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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Web Outros    Jornal Hoje em Dia
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Por Web Outros - 9/11/2010 14:57:33
As delcias de Mel

Tio Martins - Jornal Hoje em Dia

Sem Mrcia Yellow, a cidade de Montes Claros jamais seria a mesma. E Mrcia Yellow, sem Montes Claros, seria outra pessoa. As duas se conhecem e se entendem melhor que irms gmeas. Um dia desses, ao reproduzir a opinio favorvel da Mrcia sobre o Super Paulo Coelho, uma cidad chamada Amelina entrou de mansinho na conversa e deu merecido belisco em algum ponto sensvel da anatomia desse autor. Hoje, para espanto da moada, vem a revelao: Amelina tambm de Montes Claros, escreve livros erticos e biografias e j atingiu a idade em que os humanos podem se permitir quase tudo, embora muitos continuem escravos do passado, da rotina e da pegajosa chatice.
- Sim, minha vizinha aqui do Norte de Minas, querida, amada, linda. Eu a chamo de Amelinda. Outros a chamam de Mel - conta Mrcia Yellow, feliz por aparecer em uma crnica ao lado da sua amiga, que acaba de festejar mais um ano de liberdade para pensar e criar. Mrcia no sabe dizer se a sua Amelinda comemorou, em outubro, 72, 78 ou 80 anos de idade, mas deixa claro que isso o menos importante. Prefere citar os livros que ela j escreveu, com ttulos que anunciam a mente aberta e livre da autora: "O Livro Proibido" e "Prapo de bano", por exemplo. Amelina, Amelinda ou Mel escreveu tambm uma biografia do compositor e seresteiro Joo Chaves, autor de "Amo-te Muito", uma msica que j fez 100 anos e continua como favorita de dez entre dez mineiros romnticos e saudosistas, categoria que inclui os jornalistas Paulinho Narciso e Roberto Elsio. O ttulo da biografia j diz tudo: "Joo Chaves: Eterna Lembrana". Essa menina de Montes Claros escreveu tambm "O Andarilho do So Francisco", que foi adaptado para o teatro; "Quitute e Amor" e "O Cncer da Vingana", entre outras obras que Mrcia classifica como "deliciosas". E est prontinha para sair do forno a biografia de Hermes de Paula, o grande historiador de Montes Claros. Com os seus 72, 78 ou 80 anos, Mel no quer saber de descanso e se arrisca tambm no artesanato. Suas bruxas de pano j foram at destaque no programa Som Brasil.
- Ela viva, me de 15 filhos e no ano passado foi enredo de uma das nossas escolas de samba - conta Mrcia - e desfilou bem frente, cumprindo todo o percurso na maior animao. Quando nos encontra pelas ruas, para e bate um papo e s vezes senta. Para discutir ideias, nunca pessoas. Tempo para os amigos ela sempre tem, assim como o caf coado na hora, em sua casa, para nos receber a qualquer momento. As duas outro dia se encontraram com os amigos Paulo Narciso e Raphael Reys no Centro Cultural, cantaram parabns e foram as ltimas a sair. Mrcia deixou Amelina aos cuidados dos amigos, que prometeram ter juzo e acompanh-la sua casa sem cair nas tentaes dessa frtil autora de contos erticos.
- Amelina Chaves assim, na flor da idade, na maneira leve e solta de viver e na intensa paixo pela vida. Tem um semblante de paz e tudo de bom. Amada, muito amada, ela um dos nossos patrimnios. Meninos, vejam que bela companhia vocs conquistaram. De hoje em diante, sempre que forem a Montes Claros, j sabem: levem nosso abrao a Amelina. E leiam os livros dela, de preferncia ouvindo a msica "gua Viva", trilha sonora que a Mrcia Yellow recomenda.


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Por Web Outros - 26/9/2010 13:35:30
A faixa da Rua do Ouro

Roberto Elsio - Jornal Hoje em Dia

De repente, como fosse pacata ruazinha de uma pequena cidade do interior, a movimentada Rua do Ouro amanheceu com decorao nova, impregnada do mais puro lirismo de tempos passados: uma enorme faixa, atravessada de uma extremidade a outra da efervescente via de acesso ao denso Bairro da Serra, comunicava a apenas trs letras - MDW - toda a extenso de um sofrimento de amor: "Tentei te esquecer. No consegui". primeira anlise, a manifestao com gosto das coisas de antigamente chega a surpreender, mas logo depois se cai na realidade: surpresa nenhuma, apenas uma maneira mais simples de tornar pblico um sentimento abafado: "Tentei te esquecer. No consegui".
No se sabe se o desditoso (para usar tambm uma expresso antiga) personagem do amor interrompido chegou a recorrer a tecnologias de comunicao mais modernas, todas elas colocadas ao alcance do ser humano aps a inveno do computador, da internet e das novidades digitais que se seguirem. Se o fez foi em segredo e, pelo que se conclui, sem qualquer sucesso. Da o recurso velha faixa de pano estendida na Rua do Ouro, para cujo xito estamos todos torcendo.
Meu amigo Genaro, um incorrigvel romntico abenoado pelas noites enluaradas de Curvelo, sustenta que o sentimento irmo gmeo da natureza de que nos adverte Lavoisier. Nele nada se perde e tudo se transforma, mesmo ficando anos e mais anos arquivado a um canto da memria. como se fosse o fogo de lenha nas cozinhas antigas. Voc levanta de manh, acha que est tudo apagado. Basta, no entanto, abrir a janela, por mais discretamente que seja. Se o vento soprar a favor, acende tudo de novo. As brasas voltam a queimar, como se simbolizasse o renascer de sentimentos s aparentemente adormecidos.
As duas pequenas frases de faixa da Rua do Ouro - "Tentei te esquecer. No consegui" - se aparecessem num local ais inspirador, como no beco de uma favela carioca ou num botequim da Lagoinha, talvez terminassem em samba. Na Santa Luzia, minha e de Jos Bento Teixeira de Salles, na Diamantina de Fausto Matta Machado e na Montes Claros de Paulo Narciso, inspirariam, no mnimo, uma seresta. A cano escolhida, a se levar em conta o lamento da faixa, poderia perfeitamente ser um antigo sucesso de Slvio Caldas: "Sorri da minha dor, mas eu te quero ainda".
Na turbulenta Rua do Ouro, a faixa contm um apelo em forma de poesia, a que MDW no pode manter-se indiferente. Afinal, se a tentativa de esquecimento foi intil, porque existe muita coisa para ser lembrada. s deixar o vento que anima o fogo de lenha fazer a parte dele.


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Por Web Outros - 23/9/2010 10:57:30
Ainda resta esperana

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Chuvas em excesso na sia, China, ndia e Paquisto com cidades invadidas pelas guas, destruindo toscas habitaes e plantaes. Milhares de mortos e centenas de milhares expulsos de seus lares. O mundo presta ajuda a naes to grandes, duas das quais poderosas, formando com o Brasil o grupo da BRIC. Na efervescncia eleitoral, o maior pas da Amrica Latina sofre com temperaturas elevadas, com o rigor da baixa umidade do ar - viramos um pedao da frica, com o reduzidssimo ndice pluviomtrico: choveu apenas 55m nos ltimos noventa dias, o mais baixo da mdia histrica, no norte do Estado. O fenmeno repercutiu gravemente no sistema produtivo. Na rea rural da maior cidade da regio, 18 mil pessoas enfrentam a falta de guas, enquanto focos de incndio em todo o territrio brasileiro. Esgotam-se mananciais. A gua das cisternas estava l embaixo. O nmero de atingidos pelo esgotamento das reservas hdricas obrigou a mobilizao do Sistema Nacional de Defesa Civil. Nas captais e grandes cidades, reclamava-se: o tempo tem mudado demais. Difcil dirigir veculos nas cidades maiores, sob o calor intenso com trnsito catico. O tempo no mais confivel como antigamente. Em cidades do serto mineiro, fazia frio nas madrugadas deste ano. Ningum se lembrava de que o "inverno", que costuma terminar ali nas duas primeiras semanas de agosto, tivesse se estendido a setembro. Durante o dia, os termmetros andavam pelos 30 graus, ou mais. Para os bomios, que rareiam nas ruas interioranas, poca ideal para a lua, que seguiu majestosa, e doce, ao encontro do cu da Primavera, sempre esperada. Uma espcie da bela estao j se nota na arborizao das ruas, coloridas com flores tpicas. Confia-se em que seja bom sinal. Claro que se aguardava que as chuvas chegassem antes, evitando problemas com a sade, no restritos s crianas. Viroses no escolhem idades. Teme-se a carestia. Redemoinhos serviam algazarra das crianas de antes. Hoje, elas esto vendo televiso na sala ou operando a Internet, confiando-se que se troquem nas melhores mensagens. Cuidado, que a droga atrai meninos e adolescentes ao descaminho! A chuva, depois da longa estiagem, sempre traz esperana. Dela muito se vive, principalmente no serto rido, em que as rvores perdem seus ramos e seus esqueletos parecem implorar gua do cu. Depois, podem vir as mones, que muito destroem, inclusive vidas humanas, dispersas em casebres pelo territrio desprevenido e desassistido. O homem se conforma: s resta esperar. E buscar gua na cisterna; os crregos secaram ou esto em dimenses mnimas. Depois, tomaro vulto e causaro risco aos que os desafiam. o preo de viver na regio, onde a inclemncia tambm nasce da natureza. Para Paulo Narciso, chuva de broto mesmo parece que fica para o dia de S. Miguel Arcanjo, 28 de setembro.


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Por Web Outros - 9/9/2010 12:04:13
No tempo dos coitadinhos

Tio Martins - Hoje em Dia

Toda cidade, por menor que seja, tem garotas disponveis para acompanhar um cavalheiro, mesmo que ele nem seja assim to cavalheiro. E elas j acompanharam tantos, profissionalmente, que hoje se apresentam como "acompanhantes", mesmo que esse ofcio no esteja previsto na declarao anual de renda. Nesse departamento, Montes Claros, que sempre foi moderninha e avanada, chegou a importar acompanhantes do mais alto nvel, como contam os nativos de maior idade. O calor intenso e o dinheiro disponvel se juntavam para fazer da cidade um centro importante de acompanhamento. Os endinheirados, vindos de toda a regio Norte de Minas, desembarcavam periodicamente nas melhores casas do ramo e no poupavam cruzeiros velhos ou novos, em troca de uma boa companhia. Naquela poca, dizem os saudosistas, s andava sozinho quem sofresse de alergia por moas. E, para os eternos desprevenidos em matria de grana, restava sempre a possibilidade de que uma das moas cometesse um gesto de generosidade e misericrdia. As meninas daquele tempo no eram avarentas. Ou nem todas eram. Trabalhavam por dinheiro, sim, pois ningum de ferro. Mas tambm sentiam pena dos garotos, encostados no balco at o ltimo sopro do sax ou o derradeiro acorde da viola. Esses desvalidos, com a boca seca e cara de coitadinhos, eram mestres em tocar o corao das moas.
Aps a longa noite inteira de trabalho e enquanto os msicos recolhiam os instrumentos, as moas ficavam por ali, sem sono. E havia sempre duas ou trs mais atiradas e generosas. Estas atravessavam o salo e pescavam os coitadinhos, porque ningum de ferro e, naquela poca, as acompanhantes tambm gostavam de companhia. Hoje, devido intensidade da competio (e globalizao da economia, que o bicho-papo dos tempos modernos), a profisso de acompanhante ficou mais sofisticada. As moas j no se chamam Emerenciana, Josefina ou Julita. E voc jamais encontrar uma que considere natural e doce o apelido de "Maria Tomba-Homem". Alm disso, operam via celular, investem parte do capital em academias, anunciam nos jornais, colocam avisos na web, enviam e-mails e aguardam, em casa, que apaream os coraes solitrios. Ainda esta semana, trs acompanhantes estacionadas em Montes Claros dispararam e-mails para clientes, turistas e colunistas do Brasil inteiro ( a tal globalizao), oferecendo seus servios pela mdica e padronizada quantia de 70 reais, com a qual o cidado adquire 60 minutos de companhia. Andressa, Geovana e Gabriella informam os nmeros dos seus celulares e no entram em detalhes a respeito do trabalho, mas oferecem um slogan que slida garantia aos turistas e curiosos que visitarem a cidade: "Em Montes Claros, s fica sozinho quem quer". Ou quem no tiver grana no bolso. O tempo dos coitadinhos acabou. A moda agora outra. E no h mais espao nos balces para que eles se encostem, espera da felicidade. Com 70 reais no bolso ou um carto de crdito ativo, voc um sujeito simptico e atraente. E no ser surpresa se um amigo contar que Andressa, Geovana e Gabriella exigem do cliente pagamento adiantado, para que os ponteiros do relgio comecem a funcionar.
Se assim em Nova Iorque, Paris e Istambul, por que no em Montes Claros?


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Por Web Outros - 5/9/2010 09:31:35
A ameaa do lixo

Roberto Elsio (Jornal Hoje em Dia)

At que surgisse essa estranha histria envolvendo a queima de lixo hospitalar, Santa Luzia e Montes Claros s apareciam no mesmo noticirio quando se alinhavam as suas afinidades, como o gosto pela poesia, o culto s velhas serenatas e a vocao irresistvel para o exerccio do jornalismo, trao forte na personalidade dos filhos das duas cidades. Apesar da razovel distncia entre ambas - Santa Luzia na Regio Metropolitana de Belo Horizonte e Montes Claros na rea norte do Estado - sempre foram consideradas irms gmeas na manifestao dos valores permanentes do esprito.
Os luzienses tm o hbito de cantar, dominados pelo mais puro sentimento, o "Amo-te muito", carro-chefe das composies imortais do montes-clarense Joo Chaves, aquela beleza de valsa a falar "amo-te muito, como as flores amam/ O frio orvalho que o infinito chora. / Amo-te tanto/ como o sabi da praia/ ama a sangunea e deslumbrante aurora".
O tambm poeta e empresrio Luiz de Paula, que embora nascido em Vrzea da Palma tornou-se um cidado de Montes Claros pelo direito de conquista, lanou recentemente o seu livro de memrias, no qual alinha uma srie de desejos que alimenta antes que a crueldade do tempo o cale para sempre. Um deles fazer uma serenata luz da lua de Santa Luzia, que os jornalista Manoel Hygino e Paulo Narciso j conheceram em tempos mais pacatos.
Os saudosos irmos Mrio e Darcy Ribeiro costumavam visitar Santa Luzia com frequncia, porque na tradicional cidade metropolitana se sentiam em casa, justamente pela afinidade da qual j aqui se falou.
Guardo ainda hoje, com o maior carinho, um long-play gravado h mais de 30 anos pelo conjunto de seresta Joo Chaves, que Mrio Ribeiro teve a gentileza de enviar-me poca. Do velho vinil consta a valas "Saudade", uma das mais belas que j ouvi em toda a vida, sobretudo pelo lirismo na formulao dos versos: "Saudade, mal-estar que se bendiz/ E o corao maltrato/ com doura".
Agora, no entanto, esse histria de queima de lixo hospitalar ameaa colocar em posies antagnicas Montes Claros e Santa Luzia, que tanto tm a oferecer, uma outra, sem esse mal cheiroso. Estranho o fato de que, sendo luziense (e com muito orgulho), s tenha citado neste espao figuras histricas de Montes Claros. A razo simples: infelizmente, estou impedido, graficamente, de relacionar os imortais de Santa Luzia.
No caberiam em apenas numa pgina de jornal.


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Por Web Outros - 1/9/2010 07:31:50
Agosto de sempre

Manoel Hygino

Agosto no Norte de Minas no este de 2010, quando a coluna de mercrio desabou. tempo de muito vento, de muito calor no clima e no esprito das pessoas. Antigamente, o redemoinho incomodava enormemente e levantava a poeira a grande altura. As ms lnguas diziam que era fcil aos aviadores, em pequenos aparelhos, identificar a regio por onde voavam, a partir da capital. A primeira nuvem de p era de Curvelo, na poca sem pavimentao; l de cima se podia saber onde ficava a maior cidade mais ao norte, Montes Claros, denunciava-a a seguinte de pesada nuvem de poeira, l embaixo. No havia necessidade de instrumentao a bordo. Tudo mudou, faz um frio inacreditvel. O sol tem medo de aparecer. A coluna de mercrio desce at a menos de 10 graus centgrados. Tempo fechado como a sorte dos sertanejos, h muitos e muitos dias sem chuva. E, agora, com essa luminosidade e temperatura precrias do astro-rei. Mas as festas de agosto, tradio da gente simples do serto, que atravessa festivamente esta poca do ano, impe calor nos coraes. Resgatam-se tradies pretritas que as capitais no conhecem, nem interesse tm. Darcy Ribeiro, o etnlogo, o socilogo, e escritor, sonhava - estivesse onde estivesse neste mundo de Deus - com o oitavo ms do ano e a alegria cantante nas ruas, mesmo com a poeira, imaginando-se feliz ali como imperador das festas. O mesmo sente Paulo Narciso, jornalista, que sai pelas mesmas ruas, desfilando e revivendo passado jamais obscurecido. Ele deve ter redigido essas linhas: "Atracou a Nau Catarineta. Marujos deixam o convs e j se vo juntar aos Caboclinhos, aos Catops. Cantaro e danaro pelos prximos seguidos dias. Pelos arrabaldes, primeiro (oua-os, ao longe) - depois pelas ruas centrais, que percorrem penitentes h cerca de 200 anos, trazidos por um surdo de tambor de apelo intraduzvel, que estruge nos coraes, e nas mentes. Mistrio, mgicas, sortilgio. chegado o tempo longnquo das Festas de Agosto. A anunci-las, a esper-las, entraram de prontido todos os Ips, por todos os caminhos. Alta Gala do Serto".
Para 18, dia do primeiro reinado dos Catops - o de Nossa Senhora do Rosrio, as previses eram de temperaturas reduzidas. A mnima esperada era de 9 graus, com ventos de 13 km por hora, soprando da direo Leste-Nordeste.
preciso conhecer as tradies locais para entender os sentimentos dessa gente, que cultiva a religiosidade desse tempo, que de festa, de alegria, mas tambm de meditao. No segundo dia, o mastro de So Benedito, sai de noite da Praa Roxo Verde at a igreja do Rosrio, na Praa Portugal, no centro. No dia seguinte pela manh, o reinado do santo africano.
At o domingo, que - em 2010, caiu em 22 de agosto - catops, marujos e caboclinhos desfilando pelas vias pblicas da cidade, de manh e noite, saindo de vrios bairros para concentrao na igreja do Rosrio. a mais antiga festa popular da cidade, antigo Arraial de Nossa Senhora da Conceio e So Jos de Formigas, onde o bandeirante Antnio Gonalves Figueira obteve uma sesmaria e se assentou...
As festas de agosto, nos dias 16, 17 e 18, so respectivamente em homenagem e reverncia a Nossa Senhora do Rosrio, So Benedito e Divino Esprito Santo. quando se promovem prticas puramente religiosas, tais como missas, bnos e levantamento de mastros, mas tambm outras atividades populares, alm de cavalhadas e o bumba meu boi, que ficou na saudade. Neste ms abriram-se inscries para o 2 Salo Nacional do Psiu Potico, que j tambm iniciativa cultural conhecida no pas. Participam poetas, cineastas, artistas de todo o Brasil, mesmo do exterior, que enviam seus poemas, livros, filmes, CDs ou propostas para performances com tema livre.
O festival propriamente dito de 4 a 12 de outubro e prope, este ano, um dilogo com a stima arte, sobre o tema "Cinepoestia", enfatizando o liame da cidade e da regio com o cinema.
Que as santidades de agosto premiem os que dedicam ao folclore e as artes! Eles merecem.


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Por Web Outros - 25/8/2010 07:33:05
Do jornal ao livro

Manoel Hygino

A jornalista Mrcia Vieira, embaixatriz do Norte de Minas para o restante do Estado, me envia exemplar de "Sapo na Muda", livro do jornalista Lus Carlos Novaes, que tem como subttulo "Meus amigos, meus mortos, meus caminhos tortos". J ouvira a expresso "passarinho na muda", que se refere a um perodo de transio do animalzinho voador e o perodo de candidatos a cargos pblicos, esperando definies. "Sapo na Muda" me causou estranheza, que o tambm jornalista Felipe Gabrich explica.
o nome da coluna mantida semanalmente no "Jornal da Notcias", de que editor, em Montes Claros, o agora escritor.
Diz mais: "E o que `Sapo na Muda` seno as modificaes que a vida vai nos proporcionando em todos os setores?
Ao longo da vida, vivemos os modismos, enfrentamos, derrubamos e implantamos governos; vencemos as barreiras dos mitos existenciais; apaixonamo-nos; beijamos; namoramos e casamos. Temos filhos e vamos tocando o presente e pensando no futuro, que j agora". O livro contm tudo isso, sendo personagem principal Luis Carlos Novaes, o autor, tambm conhecido como Perereca, ou para simplificar Per, algum que sabe escrever, o que j relevante num pas em que no poucos ocupam espaos nos jornais e as pginas de livros, sendo rigorosamente apedeutas. O autor de "Sapo na Muda", o livro, descreve despretensiosamente a cidade como era num perodo muito duro para os brasileiros de um modo geral, porque perodo da ditadura militar, que serviu para que no poucos hoje gozem de indenizaes vultosas concedidas pelo governo. Quem tomar mo o livro ir inicialmente julgar que se trata de contos, revelaes, confisses e invenes sobre um povo que mora num lugar j distante da capital, sofrido pelas secas, mas tambm pela incria ou omisso das administraes pblicas. Em verdade, tudo isso e muito mais, relatado num volume agradvel, que no passaria pela censura de outros tempos, dos governantes, ou de nossos prprios pais. Porque geralmente a censura comeava em casa. Mesmo para quem no conhece os personagens, os casos so interessantes e levam a pensar como agiramos diante dos fatos e das circunstncias expostas. Um grupo de revolucionrios sem armas e munies, a no ser as da rebeldia, dos no chegados maturidade, "aprontava", aventurava nas noites e nos dias, em todos os campos: na msica, na imprensa, nas atividades esportivas - ou no, viviam e sonhavam, porque aquela era exatamente a poca para os sonhos.
Mas era uma turma muito ligada nos acontecimentos, no apenas os locais. As notcias chegavam, msicas era exportadas do serto, enquanto outras entravam de mansinho ou ruidosamente nos lares e nos bares, nos sales e nos clubes.
"Eh! Mundo nuvem, cu sem porteira.
1972 foi um ano interessante. Enquanto nos Estados Unidos os Democratas exigiam rigor em Watergate, aquela investigao sobre a tentativa de colocar microfones clandestinos na sede da legenda, no edifcio Watergate, coisa to comum hoje no Brasil, os Jogos Olmpicos de Munique tinham a ateno do mundo. Com 18 mortos, numa ao dos terroristas do Setembro Negro, que lutava pela libertao da Palestina. E ns, aqui, aprendendo a lutar contra terroristas com fuzis de 1914. Eh! Mundo ter, almas criadoras". Aqueles jovens pensavam que a sua terra era livre e o seu quarto infinito. Tinham ideais de amor e liberdade, embora em plena ditadura. "ramos bem mais criativos do que vejo nos meninos e meninas de agora, e nas discusses dizamos verdades. Mas aprendi, ali, que as verdades no so para serem ditas. Basta olhar os olhos. Vivamos verdades, ideias e ideais, olhvamos para o futuro como se ele fosse acontecer dentro de dez anos. Na verdade, o futuro aconteceu rpido. Instantes depois...To estranho crescer, adolescer... Escrevemos tranquilo sob a copa das rvores, "ns estvamos semeando, companheiros, no corao, manhs e frutos e sonhos. Ns preparvamos, companheiros, sem iluso, um novo tempo".


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Por Web Outros - 14/7/2010 08:07:51
Um esplndido museu

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Dois ilustres cidados, que se dedicam, vitoriosamente, s letras, ao magistrio, pesquisa histrica, rea jurdica e s artes aparecem em foto de Girleno Alencar, chefe da sucursal de Montes Claros, em edio de 6 de junho do HOJE EM DIA. Drio Teixeira Cotrim, presidente do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, e Petrnio Braz, presidente da Academia de Cincias, Letras e Artes do So Francisco, Aclesia, apresentavam bens doados ao Instituto. Bens valiosos, bom que se diga.
que o acervo valioso do engenheiro, pesquisador, prefeito Simeo Ribeiro Pires fora doado pela viva ao IHGMC. Ora, muito srio e merece registro, porque Terezinha Gomes Pires adorava aquelas peas, entre as quais um canho de guerra usado na Sabinada.
Para se medir a importncia do bem material e histrico, seria conveniente identificar quem construiu esse acervo. Simeo foi o nico intelectual do Norte de Minas a levantar os arcanos da regio, e no o fez quietinho, sentado em uma sala de estudos.
Era desse feitio. Diante de perquiries e dvidas, hasteou velas e partiu para Portugal, em cuja clebre Torre do Tombo localizou vias para uma cova histria de Minas Gerais.
Alm do canho e outro bens, h mais de 4 mil publicaes, obras rarssimas, entre as quais o "Atlas e Relatrio da Explorao do Rio So Francisco", de 1852 a 1854, elaborado pelo engenheiro Henrique Guilherme Fernando Halfeld, por determinao de Pedro II, e cujos feitos e genealogida foram minuciosamente levantados e contados por Pedro Nava.
Simeo Ribeiro Pires legou a seu tempo e aos vindouros uma obra notvel, como "Razes de Minas" e "Serra Geral", que mudou a histria de Minas, como julgaram Alberto Deodato e Joo Camillo de Oliveira Torres, e outro conceituados autores, e "O Padre e a Bala de Ouro", que relata, sempre objetivando a exatido, a busca da melhor de um fato inserido na crnica regional.
Em livro que ainda ser lanado, Haroldo Lvio afirma que "a paixo pela pesquisa histrica havia se apoderado do antigo engenheiro civil, que, depois de estrondosa estreia em livro, redirecionou sua atividade intelectual. Em face, ainda, de seus afastamento da vida pblica, aps ser o prefeito e vereador, passou a falar menos e a escrever mais. Da em diante, a reputao do tribuno foi cedendo passo ao renome de historiador da primeira gua".
Esse patrimnio ter de ser obrigatoriamente preservado. No faz-lo crime. A propsito, indispensvel que se proteja esse legado, porque, se perdido, jamais ser recuperado. Percebe-se que h um certo interesse no Brasil por esses bens.
H o acervo do historiador Brasiliano Braz, que resgata a histria do rio e da cidade de So Francisco, na sua margem direita. Pela grande corrente tem circulado, durante sculos, riqueza de Minas e pondervel parcela da economia nacional.
Tantas vezes desdenhado e menosprezado, o rio definhou, mas ainda um potencial de riqueza e de integrao nacional, que no merece ser lembrado unicamente como fonte de votos e nas catstrofes.
Sonho.
Imagino se, somado o acervo esplndido de Simeo Ribeiro Pires, ao de Brasiliano Braz, o primeiro historiador sofranciscano, e, ainda, o de Joo Botelho, e de tantos outros cidados laboriosos de uma regio de notveis valores humanos, poder-se-ia criar se um complexo museolgico de todo o norte-mineiro, para o que no falta material riqussimo.
Pena que se tenha demolido o velho Mercado Municipal, cujas brasas de saudade esto acessas, nem que prosperasse a ideia de quem tem viso do futuro, como Wanderlino Arruda, que vislumbrou sua reconstruo. No obra de soberbia, nem de custos fabulosos.
No custa sonhar, como disse neste princpio de conversa. de sonho que nascem os grandes empreendimentos.


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Por Web Outros - 25/6/2010 08:48:33
O poder da graa

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Quando recentemente uma gripe - suna, aviria ou comum - quis derrubar-me a atirar ao leito, fortes orientaes mdicas e seguras instrues medicamentos me foram receitadas. Todas as pessoas tm remdios, caseiros ou no, para combater essa e outras doenas. A auxiliar de servios Graa me receitou "guaco", que deve realmente ser eficaz, com a ajuda de Deus e da teraputica prescrita pela pneumologista Maria Amlia. A despeito do tempo inclemente, do frio intenso, dos ventos que lembram os morros uivantes da fico inglesa ou o castelo do prncipe Hamlet, da Dinamarca, no fui vencido. Por enquanto, obviamente.
Desde criana ouvia fazer nos chs e outras mesinhas dos curandeiros raizeiros do Brasil. Os ndios, que Cabral encontrou por aqui em 1500, no dispunham de consultrios, mas eram sabedores das virtudes de muitas ervas, razes e folhas, boas para combater os males do corpo e da alma. Pequi chegou mais cedo que o viagra sem precisar de laboratrios para demoradas e carssimas pesquisas.
Por isso, louve-se o empenho, engenho e arte da professora Maria das Graas Brando, do Departamento de Produtos Farmacuticos da Faculdade de Farmcia da UFMG, ao transformar em livro sua experincia de meia dzia de anos no mbito da flora brasileira, como aqui publicou o reprter Felipe Torres, recentemente.
Assim apareceu "Plantas teis de Minas Gerais - na Obra dos Naturalistas", valioso trabalho, realizado, com a equipe do Banco de Dados Medicinais e Txicas da UFMG. Catalogaram-se 101 amostras de plantas nativas, cujas informaes constaram do acervo de 14 naturalistas. Foi muita gente competente que veio da Europa para identificar riquezas, que passaram s vezes a servir a povos de outros pases, at antes de ns.
Santo de casa no faz milagre.
Como no sou versado em coisa alguma, muito menos em plantas medicinais, cuidei de apurar o que era o "guaco" da Graa. Aprendi que Guaco, em botnica, a designao aplicada no Brasil a vrias espcies do gnero Mikania Wild, da famlia das compostas, subfamlia das tubulifloras, tribo das eupatoreas, subtribo das ageratinas, especialmente a Midania amara Wild, trepadeiras a que se atribuem propriedades medicinais. Quais, no sei.
O brasileiro, principalmente os idosos e os mais simples, principalmente do interior, sabem imensidades sobre plantas amenizadoras de dores e salvadoras de vidas. Nelas se cr, firmemente, porque a convico do poder curativo e salvfico ajuda muito.
Hoje, brasileiro compra o que vem dos laboratrios internacionais que pesquisam incessantemente, tm cientistas em seus quadros, tcnicos trabalhando em muitos pases, inclusive buscando entre ns os conhecimentos e mediao de nossa rica flora para aproveitar em produtos que aparecero nos mercados consumidores de todo mundo.
E os laboratrios faturam algo.
Hermes de Paula, mdico, pesquisador, dedicou um captulo de seu portentoso livro s plantas, dizendo modestamente no pretender catalogar toda a flora da regio em que nasceu, passou a maior parte da vida e faleceu, honradamente. Mas na sua relao no encontrei "guaco".
A embuba, moda, cicatrizante, e a folha diurtica. O miror utilizado em banhos para eczemas, molstias da pele e para emagrecimento, receita no usada pelos jovens de hoje que querem ter corpo de modelos internacionais ou de bailarinas de dana clssica.
A jalapa purgativa e quina-de-barroca estomquica e afrodisaco, como se diz tambm do pequi, rico em vitaminas A e E, alm de alimento de primeira grandeza. A seiva do jatob, chamado "vinho do jatob", considerado estomquico e contra azias.
O chapu-de-couro, empregado na fabricao do refrigerante Matecouro, diurtico, assim como o pico. A alfavaca contra gripe e bronquite e balsmico, como o "guaco" talvez. Salsa-parrilha e salsa-caroba so antissifilticos e copaba produz um leo contra blenorragia e outros fins.
Enfim, uma riqueza. O artimzio, por exemplo, com as folhas queimadas com cachaa, se usa para clicas uterinas e, ainda, como frico para nevralgia. So meios de que lana mo quem no pode pagar o preo alto de medicamentos.


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Por Web Outros - 16/6/2010 09:54:27
Duas obras, um destino

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Duas histrias, o mesmo destino. No final do sculo XIX, o Rio de Janeiro se ressentia da inexistncia de um entreposto de gneros alimentcios para atender demanda da populao sempre crescente. Houvera antes a Praa do Mercado, obra de Gradjean de Montigny, ou o Mercado do Peixe, de 1841, como registra Paulo Pacini, mas era passado.
Aps demoradas negociaes entre a Municipalidade e o Governo federal no que tange permuta de terrenos, em 1903 se iniciaram os trabalhos de construo de um novo mercado, junto Praa Dom Manuel, na Misericrdia. Trs anos aps, em 1907, com a presena do presidente Afonso Pena, inaugurou-se a obra, em dezembro.
Supunha-se empreendimento para sempre: rea de 20 mil metros quadrados, estrutura de ferro importada da Europa, no centro havia um pavilho octogonal com 35 metros de altura, alm de um relgio.
Existiram 16 ruas internas, oito radiais e oito transversais, com calamento em paraleleppedos, e centenas de lojas dotadas de servios e gua, luz, esgoto e gs. Destinado venda de alimentos, o Mercado Municipal se tornou, em boa parte do sculo XX, o maior complexo comercial da regio. Mas o Rio de Janeiro seguia crescendo. No final dos anos 50, a Prefeitura do ento Distrito Federal pensava em demolir o imvel em virtude de um projeto de urbanizao, para possibilitar a construo da Avenida Perimetral, embora o traado no exigisse a remoo integral do mercado. De qualquer modo, ele foi inteiramente destrudo, sem cerimnia, eliminando-se um patrimnio pblico... e histrico.
Em Montes Claros, cidade norte-mineira, em 1897, o presidente da Cmara, Honorato Alves, recebeu um documento dos comerciantes da Praa Dr. Carlos, pedindo a construo de um entreposto moderno, para satisfazer as necessidades da populao e dos pequenos produtores rurais.
A cidade, dividida pelos partidos "de Baixo" e "de Cima", enfrentou os prs e contras. Para evitar longas discusses, a construo do imvel foi rpida. Mas, certa noite, acordou-se com um forte estrondo, como conta Ruth Tupinamb Graa. O prdio, com cumeeira inaugurada, simplesmente veio abaixo. Sem vtimas.
Prs e contras, todavia, queriam um novo mercado. O Cel. Antnio dos Anjos, liderou um movimento de subscrio Cassimiro Mendona entrou com 200 mil ris, causando escndalo pela quantidade de dinheiro. O Cel. Antnio dos Anjos, o paladino, pai do escritor Cyro dos Anjos, conseguiu dois mil, 360 mil contos.
Assim, em 2 de setembro de 1899, a construo foi solenemente inaugurada, mais uma vez. Era um enorme casaro branco, tipo chal, com quase 30 metros de frente e 32 de fundo, com sete cmodos de cada lado, para instalao das vendas dos comerciantes. Ao centro, enorme rea vazia onde os tropeiros e bruaqueiros espalhavam suas mercadorias.
Ruth Tupinamb lembra que, por muitos anos, ali foi o ponto vital da cidade, local de bate-papos, assuntos polticos, religiosos e sociais, negcios, decises familiares, tudo a discutido ou objeto das naturais maledicncias.
A grande festa era, porm, no sbado, quando se concentravam os produtores rurais e os consumidores. Comprava-se e se vendia, ruidosamente. Tudo o que o serto produzia ali se negociava, chegadas as tropas com as mercadorias no final de sexta-feira.
Os bons mercados propiciam um cenrio rico para os olhos. O melhor dos produtos da natureza ali expostos. H pessoas que, visitando uma cidade, perguntam primeiramente onde ficam o mercado e o templo.
No de minha terra, uma imensido de coisas a dar gua na boca, afora o contato direto com a gente simples do interior, que no pensa seno viver em relativo conforto, mesmo quando as invencionices dos dias modernos queira enfeiti-los. Para isso, atuam as televises ininterruptamente.
As donzelas roceiras no perdiam oportunidade da vinda ao centro maior de consumo e embonecavam para mostrar boniteza, mesmo vestidas com as roupas modestas feitas domesticamente. No fundo do mercado, a viola tocava triste medida que a noite avanava.
Como o da capital brasileira, o mercado da capital norte-mineira foi demolido em nome do progresso. Um patrimnio da coletividade, de longa histria, veio ao cho. O relgio, que marcava as horas do dia, tomou outro destino, e jaz silencioso.


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Por Web Outros - 10/6/2010 10:25:22
A valia da propaganda

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 3 de maio, publiquei comentrio sobre "O desafio da gua". Pessoas se manifestaram a respeito, o que mais uma vez me adverte sobre a responsabilidade de quem escreve. Porque, em verdade, ao divulgar algum escrito, nos estamos submetendo a julgamento pblico.
Eis que, no mesmo dia, uma atenciosa leitora me enviava e-mail, dizendo: "Voc tem toda razo em tudo que disse, somente enganou o nome do medicamento tiro-e-queda", para questes de mnstruos, em excesso ou em escassez. Lembrei que se tratava da "Sade da Mulher", muito popular em determinada poca.
Dalma Esquivini me faz o necessrio reparo. No era a "Sade da Mulher", anunciado pelas rdios, mas o "Regulador Xavier", que vinha no jingle acompanhado de musiquinha: nmero 1, dois, excesso e escassez".
Bons tempos aquele, e no se repetem. Ento, a publicidade era sobremodo restrita. Fazia-se atravs dos jornais e pelas rdios, porque no existia televiso. O que se chama "outdoor" era pouco ou nada utilizado. No interior, a propaganda era atravs das folhinhas, que os homens do campo disputavam, a fim de as afixarem nas paredes de suas modestas casas, construdas com adobe ou de pau-a-pique.
Disputadssimos eram tambm os almanaques, patrocinados pelos grandes laboratrios. Continham orientaes gerais de conduta sobre higiene, registros sobre mudanas de tempo, porque a gente da roa l pelos anos 40 do sculo passado no tinham acesso a rdio, que alcanava apenas os cidados das cidades. Com os enormes aparelhos instalados na sala, abria-se uma nova era no campo da comunicao, de que souberam aproveitar-se tambm os governos e os polticos.
Nas capitais, foi o tempo fantstico dos bondes, de que falaram os grandes autores, em prosa e verso. Mas tambm a publicidade se valeu do grato ensejo desde os tempos dos bondes puxados a burros.
O jornalista Jader de Oliveira, mineiro, representante da Globo em Londres, lembra aquela poca, no seu recentemente lanado livro "No tempo mais que perfeito", um relicrio de preciosidades de dias que foram seus, meus, e de milhes de brasileiros, mortos ou sobreviventes.
Ele fala de Belo Horizonte. "Nos anos 50, as linhas eram percorridas por 40 bondes: cinco fechados, que vieram poca da guerra; os outros, de tamanhos diferentes - o maior se apoiava em dois truques. Os bondes fechados, confortveis no inverno, abafados no vero, tinham assentos de palhinha.
Nos bondes abertos, os assentos, para cinco passageiros, eram de ripas de madeira de lei, bem polida pelo seu uso. Senhoras ou senhoritas que subissem encontrariam sempre um cavalheiro para lhes dar o lugar. Muita gente viajava de p, sem se incomodar com o desconforto. Nas laterais cncavas, emendadas ao teto de cada bonde, ficavam os anncios em pequenos cartazes:
Rum Creosotado; Antisardina (o segredo da beleza feminina); Plulas de Vida do Dr. Ross (para a priso de ventre, que coisa atroz); Pomada Minncora (para espinhas); Leite de Rosas; Aurisedina (para acabar com a dor de ouvido); Conhaque de Alcatro de So Joo da Barra; Gelol (leniente para dores musculares, cuja propaganda se amparava na pergunta: "Olhou a boa e no viu o poste?").
Depreende-se que era um meio muito utilizado pelos laboratrios mais que por outros produtos e mercadorias. Havia mais: Polvilho Antissptico Granado; Guaraina (mata a dor e no ataca o corao); Melhoral ( melhor e no faz mal); Cera do Dr. Lustosa (para dor de dente); e a se lembra o celebrado Regulador Xavier, "o remdio de confiana da mulher - nmero um, excesso; nmero dois, escassez; Hepacholan (a sade do fgado). Uma propaganda que cobria todo o espao comercial dos bondes, tambm exposta nas reas externas, como lembra Jader.
O rdio promoveu uma revoluo, medida que se foi estendendo aos rinces mais distantes dos pas e, mais ainda, depois da II Grande Guerra, quando apareceram as pilhas eltricas, e ainda, os transstores. O "radinho" conquistava os mais remotos lugares, como sugeriu D. Dalma (nome lindo!).
Que remdios resistiram ao passar do tempo? Grindlia de Oliveira Jnior, Xarope So Joo, Elixir de Inhame Goulart, Colrio Moura Brasil, Leite de Magnsia de Philips, Magnsia de Orlando Rangel, Emulso de Scott e Biotnico Fontoura. Seus nomes apareciam, de alguns deles, tambm em porteiras margem das estradas de terra. D saudade!


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Por Web Outros - 8/6/2010 07:24:59
De mulas e letras

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Acaba de ser lanado o novo nmero da "Revista da Academia Mineira de Letras", correspondente a outubro, novembro e dezembro de 2009, o ano centenrio da instituio. Rico material a se ler e apreciar, como alis do feitio e prtica da excelente publicao. Parei no "Perfil Acadmico", em que focalizado Danilo Gomes.
Danilo ocupa a cadeira n 1 da Academia, em que sucedeu a Cyro dos Anjos, meu conterrneo que alcanou a glria da Brasileira de Letras, por mritos indiscutveis. Assim, de algum modo, Montes Claros entra no contexto, porque Cyro era da cidade norte-mineira, onde tambm nasci.
Mas h outros pontos de aproximao. Estudamos ambos no ginsio Dom Bosco, em Cachoeira do Campo, embora em pocas diferentes e, consequentemente, com outros professores. Amamos a gente simples do interior e outros sentimentos como os revelados no "Perfil":
"Ficou-me um gosto pela roa, pelo meio rural, pela msica sertaneja dos velhos tempos. Tenho uma alma rural, fazendeira, rancheira, telrica. Gosto at hoje de carros de boi, de comida da roa, de cheiro de curral, do cheiro do cigarrinho de palha, que - eu, menino, - fumava escondido; de ouvir galo cantando. Tenho uma alma barroca e, ao mesmo tempo, virgiliana, rstica, buclica. Sou conservador, desconfiado, religioso, com forte queda pelo canto gregoriano e pelos mosteiros beneditinos".
Estudamos latim, de que esqueci quase tudo aprendido. Tambm pudera! So tantos anos. Mas ambos temos gosto pelo silncio, pela solido, som de gua de bica e riacho. Mozart, Bach, Vivaldi, te-deuns e requiens...
Estivemos em Belo Horizonte, eu fiquei. Passamos pelo Rio de Janeiro, eu dando duro em dois jornais, cujo pagamento tinha um ponto em comum: atrasava todos os meses. Um simplesmente no quitou seu dbito, nem o far: fechou as portas.
Da biblioteca de um tio, advogado Aldo Hildo Motta, extraiu um livro que o impressionou sobremaneira: "Recordaes da Casa dos Mortos", que tambm - desde minha adolescncia - me atraiu, abrindo-me a porta do fascnio por Dostoievski, sobre quem muito escrevi na imprensa belo-horizontina.
Depois, vieram "O ssia", "Os Irmos Karamazov", "Humilhados e Ofendidos", "O Idiota", e o inesquecvel "Crime e Castigo", transposto ao cinema, mas tambm ao rdio, quando no havia televiso. O romance ter impressionado, tambm muitssimo, Francisco, que apresentou uma verso digna pela Rdio Guarani, para deixar saudade. F. Andrade tinha uma bela voz, nascera em Ouro Perto, foi secretrio da Cmara Municipal de Belo Horizonte, era irmo do maestro Del e do Ben, um dos donos do primeiro grande servio de ampliao sonora da capital - a Italo & Andrade.
So tempos idos e vividos, mas no esquecidos, pelo que se v. Se o autor marianense se recorda da tropa de burros de seu av paterno, Carlos de Assis Gomes, que utilizava para comrcio, no me falha a memria a chegada das tropas de mulas carregando os produtos da roa para venda no mercado de Montes Claros, nas concorridas feiras dos sbados. Era uma vida saudvel e amvel.
Ambos tivemos algum material publicado pelo "Suplemento Literrio", do Minas Gerais, uma criao consagradora de Murilo Rubio, o ficcionista competente, amigo e bom de papo, que se preocupava com a situao dos homens de letras em apuros financeiros. Com seu sucessor Wilson Castelo Branco tomei cervejas na hora do almoo, em tempo que ela era ainda permitida aps a jornada da manh. Wilson tinha muito com a minha maneira de ser, foi um dos autores do relatrio da gesto Israel Pinheiro no Palcio da Liberdade, misso que finalmente ele transferiu para mim. Fazer o que?
Com o perodo concretista do "Suplemento", Danilo e eu no tivemos muitas oportunidades de colaborar. Estou com Danilo que julgava complicado ler "aquelas experincias de laboratrio potico", digamos assim. De qualquer modo meu pensamento era convidar o pblico leitura do novo nmero da "Revista da AML." O espao acabou, mas o convite persiste.


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Por Web Outros - 15/5/2010 07:20:10
O desafio do sculo

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Em recente artigo para o montesclaros.com, o jornalista Waldir Senna Batista, o mais antigo e categorizado analista poltico do norte de Minas, na opinio de Paulo Narciso (que fao minha), traz do passado um relato que interessa.
Conta o articulista que, pelos anos 1970, achava-se acesa uma campanha para ligar por assalto a BR-251 Rio-Bahia. Argumento, que era vlido: se economizariam 200 quilmetros no percurso, o significando expressiva reduo no consumo de combustveis.
Ao chegar a Montes Claros para assumir o comando do 10 Batalho da PM, o coronel Fleury, aderiu ao movimento, mas advertiu: "Corremos o risco de nos arrepender do que estamos fazendo agora". Experimentado no ofcio, conhecedor dos problemas da violncia, muito distante do que se transformou o pas, no ltimos anos submetido ao imprio das drogas, adivinhava o oficial o que sobreviria.
De fato, o desenvolvimento regional se intensificou, mas - de modo simultneo - a rota terrvel das drogas se ampliou tremendamente.
Montes Claros, a maior e mais importante cidade da regio, viu-se invadida por gangues que querem consolidar de vez sua atuao. Repetem-se execues sumrias, que alcanam a populao trabalhadora, os cidados pacatos, as crianas indefesas, os adolescentes mal informados.
Os moradores que podem protegem-se da malta, como si acontecer nas cidades de grande porte e nas capitais.
Constroem cercas, grades, sistemas de alarme, tudo eletrificado, mas incapazes de obstruir a fria das quadrilhas, que nada tm a perder.
Providncias mais recentes se adotaram, principalmente a partir da integrao das polcias Civil e Militar, do programa do Proerda, construo de presdios regionais, implantao de projetos sociais, novo sistema de policiamento, inclusive com disponibilizao de equipamentos mais eficientes, helicptero etc.
Mesmo assim, continuou a matana, atingindo sobretudo os jovens incautos e j submetidos ao vcio dificilmente reversvel.
A guerra pelos pontos de venda de droga se instalou na regio e na sua cidade mais importante como nas megalpoles. Fizeram as autoridades muito no decorrer dos ltimos anos, mas energia de agora parece j tardia, ou pelo menos atrasada.
Mais uma vez tambm, os benefcios do progresso servem ao malfico.
Os eficientes instrumentos de comunicao so utilizados de dentro dos presdios para arquitetura de planos de disseminao de produtos e ampliar, ainda mais, o comrcio ilcito.
Alguns chefes, poderosos, se encontram trancafiados, de onde saem apenas para depoimento polcia ou ao Judicirio. Mas a presena fsica se substitui pelos operadores, pelos produtores, pelos distribuidores, que construram uma perigosssima rede, que tem ramificaes por todo o pas e com as naes vizinhas.
difcil adivinhar se este conflito entre o bem e o mal, a sociedade constituda de um lado e os criminosos, de outro, ter fim e quando.
O essencial que no se dobre s gangues e que, pelos meios possveis, se contenha evoluo incessante e avassaladora do imprio.
Na 11 Regio da Polcia Militar de Minas Gerais, corporao de prestgio nacional e de glorioso feitos na histria, h um outro comandante: o coronel Franklin de Paula Silveira, 47 anos, com 27 de carreira. Sucessor de Fleury, cabe-lhe a difcil misso de dar sequncia luta.
Ele sabe que no se trata de embate apenas nas ruas, nos antros, contra os inimigos da lei e da sociedade.
Em verdade, preciso os cidados, as famlias, se engajem, porque no seu mbito, no lar, que a ao preventiva tem de partir.
A criana, o adolescente, o jovem precisa ser orientado sobre causas e efeitos do grande desafio que vive a comunidade, afinal de todo o mundo, neste princpio de milnio.
Uma guerra que exigir dcadas e roubar inmeras vidas, sobretudo das geraes moas de agora.


