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montesclaros.com - Ano 23 - domingo, 4 de junho de 2023


Jorge Silveira    [email protected]
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Por Jorge Silveira - 7/5/2015 9:20:56
Toninho Rebello


Uma das pessoas que mais marcaram minha vida foi Toninho Rebello. Passei a conviver com ele e a conhec-lo bem a partir de 1966, quando de sua primeira passagem pela prefeitura. Ele como prefeito, eu como o reprter indiscreto, ainda jovem, cata de manchetes e "furos" de primeira mo. E esta convivncia, que durou e perdurou por 26 anos, foi para mim um aprendizado incomum e frtil. Com ele aprendi o caminho dos verdadeiros homens pblicos, marcado pela retido,competncia, honestidade e humildade. Mas o trao mais marcante de Toninho era a bondade. Ele era um homem bom de corao, solidrio, que desconhecia o dio.
Como prefeito, foi indiscutivelmente o melhor que Montes Claros j teve em toda a sua histria. Administrou a cidade em duas gestes (67/70 e 77/82) e difcil mensurar qual de sua administrao foi melhor. Da primeira vez, deu a arrancada que transformaria Montes Claros na capital do norte de Minas. Construiu toda a rede de esgoto e guas pluviais no centro da cidade; asfaltou as ruas centrais e perifricas,
que eram todas de piso de terra; construiu o Parque Municipal e o antigo Mercado da rua Joaquim Costa. J na segunda gesto, partiu para obras maiores, como a Avenida Sanitria (que mudou completamente o aspecto urbanstico da cidade), a Rodoviria, o Centro Cultural, o Anel Rodovirio Sul e o Ceanorte. E suas obras no eram de isopor, pois esto a at hoje, firmes e compactas.
Toninho era diferente da maioria dos homens. Apesar de rico, no gostava de ostentao. Sempre foi um homem simples e de uma humildade franciscana. Como homem pblico, tinha um respeito exemplar pelo dinheiro do contribuinte.
Sabia aproveitar bem cada tosto e tinha a conscincia e as mos limpas. Foi prefeito durante dez anos e saiu da vida pblica com o conceito imaculado, como exemplo de retido e honestidade. Muito diferente dos polticos brasileiros, a
maioria manchada pelo estigma da corrupo e do desrespeito aos recursos pblicos.
Em maio deste ano, em uma de nossas conversas, perguntei-lhe se ele no gostaria de ser prefeito novamente de Montes Claros. E ele me respondeu: "eu sou um homem ultrapassado para a poltica de hoje. Eu no sei fazer nada do que estes polticos fazem. Esta poltica no serve para mim".
Ele tinha razo. Afinal, o seu modo de administrar era mesmo diferente. Ele foi um prefeito que sempre doou o seu salrio para entidades beneficentes, que sempre andou no seu prprio carro, que nunca aceitou presentes de empreiteiras, que fazia questo que seus filhos no pisassem na prefeitura para no dar o que falar. Ele era um homem ntegro e que no abria mo dessa integridade. Era um homem acima
qualquer suspeita.
Ele vai fazer falta, no como administrador, pois no voltaria mais prefeitura. Montes Claros cresceu e sua populao hoje, cosmopolita, prefere os populistas e os demagogos. Ele vai fazer falta aos muitos amigos que deixa, aos homens honrados que sabem o quanto vale a honra, aos idealistas que sonham com as grandes causas. Ele vai fazer falta, sim, aos que acreditam que ainda possvel a honestidade na vida pblica mesmo que isto possa parecer um sonho.
Mas Toninho Rebello cumpriu sua misso. Pnncipalmente com sua terra que ele tanto amou e na qual deixou marcas indelveis. Ele se foi, mas seu nome ficar gravado permanentemente na histria de Montes Claros. E tambm na minha memria, enquanto for vivo, pois com ele aprendi muitas virtudes que poucos homens so capazes de transmitir.
(Publicado no Jornal de Notcias, em 11 de novembro de 1992, no dia seguinte da morte de Toninho Rebello)


(ltimo captulo do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 1/5/2015 7:43:17
Uma produtiva viagem a Sertozinho


No era apenas na administrao pblica que Toninho Rebello tinha idias avanadas e projetos pioneiros. Como pecuarista e liderana rural, foi um dos primeiros a adotar a inseminao artificial em sua vacada, quando na regio quase ningum sabia o que era isso (at hoje sua filha Cristina mantm o projeto). Lembro-me bem de uma viagem que fizemos a Sertozinho (SP), para conhecer a Central de Inseminao da Lagoa da Serra, no princpio da dcada de 1970, se no estou enganado.
A viagem foi capitaneada pelo ruralista Dezinho Dias, grande figura com a qual sempre tive amistosa relao - at hoje, vez por outra nos falamos - e composta por fazendeiros de peso na poca: Joo Carlos Moreira, Edilson Brando, Djalma Versiani dos Santos, Jlio Gonalves Pereira, Toninho Rebello, Oswaldo Souto, o veterinrio Tanure (no me lembro o primeiro nome) e este jornalista, na poca editor do Dirio de Montes Claros. Fomos em duas Chevrolet Veraneio, uma dirigida por Dezinho Dias, a outra por Djalma Versiani.
Hoje fcil ir a Sertozinho, via Ribeiro Preto, pela BR.365, que liga Montes Claros a Uberlndia. Vai-se fcil em um dia. No princpio da dcada de 70, ainda no existia a BR. 365, que estava em construo, no governo Rondon Pacheco. Assim, a viagem era longa, passando por Belo Horizonte e da para frente no sei qual era o trajeto. Sei que passamos pela barragem de Furnas, que vi pela primeira vez. Por sinal no apenas eu no conhecia Furnas. Para todos os companheiros de viagem era a primeira vez. Ento, ficamos por muitas horas apreciando a barragem. Sei que perdemos muito tempo e Ribeiro seguinte, onde nos hospedamos no Hotel Bradesco.
Sertozinho fica a pouco mais de 30 quilmetros de Ribeiro Preto. uma cidade que mais parece um jardim - pelo menos era naquela poca. Recordo-me bem que todos ns ficamos extasiados com a beleza da cidade (Toninho, como administrador pblico que era, mais do que todos). Passamos o dia inteiro na Central de Inseminao da Lagoa da Serra, conhecendo todo o processo de coleta de smen, os touros doadores, a sistemtica de anlise e preparao dos smens no laboratrio, enfim, foi um aprendizado e tanto para quem estava se iniciando na prtica da inseminao artificial. Depois visitamos uma fazenda para conhecer o processo de pastoreio conhecido como "voisant". Eram pastagens irrigadas, divididas em piquetes de dois hectares. Quando o gado comia num piquete os outros, irrigados, se recuperavam. Assim, o aproveitamento do capim era excepcional. E o gado ganhava mais de uma arroba de peso por ms. Para a poca, era um processo avanadssimo.
Joo Carlos Moreira, Toninho e Djalma compraram muitas ampolas de smen, de diversos touros nelores. Os outros compraram menos, mas todos compraram. Alguns levaram smen de gado holands leiteiro (se no me engano Jlio Pereira e Tanure). Hoje, no norte de Minas, a inseminao artificial coisa rotineira, naqueles tempos era novidade, uma tecnologia completamente desconhecida. Ento, esta viagem a Central de Inseminao da Lagoa da Serra abriu o caminho para a melhoria gentica do rebanho regional. Foram aqueles pecuaristas, que participaram daquela viagem, os precursores da inseminao na regio.
Como sempre, Toninho foi um dos que lideraram este movimento de melhoria gentica do rebanho regional. Por sinal, todos os que participaram da viagem eram cabeas que pensavam na frente. Enxergavam que o rebanho do norte de Minas em So Paulo, no Paran e no novo eldorado da pecuria brasileira, o centro-oeste, formado por Gois e Mato Grosso do Sul. A partir daquela viagem, da experincia recolhida, de tudo
o que foi visto em questo de melhoria gentica, iniciou-se na regio um novo ciclo para o rebanho do norte de Minas, tanto no gado de corte como no leiteiro. Hoje, o gado produzido aqui no fica nada a dever aos de outras regies. E a impresso digital de Toninho faz parte desse processo.
Mas nem sempre a mente inovadora de Toninho colheu bons resultados. Uma de suas ideias que resultou num fracasso estrondoso foi o bombardeamento de nuvens para fazer chover. Ele era presidente da Rural e o norte de Minas passava por uma seca brava. Ento, ele soube que no Cear estava sendo feito uma experincia indita para provocar chuvas de forma artificial, atravs do bombardeamento das nuvens por avies previamente equipados para tal. O governo do Cear criara at um rgo especial para cuidar do assunto, com recursos da Sudene. Alguns resultados positivos j estavam sendo colhidos, mas em carter ainda muito experimental.
Quando Toninho soube disso, se entusiasmou. Achou que ia resolver o problema da seca na regio com os tais avies da chuva. Encarregou seu ex-secretrio e amigo Jlio Gonalves Pereira como o gerente do projeto, com totais poderes para cuidar do assunto. Coitado do Jlio, arranjou um problemo e ainda acabou ganhando o apelido, nada srio, de "Julinho pingo d`gua", pois apesar de todos os seus esforos - e no foram poucos - os tais avies da chuva foram um fracasso total. No fizeram chover nada, praticamente nada. Bombardearam nuvens penca, mas chuva que bom, de verdade, nada. Com muito esforo e muitas tentativas, o mximo que se conseguiu, algumas poucas vezes, foram miserveis pingos. As nuvens existentes no perodo de estiagem na regio no eram apropriadas para se transformarem em chuva. Mas ainda bem que todos os custos foram pagos pela Sudene e pelo governo do Estado, no custando nada prefeitura ou mesmo Rural.
Infelizmente, o sonho de Toninho de diminuir os efeitos da seca na regio, bombardeando nuvens, acabou se transformando num lindo (e fracassado) sonho de vero. Mas quem acabou mesmo pagando o pato foi Julinho, que nunca mais conseguiu se livrar do apelido!

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 25/4/2015 10:45:29
Quando Montes Claros tinha carnaval


Muita gente que mora hoje em Montes Claros acreditaria que a cidade j teve um dos melhores carnavais do estado, sem dvida o melhor da regio? H bastante tempo, aqueles que gostam de carnal e moram em Montes Claros, tm que buscar a alegria da folia momesca em outras plagas. Quem tem mais recursos vai para o Rio, Salvador, Recife, Porto Seguro, locais famosos por seus quentssimos carnavais. Quem quer gastar menos, se contenta com Januria, Pirapora, Janaria, Pirapora, Janaba ou Gro Mogol. O carnaval em Montes Claros acabou h muito tempo, mas j tivemos carnavais memorveis na cidade, na dcada de 1970, quando Toninho Rebello era prefeito.
Montes Claros j chegou a ter cinco grandes escolas de samba naquela poca, a maior delas a Academia de Vila, sob a batuta do empresrio Geraldino Gonalves Coelho, um entusiasta do carnaval e que ia pessoalmente ao Rio comprar todas as fantasias para a sua escola. A prefeitura financiava uma grande parte, mas muito saa do prprio bolso de Geraldino, que fazia questo de que sua escola fosse sempre a grande campe do carnaval montes-clarense. Alm da escola de Geraldino, mais outros quatro bairros estavam sempre representados no carnaval: Alto So Joo, Roxo Verde, Morrinhos e Santos Reis, todos com suas escolas de samba da melhor qualidade.
Toninho Rebello achava importante que a cidade tivesse seu carnaval, por vrios motivos: 1) para que a cidade no se esvaziasse no perodo momesco, causando prejuzos para o comrcio; 2) para que a populao mais pobre, que no tinha condies de viajar para fora, pudesse tambm brincar seu
carnaval, festa que est no sangue do brasileiro; 3) e para atrair turistas para Montes Claros, o que era importante economicamente para a cidade. Por isso, achava necessrio que a prefeitura desse total apoio aos carnavalescos, para a montagem de suas escolas, pois sem a contribuio do poder pblico no haveria carnaval.
O desfile das escolas de samba se dava na Avenida Coronel Prates, ficando o palanque com as autoridades e com a comisso julgadora bem em frente ao prdio da prefeitura.
Em parte da avenida construam-se arquibancadas para o povo. Por diversas vezes participei da comisso julgadora, a convite da municipalidade, junto com Zez Colares, Reginauro Silva, Marina Lorenzo Fernandez, Lazinho Pimenta, Theodomiro Paulino, Milene Maurcio e outros de quem no me recordo. O julgamento copiava muito o que se v at hoje no Rio, com as notas sendo dadas bateria, comisso de frente, ao samba-enredo, ao mestre-sala, harmonia e assim por diante. A escola de Geraldino Coelho ficava sempre em primeiro: era a mais rica, a com maior nmero de desfilantes, as fantasias mais bonitas e luxuosas. Mas as outras tambm no ficavam muito atrs. Sei que era um luxo s, como diriam os colunistas sociais! Eram mais de quatro mil pessoas envolvidas com as escolas, fora os blocos caricatos.
Toninho gostava de carnaval? No, no gostava. Mas sabia da sua importncia para a cidade, pelas razes j citadas.
Ento, acreditava que era importante a participao do poder pblico municipal. E ele no fazia isso por demagogia ou populismo. A prefeitura financiava as escolas de samba no para agradar eleitores, para angariar votos, mas porque Toninho entendia que a festa era produtiva para o municpio no aspecto econmico, de lazer para a populao e de incentivo ao Turismo. Os prefeitos que vieram depois deixaram o carnaval morrer. Deviam pensar diferente, talvez achando que investir no carnaval fosse jogar dinheiro fora. Quem saiu ganhando foram outros municpios, como Janaba, Gro Mogol, Januria, que passaram a realizar suas festas e a atrair milhares de turistas para suas folias. Pirapora, desde quela poca, j tinha um bom carnaval, famoso em todo o estado.
E o nosso carnaval no era feito apenas das escolas de samba. Muitos blocos caricatos eram formados e tambm participavam dos desfiles na Avenida Coronel Prates. Em seu bom livro "A Baixada, nosso bero" o escritor Joo Afonso Maurcio relembra com saudade os tempos do "Bloco do Chul", que ele formara com alguns amigos e que foi crescendo com o tempo, chegando a ter mais de 600 componentes. Outro bloco famoso que participava de todos os carnavais era o Destak, l do bairro Morrinhos. Havia muitos outros, cada bairro queria ter o seu, e o carnaval na cidade era de fato um dos melhores do estado. No apenas o carnaval de rua, mas tambm o dos clubes, especialmente o do Automvel Clube. Tudo isso acabou por descaso (ou desinteresse) da prefeitura, ficando apenas a saudade dos bons tempos em que Montes Claros tinha carnaval, dos mais animados, graas viso de Toninho, que sabia muito bem que administrar no era apenas fazer obras, mas tambm apoiar a cultura popular. E h algo de mais popular no Brasil do que o carnaval?
Depois que Toninho deixou a prefeitura, Geraldino Coelho lu ou muito para que a prefeitura continuasse participando financeiramente do carnaval da cidade j que sem o apoio da municipalidade as escolas de samba no tinham como se manter. Infelizmente, no conseguiu convencer o prefeito Tadeu Leite, nas mos de quem o carnaval de Montes Claros no sobreviveu. Interessante: no governo do prefeito que era considerado "da elite" (por ser um homem rico) o carnaval, uma festa popular, sempre existiu. J no governo do prefeito considerado "dos pobres", o carnaval morreu. A diferena talvez fosse que um tinha viso, enquanto o outro andava de antolhos.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 21/4/2015 14:47:09
Toninho mais na intimidade


Poucas vezes eu estive a ss com Toninho, enquanto ele era prefeito. Em seu primeiro mandato, eu frequentava muito a prefeitura, entrava para o gabinete (quando ele no estava em reunio privada com algum secretrio ou autoridade), mas em rarssimas oportunidades o encontrava sozinho. Geralmente, o gabinete estava sempre cheio. Alm de Guarinello, Afonso (Prates) era figura sempre constante, na parte da tarde, pois de manh no era de acordar cedo. Toninho gostava muito de conversar com Afonso, que era o homem das ideias luminosas, algumas extravagantes. Quando Afonso sumia, Toninho mandava cham-lo - volta e meia ficava sabendo que ele estava no Automvel Clube, bebericando um bom usque. Eu ficava tentando conversar com Toninho, querendo saber se tinha alguma notcia, mas no era fcil. Ele nunca encontrava tempo. Na maioria das vezes, eu saa do gabinete sem conversar com Toninho. Garimpava as notcias com Guarinello ou com Geraldo Maia. Eles me diziam que Toninho me achava muito menino (eu tinha 23 anos), no confiava que eu reproduziria a noticia de forma correta.
No segundo mandato, at por ter enchido muito em sua primeira gesto, Toninho me dava mais ateno.
Mas a eu no tinha tanto tempo para ir ao seu gabinete, pois j trabalhava na Codevasf e o expediente l era apertado - eu era secretrio executivo do diretor Roberto Amaral, exigente como ele s. Roberto em certos pontos era muito parecido com Toninho, trabalhador em excesso e perfeccionista em tudo que pretendia realizar. Eu costumava me encontrar muito com Toninho aps o expediente, l pelas sete horas da noite, em frente prefeitura. Isso quando ele no ficava preso at mais tarde em alguma reunio. Algumas vezes a gente ia para a Cristal, para descontrair tomando uma cachacinha com coca-cola, sua bebida preferida.
Sentvamos bem l no fundo, para tentar ser pouco incomodados, o que na verdade era quase impossvel. Todo mundo que via Toninho encostava para cumpriment-lo. Alguns, quando mais amigos, sentavam e prolongavam o papo. Apesar de aparentemente carrancudo, Toninho era muito accessvel e extremamente cordial com todos. Ele s era meio bruto (no bom sentido da palavra), casca-grossa, com aquelas pessoas mais prximas. Comigo mesmo, vivia me xingando, detestava ser entrevistado. Tanto que nestas nossas sadas, tudo que ele me falava, fazia questo de deixar claro: "no para ser publicado. No nenhuma notcia". Quando eu publicava alguma coisa que ele no gostava, a bronca era certa.
Muitas vezes, nestes bate-papos descontrados, Toninho deixava transparecer qualidades que geralmente se escondiam detrs das feies muito srias, carrancudas mesmo. Sua educao tinha sido muito rgida (normal naquela poca) e esta rigidez transparecia em seu semblante. Por isso, no raras vezes ele amedrontava as pessoas. Quem no o conhecia bem, geralmente tinha uma impresso errada dele. No fundo, ele era um homem bom, de corao mole, ainda que aparentasse - e geralmente fazia questo de aparentar - ser muito duro.
Ele era sim muito exigente, em tudo, principalmente nas questes de princpios morais e ticos, dos quais no abria mo em nenhuma hiptese. No fundo, era um baita ser humano.
Mas era muito cabea-dura. Difcil de se deixar convencer sobre qualquer assunto, quando tinha pensamento diferente. Muitas vezes eu morria de rir, intimamente, quando escutava ele discutindo com o deputado Humberto Souto, outro que costuma ser o dono da verdade absoluta. Quando os dois tinham pontos de vista diferentes, no havia acordo.
Mas Toninho tinha verdadeira adorao por Humberto, que ele considerava o paradigma do bom poltico. Humberto soube retribuir esta admirao: ajudou demais a administrao de Toninho em Braslia, de todas as formas que pde. Muitos dos projetos aprovados no Programa Cidades de Porte Mdio tiveram o dedo de Humberto nos ministrios. Por isso torci tanto para Humberto quando ele se candidatou a prefeito recentemente. Se eleito, provavelmente seria um administrador quase to bom quanto Toninho. Montes Claros perdeu muito ao no eleg-lo.
Muito rico, Toninho dava pouco valor ao dinheiro. No no sentido de que achasse normal esbanjar. Ao contrrio, era contra qualquer tipo de esbanjamento. Esbanjar dinheiro pblico ento, nem pensar. Rico, ele era um homem simples.
Vestia-se sempre com aquelas calas folgadonas, que o deixavam mais gordo do que realmente era, camisa de algodo sempre para fora da cala, sapatos mal engraxados. No seu primeiro mandato, na dcada de 60, rodava num fusquinha verde, sempre por lavar, mesmo podendo ter um carro da poca (Osmane Barbosa tinha um Itamarati). No segundo mandato, j na dcada de 70, subiu um pouco o padro: rodava num corcel marrom. Mesmo a servio, andava no prprio carro, com gasolina por sua conta. Nas solenidades oficiais, usava um gravata apertando o gog. Quem no o conhecesse, nunca imaginaria que aquele era o prefeito de Montes Claros. Parecia mais um rstico fazendeiro, o que realmente era.
Por causa de Toninho, por t-lo conhecido tanto como pessoa e principalmente como administrador pblico, talvez por isso eu tenha sido sempre to crtico com os prefeitos que vieram depois. Ser que seria exigir demais de todos eles seriedade absoluta com os recursos pblicos? Ser que seria exigir demais uma fiscalizao intensa das obras, para que se tivesse qualidade nos servios?
Ser que desejar que todo prefeito tivesse um planejamento, que pontuasse as obras mais necessrias cidade, seria exigir demais?Desejar que o prefeito no permitisse nunca que a politicagem interferisse na administrao, ser que exigir demais? Exigir que o amor a Montes Claros se sobrepusesse aos interesses pessoais, excesso de exigncia?
Toninho sempre teve tudo isso: respeito absoluto ao dinheiro pblico, fiscalizao severa com a qualidade das obras, planejamento de tudo o que seria feito e do qual no se desviava, nunca permitindo que interesses polticos interferissem na administrao. E seu amor por Montes Claros sempre prevaleceu em todas as suas decises. E para que estes objetivos fossem possveis e religiosamente cumpridos, se cercou sempre de bons assessores, pessoas de confiana e todas elas com o mesmo esprito pblico. Quando se junta tudo isso, difcil dar errado.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 14/4/2015 7:16:32
Os cinco mil postes que no deram votos


