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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Carmen Netto    [email protected]
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Por Carmen Netto - 5/4/2016 15:38:50
- Montes Claros no Meu Tempo -
O que que Montes Claros Tinha?
Tinha claros montes
Tinha um cu azul profundo
Tinha o rio vieira a correr
Tinha poeira e boiadas
Tinha o mercado.
Tinha igrejas e sinos
Matriz, Rosrio
E no alto dos morrinhos a igrejinha;
Tinha o jardim da Praa da Matriz
Tinha coreto para namorar escondido
Tinha Banda de Musica
Tinha Coroaes e Anjos descendo a rua Dr. Veloso
Tinha sobrados atrs da matriz
Tinha assombraes e fantasmas
Tinha o footing na romntica Rua 15
Tinhas as ruas do Marimbondo e Pedregulho
Tinha Alala e Geraldo que cantava o Hino nacional
Tinha as Festas de Agosto
Tinha reisados, procisses e festas juninas
Tinha a Praa de Esportes
Tinha o Clube Montes Claros e o dos Bancrios
Tinha o Pequi dos Piqueniques
Tinha alpendres e quintais;
Tinha cinemas paradisos,
Tinha tudo!
Tinha iluso!
Tinha vida!


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Por Carmen Netto - 7/6/2013 18:40:07
Importncia das Memrias

O que Montes Claros para mim? E uma coisa antiga que no sei explicar como funciona. Montes Claros, como conhec-la se no viajarmos pela sua cultura, pessoas, acontecimentos. Os montesclarenses registram sua memria cultural, referncias, no permitindo que adormeam histrias interessantes, bonitas que precisam ser contadas.
A cidade de Montes Claros teve e tm muitos representantes na arte, msica, poesia e em todas as reas do conhecimento humano. Essas lembranas tem um frescor de tempo que passou, de memrias que ficaram. Sabemos, que o passado a clula mater de nossa vida.
Ele d sentido ao presente e ao futuro. Comeo uma viagem para fora e para dentro. O corao quer fazer um retrato de cidados montesclarenses, homens e mulheres que ajudaram a construir os alicerces da Montes Claros atual no trabalho cotidiano na primeira metade do sculo XX. Entender uma cidade a partir de seus moradores com os olhos de ontem e de hoje, lembro-me de alguns deles:
Seu Valrio do restaurante do mesmo nome, onde a sociedade se reunia para comemoraes importantes; no velho Mercado Municipal, os comerciantes Z Boi, Arthur Amorim, os aougueiros Z Branco, Jos Boy, e os moradores do entorno da cidade trazendo hortifrtis. Na Praa de Esportes, Emidio Carvalho, sargento Marino seu Pimenta e Sabu que ensinou uma cidade a nadar; os chauffeurs de praa, Mrio Alencar, Maroto, Didi; Na estao da Central do Brasil, Geraldo do seletivo que auxiliava a todos nos momentos amargos e inesperados. No me esqueo da presena diria de Matias Peixoto, nessa estao trazendo as bagagens dos viajantes numa carroa, pois automveis eram raros, s os mais abonados os possuam. Todas as diretoras e professoras dos grupos escolares representadas por Alice Aquino Netto fundadora do Instituto Dom Bosco e Lili Madureira professora que num passe de mgica, alfabetizou centenas e centenas de crianas montesclarenses e configuram a riqueza do nosso ensino. Leonel Beiro de Jesus figura memorvel com a inesquecvel boneca de Leonel alegrando as ruas e nos momentos de sofrimento administrando a funerria, no deixando nenhum, indigente sem o enterro digno. Vem minha memria Waldir Dures (Dim) que cantava nos clubes embalando pares que danavam de rosto colado. Os alfaiates Ceclio Barbosa, Brasiliano Ribeiro Cruz, os irmos Wilson e Ayres Drumond eram os responsveis pela elegncia masculina; As costureiras Natlia Peixoto, Teresa Dias e Nininha Silva, todas grande estilistas, craques das tesouras, criavam modelos para senhoras e moas. As costureiras Deolinda Prates, Maria Helena Vieira, Herclria Versiani, Nely Pimenta se ombreavam com os modelos infantis da casa Valentim no Rio de Janeiro. Jamais esqueceria as pessoas de Irm Beata Nossa Teresa de Calcut,- trazendo ao mundo milhares de crianas, independentes de classe social, com o mesmo carinho e compaixo; De Dona Clotilde Versiani aplicando vacinas, fazendo curativos e amenizando as dores do mundo; De Dr Raul Peres fazendo o exame mdico nos colgios para os alunos estarem aptos para as aula de educao fsica. Lembro-me com saudade dos carteiros Juca Carteiro, Otaclio Gomes de Oliveira e Zeca do Correio, esperados com ansiedade pelas moas que tinham namorados fora e tambm de Maria Vasconcelos Cmara Lica - mulher frente do seu tempo participando ativamente na poltica local, enquanto suas contemporneas se resguardavam no recesso do lar. As tradicionais Festas de Agosto sob a batuta de Mestre Zanza catops -, Geraldo Paulista marujos -, e Joaquim Pol caboclinhos - , guardies dos festejos de agosto, eram, por ns, esperados com ansiedade. D. Quininha Chaves e D. Zinha Prates, ensinavam as crianas as msicas de coroao de Nossa Senhora. Todas essas personalidades contriburam com suas atividades na metade do sculo XX. Tenho certeza de que muitos outros tambm o fizeram e a eles a gratido de todos que viveram nessa poca. Montes Claros hoje outra cidade: Centro Educacional de referncia Nacional, Moderna, Industrial e polo do Norte de Minas, sem perder a ligao com o passado.


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Por Carmen Netto - 23/1/2013 18:07:38
Procisses religiosas

As procisses possuem um significado profundo para os fieis e simbolizam a caminhada de orao do povo de Deus em comunidade, rumo a casa do Pai.
Levar a imagem dos Santos pelas ruas significa espalhar as bnos que a f proporciona!
Assistindo o telejornal de domingo dia 20 de Janeiro, vi encantada a procisso de So Sebastio, padroeiro da cidade maravilhosa.
Como os tempos mudaram! Hoje quase no se v mais procisses. Passaram os anos, passou a vida.
Como posso viajar no tempo, retorno a Montes Claros, personagem principal de minhas crnicas. Vou tentar encontrar sua face e sua alma. Nas dcadas 50/60 eis-me na praa Dr. Chaves, em frente a igreja matriz de So Jos e Nossa Senhora da Conceio.
O Padre Dudu, enrgico como s ele, inicia a procisso. frente o senhor Firmino Veloso leva a cruz. Em seguida, a Cruzadinha Eucarstica organiza-se. Meninos e adolescentes usando terno branco faziam as alas e eram liderados por Iram Rego e Augusto Vieira Neto - O querido bala doce -. Se no me engano usavam uma faixa amarela de maneira Transversal. Aps, vinham as meninas dos Santos Anjos, vestidas de branco usando vus de fil sobre a cabea. Em seguida as aspirantes a Filhas de Maria usavam a fita verde e depois eram promovidas ao ncleo principal dessa irmandade. Todas de branco usando uma fita azul, lideradas por Dona Inh e Neusa Dias, Dona Alice do Anjos e Dona Deolinda Prates. O Cortejo aumentava com as Mes Crists, vestidas de preto e o vu da mesma cor. Eram lideradas por Dona Zez Queiroz. Lembro-me tambm de Dona Non Silveira dos Anjos, minha av Marieta, Dona Chininha Vasconcelos, Dona Zizinha Quadros. Elas se reuniam na esquina do Clube Montes Claros, antes de descer a rua Dr. Veloso em direo a Matriz.
Um cidado que residia na rua Afonso Pena, assim que elas passavam, dizia para quem quisesse ouvir L vo as esposas de Cristo. Quando o mundo no as quer, Deus quer.
A irmandade do Sagrado Corao usava fita vermelha. frente da irmandade um estandarte vermelho com o cromo do sagrado corao.
Em seguida a irmandade de Santa Zita com modesto uniforme: saia de tricoline marrom, blusa do mesmo tecido branca e uma fita marrom. Todas eram empregadas domesticas e Santa Zita era a protetora.
Em toda procisso soltava-se foguetes e a Banda de msica alegrava adultos e crianas.
Outras duas importantes procisses, aconteciam: na Semana Santa e no dia de Corpus Cristo. Na sexta feira da paixo, a matraca produziam estalos secos, um som que dava mais tristeza. Era uma procisso silenciosa, quebrada somente pelo canto da vernica cantado por Eny Vieira. Nossa Senhora das Dores precedia o esquife do senhor morto que era levado por homens vestidos de togas brancas amplas e compridas.
Logo aps encerrando a procisso a banda de musica tocava a Marcha Fnebre. Quanta tristeza, mesmo havendo no cu a esplendorosa e prateada, a lua cheia de abril!
No dia de Corpus Cristo o sino da matriz badalava de alegria. As ruas eram enfeitadas com vasos de folhagens, ptalas de rosas, de anglicas e jasmim. Um cheiro delicioso invadia a cidade. Nas janelas das residncias colchas de croch, de crivo, toalhas bordadas da Ilha da Madeira, costume que a colonizao Portuguesa nos deixou.
Meninas vestidas de anjo, o turbulo de prata contendo incenso levava a fumaa aos cus. Jesus Sacramentado em uma custdia dourada era levado pelo Bispo Diocesano em trajes de gala. O Plio era carregado pelas principais autoridades da cidade. Menina ainda, eu achava que esse plio deveria ser carregado por operrios, carpinteiros, pedreiros, lavradores, pois se identificavam mais com Cristo Jesus.
A procisso de Corpus Cristo tinha um percurso menor, percorrendo as ruas centrais e terminando na praa da matriz. Cantava-se o Tatum Ergo em latim, rezava a orao pelo Brasil e todos recebiam a beno do SS Sacramento.
A Banda de msica, patrimnio de toda cidade mineira, tocava marchas e dobrados coroando uma tarde de luz.
No sei se, Tudo de bom era no meu tempo. Antigos e amveis tempos que nos ajudam entender e desvendar a Cidade de Montes Claros.
Carmen Netto.


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Por Carmen Netto - 3/3/2012 12:24:58
A MEMRIA DOS BORDADOS

Num mundo tecnolgico e veloz, bordar uma verdadeira terapia. Com linhas coloridas, riscos de outras pocas amarelados pelo tempo, as mulheres vo bordando seus sentimentos e emoes. Vo costurando conversas, e entre um caf e outro servido com biscoitos mergulham no universo feminino. Nesses encontros a dimenso do tempo outra, pois bordar uma tarefa artesanal, Nos dias de hoje, os grupos de bordados, resgatam riscos, e os recuperam em sua beleza.
Freqento junto com a amiga Cida Maia um grupo de bordado na 1 Igreja Presbiteriana de Belo Horizonte. um encontro agradvel, o grupo tem muita disposio e criatividade. Temos tambm um lanche delicioso e mandamos para as cucuias, a dieta que nunca fazemos. Comentamos, livros, filmes, aulas de computao, exposies atuais, contamos piadas, refletimos sobre a vida. um grande espelho. A gente se v na outra mulher.
O bordado est na genealogia do feminino, desde a idade mdia, e, chegou at ns. Na idade mdia, as mulheres eram criadas para ficar dentro de casa preservadas, prendadas, presas no ambiente domstico, muitas vezes usando o cinto de castidade enquanto os maridos iam para as guerras, as cruzadas. Nessa poca, o bordado era uma forma de opresso. Nos dias de hoje resgata o feminino perdido no mundo contemporneo. Na idade mdia junto s aias, num salo do castelo, bordavam tapetes gobelins, quadros, tecidos vindo do oriente. Quanto maior a pea, mais a mulher ficava ocupada. Enquanto uma delas lia um romance aquela que sabia ler se encantavam com as historias dos cavaleiros errantes. A tarde escoava nos bordados que confeccionavam.
Minas Gerais um estado diferenciado, tem grande tradio nos bordados, que chegaram atravs da colonizao portuguesa, revistas francesas e belgas. A religiosidade mineira transparecia, nas peas, toalhas, e no enxoval dos padres. As igrejas eram ornamentadas com verdadeiras obras de arte dos bordados, mostrando suas caractersticas, histricas, socias e culturais. Em Minas, principalmente a - Minas Profunda- em cidade coloniais, pequenos povoados, as mulheres assentavam nas portas de suas casa e no deixaram a tradio morrer, como em Portugal e Espanha, mantram viva bordados de outros tempos.
Como toda cidade mineira, Montes Claros tinha e tem excelentes bordadeiras. Na primeira metade do sculo XX, as mes confeccionavam o enxoval das filhas, com o esmero e o requinte das melhores bordadeiras. Nas velhas mquinas SINGER, faziam virois, lenis, fronhas com os monogramas entrelaados, com as letras do noivo, sugerindo que as noivas seriam propriedade dos maridos. A primeira providncia, era comprar, um ba para guardar as peas confeccionadas, em meio a bolinhas de naftalina, ou sachs de lavanda. As camisolas, as liseuses , eram confeccionada no cetim, seda pelo de ovo, ou cambraia. Muitos modelos eram copiados dos filmes romnticos de Hollywood, especialmente a camisola do dia...
Quando fiz o ginsio, nas quatro sries, havia a matria Trabalhos Manuais. Aprendamos a fazer bainhas, riscar tecidos, prender boto, fazer barra nos vestidos, cerzir e principalmente bordar. Minha me bordava matiz muito bem. Aprendeu com Dona Aninha Gomes Leite, esposa do Dr Joo Gomes Leite. Tenho at hoje um virol matizado com lindas rosas e uma toalha de ch matizada com papoulas em vrios tons de vermelho.
Montes Claros sempre teve eximias bordadeiras. Dona Nininha Souto foi uma delas ,fazia todo tipo de bordado: Frivolit, herana francesa, Ianduti feito com um objeto de osso, parecendo uma baratinha, fazia bordados aplicados maquina, da maior beleza.
Herclria Versiani e Maria Helena Quintino bordavam os mais lindos vestidos infantis. As Tias do arcebispo emrito Dom Geraldo Magela de Castro, eram requisitadas para fazer os mais lindos enxovais da cidade. Dona Joaquina Couto, Dina Quintino e as trs Marias Ana, Iraci e Lili que vieram da Bahia e eram prendadssimas.
Mulheres annimas continuam a bordar pois o bordado universal. Bordados que eternizam momentos felizes ou infelizes, que marcam o tecido com suas alegrias e suas dores.

Crnica baseada nas pesquisas de Maria do Carmo Guimares Pereira e da psicloga Marisa Sanabria.


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Por Carmen Netto - 16/12/2011 23:42:41
Rua Presidente Vargas Onde Nasci e Vivi


Em dezembro, o clima de natal, realimenta nossas emoes. A Criana que fui um dia, bateu palmas, fui atend-la. Queria relembrar, onde vivemos, corremos, cantamos que mesmo distante no tempo, faz parte da minha vida. Perguntou-me: Como a rua Pres. Vargas est hoje, o que sente ao rev-la?
Todas as vezes que retorno, aos meus Montes Claros, caminho nas caladas da minha rua acompanhada das mais singelas lembranas. A minha rua nunca foi bonita. Quando nasci, era calada com pedras p-de-moleque, nenhum verde para embelez-la a no ser as mangueiras de manga comum no quintal da casa onde Dona Afra residiu, e o jardim da residncia de Dona Alice dos Anjos, onde vicejava dlias, margarida e roseiras.
Apesar de ser uma rua mais comercial, nos dois quarteires abaixo do Clube Montes Claros, haviam algumas residncias: nossa casa, a dos meus avs, Mundim e Marieta, a do Sr. Loureno e Dona Anglica Miranda Santos, a de Dona Alice dos Anjos, e a do Sr. Odilon e Dona Geni Amaral Vindos de Patrocnio-.
Na esquina com a Coronel Prates a casa do Senhor Fontes e Dona Maria pais do levado Breno Afonso.
Caminho tranquilamente nesse pedao, espao de minha infncia e adolescncia. Nesse espao brincvamos de esttua, anelzinho, boca de forno, mar, roda, pegador, queimada. Por onde andaro, Geni, Clia, e Aristides Amaral, colegas no Instituto Dom Bosco?
Naquelas tardes ensolaradas, o piano de Biela dos Anjos encantava quem passasse na Pres. Vargas. Msica tambm no faltava nas noites de sbado e domingo no elegante Clube Montes Claros.
Atrs do Ginsio Municipal / Colgio Diocesano, ficava a serra dos Montes Claros. Um vento suave vinha da serra e amenizava o calor. Quando menina, havia s duas estaes: tempo da seca, tempo das guas. Na seca a serra ficava acinzentada, ocre e dourada ao pr do sol. Quando as guas chegavam, como um milagre, em poucos dias, o verde esmeralda circundava a cidade.
Na adolescncia, o melhor programa, era ficar na janela de minha casa, vendo passar os alunos do Colgio Diocesano, inclusive os internos, na ida e volta das aulas. Minha av Marieta, sempre me perguntava, porque eu era to janeleira, e eu respondia: _ gosto de ver a vida acontecer_. Ela me olhava com o olhar irnico, que hoje corresponde a expresso em uso. _Me engana que eu gosto!_
Na rua Pres. Vargas tinha gente o dia todo. Barulho bonito dos carros-de-boi , poucos automveis, vendedores de roletes de cana, amoladores de facas e tesouras, pirulitos colocados numa tbua furada e quebra-queixo. Para pequenas compras, o armazm do Sr. Joo da Pretinha, o bar de Mrio Meira, depois, a venda de verduras e frutas do meu amigo Mario Alaor de Sousa e um bar que vendia caldo de cana. Completando nossa vizinhana a sapataria de Lourival, que fabricava lindas sandlias.
noite, moas e rapazes subiam para o footing da Rua 15. Em maio os anjos passavam em direo a Matriz para a coroao da Virgem Maria. Em agosto, catops, caboclinhos e marujos cantando msicas e batendo tambores iam em direo ao largo do Rosrio. Dezembro, as pastorinhas e o reisado cantavam loas ao Deus-Menino. A boneca de Leonel, durante todo o ano, alegrava a rua com msica, foguetes, e o megafone onde ele fazia a propaganda de um tudo.
As casas com portas e janelas abertas, a gente via um pouco da vida dos moradores: a av na poltrona fazendo croch, o nenm no carrinho, a mocinha bordando, o pai escutando rdio. O relgio do Mercado Municipal batia as horas, e noite era o nosso companheiro quando a insnia aparecia. Cachorros latiam, galos cantavam, gatos namoravam num amor barulhento... Na calada, moradores sentavam nas cadeiras para tomar a fresca, conversar com os vizinhos, os amigos. As donas de casa, trocavam receitas, mudas de plantas, riscos de bordados.
A rua Pres. Vargas mudou. Hoje totalmente comercial: barulho, poluio, prdios escondendo a serra dos Montes Claros e encobrindo a luz das estrelas. o progresso, a vida continua e pode ser muito interessante e calorosa outra vez. No mais existem janelas e portas abertas. Nem um verdinho para alegrar os olhos, no importa, a vida no para mesmo, e bom que isso acontea. A rua Pres. Vargas ser sempre minha, Continuo morando na casa modesta, esquina com Afonso Pena. E, quando a saudade bate, a menina que se esconde num lugar que s eu sei, vem tona e juntas agradecemos a Deus por nossa vida.



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Por Carmen Netto - 28/10/2011 18:26:37
Nos Caminhos de Tiradentes e Tancredo Neves

Nem sempre preciso ir longe para se deleitar com os prazeres da vida. Em um fim de semana fiz um percurso encantador. Festa do Caf com Biscoito em So Thiago, Sinfonia dos Sinos em So Joo Del Rey e almoo em Tiradentes, uma cidade plena de um charme singelo. S vivemos o que podemos evocar. Esqueo o que no escrevo, como se tivesse no acontecido. Retornar a uma das Minas que so muitas sempre um orgulho; rever a riqueza encantadora de suas tradies, cultura, histria e religiosidade.
Em Setembro acontece, em So Thiago, a festa do caf com biscoito. Ruas com barraquinhas, onde biscoitos, quitandas mineiras recheadas de carinho, temperadas com amor, nos so generosamente oferecidas. Broas assadas em folha de bananeira no forno cupim, vista do turista. Cidade buclica, vida vivida com mais leveza e simplicidade. Jardins floridos, revelando a essncia das pessoas. Como aproveitei o festival de singelas mineirices! Ao entardecer um desfile, onde a cultura se fez representar. Carros-de-boi enfeitados, num andar preguioso cantando antiga e gemida toada que ainda sei de cor.
De So Thiago, fomos a So Joo Del Rey. Cidade dos sinos, da msica, bandas de msica com mais de 200 anos. A tradio musical faz parte da cultura local. A noite iluminada pela lua cheia e um cu estrelado foi cenrio para a Sinfonia dos Sinos. O sino da igreja do Rosrio anuncia a sinfonia com o toque de festa, alegre e animado. Duas orquestras apresentaram um repertrio clssico e outro mais popular, com msicas de vrios pases. No final, um cro de mais de trinta vozes encerrou uma noite inesquecvel. Ah! Os mistrios da msica. Tudo o que ouvimos e nos emocionou por qualquer motivo, passa a fazer parte de ns...!
Na Avenida Presidente Tancredo Neves, vejo uma esttua de Tiradentes e, em frente a esta, a esttua de Tancredo Neves. Um, mrtir da Inconfidncia Mineira, o outro, mrtir da redemocratizao do Brasil. Ambos sonharam com a liberdade, e por ela viveram, sem usufruir de seus sonhos. Tancredo Neves, sem derramamento de sangue, ou conflito armado, como bom mineiro conciliador, reconstruiu a democracia durante a nefasta ditadura. Fundou o Brasil contemporneo e alicerou novos tempos para o pas.
Meu encontro com a velha Maria Fumaa, foi s emoo! Sou apaixonada por viagens de trem. Na imponente gare de So Joo Del Rey, matei a saudade, e, como existe um jeito bom de ter saudade... No museu ferrovirio a influncia inglesa: mquinas a vapor, relgios, Telgrafo Morse, uniforme dos ferrovirios, bandeiras verde, vermelha, amarela, tudo reproduzindo as imponentes ou singelas estaes. O apito da velha Maria Fumaa me arrepia... Vou viajar novamente. O cheiro do carvo, a fumaa do vapor, as fagulhas da mquina soltando pontinhos vermelhos colorindo a noite. A entrada triunfal do trem nas estaes, e, no final da viagem os abraos e os beijos nas pessoas amadas que chegavam, ou a tristeza quando partiam. Gente que amo e revejo, cada vez mais ternamente, passeiam pela minha memria. O sino da estao chama para o embarque, a Maria Fumaa apita e parte em direo a Tiradentes. Apenas 12 km, 45 minutos de uma viagem inolvidvel. O trem segue margeando o rio, casinhas simples e coloridas, crianas saudando com alegria os passageiros. A pequena cidade, escondida atrs da lindssima Serra de So Jos, nos aguarda com beleza e simplicidade, a deliciosa comida mineira e, hoje tambm, com restaurantes gourmet. Termina a viagem. Novas lembranas surgem. Na plataforma, turistas esperam o retorno para So Joo Del Rey. O trem de ferro parte at virar fumaa na paisagem.
Lindas igrejas, com os sinos badalando ao meio dia. Pousadas encantadoras, artesanato, conjunto resguardado pelos moradores, zelando por essa jia, onde ainda prevalecem hbitos e costumes tradicionais das pequenas cidades mineiras. Hora do almoo, mesa enorme, fogo a lenha, panelas de ferro, de pedra sabo, potes de barro. Comida simples, caseira e deliciosa. Sobremesas que desafiam qualquer regime: o tradicional queijo mineiro, o doce de leite, a goiabada. Doces de figo, laranja e limo. Precisa mais? No. Precisa resguardar nossa cultura que impar no Brasil.
Na volta, dialogando comigo mesma, refleti como nossa Minas Gerais rica no apenas nos minerais do seu solo, mas na cultura conservando seu rico passado. A velha Minas Gerais das missas de ramos, das assombraes e sobretudo do apego famlia, se fez presente nesse passeio. Gostaria de dividir com quem me l, o texto da jornalista Denise Aleluia, que resume Minas Gerais no que esse Estado tem de melhor.
Minas de gente hospitaleira, de prosa na calada no fim da tarde. Lugar em que tudo vira doce, que tem no ar o perfume do caf fresco no bule e do po de queijo feito no fogo a lenha. Bero do velho Chico, rio que une essa nao. Repouso de majestosas igrejas e do badalar dos sinos que anunciam horas que parecem no passar. Ah! Minas! Lugar mgico em que preciosidades brotam do cho. Lugar onde pedra, algumas vezes vira profeta, outras se tornam panela e fervem no fogo! Terra do bonito casario, onde se v o sorriso tmido das moas nas grandes janelas. Terra em que tudo trem e como bom, esse trem de estar em Minas.

Carmen Netto Victria


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Por Carmen Netto - 16/9/2011 23:07:10
O Encanto da Simplicidade

Lembranas...
De tudo / vivido, De tudo / passado, De tudo / mudado. Restam-me / as lembranas. / So minhas. Nada perdi / Esto aqui...
Marisia Fratezi

O ato de recordar saudvel, nos acolhe e nos enlaa ao outro fortalecendo os laos de ternura. Voltar s razes, o recordar, o rememorar muito importante. No centro das reminiscncias, cochilam verdades, ternura, uma felicidade adormecida que Martha Vernica acordou com seu amor. Resgatou a essncia da vida, a espontaneidade, a simplicidade. No livro Antnio e Geni A saga do amor eterno. Em volta de uma mesa, o lao familiar, une uma grande famlia, repartem o po, ouvem histrias de outros tempos.
Continua em Martha Vernica, a menina de olhos amendoados e vivos, a menina criana, a menina adolescente, menina de sensibilidade e questionamentos. Naquela famlia grande e amiga, no havia a tristeza da solido, o corao da menina era acariciado pelo av patriarca, os pais, os tios e primos.
O outro lado da moeda so as perdas, mas, acima delas, existe o amor que a cura para tudo. No h tristeza que sobreviva diante dessa fora. Fora que a animou a estudar, crescer como ser humano, a escrever e compartilhar a vida com quem aparece no seu caminhar.
O depoimento sobre seu pai, Z Gato, meu querido colega no Banco Comrcio Indstria de Minas Gerais, nos anos 58/62, fez meus olhos marejarem. Voc foi to feliz em descrev-lo, no faltou nada. Z Vasconcelos veio inteiro em minha mente e corao. Minha Tia Amlia era sua amiga de vrios anos, e esse elo se fortaleceu no meu conviver com ele. Quando o expediente terminava, tnhamos de conferir o movimento da Conta Corrente com o Caixa. Nesse momento, vinha Z Gato com sua bondade, a ajudar-me a achar a diferena, se isso acontecesse. Aproveitvamos para um dedo de prosa, contar uma piada ou simplesmente comentar o cotidiano dos Montes Claros.
Ao lado do seu pai, sua me Maria Amlia, companheira de todas as horas, linda como as artistas do cinema dos anos quarenta. Um casamento de romance, quando seu av no permitiu a unio, eles enfrentaram o no numa poca de total submisso das mulheres e juntos fizeram seu caminho.
Fotografias, ilustraes, genealogia, o prefcio primoroso do Dr. Petrnio Brz, faz uma anlise scio-histrica da poca, os depoimentos complementam e enriquecem o livro.
Tudo nos remete a uma vivncia comum a ns, felizardos, que fizemos parte da poca retratada.
Ao nos contar a saga do amor eterno de seus avs Antnio e Geni receitas de bolos, doces, biscoitos, voc nos ajuda a perceber porque, no fundo, no fundo ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais.
Martha, tambm, tenho o meu Melo. Aquele corredor onde nas cercas o So Caetano cor de laranja, alastrava e enfeitava o caminho. Estrada de muita poeira, cho gostoso de pisar, tirava a sandlia Made in seu Penalva e mergulhava os ps naquele mar de poeira e tinha aquela sensao de plenitude. Acompanhada de borboletas, enfeitando a vida em suas vrias cores, atravessvamos a velha ponte do rio do Melo, ao meu olhar infantil, grandes guas esverdeadas que eu transformava no rio do Stio do Pica Pau Amarelo . Mais adiante, mangueiras centenrias davam uma sombra deliciosa, abrigavam pssaros e ofereciam frutos coloridos e perfumados. Chegvamos no stio do Senhor Germano e Dona Glria, chamado Alfeiro, lugar lindo, mgico, com seu rio cheio de seixos, onde nadvamos. Era o lugar preferido para fazer piqueniques inesquecveis.
Parabns! Texto adorvel, pleno de amor vida, sabedoria, delicadeza e emoo que nos fazem viajar para dentro de ns mesmos revivendo as lembranas na simplicidade de nossos melhores sentimentos.

Carmen Netto Victria
Agosto / 2011


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Por Carmen Netto - 27/5/2011 19:58:12
Nas Trilhas de Cames e Cervantes


Cada viagem um renascer. No sei se a paixo que sinto pela Espanha devido ao meu nome. Ou, devido aos livros de Ernest Hemingway que li, ou de filmes como Sangue e Areia, ou dos perfumes usados na mocidade com os exticos nomes Embrujo de Sevilha e Suspiro de Granada. No meu imaginrio tudo isso.
Atravessamos a fronteira e chegamos Galcia, onde se fala o galego parecido com o portugus de Portugal. Passamos por vilarejos antigos cujas casas eram de granito. Chegamos Santiago de Compostela! Meu lado andarilho se encontrou. Na Catedral situada na Praa do Obradoiro, um conjunto de prdios histricos forma a moldura da imensa catedral. Alguns peregrinos esperavam a missa das 19 horas, sentados ao lado dos cajados. Nos rostos, expresso de paz, harmonia e serenidade. Atrs da Catedral ruas estreitas, pracinhas floridas, cafs, lojinhas de lembranas, formam um conjunto encantador.
De Santiago de Compostela, partimos em direo a Salamanca considerada uma das cidades mais belas da Espanha. A Universidade de Salamanca uma das mais antigas da Europa. L aconteceu a histria do ovo de Colombo, que atravessou sculos at os dias de hoje. Como todas as cidade da pennsula Ibrica, possui uma importante Catedral, em estilo gtico - renascentista barroco, cujo destaque o nicho atrs do altar, com lindssimos painis.
Em Salamanca est a Plaza Maior considerada a mais bela de toda Espanha possui arcadas, cafs, lojas de grife, e do lado leste fica o grandioso Pavilho Real. Ao entardecer, a luminosidade da tarde, reala o conjunto. poca de frias da Pscoa, jovens tocavam, cantavam e sua alegria contagiava a todos. Em direo a Madrid, passamos por vila e suas muralhas medievais, terra de Teresa de vila, mstica e doutora da igreja catlica. Em seguida chegamos ao Escorial Mosteiro, Palcio e Panteo onde esto sepultados os reis de Espanha.
Por estar fechado, no conhecemos o Vale de los Cados. A construo desse memorial levou 18 anos e os operrios foram os prisioneiros republicanos do regime franquista. A maioria morreu nessa construo, pois a slica da pedra atacava os pulmes. Ao ver a imensa cruz de 150 m. de altura, desfilaram em minha memria: Dolores Ibarruri La Passionria que disse: Prefiro morrer a viver de joelhos. O poeta Garcia Lorca e homens do mundo inteiro que deram sua vida por um ideal. Com os horrores da cruel guerra civil espanhola na memria chego Madrid. Mosteiros, igrejas, palcios; Plaza Maior e a Puerta del Sol, linda, caliente como toda a Espanha. Plaza de Espanha com o monumento a Cervantes. A Gran Via, a Praa da sedutora deusa Cibeles, cuja fonte a embeleza mais. Museus do Prado e Reina Sofia. Goia, Velsquez, Picasso! Goya retratando o cotidiano da vida espanhola, Velaquez o encanto das Treis Meninas, e Picasso retratando a tragdia de Guernica. Puerta del Sol, com seus canteiros tingindo de vermelho vivo as papoulas e tulipas da primavera. Vejo-as como um retrato da Espanha: Trgica, sangunea, sensual, apaixonante. A Plaza de Toros de La Venta, com arcos, galerias, arquitetura mourisca.
As esttuas de dois famosos toureiros espanhis enfeitam a Plaza Antonio Bievenida, e Jos Cubero. Na minha imaginao revejo Manolete e Juanita Cruz em seus Trajes de Luces. Juanita Cruz, toureira dos anos 30, teve que deixar a Espanha por ser mulher! Sempre o famigerado preconceito!
Toledo antiga capital da Espanha, situada sobre uma colina acima do rio Tejo, que l se chama Tago. Atrs de antigas muralhas, a cidade rene a cultura crist muulmana e judaica. impossvel descrever a beleza, a suntuosidade, o esplendor de sua Catedral. Inesquecvel o ostensrio de prata e ouro, com mais de treis metros de altura que levado pelas ruas da cidade no dia de Corpus Cristi. Nessa Catedral est uma imagem da Virgem Maria, chamada Virgem blanca apesar da cor da pele ser de um moreno acobreado. No seu rosto um sorriso de encantamento, brincando com o menino Jesus e ele tambm sorrindo, segura no seu queixo Em todas as imagens, Maria mostra um rosto sofrido, suave, s vezes resignado, ora serena; mas, nessa imagem ela sorri, simbolizando a me encantada com seu filho beb.
Se tivesse de escolher um termo para definir como me senti, aps conhecer Toledo e sua Catedral Seria: alumbramento!
O belo est presente nas igrejas, nos palcios, na pintura, na arquitetura mourisca, nos vitrais, nas fontes. Oitocentos anos de civilizao rabe deixaram sinais para sempre. A msica um lamento rascante, ptios com fontes, o flamenco, toureiros, moinhos de vento, festas exuberantes, procisses religiosas, culinria deliciosa, paellas, frutos do mar, jamon, marzips. Puxei pela memria recapitulei aulas de historia e elas voltaram como inundao. Realidade e fantasia se mesclaram. El Cid, D.Quixote de La Mancha, a pavorosa Inquisio Espanhola, o Tratado de Tordesilhas. A Espanha uma diversidade. Tem quatro lnguas oficiais. uma terra de magia e alegria, mas tambm trgica.
Despeo-me da Espanha com um clice de Lacrima Cristhi, canto uma estrofe da Internacional, parabenizo o clube Barcelona pela conquista do campeonato espanhol.
Espanha, pas de contrastes, e so esses contrastes, que a tornam fascinante! Ol!

