Ontem, faltou ao levantamento ocorrido por volta da 23 horas. Exatamente o mastro da Bandeira sob sua guarda - a de So Benedito.
3 - Faltou por razo justificada, e comovedora.
4 - s 6h da manh desta Quinta-Feira do Reinado de Nossa Senhora do Rosrio ele estava numa mquina de hemodilise. Saiu de l, direto para a Igreja do Rosrio, com instrues de esperar l, sentado, a chegada do desfile.
5 - Quando o mensageiro da ordem deu as costas, Expedito pegou o netinho pela mo e foi para a Praa do Automvel Clube, liderar seus catops. Cumpriu a misso, como sempre nos ltimos 60 anos, e entrou na Igreja do Rosrio para o o ritual mximo, que ele cumpre sem entender as causas, prximas ou profundas. Ao sair da Igrejinha, notou que "tudo estava escuro". Passou mal, com queda forte de presso.
6 - noite, no teve como estar frente do Terno de So Benedito para levantar o Mastro de S. Benedito, o de sua guarda e proteo. Foi a primeira vez que no compareceu ali, na data que a mais importante de sua vida, a cada ano.
5 - Hoje, sentindo-se "mais forte", foi com seu Terno buscar o Reinado do patrono So Benedito, misso integralmente atendida.
7 - O Terno de So Benedito - podem todos ver - o mais simples. O mais pobre. O menos numeroso. Mas, nunca o menos importante entre os 3 atuais. Comove a leve, discreta doura que o carroceiro Expedito transmite ao grupo, que tambm tem o som mais baixo, menos pungente entre todos. Por razo que ignora, e que perdura por dcadas ,o Terno de So Benedito o nico entre os Catops que "no pode ter" um instrumento que os danantes nomeiam por "chama". o tambor vigoroso, intenso, o mais ouvido. Tambor de alta floresta, que chama, convoca, pontua as marchas, severo, surdo na sua tarefa. E que impe e dita a cadncia.
8 - Como o antigo chefe do imemorial Terno de S. Benedito, o que lhe transferiu o legado ao morrer, no tinha o "chama" no grupo, Expedito sustentou a tradio. O Terno ento sai sem nenhum " chama", sem o seu vigor retumbante, a convocao ouvida ao longe, e isto no faz falta. Mestre Expedito, catop desde sempre, o carroceiro que deixou uma mquina de hemodilise para cumprir os compromissos mais importantes da sua vida, ele tudo ilumina e vence com sua humildade. Um avatar entre os Catops.

Para finalizar: Mais uma vez os Catops no esto satisfeitos com a festa paralela que se realiza nos dias e noites dos Reinados e do Imprio, do Divino, que ser amanh. Um imenso palco na Praa da Matriz, que o endereo remoto da Festa, o palco impede que os danantes passem por l quando vo fincar os mastros de sua devoo, noite - e hoje o ltimo. Isto di muito neles, que apenas baixam a cabea e murmuram a dor que isto importa.


77052
Por Saulo - 20/2/2014 08:55:57

Escabroso detalhe da execuo ocorrida anteontem no prolongamento da antes pacata e buclica Vila Braslia em Montes Claros. Um dos atiradores, ao descarregar a arma, colocou o p na cabea agonizante de sua vtima. E, sempre atirando, acertou com um tiro o prprio p. Da a trilha de sangue que deixou, ao se dirigir a hospital, onde teria sido descoberto. a verso de muitos vizinhos. Outro detalhe: o horror desta execuo porque toda a cena foi filmada por uma das duas cmeras de TV de um prdio em construo, na frente do qual ocorreu a execuo sumria, e onde trabalharia o homem procurado. As ruas do Brasil, todo o Brasil, esto cheias de execues, to pavorosas como esta. O detalhe que, pelas imagens que agora correm o mundo, possvel ver cada lance da barbrie, cruel e vergonhosa, independente de onde acontea - aqui ou numa viela de Xangai. preciso lembrar, sempre. Durante a Guerra do Vietn, um dos episdios mais sangrentos do ltimo sculo, a execuo filmada de um guerrilheiro (foto acima) chocou e cobriu o mundo de vergonha, e apressou o fim da guerra. Era um conflito mundial. Uma guerra aberta, solenemente oficializada, mas a cena em nada - na escala humana - foi mais pavorosa do que a que Montes Claros assistiu h dois dias, repetida, e que tristemente exportou para o mundo. A brutal imagem sinaliza que a guerra aqui, embora no declarada, tambm uma guerra, com o seu cortejo de horrores - e exatamente na terra que certa vez viu brotar uma melodia universal -"Amo-te Muito", de inexcedvel ternura. Os sinos dobram por ns. E por nossos filhos. Choremos todos.



62402
Por Saulo - 5/10/2010 09:43:42
No, no sou analista poltico. Disso larguei h muito tempo. Mas a crispao poltica, as dores dispersas pelo vento, isto tambm di em mim. Por isto, peo licena para enviar um poema. Talvez caiba no tempo sofrido pelo qual passamos,todos. Fala de um menino - "o mais pequeno". a ele que recorro sempre que o tempo embrutece, fica rude alm. O autor, para contrastar, o maior dos poetas da lingua portuguesa, nossa lingua tambm. Ouam. fernando pessoa, morto aos 47 anos, falando pela boca de Alberto Caeiro, morto bem antes dele:


Num meio-dia de fim de primavera
Tive um sonho como uma fotografia.
Vi Jesus Cristo descer terra.
Veio pela encosta de um monte
Tornado outra vez menino,
A correr e a rolar-se pela erva
E a arrancar flores para as deitar fora
E a rir de modo a ouvir-se de longe.
Tinha fugido do cu.
Era nosso demais para fingir
De segunda pessoa da Trindade.
No cu era tudo falso, tudo em desacordo
Com flores e rvores e pedras.
No cu tinha que estar sempre srio
E de vez em quando de se tornar outra vez homem
E subir para a cruz, e estar sempre a morrer
Com uma coroa toda roda de espinhos
E os ps espetados por um prego com cabea,
E at com um trapo roda da cintura
Como os pretos nas ilustraes.
Nem sequer o deixavam ter pai e me
Como as outras crianas.
O seu pai era duas pessoas
Um velho chamado Jos, que era carpinteiro,
E que no era pai dele;
E o outro pai era uma pomba estpida,
A nica pomba feia do mundo
Porque no era do mundo nem era pomba.
E a sua me no tinha amado antes de o ter.
No era mulher: era uma mala
Em que ele tinha vindo do cu.
E queriam que ele, que s nascera da me,
E nunca tivera pai para amar com respeito,
Pregasse a bondade e a justia!
Um dia que Deus estava a dormir
E o Esprito Santo andava a voar,
Ele foi caixa dos milagres e roubou trs.
Com o primeiro fez que ningum soubesse que ele tinha fugido.
Com o segundo criou-se eternamente humano e menino.
Com o terceiro criou um Cristo eternamente na cruz
E deixou-o pregado na cruz que h no cu
E serve de modelo s outras.
Depois fugiu para o sol
E desceu pelo primeiro raio que apanhou.
Hoje vive na minha aldeia comigo.
uma criana bonita de riso e natural.
Limpa o nariz ao brao direito,
Chapinha nas poas de gua,
Colhe as flores e gosta delas e esquece-as.
Atira pedras aos burros,
Rouba a fruta dos pomares
E foge a chorar e a gritar dos ces.
E, porque sabe que elas no gostam
E que toda a gente acha graa,
Corre atrs das raparigas
Que vo em ranchos pelas estradas
Com as bilhas s cabeas
E levanta-lhes as saias.
A mim ensinou-me tudo.
Ensinou-me a olhar para as cousas.
Aponta-me todas as cousas que h nas flores.
Mostra-me como as pedras so engraadas
Quando a gente as tem na mo
E olha devagar para elas.
Diz-me muito mal de Deus.
Diz que ele um velho estpido e doente,
Sempre a escarrar no cho
E a dizer indecncias.
A Virgem Maria leva as tardes da eternidade a fazer meia.
E o Esprito Santo coa-se com o bico
E empoleira-se nas cadeiras e suja-as.
Tudo no cu estpido como a Igreja Catlica.
Diz-me que Deus no percebe nada
Das coisas que criou
Se que ele as criou, do que duvido
Ele diz, por exemplo, que os seres cantam a sua glria
Mas os seres no cantam nada.
Se cantassem seriam cantores.
Os seres existem e mais nada,
E por isso se chamam seres.
E depois, cansado de dizer mal de Deus,
O Menino Jesus adormece nos meus braos
E eu levo-o ao colo para casa.
Ele mora comigo na minha casa a meio do outeiro.
Ele a Eterna Criana, o deus que faltava.
Ele o humano que natural,
Ele o divino que sorri e que brinca.
E por isso que eu sei com toda a certeza
Que ele o Menino Jesus verdadeiro.
E a criana to humana que divina
esta minha quotidiana vida de poeta,
E porque ele anda sempre comigo que eu sou poeta sempre,
E que o meu mnimo olhar
Me enche de sensao,
E o mais pequeno som, seja do que for,
Parece falar comigo.
A Criana Nova que habita onde vivo
D-me uma mo a mim
E a outra a tudo que existe
E assim vamos os trs pelo caminho que houver,
Saltando e cantando e rindo
E gozando o nosso segredo comum
Que o de saber por toda a parte
Que no h mistrio no mundo
E que tudo vale a pena.
A Criana Eterna acompanha-me sempre.
A direco do meu olhar o seu dedo apontando.
O meu ouvido atento alegremente a todos os sons
So as ccegas que ele me faz, brincando, nas orelhas.
Damo-nos to bem um com o outro
Na companhia de tudo
Que nunca pensamos um no outro,
Mas vivemos juntos e dois
Com um acordo ntimo
Como a mo direita e a esquerda.
Ao anoitecer brincamos as cinco pedrinhas
No degrau da porta de casa,
Graves como convm a um deus e a um poeta,
E como se cada pedra
Fosse todo um universo
E fosse por isso um grande perigo para ela
Deix-la cair no cho.
Depois eu conto-lhe histrias das cousas s dos homens
E ele sorri, porque tudo incrvel.
Ri dos reis e dos que no so reis,
E tem pena de ouvir falar das guerras,
E dos comrcios, e dos navios
Que ficam fumo no ar dos altos-mares.
Porque ele sabe que tudo isso falta quela verdade
Que uma flor tem ao florescer
E que anda com a luz do sol
A variar os montes e os vales
E a fazer doer aos olhos os muros caiados.
Depois ele adormece e eu deito-o.
Levo-o ao colo para dentro de casa
E deito-o, despindo-o lentamente
E como seguindo um ritual muito limpo
E todo materno at ele estar nu.
Ele dorme dentro da minha alma
E s vezes acorda de noite
E brinca com os meus sonhos.
Vira uns de pernas para o ar,
Pe uns em cima dos outros
E bate as palmas sozinho
Sorrindo para o meu sono.
Quando eu morrer, filhinho,
Seja eu a criana, o mais pequeno.
Pega-me tu ao colo
E leva-me para dentro da tua casa.
Despe o meu ser cansado e humano
E deita-me na tua cama.
E conta-me histrias, caso eu acorde,
Para eu tornar a adormecer.
E d-me sonhos teus para eu brincar
At que nasa qualquer dia
Que tu sabes qual .
Esta a histria do meu Menino Jesus.
Por que razo que se perceba
No h-de ser ela mais verdadeira
Que tudo quanto os filsofos pensam
E tudo quanto as religies ensinam?