Um dos projetos mais ambiciosos de Toninho Rebello em seu segundo mandato, era o de colocar luz em todos os pontos da cidade onde no houvesse iluminao. Na campanha ele prometera que no deixaria um morador sequer de Montes Claros no escuro. E para que a promessa fosse cumprida, seria necessria a colocao de cinco mil novos postes nas ruas sem iluminao, segundo levantamento prvio feito pela prefeitura. Nmero que poderia crescer com o passar do tempo, pois com as indstrias que estavam sendo instaladas na cidade com os incentivos da Sudene, o crescimento de Montes Claros era um dos maiores do Brasil, chegando a atingir ndices de 12% ao ano.
Com este crescimento assustador, muitas ruas dos novos bairros que surgiam no tinham iluminao. E o povo, com razo, reclamava, pois a escurido diminua a segurana.
Toninho sabia que iria custar caro, mas meteu na cabea que ao concluir o mandato, no haveria uma rua sequer na cidade sem iluminao. E quando ele metia uma coisa na cabea, sai da frente, pois no tinha nada que o impedisse de realizar.
Assim, para que o programa fosse cumprido risca, entregou sua implementao para seu secretrio de Administrao, Vivaldo Macedo. Como Vivaldo era vereador licenciado, a implantao do programa sob direo obviamente o ajudaria na reeleio. Pelo menos, era o que pensava Toninho. E Vivaldo se dedicou com intensidade para cumprir a meta estabelecida, tambm acreditando que cada poste instalado lhe renderia pelo menos um voto na urna na hora da reeleio.
Mas para diminuir o natural cime dos vereadores da situao, Toninho deixava que todos tratassem do assunto de iluminao com Vivaldo, definindo onde e quando seriam instalados os novos postes. Assim, cada vereador, se tivesse competncia, teria condies de assumir a paternidade da obra junto aos seus eleitores. Vivaldo no gostava desse critrio estabelecido por Toninho, o que o obrigava a disputar com outros vereadores a paternidade de cada poste instalado. Mas tinha que ser dessa forma, pois Toninho, no abria mo do que havia estabelecido, j que no admitia que a administrao beneficiasse ningum. No fundo ele acreditava que Vivaldo teria mais competncia do que os outros para usufruir eleitoralmente do programa.
Quem na verdade mais se aproveitou do programa, eleitoralmente, foi o lder da oposio, o vereador Luiz Tadeu Leite. Tendo conhecimento da programao da prefeitura e sabendo onde seria instalado cada poste, ele anunciava em seu programa na ZYD-7, Boca no Trombone: "Dona Maria, j fiz o pedido na prefeitura e na prxima semana a luz estar chegando sua rua". Vivaldo morria de raiva, mas nada podia fazer, pois Toninho fazia questo de que a programao assentamento dos postes fosse pblica, aberta assim a todos os vereadores, inclusive os da oposio.
-Mas Toninho, a gente bota a luz e o Tadeu que fica com a paternidade da obra. O povo acredita em tudo que ele fala. - Vivaldo reclamava com Toninho, que replicava: "se vira, Vivaldo, eu no posso proibir um vereador de ter acesso programao da prefeitura, que pblica. Ganha quem tiver mais competncia. E, sinceramente, eu acredito que voc tenha. Afinal, voc quem gerencia o programa".
Os cinco mil postes foram instalados, com Toninho cumprindo em 100% a programao que estabelecera, no deixando uma rua sequer na cidade sem iluminao. Mas Vivaldo Macedo, o secretrio que gerenciara o programa, no conseguiu retornar Cmara Municipal. Teve pouco mais de 300 votos, nem chegando perto dos cinco mil que projetara - um voto para cada poste instalado. Mas no foi questo de competncia, como Toninho acreditava que seria, que competncia Vivaldo tinha de sobra. Foi questo mesmo de voto vinculado (assunto de outra crnica), que derrotou no apenas Vivaldo, mas outros vereadores de expresso, como Deosvaldo Pena e Juarez Antunes, ex-presidentes do Legislativo, e Geraldo Machado Filho e Alberto Fagundes, tambm ex-secretrios de Toninho.
Dos secretrios de Toninho que se candidataram, certos de que a grande administrao realizada os elegeria, apenas Joel Guimares obteve sucesso. Foi um dos cinco eleitos pelo PDS, o partido do governo, massacrado pelo PMDB que elegeu 12 vereadores, entre os quais alguns ilustres desconhecidos na poltica local, como Conrado Pereira, Marcos Pimentel e Osmar Pereira. Elegeu tambm a primeira mulher vereadora, Aparecida Bispo. Mas a derrota de Vivaldo Macedo, o candidato dos cinco mil postes, foi a que teve maior repercusso na imprensa na poca. S no foi maior do que a eleio para prefeito do vereador Tadeu Leite, eleito o chefe do executivo mais jovem da histria de Montes Claros, derrotando o mdico Crisantino Borm, o candidato apoiado por Toninho.
A luz que Toninho espalhara por todos os bairros no fora capaz de iluminar a cabea dos eleitores na hora do voto.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 7/4/2015 9:24:15
Boas ideias que foram sepultadas


Nos dias atuais, os governos estaduais e municipais pensam e alguns at j executam a implantao de Centros Administrativos. Em Minas Gerais, o ento governador Acio Neves construiu em Belo Horizonte, perto de Confins, o Centro Administrativo do estado, local que rene todas as secretarias e entidades pblicas estaduais. A inteno facilitar populao o acesso aos rgos pblicos, j que o cidado encontra
tudo no mesmo local, diminuindo inclusive os custos para a soluo de qualquer problema junto ao estado.
Esta idia j fazia parte, h mais de 30 anos, da programao do ex-prefeito Antnio Lafet Rebello, que pensava em aglutinar no mesmo local no apenas os rgos municipais, mas tambm os federais e estaduais. Tanto que quando foi aprovado o projeto de loteamento do bairro Ibituruna, em sua gesto, a prefeitura exigiu dos proprietrios a doao de uma quadra inteira para o municpio, para que a rea fosse destinada implantao do Centro Administrativo. O local era privilegiado, muito prximo do centro da cidade e de diversos bairros, o que facilitaria o acesso populao.
Infelizmente, os administradores que vieram depois no souberam aproveitar da forma planejada o terreno recebido em doao. Luiz Tadeu Leite, que assumiu logo aps o segundo mandato de Toninho Rebello, construiu o prdio da prefeitura no entroncamento das Avenidas Deputado Esteves Rodrigues e Cula Mangabeira, desapropriando um terreno carssimo, quando j existia a rea para o Centro Administrativo no bairro Ibituruna. O prprio Tadeu e outros prefeitos subsequentes foram doando reas destinadas ao Centro Administrativo para entidades que nada tinham a ver com o poder pblico, como o Rotary, a OAB, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais, a sub-seo da ABO, o Sindicato de Bares, Hotis e Similares, etc.
Desvirtuou-se completamente a ideia original de Toninho Rebello. Pouqussimos rgos pblicos, entre eles a Policia Militar, a AMAMS (Associao dos Municpios da rea Mineira construram ali suas sedes. Muito pouco para o que realmente se pretendia e quem acabou prejudicada foi a populao. A ideia central de se ter no mesmo local todos os rgos pblicos, municipais, federais e estaduais, no se concretizou. Interesses polticos e eleitoreiros prevaleceram e o terreno foi fatiado de acordo com a convenincia dos prefeitos de planto.
Outra ideia avanada de Toninho Rebello e que no foi concretizada por seus sucessores foi a construo do Lago Sul.
Quando prefeito, Toninho projetou dois grandes lagos, na entrada e na sada da cidade. Por que a construo dos lagos? Em primeiro lugar para evitar que reas pantanosas fossem destinadas a loteamentos, o que sem dvida viria causar srios problemas futuros para a administrao municipal. Em segundo lugar, para embelezamento e lazer. E finalmente para melhoria do clima rido da cidade.
O lago Norte Toninho construiu em sua segunda gesto, atravs de convnio com o DNOCS. No conseguiu concretizar a ideia de construir o lago Sul, mas deixou o projeto pronto para seus
sucessores. Infelizmente, onde deveria ser hoje o lago Sul, na antiga Vargem Grande, local pantanoso nos perodos de chuva por causa do crrego Bicano, foi implantado o Bairro Canelas. Como estudos tcnicos indicavam, s chover um pouco mais e o bairro fica totalmente inundado, causando problema para o poder pblico municipal. Problemas que poderiam ter sido evitados se tivesse prevalecido a ideia inicial da construo do lago e no os interesses polticos que aprovaram o loteamento do Bairro Canelas. O
custo para o municpio (e, consequentemente, para o contribuinte) ser muito maior.
Administrar para Toninho era pensar a curto, mdio e longo prazos. Em um curso que fez na Alemanha, patrocinado pelo governo federal para 40 prefeitos de cidades de porte mdio, ele potencializou este conceito. Muitas vezes ele dizia para seus assessores: "no se pode administrar pensando apenas no hoje. Muitas vezes o amanh muito mais importante". Este pensamento gerou o Plano Diretor, o Centro Administrativo, o lago Norte, o Programa Cidades de Porte Mdio, projetos que teriam dado a Montes Claros a oportunidade de crescer com uma qualidade de vida muito melhor para seus cidados.
O Plano Diretor, como se viu antes, foi derrubado no governo do prefeito Moacir Lopes, por presso dos latifundirios urbanos. O terreno para a construo do Centro Administrativo, que o municpio ganhara de presente, foi fatiado por vrios prefeitos para atender interesses eleitoreiros. O profeta do lago Sul foi engavetado (quem ganhou com isso?) e nunca saiu do papel. Em seu lugar, a cidade ganhou mais um bairro e mais problemas. O Programa Cidades de Porte Mdio, parte do que no havia sido implantado por Toninho, foi quase que totalmente desmontado na primeira gesto de Tadeu Leite. Jairo Atade ainda aproveitaria parte dele, mais adiante, construindo a Avenida Jos Correa Machado, que fazia parte do sistema virio do programa.
Depois de Toninho Rebello, nenhum prefeito teve um programa de obras curto, o mdio e o longo prazos, at por sistemtica falta de continuidade administrativa. Athos Avelino iniciou os projetos do Bicano e do Pai Joo originrios do Programa Cidades de Porte Mdio, importantes para o saneamento e o sistema virio da cidade. Ambos foram literalmente abandonados por Tadeu. Assim, a cidade pagou caro o preo da descontinuidade administrativa, de maus gestores que muitas vezes colocaram os interesses polticos e pessoais sempre em primeiro plano. maioria deles faltou um mnimo de viso do futuro, exatamente o que sobrava em Toninho Rebello. Se Tadeu Leite, em seu primeiro mandato, tivesse dado continuidade ao Programa Cidades de Porte Mdio, provavelmente Montes Claros hoje seria outra. Ele preferiu trocar o desenvolvimento planejado pela "administrao mutiro",que muitos apelidaram depois de "mentiro".
Como as boas idias de Toninho e que viraram projetos foram sepultadas em grande parte por seus sucessores, quase sempre por motivos pouco ortodoxos, quem saiu perdendo, e muito, foi a cidade. Compare-se Montes Claros, urbanisticamente, com outras cidades do mesmo porte, e ter-se- a dimenso exata de quanto se perdeu nos ltimos anos com algumas administraes, na melhor das hipteses, de eficincia duvidosa. Outras, completamente deficientes.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79690
Por Jorge Silveira - 2/4/2015 14:52:10
Voto vinculado e a avalanche Tancredo


Nas eleies de 1982, que elegeriam governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores, o governo militar caiu na besteira de criar a vinculao dos votos, acreditando que assim ajudaria os candidatos do partido do governo, o PDS. No que consistia esta vinculao?
Quem votasse num partido, por exemplo, para governador, teria que votar em candidatos do mesmo partido em todos os outros nveis. bom lembrar que era a primeira vez que o eleitor brasileiro iria votar diretamente para eleger o governador de seu estado, direito que perdera a partir do golpe militar de 1964. Na verdade, as eleies de 1966 para governador ainda foram diretas. Como o governo militar teve seus candidatos derrotados em vrios estados, acabou com a eleio direta tambm para escolha dos governadores, que passaram a ser nomeados. Em Minas Gerais, o ltimo governador nomeado foi o deputado federal Francelino Pereira, na poca presidente nacional da Arena, o partido do governo militar. Antes dele, foram governadores nomeados em Minas Rondon Pacheco e Aureliano Chaves. Francelino era deputado eleito com ampla votao no norte de Minas e sua nomeao acabou sendo uma vitria para a regio.
To logo assumiu o governo, Francelino convidou Toninho Rebello, prefeito de Montes Claros, para um encontro no Palcio da Liberdade. Na visita, o governador pediu a Toninho que indicasse um nome para o secretariado que estava sendo formado. Toninho na hora teve um lampejo, sei l, uma intuio, como contaria mais tarde para vrios amigos. Em vez de indicar um nome para secretrio, disse ao governador que preferia indicar o diretor geral do DER e o superintendente regional da Sudenor. Francelino aceitou na hora, pois ficava assim com uma secretaria livre para negociar com outras regies.
Os nomes indicados foram o do engenheiro Carlos Alberto Salgado para a direo geral do DER e do economista Fbio Borm Pimenta para a Sudenor. Salgado havia sido chefe do DER em Montes Claros e, portanto, tinha muitas ligaes com a cidade. Toninho o conhecia bem e sabia que ele poderia ajudar muito no programa de obras da prefeitura.
Como de fato ajudou. Na sua gesto, o DER construiu o Anel Rodovirio ligando as BRs 135 e 365. Vrios convnios foram firmados com a prefeitura, para fornecimento de material para o asfaltamento das ruas, o que gerou uma economia muito grande para o municpio.
A Sudenor era a superintendncia que fazia a ligao do estado com a Sudene. Todos os interesses da regio junto autarquia federal passavam pela Sudenor. Com um montes-clarense na direo da entidade, a regio passou a agilizar seus projetos em Recife e todos os meses diversos empreendimentos eram aprovados principalmente para Montes Claros. Atravs de gestes da Sudenor, a Superintendncia de Desenvolvimento do Nordeste financiou vrios projetos de telecomunicaes e de energia do norte de Minas. Tendo nas mos o DER e a Sudenor, o norte de Minas ganhou muito mais do se tivesse tido um secretrio de estado, que muitas vezes no pode privilegiar uma determinada regio, pois sofre presso dos deputados de todo o estado. Assim a deciso de Toninho, de trocar uma secretaria por dois rgos de segundo escalo,
acabou beneficiando Montes Claros e a regio muito mais. Intuio, sabedoria, golpe de mestre, nem Toninho nunca soube explicar direito. O que ele sempre soube que sua administrao, e, consequentemente, Montes Claros, ganhou muito com a indicao de Salgado e de Pimenta.
Mas na verdade, no era este o tema que iramos abordar. Como dissemos no incio, em 1982 o pas teria pela primeira vez, depois de muitos anos, eleio direta para governador. E com voto vinculado. E para azar do partido do governo, o PDS, o candidato da oposio em Minas, pelo PMDB, era Tancredo Neves, o grande lder poltico da oposio ao governo militar, junto com Ulisses Guimares. Tadeu Leite, que era vereador em Montes Claros, e com um programa de rdio muito ouvido pela populao dos bairros,; vislumbrou
o que todo mundo previa: Tancredo iria promover um massacre em Minas. E como o voto era vinculado, levaria com ele todos os candidatos do PMDB, em todos os nveis. Para enfrentar Tancredo, o PDS escolheu o ex-ministro Eliseu Resende, que seria at um candidato forte em outras circunstncias.
Mas no contra Tancredo.
Como se previa, foi um massacre no apenas em Minas, mas em todo o Brasil. O PMDB elegeu 23 governadores. Em Montes Claros, mesmo tendo feito a maior administrao de toda a histria do municpio, Toninho no conseguiu eleger seu sucessor, o vice-prefeito Crisantino Borm. Na avalanche provocada por Tancredo, o PMDB elegeu Tadeu como prefeito, Jos da Conceio a deputado estadual (25 mil votos em Montes Claros) e 12 dos 17 vereadores Cmara Municipal.
De quebra, elegeu ainda o deputado federal Manoel Costa, um ilustre desconhecido que Tadeu apoiou (e que financiou sua campanha). Costa teve cerca de 22 mil votos s em Montes Claros. Com isso, quase derrotou o deputado Humberto Souto para a Cmara Federal, o que seria outra derrota terrvel para Toninho, pois Humberto era seu amigo pessoal e um dos baluartes de sua administrao, conseguindo liberar tudo e mais alguma coisa em Braslia para ajudar o desenvolvimento de Montes Claros.
O drama que Toninho viveu com a provvel derrota de Humberto Souto o tema da nossa prxima crnica. Mas o verdadeiro terremoto que Tancredo Neves provocou em todo o estado, inclusive em Montes Claros, na garupa do voto vinculado, tinha que ser relembrado, at para justificar a derrota que Toninho sofreu em sua sucesso, mesmo depois de uma administrao fora de srie.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79684
Por Jorge Silveira - 30/3/2015 16:15:36
A preocupao de Toninho era Humberto