Dedico esta crnica a amiga Graa Prata Ramos, sua filha Sofhia em Madrid e a seus pais Antonio Jos e Ondina Prata Ramos em Lisboa.


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Por Carmen Netto - 20/5/2011 17:12:30
Nas Trilhas de Cames e Cervantes

Viajar a prpria felicidade. Belos lugares, amplos horizontes e muitas emoes. De volta do velho mundo, Portugal, pas de nossos avs. primavera. Dias mais longos, o sol se pe s 21 horas. Muita luz, brisa suave vinda do Tejo. H lugares que deixam saudade. Lisboa um deles. Tantas lembranas, tanta beleza a seduzir quem a visita. A atmosfera de encantamento nos envolve no primeiro instante.
A mgica se fez e o que aprendi nos livros de Histria do Brasil se materializou na beleza de Portugal. Vivi a mesma e idlica sensao de sonho e passado revivido.
Na geografia de Lisboa, o encantamento do Chiado, onde sinto Nas Trilhas de Cames e Cervantes
Fernando Pessoa, seus poemas e seus heternimos. Almoo na A Brasileira um bacalhau a Brs acompanhado do vinho tinto Ramos Pinto, sobremesa o delicioso Pastel de Belm responsvel por uns quilinhos a mais .
Subo e deso ladeiras. Vejo castelos, muralhas medievais e monumentos que relembram a histria de Portugal. Conheo Lisboa, andando por ruas e vielas, e a cada esquina encontro minhas razes. Em Alfama, o antigo bairro rabe volto a minha querida Diamantina.
Encanta-me a semelhana das igrejas locais com as de Ouro Preto, Tiradentes, So Joo Del Rei. Os eltricos (bondes) amarelos, num charme nico me levam a vrios lugares: Mirante de So Pedro Alcntara, local preferido dos turistas e dos jovens de Lisboa. Encanta-me a Praa do Rossio, Praa do Comrcio, caminho na linda Avenida da Liberdade; o Mosteiro dos Jernimos, onde se come o melhor Pastel de Belm do mundo! O monumento aos descobridores, a torre de Belm, o elevador Santa Justa.
Anoitece. Jantamos um manjar dos deuses numa tpica casa de Fados, ao som da msica tradicional e danas folclricas ingnuas e singelas. Nessa noite conheci a ltima irm de Amalia Rodrigues e que tambm j cantou fados.
E, vamos pas fora. Sintra onde deixei um pedao do meu corao. Cascais beira mar, o Palcio da Pena, o cabo da Roca, ponto mais ocidental da Europa. Cada vez mais desvendo a histria e tradies, monumentos da poca dos descobrimentos. Palcio de Queluz, hoje museu em meio aos lindos jardins franceses.
bidos, suas lendas, pequenas praas, lindas ruelas, flores coloridas nas jardineiras das janelas, formando um conjunto inesquecvel.
Ftima, onde nos sentimos impregnados de f em unio com o Sagrado. Nosso corao pleno de graas, quando a virgem Maria sai da igreja principal, num andor totalmente coberto por mirades de flores brancas parecendo flutuar no ar. A minha emoo to intensa, o quadro se torna indisvel.
Coimbra e a universidade onde a elite brasileira ia estudar nos primrdios do Brasil, impressiona-nos com a magnfica biblioteca barroca onde milhares de livros, publicados nos sculos XII a XV verdadeiras relquias, entre elas o primeiro volume dos Lusadas. Os estudantes com as capas pretas que charme! nos acolheram com carinho e muita alegria.
Chegamos a cidade do Porto. Cidade onde a parte antiga foi classificada pela UNESCO, como patrimnio da humanidade. Banhada pelo lindo e plcido Rio Douro. Passeamos, de barco nesse rio, brindando com o delicioso Porto Cruz. Conhecemos uma cave do vinho PortoVintage, onde houve degustao, terminando com um almoo tpico, num restaurante da Ribeira.
Braga, capital da regio do Minho e centro religioso mais antigo do Pas. Da o ditado Mais Velho que a S de Braga. Na colina Alto do Bom Jesus, num belvedere, onde situa-se a Igreja do Senhor do Bom Jesus, a brisa inebria, e termos aquela sensao gostosa de estarmos num paraso. Rodeados de um pequeno bosque e jardins em plena florao revelando um quadro de extrema beleza, fazendo um conjunto admirvel com a grandiosidade da igreja.
Em Portugal, me senti em casa. A mesma lngua, comida, vinhos igrejas, arquitetura, os costumes, casas acolhedoras, mesas fartas, a linguagem dos sinos.
Tudo isso herdamos e nos orgulhamos.
Ao analisar esses, aspectos, intu por que Minas Gerais to Portugal! Provncia que mais recebeu a imigrao portuguesa na poca do Brasil-Colonia. Cultura, costumes, linguagem, arquitetura ficaram preservados entre nossas misteriosas montanhas. Folclore, comida diferenciada em fartas mesas onde exercemos a convivncia. Conversas ao p do fogo, o queijo de Minas, to famoso quanto o queijo da Serra de Estrela. A amabilidade, a simplicidade em receber: Entre a casa sua a religiosidade permeando nossas vidas. Dos dias que passei em Portugal ficou aquela deliciosa sensao que teria que voltar. Esse belo pas rico em tradio e histria, me fascina, me sensibiliza. Um Porto Dhonra a esse Portugal apaixonante!

Essa crnica dedicada ao excepcional guia Benjamim, minha prima Heloisa Netto, ao seu neto Gabriel e amiga Teresinha Nobre.


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Por Carmen Netto - 22/3/2011 09:03:59
Dr. Konstantim Christoff - Mos que curaram,mos que criaram,mos que pintaram,mos que esculpiram,mosque aliviaram o sofrimento do outro. Mos que acolheram,generosas,imensas, o corao do serto,o corao do mundo. (...)


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Por Carmen Netto - 18/3/2011 22:45:38
Precursoras

Ser mulher ... como bem definiu Cora Coralina fazer a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores.
Ventos perfumados no ar. Dia 1 de Janeiro de 2011 a posse da Dilma Roussef, a primeira presidente mulher do Pas. Numa sociedade machista como a nossa, no poder mais alto da Repblica, temos agora uma mulher. Sexo frgil coisa nenhuma. Mulheres so guerreiras, sobrevivem aos trancos e barrancos, trabalham para ser independentes financeiramente e tambm para construir um mundo melhor.
Lembrei-me de mulheres montesclarenses de nascimento ou de corao, mulheres com luz prpria, que pensavam com sua prpria cabea.
Nas dcadas 40/50 as mulheres pertenciam tradicionalmente casa e os homens s ruas. Naquela poca algumas mulheres viveram em feminino prtico, escolheram suas prprias batalhas dentro de suas vivncias.
Numa cidade sem tradio de carnaval, D. Afra, baiana de nascimento, alegrava a rua Presidente Vargas com sua fantasia de baiana. Danava com a dignidade de uma rainha, tinha o respeito e admirao dos montesclarenses.
Alice Aquino Netto saiu de Januria para estudar em Diamantina. No existiam estradas. Viajava de vapor at Pirapora, de l continuava a cavalo, atravessava as escarpas da Serra do Espinhao para estudar no Colgio N. Sr das Dores. Foram anos de sacrifcios, mas o sonho se concretizou no Instituto Dom Bosco, onde desenvolveu a pedagogia do amor, aliada a mtodos de ensino revolucionrios da poca.
Fernanda Ramos chegou nossa cidade quase uma menina, casada com o Sr. Arthur Ramos. Mulher inteligente, bonita, empreendedora, empresria, conciliou seu papel de esposa e me criando uma famlia exemplar com muitos filhos. Exerce at hoje grande liderana participando ativamente dos acontecimentos da cidade.
Heloisa Veloso Sarmento, minha inesquecvel professora de histria no Colgio Diocesano. Depois de casada, j morando em Montes Claros fez no Instituto de Educao em BH, curso superior, o que hoje corresponde Pedagogia. Diretora da E. E. Dom Joo Pimenta, transformou aquele educandrio em uma escola-modelo onde realmente se educava. Delegada de Ensino, com seu trabalho honrou o nome de Montes Claros e do Norte de Minas junto Secretaria de Educao.
Josefina Mendona, mulher muito frente do seu tempo. Jogava tnis, pouco praticado naquela poca. Alta, elegante, parecia uma americana. Usava bermuda, cala comprida, moda proibitiva nas dcadas de 40 / 50. Mas o que mais admirava em D. Josefina era o senso esttico. Fazia belos jardins; fez o projeto paisagstico da Praa Dr. Joo Alves, pois se preocupava com aridez da cidade. Cuidou dos canteiros da Av. Francisco S onde residia. Hoje seria uma ecologista de grande porte.
Judithe Alves era chamada de Juju aviadora. Pilotando um avio teco-teco, fazia piruetas nos cus montesclarenses. Foi a nossa Amlia Eharth que em 35/36, foi a primeira americana a cruzar o Atlntico em vo solo. Muito bonita, usava macaco de aviador, encantava a crianada com aqueles culos imensos, usado para voar. Foi tambm locutora da Rdio ZYD-7.
Maria Vasconcelos Cmara Lica minha querida me de leite. Mulher com M maisculo. Irreverente, dinmica, destemida, contadora de piadas. Frequentava os estdios de futebol, onde torcia apaixonadamente. Mulher de garra participava da poltica local e era super respeitada. Conheceu seu marido Evandro Cmara na Escola Normal onde ambos estudavam. Troca de olhares, namoro escondido. Um dia, namorando atrs da Igrejinha do Rosrio, aconteceu o primeiro beijo. Ela assustou, emocionou e adorou! Veio o segundo e nesse momento passa D. Maria Flora Bicalho, presidente da Pia-Unio das filhas de Maria. Resultado: Lica foi expulsa, mas no se importou. Foi por uma boa causa...
Natlia Peixoto no era s costureira, modista, era uma estilista! Achar uma vaga com ela era difcil, pois tinha clientela cativa na cidade e tambm em todas as cidades do Norte de Minas. Foi exemplar me e amiga. Seu atelier era famoso e de l saam Tailleur, vestidos de casamento, blaser e qualquer moda que Paris lanava. Trabalhou at o fim de seus dias e foi-se, deixando exemplo de mulher-guerreira e me-coragem.
D. Marina Fernandez Silva chega cidade. Carioca, simples, simptica e cheia de sonhos, plantou a semente do Conservatrio Lorenzo Fernandez. A semente germinou, floresceu e hoje um Jequitib onde o vento espalha suas sementes de cultura para a cidade, o Estado e o Pas.
Zez Colares Moreira criou o Banz, Conjunto Folclrico que resgatou a cultura de Montes Claros, levando-a ao exterior e ao Brasil. Muita pesquisa, muita luta, valeu a pena e hoje o Banz respeitado, aplaudido onde se apresenta.
Essas grandes mulheres semearam sementes, transformaram sonhos em realidade, analisaram, refletiram para mudar. Reuniram em vida caractersticas de ousadia. Essas mulheres casaram com o mundo!

Carmen Netto


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Por Carmen Netto - 19/2/2011 01:44:07
ELES DEIXARAM SAUDADES

Montes Claros, cidade que estou atrelada para sempre. A saudade aflora, e a vejo com os olhos da infncia, junto com os sonhos de menina-moa. Tudo levado na voragem do tempo... Pessoas que se foram, a cidade acolhedora e amiga. As ingnuas recordaes. Em cada esquina uma lembrana, em cada rosto uma saudade.
Toda cidade tem suas histrias escondidas nas ruas e praas onde o urbano no vive sem o humano. E vou perambulando no passado. Voltar a Montes Claros, tendo aqui nascido, sempre um momento delicado, e cada vez mais delicado, quanto mais se vive. Existe uma Montes Claros dentro e uma fora de mim. Tento conciliar aquilo que a vida apartou e s o afeto pode reunir.
A fantasia infantil imprevisvel. Circulava pelas ruas, encontrava pessoas e a imaginao era generosa. Na verdade, essa uma crnica sobre o cotidiano, a vida: momentos, pessoas, fragmentos, figuras que marcaram meus verdes anos.
Entrego-me a essas lembranas, e na Praa Matriz, o Dr. Nelson Viana e D. Julieta andam de braos dados ao entardecer. Dr. Nelson, muito alto e o semblante severo. Durante o dia usava uma cala-culote, botas at o joelho, chapu de explorador africano, como o Dr. Livingstone, ou chapu Chile branco. Era uma figura que chamava ateno. Sua casa ficava escondida por uma sebe de fcus, me parecia to misteriosa quanto o dono. Tornou-se um personagem, uma lenda.
Subindo a rua Dr. Santos, em frente ao palacete do Sr. Domingos Braga, morava um casal de idosos: Sr Anselmo Jos dos Santos e sua esposa D. Aleixina. Sempre sentados em cadeiras de vime, num pequeno alpendre. Ele usando um palet de pijama, listrado. Como no tiveram descendentes, construiu em vida um tmulo no Cemitrio Bonfim. Na lpide os nomes do casal e ao lado da cruz molduras para colocar os retratos. Este fato me impressionava a ponto de sentir a leveza que o casal convivia com a morte.
Na esquina da Presidente Vargas com Simeo Ribeiro a famosa loteria do Sr. Donato Quintino era o point dos idosos. Entre muitos que assinavam o ponto diariamente, l estavam o Sr. Arthur Valle, sempre trajando um terno de linho azul-acinzentado, usando aqueles culos leves marca registrada dos presidentes americanos lencinho no bolso, sorridente e sempre falante. Ao seu lado o Sr. Joo Flix, com seu terno branco S120. Na mo um anel de brilhante, imenso, de um quilate que no sei calcular. Elegante, usava nos cabelos a brilhantina Royal Briar e tambm o perfume do mesmo nome. Quando caminhava recendia esse perfume que era o mais famoso daqueles tempos.
Subindo a rua Presidente Vargas, dois cavaleiros se destacavam com seus cavalos belamente arreados. Jos Figueiredo ainda vivo - bonito, parecia com os cowboys Charles Starret o Durango Kid e o inesquecvel John Wayne. Ele devia saber disso e suas roupas eram semelhantes aos heris do oeste americano. Seu Virgnio Preto, famoso comprador de gado, galopava num cavalo branco, parava no Bar Sibria onde suas gargalhadas enchiam o ar de alegria. Outra lembrana inesquecvel: Seu Mathias Peixoto. Quando chegvamos de Trem na estao da Central, sua carroa j esperava pelas malas, que ele entregava na residncia de cada proprietrio. Os viajantes desciam a p; a cidade era pequena e ele conhecia cada recanto dela. No Clube Montes Claros, seu irmo Sr Cezrio Peixoto, cara fechada, fiscalizava quem entrava e saa. Se algum scio se excedia na bebida era convidado a se retirar. No quesito elegncia, educao e finesse, dois moradores me encantavam: Sr. Ceclio Barbosa e Sr. Ataliba Machado. O primeiro eu via sempre em sua alfaiataria. Sereno, amvel, confeccionando ternos para os casamentos, formaturas e demais acontecimentos sociais. Sr Ataliba Machado, jornalista brilhante, fundador da revista Encontro. Revista que era respeitada nos grandes centros e era orgulho da nossa exemplar imprensa. Homem educadssimo, tico, cumprimentava desde crianas, adolescentes e adultos. Essa lembrana emerge porque sempre me cumprimentava com tanta ateno, que eu me sentia to importante!
Sr. Joaquim Calixto, alm de ser gerente do Banco Comrcio e Indstria, era um exmio pianista e ensinou geraes de montesclarenses a tocar piano. Homem ameno, sensvel e discreto, enriqueceu a cultura de nossa cidade.
Montes Claros teve pouco afluxo de imigrantes. Impossvel esquecer o senhor Leon Shoutz, homenageado pelo programa da Rdio Nacional Obrigado Doutor por ser o maior doador de sangue do Brasil! Era russo, imenso, vermelho, sua solidariedade salvou milhares de vidas. Outro estrangeiro que me lembro era o senhor Louzada. Era espanhol e consertava sombrinhas num quartinho da rua Dr. Santos. poca de chuva, eu me oferecia para levar as sombrinhas da famlia para consertar. Como gostava de ouvir seu portunhol rascante.
Todas essas pessoas deixaram seu quinho de trabalho e muitas saudades. Tempos bons, tudo e todos permanecem bem vivos em mim.

Carmen Netto
FEV/2011

Esta crnica para Haroldo Lvio e Maria do Carmo Oliveira


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Por Carmen Netto - 31/12/2010 20:12:55
Saudades de tempos passados

As recordaes da infncia nos acompanham a vida inteira acrescidas de fantasias. Viajo nelas envolvida pela alegria, que s as crianas tm. Abro o corao e me aparecem pessoas, acontecimentos, mais um emaranhado de lembranas.
Montes Claros de todos os tempos! Minha Montes Claros que no existe mais, mas ficou em minha memria como o tempo de minha meninice; das casas com mangueiras, caramboleiras, goiabeiras, abacateiros. rvores que viajavam para a frica onde nos transformvamos em Tarzan, Jane e Boy.
Da minha juventude no Montes Claros Tnis Clube onde aprendi a nadar com Sabu e dancei nas luminosas manhs na boate da Praa de Esportes. Dos 15 anos em diante fazer o footing na Rua 15 e se o rapaz olhava depois de algumas voltas, era o escolhido para flertar e quem sabe at iniciar um namoro. Aos domingos assistir os filmes nos cines So Luis, Cel. Ribeiro e Ftima. Mame sabia da minha paixo pelo cinema, e, se houvesse qualquer desobedincia, o castigo era no ir ao cinema aos domingos.
Saio da Rua 15, deso a Simeo Ribeiro e chego Praa Dr. Chaves. To singela, to bem cuidada, com seu coreto, o laguinho e o repuxo que respingava gotas de gua e molhava minha face. No laguinho, jogava pedrinhas que faziam crculos que se ampliavam e eu ficava como que hipnotizada acompanhando o movimento da gua. Era o meu jardim secreto, tinha meu banco onde namorava ao lado de uma espirradeira cor de rosa. Nele trocvamos carinhos inocentes e fazamos projetos para a vida que se escancarava diante de ns como uma promessa de felicidade, que graas a Deus se concretizou.
Da velha cidade lembro do meu Instituto Dom Bosco, uma escola paraso onde aprendi o mais importante da minha vida: ler.Obrigada D. Lili. O Grupo Escolar Francisco S, num casaro da Pedro II com Camilo Prates. O Colgio Diocesano onde vivi uma adolescncia de sonhos e o Colgio Imaculada onde conclui minha vida estudantil.
Sobre os carnavais no Clube Montes, entre confetes, serpentinas e marchinhas Touradas de Madri, Jardineira, Al l e outras. Mas o melhor de tudo era o delicioso e inebriante lana-perfume rodouro na sua embalagem dourada.
Tomar sorvete no Minas Bar, sob o fcus copado, que dava uma sombra e uma brisa deliciosas. Sorvete tomado em taas de prata: 1 bola de cco, 1 de abacaxi, ou uma bola de ameixa e outra de creme holandez. Depois beber uma taa de guaran Champagne da Antrtica.
Na Simeo Ribeiro, no bar de Zim Bolo, tomava-se um cafezinho com biscoito de farinha, broa de fub e po de queijo. Maravilhas feitas por Dona Pretinha e suas filhas. Mas, infelizmente, com o machismo da poca, no ficava bem senhoras e senhoritas se acercarem do balco, para saborear tais delcias. Oh! Meu Deus, como o preconceito impedia a gente de ser ainda mais feliz! Obrigada Simone de Beauvoir, Rose Maria Muraro, Danuza Leo e outras que abriram novos caminhos para ns. Pergunto-me: onde est o eu que ficou na ento singela cidade? Penso que esteja nas mediaes da Rua 15, Afonso Pena, Cel Prates onde travessuras e brincadeiras de criana aconteciam. Bilboque, ioi, Boca de Forno, Pique, mar, gata parida.
Tenho saudades da Montes Claros pequenininha e de uma colina chamada morrinhos. Quando ia l olhava para todos os lados, procurando lugares do mundo.
Paris teve a sua belle-poque e tenho certeza que a minha gerao tambm teve na nossa Montes Claros, sua bela boa poca.

Esta crnica dedicada a Maria Elisa Colem e Tasso Freitas pela sua Bodas de Ouro.

Carmen Netto Victria Dez/2010


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Por Carmen Netto - 25/12/2010 03:04:19
Para Louvar o Deus Menino

Carmen Netto

Advento: ad = em direo a, e venire = chegar. Chegue mais dizemos. Advento o exerccio de acolher Deus. A ordem que as pessoas se aproximem de si mesmas, da realidade dos outros, dos acontecimentos, dos problemas, das reais possibilidades! Assim o bem estar enriquece o viver, haver solidariedade, a vida se desdobra uma mudana acontece. . (Frei Cludio Vam Balem)
Num mundo globalizado, tempos modernos, no entanto a tradio do natal sobrevive graas s razes fincadas na alma daqueles que fazem questo de celebrar o nascimento de Jesus Cristo, o comeo de um novo ciclo.
Ao lado da famlia todos se unem num momento de agradecimento e f em Deus, na vida, nas pessoas, poca tambm de trocar presentes e de muita alegria festejada nos encontros familiares. Uma comemorao marcada pelo sentimento de paz, amor e esperana. So horas nas quais as pessoas voltam seus espritos para as coisas boas, refletem sobre tudo o que viveram ao longo do ano e tendem a se mostrar mais solidrias, ajudar o prximo. So lembranas e rituais que mesmo com a falta de respeito, a quebra de costumes, o consumismo exagerado e o desprezo a determinados valores, ainda existem famlias que seguem a magia desse renascimento e se orgulham em manter vivo e propagar esse costume de gerao em gerao.
A renovao que costuma invadir muitos coraes nesta poca do ano j me pegou em cheio, Arrebatada, com a alma feito algodo doce, tudo que quero agora deixar-me envolver pelo mistrio do natal.
Passei a semana inteira, tentando descobrir que assunto abordar nessa crnica. Comemorar o natal, dentro da tradio, recordar outros natais. Sou do tempo em que as crianas pediam de presentes uma boneca, corda para pular, fogo e panelinhas, pega-varetas e s vezes mas embrulhadas naquele perfumado papel de seda azul - hortncia, que depois guardvamos no travesseiro, ou em livros.Vinham da Argentina em caixotes de pinho e eram frutas caras, e comidas em festas especiais ou quando se estava doente. Natal daquela poca era visitar os prespios fazer comidas deliciosas para a ceia; comer tambm nozes amndoas, avels e a brasileirssima Castanha do Par, a mais deliciosa de todas. Lembranas felizes de prespios de antigamente, me ensinaram que a noite de natal a da f. Num tempo que no existia televiso para ver dia e noite, os prespios eram uma festa para a meninada. Visit-los nas igrejas, cuja montagem ocupava os altares laterais, com figuras to lindas, que penso, terem vindo de Portugal, Descamos as ruas de um lado, subamos do outro. Todas as casas armavam seus prespios ou modestas e encantadoras lapinhas. Mas, o mximo, era visitar a gruta de pedra, junto a casa do seu Pedro Mendona no bairro Santos Reis. Quem nos levava era Maria Vasconcelos (Lica) e era uma excurso animada. amos quase sempre descalas pisando nas poas de gua, ou nas enxurradas, pois era Dezembro, ms das chuvas. E, os aromas do Natal? Inesquecveis, da cozinha da minha av Marieta, e os l de casa, Se misturavam devido proximidade das casas e nos envolviam de felicidade. O cheiro do leito assado, frangos, muitos doces, biscoitos, bolo de natal e as luminrias de mame.
No dia 25 na manh s vezes mida por causa das chuvas de dezembro, era a hora de reunir no passeio das casas e comparar o que o papai Noel havia deixado.
Recordando os natais que ficaram na memria, aqueles da infncia, principalmente de uma poca em que tudo era mais simples, as aes partiam realmente do Corao. O esprito do natal tomou conta de mim. Vamos transformar essa noite mgica num momento para agradecer, pois o Natal perfeito para isso.


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Por Carmen Netto - 12/11/2010 20:17:17
Conservatria Magia Musical

Viajar algo mgico, e recordar conseqncia bvia de qualquer viagem, mas existem momentos que, por serem to especiais, saem do campo da memria para fazer parte definitiva da vida. Um desses momentos eu ganhei de presente numa viagem Conservatria. O nome da cidade me provocou curiosidade e descobri que Conservatria pertence ao vocabulrio de Portugal, correspondendo a uma repartio pblica com cartrio de registros. Em 1789, instalou-se uma no distrito de Santo Antnio do Rio Bonito para controle e registro dos ndios da regio. Conheci uma cidade encantadora! Um refgio cercado de verdejantes montanhas ondulantes, em meio a flores em profuso; o sopro do vento levando pedaos de canes, acordes de violes, poemas tecendo um manto que nos envolve e nos remete a um tempo de delicadeza, de leveza.
Aproveitei cada segundo dessa viagem. Manh radiante na matinata / solarata, tarde fresca conhecendo a Casa do Poeta Moacir Sacramento e encantando os olhos com as aquarelas levssimas e coloridas de sua esposa Marinete, e a noite, com uma lua que a neblina queria encobrir e no conseguia, acompanhando a serenata executando / cantando apenas canes romnticas brasileiras.
O passeio pelas ruas da cidade comea pela Rua das Flores, onde a Velha Maria Fumaa 206 descansa do trabalho na poca do caf, levando a riqueza do Pas para o Porto do Rio de Janeiro e tambm os sonhos e a saudade das pessoas. Viaja-se no tempo observando o casario que, em grande parte, ainda conserva a arquitetura dos ureos tempos do caf. Tudo to limpo, to bem conservado, nenhuma pichao, tudo to colorido, parecendo um filme em Tecnicolor. Numa profuso de bouganvilias, hibiscos, manacs, espirradeiras e trepadeiras multicores servindo de molduras a alpendres, no h como enxergar a vida colorida. Os nomes das ruas e das casas so de canes. Av. Cho de Estrelas, Rua do Abre-Alas, Casa Rancho da Goiabada, Joo e Maria e por ai vai. Acompanhando a Matinata, que uma caminhada musical pelas ruas do centro urbano, s 11 horas da manh, paramos numa Casa Romntica, com cortinas de voal bordadas e flores na janelas. Seu endereo: Av. Cho das Estrelas, Casa Bom dia Saudade; uma senhora de 72 anos, recebe a matinata, recitando um poema sobre a cidade e termina agradecendo aos turistas dizendo: Enquanto no mundo explodem bombas, Conservatria explode canes.
noite, na Rua do Lazer onde est o monumento ao Seresteiro, bancos e canteiros floridos so cercados por bares e restaurantes charmosos e em cada um canta-se de Orlando Silva, Silvio Caldas, Nelson Gonalves a Chico Buarque, Tom Jobim, Vincius de Morais. s 11 horas da noite, surge o grupo de Seresteiros e a seresta apaixonada acompanhada por pessoas de todas as idades que cantam emocionadas e voltam a um tempo tranqilo de pura beleza. A seresta pra na Casa do Poeta, onde recebida com lindos poemas, como Uma Lenda sobre a velha locomotiva 206. Na cidade existem museus com acervos dos maiores cantores brasileiros.
Outra curiosidade: Existe um cinema chamado Cine Centmetro. Um morador da cidade, apaixonado pela 7 arte, comprou as instalaes do Cine Metro Tijuca e adaptou em Conservatria. Nele existem clssicos do cinema, depois acontecem debates e as sesses so agendadas.
Em frente Casa / atelier do poeta existe uma Cafeteria / Chocolateria que completa essa noite memorvel. E quem disse que o tempo no volta? Volta sim! Naqueles momentos, principalmente os que viveram os anos de ouro da MPB, fizerem uma viagem inesquecvel. Felicidade isso, feita de poucas coisas e completada por chocolates deliciosos ainda melhor. Todo esse encantamento vivi de uma forma total. Tudo me empolgou e emocionou, tudo foi uma festa para meus olhos! Sintetizando minha emoo, esses versos do poeta Moacir Sacramento:
E Conservatria d / s futuras geraes / aos futuros seresteiros / Menestreis e Trovadores / poetas e compositores do sculo XXI / 3 formidveis lies: Preservar sempre possvel, quando se juntam vontades e os sonhos viram canes.


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Por Carmen Netto - 24/9/2010 14:12:22
Preparativos para o Baile da Primavera

Passou a infncia...
Passou a juventude mas a vida no passou.
Passou o 1 amor...
Passou o 2 amor...
E o corao continua...
E o corao da mocinha continua ingnuo, jovem e quase sempre ele se perde em devaneios. Neste inverno de dias quentes, princpio de Setembro, depois de um agosto incandescente, o odor do vento do serto trouxe o cheiro do jasmim que perfumava aquele lado da casa quando o luar se abria. E Setembro chegava trazendo a primavera. Com ela o mais esperado baile do ano: o Baile da Primavera, no Clube Montes Claros. A memria tenaz. A minha est sempre me cutucando, inunda a mente de pessoas, fatos, acontecimentos, lugares. Oh! Iluses da mocidade, vocs jamais perderam suas douras.
E a mocinha se lembrou dos preparativos para o esperado baile de setembro. Que tal uma viagem aos anos da inocncia? Num pas ainda no industrializado, onde no existia cosmetologia e nem consumo, ficar bonita era um trabalho. Adicionado a esse contexto, no tnhamos dinheiro para comprar os produtos de beleza. Assim comeava o priplo. Para afinar e clarear a pele usvamos fub misturado com acar cristal e aps retir-lo com gua gelada, usar uma mscara de pepino e mel de abelha. Para os cabelos, se os queramos avermelhados, exagu-los com ch de casca de cebola roxa, ou para clare-los usar ch de camomila. Como hidratante recorria ao Ponds C de mame, que sempre acabava mais rpido do que ela planejava. Esses cuidados eram feitos semanalmente. Quem podia comprar shampo, usava o mulsifild perfumado; quem no podia se virava com o sabo de cco ou o lever. Para prender os cabelos, a cerveja branca era o indicado, armava e segurava os cachos feitos com bobs e o laqu complementava o efeito.
Lembro-me de um produto criado pelo farmacutico Aluisio Ferreira Pinto,da conceituada Farmcia Central, semelhante famosa Antisardina, era mais suave e a pele ficava linda. S que o sucesso foi to grande, que a farmcia no dava conta de manipul-lo. Dizem que Seu Aluisio se arrependeu de sua criao, pois ele no saa do laboratrio para atender demanda que aumentava a cada dia. A dermatologia cosmtica estava engatinhando, e ns nos contentvamos com o que existia. Tambm com os hormnios em dia, plenas de juventude, rugas estavam a milnios de distncia.
Como era primavera, e primavera no Brasil sempre quente, usar meias era inconcebvel. Ento recorria minha mentora a querida Tia T, que usava um produto nas pernas chamado Perlit, que dava s mesmas um tom beje rosado.
Nada melhor na vida do que esperar pelas festas. Na vspera do baile reunamos no alpendre de minha casa para fazermos as unhas. Todas tnhamos aquele estojo de manicure era o presente padro dos namorados e a expectativa para o baile nos dava aquela sensao deliciosa de plenitude...
Chegava a noite to esperada. Vestidos vaporosos, decotados, a maioria estampados, nos transformavam em cinderelas. No rosto usvamos o p compacto Angel Face, rouge royal briar, baton Van Ess, Helena Rubstein ou Michel. As sobrancelhas eram aumentadas com o lpis crayon, e os olhos amendoados com o charmoso risquinho. Clia Colares, com seu tipo eurasiano, causava inveja nas amigas com seus olhos bem maquiados. Dava o maior It. Flor de ma, Miss France, Bond Street, Whitemagnlia perfumavam o corpo e os sonhos. E l amos ns, envolvidas por uma aurola de encantamento.
Geralmente no baile de primavera, vinham orquestras de Belo Horizonte e transformavam aquelas horas num tempo mais que perfeito. Aquele momento criava um clima de desejo: olho no olho, mo na mo, a respirao suave que arrepiava todo o corpo; as confisses murmuradas ao p do ouvido, enquanto aspiravam um perfume sutil. Esses momentos jamais acabaro. uma conquista da emoo. Sempre que recordo essas encantadoras experincias vividas, me vem o pensamento consolador de que elas integram para sempre o esprito, fazem parte da essncia e ningum conseguir apag-las.
Recolho a mocinha adolescente que mora no meu corao e deu uma fugida aos anos dourados. s vezes no consigo segur-la e ela sai procura dos dias felizes e ingnuos que vivi num mundo romntico e cheio de segredos.


59514
Por Carmen Netto - 22/6/2010 01:01:09
Carta para Clia Colares

Tenho tido reencontros maravilhosos no outono da vida. Um deles foi com Clia Machado Colares. Lembro-me de Clia no internato do Colgio Imaculada Conceio, poca que sua famlia morava em Francisco S.
Desde que me aposentei e dona do meu tempo, sempre que posso, retorno a Montes Claros na companhia de Mary Pimenta e, sendo esta amicssima de Clia, nos reaproximamos. Tambm o computador nos permite trocar e-mails, enviar fotos, unir caminhos, fortalecendo nossa amizade. Sbia tecnologia!
Tnhamos combinado passar o dia 30 de Junho com voc, pois neste dia a recebemos em nossa confraria, celebrando a alegria de fazer aniversrio; no contamos nossos anos pelo tempo, mas pela felicidade de t-los vivido. Contudo, compromissos inadiveis nos impediram de estar com voc no dia 19 de Junho. Assim receba este texto como minha presena.
Quem nasce sob o signo de Cncer sempre guarda alguma coisa do passado: pedaos de amor, fragmentos de vida, retalhos de recordaes em caixas, lbuns, pastas, cadernos e gavetas, como se a memria precisasse deles para se fixar. Tenho certeza que voc fez arquivos das melhores lembranas e exorcizou os momentos mais difceis da vida.
Lembro-me de Clia, bem mocinha namorando Diu Colares exemplo de cidado, carter exemplar, pessoa solidria e bondosa - alegre, elegante, tipo de beleza extica, chamava ateno onde estivesse, transpirando vida por todos os poros.
Muito cedo, Diu se foi e a deixou frgil, dividida, com o corao sofrido. Mas como fnix, renasceu das cinzas e se fortaleceu, criando uma famlia bonita. Encaminhou os filhos, resgatou exemplos de seus ancestrais, levantou a cabea e foi luta. Sem perder a alegria, sugou o nctar da vida, deu amor e o recebeu em dobro dos filhos, netos e tambm dos amigos.
Diu continua a morar em seu corao iluminando sua caminhada. Sua fora como mulher e me a levou a transformar sonhos em realidade.
Querida Clia, neste seu aniversrio se deixe envolver de alegria, ternura, felicidade, esperana, gratido pelas bnos recebidas.
Como diz Leonardo Boff, em sua sabedoria: nascemos inteiros, mas nunca estamos prontos. Continue a abrir caminhos, rasgar novos horizontes e principalmente ser feliz! Vida longa, muita sade e paz!