61469
Por Saulo - 17/9/2010 23:01:54
Centenas de pessoas sem prvia convocao foram ao cemitrio neste fim de tarde se despedir de Andrey Ribeiro Cristoff, que cedo partiu. Deixou-nos aos 52 anos, jovem. H dois dias, no era visto. Havia sado de casa para render a me na cabeceira do pai, o mdico Konstantin Cristoff, internado h semanas na Santa Casa, num quadro de pneumonia. Procurararam-no. O acaso ajudou a ach-lo na porta da Santa Casa, ali diante da igrejinha minscula. Estava no carro, tombado sobre o banco do passageiro. Provavelmente morreu na noite de tera-feira, quando chegou para substituir a me nos cuidados com o pai enfermo. Tinha mal de Parkinson. Tomava medicamentos que lhe davam sono. Extenuado, depois de noites de viglia, talvez tenha adormecido logo que estacionou o veculo. De um sono, passou a outro supe-se. Exatamente na porta do hospital que, como arquiteto, ajudou a modernizar e a humanizar. o resumo.
A notcia que ontem noite circulou como uma navalha reuniu os amigos, os admiradores, os colegas, familiares, convocou a unanimidade que reconhece nele o arquiteto mais inspirado de sua gerao. Tudo afinal coube nas trs palavras singelas que iluminam o seu legado: o bom Andrey. As circunstncias no permitiram a realizao do velrio, mas o Cemitrio que no grego sugere dormitrio - estava cheio dos que o admiram, e que por uma cadeia invisvel se movimentaram para no faltar. Padre Henrique fez a prece. A filha falou do pai brincalho. E o corpo foi depositado na campa do av legendrio, o Sr. Cristo, pai de Konstantin, blgaro de nascimento, de brancas barbas, e olhar severo, imigrante, patrono do mercado de Montes Claros, e que ensinou a cidade, ensinou a todos ns, a plantar e colher frutas, verduras e tambm flores, no frescor da manh que faz o dia comear, e a vida a recomear. Padre Henrique, sempre ele, disse alguma coisa que rebuou o clima de justificada prostrao, desolao, substitudo pela aragem de esperana, vinda no se sabe de onde, que tudo modificou. O Bom Andrey seguiu debaixo da admirao de todos, lavado de suas dores, alegre, risonho, gentil; como sempre amvel, afvel. Bom, bom e bom.


58175
Por Saulo - 9/5/2010 17:02:20
Foi extraordinariamente bom que G. Magela Sena, neste Mural, tenha apanhado um fragmento do poema Dia das Mes para ilustrar suas belas palavras belas. Deu-me a oportunidade de evocar o poema inteiro, que todos os anos, no Dia das Mes, lido alternadamente nas rdios 98 FM e 93 FM, de M. Claros. O poema bom, alto, extraordinrio. De uma atualidade cortante, que enternece e comove, e o seu autor - infelizmente hoje pouco conhecido - ainda h de remerecer um destaque que lhe faa justia plena. Todos os que tiveram o privilgio de ouvir a Rdio Nacional do Rio de Janeiro, nos anos 40, 50 e 60, a maior escola de jornalismo que este Pas j ouviu, tero neste nome uma referncia segura, bem fixada na memria, e na gratido, como eu quero dizer que tenho.
Giuseppe Ghiaroni. Afinal, era dele - e de quem mais poderia ser? - a radiofonizao da vida de Jesus Cristo, que literalmente parava o Brasil nas Sextas-feiras da Paixo. Naqueles dias (que sempre nos seguem, e nos seguiro sempre) apenas um soluo era capaz de escapar de nossas gargantas, no silncio que ia atrs do lamento das matracas pelas ruas montesclarinas. Era ouvir o rdio em casa, correr para a Procisso do Encontro, para a Via-Sacra, para a Adorao da Cruz e os Lamentos de Jeremias; noite, correr para ouvir o Canto de Vernica na Cerimnia do Descendimento do Senhor Morto, para Contemplar a Mater Dolorosa na redoma de vidro de padre Dud e seguir a banda de msica nada marcial atrs do Esquife Santo, e voltar correndo para casa, para o p do rdio, a tempo de ouvir os ltimos e lancinantes Aoites e as Quedas do Mestre na Escalada Dolorosa do Glgota.
Este Giuseppe Ghiaroni, volto a dizer, recordem comigo, era mineiro. Nasceu em Paraba do Sul. Foi poeta e jornalista. Emigrou para o Rio. Trabalhou na redao do jornal A Noite. Seus poemas - lidos na Rdio Nacional do Rio de Janeiro, nome que preciso pronunciar sempre por inteiro seus poemas e crnicas entraram para a histria do Brasil! Dentre as Obras publicadas e mais conhecidas, esto O Dia da Existncia, seu primeiro livro, de 1941, A Graa de Deus, de 1945, e a Cano do Vagabundo, de 1948. Em 1997 publica A Mquina de Escrever, obra lanada no Programa do J! Antes de ser poeta, foi ferreiro, office-boy, caixeiro e redator do Suplemento Juvenil.
Esteve conosco, bem perto de todos ns, at os 89 anos. Faleceu em 2008, no Rio, e muito tristemente lamento que os sinos no tenham dobrado em homenagem mais que merecida a este que nos faz levantar quando pronunciam o seu nome.
J nos dias conclusivos, anos 90, crepsculo, foi redator da Globo. Estou convencido de que no foram das suas melhores horas de criao, pois que falava de uma altura que talvez a rede de TV no pudesse alcanar e sentir, para permitir que viajassem no ter (como nas trs dcadas mgicas do rdio brasileiro) para penetrar e persuadir mentes, coraes e almas. No Rdio. No rdio, onde a imaginao a fora criadora, insupervel, como podemos testemunhar ns todos que fomos criados ouvindo Jernimo, o Heri do Serto, O Anjo, Balana mas no Cai, a Lira do Xopot, Obrigado Doutor e novelas inapagveis como O Direito de Nascer. (Pare. Oua o rdio que toca dentro de voc, que viveu naqueles dias de ouro).

Convido. Querem ver o tamanho da poesia de Ghiaroni, que - como disse - ouo todos os anos nas ondas da 98 FM (que hoje completou 29 anos) e da 93 FM, por ocasio de todo Dia das Mes? Leiam abaixo. Guardem. Levem para a escola. Chorem. Chorem se as lgrimas subirem do e ao Corao.



Dia das Mes

Giuseppe Ghiaroni

Me! eu volto a te ver na antiga sala
onde uma noite te deixei sem fala
dizendo adeus como quem vai morrer.
E me viste sumir pela neblina,
orque a sina das mes esta sina:
amar, cuidar, criar, depois... perder.
Perder o filho como achar a morte.
Perder o filho quando, grande e forte,
j podia ampar-la e compens-la.
Mas nesse instante uma mulher bonita,
sorrindo, o rouba, e a avelha me aflita
ainda se volta para abeno-la

Assim parti, e nos abenoaste.
Fui esquecer o bem que me ensinaste,
fui para o mundo me deseducar.
E tu ficaste num silncio frio,
olhando o leito que eu deixei vazio,
cantando uma cantiga de ninar.

Hoje volto coberto de poeira
e ten encontro quietinha na cadeira,
a cabea pendida sobre o peito.
Quero beijar-te a fronte, e no me atrevo.
Quero acordar-te, mas no sei se devo,
no sinto que me caiba este direito.

O direito de dar-te este desgosto,
de te mostrar nas rugas do meu rosto
toda a misria que me aconteceu.
E quando vires e expresso horrvel
da minha mscara irreconhecvel,
minha voz rouca murmurar:``Sou eu!"

Eu bebi na taberna dos cretinos,
eu brandi o punhal dos assassinos,
eu andei pelo brao dos canalhas.
Eu fui jogral em todas as comdias,
eu fui vilo em todas as tragdias,
eu fui covarde em todas as batalhas.

Eu te esqueci: as mes so esquecidas.
Vivi a vida, vivi muitas vidas,
e s agora, quando chego ao fim,
trado pela ltima esperana,
e s agora quando a dor me alcana
lembro quem nunca se esqueceu de mim.

No! Eu devo voltar, ser esquecido.
Mas que foi? De repente ouo um rudo;
a cadeira rangeu; tade agora!
Minha me se levanta abrindo os braos
e, me envolvendo num milho de abraos,
rendendo gras, diz:"Meu filho!", e chora.

E chora e treme como fala e ri,
e parece que Deus entrou aqui,
em vez de o ltimo dos condenados.
E o seu pranto rolando em minha face
quase como se o Cu me perdoasse,
me limpasse de todos os pecados.

Me! Nos teus braos eu me tranfiguro.
Lembro que fui criana, que fui puro.
Sim, tenho me! E esta ventura tanta
que eu compreendo o que significa:
o filho pobre, mas a me rica!
O filho homem, mas a me santa!

Santa que eu fiz envelhecer sofrendo,
mas que me beija como agradecendo
toda a dor que por mim lhe foi causada.
Dos mundos onde andei nada te trouxe,
mas tu me olhas num olhar to doce
que , nada tendo, no te falta nada.

Dia das Mes! o dia da bondade
maior que todo o mal da humanidade
purificada num amor fecundo.
Por mais que o homem seja um mesquinho,
enquanto a Me cantar junto a um bercinho
cantar a esperana para o mundo!