No precisava ser nenhum futurlogo para prever que as eleies de 1982 seriam extremamente difceis para os candidatos do partido do governo, o PDS. Com o movimento nacional em favor das eleies diretas para presidente, o PMDB de Ulisses e Tancredo se fortalecera demais. E com o fim do AI-5 e a Lei da Anistia, o governo militar do presidente Figueiredo praticamente agonizava. O movimento das Diretas J levaria milhes s ruas das grandes capitais no ano seguinte e dava para sentir no ar a vontade do eleitorado de sepultar definitivamente o regime dos generais.
O prefeito Antnio Lafet Rebello no condenava o regime militar. Tendo sido prefeito por duas vezes durante o perodo em que o pas havia sido comandado pelos generais, no podia se queixar do governo federal, de quem sempre tivera o apoio para a implementao de obras fundamentais ao municpio de Montes Claros. Em seu segundo mandato, de 1977 a 1982,mudara completamente o aspecto da cidade com o Programa Cidades de Porte Mdio, criado pelo governo federal, e que destinava recursos a fundo perdido, atravs do Banco Mundial, para cidades mdias consideradas estratgicas para o desenvolvimento do pas. Montes Claros era uma delas.
Sem os recursos a fundo perdido do Programa Cidades de porte Mdio a prefeitura nunca teria conseguido construir a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, de uma importncia vital para o desenvolvimento da cidade. A avenida tinha vrias finalidades, entre elas o saneamento do crrego Vieira, esgoto a cu aberto que cortava praticamente toda a cidade.
Quando se projetava a construo da avenida, at os prprios projetistas - Criaco, Machado, e outros - a consideravam um sonho. Mas um sonho que podia ser sonhado, pois havia os recursos, financeiros e tcnicos, para sua construo. Toninho se debruava nas pranchetas junto com os tcnicos e imaginava o que seria Montes Claros depois de pronta a obra. Ele sabia que seria a maior obra dos ltimos cem anos de histria de Montes Claros.
Mas Toninho Rebello era um homem muito pragmtico.
No se deixava levar por iluses. Ainda que no tivesse alma de poltico, conhecia bem o sentimento do povo. E sentia, nas eleies de 1982, que o partido que representava o governo militar, o PDS, seria irremediavelmente derrotado. Sabia que as muitas obras que realizara - e a Avenida Sanitria era a maior delas e praticamente j concluda - no seriam suficientes para ajudar na eleio de Crisantino Borm, seu vice-prefeito e candidato sua sucesso. Com a vinculao dos votos promovida pelo governo, o tiro iria sair pela culatra. A medida, que visava favorecer os candidatos governistas, tinha sido na verdade um tiro no p. Em Minas, com Tancredo Neves candidato pela oposio ao governo do estado, estava escrito nas estrelas o terremoto que engoliria os candidatos do PDS.
A preocupao de Toninho era com o deputado federal Humberto Souto, a quem dedicava uma especial amizade e afeio. Humberto tivera participao fundamental no sucesso de sua administrao, na liberao sempre constante dos recursos em Braslia. No pensamento de Toninho, a Humberto ele teria que dedicar todos os seus esforos para ajud-lo em sua reeleio. Com este pensamento, sem que Humberto
soubesse, Toninho reuniu alguns amigos em sua casa, para pedir a todos especial empenho na busca de votos para a reeleio de Humberto. Lembro-me bem que nesta reunio estavam Jlio Pereira, Jos Gomes, Geraldo Gomes, Aristteles Ruas (que era candidato a deputado estadual), Ciraco, Waltinho, Machado, entre outros.
No dia seguinte, eu e Jlio Pereira resolvemos ir Fbrica de Cimento pedir uma ajuda a Joo Bosco, diretor da Matsulfur, para a campanha de Humberto, que at o momento se mostrava de uma pobreza homrica. Bosco, que gostava muito de Humberto, se disps imediatamente a ajudar. Disse-nos que mandssemos confeccionar camisas, bons, chaveiros, o que fosse preciso para a campanha, e depois envissemos a conta para a Matsulfur.
Samos da fbrica numa alegria s, para a reeleio de Humberto. Resolvemos ir at a casa do deputado para lhe dar a boa notcia. Foi quando quebramos literalmente a cara. Ao darmos a notcia para Humberto, recebemos a seguinte admoestao:
-Por acaso eu autorizei vocs a pedirem alguma coisa em meu nome? Voltem ao Joo Bosco e digam a ele que agradeo muito a boa vontade, mas que dispenso a ajuda. Pensem bem se posso aceitar isso? E se depois de reeleito Matsulfur vier me fazer algum pedido, como farei para recusar caso eu no me sinta vontade para no atender? Vocs no tm juzo. So dois irresponsveis. Querem acabar comigo. Pensem bem se vou ficar nas mos de empresrios?
Este era o deputado Humberto Souto. E era exatamente por ele ser assim que Toninho estava preocupadssimo com sua reeleio. Toninho o conhecia muito bem e sabia que Humberto poderia at perder as eleies, mas no abriria mo nunca de seus princpios. Humberto acabou se reelegendo. Na rabeira do PDS, mas chegou l. Em Montes Claros, Tadeu ganhou a eleio, derrotando Crisantino. Tancredo se elegeria governador, preparando o caminho para a presidncia. O que se daria dois anos depois, na ltima eleio indireta para o maior cargo da Repblica.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79663
Por Jorge Silveira - 27/3/2015 7:52:32
Quem bebeu no pode comungar


A campanha de 1982 corria solta. Todo mundo sabia que a eleio seria dificlima para os candidatos do PDS, partido do governo militar, que praticamente agonizava. Tancredo, candidato a governador pelo PMDB e j se preparando para a candidatura a presidente em 1984, liderava com folga as pesquisas em Minas. Toninho Rebello, dentro de suas limitaes polticas, tentava de todas as formas ajudar aos seus companheiros de partido, mas sem misturar a administrao com os interesses eleitorais. Alm de Crisantino Borm, seu vice e candidato sua sucesso, ele queria eleger Chico Pereira para a Assemblia Legislativa.
Toninho tinha como uma de suas qualidades a de ser muito agradecido a quem o ajudara na administrao. Chico Pereira tinha sido seu secretrio, na Procuradoria da prefeitura, e Toninho fazia questo de ajud-lo como fosse possvel na sua campanha para se eleger deputado estadual. Da mesma forma que torcia pela eleio de outros trs secretrios que disputavam vaga na Cmara Municipal: Vivaldo Macedo, Joel Guimares e Iran Rego. L no seu modo de pensar, Toninho acreditava que quanto melhor fosse sua administrao, maior seria a ajuda aos companheiros. Ledo engano. Poltica brasileira geralmente no funciona dessa forma. Funciona, normalmente na base da troca. Do toma l, d c. Exatamente o que Toninho nao fazia de forma alguma.
Num domingo, festa religiosa em Santa Rosa de Lima, sai uma grande turma para o distrito, caa de votos. Santa Rosa, ncleo eleitoral de Z Avelino, era local de votao garantida para os candidatos do PDS. Cludio Pereira, filho de Z Avelino, era candidato a vereador. Comanda a viagem ao distrito, acompanhado de Toninho, Crisantino, Chico Pereira, Aristteles, Jlio Gonalves e mais um bocado de gente. Fomos no bolo, a convite de Toninho e Aristteles. Comcio em distrito no dava para perder, era uma festana de primeira.
L chegando, ainda pela manh, bem cedo, comeou o priplo por todas as casas do distrito. Em cada residncia, no meio da petio de votos, saa sempre um caf gordo, acompanhado de muito biscoito e tira-gosto. Para quem preferisse uma boa pinguinha, Santa Rosa de primeira, produo dos Avelinos. Chico Pereira, querendo agradar o eleitor dono da casa, hora nenhuma dava bola para o caf. Preferia sempre a cachacinha, para aguar o palavrrio poltico e a petio de voto. Afinal, noite teria comcio e era preciso estar desinibido e com a oratria concatenada. E j haviam lhe dito que recusar uma boa pinga geralmente magoava o dono da casa, o que podia resultar em perda de votos.
S que as visitas no acabavam nunca. Saia de uma casa entrava em outra. E mais caf, mais tira-gosto, mais pinga. E Chico, sempre querendo agradar o dono da casa, no rejeitava o gole oferecido, mesmo porque a cachaa era de primeira. Arranjava sempre algum para acompanh-lo e a no ficava s numa. Ia para a segunda, a terceira, a quarta. Se a demora fosse grande, entrava na quinta, na sexta e por a continuava.
Desacostumado com cachaa, l pelas tantas, mais de meio-dia, ele j estava pra l de Bagd, como se diz na cartilha dos bons de copo. Afinal, no tinha costume de beber tanto. At que bebia, mas socialmente. E a hora do comcio ainda estava longe, seria s noite. Antes ainda teria a missa para a padroeira, afinal era festa da igreja.
tardinha, sol quase se pondo, todo mundo para a igreja. Hora da missa, celebrada pelo padre Joo, irmo do vereador Hamilton Lopes. Nestas alturas do campeonato, Chico j no se aguentava de p, depois de algumas garrafas da boa pinga. Mas estava l firme na missa, ao lado de Toninho, Crisantino e Z Avelino, cumprimentando os eleitores. At que chega a hora da comunho. Chico se levanta, cambaleante, e entra na fila para receber a hstia. Era bom catlico e sempre comungava. Mas Padre Joo, percebendo o estado dele, adverte aos fiis:
- S podem comungar aqueles que se confessaram antes.
Quem no se confessou no pode receber o corpo de Cristo, vocs sabem disso.
E Chico l na fila, esperando sua vez. Cambaleando, quase caindo, mas aguentando firme. O padre Joo repete ento a advertncia: "quem no confessou no pode comungar, Deus no perdoou seus pecados. Quem no tiver confessado, favor sair da fila e voltar para seu lugar". E olhava para Chico de forma bondosa, como de seu feitio, mas indicando que a advertncia era para ele. Mas Chico no se tocava. Continuava l firme na fila, j quase chegando a sua vez. Estava j fazendo boca para receber a hstia quando o padre Joo no aguentou e gritou:
- No podem comungar quem no confessou e tambm quem andou bebendo antes da missa. Apesar de Deus receber a todos os seus irmos, lugar de bbado no na Igreja. Seu Chico Pereira, o senhor podia sair da fila e voltar para seu lugar. O senhor mal est conseguindo ficar de p. No pode comungar.
Chico no comungou como tambm no participou do comcio mais tarde. A cachaa era boa, mas fez um efeito devastador. Depois da missa, ele caiu na cama e dormiu como um anjo, mesmo sem ter conseguido comungar. S acordou no dia seguinte, numa ressaca de fazer d. Apesar da bebedeira, a visita a Santa Rosa foi produtiva. Chico teve l uma boa votao, mas insuficiente para eleg-lo. O que deixou Toninho muito contrariado, talvez at mais contrariado do que o prprio Chico Pereira, pois ficava aquela dorzinha na conscincia de no ter trabalhado o bastante para a eleio do companheiro. No era o caso, mas Toninho era assim mesmo.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79642
Por Jorge Silveira - 24/3/2015 9:06:48
O poltico com que todos sonhamos


J foi dito aqui, nestas memrias, por diversas vezes, que Toninho Rebello no tinha grande vocao poltica. Seu negcio era administrar, colocar em prtica seu grande amor por Montes Claros. Em questo de administrao pblica, ele era irredutvel. No saa uma linha de seu programa de governo. No atendia pedidos polticos, fossem de vereadores, fossem mesmo dos chefes polticos que o haviam escolhido candidato nico. Ele dizia - e com razo - que comeasse a atender um aqui, outro ali, seu programa de governo, onde tudo estava bem delineado - e bem programado - acabaria no sendo cumprido, virando uma colcha de retalhos, em prejuzo da cidade.
Esta forma de administrar acabou prejudicando-o demais em termos polticos. Em seus dois mandatos - 10 anos de governo - Toninho no conseguiu eleger algum de sua preferncia (ou de sua escolha), a no ser o deputado federal Humberto Souto, que na verdade tinha voo prprio, sendo votado em toda regio, dependendo muito pouco do apoio de Toninho. Humberto precisava muito dos votos de Montes Claros, seu principal reduto eleitoral, mas para ser votado no municpio no dependia de Toninho. Tinha seu eleitorado
cativo, pelos muitos servios prestados regio.
Fora Humberto, Toninho perdeu a eleio com todos os candidatos que apoiou. Em sua primeira sucesso - em 1970 - o candidato apoiado por ele era o mdico e historiador Hermes de Paula, por uma sublegenda da Arena. E o candidato do MDB, de oposio, era o arquiteto Joo Carlos Sobreira. Apesar da administrao portentosa que realizara o candidato apoiado por Toninho perdeu a eleio para Pedro Santos, que teve no ex-prefeito Simeo Ribeiro, candidato ento a vereador, seu grande porta-voz.
Em seu segundo mandato, em que realizou uma administrao ainda mais admirvel, implantando as maiores obras da histria de Montes Claros, Toninho voltou a no eleger seu sucessor, seu vice-prefeito Crisantino de Almeida Borm, tambm um excelente candidato. Perdeu para o vereador Luiz Tadeu Leite, que em 1976 tinha sido o candidato mais votado de Montes Claros para a Cmara Municipal, turbinado por um programa na rdio ZYD-7, que ele comandava pelas manhs. Mas o que elegeu mesmo Tadeu prefeitura acabou sendo o o tisunami Tancredo Neves e o voto vinculado (temas de outra crnica). aquele velho ditado: Tadeu estava no lugar certo na hora certa. E soube pegar o cavalo arreado.
Mas no foi apenas com seus candidatos sua sucesso que Toninho sairia derrotado. Em 1982, apoiou entusiasticamente para a Assemblia Legislativa o seu secretrio (procurador) Francisco Jos Pereira. Perdeu fragorosamente e ainda viu seu opositor, Tadeu Leite, eleger para deputado pelo PMDB, com mais de 25 mil votos em Montes Claros, o ex-vereador Jos da Conceio Santos. Toninho perdeu duplamente, pois apoiara tambm, em segundo plano, para deputado estadual o vereador Aristteles Ruas - seu lder na Cmara
Municipal - que tambm foi derrotado. s derrotas de Crisantino, para prefeito, e de Francisco Jos Pereira e Aristteles Ruas, para deputado estadual, somaram-se ainda as de Vivaldo Macedo e Iran Rego, ambos secretrios municipais e amigos pessoais de Toninho, para a Cmara Municipal. Toninho no tinha m esmo qualquer cacoete poltico.
Quando enfatizamos que ele apoiou entusiasticamente a candidatura de seu secretrio Francisco Jos Pereira, abra-se um parntese: em momento algum usou ou deixou algum usar a prefeitura para beneficiar seu candidato. No empregou ningum, no asfaltou qualquer rua atendendo pedido poltico, no patrolou nenhuma estrada rural, no delegou a paternidade de nenhuma obra para candidato de sua preferncia. Nunca nenhum funcionrio ou veculo da prefeitura foi usado na campanha de Chico Pereira ou Aristteles Ruas. Eles eram os candidatos do prefeito, mas da porta da prefeitura para fora.
Quo diferente dos prefeitos que vieram depois, que se elegeram deputado, elegeram a mulher, elegeram o filho, sem nenhum pudor ou constrangimento.
Como explicar quais as razes de um prefeito de tantas obras, considerado quase unanimemente como o maior de todos, no conseguir eleger seus candidatos? A explicao simples e bvia: ele nunca permitiu que qualquer centavo pblico fosse utilizado em favor da eleio de algum. Toninho nunca misturou administrao pblica com poltica. Com razo passou histria como grande administrador e pssimo poltico. Na verdade, ele no era pssimo poltico. Simplesmente no era poltico, pelo menos o poltico tradicional, que todos conhecemos. Talvez fosse o poltico com o qual todos sonhamos. Mas que, infelizmente, pea rarssima na poltica brasileira.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79622
Por Jorge Silveira - 22/3/2015 7:47:33
O esprito democrtico de Toninho


O prefeito Antnio Lafet Rebello governou Montes Claros, em seus dois mandatos (1967/1970 e 1977/1982) durante o regime militar. Apesar de muitas vezes at certo ponto intransigente, extremamente disciplinado e exigente, em ocasies at meio "ditador", Toninho na verdade era um democrata por natureza. No aparentava, mas era. Tive provas disso em muitas ocasies. Uma delas, conhecida de todos, foi quando escolheu o jovem vereador Pedro Narciso, do MDB e de tendncias esquerdistas, para exercer a liderana de seu governo na Cmara Municipal. Toninho era reconhecido como de direita, at por ter sido antigo udenista e por ser fazendeiro rico, mas se enquadraria melhor como um social-democrata.
O MDB tinha quatro vereadores e a Arena, amplamente majoritria, contava com onze. O prefeito Antnio Lafet Rebello, ento, no necessitava do MDB para aprovar seus projetos. Ainda assim, indicou Narciso para seu lder, atitude inexplicvel para muitos, mas o que era um forte indicativo de sua natureza democrtica. Com sua indicao, impediu que a minoria fosse esmagada pela maioria, criando um clima beligerante na Cmara Municipal, o que naquele momento de reconstruo da cidade, seria pouco producente. Sua atitude chegou at a criar alguns cimes, naturais, entre os vereadores de sua bancada, mas ele sempre soube contornar os problemas com sua indiscutvel liderana.
Mas a maior prova de seu esprito democrtico aconteceu em seu segundo mandato, quando sofreu uma campanha at certo ponto difamatria do vereador Luiz Tadeu Leite (que em 1982 se elegeria prefeito). Tadeu tinha sido o vereador mais votado da cidade, com mais de trs mil votos, conseguidos graas a um programa de muita audincia que comandava na ZYD-7, na poca a nica emissora de rdio da cidade. O programa "Boca no Trombone", no horrio da manh, era ouvido em toda a cidade, principalmente nos bairros mais perifricos (na poca a televiso ainda era produto de luxo).
No tinha obra que Toninho fizesse que Tadeu no criticasse. A Avenida Sanitria (Deputado Esteves Rodrigues), em construo, para o vereador emedebista no passava "de uma avenida de pista dupla para os ricos passearem de carro". O novo terminal rodovirio, tambm em construo, na viso de Tadeu s serviria para os ricos, pois de to longe, os pobres no teriam como pagar txi para chegar ao local. Populista e demagogo, Tadeu visitava os bairros todos os dias, anotava as queixas da populao, e fazia cobranas em seu programa, de forma veemente. Muito inteligente e profundo conhecedor da programao de obras da prefeitura, cobrava sempre o que ele sabia que logo seria feito e assim ficava com o mrito da obra. "Viu, dona Maria, foi s a gente pedir e a prefeitura j resolveu o problema. Me espera a que amanh vou tomar um cafezinho com a senhora", era o que mais se ouvia em seu programa. Toninho trabalhava e Tadeu ganhava votos, engabelando o povo.
Elias Siufi, diretor da ZYD-7, vrias vezes procurado por pessoas ligadas administrao municipal, indignadas com a campanha difamatria que Tadeu fazia contra Toninho, preferia no tomar qualquer providncia. Ele no entendia as crticas de Tadeu como ataques gratuitos a um governo que podia ter seus defeitos, mas que trabalhava incansavelmente para o desenvolvimento do municpio, como nenhum outro at ento trabalhara. Tadeu na verdade fazia campanha poltica abertamente, nunca jornalismo srio e independente. Elias, mesmo amigo de Toninho, preferia prestigiar seu funcionrio, cujo como prefeito pagaria o favor, colocando Elias como seu secretrio (gesto 2008/2012).
Com as eleies se aproximando, assessores de Toninho sentiam que Tadeu crescia e incomodava cada vez mais com suas crticas mentirosas. Comearam ento a buscar formas de calar o radialista. Como Elias no resolvia o problema preferindo apoi-lo incondicionalmente, chegaram concluso de que o jeito seria apelar para o empresrio Joo Saad, presidente e proprietrio do grupo Bandeirantes, do qual a ZYD-7 fazia parte. O canal para chegar at Saad seria o governador Francelino Pereira, amigo de Toninho e interessado direto nas eleies de 1982.
Para comunicar a Toninho o que havia sido decidido, convocou-se uma reunio na prefeitura, no gabinete do prprio prefeito. Participaram alguns secretrios municipais (Guarinelo, Vivaldo, Joel, Chico Pereira e Ubirajara Toledo), vereadores da situao (se no me engano, Augusto, Aristteles e Geraldo Machado) e o vice-prefeito Crisantino Borm. Quem abriu a reunio foi Vivaldo Macedo, explicando que no era possvel continuar aceitando que Tadeu permanecesse desmoralizando a administrao em seu programa de rdio, sem que algo fosse feito. Era preciso tomar uma providncia para calar as mentiras.
A soluo que encontramos foi ir diretamente ao Joo Saad, para que ele interfira e mande a ordem para demitir Tadeu. Ele no vai deixar de atender a um pedido do governador. o jeito de ficarmos livres desse bandido, que est crescendo as asas custa das nossas obras. Tudo o que a gente faz ele assume a paternidade. E o povo acredita. O que voc acha, Toninho? Podemos tocar a idia para frente?
A veio a surpresa geral. Toninho no concordou. Ao contrrio, deu uma tremenda bronca em todo mundo: - quer dizer que vocs querem incomodar o governador, fazer um pedido absurdo desse para o Joo Saad, para calar um menino que est a apenas trabalhando, certo ou errado, mas trabalhando. Ele vereador e jornalista, tem o direito de criticar. Se acharmos que ele est errado, e tenho certeza de que est, temos que ter a competncia para mostrar ao povo que ele um demagogo e mentiroso. No podemos deixar que ele seja mais competente do que ns. Mas tomar-lhe o emprego no correto. At porque ele ficar como vtima, com inteira razo.
Reunio encerrada, todo mundo enfiou o rabo entre as pernas e cada um foi cuidar de suas obrigaes. Por causa do esprito democrtico de Toninho, o que fazia parte de seus princpios, Tadeu continuou com seu programa de rdio, mentindo e engabelando o povo. Por sinal, mentiria e enganaria o povo com seu discurso populista por muitos e muitos anos. Eleger-se-ia prefeito por trs vezes, do que se pode concluir que o povo gosta mesmo de ser enganado. Alm de prefeito, Tadeu foi tambm deputado federal e estadual, e secretrio estadual de Justia, no governo Itamar Franco, se no me falha a memria. Teve uma trajetria poltica invejvel. E hoje eu me pergunto: ser que tudo isso teria sido possvel se naquele dia Toninho tivesse concordado em pedir a Joo Saad a cabea de Tadeu?