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Por Web Outros - 9/5/2010 11:49:34
Duas meninas

Sebastio Martins - Hoje em Dia

Uma vive ao Norte e a outra ao Sul de Minas Gerais. So quase irms, embora nem se conheam. Essas duas meninas, Elenise Evaristo e Mrcia Yellow, talvez nunca venham a se encontrar, mas so unidas por uma paixo que se revela em cada linha que escrevem: amam com f e orgulho a terra onde nasceram e tambm assinariam, sem hesitar, a "Cano do Exlio", de Gonalves Dias.
No imaginem que elas se alimentem de provincianismo, viso estreita ou xenofobia. Nada disso. Seriam facilmente cidads do mundo, pois tudo que humano lhes diz respeito. Mas voltariam sempre para Montes Claros e Trs Coraes, trazendo o planeta na palma das mos, para compartilhar com os seus conterrneos, da mesma forma que dividem o amor pela terra natal com aqueles que no a conhecem.
Mrcia adotou Yellow como "nom de plume" por brincadeirinha com a sua preferncia explcita pelo amarelo. E Elenise estuda a origem e o significado psicolgico dos contos de fadas, em sua maioria provenientes da Europa, porque sabe que eles so universais. E, portanto, mineiros.
Uma delas, a Mrcia, criou poemas corajosos, nos quais revela o mais profundo desprezo pelo convencional. To corajosos e desafiantes que ainda esto inditos, espera de um editor inteligente. E Elenise publicou h tempos um livro intitulado "Riquezas do Interior". A obra trata do interior de Minas, que a sua ptria ntima (em perfeita convivncia com a ptria Brasil).
Afinal, aqui pra ns, quem tem Ouro Preto, Diamantina e So Joo Del Rei, para falar s de algumas das nossas gemas de maior valor, que outra ptria ntima poderia escolher?
Essa mineiridade militante, mas sem preconceitos bairristas, sempre foi uma das melhores caractersticas da nossa gente. Enquanto os paulistas, por exemplo, acreditam que o Brasil comea e acaba em So Paulo, e os gachos vivem a iluso de que ningum mais sabe montar um cavalo, os mineiros podem conviver - sem qualquer incmodo - com a riqueza, a glria e as lendas alheias.
Essa ptria mineira, que tem razes no fundo do quintal e, ao mesmo tempo, produz uma cultura universal e recebe todos os povos como se fossem compatriotas, algo que ningum explica.
Mrcia Yellow e Elenise Evaristo habitam esse territrio quase intraduzvel da mineiridade, cuja prpria existncia foi negada por mineiros ilustres, como o professor Francisco Iglesias, e afirmada apaixonadamente por outros (entre eles, um mestre fluminense de inegvel lucidez: Alceu de Amoroso Lima).
Discpulas de poetas e pensadores, Helenise e Mrcia no carecem de argumentos eruditos ou romnticos para justificar a paixo por Minas, Montes Claros e Trs Coraes. Amor a gente no explica e nem defende, elas parecem dizer aos seus leitores. Amor se vive e at se morre dele. Quem viveu, sabe. E quem no viveu ignora o que a vida tem de melhor.
Esse o grande enigma mineiro, que muitos julgam ser apenas fbula, coisa do passado ou inveno esperta, mas que as duas meninas tratam como coisa viva, real, contempornea. Herdeiras do encanto de Minas, elas mergulham no hoje e cuidam do amanh.
bom saber que h meninas assim, em nosso tempo. Tomara que milhares delas floresam em todos os cantos de Minas, como os girassis de Van Gogh, to imortais quanto os profetas de Aleijadinho.
Assim, no esqueceremos o nosso passado. E o futuro da nossa patriazinha estar em boas mos.


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Por Web Outros - 28/4/2010 07:32:27
Rio Pardo, Gro Mogol

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Sempre me interessei por conhecer Gro Mogol, cujo nome j desperta um certo fascnio por atraes do Oriente. O prprio nome da cidade norte-mineira tem sido, no decorrer do tempo, objeto de averiguaes e dvidas.
Minha madrinha, Dagmar de Alcntara, que assimilou o sobrenome Pimenta ao casar-se com o mdico Antnio Pimenta, deputado estadual pelo nclito PSD e, depois, diretor do DAG, o poderoso Departamento de Administrao Geral do Estado, transformado em Secretaria no Governo Magalhes Pinto, suspeitava, liames com a alta nobreza europeia: Dagmar, e, ainda mais, com o Alcntara seguinte.
O pesquisador e historiador Joaquim Ribeiro Costa, autor de utilssima "Toponmia de Minas Gerais", suou a camisa para explicar origens e evoluo do nome da cidade. Depois, Haroldo Lvio, advogado e escritor de mrito, em seu "Nelson Viana, o Personagem", estendeu-se sobre o tema, ultrapassando o limite que o ttulo de seu livro admitiria.
Se a esposa Maria do Carmo sabe construir deliciosa ambrosia (uma das melhores, seno a melhor, que jamais experimentai), Haroldo Lvio consegue tecer comentrios preciosos em seus textos. J falei disso, mas no custa repetir um trecho:
"Incrustada, no regao da Cordilheira do Espinhao, Gro Mogol (como ficou com a nova ortografia? Com ou sem hfen?) pedra, cristal, ouro, diamante".
A cidade mineral e no sem razo descobriram, somente agora, que mais do que os valiosos bens que os ancestrais cavavam no solo.
E que, por ali, se instalar o novo polo mnero-metalrgico deste Estado, do Brasil, enfim. "A igreja paroquial, de pedra construda, os muros de pedra, as ladeiras cansadas, tudo feito de pedra sobre pedra.
As serras penhascosas so cristais pontiagudos, rolam ouro e diamante nas guas escuras dos ribeires. Chega-se em Gro-Mogol por caminhos empedrados, de guas cantantes e ar puro de montanha". S a descrio serviria para cativar o brasileiro, vido de aproveitar as riquezas fantsticas com que a natureza nos dotou, longe de sismos, de furaces e outros avisos que Deus pe diante dos olhos, dos ouvidos e da conscincia dos pecadores e ignorantes.
"Protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa uma fortaleza de pedra. Suas ruas estreitas e tortuosas foram pavimentadas de seixos rolados coloridos, imitando um bordado.
Os muros que dividem as propriedades foram levantados pelo trabalho paciente dos escravos, colocando pedra sobre pedra, cuidadosamente.
E em cada pedra deve ter ficado uma gota de sangue assinalando o martrio dos cativos que mourejaram na construo dos tapumes".
Esses pormenores me preocupam, porque no se haver de permitir que a explorao do novo polo mineral venha a destruir a histria ptrea de uma regio, abenoada por Deus e que espero conhecer antes que algum mal lhe faam.
Ser construdo um ramal ferrovirio, a partir da regio de Rio Pardo de Minas e Gro Mogol, para ligar o litoral baiano pela ferrovia que sairia do Tocantins, passando no Sul da Bahia at Ilhus.
O assunto ainda est em estudos. Mas se ter de pensar que, se a explorao do minrio s rende uma vez, j que no h duas safras, tambm se crer que a beleza histrica seja atingida pelo projeto, de to alto valor econmico para uma regio, que sempre ficou relegada desse que os velhos garimpeiros partiram para no mais voltar. Aproveitar o potencial magnfico, sim; prejudicar o que h em Rio Pardo de Minas e Gro Mogol, jamis.
Com Haroldo Lvio, reitero: "Primeira cidadela da civilizao mineira, na zona geopoltica hoje polarizada em Montes Claros no apogeu da minerao diamantfera, Gro Mogol conseguiu registrar doze mil almas, populao bastante expressiva para a aquela poca de fastgio, que abrangeu o Imprio e os primeiros anos da Repblica. Agora, o fastgio retorna. Cuidado!


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Por Web Outros - 26/3/2010 08:05:27
A grande conquista

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Quando o autor me veio trazer "O poder feminino - Esperana de Paz", lanado pela Editora Millenium, pensei comigo mesmo. O comentrio ficar para o Dia Internacional da Mulher, em maro, por sinal ms tambm de nascimento do escritor, no pico da Serra da Mata Virgem, em Pernambuco.
Transferindo-se para o Rio de Janeiro aos 20 anos, l se formou Antnio Ferreira Cabral em Cincias Jurdicas e Sociais pela Faculdade Nacional de Direito. Advogado, colaborador de jornais, escritor, instalou-se no Norte de Minas, sendo scio do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros.
Como o mais recente livro do acadmico permite focalizar muitos aspectos da atividade feminina em nosso tempo, achei que deixaria a anlise de seu trabalho para outra oportunidade, cingindo-se s comemoraes da data mencionada.
Nela, reuniu-se a Academia Feminina de Letras de Montes Claros para, dentre outros registros, inaugurar a placa em homenagem a Ruth Tupinamb Graa, em plena tranquilidade de seus mais de 90 anos vividos, de que desfruta com lucidez absoluta at em reminiscncias que remontam infncia e adolescncia.
Podia ser melhor?
Serve-me o ensejo para evocar o discurso de Ivana Ferrante Rebello, excelente sob todos os ngulos, na solenidade de fundao da entidade, "uma forma concreta de habitar o vazio. Essa casa para reunir mulheres escritoras, cujas vozes j no so mais silenciadas, essa casa que nasceu do sonho de Ivonne Silveira". "Quanto a ns, essas 40 escritoras, apresentamo-nos hoje como mulheres. Mulheres a quem coube o dom da luta diria e a ddiva da feminilidade". Queriam suas cadeiras numa Academia e as conquistaram.
O pequeno discurso de Ivana enorme. Lembra tempos que se perdem na noite dos tempos - que me perdoem o lugar comum - para chegar aos dias presentes, uma trajetria de lutas e sacrifcios para muitas que se julgavam no dever de abrir caminhos e vencer barreiras.
"Menina no entra. Este era um dos postulados ardorosamente defendidos pela sociedade patriarcal. O mundo da literatura era fechado e proibido. mulher, esse ser de dons mltiplos e de fala fcil, coube o peso do silncio e da pena ausente. A histria da literatura tornou-se uma histria masculina".
As penas femininas no dispunham de tinta para deixar grafados problemas, alegrias, sentimentos e pensamentos. "Menina no entra. As pginas do tempo, reviradas pela curiosidade, revelam que a atividade literria das mulheres foi banida ou mutilada. Escrever pertencia esfera do interdito. Fanny Burney queimou todos os originais e p-se a fazer trabalho de ponto como penitncia por escrever!".
A acadmica evoca Charlote Bronte, que deixara de lado, vrias vezes, o manuscrito de Jane Eyre, hoje to esquecido, mas consagrado at pelo cinema. Jane Austen tratava de esconder as folhas com seus escritos, sempre que percebia que algum se aproximava, envergonhada de imiscuir-se num ofcio finamente masculino.
E houve tantas, e tantas, ao longo da histria.
Katherine Anne Porter levou 20 anos para elaborar uma novela, interrompida constantemente.
Maria Moliner dividia sua ateno entre o dicionrio que redigia e os remendos de meias em ovo de madeira.
Ivana Ferrante Rebello recorda mais.
Katherine Mansfield, protestava do marido, que a incomodava com gritos, enquanto ela redigia seus textos e ele reclamando pelo ch atrasado; Gregorio Martinez Sierra apenas emprestava seu nome para que a esposa, Maria Lejarraga, escrevesse sua obra; Zelda Fitzgerald teve proibida pelo marido a publicao do livro que escrevia, de que ele queria apossar-se, em seguida.
Era preciso que o tempo sofresse profundas transformaes para que as mulheres fossem conquistando seu espao, sobretudo nas atividades literrias, mas tambm no campo do Direito, das Cincias, das Artes de um modo geral, na administrao pblica. Foi uma lenta e ininterrupta guerra de conquista, contra a qual se posicionaram os homens durante sculos. Elas venceram e competem.


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Por Web Outros - 24/3/2010 07:59:50
Um pedao de Minas

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A despeito do movimento do comrcio do crescimento das vendas, incrementadas pelo Governo, porque conveniente consumir, no se pensar que estamos no melhor dos mundos, no se julgar o ndice de satisfao dos brasileiros, unicamente pelo movimento nas lojas e pelo inusitada aquisio de automveis.
Consumir to bom! como falar mal do Governo, como ironizava o governador Milton Campos, e relatado pelo escritor Jos Bento Teixeira de Salles, em livro memorvel. No primeiro caso, pagar mesmo que se faz difcil.
Ainda somos um povo pobre, at porque no sabe estabelecer prioridades na hora da compra. Depois, reclama. Mas a pobreza ainda existe, como a misria explcita nas ruas asfaltadas das grandes cidades ou nas sem calamento do interior.
Diagnstico dos pesquisadores Clber Carvalho de Castro e Joel Yutaka Sugare, da Universidade Federal de Lavras, aponta a existncia no Norte de Minas e nos vales do Jequitinhonha e Mucuri de uma cultura da pobreza, "de se mostrar como pobre e carente, para receber mais ajuda do Governo, o que espantaria investidores e esconderia potencialidades e riquezas locais".
V-se pobreza e misria nessas regies, o que no significa que sejam pobres e miserveis. Os horizontes, so imensos e serviro a muitas geraes. Ideia semelhante faz Patrus Ananias de Souza, ex-prefeito de Belo Horizonte, deputado Federal, ministro do Desenvolvimento Social e Combate Fome.
"Conheo bem o Norte de Minas, onde nasci e fui criado. Regio empobrecida, bastante sofrida. Mas, definitivamente, no uma regio pobre, pois dotada de um extraordinrio potencial de desenvolvimento, considerando uma concepo mais alargada, que inclua, alm da dimenso econmica, a social, a ambiental e a cultural. A regio vem sendo objeto de um legtimo e necessrio esforo de preservao ambiental, mas que tem recebido crticas de pessoas e setores porque no estariam conseguindo desenvolver suas atividades produtivas".
Falta ainda muito para chegar ao pice de aproveitamento de sua riqueza. Situa-se nos antigos currais, que tanta importncia exerceram durante a colonizao e a conquista da terra. A agropecuria sua principal caracterstica. Da Patrus, nascido em Bocaiva, afirmar com conhecimento de causa:
" forte o potencial de gado de corte, com frigorficos importantes implantados. Mais recentemente, est-se desenvolvendo tambm a pecuria leiteira. Ao mesmo tempo, o Norte de Minas tem explorado outras potencialidades agrcolas, como fruticultura, avicultura, suinocultura e piscicultura, podendo se desdobrar em outras oportunidades. Algumas regies do Norte de Minas tm timas condies para desenvolver o caf e a soja. Junto com as tradicionais plantaes da regio, como milho, mandioca e feijo, enriquecem as possibilidades de explorao da indstria alimentcia".
Podem o Norte, o Mucuri e o Jequitinhonha oferecer ainda muito mais, em qualidade, diversidade e quantidade e contribuir para satisfazer as demandas dos grandes centros do pas e, mesmo, para exportao.
Havia o tabu das condies difceis do solo e clima. No tanto. Se d leite, pode tambm produzir caf, o feijo e a soja, at h pouco quase desconhecida. Hoje, faz parte de muitos pratos como oleaginosa.
No se acreditava em uva por ali. Desde pouco tempo, j se adquirem preciosas frutas, cultivadas nas margens dos rio das Velhas e So Francisco, onde as duas correntes se encontram, produto utilizado tambm para exportao.
V-se que agronegcio pujante e antigo. A participao da agricultura familiar significativa, "e uma presena igualmente forte dos fazendeiros mdios, que formam o que podemos chamar de uma classe mdia do campo", como a classificou o ministro.
Com ele, dividimos a opinio de que a vocao de desenvolvimento daquelas regies pode contribuir para erradicar a fome no Brasil e, por isso, "tem de preservar suas riquezas para continuar cumprindo seu potencial".


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Por Web Outros - 22/2/2010 10:18:48
Cem anos do poeta

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Cndido Canela, se vivo fosse, completaria cem anos em 22 de agosto de 2010. Evidentemente, sua cidade natal, que tambm a minha, deve programar algo para homenage-lo, porque ele o merece.
Repito, como ele iniciou um de seus contos: Abre-se aqui uma janelinha poeirenta do passado, para trazer de nosso burgo da lembrana uma figura das mais extraordinrias deste nosso tempo, que ainda no acabou.
Meu av o chamava de Nozinho e havia liames de famlia. E Nozinho sabia dos fatos todos, mesmo os supostamente sigilosos, da vida da cidade e de seus habitantes. Levou vida modesta, como de seu feitio e formao, porque no chegado s alegrias fugazes e ao luxo. Era um comedido, fez os cursos primrio e secundrio na terra natal.
Participou das atividades locais, ou regionais, com denodo na hora em que ele se tornava necessrio, ingressou na vida pblica e foi vereador, porque jamais quis ultrapassar esse limite. Corajoso, foi considerado comunista, quando a classificao se destinava aos que no temiam os poderosos.
Foi chefe de escoteiros, porque era ento um modo de praticar civismo e solidariedade, qualidades que no lhe faltaram ao longo da existncia. Serventurio da Justia, tinha contato com ricos e pobres, com os segmentos mais humildes da populao, a que orientava e servia. Se o cidado no dispusesse de um dinheirinho para pagar o reconhecimento da firma, no cobrava.
Lhano no trato, cavalheiro, era de incrvel verve e de fabulosa memria. Sabia de tudo e de todos, sem recorrer a livros e anotaes. Quando se instalou uma emissora de rdio na cidade, convenceu-se de que o novo instrumento de comunicao ajudaria os cidados na integrao. Com malcia e ironia, contava casos na figura de Chico Pitomba, aliado a Man Juca, ambos j falecidos. Tambm so cem anos... e no o serto muito rico em macrbios.
Colaborava para os jornais locais, principalmente com a "Gazeta do Norte", em que tambm comecei a trajetria que caminha ao final. Escreveu vrios livros, o primeiro dos quais "Alma cabocla", utilizando os temas da terra sertaneja e seu linguajar, que to bem soube usar. Outros vieram, sempre aureolados pelo sucesso, porque o pblico se identificava com sua poesia, apreciava sua espontaneidade.
Depois, coube-me, em poca remota, editar "Lrica e Humor do Serto", que tampouco se encontrar, pois consumido pelos leitores adquirentes e, a esta altura, carcomido por tantas dcadas. Poucos, talvez nenhum, soube transmitir os sentimentos, de contentamento e dor, de angstia, de ansiedade e as aspiraes de sua gente (minha) como esse filho de Antnio e Luza Canela, um nome de prestgio e querncia.
Uma prole, que podia ser comum poca. Os pois tiveram 18 filhos, reduzidos os de Cndido a cinco, do casamento com Laurinda, cujo lar era visita obrigatria durante minhas visitas cidade. Assentado na rede de uma varanda interna, cercado por rvores, flores que impregnavam de carinho o ambiente domstico, o proprietrio era dono de sua felicidade e sabia bem empreg-la.
O historiador Hermes de Paula, cujo centenrio recentemente tambm se festejou com toda justia, registra que o tronco da famlia Canela foi o pater Antnio. O apelido recebeu por herana de seu pai, que o ganhou por ter pernas muito finas. Com o correr dos anos, o apelido se transformou em nome de famlia.
O patriarca nascera na fazenda da Raiz, no velho distrito de Contendas, hoje Braslia - de Minas, filho de humildes lavradores naturais da velha propriedade rural. Um bero de trabalho honesto. Aos trs meses, morreu-lhe a me. Ainda criana, tornou-se menino da "casa grande" do coronel Sano, cursou trs meses de escola da roa, sendo essas suas nicas luzes nas letras. A prtica da vida e o bom exemplo o fizeram chefe de um cl respeitado, em que incluiu Cndido, agora centenrio.


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Por Web Outros - 19/2/2010 11:59:16
Perdendo as razes

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O sepultamento foi em 9 de fevereiro, no Parque dos Pinheiros. Na maior cidade do pas, Jos Ramiro Sobrinho silenciou de vez a voz para juntar-se do irmo, Xavantinho, que formavam uma autntica dupla de msica caipira do Brasil.
Pena Branca tinha 70 anos e sofreu um infarto em casa e, levado ao hospital, no resistiu. O duo iniciou carreira em 1961, para sofrer a primeira baixa quando o mano, em 1999 morreu. O remanescente seguiu a caminhada, conquistando o prmio "Grammy Latino", por "Semente caipira", em 2001, pela gravao da msica idealizada por Xavantinho.
Pena Branca fez-se conhecido pelas letras simples que cantava, interpretadas unicamente pelo violo, amigo de corao desde a tenra idade. Era um homem simples, que no se fez acompanhar, como hoje de grandes orquestras, que despertam o entusiasmo e levam ao delrio multides. Tinha efetivamente semente caipira e soube zelar por ela, aps germinar e florir a criatividade.
O cantor fazia o gnero modesto e simples dos fundos de mercados de outros tempos. No silenciou sua msica nem a morte do irmo, aps viverem a poca urea da verdadeira msica caipira, que passou a "sertaneja", mas perdeu sua originalidade. A velha linha de criao passou a ser chamada de "msica de raiz", pouco ou nada tendo a ver com o que hoje sucesso.
As antigas duplas, que foram expoentes no rdio, no so mais do que reminiscncia ou saudade. Alvarenga e Ranchinho, Jararaca e Ratinho, Xerm e Bentinho, Tonico e Tinoco e, como lembrou recentemente o professor de Direito Antnio lvares da Silva, Chico Mulato e Florncio, Serrinha com Caboclinho e Z do Rancho, e outros que tiveram sucesso regional.
No sem razo, lvares comentou: "Depois, a partir dos anos 70, a msica sertaneja clssica comeou a perder flego. Os tempos mudaram e a arte, que acompanha o homem em seu perfil histrico tambm se transformou.
O trator passou por cima de tudo derrubando rvores, florestas e tambm tradies que ainda restavam. Shows ruidosos, palcos iluminados, sofisticao tcnica e barulhenta tomaram conta da msica popular e no deixaram mais espao para a sertaneja verdadeira. Tudo caiu no esquecimento e no passado".
Os tempos so outros. No satisfaz mais as novas geraes o tom coloquial, s vezes quase sussurradas as letras de velhas cantorias. Desgarraram-se da terra as razes. Hoje canta-se para as multides, custando muito dinheiro e propaganda, os alto-falantes em elevado volume, a exploso de gente ruidosa, excessos que terminam s vezes nas delegacias de polcia.
A velha msica sertaneja, ou caipira, ou de raiz cedeu espao de vez s novas modas e costumes. Como os chores, com suas flautas, bandolins, violes, clarinetas e cavaquinhos, tocando valsas inesquecveis, seresteiros inveterados cantando modinhas sentimentais, que provocavam suspiros fundos e dolorosos nas donzelas romnticas, que madrugavam para o amor.
Enquanto nas horas indormidas da noite, os seresteiros entoavam as letras, molhando-as com a voz do pranto, nos mistrios da noite cheia de encantamento e de luar, os trabalhadores do campo que iam vender seus produtos no mercado, esperavam o dia clarear e a chegada da clientela, com amveis versos de amor, inspirao perene de todas as pessoas e lugares.
Com o decorrer dos anos, tudo se transformou em passado. O silncio caiu pesado, deixando nos coraes uma saudade doda, desabando como chumbo em nossa memria, enquanto as msicas sucessoras aguam irrefreavelmente a mocidade, que v nos novos cantores, ritmos e orquestras sinais de progresso.
Antnio lvares observa que os ritmos, a viola, a temtica rural simplesmente acabaram. So apenas cantores agora a dois de msica popular. De sertanejos e antigos, nada tm.
"Que a viola volte rpido e seja tocada por nossa mocidade, nas escolas, teatros e eventos populares. E que traga, nos seus acordes ternos, a marcada de um serto que precisamos fazer ressurgir. A viola h de fazer na msica o que Guimares Rosa fez na prosa, tornar eternas, pela arte, as coisas boas que nunca podem morrer".


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Por Web Outros - 13/02/2010 11:59
A vida perde sentido

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Homem armado faz refns em nibus no Rio, em represlia pela traio da esposa. Ladro ataca com faca e humilha vtima. Me acusada de matar filhos com serra eltrica apanha na cadeia. Menino com horas de nascido atirado do 4 andar de prdio. Professora grvida, em vspera de casamento, morta na frente da filha de 4 anos.
Estes so apenas alguns poucos do riqussimo elenco de crimes e atrocidades que se tornaram comuns no Brasil, to prdigo como se propaga, to reduzido em amor ao prximo. Nas cidades do interior e na capital, multiplicam-se crueldades impensveis para o homem civilizado do sculo XXI.
Em velhos tempos, os filhos ilustres de minha terra se reuniam tarde na porta da farmcia de Mrio Veloso, cidado conspcuo, observador, bem-humorado, para comentrios sobre a vida de um modo geral: os costumes, a evoluo cientfica, os caminhos e descaminhos das pessoas e da poltica, a beleza morena das moas, a elegncia das senhoras, o crescimento urbano... tudo enfim.
Filomeno Ribeiro, em terno de linho para melhor suportar a cancula, assentava-se porta de sua casa, e acompanhava o movimento da rua, gente de todas as idades, pobres e remediados, trabalhadores, que iam ou voltavam do trabalho, e ali quedava na tranquilidade dos justos. Ele, um dos homens mais ricos de todo o Norte de Minas, vivendo a sua paz enquanto se contavam as horas do dia e se despregava a folha com o dia respectivo na folhinha.
Pode-se fazer, assim, presentemente, quer se habite a cidade grande ou os pacficos lugares de nosso imenso interior?
Leio a edio de 31 de janeiro deste nosso jornal e constato que cada vez mais violentos ficam os nossos mundos brasileiros e Minas se encontra nele includa. A reprter Renata Galdino em extensa matria de pgina dupla resume o que sabemos, mas que precisa ser exposto em letra de forma. A violncia est solta, a despeito das imprescindveis medidas adotadas pelo poder pblico.
Fere-se e mata-se mais do que em passados tempos. Fere-se por motivo ftil e ou motivo algum, por uma desavena de somenos importncia, por um esbarro na rua ou em estabelecimento comercial, aps uma troca de palavras speras, por uma simples brincadeira que a algum no agrada. Simplesmente se mata.
Renata conta: um idoso esfaqueou o amigo por causa de uma aposta num jogo de sinuca; um policial assassinou com um tiro o irmo durante uma discusso familiar. O rapaz brigou com a namorada e, rompida a relao, ficou insana dor pelo namoro desfeito. A morte soluo para quem no sabe viver de bem com a vida e que ir passar longa temporada atrs das grades.
As drogas contribuem eficazmente para esse estado de coisas, inclusive o lcool, embora outras estejam abarrotando o mercado. A liberalidade dos costumes para quem no educado desde o bero contribui para esse ambiente de desrespeito ao prximo e de insensibilidade. A vida passou a valer menos ...ou nada.
As autoridades tm um grave problema a resolver, um desafio social que muito exigir de sucessivas geraes. O desconforto nasce principalmente em famlias menos estruturadas, na promiscuidade da casa dos pais, no senso de responsabilidade que, repetidamente, no tiveram e no sabem transmitir aos filhos.
Disse Renata Galdino:
"Uma pesquisa divulgada pelo Centro de Estudos de Criminalidade e de Segurana Pblica (Crisp) da UFMG, em 2008, apontou que pelo menos sete em cada dez assassinatos e tentativas de homicdio em Belo Horizonte so qualificados por motivo ftil ou torpe".
O estudo analisou uma amostra de 265 denncias apresentadas pelos promotores do I e II Tribunais do Jri da capital entre 2003 e 2005. "Os crimes acontecem principalmente depois de brigas, discusses, por vingana e conflitos amorosos."
Mas o lcool e as drogas ilcitas, sobretudo o crack, so ingredientes presentes nesse casal incontido de violncia, que sobrecarrega a Justia e enche as cadeias e os presdios. Um gravssimo problema, que no se resolver apenas com os agentes da lei, indispensveis, nas ruas.
No ser fcil mudar essa tendncia, esse temvel quadro, que se universalizou entre ns. As solues esto nos lares, e nas escolas, mas tambm estes passam por um perodo de intensa crise. Muitos sofrero ainda.



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Por Web Outros - 4/2/2010 07:39:14
Uma regio ansiosa

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Enquanto se contavam os mortos das tempestades e deslizamentos de terras em encostas de estados do Sudeste, enquanto se buscavam os corpos dos que perderam a vida no Sul - como no desabamento de ponte em Agudo, RS, - o Norte de Minas, com chuvas espordicas e esparsas, se inquietava com a possibilidade da seca.
O fenmeno, h sculos, estigmatiza uma regio e uma populao que labora para vencer a adversidade climtica e a omisso dos governos. Sou testemunha e partcipe na dor dos que, vindos do Nordeste, penavam em longas viagens em busca de melhor condio de vida. Sou testemunha das preocupaes dos que plantam sem segurana da farta colheita e de algum lucro que recompense dignamente no norte mineiro.
Em meio ao drama dos que padecem em grandes centros, como So Paulo, pelo excesso de gua que se apossa das vias pblicas e destri casas e edifcios de apartamentos, o nosso sertanejo teme o pior com uma estiagem que se alonga.
J em novembro, o veterano e excelente jornalista Waldir Senna lembrava a mais rigorosa seca de que se tem notcia no Norte de Minas, a de 1976. Os jornais registraram mortandade de 20 mil reses e a intensa mobilizao de entidades representativas do setor rural junto a autoridades estaduais e federais para assistncia s populaes flageladas.
Mas aquela era a poca da Sudene, que centralizou as providncias para minimizar os efeitos da estiagem. Ministros e secretrios se deslocaram ao epicentro do fenmeno para estudar e anunciar medidas inditas, como formao de frentes de trabalho e abertura de crditos bancrios.
Mas no penltimo ms de 2009, Waldir Senna Batista j advertia que a seca do ano que flua se indicava possivelmente pior do que a anterior. Admitia-se a perda de 100 mil reses. As pastagens estavam dizimadas e a gua de tanques e barragens se esgotavam. O rebanho, mais numeroso, se mantinha com complementos alimentares com estoques decrescendo perigosamente, enquanto a cana e forrageiras j tinham acabado. gua basicamente s de poos tubulares, com vazo em queda.
Em 2009, as chuvas vieram antecipadas no Norte de Minas, em setembro. Em outubro, foram intensas, mas rarearam a partir da, aguando a inquietao. Em dezembro, choveu pouco e, em 2010, o cu brindou pouco a terra e a esperana dos que a habitam.
Na regio comum: h as longas estiagens e, quando vem a chuvas, desabam pesadamente, registram-se tempestades, que produzem efeitos malignos sobre a populao, destruindo as toscas casas em que se abrigam os campesinos (j se pode usar a palavra sem sintoma de ideologia), arrasam as plantaes j feitas, avolumam ameaadoramente as guas dos rios, muitos deles reduzidos antes a filetes de gua.
Janeiro no contemplou favoravelmente as expectativas. E fevereiro, como ser? A dvida, cruel, deixa em ansiedade uma populao que trabalha e produz, enquanto os moradores dos povoados buscam nas cisternas o lquido indispensvel sade e vida.
Nesse perodo, so os caminhes-tanque que socorrem ponderveis parcelas de uma populao sofredora, que no tem a quem apelar para amenizar o drama da falta de dinheiro para suprir as necessidades humanas mnimas, inclusive quanto sade. E remdio, s vezes so de alto preo.
A esperana se concentra nas oraes, nas procisses, na promessa por dias menos perversos, nas penitncias antecipadamente cumpridas para que as nuvens no decepcionem mais uma vez. o calendrio tenebroso que envolve muitos milhares de famlias, periodicamente, como se um castigo a punir pessoas que nada fizeram de errado e mau.
No Nordeste brasileiro, como observou Euclides, o "magrm", a estao das secas. "Verde e magrm" so termos com que os matutos denominam naquela sofrida regio as quadras chuvosas e as secas. O problema, contedo, no de meras palavras. a dura realidade que elas representam e que aterroriza o homem do Norte de Minas e a economia da regio. Eis a questo.


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Por Web Outros - 2/2/2010 08:25:56
Um real fornecedor

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Consta da histria ou saga regional ter vivido e morrido em Montes Claros uma princesa imperial, filha de Pedro I, sepultada em algum lugar da nave central da Matriz, que neste sculo completa trs sculos. Hermes de Paula, o grande historiador norte-mineiro, cuja obra alentada ter segunda edio, conforme li, se refere quela menina, no seguido por muitos historiadores.
O mdico Hermes, que pesquisava no s doenas e remdios, descobriu o seguinte: Em torno de 1828, vivia na corte uma mucama, olhos azuis, muito mimada pelo soberano. A imperatriz, que no era astuta e conhecia o arrebatado marido, desconfiou. Quis deportar a mucama e respectiva cria, mas o envolvente imperador se antecipou, mandando ambas para o Tejuco, aos cuidados do sargento-mor.
Grassando uma epidemia de varola, determinou-se que as duas fossem encaminhadas a Formigas, hoje Montes Claros, onde a menina, j acometida do mal, faleceu dias aps. O padre Feliciano se encarregou do funeral, enterrando-lhe o corpo junto ao altar-mor da primitiva capela, hoje matriz.
Hermes ficou "cabreiro", a histria lhe pareceu nebulosa, mas a registrou, e fez muito bem. Mas perguntou: Quem teria sido o sargento-mor de Formigas, incumbido de hospedar a princesinha? Admitiu que teria sido o seu bisav Antnio Xavier de Mendona, ento sargento-mor. Descartou-se a tese, quando Olyntho da Silveira aventou a hiptese do nome de Gernimo Xavier de Souza.
Suponho que seria vlida uma pesquisa sobre o fato, no haveria nada a perder e se esclareceria uma dvida secular, se bem que aprofundar-se na prole do primeiro imperador do Brasil tarefa de grande dimenso, por motivos consabidos. No caso da princesinha sertaneja, professores e alunos da Universidade poderiam prestar contribuio de relevo.
Tenho alto respeito pela famlia imperial brasileira. Mas so fatos. Esse grande cronista, culto, intransigente, independente, rigoroso na anlise, irnico, que foi Fausto Wolff, comentou mais de uma vez a personalidade de Pedro, sua vida amorosa. Alis, no foram poucos os historiadores que se ativeram ao tema, at porque agrada aos bisbilhoteiros da crnica ptria.
Ele declarava no querer contar a histria, mas contava que Sua Majestade, em 1828, j era pai de 28 filhos, dez de matrimnios e 18 fora dele. Nem a doceira negra do Palcio de So Cristvo, nem uma freira da Ilha Terciaria escaparam da gravidez real. O caso mais rumoroso teria sido o de Clemence Saiset, bela francesa, modista de uma das mais refinadas casas de moda da Rua do Ouvidor.
Delso Renault registrou que a literatura, como a moda francesa, se difundia no Rio de Janeiro, trazida pelos costureiros, modistas e almanaques. Os profissionais da costura procuravam uma locao, em uma "rue franaise d`un bout l`autre". Homens e mulheres estavam atentos moda que chegava de Paris, cujas toaletes seguiam figurinos franceses.
Quando descia do Palcio de So Cristovo ao Pao Real, onde est hoje a Praa XV, o elegante proclamador da independncia fazia questo absoluta de observar as modas e, mui especialmente, as modistas.
Num determinado estabelecimento exibiam-se os papis pintados de Bernard Wallenstein, expostos no n 98, na Nova Rua do Ouvidor, hoje a Travessa. O astuto filho de Joo VI s vislumbrava uma mercadoria: A mulher do proprietrio, 25 anos, j com dois filhos.
Entro no finale mais melindroso. O galante soberano no queria ferir suscetibilidades, melindrar. Procurou sada honrosa para si e a bela francesa. o que consta. Assim, muito profissionalmente, convidou Monsieur Pierre, esposo e chefe dos negcios, para envolver em papel decorativo as paredes das enormes dependncias do Palcio de So Cristvo.
Enquanto o marido pintava, o imperador e Clemence "pintavam" na residncia do casal. At que, inopinadamente, no sei se pela tarde, o arteso francs chegou em casa e encontrou S. Majestade em pelo. Clemence explicou: ele cara do cavalo exatamente em frente residncia, sentiu dores e ela lhe estava a aplicar unguentos.
O francs no se revelou ou se deu por vencido. Mandou afixar porta do estabelecimento da Rua do Ouvidor uma placa: "Fornecedor Real".


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Por Web Outros - 29/1/2010 07:58:48
As crianas imoladas

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A droga degrada o carter, desvia o jovem, vicia-o, domina-o, leva-o sordidez e ao crime. A despeito do conhecimento que se tem dessa perniciosa realidade, aumenta o nmero dos adolescentes que se tornam usurios e, em seguida, traficantes, envolvendo-se em outros graves delitos.
O Centro Integrado do Adolescente Autor de Ato Infracional, o CIA-BH, registra cerca de 670 desses jovens apreendidos pela Polcia Militar nas ruas da capital. A intermediao da mercadoria lhes altamente rentvel, com arrecadao de at R$ 600 ao dia. O dinheiro fcil fascina os que entram numa fase especialmente delicada da vida.
Oscar Cirilo, coordenador clnico do Centro Mineiro de Toxicomania, explica: "Os jovens acreditam que a droga capaz de diferenci-los dos demais. A droga d a eles um status para obter bens materiais".
Em junho de 2007, em manh ensolarada de Corpus Christi, em rea povoada, conhecida e frequentada de Montes Claros, a maior cidade do Norte de Minas, no Parque de Exposies, um desses jovens, viciado em drogas e que circulava normalmente pelas ruas, matou o menino Sidney Jnior.
No era sua primeira morte. Antes, eliminara uma mulher que no lhe dera o dinheiro exigido. Para o mesmo objetivo, certamente, imposto pela sordidez do vcio indomvel. A cidade parou em busca do corpo do infante e, depois, para prestar a homenagem pelo sacrifcio de uma vida.
Uma tia, como se me fosse, acompanhou todas as medidas de praxe para achar a criana imolada, sempre em lgrimas, chorou sem parar todos os dias, desfaleceu no cemitrio, com olhos lacrimejantes foi missa de stimo dia.
Presente ao ato religioso no grande templo, o jornalista Paulo Narciso, tambm pai de filho muito querido, assistiu solenidade. Para ele, as mulheres podem salvar-nos. Talvez, apenas elas.
Escreveu: "E, entre elas, as mes, nicas com autoridade e fora para iar do despenhadeiro moral um Brasil que d mostras de que desmaia inerte, abobado, perdido, irreconhecvel, extraviado, amputado do seu passado e distante do futuro antevisto pelos sonhadores de todos os tempos.
Ningum pode tanto quanto as mes, e parece que elas no esto mais dispostas a ceder um milmetro em defesa da vida; elas - que so o centro deste prodgio humano/divino - a prpria vida. Ao preo que for. Custe o que custar, elas nos salvaro.
Elas, as mulheres, a tudo comandavam. Com serenidade e doura ainda, e imensas doses de energia, atitudes que comovem tanto quanto o drama do menino que ali nos levou e reuniu. O garoto imolado."
O jornalista, compungido, sofria com a multido, predominantemente feminina. Via tudo, ouvia o silncio, acompanhava a cena, percebia lgrimas mesmo em semblantes amadurecidos pela dor e por duras experincias de vida.
Sem um estalido, um movimento, um mnimo gesto no encerro profundo delas, as mes, nada que pudessem ocultar ou sugerir um levante iminente, j a caminho, contra uma situao de desconforto, de insegurana, de temor.
Paulo Narciso se comovia com mulheres e homens violentados pelas mesmas circunstncias, em outros dias e lugares. "Na mobilidade gestual de quem fala livremente com Deus, sempre a ss, as mes exibiam, era possvel ver, um fragor secreto, a fora desconhecida que pode e vai nos salvar em breve, quando, talvez, daqui mais um pouco, permitirem que soltem da garganta o grito lancinante que move o mundo, e o faz recomear."
"No para a vingana. Mas para a reconstruo urgente do que se decompe. No permitiro que seus filhos sejam mais mortos nas ruas. Que seus maridos no voltem. Que a porta da sua casa deixe de ser o territrio risonho da infncia, para modelar-se como ltimo recuo do medo".
As mes desconhecem o sentimento de covardia. A tia, herona, confessou: "Somos todos refns do medo. Estamos encurralados, presos em nossas casas. No podemos mais desfrutar do direito de ir e vir. o momento de lutarmos para que atrocidades como esto no ocorram novamente.


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Por Web Outros - 19/1/2010 07:39:25
Um jurista mineiro no Sul

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No Palcio do Governo, na praa mais republicana de Florianpolis, examinou o jornalista e pesquisador as vias antepassadas, e do antepassado, cuja descendncia rumou diretamente para o Rio Grande do Sul: sua filha se casou com o general Flores da Cunha, uma lenda no Sul, merc de sua atuao com lder poltico, tendo exercido a chefia do governo.
O antigo Palcio, o mais belo edifcio da cidade, hoje o solene e merecido Museu Cruz e Souza, homenagem ao homem negro que foi, e , um dos maiores poetas simbolistas do Brasil. Mas no deixa de guardar as relquias e as lembranas dos seus homens pblicos.
Bem atrs no Palcio, belssima e humilde Igreja de So Francisco de Assis, supostamente frequentada pelo antigo conterrneo mineiro, e onde o jornalista amigo "pediu por todos ns" em orao.
Voltando a Gonalves Chaves, foi, segundo o jornalista, o filho de Montes Claros que mais altas posies alcanou. Alm de governador de dois estados na monarquia, foi presidente da Cmara Federal, senador da Repblica, diretor da Faculdade de Direito de Minas Gerais, hoje da UFMG, senador estadual. Newton Prates o resumiu, em 1957: "Grande figura de seu tempo pela inteligncia e pela cultura, foi um lder poltico respeitado e de largo prestgio, um mestre do Direito".
Quando sofreram os conservadores em Montes Claros um abalo poltico extraordinrio, Chaves foi nomeado, em maio de 1879, presidente da Provncia de Minas. Ento, a Cmara do municpio enviou a sua Majestade ofcio em que ressaltava o acerto e se congratulava com os mineiros "pela felicidade que devem contar em breve porvir".
Naquele perodo, teciam-se os fios do futuro. Enquanto mineiros atuavam no Rio Grande do Sul, os gachos vinham. Os Dorneles, ligado a Tancredo, entre eles. Getlio era Dorneles.
Flores da Cunha, nascido em Uruguaiana, bacharel em Direito e general do Exrcito, abria caminhos. Representou o Cear e o Rio Grande como senador, j em 1930, foi deputado federal e senador. Atravessou o sculo, pois - nascido em 1880 - s viria a falecer em 1956. Casado com a filha do magistrado ilustre, chegou metade de nosso sculo.
Foram estreitos os laos de Minas Gerais com o Sul. Desconheo a existncia de alguma tese ou dissertao de mestrado a respeito. uma pesquisa que exigir muito tempo, porque as fontes so amplas e dispersas. Como sempre.
Os mineiros participaram da Revoluo Farroupilha. Leia-se a atuao em muito livro de Ster Couto, ora editado, por segunda vez, graas ao filho, Lomelino Ramos Couto.
Quando se fundou Belo Horizonte, logo para c correu o coronel Emdio Germano, comerciante, que, no Rio Grande do Sul se encontrava e para c se trasladou, um dos fundadores e provedores da Santa Casa.
Quem visitar Pelotas, em sua bela praa central, encontrar o bronze de ilustre diamantinense. Foi figura de proa nos movimentos de independncia, tendo ocupado os mais altos do governo provisrio, com Domingos Jos de Almeida e Silva.
So fatos a que os mineiros no do maior ateno, embora no se negue o descobrimento de Minas que ora se faz, em parte por esforo acadmico. Mas, esforos isolados, de alto custo, so tambm desenvolvidos. Por exemplo. Em 21 de janeiro do ano passado, recebi do brilhante jornalista Paulo Narciso, esprito de escol, uma comunicao informando que estivera em Santa Catarina.
Era a segunda vez em um ano, para escarafunchar alguma coisa sobre o nosso Antnio Gonalves Chaves, tio do advogado, poeta e seresteiro Joo Chaves, de Monzeca, o celebrado e querido jornalista Hermenegildo Chaves.
Para Paulo Narciso, Antnio Gonalves Chaves o maior nome da histria de Montes Claros, governador de Santa Catarina, por dois anos, e tambm de Minas Gerais. Notvel humanista, Ruy Barbosa o chamava de "meu mestre", tendo propiciado notvel contribuio ao Cdigo Civil Brasileiro, do grande Clvis Bevilcqua.
Paulo no foi sozinho a Florianpolis. Sendo seu filho descendente colateral do jurista Antnio Gonalves Chaves, sobrinho tetraneto, pois, do governador do Imprio, levou-o consigo para perseguir as pegadas ancestrais.


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Por Web Outros - 13/1/2010 08:16:50
De um ano para outro

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No trouxe da infncia reminiscncias de festas de passagem de ano em minha cidade natal. Tambm, de l parti muito cedo... Mas no me esqueo de que a memria primeira que tenho desses festejos l aconteceu, quando se exibiu no velho, desconfortvel mas amorvel Cine Montes Claros, um filme sobre o fim do sculo XIX e o incio do sculo XX, descrevendo a vida de mile Zola, o grande autor francs, s voltas com a clebre questo Dreyfus.
A "casa de espetculos" era um barraco humilde, no centro da cidade, em que empresrios sensveis aos anseios da coletividade, resolveram instalar velhas cmaras cinematogrficas, cujos filmes eram buscados em Bocaiuva, final da linha da Central do Brasil. Transportados em heroicos carros Ford bigode, ou antecessores, venciam quilmetros de caminhos carroveis, para satisfazer a distinta e ansiosa plateia. Ruth Tupinamb Graa relata aquele tempo com mestria.
No meu tempo, a ferrovia j chegava a Montes Claros, o que era um notvel avano. No Norte de Minas, tudo foi conseguido por fora de sacrifcios imensos... mesmo os bens mais comezinhos. Mas valeu a pena.
J era o caso do romancista e panfletrio, autor de uma pea indelvel - "Eu acuso", publicada no jornal "L`Aurore", e dirigida ao presidente da Repblica, contendo uma terrvel vingana de todos os que haviam participado da perseguio ao destraado oficial, de origem semita, vtima de denncia como traidor.
No transcurso de 1899 para 1900, Zola se encontrava refugiado na Inglaterra e assistiu s festividades de passagem de ano e sculo, que o cinema, com as deficincias da poca, to bem transportou s telas.
O que o cinema representou, as imagens que ofereceu, foi um retrato de um tempo que se queria outro. Era a "belle poque", que Alaor Barbosa, to bem descreveu em "Um cenculo na Paulicia", perodo de paz entre as naes e os Estados da Europa Ocidental. Diz: "Em 1900, derradeiro ano do sculo XIX, fazia, pois, trinta anos que a Europa Ocidental vivia, dentro do seu territrio, em paz".
No fujo ao fascnio de um texto lapidar de Otto Maria Carpeaux, sobre o tema, em "Histria da Literatura Ocidental". Lapidar, sim, para resumir cem anos de humanidade:
"Depois de 1900, as crises econmicas tornam-se mais raras, tm repercusses menos extensas. A prosperidade fica quase estabilizada, modificando-se quase s no sentido de melhorar continuamente o standard de vida das classes mdias; o proletariado, organizado em partidos e sindicatos, tambm luta com sucesso considervel, criando-se uma "aristocracia" de operrios qualificados".
"Apesar disso, no diminuem os lucros da capital, reunido em formidveis truste e cartis. Atribui-se esse milagre ao progresso da tcnica, que proporcionaria riquezas cada vez maiores aos donos das foras da natureza".
"Invenes que at havia pouco se afiguravam humanidade como sonhos da imaginao de Jules Verne - telefone, gramofone, automvel e avio - em breve no despertaro muita curiosidade.
Aos progressos da tcnica correspondem os da democracia: sufrgio universal, regime parlamentarista, liberdade sindical, conquistam-se at nas burocracias de tradio inveterada. Desaparece definitivamente o analfabetismo: escolas noturnas e "University Extension" divulgam, nas camadas baixas da populao, conhecimentos outrora propriedade privada das elites.
Nos recantos rurais, leem-se jornais que trazem notcias do mundo inteiro. O livre cmbio cultural sucede ao cmbio comercial. Celebram-se congressos internacionais de toda espcie, organizam-se internacionalmente as profisses e os partidos polticos. A humanidade parece marchar para o paraso terrestre".
Parecia. O mundo uma bola. Demos voltas. Estamos em 2010. Haver, para os que viverem, uma nova "belle poque"? ou o que temos?