54796
Por Saulo - 6/2/2010 10:23:03
Hoje o dia 6 de Fevereiro. Quando, noite, os relgios marcarem 23 horas ter completado 80 anos o episdio que mais tornou Montes Claros conhecida em todo o Brasil. O clebre tiroteio na atual Praa Dr. Joo Alves, a Praa do Automvel Clube. O assunto foi manchete nos jornais da capital da Repblica por cerca de trs meses. Manchete principal, com letras imensas, garrafais. Toda a ateno do Brasil virava-se para o burgo mineiro. Tropas federais foram enviadas a Montes Claros. Um advogado que chegou a presidente do Supremo Tribunal Federal recebeu a incumbncia de apurar os fatos.
Hoje noite, a cena que o historiador Hlio Silva aponta como o primeiro tiro da Revoluo de 30 completar oito dcadas, com a cidade pacificada, neste particular, e quase sem saber de nada - pois esquecemos facilmente a nossa prpria histria, a trajetria comum, de todos.
O fato que, naquela hora, naquele 6 de Fevereiro de 1930, chegava a Montes Claros um trem especial trazendo o vice-presidente da Repblica, ento uma autoridade infinitamente mais poderosa do que atualmente . O trem, cheio de autoridades, despejou sua carga de importncia na gare local e o cortejo desceu pelas ruas. Eram dias de poltica acirrada, mercurial.
Ao passar defronte casa do chefe da poltica adversria, dali onde hoje o alegre Automvel Clube, partiu intensa fuzilaria. Moravam l Doutor Joo Alves, chefe da Aliana Liberal, e sua clebre mulher, dona Tiburtina Alves, vinda de Itamarandiba, perto de Diamantina. A ela se atribua um poder enorme, uma capacidade de liderana incomum. So muitas as verses, como tais conflitantes.
O fato que da intensa fuzilaria restaram corpos pela hoje mansa, pacfica e quase relegada Praa, me dos catops que desfilam pelas ruas da cidade a cada agosto novo. Nunca se contou o nmero de feridos. Apenas o de mortos: um menino, na calada do que hoje o prdio do Automvel Clube; o do secretrio do vice-presidente da Repblica, Melo Viana, chamado de Rafael Fleury; e mais - feridos mortalmente - Joo Soares da Silva, Moacir Dolabela e dona Iraci de Oliveira Novaes, esposa de Eudison Novaes.
No pnico que se seguiu, a comitiva voltou a toda pressa para a estao ferroviria. O trem do poder partiu - de r - para Belo Horizonte. No havia tempo, era preciso recuar a todo galope. O Brasil recebeu a notcia, atnito. A perplexidade em Montes Claros no foi menor. Por anos, a histria decantou o assunto - e a sabedoria de parte a parte felizmente sepultou os seus miasmas.
Nos ltimos anos, nas ltimas dcadas, pessoas ligadas aos dois lados viveram harmoniosamente, no cumprimento da lio de que se deve caminhar para frente, para cima, para o alto. A cidade de Montes Claros passou a ser referida com algum desconforto nas maiores cidades do Brasil, especialmente nas instncias que se julgavam mais civilizadas.
O maior entre os poetas, que aqui veio logo depois, Carlos Drummond de Andrade, mais de uma vez referiu-se ao assunto, para extrair dele uma referncia elogiosa ao nosso povo, reverente cultura aqui estacionada, quase sempre a mostrar-se e a exibir-se por mritos da incomum msica que Montes Claros produziu e exportou - em forma de serenatas. As suas Modinhas Eternas, tendo no bardo Joo Chaves, o lder do cortejo anglico, literalmente tocando todos os instrumentos de uma banda de msica.
Era o contraste, o contraponto, para a cidade apontada, injustamente s vezes, como valentona, blica, capaz de armar uma fuzilaria de expresso federal. No. Muito ao contrrio. Tnhamos mais do que lies de intolerncia fomos capazes de produzir e de espalhar por todo o Brasil pginas como Amo-te Muito, Eterna Lembrana, o Bardo.
(A m fama que queriam nos impingir deteve-se diante das msicas de um inspirado e lrico serto, cantando ao luar).
este o episdio que Montes Claros - quase sem saber - hoje comemora, ainda que com as homenagens profundas do silncio reverente. Oitenta anos de uma pgina do Brasil. Acentua-se o entendimento de que daqui realmente partiu o primeiro tiro da Revoluo de Outubro de 1930, que levou Getlio Vargas Presidncia da Repblica, caudilho que depois se perdeu num vasto quadro ditatorial.
Em boa hora, seria oportuno que a histria - e no as muitas verses dela e seus julgamentos subjetivos - merecesse um relato alto no local dos acontecimentos.
(Ali, mais de uma vez, fui levar pessoas que pediam para conhecer o territrio do clebre 6 de Fevereiro de 1930. Assunto que partiu o Pas e produziu lendas e folclore, que seguiro)

No tenhamos medo da histria. Ela prosseguir como A Mestra da Vida. Aliemo-nos, pois, a ela. O passado, aquilo que no passa nunca, o que nos sustenta.
Montes Claros foi e ser sempre capaz de ressurgir, erguendo-se para os momentos sublimes, ao luar, em torno de eternas lembranas.

(PS: Esta relembrana tambm uma homenagem aos que fazem aniversrio hoje, neste 6 de Fevereiro)


50469
Por Saulo - 24/9/2009 09:14:11
Inquestionavelmente, o prefeito Toninho Rebelo tido como o melhor prefeito da histria de M. Claros. Esta opinio repartida principalmente entre estudiosos, historiadores, analistas da vida profunda da cidade. Contudo, nem este ttulo, esta reverncia mxima do tempo, capaz de fazer ignorar que foi na sua administrao que a cidade viu vir abaixo talvez o marco arquitetnico de maior valor histrico - exatamente o velho Mercado Municipal, onde hoje est o caixote de ao chamado de "shopping popular". A histria muito severa, acre, com quem no a trata bem. Mesmo os melhores entre os melhores, neste caso, mesmo o melhor entre todos, no poupado do dissabor que a histria liberta. Toninho tem mil motivos para ser lembrado, e louvado, e jubilado. Mas, ficou este detalhe, que ainda hoje foi lembrado no excelente comentrio de Manoel Hygino, no jornal "Hoje em Dia", de Belo Horizonte.
Se o madeirame do velho mercado ainda existisse em algum lugar localizvel, no tenham dvida: mais cedo ou mais tarde, um clamor suscitado pela histria levaria reconstruo do velho templo da histria de M. Claros. Assim procedem os pases mais adiantados, que sabem que o presente e o futuro so construdos com as lies imorredouras do passado.

Hoje, contudo, digo a todos: no alimentem vs esperanas. Qualquer pesquisa que se fizer com a populao, no estgio em que se encontra, indicar, lamentavelmente, que o grosso desta populao quer um trator arrancando praas e monumentos para ali colocar novos cimentes, carros, fumaa, vertigens, aquilo que costuma identificar como progresso - e que rigorosamente no o . Mas, mesmo entre os que no tm o costume, ainda, de faiscar as fontes primrias do saber e do conhecimento, que exerccio de humildade, mesmo estes um dia no muito distante evoluiro para um ponto de esclarecimento que livre a maioria circunstancial de cometer tantos erros que a histria registra, e que sobre ela - a maioria - chora copiosamente.
Nunca esquecer que Jesus Cristo foi condenado pelo voto esmagador; e que Hitler subiu ao poder para cometer uma das maiores chacinas da histria com a quase unanimidade das escolhas do povo materialmente mais adiantado da Terra.

Nunca esquecer que o nmero de opinies numa mesma direo no constri uma s verdade. Uma nica verdade.

Ao contrrio, preciso lembrar que homens solitrios, quase sempre esmagados, imolados, variando entre o burel e o tecido de algodo cru, mudaram para melhor o curso da histria - com a sua lucidez, e com a sozinha coragem. Postaram-se esqulidos frente de legies enfurecidas, enlouquecidas, e impediram - sozinhos preciso repetir - que colossais partes da humana-idade se precipitassem por caminhos ainda mais escabrosos.

O Mahatma apenas um deles.
Cito Gandhi, o mais conhecido entre os mahatmas dos tempos modernos. Mas, a histria est cheia deles.
Crescentemente mais importantes quando sequer deixam o nome para serem louvados, pois aqui no vm para serem louvados.
E quem no deseja ser louvado, procura deixar um olhar de amor, de compreenso, tambm aos louvaminheiros.


50309
Por Saulo - 20/9/2009 09:30:22
19/09/09 - 11h49 - "Esse barulho que vem das festas e shows (...), e que impede o sono e a tranqilidade de parte da populao, uma agresso aos direitos humanos e fere frontalmente o artigo 24 da Declarao que garante a todas as pessoas o direito ao repouso"

Excelente o comentrio de Jos Prates, este reprter que nos deixou na dcada de 50, h portanto 60 anos, para correr o mundo como oficial da Marinha Mercante do Brasil. Ele pe a mo na ferida, no ponto central da questo.
No apenas o rudo que incomoda a populao ou parte expressiva dela. Pior que o barulho, o desrespeito reiterado da lei.
Pior ainda, o desrespeito da lei exatamente por quem tem a obrigao, em nome da lei, de fazer cumprir a lei. Este o ponto mais doloroso da questo. Chama-se arbtrio. Ato arbitrrio.
Temos um surto crescente de barulho artificial na cidade, no o seu barulho normal, das ruas, mas barulho provocado. Os trs nveis de leis do Pas o federal, o estadual e o municipal repetem a proibio, mas nenhuma das leis cumprida. So ignoradas pelos governantes eventuais.

preciso reiterar que o problema de barulho em M. Claros, principalmente o causado por shows em rea pblica, intensificou-se com a criao do carnamontes, h quase quinze anos, na primeira gesto do prefeito Jairo Atade.
Ele localizou um carnaval temporo no fundo da Santa Casa, o maior hospital entre Belo Horizonte e Salvador numa distncia de mil quilmetros. Ignorou os valetudinrios, os que, enfermados, no podiam se levantar e procurar outro lugar.
O barulho foi ampliado nos anos seguintes, passando inclume pela administrao de Athos Avelino e desembarcando na atual, que teve e ainda tem - a chance de suprimir o absurdo praticado em vias pblicas, e no interesse de gerar lucros privados. (Ainda que fossem lucros pblicos, seria absurdo, pois a lei no o permite).

Jos Prates toca no cerne do problema ao invocar a Declarao Universal dos Direitos Humanos.

Lei Moral de toda a Humanidade, a declarao tambm neste ponto procura salvaguardar a Vida, a Sade, o Sossego. Mas, entre ns, solenemente ignorada.

Os polticos esto mais preocupados com sua sobrevivncia eleitoral, do que em proteger a desvalida populao, capaz de ser enganada com expedientes os mais diversos. E falo aqui em tese, e no em relao a eventuais administradores os de agora, e os de ontem.

Desejo citar que o respeito lei, o respeito lei legtima, deve ser sagrado, caso contrrio estaremos de volta aos tempos da barbrie.