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79608
Por Jorge Silveira - 19/3/2015 7:12:13
O plano diretor que virou vilo


Quando encerrou seu primeiro mandato, no incio de 1971, Toninho Rebello no conseguira eleger seu sucessor.
Teve que passar a prefeitura para Pedro Santos, que derrotara Hermes de Paula, candidato que teve o seu apoio, e Joo Carlos Sobreira, que disputou pelo MDB. Como costuma ocorrer quase sempre, o povo preferiu eleger o candidato com menos qualidades para administrar o municpio, que j fora prefeito uma vez e que tivera uma administrao das mais desastradas, para dizer o mnimo. Pedro Santos mostrara, de novo, que era um mito difcil de ser batido - s seria batido seis anos depois, derrotado pelo prprio Toninho Rebello.
O grande marqueteiro - se assim pode ser classificado - da campanha de Pedro Santos foi o ex-prefeito Simeo Ribeiro Pires, ento candidato a vereador. Orador de primeirssima linha, Simeo tomou o Plano Diretor que Toninho aprovara j no final do mandato como o tema mais importante da campanha. E de comcio em comcio, por toda a cidade, foi destroando o Plano Diretor, dizendo em alto e bom som, que se implantado o programa iria tomar casas e terrenos de todo mundo. E que seu custo era astronmico, o que fatalmente iria quebrar a prefeitura, o que no era verdade. Mas o povo, mal informado sobre o Plano Diretor, acreditou na falcia, no grande tribuno que dominava os palanques, e derrotou o candidato de Toninho. Juntando a rejeio ao Plano Diretor popularidade do mdico Pedro Santos, a eleio foi um passeio.
E bom lembrar que o MDB, que disputava sua primeira eleio municipal, tinha tambm um excelente candidato, o arquiteto Joo Carlos Sobreira.
Poucos dias aps passar o mandato a Pedro Santos, Toninho Rebello concedeu uma entrevista ao Dirio de Montes Claros, fazendo uma anlise da derrota de Hermes de Paula.
Reconheceu que no ter divulgado antes as grandes qualidades do Plano Diretor para o desenvolvimento da cidade tinha sido um erro fatal. Mas Toninho era avesso publicidade, que ele considerava dinheiro jogado fora. Desta falha foi que Simeo soube se aproveitar com extrema maestria. Se o povo desconhecia o que era o Plano Diretor, fcil seria desmont-lo.
Pode-se dizer, ento, que o melhor projeto de Toninho acabou sendo o principal responsvel pela derrota de Hermes de Paula. Sim, ele considerava que o Plano Diretor tinha sido a maior de suas obras, nos quatro anos de mandato, pois era o programa que iria realmente transformar a cidade em metrpole.
Hoje, quarenta anos depois, se se analisar o Plano Diretor aprovado naquela poca com iseno e tecnicamente, ver-se- que Toninho tinha muita razo. Parece at que ele antevia, mediunicamente, o caos em que se transformaria o trnsito na cidade alguns anos depois. Se como se previa no Plano Diretor as ruas centrais tivessem sido alargadas e construdas as avenidas previstas, a cidade hoje provavelmente seria outra. Vale lembrar que o Plano Diretor nunca foi executado: quatro anos depois, seria derrubado pela Cmara Municipal a pedido do prefeito Moacir Lopes. Prevaleceu, no caso, o interesse dos grandes
proprietrios de reas centrais, que foram, na verdade, os que mais pressionaram para a derrubada do Plano Diretor.
Como lembrou Toninho naquela entrevista concedida ao Dirio, o Plano Diretor no se restringia ao alargamento das ruas centrais. Era muito mais do que isso. Era um projeto para planejar e coordenar o crescimento da cidade nos prximos anos, em varias reas: na sade, na educao, no sistema virio, na aprovao de novos loteamentos, no saneamento bsico, na distribuio e aplicao dos recursos pblicos, na arrecadao de impostos. Numa prefeitura que nunca tinha tido nenhum planejamento - isto numa cidade que crescia por minuto - o Plano Diretor vinha suprir esta grave deficincia, obrigando os prximos prefeitos a seguirem um norte, cujo objetivo era o desenvolvimento planejado do municpio.
E foi por suas qualidades e no por seus defeitos que o Plano Diretor foi derrubado. Como ele colocava o interesse pblico, o interesse da cidade acima dos interesses privados, especialmente dos latifundirios urbanos, foi por isso, s por isso que ele foi derrubado, deixando de ser lei. Quem perdeu, v-se hoje claramente, foi a cidade, que cresceu desordenadamente, com os problemas se sobrepondo uns aos outros, diferentemente de outras cidades do mesmo porte, que tiveram mais viso - e melhores administradores - e por isso no chegaram ao ponto que Montes Claros chegou. E o pior de tudo que, depois do Plano Diretor de Toninho que foi derrubado e em nenhum momento executado, nunca mais o municpio teria outro projeto pelo menos semelhante que planejasse e coordenasse o crescimento da cidade. Houve outros "planos diretores", mas nenhum com a mesma densidade e profundidade.
Sem nenhum ressentimento, mas com a viso de futuro que tinha, Toninho previu naquela poca, incio da dcada de 70: "Montes Claros vai perder muito sem o Plano Diretor.
Nenhuma cidade como a nossa, do nosso porte, pode crescer sem organizao. E esta organizao tem que partir do poder pblico". Como ele tinha razo! Neste nosso trnsito to congestionado de hoje, imagine as ruas Dr. Santos, Camilo Prates, Dr. Veloso, Padre Augusto e outras centrais, com mais seis metros de piso (trs de cada lado da rua). Imagine uma larga avenida partindo da Cel. Prates at a rua Belo Horizonte. Realmente, a cidade seria outra. Visto desta forma, o Plano Diretor realmente era para ter sido a grande obra de Toninho para o futuro de Montes Claros. Pena que interesses marginais sobrepuseram ao interesse coletivo. Nunca mais o municpio teria outro prefeito que pensasse e administrasse a cidade com a mesma viso de futuro, pensando 20/ 30 anos na frente.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 15/3/2015 7:47:51
Uma grande viso de futuro


O primeiro prefeito de Montes Claros a se preocupar efetivamente com o desenvolvimento dos distritos no municpio foi Antnio Lafet Rebello. Antes dele, a nica preocupao da prefeitura com a zona rural era o patrolamento e o encascalhamento das estradas. O que se dava, geralmente, uma vez por ano, logo aps as chuvas (quando se dava). Com Toninho, quase todos os distritos ganharam escola pblica, energia, gua encanada, posto de sade, telefone pblico e sinal de televiso. E (supremo luxo) asfaltamento nas ruas principais.
Toninho costumava dizer que o homem abandonava o campo em busca de conforto nas cidades, pois a zona rural era carente de tudo. No tinha energia eltrica, substituda pelo lampio e querosene.
gua era buscada no rio, em latas na cabea. A comunicao era feita a cavalo. E como no havia escola, as crianas ficavam sem estudo. Ele entendia que se o poder pblico levasse tais comodidades zona rural, o homem permaneceria no campo, que era seu habitat natural.
Por isso, uma de suas metas e que ele cumpriu integralmente, era dotar todos os distritos de boas escolas pblicas. Construiu escolas em todos os distritos. Seu secretrio da Educao, em seu primeiro mandato, Jlio Gonalves Pereira, tinha ordem de no deixar nenhuma criana sem escola na zona rural. Jlio cumpriu a ordem religiosamente. Por vrias vezes viajei com Jlio para visitar as novas escolas construdas, todas da melhor qualidade. Toninho levou tambm energia eltrica e gua encanada a todos os distritos. Em alguns, aqueles mais populosos, como Miralta, Nova Esperana, Aparecida do Mundo Novo e So Pedro das Garas, as principais ruas foram pavimentadas. Alguns distritos ainda ganharam telefone pblico, para facilitar a comunicao. Tudo isso, nos dias de hoje, seria coisa corriqueira. Na dcada de 60/70, era um luxo, algo quase impossvel. Mas era a forma que Toninho entendia de segurar o homem em seu local de origem, impedindo-o de emigrar para as mdias e grandes cidades.
Toninho cansava de repetir, para quem quisesse ouvir: - fica muito mais barato manter o homem no campo do que na cidade. Quanto mais a cidade cresce com o xodo rural, maiores so os problemas. E as solues muito mais caras. E no campo, o homem est fazendo o que sempre soube fazer, plantar e colher. Na cidade, ele vai ficar desempregado, por falta de qualificao. Sai do campo e vem para a cidade morar em favela. S cria problema para o poder pblico.
Pena que nossos governantes no tivessem tido o mesmo pensamento de Toninho Rebello. Se na dcada de 60, a grande maioria da populao morava no campo, hoje a situao se inverteu completamente. As grandes e mdias cidades incharam, enquanto a zona rural se esvaziou de forma impressionante. O homem do campo foi para as cidades maiores em busca de melhores condies de vida, boas escolas para os filhos, conforto que no encontrava no campo. Por isso, as favelas se multiplicaram nas grandes cidades. At hoje, aqueles que vivem no campo, sofrem com a falta de infra-estrutura. comum se ver na televiso, principalmente no Nordeste, as populaes rurais sofrerem com a falta d`gua. Ou com a falta de boas estradas para o escoamento da produo. Ou com prdios escolares da pior qualidade, caindo aos pedaos.
O que sempre me impressionou em Toninho foi exatamente isso: a sua viso de futuro, a facilidade que ele tinha para enxergar o que poderia acontecer mais adiante se algo no fosse feito hoje. Quando ele construiu a nova rodoviria em Montes Claros, muita gente, mas muita gente mesmo comentava: "pra qu uma rodoviria to grande. Parece at que a cidade inteira vai viajar". Realmente a rodoviria era enorme para a poca. Mas Toninho estava pensando 30 anos na frente. Ele sabia que Montes Claros iria crescer muito, por sua localizao privilegiada, como segundo entroncamento rodovirio do pas, e pelas indstrias da Sudene, que atrairiam milhares de pessoas em busca de emprego. At o "boom" do ensino universitrio ele previa. Lembro que certa vez ele disse para Eustquio Machado, que fora ao seu gabinete convid-lo para uma solenidade na Escola Tcnica: "sua escola vai virar faculdade logo, logo. No demora Montes Claros ser capital tambm do ensino superior, como acontece em toda cidade industrial".
Algum tempo depois, sua previso se realizaria. A industrializao at murchou um pouco, com o fechamento de algumas indstrias, mas o ensino superior cresceu como um foguete. Hoje, a cidade conta com vrias universidades privadas, alm da Unimontes (que estadual), com quase 40 mil universitrios ao todo. Pena que o poder pblico municipal, depois de Toninho, no conseguiu (ou no soube) acompanhar o crescimento acelerado da cidade. Talvez, quem sabe, os administradores que vieram depois no tivessem a mesma viso de futuro que foi sempre a marca registrada de Toninho. Com certeza no tinham, at porque como polticos, todos pensaram mais na carreira poltica do que no futuro da cidade.Todos se deram bem, enquanto a cidade...

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79574
Por Jorge Silveira - 12/3/2015 15:12:00
Geralmente, os prefeitos quando assumem no tm um programa de obras para ser realizado de imediato. Durante a campanha poltica, promete-se um pouco de tudo nas reas de educao, sade, saneamento, infra-estrutura, cultura e lazer. Mas se algum apertar o candidato e quiser saber o que ele vai fazer especificamente, por exemplo, na rea de educao, no mnimo ele vai desconversar e no responder, pois no sabe mesmo o que far. A situao se repete nas outras reas: no h por parte de nenhum candidato um planejamento a ser seguido caso vena as eleies. aquela histria de que a teoria uma e a prtica outra. No caso do poltico-candidato s existe a teoria, ou melhor, promessas que provavelmente no sero cumpridas. Ou cumpridas apenas em parte, quase sempre em partes muito pequenas.
Toninho Rebello, quando eleito da primeira vez, em 1966 - tomou posse em 1967 - como era candidato nico, no precisou prometer nada. Em compensao, aproveitou o tempo para preparar um programa de governo, definindo praticamente tudo o que iria fazer. Por exemplo: ele sabia que iria derrubar o velho mercado da Praa Dr. Carlos e construir dois, um na confluncia das ruas Cel. Joaquim Costa e Belo Horizonte e outro na rua Melo Viana. Sabia que iria implantar rede de esgoto em toda a rea central, inclusive j tinha acertado tudo com o DNOCs mesmo antes de assumir. J tinha entendimentos tambm com Milton Prates para a doao do terreno onde construiria o Parque Municipal. Mas sua grande meta era acabar com poeira, asfaltando todas as ruas que no tivessem pavimentao. Montes Claros, naquela poca, era conhecida como "terra da poeira, das muriocas e das mulheres de vida fcil".
Como no era nenhum alienado, Toninho sabia muito que no seria possvel assumir num dia e comear tudo que tinha programado no dia seguinte. Conhecia a situao precria da prefeitura, onde os funcionrios no recebiam salrios h trs meses. Por isso, elaborou uma programao bsica para os primeiros 100 dias: limpar a cidade, acertar a situao financeira da prefeitura, pagando os salrios atrasados;iniciar o projeto de esgotamento na rea central, atravs do DNOCS; organizar os projetos de leis a serem submetidos
Cmara de Vereadores e que permitiriam a execuo das obras previstas, como por exemplo, a criao da "contribuio de melhoria", lei que possibilitaria cobrar o asfaltamento dos contribuintes beneficiados.
Para no ter problema com os vereadores, j que tinha necessidade de aprovar com certa urgncia vrios projetos importantes, Toninho radicalizou: escolheu como seu lder no Legislativo exatamente o lder da oposio, o vereador Pedro Narciso, eleito pelo MDB, partido que pela lgica deveria ser oposio ao prefeito da Arena. O regime militar, fazia pouco, tinha extinto os velhos partidos e criado o bipartidarismo, apenas com Arena e MDB. Fato raro que provavelmente nunca tinha acontecido na poltica brasileira e nunca mais viria a
tempos futuros: o MDB, com quatro vereadores -alm de Pedro Narciso, tinha Jos da Conceio, Aroldo Tourinho e Jos Messias Machado - apoiar o prefeito da Arena durante os quatro anos de mandato. Era uma posio meio esdrxula: os emedebistas atacavam o governo federal da Arena,mas apoiavam o prefeito arenista. E nem tinham como ficar contra um prefeito que em quatro anos transformaria a cidade em um verdadeiro canteiro de obras. Muitas vezes Pedro Narciso confessou: " se ficarmos contra Toninho, o MDB acaba na prxima eleio". No acabou no, mas perdeu a eleio com o arquiteto Joo Carlos Sobreira. E, na Cmara Municipal, encolheu para apenas trs vereadores.
Pedro Narciso e Jos da Conceio se projetariam muito na poltica municipal - ambos foram deputados Assemblia Legislativa (Conceio foi tambm federal) e secretrios de
estado - sinal de que o apoio ao prefeito da Arena no prejudicou suas carreiras. Ao contrrio, parece ter feito muito bem.
Narciso at que chegou a ter dificuldades para se reeleger vereador em 1970 e a se deu outro fato inacreditvel para os preceitos da poltica brasileira: Toninho Rebello, da Arena, apoiou Pedro Narciso, do MDB, chegando a publicar anncio nos jornais da cidade pedindo votos para o seu ex-lder. Toninho no conseguiu eleger seu sucessor na prefeitura, mas ajudou Narciso a se reeleger. Coisas que s aconteciam mesmo com Toninho, que no via a poltica de uma forma passional como geralmente vista por quase todos os polticos. Para Toninho, a amizade e a considerao precediam poltica.
Mas como a poltica mais parece uma roda que d voltas, nas eleies de 1976, quando Toninho Rebello foi novamente candidato, l estavam Pedro Narciso e Jos da Conceio, mas desta vez como adversrios. Aquela foi uma eleio onde o povo de Montes Claros prestou sua homenagem grande administrao que Toninho fizera anteriormente. Disputando contra cinco adversrios, dois da Arena (Pedro Santos e Hamilton Lopes) e trs do MDB (Pedro Narciso, Jos da Conceio e Aroldo Tourinho), Toninho teve mais votos do que a
soma dos outros cinco. O mais importante: derrotou o mito Pedro Santos, que perdia uma eleio pela primeira vez.
Toninho Rebello retribuiria ao povo de Montes Claros a grande votao que tivera: sua segunda administrao, desta vez seis anos (o governo militar estendera os mandatos por mais dois anos), seria ainda melhor do que a primeira. Foi quando implantou suas duas maiores obras, a Avenida Deputado Esteves Rodrigues (a Sanitria), mudando completamente o aspecto urbanstico e de saneamento da cidade, e a Rodoviria, at hoje uma das melhores do estado. Mas, mais uma vez voltou a mostrar que a poltica no era sua seara:
apesar da revolucionria administrao, no conseguiu emplacar seu sucessor em 1982. O mdico Crisantino Borm, seu vice-prefeito e seu candidato sucesso, foi derrotado pelo vereador Luiz Tadeu Leite, do PMDB. Crisantino foi triturado pelo voto vinculado e pela avalanche Tancredo (assuntos de outra crnica).

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79559
Por Jorge Silveira - 9/3/2015 09:43:42
Estrias ou lendas que se contavam


Algumas histrias (ou estrias) permearam a administrao do prefeito Antnio Lafet Rebello, sem que fosse possvel apurar se todas eram verdadeiras ou apenas lendas. Extremamente discreto com sua vida pessoal, Toninho sempre desconversava quando algum queria saber, por exemplo, se ele realmente doava o seu salrio, todos os meses, para o Asilo So Vicente de Paula. Ou para qualquer outra entidade beneficente. Certa vez, curioso, perguntei a Orlando Ferreira Lima, secretrio da Fazenda e que pagava as contas da prefeitura, se esta histria da doao era verdade. Orlando no quis responder, me mandou simplesmente perguntar a Toninho.
Outra histria que corria sobre Toninho que ele havia proibido qualquer parente, fosse irmo, filho ou sobrinhos, de entrar na prefeitura enquanto ele fosse o prefeito. A razo da proibio era simples, mas categrica: para que ningum pudesse imaginar (ou fofocar) que qualquer parente dele tivesse ido prefeitura pedir algum favor ao prefeito. Toninho seguia aquela velha histria da mulher de Csar: "no basta ser honesta. Tem que parecer honesta". Ele fazia questo de evitar qualquer tipo de maledicncia." Que diferena da maioria dos polticos, que a primeira coisa que fazem quando eleitos exatamente nomear os parentes (com honrosas excees, bvio).
Lembremos que Jairo Atade e Athos Avelino, quando prefeitos, nomearam os irmos para a chefia de gabinete. Ruy Muniz fez o mesmo com a mulher. E ainda nomeou um irmo como secretrio. Tadeu nomeou o sogro para tomar conta do cofre da prefeitura, em um de seus mandatos. Em outro, nomeou o cunhado para seu gabinete. bom ficar claro que no existe nestas nomeaes nenhuma ilegalidade, mas que puro nepotismo, no h dvida. legal, mas pode no ser moral.
Contavam que Toninho, impreterivelmente, era sempre o primeiro a chegar prefeitura pela manh. Antes das cinco ele j estava em seu gabinete trabalhando. As seis ele saa com o secretrio de obras para fiscalizar os servios que estavam sendo realizados. Num certo perodo havia um mendigo que dormia nas escadas de acesso porta de entrada da prefeitura, que na poca funcionava no antigo prdio do seminrio, na Avenida Cel. Prates (hoje o supermercado Bretas).
Sempre que Toninho chegava, acordava o mendigo, dava-lhe algum dinheiro e o mandava tomar caf. Um dia, por curiosidade, Toninho perguntou ao mendigo: "voc sabe quem eu sou?" - Claro que sei, respondeu o mendigo, o senhor o prefeito desta bosta de cidade, onde um pobre cidado no pode sequer dormir sossegado sem ser acordado ainda de madrugada.
Outra histria que corria sobre Toninho: dizem que certa vez ele ficou sabendo que um funcionrio do almoxarifado havia surrupiado um saco de cimento, para empregar numa reforma em sua prpria casa. Mandou apurar e concluiu-se que era verdade. Imediatamente ordenou que o empregado fosse demitido. Alguns dias depois, ficou sabendo que o tal sujeito, pai de famlia, continuava desempregado, pois no conseguia novo emprego, j que ficara com a ficha suja. Comovido com a situao e provavelmente sentindo-se culpado pelas dificuldades que deveria estar passando aquela famlia, com o pai desempregado, telefonou para o presidente da Cooperativa Agropecuria e pediu-lhe que desse uma oportunidade ao rapaz. S se tranquilizou quando soube que ele estava empregado. Toninho era assim: no abria mo de seus princpios, mas tinha um corao mole como gelatina.
J em seu segundo mandato, ele viajou para a Alemanha, para um curso de planejamento e mobilidade urbanos, promovido pela ONU para prefeitos de diversos pases da Amrica do Sul. O governo federal, que na poca desenvolvia o Programa Cidades de Porte Mdio, mandou Alemanha os 40 prefeitos beneficiados pelo programa. Montes Claros era uma das cidades beneficiadas. Quando chegou da viagem, a primeira coisa que fez foi pedir para conferir os pagamentos efetuados durante os dias em que estivera fora. Ele no abria mo de saber em que p estavam as finanas do municpio.
Ao conferir, encontrou no caixa um cheque de um determinado secretrio. Quis saber do que se tratava e foi informado por Joel (Guimares): "fulano se apertou e me pediu para lhe adiantar o salrio do ms. Deixou o cheque como garantia at sair o pagamento". Sem se alterar, Toninho perguntou para Joel: "e voc adiantou o salrio para todo mundo? Se fulano tem este direito, todos todos tambm devem ter, no acha?". Joel ficou sem resposta. Toninho ento sacou do seu talo de cheques, encheu o valor que havia sido adiantado para o tal secretrio e mandou que Joel sacasse o dinheiro e colocasse na conta da prefeitura.
Deu mais uma bronca em Joel e concluiu a conversa: "diga a fulano que quando receber o salrio acerte o cheque comigo. E que no faa isto nunca mais, pois a prefeitura no banco para emprestar dinheiro para funcionrio. Muito menos para secretrio". Toninho era assim, ainda que muitas vezes at radicalizasse. Mas para ele dinheiro pblico era sagrado. Talvez por isso, por ele ser to diferente dos polticos tradicionais, tantas estrias e tantas lendas se criaram em torno de seu nome. Mas todas elas fazem jus ao que ele realmente era. Fossem verdades ou apenas lendas.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79534
Por Jorge Silveira - 4/3/2015 09:35:53
A velhinha da Ovdio de Abreu