53446
Por Web Outros - 1/1/2010 05:11:36
O futuro nas mos do homem
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

H um grupo de mulheres que exercem competentemente o ofcio da escritura em vastas regies de Minas Gerais, com nobilssimo propsito e consentnea eficincia na prtica e nos bons resultados. Devotam-se pesquisa para escavar o que sobrou em sua comunidade de registros de seu passado (quanto j se perdeu) e, coletados dados em arquivos, quando existam, cartrios, templos, reparties do poder pblico, para conseguir transformar isso em livro. Antigamente no se dava valor maior e essas iniciativas, a no ser as particulares. Mestre Urbino Vianna, contudo, conseguiu produzir uma obra importante na regio norte-mineira, legando algo que no se esquece e de que no se abre mo. Agora, as educadoras ainda professoras, advogadas, pedagogas, socilogas, jornalistas, escritoras de nascena decidiram tomar a frente do ideal, e esto vasculhando conscientemente os desvos das relquias locais para traz-las ampla publicao. conhecer a sua aldeia, como definia Tolsti, e nada mais sbio; o passado, auscult-lo, escarafunch-lo, dizer dos que a descobriram, ergueram habitaes e construram famlias, que no solo plantaram sementes, protegeram-nas, preparando o futuro.
No interior recndito, assim se procedeu e, deste modo, temos milhares e milhares de povoaes, grupamentos humanos trabalhando honestamente para ajudar o crescimento nacional. Alimentam e produzem para os que ali vivem e contribuem, de algum modo, para o PIB, annimos os muitos milhes que transformaram - no esforo geral - o Brasil no que hoje e possibilitando o que seja no futuro.
Jacaraci uma cidade na Bahia e sobre ela Zoraide Guerra David, premiada na poesia e na prosa, acaba de editar "Documentrio Mozart David - Uma vida a servio de Jacaraci". A ela j se deve valiosa contribuio histria de outros municpios e localidade encravada no serto baiano. Ser volume que a populao guardar como relquia, como o do professor Urbino Vianna. Os leitores das metrpole, distantes da terra quente e que se desenrolaram os fatos referidos e viveram as personagens humildes que a habitaram, erguendo patrimnio perene, no tero imediato interesse. Mas, quando quiserem aprofundar-se no local ou regional, no tero seno a recorrer a essa biografia da cidade e de um homem.
Foi aproximadamente o que registrou o professor Dario Teixeira Cotrbin, da Universidade do Norte de Minas, do IHGMG e do IHGMC. No prefcio: "Antes de tudo, preciso recordar que o `Documentrio Mozart David: Uma vida a servio de Jacaraci`, a luz mxima dos acontecimentos (os descritos). assim porque no entrecho do projeto, este livro dever cumprir o seu objetivo maior, que o de resgatar: passado histrico, alm das tradies e dos costumes da terra e do homem. Como se v, as caractersticas histricas do municpio, com as descries de seus rios, serras, fazendas e distritos, devem enriquecer a obra. Desde ento, pode-se dizer que o Morro do Chapu, localizado na Serra das Almas, ainda permanece garboso indicando que a pequena Jacaraci fica ali bem pertinho". Pois bem. Esse Mozart, nascido em 1903, entre 13 irmos, construiu aquilo que fundamental: a sua grei, a que deu rumo certo na vida, uma numerosa prole que segue os caminhos traados pelo labor, pela dignidade, pela honradez. Liderou a poltica municipal durante 51 anos, inclusive quando dos rudes entreveros entre a UDN e PSD, agiu com mo firme, sem excessos, como convm s comunidades interioranas de modo especial.
Fez tambm poesia e exercitou na crnica. Foi um cidado feliz que felicitou sua terra. Outro dia, a filha Wanda lembrou feitos paternos: o Teatro Municipal, o Clube Ltero-Recreativo, grupos escolares, Parque de Diverses, Banegrui Opyblico, Centro Administrativo, edifcio da Prefeitura, o Forum Augusto Gesteira, o Posto de Sade, recuperou a Matriz.
Mudei hoje a linha desses comentrios. Mas me senti satisfeito.


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Por Web Outros - 19/12/2009 10:51
O Afeganisto por a

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Foi em agosto que encontrei a notcia no montesclaros.com. O Afeganisto aprovou polmico projeto que permite aos homens xiitas negar comida s suas mulheres, caso se recusem a manter relaes com eles. A nova lei vale apenas para a minoria xiita e estabelece outras normas, como a custdia exclusiva dos filhos para pais e avs e a necessidade de permisso dos maridos para que as mulheres possam trabalhar.
Recentemente, o presidente do Afeganisto, Hamid Karzai, bem aproximado politicamente do Ocidente, obrigava as mulheres xiitas a manter relaes sexuais com seus maridos no mnimo a cada quatro dias. Restaria saber se os homens estariam dispostos ao cumprimento desse calendrio, possivelmente extenuante.
V-se que o Afeganisto vai mal, com ou sem taliban. L, 80% das mulheres so analfabetas e, no regime anterior, o dos talibans, estavam proibidas de estudar. No governo atual, so cerceadas de direitos fundamentais e obrigadas a regras absurdas de comportamento.
Entre elas, submeter-se ao estupro pelos maridos, legalmente. As adolescentes so coagidas a casar antes de 16 anos e constituem moedas de troca em disputas de famlia e em cobranas de dvidas. Resultado: o ndice de gravidez entre 10 e 14 anos elevadssimo.
Na recente eleio de Karzai, elas compareceram temerosas para votar. Do ato em si e de represlias. O nmero de votantes do sexo feminino foi baixo. bom realar o trabalho da secretria de Estado dos EUA, Hillary Clinton, ostensivamente contra estas prticas inaceitveis neste milnio. Disse: "Eu acredito que a transformao do papel da mulher na sociedade o ltimo grande impedimento ao progresso universal".
No s no Afeganisto. Toda aquela regio est comprometida com essas posies radicais. Na frica, no menos, a no ser em determinados pases. Na terra de Gandhi, 40% das mulheres so analfabetas. A CNN mostrou: cinco mil assassinatos de honra por ano, a maioria no mundo muulmano; 130 milhes de mulheres sofreram corte genital; 21% em Gana confessaram que sua iniciao sexual foi por estupro.
Questes semelhantes no se restringem, contudo, sia e a frica. O mundo est atrasado sculos em termos de tratamento das mulheres. Vendiam-se negras - e negros tambm - durante a escravido no Brasil e colnias espanholas. Ainda no sculo XXI, o comrcio de mulheres tem abrangncia internacional. Mas o que acontece no Afeganisto, que pretende demonstrar evoluo social e humana, causa desaprovao, condenao e dor. At quando?
No Brasil, ainda se negociam mocinhas e o sexo instrumento de remunerao. Embora no sejam utilizados mtodos como os da Afeganisto, a submisso feminina candente, humilhante criminosa. No h como negar.
O papa Honrio III sentenciara: "As mulheres no devem falar. Seus lbios carregam o estigma de Eva, que foi a perdio dos homens.
Para Eduardo Galeano, o mesmo pnico faz com que os fundamentalistas muulmanos lhes mutilem o sexo e tapem seus rostos. Na civilizada e exemplar Grcia, antes de Cristo, as mulheres no tinham seno direito de obedincia s tarefas prprias do sexo.
Elas sequer participavam do teatro. Podiam simplesmente assistir s obras, nos piores lugares, nas arquibancadas mais altas, mas no representavam. No havia atrizes. Na obra de Aristfanes, Lisistrata e as outras protagonistas foram interpretadas por homens usando mscara, como observa o autor uruguaio.
No foi diferente o cenrio teatral na gloriosa Inglaterra. Nas peas de teatro, havia rapazes fazendo o papel das personagens femininas dos grandes dramaturgos, como Shakespeare. O mundo no mudou muito e abrangentemente.
A propsito, em plena guerra do Peloponeso, as mulheres de Atenas, Esparta, Corinto e Becia se declararam em greve contra o conflito. Elas no mantinham relaes com seus homens e o jejum carnal terminou por vencer os guerreiros. Assustados diante da rebelio feminina, disseram adeus aos campos de batalha.
E agora, Karzai?


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Por Web Outros - 9/12/2009 07:34:27
Correo de rumo

Jornal "Hoje em Dia" - Manoel Hygino

Houve tempo em que Montes Claros nutria enorme cime de Bocaiva, ambas cidades de expressivos vultos no cenrio poltico e literrio. Era, mutatis mutandis, o que ocorreu historicamente com Uberaba e Uberlndia, os progressistas municpios do Tringulo. Enquanto se construa o ramal unindo o Norte de Minas malha ferroviria nacional, acentuaram-se os inclinaes para as guerrilhas verbais sobre a predominncia das duas cidades cada uma querendo ser mais importante que a outra. O escritor curvelano Nlson Viana registra que Montes Claros progredia assombrosamente com o evento da chegada dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil. Mas, por questes topogrficas e geogrficas, os trilhos tinham de chegar primeiramente em Bocaiva, o que no agradava aos montes-clarenses. Enfim, amaciaram-se os coraes e retomou-se o clima de cordialidade e compreenso. Lembro o fato, porque acaba de ser publicado "poesia-Correo de Rumo", de Antnio Augusto Souto, e o autor bocaiuvense, embora residindo na vizinha cidade, onde seu trabalho foi editado pela Universidade do Norte de Minas. Antnio Augusto foi professor de lngua portuguesa e literatura, durante quarenta anos, oito meses e poucos dias. Casou-se na cidade escolhida para viver, formou-se em advocacia, mas sentiu que lhe faltava dizer muito, e que lhe escapara ensejo nas aulas. O filho-homem no veio, mas houve a correo de rumo. Dedicou-se advocacia e s letras, na poesia, na crnica e no conto. Quem fez o prefcio fui eu, de modo que talvez no necessitasse de outro registro, mas me dedico ao mister, ao lado de Wanderlino Arruda e Reivaldo Canela, que lamentavelmente no mais entre ns se encontra.
Wanderlino pergunta: por que deixaria o esprito do homem de realidade til, para procurar uma esttica? Quem pretende responder ao quesito deve recorrer s ideias e sentimentos de Antnio Augusto. Quanto a Reivaldo, opina: "O estilo potico, ou a escola, como queiram, no importam. A poesia a essncia mais pura de tudo. De tudo, enfim". E a constatao se confirma no contedo do livro de um autor, que assim estreia auspiciosamente. cidado de velha e cepa: Constituiu a famlia e a ama, com f e orgulho, o que se vai tornando raro no mundo vertiginoso em que nos achamos. Sua primeira composio, um pagamento de promessa, que transcrevo em prosa: "Quando eu puser ponto final neste livrinho, quero dedica-lo a Eunice, somente. Vou escrever dedicatria, reescrev-la, tantas vezes! Modificar, tirar e pr, usar cinzel... at achar a forma que, acho, ela merece. Quero expresso absolutamente linda, quero palavras que tenham cheiro de chuva, a nota musical do riso dela, sua enorme alegria de viver, um pouco do seu perfume, sua coerncia..." Tempos passados se fizeram velhos: "Sou um homem bem rodado... J singrei mares, risquei os cus e engoli a poeira... Naveguei por rios de todas as cores, palmilhei longas estradas, vielas, vilas e becos... Provei do clice de tantas dores, bebi na taa da alegria! Agora, estou argonauta, tripulante sem rumo de antigas caravelas, velejador annimo, passageiro da ltima poltrona de embarcao extica. Do fundo do corredor, olho quem entra e quem sai, para ler, em cada mscara, a escritura particular, o contrato de promessa de compra e venda que todos os da minha (sub) espcie procuram esconder, a sete mil chaves." Assim a poesia desse cidado de Bocaiva, sem clarapel inviolvel, sem subterfgios, sem vocbulo garimpado. Linguagem simples e fcil, para que sua poesia sensibilize. Na "Balada nmero dois", redescobre-se: "Era uma vez um menino/que sonhava, noite e dia.../Fazia seus prprios brinquedos,/brincava com o que sofria./No tinha games nem vdeos/que isso no existia.


52369
Por Web Outros - 25/11/2009 10:35:54
E as chuvas chegaram
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Milhes de brasileiros vieram para o Sul, como dizem os nordestinos, empurrados pelas secas e pela fome.
O espetculo de grandes levas humanas, carregando seus trapos e pobres pertences, percorrendo a p, maltrapilhos e quase exangues, centenas de lguas, sob sol escaldante em busca pelo menos de uma moringa de gua e de que a esperana no se apaga da memria.
Os que assistamos perguntvamo-nos: por que tamanha inclemncia? Os estudiosos davam respostas sobre clima e meteorologia, mas no explicavam o fundamental: a desumanidade de fenmenos que afligiam principalmente os mais pobres, os miserveis; os que de pouco dispunham e deixavam os parcos bens no comeo ou durante a caminhada.
Nos terminais das ferrovias ligando o Nordeste ao hoje Sudeste, milhares se aglomeravam nas proximidades das estaes, esperando a vez de "pegar o trem". Multides se deslocavam em composies apinhadas, nas quais, se faltava algum punhado de farinha, sobrava em falta de higiene.
Mesmo em Minas, faziam-se procisses de penitentes, que nada rogavam a Deus seno gua. Muitos bons autores descrevem a dor e angstia desses dias, entre os quais Oswaldo Gusmo, professor de Teoria Geral do Estado, brilhante advogado, ao ingressar no rol dos ficcionistas. Seu relato dos dramas dos que, em desconfortveis composies viajavam da zona dolorosa da seca para as cidades maiores simplesmente magistral.
Em meu primeiro livro, coisa da adolescncia, diante da penria e sofrimento dos retirantes, contei um pouco dessa histria de infortnio de milhares e milhares de brasileiros na fuga seca. Excelentes autores tambm o fizeram, movidos por semelhante impulso de solidariedade.
Quando a chuva chegava, as crianas se deleitavam com as enxurradas nas vias pblicas, pouco se importando que fragmentos de vidros ou peas de metal pudessem ferir-lhes os ps e causar males maiores. Deus protege os inocentes e os puros de alma.
O empresrio Luiz de Paula, to bom na prosa, na cantoria, contabilista, advogado, scio de vice-presidente da Repblica, poeta de boa qualidade, jovem nos seus mais de 90 anos, lembra aquele tempo indelvel:
"A chegada da chuva era uma festa. Hoje, quando a cena se repete e a chuva chega, escurecendo o cu, tenho saudades daquele tempo em que eu sabia aproveitar uma chuva, misturar-me com ela, ser parte dela. Cala arregaada, peito nu, revejo-me a cantar granizos no cho molhado ou recolhendo filhotes de passarinhos derrubados dos ninhos pela ventania. Ou a opor barragens de terra s enxurradas e a fazer "olho de boi" no cho, com o calcanhar e o dedo do p, quando a chuva comeava a passar da conta. Sempre a saltar, aqui e acol, at entrar no raio de ao da voz materna a chamar-me:
- Venha para casa, menino! Venha enxugar a cabea! Vestir uma camisa! Voc vai apanhar uma pneumonia!"
No mesmo lugar e regio que receberam tantos e tantos flagelados das secas de muitos anos, ocorreu em 2009 talvez a mais caudalosa das chuvas dos ltimos 50 anos, segundo o prefeito Luiz Tadeu Leite, de Montes Claros. O magrrimo Rio Vieira, em cujas guas geraes de crianas e adolescentes se banharam em corajosas experincias ingnuas de natao, rugiu de madrugada como um leo, como li alhures.
Chuva quando cai no serto, depois de longa estiagem e extensa temporada de sol atormentador destri e mata. Na cidade grande, em que canalizaes se fizeram talvez sem um estudo mais aprofundado e cuidadoso do volume das guas, elas transbordaram e causaram prejuzos expressivos. Como em Belo Horizonte, So Paulo e Rio de Janeiro, que pretenderam prender o mpeto da torrente, quando ela se rebela contra a insensibilidade e falta de previso humana.
No se esconde gua braba como a sujeira debaixo do tapete. As provas esto a. E a proviso de torrenciais serem os dois ltimos meses do ano. Que os santos poderosos nos protejam, porque no estamos na idade de medir fora com a natureza.



52375
Por Web Outros - 25/11/2009
E as chuvas chegaram

Manoel Hygino dos Santos - "Hoje em Dia"

Milhes de brasileiros vieram para o Sul, como dizem os nordestinos, empurrados pelas secas e pela fome.
O espetculo de grandes levas humanas, carregando seus trapos e pobres pertences, percorrendo a p, maltrapilhos e quase exangues, centenas de lguas, sob sol escaldante em busca pelo menos de uma moringa de gua e de que a esperana no se apaga da memria.
Os que assistamos perguntvamo-nos: por que tamanha inclemncia? Os estudiosos davam respostas sobre clima e meteorologia, mas no explicavam o fundamental: a desumanidade de fenmenos que afligiam principalmente os mais pobres, os miserveis; os que de pouco dispunham e deixavam os parcos bens no comeo ou durante a caminhada.
Nos terminais das ferrovias ligando o Nordeste ao hoje Sudeste, milhares se aglomeravam nas proximidades das estaes, esperando a vez de "pegar o trem". Multides se deslocavam em composies apinhadas, nas quais, se faltava algum punhado de farinha, sobrava em falta de higiene.
Mesmo em Minas, faziam-se procisses de penitentes, que nada rogavam a Deus seno gua. Muitos bons autores descrevem a dor e angstia desses dias, entre os quais Oswaldo Gusmo, professor de Teoria Geral do Estado, brilhante advogado, ao ingressar no rol dos ficcionistas. Seu relato dos dramas dos que, em desconfortveis composies viajavam da zona dolorosa da seca para as cidades maiores simplesmente magistral.
Em meu primeiro livro, coisa da adolescncia, diante da penria e sofrimento dos retirantes, contei um pouco dessa histria de infortnio de milhares e milhares de brasileiros na fuga seca. Excelentes autores tambm o fizeram, movidos por semelhante impulso de solidariedade.
Quando a chuva chegava, as crianas se deleitavam com as enxurradas nas vias pblicas, pouco se importando que fragmentos de vidros ou peas de metal pudessem ferir-lhes os ps e causar males maiores. Deus protege os inocentes e os puros de alma.
O empresrio Luiz de Paula, to bom na prosa, na cantoria, contabilista, advogado, scio de vice-presidente da Repblica, poeta de boa qualidade, jovem nos seus mais de 90 anos, lembra aquele tempo indelvel:
"A chegada da chuva era uma festa. Hoje, quando a cena se repete e a chuva chega, escurecendo o cu, tenho saudades daquele tempo em que eu sabia aproveitar uma chuva, misturar-me com ela, ser parte dela. Cala arregaada, peito nu, revejo-me a cantar granizos no cho molhado ou recolhendo filhotes de passarinhos derrubados dos ninhos pela ventania. Ou a opor barragens de terra s enxurradas e a fazer "olho de boi" no cho, com o calcanhar e o dedo do p, quando a chuva comeava a passar da conta. Sempre a saltar, aqui e acol, at entrar no raio de ao da voz materna a chamar-me:
- Venha para casa, menino! Venha enxugar a cabea! Vestir uma camisa! Voc vai apanhar uma pneumonia!"
No mesmo lugar e regio que receberam tantos e tantos flagelados das secas de muitos anos, ocorreu em 2009 talvez a mais caudalosa das chuvas dos ltimos 50 anos, segundo o prefeito Luiz Tadeu Leite, de Montes Claros. O magrrimo Rio Vieira, em cujas guas geraes de crianas e adolescentes se banharam em corajosas experincias ingnuas de natao, rugiu de madrugada como um leo, como li alhures.
Chuva quando cai no serto, depois de longa estiagem e extensa temporada de sol atormentador destri e mata. Na cidade grande, em que canalizaes se fizeram talvez sem um estudo mais aprofundado e cuidadoso do volume das guas, elas transbordaram e causaram prejuzos expressivos. Como em Belo Horizonte, So Paulo e Rio de Janeiro, que pretenderam prender o mpeto da torrente, quando ela se rebela contra a insensibilidade e falta de previso humana.
No se esconde gua braba como a sujeira debaixo do tapete. As provas esto a. E a proviso de torrenciais serem os dois ltimos meses do ano. Que os santos poderosos nos protejam, porque no estamos na idade de medir fora com a natureza.


51988
Por Web Outros - 12/11/2009
Fazendo a histria

Manoel Hygino dos Santos - "Hoje em Dia"

A histria s se constri mediante a reunio das pequenas histrias, nascidas da transmisso oral ou escrita atravs de sucessivas geraes. No h povo sem pequenas histrias, da no existir povo sem Histria.
O comentrio vem a propsito dos numerosos fatos, fatos corriqueiros, do cotidiano, que naturalmente se vo incluindo na Histria, com h maisculo.
Fao esse prembulo para chegar ao mago da questo: um livro de Ruth Tupinamb Graa, editado em 1986, mas que somente agora, por motivos que no convm esmiuar, tenho o prazer de ler.
A conterrnea autora faz um comentrio preliminar, que se casa perfeitamente s ideias das primeiras linhas deste comentrio: "Quando me propus a escrever este livro, no tive a pretenso de ser uma historiadora. Quis apenas contar histrias, obedecendo aos impulsos de um corao saudosista, cheio de recordaes.
Histrias que ouvi, momentos vividos intensamente, lembranas que ficaram guardadas (na minha alma e na minha retina), como um filme lindo que vimos na infncia, adolescncia ou juventude, um filme que nos emocionou muito e do qual nunca nos esquecemos!"
O propsito foi amplamente alcanado. "Montes Claros era assim..." uma bela recriao de um passado que no se perdeu na noite dos tempos, nem sempre sombrio, como imaginado pelas pessimistas. A escritora nos apresenta uma sociedade e uma cidade rica em valores humanos, em costumes assentados, em tradies cultivadas e consolidadas, com respeito e amor.
So cerca de 150 pginas, no belo estilo que caracteriza os textos de uma famlia privilegiada, que tem apreo e carinho para com a terra em que formou, em que gerou netos, que continuam o caminho. No um livro frio, meros relatos de acontecimentos pretritos em uma cidade singular, de personagens sempre evocadas pelo seu poder ou por sua simplicidade, s vezes pela modstia de comportamento, todos contribuindo para uma obra que se admira hoje por sua grandeza e importncia.
Constitui, como adivinhou e pretendeu a autora, um passeio cheio de saudade, em uma "terra de gente simples, sem luxo, preocupada apenas em viver, progredir, sem contudo prejudicar algum - uma comunidade pequena, pouco civilizada, mas alegre como uma s famlia de mineiros..."
Com belos picos-de-pena de Marcelo Llis, com fotos de alguns lugares importantes ao desenvolvimento citadino, Ruth Tupinamb Graa propicia um panorama sentimental, to do agrado dos que conhecem a terra indmita e seu povo alegre, carinhoso, s vezes bravo, quando necessrio.
Nada se esqueceu, a partir da matriz de antigamente, conservada presentemente com muito zelo. Jogos que fizeram a ventura de jovens de outras pocas, as escolas infantis, os caixeiros-viajantes, o circo, o mercado, com bruacas e bruaqueiros, o blgaro que revolucionou a horticultura local, Crhistoff (pai do genial Konstantin, o pintor, e excelente mdico), o velho Joo Maurcio e Mauricinho, nosso confrade na Academia Mineira de Letras.
Como em toda cidade do interior, no faltava a euterpe, presente nos momentos de maior vibrao cvica, mas tambm nos instantes de dor com sua marcha fnebre; Papai Noel e as verses sobre sua existncia, os pontos de encontro da mocidade, o "footing" da Rua Quinze, a sanfona que esquentava os bailes ou as noites dos homens que vinham vender seus produtos no mercado, os bares mais conceituados, os botecos, os carros de boi, as boiadas, os jornais, inclusive a "Gazeta do Norte", onde comecei este itinerrio que j se faz longo.
Dona Yvonne de Oliveira Silveira, presidente da Academia Montesclarense de Letras, observa:
"Ruth salva do olvido figuras, fatos e coisas, no espao em que viveram, e que se vai dissolvendo na inexorvel passagem do tempo. E salva-se, tambm, tornando viva a sua voz, no s como narrador homodiegtico, que se identifica como observador, que conheceu pessoalmente as personagens refeitas no seu discurso memorialista".


51463
Por Web Outros - 28/10/2009 07:02:09
Sem os valores ticos

Manoel Hygino dos Santos - "Hoje em Dia"

Em recente, bem elaborado, e sumamente oportuno artigo "Sobre penas e prises", Isaas Caldeira Veloso tece consideraes adequadas ao problema que focaliza. Suponho que jamais se ter falado tanto ultimamente neste pas sobre o tema, muitas vezes com observaes vlidas no tempo tumultuoso que vivemos, sob o signo da violncia, sem que se consiga, com agilidade, contribuir para equacionamento conveniente.
E o cidado tem medo de sair s ruas, de ir casa de campo ou chcara para curtir o fim de semana, de deslocar-se orla para espairecer beira-mar. Enfim, o brasileiro teme tudo, em todo lugar, todo o tempo.
O autor do artigo foi, por mais de dois anos, Juiz de Execues e, deste modo, tem conhecimento de causa, expressa-se de ctedra, vamos dizer assim. Isaas Caldeira Veloso trata o assunto com iseno. Ele comenta:
"...sei que os presos que temos atualmente no podem, nos termos da lei, receber as penas alternativas. Se primrios e de bons antecedentes, sequer aguardam o andar dos processos de presos em flagrante, pois recebem benefcio de liberdade provisria, o que certo. No h presos nas cadeias, com raras excees, autores de crimes simples ou insignificantes, ao menos nas que fiz correies em minha Comarca.
Esto presos porque foram beneficiados com penas alternativas e voltaram a cometer crimes, ou o crime cometido reveste-se de gravidade, sendo merecedores de priso. Nas cadeias de hoje poucos so aqueles recuperveis. Esto de tal modo envolvidos no mundo criminoso que desconhecem valores ticos, submetendo-se to somente s regras impostas pelo meio em que vivem".
O magistrado faz questo de ressaltar que se manifesta, por conhecer, na prtica, o problema, lastreado em mais de 25 anos de vida forense, como advogado e como juiz. Diante das sucessivas sugestes e propostas para mudanas na Lei de Execues visando ameniz-la, aconselha que os defensores da ideia passem pelo menos um ms dentro de uma penitenciria, para conhecer suas regras prprias, seu modo de funcionamento e valores, completamente diferentes dos padres da sociedade.
No entanto, no s visitar a priso, de antemo movido por bons sentimentos, supondo que o prisioneiro foi vtima da sociedade, que j se regenerou, um santo que se perdeu nos nvios caminhos da existncia.
Com pr-julgamento no se ajuda em nada, nem a ningum, muito menos sociedade, esta, sim, prisioneira da violncia e, s vezes, de organizaes criminosas poderosas.
Observa Isaas Caldeira Veloso:
"Todo preso, mesmo se matou a me, diz-se inocente e injustiado. Nunca a comida boa, sempre so vtimas do "sistema", maltratados e xingados pelos agentes, em permanente tortura, de modo que, impressionados com aquele quadro, os bem intencionados cidados, integrantes das comisses, saem dali dispostos a mudar, tudo, verberando na mdia o flagelo da situao".
E o outro lado da questo fica relegado:
"Ningum pensa no crime cometido pelo preso, na viva desamparada, nas crianas privadas dos pais assassinados, no comerciante que faliu aps uma vida inteira de luta, vtima de roubo, enfim, na tragdia deixada pelas mos de criminosos no tecer do seu nefando ofcio."
Pode haver exageros fsicos contra os presidirios, excessos na aplicaes das penas. " claro que h horrores nas prises, mas o criminoso de hoje sabe o que o espera quando se aventura no crime. Mesmo se nunca tiver sido preso, os noticirios das televises e jornais j mostraram, exausto, as cadeias brasileiras. Apostam na impunidade e depois se queixam das mazelas dos sistema".
assunto que o cidado, o poder pblico, tm de cuidar com especial ateno e interesse. Ele est, de algum modo ou, at por todos os modos, envolvido na questo, que grave e que, por isso mesmo, no pode ser adiada, nem permitir que se tratem bandidos apenas como pessoas desviadas das vias do bem e do lcito.
Que se apliquem penas alternativas, quando atinentes ao caso. Jamais, para "celerados, aos quais a Justia recomenda penas privativas de liberdade, nicas que permitiro reparos s vtimas, inibindo-as de fazerem justia privada e garantindo a paz merecida aos homens de bem".


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Por Web Outros - 22/10/2009 07:40:55
Mulheres nas Letras

Manoel Hygino dos Santos - "Hoje em Dia" -

Aconteceu em setembro, antes que a Primavera entrasse no calendrio. Mas se a Primavera vem todos os anos, o mesmo no se dir do acontecimento, que foi a fundao da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, que s pode acontecer uma vez.
Mrcia Vieira, uma das acadmicas, descreveu. Quarta-feira. Uma chuva molha o cho anunciando a noite das mulheres num dia especialmente grato, porque Anastasia foi cidade para inaugurar o casaro restaurado da antiga Fafil, em que estudou Lindenberg.
A chuva ia e voltava, fria, como para arrefecer os nimos. No Automvel Clube, erguido no local em que funcionou o Instituto Norte-Americano de Educao, deu-se a solenidade, com o contentamento das quarenta acadmicas, lideradas por D. Yvonne Silveira, um smbolo do dinamismo e da vitalidade da mulher do serto.
Dona Yvone agora presidente de honra, e sua sucessora Maria da Glria Mameluque, uma sucesso natural e no mais elevado estilo. Entre as patronas, pessoas de meu melhor bem-querer na infncia e na adolescncia, do maior respeito e carinho, entre as quais gente da famlia e minha professora Alice Aquino Netto.
Se escolheram formar esse sodalcio, simplesmente porque tinham e tm um projeto coletivo em mente, e um individual. Iro mostr-lo certamente. So elas, alm de Dona Yvonne: Maria Lcia Becattini Miranda, Milene Antonieta Coutinho Maurcio, Amlia Prates Barbosa Souto, Mary Siqueira Lelis, Raquel Souto Chaves, Geralda Magela de Senna A. e Souza, Josefina Emlia A. Tupinamb Valle.
A jornalista Mrcia ocupa a cadeira cuja patrona foi a minha mestra. Mas h Mara Vernica Leite, Maria Jos C. Rodrigues (Marij), Maria Prates Antunes, Filomena Alencar Monteiro Prates, Felicidade Maria Patrocnio Oliveira, Cecy Tupinamb Ulhoa, Thasa Terence Martins, Virginia Abreu de Paula, Railda Botelho Fernandes, Rosalva Souto Barbosa, Ivana Ferrante Rebello e Almeida, Maria Cristina Santos Canela, Evany Cavalcante Brito Calbria, Eunice Loylola Pereira, Karla Celene Campos, Maria da Conceio Melo, Maria da Glria Caxito Mameluque, Miriam Carvalho, M. Ruth das Graas Veloso Pinto, ngela Vera Tupinamb de Castro, Maria do Carmo Dures, Maria Mercs Paixo Guedes, Jeny da Esperana Canela Perosso e Maria Celestina Almeida.
Estou cnscio de que a pliade far muito, porque as conheo em grande parte, sua origem, sua competncia, sua lucidez, assegurando horizontes para a mulher, que sabe a que venho e para onde vai. O campo das letras propcio ao florescimento da inteligncia e sensibilidade feminina.
Ivana Ferrante Rabello fez um discurso exemplar, curto e objetivo. Lembrou o passado e ressaltou a nova mulher: "Menina no entra. As pginas do tempo, reviradas pela curiosidade, revelam que a atividade literria das mulheres foi banida e mutilada. Escrever pertencia esfera do interdito".
Ivana evoca nomes e fatos sobre mulheres que se envolvera, no difcil campo das letras, no qual encontravam todo tipo de bices. O tempo se encarregou de, a muito sacrifcio, abrir portas e perspectivas.
Elogio a Dona Yvonne, cone e smbolo, e observaes: "Sublimidade e prazer, condies do ato de escrever, foram experincias retiradas de ns como um filho, ao nascer de sua me. Assalto terrvel da carne de sua carne. Herana de famlia reservada ao homem, a escritura no entrou no testamento que nos caberia. Tornamo-nos herdeiras, sim, de um lugar de falta. Heranas foradas, porque recebemos por herana o vazio".
Era uma vez. Os tempos mudaram e essas mulheres iro demonstr-lo exausto.


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Por Web Outros - 20/10/2009 10:55:33
Desde So Jos de Formigas

Manoel Hygino dos Santos (Hoje em Dia)

Uma srie de boas publicaes chagadas de minha cidade me deixa em dificuldade. Tenho de escolher o que ler primeiro sobre qual inicialmente me manifestar. Antes de jantar, experimento a "Viriatinha", a amvel aguardente produzida por Luciano Oliveira, na Fazenda dos Ferros, trazida pelo cronista Reinaldo Souto, enquanto leio "Montes Claros era assim..." de Ruth Tupinamb Graa.
O livro desses que se h de ler com carinho, tal a beleza dos textos e a importncia dos lugares, dos episdios, das pessoas descritas. Ruth Tupinamb desvela a cidade que amamos, as pessoas que conhecemos e das quais guardamos as mais comovidas lembranas.
Voltarei s crnicas, muitas vezes. Mas no posso deixar de registrar o que a autora conta em seu incio: "Quando me propus escrever este livro, no tive a pretenso de ser uma historiadora. Quis apenas contar histrias, obedecendo aos impulsos de um corao saudosista, cheio de recordaes...
Histrias que ouvi, momentos vividos intensamente, lembranas que ficavam guardadas (na minha alma e na minha retina), como um filme lindo que vimos na infncia, adolescncia ou juventude, um filme que nos emocionou muito e do qual nunca nos esquecemos!" A escritora conseguiu fazer o que pretendera, com distino, contribuindo, sim, para a construo da histria de uma cidade muito especial.
Na cidade, que vem de lanar a edio primeira, ano I, volume I, da "Revista da Academia Montes-clarense de Letras", para cujo excelente contedo contriburam as mais vivas expresses das letras de uma regio rica em valores intelectuais, literrios e artsticos.
O volume nasce quando a entidade quase alcana meio sculo de existncia. Valeu a pena esperar por bons frutos. A edio resultado de trabalho conjunto, em que se empenham homens e mulheres que tm senso e sentimento de deveres perante a sociedade, que no sobrevive sem os ideais e os projetos do esprito.
A Academia recebeu o ttulo de "Casa de Yvone Silveira", homenagem mais justa no h. Dona Ivone uma espcie de motor do sodalcio, que a obriga a numerosos compromissos, de que jamais se escusa, em qualquer momento ou ttulo. O velho professor May, da Faculdade de Medicina na Universidade Federal de Montevidu, ensinava a seus alunos que o corao o motor do corpo. E , no permitindo esquecer o elo entre o organismo fsico e o espiritual.
Nas mais de 160 pginas do nmero primeiro, encontra-se o que h de mais culto, mais esprito, mais corao, mais memria, da brava gente mineira, que se estabeleceu numa regio distante das capitais, mais capitalizou para si o projeto de construir uma sociedade. E o fez, com nimo e orgulho, a despeito de adversidades, que vo do desinteresse de administradores pblicos inclemncia dos fenmenos naturais.
A cidade j foi o Arraial de Nossa Senhora da Conceio e So Jos de Formiga, para se transformar em uma das maiores de todo Estado. Soube guardar consigo o mesmo carinho pela terra e a preservao de ideais maiores que se concretizam com o tempo. Isso se deve a homens que atuaram na liderana da economia local, mas tambm aos humildes produtores que expem suas mercadorias nas feiras dos sbados, enquanto suas mulheres vo igreja render graa a Deus pelo pouco de que desfrutam, mas que muito para quem tem f e amor.
Dona Yvone, que prestigiou minha posse na Academia Mineira de Letras, enviou-me exemplar desta histrica edio, com uma bondosa dedicatria e, ainda, com uma referncia muito valiosa minha me, sua amiga, a mulher que me gerou e ainda orienta meus passos.
Desse nmero, participam, alm da presente, grande vultos das letras regionais, sobre temas relevantes. A eles, voltarei.


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Por Web Outros - 18/10/2009 11:43:11
Manoel Hygino dos Santos

A invaso de terras

Os homens do interior, os que dele procedem, parecem ter mais noo de propriedade do que os nascidos e formados nos grandes centros populacionais. Entendo que, para construir algo nos cafunds, nas brenhas, distantes dos poderes centrais, eles enfrentam muito mais dificuldades para construir seu patrimnio.
Da, suponho, o valor que estas pessoas do ao que seu, prpria cidade ou lugarejo em que viram a luz do dia, acompanhando o sacrifcio de seus avs e pais amanho da terra, na formao de pequenos rebanhos, na manuteno de seu transporte, quer um mero cavalo ou mula, ou o carro-de-bois ou a carroa.
Tudo conquistado palmo a palmo, ao preo de muito sacrifcio pessoal e da famlia, sem as bondades que as cidades de maior porte j ostentam ou ostentavam, como energia eltrica, telefone, geladeira, rdio, televiso, computadores, coisas mais recentes. Para se chamar um mdico, em caso de doena, tinha-se de andar lguas no cavalo ou na mula, na esperana de que o doutor lhe seguisse o exemplo.
Em tempos que se distanciam, afirmava-se que os assassinatos naqueles rinces se davam por questo de "barra": barra de saia, barra de ouro e barra de rio, ou seja: quando algum avanava em terra alheia, de que os rios eram delimitadores.
No se admitia que invases se dessem nas fazendas para que os invasores delas ou removesse ou destrusse os bens que nela encontrassem.
Quem habita as capitais no imagina como ofensivo esse crime, como agride o proprietrio da terra ou os ladres de algumas cabeas de gado ou uma plantao de milho, feijo e cana. A terra e sua plantao, a criao, so instrumentos indispensveis ao homem do campo, hoje como no Egito antigo ou na velha Palestina, hoje to sofrida e belicosa, como antes, pelas mesmas razes.
Assim, o que o MST vem fazendo, em vrios estados, uma apropriao indbita e criminosa, em grande parte das vezes. O pior: contando com o apoio de lideranas polticas e com o dinheiro de contribuinte, inclusive daquele que tem a propriedade invadida.
Trata-se de operaes sistemticas, contando com organizao de mestres em invases, que atuam consoante programa de aes bem esquematizadas, dispondo de meios suficientes para sucesso. Foi o que aconteceu, por exemplo, em So Paulo, na fazenda Santo Henrique, entre os dias 28 de setembro e 8 de outubro, no limite dos municpios de Iaras e Lenis Paulistas.
Os militantes desse grupo do Movimento, compreendendo cerca de 350 famlias, invadiram a rea, em que havia milhares de ps de laranja, e destruram com tratores o que tinha frente. Alegavam protestar contra a reforma agrria e decidiram agir por sua conta e risco. Imagine se a moda pega e os cidados deste pas resolverem solucionar seus problemas e explodir suas esperanas perdidas em protestos desse gnero!
Uma operao de pessoas que recebem dinheiro pblico, isto , de que cada brasileiro participante, no o sendo os prprios membros do movimento. No segredo.
O prprio ministro do Desenvolvimento Agrrio, Guilherme Cassel, confirma o repasse de R$ 115 milhes do Governo federal, nos ltimos cinco anos, a entidades do campo, que, segundo a oposio, seriam ligadas ao MST.
Para o ministro, as transferncias de recursos para as entidades rurais objetivam implementar "Aes e polticas pblicas do Governo federal" por meio de convnios e parcerias. Segundo S. Exa., antes da autorizao dos repasses so realizadas anlises tcnicas e exame jurdico das entidades. Ter-se-ia assim agido com esse grupo? A ao em Iaras/Lenis Paulistas se insere entre aquelas "polticas pblicas do Governo federal?"
O ministro da Agricultura Reinhold Stephanes, considera a invaso intolervel, fora da competncia de sua pasta, um "caso de polcia", "no deveria existir". "Acho que o Governo tem que tomar as medidas necessrias por meio de suas instituies".
E assim fica, mais uma vez. E como vai a sempre anunciada e sempre relegada Reforma Agrria?


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Por Web Outros - 14/10/2009 11:11:12
Seguindo a Coluna

Jornal "Hoje em Dia" - Manoel Hygino dos Santos

Eis um batel de bons livros leitura. Nada melhor para concluir o ano e "curtir" o restante da primavera e do possivelmente inclemente calor do Vero que se aproxima. Como, h dias, escrevi sobre "Nos Confins do Serto da Farinha Podre", de Mrio Lara, atrai-me agora um tema antigo, mas no esgotado: a Coluna Prestes.
Drio Teixeira Cotrim, professor universitrio, autor de vrios bons livros, integrante de prestigiosas academias de Letras, membro do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros e de Minas Gerais, publicou "O lao hngaro: Uma estratgia militar bem sucedida", que focaliza o golpe que o antigo oficial do exrcito brasileiro deu nas tropas legalistas que o combatiam no interior do pas naquele remoto fim dos anos 20.
Em primeiro lugar, preciso enfatizar: no se trata apenas de trabalho de pesquisa documental, porque o autor conhece e percorreu grande parte das terras percorridas pelo capito e seus homens. Muito j escreveu sobre a Coluna, chegando-se no raras vezes concluso de que a grande marcha nada resultou de concreto em benefcio do Brasil e de seu povo.
Para se entender melhor o objetivo daqueles milhares de brasileiros que se ergueram contra o governo constitudo, presidido por Artur Bernardes, seria til evocar o pensamento de Juarez Tvora, transcrito no comeo do livro: "A revolta o ltimo dos direitos a que deve um povo livre para salvaguardar os interesses coletivos; mas tambm o mais imperioso dos deveres impostos aos verdadeiros cidados".
Prestes somente se converteria ao comunismo anos aps, quando chegou convico de que a revoluo e o iderio de 1930 no correspondiam aos anseios e s necessidades mais caras do povo brasileiro. Ficou suficientemente clara sua posio em manifesto que ento assinou.
Daniel Antunes Jnior, do IHGMG, em prefcio lana luzes sobre a motivao da campanha, que exigiu de cerca de 900 homens percorrerem o Brasil, durante 647 dias, de 1924 a 1927, em deslocamentos contnuos.
O prefaciador lana perguntas presentes memria dos brasileiros at hoje:
"Mas, afinal, que pretendia mesmo a tenentista Coluna Prestes? Salvar a Ptria? Corrigir as mazelas da vida poltica nacional? Promover, ou propiciar, direta ou indiretamente, o desenvolvimento econmico-social do pas? Melhorar as condies de vida de nosso povo?"
O que conseguiu?
Drio descreve os fatos, os avanos e retrocessos dos homens de Prestes, sua disposio de luta, colhe documentos, consegue fotos de lugares percorridos pelo grupo, o sentimento e pensamento das populaes, como elas se comportavam diante dos revolucionrios e de suas exigncias.
mais, assim, do que o "lao hngaro", uma estratgia que Prestes utilizou para escapar dos contingentes legalistas, em pleno serto.
Algumas verses da "santidade" dos homens de Prestes so desfeitas por depoimentos que somente agora, em parte, se publica.
O Lao Hngaro foi, inegavelmente, um sucesso. "Os homens do Lao, foram submetidos a uma manobra espetacular que desorientava os seus inimigos. Ento, o bravo capito Prestes alvidrou e depois determinou a execuo dessa manobra. Do ponto em que se achava, aproveitando o luar de uma noite enxuta, ele dirigiu os seus comandados para uma regio montanhosa e, numa fuga espetacular, ganhava o mundo". O prprio Prestes conta como foi a operao.
Entre os relatos dos fatos, o de Abdnago Lisboa, de Salinas, pelos quais se percebe como "a criatividade humana chega ao extremo, a descrio destes e daqueles desatinos, com os revoltosos, matando gente e, at jogando crianas para cima e aparando-as nas pontas de punhais".
De qualquer modo, um livro que vale a pena ser conhecido, para apagar ou esclarecer descries inverossmeis sobre os acontecimentos. a serena e necessria busca da verdade, numa deliciosa viagem em grande parte dos 26 mil quilmetros de idas e vindas pelo interior brasileiro, como comenta Wanderlino Arruda.