A lei precisa ser cumprida por todos, e em especial, e em primeiro lugar, pelos administradores pblicos.
De nenhuma forma, podem estes deix-la de cumprir, ao seu talante.
Mas, lamentavelmente, sistematicamente a descumprem, adotando a satisfao do prprio interesse sobre o interesse coletivo.
E os demais entes pblicos nem sempre atuam para que o transgressor seja enquadrado, e obrigado a cumprir a lei. Um disparate completo.

Permitam-me lembrar um exemplo de como impostergvel a exata aplicao do imprio das leis, o que ocorre de maneira singela e corriqueira nos muitos pases civilizados.

No ano de 1991, em plena guerra do golfo, percorri diversos pases da Europa. Viajei em avies vazios, porque havia a promessa de explodi-los no ar, especialmente na rota mais visada da poca, a que ligava Paris a Nova Iorque.
Na Alemanha, Itlia e Frana, a nossa presena por l, de pessoas de pases to remotos e exticos em dias de guerra, causava espanto pois a Europa sabe bem as dores que uma guerra produz.
Perguntavam espantados o que fazem to longe de casa, quando rugem os canhes e so apontadas as armas mais destruidoras que a humanidade j viu?.

Pois bem. Neste clima de sobressalto planetrio, li ainda na Europa o relato de uma belssima lio de cidadania. Li, naqueles dias de medo.

O homem que comandava os ataques no Golfo Prsico, o presidente dos Estados Unidos, por sua vez enfrentava em casa, na porta da Casa Branca, uma manifestao de pacifistas.
Ele tinha poder de autorizar o maior ataque de armas de alta tecnologia que o mundo j viu, mas no tinha - felizmente no tem - poderes para impedir manifestaes pacficas na porta de sua casa. O presidente que fazia estremer a Terra com bombas, no podia calar os descontentes na sua porta!

Contudo, o vizinho tinha, tem este poder. Invocando uma prosaica lei do silncio, o vizinho chamou a polcia, denunciou o excesso de barulho, e a lei foi imediatamente aplicada, reduzindo o rudo aos nveis permitidos.

Ta o exemplo, que o comentrio de Jos Prates fez despertar em mim. Louvado seja ele.

Tambm no custa mencionar uma entrevista da Sra. Thatcher, ento primeira-ministra da Inglaterra, quando visitou o Brasil.

Citarei de memria:
- Na Gr-Bretanha, ningum est acima da Rainha. Mas a Rainha est debaixo de Deus e da Lei. A Rainha faz estritamente o que a lei lhe autoriza fazer. Nada alm.

Aqui, no.
Qualquer governante, desde vereador a outro posto qualquer, acha que a lei ele. E aplica o seu gosto particular, sobrepondo-o s leis.

Isto intolervel. No pode continuar.

(E o comentrio de Jos Prates mostrou que o caso de ao pblica, e no apenas pode ser despertado por alguem que se sinta ferido no seu direito).

Senhores Promotores Por favor, zelem pelo cumprimento da lei. Todos aguardam o momento de aplaudir


44404
Por Saulo - 17/3/2009 09:02:58
17/03/09 - 8h38 - "Seu burgo sertanejo era fagueiro, sonoro, de belas luas cheias, de namoros contidos, de paixes calorosas e talvez letais, fez revoluo, gerou um presidente que foi de Minas Gerais e de Santa Catarina, mas Cyro era dos Anjos no se deixou crepitar nas chamas dos excessos"

Reparem: todos falam da M. Claros do passado ("que no passou") com grande enlevo, lirismo, poesia extrema, saudades.
Aqui, neste espao, um desfilar de recordaes, de pungente nostalgia, de que esta pgina de Manoel Hygino hoje mais uma prova.
Todos choram a M. Claros submersa, atingida por falsa capa que alguns - por desconhecer, claro - ousam chamar de "progresso", mas cujo real nome inchamento, inchao.
A cidade fisicamente inchada, pisoteada, despojada dos seus valores, desventrada de si, de sua natureza terna e eterna; tomaram-lhe o sonho e ela devolve lgrimas, que se vo empoando nas ruas, nas caladas, em forma de repetidos lamentos. Chora a saudade, intensa - profunda at na gerao que mal alcana os 30 anos.
preciso analisar melhor este fenmeno.
Povos que em demasia de recordaes debruam o olhar sobre o que se foi ainda h to pouco porque, por justificado motivo, estacam diante do caminho que se abre.
A cidade de hoje, material e falsamente agigantada e em esprito brutalmente atingida, nem de longe a cidade dos nossos sonhos, nem dos patriarcas.
Como o Pas atual (e no me refiro a poltica) no o pas que nossas retinas cansadas anteviram, sonhos longamente anelados.
Perdemo-nos no caminho, e preciso retornar ao caminho - onde havia mais flores, entre elas jasmineiros por certo.
H belssima frase que reconforta, que lava nossas lgrimas, e nos sugere o roteiro:
"Embora ningum possa voltar atrs e fazer um novo comeo, qualquer um pode comear agora e fazer um novo fim".
sempre tempo.


39287
Por Saulo - 3/10/2008 11:52:28
preciso que Isaas, ou outro Isaas, venha esclarecer o corao e a mente do autor da mensagem de n 39.136, identificado como Daniel Rodrigues.
No dia 29 de setembro, s 23 horas e 29 minutos, Daniel disparou:
Em relao mensagem n 39096. Eu gostaria de saber desde quando a praa de esportes carto postal de Montes Claros? S mesmo algum que no mora aqui em MOC, para desaprovar to grandioso e magnfico projeto de urbanizao e otimizao da velha e surrada praa de esportes. Faam uma pesquisa com seus grupos de amigos, conhecidos, vizinhos, etc. Para ver quantos deles freqentam a referida praa. Causa-me estranheza, o fato de, tal aberrao sair de um morador do DF, que smbolo de urbanizao e aproveitamento do espao pblico para fins realmente necessrios.

A nossa Praa de Esportes tem histria. Talvez voc, Daniel, seja muito novo e desconhea as lies da mestra da vida, que anda mesmo em falta. O fato de o local estar ultrajado, abandonado, sujo, esquecido, violado, importunado, ofendido por eleitoreiros quiosques tanto desprezo e desleixo no foram causados pela Praa. O MCTC vtima, calada, da ao nociva de uma m f militante, que impe em tudo a sua pisadura.
Ali, dcadas atrs, Montes Claros viveu momentos de Glria. Talvez um dos seus dias mais altos. Atletas se projetaram para o Brasil. Famlias foram felizes. Crianas brincaram. A juventude aflorou e viveu, em sadios costumes. Havia uma hora danante, saiba, ao meio-dia, e as canes que no chegaram sua gerao bailam por l, bailam nos coraes. Pergunte aos seus pais, freqente os livros.
Em declnio, pela ao inconseqente dos polticos, sempre eles, a Praa de fato agoniza, mas no a culpada. No apresse, nem deseje o seu fim, pois o rebroto o que ela merece. No lhe sejamos ingratos. Glrias no podem ser assassinadas. Por mais que estejamos, todos, submersos a ondas de insensatez e de desvario, muito pedir a supresso do que melhor representa a Vida.
A derrubada de valores, valores como o Phartenon, o Coliseu, as Pirmides, o casario de Diamantina, as runas aparentes de Ouro Preto, a Catedral de Chartres, destruir coisas assim, pelo s fato de no sabermos o que significam, mesmo desatino muito, at para um mundo enfermo como o nosso.
O que a Praa precisa de socorro, conservao, restaurao. No lhe erga o machado, nem lhe aponte a guilhotina, o cadafalso, pois a sombra do arvoredo e da vida que ali estuam recair sobre os seus e os nossos filhos. Ter rea verde, com aquela, preservada aos esportes, contemplao e Vida, numa cidade seca e quente como a nossa, privilgio que no pode a ignorncia e digo aqui apenas no sentido ignorar querer extinguir. Um nico passarinho que tenha seu ninho numa daquelas rvores quase centenrias talvez lhe esclarea melhor do que podem as palavras. Consulte-o, ao amanhecer; quem sabe ao fim do dia.
Quanto ao fato de serem muitos os que querem atropelar a vida j to espancada por ns, como parte de uma maioria endoidecida, tambm no se deixe impressionar.
Ao longo da histria, o nmero de opinies numa direo jamais ergueu uma s Verdade.
preciso repetir. Hitler subiu ao poder pela escolha da maioria.
Jesus, o Meigo Rabi, foi conduzido morte pela multido, manobrada pelo Sindrio, pelo farisasmo.
Ghandi calou-se; deitou-se no jirau, jejuou; para, hirto, em silncio, aquietar uma Calcut devastada pelo dio, pela luta tnica que incendiava rua aps rua.
Parou o dio com o Silncio.
A fora de um faquir nu, um s, o que fabricava suas roupas de algodo cru com as mos, contra milhes de mentes ensandecidas, matando-se mutuamente.
Francisco, o de Assis, cuja vspera hoje comemoramos, levantou a Cano da Perfeita Alegria, e celebrou o Irmo Sol, a Irm Lua, o Irmo Corpo, a Irm Morte. Cantou a vida natural.
As rvores, o verde, as guas, os passarinhos - no justo que paguem por nossa muita ignorncia. Pense nisto. A Vida quer segurar nas suas mos, Daniel.