Carmencita
(Carmen Netto Victria)
Junho/2010


59229
Por Carmen Netto - 11/6/2010 21:10:32
Mary Pimenta Alkmim Sobrenome Coragem

Ser mulher ... como bem definiu Cora Coralina, fazer a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores. Esse o retrato de minha amiga Mary.
Sempre fui pssima em matemtica, inclusive nem sei contar os anos, mas Mary e eu ultrapassamos a barreira do tempo, trilhamos outros caminhos, reencontramos na maturidade mais amigas, mais irms de alma e corao.
Lembro-me de uma menina super alegre, animada e sempre rodeada de amigos. A facilidade de Mary em fazer amizade era e impressionante. Conhecemo-nos na piscina da Praa de Esportes onde ela abriu caminhos para ns usando um mai duas peas que foi um sucesso! Como ela morou no Rio de Janeiro, na dcada de 50, sempre que vinha a Montes Claros lanava modas e causava at inveja nas amigas provincianas. Quando Layce Tourinho mudou para a rua So Francisco convivemos mais ainda, pois ela era vizinha de Layce e eu no saa da casa desta. Eu e Layce estudvamos no Colgio Diocesano e Mary no Colgio Imaculada onde exercia sua liderana e botou sal nas moleiras das irms. Tambm sempre nos encontrvamos nas horas danantes na residncia de Norma Costa, nas jovens tardes de domingo. O pingue-pongue no caramancho da praa de esportes, as quadras de vlei e de basquete tambm eram pontos de encontro; e Mary sempre animando o grupo. Mary convivia com todas as turmas. Em frente ao Banco do Brasil, reunia a turma do p de arroz. A minha turma reunia na escadinha do Clube Montes Claros. Nossas turmas no se entrosavam, porque achvamos as meninas do p de arroz bastante prosas, A maioria estudava em Belo Horizonte, namorava os rapazes de fora e no fazia o footing da rua 15. Mary transitava muito bem nesse ambiente, ora plebe, ora elite, mas sempre amiga.
O tempo passou, formei-me e iniciei minha vida profissional no Banco Comrcio e Indstria, casei e mudei de Montes Claros. Mary, por sua vez, com o falecimento prematuro de sua me, foi residir no Rio de Janeiro com sua irm Florinda. Em 1980 mudei-me para Belo Horizonte e reencontrei Mary que tambm havia mudado para esta cidade, e reatamos nossa amizade. E, como maravilhoso a semente adormecida brotar, florescer, renascer com a fora de uma aroeira. E, quanta afinidade emergiu: enxergar o mundo de maneira sensvel e encontrar foras para acabar com os preconceitos, s vezes at mesmo com os prprios. E, entre lgrimas e risos, dores e alegrias, viagens inesquecveis, a menina se transforma. Continua craque na cozinha ainda hoje nos presenteia com seus bombons deliciosos e se transforma na princesa da festa, mas principalmente busca o prazer de ser nica.
Mary, nesta fase que estamos vivendo, precisamos nos reinventar a cada dia. Aceitar que nem sempre temos solues para os problemas, que s vezes precisamos de colo e gostar de ser bonita, vaidosa, elogiada, ser independente, fazer o que se gosta para ser feliz!
Voc uma mulher guerreira, sobreviveu aos trancos e barrancos da vida, foi luta, mas no perdeu a doura e a dignidade, essncia do feminino. Me, av, irm, tia, amiga, acolheu o mundo dentro da alma. Mantm a casa em ordem e bem limpa, supervisiona a comida deliciosa que serve, faz compras e depois de tudo isso, viajar e viajar cada vez mais porque ningum de ferro e sonhar! Continuar sonhando, usando as armas da coragem com sensibilidade, generosidade e amor. Venceu tempestades e terremotos da vida e continua achando esta to bela, to transparente, to leve. Minha amiga: tempo no cronolgico, um tempo subjetivo, capaz de nos propiciar um xtase silencioso na eternidade Instantes mgicos de encontros de alma... Lembranas que valem a pena lembrar. A vida um reaprender a andar e recorro escritora e poeta Teresinha Melo Urbano de Carvalho para enviar esta mensagem a voc: Sou mulher da 3 idade / no vivo s do passado / Enfrento firme o presente / sem esquecer o futuro / A sabedoria me ensina / a simplificar a vida /, transform-la numa aldeia / que se chama liberdade!

Carmen Netto Victria


58099
Por Carmen Netto - 7/5/2010 16:12:23
Minas Texas


Quando estamos predispostos a lembrar, tudo nos faz lembrar. Zapeando na TV a cabo, cheguei no canal Brasil, que anunciava a mostra de produes dirigidas por Carlos Alberto Prates Correia, na faixa de 22 horas, e hoje a atrao : Minas Texas!. Como j tinha assistido Cabar Mineiro e gostei muito, achei tima a oportunidade de assistir Minas Texas.
Naquela Montes Claros distante e saudosa dos anos cinqenta, o cinema era o universo de diverso da cidade. Eram horas de puro encanto: com o prefixo do cinema iniciava-se a sesso com o complemento nacional e Traillers, e eis que o filme comeava. Dcadas tinham passado desde aquelas sesses do cine So Luis e, ento, os letreiros de filmes inesquecveis explodiram na memria e me vieram os cheiros do cinema: o leo de peroba das cadeiras, o perfume das moas e senhoras, o gosto do Chicletes Adams, das balas de hortel, da pipoca em sacos de papel de embrulho cor de rosa.
Comea o filme Minas Texas e mergulho nele. Estou fora do tempo e do espao. Identifico nas primeiras cenas, a paisagem lindssima de Diamantina l ficou um pedao do meu corao depois a paisagem dos campos e cerrados. O filme em Tecnicolor / preto e branco, em flash-back de faroestes antigos se misturava com as cenas do enredo. Eis que de repente surge o Cowboy de Janaba, todo vestido de preto, leno da mesma cor cobrindo metade do rosto, e reencontrei Charles Starret / Durango Kid o cowboy mais bonito daqueles tempos. As cenas vo acontecendo e minhas lembranas despertaram das razes e alimentei-me da seiva original. Como no filme A Rosa do Cairo, de Wood Allen, entrei na tela e encontrei-me com Antnio Rodrigues. Que ator talentoso! Alm do seu original humor, de sua capacidade para atuar, dominava a 7 arte como se estivesse estudado na Actores Studio de Nova York.
O Diretor Carlos Alberto costurou divinamente o velho Texas, com o serto norte-mineiro, atravs da voz grave e bonita de Srgio Prates. E, assim, berrante, duelos, msica, Marujos e Catops onde identifiquei Paulo Henrique Souto. Ora o silncio, ora o cri-cri dos grilos, a msica da gua do riachinho, a poeira dos caminhos. Isso faz parte das terras dos Montes Claros, terra saudade. pedao de mim. O filme retratou a magia do cinema e, eu escuto a frase do maior cinfilo de Montes Claros Manoel Quatrocentos: O La Lai Que. A Carlos Alberto foi demais! Arte isso: Comunicar aos outros nossa identidade ntima com eles. Ao assistir seu filme, eu melhor me entendi. Somos do mesmo sangue, companheiros do mesmo mundo. O filme termina com uma frase do diretor que me despertou sentimentos intensos: O Velho Texas dos meus sonhos torna-se realidade. THE END.
O cinema nos abria os olhos para o mundo, enriquecia nossos sonhos e vivamos sob o encantamento desses sonhos.
E l dos meandros da memria vi o menino sempre bem vestido, com camisa xadrez de Jrsei Valisere, cala comprida, relgio no pulso esquerdo, na porta de sua casa, na rua Pedro II, ao lado de Mercs, bab querida da famlia, que empurrava o carrinho com sua irm Maria Regina. Era o meu caminho para o Grupo Francisco S, onde acho que voc estudou e foi um aluno brilhante! Lembrei-me da Imperial, loja das melhores do meu tempo de menina-moa onde Dona Mercs, seu Correia e a querida Violeta atendiam os fregueses com a espontaneidade da convivncia onde todos se conheciam.
Carlos Alberto, Minas Texas me devolveu o universo dos filmes de faroeste, tambm os seriados e todos os filmes que assisti. O cinema uma arte completa: fotografia, msica, histria. E, hoje, passados mais de cinqenta anos, constato que os sonhos esto intactos. A menina e a mulher so uma s, apenas em tempos diferentes.

Carmen Netto Victria
Abril/2010


56378
Por Carmen Netto - 20/3/2010 13:43:02
Glasgow, Edimburgo e Inverness II


Ser que reviver experimentar mais intensamente a emoo? Penso que sim. Glasgow, Edimburgo e Inverness no fazem parte do circuito chamado Elizabeth Arden: Paris, Roma e Londres. Mas, as circunstncias me levaram a ficar um ms em Glasgow. A famlia de minha filha Jnia est residindo nesta cidade, e, como minha cabea aberta a todas as cidades do mundo, aproveitei para conhecer bem e me enfiei de cabea na cultura local. Com meu ingls do ginsio obrigada Dr. Carlyle Teixeira e D. Jane Crosland Guimares e no ter vergonha de pagar micos, l ia procura de novos conhecimentos.
Glasgow uma cidade com populao entre quinhentos a seiscentos mil habitantes. Qualidade de vida excelente. Tranqila, sem correrias, praticamente violncia zero. Um metr pequeno que facilita com incrvel rapidez os deslocamentos. A Esccia uma destas naes em que as pessoas nascem e vivem com a segurana de uma existncia digna, com escola, assistncia mdica para todos, com salrios suficientes para terem sua casa, criarem seus filhos e no temerem s intempries da velhice.
Cheguei em Dezembro, nas semanas que precedem o natal. O Centro Comercial chamado Buchannas todo iluminado, estava lindo: movimento, efervescncia, vitrines decoradas. Cafs cheios, moas em trajes de inverno, a maioria com os cabelos ruivos e anelados herana dos Celtas e ela, a neve, em flocos leves e delicados fazendo a moldura desse quadro encantador. Sempre que vejo a beleza surgindo me aproximo de Deus. Deus beleza mansa.
Nas ruas, no vai e vem de gente, a alegria das compras para o natal e a esperana de um ano novo nas faces vermelhas de frio. Eu saboreava tudo com o olhar, gostava de imaginar o que havia naquelas cabeas. S uma coisa me entristeceu. Vi um jovem mendigo, bonito, vestindo andrajos, roxo de frio com uma latinha ao lado recolhendo moedas. Ser pobre no fcil em nenhum pas do mundo.
Visitar museus, assistir concertos, bal, danas Celtas, ver as manifestaes culturais de outros lugares, rever, reler o mundo com regeneradoras mensagens, apesar da rajada de notcias mortferas. Em meio a uma arquitetura nos estilos eduardiano/georgiano, conheci a Faculdade de Medicina Saint Andrews, imponente em seus trezentos anos de existncia. Naquele momento lembrei-me de quando li Cidadela de A. J. Cronnin, onde o personagem Dr. Andrews, moo pobre, estudou com bolsa nessa faculdade. No sei como agradecer a esse escritor o presente que me deu na adolescncia, os lugares por onde me levou nessa mesma Esccia com suas histrias de encantar o corao.
Edimburgo, a Capital, fica a 45 minutos de Glasgow. A cidade parece ter sado de velhos Contos de Fadas. Numa colina, o Castelo Medieval domina a paisagem. Imenso, imponente. Muralhas, Torres, Arcos. Retrato fiel de uma poca. Ca no passado, reencontrei-me para comear. De todos os lados, mistrio e encantamento, cidade idlica. No museu da cidade, na parte de cincias naturais, encontrei-me com a ovelhinha Dolly, primeiro clone mundial feito por cientistas escoceses. Empalhada com seus olhos mansos, mostrando o avano da cincia.
Inverness a Capital das Terras Altas no Norte da Esccia. banhada pelo rio Clyde, unida por pontes romnticas e iluminadas. Temperatura no inverno de 10 a 15 graus negativos! Prximo cidade est o lago Ness, onde a lenda conta a existncia de um monstro que vive em suas guas profundas. Olho o lago Ness com olhos de magia. Vrios tons azulados e cinzentos se misturam. Pssaros se movimentam como se fossem donos do lago. Um cenrio dos mais bonitos e diferentes. Passado mais de um ms, ainda consigo recuperar pela memria dos sentidos as sensaes vividas na Esccia. O vento frio do inverno batendo no rosto, o silncio dos meus passos na neve, o gosto do vinho tinto...

Carmen Netto Victria
FEV/2010


55796
Por Carmen Netto - 5/3/2010 23:13:12
Impresses de Viagens I


O mundo est se transformando com muita rapidez por causa da globalizao e da informtica. Vivemos num mundo saturado de informaes. Viajar tornou-se um ato corriqueiro, e, cada viagem uma histria.
Nunca pensei em conhecer a Esccia, mas como a famlia da minha filha Jnia est passando uma temporada por l e a saudade apertou, me mandei para a terra dos Celtas e, na oportunidade, conhecer seus mistrios e suas lendas.
Mineiro modesto. No gosta de falar de si, tem at cisma de ser assim. No entanto gostaria de compartilhar com meus leitores uma experincia onde abri minha alma para gozar plenamente as pequenas felicidades que a vida oferece.
A Esccia no me era totalmente desconhecida, pois li todos os livros do escritor escocs A. J. Cronnin durante a juventude e, na maturidade, os livros gua com acar de Rosamund Pilchen e muitos so passados naquele pas. E l fui eu rumo ao hemisfrio norte, inverno como h muito no acontecia por l, nevascas impressionantes que fecharam aeroportos, bloquearam estradas e paralisaram o Eurostar.
Quem nunca sonhou com um natal com neve, como nos cartes de nossa infncia? Vivi a experincia de um natal branco! Fantstico!
Fiquei na Esccia um ms, tendo a oportunidade de conhecer o pas em diversos aspectos. Quando viajo, tento conhecer os costumes, a alma do povo. Alm de Glasgow, conheci Edimburgo, a capital, e, Inverness nas Terras Altas; cobertas de neve, rvores desnudas sem uma folha sequer, parecendo esculturas de cristais e nuvens. Em meio brancura, pinheiros verdes que resistem a qualquer intemprie. Temperaturas em torno de 5 a 10 graus negativos. Viver simples, a gente que complica. Olhar a neve cair viver. Molhar na neve viver e eu no sabia. Andar na neve viver.
Em Minas, as montanhas no nos permitem ficar indiferentes a elas. Na Esccia, a mesma emoo: as montanhas, os campos, os povoados cobertos de neve, no vivesse eu nos trpicos.
Como sou apaixonada por viagens de trem, pude satisfazer esse desejo viajando nos trens mais limpos e confortveis que j conheci. A neve atrapalhou os horrios britnicos, mas no os passeios; paravam em imponentes estaes, construdas no princpio do sculo XX. O Reino Unido imbatvel em ferrovias. Em Glasgow desembarquei na Central Station, arquitetura caracterstica do fim do sculo XIX e princpio do sculo XX. Um imenso relgio mostra as horas, linhas frreas de ambos os lados, ligando a Esccia s principais cidades do Reino Unido. Na sada da estao, uma esttua de um soldado com uniforme e mscara anti-gases me chama a ateno, e, na parede uma placa de bronze com o nome dos soldados escoceses mortos na 1 Guerra Mundial. O pas no deixa seu povo esquecer as tragdias que sofreu. Prxima estao ferroviria, situa-se a estao rodoviria. Moderna, confortvel e muito bonita. Harmonia entre o presente e o passado, caracterstica de povos civilizados. Em seu Hall a escultura dos meus encantos, cujo nome O Beijo. Lembram daquela fotografia tirada quando os aliados libertaram Paris na 2 Guerra, a moa francesa beija e abraa o soldado americano, dobrando o joelho e ficando na ponta do p. Tenho procurado a gravura dessa cena e nunca a achei; ao ver a escultura, meu corao bateu mais forte. Quis tirar uma foto ao lado, mas estava na hora de embarcar para Edimburgo. Fiquei triste como uma adolescente contrariada. No abandonei minhas iluses, pois quando as iluses partem a gente continua existindo, mas pode ter deixado de viver...
Continua...

Carmen Netto Victria.


52252
Por Carmen Netto - 21/11/2009 00:21:15
E o vento levou, mas a saudade resgatou...

As lembranas so fragmentrias, no entanto, as imagens evocadas so fortes, ainda que, s vezes, percam a cronologia. De qualquer forma revelam uma poca e uma maneira de viver que se extinguiram. pena que aqueles que no reconhecem a importncia das pessoas que passaram em suas vidas, viveram na mesma cidade. O futuro mais brilhante baseado num passado intensamente vivido. A vida mais as emoes, que podemos deixar, duram uma eternidade. Alguns fatos do passado ficam intactos em nossa caixa de memrias e permanecem to vivos que ainda tm os mesmos contornos, cores, cheiros, vozes e sentimentos que criamos para eles um dia.
Livre-se do passado para ser feliz... Se voc escreve reminiscncias, voc est ultrapassado, porque a palavra passado parece at pejorativa, principalmente, na sociedade imediatista em que vivemos. Mas se vivo intensamente o presente porque tenho lembranas e exemplos inesquecveis do passado. Somos resultado daqueles que vieram antes de ns. Portanto, lembr-los reviver o que nos encantou. A Psicanalista Paula ngela F. de Paula afirmou categrica: Matar o passado da ordem do impossvel. Ele est presente. Que tal uma viagem nos anos da inocncia? Recompor a geografia afetiva, histrica. As cidades s se constroem com a experincia de vida de seus moradores. Como esquecer os jardins de D. Zizinha Quadros e Lucy Veloso. Era primavera o ano todo. Repleto de flores, folhagens, trepadeiras e onde quer que elas estejam, continuam com as mos sujas de terra e molhadas de orvalho / As crnicas de Dona Yvone Silveira, com o pseudnimo de Simone na Gazeta do Norte, que encantavam as pessoas de 8 a 80 anos. / A Rua 15. Todos iam a Rua 15. Era ali que aconteciam as coisas. Modas eram lanadas, namoros iniciados, perfumes se misturando. Escutar Florinda Pires Ramos recitando a poesia Boa Noite Montes Claros do seu Tio Dr. Plnio Ribeiro era emoo pura / Slvia Veloso dos Anjos, com sua voz maravilhosa de soprano / Nivaldo Maciel, Joo Leopoldo Alves, Magnus Medeiros, Dim, Vicente Alves, Antnio Valdir, vozes privilegiadas a nos fazer sonhar e encantar com a vida / Ir ao Programa de Chico Pitomba e Man Juca na ZYD-7 com os admirveis Cndido Canela e Antnio Rodrigues / Assistir D. Dulce Sarmento tocar sua composio Neste meu Serto. Suas mos to pequenas e to geis criavam um clima de encantamento. / Sob o sol de agosto, Catops, marujos e caboclinhos alegrando as ruas da cidade e a Igrejinha do Rosrio / Encontrar pelas ruas Manoel Quatrocentos e sua elegncia, fugir de Alala com sua cara de poucos amigos e escutar Geraldo cantando o Hino Nacional. / Fazer piqueniques nas margens do Rio Vieira no Pequi, nos Morrinhos e no Rio Verde. / Passar frias na Fazenda das Quebradas, o paraso da minha infncia. Obrigada minha querida Arinha. / Fazer compras no mercado municipal, em meio aos cheiros e cores dos alimentos enfeitando as bancas. noite escutando as horas do velho relgio d mercado companheiro das noites de insnia. / Comprar biscoitos de farinha e de queijo no caf de Zim Bolo / Nadar na Praa de Esportes, assistir aos jogos de basquete e vlei e danar aos domingos pela manh na Boate da Praa. Festas juninas, fogueira, levantamento do mastro, canjica, quento, p de moleque... / Festas inesquecveis: Pessegueiros em flor na primavera de Setembro, Festa do Algodo e em 1957 a comemorao do centenrio da cidade Dr. Geraldo Athayde, Dr. Hermes de Paula Grandes nomes de nossa histria lideraram essa festa, a maior festa do passado Sculo XX. / Acompanhar a Banda de Msica, as procisses, assistir e participar das Coroaes no ms de Maio. / Ver o trem chegar e partir da estao da Central. A Maria Fumaa resfolegando, o sino batendo. /
Toda a cidade tem suas histrias escondidas nas ruas. Escrevi em pinceladas, ingnuas recordaes, a cidade acolhedora e alegre. Em cada canto um amigo, na rua 15 uma paixo, em cada rosto uma saudade. Ningum segura o tempo. E o que restou? Resta a vida, geraes se sucedem. Santo Agostinho escreveu: A sede da alma est na memria e em Montes Claros ainda est viva a alma da cidade. Mos obra!


Carmen Netto Victria


50979
Por Carmen Netto - 10/10/2009 00:27:15
Festas de Aniversrios

De momentos modestos era a vida em Montes Claros; as festas de aniversrio eram feitas em casa. Numa mesa forrada com uma toalha branca adamascada, ficava o bolo do aniversrio com as velinhas que seriam acesas para o aniversariante apagar. Ao redor do bolo, os docinhos mais deliciosos do mundo: cajuzinho, mazinha, brigadeiro, olho-de-sogra, cocadinha, balas delcia que eram enroladas em papis de seda coloridos e colocadas em cremeiras para compor a decorao da mesa. Os salgados eram empadinhas, pastis, sanduches recheados com pat ou salame, e, os quadradinhos de queijo de minas, salsicha e azeitona colocados num palito e espetados num abacaxi ou numa melancia.
Vestidas com nossas melhores roupas, feitas de organdi suo espetava a pele e sob o vestido a angua engomada completava o suplcio o sapato era o inesquecvel e lindo sapatinho Shirley, de verniz preto ou branco, acompanhado de meias treis quartos. Combinando com o vestido, no cabelo, fitas xadrez ou coloridas amarravam tranas ou simplesmente usvamos laos como enfeites.
O aniversariante recebia os presentes e era acompanhado pelos convidados para ver a abertura dos mesmos. Era uma correria! Os presentes eram colocados sobre a cama forrada com uma colcha de croch ou o cobre-leito mais bonito da casa. Geralmente comeavam tarde e terminavam no mximo s 19 horas. At a hora de apagar a vela, brincvamos de roda, anelzinho, fazamos um teatrinho com cantos e declamao de poesias. Nada de correrias, pois os vestidos que usvamos no permitiam os brinquedos de correr.
A hora do parabns era esperada com ansiedade, pois somente aps cant-lo era liberado servir os salgados e os docinhos acompanhados do guaran Champagne e das recomendaes das mes para no fazer falta de educao, avanando nos pratos, um doce de cada vez! Tudo era feito em casa, com o maior capricho e com a ajuda das vizinhas.
Quando chegava o aniversrio dos 15 anos, a famlia caprichava mais. Era como um rito de passagem. Usava-se um vestido toalete que podia ser branco ou de outras cores, desde que fosse de laise, organdi ou organza faille, considerados tecidos nobres. Usava-se pela primeira vez um sapato ou sandlia de salto alto, no mximo n 05. Lembro-me de uma festa de 15 anos inesquecvel para mim. Foi a de Maria Ins Veloso Silveira. No me recordo se as festas de 15 anos j tinham sido batizadas de bailes de debutantes. Penso que esses bailes se transferiram para o Clube Montes Claros, por iniciativa do saudoso Cronista Lazinho Pimenta.
O aniversrio de Maria Ins foi em sua residncia e para mim foi uma data mais que especial. Foi em Abril de 1956, no me lembro o dia. Tinha tirado o luto pelo falecimento de papai e estava farta, farta de usar azul marinho ou preto e branco. Minha Tia Tereza fez para mim uma saia godt azul claro, com um bolso onde aplicou papoulas coloridas e uma blusa amarela com um decote generoso e me senti a prpria Natalie Wood. Estava to feliz em poder voltar novamente para a vida!
Salgados, tortas deliciosas, doces e alm do sempre presente guaran Champagne, ponches, cuba livres, meias de seda, leite-de-ona, com doses moderadas de bebidas alcolicas. Maria Ins estava radiante de felicidade, danando a valsa com seu pai, e Dona Geralda atendendo a todos com sua simpatia e educao. Uma vitrola tocava msica americana que chegava at ns pelos filmes. Os mveis foram arredados at as paredes e uma pista era tudo que precisvamos. Ns nos aprontvamos como o figurino dos anos dourados: P Compacto da Ponds, sombra, rmel, delineador nos olhos. Batom e rouge completavam a maquiagem. O cabelo armado com laqu no saa um fio do lugar. Envolvidas pela felicidade do momento, vivendo de iluses e sonhos num mundo ingnuo, romntico e cheio de segredos, a vida era s alegria e leveza. Misturar o presente, o cotidiano e o passado me fascina. Tudo que escrevo, busco no que vivi. E, nunca me esqueci dos quinze anos de Maria Ins, porque acredito que depois da aniversariante, eu era a pessoa mais feliz da festa. Naqueles tempos, no tnhamos nada e tnhamos tudo!

Esta crnica dedicada a Maria Ins Veloso Silveira.

Carmen Netto Victria


50181
Por Carmen Netto - 16/9/2009 23:00:52
Montes Claros Tnis Clube

Quando as frias chegavam era uma festa s. Alegria por todos os lados, encontros, reencontros, horas danantes. E, no meio de tantos eventos, havia um local onde a mocidade daquela poca se encontrava: A Praa de Esportes.
O Montes Claros Tnis Clube, que de Tnis mesmo s o nome, pois apenas alguns gatos pingados freqentavam a quadra deste esporte!
O forte era a piscina onde Seu Marino e Francisco de Oliveira, o famoso Sab, ensinavam natao e de onde saram muitos campees!
Sab era ssia de um ator indiano do mesmo nome e que fazia grande sucesso em filmes que tinham como cenrio a jungle indiana.
Sab era enrgico, disciplinado, e ai de quem no fizesse a respirao e os movimentos de pernas e braos sincronizados. S liberava os alunos para brincar, aps o treinamento na raia, onde nadvamos batendo tbua.
Naquela poca havia o horrio feminino de 15h s 16h, e o masculino aps as 16h.
No se podia nadar juntos, a represso e a discriminao de longa data.
Dona Olegria, uma doura de pessoa, era a encarregada do vesturio feminino. Chegvamos esbaforidas, pois s tnhamos uma hora para nadar.
Ela nos entregava os cabides para colocar as roupas e era a pacincia e a bondade personificada.
Tratava a todos ns com muito carinho, era mesmo uma mezona.
Assim que comeava a aula, msicas das grandes bandas americanas, Glenn Miller, Benny Goodman, Tommy Dorsey, atacavam de Night and Day, I only have eyes for you, Begin the beginning, Summertime.
Sentamo-nos como a prpria Esther Williams, a maioria usando mais bem comportados, as mais corajosas pulando do trampolim e causando inveja quelas que no conseguiam faz-lo.
Por falar em mais, no se pode esquecer um fato que revolucionou o horrio feminino, o masculino e at a cidade. Naqueles idos, os mais catalina eram o must do must. De lycra, cores lindas, mas raramente apareciam por nossa Montes Claros. Quando chegavam a acontecer eram de moas visitantes, que residiam em Belo Horizonte ou no Rio de Janeiro, mesmo assim, mais de corpo inteiro e muito caros, pois o legtimo era importado. Pois no que Mary Pimenta foi passear no Rio de Janeiro e voltou com uma novidade que correu a cidade dos Morrinhos aos Santos Reis, do Roxo Verde ao Alto de So Joo. Ela comprou um mai duas peas de malha vermelha, enfeitado com listinhas brancas. Era lindo! E, o mais sensacional: eram duas peas.
Causou o maior sucesso!
E ela desfilava ao redor da piscina cheia de si, enquanto o restante de ns, morria de inveja, pois nossos mais de algodo eram feitos em casa pelas mos habilidosas de nossas mes.
No se sabe como, um comerciante, muito estimado na cidade, ficou sabendo do alvoroo causado pelo inocente mai de duas peas e levou o fato ao conhecimento de Seu Messias Pimenta de quem era muito amigo, para as devidas providncias; que alis no foram to drsticas assim, pois Mary continuou, feliz da vida, a nadar com o mai vermelho, objeto do desejo de toda adolescente da poca.
Mas uma coisa ela conseguiu: abriu as portas para que tambm todas ns, suas amigas, consegussemos convencer nossas mes de fazer mais iguais para ns.
E foi assim que o mai duas peas estreou em Montes Claros.
s 16h soava o apito e estava encerrado o horrio feminino; algumas mais afoitas desafiavam e continuavam a nadar, at que eram admoestadas pessoalmente por Sab e saam da piscina.
E a tarde continuava com o jogo de Ping-Pong onde moas e rapazes flertavam, conversavam, e onde muitos namoros comearam.
Como a vida era simples sem o consumo exagerado de hoje e, como ramos felizes com to pouco.
Hoje, aquela gerao j se dispersou; alguns morreram, outros mudaram da cidade, mas a lembrana do Montes Claros Tnis Clube est intacta, to presente, to viva quando se escuta I only have eyes for you, porque como disse a poeta maior Adlia Prado o que a memria amou fica eterno.

Carmem Netto Victria
Belo Horizonte, Junho de 2000.



49964
Por Carmen Netto - 11/9/2009 23:17:57
Reflexes do Cotidiano

Viajar algo mgico. Uma sensao do incomum, do inusitado. Um ato que desperta os sentidos e apura as emoes, uma quebra radical da rotina. Mesmo que sejam poucos dias, levamos parte de nossa vida acondicionada em malas sobre rodinhas.
Cheguei no princpio da semana de Caldas Novas. Dez entre dez mineiros conhecem esse paraso termal. S que, dessa vez hospedei-me na colnia de frias do SESC. Local melhor impossvel. A estrutura do complexo turstico, a organizao, a limpeza, o conforto, a alimentao, nada a reclamar. Quando se conhece o SESC ou o SENAC, sentimos que fazem parte do Brasil desenvolvido, do pas srio que merecemos, principalmente nesses dias que a cada hora explode um escndalo no setor pblico.
Em pleno cerrado, uma ilha verde, paisagismo digno de um Burle Marx! A beleza natural das rvores, o perfume e o colorido das plantas e flores, passarinhos em profuso. A poesia da vida, um vento de felicidade e calma me envolve, os sons da natureza me enfeitiam. um lugar para viver dias de paz, de agradecimento, aconchego, ou simplesmente ser feliz!
Andando por suas instalaes me deparo com a sala de leitura onde revistas semanais ou revistas alternativas so um convite leitura. Poltronas confortveis para ler, computadores e livros so uma tentao para sair das piscinas. Lazer e cultura, uma dupla imbatvel. Mais adiante a Biblioteca Bernardo Ellis, escritor goiano, orgulho do seu estado, que ocupou a cadeira n 1 da Academia Brasileira de Letras. Uma biblioteca um lugar sagrado, pois a leitura como o vinho e o po, embriaga e alimenta. Sempre que leio um livro, ele comea a fazer parte de mim. Nas estantes, livros da melhor literatura brasileira e estrangeira.
beira de uma das piscinas, sob uma frondosa jaqueira, estava lendo a revista poca de 10/08/09. Nela est o artigo Prosa, Poesia e Poltica. Aborda a eleio do mdico Pedro Kassab, pai do prefeito da cidade de So Paulo, Gilberto Kassab, para a Academia Paulista de Letras, sem nunca ter publicado uma obra sequer. Na A.B.L, entre os polticos de fardo, est o Coronelo do atraso, o presidente do Senado, Jos Sarney, cuja biografia poltica uma vergonha! O dito senhor escreveu 13 livros de poesia e prosa. No conheo ningum que os tenha lido, mesmo o mais conhecido, Marimbondos de Fogo, que, com certeza, deveria se chamar marimbondos da corrupo, ou os marimbondos nada sabiam. Mas, o poder inebria, o sucesso temporrio e, um dia a verdade aparece, porque essa eterna, No consigo entender como dois grandes intelectuais brasileiros, o crtico literrio Antnio Candido e o poeta Ferreira Gullar esse sim, um maranhense digno de respeito, um escritor admirvel, no conseguiram entrar para a Academia Brasileira de Letras. Mrio Quintana, um dos maiores poetas do Brasil, tentou fazer parte da Academia por duas vezes e no conseguiu ser eleito. No entanto, o Soba do Maranho, desde 1980, l est na cadeira 38. Acredito que o maior dos nossos escritores, Machado de Assis deve estar se revirando no mausleo da Academia no Cemitrio So Joo Batista, e, mesmo sendo o bruxo do Cosme Velho no conseguir reverter essa situao.
A crnica um olhar sobre a vida, s vezes uma conversa, ou s vezes um desabafo. Comecei falando da Colnia de Frias do SESC em Caldas Novas, um lugar paradisaco e termino indignada questionando a presena do Senador Jos Sarney, presidente do Senado, que no se sente culpado de nada, seus servos decretaram que nada houve. E tambm sua presena na Academia. Tomara que a ABL seja mais criteriosa em suas escolhas, que saiba separar o trigo do joio.
Como sou otimista por natureza, e num pas onde existem o SESC e o SENAC no se deve perder a esperana. Quem sabe esses microcosmos ensinem ao macrocosmo como administrar com tica, justia e responsabilidade os bens que so de todos os brasileiros


P.S. Dados retirados da reportagem Prosa, Poesia e Poltica Revista poca em 10/08/09.