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Por Web Outros - 2/10/2009 08:12:56
A doce filha do juiz

Jornal "Hoje em Dia" - Manoel Hygino dos Santos

O advogado-trovador de Contagem, Mauro Pereira Cndido, popular na cidade, sugere que eu redija algumas linhas sobre Alberto Deodato e seu romance "A doce filha do juiz". , de fato, uma obra de fico ainda muito lembrada por aqueles que a leram, mesmo no havendo edies novas. Deodato - Alberto Deodato Maia Barreto - nasceu em Maroim, Sergipe, em 1896, e veio para Minas para exercer a profisso, depois de formar-se em Direito pela Faculdade de Cincias Jurdicas e Sociais do Rio de Janeiro, em 1919.
Em Minas, fez carreira, constituiu famlia, exerceu o magistrio na Faculdade de Direito da UFMG, elegeu-se deputado federal, foi um dos fundadores da antiga UDN, assinou o famoso Manifesto dos Mineiros.
Tinha voz potente, era liberal com seus alunos, gostava da boa conversa, da discusso dos temas jurdicos, literrios e polticos.
O professor Drio Teixeira Cotrim, da Unimontes, da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais traz-me subsdios. Deodato foi promotor de Justia em Pouso Alto e na centenria cidade de Rio Pardo de Minas. Publicou, dentre outros, os seguinte livros: "Senzalas", contos, 1919; "Canaviais", contos, 1921, que recebeu o primeiro prmio da Academia Brasileira de Letras"; e o mencionado "A doce filha do juiz", romance, 1929, merecedor de meno honrosa da Academia. No se resumiu a estas criaes. Alm de textos jurdicos, publicou trs peas para teatro: "Flor Tapuia", opereta, 1919, "A penso de Nicota", comdia, 1920; e "Um bacharel em apuros", comdia, 1924.
Considerado belssimo o romance "Adoce filha do juiz" por Drio, ao tratar de minudncias, costumes e tradies do serto, no se confundir a localizao do drama na imaginria cidade de Corutuba, no a So Jos do Gorutuba, que to bem Haroldo Lvio descreve. Haroldo registra So Jos do Gorutuba como povoado centenrio, situado no municpio de Porteirinha, prximo a Janaba, tendo pertencido ao vastssimo municpio de Gro-Mogol. Foi rico distrito produtor de gado bovino e suno, de algodo e cereais, composta sua rea de latifndios de propriedades de antigas famlias do Norte.
A Gorutuba, cenrio do romance de Deodato, fictcia e deve corresponder a Rio Pardo de Minas, no sculo passado, quando Deodato foi promotor na comarca. No seu livro, consta que o Rio Preto corre paralelo a uma ruazinha, onde os tropeiros se arranchavam para descanso. Falavam dos causos acontecidos e das "assombraes do Urucuya, do phantasma da cruz do Ribeiro, das sezes do Jequitahy e da tentao da cabocla brejeira que mora no Rancho, beira de um riacho, pra l da ponte velha, cujos olhos pretos pegam que nem visgo e os beijos sabem a sapoti".
No cheguei a conseguir um exemplar, sequer nos bons sebos. romance que poderia, ou deveria, ser reeditado, agora que o Governo de Minas cuida de faz-lo com a fico de outros importantes autores de Minas ou que fizeram do Estado o seu lar.
O livro de Deodato, como a escrito, foi publicado em 1929, quando eu no era nascido. Mas vou transcrever o que disse o professor da Unimontes, para atender a Mauro Pereira Cndido:
"Descreve o autor a histria da jovem Maria Helena, que tinha "o jambo das faces, na jaboticaba dos olhos e na pitanga da boca".
"Alm da formosura do corpo, junta-lhe a beleza da alma. Lembra-nos a descrio do ilustre acadmico Jos de Alencar sobre a sua doce e bela Iracema, "A virgem dos lbios de mel", que tinha os cabelos mais negros que a asa da grana e mais longos que seu talhe de palmeira".
O drama dos personagens de Deodato, Maria Helena e o jovem Joo Lcio, comoveu os leitores de outrora.
O autor valorizou os encantos da mulher da regio e, com pinceladas as inspiraes telricas em ambientes humlimos, mostrou o que h de melhor na literatura regionalista mineira. O romancista adaptou a linguagem ao tema, sem prejuzo dos fatos narrados.


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Por Web Outros - 24/9/2009 08:15:39
Os tambores ainda ruflam

Jornal "Hoje em Dia - Manoel Hygino dos Santos

Enganam-se os que pensam que agosto passou. H muitos agostos pela frente que, respeitando as tradies de nosso povo, mantero viva uma fonte inesgotvel de amor a tudo que sagrado e mais caro ao corao.
"Festas de Agosto: Fatos, fotos e fitas", de ngela Martins Ferreira, atesta-o de maneira lmpida. Haroldo Lvio, do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, que entende profundamente do tema, a comear porque o ama, tem absoluta razo quando afirma, referindo-se ao livro: "Este bem elaborado documentrio poderia, muito bem, salvar as Festas de Agosto, numa eventual ameaa de extino.
Disse documentrio, mas se o leitor preferir, poder cham-lo de reportagem fotogrfica, memorial descritivo ou lbum, como queira, que o brilho ser o mesmo".
Referendo, se necessrio fosse, em gnero, nmero e grau, o julgamento de Haroldo Lvio. Mas se h de ter cuidado com essa imensido de beleza que existe em tantos lugares de Minas Gerais e se vai arruinando, em nome de um pretenso progresso, do ingresso de novos costumes nas prticas dirias, em grande parte importadas, sem nenhum liame conosco.
Advogado, escritor, pesquisador, homem de bom gosto e sensibilidade, adverte que "d arrepio pensar que esse festival da Cidade das Artes e da Cultura j poderia ter acabado, na voragem do progresso material e do crescimento urbano acelerado". O "celerado", faria eu o reparo.
"Retumbam os tambores em meu peito,/Tremulam as fitas em meu corao./ agosto, ms das festas folclricas! Como num forte chamado, sigo as ondas sonoras que me trazem os ventos para ver de perto a beleza do tradicional desfile", escreve a autora.
Mas, cuidado, sim: nesse mundo frentico, "formidvel", na verdadeira acepo do adjetivo, tudo seria possvel. ngela, assim, faz um convite-intimao para que no nos inclinemos passivamente ao frenesi demolidor.
H iniciativas e vozes em defesa dos bens com tanto sacrifcios construdos ou preservados at agora.
Mas os defensores das melhores causas no podem exaurir-se ou omitir-se. H tramas sendo urdidas, projetos germinando ou se definindo entre aqueles que no nutrem amor ao passado e obra que os ancestrais legaram.
Os tambores de agosto servem de severa advertncia aos que se dispem a destruir aquilo que no ergueram e pelo qual no tm apreo e respeito. Em qualquer cidade, grande ou pequena, valores so simplesmente desprezados e sequer uma cruz se afixa ao solo para dizer que ali houve vida, calor humano.
As cidades deixam-se invadir por ideia aliengenas, movidas principalmente pela voracidade financeira ou por vos projetos de originalidade, que antes de tudo descaracteriza a comunidade.
Em minha terra, eliminou-se o prdio do velho Mercado Municipal, um marco na arquitetura local e nos costumes da regio.
Foi o ponto de encontro de produtores rurais, sobretudo os pequenos, que para ali levavam venda o que plantavam ou criavam, para dividi-los com sociedade. Era um espetculo eminentemente democrtico, unindo ricos e pobres, em torno dos pequenos bens que os ajudavam aos homens da roa a viver.
A feira dos sbados constitua a festa que atraa os humildes para o encontro semanal, possibilitadora das compras no comrcio local, da visita aos templos, de reencontro de pessoas e famlias. Mas em nome do progresso, tudo cessou e o antigo relgio que marcou as horas de geraes no mais toca para advertir que o tempo no para.
Velhos casares desapareceram do panorama urbano, como o Mercado, como o Colgio Diocesano. Mais recentemente, surgiu a ideia estulta de se extinguir a Praa de Esportes, em que se forjaram geraes de atletas e de jovens saudveis. Pior em tudo que h aqueles que apoiam os planos demolidores. Jornalista local, estarrecido, pergunta: "Quem nos acudir? Todos so convocados grave deciso.


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Por Web Outros - 22/9/2009 07:44:29
Nossos infortnios

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Medito. Sobre fatos e nmeros. No segundo dia de setembro ainda no primaveril, li a estatstica da gripe suna. No fica bem a denominao. Influenza A1N1 cai melhor.
E at aquela data, segundo dados da Secretaria de Estado de Sade, subira para 22 o nmero de mortos pela enfermidade em Minas.
Em contraposio, em minha querida cidade natal, at ento, neste ano, se tinham registrado de 49 homicdios.
Em um deles, como acontece mui comumente, a vtima e o assassino eram jovens. Aquela, comerciante, 21 anos; o segundo ex-presidirio, 22 anos, desocupado.
So problemas graves, que o brasileiro sente e continuar sentindo, porque no so de fcil e definitiva soluo. Para ambos, poder-se-ia admitir o que declarou o mdico Nilton Cavalcante, do Instituto Emlio Ribas, de So Paulo, ao registrar que a gripe suna ir circular por muito tempo no Brasil. E a violncia tambm, digo.
As medidas finalmente tomadas pelo poder pblico nos dois casos daro resultado.
As ocorrncias devem diminuir (as da suna), depois voltam a aumentar, e ns teremos que aprender a "lidar com a doena". Eu passaria ao plural a palavra final.
Vejamos o seguinte: Os casos do H1N1 esto aumentando entre crianas com idades de 5 a 14 anos, j representando 12% dos infectados no Brasil.
So grupos mais suscetveis nova gripe do que a sazonal. Tambm quanto violncia, o fenmeno se repete, embora eu no tenha mo, agora, estatsticas.
A doena, o crime, a inflao, a corrupo exigem eterna vigilncia. Eles esto latentes em todas as sociedades, no permitindo que se descure. A profilaxia o melhor remdio, mas no pode abandonar a teraputica.
A leitura dos jornais leva concluso de que esses temas se incluem entre os que mais interessam sociedade, ela hoje com mais conscincia de deveres e de direitos.
A luta contra esses males h de ser mantida, para que eles no se agravem, por aprofundamento e ampliao.
Procuro dar uma sntese do que acontece. No que tange suna, a diretora da Organizao Mundial de Sade, Margaret Chan, afirma que 60% das mortes so em pessoas com problema de sade, e os 40% restantes correspondem a jovens adultos saudveis.
Observa: "Este vrus viaja em uma velocidade incrvel, indita. Em seis semana, percorreu a mesma distncia que outros vrus em seis meses".
No Brasil, em que se acomoda rapidamente s circunstncias, v-se que as pessoas no temem mais a H1N1 como nos primeiros dias. Constitui um grave erro. Agora mesmo, mdicos relatam uma forma severa da gripe suna, que vai direto aos pulmes, causando doena grave e exigindo tratamento hospitalar de alto custo.
O alerta srio. No Brasil, j temos problemas demais, e srios, na rea de sade. No se permitir que a acomodao nos leve a novos impactos neste campo.
A prpria OMS registrou, h pouco, que alguns pases apresentam 15% de pacientes infectados e que precisam de cuidado hospitalar.
"So vidas que dependem de cuidado altamente especializado em unidades de tratamento intensivo, em geral com permanncias longas e caras". Ns sabemos o drama que so os CTIs no Brasil, seu alto custo em equipamentos e manuteno.
J se falou em gripe e violncia, tocou-se de leve em inflao e corrupo. Mas, nesta hora de euforia com relao economia, h de atentar-se tambm, porque j se trata euforicamente o assunto. A depresso terminou, dizem autoridades, que antes afirmavam que ela inexistia. Pois bem.
O antigo presidente do "Federal Reserve", o Banco Central dos Estados Unidos, Alan Greenspan, j anunciou que o mundo sofrer outra crise financeira. Ela vir como uma reao a um longo perodo de prosperidade. indispensvel alertar.
No h felicidade para sempre. Pelo contrrio, ela costuma ser curta. H muito, porm, a se fazer para que os males no ocorram ou no sejam duradouros.


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Por Web Outros - 21/9/2009 07:54:26
Uma ponte com a Europa

Jornal "Hoje em Dia" - Manoel Hygino dos Santos

Foram apenas quatro. O nmero de cidados nascidos na Bulgria que conheci at hoje. Se passou disso, houve algum lapso na memria. Dos que guardo lembrana muito vvida, apenas um remanesce, meio blgaro, bastante brasileiro. O sobrevivente Konstantin Chirstoff, nascido em Stratitzia, em 1923, filho de Christo Raeff Nedekoff e Rossa Christova. Veio para o Brasil em 1928, para exercer o ofcio de horticultor, em Montes Claros. Em 1933, Rossa, dona Rosa, e os filhos se transferiram para a cidade norte-mineira, onde os rapazitos fizeram o curso ginasial.
Rayu, o primognito, fez Engenharia Qumica Industrial em Belo Horizonte. O segundo, Konstantin, se formou em Medicina na UFMG, conviveu com grandes mdicos e artistas plsticos. Tornou-se, no retorno, chefe do Servio de Cirurgia da Santa Casa de Montes Claros, participando da criao da Faculdade de Medicina da cidade, depois titular da cadeira de Tcnica Cirrgica. Mas no vou agarrar-me s reminiscncias. Consagrado como mdico, consagrou-se tambm como pintor, dos maiores que o hemisfrio tem presentemente. Suas mostras atraem plateias do Brasil e fora dele. Ficou como nico blgaro que ora conheo, pois Rayu morreu prematura e dramaticamente. Se so poucos os blgaros que chegam at ns, e a recproca poderia ser verdadeira. Mas no tanto assim. Tanto que acaba de ser publicado, em Sfia, a antologia potica "Lua da Fonte/ Elegia de Varna", do carangolense Anderson Braga Horta. O volume contou com seleo, prlogo e traduo para o blgaro de Rumem Stoyanov.
A edio, bilngue, a cargo da editora Ogledalo, sediada na capital blgara, contou com apoio do Ministrio das Relaes Exteriores do Brasil e da Embaixada em Sfia. Devem-se as capas e ilustraes a Montehil Stoyanov, arquiteto e artista plstico daquela nacionalidade, residente em So Paulo. No prefcio, o tradutor, nascido em 1934, ressalta que Anderson Braga Horta o brasileiro que mais tem feito pela divulgao da literatura daquele pas nesta parte sul-americana do mundo.
Trata-se de um fato relevante, por motivos vrios: o primeiro livro traduzido do blgaro ao portugus, sem intermediao de outro idioma, foi a antologia "Observatrio", de Liubomir Levtchev, faanha de Anderson, que se incumbiu tambm de redigir o prlogo "Uma Janela para a Poesia Blgara", com seleo e traduo de Rumen. Aconteceu em 1975, na capital paulista. Quase trs dcadas aps, em Braslia, saram os "Contos de Tenetz", em 2004, de Yordan Raditchkov. Stoyanov recorda que, em 2005, quando o presidente Gueorgui Parvanov esteve no Brasil, em visita oficial, ele apresentou a obra durante um recepo na embaixada daquele pas, Anderson o saudou pelo liame que se estabelecia. Um exemplar foi oferecido pelo visitante ao colega do Brasil, Lula da Silva. O fato no ficou isolado: "Contos de Tenetz" mereceu resenhas em revistas, jornais, suplementos literrios e culturais, pginas na Internet, cartas, tudo demonstrando que portas se abriam ao mais amplo relacionamento entre duas naes, que - se distantes geograficamente - podem viver mais perto nos coraes. Stoyanov sublinha que, poeta de pai e me (o que absolutamente verdadeiro, ambos mineiros), Anderson foi o primeiro brasileiro a participar dos Encontros Internacionais de Escritores em Sfia. Sua atividade de poeta, ensasta, contista, crtico literrio e tradutor lhe valeu numerosos e importantes prmios. O escritor blgaro acrescenta: "A partir de 1972, Anderson Braga Horta toma parte da comunicao blgaro-brasileira, e a edio de sua poesia na Bulgria uma homenagem, ainda que modesta, pelo que fez. Sua poesia contida, densa, contando com a sinceridade, a concentrao, a fora ntima, e no com ostentao, fogos artificiais verbais e truques exteriores". A poesia de Anderson e a pintura de Konstantin fazem uma ponte entre suas naes que podem ter feliz convivncia.


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Por Web Outros - 1/9/2009 10:29:45
Pode ser rendeno

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Ser redeno? O Norte do Estado sempre lutou por um lugar na vida econmica do Estado e do pas mais claro, mais seguro. No diria que seria um lugar ao sol, porque sol o que no falta na grande regio, que at j se sentiu indignada a separar-se do restante territrio, to pouca a ateno dos polticos s suas reivindicaes e necessidades.
Agora parece que, principalmente pela fora da natureza, as coisas comeam a acontecer. A natureza prdiga, ou Deus, como se quiser. A verdade que riquezas havia no serto abandonado pelos poderes pblicos, que somente agora so ou sero postas a servio do homem e da ptria.
O Norte poder ser um precioso instrumento de desenvolvimento regional com a utilizao das reservas de gs na Bacia do So Francisco. Durante dcadas, as pessoas viram o gs supitar da profundeza da terra, soltando fumaa, servindo para aquecer as panelas dos alimentos dos tropeiros. As autoridades faziam de conta que nada sabiam, como certas testemunhas de crimes tornados pblicos.
Graas evidncia centenria, ao esforo de alguns e sua tenacidade, finalmente se acordou para a possibilidade de aproveitamento econmico do gs, com poos j sendo perfurados. Ser mesmo que h gs economicamente vivel? Indagam os incrus. A primeira coisa que se teria e fazer era pesquisa, e finalmente agora o trabalho tem incio.
Mas no s. Se as Minas eram gerais, por que no atingiam o Norte? Ouro e pedras preciosas fizeram a grandeza e apangio de cidades histricas. Mas havia mais a explorar, no cingida aos limites do Quadriltero Ferrfero. Ser que Deus ou a natureza teria feito uma perniciosa distribuio de minerais, privilegiando alguns? A resposta a est.
Tefilo Otoni considerada a capital das pedras preciosas. H cidades com nomes de Turmalina e Pedra Azul, e Diamantina fica no Alto Jequitinhonha. H Minas Novas, cujo topnimo autoexplicvel.
Cuida-se, ainda, de construo de um complexo industrial de minerao. Contar com mina, usina, ferrovia ou mineroduto e de conseguir porto martimo, tudo com capacidade de gerao de cinco a dez mil postos de trabalho.
A regio, ao longo do tempo, dedicou-se agropecuria. Assim seu povo se manteve e sobreviveu durante sculos. Logo, ganhar novas formas e melhores condies de vida. Um Consrcio Corporativo, que recebeu o nome de Novo Horizonte, pretende beneficiar o minrio proveniente de uma reserva, com rea equivalente a um tero do municpio de Belo Horizonte. A produo estimada em 10 bilhes de toneladas, estando localizada em vinte municpios, entre os quais Salinas, Rio Pardo de Minas, Gro Mogol, Porteirinha e Nova Aurora.
A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Econmico quer apoiar projetos de infraestrutura, elaborar projetos de planejamento logstico, e atrair investimento internacionais dos setores de tecnologia e equipamentos para minerao. um plano ambicioso, to grande quanto as necessidades por que passaram e passam as populaes da regio, ainda to carente do interesse e presena do poder pblico de ferro. As jazidas de ferro identificadas se colocam como das maiores do mundo. O fato de o teor de ferro estar abaixo do minrio do Quadriltero, no diminui a importncia dessa riqueza. Por enquanto, tudo plano, mas assim que se comea. Nada nasce feito e o essencial que haja efetivamente vontade, para atender aos reclamos da gente trabalhadora do Norte do Estado, Mucuri, Rio Doce e Jequitinhonha.
As reservas minerais, cinco vezes maiores do que as de Carajs, podem ser a redeno. E dela necessitamos, mais do que nunca, antes que a populao continue se transferindo para as grandes centros brasileiros, onde esperam encontrar Cana e se decepcionam.


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Por Web Outros - 23/8/2009 11:44:38
A voz que se cala

Manoel Hygino (Hoje em Dia)

Preferiria que algum mais habilitado ao comentrio o fizesse, hoje. Sugeriria que Roberto Elsio, que tem alma de poeta; ou Antnio Tibrcio, se ainda entre ns se encontrasse, ambos de Santa Luzia; mesmo o luziense Jos Bento Teixeira de Salles, com igual sopro de nostalgia quando trata de tema que tanto toca o corao.
que, segundo Raquel Chaves (oh, estes Chaves!) em 13 de agosto - agosto, treze -, Montes Claros perdeu, no comeo da tarde, a bela voz de Nivaldo Maciel, o seu ltimo grande seresteiro. Foi fazendeiro, vereador em dois mandatos, mas a sua grande marca foi a voz, que encantou geraes de norte-mineiros.
Raquel (eu gosto de citar nomes e sentimentos) observou que a cidade viu partir um dos seus grandes cidados. O Grupo de Serestas Joo Chaves lamentava partir mais uma voz de rouxinol. Nivaldo foi ao encontro dos amigos seresteiros, Hermes de Paula, Raymundo Chaves, Gilberto Cmara, Lus Procpio, Adlia Miranda, Ducho, Virglio de Paula, Beto Viriato, Tel, Joo Chaves, o irmo Benedito, e tantos outros amantes da boa seresta. Ouvi, alguma vez, Nivaldo. Alguma vez (ou me engano?) identifiquei-o nas proximidades de onde resido em Belo Horizonte, no Bairro do Cruzeiro. Mas, o que vai definhando, mais que o cidado, um estilo de vida, um modo de encar-la e s circunstncias, uma expresso musical, porque - a cada dia - os cantores de belas msicas de amor, na morna noite de extensas regies do Brasil.
No sei exatamente porque, mas a fama de serestas ficou atribuda s cidades histricas do circuito do ouro: Diamantina, por exemplo; ou So Joo del Rei. Mas a modinha estava enclausurada no mais ntimo dos bomios que h em cada ser humano, a pelos sertes adentro.
Nlson Vianna, escritor de mrito, engenheiro formado pela tradicional Escola de Ouro Preto, culto, nasceu em Curvelo, mas adotou a minha terra natal como tambm sua. De volta de uma viagem de servio, a cavalo, noite, conta o sentimento em que foi envolvido no regresso. No escapo ao desejo de transcrever-lhe trecho do depoimento:
Quando penetro afinal pelas ruas quase desertas, atento em um ou outro transeunte retardado que apressa os passos para recolher-se a penates. Ah, a quietude desoladora, o silncio impressionante de uma povoao adormecida!...
Mas, no! Chegam-me aos ouvidos sons distantes e harmoniosos de flauta e de violes, vindos de um ponto qualquer que no posso localizar com preciso, mas de que me aproximo, medida que sigo o meu caminho...
Retenho os passos da alimria e observo, a pouca distncia, debaixo de uma rvore, meia dzia de seresteiros absorvidos na afinao de seus instrumentos. Contemplo-os com simpatia, quase com ternura - afinal, so almas sonhadoras, gmeas da minha - e vou-me afastando lentamente, levado ao capricho do passo vagaroso do animal cansado.
E j entrando na rua do Bate-Ouro, onde fica a penso em que moro, comeo a ouvir a voz bonita, quente e profundamente sentimental do inveterado bomio Jos de Si Deca, quebrando o silncio da noite enluarada, gemendo as suas penas, cantando a velha e terna modinha que tantos olhos formosos umedeceu, e fez palpitar o corao de tantas e tantas jovens apaixonadas: a ti, flor do cu, que me refiro, /neste treno de amor, nesta cano...
A cidade uma das capitais da seresta, este gnero que se vai perdendo na obscuridade do tempo inclemente. No nascem mais seresteiros como outrora, restando ali, porm, ainda resistncia admirveis como a do Grupo de Serestas Joo Chaves, aos cuidados generosos de Lola. Ela, filha do famoso jurista, compositor e instrumentista Joo Chaves e Maria das Mercs, d continuao tradio de bom gosto e sensibilidade que a moderna e rude poca que vivemos e vai esmaecendo. Mas nem tudo morre. O escritor Haroldo Lvio recorda que, conforme a tradio, quando se completou uma semana do falecimento do bomio Silva Reis, um bando de seresteiros aos acordes de flauta e bandolim, cantou beira de sua sepultura, enternecedoras msicas que ele amava.


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Por Web Outros - 16/8/2009 12:06:46
Os dois imortais

Manoel Hygino (Hoje em Dia)

Quando pronuncio o nome de Hernani Fittipaldi, geralmente a primeira pergunta : parente do merson, o campeo mundial de Frmula 1?. E , o Hernani seu tio, gacho, nascido nas barrancas do Rio Uruguai, na fronteira com Argentina.
Hernani ingressou na Aeronutica, foi piloto e ajudante-de-ordens de Getlio Vargas, presidente da Repblica, acompanhando-o at o desfecho trgico. autor de Histrias do piloto e ajudante-de-ordens de Getlio Vargas, publicado pela TV Mais, em 2007.
O piloto da Aeronutica, em 1952, j estava com Vargas no Catete para este cumprir seu mandato presidencial. Ao final de audincia com o ministro das Relaes Exteriores, Joo Neves da Fontora, Getlio, ao receber um livro de presente, afirmou:
Eu gosto de receber livros, especialmente deste jovem talentoso. O nome ainda ser famoso.
O militar pegou o livro a que o presidente se referia e leu a dedicatria: A Getlio Vargas, com sincera admirao e profundo respeito, oferece J. Guimares Rosa, Rio, 1952.
Nome do livro: Com o Vaqueiro Mariano. Edio Hipocampo, Niteri. Pela originalidade na forma e contedo que escolhera os sertes, o homem, os falares e deveres, Getlio previa sucesso crescente na carreira literria de Rosa, se perseverasse na trilha, mais um estrela das letras do qual de tornaria admirador e por quem sempre perguntava, isto no incio de carreira do escritor mineiro. Anos mais tarde, Rosa seria eleito para a Academia Brasileira de Letras, tornando-se confrade de Getlio, empossado na Casa de Machado de Assis, falecendo dois dias aps a solenidade.
Manuelzo ficou mais tempo que o companheiro de andanas pelo serto. Napoleo Valadares, homem do Urucuia, escritor da mais alta competncia e do melhor agrado, lembrou os fatos. Comentou: Parece que a indesejada das gentes est solta contra os personagens de Guimares Rosa. Advertiu: Espere a, dona indesejada. Deixe ainda com a gente o Bindoia e o Zito, ali em Andrequic, quietos.
Deixe os ltimos vaqueiros de Rosa. Ele ainda tm muita coisa para contar daquela viagem que fizeram da fazenda Sirga para a fazenda So Francisco. Podem at esticar um pouco a histria da mula Balalaica, chegando mais perto do Burrinho Pedrs.
As coisas que poderiam ser descritas sobre Rosa e seus personagens-companheiros de jornada talvez j tenham sido transmitidas. Tudo vira passado, o tempo impiedoso e infatigvel. S de formatura, o escritor, que foi colega de Juscelino na Faculdade de Medicina, so transcorridos 92 anos. A turma foi de 1927, composta por jovens ilustres.
As gentes de minha terra, que adoram Rosa e o estudam com devoo, e o leem e o admiram, no tm o que contar sobre o predestinado autor de Cordisburgo, que tanto falou em Montes Claros, at porque a cidade, por sua significao, no poderia ficar ignorada.
Rosa no teve maiores contatos com montes-clarenses, sequer teria estado na cidade, segundo Haroldo Lvio e outros historiadores locais e da regio. O prprio Haroldo descobriu uma pista, quando uma equipe da TV Globo esteve ali para estudar filmagens do seriado Diadorim.
Mas o grande autor no visitou a cidade, apenas por ela passou, alguns minutos, pelo trem da Central do Brasil, ferrovia que ligava extensas regies de Minas. Ele ia para Janaba e no tinha jeito seno transp-la. O escritor estava acompanhado de Manuelzo.
O personagem do romancista, contou a Walter Avancini, diretor do projeto da televiso, que Rosa no desceu sequer para tomar um cafezinho na estao, na gare que recebera Melo Viana em 1930, na famosa emboscada de bugres, aludida por Assis Chateaubriand.
Parece que tudo est virando pretrito, definitivamente.


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Por Web Outros - 1/8/2009 11:35:06
Com o p na lua

Manoel Hygino (Hoje em Dia)

Aconteceu em julho, os jornais do mundo j lembraram. Em 24 do stimo ms do ano, em 1969, trs astronautas americanos regressaram, com segurana, Terra, depois da sempre sonhada viagem ao nosso satlite.
L, deixaram instrumentos cientficos, uma bandeira dos Estados Unidos, e uma placa com suas assinaturas, a do presidente Nixon e uma curta mensagem: Aqui os homens do planeta Terra pisaram pela primeira vez na Lua. Julho de 1969. Viemos em paz, em nome de toda a humanidade.
Bela mensagem, insofismavelmente! Pena que outras mensagens de Tio Sam no tenham sido afixadas em muitos pases da Terra, com idntico voto e augrio. Em todo caso, mesmo com as restries de homens livres e naes pobres do planeta em que vivemos, os sditos de Tio Sam deram prova suficiente de sua grandeza tecnolgica e da riqueza material capaz de conduzir o ser humano a um satlite.
A descoberta, ou melhor, o desembarque de Neil Armstrong, na Lua, o primeiro terrqueo que l desceu, contribuiu para arrefecer a poesia dos amantes, dos namorados e dos bomios. E dos poetas, antes de todos ou com todos.
No sem razo Camilo Castelo Branco classificou o poeta como o amante da noite, da solido, da Lua, das estrelas do mar. Os sonhadores, e os poetas especialmente o so, amam a Lua e o luar, vivendo como por c se diz, no mundo da Lua. Embora no aprecie, pudico talvez que seja, indago sobre a afirmativa de que os que tm sorte, nasceram com os fundilhos para a Lua. Por qu? No sei explicar.
As viagens humanas aos planetas e satlites vo desfazendo mitos e supersties seculares, milenares. Mas o bom da vida o mistrio, a descoberta contnua do desconhecido. De velhos tempos resta muito de belo no corao e nas lembranas. Para o bomio, a Lua ainda merece ser cantada. Para o homem simples do interior, ainda h interesse em olhar o satlite em noites esplendorosas, tentando nela identificar a figura de So Jorge, montado sem eu ginete, no enfrentamento do drago feroz. O mesmo santo que, em estampas coloridas, se via dependurado nas paredes dos bordis.
Cronista de Montes Claros, que se esconde no pseudnimo de Teixeira, observa que na regio o frio mais intenso em julho, superando o de junho, o ms das fogueiras. Agora que agosto chegou com o advento triunfal das Festas, que so gudio do serto mineiro e seu orgulho, identificam-se os ventos, permitindo voltar o que l se chama arara, e no pipa, expresso paulista.
A comemorao dos 40 anos do desembarque e passeio do primeiro do primeiro humano Lua j registro histrico. O homem avana pelo espao em busca do meio ambiente que aqui se degradou e de bens materiais que nos faltam ou c jamais existiram.
Edwin Buzz Aldrin, um dos cidados americanos que foram Lua com Neil Armstrong, apelou ao Congresso e ao povo de seu pas para que recordem a misso Apollo 11 e a usem como fonte de inspirao para ir a Marte:
Estados Unidos, vocs ainda tm um sonho? Vocs ainda acreditam em si mesmo? Peo futura gerao e a nossos dirigentes polticos que deem esta resposta: sim, podemos.
Armstrong, o pioneiro a pisar o solo lunar, qualificou a misso de que participou como uma competio pacfica entre EUA e Unio Sovitica: Ela permitiu que os dois lados tomassem um caminho elevado, voltado para a cincia, o conhecimento e a explorao. Aparentemente, no identificou razes maiores para o grande conquista espacial.
Aldrin comentou seus primeiros passos no satlite: Um lugar to desolado, to completamente sem vida. Provavelmente no tenha mudado muito nos ltimos 100 mil anos. E o homem, na Terra, ter mudado para melhor?
Disse o cronista que, naquele j remoto 20 de julho de 1969, a cincia ou a voracidade das naes poderosas tomou a Lua dos namorados. preciso retom-la urgente.
Recordemos Chiquinha Gonzaga na velha Repblica, em valsa memorvel: ! Lua branca de fulgores e de encanto, / se verdade que ao amor tu ds abrigo/ vem tirar dos olhos meus, pranto/ Ai, vem matar essa paixo que anda comigo...


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Por Web Outros - 17/7/2009 10:19:43
A suna e a espanhola

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Ainda que o bom senso prevalea, resta o non sense das palavras. Houve crise econmica, e no samos inteiramente dela, ns e os demais pases do primeiro mundo e os emergentes; h o risco da influenza AI N1, a famigerada gripe apelidada de suna. Toda a sociedade tem de precatar-se para evitar males maiores. Felizmente, existem neste pas, hoje como outrora, pessoas que cuidam de zelar pelo bem pblico. Caso contrrio...
A Argentina foi, ou , das naes que mais sofreram com o vrus da influenza. Cuidadosas e rigorosas medidas se adotaram, porque imprescindveis. Nas outras naes, igualmente aconteceu. Aqui, o mesmo se deu, para que a omisso no levasse muitos milhares de pessoas aos hospitais ou aos cemitrios. Aureliano usava a expresso tapar o sol com a peneira. Tinha razo. No adianta esconder. Tanto havia risco da suna que a Secretaria do Estado da Sade, em 1 de julho, previa que, em trs meses, 10% da populao de Minas - ou seja, 1,9 milho de pessoas - poderia estar contaminada. Se isso ocorrer, subir para o nvel 3, ltima fase do plano estadual de enfrentamento da doena. quela altura, em Minas, havia 90 casos confirmados da doena e 680 em todo o pas. As cidades-polo do Estado funcionaro como barreira biolgica contra o vrus. Foi o que se anunciou.
Em princpio de julho, a Argentina tinha 100 mil infectados pela gripe, que matara 44. Quem o disse foi o ministro da Sade, Juan Manzur, que - mesmo no acreditando possivelmente em bruxas - cuida de proteger a populao contra elas.
Disse acima: em Minas, no dia 1 deste stimo ms, somavam 90 casos de infectados, quando energmenos diziam no haver perigo. Pois no dia 7, mais 20 novos casos se registraram, enquanto em todo o Brasil, o nmero totalizava 905.
Mesmo com o desmentido inicial sobre gripe suna, no dia 28 de junho foi registrada a primeira vtima em Passo Fundo, no Rio Grande do Sul. Foi sepultado morto, para que no pairem dvidas, um caminhoneiro, em sua cidade natal, Erechim. Tinha 29 anos, era homem sadio, e estivera na Argentina a trabalho. Cinco da famlia estavam infectados.
Enquanto a mais alta autoridade do pas declarava que a gripe era uma balela, o ministro da Sade, dentro da realidade, com sua grave responsabilidade com a nao que o acolheu (ele portugus de nascimento), fez o que devia e est sendo feito.
Ora, o Brasil um pas perigoso, de gente se deslocando de um lugar a outro incessantemente, inclusive em busca de emprego. Para as autoridades sanitrias, a suna semelhante ao vrus da gripe comum, variando de 0,3% a 0,4%. O Brasil j est em 0,16%.
Caio Rosenthal, do Hospital Emlio Ribas, referncia no Brasil, lembrou que o tratamento da pneumonia causada por vrus - no caso, a influenza -, mais difcil do que o pela influenza por bactria. Foi muito claro.
Existem casos de morte por gripe comum pura e simples. um capricho da biologia. Os fatores de risco aumentam as probabilidades, disse a infectologista Maria Cludia Almeida, do Hospital das Clnicas de So Paulo. Ora, somos um povo mal nutrido, com milhes quase ao nvel da pobreza, desprovidos de assistncia mdica adequada na hora necessria.
Te esconjuro!
Os veculos de comunicao seguiram em sua interminvel rotina, relacionando os casos de gripe suna que se registravam cotidianamente. Cumprem sua misso e no omitem. Quando jogadores e torcedores procedentes de La Plata, Argentina, chegaram para o jogo final da Libertadores da Amrica, no Mineiro, as autoridades sanitrias tomaram as indispensveis precaues contra a influenza. Ainda assim, aumentavam a contaminao no pas e crescia o nmero de mortos. Claro que imensamente menor do que a espanhola. Enfim, a cincia evoluiu.


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Por Web Outros - 14/7/2009 08:01:07
O gs tambm nosso

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Tem sido uma longa luta para responder ao apelo do subsolo. H dcadas e dcadas, sculos, fluem gases que servem para os viajantes por distantes paragens do territrio mineiro aquecerem suas panelas e cozinharem sua comida simples ou fizerem seu caf.
Da Terra vem o grito: tirem-me daqui, libertem-me. Mas o homem, descuidado e sem interesse, preferiu considerar o fenmeno como mera curiosidade. Um dos pontos mais populares foi apelidado de Ribeiro do Fogo, e a denominao diz tudo. Aps ingentes e contnuos apelos da coletividade, apoiada pela imprensa, de que este jornal exemplo e o seu escriba veiculador de apelo, as autoridades se inclinaram s evidncias. Um consrcio comear a perfurar, em setembro, o primeiro poo de gs natural na Bacia do Rio So Francisco, no Norte de Minas.
Este princpio ser no Bloco 132, a Oeste da represa de Trs Marias, com investimento de R$ 10 milhes. O anncio se fez em Pirapora, por Srgio Barroso, secretrio de Estado do Desenvolvimento Econmico. No ms que vem, estar definida a localizao exata da primeira perfurao: em Morada Nova, Biquinhas ou Paineiras.
As reservas de gs natural da Bacia do So Francisco foram objeto de debate, no primeiro dia deste ms, no Centro de Convenes de Pirapora, por ocasio da Audincia Pblica ali realizada, solicitada pela Comisso de Minas e Energia da Assembleia Legislativa, presidida pelo deputado Gil Pereira.
As mais altas autoridades do setor l se encontravam, recepcionadas pelo presidente do Legislativo de Minas, Alberto Pinto Coelho, e pelo prefeito Warmillon Fonseca Braga. Fao o registro. Tambm l compareceram Haroldo Lima, presidente da Agncia Nacional de Petrleo; Bernardo Ariston, presidente da Comisso de Minas e Energia da Cmara dos Deputados; Svio Souza Cruz, presidente da Comisso de Minas e Energia da Assembleia, tendo o presidente da ANP feito uma exposio sobre as potencialidades das jazidas de gs e agilitao (com t a grafia correta da palavra) para sua explorao.
Debatedores: Jos Srgio Gabrielli, presidente da Petrobrs; Djalma Bastos de Morais, presidente da Cemig; Jos Carlos de Mattos, presidente da Gasmig; Robson Braga de Andrade, presidente da Fiemg; Oswaldo Borges da Costa Filho, presidente da Codemig; e Ricardo Vinhas Corra da Silva, Levnio da Cunha Castilho, Vasco Dias e Petrnio Zica, presidentes das empresas que participaro da explorao em 128 mil quilmetros, divididos em 43 blocos. Encontrar gs e comercializ-lo somente uma parte da questo. O mais importante, o fundamental, definir se o Estado ser efetivamente potncia na explorao do produto, resultando na redeno econmica de municpios do Alto Paranaba, Noroeste e Norte de Minas.
um passo importante, que j deveria ter-se dado h muito tempo, contribuindo para amenizar a situao de pobreza de extensas reas dos territrios de Minas Gerais. Demorou, demorou demais, mas pior seria se tudo permanecesse estagnado.
A geloga Eliane Pettersohon, da ANP, adverte que os estudos ainda no indicam o total da jazida no Norte de Minas, como alis j se sabia. No entanto, ela prpria observa que h indicativos de que possa ser explorada comercialmente. Com isso, reduzir-se-ia nossa dependncia do produto boliviano.
Um coisa certa: at 2010, todas as empresas vencedoras dos lotes devero comear a perfurao dos poos, o que constitui uma grande esperana e um excelente alento a muitos milhares de pessoas que habitam a regio, mantida at aqui refm de promessas no cumpridas. Nesta hora, lembro: Quando um certo tcnico norte-americano esteve no Brasil, h muitos anos, atestou publicamente que neste pas no havia petrleo. Hoje, v-se que no era verdade. Mr. Link, provavelmente a servio de poderosos grupos internacionais, no convinha achar hidrocarboneto por aqui. Finalmente, a vez do gs, pelo qual o engenheiro Levnio Castilho, barranqueiro de Januria, batia-se tenazmente, h anos. Nunca se deve perder a esperana, pois o nosso povo merece melhor sorte.


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Por Web Outros - 12/7/2009 16:12:51
A mquina do crime

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Viver perigoso, dizia Joo Guimares Rosa, que conhecia os riscos nos caminhos da existncia. Haja vista que, voltando da cidade de Juramento, regio percorrida por Ferno Dias e sua gente em lombo de bestas, um rapaz de 22 anos, dirigindo seu carro, avistou um quebra-molas na rodovia.
Tentou frear, o veculo colidiu com um monte de terra, saiu da estrada, o rapaz se feriu gravemente. Um dos dois passageiros, salva-vidas americano, experiente, tentou salvar a vtima. Prestou ajuda, acompanhando as dores e a agonia.
Braos ao alto, sinais de pedidos de socorro a viaturas que por ali circulavam. Ningum atendeu. Os que transitavam tinham medo de assalto. A ajuda chegou tarde.
Fatos como este se registram todos os dias. O brasileiro teme ir rua, ver os filhos se deslocando at os educandrios, assistir a partidas esportivas nos estdios, receber o salrio nos estabelecimentos bancrios, entrar nas filas para qualquer propsito, porque no h mais tranquilidade e confiana. Est-se sob permanente risco, inclusive de perder a vida.
As famlias vivem mais cercadas presentemente do que os criminosos nos presdios e penitencirias. Trancam-se em casa, vendo o tempo passar, ao aguardar os filhos que foram s aulas, durante o dia ou durante a noite. Ou aqueles que simplesmente esperam gozar apenas o direito de ir e vir, que elementar. Teme-se at oferecer ajuda aos que necessitam, como no caso mencionado.
Carradas de razes tm as autoridades de cidades que decidiram pelo toque de recolher para menores de 16 anos, desacompanhados de pais e parentes.
Retrocede-se no tempo, pois em Belo Horizonte nos anos 40, os adolescentes eram proibidos de circular pelas ruas depois de 10 horas da noite, embora fosse uma providncia simplesmente de proteo. Hoje, a causa o perigo de assalto agresso ou morte.
Em junho, Patos de Minas adotou a medida. Menores tm de voltar para casa at 23 horas, por deciso da Justia, mas atendendo a pedidos dos prprios pais.
Visou-se reduzir os casos de trfico de drogas e brigas envolvendo menores. A cidade de Arcos j segue o sistema, o mesmo acontece em Pompu. Em municpios da Bahia, trs, So Paulo, cinco, aderiram ao toque de recolher.
Difcil compreender como a sociedade custou a descobrir a droga e sentir-se agredida, a cada dia e hora, minuto a minuto pela terrvel mal.
Apenas tardiamente, quando se praticara um verdadeiro e ainda inacabado-genocdio, percebeu-se a tragdia, percorrendo as ruas, invadindo os lares, violentando exatamente adolescentes e jovens, o alicerce de uma nao.
A droga adentrara todos lugares, as vias pblicas, os lares, ingressava, sub-repticiamente quase sempre, porque os agentes do crime so cuidadosos em sua desumana atividade.
Uma atividade que no termina nos presdio, porque as quadrilhas organizadas empresarialmente, continuam assaltando a sociedade, por todos os meios, ininterruptamente, usando instrumentos sofisticados de comunicao.
Quantos brasileiros so viciados em drogas? Quantos milhes so usurios? Quantos agentes agem nas ruas, nas exposies, porta dos estdios esportivos, nas festas funk, nos festivais? So estatsticas que jamais se completaro.
Um mal sem fronteiras e sem limitaes. Identificado em todos os lugares do mundo, do Brasil, qualquer tempo, molstia insidiosa e praticamente sem remdio coletivo.
Quantos j perderam a vida nos embates nas favelas do Rio de Janeiro, na Linha Vermelha, na Amarela, nas vias sem distino de cor?
Em junho, em Janaba, MG, trs jovens foram assassinatos em acertos de conta com o trfico de drogas. Em dois deles, os executores mataram as vtimas no meio da rua em cenas tpicas de favelas, como conta a descrio. Mais e mais, as motos so os cavalos dos bandidos modernos. Mais velozes, consomem combustveis menos arcaicos. s famlias, compete o dever de sepultar os entes queridos.


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Por Web Outros - 2/7/2009 07:57:48
A Imprensa entre ns

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O Supremo Tribunal Federal, por 8 votos contra 1, do ministro Marco Aurlio Mello, derrubou a obrigatoriedade do diploma para o exerccio da profisso de jornalista. Segundo o presidente do STF, ministro Gilmar Mendes, no h razo para se acreditar que a exigncia do diploma seja a forma mais adequada para evitar o exerccio abusivo da profisso.
Assim, a mais alta corte de Justia do pas aceitou o recurso interposto pelo Sindicato das Empresas de Rdio e Televiso de So Paulo e Ministrio Pblico Federal contra a obrigatoriedade do diploma. Este era obrigatrio para exerccio da profisso desde 1969, criada por decreto-lei da ditadura militar.
O assunto dar muito a falar e as primeiras crticas, restries e preocupaes j aparecem nas pginas de nossas folhas. Achei singularmente valiosas as observaes que expendeu Anis Jos Leo, experiente nas lides dos jornais e professor aposentado de Legislao e tica de Comunicao da UFMG.
Manifestou-se com a lucidez tpica de sua personalidade e com iseno. No concordou com o voto do ministro Aires Brito ao julgar a matria no Supremo S. Exa., mesmo do alto de seu conhecimento de tcnica jurdica, examinou essencialmente o aspecto poltico do diploma legal que deixa de viger:
A atual Lei de Imprensa foi concebida e promulgada num perodo autoritrio de nossa histria de Estado soberano, conhecido como anos de chumbo ou regime de exceo. Regime de exceo vistosamente inconcilivel com os arejados cmodos da democracia afinal resgatada e orgulhosamente proclamada pela Constituio de 1988.
Aconteceu com a Lei de Imprensa o que no Brasil acontece com outras leis: esquece-se, e pronto. A nao seria mais feliz, respeitosa, respeitvel, se as leis existissem para serem observadas. Mas aqui continua cenrio de leis que pegam e leis que no pegam, como determinadas mudas que plantamos no canteiro.
Agora que a mais alta corte de Justia decidiu, tem-se de repensar. As escolas de comunicao a esto, milhares - e so muitos - de jovens se esforaram para conquistar o diploma, e tero de conviver com uma nova realidade, inclusive para disputar um lugar ao sol e uma vaga na reportagem com aqueles que no precisaro construir um currculo escolar.
No tempo de Getlio, a lei era outra: a 2.083, de 12.11.53. Viu-se, e est em recente livro meu, como funcionava a Imprensa e como se haviam os jornalistas, nos dois perodos de Vargas no Catete. Imprensa algo muito srio, envolve liberdade de manifestao, alm da formao adequada ao exerccio da profisso, que tem incio com hbil manejo da lngua ptria.
Grandemente, Vargas foi levado ao suicdio naquele dramtico 24 de agosto de 1954 pelos problemas suscitados pela Imprensa, pelo ingresso do grupo ltima Hora no negcio. Imprensa no pode ser um mero balco comercial.
No que tange ao voto do ministro Aires Brito, disse Anis: De maneira alguma posso aceitar a rotulao da atual Lei de Imprensa como entulho autoritrio. Se h um vivente nestes Brasis que tem o dever moral de negar o rtulo, o vivente sou eu. Mesmo que nico, solidrio, esquerdo, gauche, na contramo da histria. Sou amigo de Planto, mas sou mais amigo da verdade. Acrescenta um pensamento de Gandhi: A verdade dura como o diamante, mas suave como a flor do pessegueiro.
Entramos, assim, numa fase nova na vida da Imprensa, e dos homens e mulheres que a fazem De imediato, abrimos um hiato na vida e na histria da Imprensa, que tm graves responsabilidades a manter ou assumir, numa poca de desfazimento de velhas e honrosas tradies.
Para terminar, lembro Luiz de Paula, em Por cima dos telhados, por baixo dos arvoredos, ao evocar o professor Alberto Deodato e seu julgamento de uma das mais ldimas expresses do jornalismo mineiro, Hermenegildo Chaves, Monzeca: Foi alma que no se maculou. Foi corao que s amou. Foi carter que nunca tisnou. Foi inteligncia que no teve crepsculo. Foi pena que nunca se corrompeu. E Rubem Braga, seu amigo de uma vida inteira: Monzeca era irremediavelmente bom. Editorialista correto, elegante, gil, capaz de usar a malcia contra os ftuos, os impostores, mas incapaz de maldade contra quem quer seja.