39181
Por Saulo - 1/10/2008 10:12:54
A mensagem do Sr. Antnio Srgio, ao sugerir que mudem da cidade os que esto em desacordo de que a cidade se transforme, cada vez mais, no pandemnio em que j virou, toda ela cheia de equvocos. Alguns anos de estudo talvez clareiem o raciocnio do autor.
Primeiro: a questo no envolve, de nenhuma forma, o embate entre correntes religiosas. Definitivamente, no. Este tempo est superado. Trata-se de barulho. Apenas de barulho.
Em certas reas de pouco conhecimento, necessitadas de mais leitura, de estudo e aplicao, de cultura mesmo, infelizmente prospera uma corrente, deformada e deformadora, que sugere um vago direito que teriam os cidados, isoladamente ou juntos, de fazer barulho.
Por este pensamento, pessoas teriam um estoque de rudos a produzir, subordinando os ouvidos alheios. deformao.
O Direito Universal, todo ele, principia no Direito Vida.Ora, direito vida o mesmssimo Direito Sade.
O mundo inteiro reconhece que altas doses de rudo so prejudiciais sade e, portanto, vida. A rigor, o que existe o direito ao sossego, ao silncio protegido, nos nveis que a vida pede para que prossiga. Cabe ao Estado, por delegao de todos ns, assegurar a Vida.
Existe, portanto, o direito ao sossego.
No existe de nenhuma forma Direito de Fazer Barulho, religioso ou no.
O crescimento das cidades, como alega, tambm no legitima o barulho outro equvoco, embora o barulho por via de conseqncia desponte aqui e ali, por razes bvias, e no deliberadas. Desenvolvimento no barulho.
Nunca ser.
Com exceo da ainda anrquica Roma, mas ainda assim em padres infinitamente menores, as grandes metrpoles do mundo digo do Mundo Civilizado so silenciosas, muito mais do que ns, embora maiores. s verificar. Procure informar-se.
O senhor A. Srgio ainda diz que o Parque de Exposies e a Praa dos Jatobs so tipicamente locais de eventos.
No so.
O Parque de Exposies, como o nome indica, parque de exposies, de feiras agropecurias. Por dcadas, no foi um Parque de Shows, o que virou agora, diante das dificuldades crescentes na economia do campo, o que no lhe autoriza a abrigar barulhos de toda espcie.
uma deformao grave, que a lei e as autoridades devem coibir. A lei j probe, mas a lei, ora a lei, a lei dorme numa gaveta.
Quanto Praa dos Jatobs, ou dos falecidos Jatobs, como aqui bem disse uma moa, ela toda envolvida por bairros eminentemente residenciais.
Deve ser, e , protegida pela lei do silncio, que deixou de ser aplicada por convenincia poltica/eleitoral, transitria.
Hora de obscurantismo, mais um, como foi aquele carnaval temporo nos fundos da Santa Casa. Lembra-se?
Os murmuradores", saiba por fim, somos ns, pessoas iguais a voc, investidas nos direitos elementares, direitos que lhe autorizam a dizer o que quer, dentro da lei, e ns, respeitosamente, a ouvir. Isto sim pratica da democracia. o respeito mtuo, civilizado, alto, humanista. Que, contudo, no extrapola ao ponto de autorizar algum a produzir o rudo que desejar para ferir os ouvidos e o Direito Vida dos demais, seus semelhantes. Ou dessemelhantes, pois assim nos julga. (Sugiro-lhe ler, quando puder, e talvez com urgncia, o poema Apelo aos Meus Dessemelhantes, do poeta CDA)
Quanto cultura rural, ela de quase todos ns. patrimnio de que nos orgulhamos, e nos orgulharemos.
A vida, quer seja na roa, quer seja nas cidades, sempre a mesma Vida, ddiva de Deus nosso Pai comum, e de maneira sublime clareada pelo seu Filho Querido, nosso Irmo Jeshua, a quem amamos, com igual e mesmo fervor que os irmos que defendem o barulho como forma de persuaso e de convencimento.
Quanto sua ltima frase Quem no aceita conviver com as diversidades e as manifestaes, que mudem para um lugar deserto, pois talvez a vida de heremita seja o alvo maior que procuram ela sugestiva de argumentos nascidos dos escaninhos mais profundos da escurido e da intolerncia. Hitler no usou raciocnio muito diferente; o fascismo o consagrou.
Peo que ns, os murmuradores, nos abstenhamos de aceitar a sua sugesto de, modernos eremitas, nos transportarmos para um deserto aonde se refugiou Saulo, por mil dias, ao encontro de si mesmo. Mas, peo licena para que, podendo, sugerir-lhe que envelhea.
Envelhea um pouco, e de preferncia sem produzir rudos, para que possa ouvir a sua alma profunda. Isto lhe far muito bem. E no mais encontrar necessidade de enviar seus irmos ao deserto, que no o do esclarecimento e da luz. Com apreo, e amor, reunidos todos em torno da lio do mestre comum.


34236
Por Saulo - 21/4/2008 12:36:50

Num p de serra de belo nome estival, Campo Alegre, reuniram-se ontem geraes de uma das famlias mais antigas do norte de Minas, a famlia Dias. Reagrupuram-se no limpo terreiro de uma casa antiga, sob a sombra de um velho cruzeiro que demarcava uma capelinha. O cruzeiro s o que restou da capelinha, assentada ao lado de uma casa senhorial de numerosas portas e janelas, de mais de um sculo. Por dcadas, a ermidinha abrigou no seu cho (e abriga, agora, no mato ralo) duas das maiores lendas do Norte de Minas, de todos os tempos: as cinzas de Alfredo Dias, precocemente morto, e de seu pai, o lder do serto Olmpio Dias (1853-1937). O primeiro foi morto pela irm, que por sua vez queria impedi-lo de usar as armas, como era do seu feitio, para fazer justia prpria, numa poca que cada terra ditava sua lei e escolhia sua autoridade.
Pois bem. Ontem no se tratou ali de relembrar a histria; tratou-se quem sabe de no desconhece-la. O que se cuida agora, na convocao de famlia, num leilo com msica, saudades e abraos, to somente re-unir a fora de todos para reerguer o diminuto templo, smbolo que Francisco S, o homem, nascido ali perto, chamou de atalaia avanada dos povoados cristos. Da confraternizao, uma certeza subiu: a de que, em qualquer poca, no futuro prximo ou distante, quando se contar a saga dos homens do Norte de Minas ser obrigatrio levantar o estigma que marcou o lindo Campo Alegre, e suas repercusses, no para agravar, nem para exultar, mas para registrar. Ali, o coronel da guarda nacional Olmpio Dias por longa quadra recebeu, digamos, refugiados do Norte de Minas, que por uma razo qualquer tinha a vida sob ameaa e que, debaixo da proteo armada dos seus homens, estavam guardados at o prximo acontecimento. So lendas e lendas, e muitas mais at que lendas, e que precisam ser recuperadas com a iseno do tempo.
preciso mencionar que um neto daquele chefe, o que enterrou o filho morto pela filha, mais provavelmente vtima do prprio irrefrevel voluntarismo, um neto chegou presidncia da Assemblia de Minas. (Alis, foi o mais novo presidente de toda a historiada Assemblia, Antnio Dias). O cl exerceu influncia na vida recente da regio e a esto os descendentes, dispersos por vrios ramos, para ajudar a levantar a histria como existiu. A famlia, pelo que se sabe, veio de uma longnqua (no tempo) Mato Verde capitaneada pelo patriarca Justino e ocupou regies de Francisco S, desde o Barroco at o Campo Alegre. Tinha o costume de casar-se entre si, como os colonos do sul do Pas, e esta tradio cuja origem desconhecida fez de dobras e redobras uma histria que, se j surge esparsa citada nas lendas do Grande Serto de Guimares Rosa, do por si s uma histria fantstica, que comear a ser levantada com a ajuda de todos para transformar-se em livro.


(Na foto, da segunda metade do sculo 19, aparece o chefe do cl dos Dias, Justino, rodeado pelos seus filhos homens, da esquerda para a direita: Rochano Dias, Benjamim Dias, Olmpio Dias e Joo Dias).


34191
Por Saulo - 18/4/2008 11:07:35
Vai desaparecer em breve a casa do poeta Cndido Canela, no antigo largo da Santa Casa. A praa era, nos anos 50, o ponto extremo da cidade, naquele rumo. S depois, por volta de 1965, que surgiu a avenida Mestra Fininha, em direo ao prdio da Escola Normal, que comeava a ser construdo. Antes, o que havia era uma sinuosa estradinha que passando exatamente ao lado da capela da Santa Casa levava ao seminrio dos Padres de Batina branca, no Melo, transpondo um lmpido riacho. Tudo era buclico, simples, belo. No havia assaltantes. Havia passarinhos, cu, luar. (H uma belssima pgina de Ciro dos Anjos descrevendo este local, por onde se ia fazenda do seu pai - coronel Antnio dos Anjos - Antnio, dos anjos, repito. Aquele que, montado a cavalo, ensinou o filho a ler e o levou pela mo Academia Brasileira de Letras, sempre a cavalo.) Mas, falo aqui da casa de Cndido Canela, que ir ao cho, em breve, para no seu lugar surgir um espigo. Havia l, h ainda, um caramancho que fazia de toda noite noites olorosas. Sabem o que isto - noites olorosas? saudade; saudade de um tempo to longnquo, mas to perto. Os poetas, o que fizeram dos poetas? O sino da capelinha da Santa Casa, levou-o o poeta ao partir? As novenas de outubro, de Nossa Senhora das Mercs, to medianeira de todos ns, talvez apenas nos cus clamem por todos. E a avenida coronel Prates, a avenida do Jatob, da Estrela, todas cabendo numa s, o que fizeram delas, com um tiro nico, de tocaia? Virou correia de transmisso de um supermercado, levando e trazendo carros, pervertida. Cndido Canela, rogai por ns, vtimas desta violncia que nascer num lugar, ser menino nele mesmo, e a partir da ter de sair todo dia para tentar intil achar sua cidade no lugar em que ela real existiu.


32892
Por Saulo - 8/3/2008 10:30:13
Venho aqui, que freqentei e freqento. Sou destes dias, mas vivo em outros mundos, em outros tempos, outras noites; nos livros antigos vivo, em pginas passadas. Talvez um refgio, para no ver o que, desolados, temos que ver.

Volto hoje porque li na pgina velha, onde a palavra quase quasi que se escreve, belssimo poema. Na letra de um menino antigo, hoje esquecido.

Estudou Portugus com um Poeta Romntico, estudou Latim, Francs e Ingls, Matemtica tambm. Com 12 anos, foi aprovado "plenamente" em Portugus, Ingls e Histria, "simplesmente" em Francs, e com distino em Ingls e Geofrafia. Doze anos ele tinha. Aos 17, fez esta maravilha que aqui me traz:

"Desse Deus as tintas de uma aurora

E as tintas do arrebol,

O casto azul que os cus tinge e colora.

E toda luz do Sol;

Desse-me Deus tudo isso que eu, cantando,

Pediria uma pena ao rouxinol

Melodioso e brando.


E com a tinta e com a pena escreveria

Assim muito de leve

(E com a minha melhor caligrafia)

Na brancura de neve

Desse teu peito casto e sedutor

As quatro letras da palavra - AMOR"


Se me perco em versos assim, deste mundo de agora no querendo ver, porque minha alma, toda ela, recusa o mundo que a est.
Perdoai-me o erro das palavras, da grafia e tudo mais, pois lendo coisa antiga, j no sei onde uso o chapeuzinho e que palavras, para dizer a mesma coisa, trocaram o i pelo e.

Naquele mundo desejo voltar, recomear, para com todos, todos, fazer um novo fim, disse Chico.

O poeta de 17 anos que me trouxe, e me chama, um dos mais altos do vosso Pas.

Contudo, como tudo, tambm esquecido.