47618
Por Carmen Netto - 3/7/2009 22:47:48
UMA LADY MONTES-CLARENSE

Dia 21 de Junho de 2009, com uma missa solene na capela do colgio Imaculada Conceio, inciou-se a comemorao do centenrio da grande cidad Felicidade Perptua Tupinamb. Como fui sua aluna no primeiro ano do curso de Formao de professores deste colgio, me irmanei de corao em reverenciar uma mulher que foi um exemplo para sua gerao: competente, solidria, intuitiva, tinha o dom de ouvir e cooperar.
Bem guardado est o que fica no corao e na memria como pessoas com as quais convivi e que deixaram exemplos a serem seguidos. Dona Feli, ocupa nesses espaos um lugar especial.
Sempre escrevo escutando msica. Escolhi para falar sobre Dona Feli Clair de Lune de Debussi. Essa msica ela: serena, tranqila, sonhadora. Escrever sobre Dona Feli, escrever lembranas com afeto e com carinho. Ela era difana como a lua, seus cabelos dourados como o sol do inverno e, a voz mansa como a luz das estrelas.
Dona Feli- no sei cham-la de outro jeito era nossa professora de Educao Artstica. A matria por si mesma era muito agradvel, a professora mais ainda e aprendamos com ela o famoso trip: hbitos, atitudes e habilidades. Sempre comentvamos sua classe, sua educao. ramos incapazes de um comportamento inadequado. Dizamos que Dona Feli j nasceu educada.
Ao lado de aulas enriquecedoras, eu adorava observar suas roupas sempre combinando com o sapato de salto alto, maquiada discretamente e no cabelo preso junto a nuca um lao de veludo preto ou uma presilha de tartaruga. Usava tambm um clssico colar de perolas e de vez em quando uma camlia branca. Era o que se denomina hoje, uma mulher classuda.
No sei como agradecer a essa professora o presente que me deu no limiar da juventude. Como lecionava Educao Artstica, nos levou a descobrir a essncia de um poema, de uma paisagem, de um texto literrio, de uma pintura ou de um bordado. Em suas aulas ensinava etiqueta, a arrumar um vaso com flores naturais, dava noes de decorao o belo era sempre valorizado - sem saber ns aprendamos noes de esttica, pois ela nos levava reflexo a respeito da beleza sensvel e do fenmeno artstico.
No esqueo de uma aula onde ela nos falou da luminosidade arrebatadora e do cu azul do ms de Abril, das noites frias e estreladas de Maio e dos entardeceres avermelhados de Junho. Quando estes meses chegam fao questo de vivenciar o encantamento da natureza. Graas a Dona Feli, aprendemos a ver e rever o mundo que nos cerca.
Abril de 1955. L se vo mais de cinqenta anos. Ainda consigo recuperar pela memria afetiva a sensao que experimentei no primeiro dia de aula, quando retornei ao colgio, depois do falecimento de papai e, ela deu-me um abrao to terno e profundo, que li em seu rosto o que hoje sei que se chama compaixo. Senti naquele momento, algo como um senso de cuidado, um senso de preocupao com o sofrimento e dores do outro. Aprendi que olhares e toques dizem muitas coisas.
Dona Feli, lecionou em todos os colgios da cidade; organizava festas e recepes, participava de saraus onde exercia a arte de declamar poesias. Tudo em Dona Feli era magia. Escreveu livros, ia a festas, trabalhava com o poder de se multiplicar por mil, to distinta, to leve, to bela!
Hoje sei que em Montes Claros estava tudo que ela amava.
Dona Feli foi uma dama, uma lady. Essas qualidades evocam exatamente o lado mais doce e singular de sua personalidade. Mostrou que foi uma dama, exatamente pela elegncia com que fez sua caminhada. E, sempre falou com o corao, porque tudo nela era corao!
Sua aluna agradecida

Carmen Netto Victria

Belo Horizonte, 24 de Junho de 2009



46517
Por Carmen Netto - 29/5/2009 19:42:47
PARA MINHA PROFESSORA ROSITA AQUINO

O correr da vida embrulha tudo. A vida assim: esquenta e esfria, aperta e da afrouxa , sossega e depois desinquieta. O que ela quer da gente coragem

Guimares Rosa

90 anos de vida no para qualquer um. Dona Rosita, alm de ser uma protegida pelos deuses da gentica, construiu sua vida sobre os pilares slidos de nobres valores. Ela a gentileza, a doura, discrio, a simplicidade. Sempre me passou a imagem da professora ideal, que nunca trazia um motivo de amargura, antes, tinha um jeito sutil infinitamente delicado de tratar seus alunos. Dona Rosita faz parte do time de professores que plantam as sementes e elas enrazam dentro dos alunos, porque, acreditam que as verdadeiras aprendizagens passam pelo corao! E quantas lies aprendemos pelo corao nesta vida! Ela educava muito mais do que instrua. Ao lado do conhecimento em suas aulas no estimulava a competio, no fazia comparaes, ela fazia seus alunos sentirem-se felizes. Estimulava amizade, a compaixo, a solidariedade; e, o mais importante, mostrava a beleza da simplicidade, da vida com gosto de brigadeiro, pipoca e algodo doce.
Era o ano de 1950. Numa casa antiga na esquina das ruas Pedro II com Camilo Prates funcionava o Grupo Francisco S. Estava cursando o quarto ano primrio. Minha professora, Dona Rosita Aquino, plantou na alma de uma menina sonhadora, sementes que brotaram e floresceram. Desse tempo no h como esquecer as histrias emocionantes do livro Corao de Edmund Damicis que ela lia a cada sexta-feira e, continuava nas seguintes, pois as histrias eram imensas e belssimas. Despertou-nos a sensibilidade da leitura de poesias. Lembro-me de Os tamanquinhos de Ceclia Meireles, A bola azul de Manoel Bandeira, Pssaro cativo de Olavo Bilac. A menina do grupo escolar cresceu achando que os livros so tesouros que ningum pode roubar; e, hoje a arte da poesia e aquelas histrias e poemas vivem para sempre no adulto que a menina . Outra lembrana: tnhamos dois cadernos do Dever de Casa. Dona Rosita levava-os diariamente para corrigi-los, e, era uma disputa entre ns que queramos carreg-los at a sua casa na Dr. Veloso. Nem a fome nos impedia desse comportamento, porque era uma maneira de agradecer a quem queramos tanto.
Querida Dona Rosita, quando li seu belo convite, fiquei to emocionada em fazer parte da sua vida em algum momento! Infelizmente, no pude compartilhar pessoalmente da alegria do presente que Deus lhe concedeu: 90 anos de uma vida digna e exemplar! Aqui do meu cantinho escuto em sua homenagem Aquarela do Brasil que o hino da alegria do brasileiro e, eu estou super feliz em homenagear uma professora que ajudou a construir esse pas! Aproveite o seu dia de rainha! A senhora o fez por merec-lo!
Existe ainda uma menina que me povoa. Continua alegre, amorosa, mergulhada em fantasias. Sexagenria, sonha com futuro promissor. Fazer o que... E essa menina que foi sua aluna e a quem mostrou tantos caminhos que agradecida se atreve a dar-lhe algumas sugestes. Ter o privilgio de fazer 90 anos, lhe dar o direito de ter todo o tempo para a senhora e para os que ama; jogar conversa fora com os amigos; no querer escutar os problemas com muito detalhe; fazer de contas que no ouve quando o assunto desagradvel; no escutar as declaraes da maioria corrupta dos polticos brasileiros; no cumprir formalidades nem sofrer toa; e no se assustar com mais nada.
viver como diz a letra da msica: Ando devagar porque j tive pressa.

Com gratido da aluna

Carmen Netto Victria



46141
Por Carmen Netto - 15/5/2009 20:26:13
O Livro Mgico: Tesouro da Juventude

Os tempos mudam. Hoje em dia, se sabe em segundos o que ocorre no mundo. Entre os anos 20 e 70, o Tesouro da Juventude cumpriu papel essencial na formao de geraes de brasileiros, no apenas trazendo novidades tecnolgicas, novos hbitos, novos conceitos. Esse prembulo para contar a importncia dessa coleo em minha vida. Ganhei essa coleo de minha Tia Amlia, que por sua vez a ganhou do meu pai quando estudaram na Escola Normal de Paracatu. Eram 18 volumes em capa preta, dura, da W. M. Jackson Editores, edio de 1925, ainda com a ortografia antiga, e impresso na Inglaterra. Quando menina, eles ficavam numa pequena estante da sala de visitas de Tia Amlia e eram liberados para mim e minhas amigas l-los. Eu amava a cada um daqueles maravilhosos volumes, foi a coleo de livros mais importante da minha vida! Tinha duas companheiras que tambm adoravam O Tesouro da Juventude: Marilda Versiani e Layce Tourinho. Em companhia delas, ficvamos horas lendo e usufruindo da beleza de suas ilustraes, verdadeiras obras de arte. Os volumes continham uma seqncia de temas: O Livro da Terra, O Livro da Natureza, O Livro de Nossa Vida, O Livro do Novo e do Velho Mundo, O Livro dos Por qus; os que eu mais gostava eram os livros: dos contos, os livros de poesias e belas aes e ainda o livro dos clssicos. No livro dos por qus, encontrvamos perguntas assim: Por que os relgios andam? Qual a causa das miragens? Era uma festa quando Marilda, Layce e eu comentvamos o que lamos. A primeira vez que li Alice no Pas das Maravilhas, de Lewis Caroll foi no Tesouro da Juventude. No entendi nada, acho que at hoje no consegui entender essa histria. No livro da poesia, desenvolvi meu gosto pela beleza, pela rima. No esqueo de Vov Zininha lendo para mim as poesias de Guerra Junqueiro e Castro Alves, onde com voz dramtica e teatral aumentava o encanto da poesia. As ilustraes a bico de pena, a reproduo de quadros famosos, as gravuras em cores eram de uma beleza indescritvel.
Quando Tia Amlia mudou-se para Belo Horizonte, em 1974, ela entregou-me os 18 volumes do Tesouro da Juventude. Foi como se ela me devolvesse a infncia! Nessa poca, morava em Diamantina, onde trabalhava em dois horrios e estudava noite. Sobrava pouco tempo para ler. Mesmo assim, sempre que podia, lia algum volume e o encantamento era o mesmo. Em 1980, mudei-me para Belo Horizonte. Sa de um sobrado de mais de 20 cmodos para um apartamento de 130m2. Precisava fazer uma triagem do que poderia levar. Naquele momento de mudana, preocupao de sair de uma cidade tranqila para a cidade grande, deixe para trs meu Tesouro da Juventude e doei a coleo para uma vizinha. Naquele momento, no raciocinei a besteira que fiz. Quando a vida assentou, atentei com o absurdo que cometi. Podia ter trazido a coleo, recuper-la e t-la comigo; um verdadeiro tesouro, mesmo que escrito em ortografia antiga!
Como Ins morta, e como no adianta chorar o leite derramado, fui atrs da vaca para arranjar outro leite. Campeei por todos os sebos de Belo Horizonte. No achei a coleo antiga. Contentei-me com uma do ano de 1955, em outro papel e com gravuras bem pobres. A tristeza tomou conta de mim. Naqueles 18 tesouros, aprendi a viajar por meio dos livros, eduquei minha sensibilidade e aprendi todo o conhecimento do mundo contido naquelas pginas.
Hoje, quando folheio um de seus volumes, vejo trs meninas encantadas lendo As mil e uma noites, Rapunzel, As Fbulas de Esopoe sinto uma felicidade como se o tempo no tivesse passado. L estava eu, ntima de Sherazade, do Gato de Botas e tantos outros personagens. Uma voz me chama, volto realidade. Envelheci muitas dcadas, mas continuo uma mulher feita de poesia e encantamento, graas ao Tesouro da Juventude.


45958
Por Carmen Netto - 8/5/2009 20:37:56
A sapataria de Tio Boi

Com a idade, descubro que estou cada vez mais enraizada na minha terra e tento seguir a velha sabedoria de Tolstoi Se quer ser universal canta a tua aldeia. E, o que tento tentado fazer. Montes Claros no uma cidade, um estado de esprito. uma frase feita, mas verdade.
Lendo a encantadora crnica Viagem pelas ruas de Montes Claros, de Raquel Souto Veloso, senti uma saudade boa, sem rano de saudosismo. Um ventinho inesperado soprou e trouxe aquele pedao da Rua 15 (Presidente Vargas) entre Afonso Pena e Dr. Veloso, onde nasci e vivi. A vida consegue reduzir dcadas a fragmentos, a breves insights. Quando ela se referiu a Tio Boi, na sua sapataria do tamanho de um ovo, cheia de rapazes, no resisti e pensei: tenho que escrever sobre o amigo Tio, nosso vizinho querido que chamava mame e suas irms de tia. A sapataria era um reduto masculino, um clube do Bolinha. Eu a freqentava para Tio colocar meia-sola nos meus sapatos para durarem mais seis meses, ou chamar Paulo meu irmo-, naquele tempo, Paulinho.
Pedi a Paulo para descrever como era a sapataria, o relacionamento de Tio com a meninada, quem a freqentava, etc...
A sapataria de Tio era o Templo do Futebol. Flamenguista doente, Tio Boi no admitia nenhuma crtica ao seu Time do Corao. Tinha normas severas para aquele local: no permitia palavres, orientava os meninos para estudarem. Tio Boi era o tcnico de futebol de salo do Cassimiro de Abreu, funo que exercia com a maior responsabilidade. Antes das partidas, fazia uma pr-seleo to demorada que aumentava a ansiedade dos seus pupilos. Tambm um de seus maiores orgulhos, era ter formado no Tiro de Guerra 87 com zero ponto, onde foi colega de Bonga e de Rui Mai A memria, s vezes, nos faz cometer injustias, mas lembro da meninada/rapaziada que freqentava a Sapataria Nossa Senhora de Ftima.
Dca Rocha, Fernando Gontijo, Dim Pimenta, Brulio, Lourinho, Nelson (filho de Seu Santinho), Eunilson Neguim, Antonio Carlos Dias (Tone), Felipe Gabrich, Paulinho que eles apelidaram de ces, no sei por que Dinga Pinheiro, Ronaldo Alcntara, Augusto Bala Doce, Flvio Pinto e Tak Maia. Se esqueci algum, no foi por querer.
Naquela pequena sala, ficava a banca de Tio, e ao lado bancos e tamboretes onde essa rapaziada ficava. Na parede, um quadro de Nossa Senhora de Ftima e do time do Flamengo.
De vez em quando, Tio aparecia em nossa casa, tomava seu cafezinho, e muitas vezes consertava a bucha de uma torneira, trocava um fusvel. No final do ano, vinha todo orgulhoso me contar: - Carminha, esse ano vou formar cinco: dois mdicos, dois engenheiros e um advogado. Ele sentia como se tivesse contribuindo de alguma maneira na formao desses jovens que conhecida desde adolescentes.
s vezes, na sapataria, acontecia algum fato jocoso. Tio Boi tinha uma alergia fortssima por sapos e gias. Bastava s enxerg-los para empolar imediatamente. Jos Amrico Soares (Non) era dono do Mangueirinha e mandou para ele uma caixa. Nesta caixa, uma enorme gia pulava, e Tio empolou na mesma hora e por muitos dias curtiu raiva de Non. O tempo passou. Tio Boi partiu para a Ptria Eterna; deve ter se encontrado com Dca Rocha, Fernando Gontijo, Dim Pimenta, Lourinho e, acredito que continuaram cultivando a paixo pelo futebol e por Montes Claros. A sua meninada/rapaziada seguiu caminhos diferentes, carreiras diversas, realizaram sonhos, outros no; tenho certeza que eles guardam essas lembranas permeadas de felicidade. Tio Boi, coisas simples que nos prendeu a raiz indicam: sou desse lugar, perteno a ele, por mais que tenho andado; e, ao lembrar-me de voc, na sua sapataria, minhas razes se fortalecem mais ainda.


44033
Por Carmen Netto - 6/3/2009 22:28:18
Ms, Maro, Mulher, Marias

Qual o peso que as mulheres podem suportar? Que pecados a mulher tem que expiar num mundo to hostil? Por que no existe uma Delegacia do Homem? Quantos ofcios de trevas tero que viver para encontrar a justia da igualdade?
- No consegui responder. Fui atrs de Cora Coralina, Adlia Prado, Lia Lufti, isabel Allende, La Maria Aaro Reis e Ceclia Meireles.
Fui atrs dos caminhos, das veredas, dos atalhos que essas mulheres maravilhosas descortinaram para ns. Cora Coralina definiu que ser mulher fazer a escalada da montanha da vida, removendo pedras, plantando flores e fazendo doces.
Adlia Prado me ensinou a simplicidade quando escreveu: minha me cozinhava exatamente arroz, feijo-roxinho, molho de batatinhas. Mas cantava. Ensinou-me tambm a ser desdobrvel, a fazer peixes que os maridos pescam, a morar numa casa que est sempre amanhecendo, a curtir poemas e procisses.
Isabel Allende ensinou-me sentir a maturidade como uma viagem para dentro e o comeo de uma nova forma de liberdade: poder usar sapatos confortveis, no ficar escravas de dietas radicais e nem agradar a meio mundo. Com Lia Lufti aprendi: amor aos amigos, amor casa, amor ao trabalho, a alguns projetos, amor vida simplesmente e amor a si mesma. Aprendi tambm que vivemos esmagadas por preconceitos. Um deles que a vida acaba quando se tem uma grande dor, ou deveria acabar quando chega a vez das rugas e da flacidez.
La Aaro Reis no seu livro Maturidade foi um facho de luz nos mostrando que temos a histria nas costas, para no dizer no ventre. Atravs da menopausa, a natureza diz que a mulher deve, nesse momento, ir ao encontro dela mesma.
Ceclia Meireles escreveu, referindo-se mulher: Como deixar-se cortar toda e voltar sempre inteira no seu poema Primavera.
Espero que esta colcha de retalhos dessas mulheres iluminadas, nos faam enxergar o mundo de maneira diferente e encontrar foras para continuar lutando, tentando enfrentar os preconceitos.
Costurei essa colcha de retalhos com fios de esperana, coragem, fios de cores variadas. Transformamo-nos do sexo frgil, em guerreiras que trabalham para serem independentes, que conquistam a maioria dos lugares nas faculdades, mas sempre tentando construir um mundo melhor. Mesmo com todos esses desafios somos capazes de conciliar jornadas de trabalho, sem querer ser a mulher maravilha. Procuramos levar uma vida menos estressante. Contemplar em clima mais ameno o luar que desponta dentro de ns e o arco-iris que transforma uma alma cinzenta, numa alma que se permite colorir a vida.
Temos que aprender a conviver com a revoluo dos hormnios, sermos profissionais, cuidar com carinho de nossa casa, ser arrimo de famlia, enfrentar a luta dobrada de uma me solteira, aceitar com o corao a gravidez de uma filha adolescente e tantos mais desafios que a vida nos oferece. Mesmo assim, saber por as pernas para o alto, porque ningum de ferro E sonhar, sonhar sempre. Para enriquecer nosso Oito (8) de Maro, o lindo poema O Mundo de Maria de autoria de Therezinha Mello Urbano de Carvalho, mineira de Araua.

O Mundo de Maria

Maria / Maria, que tristeza esta / liberte-se da triste poeira da vida. / envolva-se em poeira de estrelas, / escute a cano do vento, Maria, / No deixe a vida passar... / Maria, Maria, quem tudo quer, tudo perde / Corte fascas dos raios, os laos do egosmo /Tea a vida com fios de amor. / Maria, Maria, quem no arrisca, no petisca. / Coragem, enfrente a vida! / enfeite os cabelos com as fitas dos relmpagos, / dance ao som dos troves, / beba as gotas de vinho da chuva. / Faa de sua vida uma festa, / assim ser feliz. / Abra a janela da alma, / enfeite-se com gernios, / E sentir como a vida bela. / E quem Maria? Maria sou eu, / Maria voc, / aquela do outro lado do mundo... / de olhos puxados, negra, branca, amarela. / s vezes sofridas, s vezes felizes, / so todas Marias... / Forte como um galho, / flexvel como um bambu, / cheirosa como uma rosa / esperta como uma gazela. / Maria, mulher do 3 milnio! / Dcil, meiga, astuta, / profissional atuante, me presente. / Maria feminina / Maria mulher. / Absolutamente Maria!

Carmen Netto Victria
Maro/2009


43635
Por Carmen Netto - 20/2/2009 23:38:55
Retornando...

Passei semanas inteiras tentando descobrir que assunto abordar neste retorno. Foram dias e dias com a folha em branco a desafiar-me e nada conseguia. A chuva, praticamente em tempo integral, concorria para o desnimo em sair de casa. Hibernando com um urso, me postei ante a televiso e, tome noticirio! Genocdio na faixa de Gaza crianas, mulheres, velhos e jovens abatidos sem piedade. Hoje o Deus o mercado, reduzem-se os valores, fala-se demais, ama-se raramente e odeia-se com muita freqncia.
Mais forte que o massacre de Gaza, mais forte que a posse do Presidente Barack Obama, a crise econmica dos E.E.U.U, com seus tentculos, tomou conta do mundo. Como de economia s entendo que no posso gastar mais do que ganho, achei que seria um bom momento para aprender alguma coisa do economs. Cada economista expunha sua teoria sobre essa convulso que abala o mundo. Bolsa sobe, Bolsa despenca, bolha imobiliria americana arrebenta, desemprego, bancos quebram, stread que bicho isso? - ser a repetio de 1929? Quando percebi, senti-me envolvida por um pessimismo que criava um vazio mental. E, descobri que era o lamento, o choro da alma, e, a ela que precisamos dar ouvidos.
Como vivemos no pas de Alice das maravilhas, nosso dirigente maior apregoava para ns brasileiros que a crise seria apenas uma marolinha... Claro que acreditei...vivendo numa ilha da fantasia, existe no Estado de Minas Gerais um tropical Vale do Loire, onde se construiu um imenso castelo medieval, com jardins no estilo francs, financiado pelos vassalos brasileiros do nobre senhor feudal!
Um conflito entre o princpio nmero um da sociedade em que vivemos ganhar dinheiro, aceitar a corrupo e os valores que sedimentam nossa existncia tomou conta de mim. O desalento, a frustrao, a angstia paralisaram-me. Neste momento lembrei-me de uma frase de Frei Betto em que ele diz: Acolher-se ao silncio interior sempre um excelente ponto de partida. Dei-me um tempo. Continuo sendo dona e senhora da minha vida, de mim mesma que depende o futuro, a minha sade, as coisas que elegi sozinha. Da minha liberdade cuido eu!
Fui locadora e aluguei o filme Ao entardecer, indicado pro minha filha. Foi como uma aragem que levou para muito longe a frustrao, o medo de uma epidemia que faz com que a todo momento sintamos que a morte nos ronda.
O filme exalta o direito de recordar situaes do passado com delicadeza, o direito de mergulharmos em lembranas que nos reconstroem. O filme enfoca marcas que carregamos pela vida, um passado de suspiros e nem sempre de sonhos realizados. Uma forma corajosa de enfrentar a vida. Os tempos mudaram. O bem comum, a moderao, a simplicidade no so objetivos atuais. Perdemos as pequenas delicadezas do dia-a-dia: sentar para tomar um caf, escutar Caetano e Roberto Carlos cantando juntos, ver o pr-do-sol. Perdemos a magia, o encantamento, as relaes de parceria e solidariedade. A felicidade de quem se satisfaz com aquilo que tem. agradecer a Deus por tudo de bom e ruim que acontece em nossa vida. A sim, qualquer coisa que vier de bom tamanho. No se pode ser completo, ter tudo nesta vida. Em tempo: A felicidade no se compra, ou os americanos no estariam nessa. Faa do limo da crise uma limonada, mas lembre-se: viver muito mais!
Sintetizando esse momento, nada melhor que poema de Fernando Sabino:
De tudo ficaram trs coisas:
A certeza de que estamos comeando...
A certeza de que preciso continuar...
A certeza de que seremos interrompidos antes de terminar.
Portanto, devemos
Fazer da interrupo um caminho novo...
Da queda, um passo de dana...
Do medo, uma escada...
Do sonho, uma ponte...
Da procura, um encontro!

Carmen Netto Victria, Fevereiro de 2009.


41798
Por Carmen Netto - 19/12/2008 23:01:00
Natal Revisado

Mundo globalizado, tempos modernos, no entanto, a tradio do Natal sobrevive graas s razes fincadas na alma daqueles que fazem questo de celebrar o nascimento de Jesus Cristo, o comeo de novo ciclo. Ao lado da famlia, todos se unem num momento de agradecimento e f em Deus, na vida e nas pessoas
poca tambm de troca de presentes, de muita alegria e ao de graas; uma comemorao marcada pelo sentimento de paz, amor e esperana. So horas nas quais as pessoas voltam seus espritos para as coisas boas, refletem sobre tudo que viveram ao longo do ano e tendem a se mostrar mais solidrias, ajudar o prximo. So lembranas e rituais to profundos que, mesmo com a falta de respeito, o consumismo exagerado e o desprezo a determinados valores esto vivos, porque a lio do Advento quer dizer perene renovao.
A emoo que costuma invadir os coraes nesta poca do ano, nos une neste momento. Celebramos a amizade, a solidariedade, a doao que vivenciamos durante o ano, onde mos e corao criaram arte e beleza em favor do prximo.
Natal. Tempo para dar e receber, sorrir, abraar, celebrar, refletir. Tempo para renovar dentro de ns a f e a vontade de fazer juntos, do mundo em que vivemos, um lugar do bem, uma terra de irmos, porque uma criana nasceu em Belm. Faz muito tempo j, que ela nasceu.
A criana tornou-se homem e tornou-se Deus. Seus ps criaram o caminho, sua boca proferiu a verdade. Seu peito abrasou-se do amor que vida em perfeita abundncia.
O natal um momento de muita intensidade para todos ns. O apelo solidariedade e ao afeto vem acompanhado de uma espcie de exame de conscincia. Pensamos no ano que est terminando, damos uma pausa nas atribulaes do dia-a-dia e formulamos planos para o novo ano.
Vamos nascer e renascer nas velhas e novas amizades, vamos vivenciar um tempo de criar e confirmar as nossas alianas, nos dando as mos e agradecendo a oportunidade que a vida nos d de nos tornarmos melhores em nossa caminhada, pois s amealhamos riquezas nos doando. Mais importante que as luzes da cidade, a luz do Cristo em nossos coraes.
Peo emprestado ao Poeta Antnio Augusto Souto a ltima estrofe do seu poema Minha Noite de Natal que sintetiza a magia e o esprito dessa noite de amor.

Ainda terei outras
tantas noites de Natal.
A deste ano, no entanto
quero-a profundamente,
uma noite especial.
Que tenha a magia Santa
de todas as que se foram;
que represente reencontro
redescoberta... ou coisa afim.
Quero alegria crist
na alma da humanidade.
Quero esprito natalino de verdade
nos que amo
e em mim.

Carmen Netto Victria
Natal 2008


40543
Por Carmen Netto - 8/11/2008 08:09:30
Nazar Prates Vida e Trabalho Sonhos e Realizaes


Bendito fruto um olhar para o que acontece nossa volta, para pessoas que esto ao nosso lado, descobrindo perto da gente histrias de vida exemplares. Instantes que existiram h muito, ficam conservados na memria e se rompem em datas festivas.
Dia 29-10-08 um desses instantes. Neste dia, uma menina viu a luz e apresentou-se vida. Recebeu o nome de Nazar, a cidade onde nasceu e viveu a Virgem Maria. Filha de Seu Egdio Prates e Dona Catarina. Perdeu a me muito cedo e, junto com seus irmos, foram educados por Dona Pretinha, sua av, a quem chamavam de Dindinha.
O trabalho, a dignidade, a honradez eram o eixo daquela famlia lutadora. Como toda casa montesclarense, a sua vivia envolvida pelo aroma de bolos, broas, doces, compotas e, claro, pelo biscoito de farinha feito por Dona Pretinha, e eram vendidos no caf do seu irmo Zim, o point mais tradicional da cidade.
Nazar, alegre e animada, iniciou o aprendizado do mundo no trabalho, na responsabilidade. Na adolescncia, junto com sua vizinha e amiga Moema Versiani dos Anjos, viveu muitos encantamentos. Footing na Rua 15, bailes no Clube Montes Claros e dos Bancrios, filmes romnticos nos Cines So Lus e Cel. Ribeiro! Tambm a praa de esportes fez parte de sua vida.
Quando menina, ia com Moema levar, diariamente, pastis, bombinhas e doce de leite cortado tudo uma delcia que Dona Non fazia e vendia no Bar do Seu Tito, seu esposo. Moema e Nazar paravam, tiravam o papel de embrulho cor-de-rosa que cobria as bandejas e desfalcavam os doces e salgados. Chegando ao Bar do Norte, Seu Tito, com sua mansido, falava: vocs no comeram nada, tirem um pastel e um doce e podem voltar para casa. Assim que saiam do bar, era s uma gargalhada e no dia seguinte repetiam o mesmo comportamento.
A adolescncia d lugar juventude. Novas amigas, entre elas Lvia Oliveira. Juntas participam dos Clubes Volantes, Figueira, It Clube, Gardnia que faziam festas encantadoras e inesquecveis nas residncias da cidade.
Chega o momento da profissionalizao. Comea sua estrada de banqueteira fazendo cursos com Dona Aparecida Canado, D. Geraldina Maia. Com a perfeio de mos abenoadas, cria, transforma receitas em doces e salgados dignos de qualquer mesa exigente e sofisticada.
O irmo Zim casa-se com Duca Lopes e juntos ampliam o buft que recebe o nome de Duca e Nazar. E, uma fora coletiva uniu a famlia. Se completam. Surgem os sobrinhos e a nova gerao veste a camisa. Mais conquistas, mais vitrias! Administram o restaurante do Automvel Clube. Constroem a sede para recepes e dominam todas as maravilhas da culinria. Viagens aos grandes centros do Pas para reciclar e acompanhar a realidade desse novo mundo globalizado.
E o buft Duca e Nazar se torna um dos preferidos da cidade e tambm do Norte do Minas para festas de aniversrio, casamentos, batizados, ou qualquer outra comemorao.
A competncia profissional, o trabalho do dia-a-dia no fez Nazar perder nada no caminho. No deixou de curtir o que a vida tem de melhor, no abriu mo de outros investimentos.
Nazar encarna o essencial da alma montesclarense: gente que gosta de trabalhar, produzir, respeitar e ser respeitada.
Desde a primeira respirao, do primeiro choro agradeceu o dom da vida, agradecida de ter nascido numa famlia, produto de amor, solidariedade e unio.
Duca partiu muito cedo, mas seus filhos Joozinho, Catarina e ngela, junto ao Pai e Tios, mantm a chama e honram o nome de sua me, que junto ao de Nazar alcanam vos cada vez mais altos.
A vida e a festa continuam. Cercada dos irmos e sobrinhos, formam uma corrente fraterna que, junto aos amigos agradecem por sua vida. Vida de uma mulher guerreira, corajosa, vitoriosa e consciente de que tudo vale a pena quando a alma no pequena.

Parabns! Felicidades!


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Por Carmen Netto - 24/10/2008 17:10:22
Vou-me embora pr Pasrgada

Vou-me embora pr Pasrgada / Vou-me embora pr Pasrgada / Aqui eu no sou feliz / L a existncia uma aventura / ... Farei ginstica / andarei de bicicleta / montarei um burro bravo / subirei no pau-de-sebo / tomarei banhos de mar! / E quando estiver cansada / Mando chamar a Me dgua / pra me contar as histrias / Que no tempo de menina / Rosa vinha me contar / Vou embora pr Pasrgada.
O noticirio sobre a crise financeira amainou e foi substitudo pela tragdia de Santo Andr, um seqestro acompanhado de morte que traumatizou o pas; sem contar o festival de baixarias na campanha poltica. No se apresentam programas de governo e as agresses pessoais permeiam todas as falas. Para conquistar o poder, vale tudo!
Ningum se engana quando consulta o corao, porque ele sbio, no precisa ficar pensando, elaborando, raciocinando. Em meio a um mundo to insano, a esse dio e violncia que levam aos grilhes da intolerncia me perguntei: Por que no vou pr Pasrgada a procura de paz e tranquilidade? Uma vozinha l de dentro me respondeu: no se perca em metforas, pe os ps no cho e encare a realidade do momento em que vive. No dei confiana, inconformada entrei no tnel do tempo a procura do arco-iris que me levaria pr Pasrgada, aquele mundo mgico onde se vive sem medo, dorme-se sob a luz das estrelas e levanta-se com o azul das manhs.
Escuto o poeta me chamar: - Menina, o que fazes por aqui? Como chegastes? H tanto tempo ningum aparece por essas bandas! Respondo que consultei meu corao, e, como no conseguia ter paz num mundo em guerra e no querendo dramatizar a vida mais do que ela j , lembrei-me de Pasrgada e c estou. O poeta deu aquele sorriso de cumplicidade e me disse: - Fique a vontade, o tempo que quiser. Em Pasrgada tem tudo / outra civilizao.
Sento-me em um banco, sob um jasmineiro e o seu perfume transportou-me para outros tempos mais felizes. Recordar apaziguar. O ato de recordar saudvel, nos acolhe fortalecendo os laos de ternura. Naquele momento de plenitude, lembrei-me que estamos no ms de Outubro, ms que homenageia a Me Aparecida e os professores. Vieram lembrana todos que me educaram e lembrei-me especialmente de D. Lili Madureira que me alfabetizou, D. Rosita Aquino com quem conclu o primrio e D. Arlete Macedo minha alegre professora de canto orfenico. Todas vivas, saudveis, lcidas e de bem com a vida. Elas me mostraram as promessas contidas nos livros da infncia; ensinaram-me a valorizar a msica, a leitura, os valores cvicos, a tica. Elas educaram e no apenas transmitiram conhecimentos. Essas professoras tinham luz prpria, magnetizavam os alunos e nos mostraram o amanh de nossa gerao e, por isso, elas moram num lugar bem ensolarado do meu corao.
No sei quanto tempo fiquei em Pasrgada, pois estava alm do tempo e do espao. Tive a sensao de eternidade, de leveza, de que a vida uma manh luminosa de Abril. Reciclando sentimentos, reencontrei-me. Despeo-me do poeta mais leve que um vo de borboleta. Agradeo-lhe por ficar num canto secreto do seu paraso, passeando entre lagos e jardins floridos. Acalmei minha alma para enfrentar o peso desses dias.
Compartilho a dor das famlias de Elo e Nayara. Elo j est em sua Pasrgada, e o gesto solidrio de sua famlia em doar seus rgos, me devolve a f e a esperana de um mundo melhor!
Volto para casa, deixo o sol e o vento entrar e soprar o medo, a angstia, a revolta ante toda violncia que veio se acumulando nesses dias de tantas dvidas e inseguranas. E, novamente, lembrei-me do poeta.E quando eu estiver mais triste / mais triste de no ter jeito / Vou-me embora pr Pasrgada!