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Por Web Outros - 19/6/2009 07:12:17
O gs de Minas

Manuel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Com aproximadamente 354.800 km2, a Bacia do So Francisco abrange partes dos estados de Minas, Bahia, Gois, Tocantins e Distrito Federal. Em Minas, so quase 89 mil km2, compreendendo o polgono Buritis, Paracatu, Pirapora e Januria.
Quanto a hidrocarbonatos, a Bacia era praticamente inexplorada, mas alguns estudos geolgicos foram realizados nas quatro dcadas mais recentes. Poos exploratrios foram locados, em 1989 e 1990, dois dos quais em Minas em Remanso do Fogo e Montalvnia, que, perfurados mostravam indcios significativos de gs.
O gs emana naturalmente, servindo para moradores da regio aquecerem suas comidas com o calor que flui das profundezas da terra. Todo mundo sabia, mas ningum, nos altos escales da Repblica, parecia querer acreditar e explorar riqueza.
Dcadas se passaram, sempre na esperana, enquanto a populao aguardava melhorias em sua condio de viver. Nada. Vozes autorizadas e tcnicos indicavam a necessidade de perfurar para explorar o bem natural e p-lo a servio das populaes menos afortunadas de extensas regies mineiras.
Enquanto no se aproveitava o gs, o Brasil suportava as presses e desafios da Bolvia, de onde provinha a maior quantidade de produto. La Paz impunha condies inaceitveis, repercutindo politicamente, quando Braslia no precisava sofrer descabidas propostas bolivianas. A invaso e apropriao de instalaes da Petrobras demonstraram suficientemente que o Governo da Bolvia queria fugir a normas contratuais vigentes e apelar para medidas de fora. E o gs brasileiro permanecia intil nas entranhas da terra mineira, em detrimento do Brasil.
Daqui, algumas vezes, insistimos na necessidade de despertar a conscincia das autoridades mobilizao para extrair aquilo com que a natureza brindou o territrio e faz-lo benfico a expressivo segmentos do interior brasileiro, antes que partam para as grandes cidades, nelas avolumando os problemas locais.
Jornal de So Paulo publicou, recentemente, que o presidente da Repblica prepara o anncio da descoberta de duas grandes reservas no Brasil. A do Norte de Minas, de gs, e a segunda, de gs e petrleo, no Acre. Do ponto de vista econmico, as novas reservas sero divulgadas como uma espcie de meio para o Brasil se livrar de dependncia do gs boliviano.
J escrevi muito a respeito, defendo esta posio do Governo brasileiro e da Petrobras. O gs do Norte-mineiro serve at ao populrio regional. H dcadas, a regio sabe de existncia de abundantes manifestaes de gs na margem esquerda do So Francisco, no Noroeste de Minas, sobretudo na rea de Buritizeiro, extenso municpio cuja sede fica de frente a Pirapora, tradicional ponto de incio de navegao do rio de unidade nacional.
Tudo sabido e consabido, mas somente agora o interesse foi despertado. Se fora antes, no teria o pas mandado tantos dlares para a Bolvia e evitado essas arestas com a nao vizinha, que pouco se preocupa com a solidariedade brasileira em muitas oportunidades.
A descoberta servir para tentar impedir ou pelo menos adiar o incio das atividades da CPI da Petrobras, que presentemente assombra a base aliada no Senado. Esta preparou a documentao sobre a explorao de petrleo na camada pr-sal e a divulgao sobre as reservas para arrefecer o mpeto das iniciativas visando a CPI. S se confia em que a questo poltica no retarde mais a programao das pesquisas em Minas. H muitos e muitos milhares de mineira na expectativa.
A inteno mandar em agosto ao Congresso a proposta de mudanas nas regras para explorao de hidrocarbonetos. Seria o caso de perguntar, como Ccero, no Senado Romano: At quando abusars de nossa pacincia?


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Por Web Outros - 18/6/2009 07:12:35
A violncia resiste

Manuel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Menino de 11 anos, acusado de tentar matar, um cidado de 32 anos, em Passos por mil reais, acertou dois tiros nas costas e um no ombro da vtima. O rapazinho foi detido e liberado, porque com menos de 12 anos, inimputvel, segundo o Estatuto de Criana e do Adolescente. O garoto declarou que a motivao, alm de financeiras foi pessoal, porque assim reagia agresso do homem: Eu ia matar ele mesmo, quando me ofereceram dinheiro, me motivou mais ainda.
- Menina de 16 anos, e rapaz de 15, com um revlver 22, alm de um de maior idade, com 18, s 22h50, lanchonete no centro de Montes Claros. Renderam um professor de 51, trancaram a porta do estabelecimento e roubaram chocolates e 139 reais. Os trs foram detidos pela PM e soltos. A menina mora em Janaba, os outros na prpria cidade, todos sem passagem pela polcia.
Na cidade norte-mineira, enquete do jornal eletrnico montesclaros.com formula a pergunta: Em funo da violncia urbana, a vizinha Patos de Minas e quatro cidades paulistas, por deciso do Juiz de Menores, adotaram o toque de recolher para impedir que menores de 16 anos fiquem nas ruas aps 23 horas, deve o exemplo ser seguido?
Entre as respostas, 72,3% apontam que o toque de recolher precisa ser adotado rapidamente; 11,28% pedem at medidas mais rigorosas.; para 5,1%, no necessrio; 3,3% acha que a providncia deve ser mais branda; para 8,2% ela ainda no se justifica.
Na maior cidade do norte de Minas, por volta meio-dia de uma tera-feira de junho, dois ladres, armados de revlver assaltaram um entregadores de leite de 44 anos. Roubaram-lhe 440 reais e fugiram moto escura.
Observa-se, pois, que tanto praticam crimes e delitos, maiores e menores, durante a noite ou durante o dia. Elogie-se o esforo das autoridades para coibi-los, com resultados positivos, conforme ampla divulgao da Imprensa. Que, assim, no se restringe a publicar que o negativo.
De acordo com dados da Secretaria de Defesa Social de Minas, o Estado teve, em 2008, reduo de 38% relativamente a 2003, no nmero de crimes violentos, como homicdio, roubo a mo armada, estupro e tentativa de homicdio. bom registr-lo, porque quem sabe? Os criminosos e delinquentes se apercebam de que lei est ativa e atuante.
Se h xitos a comemorar, o fundamental no se arrefecer o empenho, porque o crime comea na escola, ou seja, na adolescncia, num pas que tem outras preocupaes maiores que no a educao e formao das crianas e jovens. Esta acomodao, o desinteresse, tem incio na prpria habitao da famlia, sendo maus exemplos prprios pais e os irmos mais velhos.
Dados recentemente liberados pelo ndice Global de Paz, com o levantamento anual dos indicadores de segurana e violncia no mundo, revelam que o Brasil s fica na frente da Colmbia e da Venezuela. Estamos na posio 85 na lista de 144 pases.
O pas mais pacfico do planeta a Nova Zelndia, seguida da Dinamarca, Noruega, Islndia, ustria, Sucia e Japo. Completam os dez primeiros colocados o Canad, a Finlndia e a Eslovnia. Na Amrica Latina, o melhor situado o Chile, na vigsima posio. Estamos longe dele, mas resta esperana de subir de nossa posio nesse ranking.


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Por Web Outros - 10/6/2009 06:38:58
O n do ensino

Manoel Hygino- Jornal "Hoje em Dia"

Foi em 28 de maio. Os jornais deste pas advertiram para o problema do ensino. A Folha de So Paulo titulou matria: Censo aponta formao deficiente de professores; O Globo, do Rio: MEC - 382 mil professores no poderiam dar aulas; Zero Hora, de Porto Alegre: Censo revela deficiente formao de professores.
Os dados so mais minuciosos: dos 685.025 professores de 1 a 4 srie do ensino fundamental no Brasil, somente 50,1% tm formao adequada, ou seja, graduao em pedagogia. Os dados so de estudo baseado no Censo Escolar da Educao Bsica de 2007. Fora da formao mnima, esto 12,7% dos docentes que cursaram apenas o ensino fundamental, o ensino mdio ou uma formao superior sem licenciatura. Considerando a formao da educao bsica, os docentes com formao superior com licenciatura so 61,7%.
Novidade?
Nem tanto. Num pas que paga to mal os salrios de seus cidados, no exceo o que acontece com o magistrio, a quem compete a delicada misso de orientar os primeiros passos de nossas crianas e ensinar-lhes o bsico.
No interior, para levar ensinamentos a escolas geralmente em condies precrias, a mestra se v obrigada a deslocar-se, s vezes, quilmetros, ao estabelecimento, a que ocorrem meninos e meninas que tambm a p se deslocam de seus lares. Os nmeros e as estatsticas no retratam o sacrifcio dessas mulheres que recebem to baixos salrios. Nem se poderia exigir delas que se formassem em pedagogia, deixassem as cidades maiores e as capitais, para dar lies em recnditas regies s crianas por um pouco de mel coado.
No estou s nesta posio. Um outro dia, a conterrnea Ruth Tupinamb Graa confessava revolta pelo descaso, pela maneira como os governos tratam as professoras, principalmente as de primeiro grau. Entristece-lhe sentir as humilhaes a que so submetidas, mal remuneradas, sem esperana de melhora.
Incontestvel quanto trabalham numa sala com 45, ou mais, alunos de todas as idades, tipos, raas e cores, procurando incutir-lhes o amor ao prximo, a lealdade, a dignidade e o bom carter da pessoa humana, enfim a cidadania em sua plenitude.
Antigamente, havia greves, nas capitais, pelo atraso no pagamento do salrio dessas sacrificadas criaturas. A minguada remunerao demorava meses para chegar ao longnquo rinco. Antigamente, no existia a Delegacia de Ensino e o pagamento demorava, porque os atestados de frequncia tinham de ir Secretaria de Educao. O salrio s era efetivamente liberado depois de publicao do respectivo ato no Minas Gerais.
Demorava at um ano, registra Ruth Tupinamb, tambm professora. Para sobreviver, as mestras trocavam os atestados de frequncia com comerciantes ou procuradores, recebendo com desconto. Era uma espcie de cheque ao portador.
No houve mais atraso a partir do Governo Magalhes Pinto, embora se tivesse de enfrentar filas enormes. Houve, ento, um repdio aos governadores, agredido por uma professora na Rua da Bahia, armada de sombrinha.
Com Acio, o pagamento est em dia, nas datas agendadas, mas o problema do magistrio no est resolvido. Falta muito ainda para amparar essas criaturas, que tanto se empenham para, em anonimato, ajudar a construir um pas saudvel e digno.
Elas merecem especial ateno, porque atuam num meio presentemente influenciado pela violncia, pela corrupo, pelas drogas. A professora diz mais: Graas a elas, muitas crianas se salvam e chegam a adolescentes equilibrados conseguindo alcanar a faculdade, seguindo melhores destinos, porque sabemos que o curso primrio a base para a instruo, o primeiro degrau da escada para se chegar e galgar o topo vitorioso.


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Por Web Outros - 1/6/2009 10:21:56
Morte em tempo de paz

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Quem acompanha os noticirios das televises, as reportagens das radioemissoras e das editorias de polcia dos jornais, sobretudo os das capitais e grandes cidades brasileiras, se espanta com o assombroso relato de crimes contra a pessoa humana: quanto perversidade como so perpetrados e pelo seu nmero.
A despeito das providncias adotadas pelo poder pblico para conter a violncia, ela existe e prolifera. Os relatrios oficiais so otimistas e animadores cai o ndice de criminalidade. No entanto, s pelo que se l diariamente, nos meios de comunicao, verifica-se que a bruteza se manifesta em todas as suas modalidades. Diante de nmeros irrefutveis, a imprensa j compara os mortos no Brasil aos de guerras declaradas, ou no. Como no Iraque e entre israelenses e palestinos. So constataes que no nos deixam tranquilos e conformados com as ocorrncias aqui.
Na Cidade Maravilhosa, h uma guerrilha urbana, que no se esconde. No Brasil, criou-se um banco de dados sobre homicdios em 1979. O ranking liderado por Pernambuco e Esprito Santo, at h algum tempo. A partir de 2003, os casos apresentaram reduo, mas a criminalidade demonstrou estar migrando para o Norte e o Nordeste, apesar de manter ndices preocupantes no Sul/Sudeste.
Estudioso da violncia, o economista Daniel Cerqueira, do Instituto de Pesquisas Econmicas Aplicadas, advertiu por um jornal paulista para a tragdia anunciada da segurana pblica brasileira. Alis, no faltam os que apontam solues, que todavia no ocorrem.
Segundo Cerqueira, os polticos so responsveis pela ausncia de estratgias de mdio e longo prazos que no se enquadram no calendrio eleitoral. Prope que deixem de ser reativos e meramente preventivos e se antecipem violncia e ao banditismo, fortaleam-se em projetos sociais eficientes e em tticas de policiamento adaptadas a cada realidade. Mutatis mutandis, isso vem acontecendo, mas o resultado final no dos mais convincentes. No se h negar que o crime hoje perpetrado em vrias escalas sociais, econmicas, geogrficas e etrias. Evidentemente, tem-se de trabalhar o futuro atravs da infncia e da adolescncia, esta j premida explicitamente ao crime.
Quanto aos bandidos, a situao se torna insuportvel, porque em grande parcela recuperveis e se ter de fazer vultosos investimentos em presdios. Cumpre gastar muitos nesses estabelecimentos, em detrimento da construo e manuteno da rede escolar. Para Cerqueira, aes centradas nos incidentes, no crime em si, ou apenas na preveno, no funcionam e esto ultrapassadas no mundo todo. O poder de polcia funciona melhor se for descentralizado e vier acompanhado de instrumentos de controle contra desvios de conduta. O primeiro contra a corrupo, o segundo a denncia.
Escamotear dados no diminuem ocorrncias. Assim aconteceu nos Estados Unidos e Europa. imprescindvel um diagnstico preciso e real. O que sabe que, em 30 anos, o Brasil registrou 1 milho de homicdios, conforme dadas computados pelo Data SI, do Ministrio da Sade. Crime no , porm, caso apenas para a Polcia. L mesmo nos EUA e pases europeus, definiram-se prioridades e se montaram programas com cruzamento de dados de sade, levantamento de vtimas dos variados crimes, no apenas homicdios, e a descentralizao das aes policiais. O Brasil precisa ser um pas menos violento, eis a questo.


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Por Web Outros - 29/5/2009 07:24:12
Uma hora memorvel

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Acanho-me em falar de minhas experincias. Mas, no dia 21 de maio, coube-me o lanamento de dois dos meus mais recentes trabalhos. Trata-se de um pequeno volume sobre Vargas - Getlio: de So Borja e So Borja, e Tempo de nascer: a obstetrcia em Minas.
O ato foi no Auditrio Vivaldi Moreira, da Academia Mineira de Letras, presente seu presidente, acadmico Murilo Badar, outros membros do sodalcio, pessoas amigas e companheiros de ofcio, gente da famlia que at Belo Horizonte se deslocou para o lanamento. Alis, tudo valorizado pela participao do excelente Madrigal Renascentista, regido pelo maestro Marco Antnio Maia Drumond.
Uma noite memorvel para o ancio que foi menino em Montes Claros e, sinceramente, no pensara galgar as escadas do velho prdio de residncia de um dos maiores mdicos de Belo Horizonte, Borges da Costa. Bem como do seu anexo, o auditrio Vivaldi de um dos grandes entusiastas da Academia.
Em depoimento como este, temo descambar para o meramente social e trivial, ou para o emocional e piegas. Mas no se pode deixar de fazer um registro, que ser, quem sabe?, o meu ltimo. Em horas tais, repito o pensamento avoengo: ningum sabe o dia de amanh,
Durante a reunio, sem discursos, revi amigos antigos e conheci novos, entre os quais a bela gente da Aldrava, de Mariana, que levou um halo de alegria e juventude queles momentos. O pensamento e minha saudade vagavam pelas ruas estreitas de uma velha cidade norte-mineira. Nem poderia ser de outro jeito e maneira.
Amo-te muito, a bela modinha do inexcedvel Joo Chaves, interpretada pelo Madrigal, encantou a Yeda Prates, enquanto meu corao parecia desfazer-se em lgrimas, de gratido os que me o permitiram ser o que sou, em minha humildade e compreenso entre os homens de boa vontade.
A maioria no esteve presente simplesmente porque se fora, como os que nos iniciaram no caminho do bem do trabalho, os que apoiaram os passos primeiros no jornal e nos livros, os que prestigiaram com a leitura de nossos textos, comentando, elogiando ou criticando, mas sinceramente partcipes de nosso esforo.
Faltou o padre Murta, porque subira a escada antes. Mais recentemente, foi a vez de Olintho Silveira, intelectual de primeira linha, nascido no Brejo das Almas, hoje Francisco S, esposo de D. Yvone de Oliveira Silveira, smbolo da mulher a servio das causas das letras.
Olyntho partiu, faltando dias para alcanar a histrica marca dos 100 anos, um campeo de vida e de operosidade, poeta e colaborador das folhas, digno e independente, atuante nas melhores frentes de batalha. Seu passamento emocionou as cidades em que nasceu e viveu, deixando um exemplo que as novas geraes deveriam receber como lio.
A Academia Montesclarense de Letras e o Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros vestiram pesado luto. Haroldo Lvio disse do casal: trabalhara pelo enriquecimento de nossa vida espiritual, sem descanso e apenas com o propsito de servir e participar do plantio da cidade das futuras geraes na implantao do ensino superior e de entidades voltadas para o aprimoramento de nosso nvel intelectual.
Irmo de Geraldo Silveira, outro intelectual e historiador, Oluntho foi lembrado por outro escritor da famlia. Maria Luiza Teles confessou: A vida no tem misericrdia alguma com nossa dor, com nossa saudade. Ela continua inclemente, com suas exigncias. E, mesmo com o corao partido, o peito oprimido, as lgrimas contidas ou no, a caminhada prossegue. Evocou a palavra do pai: Assim somos ns. As folhas todas vo caindo, pouco a pouco, para que a rvore se revista de folhas novas.


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Por Web Outros - 28/5/2009 08:11:33
O Jack, de Januria

Manuel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Januria ostenta belas tradies de cultura, hospitalidade, culinria. Nem s a sua aguardente referncia. A cidade ribeirinha tem histria rica. Entanto, entrou na galeria dos casos medonhos, com o surgimento do manaco Luiz Fernandes de Souza, 36 anos, que contou ter matado Liliane Gomes Magalhes, 18, e Patrcia Conceio Cunha, 30, aquela antes, violentada.
Aps uma briga com a esposa, esta o chamou de Jack, o estripador. Ele teria contestado, dizendo: Voc vai ver quem Jack. As mulheres, que no a prpria, foram assassinadas em 2006 e 2008. Para a delegada de polcia, Luiz Fernandes um dos criminosos mais perigosos que ela j viu, pois aparenta ser pessoa tranquila, longe do que realmente .
Jack, o estripador sertanejo! Que diria?
Januria formada por gente laboriosa, e se tornou cidade em 1860. Sua histria no inclui crimes brbaros, mesmo na poca do coronelismo. Lembra o professor Saul Martins que o vapor Saldanha Marinho, em 1870, inaugurou a navegao no Mdio So Francisco, zarpando do Porto de Sabar, no Rio das Velhas, para chegar a Januria.
O januarense inclinado msica. Entre os notveis, esto Tertuliano Silva, dobradista e compositor; professor Batistinha, da Escola Normal; Cludio Correia, saxofonista e Osvaldo Lins, o mgico da flauta.
Quando escreveu alentada histria sobre a regio, a cidade e o municpio, o professor Antnio Emlio Pereira comeou encantadamente: Vislumbramos o magnfico nascer do sol, tingindo de ouro os cus do horizonte e, s noites, a lua cheia, banhando-se de prata no reflexo das guas do So Francisco, e ns quedamos silentes, inebriados destas momentneas mas perenes belezas, Continua: Enquanto este sol e esta lua, testemunhas milenares, em sua alternncia, dirigem nossos olhares s torres intangveis dos primrdios, percebemos que a me terra nos fornecer dados preciosos para esta investida. - a redao de sua obra.
Januria pertenceu Capitania de Pernambuco, como os territrios da regio das Minas Gerais esquerda do So Francisco.
As terras direita pertenciam Capitania da Bahia, doada pela coroa portuguesa a Francisco Pereira Coutinho, em 1534. O territrio esquerda fora doado no mesmo ano a Duarte Coelho Pereira.
Bravios na margem esquerda eram os caiaps, fixados numa faixa que se estende do atual So Romo ao Carinhanha. Mas combatiam os tapuias, expulsos do litoral pelos guaranis, aliando-se contra os conquistadores.
As gentes dali brigaram em defesa de seus direitos e por suas reivindicaes. O que recentemente aconteceu com Luiz Fernandes Souza parece integrar-se no mbito de crises pessoais, que se ampliam em vrias regies, resultando em sucessivas mortes de crianas e mulheres, principalmente as jovens.
Problema cclico, no restrito ao Brasil. Em 2006, mais de 100 policiais foram mobilizados na investigao do assassinato em srie de mulheres na pequena cidade de Ipswich, no Leste da Inglaterra. Em onze dias, cinco prostitutas foram encontradas mortas e os crimes deram muito trabalho polcia.
Mas a esposa do assassino de Januria o classificou de Jack, o estripador.
Este agiu no sculo 19 e foi culpado pela morte de cinco prostitutas no Leste de Londres, em 1888, mais de um sculo antes das ocorrncias margem do rio da unidade nacional.
S que o Tmisa nada tem a ver com o So Francisco, e as vtimas de Jack no se enquadram nos padres de Luiz Fernandes. O pas o outro, o ambiente outro, o criminoso outro, outro o tipo de assassinato.
C nas Minas Gerais de hoje, o assassino um cidado qualquer, homem frio e calculista.
Na Inglaterra, onde jamais se conseguiu identificar o criminoso, as suspeitas chegaram casa real. H a hiptese de o matador ter sido Edward, Duque de Clarence, neto da Rainha Vitria, irmo de Jorge V, e herdeiro do trono da Inglaterra.
So fatos que no se esquecem.


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Por Web Outros - 22/5/2009 13:59:14
Em visita a Alphonsus

Em 5 de junho, a Academia Mineira de Letras rende tributo a seu patrono, Alphonsus de Guimares Filho, depositando rosas sobre seu tmulo, na cidade em que deu seu ltimo suspiro: Mariana.
Ser uma cerimnia plena de significado, de simbolismo, ele que foi, ao lado de Cruz e Souza, os maiores poetas representantes do movimento no Brasil.
Afonso Henriques da Costa Guimares usou vrios pseudnimos para fixar-se naquele que o pereniza.
Brasileiro, foi o mais mineiro de todos os nossos poetas: nasceu em 24 de junho de 1870, em Ouro Preto, e faleceu, repentinamente, na cidade de Mariana, em que residia, em 15 de julho de 1921, com apenas 51 anos.
Alphonsus o poeta da Academia, tanto que o sodalcio a Cada de Alphonsus. Por ironia da sorte morreu mais de uma vez, para torna-se eterno.
Aos 17 anos, na antiga Vila Rica, fazia apaixonados versos dedicados prima Constana, filha de Bernardo Guimares.
Falecendo a menina de seu corao, perdeu-se em prantos dalma, naquela primeira grande dor.
O tema da morte influenciou sua poesia e nela se transformou em referncia forte.
Em 1895, casou-se e, seus primeiros livros: Setenrio das dores de Nossa Senhora e Cmara ardente, 1899; e Kiriale, 1902.
Viveu modestamente como juiz e promotor de Justia, enfrentando com denodo dificuldades para sobreviver com a famlia que crescia.
Pai de quinze filhos, sofreu a desdita de assistir ao falecimento da filha caula, a quem dera o nome de Constana.
Esses fatos lhe marcaram a existncia e transbordam de sua lrica de profundos sentimentos de humanidade.
No assistiu, por ter morrido um ano antes, fria dos modernistas que, em 1922, assestaram suas armas contra as velhas escolas poticas.
O casamento se deu no ano em que Belo Horizonte se inaugurava: 1897. E aconteceu em Conceio do Serro, com D. Zenaide Alves de Oliveira ], parenta muito prxima de Jos Aparecido.
Freqentemente formam-se caravanas para, a cavalo, ir at Conceio para visitar a cidade em que Alphonsus serviu Justia.
Entre os membros dessas caravanas, Paulo Narciso, jornalista e advogado, fiel escudeiro e ardoroso admirador do poeta. Algo de mstico os une.
Na primeira vila e cidade de Minas, em que foi encontrado morto durante a madrugada, seu corpo descansa; ele, tido como o solitrio de Mariana, em reverncia ao qual os acadmicos do sculo XXI se deslocaro sob o frio de junho.
Deixou cerca de quinhentas composies, em oito livros, que o Brasil jovem precisa conhecer, para amar. No se pode deixar que morra seu verso, depois de tanto morrer na vida.
Lembre-se que Mrio de Andrade, posteriormente o papa do modernismo no Brasil, visitou-o em 1919.
Ali se achava isolado, praticamente esquecido, inclusive de Ronald de Carvalho.
Mrio de Andrade enviou carta a Alphonsus Filho, este tambm poeta, em 1941: Estive com seu pai ali pela manh mais de uma hora (...) E foi uma hora de xtase em que no disse nem um bocadinho que era poeta. Deus me livre! (...) Me apresentei apenas como um f e assim fiquei todo o tempo...
A Alphonsus de Guimares Filho, escreveu Mrio: Fiquei comovidamente feliz com o nascimento de Alphonsus de Guimares Neto; uma maravilha o que o simples nome desse menino desperta emmim, de ambiente grave de recordae3s e contatos s bons de sentir.
Breve o espiarei, continua Andrade. Por enquanto, ele que receba a bno de Deus, autorizada por trs geraes de amizade.
No se olvidar, certamente, Ismlia: primeiro quarteto: Quando Ismlia enlouqueceu, / Ps-se na torre a sonhar... / Viu outra lua no mar...


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Por Web Outros - 18/5/2009 07:31:52
As festas chegam

Manuel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Junho no interior brasileiro o ms mais festivo, em que a religiosidade se alia a motivos regionais para comemorar trs dos santos populares: Santo Antnio, So Joo e So Pedro, no dias 13, 24 e 29. Como se trata de um perodo frio, as fogueiras se tornam no centro das festividades, com muita batata doce assada, enquanto as donas de casa oferecem s pessoas da famlia e aos convidados preciosidades da culinria popular, preparadas durante o dia. Biscoitos e doces fazem a festa de crianas e adultos, enquanto crepita a lenha s chamas e se aquecem as conversas.
Poucas pocas marcam tanto a infncia interiorana quando as festas de junho, que so, enfim, de reunio e confraternizao da e das famlias, fenmeno que vai rareando. H disperso e, por que no admitir, tambm degradao de velhos costumes, simples e puros.
Havia levantamento de mastros, queima de fogos, soltura de bales, caf com biscoito, bolos, chocolate, cuscuz, canjica, mas sempre nas noites de 12, 23 e 28 de junho. Acontece, contudo, uma profunda transfigurao. As festas assumiram um carter caricatural, como chamado casamento na roa e bailes nos clubes. As fogueiras praticamente deixaram de existir, porque a lenha ficou cara e rara, e no h mais o sossego da festa em plena rua, como antigamente. O medo se instalou. Canta-se, ou cantava-se coletivamente, tambm se danava: minha caminha verde/ minha verde caminha/ Eu no vou na sua casa/ Pra voc no ir na minha. Assim por diante, seguindo-se quadras alegres e maliciosas: Sua me uma coruja/ Seu pai um caxinguel/ Sua me morreu de fome/ Seu pai de santo com! Ou: Quando vim de minha terra/ Trouxe fama de ladro/ Uma moa na garupa/ E uma velha no cambo.
Dos trs, o mais festejado , ou era, So Joo, embora as donzelas em plenas flores preferissem ou prefiram Santo Antnio, o casamento por excelncia. Segundo Leonardo Dantas Silva, em Pernambuco, a data mais festejada a de So Joo.
algo muito antigo, segundo Dantas. A festa a mais antiga do Brasil, j registrada por frei Vicente do Salvador, em sua Histria do Brasil 1500-1627 Acudiam com muita boa vontade, porque so muito amigos de novidades, como no dia se So Joo Batista por causa das fogueiras e capelas. Os colonizadores portugueses trouxeram o costume da Europa, onde as comemoraes coincidem com o incio do vero, da a presena de tradio de costumes pagos dentro dos festejos, adivinhaes e o culto ao fogo. No que se refere s fogueiras, consta que foram transportadas ao Brasil pelos jesutas. Segundo estes, Isabel, prima de Maria, mandara erguer uma enorme fogueira, a fim de anunciar o nascimento de seu filho, Joo Batista: Houve um homem enviado por Deus, cujo nome era Joo. Veio ele como testemunha, para dar testemunho da luz, a fim de que todos cressem por seu intermdio. Ele no era a luz, mas devia dar testemunho da luz. A msica caracteriza esse tempo de alegria, com foguetrio, que assusta as moas e senhoras, que alvoroam meninos e adolescentes. Tudo vale. Novos ritmos, inicialmente importados da Hungria, da Polnia, de sales aristocrticos - como as quadrilhas, da Frana, se introduziram nos cancioneiros locais. At que surgissem as msicas tipicamente brasileiras.


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Por Web Outros - 11/5/2009 09:59:42
Registro de maio
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Maio um ms especial para os brasileiros, sobretudo do interior, com arraigadas tradies que se expandem atravs do tempo. J o foi mais, quando a influncia da comunicao, principalmente da televiso, no introduzira nuanas novas em centenrios costumes. Quinto ms do ano romano, o dia 1 era festejado desde tempos imemoriais, para, enfim, se transformar no Dia do Trabalho, que ora se caracteriza pelo nada fazer, em muitos pases. Nele se promovem manifestaes por melhores condies de vida e salrios mais dignos aos que vivem do labor. No Brasil, encantado, mgico. Nas cidades interioranas, h ainda a coroao me de Cristo nos templos, quando meninas cantam hinos e jogam flores na imagem de Maria, costume que se vai esvaziando nas cidades de porte. Belas canes assinalavam os dias de maio, quando se comea a sentir a brisa que anuncia o frio de junho. O professor Mello Canado, de Direito Romano, ex-secretrio de Estado da Educao, redigia para o antigo O Dirio lindas crnicas sobre esse tempo de amor e beleza, de reunio das famlias, no templo ou no lar. De maio, dia 27, foi minha irm, a nica, to cedo desta vida partindo; ela que repetindo Alvarenga Peixoto - Se o Brasil fosse um reinado, poderia ser princesa. No dia 25, completa-se um dcada de minha genitora. Em maio, h o Dia das Mes, agora marcado pelo mpeto comercial, mas que no consegue apagar o significado sublime da maternidade, cantado em verso e prosa por bons autores. o ms das noivas, celebrando um solene compromisso com o futuro, na confiana no amor eterno e perene felicidade. Tempos outros os de hoje. Nem mais se admira a lua, escondida detrs dos arranha-cus. Em nossos dias, a poesia no mais corresponde aos bons sentimentos porque a vida, multiforme e absorvente, violenta na sua tragdia e na sua vertigem, pede novas maneiras de expresso, como sentenciavam os modernistas em 1922. Ento, dizia Menotti: Nosso sentimentalismo arcaico nos relega, s vezes, s baladas, s pastorelas, na repetio perene de uma mesma tonalidade cromtica e sonora, como se o passado fosse o grande sino tangido pelos gnios de outrora e vivssemos eternamente da sua ressonncia, dos seus ecos e da saudade dos seus ecos. Mas o sentimentalismo ainda tange almas e se procuram nas noites de rudo extremo, descobrir o que achvamos, naturalmente, nas noites em que os enormes edifcios ainda no impediam belos retratos da natureza. Sentamos como Augusto dos Anjos: Para onde fores, Pai, para onde fores,/ Irei tambm, trilhando as mesmas ruas.../Tu, para amenizar as dores tuas,/ eu, para amenizar as minhas dores!
Este ms, por mltiplas razes, e de todos por motivos mais amplos, no admite escapar-se aos versos de Augusto de Lima, o nome aureolado: Plenilnio de maio em montanhas de Minas! Canta ao longe uma flauta, e um violoncelo chora. Perfuma-se o luar nas flores das campinas, sutiliza-se o aroma em languidez sonora.
Quando chega o crepsculo, mede-se o passado e o futuro restante e, com humildade, acompanha-se Danilo Gomes, para sempre de Mariana: Passarei sem alarde como o vento/sobre ardsias e falsias/ e as penedias da ilha gris de Santa Helena/ sufocado pelo som do mar oceano/ e mergulhando em perptuo silncio.


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Por Web Outros - 6/5/2009 07:34:55
A cultura mineira
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Fbio Lucas, em Marcas de um roteiro cultural de Minas Gerais, A cultura Mineira Espelhada na Literatura, publicada no ano passado, oferece um panorama vivido do que em Minas se produziu ao longo do tempo. Atende, deste modo, ao propsito de Maria Augusta da Nbrega Cesarino, de propiciar sugestes de leitura sobre uma provncia singularmente rica.
Editado pela Superintendncia de Biblioteca Pblicas da Secretaria de Estado da Cultura de Minas, o acadmico nos brinda com um trabalho nascido do corao, do conhecimento, bem ao estilo do escritor de Esmeraldas.
Fbio Lucas faz digresses oportunas sobre a expresso do fator territorial sobre a entidade psicossocial do mineiro. A paisagem montanhosa e seus desnveis, os horizontes escassos e o rduo tamanho da terra, tudo contribuiu para acentuar os traos da subcultura e as suas formas de agrupamento social. cobia e represso, trazidas do ciclo do ouro, juntaram-se tenacidade e astcia da atividade agrcola no territrio montanhesco.
No que tange especificamente a Belo Horizonte, natural ponto de convergncia das populaes interioranas, tao logo ela se armou de estrutura educativa, social, funcional, pode deslanchar nas letras.
E Fbio Lucas oferece um valioso levantamento dos autores que fotografaram para a posteridade as primeiras dcadas, sem esquecer as que sucederam a Cyro dos Anjos, e a Avelino Fscolo, o escritor dos tempos pioneiros da construo.
No menosprezando os contemporneos, aparece Cyro como vamos dizer o retratista social dos anos primevos da cidade feita capital. O lar dos funcionrios, os que vieram de Ouro Preto, e os que, em seguida, aqui se instalaram.
Procedente do distante norte de Minas, Cyro trouxe consigo as expectativas do adolescente e do jovem extasiado com a ideia de na nova metrpole formar-se, pr o diploma na axila, instalar-se com escritrio de advocacia na cidade natal, namorar, casar-se, constituir famlia, constituir uma pequena fortuna.
H os excelentes Avelino Fsculo, o anarquista, e Eduardo Frieiro, o culto autodidata que em Belo Horizonte se forjou.
Na fico, e na forma clssica, porm, o primeiro foi, realmente Cyro dos Anjos, nascido em famlia favorita das letras. Em A menina do sobrado, ele narra sua vida em momento singular da formao universitria, quando para aqui convergiam montanhescos (a palavra do prprio Fbio) de todos os recantos.
Em 1937, publicou-se O amanuense Belmiro, vocbulo bem da poca, hoje praticamente desconhecido.
A est a diferena de Cyro com Frieiro e Fscolo. O monte-clarense era narrador por excelncia, trabalhava o manuscrito exausto, lembrando Machado e Proust.
O amanuense se enquadra perfeitamente na atmosfera e no prprio contedo de A menina do sobrado.
Belo Horizonte daquela poca era uma extenso do clima do interior.
Seus personagens, j aqui instalados, de l vieram e transportaram consigo o linguajar e tudo mais que diz respeito ao consuetudinrio.
Fbio Observa: Para fornecer a feio intimista do relato, aplica-se a um Dirio, no qual vai registrando o cotidiano da vida moderna da cidade. Alis, trs dirios povoam O amanuense Belmiro: o do protagonista, o da personagem Silviano, parceiro de elucubraes litero-filosficas e o da personagem Redelvim, amigo de tendncias esquerdistas e, consequentemente, associado pela polcia poltica.
Ousaria eu dizer que O amanuense e A menina se completam, harmonizam-se, so relatos de costumes de uma poca, em que timidez e respeito eram virtudes e admiradas.
Pode lanar um olhar sobre o passado de Belmiro lendo A menina, uma saboroso relicrio do que melhor Minas j produziu.
Ler esse ensaio de Fbio Lucas ajuda a entender e sentir, prazerosamente, uma poca urea da cidade-capital.


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Por Web outros - 18/4/2009 09:53:34
A mineira Yara
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O que surpreende em Yara Tupynamb no a artista, suficientemente reconhecida, dentro e fora de nossos rinces. Nem mais a sua incrvel capacidade de produzir, sem perder a qualidade.
Yara se revela em cada criao, mas tambm a empreendedora que se tornou, participando de todos os atos, comparecendo a reunies, apresentando projetos, discutindo o papel do artista na sociedade, a sua importncia, material e imaterial.
No concordo com Darcy Ribeiro, conterrneo e primo de Yara, quando diz que a pintora da nostalgia da mineiridade.
De fato, ela capta, extrai, assimila, a beleza colorida da terra mineira e de suas gentes, em sua autenticidade, em sua originalidade, em sua tradicionalidade, e sabe transmiti-las em grandeza.
S concordo com Darcy quando diz que sua obra se fez importantssima para os mineiros que vivem exilados de nossa terra e certamente sentiro como bela e como so belas as gentes que ocupam os vales e montanhas das Minas e das Gerais. H Guignard, sim, em sua arte, porque tambm o mestre foi esplendoroso na sua criao.
A nossa querida Maza de Palermo, jornalista e poeta, tambm empreendedora, se identifica comigo no sentimento da obra de Yara: s mesmo Minas, seus homens de barro e seus homens de ferro, os rios entrando montanha a dentro, vencendo a rijeza da pedra, e as mulheres de campana nas janelas cercadas de flores ou espinhos.
Tais imagens, que Yara trouxe dos cafunds sertanejos, de gente muito especial no ser, no falar, no afirmar-se, esto em sua produo, extensa e admirvel. E ela tem atelier, instituto, site e tudo mais que a mquina moderna espera e exige.
Lus Giffoni, escritor j reconhecido, tambm mineiro, diz o que tem a dizer sobre a pintura de Yara. Que herdou a garra natal para, com olhar exclusivo, gerar simbiose entre a terra e a arte, encerrando dentro de suas obras o efmero e o permanente da vida. Felizmente para ns, como no verso apaixonado de Gonzaga, ela tomou de Minas a estrada.
Agora, sob patrocnio d o Governo de Minas e em promoo do Centro de Artesanato Mineiro e do Instituto que tem seu nome, Yara lanou bela publicao com o ttulo Artesanato Mineiro. E o fez ao ensejo do 19 de maro, dia de So Jos, mestre carpinteiro, protetor da famlia dos trabalhadores, institucionalizado como Dia do Arteso.
guia utilssimo para quem se dedica ou quer se dedicar a to delicada forma de expresso humana. Orienta, esclarece, ensina, inclusive quanto ao valor agregado das peas, quantidade e qualidade do que se produz, como se comportar no comrcio, comunicar e divulgar. Enfim, um volume que muito h de servir ao arteso.
No prefcio, a justificativa: aqui em Minas se encontra o artesanato mais diversificado e rico do pas, por sua originalidade, qualidade e variedade de matrias-primas, algumas s encontradas nestas muitas Minas Gerais.
Lembro de minha terra, com peas confeccionadas pelas artess em barro e em palha, junto ao velho Mercado, destrudo pela voracidade do progresso e, s vezes, pela insensibilidade das autoridades. Mesmo assim, com esse material e mais ouro, ferro, madeira, pedras, vidro e outros objetos, Minas supera dificuldades e obstculos e vence.


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Por Web Outros - 16/4/2009 09:48:21
A gerao ameaada

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Era um regime rigoroso nas escolas. Com rgua e palmatria, mas com mais disciplina, havia mais respeito entre as pessoas, de todas as idades, de ambos os sexos (agora, h mais um!), qualquer que fosse a condio social. A situao deteriorou, por fora de fatores mltiplos, que educadores, psiclogos, socilogos e outros especialistas tentam explicar.
De modo geral, a escola no mais risonha e franca, quanto aquela cantada pelo poeta sobre a Alscia-Lorena.
Hoje, alunos agridem - no mais apenas com palavras - os mestres; e estes se veem constrangidos a pedir s autoridades autorizao para comparecer s salas de aula armados. Cautela no faz mal.
A populao acompanha, com verdadeira inquietao, o que acontece. Algumas causas se identificam: estudo nos centros estaduais de atendimento em So Paulo revela que, em dois anos, duplicou o nmero de menores em tratamento intensivo por crack e cocana. De 2006 para 2008, houve um aumento de 107%.
Para os especialistas, retratam-se as estratgias de mercado que passaram a ditar o trfico: fidelizao da clientela cada vez mais cedo, facilitao de acesso a drogas de todos os tipos e diversificao do consumidor. A compulso por drogas est em todas as classes sociais.
E da?
Sabe-se que a violncia se agiganta, apanhando em sua rede os pequenos davis de todos os segmentos sociais.
Com essa reflexo, deparo com notcia de um pistoleiro cearense de 18 anos, acusado de 18 assassinatos, que poder livrar-se da priso por quase todos os crimes.
Genilson Torquato Rocha j confessou 12 mortes. Nos prximos dias, receber sentenas de 11. Como os crimes foram antes de atingir a maioridade penal, o julgamento se far com base no Estatuto da Criana e do Adolescente, que prev medidas socioeducativas, que substituem a pena de priso.
Medidas socioeducativas?
O rapaz sequer ir a jri popular, tambm com base no Estatuto. O adolescente pistoleiro foi caado em todo o Estado, durante quatro anos, e capturado em agosto de 2008. Ele afirmou que mata desde os 15 anos e, segundo a polcia, todos os crimes foram encomendados ou praticados por vingana. No se vincula a prematura disposio de matar friamente a drogas.
Um psictico, disposto a eliminar pessoas simplesmente por dinheiro? Deploravelmente se tem de curvar evidncia dos fatos. Os jovens comeam muito cedo, presentemente, no precipcio da violncia, contaminados ou no pelas drogas.
Precocemente, talvez por influncia tambm dos veculos de comunicao, pela influncia das imagens, por exemplos muito prximos, j se interessem pelo crime, pela necessidade de afirmao, de conquistar espaos no conseguidos por vias seguras, talvez mais rduas, do bem e do justo.
Observa-se felizmente o propsito de autores e atores do poder pblico e de instituies idneas de participar da formao de novas geraes de brasileiros dignos.
algo absolutamente imprescindvel, mas necessrio mais do que boa vontade e disposio de servir.
Ao grande esforo h de juntar-se a comunidade como um todo, sobretudo as famlias, grandemente desajustadas por motivos que j exigiram pormenorizados estudos.
Estamos deixando que crianas e adolescentes continuem se desviando e se transviando.
H de se tentar agilitar ( o verbo perfeito, diferentemente de agilizar) aes que visam construo de uma famlia moderna, mais saudvel fsica e espiritualmente.
Falta muito para se chegar l. Mas no lcito parar no meio do caminho.


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Por Web Outros - 16/4/2009 07:39:29
Dos Irmos Pereira Usina Darcy Ribeiro

Adriano Souto*

A Usina de Biodiesel Darcy Ribeiro, inaugurada pelo presidente Lula em Montes Claros, foi objeto de anlise aqui nesta coluna, na semana passada. Nossa tese, neste caso em particular, a mesma do presidente Lula, mentor das trs usinas de biodiesel construdas pela Petrobras: Vamos fazer biodiesel da mamona e resgatar a pobreza do semirido. A usina vai gerar emprego e renda, em especial nas pequenas propriedades da agricultura familiar, contribuindo para manter o homem no campo e evitando o xodo rural. O produtor agora s vai deixar o seu Cariri apenas e to somente no ltimo pau-de-arara, como sonhava Luiz Gonzaga, o Rei do Baio.
O artigo rebate ainda aqueles que insistem em vender a sandice de que a usina de biodiesel de Montes Claros seria um elefante branco, argumentando que a cidade encontra-se distante 417 quilmetros de Belo Horizonte ou da refinaria da Petrobras, em Betim. O que se diria, ento, da usina construda pela Petrobras em Quixad, no serto central do Cear, a 160 quilmetros de Fortaleza e a milhares da refinaria mais prxima? So outros os interesses dos que vendem esta ideia, sem levar em considerao o custo/benefcio entre manter um pequeno agricultor em sua terra ou em uma grande favela como a de Jardim Terezpolis, em Betim, do lado da Fiat e prxima da Refinaria Gabriel Passos.
Postado no site montesclaros.com, o artigo entrou na lista dos 15 mais lidos da semana. Na srie de comentrios dos internautas, separamos dois. O primeiro assinado por Jos Gonalves ([email protected]), de Belo Horizonte: Sobre a polmica a respeito da indstria de biodiesel, tenho a dizer que sou favorvel mesma. Sei que no obra de Lula, a quem gostaria de ver fazendo greve de fome junto a Evo Morales e, de preferncia, que v e fique na Bolvia. Trata-se de grande investimento imaginado por cabeas pensantes de nossa Aldeia, como diz Augusto. Para quem no sabe, o incio da extrao do leo de mamona em Moc comeou em 1969/70, atravs da Valsa -Indstrias Reunidas Vale do So Francisco, fundada pelos Irmos Pereira. O gerente era Josu Antunes. L tambm trabalhavam Ricardo Santos, Ren (meu irmo), Nem Faquir, Lenidas Leo, Juvenal, Agamenon Monteiro, Miltinho Almeida e outros, onde foi assinada a minha primeira carteira profissional de trabalho. Exportvamos leo de mamona para toda a Europa. Ento, caso no sirva para o biodiesel, o leo de mamona (ricinus oleicus) que compramos e usamos como leo de rcino, ser de grande serventia para o crescimento das exportaes de nossa cidade. E que venham muitos empregos.
O segundo comentrio tcnico e aborda uma opo aparentemente errada que teria sido feita pela Petrobras no sistema de produo da usina. da lavra de Flvio Guterres Data, de Montes Claros: Sobre o assunto biodiesel, e no entrando no mrito do custo nem do motivo eleitoral, posso contribuir no aspecto ambiental da usina de biodiesel, informando que a tecnologia adotada para a extrao do leo pela Petrobrs, utilizando o metanol, muito mais perigoso e impe riscos elevados, pela exposio da comunidade inflamabilidade, ao contrrio do que se fosse utilizado o etanol. Portanto, ambientalmente analisando, o modelo de produo adotado no foi o ideal.
Como a Petrobras no se manifestou sobre as vantagens do etanol ou do metanol, o fato que o Brasil s hoje uma potncia na produo do etanol porque, dcadas atrs, foi criado o Prolcool, programa subsidiado. Tambm a Embraer, que era estatal, foi subsidiada. Hoje, lidera o ranking das empresas exportadoras. Se no comearmos hoje com o biodiesel, amanh lamentaremos. Quem viver, ver.