No pensem que a administrao de Toninho Rebello, em seu primeiro mandato, de 1967 a 1970, pavimentou praticamente toda a cidade sem cobrar dos contribuintes beneficiados. Ao contrrio, nada foi feito de graa. Todo o servio foi realizado com a cobrana da "contribuio de melhoria". Ou seja, a rea asfaltada era dividida em trs partes, ficando uma para a prefeitura e as outras duas para os proprietrios beneficiados, de um lado e de outro da rua. A conta podia ser dividida em at 12 parcelas. A populao aceitou bem a proposta, pois nas ruas onde no houvesse pelo menos 60% de aprovao, o servio no era feito. Quem no queria trocar a poeira e a lama pelo asfalto? S nas vias de acesso aos bairros mais distantes ningum pagava nada. Era tudo por conta da prefeitura.
S mais tarde, os prefeitos resolveram fazer asfaltamento de graa, por demagogia e interesses eleitorais, diga-se de passagem, o que acabou custando muito caro para a cidade.
E deu no que deu: servios de pssima qualidade, sem nenhuma durabilidade. Ruas asfaltadas em um ano e no ano seguinte o asfalto desaparecia. Tadeu e Jairo foram mestres neste tipo de servio. A consequncia que Montes Claros, hoje, aps o perodo chuvoso, gasta milhes s para tapar os buracos no asfalto. difcil encontrar qualquer cidade no pas que tenha ruas asfaltadas de pior qualidade do que Montes Claros, infelizmente. A pavimentao da cidade precisa hoje ser totalmente recomposta. E como o custo muito alto, entra prefeito e sai prefeito e nenhum se dispe a executar o recapeamento geral da cidade.
Como na administrao de Toninho o custo do asfaltamento no ficava s para a prefeitura, que arcava apenas com um tero das despesas, o servio era de tima qualidade. Lembro-me bem que por vrias vezes ouvi Toninho dizer que a pavimentao que estava sendo feita teria durabilidade de no mnimo 20 anos. Poderia at ter durado mais, sem necessidade de recuperao, se a Copasa, na abertura de rede de esgoto, no tivesse sempre feito uma recomposio de pssima qualidade no asfalto. Infelizmente, a prefeitura nunca soube exigir um servio de boa qualidade. Sem cobranas, o que era para durar por muito mais tempo, se deteriorou bem mais rpido.
Com esta histria do proprietrio ter que pagar uma parte do custo do asfaltamento, apareceram algumas situaes dramticas, em que a pessoa no tinha mesmo condies de arcar com o pagamento, ainda que dividido em 12 vezes. Entretanto, a ordem de Toninho era que cada caso fosse estudado com o mximo de cuidado e critrio. Geralmente a soluo encontrada era ampliar o prazo para 20,30 ou at 40 prestaes. Sempre se dava um jeito para no deixar ningum sem o melhoramento. O que Toninho no permitia era abrir exceo, perdoar o pagamento para quem quer que fosse. Ele tinha plena convico de que se isso ocorresse da para frente no seria possvel cobrar de mais ningum.
Esta dureza de Toninho gerou uma histria que no presenciei, mas que me foi contada depois por um amigo, que por acaso estava no local acompanhando os servios. Transcorriam as obras de asfaltamento da Avenida Ovdio de Abreu e Toninho estava l fiscalizando quando se aproximou dele uma velhinha. Bastante constrangida, envergonhada mesmo, ela disse para o prefeito que no teria condies financeiras de arcar com a despesa do asfaltamento. Vivia s com o marido, este bastante doente, em uma pequena casa quase no final da Avenida, j bem perto dos trilhos da Rede Ferroviria Federal. Vivia de uma pequena aposentadoria do marido, que mal dava para comer. Acabou levando Toninho para um caf em sua modesta casa, para que o marido pudesse conhecer pessoalmente o prefeito, de quem era f incondicional. Toninho tomou o caf, anotou o nome e o endereo dos velhinhos, e prometeu que iria verificar o que poderia ser feito.
Chegando prefeitura, chamou Orlando Ferreira Lima, entregou-lhe o papel onde anotara nome e endereo dos velhinhos, e pediu: "retire a guia de pagamento da contribuio e melhoria deste endereo e me traga o valor. Quero saber quanto ser". Orlando se retirou e voltou pouco depois.
Entregou a Toninho um papel com o valor da "contribuio de melhoria" anotada. Toninho tirou o talo de cheque do bolso, preencheu o valor que estava no papel e entregou para Orlando, dando-lhe a ordem: "quite o tributo e mande entregar a guia neste endereo, para a dona da casa. No diga que fui eu que paguei. E no deixe que esta notcia se espalhe, viu?".
Orlando, muito discreto, no contou esta histria para ningum. Apenas me confirmou quando lhe perguntei se a histria era verdadeira. E me relatou os detalhes, transcritos mais acima Mas me pedindo que no deixasse Toninho saber nunca que ele havia me contado. A histria era para permanecer em segredo. No sei as razes, mas no permaneceu, pois alguns anos atrs, meu amigo Srgio Pinto Ribeiro me contou a mesma histria, que soubera por terceiros. Como a histria se espalhou uma pergunta que no me fao. O que me pergunto at hoje: quantos prefeitos teriam a mesma atitude de Toninho?

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79517
Por Jorge Silveira - 28/2/2015 17:33:53
Uma revista e a inaugurao do parque

Ao contrrio do que acontece hoje, quando os administradores pblicos gastam milhes com publicidade para se promoverem, num verdadeiro desperdcio do dinheiro pblico, Toninho Rebello era avesso a qualquer tipo de promoo pessoal ou de sua administrao. Em seu primeiro mandato (1967/70), nem tinha secretaria ou qualquer tipo de departamento para cuidar da comunicao. No segundo mandato, mesmo contra sua vontade, mas muito pressionado pelos assessores, nomeou o radialista Ubirajara Toledo para a rea de imprensa. Tio Bira, como era conhecido, por um programa de rdio na ZYD-7, no tinha a menor experincia como assessor de comunicao, mas serviu a Toninho com uma fidelidade canina.
No que Toninho tivesse qualquer ojeriza aos jornalistas. Ao contrrio, era muito amigo de Osvaldo Antunes, diretor e proprietrio de "Jornal de Montes Claros". E admirador confesso de Waldyr Senna Batista, secretrio de redao do mesmo jornal. Tinha tambm muito boa relao com Jlio de Melo Franco, diretor do "Dirio de Montes Claros", outro por quem nutria grande admirao. "Escreve pra caralho", me disse vrias vezes, ao ler editoriais do Dirio. Gostava tambm de um menino (menino mesmo) que comeava na imprensa local, e que mais tarde, no Estado de Minas, seria prmio Esso de Jornalismo: Paulo Narciso. Mas Toninho no dava muita bola para o que os jornais diziam dele ou da sua administrao. Geralmente elogios s grandes obras em realizao. E, principalmente, seriedade e honestidade do governo municipal.
Por sinal, estes elogios irritavam Toninho. Vrias vezes o ouvi dizer: "honestidade no virtude. obrigao. Prefiro que os jornais digam que sou bonito". A ficava difcil, pois ele era muito feio, com aquele narigo imenso. Mesmo sem conseguir um tostozinho de publicidade, os jornais faziam muito mais elogios do que crticas administrao municipal. Toda vez que era procurado, para qualquer tipo de divulgao paga, Toninho vinha sempre com a mesma resposta: "pra que divulgar uma obra que o povo est vendo? prefervel gastar o dinheiro com mais obras. O povo no precisa de publicidade, precisa de educao, sade, rua asfaltada, reas de lazer".
No final do seu primeiro mandato, ele se preparava para inaugurar o Parque Municipal Milton Prates, que ele considerava uma de suas obras mais importantes. No apenas pelo aspecto de preservao ambiental - naquele tempo ele j se preocupava com o meio ambiente - mas principalmente por se tratar de uma rea de lazer para as populaes mais pobres. Ele dizia:
- No domingo, os mais privilegiados, ou mais ricos, vo para os clubes campestres, para os cinemas,viajam para as fazendas. Os pobres no tm nenhuma forma de lazer.
O Parque Municipal vai ser uma forma de as famlias menos privilegiadas poderem aproveitar o domingo e os feriados. No h mais nada sadio e alegre do que um piquenique ao ar livre.
Toninho tinha razo. At hoje, 40 anos depois, o Parque Municipal Milton Prates continua sendo a melhor forma de lazer para as famlias mais pobres de Montes Claros. Fica cheio aos domingos e feriados, mesmo no tendo sido conservado pelos prefeitos subsequentes da forma como merecia. Ao invs de preservar e aumentar o verde, construram quadras pavimentadas e at mesmo um ginsio coberto em pleno parque, um verdadeiro atentado ao esprito do empreendimento. E vive, geralmente, em estado de pr-abandono, como se fosse uma obra de segunda categoria. O que se pode fazer? Nem todos tm a viso e o esprito pblico que eram marcas registradas de Toninho.
Mas voltando vspera da inaugurao do Parque Municipal, para o qu a prefeitura preparava uma grande festa popular. Na poca, eu dirigia a revista Encontro, substituindo o grande jornalista e amigo Carlos Lindemberg, que por seu turno substitura Lcio Benquerer, Dcio Gonalves, Haroldo Lvio, Konstantin Cristoff e Enoque Sacramento. Isto na dcada de 60, quando at fazer jornal na cidade era um desafio. Revista, ento, e da qualidade de Encontro, era quase um sonho impossvel. O certo que a revista circulou por mais de dez anos, grande parte sob a batuta de Lcio (um cara fora de srie, em todos os sentidos), depois de Lindemberg, ambos verdadeiros heris em conseguir manter a revista em circulao.
E l estava eu como diretor da revista, tentando no deix-la morrer em minhas mos. E procuro Toninho na prefeitura, para lhe pedir uma publicidade sobre o Parque Municipal.
A revista iria circular no dia da inaugurao, com uma grande reportagem sobre a obra. Toninho me olha srio e pergunta: "publicidade pra qu? A obra est pronta e o povo vai conhec-la no dia da inaugurao. No a publicidade da revista que vai fazer o povo gostar ou no da obra. Seria um dinheiro jogado fora e voc sabe que eu no fao isso".
Tentei argumentar que no era dinheiro jogado fora, que ele estaria ajudando a revista a se manter, o que era bom para Montes Claros, pois a revista era um orgulho para a cidade.
Ele me olhou novamente, sorriu de forma meio sarcstica e disse: "voc me convenceu, rapazinho. Realmente preciso ajudar a revista a se manter. Mas no com dinheiro pblico.
Pode fazer a tal reportagem, mas tire a nota em meu nome. Se eu gostar do que voc escrever, eu pago. Combinado?"
Eu aceitei o desafio. E ele pagou. Do prprio bolso. Ajudou a revista a se manter por mais um tempo. Mas a reportagem, c pr ns, foi um sucesso. Digna de uma revista da qualidade de Encontro. E que, muito mais, fazia jus s belezas naturais do Parque, com seu lago, sua rea verde, suas rvores centenrias, at hoje um paraso incrustado no meio da cidade, presente que Toninho doou a Montes Claros. E que no existiria hoje, no fosse a sensibilidade social e ambiental de Toninho.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lanado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 25/2/2015 06:26:17

Televiso: um sonho de Toninho

Mesmo antes de ser prefeito, Toninho Rebello tinha a ideia fixa de trazer o sinal de televiso para Montes Claros, onde muita gente j tinha o aparelho, mas via mais chuviscos do que imagem. Lembro-me que recm-casado, em 1965, eu ia muito casa de minha sogra, para assistir o programa da "Jovem Guarda", comandado pelo Roberto Carlos, que no ano anterior tinha vindo cidade para um show no Clube Montes Claros, numa promoo do colunista Mrcio Figueiredo, meu amigo e colega de jornal. Eleito prefeito, em 1966, Toninho no mediu esforos, junto com Edes Barbosa, para viabilizar um sinal pelo menos sofrvel para os telespectadores montes-clarenses. Por vrias vezes, Toninho viajou pessoalmente com tcnicos da TV Itacolomi (Edes tiracolo) tentando descobrir os locais mais adequados para instalar repetidoras que trouxessem uma imagem de qualidade para Montes Claros.
Certa vez, viajei com ele at as proximidades de Gouveia, onde fora instalada uma torre repetidora. Foi uma viagem cansativa, por estradas esburacadas e poeirentas. Toninho tinha posto na cabea - e quando ele botava algo na cabea ningum tirava - que a populao de Montes Claros iria assistir a Copa de 1970 pela televiso com imagem de primeira. No foi fcil - Edes Barbosa que o diga - pois naquela poca, manter os links em condies satisfatrias no era tarefa das mais agradveis. As torres repetidoras (e eram varias) ficavam localizadas geralmente nos picos dos morros mais altos. Chegar at elas era um sacrifcio extremamente cansativo. Quando chovia, era quase invivel.
Mas Toninho conseguiu: o montes-clarense pde acompanhar os jogos da seleo brasileira no Mxico pela televiso, com uma imagem de alto nvel. Naquela poca, no era todo mundo que tinha o aparelho, que custava o olho da cara.
As casas que possuam o aparelho ficavam lotadas nos dias de jogos, com amigos e vizinhos se acomodando como fosse possvel para acompanhar Pel, Tosto, Grson, Rivelino e Cia.
Eu mesmo assisti aos jogos na casa do meu vizinho Clemente Santos, l na rua Irm Beata, onde morei durante algum tempo. Clemente dos Correios, como era mais conhecido, era um aficionado do futebol, tcnico do juvenil do Ateneu. O Brasil conquistou o tri no Mxico e Montes Claros pde vibrar com o
ttulo graas garra de Toninho Rebello e de Edes Barbosa.
Foi uma vitria quase pessoal de Toninho, ainda que ele achasse que era obrigao da prefeitura custear o link que trazia a imagem at os lares dos montes-clarenses.
H outra histria que mostra como Toninho era mesmo meio fanatizado com televiso. J no final de seu segundo mandato, juntou-se com Elias Siufi, Geraldo Borges, Raimundo Tourinho, Jos Correa Machado e Joo Bosco Martins, formou uma sociedade e juntos criaram a TV Montes Claros, que foi ao ar pela primeira vez em 1980 (me socorre Elias, se a data esta mesmo) e por muito tempo seria uma glria para a cidade. Nenhum deles pretendia ganhar dinheiro com o empreendimento mas apenas realizar um sonho. Elias dirigiu a TV Montes Claros com incrvel competncia, primeiro como afiliada da Bandeirantes, depois da Globo. Tive o prazer de trabalhar com ele por mais de cinco anos,de 1989 a 1994. Tenho grande admirao por Elias, a quem at hoje chamo de "chefe". Este outro cara a quem Montes Claros deve muito. Mato grossense, de Campo Grande, mudou-se para a cidade na dcada de 1960, para comandar a ZYD-7, e daqui nunca mais saiu. Adotou e foi adotado por Montes Claros.
Mas no tenham dvidas: no fosse Toninho, no teria havido TV Montes Claros. Foi ele, junto com Elias, que embalando o sonho de dar cidade um canal prprio de televiso, juntou o capital necessrio para o investimento, que no era pequeno. No sei, posso estar errado, mas penso que se Toninho no tivesse morrido, Elias no teria vendido a TV Montes Claros. De qualquer forma, se a cidade chegou um dia a ter um canal prprio de televiso, de um grupo de empreendedores locais - ou seriam sonhadores locais - isto s foi possvel pela capacidade visionria de Toninho e de Elias, que acreditaram no sonho e correram atrs. Mas como tem sido ressaltado aqui por diversas vezes, esta era uma das qualidades mais presentes em Toninho Rebello: a persistncia com que perseguia os sonhos, especialmente se de alguma forma isto viesse a beneficiar a cidade que ele tanto amava.
Infelizmente, depois que deixou a prefeitura, Toninho sofreu muito vendo os projetos que deixara prontos sendo relegados a segundo plano (ou mesmo engavetados) pelos prefeitos que vieram depois. Vrias vezes, bebendo um gole comigo, no restaurante Quintal, do Waltinho, Toninho me confessou que ficava triste por ver que muita coisa boa que projetara para a cidade no seria executada. Tomando sua pinguinha com coca-cola, mistura que ele mais gostava, prognosticava, sem mgoa, mas ressentido: "ao abandonar o projeto virio que deixamos pronto, os prefeitos esto condenando a cidade a conviver com um trnsito impossvel num futuro prximo". Ele estava coberto de razo.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lanado na noite de hoje, 25 de fevereiro, no Parque de Exposies, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 21/2/2015 18:51:52
O respeito com o dinheiro pblico