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Por carmen Netto - 12/9/2008 20:22:24
Cidade Magia

Dia 02.09.08, li no jornal Hoje em Dia uma crnica do timo Tio Martins, com o ttulo Alm da Festa I em que ele ressalta o privilgio de nascer em Montes Claros, ou da vontade de ter nascido ou vivido em Montes Claros. Continua escrevendo que Montes Claros surpreendente pela paixo sem limites que mobiliza pessoas nascidas naquela cidade de elevadas temperaturas tanto na rua quanto no corao do povo. A crnica fala de um encontro em novembro de uma gerao sexagenria.
Depois deste prembulo, confirmei na tarde desse mesmo dia a verdade dessas assertivas. Tomei um txi em companhia de Cida Maia e Ana Eulina, esta, agregada muito querida s meninas de Montes Claros, para irmos ao aniversrio de uma amiga. Calor de matar, umidade de clima de deserto e para completar trnsito engarrafado. Para passar o tempo comentvamos que s com a pacincia de um monge Zem budista no iramos nos estressar. O taxista, muito gentil e
educado, pediu licena e participou da conversa, dizendo que tinha passado uma semana no interior a 500 Km de Belo Horizonte e tinha regressado com a energia renovada, apto a enfrentar o trnsito catico da cidade.
Cida perguntou-lhe aonde tinha ido, e ele respondeu: Capito Enas, no norte de Minas, onde um cunhado tinha um terreno. Na volta passou em Montes Claros para matar a saudade e fazer compras no Mercado Municipal. Era natural de Montes Claros. Identificamo-nos como Montesclarenses e foi uma alegria s! Esquecemos o calor, a baixa umidade do ar e o engarrafamento do trnsito. Este se apresentou como Joo Oliveira, mora aqui em Belo Horizonte h 38 anos. Veio para educar os filhos os quais, hoje, so todos formados e bem estruturados na vida, e daqui a dois anos ir se aposentar e voltar para o seu rinco.
Naquele momento, como num passe de mgica, um fio invisvel nos uniu numa conversa animada e alegre. Acredito que o Montesclarense traz no DNA o perfume do Pequi, e desencadeia um clima que abre o corao e alma ao encontrar um dos nossos. Ele nos falou da fartura do Mercado Municipal e que trouxe tudo de bom que l encontrou: Carne de Sol, Pequi (congelado), requeijo, queijo curado, andu, farinha do Morro Alto, beiju, cachaa, marmelada de So Joo do Paraso, gelia de mocot, maxixe etc...
Cida Maia, excelente gourmet e tambm gourmand cozinha divinamente comeou a trocar receitas com nosso taxista. A conversa cada vez mais animada, o trnsito cada vez mais parado e ns cada vez mais falantes, tirando da memria afetiva os cheiros, os sabores e as cores do serto.
Naquele instante fechei os olhos e num mergulho transitei pelas ruas, algumas caladas, outras poeirentas, fiz curvas que ficaram registradas no meu ser. Montes Claros de minha infncia era uma cidade provinciana, uma cidade muito humana em que um parava o outro na rua e dizia: Passa mais tarde l em casa para um caf, se abraava e se dava as mos. A cidade cresceu, um plo irradiador do progresso, um grande centro universitrio, mas acredito que a proximidade continua atravs das geraes, dos amigos dos amigos. Mantm com orgulho sua cultura regional e cultiva a disponibilidade em tocar o outro.
Seu Joo acalenta o sonho de retornar Terra Natal. Est encantado com os novos bairros, as largas avenidas, mas tem uma reclamao a fazer: o descaso da municipalidade com a arborizao da cidade. Praas antigas viraram cimentdromos como a Praa Dr. Carlos, e est preocupado com o que vo fazer com a Praa Dr. Chaves, onde namorou e viveu ternos momentos com sua hoje esposa.
Chegamos ao nosso destino. Samos daquele txi com uma saudade danada daquela cidade sertaneja, cercada pelos Montes Claros, e daquela gente que tem uma caracterstica gastronmica peculiar e que tem como ritual realizar-se em torno de uma farta mesa. Nesta mesa, com todos os aromas e sabores da cidade, namora-se, joga-se conversa fora, fecham-se negcios, trocam-se receitas.
Uma saudade danada de uma gente chegada a serestas, poesias, festas de Agosto, lua cheia e amizade!
Um orgulho de encontros da prosa e do verso, de um sem nmero de artistas das letras da msica, das danas folclricas. Inspirao de Cyro dos Anjos, Darcy Ribeiro, Hermes de Paula, de Candido Canela e Joo Chaves.

Carmen Netto Victria
Set/2008


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Por Carmen Netto - 3/8/2008 11:36:52
Naqueles Bairros Afastados...

H muitos anos no escutava a msica Velho Realejo. Dia desses, escutei no rdio essa terna cano, e a lembrana dos bairros da minha infncia aflorou e veio como flores ao vento.
Toda cidade tem paisagens, personagens, vivncias. Recordaes, pessoas, escolhas afetivas fazem parte da cidade de cada um. Tenho minhas prprias histrias nas quais tento resgatar a memria coletiva da cidade. As paisagens de Montes Claros continuam em minha memria e deu-me vontade de escrever sobre os bairros dos meus tempos de menina.
Tempos de mudana chegaram. O corao da cidade acelerou o crescimento num rtmo vertiginoso, criou dezenas e dezenas de vrios bairros e o centro incorporou muito dos bairros antigos.
O Bairro dos Morrinhos era o mais charmoso da cidade. Na pequena colina dominada pela igrejinha construda por Dona Germana, visualizavam-se os Montes Claros e o casario da cidade. Era tambm local das serenatas em noites de lua cheia. A rua Melo Viana era a principal artria do bairro, onde ficavam o cine Ypiranga, o Crculo Operrio. Em igual importncia a rua Bonfim que levava ao Cemitrio Municipal. Nesta rua ficava tambm a Funerria de Leonel Beiro de Jesus. Eu tinha pavor quando passava por l e via aqueles caixes e urnas. E me perguntava como Leonel conseguia unir aquele comrcio indispensvel finitude da vida com a alegria exuberante de sua inesquecvel boneca danando ao som de marchas e dobrados, sob o espocar de foguetes. A linha frrea cortava a rua Melo Viana e os moradores conviviam com o apito das Marias fumaas alegrando o dia e embalando o sono noite.
No bairro Santos Reis, a maior atrao era a gruta de pedra construda ao lado da Igreja do mesmo nome pelo Sr. Pedro Mendona. Na poca do natal, as pastorinhas e a folia de reis cantavam e tocavam. Na simplicidade daquele momento, a f fortalecia em nossos coraes. A folia era composta de homens usando chapus ramezoni ou de palha, trazendo uma toalha branca sobre o pescoo, tocando rabecas e violes. Toda a cidade se dirigia ao bairro Santos Reis para os festejos do natal. Na residncia do Sr. Pedro Mendona eram servidos salgados, doces e biscoitos. O povo no dava sossego, pedindo gua, pedindo licena para usar o sanitrio e era recebido com a maior cordialidade. Como as singelezas do cotidiano faziam parte dos habitantes da cidade!
No Roxo Verde, o nome mais lindo dos bairros montesclarenses, era o reduto da famlia Pimenta. L residia o Sr. Malaquias Pimenta, Juiz de Paz que fez milhares de casamentos em Montes Claros. No dia de Santo Antnio, em frente a sua residncia, era feita uma fogueira com mais de dois metros de altura. Neste bairro foi construdo o Colgio So Jos. Dentre os vrios Montes Clarenses que se empenharam para trazer o excelente Sistema Marista de Ensino, destaco em especial o Sr. Gentil Gonzaga, cidado exemplar que muito honrou nossa cidade.
Na Malhada de Cima, havia a Igreja do Bom Jesus, onde a seis de Agosto era realizada a festa do Bom Jesus. Dona Miquita Soares Costa, av de minha amiga Lourdinha, era a zeladora e a guardi dessa Igreja. Tenho timas recordaes desse bairro. Em companhia de Lourdinha, amos quase todos os domingos para a casa de seus avs. A partir de Novembro amos chupar aquelas mangas dulcssimas, sem agrotxicos, lambuzando o rosto e escorrendo o sumo para os braos. Neste bairro foi construdo o Estdio Joo Rebelo pelo Ateneu. Maria Vasconcelos nos levava para ver os jogos. O estdio feericamente iluminado, meninos vendendo pipoca, roletes de cana, torrado e a torcida rouca de tanto gritar, s vezes at escapando um palavro. Ns no entendamos nada de futebol. Nosso objetivo era ver Miltinho e Moacir Almeida, Ubaldino Pereira, Coronel, Sidney Almeida e tantos outros gatos daquele tempo.
No Santo Expedito, a igreja do mesmo nome e a residncia do Seu Zeca Guimares eram a referncia. Na noite de So Joo, a famlia fazia fogueira, quadrilha e ia quem era convidado, e quem no era. Todos os pratos tpicos de Junho eram servidos. Nessa poca, no conhecia ainda minha querida colega Gra, mas ia de carona com Hermnia Vasconcelos e suas irms que moraram uns tempos no Santo Expedito. Do alto de So Joo, lembro o aeroporto, onde fui muitas vezes esperar parentes que vinham nas asas da PANAIR e da Nacional. Quando tive coqueluche, voei vrias vezes no Teo-Teco do Seu Maroto, pois diziam que era o nico remdio que curava essa doena.
Naqueles bairros afastados, as casas tinham jardins, alpendres e quintais. Tinham mangueiras, tamarineiros, abacateiros e tinham muitas coisas que desapareceram. Fiz uma viagem sentimental pelos bairros e ruas. Lembrei velhos moradores, desvendei a geografia, mas tambm a alma, o sabor, o jeito da cidade, j que cada um v e sente a seu modo o lugar a que pertence.

Carmen Netto Victria
Julho/2008



36320
Por Carmen Netto - 23/6/2008 18:02:25
Victor Tambm menino pescador

Telefono para o amigo Reivaldo Canela para agradecer seu livro Menino Pescador e uma vozinha infantil atende ao telefone. Digo que quero falar com o menino pescador, e a vozinha responde alegre e firme: o menino pescador sou eu! Emociono-me com o orgulho daquela criana que se identifica como Victor, neto de Reivaldo e Shirley. Conversa como gente grande e lhe pergunto se no tem medo de enfrentar as noites nas margens do Rio Verde, e ele me responde: No, estou com meu av! Neste momento, a capa do livro resume o maravilhoso e inexplicvel elo que une av e neto. As lindas fotografias da capa e contracapa mostraram-me uma cena mgica: Reivaldo/Nivaldo ensina a Victor ler a natureza, ler o mundo
Comeo a leitura comovida. Reivaldo preserva a capacidade rara de escrever com simplicidade e transforma suas narrativas em histrias do dia a dia. Alegres, saudosas, tristes, baseadas nos fatos que presenciou; suas palavras ganham sequncia que no exigem qualquer esforo de leitura. Ele converte situaes em sentimentos, profundamente emocional e tem o mrito da generosidade dos que no temem compartilhar.
Tudo comea com um fio de gua, logo so dois e trs, gua corrente, riacho, ribeiro, rio e tudo o que fica no corao e na memria transforma-se numa cachoeira e aos borbotes; lembranas, pessoas, familiares intercaladas de pura poesia prosseguem no livro e avivam a memria de quem tambm viveu aqueles tempos amenos e felizes. A Praa da Santa Casa sem calamento, o Corredor do Melo com a cerca coberta por So Caetano, a estrada poeirenta onde afundvamos o p.
Montes Claros tinha riachos, ribeires que corriam num leito de seixos, entre matas siliares, samambaias, avencas e cips. Pai Joo, Rio do Melo, Rio do Pequi, Rio Vieira... Ah! Meu Rio Vieira, que aos olhos mgicos da infncia, era imenso, correndo com suas guas verde-garrafa entre margens cheias de rvores e onde fazamos piqueniques inesquecveis. Nos dias de vero Montes Claros era vero quase o ano inteiro depois das primeiras chuvas que lavavam a poeira das rvores e recuperavam a grama, o piquenique era o melhor programa de nossas vidas: Guaran Champagne, po com o salame do Bar de Seu Tito dos Anjos, goiabada com queijo, biscoito Maria, ma envolvida naquele papel arroxeado.
Viver fazer escolhas. Reivaldo escolheu o que de melhor a vida tem. Viver junto natureza e buscar a felicidade na simplicidade das coisas. Esta grande lio, ele passa ao seu neto Victor. Valorizar o meio-ambiente, perceber detalhes, ouvir sons, sentir cheiros e sensaes.
Paixo, a gente no explica. Acontece. E, o Rio Verde Grande, o rio dos encantos uma paixo do autor. Rio Verde de uma imensido sem fim, correndo entre Jatobs e Gameleiras, tamburis e mutambeiras, piscoso oferecendo aos que o buscam alimento para o corpo, e para a alma momentos de encontro consigo mesmo. noite, dormindo sob a luz das estrelas, a claridade da lua iluminando a paisagem, o som dos insetos e no vestbulo da madrugada acordar com o barulho dos pssaros, vivendo um instante de pura liberdade em comunho com a natureza.
Temos dentro de ns um menino perdido e temos a obrigao de encontr-lo. Reivaldo/Nivaldo o fez com maestria e nos presenteou com um livro que ternura do princpio ao fim. E, como quem sai aos seus no degenera, filho que do grande poeta Montesclarense Cndido Canela nos brinda com poemas enternecedores, profundos e nos faz refletir que certos poemas valem mais que mil palavras e discursos polticos. Ele cristalizou em sua potica toda a nossa perplexidade, impotnncia e remorso diante da no preservao da natureza.

Carmen Netto Victria


35524
Por Carmen Netto - 26/5/2008 14:32:59
O Aniversrio de Genival Tourinho

Existem eventos de forte contedo emotivo. O aniversrio de Genival teve essa caracterstica. Podia ser tambm a festa do Montesclarense ausente, tal a quantidade de conterrneos presentes. A festa aconteceu no Automvel Clube de Belo Horizonte. A
beleza dos arranjos florais, a iluminao dos sales, a msica romntica do sax de Jos Eymard formaram a moldura encantadora para esse encontro que, tenho certeza, foi o encontro da amizade.
Mineiro igual caramujo, leva os costumes, os hbitos para aonde vai. Mesas fartas, bebida a vontade. Criou-se um clima onde brindava-se a vida em companhia de familiares e amigos. isso que se chama felicidade, assim que a vida deveria ser sempre...
Foi uma noite inesquecvel. Naquele momento toda uma gerao se encontrou. Conhecidos, amigos que no se viam h dezena de anos, colegas de ginsio, de faculdade. A noite encantadora transformava as pessoas presentes. Sorridentes, descontradas, peregrinando entre as mesas para brindar o reencontro. E, tudo isso, por causa do aniversrio de Genival Tourinho um Montesclarense que de peito aberto enfrentou os anos de chumbo, sem medo de ser coerente com seus ideais.
Sua atuao como poltico, no verdadeiro significado do vocbulo, se guiou por valores morais e ticos, por isto admirado e reconhecido no s nas Minas Gerais, mas em especial no sofrido Norte de Minas e tambm alm das montanhas mineiras. Como advogado sua inteligncia brilhante ganhou causas complexas e sua banca de advocacia das mais respeitadas do Estado.
Com seu imenso poder de aglutinar, de congregar, pois um homem que tem o culto da amizade, transformou aquele reencontro de amigos, num momento nico. Parecia que naquela noite, o mundo era s dos Montesclarenses e de mais ningum. Estvamos unidos porque tnhamos nascido na mesma cidade, falvamos a lngua com o mesmo sotaque, nos sentamos fraternos porque tnhamos bebido da mesma fonte e partilhado o mesmo po.
Os ciclos se completam e vamos ao encontro de mudanas, onde novos projetos nos chamam. Os anos do calendrio no contam. Contam a vida vivida intensamente, entremeada de dificuldades e realizaes, mas sempre guiada pelos sonhos e esperanas. E, voc, Genival, tem um ba pr l de bom dessas vivncias.
O menino cresceu, rodou o mundo, pensou o mundo, abriu leques de amizades. Ainda o mesmo. Precisa de sonhos e de uma arte que lhes d vida. E, dentro de voc Genival, que est aquilo que precisa para reconstruir utopias e nunca perder os sonhos.. Uma maturidade serena nos ensina a cada dia renovar a vida.
Parabns, muitos anos de vida, sade e paz. Desejo que continue a fazer da sua vida um poema longo, desses para se declamar em voz alta. Procure reencontrar seu corao adolescente e nele surpreender de volta alguma coisa conhecida como esperana.
Deus o abenoe e a sua famlia.
Carmen Netto Victria


32848
Por Carmen Netto - 7/3/2008 01:02:04
Mulheres Admirveis

Como gostaria Senhor de descobrir os mistrios da vida. Saber, por exemplo, como duas mulheres fantsticas dedicaram suas vidas em minorar o sofrimento do prximo sem nenhum limite, como se desdobraram em muitas para servir. Essa reflexo aflorou ao ver o retrato de Antnia Colares Tonha na coluna de Teodomiro Paulino do dia 21 de Maio de 2005 e, tambm, o retrato da Irm Malvina na matria Um Anjo retorna ao cu de Samuel Sousa Figueira, ambas publicadas no Jornal de Noticias.
Em questo de segundos, um retrato capaz de acordar lembranas adormecidas, e um pedao e sntese da minha vida apareceram. Essas duas mulheres fazem parte da minha histria quando do nascimento de meus filhos; uma experincia intransfervel, inexplicvel para quem no passou pela mesma.
Falar dessas duas mulheres, na semana em que se comemora em 08 de Maro o Dia Internacional da Mulher, uma questo de justia, gratido e reconhecimento por vidas dedicadas ao prximo, a minorar dores, sofrimentos; mulheres que transformaram lgrimas em sorrisos de alegria, transmitiram segurana, infundiram coragem, acolheram.
Como escreveu Teodomiro Paulino em sua coluna, Tonha trabalhou 44 anos na Santa Casa de Montes Claros, ajudou a trazer ao mundo milhares de crianas. Entre estas crianas dois dos meus trs filhos e, por isso no esqueo suas mos abenoadas, seus braos fortes que me sustentaram como se fosse um beb. Sua bondade imensurvel e seu sorriso que anestesiavam qualquer dor. Sabe Tonha, recortei seu retrato e guardei-o numa caixa onde coloco tudo de bom que me aconteceu na vida e que no quero esquecer.
Atravs da matria sobre a Irm Malvina, no Jornal de Notcias, de 16/02/2006, tomei conhecimento de seu retorno ao Pas de origem, casa materna, depois de 53 anos de um trabalho incessante na Santa Casa e do seu falecimento. Anjo bom, de serenos olhos azuis que infundiram esperana, coragem e f nas horas de fragilidade dos pacientes.
Sempre me perguntei o que faz o ser humano deixar famlia, ptria, costumes e dedicar a vida levando lenitivo, amor, compaixo ao semelhante. Suportam tudo em silncio, no mais absoluto anonimato, e agregam cruz de seus dias a cruz dos semelhantes.
Neste 08 de Maro de 2006, Dia Internacional da Mulher, reverencio Tonha e Irm Malvina pelo trabalho humanitrio realizado na Santa Casa de Montes Claros.
Ensinaram que s grande quem serve e que o maior entre ns deve servir aquele que mais necessita. Ensinaram que o que conta todo gesto de amor praticado por causa do evangelho. Ensinaram a compaixo, amor, desapego, paz, equilbrio, to diferentes de competio e acmulo de bens do mundo capitalista.
Tonha e Irm Malvina souberam enxergar o mundo com os olhos de Deus, fazem parte do Time de Gandhi, de Madre Tereza de Calcut, do Dr. Alberto Swaitzr, de Florence Nigthgale e muitos outros que so ligados pelo amor ao prximo.
Elas tm um colo no corao das mes Montes-Clarenses, das mes Norte-Mineiras. So mulheres universais, absolutas, especiais, inteiras, que dedilharam o rosrio do sacrifcio com amor e desprendimento. Nosso respeito, nossa gratido, nossa homenagem, neste 08 de Maro de 2006, Dia Internacional da Mulher.
Carmen Netto Victria
Maro de 2006


31662
Por Carmen Netto - 7/2/2008 14:22:18
Pharmcia com PH

A Farmcia de seu Mrio Velloso, na rua Camilo Prates esquina de Padre Augusto assegurava populao de Montes Claros, na primeira metade do sculo passado, um espao onde a sade da famlia montes-clarense tinha a garantia de competncia e segurana na manipulao de remdios.
Nas portas que se abriam para a rua Camilo Prates, duas figuras recebiam os fregueses: um homem em tamanho natural, cabea coberta por um chapu carregando um enorme peixe nas costas, me abalava. Era a propaganda da emulso de Scott. Aquele gosto intragvel, detestvel, era o supra-sumo do sofrimento das crianas. Para compensar, na outra porta, a figura de uma linda e saudvel moa fazia propaganda do sal de frutas ENO, carregando nos braos um cesto com uvas roxas e rosadas. Eu achava que eles eram namorados e como ela agentava aquele cheiro...
Um balco torneado em madeira de lei, verdadeira obra de arte, separava o farmacutico dos clientes. Prateleiras altas protegidas por tampos de vidros, exibiam potes, anfras em cores variadas. Ampolas, pastilhas, pomadas e ungentos preenchiam as prateleiras.
Lembro-me de nomes de remdios, fortificantes, xaropes, plulas: gua Inglesa, xaropes famel delicioso Bromil, Maravilha Curativa. Havia um lombrigueiro que, de to pavoroso, bloqueei o nome. Os calmantes gua de Flor de Laranjeira, gua de Melissa eram remdios para os nervos, para melancolia. Deviam ser os tranqilizantes e antidepressivos daqueles tempos.
A fantasia tomava conta da minha cabea quando via senhoras e moas comprando os remdios A Sade da Mulher e Regulador Xavier n 1 excesso, n 2 escassez, porque elas abaixavam o tom de voz, coravam as faces e no encaravam o vendedor. Tempos depois, decifrei o segredo...
Separando o local das vendas, uma porta mvel levava ao laboratrio. Naquele local a qumica e a alquimia se entrelaavam. Usando um jaleco de linho branco, seu Mrio Velloso atrs do balco, homem paciente, bondoso, voz pausada aviava as receitas, escutava as queixas fsicas e psquicas de seus clientes e amenizava suas angstias.
Esses detalhes afloraram porque criana nunca esquece das coisas boas, queridas, que um dia fizeram sua infncia. Essa minha intimidade com a farmcia de seu Mrio Velloso que sempre eu ia l vender os vidros de remdios vazios por um tosto a unidade. Lavav-os com gua, sabo e caroos de feijo. A fria era guardada no cofre de barro que comprava no Mercado Municipal ou era usada para comprar picol no Minas Bar. Sempre entregava os vidros no laboratrio e l para mim era um espao misterioso com seus cheiros e nomes colados em gavetas: Calomelano, Salofeno, Violeta Genciana, Sal de Glauber, Ruibarbo, Jalapa, etc... Balanas com pesos infinitamente pequenos, almofariz de loua para triturar substncias, pipetas, decantadores, gral para medir porcentagens, uma parafernlia de objetos. Tambm no laboratrio, o auxiliar da farmcia colava rtulos, prensava cpsulas, fazia curativos, aplicava injees.
Nas tarde de Sbado, o pessoal da zona rural vinha fazer consultas e comprar remdios. Amarravam os cavalos e em voz baixa contavam suas mazelas, as de suas esposas e filhos. Seu Mrio recebia-os com a maior ateno e toda pacincia do mundo, traduzindo o que diziam e medicando-os adequadamente.
No final da tarde, princpio da noite, era a vez da farmcia se transformar num clube ingls. S cavalheiros, rodas de amigos se formavam. Discutiam de um tudo. Viravam a cidade pelo avesso: poltica, notcias lidas no Correio da Manh e no Estado de Minas, quem nasceu, quem morreu, quem casou; quem viajou nos trens da Central do Brasil para a Capital, quais as damas da noite que chegaram para animar os Cabars da cidade...
Escrevo para no esquecer a memria do mundo e da cidade dos Montes Claros. E com imensa saudade e carinho que homenageio seu Mrio Velloso e todos os montes-clarenses que entraram de mansinho em nossas vidas e delas no saram nunca mais.

Carmen Netto Victria


29422
Por Carmen Netto - 7/11/2007 00:14:58
Dirio de Viagem de Duas Mineiras no Circuito Andino Final

Deixamos Bariloche para trs e iniciamos a Travessia dos Lagos Andinos. No sei se conseguirei passar para o papel o que meus olhos viram, minha mente gravou e o meu corao se emocionou. Fomos presenteadas com um dia ensolarado, cu azul e naquela luminosidade especial quase surreal, montes nevados, lagos esmeraldinos, florestas de pinheiros, um turbilho de cores e, por um instante me senti parte daquela paisagem, desapareci engolida pelo encantamento com a sensao de entrar num mundo mgico. A viagem feita em nibus e a travessia dos lagos em catamarans seguros e confortveis. Paramos em Puerto Blest, em meio a picos cobertos de neve resplandecendo luz do sol. Neste local, subimos quinhentos degraus bem disfarados para conhecer vrias quedas dgua. O bosque causa impacto, tal a beleza. Numa placa, o gnio da floresta convida a conhec-la e somos invadidas por uma reverncia natureza. A trilha rodeada por rvores de 500 a 700 anos; no final, cascatas despencam de grandes alturas.
Na travessia, conhecemos trs recifenses: Nelma, Daiane e Neide. Cultas, alegres e divertidas como os nordestinos, e nossa viagem ficou ainda mais animada. Almoamos num hotel cujo bar tem o nome de Bodega Del Fim do Mundo Patagnia. Novamente na estrada em meio Cordilheira, paisagens lindssimas se sucediam. Chegamos Aduana argentina. Um guarda bonacho carimbou o visto de sada e vi na minha frente uma personagem de Gabriel Garcia Marquez. Achou meu nome bonito, disse que era devoto da Virgem Del Carmen e desejou-me boa viagem. Entramos no Chile; tenho paixo por este pas por causa dos livros de Pablo Neruda e Isabel Allende. A paisagem ainda mais bonita, o som do espanhol no rascante e duro como o dos Argentinos, mas doce e melodioso. O Chile um pas que nos abraa, as pessoas so acolhedoras, nos envolvem e nos oferecem bons vinhos. Dormimos em um povoado chamado Peulla, onde vivem apenas cento e vinte pessoas. O Hotel Natura Patagnia maravilhoso, com suas paredes de vidro, permitindo enxergar a Cordilheira e toda paisagem ao entorno, nos induzindo a uma viagem interior. Como era 18 de Setembro, dia da independncia chilena, que eles chamam Festas Ptrias, o hotel ofereceu um vinho em honra data e um casal trajando roupas tpicas danou msicas folclricas e posou para fotos.
Samos de Peulla para atravessar o ltimo lago. Navegamos por 1 hora e 45 minutos, rodeados de montanhas e bosques. A paisagem to linda que no se consegue descrev-la, mas apenas sent-la. O vulco Ozorno, que, em linguagem Mapuche, significa - esprito das nuvens
- causa novo impacto: coberto de neve mistura-se com as nuvens, sua ltima erupo foi em 1835 e hoje dorme tranquilamente.
Na estrada que nos leva a Puerto Varas, o rio Petrohue corre paralelo e formado pelo degelo dos montes nevados na primavera. O volume de gua grande, a cor estonteantemente verde. Entramos na regio de colonizao alem, construes parecendo sair de livros infantis, campos para cavalgadas, rebanho de ovelhas, gado leiteiro. Ao entardecer chegamos em Puerto Varas, cidade beira do Lago Ilanquihue e chamada Cidade das Rosas. Neste incio de primavera, as flores comeam a desabrochar de maneira exuberante, pois sendo a terra vulcnica, as flores tm cores super intensas. tambm o incio da florao das macieiras em tons brancos rosceos e os pessegueiros em flor completam a exploso de cores que s a alma pode gravar, tal a intensidade da beleza. Conhecemos tambm a cidade de Frutilar, beira do lago e do vulco, onde se tem a sensao de eternidade.
Dia seguinte partimos para Santiago. Antes de aterrissar, novamente os Andes a proteger a cidade. beleza, emoo demais! Encantadora Santiago! Avenidas e ruas largas, limpas, arborizadas, parques e jardins, prdios imponentes. No City Tour conheci o Palcio La Moneda, onde Salvador Allende suicidou. Mais emoo, sua esttua est na praa defronte a do Presidente Eduardo Frei. Como num filme, a ditadura de Pinochet, os desaparecidos, os fuzilados no Estdio Nacional estavam ali comigo. A catedral dedicada ao apstolo Santiago e Virgem Del Carmen, para ns N, Sr do Carmo. Cerro de San Cristovam, passeios no funicular, no telefrico. Ao p do Cerro San Cristovam, a casa do poeta Pablo Neruda, La Chascona transformada em museu. Santiago uma cidade onde nos sentimos em casa. Povo bonito, civilizado e, o que mais me causou inveja: andar por suas ruas noite sem o menor medo, tal a segurana da cidade.
Conhecemos tambm as cidades de Valparaiso e Vina Del Mar. Valparaiso, cidade porturia, seduz cercada de morros, casas coloridas misturando o estilo espanhol e ingls. Misteriosa, imponente, s vezes com uma pitada de decadncia. O poeta Pablo Neruda est em cada esquina, sacada ou em sua casa La Sebastiana, mirando o mar, tomando vinho e namorando Matilde Urrutia. Vina Del mar a cidade de veraneio dos chilenos. Moderna, florida e alegre. Na Praa do Museu Fonk a escultura de um moai da Ilha de Pscoa nos lembra os mistrios daquela ilha do Pacfico. Reencontro Gabriela Mistral, numa esttua, abraando as crianas pobres chilenas, azuis de frio e no pedestal da mesma, um poema a elas dedicado.
Despeo-me do Pas. Chile dos meus amores, que nos abraa, acolhedor, cordial, e que nos oferece bons vinhos. Encontrar o novo, ampliar horizontes, descobrir pessoas sensacionais (nossas amigas de Recife). Com uma taa de vinhoCassillero del Diablo, levanto um brinde ao Chile, minha companheira desta viagem inesquecvel Alzira Figueiredo Caldeira e Ndia Fonseca da Trop Tour que organizou esta viagem para ns.