(*) Adriano Souto editor-adjunto de Poltica


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Por Web Outros - 13/4/2009 07:39:15
Morte na quaresma

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Nascido em famlias bravas, dos Melo Franco por um lado, e dos Alves, com intensa atuao poltica em Minas Gerais em poca de grande tenso, Mrcio Moreira Alves do Rio de Janeiro e l morreu, no Hospital Samaritano, em 3 de abril. Nunca foi partidrio do silncio, como nunca o foram seus ancestrais de Minas. Os Melo Franco e os Alves representaram o Estado na Cmara Federal e, dos segundos, dois foram mdicos e importantes personagens no palco poltico norte-mineiro, com nfase em Montes Claros: Honorato Jos Alves e Joo Alves integram esse cl ilustre, que viveu no interior duros embates marcados por turbulncia e sangue.
Mrcio nasceu em 14 de julho de 1936, seis anos aps o episdio da violncia de 6 de fevereiro de 1930, que Assis Chateaubriand classificou como emboscada de bugres. O episdio alcanou repercusso nacional e contribuiu para apressar a revoluo.
Mrcio Emannuel Moreira Alves comeou carreira como jornalista aos 17 anos, no Correio da Manh, no Rio de Janeiro. Passou por grandes rgos da imprensa, conquistou o Prmio Esso em 1957, com a cobertura da crise poltica em Alagoas, com a invaso da Assembleia Legislativa, em que foi baleado. Mas mandou a matria para a redao.
Eleito deputado federal durante o regime militar, boicotou as festividades de 7 de Setembro, em protesto pela interveno na UFMG (Alusio Pimenta era o reitor). Condenou a brutalidade das aes policiais, a caa a lderes estudantis, prises e espancamentos.
A condenao pblica ao regime, em discurso na Cmara, resultou a cassao de seu mandato. Exilado no Chile, passou Frana, por Cuba e Portugal, regressando ao Brasil em setembro de 1979, com a anistia. Foi um jornalista firme e um intelectual incoercvel.
Na capital Federal, residiu em casa alugada, no Lago Sul, com Edgar da Mata Machado, Eugnio Doi Vieira e Davi Lerer. Era a repblica socialista do Lago, porque seus moradores eram deputados de esquerda. O prprio Mrcio, como registrou Gilberto Dimenstein, dizia que no passava de um lugar semideserto, por onde passeavam noite lobos guars, corujas e cobras. Tudo mudou. Mas hoje, conforme Dimenstein, palavras como imperialismo e ditadura do proletariado, ou personagens como Mao, Guevara e Lus Carlos Prestes, soam distantes.
Para defender-se da cassao, Mrcio Moreira Alves citou a profecia de Isaas: Pois eu vou criar novos cus e uma nova terra. O passado no ser mais lembrado, no volver mais ao esprito, mas ser experimentada a alegria e a felicidade daquilo que eu vou criar. Sero construdas casas que se habitaro, sero plantadas vinhas das quais se comer o fruto. No mais se plantar para que outro se alimente. Os filhos do meu povo duraro tanto quanto as rvores, e meus eleitos gozaro do trabalho das suas mos. No trabalharo mais em vo, no daro mais luz filhos destinados a uma morte repentina.


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Por Web Outros - 12/4/2009 19:05:02
No rol da suspeio

Manoel Hygino - Transcrito do jornal "Hoje em Dia", de 12/04/09

Leio principais manchetes dos jornais em maro findo. Procuro boas notcias. Leio desemprego no Brasil sobe em fevereiro e atinge 8,5%, a maior taxa desde abril do ano passado; em sua quarta queda consecutiva, o emprego na indstria brasileira caiu 1,3% em janeiro; inadimplncia dos consumidores aumentou 8,6% nos dois primeiros meses do ano.
Crise j atingiu o consumo das famlias no Brasil, queda de 2% no ltimo trimestre de 2008 a pior desde 2003; Grupo Rima para fabricas em Capito Enias e Vrzea da Palma e deixa 3.200 sem trabalho; estudo aponta classe mdia brasileira como a segunda mais tributada entre cinco pases da Amrica do Sul.
O homem que trabalha por aqui um sofredor, pagando os mais altos tributos entre todos os pases e no recebendo os benefcios correspondentes. E os que no precisariam mais trabalhar, os aposentados, so obrigados ao labor dirio, se no quiserem passar fome.
O Brasil um pas que paga mal aos seus trabalhadores. Da o soldado de polcia ser coagido a fazer bico como vigilante noturno e os de outras profisses se desdobrarem como reparador hidrulico, eltrico, desentupidor de redes de esgoto, mecnico, tudo enfim que se pensar.
Manter a sobrevivncia e a famlia um esforo de todos os dias. E haja meio para pagar luz, gua, telefone, artigos escolares, coisas assim. E o gs de cozinha? E os medicamentos? E o transporte coletivo?
Os que tapeiam, que surrupiam, que desviam, que embolsam dinheiros alheios, os malfeitores, os narcotraficantes, os corruptos, os de mau carter e os sem carter, os ladres de pequeno, mdio ou grande porte, de colarinho branco ou sem ele, os apadrinhados, os protegidos, os beneficirios do nepotismo histrico instalado no pas, so os que levam vantagens e aproveitam.
H uma crise imensurada ainda, internacional, que a todos afeta e inquieta. Mas h tambm a outra da falta de lisura, de descompromisso com o bem comum, de desonestidade, que envolve o homem incorrupto, atirado no balaio de gatos em que se misturam os fora-da-lei, de toda procedncia, nvel e natureza.
Os recursos se perdem no ralo da insensatez, da irresponsabilidade, da incompetncia, das fraudes, da delinquncia e do crime, resultando perniciosamente para o cidado e para o pas. Em consequncia, padecem os homens de bem, confirmando o pensamento de que os justos pagam pelos pecadores.
Mais do que nunca, h necessidade de uma tomada nacional de conscincia. A crise passar, mas a omisso diante dos desacertos e descaminhos no se solucionar seno mediante uma verdadeira cruzada, que envolva os cidados que querem uma nao prspera e feliz.
A baixa credibilidade no sistema poltico que praticamos responsvel pelo pessimismo que habita entre ns. A velha escola do rouba mas faz ainda conta com inmeros proslitos em nosso meio. A sucesso de escndalos envolvendo autoridades de vrios escales e grupos cuidadosamente montados para enricar, em detrimento do interesse nacional, se demonstra em todas as edies dos jornais e noticirios das tevs e rdios.
Lamentavelmente a no punio dos culpados por formidveis golpes, praticados contra os cofres pblicos e os cidados continua, estimulando os desonestos, os dilapidadores de dinheiros alheios e os aproveitadores de oportunidades.
Encoraja o homem de bem saber que se identificam agora delinquentes, presos diariamente, mas diariamente libertados, por fora do dispositivos legais que parecem estabelecidos para servir ao crime e ao criminoso. A autoridade policial de hoje ou o severo juiz que conquista a simpatia e o apoio dos brasileiros, de uma hora para outra surge no rol da suspeio. A qu e a quem interessa a poltica de desnorteamento da conscincia nacional?
No tempo de Hamlet, dir-se-ia: h algo de podre no reino da Dinamarca. Entre ns, o que dizer da degradao e da putrefao?


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Por Web Outros - 9/4/2009 11:37:03
A disputa que no chegou a acontecer

Carlos Lindenberg - Jornal "Hoje em Dia"

Quem esteve em Montes Claros na ltima segunda-feira certamente no viu, com os olhos de quem acompanha poltica h muitos anos, a to comentada disputa entre o governador Acio Neves e a ministra Dilma Rousseff, da Casa Civil, competio essa em torno de qu, ningum sabe. Ora, o que se sabe que a disputa do governador Acio Neves com o governador de So Paulo, Jos Serra - e Serra no esteve em Montes Claros, ao que consta. De forma que a propalada disputa est menos na realidade dos fatos do que na sempre frtil imaginao das pessoas, da porque h muita gente que v fantasma ao meio-dia.
Da mesma forma, quem tambm esteve em Montes Claros e conhece a cidade, com os olhos de quem l viveu por muitos anos, certamente se surpreendeu com a magnitude do evento. H muitos anos no se via coisa igual na antiga capital mineira da Sudene e nem sempre se v em outras cidades. A um s tempo, estavam em Montes Claros o presidente da Repblica, o vice-presidente, o governador e o seu vice, nada menos de 12 outros governadores e 11 ministros, alm de boa parte da bancada de deputados federais e estaduais, e presidentes de empresas e instituies pblicas. evidente que acontecimento de tal vulto no deixa de quebrar a rotina da cidade e de trazer algum tipo de transtorno sua populao.
Mas como o presidente e os demais visitantes no estavam l para tomar um golo num dos diversos bares da cidade nem para comer uma carne de sol de dois pelos, de ver que Montes Claros pode ao final contabilizar ganhos que raramente so escriturados em outros municpios de igual porte. No basta citar a inaugurao da fbrica de biodiesel Darcy Ribeiro, de resto j em funcionamento, nem a ordem de servio para a reconstruo da BR-135. Montes Claros, nos ltimos dias, est nos principais jornais e telejornais do pas, como palco de decises importantes e at mesmo de um embate que est mais para a Batalha de Itarar do que para a realidade poltica dos dias que correm. Ou algum imagina que todo santo dia que alguma cidade, exceo de Braslia, est no foco do noticirio e pode hospedar, mesmo que por um s dia, tanta gente com tamanho poder de deciso?
De sorte que Montes Claros voltou a brilhar nessa ltima segunda-feira. O evento patrocinado pela Prefeitura da cidade, pelo Governo estadual e pelo Governo federal fez Montes Claros viver um momento de grande intensidade, coisa que no acontecia, de fato, h muito tempo. E como em outros momentos, os visitantes puderam ser contemplados com a dana e a musicalidade do grupo Banz e com a voz genuinamente sertaneja do eterno vaqueiro Nivaldo Maciel no seu inconfundvel toque do aboio.
O fato de a ministra Dilma e o governador Acio estarem juntos, a um s tempo, num evento de tamanhas propores pode estimular especulaes, mas no sustenta formulaes do tipo quem ganhou ou quem perdeu. Ningum ganhou ou perdeu nada. At porque ningum estava ali para ganhar ou perder qualquer coisa. No mximo, a cidade ganhou projeo e alguns benefcios, mas em troca perdeu, por algumas horas, a sua madorna de uma segunda-feira de outono com temperatura de vero. Nada mais, nada menos.
A ministra Dilma Rousseff e o governador Acio Neves, para no falar no ministro Patrus Ananias e no vice-governador Antnio Anastasia, ambos presentes e bastante desenvoltos, no perderam nem ganharam nada alm do que normalmente ganha quem anfitriona espetculo de tamanha grandeza ou quem dele participa com destaque, caso de Acio e Dilma. verdade, como soe acontecer, que havia claques de ambos os lados, tanto para vaiar como para aplaudir. Assim como Dilma e Acio cumpriram o seu papel, cada um sua maneira. Acio mais desenvolto, mais vontade, digamos, o que lhe caracterstico. Dilma esforando-se para manter sua imagem colada do presidente Lula. Ambos, no entanto, tiveram dois momentos abaixo do que deles se pode esperar, considerando-os postulantes ao cargo maior da nao. Acio lendo discurso, num palco poltico. Dilma tambm lendo anotaes, mas com visvel falta de emoo, carente de comunicabilidade. de se esperar mais dos dois, mesmo que no se queira ver no encontro de ambos, em Montes Claros, uma disputa por espao e muito menos por votos. A disputa de Acio, por enquanto, com Jos Serra em busca de espao no PSDB. J a da ministra Dilma Rousseff, novamente mineirizada, com ela mesma, na sua ainda falta de jeito para se dirigir populao, coisa, no entanto, que se corrige com alguns treinos. A destacar, o empenho dela para fazer o dever de casa.


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Por Web Outros - 9/4/2009 08:30
A gua dos caminhes
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Dou-me cachimnia de ler notcias sobre a pobreza e os pobres deste pas, contrariando o que ocorre corriqueiramente, porque existem os que tm averso por esse segmento sofrido da populao. Antes de entrar no assunto propriamente dito, examino a palavra cachimnia, popular, de origem ignorada, usada outrora pelo meu pai. H anos no a ouo de outra boca. pachorra, ou algo assim.
Temos de nos convencer e admitir que h gente pobre neste pas. Numerosos.
Tenho mais contato com eles do que com os privilegiados, os ricos, a elite, at porque aqueles so numerosos demais. No se deve atrelar s belezas coloridas das novelas de televiso ou das praias de mar azul, palmeiras ao vento, areias limpas, ocupadas pelo que h de mais belo no espcime humano, em dias de sol resplandescente.
Para chegarmos s esfuziantes belezas da orla martima, temos de viajar. Para encontrarmos os pobres, os carentes, os indigentes, os despidos de esperana e rotos de roupas, basta andar cem metros.
Nem isso. suficiente sair de casa. Eles esto nas praas, nas ruas, nos passeios pblicos, nos bancos dos logradouros, na sarjeta, nas filas para tudo e que nada, via de regra, resolvem.
Pessimismo ao extremo? Li a seguinte mensagem, do municpio de Pedra Azul: Peo ajuda para que entrem em contato com o coronel do Exrcito para nos enviar gua, pois a situao aqui muito feia, s temos uma gua salobra, no temos emprego, mas graas a Deus temos um terreninho para passar o resto da velhice.
Agora os caminhes-pipa pararam de nos trazer gua, e dizem que o coronel mandou parar; pelo amor de Deus, que leve esta notcia ao coronel, pois aqui muito longe, onde s encontramos uma gua salobra, salgada; nessa nossa regio, a chuva muito difcil, pelo amor de Deus, faam alguma coisa.
Procurei esclarecer-me.
O 555 Batalho do Exrcito suspendeu a Operao-Pipa de fornecimento de gua potvel ao Norte de Minas e Vale do Jequitinhonha, com abastecimento comprometido pela estiagem.
O programa atendia 32 municpios e a suspenso decorreu de determinao do Ministrio da Defesa, uma vez esgotados os recursos repassados pelo Ministrio de Integrao Nacional.
To logo fortalecidos os recursos, o servio, de to elevado sentido social, assistencial e humano, voltar, havendo 500 pipeiros cadastrados.
Desde outubro de 2007, o Exrcito fazia essa distribuio s comunidades.
O programa emergencial. So analisados os decretos de situao de emergncia em guas Formosas, Berilo, Buritizeiro, Carbonita. Crislita, Malacacheta, Miravnia, Nova Porteirinha, Novorizonte, Olhos Dgua, Padre Carvalho, Pot, Riachinho, So Joo da Lagoa, So Joo da Ponte e outros. No se tem direito de deixar estas populaes mngua de algo essencial vida.
Ademais, sabido e consabido que o governo gasta dinheiro como gua, que me perdoem o trocadilho.
Nas duas casas do Congresso, por exemplo, h uma torneira ligada a uma tubulao de grande dimetro, despejando recursos elevados no vaso do desperdcio, como no caso das Diretorias do Senado.
Ainda bem que, para resolver o problema, pensa-se criar uma nova Diretoria para cuidar das remanescentes. Este pas srio?
Esses pequeninos cidados brasileiros, que no se envolvem em invases de prdios pblicos e propriedades privadas, que no causam prejuzo ao patrimnio de quem quer que seja, precisariam ser lembrados na hora de definio de programas de governo.
Deve existir algum meio de ajud-los na ampliao de sua produo, de orient-los quanto sua lavoura.
Ficar sem gua, nem imaginar!


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Por Web Outros - 8/4/2009 08:43:53
A viagem final

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Dias atrs, comentava as incmodas, mas amveis e inesquecveis, viagens ferrovirias, dando nfase a uma estrada que mais de perto conheci: a do percurso da Central do Brasil, entre Belo Horizonte e Montes Claros. To amigas as viagens que, numa delas, na poca candente da Revoluo de 1930, levou o emrito e simples Hermenegildo Chaves, Monzeca a mudar o programa de seu deslocamento da capital cidade norte-mineira.
O montesclaros.com ouviu Mauro Santayana, residente em Braslia, sobre o fato. Santayana, que chegou festejado e atuante aos oitenta anos, disse que o episdio lhe foi confirmado por Monzeca a quem chamava de Chaves.
Monzeca mencionou que, numa estao de parada para Montes Claros (tem dvida, se em Sete Lagoas ou Corinto) o trem foi embora e ele ficou, pois havia sado ligeiramente para uma mesa de sinuca. Sem ter mesmo o que fazer, arrumou uma namorada... na gare... pois no havia como prosseguir e fazer a reportagem sobre o desdobramento dos episdios ocorridos em Montes Claros, aps o tiroteio de 6 de fevereiro de 1930, com mortos e feridos. O assuntos foi manchete principal no Rio de Janeiro durante meses, por quase um ano.
Santayana, durante a ditadura militar brasileira andou, pela Europa e conheceu vtimas de governos fortes e ditaduras em outros pases. Foi o redator dos discursos de Tancredo Neves, governador e presidente eleito, sendo tambm assessor de Itamar Franco na Presidncia.
Monzeca foi figura doce, amena, folclrica e antolgica da imprensa mineira.
Eu o via, na rua Gois, esperando o momento de tomar o cafezinho na Gruta.
No tive privilgio de maior convivncia com ele, jornalista reverenciado pelos colegas de ofcio. Destes, tive informaes preciosas, inclusive transmitidas por Antnio Tibrcio Henriques, que foi secretrio do Estado por muitos anos. Quanto a mim, cumprimentos e curtas conversas, porque me parecia profanao aproximar-me do cone.
Para Roberto Elsio, Hermenegildo Chaves teve o texto mais completo e lrico da histria da imprensa mineira, conforme testemunho de mestre Ayres da Matta Machado.
Para se conhecer aquela poca e seus personagens, recomendaria a leitura de Sob a sombra da noite, o excelente livro de memria de nosso companheiro, aqui, aos domingos.
Para os caricaturistas, no seria difcil retratar Monzeca: Um mao de cigarros Beverly, um copo de caf, um violo. Era bomio estranhamento avesso a bebidas alcolicas. Um bomio no praticante, se diria melhor.
Cercado de admiradoras, o jornalista jamais se deixou enredar no aranhol do amor, para ele algo muito srio, que exigia respeito qualquer que fosse o nvel do relacionamento. Contam episdios fantsticos de sua vida pessoal, profissional, sentimental; uma figura humana admirvel, na simplicidade do comportamento, no brilho quase escondido de um estupenda inteligncia, como comentou Roberto.
Residia no Prado, numa casa estilo bangal, quintal buclico, na rua Coronel Pedro Jorge. Grandes jabuticabeiras ali se destacavam e ele afianava que eram centenrias. Ali ficavam apenas os moradores: Monzeca e uma antiga empregada, morena escura, ou mulata, gorda, completamente identificada e devotada ao jornalista em envelhecimento.
Em determinada manh, sofreu um infarto. Internado no Prontocor, mandou chamar ao hospital um juiz de paz e a empregada.
Casaram-se, na solenidade da travessia de uma para outra vida, como mandam as leis dos homens e de Deus, papel passado.
Nunca se viu Monzeca irado, revoltado.
Foi o maior autor de necrolgios da imprensa mineira.
No sei quem escreveu o seu, evidentemente no supervel aos que redigira sobre os grandes e os pequenos que marcaram sua existncia.


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Por Web outros - 4/4/2009 14:09:14
O primado letal
Manoel Hygino -Jornal "Hoje em Dia"

Eu me pergunto insistentemente: conseguir a lei, a ordem, a sade, a inteligncia do homem vencer a droga? Quem se der ao cuidado de mais detidamente se deter sobre as informaes que, de todas as regies do planeta, chegam, verificar que a indagao faz sentido. Jamais, em tempo algum, a humildade se tornou to subserviente a to terrvel peste, propagada pelo homem, criminosamente, para auferir lucros.
O Brasil o dcimo segundo pas do mundo que mais investe em defesa, revela pesquisa realizada na Argentina.
Nosso pas gastou US$ 20,7 bilhes nessa rea em 2007. Estamos, sim, utilizando recursos preciosos para nos precatar contra os perigos externos. Absolutamente imprescindvel.
Quanto estamos investindo na guerra contra as drogas e as organizaes criminosas?
Estamos alcanando sucesso nessa guerra, quando sequer sabemos exatamente quais e quantos so os inimigos, onde se encontram, que armas utilizam?
Esta a mais cruel das guerras, porque visa destruir e escravizar o que de mais puro existe, a nossa juventude, nossos adolescentes, alheios, ingnuos, omissos ou j dominados pela fria dos narcotraficantes.
Sem regatear dados e estatsticas, quantos no Brasil j morreram nas mos das quadrilhas ou nos hospitais e clnicas psiquitricas, em acidentes provocados pelo uso das drogas?
A guerra est declarada e a mais terrvel, porque assassina o futuro e extermina esperanas.
So brasileiros matando brasileiros, sob a gide da fora, da insensibilidade, dos desvios morais, para extrair dinheiro da mais srdida das atividades humanas.
As grandes cidades e as pequenas esto sob efeito e domnio das drogas e dos homens das drogas, envolvendo milhes de pessoas, vtimas, centenas e centenas de malfeitores, e milhes e milhes de dlares.
Esse comrcio se amplia ilimitadamente, por mares nunca antes navegados, e as populaes das grandes cidades e dos mais distantes rinces se tornaram refns dos bandidos e das gangues.
At quando?
Os empresrios da morte infestam desde a mais extensa e bela orla atlntica da Amrica do Sul at os confins dos matos gerais. Para eles, nada impossvel, at mesmo perder a vida ou causar a morte de inocentes ou dos agentes da lei.
A cidade do Rio de Janeiro se tornou fonte de coletneas de notcias de crimes, hediondos muitos, ocupando da primeira ltima pgina dos jornais, dos primeiros aos ltimos minutos do noticirio das televises. At radicais defensores dos direitos humanos j se convenceram de que esses criminosos travestidos de homens, criados imagem e semelhana de Deus, no merecem mais tratamento benigno.
Todo o Brasil virou isso.
Em Pirapora, onde comea a navegao no So Francisco, importante entroncamento rodo-ferro-hidrovirio, o crime chegou, devastadoramente. Em meados de maro, os registros policiais revelaram ocorrncias funestas. Por causa de um acerto de dvidas com drogas, um bando baleou um nibus e assassinou duas pessoas.
Havia muitas crianas no coletivo. frente, os marginais mataram um adolescente de apenas 15 anos. Adiante, balearam um cidado de 23 anos. O que aconteceu na progressista cidade ribeirinha assustou.
Crimes violentos mancharam de sangue as margens do grande rio.
Apesar de tudo, no cinge a violncia s drogas. Foram arrancados os fios eltricos do aeroporto de Diamantina.
Assim, cidade que receberia no dia 6 de abril, o presidente Lula para uma reunio da Sudene, foi cancelada. A tal ponto chegamos. Lamento e protesto.


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Por Web Outros - 27/3/2009 09:15:16

De trem de ferro

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A ferrovia, em nenhum lugar do mundo, serve apenas para cargas. um dos transportes preferidos para passageiros, seja nos Estados Unidos, na Europa na sia, ou na frica.
Enquanto nos pases de primeiro mundo, cuidou-se de melhorar a qualidade dos servios oferecidos aos passageiros, por aqui esta piorou, fazendo com que a rodovia assumisse a predominncia de que hoje em termos de comunicao viria.
Grande parte das campanhas polticas nos Estados Unidos entre cidades se faz por ferrovia, mesmo em se tratando de candidatos a presidente da Repblica.
Aqui, o costume foi extinto. Por outro lado, nada mais sofisticado e fascinante do que uma viagem no Expresso Oriente, que inspirou Agatha Christie e outros ficcionistas e teatrlogos.
No Brasil do interior, o trem de ferro vai das principais demandas das populaes desvalidas de transporte, em que grande parte dos cidados morava e mourejava onde Judas perdera a bota.
Mas de trem sempre se conseguia aproximar-se desse lugar incerto e no sabido, hoje j descoberto pelos bandidos e quadrilhas que conhecem onde est a mina: nos bancos e seus caixas eletrnicos, principalmente.
Na interlndia brasileira, a composio frrea antiga, movida a carvo de pedra, depois a diesel, sempre foi um convite.
A gare era local de encontros entre os moradores espera da hora da aproximao da composio, de namoros memorveis mas respeitveis, de reencontro entre os que permaneceram com os que voltavam das viagens.
O regresso era com muita novidade, as informaes sobre os familiares, os acontecimentos vividos na cidade grande, a evoluo dos costumes, as apresentaes artsticas, o que se vira nos cinemas, talvez alguma pea de teatro, a opereta, gneros que dificilmente venciam os quilmetros at os lugares de menor expresso demogrfica.
Os trens traziam e levavam os que se chamava viajantes. Ou seja, os que percorriam as cidades com grandes malas, dentro das quais se comprimiam amostras de tudo fabricado nos grandes centros ou no exterior.
Dos tecidos s meadas, dos perfumes aos machados trazidos da Inglaterra. Um manancial enorme de mercadorias, que logo seriam apreciadas pelas senhoras locais e escolhidas para confeco de roupas, numa poca em que fazedoras de vestidos eram conhecidas como modistas.
Esses representantes comerciais, quase sempre jovens, embora tambm existissem portugueses maduros, levavam alegria s comunidades pacatas. Participavam das festividades da comunidade, dos leiles na porta das igrejas, frequentavam os bailes e arrumavam namoradas, com promessa de amor eterno e intransfervel.
Raramente sentavam praa na cidade visitada. Levavam vida de cigano, hoje aqui, amanh ali, mas deixavam um rastro de saudade ou saudades levavam para o resto da existncia. Nos carros ferrovirios, faziam do percurso uma sucesso de brincadeiras e truques, para amenizar as longas horas de distncia entre as estaes.
Mas o trem de ferro carregava ainda o que, procedente das capitais, abastecia o consumo local e regional.
Por outro lado, transportava os produtos do interior para as cidades maiores, sobretudo cabeas de gado para o consumo citadino.
Os polticos se deslocavam por ferrovia. Era mais fcil, mesmo quando as fagulhas do carvo atingissem os olhos dos viajores. Bons tempos que viraram anotaes de algumas famlias ou registros histricos. Como na viagem de Mello Viana, vice-presidente da Repblica, ao norte de Minas. Terminou em tiros, mortos e feridos.
Contam as ms lnguas que o conspcuo Mozeca, que se consagraria na imprensa, teve de fazer uma matria para jornal belo-horizontino, em poca de turbulncia poltica. Parou na estao da Central, em Corinto, comeou a namorar, e desapareceu por algum tempo.
Foi penoso ach-lo e traz-lo de volta ao ofcio.

(Nas fotos, o jovem jornalista Monzeca e Monzeca j consagrado editorialista do Estado de Minas, um dos mais importantes jornalistas do Brasil - mestre de Rubem Braga e de Mauro Santayana, entre outros)


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Por Web Outros - 17/3/2009 08:14:45
O sobrado de Cyro

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

H quinze anos, faleceu Cyro dos Anjos. Ou melhor, no faleceu, apenas deixou de conviver conosco. Sua obra, no muito opulenta numericamente, das melhores que os mineiros produziram no sculo passado e das mais belas que o Brasil recebeu daquele mineiro de Montes Claros, nascido em 1906.
Sua prosa poesia. O que imaginou e via nas cidades mineiras que descreveu em iminentemente universal.
Ler Cyro satisfaz e sacia, brandamente. Seu estilo machadiano, castio, lmpido, transparente; ele no camufla, no desvia, no esconde.
Soube contar a histria de Santana do Rio Verde, e o horizonte e o pr-do-sol da cidade que os mineiros inventaram para ser a primeira capital constituda na Repblica. Seu burgo sertanejo era fagueiro, sonoro, de belas luas cheias, de namoros contidos, de paixes calorosas e talvez letais, fez revoluo, gerou um presidente que foi de Minas Gerais e de Santa Catarina, mas Cyro era dos Anjos no se deixou crepitar nas chamas dos excessos.
Esse moo fundou uma espcie de romance regional, sem nada a ver com o dos escritores do Nordeste - Z Amrico, Graciliano, Jos Lins, Rachel e outros. Abriu seu prprio caminho, delimitou sendeiros, com trilhas, mas jamais se perdeu. Traou itinerrio, limpo, sem mato em derredor. Dizem que sofreu influncia de Machado. No sei. E, se o fez, nada a deplorar. Estava com bom guia, falecido dois anos depois do nascimento da cria.
Cantou seu lugar natal, da infncia e parte da adolescncia, em Menina do Sobrado, de que Paulo Narciso tomou a bondosa iniciativa de enviar-me um exemplar.
Belo presente. S lera at ento O amanuense Belmiro, um tipo de habitante de Belo Horizonte, cidade de funcionrios, embora a mineirada no gostasse do epteto.
Cndido Canela, poeta, era da mesma gerao de Cyro e evocava casos daquela poca.
Nozinho no era muito simptico de Benedito Valadares, governador de quem o autor de A montanha fora assessor, e tecia finas ironias sobre o conterrneo. guas passadas.
Quanto a mim, de outra gerao, no apreciava quem tivera alguma relao com Vargas e os que coadjuvaram durante a ditadura.
A literatura de Cyro me fez aproximar. Eu engatinhava na Gazeta do Norte, com os primeiros escritos juvenis. Cyro me surpreendeu com uma carta em que lastimava no existir a conversa de fim de tarde porta da farmcia do Mrio Veloso.
Foi a primeira vez que li a palavra boutade, que - desde ento - me associava ao autor consagrado.
H quarenta anos, a Academia Brasileira de Letras o recebeu. Foi tempo bom para a cidade natal que, logo, teve dois filhos na Casa de Machado. Poucas cidades do pas gozavam desse privilgio. O segundo era Darcy Ribeiro, outra glria do serto mineiro. Gente boa, a que a cidade deve em obras e prestgio.
Importante perodo da vida mineira passa pelos livros de Cyro.
Neles se confundem a fico, o verdadeiro e o veraz, e ele soube trabalhar com singular maestria esse material.
O leitor encontrar Belo Horizonte em fase de crescimento, os escritores que mais se destacaram, e Cyro tudo relata como profundo conhecedor da lngua e dos homens, os famosos e os simples, com os quais compartiu o cotidiano, que como todas as pocas no se repete.
A organizao do livro 100 anos de Cyro dos Anjos - Vida e obra, a ser lanado neste 2009, constitui homenagem justssima de professores da Universidade de Montes Claros. Graas ao interesse e reconhecimento da professor Ilca Vieira de Oliveira, do Departamento de Comunicao e Letras da Unimontes, preenche-se uma lacuna.
Como observou-se o tambm escritor Haroldo Lvio de Oliveira, ao frustrar-se o escritrio de advocacia de Cyro em sua cidade natal, ela perdeu um bom advogado, mas o Brasil ganhou um notvel escritor.


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Por Web Outros - 16/3/2009 09:17:16
A terra alheia

Manoel Hygino

Em 29 de agosto de 2003, 33 pessoas, que se diziam integrantes da Liga dos Camponeses Pobres do Norte de Minas, invadiram uma propriedade, com 1.440 hectares, no distrito de Tocandira, municpio de Porteirinha. Transcorridos mais de cinco anos, o Tribunal de Justia de Minas Gerais determinou a reintegrao de posse da fazenda, denominada Mulunguzinho. A 10 Cmara Cvel do Tribunal, alm da reintegrao, determinou que os invasores indenizem os donos da fazenda em 9 mil reais. O valor se refere a multa sobre valores do aluguel de pasto que os proprietrios deixaram de receber, embora os prejuzos sejam muito maiores, segundo um dos proprietrios. Ora, se h meia dzia quase de anos atrs, as terras foram invadidas exatamente porque os camponeses se diziam pobres, ser que houve uma transformao capaz de gerar o dinheiro para indenizar os proprietrios? Deixaram de ser pobres?
Tomaram a iniciativa de entrar em terra alheia talvez por ingenuidade, tangidos pela demagogia dos que acham que a soluo do problema agrrio no Brasil se faz no peito e na marra, como corriqueiramente se noticia. Ser que a lenincia o termo est em moda das autoridades contribuir para a sucesso de invases em todo o territrio nacional?
A lentido da Justia tem induzido impunidade. Meia dzia de anos depois do ingresso na terra alheia, mantidas as condies de carncia dos invasores, onde sero eles encontrados para cumprir a pena, ou seja, pagar aquilo que a Justia a condena? Se no tiverem meios de pagar, s 33 pessoas, que j devem ser mais, como sero punidas? Prender? Obrig-las a trabalho em alguma atividade no campo? Que apoio o poder pblico oferecia aos proprietrios para incrementar a sua produo? Existiam meios de comunicao para escoar a produo se aumentada fosse?
Milhares de fatos semelhantes se registraram no pas na ltima dcada. Os romanos j ensinavam que no adquirem foro de propriedade a terra cedida pela fora, a ttulo precrio ou clandestinamente.
Nec vi, nec clam, nec proecrio. E ento? O Brasil est armado pelos integrantes desses grupos j agora com mais de uma ou duas siglas, e sem qualquer compromisso com a sociedade e o poder pblico. As invases sequer se resumem aos bens fundirios privados, porque os mentores desses movimentos, a cada momento, podem irromper num prdio pblico e ocup-lo, conscientes de que a autoridade os tratar com generosidade, e a verdadeira reforma agrria no se consuma. Embora se negue, h turbulncia na terra descoberta por Cabral. Dinheiros pblicos foram distribudos aos que pretendiam ter um lar e um pedao de cho para semear, plantar e colher. Contrariamente, apenas se semeiam, se plantam e se colhem desavenas, disseminado a incerteza e a intranqilidade nos ltimos redutos de convivncia pacfica no interior. Apesar de tudo, necessrio esperar e confiar, como est no Eclesiastes: Para tudo, h um tempo, para coisa h um momento debaixo dos cus; tempo para nascer e tempo para morrer; tempo para plantar e tempo para arrancar o que se foi plantado; tempo para matar e tempo para curar; tempo para demolir e tempo para construir; tempo para chorar e tempo para rir. Mas a hora de os bons rirem est demorando.


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Por Web Outros - 15/3/2009 11:37:01
Prorrogao de prazo

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No crepsculo da vida, os homens, racionais que so, fazem uma avaliao do itinerrio percorrido. O que se fez, o que faltou fazer. Se fizemos o melhor ou se falhamos em pormenores. uma pessoal, ntima, prestao de contas consigo mesmo, que deveria ocorrer em cada dia.
Inapelavelmente, erramos muito, poderamos dar solues mais convenientes em episdios e fatos que exigiram nosso conhecimento e participao. Involuntariamente (ou no) nos omitimos em algum momento ou exageramos em outros. da condio humana.
Os brasileiros torcem para a nao sair da melhor maneira possvel da crise que se abate sobre o mundo, especificamente no que nos tange, vencendo obstculos, alguns dificlimos. De fanfarronices e frases de efeito, j estamos fartos.
Cada ser humano tem compromisso consigo mesmo e com os semelhantes. Somos autores, atores e responsveis por ns e pelos outros. Para os que esto num patamar mais avanado da vida, h de se lembrar o que Sylo Costa comentou ao ensejo do ltimo fim de ano: Fui amigo, por afinidade, de Mrio Lago, com quem me comuniquei virtualmente antes de sua partida. Ele me falou que estava com seu tempo vencido e que seria pontual. Perguntei-lhe como seria isso e ele me disse ter acordo firmado com o tempo:
Fiz um acordo de coexistncia pacfica com o tempo: Nem ele me persegue, nem eu fujo dele. Um dia a gente se encontra...
Sylo declara ter igualmente um acordo de intenes.
Conseguiu com ele incluir uma clusula que ajudasse os amigos a viver mais e felizes. Est levantando adeses. Adira e ter direito a chegar atrasado... Afinal, de que vale o tempo para o tempo?
A cada dia, acrescentamos cruzes na agenda com os nomes dos amigos. misso dolorosa a cumprir, mas temos de faz-lo.
Do caminho para Jesus, o so Clio Trpia, da Prefeitura de Belo Horizonte, Roberto Caram, Ney Drumond e, mais recente, Jos Electo Camargos, um dos meus remanescentes no Colgio Santo Agostinho.
No Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros, Joo Botelho Neto, da cidade de So Francisco; o querido Padre Aderbal Murta, invariavelmente primeiro telefonema no meu aniversrio; o primo e escritor Reivaldo Simes de Souza Canela.
Seguindo o exemplo de Eugnio Gudin, que com cem anos nos deixou, todos os dias me dou ao trabalho de recorrer pgina de anncios fnebres, para constatar se estou entre os que subiram ao andar de cima, como diz Wanderlino Arruda, presidente de referido Instituto. Ser este o anncio que no lerei.
Damos adeus, todos os dias. s pessoas que partem, transformadas em anncios pagos ou no necrolgio, que teve em Hermenegildo Chaves um de seus grandes redatores.Porque tambm para a morte necessrio bom gosto, inclinao da alma, conhecimento das virtudes daquele que passou por ns na vida, como passamos pelas pessoas nas vias pblicas.
O que se depreende da mensagem natalina de Sylo Costa que, algum dia, em algum lugar ns voltaremos a ver e conviver. Ou, como lembrou, Mrio Lago: Um dia a gente se encontra.
Num lugar mais tranquilo, na verdadeira paz que desejamos para ns e para todos os que nos foram ou so queridos.
O texto de hoje no para o Dia de Finados, 2 de novembro, em que, por sinal, nasceu o saudoso amigo intelectual Ablio Machado Filho, que sempre preferiu viver na modstia, embora tantos os seus mritos e qualidades. Um ser humano... humano. Quem desenvolve o tema com bom humor o jornalista Lustosa da Costa, com vrios livros publicados, inclusive fora do Brasil. Para ele, esse negcio de morrer muda com a idade.
Meninos, admitimos morrer como Rimbaud ou Castro Alves. Na juventude, concordamos chegar aos 40. Quando l chegamos, queremos sessenta. Aos 80, pedimos prorrogao.


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Por Web Outros - 27/2/2009 06:34:02
Zuba nas Malvinas
Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

O Automvel Clube de Montes Claros foi construdo onde outrora funcionou o Instituto Norte-Mineiro de Educao, na Praa Joo Alves, e l estudei. Grande saudade.
O logradouro foi local do famoso tiroteio de 6 de fevereiro de 1930, uma emboscada de bugres, como foi classificada por Assis Chateaubriand, e ponto de partida para a revoluo.
uma praa histrica, portanto, com um belo grupo escolar, que formou sucessivas geraes norte-mineiras.
Na Rua Joo Pimenta, minha me passou os ltimos e doridos anos de sua vida e faleceu. L, pois, concentram-se muitos sentimentos que me ligam quele pedao de minha regio natal.
No Automvel Clube, no dia 13 de abril, noite, ser lanado Malvinas Crnicas de Guerra, de Fernando Zuba, numa promoo da Academia Montesclarense de Letras, do Instituto Histrico e Geogrfico de Montes Claros e da Reitoria da Unimontes, para cujo xito se empenhou o jornalista Jorge Silveira.
Quem comparecer noite de autgrafos, ir adquirir um livro de muitas qualidades. De um cidado que nasceu para ser de imprensa, de jornal, televiso ou de rdio.
Fernando Zuba um exmio programador visual, e competente redator, como o demonstrou nos jornais a que se vinculou, seja em Montes Claros, seja em Belo Horizonte. No entanto, eminentemente um reprter que no se diminuiu quando praticamente estava cego, do que se livrou graas competncia de oftalmologistas conceituados, como Rafael Agostini.
Mas no estava o seu mal apenas nos olhos. Problemas de insuficincia renal crnica o obrigaram, e o obrigam, ao tratamento dialtico, a que se submete agora humildemente, porque paciente de qualquer patologia tem de ser humilde.
No princpio, foi difcil. H pessoas que no se conformam com suas dores e desditas, principalmente quando a pessoa irrequieta como o autntico homem de imprensa, no caso o Zuba. Tanto o que, em meio a suas atribuies das quais se vai desvencilhando na Santa Casa de Belo Horizonte, ainda teve a necessria fora de vontade para editar esse livro, que muito deve colaborao da esposa, Florinha, e filho, Fernando.
Quem se meteria na Guerra das Malvinas, saindo de Belo Horizonte, a partir de Montes Claros, incio de carreira, para atravessar o Atlntico, para cobertura de uma emissora de rdio? S mesmo Zuba. Atravs de seu primeiro livro, como diz dison Zenbio, possvel conhecer tipos, personagens, histrias e acontecimentos que ficaram submersos na bruma dos tempos. Mais do que um brilhante redator e reprter, Fernando Zuba bem poderia ser seu personagem. Encanto, humor, texto refinado e senso de responsabilidade nunca lhe faltaram. um verdadeiro contemporneo de seu tempo.
Alis, quem tiver mo o volume, contatar companheiros de redaes que conheceram o autor, com suas brincadeiras, artimanhas, peraltices e truques, que s vezes azucrinavam os menos afeitos a seu tipo de comportamento.
Nas pginas, oportunidade de memorar jornalistas do mais alto conceito e de entranhada amizade, como Dcio Gonalves de Queiroz, do extinto Dirio de Montes Claros; e ainda Fbio Doyle (meu confrade na Academia Mineira de Letras), Maria Clara Prates, Ivan Drummond, Julieta Petruceli, Gabi Santos, Helena Indi, Eduardo Costa, Carlos Herculano, Morgan da Mota, alm de Afonso Paulino, que foi diretor do Jornal de Minas, publicitrio Arnaldo Ziller e Jorge Silveira, da Codevasf.
Zuba foi um dos poucos jornalistas brasileiros a cobrir a Guerra das Malvinas. O que viu e sentiu est no livro que se editou, e que tambm merece o elogio de Ddimo Paiva, ex-presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais. Ele diz: Garanto que as geraes nascidas no tempo daquela guerra podero ver como que os donos do mundo tratam as naes perifricas.
O livro tem meu humilde prefcio, que considerei dispensvel.
O trabalho vale por si s.


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Por Web Outros - 22/2/2009 07:12:28
A deciso do STF
Manoel Hygino -Jornal Hoje em Dia

No de meu gosto fazer novelinha nestes comentrios dirios. Mas, h casos, questes e circunstncias que convidam ou impem a estender o tema por mais escritos. o caso da deciso da mais alta corte de Justia do pas, que estabelece que a pena s deve comear a ser cumprida quando no houver mais qualquer possibilidade de recurso a tribunais superiores.
algo extremamente perigoso, e o bom-senso leva todos os cidados, mesmo os sem o mnimo conhecimento de Direito, a ser contra, pelas conseqncias que advierem.
No noticirio dirio que me chega do Montesclaros.com, de Paulo Narciso, li no dia 11 deste ms que dois homens numa moto Titan preta tentaram matar, no princpio da noite, o ex-presidirio Romilson Ferreira dos Santos, de 21 anos.
Ele passava de bicicleta com a namorada por uma avenida, quando levou dois tiros de revlver. Os disparos atingiram o pescoo do rapaz, levado Santa Casa local.
Lio da histria. Nossas vias pblicas esto cheias de delinqentes, os que evadiram da priso, os em condicional, que fazem das ruas campo de batalha para velhas disputas, pois a polcia no pode estar junto ou atrs de cada criminoso, todo o tempo.
Lugar dessa gente seria na cadeia.
Mas como, se elas esto superlotadas e autoridades at dispensam os detidos, por que no h como det-los de trs das grades?
uma situao grave, convenha-se, e o poder pblico tem muitas obras servios a prestar sociedade, numa difcil escala de prioridades.
Nesta hora, lembro o premier Shimon Peres, de Israel:
Governar fixar prioridades.
Mas, como?
Uma pesquisa indita da Associao dos Magistrados Brasileiros revelou que 85% das varas judiciais do pas esto sobrecarregadas com mais de mil processos em tramitao. No sul e sudeste, em mais de 70% das varas, existem acima de 2.500 processos aguardando julgamento.
O excesso de trabalho, associado falta de estrutura fsica, so apontados pela entidade como as principais causas da morosidade.
Para no me estender muito:
So 68 milhes de processos.
Deixo a linha acima para meditao do leitor e com ele raciocino.
Quantos milhes de casos sequer chegaram a essa fase?
Quantos sequer ultrapassaram os limites de ocorrncias policiais, porque as vtimas no querem se expor?
Em jornal carioca de sexta-feira, 13 de fevereiro deparo manchete de primeira pgina: O STF agora solta rus de casos de estupro, roubo e estelionato.
De fato, de uma s vez, foram liberados um condenado por tentativa de estupro, um estelionatrio, um ladro e dois acusados por apropriao de bens e rendas pblicas.
o desdobramento da deciso ao Supremo, segundo o qual tm direito liberdade presos cuja condenao no transitou em julgado, ou seja, admite recurso.
S os ministros Ellen Grace e Joaquim Barbosa votaram contra, por entenderem que, em alguns crimes graves, o ru no merece recorrer em liberdade.
Dos cinco mencionados, quatro j se encontravam soltos por liminar.
Tambm me chega a indignao do promotor de Justia de Montes Claros, Felipe Caires, contra a deciso ao STF. Como cidado, ele alerta a sociedade sobre a barbrie que se abater sobre o pas, caso a deciso no seja revista.
A deciso no precisa ser obrigatoriamente seguida, por no possuir fora vinculante. Mas se o condenado em segunda instncia tiver flego e dinheiro suficientes, ao recorrer poder impetrar habeas- corpus at no STF e, assim, garantir o seu mais novo direito de permanecer solto pelo menos uns dez anos aps o crime.
Citado por Caires, o ministro Joaquim Barbosa lembrou que s de um dos rus, em processo de que relator, foram julgados 62 recursos no Supremo.
Alguns membros da Corte esto fora da realidade.



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Por Web Outros - 11/2/2009 16:41:51
Doena de Chagas, o retorno

Adriano Souto*

Dos 11 princpios de Joseph Goebbels, ministro da Propaganda de Hitler, o mais conhecido o que prega que "uma mentira repetida mil vezes se converte em uma verdade". o que est acontecendo com a Doena de Chagas, que atinge, em especial, a populao mais pobre, aquela que vive em casas de pau a pique, cujas frestas so o esconderijo ideal para o barbeiro transmissor. H anos, difundiu-se a ideia de que a Doena de Chagas acabara no Brasil. Trata-se de uma mentira, repetida mil vezes, que se converteu em uma "verdade" no inconsciente coletivo. Infelizmente, continua sendo uma mentira: a Doena de Chagas no foi erradicada.
Quem garante o cardiologista Rosemberg Medeiros, do Prontocor, principal hospital especializado em doenas do corao em Montes Claros. O circuito da Doena de Chagas, onde ela endmica, compreende o cerrado do Norte de Minas, Gois e Sul da Bahia. Em especial, no Norte de Minas, Barreiro da Raiz (distrito de Janaba), Botumirim, Cristlia, Itacambira, Gro Mogol, Corao de Jesus e Juramento, regio onde o mdico Carlos Chagas, em 1909, quando realizava uma campanha contra a malria que atingia os operrios que trabalhavam na construo da Estrada de Ferro Central do Brasil, identificou o protozorio "Trypanosoma cruzi", que transmitido pelo barbeiro, tambm conhecido como "chupo" ou "bicudo".
Vindos de todos estes municpios, alm do Sul da Bahia, os portadores do Mal de Chagas desembarcam em Montes Claros, maior centro encravado no vasto serto entre Belo Horizonte e Salvador, em busca de servios mdicos. Dos vrios hospitais de Montes Claros, dois se destacam no atendimento da Doena de Chagas: o Prontocor e o Hospital So Lucas. Nos dois, h 20 anos labuta o cardiologista Rosemberg Medeiros, hoje um dos maiores especialistas do pas em se tratando de Chagas. Rosemberg, discpulo do doutor Joo Valle Maurcio, que em sua poca enfrentou a fase mais aguda da proliferao da doena, tem hoje autoridade suficiente para falar a respeito, j que se encontra no meio do furaco, onde est a populao chagsica e onde novas pessoas continuam a ser contaminadas.
Estatsticas do Prontocor e do Hospital So Lucas mostram que so chagsicos 40% dos pacientes internados por causa de Insuficincia Cardaca Congestiva (ICC) e Arritmia Cardaca. Com arritmia cardaca, o corao pode no ser capaz de bombear sangue suficiente para o corpo, o que pode danificar o crebro, corao e outros rgos. "Se o barbeiro continua a na natureza, mais prximo, agora, com o crescimento urbano e o desmatamento; se seu reservatrio natural, o tatu, continua vivendo no cerrado; se o barbeiro no mudou o seu hbito alimentar e continua a chupar o sangue das pessoas, j contaminadas e os no-contaminados; se as casas continuam de pau a pique; e se a Sucam no mais combate o barbeiro como antigamente, como se pode falar que o ciclo foi quebrado, que a Doena de Chagas acabou? Garanto que no", atesta o cardiologista.
Outro problema que, com a descentralizao do atendimento e a responsabilidade do combate nas mos das prefeituras, muitas vezes no existem pessoas habilitadas a diagnosticar a doena. No cotidiano, faltam at remdios. E h outra denncia, que merece a ateno do Ministrio Pblico: na maioria das vezes, o que se constata nos preges das prefeituras a compra de remdios pelo preo mais baixo. O que tem acontecido a compra de medicamentos "similares", nem sempre eficazes, que os laboratrios vendem mais barato porque no precisam fazer testes, ao contrrio dos "genricos" e dos remdios de marca.
Barbeiro solto por a, chupando sangue de pessoas contaminadas - e tambm do restante da populao, rural e na periferia urbana. o cenrio ideal para a Doena de Chagas. Ainda mais agora que os recursos para o combate ao barbeiro foram desviados para combater a dengue.