Se havia uma coisa da qual Toninho Rebello no abria mo, como prefeito, era um tremendo respeito com o dinheiro pblico. E exigia o mesmo comportamento de todos os seus auxiliares, indistintamente. Mas era ainda mais duro e exigente com aqueles secretrios com os quais tinha mais intimidade.
Ou mais afeio. Estes ele tratava como um paizo, pois mesmo sendo um homem geralmente carrancudo, de semblante duro, tinha um corao mole como manteiga com aqueles de quem gostava um pouco mais. Ou muito mais, em alguns casos. Waltinho era um deles. Lourinho (Lourival Alcntara)
era outro. Ambos no tinham diploma, curso universitrio, nem indicao poltica, mas ambos eram dois ps de boi. No tinham medo de servio pesado.
- Se eu preciso de que alguma coisa seja bem feita, com presteza, s entregar para o Waltinho. Ou para o Lourival.
Se tiverem que descer ao inferno para cumprir a ordem, eles descem. A, posso ficar descansado, no preciso ficar cobrando. - No foi nem uma nem duas vezes que Toninho me disse isto. E olha que, constantemente, ele ouvia de outros secretrios que no devia confiar muito em Waltinho, pois ele bebia muito. "Por acaso voc j o viu bebendo no servio?", Toninho perguntava aos que falavam mal de Waltinho. "No? Ento deixe ele por minha conta". E era por causa desta confiana que o prefeito tinha nele, que Waltinho nunca o decepcionou. Muitas vezes - e no poucas - ia trabalhar numa tremenda ressaca, mas nunca faltava ao servio. Sabia que tinha que corresponder confiana e amizade de Toninho, por quem tinha grande respeito e admirao.
Certa vez, Toninho estava no gabinete conferindo e assinando algumas ordens de pagamento. Ele no assinava nada, mas nada mesmo, sem conferir, mesmo tendo inteira confiana em Joel (Guimares, secretrio da Fazenda). Eu estava sentado conversando com Guarinello (Expedito, chefe de gabinete) quando, de repente, Toninho vira para Guarinello e lhe pede para chamar o Wanderley (Fagundes, secretrio de Servios Urbanos). No disse para qu. Wanderley demorou, pois estava fora da prefeitura. Tinha sado com Ciraco (Serpa de Menezes, secretrio de Planejamento), para olhar algum problema na obra da Sanitria (Avenida Deputado Esteves Rodrigues), em construo e que seria a maior obra do segundo mandato de Toninho. Por sinal, para muitos, at hoje a maior obra construda em Montes Claros, que pode ser vista da seguinte forma: antes e depois da Sanitria.
Quando Wanderley chegou, Toninho lhe entregou uma ordem de pagamento e perguntou: "que despesa esta? No estou entendendo". Wanderley olhou e logo respondeu: "so as notas da viagem que fizemos a semana passada a Belo Horizonte, para aquela reunio no DER. Toninho parou o que estava fazendo, olhou para o Wanderley, e lhe disse em tom de censura: "na nota do hotel consta uma dose de usque. Vou mandar o Joel estornar. A prefeitura no tem obrigao de pagar usque para secretrio. Voc sabe disso. Se voc no pode pagar do seu bolso, ento no beba". Wanderley no aguentou e comeou a rir. " Ora, uma simples dose de usque, Toninho, que eu peguei no frigobar, noite, antes de dormir. Nem me lembrei disso na hora de pagar a conta". Eu e Guarinello, que havamos escutado a conversa, tambm achamos graa. Toninho continuou srio, assinando o resto da documentao. Nem deu bola para a explicao de Wanderley.
Ele era assim. Economizava o que fosse possvel para o municpio. Ainda que em certos momentos tivesse que passar uma reprimenda em algum de seus auxiliares, como no caso do Wanderley (outro para quem Toninho tinha muita afeio).
Talvez por isso, o dinheiro da prefeitura tenha rendido tanto em suas duas administraes, poca em que a cidade se encheu de obras, isto num tempo em que os recursos eram bem mais escassos do que hoje. E muitas dessas obras esto a at hoje servindo comunidade, como a Rodoviria, o Centro Cultural Hermes de Paula, o Parque Municipal Milton Prates, a Deputado Esteves Rodrigues, o Ceanorte, para lembrar apenas as mais importantes na cidade foi Toninho quem construiu. Segundo ele, "para amenizar a temperatura", pois Montes Claros era uma cidade muito rida e quente.
Como bom "mo de vaca" que era, o lago no custou um centavo sequer para o municpio, pois Toninho conseguiu que ele fosse construdo pelo DNOCS, do qual seu secretrio de Planejamento, Ciraco Menezes, era funcionrio.
O diretor regional do DNOCS, na poca, Luiz Antnio Medeiros, est a vivo para contar a histria. At porque, sem sua efetiva participao, talvez o lago no existisse. Depois de Toninho, em meus mais de 50 anos de jornalismo, nunca encontrei um homem pblico que tivesse tanto respeito com o dinheiro do contribuinte. Ao contrrio, o que se v por todos os cantos, em todos os governos, um tremendo desrespeito com o dinheiro dos impostos, que serve para custear todos os tipos de mordomias, pouco sobrando para o essencial. Com Toninho, mordomia no existia. Nem carro oficial o gabinete do prefeito tinha. Toninho andava no seu prprio carro. Com gasolina paga do prprio bolso. No primeiro mandato, num fusquinha verde; no segundo, num corcel marrom. Difcil de acreditar, mas era assim.
Qual prefeito hoje, mesmo dos municpios mais pobres, no tem um carro da prefeitura para rodar? Por sinal, a maioria dos prefeitos, to logo se elegem, a primeira coisa que fazem comprar um carro dos mais caros para a prpria locomoo.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lanado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposies, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 19/2/2015 8:44:04
O nascimento da candidatura nica

Antes de Toninho Rebello se tornar prefeito de Montes Claros, eu o conhecia muito pouco, mesmo j militando na imprensa local, onde comecei em 1962. Tinha mais conhecimento com Jaiminho, seu irmo, j que meu sogro, Seimando Sarmento, comprava muito na loja dele (Jaiminho), ali na rua Governador Valadares, na esquina com a Praa Dr. Carlos. Fiquei conhecendo Toninho pessoalmente numa reunio entre produtores rurais, em que ele, Antnio Augusto Atade e Roberto Campos fizeram uma palestra com vistas venda de aes do Frigonorte, que na poca estava sendo construdo com recursos da Sudene. Se no me falha a memria, isto l pelos idos de 1965. Seimando fez questo de me apresentar a Toninho, de quem era companheiro de maonaria e muito amigos. No estou bem certo, mas me parece que na poca Toninho era o presidente do Frigonorte. Alguns anos depois ele seria presidente do Cortnorte.
Sabia, de ouvir falar, que Toninho tinha sido muito importante na instalao da telefnica em Montes Claros, na fundao da Cooperativa Agropecuria e na construo do Parque de Exposio. Era uma das grandes lideranas rurais da regio, muito respeitado por todo mundo. Nos meios polticos, seu nome j comeava a ser cogitado para uma candidatura a prefeito, para a sucesso de Pedro Santos. Toninho era udenista meio roxo, mas como no tinha militncia poltica, transitava muito bem entre prceres do PSD e do PR, partidos de maior expresso na cidade. Mas com o golpe militar de 1964, j se comentava abertamente que os antigos partidos seriam extintos pelo presidente Castelo Branco, para a criao do bipartidarismo.
Consultado sobre a possibilidade de sua candidatura, que havia sido lanada primeiro pela maonaria, Toninho no aceitou a princpio. Como no tinha militncia poltica, dificilmente teria condies de derrotar nomes tradicionais como Simeo Ribeiro (ex-prefeito), Joo Valle Maurcio, Alfheu de Quadros, j comentados como possveis candidatos.
Bateu o p de que s seria candidato numa candidatura nica. A maonaria entrou no circuito e comeou a pressionar para que os partidos se unissem e lanassem Toninho como candidato nico. O movimento ganhou fora, com o apoio da Associao Comercial e Industrial, que enxergava a necessidade de um prefeito que melhorasse a infra-estrutura da cidade, que comeava a receber as primeiras indstrias incentivadas pela Sudene.
Segundo me contaram, o nome de Toninho Rebello como candidato nico foi homologado em uma reunio na casa de deba (Hildelberto Freitas), com a presena das principais lideranas do PSD, PR, UDN, PTB. Estavam por l Cel Lopinho, Jos Avelino, Dr. Alfheu Gonalves de Quadros Joo Valle Maurcio, Pedro Santos, Joo Athayde, Jos Linhares Dr. Loiola, Geraldo Correia Machado; os deputados estaduais Euler Arajo Lafet e Artur Fagundes; os deputados federais Edgar Pereira e Luis de Paula, o advogado Carlos Mota polticos. Provavelmente havia mais gente, mas quem nos nos contou na poca no se lembrou. O certo que o nome de Toninho foi aceito por todos, tendo o Dr. Alfheu como candidato a vice. Toninho no estava presente e foi comunicado depois da deciso conjunta.
Interessante como h quase cinquenta anos e quando a poltica local entre PSD, UDN, PR e PTB era acuradssima, muito mais do que hoje, todos se juntaram em benefcio da cidade, esquecendo as divergncias polticas e at pessoais.
Comprovar-se-ia depois que a unio seria extremamente benfica para o municpio, que em quatro anos experimentaria um desenvolvimento extraordinrio. Neste curto perodo, de 1967 a 1970, Montes Claros deixaria de ser "a cidade da poeira e das muriocas"- e dizem alguns tambm das raparigas - para assumir de fato o papel de capital do norte de Minas.
A experincia deu to certo que seis anos depois a prpria populao daria seu veredicto: elegeu novamente Toninho Rebello, desta vez em disputa com mais cinco candidatos ( Pedro Santos, Hamilton Lopes, Pedro Narciso, Jos da Conceio Santos e Aroldo Tourinho). O reconhecimento do povo foi to grande que Toninho teve mais votos do que os outros cinco candidatos juntos. O mais significativo: pela primeira vez Pedro Santos era derrotado. Pelo prprio eleitorado Toninho foi cognominado de "o candidato positivo".
Foi uma campanha memorvel, na qual aps cada comcio Toninho era carregado nos braos do povo. Ele saberia retribuir: sua segunda administrao seria ainda melhor do que a primeira. Transformou a cidade num verdadeiro canteiro de obras, preparando-a para o desenvolvimento que viria com os projetos da Sudene.
Foi uma poca nica. Da para frente, Montes Claros nunca viveria outra igual. Saudosismo? Talvez. Mas quase todos que viveram aquela poca concordam que em nenhum momento de sua histria Montes Claros respirou tanto desenvolvimento. A cidade transformou-se num imenso canteiro de obras. Empresrios de fora traziam indstrias para a cidade, com incentivos da Sudene, entusiasmados com a seriedade e competncia da administrao municipal. O final da dcada de 1970 e o princpio da dcada de 1980 foram sem dvida os anos de desenvolvimento de Montes Claros. Tudo fruto do desprendimento e amor a Montes Claros de lideranas polticas que l nos idos de 1966, deixando de lado as vaidades e o interesse prprio, escolheram dar ao municpio uma candidatura nica. E como prefeito, um homem acima de qualquer suspeita, o produtor rural Antnio Lafet Rebello, criador de gado, sem militncia poltica, mas tido e havido como bom gerente e administrador. Confirmaria estas qualidades em seus dois mandatos como prefeito.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lanado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposies, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 15/2/2015 14:25:39

Em quatro anos, a transformao

Tendo sido eleito como candidato nico em 1966 (mais adiante contarei como se deu a escolha), o prefeito Antonio Lafet Rebello tomou posse no incio de 1967. Recebeu a prefeitura com salrios atrasados em trs meses. Pedro Santos, seu antecessor, no se notabilizava pela organizao. Era grande medico, humanitrio, atendia Deus e o mundo sem cobrar nada e por isso mesmo tinha milhares de votos sem precisar fazer campanha. Quando se elegeu, sucedendo o engenheiro Simeo Ribeiro Pires - o maior tribuno que j conheci - derrotou a dobradinha Maurcio e Mrio (os mdicos Joo Valle Mauricio e Mrio Ribeiro), considerada favoritssima. Pedro Santos era to desligado que uma vez foi fotografado, numa solenidade, calando uma meia preta e outra branca. No poderia ser um bom prefeito. No tinha nada de administrador, mas tinha votos, pela grande alma que era. Por sinal, sua desastrada administrao foi o motivo mais forte de as lideranas politicas do municpio optarem por uma candidatura nica para suced-lo, convergindo para o nome de Antnio Lafet Rebello. Toninho Rebello assumiu sabendo que ia administrar um pepino formidvel. A cidade crescia ao deusdar. E as primeiras indstrias da Sudene chegando. A fbrica de cimento (Matsultur) e o Frigonorte j eram praticamente uma realidade. E quase toda a cidade sem calamento, sem rede de esgoto sem escolas e postos de sade nos novos bairros que surgiam. O mercado era tao antigo como a cidade, bem no centro (na praa Dr. Carlos) e ameaava despencar na cabea dos usurios. Rodoviria praticamente no existia, era uma coisa horrvel e acanhadssima prxima Estaco Ferroviria. Era problema e mais problema para ser resolvido e Toninho sabia tudo que iria enfrentar. Mas no era homem de se intimidar. Ao contrrio de Pedro Santos, primava pela organizao.
Quando aceitou ser candidato, j tinha arquitetado tudo o que iria realizar.
Sua primeira ao, antes mesmo de assumir, foi escolher um secretariado de primeira grandeza, sem nenhuma interferncia politica. Na chefia de gabinete, Expedito Guarinello, amigo e de sua extrema confiana. Para tomar conta do cofre, Orlando Ferreira Lima, homem serissimo e ex-fiscal de rendas do estado, acostumado com finanas. Para a Educao, outro amigo do peito, Julio Gonalves Pereira, no qual depositava total confiana. Na sade, o mdico Ildeu Macedo, competente e de famlia tradicional. Para procurador da prefeitura, a escolha recaiu num jovem advogado, Afonso Prates Correia, privilegiada inteligncia (quase um gnio), filho de portugus (Seu Correia). Mais tarde, Afonso chegaria a Sub-Procurador Geral da Repblica, o que mostra como Toninho enxergava longe. Para a secretaria de obras, considerada primordial para o projeto que pretendia realizar, ele escolheu outro jovem promissor, com pouca experincia, mas que seria "o burro de carga" da administrao: Geraldo Magela Maia, humilde, quase invisvel, mas que ombreava com Toninho no trabalho incansvel. Comeava s seis da manh e s parava j noite. Almoava quando dava. No deixava obra parada por um segundo sequer.
Mas Toninho sabia que apenas um secretariado de primeira era pouco. Ia precisar de muito mais ajuda, pois tinha planos ambiciosos para a cidade. Assim, cooptou para ajud-lo na rea de projetos o jovem arquiteto Jos Correa Machado, da Construtora Casa Grande, que seria de inestimvel colaborao na realizao das obras da prefeitura, mais como um consultor. Foi o projetista do Centro Cultural. Machado ajudou Toninho inteiramente de graa, sem nunca receber um tosto. Mas se projetou muito e mais tarde se elegeria vereador e tambm secretrio do prefeito Jairo Atade. Foi tambm presidente da Sociedade Rural de Montes Claros. Pouca gente sabe, mas Machado era o candidato escolhido por Toninho para sua sucesso, em seu primeiro mandato. Ele acabou no aceitando, pois alm da Construtora Casa Grande, estava envolvido na implantao da SIOM, fbrica de culos e de material ptico, com recursos oriundos dos incentivos fiscais da Sudene. E tambm previa que derrotar Pedro Santos seria tarefa quase impossvel.
No programa de obras idealizado por Toninho, o carro chefe era a implantao de aproximadamente 200 quilmetros de asfalto em ruas da cidade sem nenhuma pavimentao, comeando pela rea central, que regorgitava de poeira na seca e de lama na chuva. Depois avanaria para os bairros, todos, sem exceo, sem pavimentao. Todos os Santos, So Jos, Vila Guilhermina, Santo Expedito, Alto So Joo, Funcionrios, Cndida Cmara, Jardim So Luiz, Vila Braslia, Vila Ip (hoje Edgar Pereira), Morrinhos, todos seriam asfaltados. Para bairros mais distantes, como Santos Reis, Trs Pilastras, Delfino, Santo Antnio, Eldorado e outros, seriam asfaltadas as vias de acesso. Era muito asfalto previsto para muito pouco tempo. Toninho, ento, motivou um grupo de empresrios da cidade a formar a Pavisan, para disputar as muitas licitaes que haveria nesta rea de asfaltamento. A idia deu certo e os engenheiros Jamil Habib Curi, Evanildo Guedes Fragoso, Jos Correa Machado, formaram a Pavisan, que seria responsvel por grande parte dos servios de asfaltamento realizados na primeira gesto de Toninho.
Mas a primeira grande obra de Toninho, to logo se elegeu, pouca gente se lembra. Foi a construo de rede de esgoto e guas pluviais em toda a rea central da cidade. Ruas como Dr. Santos Dr. Veloso, Camilo Prates, Afonso Pena, Presidente Vargas, Simeo Ribeiro e outras no possuam rede de esgoto. Eram fossas em todas as casas. Antes mesmo de assumir, Toninho negociou com a DNOCS para que as obras fossem realizadas por aquele rgo federal. Muito amigo de Joaquim Costa, que era diretor regional do rgo na poca, e com o apoio do deputado Edgar Pereira, em Braslia, conseguiu que o governo federal, atravs do DNOCS, realizasse toda a obra, com custo zero para a prefeitura. Foi sua primeira grande vitria poucos meses depois de assumir. Sem alarde, sem qualquer publicidade - a no ser a gratuita dada pelos dois jornais da cidade - mas com um trabalho srio e planejado, em seu mandato Toninho Rebello mudou completamente o aspecto urbanstico de Montes Claros. A cidade ficou pronta para receber as indstrias da Sudene. E recebeu dezenas. Mas isto outra histria, que deixo para historiadores mais competentes.
Alm de asfaltar praticamente toda a cidade com asfalto de primeirssima qualidade, de implantar a rede de esgoto e de guas pluviais em toda a rea central, Toninho construiu dois novos mercados municipais (um na rua Joaquim Costa/esquina com Belo Horizonte, outro na rua Melo Viana), o Parque Municipal Milton Prates (com sua avenida de acesso), vrias escolas e postos de sade na cidade e na zona rural, tudo isso em apenas quatro anos. E entregou para seu sucessor Pedro Santos, uma prefeitura organizada e com alguns milhes em caixa. Fato que repetiria em 1983, quando transferiu a prefeitura para Tadeu Leite, que recebeu uma administrao municipal enxuta e com o cofre abarrotado de dinheiro. Ao contrrio da maioria dos prefeitos, Toninho conseguia no apenas realizar muito, mas tambm economizar como poucos.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lanado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposies, em M. Claros)


79432
Por Jorge Silveira - 10/2/2015 14:25:54

Palavra do autor

Quando resolvi colocar no papel as memrias dos dois mandatos de Antnio Lafet Rebello como prefeito de Montes Claros (1967/70 e 1977/82), minha inteno foi perpetuar a gesto daquele que considero ter sido o maior administrador pblico da histria do municpio. Opinio compartilhada quase por unanimidade por quase todos que viveram as dcadas de 1960/1970 na cidade. Como jornalista, vivi intensamente estes dez anos de frentica movimentao administrativa, onde as obras se sucediam como num turbilho.
Toninho Rebello, como era conhecido, transformou a Montes Claros provinciana da dcada de 1960 na verdadeira capital do norte de Minas. Construiu as maiores obras que at hoje existem na cidade, como o Terminal Rodovirio, o Centro Cultural, o Parque Municipal, o Ceanorte, a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, a Avenida Mestra Fininha (de acesso ao Parque) e outras menos lembradas, mas tambm muito importantes, como toda a rede de asfalto, de primeirssima qualidade, que implantou em toda cidade, e quase uma dezena de praas, como a Wanderley Fagundes, a Itapetinga, a Flamarion Wanderley e outras.
Como conheci muito bem apenas o Toninho Rebello administrador e poltico, convidei sua sobrinha, professora emrita e escritora, Ivana Ferrante Rebello, para compartilhar comigo estas memrias, cabendo-lhe mostrar aos leitores como foi e o que foi o Toninho pai de famlia, o Toninho irmo, o Toninho filho de seu Jaime, o Toninho av, enfim, o homem em todas as suas caractersticas e princpios familiares. Acredito que juntando as memrias de Antnio Lafet Rebello a quatro mos, teremos um retrato bem aproximado daquele que, em quase todos os sentidos, foi e continua sendo o paradigma de alguns conceitos to em desuso nos dias atuais como austeridade, tica, honra, honestidade, amizade, cidadania e patriotismo.
Como poltico e administrador, sei que Toninho Rebello ainda hoje seria ave rarssima na nossa fauna poltica. Se no cenrio poltico nacional houvesse pelo menos uns 20% de homens com ele, provavelmente o conceito do cidado em relao classe poltica seria outro. E se o dinheiro pblico fosse administrado da forma como Toninho o fazia, no mnimo o pas estaria em outra posio no ranking das naes emergentes. No caso de Montes Claros, se os prefeitos que vieram posteriormente tivessem seguido um mnimo dos conceitos administrativos deixados por Toninho, certamente a nossa cidade estaria em muito melhor condio, no esse desastre administrativo com o qual convivemos diariamente.
bom deixar claro que tudo relatado nestas memrias so fatos verdicos. No existe romance ou fico. Se houver algum erro de data ou de nome, desde j me penitencio e peo desculpas, pois tudo aqui narrado foi escrito de memora ( que pode eventualmente falhar). Como jornalista e reprter do Dirio de Montes Claros, vivi de dentro da prefeitura e do convvio com Toninho, os dez anos em que ele administrou o municpio. Foram dez anos dos quais extra uma lio importantssima: por mais bem feito que se faa qualquer coisa, s se chegar prximo da perfeio se tudo for feito com amor, com muito amor. A administrao de Toninho foi quase perfeita por suas vrias qualidades, mas antes de tudo e muito mais pelo amor que ele tinha por Montes Claros. Era um amor que ultrapassava todos os sentidos, chegando a ser mesmo compulsivo em alguns momentos. Mas foi exatamente esta compulso que fez da administrao de Toninho a maior de todas que se viu em Montes Claros no ltimos 50 anos ou mais. Mas melhor deixar para os leitores, especialmente os que no conheceram Toninho Rebello e que no viveram aqueles dez anos de intensa euforia administrativa, a anlise e o julgamento do homem e do poltico Antnio Lafet Rebello. H ainda vivos muitos polticos que viveram e compartilharam das administraes de Toninho Rebello, como Pedro Narciso, Aristteles Ruas, Jos da Conceio Santos, Iran Rego, Deosvaldo Pena, Jlio Gonalves Pereira, Humberto Souto, Carlos Pimenta, Cludio Pereira, Augusto Vieira (Bala Doce) e outros. Todos citados foram ou so polticos. Alguns como Jlio e Iran, secretrios municipais de Toninho, um na primeira administrao, o outro na segunda. Augusto Vieira lder de Toninho na Cmara Municipal. Mas todos, sem exceo, foram testemunhas do que era Toninho e do que foram suas duas administraes. Podero avaliar (ou no) tudo o que relatado nesta obra.
Quanto ao Toninho homem, ao Toninho famlia, acredito que os leitores no poderiam estar em melhores mos do que estando com Ivana Rebello. Ivana das pessoas mais cultas e mais inteligentes que conheci e conheo. Estou certo de que os leitores iro se extasiar com sua prosa agradvel, com suas anlises corajosas, com seu texto perfeito. Sei que muito mais do que completar, ela engrandecer estas memrias. Sinto-me orgulhoso de t-la ao meu lado, resgatando para Montes Claros e seu povo a histria daquele que foi um dos maiores montes-clarenses de todos os tempos, exemplo de administrador, de poltico e de homem de famlia. Um outro Juca Prates ( ou mais um) no amor sua terra. Desejamos, Ivana e eu, que alm de resgatar a memria de Toninho Rebello, ela sirva de parmetro para outros prefeitos. Desejamos que o respeito ao dinheiro pblico, a organizao administrativa, a viso de futuro e o acendrado amor a Montes Claros, marcas registrados de Toninho Rebello, possam orientar os nossos prximos administradores.
Para que assim a cidade possa ter prefeitos mais conscientes de que a prefeitura no deve nunca ser acesso ou trampolim para interesses pessoais ou polticos. Mas sim, e unicamente, uma forma, a melhor forma, de dar aos cidados que aqui vivem e criam seus filhos uma melhor qualidade de vida.