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Por Carmen Netto - 26/10/2007 23:14:40
Dirio de Viagem de duas Mineiras no Circuito Andino

O dia amanheceu bastante frio, Buenos Aires desperta e comea a se mover e, ns fazemos a mesma coisa. Ontem 13/09/2007 fomos jantar e assistir um show de tango no Senhor Tango. O local est mais sofisticado do que quando o conheci anos atrs. local para turista ver o tango estilizado. Uma orquestra com piano, violinos e bandoneons encanta a platia. No jantar sentamos com trs chilenas muito simpticas. Num portunhol nos entendemos muito bem, falamos de nossos pases, trocamos e-mails, brindamos e confraternizamos com alegria, aquele momento. O show muito bonito, mas um pouco longo. Para mim a orquestra de bandoneons valeu por tudo. Ela regida por um maestro velhinho, venerado e respeitado pelos msicos. Eles seguem um ritual antes de tocar Gardel, Piazzola, La Pera e outros mais. O show termina com uma apoteose emocionante Argentina. Os bailarinos e todos os msicos cantam No chores por mim Argentina e do teto caem papis picados azuis, brancos, prateados e tiras de pano azul e branco. No chores por mim Argentina o segundo hino de los hermanos, mas, bem trgico e triste, e eles cantam com a mo no peito e o maior orgulho. Lembrei-me de Aquarela do Brasil de Ari Barroso, nosso segundo hino. Animado, festivo, bulioso e alegre faz nosso corao disparar, mas de alegria...
Hoje dia livre, nada melhor que andar descompromissadas, descobrir museus, livrarias, envolver com a cidade para conhec-la melhor. tarde fomos lanchar no Caf Tortone, o mais tradicional e antigo de Buenos Aires. Data de 1858, com um requinte semelhante Confeitaria Colombo do Rio, e fica na Avenida de Mayo, 825. um programa imperdvel. Tivemos como companheiras as sobrinhas de Alzira, Daniela e Valria com sua filhinha Sophia. Valria casou-se com um argentino e reside h mais de dez anos em Buenos Aires. Deu-nos informaes sobre o cotidiano da cidade, tiramos fotos, falamos de Bocaiva, Montes Claros e Belo Horizonte. Comentamos como o mundo encolheu, a rapidez das viagens, a facilidade das comunicaes via internet, celulares; ao lado do Caf Tortone est o Museu do Tango, mas a falta de tempo no permitiu conhec-lo.
Amanh (14/09/2007) vamos para Bariloche na Patagnia Argentina. De avio, samos de Buenos Aires s 11 horas. Estou longe, muito longe de casa. Quando estava no Ginsio, estudando Geografia, a Patagnia era o fim do mundo. Estou a milhares de quilmetros de minha terra natal, respiro o ar frio e puro de Bariloche. Embalada pela brisa fria que abre caminho at o imenso lago Nahuel huape absorvo tudo de bom que me envolve nesse momento, como se eu fosse uma ilha cercada de beleza por todos os lados. Nosso hotel tem o nome desse lago, lindo e bem decorado; no seu entorno cafs, restaurantes e um comrcio sofisticado. Da janela do nosso quarto somos presenteadas com uma paisagem de carto postal. O lago de um azul intenso, os picos nevados, e os ltimos raios do sol, dando um colorido que s Monet conseguiria pintar. Temos uma sensao de paz, tranqilidade e solido. Samos para alugar roupas e botas prprias para neve. A temperatura est 3 graus, estamos bem agasalhadas e delicioso esse frio para quem vive nos trpicos onde praticamente no existe inverno. Deito pensando na neve que encontrarei e que sensaes terei. Amanhece. Um sol morno e desbotado surgiu por algumas horas fazendo a neve das montanhas resplandecerem Antes de chegarmos ao Cerro Catedral, paramos no Cerro Campanrio, onde em um telefrico tivemos uma vista privilegiada dos lagos, montes cobertos de neve e bosques verdejantes. Cada paisagem mais linda que outra. Em um dos mirantes a imagem de N. Sr das Graas, em outro uma cruz. O silncio, a placidez, a emoo silenciam as pessoas numa prece coletiva. Voltamos para o nibus e aps alguns quilmetros, numa curva da estrada, aparece o Cerro Catedral. A vista deslumbrante, com suas pistas de esqui, telefricos, bondinhos para subir a montanha. E, eis que comea a nevar... Nunca me imaginei sentindo a neve cair. Foi uma das experincias mais lindas da minha vida. emocionante, macio, delicado! Vivi uma paisagem de Natal. Fizemos guerra de neve com um grupo animadssimo de So Paulo, onde crianas, adultos e idosos se irmanavam numa alegria imensa de viver. Alzira e eu nos batizamos na neve, tiramos muitas fotos e fiquei quase o tempo todo sob a neve que caa silenciosa, me acariciando, ora em flocos maiores, ora menores. Bonecos de neve como nos cartes de natal, iglus, temperatura de 10 negativos. Nesse momento acordamos as menininhas que dormiam em ns e juntas fizemos todas as estripulias que merecamos. A guia nos disse que esta nevada foi um presente, pois no costume nevar com tal intensidade no ms de Setembro. Tenho certeza de que foi um presente que Deus me deu, pois realizei um dos sonhos que sempre acalentei: brincar na neve; Mineirona que sou, lembrei-me quando na infncia conheci o mar e provei sua gua para ver se era mesmo salgada. Hoje, j no outono da vida, provei a neve, brinquei e me encantei.
Domingo ser o nosso ltimo dia em Bariloche. Hoje, 18/09/2007, amanheceu bem frio, 2 negativos. Resolvemos caminhar beira do lago. Comentei com Alzira no termos visto nenhuma embarcao navegando. Depois ficamos sabendo que era para no poluir o lago. Essa proibio vlida, pois na T.P.M que vive nosso planeta, esse lago emoldurado por montanhas cobertas de neve um patrimnio a ser conservado para os que viro.depois de ns. Continuando a andar, chegamos na Igreja da Virgem Del Lago Huape. Estilo gtico, construda com pedras esverdeadas do Lago hoje proibido. Chegamos na hora da missa e comunguei em ao de graas pelo passeio maravilhoso que Deus me concedia e pedi minhas trs graas. No final, o Sacerdote reza uma Ave-Maria em inteno dos turistas, deseja boa viagem e nos abenoa. Amanh, 19/09/2007 vamos fazer a Travessia dos lagos. At o prximo domingo.


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Por Carmen Netto - 10/10/2007 06:10:52
Dirio de Viagem de duas Mineiras no Circuito Andino Recordar conseqncia bvia de qualquer viagem, mas, existem momentos que, por serem to especiais saem do campo da memria para fazer parte definitiva da vida. Um desses momentos eu ganhei de presente ao fazer o Circuito Andino com minha amiga Alzira Figueiredo Caldeira. Comeamos por Buenos Aires, depois Bariloche - Travessia dos Lagos Andinos - Santiago. Viajar algo mgico. Uma sensao do inusitado, quebra radical da rotina. Um ato que desperta sentidos e apura emoes. No fcil escrever sobre viagens sem cair em clichs. como reproduzir um conto de fada com cenrios dos livros infantis. Tentarei dividir com os leitores o dirio dessa viagem de Turismo, em que se busca a realizao de um sonho. Felicidade, essa a essncia de uma boa viagem, afinal no isso que a gente procura quando partimos carregados com uma parte de nossa vida acondicionada em malas coloridas? E, l fomos ns preparadas para fazer longas caminhadas, subidas, descidas. Conhecer outras culturas, pessoas interessantes, amplos horizontes, belos lugares e muita emoo. Iniciamos a viagem por Buenos Aires, onde chegamos s 15:30h. O vo pela Lan Chile foi timo. Avio confortvel, comissrios (as) educados e simpticos. O lanche, como sempre, comida de avio. Tnhamos uma pessoa a nos esperar no aeroporto e o caminho para o centro da cidade muito bonito, contudo alguns conjuntos habitacionais bastante antigos e decadentes destoavam da paisagem. Ficamos no Gran Hotel Argentino na Rua Carlos Pelegrino, paralela Av. 9 de Julho, quase junto ao obelisco. O prdio antigo em estilo "art-decr", com vitrais coloridos deve ser do tempo anterior a Evita e Pern. "Antigo como a S de Braga". Em suas imediaes, restaurantes, cafs e um timo comrcio. Os preos esto excelentes para comprar e a comida muito em conta. Como j conhecia Buenos Aires, achei a cidade mais triste. rvores desfolhadas pelo inverno rigoroso, pichaes nos prdios e muitos moradores de rua enfrentando o fim do inverno ainda bastante frio. A cidade muito europeisada no modo de trajar, na maioria dos prdios em estilo acadmico francs (existem ruas e avenidas que parecem que estamos em Paris) misturado ao estilo grego e ao renascimento italiano. A cidade muito plana fcil de ser conhecida e nada melhor que misturar-se ao povo para sentir sua realidade. Como est muito frio, as pessoas se vestem com roupas de inverno, capas muito elegantes, formando um conjunto harmonioso com a cidade. Nessas caminhadas, observei muitos aspectos interessantes. Um deles a conscientizao poltica do argentino. Tive a oportunidade de ver vrias reivindicaes. Uma delas, muito organizada, dos funcionrios do metr, exigindo melhores salrios e condies de trabalho seguras. Caso no conseguissem, iriam partir para a greve. Lembrei do meu pas, que vive uma crise sem precedentes no Senado, onde o Presidente, Renan - no saio - Calheiros, arrogante, prepotente e corrupto faz as suas prprias leis e ns passivamente assistimos a tudo, sem mover um dedo. Para mim, viagem oportunidade para aprimorar a minha bagagem cultural. No city-tour paramos na Plaza de Mayo, nela est a Casa Rosada e o balco onde Evita coberta de peles e jias, ao lado de Pern, num discurso populista, falavam aos descamisados. A Catedral de Buenos Aires, cpia da Igreja Madeleine de Paris, com colunas gregas e onde uma chama eterna reverencia o General Sam Martin, autor da independncia argentina. Como ele era maom a Igreja no permitiu seu sepultamento no interior da mesma. Ao tomar conhecimento desse fato, lembrei-me do meu querido e competente Prof. Pedro Sant`Ana, quando lecionou na segunda srie ginasial a "Histria da Amrica", e, nos mostrava nos fatos histricos os preconceitos, os horrores perpetrados pelos colonizadores, a matana das civilizaes pr-colombianas. O Jardim da Plaza de Mayo est muito abandonado. Bancos estragados, monumentos sujos, falhas imensas na grama, mas os lenos brancos das mes e avs da Plaza de Mayo continuam a lembrar todas as quintas-feiras, os desaparecidos e mortos de uma das mais sangrentas ditaduras da Amrica Latina. Hoje outra gerao, mas o objetivo continua mais vivo que nunca. Neste momento lembramos da nossa linda Praa da Liberdade to bem cuidada e constatamos que no valorizamos o que nosso. aquele velho ditado: "A grama do vizinho sempre mais verde". Continuando nosso giro, chegamos ao Bairro Boca com o estdio do Boca Juniors e suas construes coloridas e tpicas. O Bairro est em franca decadncia e lindas construes com forte influncia da imigrao italiana, pedem para ser reformadas, pois so verdadeiras obras de arte, como s os italianos sabem fazer. Com o dollar despencando, o turismo est em alta e "Los hermanos"sabem como aproveitar. No Caminito, casais com trajes tpicos danavam o tango, fotografavam com turistas e vendiam "souvenirs" que depois lembrariam momentos especiais. Estava muito frio e um vento gelado soprava do Rio da Prata, to largo como um mar. Recoleta, Puerto Madero, compras na Rua Florida que no mais aquela. A globalizao padronizou tudo, mas sempre agradvel olhar vitrines. Um casal danava um tango argentino ao som de um bandoneon. "Madressilvas em Flor" e depois Astor Piazzola em "Balada por um loco". A luz acendeu num poste da dcada de 20, estava na hora de voltar para o Hotel. A noite nos esperava para ver o show "Senhor Tango", espetculo para turista. Naquele instante ainda envolvida pelo som dramtico do bandoneon, reflito sobre culturas to dspares como a argentina e a brasileira. Mas isso, j outro relato. Continua... Carmen Netto Victria


27634
Por Carmen Netto - 4/9/2007 15:12:48
E a menina, que amava os catops, caboclinhos e marujos, retornou a seus pagos.


Minas / Igrejas e sinos de sons puros e cristalinos / cidades velhas, velhinhas / como boas avzinhas / contando lindas histrias. Os sons puros e cristalinos dessa estrofe do poeta Ablio Barreto, fizeram a menina lembrar do repique alegre e animado do sino da Igrejinha do Rosrio.
Agosto, o vento quente do ms trouxe at seu corao o aviso que as Festas de Agosto iam comear. Ela arrumou a mala e se mandou para a cidade que estava tambm comemorando o Sesquicentenrio e o Encontro do Montes-Clarense ausente. Como estava ainda vivendo dias cinzentos pela perda de pessoa querida, nada melhor que alegrar seus dias molhando suas razes nas guas do Rio Pacui de sua infncia, pois o Rio Vieira j no mais existe.
O mesmo Agosto, em Montes Claros, diferente. As cores, os cheiros anunciando o cio da terra, cu azul intenso o mar de Minas contrastando com o amarelo-laranja do sol, mais a alegria das Festas Tradicionais que nunca morrero.
A menina volta para receber as bnos e a proteo de Nossa Senhora do Rosrio, So Benedito e o Divino Esprito Santo e energizar-se com os ares sertanejos que a cidade cultiva e se orgulha.
Com sonhos e fantasias na cabea, encontra uma realidade diferente de onde viveu uma infncia e juventude inesquecveis. Uma cidade dinmica, universidades criando condies para todos estudarem, Conservatrio Lorenzo Fernandez apresentando um recital de msicas clssicas pela soprano Clarice Maciel, a mezzo-soprano Regina Coelho acompanhadas ao piano por Talita Peres. Concerto digno de qualquer platia exigente. No auditrio Marina Lorenzo Fernandez a menina reencontrou sua professora de msica e canto orfenico, Dona Arlete Macedo, plena de lucidez, linda no alto de seus mais de noventa anos. Seus coraes conversaram e lembraram de tantas coisas boas. A menina percebeu que a cidade ainda tem quintais com dezenas de rvores frutferas: jabuticabeiras, ps de manga, rom, abacate, carambola e goiaba. Chupou jabuticaba no p, em casa de amiga querida. Visitou o atelier de arte Renoir, onde Mrcia Prates retrata a alma da cidade em quadros, cartes e esculturas encantadoras.
Acompanhou os catops, marujos e caboclinhos pelas ruas da cidade, batizou fitas, cantou Deus vos salve Casa Santa. Viu Joaquim Pol fazer acrobacias com a bandeira dos caboclinhos, tocar a rabeca e ensinar a dois meninos-caboclinhos a cantar. Assistiu a cena emocionante dos catops e marujos reverenciarem um catop dos velhos tempos, hoje em uma cadeira de rodas, mas a vida brilhando em seus olhos lavados de lgrimas e participando com a alma daquele espetculo de f. Mestre Zanza, mesmo doente, participou muito entusiasmado da Festa de Agosto. O neto do chefe da marujada Mestre Nenzinho, falecido h pouco tempo uma criana de nove anos, estava de mos dadas com o pai, e trazia o retrato do av colado em sua roupa, dava a certeza de que as futuras geraes no deixaro as Festas de Agosto acabarem. O Padre-Catop Joo Batista fez uma reflexo sobre a globalizao e seus aspectos perversos na nossa cultura, sua influncia na famlia, desvirtuando valores, e mostrou como importante o povo preservar suas tradies.
A menina foi para ficar poucos dias, mas estava to feliz e foi ficando... O nmero 365 da Rua Tupis no Bairro do Melo hoje como se fosse a casa de sua me. Apenas trocou de endereo. Amizade solidificada no correr dos anos, irmanadas por vivncias comuns.
O dia precisava ter mais de 24 horas para atender a tantas provas de carinho e amizade. Almoos, lanches, cafs noite a dentro, reencontros inesquecveis e novas amizades.
A menina assistiu a posse do escritor e jornalista Edgar Antunes Pereira na Academia Montesclarense de Letras, numa cerimnia elegante e emocionante, dirigida pela Presidente Ivone de Oliveira Silveira, patrimnio da cultura de Montes Claros. Encantou-se com o lanamento do segundo livro Memrias do Rey edio do sesquicentenrio e tambm Ventos de Agosto. O primeiro de Reynaldo Veloso Souto e o segundo de Edgar Antunes Pereira. A cada dia, sua estante enriquecida com livros dos escritores Montes-Clarenses, que retratam as histrias, os causos, da cidade corao robusto do serto. Na Festa que Magnus Medeiros organizou no Automvel Clube, outra surpresa maravilhosa! A menina reviu sua querida professora do 4 ano primrio, Dona Rosita Aquino. Est to nova, bonita, parece que o tempo no passou. A professora e a aluna naquele momento se transferiram para a Sala do Grupo Escolar Francisco S, onde ela aprendeu valores e contedos que ajudaram a alicerar sua caminhada.
Andou invisvel pelas ruas da cidade, recomps as casas n 68 e 74 da Presidente Vargas, namorou escondido na Praa da Matriz atrs do coreto e perto de uma espirradeira cor-de-rosa forte, rosa como era a cor de seus sonhos.
A menina viveu dias de pura alegria, fotografou para os filhos e netos conhecerem as festas que alegraram na simplicidade da beleza a infncia j to distante!
Misturando passado, presente e futuro, a semente plantada pelo bandeirante Figueira no Arraial das Formigas, deu origem a uma rvore frondosa, forte, uma gameleira que acolhe, protege e seduz. Ningum melhor que Dr. Plnio Ribeiro dos Santos sintetizou em um verso o orgulho de quem nasce em Montes Claros: Ser teu filho, oh! Montes Claros ter nervos de ao, caldeados na fogueira do serto. At para o ano que vem... At para o ano que vem...

Esta crnica para: Magnus Medeiros, Paulo Narciso, Raquel Souto Chaves, Paulo Estevam, Roy Souto Chaves e Ucho Ribeiro.

Carmen Netto Victria
Agosto/2007




27423
Por Carmen Netto - 27/8/2007 16:22:49
A menina que amava os catops, marujos e caboclinhos

Agosto chega com a ventania. Na Praa do Papa a meninada solta pipas e araras coloridas. O cu de um azul profundo um mar de todas as cores.
As memrias vivas moram em ns e aparecem de repente trazendo dias da infncia. O vento traz os sons dos tambores, caixas e rabecas das Festas de Agosto. O corao errante atende o chamado do vento e pousa na cidade do Serto. A menina se v entre fitas, penas e mscaras, em meio a estandartes, azul, rosa e vermelho empunhados com f e orgulho por mos calejadas em trabalhos pesados.
Momentos da infncia relampejaram em sua mente, momentos que se transformaram na alegria de acompanhar os catops, admirar a preciso e graciosidade da Trana do Cip dos caboclinhos e a marujada exaltando os marinheiros portugueses.
A cidade ficava em polvorosa com as Festas de Agosto. No ficava ningum em casa. Quem estava triste se alegrava, quem estava com as pernas fracas se fortalecia e se dirigia para a Igreja do Rosrio. A cidadezinha montona se transformava. As pessoas que moravam nela pareciam mais felizes. O sol dava a impresso de estar mais forte e brilhante do que nunca. Nas residncias vizinhas ao largo do Rosrio, as famlias no tinham sossego. Era um tal de pedir gua, pedir licena para ir ao banheiro. A cordialidade e a confiana regiam os relacionamentos e a casa era aberta a quem necessitasse.
A Igrejinha do Rosrio era cheia de luz, cheia de graa, cheia de flores, toda clara, inundada de sol. Tudo respirava encantamento!
A menina sentada na soleira da casa esperava a passagem dos catops, marujos e caboclinhos. O encantamento maior era para os catops e suas fitas coloridas presas num capacete oco que usavam na cabea onde eram colocados tambm espelhos, contas e miangas. Todo ano a me fazia um vestido novo para a menina acompanhar os ternos de Nossa Senhora do Rosrio, So Benedito e o Divino Esprito Santo. Vestir essa roupa nova era uma compensao para amenizar a inveja e a frustrao da menina, que todo o ano sonhava em ser a rainha ou a imperatriz e nunca foi... A menina est tristonha, pois sabe que no existe a menor possibilidade de realizar esse sonho. Tenho vontade de dar colo para ela. Acredito que essa frustrao foi a primeira dor de sua infncia. O sino repica sonorizando um dia de muitas emoes. A beleza da manh faz a menina esquecer suas dores. O vento, a luz dourada de Agosto, o cu sem uma nuvem. Tudo to ntimo, to aconchegante, to lindo! Ao escutar a cantoria: Deus vos salve casa santa/ onde Deus fez a morada/ onde mora o clice bento/ e a hstia consagrada. E a hstia consagrada, a alegria retorna ao seu corao e l vai feliz da vida encontrar com suas amigas. O dia est ensolarado demais para tristezas. Vou acompanhar essa menina a um tempo que parou, quem sabe reencontrarei o corao ingnuo da infncia e nele surpreender de volta alguma coisa conhecida como esperana?
O dia d lugar a noite. Est na hora do levantamento do mastro. Um cu lindo, estrelado era a testemunha da felicidade daquele povo simples, enquanto uma brisa leve, gostosa, passava levantando os cabelos e provocando arrepios. Hoje o Mastro de So Benedito. A menina est cansada, mas, como mora perto da Igreja emenda o dia com a noite. No pode perder um segundo da festa. Mas, o que bom dura pouco. A festa acabou, at para o ano que vem. Lembro-me novamente do poeta universal: E agora/ a festa acabou/ a luz apagou/ o povo sumiu/ a noite esfriou...
Os olhos de criana da menina, aquele olhar mgico da infncia que via tudo grande, passados tantos anos, ainda consegue recuperar pela memria dos sentidos as sensaes que experimentou nas Festas de Agosto. O sol abrasador, a ventania levantando a poeira das ruas no caladas, o cheiro de algodo doce, do amendoim torrado, a pipoca vendida em sacos de papel rosa, os doces servidos nas casas dos festeiros.
O mundo est mudando to rpido, as tradies sendo derrubadas com tanta convico que ao manter as Festas de Agosto, a cidade dos Montes Claros fortalece sua alma. O Montes-Clarense tem sensibilidade: corajoso, musical, alegre e sabe poetar a vida cultivando sua cultura.


Carmen Netto Victria
Agosto de 2007.


Esta crnica (in memorian) para o historiador Hermes de Paula que no deixou as Festas de Agosto acabarem.


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Por Carmen netto - 23/7/2007 16:04:34
Lembranas com Afeto e com Acar

O legado de uma me no para ser esquecido. Rosalva Souto Barbosa e colaboradores nos presentearam com um livro encantador, comemorando o centenrio de Dona Nininha Veloso Souto. Na modstia denominaram-no como livreto o que discordo -, nestes tempos onde valores essenciais esto de pernas para o ar e tudo relativizado. A simplicidade, a pacincia, a coragem, a f e principalmente o amor permeiam todas as pginas.
A cultura mineira muito ligada Igreja, famlia, comida, mais talvez do que qualquer regio do pas. Em Doces Lembranas ela foi retratada a perfeio. Como senti saudades da casa dos meus avs, da minha me ao ler esse encantador livro. Os mesmos costumes, os mesmos valores, uma avalanche de memrias de um tempo que, hoje d para saber: era risonho e franco sem as aflies que nos cercam. Os tempos so outros, mas no custa nada lembrar que da memria das pessoas, das cidades que se constroem o respeito que elas merecem.
A famlia escreveu momentos marcantes da vida de Dona Nininha, eternizando as melhores lembranas. Rever a vida, resgatar valores fazem um grande bem. As recordaes brotam de uma nascente, pedindo para serem escritas. Com delicadeza reviveram cada momento, hoje com o corao maduro, em novos tons valorizando a alegria de tempos muito felizes. Comemoraram vivncias que fizeram parte da famlia Veloso Souto. Sabiam como ser felizes e se alegravam com poucas posses, pois tinham o mais valioso de todos os bens o amor.
Dona Nininha renasceu inteira. No rosto bonito e meigo, iluminado por dois belos olhos azuis, o sorriso, o gesto, a forma de arrumar o cabelo, o perfume que nos remete a tempos vividos, guardados em escaninhos so poesia e contemplao. A vida inteira demonstrou serenidade e equilbrio. Era a crena, a f, o entender que a vida tem caminhos insondveis. No perdia um minuto da vida, levando uma existncia de afeto, paz e trabalho. Trabalho que se materializou no requinte de forno e fogo, a casa recendia a biscoito, bolos especiais para os netos, mil quitandas. A mesa posta o dia inteiro. Devia ser renovada a cada caf da manh, almoos, caf da tarde, jantar, caf da noite, sempre cabendo quem chegasse entre, a casa sua acolhedora e amiga. E os bordados? Exmia nos bordados, ningum a superava. Na sua velha mquina Singer nasciam pontos cheios, rechilieu, sombra e muito mais, tudo confeccionado com o esmro e o requinte das grandes bordadeiras.
Minha me trabalhava um dia por semana para a Casa das pobres e Dona Nininha era sua companheira nesse voluntariado. Quem lucrou foram as minhas filhas. Dona Nininha bordava os lindos vestidos que mame confeccionava para elas. Tenho retratos dessa poca, que comprovam sua arte inigualvel.
Que bom que vocs no deixaram perder no tempo sonhos, esperanas, vivncias, cores e sabores. Os cheiros, as palavras, tm estranhos poderes evocativos. A sobremesa Lavnia servida nos aniversrios dos netos me encantou pelo nome e pretendo experiment-la, bem como as dicas de economia domstica; e uma j experimentei. Para que a cozinha fique com um delicioso perfume e acabe o cheiro de gordura, ferva um litro de gua com um punhado de cravo da ndia por 10 minutos e deixe que o ch evapore. Na ndia esse costume usado para energizar o ambiente com bons fluidos...
Poesias, pensamentos, linda ilustraes, retratos enriquecem o livro. Dona Nininha e sua fiel escudeira Regina, companheira de lutas e trabalhos, deixaram um exemplo como representantes da mulher sertaneja de bordar a cozinhar, de varrer a lavar, de criar e reciclar, de requintar, de acolher e compartilhar. Uma vida s, bonita, sagrada. E em todos esses valores, o principal foi o amor!

Carmen Netto Victria


26326
Por Carmen Netto - 13/7/2007 00:09:07
Nos tempos da rua 15...


H dias sinto uma certa nostalgia de uma certa Montes Claros. Recorro s mihas lembranas e retorno. Mas, na realidade, nunca sa de l.
Dcada de 50, poca conhecida como Anos Dourados. Msicas, filmes, modas envolvidos pelo romantismo.
Meus olhos passeiam sobre fotos amareladas, recortes da Gazeta do Norte onde Lazinho Pimenta, com elegncia e classe, retratava a sociedade montesclarense.
Resgato sonhos da juventude, ingnuas aspiraes. Um suave perfume de perdidas iluses me remetem ao footing da Rua 15. Naquela poca, j se chamava Presidente Vargas, mas para nossa gerao era a Rua 15, abreviao de 15 de novembro, em homenagem Proclamao da Repblica. Perco-me no tempo, evoco acontecimentos felizes e me vejo de braos dados com minhas amigas, andando entre os quarteires da Rua Dr. Veloso e a Praa Dr. Carlos.
Havia na Rua 15, um encanto, um charme, que nenhuma rua da cidade tinha. Era a proximidade do Cine So Lus, o Clube dos Bancrios e o aristocrtico clube Montes Claros. Tambm as melhores lojas nela se situavam com suas vitrines iluminadas. A Joalheria Pdua, que vendia as mais lindas jias da cidade, Ramos & Cia, Casa Alves, A Imperial e A Futurista, minha predileta, pois at hoje tenho mania de comprar sapato. A loteria do Sr. Donato, a residncia do Sr. Gentil Gonzaga e o Big Bar completavam o cenrio. Tambm fazia parte desse universo o prdio art-dec, onde funcionavam o tradicional jornal Gazeta do Norte e a Rdio ZYD-7.
A mocinha sentada na entrada de sua casa esperava as amigas e a lua, para o footing na Rua 15. Devia ser cheia naquele dia, iluminando com sua luz prateada nossos sonhos dourados... Sonhos que estouravam como bolhas ao vento, to reais para ns que acreditvamos neles com paixo.
Era um grande programa arrumar-se para a noite. Anguas engomadas servindo de suporte para saias gods, cintura de vespa, decotes canoa recatados sobre soutiens acolchoados, para imitarmos Silvana Mangano, Gina Lolobrigida, Sofia Loren, deusas do cinema italiano. Os modelos eram copiados da revista americana Lana Lobel e eram lindos! Tambm copivamos os modelos das Garotas do Alceu na revista O Cruzeiro, mais adequados nossa cultura tropical.
Os rapazes de terno e gravata, principalmente aos sbados, se postavam nos passeios.
A Rua 15 era a passarela, onde desfilvamos de braos dados, perfumadas com Flor de Ma de Helena Rubinstein, Bond Street da Yardley ou Miss France da Atkinssons. Eram os nossos perfumes prediletos.
Olhares, sorrisos, flertes, coraes disparados, namorados ternos e eternos!
Muitos namoros aconteceram, evoluram para noivados e casamentos. Havia uma sensao de sermos donas do mundo, apesar do horrio rigoroso de voltarmos para casa s 21 horas.
Prximo Rua 15, na Rua Simeo Ribeiro, ficava o Cine So Lus. Era a poca urea do cinema. A sala de exibio, na minha cabea, era um requinte. Cortinas de veludo, e depois da reforma, estampadas, cadeiras acolchoadas, msica romntica, tapetes. O pblico vestia-se elegantemente para ir ao cinema.
Apagavam-se as luzes, instalava-se o clima de magia, e ao menor toque das mos, o calafrio, o corao disparado, algum beijo furtivo... Momentos inesquecveis, havia emoo em tudo! Filmes como Suplcio de uma saudade, A um passo da eternidade, A princesa e o plebeu fizeram minha gerao se emocionar.
Quando assisti ao maravilhoso filme Cinema Paradiso em 1990, o Cine So Lus se tornou meu Cinema Paradiso onde reencontrei, emocionada, meus sonhos de menina-moa.
Aos sbados ou domingos, tnhamos o direito de chegar em casa mais tarde. Aps o footing amos danar no Clube Montes Claros embaladas pelas msicas dos filmes. Blues, mambos, rumbas, boleros, sambas-canes. Bossa Nova comeando, Glenn Miller e Tommy Dorsey... ramos muito simples e provincianas, mas ramos felizes!
J no encontro a paisagem do passado, nem as pessoas que enriqueceram minha infncia e adolescncia. A mudana veio chegando como quem no quer nada, levando para longe pessoas, coisas e lembranas.
A Rua 15 encolheu, lojas fecharam ou mudaram de endereo. O Cine So Lus fechou, o aristocrtico Clube Montes Claros, onde vivemos bailes inesquecveis, deu lugar ao conservatrio Estadual Lorenzo Fernandez, orgulho da cidade.
Mas a vida, o tempo passa. Menos no meu corao que no envelheceu. Nele guardo sonhos, lembranas, esperanas que resgato com emoo, quando necessito.
Busco o tempo que no me parece perdido pois como escreveu Lygia Fagundes Teles: ... Na juventude s sentimento, qualquer emoo e os olhos se enchem de gua.

Carmen Netto Victria
Dia dos namorados


25986
Por Carmen Netto - 2/7/2007 14:42:49
Parabns Montes Claros Declarao de amor a Montes Claros


Levamos a terra nos ombros, como uma corcova... cheiros, vento, lembranas....
(um escritor portugus)



Os desenraizados so pessoas divididas. O cordo umbilical que me prende a Montes Claros nunca se rompeu, minhas razes so fortes e profundas. Sou Montes-clarense e sertaneja. Forjei minha alma na solido e na seca do serto. Toda vez que retorno a Montes Claros, minha identidade sertaneja aflora, eu e ela nos completamos.
Minha memria registra todas aquelas pequenas sensaes, sons, luzes, cheiros que me impregnaram...
Sa de Montes Claros h 46 anos, mas a cidade nunca saiu de mim. Ela est sempre presente nas minhas lembranas. Uma lembrana de entrar e sair de casas, dos quintais, de correr nas ruas poeirentas, de brincar na enxurrada na poca das chuvas.Escutar o apito da Fbrica de Tecidos Santa Helena, ter como companheiro as badaladas do velho relgio do mercado municipal nas noites de insnia.
Lembranas do caf da manh, o po quente com manteiga, a sirene das escolas, os sinos das igrejas, o cu azul do nosso inverno entrando casa adentro. Tanta coisa encantadora que esta terra nos doou.
Os Montes Claros confirmam o seu nome. Claros igual a outro lugar no h. Montes Claros do Norte de Minas, a capital. Basta conhec-la para am-la. Uma mistura de Minas e Nordeste. Uma Minas mais aberta, mais alegre, mas ainda assim Minas com seus mistrios e com a sntese dos jeitos mineiros de ser.
Rubem Alves escreveu. Tudo que a gente ama deseja que permanea para sempre. Assim permanece a minha Montes Claros. Guardo dela na memria lembranas de um colo de me, uma saudade doce.
Saudade do velho Mercado Municipal com aromas se misturando, cheiro de pequi, fragrncia adocicada de caj-manga, coentro, mexerica, queijo, rapadura, todos os cheiros do serto.
Hoje uma Montes Claros to diferente da minha infncia mas ainda conservando sua essncia na alma do povo.
No mago saudades... misturam-se lembranas queridas e um sentimento de adeus...
O crescimento das cidades bem-vindo e necessrio. Para que acontea de forma honesta e inteligente preciso mais que edifcios.
A construo do verdadeiro progresso, no nega o passado, no o exclui, mas valoriza as geraes que o fizeram.
Montes Claros: voc minha referncia e meu orgulho, voc todo um cho para mim.Voc tudo!