(*) Adriano Souto editor-adjunto de Poltica


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Por Web Outros - 27/1/2009 07:39:20
O medo do desemprego
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Waldyr Senna, veterano e conceituado analista de poltica no Norte de Minas, tem base em Montes Claros. Por muito tempo, manteve a Coluna do Secretrio, em Jornal de M. Claros, editado por Oswaldo Antunes, ali formando uma dupla respeitada e respeitvel, que honra a profisso a que se dedicaram, e de que no se afastam, justia seja feita.
Leio, agora, em Waldir Senna, que indstria com base na Coria do Sul, prope levar para ali projeto, que envolve interesse de 1.500 famlias (e no pessoas), na produo de peas de vesturio. Os componentes da famlia receberiam em casa tecidos e moldes para cortar as roupas, depositadas aps confeco, em uma central. Esta se encarregaria de distribuir o produto a grandes empresas do ramo no Brasil. um projeto de grande alcance, porque no se trata apenas de cortar pano e produzir roupas. As mes de famlia, as filhas em idade adequada, que no acompanham os maridos e pais, no ficariam mais ociosas. Fabricariam as vestimentas, no prprio lar, acrescentando um rendimento adicional. algo de notrio sentido social e humano, afora o aspecto econmico.
Esta hora adequada para fazer progredir a idia, aproveitando a ensancha oportunosa, como gostava de dizer Geraldo Majela de Andrade, da redao do velho O Dirio de Belo Horizonte, onde foi companheiro de Oswaldo Antunes. O cavalo est aprestado, com sela e tudo, espera do interessado. E, muitas vezes, isso s acontece uma vez.
Iniciativa semelhante deu certo em So Paulo e oferece bons frutos no Sul de Minas com produtos txteis e bordados, de apreciado bom gosto e beleza, distribudos aos estabelecimentos comerciais nos dois estados.Em tempos normais na vida das cidades, uma alternativa sobremodo valiosa, sob mltiplos aspectos. Sobretudo agora, quando o espectro do desemprego - j elevado no Brasil - inquieta as pessoas e as famlias, diante da incerteza quanto ao futuro a mdio e curto prazos.
No ocasio a se perder e, evidentemente, o Poder Pblico municipal ser sensvel proposta. Alis, no primeiro ms deste tumultuoso 2009, duas confeces mineiras, de Itana e Ipatinga, investiram R$1,5 milho no aumento da sua capacidade de produo. Assim, contrataram empregados para produzir 315 mil uniformes s para a Vale do Rio Doce, de modo a suprir as necessidades de 48 mil empregados. A fonte no se exauriu. Neste momento especialmente, o assunto deve ser tratado prioritariamente. O homem deste nosso tempo tem mais temor do desemprego, do que da pobreza, a desigualdade social, mesmo do crime e da violncia.
O que o mundo sente, o Brasil tambm sente. H outro aspecto relevante. contribuir para que o homem de cidades como Montes Claros e as de menor porte no se sintam atradas a se transferir para as metrpoles, j inchadas e incapazes de propiciar tambm trabalho e um pouco de felicidade e conforto aos que procedem do interior. Parece-me sumamente relevante o detalhe.


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Por Web Outros - 23/1/2009 19:12:34
Morte ao anoitecer
Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Foi-se o tempo em que se acreditava que a vida comea aos 40. Hoje, pode-se somar mais quatro dcadas e o homem apenas inicia outra etapa, para chegar aos 90 em plena vitalidade, operosidade e planejando o futuro. Para viver bem em nmero mais avantajado de anos, preciso ser saudvel.
Tenho amizade slida com esses veteranos de caserna terrena. Vejo-os, com alegria, com relativa frequncia, para trocar idias. Aos que esto longe, h cartas, e e-mails, notcias pelos jornais, com os quais nos atualizamos e reciclamos idias.
A terapia trabalho, mental e fsico. No ano passado, em julho, na altura de seus 87 anos, Jos Alcino Bicalho lanou seu primeiro livro, "Poesia a Destempo", em noite de autgrafos na Academia Mineira de Letras. Assessor da presidncia da Usiminas, ex-assessor e amigo de Juscelino, ex-deputado estadual, Jos Alcino escreveu seus poemas em meio a relatrios, pareceres, memoriais, discursos.
No seu "Poema do Herosmo Obscuro", proclama: "(...) "Deixai-me, oh! cus, ficar na nulidade/Mas permiti que eu guarde esta vaidade/ De ser jamais comparsa de viles(...)/ E ento prosseguirei o meu caminho/ E falarei ento aos sanchos-pana/ Numa exploso de todas as vinganas/ Tal qual Demstenes ao povo inteiro:/ Jamais me curvarei, como as balanas, ao peso mercenrio do dinheiro".
Tenho de falar tambm de um conterrneo, Jos Pereira de Souza, que j chegou aos 90. Nasceu em famlia numerosa e, com a esposa Neusa Callado, constituiu uma prole de dez filhos, dezesseis netos e trs bisnetos.
Esse cidado foi comercirio, ingressou por concurso no Banco do Brasil, serviu na terra natal, em Belo Horizonte, no Rio de Janeiro, exerceu cargos em comisso e, finalmente, aposentou-se. Ento, comeou novo itinerrio, no se permitindo o imobilismo. Iniciou a redao de reminiscncias, publicando-as na imprensa, inclusive no HOJE EM DIA.
No acomodado, decidiu publicar o primeiro livro, "Crnicas e Contos ao Entardecer", editado pela Kroart, do Rio de Janeiro.
So sbrios os textos de Jos Pereira de Souza, que soube concatenar as idias, express-las, transp-las em linguagem agradvel, fluente, s dez crnicas de um fato rigorosamente verdico, reportando-se ao infortunado 6 de fevereiro de 1930, quando se travou o choque armado entre faces polticas, que alcanou as pginas dos principais jornais do Brasil. Seis de fevereiro passou a data no calendrio poltico nacional.
Assis Chateaubriand classificou o sangrento episdio como "emboscada de bagres" fundamentando seu julgamento nas notcias dos jornais e na oitiva de partidrios, num momento - vamos diz-lo - incendirio da vida nacional. A partir dali, estava deflagrado o movimento revolucionrio de 1930, que resultou na expulso de Washington Lus do Catete e na ascenso de Vargas, com curto interregno de governo provisrio.
O personagem um adolescente, em torno de 15-17 anos, criado em Montes Claros, afilhado do mdico Joo Alves, que se encarregou de abrig-lo e dar-lhe educao.
Fifi, este o apelido, era benquisto no rol dos rapazes de mesma idade.
Jos Pereira de Souza descreve, com habilidade e conhecimento de causa, o clima sombrio daquela tarde, quando o vice-presidente da Repblica, Melo Viana, desceu na gare da Central do Brasil. Havia efervescncia, boletins distribudos pelas faces polticas, a Concentrao Conservadora, que apoiava o Catete e a Aliana Liberal, contra Washington Lus.
Os nimos estavam exaltados. "Vivas" e "Morras" ecoavam em meio passeata, at a praa donde residia Joo Alves, lder da Aliana Liberal. Havia densa expectativa. A estao ferroviria se fizera pequena para receber os adeptos de Melo Viana. A cidade estava cheia de jagunos.
O escritor, ora nonagenrio, se encontrava em meio ao povo. Aos adolescentes interessava a banda de msica e o foguetrio. Fifi pulava. A noite desceu. Muito barulho, gente em correria, sem rumo. De repente, Fifi caiu aos ps do companheiro, que o chamou pelo nome. Inutilmente. Sangue escorria do corpo da vtima. Jos Pereira foi ajudado por um desconhecido a transportar Fifi para um local seguro. A revoluo comeou ali, naquela noite, com um rapazinho sacrificado


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Por Web Outros - 28/12/2008 19:13:10
O poeta esquecido
Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Primeiro, a querida e saudosa amiga acadmica Alade Lisboa de Oliveira me trouxe um volume sobre Severiano de Resende, que fizera parte do legado do esposo, um dos expoentes do magistrio de lngua portuguesa, professor Jos Loureno, outrora temido pelos candidatos ao vestibular, quando havia provas orais.
Depois, muito tempo depois, o competente jornalista Paulo Narciso, to admirado justamente pelo que escreve e pela conduta lmpida e solidria, me formulou a pergunta, em 2005: Seria o padre Jos Severiano de Resende irmo de Henrique de Resende, o vate que integrou o Grupo Verde, de Cataguases ?
A pergunta me martelou todo esse tempo, porque nem sempre as atividades cotidianas permitem algum se dedicar a um determinado tema. At que o escritor Vanderlei Pequeno ma abriu via preciosa, submetendo a indagao ao estudioso Fernando Moreira, que me aclarou o que era importante.
O padre Jos Severiano de Resende e Henrique de Resende so descendentes de Joo de Resende Costa, do Arquiplago dos Aores e Helena Maria de Rezende, casal que teve uma das filhas naquele arquiplago antes de radicar-se no Brasil.
O sacerdote filho do cel. Severiano Nunes Cardoso de Rezende e Custdia A. de Mello Rezende, enquanto Enrique filho do dr. Afonso H. Vieira de Rezende e Josefina Adlia Faria de Rezende. Parentes, pois, mas no irmos.
Segundo Andrade Muricy, Severiano um dos simbolistas brasileiros representativos e, apesar de incompletamente realizado, maior poeta, depois de Alphonsus de Guimares do Simbolismo em Minas Gerais.
Levou uma vida agitada Severiano de Resende. Nascido em Mariana, em 21 de janeiro de 1871, cursou o Liceu Mineiro, de Ouro Preto, onde foi colega de Alphonsus. Passou pela Faculdade de Direito de SP e ingressou no Seminrio de Mariana, ordenando-se em 1897. J tinha publicado trs livros polmicos, segundo Assis Brasil, de teor desabusado. Eram Cartas Paulistas, 1890; Eduardo Prado, 1905; e O meu flos sanctorum, 1908. Seus artigos contra os medocres da literatura causaram sensao no Rio de Janeiro e So Paulo, alm de desavenas contra autoridades eclesiticas.
Desencantado com a Igreja, deixou a batina, casou-se, saiu do Brasil e viveu, precariamente, em Paris, onde manteve uma coluna sobre literatura brasileira no Mercure de France. Em 1915, voltou a Minas Gerais, visitou amigos, entre os quais o solitrio Alphonsus em Mariana, indo ambos a Belo Horizonte, onde receberam homenagem. Morreu em Paris, em 14 de novembro de 1931 e foi sepultado numa pequena cidade no Sul da Frana.
Para Fernando Ges, Severiano foi um inovador na poesia, com sonetos parnasianos, ao lado de poemas religiosos, ricos de inovaes e em metros no consagrados. Belos e estranhos poemas, que fazem de Jos Severiano Resende, no esquecido e to mal conhecido, um dos nossos grandes poetas.
Foi oficial da Ordem de Cristo, oficial da Ordem de Santiago, de Portugal, Cavaleiro da Ordem da Estrela da Romnia. Foram-lhe prestadas grandes homenagens pela Embaixada e Consulado do Brasil, em Paris, quando de sua morte.
Em Mistrios, Severiano de Resende descreve o lobisomem como um homem pardo de hisurto pelo e de melenas ao vento que lana dos olhos chispas transcendentes e da fauce vomita sangue e fogo.
Permanece indecifrado a autoria da msica que Paulo Narciso lembra, muito cantada na nossa regio, com respeito admirvel: Quem fez a lua, que universo aclara, de luz to rara, quem a fez assim? Quem as estrelas ps no firmamento, eu firmo e creio fostes vs, meu Deus. Quem a meia rosa cingiu de espinhos, e aos passarinhos quem os fez cantar? Quem fez a terra rebentar em flores, em to lindas cores, quem as fez assim?
A msica teria letra de Severiano, ou de seu grande amigo Alphonsus? Observo: o Resende com s ou z varia nos originais.


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Por Web Outros - 22/12/2008 10:10:17
As vozes do Natal
Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

O Natal oferece oportunidade acima de tudo para meditar sobre o homem, sobre a Terra e sob a terra. Ao evocar a lembrana do Cristo Jesus, deveria destinar a reunio dos homens de boa vontade, no lar, as naes e os povos, para assimilar a necessidade de praticar a lio de 2 mil e poucos anos atrs.
Os novos usos e costumes tm afastado o homem das vias e dos ensinamentos de bem viver, atravs do amor, que comearam a vicejar e a ampliar-se desde o nascimento daquela criatura em Belm, ou Nazar pouco importa, at o sacrifcio que chegou a trmino no Glgota. No conseguimos absorver o sentido de uma vista reta e justa, a significao de exemplos e fatos que resultaram da ao de um simples homem do Oriente, numa terra e poca dominadas por estrangeiros e que, a cada passo, indicava os caminhos da dignidade, da convivncia, do bem e do bom. Se praticadas as lies do modesto filho do carpinteiro, o mundo seria outro, mais feliz. Mas o ensinamento ainda h de ser incutido em todos os coraes para que produza bons frutos.
No conseguimos paz, porque no a temos dentro de ns. vicejante em cada um e em todos que se alcanaro os benficos efeitos jamais alcanados. A humanidade sofre em dor. Na noite de Natal, para comemorar o nascimento dEle, no esto mais conosco os que nos deram a vida, e os que os geraram, e os que foram irmos e parentes em todos os graus.
Eles partiram para a longa viagem, mas deixaram marcas profundas e nossos espritos e sentimentos. O prprio encontro natalino uma forte reminiscncia de costumes ancestrais, que nos acompanham durante dcadas. a fora do passado dentro de ns. No bulcio da noite festiva, pulsa dentro de ns um tempo pretrito que no morreu. As caras novas introduzidas no lar evocam as dos que antes estiveram conosco na orao e junto ao prespio, quando buscvamos aprender integralmente a significao do episdio introduzido no cenrio da existncia, pela lio maior que recebemos do Oriente. Nestas horas e momentos percebemos que a vida no termina com a morte, que h transcendentais fenmenos que ultrapassam a festa e os que ela comemoram.
H um imenso mistrio que se vai desvendando a cada ano, enquanto o tempo se esvai e personagens em derredor se substituem ou se sucedem, acompanhando a ordem natural. No Natal, ressoam, no mais ntimo de cada um de ns, vozes imemoriais, que confirmam a idia do homem, criado imagem e semelhana de Deus, para conviver em amor e paz com seus semelhantes. O ensinamento maior, todavia, infelizmente ainda no foi assimilado, como convm.


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Por Web Outros - 16/12/2008 08:44:49
Deus que sabe

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia"

O Rotary Club Francisco S e o Clube Social de Francisco S, realizadores da festa Brejeiro Ausente e Brejeiro do Corao, daquela cidade norte-mineira, concederam-me, em setembro, o ttulo e o belo diploma de "Brejeiro Ausente".
Este foi assinado por Mires de Ftima Soares Pena e Silva, presidente do primeiro, e Maria Hide Antunes Coelho, presidente da segunda.
Brejo das Almas nome antigo. Agora Francisco S, homenagem a um brioso homem pblico nascido na regio, a que tanto deve, assim como o Brasil. Mas consagrado permaneceu Brejo das Almas, que j mereceu reverncia e carinho da nobreza intelectual e artstica brasileira.
Drummond cantou sua musa em um livro memorvel. Yvonne de Oliveira Silveira, presidente da Academia Montesclarense de Letras, e Olyntho da Silveira tm primoroso trabalho histrico e social sobre o municpio. Geraldo Tito redigiu lembranas sobre o Brejo e outros brejos da vida. Haroldo Lvio fez o mesmo, com seu talento e memria fabulosas.
Paulo Narciso esconde seu amor na humildade.
Antnio Dias, ali nascido, chegou presidncia da Assemblia Legislativa de Minas Gerais, por todos os mritos, ocupando ainda outros importantes cargos pblicos. Alm de prefeito de sua cidade natal.
sempre vulnervel toda lista que se faa, sobretudo de um municpio rico em valores humanos, intelectuais e artsticos, que deixou descendncia admirvel, como Maria Luiza Silveira Teles, escritora de grandes virtudes e educadora reconhecida. Como virtudes tem tambm o irmo romancista.
No Brejo esteve o velho e estranho louco, de procedncia desconhecida como o prprio fim. Surgiu sujo, de roupas rasgadas, percorria as ruas sem incomodar e sem nada pedir. Pensativo e triste, parceria sofrer de alguma dor moral, no de loucura. Jamais esclareceu a mnima coisa sobre si mesmo, quem era, de onde viera e para onde ia. AA A resposta era nica "Deus quem sabe", no se perturbando com as brincadeiras dos meninos malinos. Dava a impresso de um homem cansado dos homens, desiludido, desencantado.
Em saudao a uma nova acadmica, Karla Celene Campos, Vanderlino Arruda, em discurso iluminado, fez o elogio autora de "Ventos e Vivncias no Brejo das Almas". Um hino de louvor cidade e a sua gente, seus costumes, tradies, alguma saga com a do padre Augusto frente.
Por que esse fascnio de um aglomerado humano to distante dos brilhos das capitais? Por que outras maiores no foram brindadas com versos e cantares?
Joo Cabral de Melo Neto, autor de "Morte e Vida Severina", numa entrevista "Folha de S. Paulo", declarou: "Quando sa do Recife, numa viagem de muitos dias e aventuras, com destino ao Rio de Janeiro, passei por uma cidadezinha por onde ningum passou, nem mesmo Carlos Drummond de Andrade, apesar de a cidadezinha, no Norte de Minas e prximo a Montes Claros, ter o nome do livro do hoje considerado maior poeta brasileiro: Brejo das Almas".

Quem passa por ali, mesmo meramente por passar, no a esquece. A pessoa entra por suas ruas e ela entra definitivamente no corao e na memria. Que feitio teria a cidadezinha?
Karla Celene, uma voz autntica e de rara beleza, no se sente no dever de esclarecer sua afinidade com o Brejo. "A funo do escritor no esclarecer. Machado de Assis jamais esclareceu se Capitu traiu ou no Bentinho. Esclarecer cabe jornalistas. O escritor, a exemplo dos filsofos, deve "fazer pensar, sugerir, insinuar, incomodar, semear dvidas, lembrar qu"
O apreo do Brejo me vale muito, eu que tive ascendncia por ali, nas redondezas da cidadezinha, to preciosa para todos ns. Ela tem a essncia da vida.


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Por Web Outros - 6/12/2008 07:48:31
Petrleo em Minas

Manoel Hygino
Jornal "Hoje em Dia"

No tempo de Getlio Vargas, apareceu um americano por aqui e disse que o Brasil no tinha petrleo. Naquela poca, ainda se consumia pouco hidrocarboneto, isto , petrleo e derivados. Certamente Link pertenceria a algum grupo internacional interessado em descobrir o ouro negro em outros pedaos do planeta.
Monteiro Lobato, que era patriota, homem de viso e com notvel tenacidade, no acreditou. Por que, existindo petrleo em derredor, a natureza somente o escondia do Brasil, cuja rea geogrfica a maior de todos os pases da regio?
O bravo paulista pagou caro por defender suas idias. Chegou a ser preso, por desobedecer a verso oficial de que hidrocarboneto por c no havia. Perfurou o seu prprio poo, com os minguados recursos tcnicos de ento, e nada se localizou de produo aproveitvel. Veio o silncio.
Quando Getlio j era presidente constitucional, muitos anos aps, ele prprio lanou a campanha O petrleo nosso, com apoio macio da juventude, dos nacionalistas de todas as correntes polticas, que piamente criam que aqui no era s de caf e leite, de ouro, pedras preciosas, e minrio de ferro.
Pioneiro na perfurao de poos petrolferos em reas profundas, possuidor de tcnicas avanadas, o Brasil se transformou num dos grandes produtores do mundo, e muito mais tem a pesquisar, inclusive no pr-sal na costa martima. A natureza, ou Deus, como se quiser, deixara em territrio brasileiro, em terra e no mar, o tal petrleo que o famoso Mister Link dissera inexistir.
No se admitiria, porm, que o leo s pudesse ser extrado junto orla martima, um privilgio que Deus ou a natureza tampouco tivesse definido. Por que? Minas Gerais, estado mediterrneo, insistia para que se promovessem pesquisas em seu territrio, to grande como a Frana. Parecia m vontade com a terra bero de Tiradentes e de grandes nacionalistas. Teimou-se em que a Unio trabalhasse no Norte-mineiro, como um tudo. No entanto, bateu-se na tecla, tendo uma empresa de Belo Horizonte, a Brain Tecnologia, elaborado o estudo Avaliao do Potencial Patrolfero da Bacia do So Francisco. A rea em questo se estende por Minas, Bahia, Gois, Tocantins e Distrito Federal, compreendendo o polgono Buritis, Paracatu, Pirapora, Januria. A bacia do So Francisco praticamente estava inexplorada quanto pesquisa de hidrocarbonetos.
De 1960 a 1990, estudos geolgicos de carter regional foram realizados, identificando-se quatro situaes para proposio de locao de poos exploratrios, sendo dois perfurados em Minas. Concludos, revelaram indcios significativos de gs.Resumindo, emanaes naturais de gases provenientes do subsolo e potencial petrolfero da Bacia do So Francisco eram dados animadores. A descoberta de grandes reservas comerciais de hidrocarbonetos em bacias proterozicas da Sibria, China, Estados Unidos e Austrlia demonstrou que o que l ocorria, semelhantemente a Minas Gerais, viabiliza a produo de leo e gs entre ns.
Mais recentemente, a Petrobras divulgou finalmente! - que se comprovara a presena de petrleo e gs em poo ao Sul da bacia do Jequitinhonha, em reservatrio arenoso acima da camada de sal. O poo operado pela prpria Petrobras, que tem 60% de participao, e a Statoil Hydro, 40%.
A nota oficial era clara: A descoberta indica o bom potencial daquela bacia. Os reservatrios descobertos so arenitos e esto a 3.630 metros de profundidade. A extenso da jazida e sua economicidade sero avaliados oportunamente pelo Plano de Avaliao a ser proposto Agncia Nacional de Petrleo, Gs Natural e Biocombustveis, ANP, conforme determina o contrato de concesso. A perfurao ter seguimento.
O essencial, contudo, mostrar que Minas Gerais tem petrleo e gs, como a prpria natureza sempre demonstrou, expelindo o que emanava do subsolo. A constatao de agora haver de estimular novas pesquisas e perfuraes. No ser possvel deixar s no que j se conseguiu na bendita regio do Jequitinhonha. H muito a trabalhar. E o Brasil precisa.


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Por Web Outros - 1/12/2008 14:17:53
Uma conscincia nacional

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Desde que surgiu a idia do dia da Conscincia Negra, fiz reparos. Meditemos sobre o assunto. Em 9 de janeiro de 2003, sancionou-se a lei 10.639, que incluiu o artigo 79-B, na Lei n 9.394/96, (Lei das Diretrizes e Bases da Educao Nacional). Tornava-se obrigatrio o ensino sobre Histria e Cultura Afro-Brasileira nos estabelecimentos de ensino fundamental e mdio, oficiais e particulares. Fixava-se o dia 20 de novembro como Dia Nacional da Conscincia Negra.
Penso que todos os dias devem ser da Conscincia Negra, como deveriam ser da Conscincia Branca, Azul, Amarela ou Vermelha. Cumpre ensinar ao povo, a partir da infncia e da adolescncia, sobre a valiosssima contribuio do negro na formao de nosso povo, sob todos os aspectos. Mais importante que os professores procurassem incutir no menino ou no jovem que entrava no ensino mdio o realce e alta significao do negro na formao do Brasil.
O ex-ministro Arnaldo Sussekind foi claro: Pensou-se na Educao do provo brasileiro, inclusive no contedo programtico escolar, o estudo da Histria da frica e dos africanos, a luta dos negros no Brasil, a cultura negra brasileira e o negro na formao da sociedade nacional, buscando-se resgatar a contribuio do povo negro nas reas social, econmica e poltica do pas.
Substantivo abstrato, conscincia no tem cor. o sentimento que o homem tem de si prprio, da sua existncia. Assim, a designao conscincia negra no a mais prpria em mbito geral. Porque o que interessa, no caso, a conscincia que os homens e mulheres de outra raa e cor tenham do negro.
O negro ter de medir os seus valores, proclam-los, assumir conhecimento de si mesmo, enquanto os demais devero v-lo em sua grandeza como ser humano nascido imagem e semelhana de Deus, segundo o ensinamento cristo com igualdade de direitos e responsvel quanto a seus deveres.
A conscincia do homem, qualquer que seja sua cor, raa, etnia. Vieira, com bravura, defendeu a igualdade das raas. Em 1633, no Sermo XIV do Rosrio, onde se encontra a descrio do que era um engenho de acar ou doce inferno, Vieira abriu campanha em favor do negro escravizado.
Num dos Sermes, o sacerdote dos dois mundos observa que a felicidade e a misria se acham no mesmo teatro. Os Senhores poucos, os escravos muitos; os senhores rompendo galas, os escravos despidos, e nus; os senhores nadando em ouro, e prata; os escravos carregados de ferros... e assim por diante.
Que diferena h entre brancos e pretos? Os corpos no nascem, e morrem, igualmente? No respiram o mesmo ar? No os cobre o mesmo cu? No os esquenta o mesmo sol? Sem a escravido dizem no poderamos ter acar. Pois bem: se no conseguimos t-lo seno custa de crimes, devemos saber privar-nos, renunciando a uma mercadoria manchada com o sangue de nossos irmo. Em seguida, perguntava: Que teologia h ou pode haver justifique a desumanidade e sevcia dos exorbitantes castigos com que os escravos so maltratados?...
A Lei urea no libertou efetivamente os escravos, embora os suplcios a que eram submetidos fossem abolidos. Assim como a independncia brasileira que continua sendo construda no esforo de cada cidado, noite e dia. A libertao do negro tambm um processo de construo, que demandar tempo. Antes de tudo, acima de tudo, necessria a formao de uma conscincia em torno do problema: conscientizao do negro e conscientizao do branco.
Em todo caso, vale a iniciativa do Dia da Conscincia Negra. Adverte que somos uma nao mltipla, com homens de muitas origens, buscando um fim com um, um nico desiderato. Todo dia do cidado deste pas, sem discriminao de qualquer natureza. O que se h de querer que a data no seja apenas mais um feriado, como decidiram alguns municpios brasileiros. Penso, como Sussekind, que a data, didaticamente instituda, se transformou em assunto de discusso que desvirtuou os objetivos educacionais e feriu o Direito.


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Por Web Outros - 27/11/2008 10:54:18
A objetiva insegurana

Manoel Hygino dos Santos (Jornal Hoje em Dia)

Percebo que a inquietao no somente minha. Muitas pessoas, milhes talvez, se sentem desprotegidas e inseguras nas mais distantes regies e nos centros mais habitados e civilizados. Li, h pouco, a mensagem de uma senhora que se dirigiu a uma escola para matricular o filho, para o ano letivo vindouro. Foi informada de que o estabelecimento ir mudar, porque os traficantes rotineiramente por ali trocam tiros. So gangues rivais em ao, principalmente disputando no Feijo Semeando (o nome da rea) pontos de venda de drogas. As escaramuas pem em risco o corpo docente e discente do educandrio, o que levou o poder pblico a procurar novo local para a sua instalao.
Para aquela senhora, a sociedade est perdendo espao para os bandidos e as autoridades no conseguem eliminar a violncia: Quem perde somo ns, pais, nossos filhos, que tm de se deslocar a distantes lugares. Aumenta ainda o custo escolar, porque se tem de gastar com conduo. No s no Rio de Janeiro fatos desse jaez so notrios e inseridos no cotidiano. No caso, no interior de Minas Gerais, em pleno centro urbano, se instalou a favela. A pergunta ressoa: Estamos sendo expulsos de nossos lares e da nossa regio por bandidos e nem os polticos e nem a polcia fazem nada para dizimar esses marginais. Estamos morando nos morros do Rio de Janeiro? A populao paga imposto para viver com tranqilidade e paz, e no num inferno habitado por traficantes, criminosos e toda essa corja que no respeita os cidados de bem.
A exploso da me natural neste perodo em que predomina a violncia. Quem v as televises acompanha os fatos e ouve famlias pedindo Justia, enfaticamente, como se a dor no reprimida fosse capaz de resolver. O problema abrangente e complexo, compreendendo presentemente todas as regies e os brasileiros, vtimas de uma situao no por eles criada e impossvel de ser solucionada isoladamente.
No se tapar o sol com a peneira. Vivemos em estado de alerta, quando no em temor. No o percebem os eternos acomodados, os que se acostumaram, aqueles para os quais quanto pior, melhor, os exploradores dos males alheios, os insensveis.
Em verdade, estamos em guerra no declarada, bafejado o clima interno pelos ventos da esperana e rogando-se para que as insatisfaes no alcancem nveis insuportveis. O poder pblico parece no ter condies de manter a tranqilidade de determinados grupos ou a integridade fsica do cidado, enquanto em reas mais agudas se fez justia pelas prprias mos: seja na Amaznia, seja nas favelas cariocas ou paulistas.
O fogo cruzado entre gangues a rivais leva o terror aos morros e baixadas, enquanto as milcias, formadas parcialmente por egressos de organizaes legais, acirram os nimos, levando os honestos, os civis, homens e mulheres de todas as idades, possivelmente para o caminho sem retorno.
As famlias enlutadas que clamam por justia no muito dela esperam, tantos artifcios para se escapar das punies. Ricos sobretudo, mas pobres tambm, encontram vias para se eximir das sanes. Os crimes de colarinho branco evidenciam que os responsveis, os culpados, podem fugir lei. E ai da nao cujo povo no cr nas instituies e na fora da lei! O crime, acompanhando a sociedade moderna, sistematizou-se, organizou-se, e, embora ainda existam os marginais agindo isoladamente, por motivos vrios. Hoje, no h os bandos, moda antiga. So meras reminiscncias,inteiramente ou quase, fora de uso. Houve transformaes profundas, mas que no merecem estudos. A falta desse conhecimento, como se fora dispensvel, no sensibilizou a doutrina a escrever a respeito, enquanto imperava o estado de insegurana na maioria das cidades.
Em prefcio de O crime organizado na viso da conveno de Palermo, de Rodrigo Carneiro Gomes, j em segunda edio, Wladimir Passos de Freitas declara que a sociedade ps-industrial a da objetiva insegurana. Eis a questo, que a ningum ser lcito ignorar. Muito menos aos responsveis pelas instituies e pela ordem pblica.


(abaixo a mensagem no Mural que deu origem ao comentrio acima do jornalista montesclarense Manoel Hygino:)



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Por Web Outros - 22/11/2008 08:28:07
Um sopro de vida

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Partiram Jos Afrnio Moreira Duarte, Pe. Joo Batista Megale e Alphonsus de Guimares Filho, que ocupavam as cadeiras 16, 26 e 4 na Academia Mineira de Letras.
Assim, h vagas para a imortalidade no sodalcio venervel da rua da Bahia, em Belo Horizonte.
Para suceder ao primeiro, j h eleito: Ronaldo Costa Couto, que falta tomar posse. Ora direis tomar posse na imortalidade!...
Por certo, perdeste o senso, pilheriaria o poeta, diante da faculdade de ir-se ou permanecer.
Felizmente, academias h, e elas ajudam a pr em ordem o mundo blico em que vivemos.
Nessas ilustres casas, os conflitos so armados em termos de idias, de sentimentos, de formas de express-los. Comentaria: uma guerra santa...
As academias no mais so torres de marfim. Nem tanto marfim existe mais para construir torres, tal a dizimao dos elefantes nos lugares que foram sua habitao.
As academias so, hoje, o abrigo mais seguro para os intelectuais, os pensadores, os fazedores de artes.
Petrnio Braz, ao empossar-se na cadeira 25 da Academia Montes-clarense de Letras, em sucesso a Geraldo Tito Silveira, pronunciou belo discurso, em que lembrou o pensamento de Ea: A arte tudo todo o resto nada. S um livro capaz de fazer a eternidade de um povo.
Lenidas ou Pricles no bastariam para que a velha Grcia ainda vivesse, nova e radiosa, nos nossos espritos: foi-lhe preciso ter Aristfanes e squilo.
Tudo efmero e oco nas sociedades sobretudo o que nelas mais nos deslumbra.
Podes-me tu dizer quem foram, no tempo de Shakespeare, os grandes banqueiros e as formosas mulheres?
Onde esto os sacos de ouro deles e o rolar do seu luxo? Onde esto os olhos claros delas? Onde esto as rosas de York que floriram ento?
Mas Shakespeare est realmente to vivo como quando, no estreito tablado do Globe, dependurava a lanterna que devia ser a lua, triste e amorosamente invocada, alumiando o jardim dos Capuletos. Est vivo de uma vida melhor, porque o seu esprito fulge com um severo e contnuo esplendor, sem que o perturbem mais as humilhantes misrias da carne!
Nem todas as pessoas so tentadas a ingressar e a freqentar essas entidades, que conseguem congregar, entretanto, os nomes mais significativos de uma atividade artstica ou cientfica. Questo de preferncia e gosto.
Entre ns, entre os contemporneos mais ilustres, esto Pedro Nava e Carlos Drummond de Andrade, que no se sentiram atrados Casa de Alphonsus, a Mineira de Letras, ou de Machado, a Brasileira.
No entanto, alcanar uma vaga nesses sodalcios uma glria, indispensvel, comumente. A Academia, quase sempre, prmio, reconhecimento de um setor da sociedade a quem nela se distinguiu pela grandeza de contribuio.
O ingresso numa dessas casas ttulo de gratido, honroso e respeitvel, que d prestgio a quem o recebe.
Os chefes de Estado e de Governo, os ditadores, no desprezam essas assemblias dos cultos.
Getlio Vargas integrou a ABL. Castelo Branco, apreciava os acadmicos e, parente e amigo, admirava Rachel de Queiroz. Fernando Jorge escreveu um livro dedicado aos imortais da Brasileira, aprimorando crticas, sem poupar os erros e as picuinhas entre os membros da principal casa acadmica brasileira.
Lembra agora acadmico, Petrnio Braz que a Escola de Iscrates se restringia a transmitir conhecimento, a repassar o saber.
Na de Plato, consoante a dialtica socrtica, questionava-se em funo do esclarecimento, promovendo-se discusses que levassem aquisio do saber.
Scrates, condenado a ingerir a cicuta que o mataria, ao defender-se da acusao de corrupo, disse: Enquanto tiver um sopro de vida, enquanto me restar um pouco de energia, no deixarei de filosofar e de vos advertir e aconselhar, a qualquer de vs que eu encontre.
Assim prometeu, assim fez.


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Por Web Outros - 12/11/2008 07:40:25
O prximo captulo

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

No sbado, dia 25 de outubro, realizou-se no Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, no seu Espao Cultural, o IV Frum Mineiro de Professores de Jornalismo, sob tema "O futuro do jornalismo e o jornalista do futuro no contexto das Convergncias de mdias.
O encontro teve carter especial, pois serviu de preparao ao Frum Nacional de Professores de Jornalismo, no PUC-Minas, Unidade So Gabriel, em abril prximo.
Antecedendo parte formal dos encontros, houve um ato at comovente. Prestou-se homenagem a um grupo de veteranos homens de imprensa, entre os quais meu nome fora incluido.
A nosso lado, prestigiosas figuras do jornalismo, como Guy de Almeida, Ddimo de Paiva, Anis Jos Leo, Paulo Lott, Hermnio Prates, Jos Carlos Alexandre e Luis Carlos Bernardes, sculos como disse eu de devotamento s lides da imprensa com iseno, com altivez, sem subservincia.
Os "antigos" tiveram a oportunidade de transmitir um pequena mensagem sobre aquele momento e o que ele representava em termos de esperana para a classe e de firme convico de continuar a luta por princpios, idias e ideais, reiteradamente cerceados pelas circunstncias.
Antigo companheiro da "Tribuna de Minas ", de Belo Horizonte, matutino poltico de curta durao, Anis Leo evocou Paulo de Tarso, cuja transcendente importncia para o cristianismo jamais foi posta em dvida.
Como fizera Paulo Narciso, em texto que me enviara, s vezes preciso ser radical como Paulo de Tarso, imerso no silncio edificante do deserto da Arbia.
Ali, por um ano, foi bafejado pelos ventos, at que os acontecimentos da estrada de Damasco aniquilassem o homem velho e, para glria de Deus, nascesse o Apstolo dos Gentios, que inseriu a comunidade crist no plano salvacionista do Messias.
preciso estabelecer liames entre os fatos. Os homens de imprensa so, como os poetas, arautos de novos tempos e, incessantemente, sacrificados por sua posio diante dos poderosos.
A liberdade de imprensa e do homem de imprensa uma utopia diante das presses a que so submetidos, todos os dias, todas as horas, em todos os minutos e lugares.
Foi dentro dessa linha de raciocnio que se manifestaram os mais velhos, sem pretender dar lies aos mais jovens.
Todos trazem uma carga de experincias nem sempre felizes no exerccio de seu trabalho, que mais do que um ofcio, porque misso.
Lembramo-nos certamente dos que j no estavam, nem esto, entre ns, que foram fiis e persistentes na defesa de princpios.
Porque o jornalismo no apenas um emprego, meramente uma profisso, um meio de ganhar dinheiro sempre parco, quando no insuficiente at a manuteno.
O jornalismo no tem por objetivo oferecer notoriedade, pela qual tanto se batem os mais jovens. Ele exige conhecimento, experincia, compromisso, competncia, dedicao, capacidade de sacrifcio, se se quiser ser fiel a si mesmo a conscincia.
O jornalismo uma guerra, mesmo quando no se v aos campos de batalha em qualquer parte do mundo. Todos os dias h batalhas, e no poucos perdem a vida para (ou por) dizer o que pensam e sentem, em sociedade mercantil como a nossa.
Oxal o bezerro de ouro seja destrudo por preces, compreenso entre os homens, honradez e sensibilidade aos problemas e desafios do mundo. A crise econmica, a partir do desabamento de falsas convices, poder talvez direcionar os homens para as vias sadias da solidariedade. Somente o amor constri.
Esperemos que esta hora tormentosa ensine o que no se deve fazer, inclusive a submisso da imprensa, quando ela no se curva a negcios escusos, corrupo sob todas as formas. A crise, mais do que econmica tica. Os ideais dos precursores da grande nao do Norte se desfizeram, fragorosamente, com prejuzo para todas as demais. Os jornalistas tero papel singular no prximo captulo desta histria.


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Por Web Outros - 6/11/2008 07:36:24
E agora, Rio?

Manoel Hygino ( Jornal "Hoje em Dia")

Fernando Gabeira, jornalista, revolucionrio armado contra a ditadura militar, como conta em O que isso, companheiro, livro que virou filme, candidatou-se a prefeito do Rio de Janeiro, cidade em que passou a maior parte de sua existncia. Com plido incio, a preferncia por seu nome e foi aquecendo, fazendo que alcanasse o segundo turno, na renhida disputa.
Gabeira figura polmica. Em determinado momento, quando havia repdio quase generalizado ao uso da maconha, ele prprio usurio que fora -defendeu a descriminalizao. Alis, h uma onda nesse sentido: descriminalizar.
No incio dos anos 80, ele viajou de nibus a Montes Claros para pesquisar a vida de mulheres importantes dali: D. Tiburtina Alves, que ganhou realce nacional graas ao episdio de 6 de fevereiro de 1930, e a esposa do ex-prefeito Alpheu Quadros.
Um jornalista lembra que, no principiozinho, Gabeira espantara o Rio envergando minscula sunga de croch, ou assemelhado, mas conversou na quente cidade mineira com muita gente e circulou em mais de uma moto. Foi uma celeuma: no parecia o ex-guerrilheiro urbano, que ajudara no seqestro do embaixador Elbrick, dos Estados Unidos.
Em O que isso, companheiro?, de 1981, Codecri, Gabeira detalha sua participao num dos mais ousados episdios da luta contra a ditadura militar. Depois, ele seria banido com destino Arglia. Eram quarenta a serem libertados, que se encontraram no aeroporto militar do Galeo no Rio. Conheciam-se apenas por nome ou referncias.
Fomos colocados num avio da Varig, algemados dois a dois. Cada dupla era protegida por um policial no avio. Visto de fora aquele avio parecia um avio normal. Gabeira elogia a tima comida oferecida pela Varig: fil com batatas. Boa demais para quem passara tanto tempo na cadeia.
Ao lado do jornalista de Juiz de Fora, um policial que tivera um primo comunista em Gois. Gabeira comentou que tambm tivera um tio tuberculoso em Minas. Orientava seu interlocutor, que desejava saber mais sobre a Arglia.
A palavra-chave era souvenir, o abre-te ssamo para compras na Arglia. Onde houvesse afixado o vocbulo, estava um convite. Parar e comprar. No prprio aeroporto, j se podia adquirir lembranas inesquecveis.
Mas, o carioca-do-brejo, como os mineiros apelidam o juiz-forano, voava para longe, j sentindo saudade do Rio de Janeiro, a cidade maravilhosa. Embora o governo assinasse uma pena de banimento, paradoxalmente Gabeira sentia que s ento comeava a viver.
Lembro-me como se fosse hoje da Baa de Guanabara, das praias, da cidade do Rio de Janeiro desaparecendo de nossa viso. E meditava:
Se soubesse que era por muito tempo ou talvez para sempre, se soubesse que no era eu que estava partindo, mas que o carrossel empurrava aquele avio para um caminho, num certo sentido, sem volta, at que diria: Tchau Vera Cruz, tchau Santa Cruz, tchau Brasil.
Ao renunciar carreira de jornalista, Fernando Gabeira abria clareiras para outros flancos: a literatura e a poltica, embora aquela tenha estreitos liames com a reportagem e a biografia. O homem vive os episdios que descreve.
Na poltica, houve o suspense at o ltimo voto: seria ele o prefeito da cidade do mundo que mais amou? E o eleitorado perguntava: ser que d certo? Agora aguardar o correr da histria.


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Por Web Outros - 5/11/2008 23:30:23
A cidade que temos

Manoel Hygino ( Jornal "Hoje em Dia")


Cinco de outubro de 2008 agora somente um registro no calendrio pretrito. O segundo turno das eleies foi cumprido e escolhido um cidado para reger os destinos de uma das maiores cidades do prprio hemisfrio.
Venceu a renhida disputa o que mais votos conquistou, e isso da essncia do sistema democrtico. Os problemas so numerosos, alguns de difcil soluo. No fundo, todos dependem de recursos, e estes j deixam exauridos os cidados que podem quitar os tributos. E h os que sequer podem faz-lo, mas tampouco devem ser esquecidos.
No dia do pleito, Murilo Badar, hoje presidente da Academia Mineira de Letras, mas que j foi deputado estadual, deputado federal e ministro, evocou pela imprensa Drummond, em seu Triste Horizonte". Murilo conhece desafios.
Trazendo leitura a poesia do poeta de Itabira, Badar confessa preocupaes sobre o futuro da capital, que completou 110 anos em 2007. uma urbe nova para tantos problemas enfrentados, pelos que ora a avassalam e para os que tem frente.
Verdade que a capital planejada por Aaro Reis no a mesma que saiu de suas pranchetas. Desvaneceram-se sonhos e mutilaram-se esperanas. Sangue corre em suas artrias, o lixo se acumula nas esquinas, onde a populao no est preparada para viver saudavelmente e prevenir-se.
Drummond perguntava: Por que no vais a Belo Horizonte? a saudade cicia/e continua, branda: Volta l!/Tudo belo e cantante na coleo de perfumes/das avenidas que levam ao amor./nos espelhos de luz e penumbra onde se projetam/ os puros jogos de viver/Anda! Volta l, volta j".
A capital dos mineiros no corresponde mais imagem descrita pelo poeta. Da o poema intitular-se: Triste Horizonte". Da, a decepo: E eu respondo, carrancudo: No! No voltarei para ver o que no merece ser visto,/ o que merece ser esquecido, se revogado no pode ser/.
No o passado cor-de-cores fantsticas/ Belo Horizonte sorrindo pbere nbil sensual sem malcia,/ lugar de ler os clssicos e amar as artes novas,/ lugar muito especial pela graa do clima/ e pelo gosto, que no tem preo,/ de falar mal do Governo no lendrio Bar do Ponto/Cidade aberta aos estudantes do mundo inteiro,/ inclusive Alagoas/Maravilha de milhares de brilhos vidrilhos".
Aquela Belo Horizonte no h mais, e o passado jamais irrecupervel. So imagens e lembranas de um tempo falecido, embora jamais esquecido. O prefeito que assumir ter de enfrentar os fantasmas dos construtores e dos idealistas que a embelezaram, tentando minorar os tempos vindouros.
At 2030, cerca de 60 por cento da populao mundial viver nas cidades, agregando problemas aos que j existem, que so muitssimos. Relatrio da ONU - Estado das Cidades Mundiais 2008/2009" -prenuncia consequncias caticas do xodo rural desordenado, a favelizao, a falta de acesso a servios bsicos.
Presentemente, Belo Horizonte sabe que 150 mil de seus habitantes no tm rede de esgoto sanitrio. E faltam urbanizao, habitao humana, sade, segurana e educao. O itabirano que amou a capital mineira e a trocou pelo Rio de Janeiro, diz mais, recordando a Serra do Curral.
Cassetetes e revlveres me barram/ a subida que era alegria dominical de minha gente,/ Proibido escalar, proibido sentir/ o ar de liberdade destes cimos./ proibido viver a selvagem intimidade destas pedras/ que se vo desfazendo em forma de dinheiro".


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Por Web Outros - 30/10/2008 11:06:05
Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Famintos e sedentos

Neste final de outubro, lia as notcias procedentes do Norte de Minas. No distrito de Mingu, moradores retiravam a pouca gua ainda restante do rio So Domingos, que de muito no corria pelo seu leito. a seca de 2008, no a primeira ou a ltima na histria de uma sofrida regio.
A frase: predomnio de sol, enquanto a meteorologia era mais sem d: sem esperana de chuva. Os ventos diminuam. A umidade do ar era baixa. Temperaturas quase alcanavam os 40 graus. Nas Minas Gerais, no no Nordeste; nem no Sahara. A umidade do ar est em ndice de ateno. Chega aos 8 graus.
Nas cidades maiores, para abastecimento residencial, os caminhes-pipa operam, mas no em nmero suficiente. Problemas na rede de distribuio geram novos problemas. Na periferia e nas reas rurais, o jeito buscar gua com lata na cabea, como nas favelas. As cisternas secam.
Espera-se ajuda governamental. O ministro da Fazenda e o presidente do Banco Central anunciam medidas para irrigar... o mercado do crdito brasileiro. E o presidente no acreditava em crise.
A Unio anuncia que o crdito para a agricultura ser elevado em cerca de 3,5 bilhes de reais. Da terra ainda vem grande parte da produo nacional. Veja-se o saldo da balana comercial.
Mas aqueles pobres coitados do recndito interior mineiro mal sabem assinar o nome, quando sabem.
O tempo passa, os dias correm, h notcias pelo rdio ou pela televiso de chuvas prximas aqui e ali, no Sul de Minas - onde elas chegam primeiro, no Tringulo - grande produtor agrcola, em outras regies do Estado, mas para o Norte as perspectivas assombram.
O gado morre, no tem o que comer, muito menos o que beber. Carcaas se vem, a gente da roa lamenta, as mulheres fazem promessas, as crianas choram, para elas tambm a gua rareia.
So Pedro no abre as torneiras. Estaria de mal com os homens? Principalmente com esses, que vivem quase margem da sociedade?
Setembro chegou e para esse ms h sempre esperana de chuvas no serto mineiro. Elas no chegaram, morrendo o gado e as hortalias, mas resistindo fmbrias de confiana nos dias seguintes. Outubro veio e se vai, mas a natureza regateava o prmio maior de que vasta regio do Estado necessitava.
Sobrevivia-se de caminhes-pipa, para escassas reas, porque ao morador da roa raramente eles l chegam, e da resumida gua das cisternas e das cacimbas. Mesmo em setores do Jaba, em que se implantou um extenso sistema de irrigao, faltou gua.
No Brasil, quando se fala em seca, invariavelmente a ateno se volta e se concentra no Nordeste brasileiro, que exporta para o Sul milhares e milhares de pessoas todos os anos, por falta de oferecimento de condies adequadas para manuteno do homem em sua rea de origem.
O Nordeste manda seus homens e mulheres para o Sul, mas aqui tambm no h nenhum vale de Cana. O cidado que se esfora e se sacrifica, todos os dias, desde quando nascem os primeiros raios solares, enfrenta obrigatoriamente os desfavores e a inclemncia das estiagens, longas e dolorosas.
O clima nordestino veio para c. H dcadas e dcadas, identificou-se a desertificao, que continua inexoravelmente, fenmeno que os governos no souberam ou no quiseram, ou no puderam?, conter. Recursos que sobram a atividades secundrias so consumidos, enquanto faltam para suprir necessidades vitais. Em verdade, ainda se morre de fome e de sede.