(Extrado do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Poltico", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lanado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposies, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 10/6/2008 13:43:35
O TIME DO SOAITE
JORGE SILVEIRA

No incio da dcada de 60 em Montes Claros, em certo momento, o "footing" da Praa Cel. Ribeiro foi transferido para a Praa de Esportes, com a realizao de um campeonato de futebol de salo que mobilizou toda a juventude da cidade. Nos dias de jogos, a praa ficava lotada. No existia ainda o Ginsio Darcy Ribeiro e os jogos eram realizados em duas quadras a cu aberto.
Um dos motivos que levaram as garotas a transferirem o tradicional "footing" da Praa Cel. Ribeiro para a Praa de Esportes foi o time do Soaite, que o Mimi resolveu formar para disputar o campeonato. Do pessoal de sua turma, ele e o Quinquinha eram os nicos que jogavam um futebol decente. O resto era tudo perna de pau. Ele ento enxertou no time o Pindoba, irmo do Mrcio Milo e na poca goleiro do Ateneu, e formou a zaga com Fernando Etiene e Geraldo Renam (este tambm irmo do Mrcio). Na frente jogava ele prprio, o Mimi, e o Quinquinha (que j tinha sido jogador do Cassimiro e era bom de bola). Na reserva, o Waldyr Aguiar, Agnaldo Drumond e o Mrcio Milo, que entravam em todos os jogos, pois como a turma era do gole, cansava fcil.
O time era ruim de fazer d, apesar de o Pindoba operar milagres no gol. Perdia para todo mundo. Mas deixava a mulherada em xtase total. Era interessante como um time que no ganhava de ningum, tinha a maior torcida do campeonato. E a mulherada ficava o tempo todo gritando os nomes do Waldyr, do Agnaldo e do Mrcio, que geralmente estavam no banco de reservas. E o Mimi era obrigado a coloc-los, para atender s fanticas torcedoras. Edvar R-R, Hlcio e eu, que no jogvamos bola, servamos de tcnicos. Ficvamos de fora, gritando com a turma de dentro.
Nos intervalos, Mrcio, em vez de gua, bebia "cuba libre". Agnaldo, "Hi Fi". Mimi dava-lhes aquela bronca, mas eles diziam que era para botar energia nas veias. Como na poca eu era reprter esportivo do "Dirio de Montes Claros", o Socaite, apesar de toda a sua ruindade, tinha sempre uma notcia de destaque no jornal. Na coluna social do Lazinho Pimenta, ento, nem se diga. Era notinha obrigatria. O Lazinho era tambm torcedor entusiasmado do Soaite e na arquibancada comandava a mulherada.
Mas o time s teve flego para um campeonato. A turma logo cansou e deixou o Mimi na mo. Na verdade, o pessoal gostava mesmo era de festa. E naquela poca, com os vrios clubes volantes existentes (o IT, o Gardnia e o Social Figueira), festa o que no faltava em Montes Claros. Como dizia Agnaldo, com sua verve: "viri muito melhor do que ficar correndo atrs de bola". Viri era uma palavra que a turma usava e que significava "juntar as virilhas". Quando a gente ia danar, dizia que ia" viri". Quem inventou a expresso, se no me engano, foi o Carlos Peres, numa festa em Corao de Jesus. A certa altura, ele levantou da mesa e disse "acho que vou viri". E foi danar. E a expresso pegou para sempre.
O time do Soaite durou pouco, mas marcou poca em Montes Claros. Quem foi jovem no incio da dcada de 60, naturalmente deve se lembrar dele. Timao, de bola, era a Fadir. Ou o time do Banco Hipotecrio. Mas o time das garotas mais bonitas de Montes Claros era, sem dvida, o Soaite. Que de bola entendia pouco, mas que esbanjava charme e beleza nas arquibancadas. E com uma torcida daquela, ser que era preciso jogar bola?


35842
Por Jorge Silveira - 5/6/2008 12:10:42
Este mural de fato uma das melhores coisas da imprensa de Montes Claros, pois alm de ser porta-voz das reivindicaes da populao, recanto de cronistas, poetas e escrevinhadores sem muito talento, como o nosso caso. Mas antes de tudo, este espao serve como relicrio nico da histria de Montes Claros, atravs daqueles que viveram tantas coisas boas que a cidade j proporcionou a seus filhos. Agora mesmo, em funo de algumas reminiscncias que andei contando neste espao, fico sabendo que lcio Teixeira e Waldyr Aguiar esto vivssimos, o primeiro morando em Belo Horizonte e o segundo em Arax. H muitos e muitos anos no os vejo,pois infelizmente a vida tem dessas coisas, separa as pessoas, deixando apenas as lembranas. Mais feliz a turma do Gerinha Portugus, pois como nos conta o nosso grande cronista Augusto Bala Doce Vieira, ela ainda se reune para rememorar as histrias da adolescncia, pura adolescncia dos bons anos 60 em Montes Claros. E voc tem toda razo, Augusto, naquela turma do Mimi todo mundo j trabalhava, at porque todos eram mais velhos do que vocs da turma do Gerinha. Mas de uma forma ou de outra, com lambreta ou sem lambreta, participando ou no das "Festas da Cueca", o importante que todos ns tivemos uma juventude feliz e repleta de bons momentos, numa Montes Claros sem violncia e onde todos se conheciam e eram amigos. E por isso, todos ns nos demos bem na vida, podendo hoje, de cabea erguida, olhar com orgulho o nosso passado. E contar as nossas histrias daqueles tempos em que "ramos felizes e no sabamos". Ser que no sabamos?


35793
Por Jorge Silveira - 3/6/2008 17:05:27
CANDELABRO ITALIANO
JORGE SILVEIRA

Se as motos hoje so motivo de medo, desconfiana e apreenso por parte de motoristas e comerciantes, pois em Montes Claros so a principal arma de trabalho de bandidos e marginais, na dcada de 60 as lambretas e vespas eram sinal de glamour e de requinte para a rapaziada. Embalada pelo sucesso do filme "Candelabro Italiano" e pelo romance de Troy Donahue e Suzane Plesethe pelas lindas paisagens da Itlia, a juventude montes-clarense se embevecia com as lambretas rodando pelas ruas da cidade.

Se no me falha a memria, a primeira lambreta (ou vespa) a rodar em Montes Claros no incio dos anos 60 foi uma de Waldir Aguiar, que era considerado pelas moas da poca um dos partidos mais interessantes da cidade. Ele fazia parte de uma turma que vivia nas crnicas do Lazinho Pimenta, formada pelo Mimi (Hamilton Didier Guimares), Agnaldo Drumond, Mrcio Milo, Edvard R-R, lcio Teixeira e Quinquinha. Quando a lambreta virou "grife" no pas, Mimi e Agnaldo tambm compraram uma. noite, no "footing" na Praa Cel. Ribeiro, eles encostavam as lambretas em frente casa do Sr. Ladislau Braga e ficavam escorados nos assentos, fazendo pose para as garotas que em grupos rodavam a praa. Era o mximo!

Em uma de suas crnicas, Augusto Vieira Neto, o nosso Bala Doce, relembrou a turma do Gerinha Portugus, formada basicamente pelo Saulo, Odorico, Lindolfo, Marco Antnio, Jos Augusto e Fernando Thomaz, e que se reunia ali em frente ao antigo Clube Montes Claros, hoje Conservatrio Lorenzo Fernandez. J a turma do Mimi, tinha como local de encontro, aps o "footing" na Praa Cel. Ribeiro, o restaurante da Madame, o Mangueira, ali na rua Dr.Santos. Impreterivelmente, depois das 11 da noite, a turma estava l, bebendo "cuba libre" e jogando conversa fora. Quase sempre, a noite iria terminar na casa da Leobina, onde o mulherio era de primeira. E a as lambretas ajudavam, pois a casa da Leobina ficava longe, muito longe para os padres da poca.

O nico mecnico de lambreta (ou vespa, como preferiam alguns) na dcada de 60 na cidade era o Osmarzinho, que mais tarde ficaria rico com a "Motosmar". Por sinal, ele o principal responsvel por este verdadeiro congestionamento de motos que se v nas ruas de Montes Claros. Vendeu moto para Deus e o mundo. Acredito que ele mesmo no imaginava nunca que o romantismo que cercava as lambretas de antigamente (ele tambm teve uma) se transformaria nesta loucura de hoje, com a moto servindo de arma para bandidos e assaltantes.

O que mais marcou a poca das lambretas em Montes Claros foi a "Festa das Cuecas", que Mimi realizava toda passagem de ano em sua casa, aproveitando que sua famlia viajava para Alagoas, para visitar parentes. Para entrar na festa, tinha que chegar de vespa, com uma garota na traseira. Como se v, a festa era muito selecionada, pois eram poucos os que tinham vespa na cidade. E tambm no era qualquer garota que tinha coragem de comparecer, pois como o prprio nome da festa indicava, l pelas tantas, com todas na cabea, a rapaziada tirava a cala e ficava s de cueca. Os tempos eram outros e as meninas ficavam com medo de ficar "faladas".

A turma do Gerinha, que no tinha lambreta, s ficava sabendo por alto o que se passava na "Festa da Cueca". E babava de inveja, ao ler a notcia na crnica do Lazinho. Que por sinal era o nico que no tinha lambreta com autorizao para participar daquele que era o rveillon mais particular (e mais invejado) da cidade. Fora eu, que tambm tinha lambreta, ainda esto vivos a para contar o que se passava naquelas festas, o prprio Mimi, que mora hoje em Macei, e o meu bom amigo Mrcio Milo. E se no estou enganado, o Edvard R-R, que mdico e reside em Uberlndia, segundo me disseram. Passados quase 50 anos, acredito que o pacto que todos tinham de no contar nada, mas nada mesmo, para preservar a reputao das garotas, j deve ter caducado.


34927
Por Jorge Silveira - 5/5/2008 18:17:05
Esta indagao feita pelo sr. Eduardo, mensagem 34.921, prefeitura municipal, sobre a destinao de 600 mil reais para a realizao do Carnamontes, deveria ser feita pelos nossos dignos vereadores, pois a eles cabe fiscalizar as aes do executivo. Como at hoje no houve resposta indagao, feita h quase 30 dias atrs - e agora repetida - supe-se que seja verdadeira. E neste caso, o municpio estaria destinando recursos pblicos para um evento onde os lucros so destinados para empresas privadas. Meio esquisito, no? J que a prefeitura no se digna responder a dvida de um cidado-contribuinte, aqueles poucos vereadores independentes deveriam cobrar de forma oficial uma resposta do sr. prefeito. At por educao, qualquer cidado deveria ser tratado com maior respeito pela municipalidade, pois afinal a populao que paga os salrios do prefeito e de seus assessores. E um direito de qualquer cidado solicitar esclarecimentos sobre a destinao dos recursos da municipalidade. E obrigao da prefeitura prestar contas populao. Quem prega tanta transparncia na publicidade oficial, no precisaria nem ser cobrado naquilo que deveria ser um hbito do sr. prefeito e assessores: prestar contas de seus atos aos contribuintes. Quem exerce cargo pblico precisa estar consciente, sempre, que seu patro o cidado, que paga impostos e sustenta o governo, seja federal, estadual ou municipal.


34909
Por Jorge Silveira - 5/5/2008 12:58:44
Atendendo o pedido do cronista montes-clarense Jos Prates, radicado hoje no Rio de Janeiro, a quem leio sempre com prazer, algumas pequenas informaes sobre Janaba, que completa 60 anos de emancipao poltico-administrativa agora em 2008. A cidade cresceu tanto, a partir da dcada de 80, com a implantao do Projeto de Irrigao do Gorutuba, que, provavelmente, o cronista Jos Prates no conseguir mais reconhec-la. Janaba deve ser hoje o terceiro maior municpio da regio, em populao e em arrecadao, s perdendo para Montes Claros e Pirapora. Aquela Janaba que Jos Prates conheceu no existe mais. Transformou-se quase numa pequena metrpole, grande produtora de frutas, especialmente banana, e bonito plo turstico, com a barragem do Bico da Pedra, construda pela Codevasf, empresa pblica federal com sede em Montes Claros. Janaba tem tambm uma das pecurias mais fortes da regio e sua exposio agropecuria s perde na regio para a de Montes Claros. Como pode notar, caro cronista Jos Prates, assim como ocorreu com a nossa querida Montes Claros, tambm Janaba foi descaracterizada pelo progresso. No existe mais o buclico povoado surgido com a Estao da Central do Brasil e que se resumia em algumas pequenas ruas que desaguavam na Praa Dr.Roquete Azevedo (se no estou enganado, este o nome da Praa). Janaba hoje uma cidade de mdio porte, progressista e forte na agricultura, na pecuria e no comrcio. E abriga um grande frigorfico, antigo Frigodias, hoje Independncia, que abate 1.100 cabeas de gado por dia. Esta a Janaba que voc ver hoje, caso resolva retornar para rev-la.


34148
Por Jorge Silveira - 16/4/2008 18:27:21
As estatsticas da polcia podem at mostrar o contrrio, mas parece que o aumento dos assaltos ocorre proporcionalmente diminuio das blitzes contra os motoqueiros. Nos ltimos dias parece que a polcia entrou de frias, no se viu blitz em lugar algum da cidade, e, por consequncia, os assaltos aumentaram. S no final de semana, foram quatro assaltos a postos de combustveis. E os bandidos, sempre de moto, que hoje a principal arma dos assaltantes. A polcia no pode abrir a guarda um instante sequer e as blitzes tm que ser dirias, sempre em locais diferentes, para intimidar aqueles que se aproveitam da negligncia policial para praticar pequenos e grandes furtos, deixando a populao da cidade apavorada, com justa razo. Para a cidade dormir tranquila, a polcia tem que estar sempre acordada e alerta. Qualquer cochilo, uma festa para os bandidos. E assim, Montes Claros vai s subindo no ranking das cidades mais perigosas do estado. Ser que o nosso desenvolvimento, to cantado e decantado por alguns, tem valido a pena?


32999
Por Jorge Silveira - 12/3/2008 07:28:39
Tornou-se invivel operar com o Banco do Brasil depois que a instituio assumiu o pagamento do funcionalismo do estado. No se consegue mais fazer nenhuma operao em qualquer das agncias na cidade sem se perder de 30 minutos a uma hora. Quando a espera no ainda maior. um absurdo que o banco no tome nenhuma providncia, na maior desconsiderao com os clientes. E o pior de tudo que na maioria das vezes h terminais com defeito, tornando a situao ainda mais desgastante. Independentemente do registro de queixas por parte dos cidados, o Procon deveria agir junto instituio, exigindo que o banco melhore o atendimento, j que a situao visvel a olho nu. E so milhares de pessoas prejudicadas, que no tm a quem recorrer. Ou o banco aumenta a quantidade de terminais nos caixas-eletrnicos, ou abre mais agncias na cidade, dando maior opo a seus clientes. Da forma que est que no pode continuar, pois um desrespeito e uma desconsiderao com as pessoas.


32321
Por Jorge Silveira - 26/2/2008 07:52:39
Vendo a foto da antiga Praa Dr. Carlos e lendo a maravilhosa crnica de Ruth Tupinamb, bate uma enorme saudade da Montes Claros antiga, quando se podia jogar conversa fora noitinha na porta das casas. Hoje, quem correr este risco, pode se dar muito mal, pois os bandidos andam soltos por toda a cidade. Apenas como esclarecimento, bom lembrar que a derrubada do antigo mercado, de saudosa memria, ocorreu na administrao do ex-prefeito Toninho Rebello, sem dvida um dos maiores administradores da histria do municpio, seno o maior. Ele optou pela derrubada do antigo mercado como nica forma de transferir do local antigos comerciantes que insistiam em permanecer na velha construo, apesar de a prefeitura ter construdo um novo mercado nas proximidades da Praa de Esportes (quem no se lembra dele, uma beleza de mercado quando inaugurado em 1967, se no me engano? Talvez a derrubada do velho mercado na Praa Dr. Carlos tenha sido um dos poucos erros do ex-prefeito Toninho Rebello, que poderia ter tombado o imvel e construdo ali o museu de Montes Claros. Se isso tivesse feito, hoje seria ainda mais lembrado, e com mais saudade. E talvez a praa Dr. Carlos no teria se transformado naquele monte de concreto!


31888
Por Jorge Silveira - 13/2/2008 18:08:01
Lideranas rurais se reuniram ontem no Parque de Exposies Joo Alencar Athayde para tratar do problema que est deixando produtores beira de um ataque de nervos: a mais forte seca que j se viu na regio nos ltimos 50 anos. As concluses do encontro foram bvias e j alertadas aqui deste mural: o governo at agora no se lixou para o problema e o norte de Minas corre o risco de se transformar num cemitrio de bovinos a partir de junho/julho. O presidente dos sindicatos rurais da regio, Jlio Gonalves Pereira, prev que morrero mais de 500 mil reses, caso perdure a situao atual, de falta de chuvas e de completa omisso dos governos federal e estadual. J o presidente da associao dos irrigantes do norte de Minas, Orlando Pereira, pede o que tambm j foi alertado daqui: ou o governo concede energia eltrica mais barata para os produtores rurais da regio, ou quem tiver irrigao vai ter que parar. Deve-se, neste caso, atentar para um detalhe importante: nesta poca, ou melhor, desde novembro, o normal seria os irrigadores estarem mesmo parados, por causa das chuvas. Mas como praticamente no choveu, quem pode vem irrigando suas lavouras para no perd-las. S que nos meses nos quais a conta da Cemig deveria vir zerada, representando uma economia para os produtores, isto no est acontecendo. A fatura, altssima, continua chegando. E como a situao, a cada dia que passa vai ficando mais angustiante, pois a natureza tem um ciclo do qual no adianta querer fugir, os produtores sabem que quando o governo resolver se mexer, vai ser tarde demais. Se prorrogar dvidas e abrir novos financiamentos ajudaria h dois meses atrs, hoje j no resolve muito. Se financiar plantio de cana e capineira h 60 dias atrs teria sido uma grande ajuda, hoje est quase invivel. Se uma reviso para baixo nas tarifas da Cemig e no ICMS tambm poderia ter sido um estmulo antes, hoje ajuda mas no resolve. Ou seja, o governo deixou a situao chegar a um ponto tal em que at as solues vo ficando cada vez mais difceis. Falta de alerta no foi, pois o assunto vem sendo tratado pelas lideranas rurais com os governos desde o ms de novembro. Mais uma vez confirma-se a sina do norte de Minas e uma das razes de seu atraso: os governos ignoram completamente a regio, mesmo quando a situao desesperadora como agora. E nossos polticos, Deus me livre... o jeito apelar mesmo para So Pedro!