Chamou-se pelas guas Afonso Henriques da Costa Gyuimares, de 1870. Alegre, sadio, era dado a espasmos de retraimentos, e os outros meninos o chamavam - "Afonso sonso!".

Preferiu chamar-se, ele mesmo, de Alphonsus, mineiro de Ouro Preto, filho de portugus e me mineira.

- Ela era branca, ela era esbelta.
Olhos marinhos, fronte ideal de celta,
Me futura de pobres trovadores


Partiu aos 49 anos. Quase todo o tempo viveu no arrebol, embarcado j no poema a de trs.


(Depois, se permitirem, irei contando toda a histria. Vou de volta, recuo "ao casto azul que os cus tinge e colora". Tenho muita pressa e no retocarei o que escrevi. Depois, se permitirem, isto farei. By)


22251
Por Saulo - 23/3/2007 00:35:15

comovido, e creio que ser sempre assim, que vos chego nesta j madrugada.
Para abraar as irms do Colgio Imaculada Conceio e da Santa Casa de Caridade (assim se escreve, e assim se praticou, com outra variante no final de Misericrdia).
Sou testemunha do que as palavras contam, aqui.
Menino, admirei o vulto silente de Irm Canuta, imperturbvel.
Convivi com todas, e sei o quanto amam, e amaram, a nossa Montes Claros.
Padre Chico morreu pedindo para voltar para M. Claros.
Na gare de Montes Claros, todos os dias, pedia passagem para.... Montes Claros.
Sonhava com o trem que o conduzisse de volta ao burgo de sua juventude, descido de um cavalo, e de longa viagem, adventcio no sonho de unir a Luz da Europa ao Sol da Amrica.
Todos os dias.
Sob sol escaldante.
De batina branca, e guarda- chuva.
Quase na mesma hora, por volta do meio-dia, a pedir a passagem de volta eu presenciei.
A viagem para a qual se preparou, e esperou longamente, o embarque ltimo, dela tambm me lembro, estava l.
Foi na tarde quente, num quarto da Santa Casa, com o s barulho do ventilador a concorrer com as salve-rainhas, Me de misericrdia, vida, doura, esperana nossa, salve!, a Vs bradamos os degredados filhos de Eva; a Vs suspiramos gemendo e chorando neste vale de lgrimas.
Padre Chico agonizou lentamente, sob a guarda-escolta de misereres e laudames. Antigo seu sacristo, pus o sum sum corda final, o Coraes ao alto, que nem mais era preciso dizer.
As moscas, mosquitos, queriam despedir-se tambm do santo, tocar-lhe a face beatfica, exangue, e minha parte afast-los, com o abano que giro no ar. Choram. Mas o choro bom, sem desespero, pois todos aqui esperam. Germina a palavra esperana, antpodas da outra, impedida de cruzar a porta.

Padre Chico Moureau, o primeiro dos belgas.
O que trouxe os outros, pelas mos blandiciosas, a caminhar por onde ele caminhou, nas dobras, e redobras, deste manto chamado amor que a palavra caridade esplende. Caritas.

Por ele, em louvor dele, que o cemitrio de Montes Claros reserva a sua melhor frase, a mais alta, onde as frases costumam se cuidar com esmero e nenhuma afetao, que o lugar imprprio, pois campo-santo .
Na lpide que o sela terra de sua escolha, vai escrito:
Eternamente Sacerdote do Altssimo
Padre Chico


21619
Por Saulo - 2/3/2007 21:29:02
"02/03/07 - 20h40 - "Por favor, quem conhecer esta minha me to querida e amada, ou j ouviu falar sobre ela, entre em contato comigo, estarei esperando com muita ansiedade."

Estou comovida com o apelo. Deus pague a vocs por criarem, e manterem, este abenoado espao que aproxima as pessoas. Aqui, no exerccio da compaixo, do amor, encontro nimo para superar as tristezas que o desatino dirio de nosso pas, triste pas, nos d a cada hora. Aqui, sinto que o amor - irmo dileto da dor - de fato existe. Eu creio em Deus. Que a todos nos abenoar., digo, com os olhos em lgrimas, e voltados para o Cu, nosso abrigo e nosso destino."

*

Eu aqui, de Belo Horizonte, mas com a alma eternamente em M. Claros, tambm me comovo. Com as mensagens,de Ngela e de Maria.
Antes de ler as duas, percorria, no miradouro da memria, esta minha avenida tocaiada para virar servido de supermercado, como se histria e vida no tivesse a nossa torturada avenida. Que haverei de seguir, seguirei.

Mas o que delas, das duas mensagens, rebrota, no que exibem do po de dores nosso de todo dia, me faz tornar ao armazm de luz e esperana que resiste no corao profundo de todos ns. Meu e seu, meu irmo.
Olho para os cus desta nossa capital, e de estrela em estrela vou de volta ao luar de minha cidade.
Sim, h a estrela sobre o pntano, a mais bela. A flor de Ltus, nascida da gua pestilenta, a ela no pertence, mas fruto dela, pois tudo rebrota na/ e da altssima mo de Deus, nosso Pai.
No desistam.
A negra noite parteira da madrugada. E quanto mais negra a noite, mais em si carrega a alva, a alvorada, a madrugada, o arrebol.
Boa Noite.
Minha avenida, aviltada, no morreu, no morrer. estrela do cu, aonde vamos pastore-la. Com igual f, esperana e amor das duas mensagens acima. Douras. Boa Noite.

*

"Quando a noite descer
Insinuando um triste adeus
Olhando nos olhos teus
Hei de, beijando teus dedos, dizer:

Boa-noite, amor
Meu grande amor
Contigo eu sonharei
E a minha dor esquecerei
Se eu souber que o sonho teu
Foi o mesmo sonho meu
Boa-noite, amor
E sonha enfim
Pensando sempre em mim
Na carcia de um beijo
Que ficou no desejo
Boa-noite, meu grande amor."


20579
Por Saulo - 1/2/2007 08:22:55
Foi mesmo bonita a chuva de ontem noite, em M. Claros. O dia havia amanhecido com um manto de nvoa na encosta da serraria sul da cidade, na sada para BH. Mas, foi de noite, por volta das 9h30, que a chuva despencou - ela que no serto faz a catarse. Digo catarse, para que escolham, no dicionrio e na vida, a melhor definio para a chuva que entre ns tudo lava: 1) purgao, purificao, limpeza; 2) Evacuao, natural ou provocada, por qualquer via; 3) Efeito salutar provocado pela conscientizao de uma lembrana fortemente emocional e/ou traumatizante, at ento reprimida.
Seja o que escolherem, ser isto. Seja isto. Aqui no serto, deserto - que pouco sabe do mar e dos mistrios do mar - a chuva ser sempre assim. Leda chuva. Da irritar profundamente a ns, sertanejos, quando a TV - claro, que em rede nacional - fala em tempo ruim, ou mau tempo, quando s a doce chuva que despenca. Sobre ns; sobre nossa porfia. Quem no gosta de chuva, quem nunca passou sede, que a deixe vir para c, que dela temos preciso. Viva Ns. Viva Virglio de Paula. Vinde ver a chuva no serto. "Chuva que chove e o santo que alumeia". Ora pro nobis!


20403
Por Saulo - 26/1/2007 23:03:49
Cabe poesia triste, de um poeta-menino, romntico, para a alma alegre de Nice?
(lvares de Azevedo morreu aos 21 anos. o gnio da poesia brasileira e esta, creio que sim, pode ser sua mais bela pgina:)

"Lembrana de morrer

No more! o never more!
SHELLEY.

Quando em meu peito rebentar-se a fibra
Que o esprito enlaa dor vivente,
No derramem por mim nem uma lgrima
Em plpebra demente.

E nem desfolhem na matria impura
A flor do vale que adormece ao vento:
No quero que uma nota de alegria
Se cale por meu triste passamento.

Eu deixo a vida como deixa o tdio
Do deserto, o poento caminheiro
Como as horas de um longo pesadelo
Que se desfaz ao dobre de um sineiro;

Como o desterro de minh`alma errante,
Onde fogo insensato a consumia:
S levo uma saudade desses tempos
Que amorosa iluso embelecia.

S levo uma saudade dessas sombras
Que eu sentia velar nas noites minhas...
De ti, minha me, pobre coitada
Que por minha tristeza te definhas!

De meu pai... de meus nicos amigos,
Poucos bem poucos e que no zombavam
Quando, em noite de febre endoudecido,
Minhas plidas crenas duvidavam.

Se uma lgrima as plpebras me inunda,
Se um suspiro nos seios treme ainda
pela virgem que sonhei... que nunca
Aos lbios me encostou a face linda!

S tu mocidade sonhadora
Do plido poeta deste flores...
Se viveu, foi por ti! e de esperana
De na vida gozar de teus amores.

Beijarei a verdade santa e nua,
Verei cristalizar-se o sonho amigo....
minha virgem dos errantes sonhos,
Filha do cu, eu vou amar contigo!

Descansem o meu leito solitrio
Na floresta dos homens esquecida,
sombra de uma cruz, e escrevam nela:
Foi poeta - sonhou - e amou na vida.

Sombras do vale, noites da montanha
Que minh`alma cantou e amava tanto,
Protegei o meu corpo abandonado,
E no silncio derramai-lhe canto!

Mas quando preludia ave d`aurora
E quando meia-noite o cu repousa,
Arvoredos do bosque, abri os ramos...
Deixai a lua prantear-me a lousa!"


19701
Por Saulo - 5/1/2007 09:56:55
Aqui, onde todos contam histrias de M. Claros, vou contar uma. (Espero que muitos faam o mesmo, para nossa maior riqueza).
histria real, acontecida no incio do sculo passado.
O personagem ?
O grande poeta, seresteiro e jurista Joo Chaves, que ainda assim era chamado depreciativamente de rbula. possvel que apenas rarssimas cidades, como a nossa, tenham reunido numa s famlia nomes to notveis, como Antnio Gonalves Chaves (nome do frum), Joo Chaves (O Bardo) e Monzeca, o grande editorialista mineiro.
histria, pois, que o nariz de cera j vai grande.

Certa vez, numa serenata, Joo Chaves, mocinho, foi desafiado a musicar a histria francesa atribuda ao escritor Emile Faguet. O aplogo narra o caso da me extrema que concordou que o filho lhe arrancasse literalmente o corao do peito e o levasse, palpitando, sua amada, que o exigia como prova de amor.
No caminho, esbaforido, tropea, e cai, o filho - e o corao da me, rolando pelo cho, pergunta: "Tu te machucaste, meu filho?".
(So as mes, as mes so assim - ouo o imortal Ghiaroni, da Rdio Nacional do Rio de Janeiro, dizer-me ao ouvido).