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Por Web Outros - 13/10/2008 10:25:16
Identidade cultural

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

A despeito dos esforos de devotados pesquisadores, de conceituados historiadores, o que se sabe sobre a histria de Minas Gerais o mnimo. Talvez exagere, mas realmente apenas em tempo mais recentes se cuidou sistematicamente de rebuscar fontes, quase sempre precrias e dispersas. O que se aprende e se ensina sobre o perodo colonial se restringe muito zona das riquezas minerais nobres, hoje congregadas na regio compreendida pelo chamado circuito histrico.
Mas nossa histria, ainda cheia de lacunas no circuito histrico, no inclui outras regies de um Estado, singularmente rico em valores. H muito a trabalhar para desvendar o resto das Minas e das Gerais e dos Gerais. Esta unidade da Federao tem dimenses da Frana e muito pode oferecer ao estudioso, mesmo ao curioso, quase s interessado em aspectos pontuais.
Para alcanar os territrios hoje de Minas Gerais, houve dois principais fluxos: o que vinha do litoral, de So Paulo, atravessando regies do hoje Estado do Rio; ou no Nordeste, das capitanias da Bahia e Pernambuco, que outrora compreendeu extensas partes de Minas atual.
Ambos movimentos deixaram marcas profundas. Quando houve, em agosto, o furto de trs imagens de santos em dois oratrios da matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceio, em Matias Cardoso, a 266 quilmetros de Montes Claros, a cidade mais importante, houve pessoas que se espantaram com as datas.
Construdo em 1675, o templo est tombado h 54 anos pelo Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, Iphan. 1675? Perguntou-se. Porque a fundao de Mariana de princpio dos sculos seguintes.
So duas histrias, que se encontram no tempo e no espao. Quando a minerao entrou em decadncia nas duas primeiras cidades que serviram de sede governana das Minas, hoje Mariana e Ouro Preto, elas se mantiveram, principalmente com carne, procedente dos currais mais ao Norte.
Petrnio Braz, advogado, escritor, barranqueiro, nascido em So Francisco, participou em setembro, em Montes Claros, de espetculo-debate em que se buscava resgatar, de forma simblica, a crnica da regio, a partir exatamente do povoado de Morrinhos, hoje Matias Cardoso, de cuja matriz se surrupiaram as imagens mencionadas, trazidas de Portugal.
Com coordenao de Cludio Mrcio e Nlson Bambam, e direo deste, com dramaturgia de Glicrio Rosrio, contou-se, de forma teatral, a evoluo regional no perodo colonial, procurando fixar, como verdade histrica ou anterioridade de Matias Cardoso em relao a Mariana.
uma digna tentativa de situar o problema, levada a efeito por gente moa, interessada em revelar o que se deveria saber: as lutas da conquista territorial e da afirmao de domnio.
Alm de resgatar o termo catrumano, to pouco conhecido ou mal interpretado, enaltece-se (com os atores: Ana Flvia Amaral, Antonella Sarmento, Gabriel Sanches tambm assistente da direo, Soraia Santos, Tassiane Figueir, Tatiana Teles e Rita Maria), a cultura baiano-mineira. Mostram-se episdios do processo de colonizao, entre 1613 e 1736, quando eclodiu a Conjurao do So Francisco. Para o grupo teatral-cvico, em que se alinha como orientadora Ana Lana Castelois, o trabalho "incio de ma nova trajetria, em que redescobrimos nossa identidade e assumimos nossa histria".


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Por Web Outros - 27/9/2008 12:50:53
Nossos caminhos

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Urups foi um dos livros mais apreciados por nossa juventude. Todos os moos estudantes queriam l-lo e discutir algum de seus contos. O autor, Monteiro Lobato, em seu contedo, faz referncia ao transporte de cargas ou de alguma encomenda por esse meio mtodo.
Que evidentemente no constitua novidade. Isso vem de tempos imemoriais. Em Roma, quando o imperador partia de um lugar a outro, tudo se processava, em termos de comunicao, atravs de cartas, transportadas de algum para outro stio do imprio onde quer que se localizasse.
E as cartas eram documentos valiosos. Os polticos tinham muito mais necessidade de escrever uns aos outros, do que os de hoje, como observou, Gasto Boissier. O procnsul, ao afastar-se de Rosa, carecia imediatamente de saber o que ocorria na capital. No havia telgrafo, telefone, televiso, rdio, telex, e a parafernlia de imprensa que presentemente pe o homem sabedor das coisas do planeta quase instantaneamente.
O cavalo e o mensageiro eram imprescindveis. Ccero, como todos, mas mais assim do que qualquer um, desejava inteirar-se das acontecncias em Roma: polticas, intelectuais, as amorosas, as pessoais, as familiares. E suas cartas se transformaram em literatura e histria.
Manoel Esteves, autor de Gro Mogol, em livro lanado em 1958, conforme JJ Santos, se refere a outro tipo de correio, o primitivo, o chamado prprio, que realizava este servio sobre as pernas e ps. Era mais rpido do que o cavalo ou a besta. Costumava fazer uma viagem de 24 lguas em trs dias, enquanto o prprio gastava apenas trs dias.
O escritor mencionado declara: A coisa se explica. que o correio, que viaja escoteiro, como com o p no caminho, no pra, do mesmo modo que aqueles soldados gregos, que passando pelo rio, bebiam gua na concha das mos e iam andando para frente. Ademais, quem viaja a cavalo somente pousa em lugar que tenha pasto para o animal, isso condio precpua. O correio a p viaja pela noite adentro e dorme em qualquer lugar, quando tem sono.
Estes recontos vm calhar com a hora que vivemos. Quando, de uma parte a outra da cidade grande, se gastam horas para chegar ao local necessrio, seria pelo menos aceitvel a comparao entre os velhos tempos e os atuais. O homem que se beneficiou com a mquina, no caso o automvel, tornou-se dele servo.
H um sculo atrs, um prprio andava 144 quilmetros em trs dias, percorrendo _ no boas estradas _ mas caminhos nvios, na mataria difcil de ser transposta, alm de outras dificuldades. Hoje, motorizados, moradores de So Paulo passando horas para ir do Centro Mooca ou ao Ipiranga; os cariocas passam por sufocos para deslocar-se da velha Cinelndia ao Recreio dos Bandeirantes, Tijuca. Enfrentando a tortura do trnsito, a irritao dos demais motoristas, ameaados por bandidos e sujeitos a altercaes.
So os caminhos do homem na cidade civilizada. Pergunta-se se valeu a pena a transformao, se a vida melhorou, com a relativa paz do passado.
O mundo no retroage. Seria curioso se algum fizesse esses trajetos a cavalo. Ou a p. Mas vale a reflexo.

Jornalista e escritor
[email protected]


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Por Web Outros - 20/9/2008 10:41:22
Um pedido de ajuda

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Numerosos fatos no mais surpreendem. Entre eles, a m qualidade do ensino, a despeito das iniciativas e propostas de governo e dos tcnicos. Algo se teria de fazer vencer esse obstculo ao nosso desenvolvimento, que se mede pelos resultados alcanados, que poderiam ser bem mais elevados.
Comea da educao. O pas se transformou numa nao de pessoas mal-educadas, o que se avalia pelo vocabulrio de baixo calo que se ouve nas ruas, nos recintos pblicos, s vezes mesmo em sociedade. No h mais respeito onde quer se esteja, usando essa linguagem de sarjeta mesmo as senhoras e senhorinhas. Perdemos noes de recato, de refinamento natural, que existiam mesmo entre os rudes.
De liberdade, de novos tempos, assim se v o momento em que vivemos. Os pais, alguns deles, ensinam aos filhos o palavrrio obsceno, antes restrito ao crculo dos marginais ou dos bordis. Talvez eu seja rigoroso na observao dos fatos ou pudico.
Aprende-se mal na escola, assimilam-se lies indesejadas na promiscuidade das habitaes, que sequer constituem um lar, na verdadeira acepo da palavra. Da performance nos educandrios, avalia-se pelo resultado de recente estudo, revelando que 64% dos jovens adultos brasileiros que chegaram quarta srie no sabem ler e entender textos extensos. Outros 12% continuam rigorosamente analfabetos, aps o quatrinio escolar. Os dados foram fornecidos pelo Ibope. Entre as razes, salas de aulas lotadas, professores no especializados em alfabetizao e falta de material que incentive e facilite o aprendizado.
No Paran, eu no sei qual a cidade, props-se que as salas de aula fossem monitoradas com cmeras para registrar agresses contra os professores. No exatamente por bandidos, os marginais que por ali rondam. Mas contra os prprios alunos, que desafiam os mestres e pem em risco sua integridade fsica.
Constri-se uma catstrofe no pas. Espero que minhas concluses no correspondam realidade futura. As perspectivas, todavia, me parecem sombrias. A agressividade mora entre os de tenra idade e temo pelo horizonte. Os que deviam estudar, na paz das escolas, no encontram muitas vezes o melhor ambiente, embora o sacrifcio das queridas mestras, fadas de todas as pocas.
No inventei: o Brasil , presentemente, o terceiro maior consumidor de anfetaminas so s para os que tm dinheiro. Nos ltimos 12 meses, os seus consumidores, tipo ecstasy, superaram os usurios de cocana e herona. Mas para os mais modestos em oramentos ou os viciados crnicos, e pobres, e jovens, h outras drogas disponveis. Lastimavelmente.
Leiam comigo a preciosidade de um annimo, que teve acesso a computador, no dia 11 de setembro: "Eu estou aqui hoje para falar sobre um absurdo que est acontecendo no incino puplico...os professores e a diretora da escola estadoal simeo ribeiro dos santos entrarem em greve ja tem 2 semanas, e os alunos so vamos nos prejudicando... a materia fica atrasada e os professores comeam a correr contra o tempo para dar pra aplicar toda a matria do conteudo... e os alunos que fazem o PAES???. "nos os alunos ligamos para a escola e eles dizem que ira ter aula nos acordamos cedo, pegamos as mochilas que nao e leve e vamos para a escola, ao chegar nao tem professores na ecola eles nao querem dar aula, e mais absurdo e que o professor de quimica (...) da aula e os outros professores dizem que quem NAO for para a escola eles iro dar pontos... eu so peo uma ajuda...


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Por Web Outros - 9/9/2008 10:23:21

No meio do caminho

Manoel Hygino (jornal Hoje em Dia)

Drummond, o poeta maior de uma gerao, disse haver uma pedra no meio do caminho, que no meio do caminho tinha - ele usa o verbo ter uma pedra. E, nos meios dos caminhos de nossa vida, sempre h pedras a nos estorvar e ferir.
Mas por estradas nvias de Minas Gerais, do Brasil enfim, h tambm cruzes, para as quais outro poetas advertiu que merecem ser vistas e reverenciadas, quando a cavalo se percorrer o serto. H pedras e cruzes.
Existem ainda outros marcos de gentes que por aquelas vias passaram. H monumentos desconhecidos, antigas construes de pessoas annimas, que geralmente no deixam ou no fazem a prpria histria.
So pequenas igrejas ou capelas insuladas, em lugar ermo, outrora caiadas. Mas perderam a cor original, assim como a finalidade de servir a Deus e aos homens. Quedaram abandonadas, em algum alto do terreno e, diante delas, no mais se persigna ou se ora.
Assim a igrejinha do Parque do Sapucaia, l no serto.
Apenas se fazem perguntas sobre sua origem, qual o seu santo padroeiro, porque foi esquecida, porque os devotos partiram e a condenaram prpria sorte e solido.
Haroldo Lvio, natural da tranqila Contendas (apesar do nome), hoje Braslia de Minas, no sabe muito sobre o pequeno e humilde templo. E ele , segundo Paulo Narciso, uma enciclopdia regional. Apenas ouvira que a Ermidinha fora palco de festa anual, vigorosa, para a qual se deslocava a populao.
Narciso, jornalista de velha cepa e que no pra de pesquisar, opina: a igrejinha, que sobregoverna a f acima dos cimos que do nome aos montes claros, est ali fincada e atenta aos nossos austeros pncaros serranos, h coisa de um sculo, talvez mais.
a Igreja de So Marcos, no alto da Serra do Sapucaia, prxima comunidade de Palmito. H muito, vinha sendo destruda pelo tempo e por vndalos.
Recentemente, um grupo de treiereiros decidiu recuperar o sagrado imvel sem dono. A jovem tribo faz ali festas para angariar fundos para consecuo de seu objetivo. o Enduro e Forr da Igrejinha de So Marcos, para cujo esforo se juntam grupos de outros municpios. Telhado e alvenaria foram concludos, mas ainda e muito carece.
So Marcos, chamado no Novo Testamento algumas vezes de Joo, outras de Joo Marcos, parece acompanhar tudo distncia. Filho de Maria, da primeira comunidade de Jerusalm, foi colaborador de So Pedro e So Paulo. No simbolismo da arte crist, representado pelo leo, emblema do poder e da realeza.
Como so efmeros os bens materiais, a humilde ermida no serto, como tantas outras, arruinou-se. At que os jovens a descobriram, e a reside um grande simbolismo, para dar-lhe a aparncia que os novos tempos exigem.
O jornalista Paulo Narciso ir confessar:
Vou l rever a igrejinha que conheci, montado a cavalo, na garupa de meu pai - Deus o tenha! Por ele, por todos, rezarei o Pai Nosso, justo na ermida to parecida com a de So Damio, onde um certo Francisco ofereceu-se (Senhor, que queres, que eu faa?) e ouviu a voz, que ordenou:
- Vai, reconstri a minha igreja.
E no exatamente a de pedra e cal. Porque as ermidas do bem tm de ingressar e estabelecer-se no corao dos homens.


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Por Web Outros - 1/9/2008 10:53:12
Riqueza nas Barrancas

Manoel Hygino

No Norte de Minas, existem verdadeiros monumentos abandonados. Ou esquecidos. S recentemente comearam a ser reconhecidos, se que foram, porque aquela imensa regio ainda est muito distante dos centros governantes.
H anos, o sino, com mais de trs centenas de quilos, que existia na igreja de Nossa Senhora do Rosrio, foi furtado no silncio da noite, sem que ningum visse ou ouvisse rudos. E as noites no distrito de Barro Alto tranqila, somente algum galo insone canta.
A igreja foi construda em 1688 e, segundo o engenheiro Levnio Castilho, nascido em Januria e estudioso da histria, a mais antiga de Minas e das Gerais. Levnio observa que o templo um dos raros exemplares de arquitetura jesutica no serto, convindo observar que a freguesia de Januria fazia parte do Bispo de Pernambuco, a quinhentas lguas de distncia.
O sino, com todo seu peso e massa, subverteu. At onde sei, no foi localizado, nem identificados os ladres ousados. Ainda Castilho quem observa que para Rosa Januria, onde se encontra o Barro Alto, representa a luta da lei contra os desmandos dos potentados que habitavam o serto hostil.
Em agosto, primeira semana, Ladres roubaram trs imagens de Santos em dois oratrios da matriz de Nossa Senhora da Imaculada Conceio, em Matias Cardoso. As imagens de Santa Maria, da senhora de Santana e de So Miguel, tm 50 centmetros e foram surrupiadas ao amanhecer.
O furto foi descoberto pela manh, quando o zelador encontrou uma das portas de frente da matriz aberta. No interior do templo, considerado um dos mais ricos da regio, encontraram-se no cho a chave de fenda usada no arrombamento. O Menino Jesus que estava no colo da me, a balana de So Miguel, um pedao de um dos dedos de uma imagem e um toco de cigarro.
A polcia se ps em campo e, depois disso, nada mais sei. A matriz tombada pelo Instituto do Patrimnio Histrico e Artstico Nacional, h 54 anos.
As peas referidas so de origem portuguesa, da poca da inaugurao do templo, atribuda a 1675.
Mais antiga que a do Barro Alto?
Em grande parte, o Norte de Minas sequer foi descoberto. Est na hora. H riquezas imensas na regio, que pode tornar-se um grande plo turstico. No se deve conforma-se com a devastao de extensos pedaos de seu territrio, de madeiras que esto acabando, devoradas pelos incndios e pelos fornos de gusa.
H espcies que rareiam e so preciosidades de nossa flora.
O So Francisco mais do que uma regio produtora de peixe e cachaa, como a de Januria, de largo consumo. Investimentos devem ser feitos em infra-estrutura para o turista, enquanto se protege a gua, que diminuiu em volume e aumenta em poluio.
O sino sumiu, as imagens dos santos sumiram, mas no se h de deixar que mais se perca, definitivamente, inclusive o folclore e as tradies regionais. Tudo constitui patrimnio notabilssimo e insubstituvel.
Renato Almeida, h poucos anos, sublinhava a existncia da grande quantidade de dados da regio, de interesse antropolgico, sociolgico, psicolgico, geohistrico, artstico, tcnico e econmico que no se admitir peream.
No se consideraro apenas os aspectos econmicos, materiais. A regio, ainda pobre e de desvalida, precisa crescer agora que tanto se propala sobre transposio. Fazendo-a ou no, o fundamental que se desperta para o significado da regio, como centro de convergncia de bandeirantes e de vaqueiros do Norte, para os quais o So Francisco justificou o conceito de rio da unidade nacional.


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Por Web Outros - 30/8/2008 10:57:45
A vida vria de God

Manoel Hygino

No Palcio das Artes, homenageou-se, em agosto passado, Godofredo Guedes pelo seu centenrio de nascimento. Nada to justo. Nascido em Riacho de Santana, Bahia, Godofredo desceu para Minas Gerais e, em Montes Claros, construiu sua mltipla carreira. Alm de intrprete instrumental, dedicava-se a outras atividades.
Desde que no campo das artes, dava-se bem. Fotgrafo e pintor, tem criaes de grande expresso, expostas em casas de famlias e galerias. Fabricante de instrumentos musicais. Foi compositor de notadas virtudes, alm de letrista de reconhecidas qualidades.
Cantores populares no Brasil cantam e tocam a msica de GG, iniciais com que assinava seus quadros. Mas o nome do autor quase sempre ficava obscurecido pelo prestgio do intrprete.
H os que cantam a Ave Maria, sem saber que o compositor Gounod. Como h os que apreciam Serra da Boa Esperana, ignorando que o autor da letra e da msica foi o alegre Lamartine Babo.
Viver de arte, principalmente no interior brasileiro, no fcil. Mas Godofredo Guedes persistiu, abstendo-se de atender a insinuantes convites das capitais do Sudeste. Mesmo tendo de desdobrar-se em mltipla atividade, inclusive tocando saxofone noite no Clube Minas Gerais, que a populao conhecia como o cassino.
O advogado e escritor Haroldo Lvio lembra que houve poca em que GG se dedicava msica das dez da noite s cinco da manh. Tocava tanto no fidalgo Clube Montes Claros como nos cabars afamados da zona bomia, dos quais o romancista carioca Marques Rebello disse que ferviam como night- clubs da Broadway.
Em determinado perodo da vida, Godofredo achou que melhor seria ir para Belo Horizonte, depois de 27 anos em Montes Claros. O prprio Haroldo Lvio, em crnica na imprensa local h 45 anos, lastimava a partida. Porque o artista j era considerado um bem pblico de uso comum do povo, como a Praa da Matriz ou a capela dos Morrinhos, que cantara e decantara em telas famosas.
GG foi mltiplo, de fato. Para sobreviver aprendeu prtica de farmcia, com um parente, um mdico baiano diplomado em Paris. Imagine-se o menino de Riacho de Santana estudando nos livros de Qumica, escritos em francs. No se acomodou ou intimidou. Tambm a ler, entender e trabalhar, sem professor, no idioma que consagrou Balzac, Dumas e Victor Hugo.
Nada o impedia de cumprir o itinerrio de sonhos que se traara e que esplendia em msica e em telas. Enquanto no fazia algum dinheiro na pintura de paredes, em quadros a leo, na interpretao de msicas, suas e alheias, ao violo, saxofone e clarineta, descansava.
Descansou, confeccionando uma marimba mexicana e um piano, ele que no era tocador do instrumento. Talvez os filhos, entre os quais Beto, e os netos, algum dia, se voltassem para aquela rara pea, que imortalizara Chopin. O prognstico no funcionou. A descendncia preferiu outros meios musicais de comunicao, de preferncia o violo.
Agora que os dias escorregaram na folhagem do tempo, parece que toda esta reminiscncia inverdica. Que Godofredo sequer existiu. Mas existiu, sim. Tanto que faz cem anos que nasceu.


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Por Web Outros - 22/8/2008 09:28:19
Em nome do Brejo

Manoel Hygino

Tornaram-se usuais as festas pelas pessoas que, procedentes de suas cidades de nascimento, se renem periodicamente para confraternizao. costume saudvel, que estabelece um elo entre famlias e geraes, cujas razes se perdem ou se multiplicam sob o solo frtil de suas regies.
um encontro e um reencontro, entre os que partiram mas no morreram nos coraes; um liame entre os de ontem, os de hoje e os de amanh. Tm essas reunies, assim, profundo sentido social, humano e sentimental.
So comemoraes que transcendem crculo restrito. Atravs delas e com elas, mede-se o grau de identidade e de harmonia de um povo que tem compromisso com o futuro. , no fundo, verdadeiro patriotismo, que emana do mais ntimo das pessoas, decorrente de suas tradies e aspiraes.
Assim alegria saber-se Francisco S se preparando para a festividade deste ano, sob coordenao de Maria Haide Antunes Coelho e Mires de Ftima Soares Pena E. Silva, respectivamente presidentes do Clube Social que tem o nome da cidade e do Rotary Clube, em 6 de setembro.
O topnimo Francisco S homenageia um dos grandes estadistas que este Estado ofereceu Repblica. Mas a designao antiga no pareceu, pois de rara beleza. Drummond uma seleo de poemas _ Brejo das Almas. Todos temos um pouco do Brejo dentro de ns. Os que l nascem se diziam brejeiros, embora haja o brejalmino, que pegou pouco.
O escritor Haroldo Lvio registra, para fazer justia, que os brejalminos ou brejeiros foram os nicos norte-mineiros que marcaram com uma placa de rua a passagem do naturalista francs Saint-Hilaire pelo serto.
Mas, para compensar, quem muito ousou levando ao pice o municpio foi exatamente o bardo de Itabira, ao dar ttulo ao seu segundo livro: Brejo das Almas. F-lo, evocando viagem regio, quando paraninfou o casamento de dois amigos: Cyro dos Anjos, funcionrio pblico, advogado, escritor dos bons, e o engenheiro Joaquim Costa. Quem conferir encontrar os respectivos registros na velha Gazeta do Norte.
O Brejo tem tradio de bravura e braveza, tpica da regio, e de gente que no temia, numa poca em que a autoridade estava muito longe - em todos os sentidos. Ouvi conversas domsticas sobre personagens que no conhecia, mas cujos nomes eram pronunciados em voz baixa, em sinal de respeito ou medo.
Queria falar de muitos dali, ou que l viveram, como as intelectuais Olyntho de Oliveira Silveira e D.Ivonne, e dos mais jovens que do seqncia histria fabulosa da regio. Fica para depois, porque desejei, hoje, fazer apenas a notcia da festa da gente do Brejo/Francisco S, os presentes e os ausentes.
De um filho dali recebi, este ano, as informaes sobre uma reunio de antiga famlia brejense. Aconteceu, num p de Serra de belo nome estival - Campo Alegre. Para l se locomoveram geraes dos Dias.
Reagruparam-se no limpo terreiro de uma casa velha, sob a sombra de um velho cruzeiro que indicava uma capelinha. Restou somente o madeiro do modesto templo, ao lado de uma casa senhorial de numerosas portas e janelas, com mais de um sculo.
Por dcadas, a ermidinha abrigou no seu cho (a abriga agora, no mato ralo) duas das maiores lendas do Norte de Minas, em todos os tempos: as cinzas de Alfredo Dias, precocemente morto, e seu pai, o lder Olmpio Dias, nascido em 1853, falecido em 1937.
O primeiro foi morto pela irm, que queria impedi-lo de usar armas, como de seu feitio, para fazer justia pelas prprias mos. Era uma poca em que cada um ditava sua lei e escolhia sua autoridade, para defender direitos.


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Por Web Outros - 18/8/2008 08:52:59
Os que escrevem

Manoel Hygino

Sublime e insidiosa patologia: escrever. Enfermidade congnita, de que no se consegue fugir. Meu amigo Ablio Machado Filho lia sempre, todos os dias, os livros eram seus amigos, como sugerira Eduardo Frieiro. Olhar distante, assistia o alvorecer, volume ao lado.
H pouco, li aqui o artigo de Emanuel Medeiros Vieira, o excelente autor da Santa Catarina: Comeamos escrevendo para viver e acabamos escrevendo para no morrer. Para quem edifica palavras, mal rompe a autora, escrever inadivel e urgente, mesmo que nada externamente nos obrigue. Mas a necessidade interna visceral, orgnica, chama e fogo, flecha, algo colado pele. A literatura um apelo de fogo, onde mora meu desespero, a minha inquietao e o meu paraso, escreveu algum.
Escrever preciso. Duas vezes Prmio Esso, Paulo Narciso ama a profisso de reprter: Gosto muito. H notcia por toda parte, esperando quem as colha, feito margaridas. Enquanto no reprter de tempo integral viaja.
Outro dia, foi ver um rio, que saindo da terra de Ayres e Edgar da Matta Machado irriga uma propriedade sua, com seus 100 metros de largura e areias brancas, de prespio. Fica em Augusto de Lima e se chama Pardo Grande. Ilustre desconhecido de nossa civilizao, mas soberbo. nossa maravilha escondida. Caso contrrio, acham um jeito de mat-lo.
Os que escrevem, por isto nascem. Os poetas nascem poetas, afirmava-se no tempo de Bilac, Alberto de Oliveira e outros fazedores de versos que enterneceram a elite do sculo XIX. Prosadores so assim tambm, qualquer que o gnero.
Henrique Chagas, que residiu em Belo Horizonte e edita um excelente site cultural no estado de So Paulo, me envia notcias de si: Acordei cedo, ainda estava na cama quando desejei caminhar pelo deserto, como faz diariamente o escritor Ams Oz, apenas para captar as vozes. Diz ele que as vozes do deserto so pratos regalados para a sua escrita.
Medito, como concluiu a vida terrena Ablio, ao amanhecer do sbado, que o levou consigo: Gostaria, mas eu no ouo as vozes do deserto, nunca as ouvi; mas procuro ouvir as vozes do vento, aprecio dias de ventania, pois o vento carrega o som do primeiro dia da existncia. Procuro ouvir aquele vento que pairou sobre as guas no momento da criao do mundo.
Quase sempre os que escrevemos, mesmo os menos aptos e tangidos por foras misteriosas, tentamos pretensiosamente talvez compor um hino palavra, como observou, Emanuel Medeiros Vieira. No sem razo, Samuel Titan Jr., lembrando Borges, comentou: Se o mundo dos objetos palpveis e vida prtica no mais real que o mundo das fices, dos sonhos e dos labirintos, e ento pode ser que o autor de artifcios verbais tenha mais direito condio de demiurgo que qualquer outro candidato.
Comento seguidamente sobre o poder das palavras, que servem ao bem e ao mal. A repetio em Shakespeare adverte para sua importncia: Palavras, palavras, palavras. A do sacerdote no altar, a dos parlamentares na tribuna, a dos candidatos nos comcios. Toda a humanidade passa por ela. No princpio, era o verbo.
Tudo pode depender dela. Na declarao de guerra ou nos acordos de paz. Paz? Uma simples palavras de trs letras, de suma significncia. Precisamos faz-la valer. No livro que se l, no rdio que se ouve, na televiso a cuja novela se assiste ou com cujo noticirio se tem o mundo mo: Palavra.
A verdade, a mentira, o engodo, esto nas palavras. Mas a humanidade precisa de paz, e ela decorre tambm da palavra, do dilogo, da confiana.


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Por Web Outros - 30/7/2008 10:59:50
Um tema, trs enfoques

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

A morte est conosco todo tempo. Meu livro sobre Pedro Nava, me alertou para novos ngulos do problema, que de todas as pessoas. Do meu trabalho, tive a surpresa de receber pedidos de mais exemplares, h poucos dias, o que constitui um estmulo para quem escreve. Desde a publicao, colho subsdios para uma segunda edio, ampliada. Haver tempo ainda? Diz a questo.
Sobre a morte, comentei o livro de Evaldo Alves dAssumpo, mdico, tanatologista, dedicado permanentemente ao estudo da complexa matria. Presidente da Academia Mineira de Medicina, integra outros prestigiosos sodalcios. Para ele, a morte no problema para os que partem, e sim para os que ficam.
Ento me veio s mos Morte, ensaio de Jos de Anchieta Corra, graduado em filosofia pela PUCMinas, mestre e doutor pela Universidade de Louvain, Blgica, e professor aposentado na Faculdade de Filosofia da Universidade Federal de Minas Gerais, co-autor, dentre outros livros, de A nossa casa de cada dia.
Jos de Anchieta analisa o problema de outros ngulos. Seu estudo, que me merecer comentrio posteriormente, observa, por exemplo: H ainda a considerar o fato de que o homem do sculo XXI vive anestesiado sob uma cultura de negao da morte, imobilizado e mantido calado diante da indstria da morte. Estamos nos referindo escandalosa destinao de bilhes e mais bilhes de dlares, retirados da riqueza das naes, para a fabricao e a compra de armas de guerra visando exterminar os chamados povos do mal e se apossar de suas riquezas. Armas de guerra, consciente e sadicamente, dirigidas contra populaes cujas vulnerabilidade humana e qualidade de vida so as piores do planeta. O velho ditado romano se queres a paz, prepara-te para a guerra foi, nos tempos atuais, mudado para pior. Sua verso agora , escandalosa e cinicamente, se queres a paz, faz a guerra.
Meditemos. O tema extremamente srio.
O problema oferece outro ngulo. O apresentado pelo nonagenrio amigo, operoso, membro do nosso IHGMG, Luiz de Paula Ferreira ao programar o futuro: Ainda que no merea, no gostaria de ir diretamente para o cu, quando chegar a minha hora.
E tece consideraes:
Quero ficar por aqui durante algum tempo. Viajando. Para conhecer lugares que antes no pude visitar. E rever paisagens que me encantaram em outros tempos. Na suposio, claro, de que as almas tenham direito de ir e vir. Sem gastar combustvel, sem carregar farnel.
No primeiro dia acho que vou me sentar numa ponta de nuvem para examinar a situao. E pensar um pouco, j no direi sobre a vida, mas acerca do meu futuro.
Quero passear um pouco, aproveitando a facilidade de locomoo. Comearei por Minas, para rever e despedir-me dos campos natais: os vales do Rio das Velhas, do So Francisco, do Verde Grande e a Serra do Cabral.
Em seguida quero rastrear as pegadas do velho Rosa nos sertes e veredas do Andrequic e do Urucuia. Na esperana de encontr-lo a contar casos, juntamente com o Manoelzo, sombra de alguma velha gameleira.
Depois subirei ao mais alto pico da Mantiqueira para sonhar ante a viso de meio mundo de povoados e cidades mineiras e paulistas. Mas no deixarei Minas sem antes ouvir serestas em Montes Claros, Diamantina e Santa Luzia.
Para visitar o Sul do pas, o Nordeste, o pantanal mato-grossense e a Amaznia, reservarei tempo adequado. Sem me esquecer do Vale do Rio de Contas e da Chapada Diamantina, na velha Bahia, bero sagrado de meus antepassados maternos.
Percorrei o mundo detendo-me mais tempos na visita a Portugal, Espanha, Itlia e Frana, corao da latinidade. Da passarei ao Oriente, onde nasceram todas as grandes religies do mundo. No final desse priplo irei pousar no topo nevado do Evereste, na Cordilheira do Himalaia, para um perodo de meditao.
S depois irei bater s portas da eternidade.


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Por Web Outros - 28/7/2008 09:52:26
Alm da Macednia

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Adalmo Leo da Paixo era comerciante e nascido em So Jos do Jacuri. Com menos de 62 anos, pescava no So Francisco, entre Januria e Itacarambi. Cidado tranqilo e de sincero sorriso, equipava-se para o agradvel esporte. No dia 30 de junho ltimo, as grandes guas, quando a noite descia, o levaram consigo. Para sempre.
Quando a embarcao submergia, ainda salvou um amigo que o acompanhava. Muitas homenagens lhe foram tributadas, porque era um bom, dedicado a belas causas e costumes, que comeavam no lar. Restaram lembranas e lembrancinhas, que entretanto no o trazem de volta ao convvio, a que muita falta faz.
O curioso no episdio que, no colete protetor no utilizado naquele dia, de pescaria, havia um texto atribudo a Alexandre, o Grande. O filho de Felipe, da Macednia, discpulo de Aristteles, o filsofo, faz pensar, sobretudo diante das circunstncias do infausto acontecimento do ms findo.
So os trs ltimos desejos do poderoso monarca. beira da morte, ele convocou seus generais e seu escriba oficial, para revelar seus ltimos desejos e anseios. Ei-los:
1 - Que seu caixo seja transportado pelas mos dos mais reputados mdicos da poca; 2 - que seja espalhado no caminho at seu tmulo, seus tesouros conquistados (prata, ouro, pedras preciosas): que suas duas mos sejam deixadas balanando no ar, fora do caixo, vista de todos.
Quando um dos seus generais, surpreso com os desejos inslitos, perguntou-lhe a razo ou razes de seu testamento, Alexandre explicou:
1 - Quero que os mais eminentes mdicos carreguem meu caixo, para mostrar aos presentes que estes no tm poder de cura nenhuma diante da morte; Quero que o cho seja coberto pelos meus tesouros para que as pessoas possam ver que os bens materiais aqui conquistados, aqui permanecem; Quero que minhas mos balancem ao vento, para que as pessoas possam ver que de mos vazias viemos, de mos vazias partimos.
O cinema j mostrou Alexandre Magno em guerra contra povos adversrios e povos contrrios a seu planos. Por suas aes, uma das figuras universais da histria, pelo influxo extraordinrio que a sua vida, obra e personalidade exerceram no mundo inteiro.
No quis simplesmente ser o filho do grande Felipe. Sua inclinao se revela, ao convocar a seu lado Aristteles, que lhe abriu e ensinou todos os ramos do saber humano. Ainda prncipe, guerreou contra os trcios, os gregos e os ilrios. A stima arte recriou imagens da poca, de seus costumes, das imensas regies que percorreu.
Em assemblia, foi eleito chefe supremo dos helenos, submeteu os brbaros do Norte da Mesopotmia, arrasou Tebas de assalto poupando Atenas. Depois se encaminhou para a sia, com 5 mil ginetes e 30 mil homens a p.
Desbaratou o exrcito persa e, atingindo o Grdio, cortou com a espada o n clebre, que - segundo o orculo - conferia o imprio da sia a quem o desatasse. Jamais estagnou. Entrou em Tarso, onde quase morreu, atravessou as portas da Cilicia, contornou o golfo de Issus e esmagou o exrcito que Dario lhe ops, capturando a prpria famlia do rei persa.
Entrou na Sria, cercou duas vezes Tiro, na Fencia, durante sete meses, e Gaza, dali partindo para o Egito, onde fundou Alexandria. Granjeou o afeto do povo por sua magnanimidade e tolerncia poltica e religiosa.
Continuava seu projeto, quando quase repentinamente morreu. No consolidou a sua poltica, mas legou uma obra civilizadora sem par pelo desenvolvimento das riquezas, do comrcio e da navegao, progressos extraordinrios nas cincias na tcnica e na indstria.
Sua figura se pode medir pelos trs ltimos desejos a ele atribudos. Por seus atos e posies agigantou-se e toma as propores de um dos gnios da humanidade.


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Por Web Outros - 27/7/2008 12:21:51
As sapatadas de D. Tiburtina

Manoel Hygino

Esta histria caminha para oitenta anos. Aconteceu em 6 de fevereiro de 1930, quando uma caravana poltica da Concentrao Conservadora, que apoiava Washington Lus na Presidncia da Repblica e seu candidato sucesso Jlio Prestes, passava pela praa em que residia Joo Alves, um dos lderes da oposio em Montes Claros e favorvel Aliana Liberal.
Em meio ao foguetrio, quando destilavam prestigiosas figuras da poltica federal, estadual e municipal, ocorreu um grave incidente, que resultou em mortos e muitos feridos. Pelo calor da campanha, pela significao dos visitantes, exaltaram-se os nimos e o tiroteio alcanou as pginas dos jornais da capital da Repblica.
Na comitiva oficial; dentre outros estava Melo Viana, vice-presidente da Repblica e candidato ao Governo de Minas, que antes j ocupara. Assis Chateaubriand, contrrio ao Catete, encontrou no episdio motivo para sua imprensa. Mais recentemente, Fernando Morais, conceituado jornalista e apreciado pesquisador, inseriu na biografia da chat registros sobre o 6 de fevereiro.
Aparecem os nomes de Joo Alves, mdico querido na cidade, sua esposa Tiburtina Alves, fantica militante da Aliana Liberal, e a caravana foi atacada a tiros - supostamente por jagunos a mando da mulher do deputado. Est no livro.
Segue o texto: Em meio ao tiroteio, a mirrada Tiburtina aproximou-se do vice-presidente da Repblica e aplicou-lhe sucessivas sapatadas, ferindo-o com violncia no rosto e na cabea. Chateaubriand quis fazer de Tiburtina a Joana DArc do serto, da Aliana Liberal, a Anita Garibaldi do Vale do So Francisco.
Morais observou: Por maiores que fossem os desejos do jornalista, Tiburtina Alves eram apenas uma enfermeira gorducha que um dia, por mera casualidade, dera uma surra de sapato no vice-presidente da Repblica.
A agresso a sapatos, contudo, no existiu. Em muitos anos de trabalho, encontrei referncia aos episdios de fevereiro, ouvi depoimentos de muitas pessoas da poca, li artigos e livros, escutei comentrios de meu pai, tudo demonstrando que o ataque enfurecido de Tiburtina Alves no houve. Em meio ao tiroteio, quem teria coragem de avanar na direo do grupo poltico recm-chegado, fortemente armado, para tentar ferir um ex-presidente de Minas e ento vice-presidente da Repblica?
De princpio, a verso seria simplesmente inverossmil. Os depoimentos no processo policial que se abriu nada revelou a respeito, confirmando as informaes divulgadas e pessoalmente colhidas.
H de advertir que Tiburtina no era apenas uma enfermeira gorducha, at porque no existia na poca cursos de enfermagem em Minas. Apenas ajudara o marido-mdico a levar assistncia aos vitimados pela gripe espanhola, em 1918, visitando-os, de cada em casa, solidariamente.
Para um dos depoentes, inserido seu testemunho em livro de Milene Antonieta Coutinho Maurcio, Tiburtina tinha todos os dotes da mulher espartana. Quando jovem diziam que era de peregrina beleza. E eu a conheci em Belo Horizonte, j idosa, mas uma mulher com traos de rara personalidade, bela ainda quando chegava a velhice.
Quando veio de sua cidade para Montes Claros, Tiburtina viveu dos servios que prestava como costureira. At que, encontrando-se com Joo Alves, comearam uma nova etapa de vida, que, pelo visto, entrou para a histria.

Jornalista e escritor
[email protected]


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Por Web Outros - 11/7/2008 08:03:00
A famlia inacabada

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

O ttulo do livro A inacabada famlia humana. O autor, Leonardo lvares da Silva Campos; a editora, Armazm de Idias. E estas no faltam no volume de 300 pginas em que sobre numerosos temas e pessoas se fala, com muita liberdade, porque sem preocupao em agradar ou desagradar.
O nome do escritor sugere procedncia e origem, mas no h referncias. O que se sabe que Leonardo nasceu em 1953, foi membro da Academia Montes-clarense de letras, a que renunciou, foi editor de trs jornais desativados na regio, e colaborador, entre 1970 e 1980, na imprensa de Belo Horizonte.
Sua biografia indica que foi professor substituto de Introduo Cincia do Direito da hoje Unimontes e scio da Sociedade Orquidfila de Belo Horizonte. Mas tambm amante da Espeleologia e scio-fundador do clube dos Amigos dos Pssaros do Norte de Minas e integrante do Instituto Histrico e Geogrfico de Minas Gerais.
O livro se l com prazer, oferecendo uma srie de indagaes e quesitos, sobre coisas supostamente suprfluas, tanto quanto sobre questes transcendentais. Porque o autor , antes de tudo, provocador. Provoca-se e aos outros a respeito de assuntos de que se trata nas mesas dos bares, tanto quanto em eruditas conferncias.
A lei moral, religio, sociologia, antropologia, cinema, teatro, msica, sexo, esttica, o passado, o presente e o futuro. Diz Leonardo usar como tranqilizante a leitura de obras sobre pensadores com suas reflexes imorredouras, como as de Aristteles, Plato, Rousseau, Schopenhauer, Nietzsche, Descartes, Scrates, Voltaire e muitos e muitos outros.
De Scrates, nascido em 470 a.C, lembra que era muito feio e vivia na maior pobreza. O pai era entalhador de pedras e a me, parteira, mas da situao dizia orgulhoso. Elogiava o esforo da disciplina fsica e do trabalho, difundido a firmeza, o controle do sofrimento e a serenidade da alma. Jamais negou sempre divergir de sua desagradvel esposa Xantipa, mas aprendeu a dominar-se. Consagrou o mtodo de indagaes e respostas curtas para bem conduzir um interlocutor a se contradizer da opinio inicial.
Espao amplo no volume se d Mitologia. Evoca Jostein Gaarder, autor de O Mundo de Sofia, opinando que o autor optou por explicar o homem dentro da razo e da lgica, reduzindo a importncia da mitologia:
Vises mticas... existiam no mundo todo, muito antes de os filsofos comearem a question-las. Pois os gregos tambm tinham a sua viso mitolgica do mundo, quando surgiram os primeiros filsofos... Os primeiros filsofos gregos criticaram a mitologia descrita por Homero, porque para eles os deuses ali representados tinham muitas semelhanas com os homens. De fato, eles eram exatamente to egostas e traioeiros como qualquer um de ns. Pela primeira vez na histria da humanidade foi dito claramente que os mitos talvez no passassem de frutos da imaginao do homem.
E a histria se vai confundindo com o mito. Helena de Tria, a formosa; Pris, filho do rei Pramo de Tria, que se conheceu a mulher do rei Menelau de Esparta e por ela se apaixonou e foi correspondido.
Numerosos personagens fluem do texto. No s os antigos, mas tambm os de nosso tempo, os mitos da poltica do e cinema, a influncia que exercem. O Carnaval no Brasil entra no contexto, assim como Menotti del Picchia, com seu poema Mscaras com fora de teatro. Colombina explica-se a Pierr: Eu amo, porque amar variar, e em verdade/ toda a razo do amor est na variedade.
Esse livro de Leonardo lvares vale a pena ser lido.


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Por Web Outros - 7/7/2008 08:00:45
A fazenda arruinada

Manoel Hygino (Jornal "Hoje em Dia")

Era mais do que uma fazenda. O escritor Cyro dos Anjos, que chegou ao cume da carreira como membro da Academia Brasileira de Letras, descia do cavalo para, sob a copa de alguma rvores, devotar-se leitura. O pai o vigiava de perto.
Quando em Montes Claros, Darcy Ribeiro buscava energia na fazenda, ele que tambm alcanara, por todos os mritos, a Academia. A cidade em que ambos nasceram ganhava a projeo de dois de seus filhos conquistarem a glria de duas cadeiras no sodalcio maior das letras brasileiras.
Mais do que uma propriedade rural, a Fazenda das Quebradas se tornou um stio histrico, descrito com saudade por quantos o focalizaram. Acontece que aquele lugar, conhecido em extensa regio mineira, certamente com a melhor das intenes, foi objeto do decreto, de nmero 44.204, de 10 de janeiro de 2006, criando o Parque Estadual da Lapa Grande, com o que o prdio da Fazenda foi condenado ao abandono.
O Parque compreende aproximadamente 7 mil hectares de rea, destinada Unidade de Conservao de Proteo Integral, conforme descrito no texto original. Ficou claro: O Parque Estadual da Lapa Grande objetiva proteger e conservar o complexo de grutas e abrigos de Lapa Grande, os principais mananciais de fornecimento de gua para as comunidades de Montes Claros e dos municpios vizinhos, suas adjacncias, bem como a flora e fauna locais.
O artigo terceiro define que compete ao Instituto Estadual de Florestas e Copasa administrar o Parque, adotando as medidas necessrias sua efetiva proteo e implantao e, no prazo de 360 dias aps a publicao do decreto, elaborar o plano de manejo e constituir o seu Conselho Consultivo.
Outras medidas foram preconizada, como a Ao Discriminatria competente relativa rea do Parque, bem como a materializao de seus limites, nos termos de lei federal. Tambm foi autorizada a contratao, para esta Unidade de Conservao, do pessoal necessrio sua administrao e conservao, observada a legislao aplicvel.
Depreende-se a importncia da iniciativa governamental visando proteo de uma das mais belas e ricas reas do norte-mineiro, que as populaes cuidaram de mant-las para uso de todas as geraes. Ademais, no Parque se encontram, como diz o decreto, encontram-se importantes mananciais de gua, sobretudo se levar em conta que ali serto, sobremaneira sujeito s inclemncias climticas.
No se sabe se o plano de manejo, a que alude o decreto, foi concludo, aps esgotado o prazo estabelecido. H natural descontentamento pela falta de notcias oficiais sobre a evoluo do projeto, enquanto se sabe que a sede da histrica fazenda foi arruinada, entregue ao abandono.
Os que conheceram o velho prdio se sentem compungidos, diante da situao em que presentemente se encontra. No o que desejam as gentes da regio, e evidentemente o que imaginara com o decreto.
Um conhecedor da situao se expressou sobre o fato, dizendo que sente como uma punhalada o que fazem com os donos dos imveis, entregues a mos estranhas e a outras vontades, enquanto as determinaes do decreto, pelo menos ao que se conhece, seguem desobedecidas ou ignoradas.
Um dos problemas da administrao pblica brasileira reside exatamente na falta de cumprimento das ordens exaradas. O prprio presidente da Repblica, falando em Belo Horizonte, na inaugurao do Centro de Especialidades Mdicas, o disse. Anos aps expedir determinao para construo de uma unidade de sade em Queimados, Estado do Rio, verificou que a obra sequer se iniciara. tempo de mudar.




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