31854
Por Jorge Silveira - 12/2/2008 20:59:05
O Banco Ita divulgou hoje o seu lucro em 2007: mais de oito bilhes de reais, o maior de toda a sua histria. Suplantou, inclusive, o Bradesco, que na semana passada tambm havia divulgado um lucro acima dos oito bilhes. No entanto, o governo Lula faz questo de se colocar como "o governo dos pobres". Paradoxo difcil de explicar: no governo dos pobres, os bancos tm lucros estratosfricos, ganhando dinheiro como nunca ganharam em toda a existncia. Por sinal, o lucro lquido do Ita e do Bradesco foi mais do dobro do que o governo gasta no ano com o Bolsa Famlia (ou bolsa esmola). Governo do pobre ou dos ricos? Cada um analise como quiser.


31710
Por Jorge Silveira - 8/2/2008 13:13:07
H poucos dias, aqui deste mural, comentvamos sobre como as contas da Cemig inviabilizam a agricultura e a pecuria para o pequeno e o mdio produtor no norte de Minas. Quando vem a seca - e ela sempre vem - o jeito se conformar em perder tudo, pois no h como irrigar ou ligar um desintegrador para moer cana, pois quem isto fizer cai nas garras da Cemig e em pouco tempo estar virtualmente quebrado. Mas vendo agora a situao da Coteminas, de se concluir que no apenas a agropecuria sofre com o alto preo da energia cobrada em Minas. Tambm a indstria ressente do mesmo problema. Sinal evidente de que h alguma coisa errada neste circuito. No possvel que uma empresa da qual o Estado um dos maiores acionistas, se transforme na vil do sistema produtivo. Acrescente-se que o prprio Estado, em sua gana arrecadadora, tambm contribui - e muito - para esta situao, pois ainda acresce as contas de energia com um alto percentual de ICMS. Enquanto isso, caros leitores deste mural, nossos deputados se preocupam com o prprio umbigo!


31364
Por Jorge Silveira - 28/1/2008 20:35:52
Vejam s a qualidade dos servios realizados pela prefeitura: pela manh, taparam com asfalto uma grande ondulao que existia na avenida Herlindo Silveira, principal via de acesso ao bairro Ibituruna. tarde, as chuvas que caram (e no foi nenhum temporal)se encarregaram de destruir todo o servio realizado pela manh. Ou seja: o dinheiro gasto escorreu pelo ralo em menos de seis horas. dessa forma que empregam o dinheiro do contribuinte. Lamentvel.


31299
Por Jorge Silveira - 26/1/2008 11:35:02
A chuva ameaa, ameaa, e no cai. Os institutos de metereologia esto ficando desmoralizados, pois anunciam que vai chover, mas as chuvas acabam ficando s na esperana do produtor rural norte mineiro. E o problema da seca muito pior do que autoridades e mesmo a imprensa esto imaginando.Depois de quase nove meses sem chuvas, no ano passado, quando a regio viu morrer cerca de 160 mil cabeas de gado, o perodo que deveria ser de chuvas e de recomposio das pastagens e das lavouras, no se concretizou. No choveu praticamente nada em novembro/dezembro e janeiro foi ainda pior. As lavouras de milho, sorgo, feijo e cana se perderam. As pastagens no se recuperaram e o pouco que brotou o gado est comendo. No vai haver nenhuma reserva para o perodo de seca propriamente dito, que seria a partir de junho/julho. A regio tem oito deputados estaduais e dois ou trs federais que, infelizmente, no conseguiram que os governos movessem uma palha em qualquer tipo de ao que pudesse amenizar a situao futura, que vai ser dramtica. O plano de emergncia anunciado pelo governador Acio Neves mostrou-se completamente incuo (como bem frisou o jornalista Waldyr Senna Batista neste mural). De que adianta distribuir sementes se no h chuvas? Recomposio de dvidas bom para quem deve e no pode pagar, mas no mata a fome do gado nos pastos sem capim. A continuar como est, sem nenhuma providncia realmente efetiva do governo, o norte de Minas vai virar um imenso cemitrio de bovinos, dentro de mais alguns meses, pois vai faltar comida e gua para o gado.Quando isso comear a acontecer, a talvez nossos dignos representantes resolvam acordar da inrcia em que se encontram at agora. Mas ser tarde demais. Infelizmente.


31187
Por Jorge Silveira - 23/1/2008 14:10:55
A mensagem da professora Lourdes, de n 31151, de uma singeleza de cortar o corao de todos os montes-clarenses que amam seu torro natal. E que vem sua cidade se descaracterizando a cada dia, perdendo pouco a pouco sua identidade, como no caso da avenida Cel. Prates. E o que a professora pede, em tom quase de splica, apenas o direito de conhecer o projeto que a prefeitura pretende implantar na Praa Dr. Chaves, para que no ocorra o mesmo que aconteceu com a Praa Dr. Carlos, que o ex-prefeito Jairo Atade transformou em um monte de concreto. O prefeito Athos Avelino, que fala tanto em administrao participativa, deveria discutir primeiro com a comunidade o projeto que ser implantado na Praa da Matriz, como pede a professora Lourdes. Evitando, assim, quem sabe, mais um atentado contra a identidade e a tradio de uma Montes Claros que aprendemos a amar, mas que nossos administradores aos poucos vo cuidando de destruir, em nome de um dito progresso que nem todos gostariam de usufruir. A praa Dr. Chaves, centenria, na qual Nelson Viana passeava todos os dias, que abriga o Palcio Episcopal, a Igreja Matriz e o Solar dos Oliveira, alguns poucos marcos que ainda restam de nossa histria, no pode perder nunca suas caractersticas. No custa discutir o projeto com a comunidade, antes que se cometa novo crime contra a cidade!


30854
Por Jorge Silveira - 12/1/2008 10:48:54
Impressionante como as pessoas que viveram a Montes Claros de ontem (20,30 anos atrs)sentem uma certa nostalgia dos tempos passados. H bem pouco tempo a cidade era um local bom de se viver. No havia violncia, drogas era coisa da qual s se ouvia falar nos grandes centros (ou nos filmes de Hollywood, como em "easy river"), a nossa juventude aproveitava a vida de forma sadia - o mximo que se fazia era fumar e beber uns cubas libres de vez em quando. Nossos jovens passavam grande parte do tempo (quando no estavam na escola) na Praa de Esportes, onde o mestre Sabu ensinava natao e basquete. Cassimiro e Ateneu tinham grandes times e o futebol no domingo era quase uma obrigao. Naquela poca exportvamos grandes jogadores, como Manoelzinho, Jomar, Joo Batista, Manoelito, Chinesinho, Nuno e muitos outros. No precisvamos de escolas particulares, pois a Escola Normal ministrava um ensino de primeira qualidade, com professores excepcionais, como Jos Mrcio de Aguiar (Portugus), Francolino (Cincias), Joo Luiz de Almeida Filho (Matemtica), Pedro Santana (Histria), Terezinha Guimares (Francs), Dona Jane (Ingls)e Dulce Sarmento (Msica), para lembrar de apenas alguns, pois havia mais uma infinidade de timos mestres. Nossos polticos tinham o "status" de um Toninho Rebello, um Joo Valle Maurcio, um Mrio Ribeiro,um Cndido Canela, um Pedro Santos (que alm de poltico, era o mdico dos pobres). Sim, naquele tempo havia mdico que se dedicava a atender os pobres de graa! Realmente, a Montes Claros daqueles tempos era uma cidade onde dava gosto viver. No toa que muitos sentem saudade. Sentem com toda razo, pois natural sentir falta de uma cidade to boa como Montes Claros j foi.


30808
Por Jorge Silveira - 10/1/2008 18:55:38
Deputados federais da base governista j anunciam que podem discutir a volta da CPMF a partir de fevereiro. O que vem demonstrar, mais uma vez, como os polticos brasileiros vivem completamente divorciados do pensamento popular. Todas as pesquisas feitas mostraram que a populao aplaudiu o fim da CPMF, um imposto cumulativo que encarecia todos os produtos e pesava no bolso de todos os cidados. Entretanto, o governo parece no ter engolido a derrota no Senado e j coloca seus esfrega-botas para colocarem novamente em pauta o retorno da CPMF. preciso que o povo reaja, dando uma resposta exemplar nestes deputados que vivem de puxar o saco do governo para atingir seus objetivos pessoais. O Supremo Tribunal Eleitoral divulga atualmente na televiso um comunicado que deveria ser seguido risca pelos eleitores: ficar de olho no deputado que elegeu, cobrando dele posio coerente com os interesses da nao. Isto significa, nada mais, nada menos, do que defender os interesses da populao como um todo e no o prprio bolso. Deputado empregado do povo e no do presidente da Repblica ou do governo. O eleitot deve ficar de olho naqueles que j falam em ressuscitar a CPMF e dar-lhes a merecida resposta nas urnas.


30765
Por Jorge Silveira - 9/1/2008 19:24:44
O que mais se v neste mural so queixas contra a violncia que tomou conta da cidade, transformando a nossa Montes Claros num lugar difcil de se criar nossos filhos. Entretanto, em tempo no muito distante Montes Claros era uma cidade pacata e boa de se viver. Os jovens podiam fazer "footing" na Praa Cel. Ribeiro ou serenata para as namoradas. As festinhas dos clubes volantes eram em casas de famlia e transcorriam senpre em clima de amizade e de companheirismo. Ningum se preocupava com penetras ou com gangues das periferias, at porque Montes Claros praticamente no tinha periferia - e muito menos gangues. Aos domingos, a nossa juventude marcava ponto pela manh na boate da praa de esportes e, tarde, na matine do cine Ftima. noite, na hora danante do Clube Montes Claros. Os pais sempre sabiam aonde estavam seus filhos e no se preocupavam se eles chegariam em casa sos e salvos. Sempre chegavam. Hoje a situao mudou e difcil dimensionar o exato momento em que a cidade se transformou neste inferno de violncia, drogas e intranquilidade. A verdade que a Montes Claros de ontem era infinitamente melhor do que a de hoje. No tnhamos universidades, mas tnhamos mdicos da famlia para atender em casa. A maior festa da cidade era a exposio agropecuria, de dois em dois anos e sem os shows caros de hoje, pois eram os bois, os cavalos e os rodeios que faziam a alegria de todos, adultos e crianas. No havia televiso, mas a diverso era muito mais sadia nos cines Montes Claros, Ftima, Coronel Ribeiro e So Luiz. Pode parecer saudosismo, mas que a Montes Claros de ontem era bem melhor, indiscutvel. Se este mural existisse naquele tempo, ningum iria se queixar da violncia.


30678
Por Jorge Silveira - 7/1/2008 17:50:04
A seca continua assolando a regio de forma assustadora e nossas ditas autoridades competentes continuam dormindo o sono dos justos. As medidas anunciadas pelo governador Acio Neves pouco vo resolver, ainda que aplaudidas pela Amams, num puxassaquismo muito compreensvel. O que as autoridades parecem no estar enxergando que uma seca est adentrando a outra, j que o perodo que deveria ser chuvoso est passando e as chuvas ainda no vieram. No choveu praticamente nada em novembro e dezembro de 2007 e o ano novo comeou com um veranico de torrar. Qualquer fazendeiro, seja pequeno, mdio ou grande, est em completo estado de choque, sem saber o que far dentro de mais alguns meses, pois tudo o que se plantou at agora est praticamente perdido. E as pastagens no se recuperam, exatamente quando deveriam estar exuberantes. Se em 2007 morreram mesmo 150 mil reses, agora em 2008 ser muito pior. O pequeno produtor, coitado, vai morrer de fome, enquanto o mdio vai entregar para os bancos o pouco que ainda lhe resta. S mesmo os grandes produtores, que tiverem condies de levar seu rebanho para outras regies, conseguiro salvar alguma coisa. Quando nossos representantes polticos acordarem, ser tarde demais. Como 2008 ano eleitoral, espera-se que a classe rural da regio saiba dar sua resposta nas urnas.


30589
Por Jorge Silveira - 4/1/2008 08:27:47
A Polcia (militar e civil) parece estar perdendo a luta contra os marginais, que a cada dia mais tomam conta da cidade. Os assaltos se multiplicam por todos os bairros e, quase sempre, os assaltantes so motociclistas (ou motoqueiros), que se utilizam da facilidade deste meio de transporte para a fuga. A Polcia Militar promove algumas blitzes de vez em quando, no sentido de tentar prender alguns desses marginais, mas tudo feito de forma muito emprica, tanto que no final acaba apreendendo alguns veculos, mas nenhum bandido. E os furtos na cidade continuam com a mesma intensidade, atemorizando as famlias e principalmente os comerciantes.A Polcia precisaria usar de mais inteligncia para ter melhores resultados. Por exemplo: as blitzes teriam que ser mveis e em diversos pontos da cidade ao mesmo tempo, para evitar que os bandidos burlassem o cerco policial. Como feito atualmente, em pouco tempo todos os motoqueiros ficam sabendo onde encontra-se uma blitz (uns avisam aos outros)e evitam passar pelo local, a no ser os que nada tm a temer.Se as blitzes fossem mveis - e bem mais frequentes - os resultados poderiam ser melhores. Seja como for, preciso que o nosso sistema de segurana seja mais efetivo e mais eficiente, pois como as coisas andam, a cada dia o cidado honesto e trabalhador fica mais exposto aos marginais, que parecem no ter medo da polcia, at porque so muito pouco incomodados. Polcia boa aquela que admirada pela populao e temida pelos bandidos. Exatamente o contrrio do que ocorre nos dias atuais.


30174
Por Jorge Silveira - 12/12/2007 15:31:12
Qualquer medida que o governo tomar para amenizar os efeitos da seca na regio ser meramente paliativa caso no se ataque o que mais prejudica o produtor rural da regio: a conta da Cemig. Como se pode conviver com a seca, se o produtor no tem condies de ligar um desintegrador para moer uma cana ou mesmo um irrigador para molhar uma capineira? Pois se isto fizer, ter que vender o gado para pagar a conta da Cemig, sob a qual incide uma tarifa de ICMS de 18%, mais cofins. Apenas para exemplificar: tenho um pequeno stio na sada para Juramento e para no deixar meus poucos animais morrerem de fome, liguei o desintegrador uma hora por dia no ms de novembro, para moer cana para o gado. E irriguei minha capineira mais ou menos trs horas durante a noite, dia sim, dia no. Ontem receb a conta da Cemig referente ao ms de novembro: R$1.375,00. Ou seja, vou ter que vender parte do meu gadinho para pagar a conta. Agora, os especialistas dizem que para o pequeno produtor conviver com a seca preciso ter um canavial e uma capineira para tratar do gado no perodo de estiagem. Como, se a Cemig no deixa e quebra qualquer um que ligar um simples desintegrador? Pelo que se v, caso o governo queira mesmo diminuir os efeitos da estiagem na regio, a primeira coisa que ter que fazer diminuir a boca larga da Cemig em cima dos pequenos produtores (e dos grandes tambm), caso contrrio tudo ser mera demagogia e dinheiro jogado fora. Por sinal, o presidente da AMAMS, Valmir Morais, lembrou muito bem deste problema em recente pronunciamento imprensa local. E ele conhece bem a situao, pois tambm produtor rural.Fica a o alerta para os nossos polticos para que assim eles no venham com simples medidas paliativas e que no resolvem o problema.


29667
Por Jorge Silveira - 20/11/2007 14:10:19
Esta histria da votao da CPMF no Congresso Nacional o exemplo escarrado da total falta de vergonha na cara dos polticos brasileiros. Quem antes criou e aprovou a nefanda contribuio, hoje contrrio sua manuteno. Quem antes era radicalmente contra, ou seja, o PT, hoje a favor. Os argumentos dos tempos passados viraram cinzas (ou palavras mortas), tanto para uns como para outros. O que vale, simplesmente, so os interesses do agora. O PT, que votou em bloco contra a criao da CPMF e depois duas vezes contra sua prorrogao, diz hoje que sua manuteno imprescindvel para o pas fechar suas contas. O que significa que antes eles votaram contra os interesses nacionais. J o PSDB e o PFL (hoje DEM), que criaram o monstrengo que surrupia a economia do povo, fazem agora das tripas corao para rejeitarem a filha bastarda. E nossos dignos representantes ainda pretendem que o povo acredite neles! Infelizmente, o Congresso Nacional representa hoje o que h de mais desacreditado entre todas as instituies do pas. uma lstima, pois este descrdito do Congresso abre caminho para que os amantes do totalitarismo j comecem a pensar num terceiro mandato. Falta pouco para que nos transformemos numa Venezuela!


29640
Por Jorge Silveira - 19/11/2007 08:27:23
A matria do jornalista Waldyr Senna Batista da ltima semana retrata bem a situao da seca na regio e, melhor ainda, a inrcia da nossa classe poltica. Nunca tivemos tantos deputados to ineficientes. A regio j vive nove meses de seca, j morreram mais de 100 mil reses segundo clculos de especialistas, e at agora os nossos carssimos deputados ainda no se mexeram. Parece at que no com eles!E o nosso to badalado governador Acio Neves tambm se faz de morto. Em outras ocasies, como em 1976, como bem lembrou Waldyr Senna, o ministro Rangel Reis, o governador Aureliano Chaves, o superintendente da Sudene e todos os nossos deputados, se reuniram em Montes Claros, no Automvel Clube, e a regio ganhou a construo da Barragem do Bico da Pedra, alm de poos, contratao de mo de obra para obras emergenciais, abertura de crditos especiais no BNB e BB, ampliao dos prazos para pagamento dos financiamentos, etc. Hoje, quando a seca at mais prolongada e a situao ainda pior, as autoridades continuam vendo a banda passar. A situao retrata bem o que h muito j se constata: a classe poltica brasileira baixou de nvel de forma impressionante. No temos mais polticos como os de antigamente! E olha que em 1976 era tempo de ditadura!


22611
Por Jorge Silveira - 4/4/2007 09:41:21
Gosto de ler este mural, pois nele d para sentir bem o sentimento da populao, no s com relao sua cidade, como tambm com os polticos responsveis pela administrao do pas. E o que se v uma completa decepo com a classe poltica. Ningum, mas ningum mesmo, acredita na ao dos nossos polticos. E todos esto cobertos de razo, j que nenhum deles (com rarssimas excees)se preocupa com os reais problemas da populao, colocando sempre em primeiro lugar o prprio interesse pessoal. Quem conhece histria, deve relembrar a "Queda da Bastilha", quando o povo francs se cansou dos desmandos da realeza e saiu s ruas para guilhotinar os nababos da Corte, que viviam em festas e orgias enquanto a populao passava fome. No estamos muito longe disso. Os polticos que se precavejam! A pacincia do povo pode um dia se esgotar.


22445
Por Jorge Silveira - 28/3/2007 09:41:45
Eu vejo hoje o prefeito Athos Avelino ser verdadeiramente massacrado por uma parte da imprensa - em alguns casos com razo, em outros nem tanto - e fico pensando se ele tem sido muito diferente dos outros prefeitos que passaram pelo Executivo Municipal nos ltimos 40 anos. Na verdade, em todo este espao de tempo, prefeito de verdade, bom de servio, competente e extremamente honesto, s me lembro de Toninho Rebello. Os outros, foram simplesmente os outros, meras repeties de incompetncia e inutilidade, Montes Claros de fato uma cidade infeliz com seus administradores. Athos, portanto, no exceo, apenas repetio.


21949
Por Jorge Silveira - 14/3/2007 10:15:06
O prefeito Athos Avelino deveria dar uma passadinha na Avenida Jos Correa Machado, para ver como o mato tomou conta do canal. Quem caminha por aquela avenida fica envergonhado de verificar como a nossa cidade est abandonada, em questes to simples! Ser que est faltando foice na prefeitura?




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