Imediatamente, o Joo Chaves de uma Montes Claros de 2 mil habitantes empunhou sua lira e ali mesmo, ao luar e ao campo, talvez numa de nossas ruas, improvisa a melodia que conta toda a triste histria.

Os colegas, embevecidos, a ouviram.
Ao final, um deles, o seu maior amigo, saca de um revlver e atira 5 vezes em direo a Joo Chaves. E sentencia:

- Uma pessoa como voc no pode viver. Tem que ir para o cu, cantar para os anjos.

(Joo Chaves, por sorte, no foi ferido e viveu at 1970, quando uma grande serenata, da cidade inteira, exibiu - (e foi mostrada pelo nascente Fantstico, da Globo) - o que ele significa para ns. Significa, no presente do indicativo.

Conto esta histria, porque a cidade anda meio triste, acabrunhada, esquecida de suas glrias passadas.

Esquecida de que tem histria, e de que, quem as tem, e cultiva, e delas no se envergonha, no se perde pelo caminho.

Estamos assim zonzos, mas h caminho. O caminho, diz o poeta, caminhar, sabendo de onde partimos.
Obrigado, j me vou.


17927
Por Saulo - 25/10/2006 10:39:25
Perdoai-me a ignorncia. Mas, parece que a palmeira da foto mesmo a Palmeira Antiga, que Joo Chaves alou aos cus em letra e msica belssimas...
Por favor, chamem os especialistas.


17391
Por Saulo - 7/10/2006 11:37:35

A bela foto de uma cidade que no quer ser esquecida.
Resiste, subsiste, debaixo da outra, empavonada sobre o seu corpo crucificado, para ficar na imagem irresistvel do poeta. Porque tem filhos, e os seus filhos lutam por ela, a cidade reluta, espalmando histria, passado, costumes e cultura. uma civilizao parte, limpa, que merece viver e pede para viver, porque soube juntar bravura e ternura num mesmo corao. Mas, at quando ?

O progresso que visita a cidade, s vezes em trajes enganosos, muita vez no merece o nome, pois arrasta a qualidade de vida do seus filhos para baixo, em forma de violncia, de barulho, de desemprego, de m conduta dos polticos, de desigualdade entre outras coisas, pois a lista longa.

Mas a cidade uma civilizao de 250 anos, resiste.

Como o ouro e a prata, prova-se pelo fogo.
Certifica-se pela humilhao dos filhos queridos, os que a abraam, e que com ela seguiro pira levantada pelos incendirios de sua histria.

Nesta foto, o essencial de Montes Claros ressurge atravs de um dos seus smbolos. A avenida Coronel Prates. A avenida da Estrela. A Avenida do Jatob. A avenida da Fbrica a mais simblica de todas as avenidas, que acaba de ser mutilada, em nome de certo tipo de progresso, que no olha nos olhos.
.
O cenrio da foto o comecinho dos anos 60.

O paraleleppedo est novo em folha. A grama o relvado inaugural do jardim modelado pelo prefeito Simeo Ribeiro Pires. As tipuanas exibem o vio da primeira juventude. As touceiras de Caets, arrebentando em flores, em to lindas cores, quem as fez assim?, aguardam os meninos que viro pelo comeo da noite falar com elas, e com as estrelas num tempo em que as crianas, mais felizes, brincavam livremente na porta de suas casas, na rua, na praa, na vida.
.
O triciclo estacionado, repare, para levar roupa suja e trazer roupa limpa. A carroa, o jeep (como se escrevia) e, ao fundo, as meninas do Colgio Imaculada com seus uniformes de gola de marinheiro. Uniformes de azul e branco, uniformes de sonho. A me de vestido rodado que leva o filho pela mo, no meio da tarde, tudo trabalha na foto ingnua para que a cidade, gentil e suave, suave e modesta, se apresente e se reconhea, enternecida.

O progresso, certo tipo de progresso que em 4 dcadas fez a populao multiplicar-se por quase 20 vezes , inicialmente pela industrializao e, depois, pela runa do campo, este tipo de duvidoso progresso transportou a doura da cidade para a lembrana e para a foto. Equvoco que bem pode ser revertido, se todos quiserem.
.
inelutvel! , diro os realistas, acima dos pessimistas, mas muito abaixo dos sonhadores.

Contudo, nenhum tipo de progresso, por avassalador e temerrio que seja, rene foras capazes de invadir as almas e as mentes e nelas extinguir o valor, os valores, que a cidade dos montes claros plantou no corao de seus filhos. Que resistiro, certo.


16041
Por Saulo - 26/8/2006 10:33:17
Sobre os que acham que eleio absolve algum de crimes e deslizes, o que virou moda.

Nada mais enganoso. Para ficar em 2 exemplos clssicos: Jesus Cristo foi condenado pela esmagadora maioria, a multido; Hitler nasceu do voto, no caso, o voto da tambm esmagadora maioria.
(O ex-prefeito Jaito dizia que o carnamontes no fundo da Sta. Casa, agravando as dores dos doentes, era legtimo e correto, porque tinha a aprovao da maioria...)

Dom Marcos Barbosa, monge e poeta, resumiu: o nmero de opinies numa mesma direo no constri uma s verdade.

Humberto de Campos, maior cronista do Brasil, ia na mesma direo: a ditadura do nmero nada conduz diante da verdade moral.

Emanuel Kant, o filsofo que cito de memria, arrematou: "Duas coisas me enchem o nimo de admirao e respeito: o cu estrelado acima de mim e a lei moral que est em mim. ."

Portanto, amigos, no se deixem impressionar quando a maioria (como na enquete aqui), contra toda evidncia moral, se inclina pelo equvoco, pois longo e rduo o caminho para Deus, para a Verdade.

Entres estes, esto os que querem o progresso a qualquer preo, empunhando o pau de fsforo, o machado e a marreta, quando no a foice, para destrurem os valores que encontram pelo caminho e no sabem o qu .

Se deixarem, queimam o Coliseu, Ouro Preto, Diamantina, como queimaram a Biblioteca da Alexandria.

(Desculpem: no queria fazer comentrio, apenas dizer de raspo que di muito, ainda e sempre, a destruio do Colgio Diocesano e da avenida coronel Prates). O que destruiro agora ???


13134
Por SAulo - 17/5/2006 10:55:53
Leio que a PM de Montes Claros o Dcimo Batalho de Infantaria, como era chamado faz 50 anos, por estes dias.

Fecho os olhos.

Convosco recomponho, revenho ver (Guimares Rosa dita ao meu ouvido):

Tenho 5 anos e o homem que me leva pela mo meu pai.
So 8 horas da noite e vamos pela rua Quinze, quase escura.

Paramos diante da Loja Imperial, na esquina da praa Dr. Carlos.

H um rumor diferente na cidade.

Daqui a pouco, o som da charamela despontar na distante esquina e um peloto de homens, todos de amarelo com cuias na cabea, passar diante dos meus olhos de menino.

Pai, o que ?

o batalho, meu filho. Chegou o batalho ! Veio de Belo Horizonte.

O rudo dos ps batendo no cho este que ouo. Ficou tambm o dobrado, a msica - cinqentenria, sei agora.

Ouo os passos daquela noite. E a mo do meu pai diante do cu que no se apaga - est mida junto da minha mo, querida Montes Claros.

Mas ouo, dolorosamente, o gemido das rvores que tombam na avenida coronel Prates, e das mquinas que as levantam pelo pescoo.

Por favor, chamem o batalho.


(Enquanto no vem o batalho, o poeta Agenor Barbosa, o menino e o pai do menino recitam pelo caminho de volta:

doura sem fim do silncio, que espalma/ as suas asas sobre a noite, eu me avizinho/ de minha terra, que me acena como um ninho/ e, na distncia, sempre linda e sempre calma./
A minha terra vive dentro de minha alma.../Deixem que fale o corao devagarinho.../ Que eu pare um pouco, em meio sombra do caminho/ e lhe tea, a sorrir, este canto e esta palma/
Ouo de longe a voz do bero que me chama/ Voz serena, de amor, de carinho e piedade/ que suave como um beijo e arde como uma flama/
Minha terra Natal! Minha velha cidade! Dentro do corao que te pertence, clama a dor do meu exlio e da minha saudade.)


12847
Por Saulo - 7/5/2006 22:15:13
Sobre esta avenida coronel Prates, vou contar. ramos meninos. Os postes passavam pelo meio da rua, onde hoje ficam as rvores, que eu vi plantar. Um dia, o caminho esbarrou no poste, na esquina da rua padre Augusto, e fogo saiu comendo a fiao, que era toda encapada. Foi bonito de ver. Pela rua, quase toda tarde, passava a boiada que vinha da malhada dos Santos Reis para o frigorfico Otany, perto de onde hoje fica o prdio da Prefeitura. Fechvamos as portas, correndo. Quem atrasava, permitia que uma outra vaca brava entrasse dentro das casas, com os vaqueiros correndo atrs. Era uma festa. A gente subia nos muros e esperava o peo sair de l puxando a vaca pelo rabo. Era assim a avenida coronel Prates, ou rua da fbrica, em 1960. O prefeito Simeo Ribeiro, que morava na avenida, mandou colocar paraleleppedo e fez o canteiro central. Eram lindas touceiras de uma planta, um lrio, que, depois, muito depois, soube chamar-se Caets. Ns brincvamos no meio delas, dos caets. No havia medo de ladro, e ficvamos nas ruas at tarde. A luz, a luz era uma mixrdiazinha, mas ramos felizes. Muito felizes. (Como os meninos so, menos agora, quando no podem brincar na porta de suas casas.) Do outro lado, Jandira ah! Jandira contava histria, e nos ensinava a olhar para o cu, fonte de todo encanto. Foi Jandira quem me ensinou a olhar para o cu, e para o cu olho at hoje, embasbacado, vendo as constelaes, as 3 Marias, o Cruzeiro do Sul toda estrela minha irm. Apenas as estrelas no mudam. Sim, de tanto olhar, subamos para as estrelas. Morvamos l, junto delas, pois Montes Claros permitia isto, queria isto. Eu menino. Neste tempo, a avenida tinha, completa, apenas a pista que passava ao lado do prdio da prefeitura. A outra era interrompida na igrejinha do Rosrio, to linda ali parada, e onde fazamos fogueiras. Hoje, triste, leio e penso: o prdio do seminrio acabou, vai virar supermercado, hipermercado; o canteiro central, meu Deus!, o que faro com o canteiro central e com as tipuanas ? As vacas que entravam pelas casas, as vacas bravas desapareceram, se foram, e no sero mais arrastadas pelo rabo; o matadouro se foi, as crianas se foram, as meninas internas do Colgio Imaculada tambm resolveram partir, uma e depois as outras. Por que so eu fiquei ? Acho que est na hora de partir tambm. As velhas rvores que vi plantar e crescer, minhas amigas, amigussimas, confidentes, algumas agora esto sendo levadas pela garra de ao do trator, dependuras na lmina, e no posso despedir-me delas, como do meu feitio, de menino antigo, tmido. O que fao? Tenho vontade de pedir para ir junto, de encarapitar-me junto delas e com elas seguir, para onde ?, no sei. Talvez no aceitem. Penso em resistir. Como resistir, se a trincheira que disponho so lrios, touceiras rubras inexistentes de um certo Caets que viceja agora apenas na rua chamada saudade, que talvez desemboque numa outra, onde a Esperana fez sua morada. Vicejam estes meus caets apenas no miradouro da memria, e em nenhum outro lugar. Esta noite, que a ltima da avenida que vi erguer-se, que me empurrou para ser homem, esta noite verei o que posso fazer por ela, e quem sabe tambm por mim, nesta circunstncia mais indefeso do que ela. Visitarei e consultarei o menino que eu fui. Talvez ele, com os outros, me ensine o que fazer na noite de despedidas. Boa noite, minha avenida. Seguiremos juntos. Iremos no meio de Caets que por certo rebrotaro; teremos a companhia das estrelas vindas de um de nossas noites de maior esplendor, e Jandira afastar suas doenas, e suas dores (seu po de dores), e lentamente vir, para contar as histrias que s Jandira sabe contar. Esta avenida no morrer.