24188
Por Carmen Netto - 30/5/2007 22:08:25
Caleidoscpio de uma cidade
O vazio sempre foi minha preocupao constante;
e eu considero que, no corao do vazio como no
corao do homem, as chamas ardem. (Yves Kleim)


Escrevo o que transborda do corao. Recebi de minha amiga Mary Pimenta, um e-mail emocionante sobre os anos 50/60. Imediatamente senti uma vontade, irreprimvel de escrever, apesar do adiantado da hora. Plena madrugada, silncio. S a chuva mida lavando a saudade.
No interior, a vida corria menos depressa. As relaes eram mais prximas. A convivncia direta entre as pessoas acontecia em toda Montes Claros. A vida era subir Presidente Vargas e Dr. Santos, descer Camilo Prates e Dr. Veloso em direo a Praa Dr. Chaves. Cercando a cidade os Montes Claros. Morenos na seca e verdes nas guas, envolvidos pelo cu mais azul que j vi.
A Rua Presidente Vargas era o point da cidade. Em suas imediaes o Cine So Luiz, o caf de Zim Bolo guardando as devidas propores- to importante para a cidade como o caf De Flore para Paris. As melhores lojas, a loteria de Seu Donato Quintino, o prdio da ZYD7. Um casaro destacava em suas imediaes: o Mercado Municipal, com seu relgio marcando as horas dos montes-clarenses. No bar de Zim Bolo, conversava-se Tete a Tete de um tudo. L, as idias efervesciam. Debatia-se poltica, intelectuais discutiam as novas correntes filosficas, o povo discutia futebol, filmes eram comentados. Seu Santinho Amorim, cinfilo de carteirinha, era um crtico singular. Comentavam com ele: - Que filmo, hein Santinho? Ele respondia: - Supimpa! Outro aproximava e dizia: - Que filme pssimo! Ele respondia: - Podre! E tomava o caminho de casa, rindo baixinho...
Todos se conheciam, trocavam impresses, expressavam pontos-de-vista sobre tudo quanto havia de mais intenso na cidade e no mundo. Uma sensao unnime tambm paira sobre aqueles que viveram a Montes Claros dos anos 50/60. Festas nos clubes sociais, horas danantes em casas de famlias, piqueniques nas fazendas. E a Praa de Esportes? Local onde grandes desportistas se destacaram na natao, no vlei, no basquete. Aconteciam os campeonatos do interior. Torcidas organizadas, a rivalidade entre Montes Claros e Diamantina. Nossos atletas, sendo respeitados no Estado. Como esquecer as cortadas de Zembla Melo, Marlene Almeida, Moema Versiani, Luci Paraba. Elas viravam qualquer jogo, junto com as levantadoras Luci Almeida, Glria Bogatzki, Vilma Gonalves, Teresinha Fres que, sob a batuta de Seu Pimenta elevaram o nome de nosso burgo. Outra sensao unnime tambm paira sobre aqueles tempos. Parece que as horas passavam mais devagar e tnhamos condio de ler mais, comentar os filmescabea. Estvamos sempre em busca de algo que ns mesmas no sabamos o que era. Participvamos do movimento estudantil, fazamos cadernos de poesia, de recordaes, de receitas, antevendo o casamento, sonho da maioria...
No Diretrio Central dos Estudantes, sob a presidncia de Vanderlino Arruda, germinavam sementes que nos tiravam da alienao e nos tornavam mais conscientes do nosso papel na comunidade.
Os eventos mais comentados da poca eram o baile do suter, onde se elegia a Miss Suter, a rainha dos estudantes, a rainha e as princesas do Tiro de Guerra 87. A rainha do Algodo e a rainha do Centenrio, cuja escolha recaiu sobre Maria Lusa Veloso Costa (Bisa), uma das moas mais bonitas da cidade, hoje, j encantada.
Mas a grande pedida, era danar nos clubes sociais, onde a paquera rolava solta. Se sobrava algum dinheiro, cotizava-se e amos comer um churrasco delicioso no Mangueirinha, ao som de Matinata, Torna a Sorriento, Volare, Only You. Era uma gerao ingnua. Tudo era emoo, sonho e iluso, apesar de sentir no ar as primeiras aragens do movimento feminista.
Lia-se na Gazeta do Norte, as encantadoras crnicas de D. Ivone Silveira sob o pseudnimo de Simone. O Jornal de Montes Claros celeiro de grandes jornalistas iniciando sua trajetria de grande tiragem e credibilidade. Tu Peixoto escrevendo sobre a sociedade numa seo chamada Notas Sociais. Lazinho Pimenta, na Gazeta do Norte, depois no Jornal de Montes Claros, retratava a sociedade num estilo a la Jacinto de Thormes. Descrevia com classe e tica os eventos sociais da poca. Era uma coluna democrtica! Nela havia espao para todos os estamentos sociais, desde que fossem importantes para a cidade.
Naqueles tempos as moas freqentavam os estdios. Os embates entre o Joo Rebelo, depois Ateneu e o Cassimiro de Abreu movimentavam as tardes de domingo. Lembro-me da inaugurao do Estdio Joo Rebelo. Foi o maior sucesso! O Fluminense do Rio de Janeiro veio para jogar com o Ateneu. noite os jogadores foram passear na Rua 15. Foi a maior tietagem. Tel, o mais bonito e charmoso, Castilho, o goleiro de sobrancelhas fechadas, Pndaro, o mais simptico e educado, Pinheiro e outros que no lembro.
Nos anos 50/60, artistas da Rdio Nacional vinham apresentar-se em nossos palcos e clubes. Dalva de Oliveira divina Dalva Cauby Peixoto, que enlouquecia a platia cantando Conceio, Emilinha Borba, Virgnia Lane e suas vedetes, Baden Powell, Esther de Abreu, ngela Maria, Lus Gonzaga. Todos recebidos com Pompa e circunstncia.
Em clima de Carlos Drummond de Andrade, me pergunto: E agora, Carmen?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Para onde voc vai?
No silncio da madrugada, a chuva mida acalmou a saudade, o vazio, a ausncia da terra natal. A tentativa de retornar ao passado, juventude perdida, lembra outro verso. Quer voltar sua Montes Claros? A sua Montes Claros no existe mais. Eu teimo e digo que existe. E a reencontro na memria, na escrita e ganho fora para viver bem o meu hoje, o meu agora. Refiz roteiros, no esmoreo. Meu caleidoscpio de imagens est ao meu alcance a hora que quero. Carmen Netto Victria


Esta crnica dedicada Zilca Prates Tolentino e Carlos Meira.


23865
Por Carmen Netto - 18/5/2007 15:59:13
O Casamento de Lucizinha e Dedeto Prates

Tem dias que levanto com uma vontade imensa de recuperar memrias perdidas. Sinto que o que est mais distante, ao mesmo tempo, est mais prximo.
(Com licena de Rubem Alves)
Maio chegou neste 2007 com seus dias claros e luminosos. O cu de um azul total, sem uma nuvem. Noites mais frescas, um friozinho gostoso.
Os ventos que descem da Serra do Curral me levam at a Fazenda das Quebradas em Montes Claros, onde, no dia 30 de maio de 1959, aconteceu o casamento de Lucizinha e Dedeto.
Nossa vida feita de coisas passageiras; a gente precisa reviver na medida do possvel momentos que nos sensibilizaram intensamente. Gosto de recordar esses instantes que me emocionaram ao longo do caminho.
A beleza de certos momentos vividos se eterniza, e so eles que do encantamento vida. O casamento de Lucizinha e Dedeto se eternizou em minha memria, porque se revestiu de um encanto nico.
Eu tinha nesta ocasio dezoito anos, era uma romntica convicta e esperava com ansiedade a oportunidade de assistir um casamento no campo, como aqueles descritos em romances de amor, ou vistos nos filmes ingleses. Mame fez para mim um lindo vestido de voal estampado. Comprei uma sandlia branca para combinar, mas ficou uma frustrao que espero ainda resgatar: queria usar um chapu de palha italiana, enfeitado com fita e flores. Mas, como achar esse chapu na Montes Claros de 1959?
Tudo conspirava em favor da cerimnia. A beleza da Fazenda das Quebradas, com seus jardins, os tons, o perfume das flores, a brisa da tarde, o crepsculo. O entardecer coloria tudo de dourado, ocre e vermelho. Uma profuso de cores refletindo na serra onde o cruzeiro, com os braos abertos, acolhia a todos presentes.
A queda das flores da paineira forrava o cho como um tapete rosa, surpreendente, lindo e diferente! Sob esta rvore foi armado o altar, coberto com alva toalha de linho, um crucifixo dourado e castiais com velas. A decorao era a prpria natureza, que nesse dia se esmerou mais ainda.
Lucizinha saiu de sua casa de brao dado com o pai, Pedro Cristino Veloso. Estava linda! Usava um vestido de noiva branco, esvoaante, feito pelas mos de artista de Teresa Dias, minha querida tia T. Uma grinalda singela realava sua beleza morena, sua faceirice. Havia um brilho de felicidade nos seus olhos.
A Banda do 10 Batalho tocou a marcha nupcial, enquanto ela percorria um tapete de flores rosas em direo ao altar onde Dedeto a esperava rodeado de familiares.
Arinha, serena e aristocrtica como uma marani indiana, era a soberana daquele paraso. Compartilhava com todos a emoo que, como um vu difano, nos envolveu.
Senti naquele momento de intensa beleza, a presena e o brilho de Deus.
Na medida que transcorria o casamento, celebrado por Monsenhor Gustavo, a luz dourada da tarde iluminava os noivos e ampliava a beleza daquele cenrio: flores rosas que, ao menor sopro da brisa, caam da paineira sobre os presentes; o azul do cu de final do outono, a Ave-Maria de Schubert...
Naquele instante de fascinao e felicidade, nada mais fiz que agradecer a Deus em silncio. Revesti-me de um grande sentimento de paz. Experimentei uma emoo que no consegui explicar!
A Fazenda das Quebradas era famosa na arte de bem receber. De sua cozinha saam almoos e jantares dignos dos deuses. As compotas de figo, laranja, limo; os doces de leite e pssego, servidos em terrinas e compoteiras antigas. Tudo to montesclarense, tudo to mineiro!
A recepo no fugiu regra. Farta, deliciosa, requintada como tudo era requintado nas Quebradas.
A lua cheia atrs da serra sucedeu o entardecer. Estrelas comearam a cintilar, mudando os tons da noite que chegava devagarinho, mas a alegria e o encantamento persistiam. Tudo sugeria estarmos vivendo um sonho.
Subimos na carroceria de um caminho forrado com colches e iluminadas pelo claro da lua, envolvidas pelo enlevo vivido, retornamos a Montes Claros.
Este foi o casamento mais romntico, mais bonito que j assisti.
A fantasia e o sonho que do um encanto maior vida continuam comigo. Agradeo a Deus no terem se extraviado para o esquecimento recordaes e lembranas emocionantes, como foi o casamento de Lucizinha e Dedeto.

Carmen Netto Victria


23675
Por Carmen Netto - 11/5/2007 17:54:32
Para todas as mes com especial carinho pelo seu dia.
As Receitas de Mame


Ganhei o meu dia, achando um velho caderno de receitas de mame, que estava atrs dos livros da coleo do Tesouro da Juventude. Comecei a folhe-lo e sua letra firme e forte, em meio s manchas de gorduras e marcas da lida caseira transportou-me para outros caminhos, outros tempos.
A gerao a qual pertenceu a minha me era de mulheres prendadas: costuravam, bordavam, teciam e cozinhavam divinamente.
E, de repente, um canto da minha memria se iluminou e vi minha me fazendo comidas deliciosas. Era um ritual. A escolha das panelas, do tacho de cobre faiscando de dourado aps ser lavado com sal e limo, de onde saam doces maravilhosos; da mquina manual de fazer maionese, at a ida ao mercado para escolher os melhores alimentos. Ali, entre frutas, verduras e legumes de todas as cores da natureza, ela escolhia os ingredientes para suas receitas.
No fogo, a lenha crepitava, a fumaa ardia os olhos. Em meio a doces, tortas, bolos, quitandas, o aroma de cravo, canela, baunilha e outras especiarias enchiam a casa.Eram cheiros acolhedores, e traziam um bem-estar que s se experimenta quando se criana: uma sensao de que nada pode nos atingir a no ser uma dor de barriga, ou uma nota baixa na escola...
Receitas trabalhosas, minuciosas, elaboradas; outras mais simples, tudo era feito com esmero. Algumas receitas, da gerao de minha av, escritas com caligrafia e ortografia antigas e nomes engraados: Papo-de-anjo, Espera Marido, Pudim de Noivos, Joo Gordo, Maria Sapeca e Beijos de Eduardo Jorge... (Quem seria esse Eduardo Jorge, cujos beijos foram eternizados numa receita?).
Receitas feitas com banha de porco, dez a quinze ovos, manteiga. Quem l sabia de colesterol, triglicrides altos e outros perigos mais? O que contava era o prato colorido, perfumado, subindo para nossa alma. O encanto abenoado das coisas boas e simples. Era o encanto de Montes Claros.
Cozinhar muito mais que alimentar o estmago da famlia. Receitas de me alimentam carncias afetivas, so os alimentos da alma. s vezes estamos tristes, sofremos perdas; somos restaurados por essas comidas que remontam a infncia e nos trazem colo e proteo.
Existe um componente na comida de me, que no encontramos nas outras comidas: O Amor! Na Bblia, no livro de Provrbios (14:23) diz mais ou menos a mesma coisa: Mais vale um prato de verdura com amor, do que um boi com indiferena. Deus capacita s mes a nutrir os seus de modo especial. Comida de me nosso agasalho. o elo da famlia em torno da mesa, lembrana de infncia. Infncia em quintal de folhas no cho e frutas nas rvores. Disputas pelas raspas do tacho, caf com rapadura, quitandas. Repiques de sino na Igrejinha do Rosrio, apito de trem cortando a cidade, vestido de organdi suo, fita nos cabelos e sapato Shirley Temple nas missas de domingo.
Roda de velhos na loteria do Seu Donato, histrias de assombrao contadas pelas empregadas na boca da noite, costumes caseiros que trazem o gosto do eterno. Receitas de avs, de mes, sempre inesquecveis.
E, quando elas se vo, sempre uma alegria saborear alguma receita que elas nos ensinaram a apreciar, como a deliciosa torta de banana, que apesar de muito trabalhosa, de vez em quando me atrevo a fazer quando preciso de colo de me.

Para minha me, Maria Aparecida Dias Netto, pelo Dia das Mes
Carmen Netto Victria


23148
Por Carmen Netto - 24/4/2007 10:03:24
A FAZENDA DAS QUEBRADAS


No tenho a menor pretenso de seguir a trilha dos grandes memorialistas, mas no abro mo de evocar minhas mais belas lembranas. Entre estas, esto as vivncias na Fazenda das Quebradas, durante a infncia e a adolescncia.
As imagens de minha vida, desde criana, se projetam cada vez mais nitidamente diante de mim e assim posso retom-las.
Existem lugares que se amam desde a primeira vez... A Fazenda das Quebradas um destes lugares. Quando se combinava um passeio s Quebradas, misturavam-se emoes. O tempo custava a passar at o dia aprazado, j antegozvamos o prazer de tomar leite ao p da vaca, andar a cavalo, escutar causos junto ao fogo de lenha, nadar no riacho que serpenteava a casa. Eram prazeres que aqueciam o corao e a alma.
Cedo l amos ns. O caminho sempre colorido na florao dos ips roxos ou amarelos. No vero os flamboyans se avermelhavam; se poca da chuva, os tons de verde da paisagem: verdes-tenros, verdes-musgos, verdes-esmeraldas misturados a flores ingnuas e caipiras.
Depois da curva do caminho, num abrir e fechar de olhos, meu mundo transformava-se. Tinha chegado ao Paraso. A viso da serra que fazia a moldura das Quebradas onde vi os mais lindos poentes; o coqueiral ao fundo balanando as folhas conforme o capricho do vento. O casaro antigo, acolhedor, rodeado de jardins viosos. A paineira cor de rosa junto cerca. Hortnsias, manacs, roseiras, ervilhas de cheiro, amores-perfeitos e cravos misturavam cores e fragrncias. A primavera reinava nos Jardins das Quebradas o ano inteiro! Trepadeiras floresciam, qual uma cortina de flores no alpendre. O riacho de guas claras corria brincalho num leito de pedrinhas e seixos.
Mais ao longe, o pomar com seus pessegueiros, cobertos de flores delicadas em rseos matizes; goiabeiras, laranjeiras, pitangueiras... Era um paraso de rvores carregadas com frutos deliciosos, fragrncia de flores, cantar de pssaros e a dana colorida das borboletas.
Mal descia do carro, ia para o meu refgio predileto: o riacho de guas claras, em cujas margens nasciam samambaias e lrios silvestres de um perfume intenso, embriagante. Eu me sentia a prpria Narizinho do Stio do Pica-Pau Amarelo a procura do peixe rei das guas, e viajava nas asas da fantasia. Patos nadavam, pontes encantadoras ligavam suas margens.
Chegava a hora do almoo. Ah! Os almoos nas Quebradas... Numa sala imensa, a mesa posta com as melhores iguarias do mundo! O cheiro delicioso da comida de S Joana, feita com o corao e com mos abenoadas, invadia a casa. As pessoas assentavam-se mesa. As horas escorriam em meio a conversas srias sobre a vida, o tempo, ou simplesmente contavam casos inocentes e divertidos. Sobremesas carregadas de aromas e cores intensas. No ar, o cheiro de caf torrado e modo na hora era servido encerrando um ritual quase sagrado.
A alegria do conviver, do compartilhar, continuava na grande sala, em cujas paredes sobressaiam os traos leves e delicados da pintura da grande artista Lourdes Antunes.
Sobre a lareira, uma mensagem para os donos da casa assinada pelo maior estadista que este pas j teve: Juscelino Kubitschek de Oliveira. O sof de seda cor de rosa pssego, vasos com flores em profuso, folhagens traziam a natureza para a sala.
Pessoas inesquecveis faziam parte deste universo! Pedro Veloso, com sua verve, seus ditos engraados, pitando seu cigarrinho de palha, dizia com uma piscadela e risada maliciosa: Quando o homem embaa os olhos, perde o brilho dos olhos, perde tambm a alegria de viver.
Arinha, maestrina da bondade, nobreza e modstia do ser humano, sempre cultivou a arte do bem acolher. Recebia com o corao e com aquele sorriso que era a materializao da paz. Completando este quadro, Lucizinha, N, Tio, Terezinha, Cristina e mais uma infinidade de amigos, afilhados, agregados.
No inverno acendia-se a lareira. O clima na fazenda era bem diferente de Montes Claros. Que aconchego! O calor do fogo irmanava as pessoas, solidificando amizades para o resto da vida. Ao p da lareira se misturavam realidade e fantasia; conversas no tinham hora para terminar. Eram noites de muita alegria, risadas e comentrios dos ltimos romances lidos.
Para mim a Fazenda das Quebradas Minas. fogo de lenha, o cafezinho na canequinha esmaltada, cachaa curraleira, doces e quitandas. cigarro de palha, fumo de rolo. carro de boi com seu canto arrastado numa queixa sentida.
Uma riqueza de imagens cheias de cores, cheiros e vozes me levam cozinha das Quebradas, onde S Joana reinava soberana. Existe coisa melhor que estar na cozinha, ao lado de um fogo aceso, desfiando conversa, escutando causos? A cozinha enchia-se de cheiros: doces de pssego, goiabada, compotas diversas; doce de leite, goiabas em calda, cravo, canela. Biscoitos de receitas antigas passadas de gerao em gerao! Broas de milho assadas em folha de bananeira...
Passeios na Lapa Grande, escutar o vento cantando nas mangueiras. Em junho e julho, ver a florao das orqudeas inundando a fazenda com seu odor misterioso...
Imagens cristalizadas no tempo, perfeitas, intocveis.
Ah! Foram tempos de vida e alegria!
Hoje, trago em minha memria os tons da paisagem, o cheiro de leo de linhaa nas tbuas corridas do casaro, o perfume inebriante do p de jasmim, a lua nascendo atrs da serra.
Na beleza da Fazenda das Quebradas, eu vi a face de Deus refletida na natureza.


22479
Por Carmen Netto - 29/3/2007 09:31:23
Reviver o Colgio Diocesano
Nem que seja no montes claros.com
Esta crnica dedicada aos colegas que tiveram o privilgio de l estudar.

Colgio Diocesano

Tudo que eu no quero perder so as lembranas da juventude. Quantas recordaes do meu tempo de estudante! Foram tantos sorrisos, tantas palavras que ficaram na memria... Dos professores, a saudade, da escola, experincias enriquecedoras que se gravaram na fronteira da memria e da alma.
O Colgio Diocesano Nossa Senhora Aparecida substituiu o Ginsio Municipal. Apesar de ser da Mitra Diocesana era uma escola considerada muito diferente de suas congneres. Era uma escola preocupada em formar pessoas para pensar, para sentir, para falar e fazer a diferena na sociedade.
Tudo isso vem tona ao achar uma fotografia em preto e branco que o tempo tornou levemente amarelada, de um parada de 7 de Setembro, onde, usando uniforme de gala vestido de seda Patou, saia pregueada, gola marinheiro, boina azul marinho, sapatos pretos e meia cor da pele amos desfilar pelas principais ruas da cidade. Era um momento especial pra paquerar a rapaziada do colgio, que ficava mais bonita em seus uniformes de gala.
No dia-a-dia, usvamos o uniforme composto de saia pregueada que ficava sempre debaixo do colcho para no abrir as pregas blusa de tricoline com uma gravatinha onde listras azul-marinho indicavam a srie que cursvamos. Cinturas apertadas por cintos largos de ltex, caras lavadas, s um batonzinho para alegrar, e rabo de cavalo.
Por onde andar aquela juventude? Perdida num passado que eu gostaria de reviver.
Lembrar das aulas maravilhosas de Pedro SantAna onde apaixonamos pela Histria Geral, do prof. Belisrio, ssia de Castro Alves que levava as alunas a recitarem O Navio Negreiro e Vozes D frica; aulas de trabalhos manuais, onde aprendamos a bordar, economia domstica onde fazamos um lindo caderno-roteiro para administrar o lar. As aulas de Geografia com Maria Ins Versiani despertavam vontade de conhecer lugares e correr o mundo, Francs com o Padre Agostinho Beckauser, bravo at no poder mais, que nos deu tima base da lngua francesa; Portugus com o Pe. Vicente Aguiar, na terrvel gramtica FTD, anlises de Cames e redaes. As aulas de latim com monsenhor Osmar de Novaes Lima eram encantadoras. Estudamos a vida de Roma na coleo Ludus Primus.
Mas... a matemtica me perseguia com seu mecanismo implacvel. Seus teoremas me pareciam armadilhas preparadas com malcia e aqueles problemas das caixas dgua eram de matar qualquer mortal.
Apesar da disciplina austera o colgio era misto existiam atividades integradas como o Grmio Ltero-Esportivo, onde os alunos apresentavam nmeros musicais, poesias, discursos, acredito que foi a primeira tribuna de todos ns. Por favlar em austeridade, lembrei-me de um castigo recebido. Faltou um professor. No tendo substituto, ficamos vontade. Resolvemos fazer um desfile para ver quem tinha as pernas mais bonitas. A algazarra atraiu o Padre Agostinho exatamente na minha hora. Ele perdeu o controle. E suspendeu toda a classe e deu como castigo escrever quinhentas vezes: Devo proceder bem na sala de aula. Foi uma escorregadela da pedagogia, fizemos calo nos dedos, mas valeu a brincadeira!
s 17 horas soava a campainha que nos libertava das quatro aulas, para o jogo de voley. Num campo de terra batida, disputvamos vrias partidas com aquela bola de capota branca, que tornava o jogo sensacional. Ou ento, amos ver os rapazes jogarem futebol, onde com um sorriso franco e um jeitinho encantador fazamos daquele local, espao para conversar com o colegas e viver ocasionais romances, numa doce intimidade de mos dadas.
Vivamos enquadradas s normas daqueles tempos, mas de vez em quando, matvamos aulas. Saamos em grupo, num alarido to estridente quanto um bando de pssaros, rumo Praa Dr. Carlos, onde sentadas em seus bancos, comamos as guloseimas que o mercado sempre oferecia. Ali, entre pipocas, quebra-queixo e roletes de cana, conversvamos sobre nossos projetos, nossos sonhos. Foram momentos bons e bonitos que vivemos irmandadas pela amizade que se consolidava a cada encontro dirio, naquele prdio acolhedor.
O Colgio Diocesano foi um marco em minha vida, era uma complementao da minha famlia. Os professores no ficavam s no ensino das disciplinas iam alm educavam.
Hoje, existem jovens em outras roupagens, em outros tons, em outros sons e em outros visuais. A prpria Montes Claros continua jovem, progressista, universitria, efervescente de cultura e palco de outra histria, onde os personagens sero sempre os mesmos, s mudam as circunstncias


21098
Por Carmen Netto - 14/2/2007 13:45:57
Confete, pedacinho colorido de saudade

No me passou pela cabea escrever sobre o carnaval. Contudo ao ler no Jornal de Notcias do dia 06 de fevereiro a crnica Caindo a Mscara de Felipe Gabrich e uma matria emocionante na pgina Celebridades Nossas, de Marcos Guimares, focalizando a figura inesquecvel de Dona Afra Bichara, a maior carnavalesca de Montes Claros, no resisti e aqui estou alinhavando lembranas esgaradas.
A emoo brotou de uma nascente, se transformou num fio de gua, num riacho, num rio e l estava eu acompanhando o cortejo alegre de Dona Afra. Uma saudade louca, arrasadora voltou de repente invadindo meu peito, ressuscitando todas as lembranas adormecidas.
Livre do tempo e do espao vou atrs de Dona Afra curtindo o mais precioso dos bens, que a alegria. Uma charanga animadssima tocava marchinhas carnavalescas e como uma rainha, com direito a reverncias, sditos e aplausos, Dona Afra comandava o carnaval daqueles tempos com o respeito e admirao da cidade. Tambm seu Vav alfaiate usando uma camisa amarela de cetim, bon de marinheiro, tocando seu piston, animava o corso. A cabea fervilha de recordaes e como num filme, vejo Roque Barreto tocando surdo em meio a serpentinas, confetes e o cheiro delicioso, inebriante do lana-perfume Rodouro!
No Clube Montes Claros, a animao das matins reunia adolescentes e crianas. Lembro-me das mais animadas folionas: Layce Tourinho, Janete Bessone e Marly do Prado. Layce, de famlia baiana, trazia no sangue e no p a alegria de danar. Usava fantasias lindas, uma para cada dia, e sempre tirava o primeiro lugar. Janete hoje saudade requebrava sem parar, animada como ela s, e Marly do Prado, lindssima, num sarong dos mares do Sul, era a rainha do carnaval!
Viver um exerccio que deixa marcas. Carnaval tempo de festejar, tempo de brincar, de sentir animao e alegria. Eu tinha mais ou menos dezesseis anos, minha av Marieta sugeriu que eu deveria fazer um retiro espiritual nos treis dias de carnaval. Chegaram na cidade uns padres redentoristas, famosos por suas pregaes. Concordei mais pela curiosidade que pela f. Como me arrependi! Enquanto o Clube Montes Claros fervia de animao, eu usando um vestido com um bolero de mangas compridas no se podia entrar na igreja com roupa decotada e sem mangas; o saudoso Padre Dudu, bastante inflexvel, estabeleceu essa ordem para o sexo feminino contrita, comecei a escutar o sermo. O Padre descrevia num tom de voz ttrico, as angstias do purgatrio, os horrores do inferno, os demnios e suas maldades, esperando algum dia aqueles que pulavam o carnaval. O acerto de contas com Deus seria implacvel. O medo me dominava, eu suava em bicas com o calor de fevereiro, o bolero de mangas compridas e as labaredas do inferno. Meu corao batia que nem um bong e sa correndo da igreja. Cheguei em casa revoltada e para dormir precisei tomar maracugina.
.No outro dia, feliz da vida, fui danar meu carnaval, apesar de nunca ter fantasiado; essa uma das minhas frustraes...

Hoje, tento analisar o carnaval mineiro. Nas cidades histricas e ribeirinhas bastante animado. Em Belo Horizonte parece a parada de sete de Setembro, a alegria vivida por decreto. No h termo de comparao com a animao de Salvador, Recife e Olinda.
Porqu? Existe um jeito mineiro de ser? Penso que sim, e eu o reconheo na sobriedade dos sentimentos. Somos todos mais resguardados e contidos.
Apesar de ter nascido e vivido numa Minas sem barroco, oratrios, incenso, sem montanhas, em pleno serto, ainda assim somos contidos. O Norte de Minas, uma das muitas Minas de Guimares Rosa, cultua as serestas, danas folclricas, mas o carnaval no tem l seu espao e destaque.
Por isto, Dona Afra, seu Vav alfaiate, Roque Barreto e tantos outros que animaram o carnaval dos anos 40, 50, 60 no podem ser esquecidos e merecem um lugar de honra na histria do carnaval Montes-Clarense.

Carmen Netto Victria
Fevereiro de 2005


19944
Por Carmen Netto - 12/1/2007 02:07:15
A crnica "Moulin Rouge Curraleiro"me lembrou "Amacorde" de Felline. Lrica,linda,lembranas inocentes que me devolveram a era da inocncia. Raphael Reis,continue a nos presentear com suas recordaes, elas nos encantam,principalmente quando descortinam a vida bmia (assunto proibido para minha gerao.)No atoa que avida bomia de Montes Claros famosa no Estado de Minas e at no Brasil...


19732
Por Carmen Netto - 5/1/2007 17:45:14
Reenviando a crnica Caleidoscpio de Caleidoscpio de uma cidade

O vazio sempre foi minha preocupao constante;
e eu considero que, no corao do vazio como no
corao do homem, as chamas ardem. (Yves Kleim)



Escrevo o que transborda do corao. Recebi de minha amiga Mary Pimenta, um e-mail emocionante sobre os anos 50/60. Imediatamente senti uma vontade, irreprimvel de escrever, apesar do adiantado da hora. Plena madrugada, silncio. S a chuva mida lavando a saudade.
No interior, a vida corria menos depressa. As relaes eram mais prximas. A convivncia direta entre as pessoas acontecia em toda Montes Claros. A vida era subir Presidente Vargas e Dr. Santos, descer Camilo Prates e Dr. Veloso em direo a Praa Dr. Chaves. Cercando a cidade os Montes Claros. Morenos na seca e verdes nas guas, envolvidos pelo cu mais azul que j vi.
A Rua Presidente Vargas era o point da cidade. Em suas imediaes o Cine So Luiz, o caf de Zim Bolo guardando as devidas propores- to importante para a cidade como o caf De Flore para Paris. As melhores lojas, a loteria de Seu Donato Quintino, o prdio da ZYD7. Um casaro destacava em suas imediaes: o Mercado Municipal, com seu relgio marcando as horas dos montes-clarenses. No bar de Zim Bolo, conversava-se Tete a Tete de um tudo. L, as idias efervesciam. Debatia-se poltica, intelectuais discutiam as novas correntes filosficas, o povo discutia futebol, filmes eram comentados. Seu Santinho Amorim, cinfilo de carteirinha, era um crtico singular. Comentavam com ele: - Que filmo, hein Santinho? Ele respondia: - Supimpa! Outro aproximava e dizia: - Que filme pssimo! Ele respondia: - Podre! E tomava o caminho de casa, rindo baixinho...
Todos se conheciam, trocavam impresses, expressavam pontos-de-vista sobre tudo quanto havia de mais intenso na cidade e no mundo. Uma sensao unnime tambm paira sobre aqueles que viveram a Montes Claros dos anos 50/60. Festas nos clubes sociais, horas danantes em casas de famlias, piqueniques nas fazendas. E a Praa de Esportes? Local onde grandes desportistas se destacaram na natao, no vlei, no basquete. Aconteciam os campeonatos do interior. Torcidas organizadas, a rivalidade entre Montes Claros e Diamantina. Nossos atletas, sendo respeitados no Estado. Como esquecer as cortadas de Zembla Melo, Marlene Almeida, Moema Versiani, Luci Paraba. Elas viravam qualquer jogo, junto com as levantadoras Luci Almeida, Glria Bogatzki, Vilma Gonalves, Teresinha Fres que, sob a batuta de Seu Pimenta elevaram o nome de nosso burgo. Outra sensao unnime tambm paira sobre aqueles tempos. Parece que as horas passavam mais devagar e tnhamos condio de ler mais, comentar os filmescabea. Estvamos sempre em busca de algo que ns mesmas no sabamos o que era. Participvamos do movimento estudantil, fazamos cadernos de poesia, de recordaes, de receitas, antevendo o casamento, sonho da maioria...
No Diretrio Central dos Estudantes, sob a presidncia de Vanderlino Arruda, germinavam sementes que nos tiravam da alienao e nos tornavam mais conscientes do nosso papel na comunidade.
Os eventos mais comentados da poca eram o baile do suter, onde se elegia a Miss Suter, a rainha dos estudantes, a rainha e as princesas do Tiro de Guerra 87. A rainha do Algodo e a rainha do Centenrio, cuja escolha recaiu sobre Maria Lusa Veloso Costa (Bisa), uma das moas mais bonitas da cidade, hoje, j encantada.
Mas a grande pedida, era danar nos clubes sociais, onde a paquera rolava solta. Se sobrava algum dinheiro, cotizava-se e amos comer um churrasco delicioso no Mangueirinha, ao som de Matinata, Torna a Sorriento, Volare, Only You. Era uma gerao ingnua. Tudo era emoo, sonho e iluso, apesar de sentir no ar as primeiras aragens do movimento feminista.
Lia-se na Gazeta do Norte, as encantadoras crnicas de D. Ivone Silveira sob o pseudnimo de Simone. O Jornal de Montes Claros celeiro de grandes jornalistas iniciando sua trajetria de grande tiragem e credibilidade. Tu Peixoto escrevendo sobre a sociedade numa seo chamada Notas Sociais. Lazinho Pimenta, na Gazeta do Norte, depois no Jornal de Montes Claros, retratava a sociedade num estilo a la Jacinto de Thormes. Descrevia com classe e tica os eventos sociais da poca. Era uma coluna democrtica! Nela havia espao para todos os estamentos sociais, desde que fossem importantes para a cidade.
Naqueles tempos as moas freqentavam os estdios. Os embates entre o Joo Rebelo, depois Ateneu e o Cassimiro de Abreu movimentavam as tardes de domingo. Lembro-me da inaugurao do Estdio Joo Rebelo. Foi o maior sucesso! O Fluminense do Rio de Janeiro veio para jogar com o Ateneu. noite os jogadores foram passear na Rua 15. Foi a maior tietagem. Tel, o mais bonito e charmoso, Castilho, o goleiro de sobrancelhas fechadas, Pndaro, o mais simptico e educado, Pinheiro e outros que no lembro.
Nos anos 50/60, artistas da Rdio Nacional vinham apresentar-se em nossos palcos e clubes. Dalva de Oliveira divina Dalva Cauby Peixoto, que enlouquecia a platia cantando Conceio, Emilinha Borba, Virgnia Lane e suas vedetes, Baden Powell, Esther de Abreu, ngela Maria, Lus Gonzaga. Todos recebidos com Pompa e circunstncia.
Em clima de Carlos Drummond de Andrade, me pergunto: E agora, Carmen?
A festa acabou, a luz apagou, o povo sumiu, a noite esfriou. Para onde voc vai?
No silncio da madrugada, a chuva mida acalmou a saudade, o vazio, a ausncia da terra natal. A tentativa de retornar ao passado, juventude perdida, lembra outro verso. Quer voltar sua Montes Claros? A sua Montes Claros no existe mais. Eu teimo e digo que existe. E a reencontro na memria, na escrita e ganho fora para viver bem o meu hoje, o meu agora. Refiz roteiros, no esmoreo. Meu caleidoscpio de imagens est ao meu alcance a hora que quero.
Carmen Netto Victria

Dezembro/2006
Esta crnica dedicada Zilca Prates Tolentino e Carlos Meira.


19715
Por Carmen Netto - 5/1/2007 12:20:27
Saulo, Saulo, quem voc ? Escreve to bem! estava sumido e, hoje alegrou a manh de chuva com seu lindo texto. As notcias de montes claros esto to tristes! Como citou Guiaroni devo ser sua contepornea, no perdia um programa dele na Rdio Nacional. Concordo com voc, no vamos deixar nossa histria nossas tradies morrerem.Infelizmente Vrgilio j se encantou mas, ns vamos continuar na trincheira. Saudaes montes-clarences com aroma de pequis.


19247
Por Carmen Netto - 19/12/2006 12:23:34
A esperana que o nascimento do Menino cristaliza, aquela vontade de ser menina e sonhar com brinquedos, aquele desejo oculto de abraar amigos e amigas, de desejar um mundo melhor me envolveu. O Esprito de Natal tomou conta de mim.Feliz Natal, amigos muralistas!

Sonho de Natal
(Carmen Netto Victria)

Acordo no meio da noite,
E fico a escutar os sons da
madrugada.
A insnia me pegou,
E para longe o pensamento
levou...
Distante, quando ainda era uma
menina.