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Por Saulo - 14/4/2006 18:40:01
Oh, vs que buscais a Montes Claros de tempos no to
distantes!

Vendo este breve, em que se avisa sobre um alarido mpio na madrugada da Sexta-Feira da Paixo em minha terra, ocorre-me chamar-vos.

Vinde visitar a Semana Santa de Montes Claros, de tempos ainda prximos.

Era toda de luto cerrado.

J na quarta-feira anterior sagrada semana, Padre Dudu
conduzia a procisso de archotes. Eu estou nela, menino; sigo a caminhada noturna, lenta, devota, homens de um lado, mulheres do outro.

Revejo o mesmo padre Dudu, pela manh de Domingo de Ramos, cantando, cantando hosanas! Hosanas!, e ns o seguimos, vivando.

Depois, o padre to bom, ainda que s vezes repentinamente zango, o padre Dudu nos envia ao confessionrio. Todos.

A Via-Sacra, 3 vezes por semana, repleta de misereres, j est pelo segundo ms de prontido, toda tera, toda quinta, todo sbado, e no a perdemos.

Cantamos em latim, assim como respondemos a missa em latim, de costas para os fiis, os olhos apenas para Deus, Nosso Senhor.

A Quinta-feira Santa quando enfim chega, j tem a cidade a seus ps, paralisada e contrita, confessada e comungada.

A Procisso do Encontro sobe as ruas e abre a Sexta da Paixo; dolorida, piedosa, lenta, comovida, atrs dos passos do que vai se encontrar com Sua me para dela despedir-se.

Me e Filho encontram-se no cruzamento desta vida pequenina, e o punhal exato sobre o corao da me comove o menino, a lmina espetada ali debaixo de negros vus a mater dolorosa.

Mulher, eis o seu filho. Filho, eis a sua me, cintila a frase.

(Pelo rdio, lembrai-vos?, pela Rdio Nacional do Rio de Janeiro, a PRH5, um Ghuiaroni, piedoso, repete por aguardadas horas o martrio e as quedas de Jesus rumo ao Glgota, atrs dos quais vamos tambm, deixando lgrimas, arrependimentos e promessas.)

s 3 da tarde, trs e quinze, Jesus despido agoniza na Cruz, e ns, de joelhos, cantamos, olhos arrebatados para a Cruz:

Eis o lenho da Cruz,
De onde pendeu a salvao do mundo.

Cantamos, penitentes:

Perdo, Deus clemente, perdoai, Senhor.

Cantamos, arrependidos:

Pela Virgem Dolorosa, nossa me to piedosa,
Perdoai-nos, Senhor.

Cantamos, exultantes:

Vitria, Tu reinars.
Cruz, tu nos salvars. Vitria....

E a matraca, que da madeira retira secos, metlicos e multiplicados lamentos, a matraca vibra o luto e a dor geral. ( Ouvi, ela est dentro de vs).

noite, ainda nos braos do meu pai, quase compartindo-lhe o aromoso cigarro de palha e o olhar que no se desfaz, vamos cerimnia do Descendimento.

Vernica canta do balco da Matriz, pela voz da linda Ieda (ou ser outro nome ?, ajudai-me a recordar), exibindo no sudrio a Divina Face.

Perdo, Deus Clemente!

Cristo, exausto, retirado da Cruz e o seguimos na Procisso do Enterro.

Toda a cidade vai junto, a passos lentos, sepultar o que no morre.

Vamos todos, lentamente, dobrados sobre nossas culpas, o Rquien da banda da msica soluando em nome geral.

Depois, voltar para casa a desoras, sem nada falar, sem comentrios, severamente mudos, pois a dulcssima Montes Claros, ao contrrio da atual (como leio), no ousa erguer a voz na Sexta-Feira da Paixo.

(No ousa espalhar pela noite lascas perdidas de um rock insolente e atrevido, trfego e pndego, a pedir autoridade, e, a mais, piedade.)

***



Sabei, agora, que procuro por minha terra, e isto vos confio.

Sabei que dela, da Santa Semana, s me espera a lua cheia. Restou a lua cheia.

A esplndida lua-cheia sobre os Montes Claros me devolver a Semana Santa.

Eu a encontrarei, pois a busco, e ela a mim.

Vinde comigo.


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Por Saulo - 23/3/2006 22:35:58
A notcia de que o Seminrio Menor de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graas, isto , o prdio do Seminrio Menor de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graas, est vindo abaixo tocou as minhas mais cavas recordaes de criana.

Vi-me de novo, entre cobertas, nas frias manhs de Montes Claros.
Montes Claros tinha frio.

ms de maio. Todos dormem.

O palor da noite no se foi, e o sol ainda no veio.

Como uma nvoa, como num sonho, o som comea baixinho, e vem, lento, flutuando de encontro a ns.

So vozes afinadas, belssimas, de quase crianas, com suas sotainas, de querubins, de serafins.

Cantam laudes.

Especialmente, cantam a Ladainha de Nossa Senhora, em puro e legtimo latim, afinadssimo.

"Sancta Maria, ora pro nobis.
Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis.
Sancta Virgo virginum, ora pro nobis.
Mater Christi, ora pro nobis.
Mater divin grati, ora pro nobis.
Mater purissima, ora pro nobis.
...................................................
.....................................
........................................`

(Ouam.

Abram os coraes e ouam, pois ouvir anjos privilgio das estrelas, que param no meio do cu para ouvi-los.

E ainda no estamos no cu.

Estamos na avenida coronel Prates dos anos 50, e o coro dos anjos a voz dos pequenos aprendizes de padre que saem em litania pelos portes da velha escola,e vem. Cantando.

Deixem que cantem.

Enquanto cantarem, e cantaro para sempre, nunca o velho prdio aoitado por marretas e clavas, tratores at - nunca estas paredes cairo por completo e definitivo.

Elas se reerguem como as vozes da litania se erguem.

No as derrubaro, certo.

O Seminrio de Nossa Senhora Medianeira de Todas as Graas jamais ir para o cho.

Permitam: ouam o canto completo, e perdoem-me a eterna lembrana. A Saudade. Que sendo palavra nossa, no tem traduo em latim):


Kyrie eleison.
Christe eleison.
Kyrie eleison.
Christe audi nos.
Christe exaudi nos.
Pater de clis Deus,
miserere nobis.
Fili Redemptor mundi Deus,
miserere nobis.
Spiritus Sancte Deus, miserere nobis.
Sancta Trinitas unus Deus,
miserere nobis.

Sancta Maria, ora pro nobis.
Sancta Dei Genitrix, ora pro nobis.
Sancta Virgo virginum, ora pro nobis.
Mater Christi, ora pro nobis.
Mater divin grati, ora pro nobis.
Mater purissima, ora pro nobis.
Mater castissima, ora pro nobis.
Mater inviolata, ora pro nobis.
Mater intemerata, ora pro nobis.
Mater amabilis, ora pro nobis.
Mater admirabilis, ora pro nobis.
Mater Creatoris, ora pro nobis.
Mater Salvatoris, ora pro nobis.
Virgo prudentissima, ora pro nobis.
Virgo veneranda, ora pro nobis.
Virgo prdicanda, ora pro nobis.
Virgo potens, ora pro nobis.
Virgo clemens, ora pro nobis.
Virgo fidelis, ora pro nobis.
Speculum justiti, ora pro nobis.
Sedes sapienti, ora pro nobis.
Causa nostr ltiti, ora pro nobis.
Vas spirituale, ora pro nobis.
Vas honorabile, ora pro nobis.
Vas insigne devotionis, ora pro nobis.
Rosa mystica, ora pro nobis.
Turris Davidica, ora pro nobis.
Turris eburnea, ora pro nobis.
Domus aurea, ora pro nobis.
Fderis arca, ora pro nobis.
Janua cli, ora pro nobis.
Stella matutina, ora pro nobis.
Salus infirmorum, ora pro nobis.
Refugium peccatorum, ora pro nobis.
Consolatrix afflictorum, ora pro nobis.
Auxilium Christianorum, ora pro nobis.
Regina Angelorum, ora pro nobis.
Regina Patriarcharum, ora pro nobis.
Regina Prophetarum, ora pro nobis.
Regina Apostolorum, ora pro nobis.
Regina Martyrum, ora pro nobis.
Regina Confessorum, ora pro nobis.
Regina Virginum, ora pro nobis.
Regina Sanctorum omnium,
ora pro nobis.

Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, parce nobis Domine.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, exaudi nos Domine.
Agnus Dei, qui tollis peccata mundi, miserere nobis

(Esta ladainha, cantada em latim, emocionou o mundo na morte de Joo Paulo II).




Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
Edes Barbosa
Efemrides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lvio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaas
Isaias Caldeira
Isaas Caldeira Brant
Isaas Caldeira Veloso
Ivana Rebello
Joo Carlos Sobreira
Jorge Silveira
Jos Ponciano Neto
Jos Prates
Luiz Cunha Ortiga
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Luiza Silveira Teles
Maria Ribeiro Pires
Mrio Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elsio
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Saulo
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Virginia de Paula
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Wanderlino Arruda
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