O vento sussurrou de leve no meu
ouvido:
Por que no vai em busca dos
natais perdidos?
Levada pelo vento l vou eu,
livre, liberta,
Viajando nessa madrugada de
Dezembro
A recordar os natais de tempos
idos.
Lembranas lindas atadas com
fita cor de rosa
Guardadas a sete chaves
De um tempo to querido!
Prespios, pastorinhas, missa do
galo...
Ceias singelas e alegres.
Ah! Como me lembro!
Sapatinho debaixo da cama,
Presentes, sorrisos, emoo.
No silncio e na magia
Numa gruta, o menino nascia.
Veio para redimir, salvar, amar.
A estrela iluminando a noite
Trazendo paz e harmonia.
Hoje, no meu prespio particular
Manjedoura-corao peo ao
menino:
Quero voltar a ser menina e
sonhar com brinquedos...
Quero abraar amigos e amigas.
Quero que um mundo novo se
inaugure.
Quero fazer o outro feliz.
Perguntei ao esprito do natal
como faz-lo.
Ele respondeu:
Partilha a mesa e a esperana.
Semeia o bem, a bondade, o amor.
Compartilha a dor.
Se proponha a renascer para que
outros tenham vida.
Vida que ser sempre Natal!


19027
Por Carmen Netto - 9/12/2006 19:30:46
Relembrando os Natais da Infncia


Quero neste Natal me renovar, renascer em mim mesma, quero multiplicar meus olhos para verem mais.
Ceclia Meireles


Dezembro chegou. E chegou envolvido pelo Esprito do Natal, dominado pela presena do Cristo-menino.
Paira no ar o mistrio do Natal. um ms ao mesmo tempo alegre e triste. uma poca em que recordaes, saudades e perdas afloram com mais fora.
Ao ver as luzes tremeluzindo por toda cidade, minha chama interior tambm acendeu iluminando meu caminho procura dos Natais da minha infncia.
Ao iniciar a caminhada bateu uma angstia. Por que a angstia no Natal? Perguntei-me. Neste momento no consegui resposta e sa a procura dos Natais de minha infncia, onde se esconderam? Em que curva do caminho ficaram?
No desanimo. Saio procura e vou acha-los. J se disse que o Natal poca de milagres; o meu aconteceu porque um menino que veio h 2000 anos, me pegou pela mo e levou-me a Janaba entre 1945 e 1950.
Aqueles Natais perdidos do passado retornaram inteiros, com a fora do momento atual. Na poca em que vivi em Janaba tinha entre sete a dez anos. A cidade estava comeando a arrancada de seu desenvolvimento para se tornar hoje o segundo plo econmico do Norte de Minas.
Ruas sem calamento, casas modestas, vida simples.
Na Rua Francisco S, onde morvamos, aos dias eram acrescidas mais esperana e alegria. Comeavam os preparativos para o Natal. O pice era o nosso prespio, onde o menino Jesus era o despojamento, a entrega, a felicidade suprema de nada possuir...
Tambm nossa rvore de Natal era to linda! To ingnua, to caipira, mas to brasileira...
Em novembro j comevamos a juntar latinhas vazias de sardinha e marmelada para plantarmos o arroz. Mame orientava Ana e Geraldinha para ajudar-nos.
Plantvamos nos primeiros dias de dezembro, para que dia 23, estivessem verdes e viosos para enfeitar a serra do prespio.
Depois arranjar carvo vegetal na padaria, mo-lo, mistura-lo com purpurina. Esta mistura era passada em papel de saco de cimento, umedecido com grude. Colocvamos em seguida para secar, sob o sol abrasador de dezembro.
O prespio era montado em uma mesa de canto, onde se colocavam caixotes de madeira. Cobria-se este suporte com os papis pintados, imitando serras e grutas.
A manjedoura era coberta com areia branca do Rio Gorutuba, e na entrada da gruta a estrela-guia feita de papelo e revestida de purpurina, simbolizava um novo tempo, um novo caminho.
Depois, de armado o prespio, amos lavar as mos sujas pelo carvo para dispor as figuras que representavam a natividade.
Maria, Jos, o menino Jesus deitado em seu bercinho de palha, com as mozinhas abertas, a nos acolher.
O galo anunciando a boa nova, o burro, o boi, prximos para esquentar o menino com seu bafo. Carneiros, ovelhas, pastores e camelos.
Descendo a serra, os reis magos.
Nosso arroz plantado estava grande, de um verde bonito, alegrava o prespio. Naquela gruta, no silncio da vida, na noite de luz, Maria nos oferecia o Salvador-Jesus.
Depois de montado o prespio, era a vez de fazermos nossa rvore de Natal. Papai era quem liderava.
Dia marcado, l amos ns procura do galho mais bonito para represent-la. Como a cidade era pequena naquela poca, suas redondezas eram cercadas por juazeiros, pitombeiras, umbuzeiros.
Nossa rvore de natal era sempre um galho de pitombeira. Papai escolhia o maior e mais bonito! Como era tempo de pitomba, dos galhos pendiam os cachos dourados da fruta.
Trazamos com cuidado o galho escolhido e o colocvamos numa lata vazia de querosene jacar, firmando-a com pedras. Uma folha de papel crepom vermelha cobria a lata.
Agora, era comear a enfeitar nossa rvore.
J estavam prontas as guirlandas, tambm de papel crepom de todas as cores: vermelhas, azuis, rosas brancas, amarelas... Juntamente com as guirlandas bales de vrias cores completavam a decorao.
Impacientes, a noite do dia 24 custava a chegar. Mame rezava no prespio depois amos para um cmodo da casa onde foi a loja, e de portas abertas recebamos quem passasse, principalmente crianas que no tinham seu Natal.
Pastorinhas chegavam, cantando ternas e singelas canes de Natal, nos emocionando e levando-nos abrir mais nosso corao e deixando entrar toda a alegria daquela noite diferente.
Mame servia bolo com cobertura de glac de laranja, refrescos, groselha, balas, doces e biscoitinhos. Todos se confraternizavam. Parecia que a centelha do Natal acendia em todos o fogo crepitante da vida, a alegria de viver e compartilhar.
amos deitar quando a noite j ia alta e as estrelas claras brilhavam na atmosfera, to presentes quanto h dois mil anos atrs. No dia 25, a alegria de achar os presentes juntos aos sapatinhos, sob nossas camas.
Lembrando Machado de Assis, mudou o Natal ou mudei eu? O Natal o mesmo em sua essncia, em seu mistrio.
Mudaram-se os tempos. Globalizao trazendo rvores de Natal com neve, renas, nozes, castanhas, papais Nois que danam consumismo exagerado, Natal artificial...
Respeito as mudanas, procuro integrar-me a elas. Mas, neste Natal quero reencontrar a simplicidade, a singeleza dos Natais da infncia.
Quero repartir a esperana com quem no a tem, estender a mo para ajudar o outro.
Constatei que quero reencontrar hoje a simplicidade e o encantamento dos Natais da infncia, os Natais em Janaba e compartilha-los com minha famlia e meus amigos.
Envolvi-me no manto da saudade, no aquela saudade que machuca, mas aquela saudade boa que agradece a vida vivida.
Sempre no Natal preciso de um tempo s para mim. Arrumo minhas emoes e minha casa. Resgato para mim mesma os Natais da infncia to simples, to despojados...
Quero viver este tempo de Natal recuperando pessoas, vivncias, saudades.
um tempo de reflexo. Quero ver alm do consumismo, alm do que todo mundo v.
Estou pacificada, reencontrei meus Natais! Singelos, mas to felizes!
E agradecida me valho de Rubem Alves:
O Natal um poema
O Deus-menino s amor.
Criana riso, brinquedo, alegria
Por isso gosto muito do menino Jesus.

Carmen Netto Victria
Natal de 2000.


18925
Por Carmen Netto - 5/12/2006 20:33:53
Para a familia de Virglio de Paula
Lembro-me mais do menino Virglio de Paula: cala branca, suspensrio e camisa valsere xadrez sempre ao lado do irmo Walmor. Fazendo parte dos muralistas do Montesclaros.com reencontrei-o nos textos lindos, to montes-clarenses que escrevia . Mudou-se para o mundo encantado, deixando muita saudade. Parafraseando John Donne "Virglio era um pedao de Montes Claros, uma parte do todo. A morte de qualquer um me diminui, porque estou envolvida no gnero humano. E por isto, os sinos no dobram s por Virglio, eles dobram tambm por Montes Claros e tambm por ns que o perdemos. Minha solidariedade a D. Fina, Valria, Virgnia e a sua filha Patrcia. Que a misericrdia divina as amparem nesse momento de perda.


18588
Por Carmen Netto - 22/11/2006 15:00:54
Para matar as saudades dos nossos cinemas.


Aqueles Cinemas e Seus Filmes Maravilhosos

Montes Claros teve sua fase urea de cinemas. Eles eram o universo de diverso da cidade. Cines So Lus, Montes Claros, Cel. Ribeiro; cines Ipiranga na rua Melo Viana, Cine Nova Olinda na avenida Ovdio de Abreu e por ltimo o cine Ftima considerado na poca um dos melhores do interior de Minas. Vivamos sob o signo do cinema. Imitvamos os penteados, as roupas, s vezes at os costumes que a Vnus Platinada Hollywood mostrava em seus filmes.
Ir ao cinema naquela poca, era mais que uma simples distrao, era como uma necessidade de viver iluso, sair da realidade. A gente se preparava para exercer o sagrado direito ao refgio no mundo dos grandes romances, das msicas temas, da vida encenada nas telas e que se eternizaram em nossas memrias. Para sair da rotina, da mesmice do cotidiano, ir ao cinema, entrar na tela e sumir com os heris dos filmes, era um hbito. Por que no ir com Humphrei Bogart para Casablanca, com Gregory Peck para Roma, ou com Clarck Gable para Atlanta? Vivamos sob o encantamento do cinema, vnhamos de uma meninice embalada pela fbrica de sonhos de Hollywood. Filmes gua-com-car, picos, grandes dramas, faroestes, policiais; as chanchadas da Atlntida com Grande Otelo e Oscarito, os desenhos de Walt Disney. Os musicais da Metro faziam grande sucesso e levavam a sonhos e fantasia. Os filmes em Tecnicolor, cinemascope e som estereofnico enlouqueciam nossa imaginao. Sonhvamos com as faanhas de Tarzan, vivamos as peripcias da 2 Guerra Mundial: bombardeios em Londres, espionagem em Paris, Truculncia na Alemanha. Amamos, odiamos e invejamos Scarlet Ohara. Adoramos Natascha em Guerra e Paz. Apaixonamos por Jeniffer Jones e William Holder em Suplcio de uma saudade. A paixo por esse filme foi tanta, que, ao escutar a msica tema Love is many splendor thing todo mundo chorava. A moda chinesa invadiu nosso tropical Brasil e ganhei um vestido de cetim estampado azul-turquesa igual ao que Jeniffer Jones usava nesse filme.
Pic-nic com Kim Novak e William Holden arrebentou coraes, quando ela, ao som de Moonglow descia uma escadinha e caa nos braos do mesmo. Sensualidade e seduo flor da pele.
Debora Kerr e Burt Lancaster protagonizaram o beijo mais bonito do cinema em A um passo da eternidade, quando envolvidos pela espuma das ondas do Pacfico, seus lbios se encontraram pouco antes de Pearl Harbor ser bombardeada pelos japoneses. E os faroestes? Garry Cooper saa do Saloon, montava em seu cavalo e desaparecia nas savanas americanas. E o duelo entre o bandido e o mocinho na rua deserta do povoado Rolos de capim, rodopiavam ao sabor do vento, os espectadores num silncio absoluto, aguardando o tiro mortal, quando um gaiato gritou: ta So Joo da Ponte! A platia veio abaixo na risada, pois foi numa poca de brigas e tiroteios na vizinha cidade. O gordoe o magro faziam rir ao lado dos Trs Patetas e Cantiflas. O pblico juvenil vibrava com John Wayne , Charles Starret, Roy Rogers, Randoeph Scott, batendo os ps e gritando: isso a, d-lhe uma direita! Os seriados Nioka, Flash Gordon, A Deusa de Joba eram o melhor da matin. Ai de quem procedesse mal durante a semana, o castigo era perder a matin.
No cine Cel. Ribeiro, passava s sextas-feiras a sesso das 22 horas. Eram filmes proibidos para menores de 18 anos. A maioria dos filmes eram franceses. Resolvemos assistir Les Amants com Michele Morgan ou seria Martine Carol? Corao disparado, maquiagem mais carregada, l fomos ns. Cinema lotado de casais, homens e rapazes. Uma de ns, lembrou de Altininho que era comissrio de menores, e, se ele aparecesse e pedisse a carteirinha, seria o vexame. O filme comea em preto e branco, ns discretamente na ltima fila, assombradas com o filme e a nossa ousadia em assist-lo. J quase no final ficamos prximas cortina e assim que o FIM apareceu, samos em desabalada carreira, rua Camilo Prates abaixo, quase meia-noite, e p-ante-p, chegamos em casa. Graas a Deus nossas mes no desconfiaram e foi a primeira e ltima vez que, aos dezesseis anos no respeitamos a censura. Hoje, Les Amants passaria tranqilamente em qualquer sesso da tarde.
Bons tempos! Filmes mexicanos e seus dramas, o neo-realismo italiano, a nouvelle-vague, francesa engatinhando.
Vivamos cinematograficamente amando William Holden, Rock Hudson, James Dean, Tyrone Power, Gary Grant e invejando Elizabeth Taylor, Vivam Leight, Kim Novak, Deborah Kerr, Jeniffer Jones. Ingnua gerao que atravs da era de ouro de Hollywood viveu os sonhos mais lindos de sua juventude. Despreparadas para o mundo que nos esperava, fomos a gerao sanduche imprensada sob o rigor vitoriano de nossas famlias e a abertura dos anos 70, onde a liberdade extrapolou para a liberalidade dos costumes e tempos novos surgiram.

Carmen Netto



18210
Por Carmen Netto - 8/11/2006 15:15:33
Memria olfativa de Montes Claros

As ruas, praas e becos de Montes Claros sempre tiveram cheiros peculiares, cheiros do passado que nos visitam em sonhos e dizem presentes ao chamado da saudade. Aromas eternos.
Saindo para a escola na manh ensolarada, comeava todo um itinerrio aromtico. Primeiro era o cheiro das Padaria Brasil e Santo Antnio, assando fornadas e fornadas do po de sal, inundando a vizinhana com o odor delicioso de po novo.
O prximo aroma vinha da torrefao do Caf Indiano e do Caf Primor nas ruas Cel. Prates e Viva Francisco Ribeiro. A esse paraso olfativo, seguiam ondas de odor ftido das matrias primas usadas pelo Curtume Montes Claros na industrializao do couro. O mau cheiro ia desaparecendo no corredor do Melo, cujos estbulos e rvores frondosas mangueiras principalmente davam a impresso de mergulhar numa fazenda.
Das residncias da cidade, a maioria com jardins onde vicejavam roseiras, cravos, dlias, surgia o cheiro de calda de acar, da carne assando, do bolo no forno, da baunilha, do cravo e da canela...
Ao passar na porta da Farmcia de seu Mrio Veloso sentia o cheiro de lcool, do ter e iodo lembrando machucados e dores.
Subindo a avenida Francisco S em direo a Estao da Estrada de Ferro Central do Brasil, sentia-se uma mistura do perfume de eucalipto e fumaa dos trens de ferro a vapor, com lenha queimada ou carvo mineral.
As carroas que rodavam em suas ruas espalhavam o cheiro do suor do animal, s vezes acrescidos de excrementos deixados pelos burros ou cavalos. Os carros de boi, na sua cantoria deixavam escapar o cheiro de lenha recm cortada.
Sbado, dia de feira. No mercado municipal, centenas de odores se misturam, deixando no ar um perfume inesquecvel; carne de sol, beijs, farinha de mandioca, milho tenro na espiga, cominho e coentro modos na hora, casca de laranja-da-terra prontinha para virar doce. Tudo isso, mais cajs-mangas, paas, jambo, murici, verduras e legumes frescos ainda molhados de orvalho. Caldo de cana, queijos, requeijes, cachaa, rapadura e todos os aromas do serto.
partir de novembro, o cheiro do pequi, fruto-rei do cerrado invade a cidade com seu perfume intenso e amarelo vibrante.
As primeiras chuvas batendo no telhado e na terra poeirentas, emanavam o perfume acolhedor de terra molhada, enchendo de esperana corao do sertanejo.
A noite chegava devagar e o jardim da praa Dr. Chaves era uma festa de odores, aromas e fragrncias. O ar cheirando a jasmim, manac e dama da noite.
Na rua Simeo Ribeiro o cheiro de pipoca na porta do Cine So Luiz, e , ao lado no Caf de Zim Prates, o cheiro do biscoito de farinha, feito por Dona Pretinha o melhor que j comi na vida e hoje ainda existe pelas mos abenoadas de Nazar Prates.
No footing da Rua 15, os perfumes Lemant, Lorigan, Promessa, Flor de ma, Miss France, Madera do Oriente, se misturavam aos cheiros de Brilhantina Coty, Gostora e sabonete Libeboy dos rapazes. Perfumes singelos, sedutores exticos, erticos...
Paisagem, aromas, odores, sons e cores foram um pano de fundo de minhas vivncias, e os invoco em minhas solides. Eles me fazem companhia, principalmente quando sinto o mundo amedrontado, dolorido, em pnico. Nasce ento uma saudade imensa do tempo que passou, da vida simples, do tempo que Montes Claros tinha alma de alde.
Os odores naturais foram sendo substitudos pelas substncias industrializadas. As padarias continuam at hoje a marcar territrio. O cheiro de po novo aquece a alma e agrada o estmago, mas os carros e os nibus criam barreiras contra os cheiros das cidades.
Volto a tempos to distantes e diferentes. Aspiro no ar difano todos esses aromas embriagadores. O corao bate mais forte. Arrebatamento. E isso, tem o nome de saudade...



18078
Por Carmen Netto - 1/11/2006 23:56:04
Reflexo Num Dia de Finados

Hoje finados. O dia amanheceu nublado, mas a chuva abenoada abrandou o calor. Estou vivendo um daqueles momentos nicos em que, merecidamente, posso dedicar-me mais a mim mesmo. Talvez pela primeira vez na vida.
No aconchego do meu lar, escuto a voz e o violo de Toquinho.No sei porque a msica me leva a Carlos Drumond de Andrade e lembrei-me do que ele escreveu numa crnica que fala desses dias preciosos em que todos saem e a gente fica sozinha dentro de casa. Ele toma o cuidado de no fazer nada que possa atrapalhar o convvio com a alma muda, mas sensvel s coisas.
Neste instante de reflexo, percebi que posso abrir minha luz aprisionada, como acontece com as flores e os pssaros, e recorrer memria do amor. A gente ama com a alma e sinto a presena dos meus entes queridos que j partiram.
No gosto de cemitrios, presto minha homenagem de gratido pelas suas existncias nesse momento de nostalgia e devaneio.Mas uma nostalgia boa, porque a lembrana de pessoas queridas no triste nem amarga, uma saudade abenoada.
Uma luz dourada me envolveu e resgatei l do fundo uma sensao de encantamento e gratido por meus avs, meus pais. Graas a eles, estou aqui vivendo este momento de plenitude, aquele clssico estado de esprito que posso definir como uma leveza, como prestes a voar...
Minha venerao meu agradecimento por terem me inculcado valores que nortearam a minha vida para o SER, este no se perde e me faz valorizar cada vez mais a vida.
Olhei distrada para o cu. O sol reapareceu brilhando na manh lavada da chuva. Como no filme sonhos de Kurosava, realidade e fantasia se misturaram e integrei-me, livre da materialidade e da temporalidade, com todas as pessoas queridas que j se encantaram como to bem disse Guimares Rosa. O dia de finados se revestiu de beleza e paz, aprender a morrer aprender a viver.




17942
Por Carmen Netto - 25/10/2006 19:20:27
Sa de Montes Claros h mais de 44 anos.Sou filha do Prof. Joo de Freitas Netto e Maria Aparecida Dias Netto. Minha me trabalhou no Correio quando seu pai administrava essa repartio. Lembro-me de D. Laura sua av,que fazia a mais deliciosa gelia de mocot da cidade. Mame era conhecida de D. Dorzinha e eramos clientes do laboratrio de anlises clinicas do competente Dr.Geraldo Guimares,se no me engano,seu tio. Tudo isto histria e faz parte de nossas vidas.Abraos montes-clarenses.


17910
Por Carmen Netto - 24/10/2006 14:58:08
Colgio Diocesano

Tudo que eu no quero perder so as lembranas da juventude. Quantas recordaes do meu tempo de estudante! Foram tantos sorrisos, tantas palavras que ficaram na memria... Dos professores, a saudade, da escola, experincias enriquecedoras que se gravaram na fronteira da memria e da alma.
O Colgio Diocesano Nossa Senhora Aparecida substituiu o Ginsio Municipal. Apesar de ser da Mitra Diocesana era uma escola considerada muito diferente de suas congneres. Era uma escola preocupada em formar pessoas para pensar, para sentir, para falar e fazer a diferena na sociedade.
Tudo isso vem tona ao achar uma fotografia em preto e branco que o tempo tornou levemente amarelada, de um parada de 7 de Setembro, onde, usando uniforme de gala vestido de seda Patou, saia pregueada, gola marinheiro, boina azul marinho, sapatos pretos e meia cor da pele amos desfilar pelas principais ruas da cidade. Era um momento especial pra paquerar a rapaziada do colgio, que ficava mais bonita em seus uniformes de gala.
No dia-a-dia, usvamos o uniforme composto de saia pregueada que ficava sempre debaixo do colcho para no abrir as pregas blusa de tricoline com uma gravatinha onde listras azul-marinho indicavam a srie que cursvamos. Cinturas apertadas por cintos largos de ltex, caras lavadas, s um batonzinho para alegrar, e rabo de cavalo.
Por onde andar aquela juventude? Perdida num passado que eu gostaria de reviver.
Lembrar das aulas maravilhosas de Pedro SantAna onde apaixonamos pela Histria Geral, do prof. Belisrio, ssia de Castro Alves que levava as alunas a recitarem O Navio Negreiro e Vozes D frica; aulas de trabalhos manuais, onde aprendamos a bordar, economia domstica onde fazamos um lindo caderno-roteiro para administrar o lar. As aulas de Geografia com Maria Ins Versiani despertavam vontade de conhecer lugares e correr o mundo, Francs com o Padre Agostinho Beckauser, bravo at no poder mais, que nos deu tima base da lngua francesa; Portugus com o Pe. Vicente Aguiar, na terrvel gramtica FTD, anlises de Cames e redaes. As aulas de latim com monsenhor Osmar de Novaes Lima eram encantadoras. Estudamos a vida de Roma na coleo Ludus Primus.
Mas... a matemtica me perseguia com seu mecanismo implacvel. Seus teoremas me pareciam armadilhas preparadas com malcia e aqueles problemas das caixas dgua eram de matar qualquer mortal.
Apesar da disciplina austera o colgio era misto existiam atividades integradas como o Grmio Ltero-Esportivo, onde os alunos apresentavam nmeros musicais, poesias, discursos, acredito que foi a primeira tribuna de todos ns. Por favlar em austeridade, lembrei-me de um castigo recebido. Faltou um professor. No tendo substituto, ficamos vontade. Resolvemos fazer um desfile para ver quem tinha as pernas mais bonitas. A algazarra atraiu o Padre Agostinho exatamente na minha hora. Ele perdeu o controle. E suspendeu toda a classe e deu como castigo escrever quinhentas vezes: Devo proceder bem na sala de aula. Foi uma escorregadela da pedagogia, fizemos calo nos dedos, mas valeu a brincadeira!
s 17 horas soava a campainha que nos libertava das quatro aulas, para o jogo de voley. Num campo de terra batida, disputvamos vrias partidas com aquela bola de capota branca, que tornava o jogo sensacional. Ou ento, amos ver os rapazes jogarem futebol, onde com um sorriso franco e um jeitinho encantador fazamos daquele local, espao para conversar com o colegas e viver ocasionais romances, numa doce intimidade de mos dadas.
Vivamos enquadradas s normas daqueles tempos, mas de vez em quando, matvamos aulas. Saamos em grupo, num alarido to estridente quanto um bando de pssaros, rumo Praa Dr. Carlos, onde sentadas em seus bancos, comamos as guloseimas que o mercado sempre oferecia. Ali, entre pipocas, quebra-queixo e roletes de cana, conversvamos sobre nossos projetos, nossos sonhos. Foram momentos bons e bonitos que vivemos irmandadas pela amizade que se consolidava a cada encontro dirio, naquele prdio acolhedor.
O Colgio Diocesano foi um marco em minha vida, era uma complementao da minha famlia. Os professores no ficavam s no ensino das disciplinas iam alm educavam.
Hoje, existem jovens em outras roupagens, em outros tons, em outros sonos e em outros visuais. A prpria Montes Claros continua jovem, progressista, universitria, efervescente de cultura e palco de outra histria, onde os personagens sero sempre os mesmos, s muda as circunstncias.


17501
Por Carmen Netto - 11/10/2006 15:42:14
Como a avenida Cel. Prates est na moda em Montes Claros, envio a crnica sobre a Igrejinha do Rosrio da minha infncia e adolescncia.

A missa das 8hs, na Igrejinha do Rosrio


Gosto de escrever sobre o lado humano da vida. Falar de pessoas, cheiros, sons e lembranas numa linguagem lrica que no resvala em momento algum para o piegas.Ser que ser saudosista defeito? Acredito que no. Abenoado daquele que tem uma infncia e uma juventude feliz para contar.
Assim como Proust, tecia a malha de suas lembranas captando aqui um rosto, ali um perfume, uma cor, mais alm uma reflexo de voz, no meu modesto tear tambm gosto de reviver o acontecido, bulir em guas paradas, abrir quartos fechados...
Muitos se foram, outros chegaram. As cidades so vivas. Esto em constante movimento. Os anos cinqenta marcaram uma poca romntica da histria de Montes Claros. Entre o footing na Rua 15 e sesses de cinema, entre conversas no Caf de Zim Bolo e horas danantes no Clube Montes Claros, a vida seguia alegre e despreocupada.
Um dos locais onde as pessoas se encontravam para rezar era a Igrejinha do Rosrio, na missa das 8hs. Naquela igrejinha de uma cidade encantada e amada, a que deram o nome de Montes Claros, percebi que aquelas pessoas que assistiam a missa eram como uma famlia se mantinham unidas pelos laos do corao. Em seu estilo colonial despojado, possua uma nave central e em cada lado uma meia gua. O campanrio com o sino ficava na entrada principal. Domingo sem missa, no domingo. A igreja enfeitada com flores naturais, a luz no altar refletindo nos arabescos dourados. Adentrando pela lateral direita ficava o reduto das mulheres e crianas, do lado esquerdo ficavam os homens e na nave as famlias em seus genuflexrios. Eu fazia parte da equipe da coleta. Era uma disputa. Todas queramos fazer a coleta no lado masculino, pois a fria era infinitamente maior. Esse dinheiro era entregue s irms Lili, Iraci e Ana, conhecidas como trigmeas, pois vestiam-se de maneira idntica e com o maior esmero administravam a igreja.
O que eu menos fazia durante a missa era rezar. Observava tudo e todos. Estou vendo Carlotinha Versiani dos Anjos entrar em sua cama sobre rodas, acompanhada de Maria, na feliz expectativa de receber a comunho. Neste setor ficavam tambm minha tia Teresa Dias, Oraide Novais e Lourdes Antunes Pimenta. Bonitas em seus vestidos de linho, discretamente maquiadas, sapatos Anabela, meias de seda, verdadeiras ladies. No lado masculino, entre os chefes das mais tradicionais famlias da cidade, o Cel. Joo Maia sentava em sua cadeira de balano, vestido sempre de terno preto, cabelos e barba brancos, como um patriarca saindo do velho testamento em atitude de meditao. Os rapazes mais jovens assistiam a missa do lado de fora da igreja e aproveitavam para lanar olhares lnguidos s mocinhas. Na nave central, lembro-me das moas da famlia Rebello: discretas, educadssimas e contritas. Encantava-me Dlia Correia Machado, contrastando seus cabelos pretssimos e sedosos com o batom vermelho vivo, sempre acompanhada de Teresinha Tupinamb e D. Bela Costa, exemplos de elegncia clssica. Mais ao lado, vejo Alicinha Maia, lourinha, parecendo uma teen-age dos filmes gua com acar da Metro.
Mas, a minha admirao era Dona Vidinha Pires vestida severamente: saia preta e blusa branca, com bolinhas ou estampados pretos. Sobre a blusa a Medalha Milagrosa de Nossa Senhora das Graas. No rosto uma leve camada de p de arroz. Usava um maravilhoso anel de diamante, que, ao contato com alguns raios de sol, refletia pontos dourados no altar lateral. Mais que a beleza do anel, me impressionava o fato de ela us-lo no dedo indicador, naquela poca as senhoras usavam anis apenas no dedo anular.
Vai comear a missa. A liturgia em latim, o cheiro do incenso, a msica do harmnio criavam a atmosfera do mistrio que envolve o sagrado. Padre Marcos, belga, de sotaque carregado, descrevia nos sermes os horrores do purgatrio e do inferno. Depois foi substitudo pelo Padre Quirino. To ameno! To bonito! Ele se parecia demais com o ator Gregory Peck naquele filme As chaves do Reino.
Ite missa est_ Deo Gracias respondiam os coroinhas. Na sada da igreja as famlias se cumprimentavam, combinavam o programa da noite. Em casa nos esperava o ajantarado de domingo: a deliciosa macarronada, o arroz de forno, tutu com lingia, frango assado e a cerveja preta Malzebier. Ah, esqueci: mil sobremesas a escolher.
Tinha vida melhor?


17369
Por Carmen Netto - 6/10/2006 15:09:55
Esta crnica dedicada ao casal Jos Lopes de Aguiar e Maria Anita de Aguiar Lopes.

Manoel Quatrocentos.

Ao ver a fotografia de Manuel Quatrocentos na seo Memria do Jornal de Noticias de 23-08-03 uma onda de ternura tomou conta do meu corao. Chamava-se Manoel Nunes da Silva. No sei porque ganhou a alcunha de quatrocentos e faz parte da mitologia da cidade. Vivia com uma indescritvel liberdade de nada possuir, bastava-lhe o dia e a noite, o machado de cortar lenha e o cinema.
De compleio atarracada, cabelos sempre emplastados de brilhantina, sobrancelhas cheias, olhos verdes cor de folha seca, nariz abatatado, boca grande, dentes pequenos e certos com diastema, trazia nos lbios um sorriso constante: Era alegre e comunicativo, a no ser que o irritassem.
Na pele curtida pelo sol do serto a varola deixou sua marca.
Viveu numa poca pr-foges a gs, numa cidade onde existiam casas com fumaa saindo da chamin, gato no borralho, carroes de lenha cortando suas ruas. A profisso de lenhador era imprescindvel e, entre os lenhadores Manoel Quatrocentos era dos melhores, seno o melhor! Empunhava o machado elegantemente apoiado no ombro, qual uma baioneta, era seu orgulho.
Manoel era bem recebido nas residncias da cidade pela delicadeza do seu modo de ser. Aliado ao uniforme de trabalho blusa de malha, cala de brim, sapatos a la Carlitos, e o inseparvel chapu de palha o sorriso de gato: sutil, indecifrvel, indefinvel.
Punha-se a trabalhar e logo era rodeado pelas crianas da casa, que riam com suas brincadeiras inocentes. Ficava amigo das empregadas domsticas, jogava charme para todas elas, as patroas ficavam de orelha em p, mas Manoel era um cavalheiro.
noite, com luar ou sem luar, com calor ou frio, ou mesmo chuva, l estava nosso amigo a porta de um dos cinemas da cidade. Tinha cadeira cativa em todos eles. Havia uma metamorfose em sua aparncia. Banho tomado, vestia um terno cor de burro fugido, gravata vermelha, cabelos englostorados, usando perfume Royal Briar e um anel de lato esperava o incio da sesso. Se era no Cine So Luiz, ficava no famoso caf de Zim, proseando com a nata da sociedade que fazia daquele tradicional caf, seu ponto de encontro. Tambm aos domingos, usando o mesmo terno, cantava no programa de calouros da rdio ZYD-7. O auditrio dava a maior fora e Manoel com sua ingnua simplicidade vivia seus quinze minutos de fama.
Outro aspecto de sua personalidade chamava a ateno. Criou uma lngua sui generis com palavras em espanhol, ingles ou francs. No seu vocabulrio muchachos, Good bye, au revoir, yes, adios se misturavam ao portugus e a outras palavras que inventava uma em especial olalaite que usava em todas as frases.
Gostava de enganar as pessoas, com as famosas ferradas. Ficava olhando para o cu, chegando algum dizia srio: Olha um disco voador!
___ Onde Manoel?
A pessoa punha a procurar e depois de algum tempo, l vinha a risada e dizia:
Te ferrei! E saa de mansinho com seu passo de gato...
Manoel Quatrocentos espairecia a alegria de estar no mundo apesar de fazer parte do cl dos humilhados e ofendidos, era um mestre a levar nos braos fortalecidos pelo uso do machado, toneladas de sonho e esperana.
Ficou incorporado ao patrimnio afetivo da cidade, virou nome de praa, a dos morrinhos mas segundo o jornal, parece que o nome no emplacou.
Acabaram-se os quintais, os carros de boi, os foges lenha, o vento levou o tempo... A vida s conta histrias dos vencedores. Manoel Quatrocentos a seu modo foi um vencedor. Minha gerao no o esqueceu e se lembrar dele com seu terno cor de burro fugido, roto, amarrotado, mas conservando a honradez e a dignidade de quem o vestiu Manoel Quatrocentos, Manoel Sonhador, Manoel o audaz.




Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
Edes Barbosa
Efemrides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lvio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaas
Isaias Caldeira
Isaas Caldeira Brant
Isaas Caldeira Veloso
Ivana Rebello
Joo Carlos Sobreira
Jorge Silveira
Jos Ponciano Neto
Jos Prates
Luiz Cunha Ortiga
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Luiza Silveira Teles
Maria Ribeiro Pires
Mrio Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elsio
Ruth Tupinamb
Saulo
Ucho Ribeiro
Virginia de Paula
Waldyr Senna
Walter Abreu
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira