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77945
Por Iara Tribuzzi - 12/5/2014 14:41:17
Virgílio Preto

Ontem almocei com amigos montesclarenses. Amigos desde o ano de 1959, dos meus tempos de solteira, quando toda a nossa família se mudou de Salinas para Montes Claros.
Sou encantada com almoços familiares, prefiro-os a qualquer festa pomposa.
Também os prefiro em casa, no aconchego das salas, servido pelos empregados antigos - não estranhos, contratadas apenas para o evento.
Haverá algo mais saboroso que rosbife com cogumelos, batatas ao forno em finíssimas rodelas, salada variada e arroz, branquinho e solto,acabados de sair da cozinha ?
E a sobremesa ? Doce de mamão ralado com a casca, compota de goiabas vermelhas e fatias de queijo de Minas, curado. Ô delícia !!!
Música é a algaravia dos primos mais moços que se reencontram, dos irmãos que também são compadres, notícias dos que estão no exterior, risos e histórias antigas dos mais velhos...
Como também gosto das genealogias, e os Versiani dos Anjos são numerosos e muito entrelaçados com os Veloso,me pediram informações sobre o Vovô Antoninho - o Coronel Antônio dos Anjos.
Mamãe – Wanda Veloso dos Anjos Ramos - foi morar com ele aos dez anos, depois da morte súbita do meu avô José Versiani dos Anjos.E me contava suas histórias.
Na verdade ele deveria se chamar Antônio Rodrigues Froes, mas sua mãe pediu ao marido que o registrasse Antônio dos Anjos,para que o sobrenome dela não se extinguisse. As pessoas estranham que ele seja irmão do tio Juca Froes. Os irmãos do Vovô, além do Juca Froes (José Rodrigues Froes), eram Tia Júlia, Francisco Minervino (avô do Darcy Bessone) e João (avô do Múcio Ataíde).
Prometi conseguir uma foto de 1928, do maquinário importado da Alemanha para a sua famosa fábrica de botões, que o fez perder todos os bens, mais tarde.
Intriga-me como chegaram até Montes Claros aquelas máquinas gigantescas, quando os trilhos da via férrea ainda estavam distantes.
A conversa amena prosseguia, até nos lembrarmos do Virgílio Preto, comprador de gado para “Seu Benjamim da Anglo”, creio eu. O nome dele era Benjamim Pinto Veiga Soares, e morava na Avenida Francisco Sá, mas todos o chamavam Seu Benjamim da Anglo.
Assim como chamávamos Virgílio de Virgílio Preto.
Ele costumava ir à nossa fazenda Canadá - do meu pai Lúcio Ramos- e não se demorava depois de "apartar" os bois. Aceitava apenas um café com requeijão de Salinas, ou alguma fruta da chácara, mas uma noite as chuvas o prenderam, teve de pernoitar.
Era garboso, empertigado, muito seguro de si, e o rodeávamos, porque tinha boas histórias.
Chegava num cavalo alto, bem arreado, e falava bem, o que me encantava.
Um dia se esqueceu de tirar as esporas e deixou marcas na sala de Mamãe.
Dona Wanda sempre foi muito cuidadosa com horários das refeições, jantávamos bem cedo. Virgílio se levantou no meio da noite, foi à cozinha, abriu a geladeira e encontrou sobras de uma feijoada servida no almoço.
Não teve dúvidas. Esquentou-a no fogão a gás, procurou farinha de mandioca, que nunca nos faltava, e pimenta malagueta. Fez um bom prato, saboreou calmamente, deixou tudo em ordem e foi dormir outra vez, satisfeito e sossegado.
Na manhã seguinte Mamãe ficou horrorizada, para ela era inaceitável uma refeição pesada, de madrugada.Falou com Virgílio que ele se cuidasse, que só devia comer feijoada no almoço. Porque não tomara um copo de leite morno ? Ou um chá de folhas de laranja?
Nunca me esquecerei da expressão dele, mais perplexo que ela.
-Ô, Wanda, mas você é besta !
Lá dentro da gente é escuro, e dentro de mim é mais escuro ainda, porque eu sou preto.
Como é que meu estômago vai saber se é dia ou noite?

Iara Tribuzzi, noite de maio de 2014 Esta crônica é dedicada à família do Cida Athayde Lima e José Carlos de Lima.Augusta Versiani Fernandes, neta da dona Mariana (irmã do Dr. Carlos Versiani), casou-se com um Ataíde de Coração de Jesus - Francisco de Sousa Ataíde. Isso está na História da Família Versiani. E uma filha deles, Maria Augusta Versiani Ataide (D. Cota), casou com Hermes Froes, sobrinho do Vovô Antônio dos Anjos. Outro encontro das duas famílias.


77420
Por Iara Tribuzzi - 3/4/2014 19:23:07
Sr. José Ponciano, Agradeço-lhe pelo seu comentário, sou mesmo muito ligada a Montes Claros. Aprendi a ama-la antes mesmo de conhece-la. Mamãe falava muito da cidade e da família que deixara lá. Três dos meus quatro filhos são montesclarenses. É gratificante saber que nossa crônica tenha agradado a alguem, ou o tenha feito ressucitar lembranças.


77407
Por Iara Tribuzzi - 2/4/2014 10:09:13
WANDA VELOSO DOS ANJOS RAMOS
* 1917 + 2014

Hoje é dia do meu aniversário e o melhor dos meus presentes seria ouvir a voz bonita da minha mãe... Uma das suas cantigas - alegre ou triste, que acalentasse o meu coração e aliviasse o meu estranhamento pela sua ausência.

Ouvia desde sempre, porque ela gostava de cantar, e eu amava ouvi-la.
Até hoje sei de cor as cantigas - A Marselhesa, a Giovinezza, o hino à América, à Escola, à Montes Claros, à Primavera...

"A Primavera é uma estação florida
Cheia de flores e real fulgor
De flores enche o coração da vida
De vida enche o coração da flor..."

**********

"...Papai do céu, por favor
Deixe voltar a maninha
Pobre dela, coitadinha
Ela nunca mais brincou

A Mamãe vive a chorar
E lá em casa tudo chora
A vovó só conta histórias
Quando a maninha voltar...

Deus escuta meu pedido
Ela não suja o vestido
Eu vou segurando o véu

E quando a noite chegar
Maninha torna voltar
Pra dormir aí no céu..."


Intrigava-me quem seria esta maninha, ela não perdera ainda nenhum dos seus oito irmãos e seis meio irmãos. Depois me lembrei: Mamãe contava, repetidas vezes, que brincava, numa tarde, de zangue zalangue* com Clélia, sua prima em primeiro grau, filha dos tios Carlito Versiani dos Anjos e Joaninha Versiani Velloso.

Discutiram pelo direito de se balançar, o balanço estava armado numa árvore gigantesca, no quintal. Clélia ganhou no par ou ímpar, sentou-se, e, ao firmar o pé no chão, deu um grito. Sentira uma ferroada forte. Os adultos vieram, mandaram chamar tio Mário, farmacêutico e irmão de tia Joaninha, mas não houve jeito. Um escorpião se disfarçara entre as folhas secas e horas depois a Clélia morria.

Naqueles idos de 1923 não se usava levar crianças à psicóloga, e Mamãe se emocionava sempre ao se lembrar da prima e amiga. Mas não chorava, e aprendi com ela a segurar o choro.

Em 1927 perdeu subitamente o pai e tal perda a marcou profundamente. Em 1930, Mamãe estava no cortejo do vice-presidente Mello Viana**, levando pela mão seu irmão Ruy, que tinha as pernas fracas, recém saído de uma doença prolongada.

Quando passavam pela Praça Dr. João Alves, em frente à casa da famosa dona Tiburtina, casada com o médico doutor João Alves, onde está hoje o Automóvel Clube de Montes Claros, escutaram um intenso tiroteio, e ninguém sabia de onde vinham os tiros. A multidão se apavorou, e dizem que um veterano da Guerra do Paraguai gritou:
- Deita, minha gente!

Ambos se desgarraram da mãe, Vovó Antônia Veloso, que estava junto, e correram com o povo até o antigo Cemitério, no terreno da Catedral, que ainda não fora construída. Todos estavam assustadíssimos, os boatos eram muitos, diziam que havia mortos e feridos.

Não havia luz no cemitério, e a escuridão aumentava o medo, os adultos estavam mais amedrontados que as crianças. Muito tempo depois alguém os reconheceu e levou-os para a casa de Vovô Antonio dos Anjos. Sua filha Alice Versiani dos Anjos já se sentia mal, não sabia o que lhes teria acontecido. Disseram à boca miúda que a ordem de atirar teria sido dada pela dona Tiburtina, registrada na história como mulher destemida e ousada.
Dona Wanda estudou algum tempo em Pitangui, na casa dos tios Tonico Versiani dos Anjos e Sophia Ferranti, que eram muito sociáveis e promoviam bailes adorados por Mamãe. Daquela cidade trouxe uma canção lindíssima, contando a história da moça assassinada pelo pai, em Ouro Preto:

“Dizem velhos moradores
ainda transidos de horror
que em tempos já distantes
fora ali assassinado
por um pai desnaturado
um jovem casal de amantes...” ***

Mamãe veio para Belo Horizonte, acompanhando o avô Antonio dos Anjos, os tios Cyro e Waldemar e as tias Alice, Biela e Carlotinha. Vovó Carlota Versiani dos Anjos já era falecida. Passou a frequentar a Escola Normal Modelo - hoje Instituto de Educação. Contava que todos se apavoraram com os tiros disparados durante a Revolução de 30, que atingiram várias galinhas do quintal, na rua Tomé de Souza, no bairro Funcionários.

A família regressou a Montes Claros e ela se matriculou na antiga Escola Normal. Suas colegas eram Ruth Tupinambá Graça, dona Dezuita e Maria Aparecida Dias Netto, entre outras. Depois de formada, em 1933, deu aulas no Grupo Escolar Gonçalves Chaves, na Praça Dr. João Alves.

Foi nomeada para o Grupo Escolar Dr. João Porfírio, em Salinas, junto com Heloisa Veloso Sarmento, sua irmã e amiga mais querida. Mudaram-se para lá, em 1934. Casou-se em 1935 com o salinense Lúcio Ramos, e éramos cinco irmãos. O mais velho - Wilson José Ramos, faleceu aos 46 anos.

Em 1959 toda a família se mudou para Montes Claros e dona Wanda ainda trabalhou no Grupo Escolar Dr. Carlos Versiani - nome do seu bisavô - até se aposentar.

Lá, moramos na Avenida Afonso Pena e depois na Avenida Francisco Sá.
Quando Papai faleceu, em 2002, Mamãe quis permanecer na mesma casa, onde residia há mais de 30 anos.

Sua saúde foi se debilitando, nos últimos anos estava na cadeira de rodas.
Tinha muito medo do CTI, pedia que não a deixássemos ser levada para lá. Sua estrutura óssea definhou, ficou uma mulher miudinha, que ainda adorava os jornais. Já não lia mais os amados livros, só reconhecia as pessoas muito próximas. Até se esqueceu de rezar o terço, de que tanto gostava. Via TV, mas nada guardava. Nunca maltratou as acompanhantes, não ficou agressiva.
Era sempre muito bem educada, agradecia a cada vez que lhe serviam alguma coisa. Gostava de recitar comigo as antigas poesias - Vozes d`África, A cruz da estrada... Ainda há pouco tempo cantávamos juntas e ela se lembrava das cantigas - perfeitamente. Às vezes me corrigia - está desentoando!

...Hoje é dia do meu aniversário e o melhor dos meus presentes seria ouvir a voz da minha Mãe. Uma cantiga alegre ou triste, que acalentasse o meu coração e aliviasse o estranhamento pela sua ausência...

Iara Tribuzzi, outono de 2014


* Zangue zalangue: era como se denominavam os balanços rústicos ou caseiros, confeccionados com cordas e tábua.
** Tiburtina: Em 6 de fevereiro de 1930, registrou-se trágico incidente em Montes Claros, que Assis Chateaubriand batizou de “emboscada de bugres”, de que se aproveitou largamente a imprensa nacional.
Um tiroteio vespertino na maior cidade norte-mineira, após ali desembarcar o vice-presidente da República, Mello Viana, acompanhado de ilustre comitiva, contribuiu para precipitar o processo de ebulição política e a eclosão da revolução, que se confiava, seria mais que substituição de um presidente.
SANTOS, Manoel Hygino dos
Vargas - de São Borja a São Borja – Belo Horizonte, 2009
*** “Ai, minas de Vila Rica
Santa Virgem do Pilar!
Dizem que eram minas de ouro...
- para mim, de rosalgar,
para mim donzela morta
pelo orgulho de meu pai.
(Ai, pobre mão de loucura,
que mataste por amar!)
Reparai nesta ferida
que me fez o seu punhal:
gume de ouro, punho de ouro,
ninguém o pode arrancar!
Há tanto tempo estou morta!
E continuo a penar.”
MEIRELLES, Cecília, 1901-1964
Romanceiro da Inconfidência, São Paulo, Editora da USP; Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004
Belo Horizonte, outono de 2014


76605
Por Iara Tribuzzi - 4/12/2013 17:13:57
"Corria o ano de 1958. Em outubro de 1957 os russos haviam lançado o primeiro satélite, o Sputnik, tema predileto, por muito tempo, das conversas montesclarinas"
Oi, Augusto Sempre o leio com muito gosto, e de vez em quando encontro palavras e expressões que fazem uma dobra no tempo. Balas dum dum me encantam, desde menina. Eram mencionadas com o maior respeito,embora até hoje não saiba bem como são. Eram importantíssimas, inspiravam temor, enfatizavam crimes e tocaias Esperava vê-lo no lançamento do livro da Carmen Netto. Um abraço, Iara


76310
Por Iara Tribuzzi - 19/10/2013 12:41:59
"O mês de outubro está em curso e nos faz lembrar nosso tempo de criança em Jacarací, nossa terrinha, sertão baiano de sol gostoso e pouca chuva. Mês de outubro, tempo de pequi. (...)"
Oi,Sr. José Prates, Sempre leio as suas crônicas, hoje tenho duas dúvidas. Como é o mandapuçá ? Fiquei também intrigada como o gado comeria os pequis, tão cheios de espinhos. Criada em Salinas, na fazenda,não conheci de perto os pequizeiros, só via os frutos à venda, no mercado.


76267
Por Iara Tribuzzi - 9/10/2013 08:09:35
"Para coroar de êxito maior o uso do palavrão já existe - não sei se já publicado - um dicionário todinho dedicado ao assunto, com toda a maestria do etnógrafo Mário Souto Maior, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais."
Oi, Wanderlino Fui criada com rigor e estudei com freiras. Elas afirmavam que deveríamos ler livros "edificantes",e tentar apurar a linguagem. Embora tenha lido os tais livros proibidos - Josefina, A filha do diretor do circo e outros, os palavrões me incomodam até hoje,e talvez concorram para empobrecer o vocabulário. Mas estão aí, no dia a dia ...


76168
Por Iara Tribuzzi - 27/9/2013 10:59:00
"(...) estou (...) enviando foto das antigas que nilo me enviou. Para (...) acervo historico e para o Montesclaros.com."
Oi, José Aluisio A moça que foi identificada como "Iara "não seria Marília Ferrante - agora Rabello ? Bem gostaria de ter participado deste grupo alegre,vou conferir com a Mary Pimenta. Perdi , quando vim do Rio para Bh, as fotos dos tempos de Montes Claros. Se alguem puder me enviar alguma,ficarei grata.


76143
Por Iara Tribuzzi - 24/9/2013 16:01:00
"Bar do Tamiro, do Altamiro. Eis aí um lugar antológico de Montes Claros, nos anos 50/60/70. Ficava na avenida Afonso Pena, esquina da travessa Padre Marcos, santo belga cuja vasta casa foi derrubada recentemente. Ao contrário, minúsculo, 3 metros por 3, se tanto, o Bar de Tamiro supria de pão, de pastéis, biscoitos, balas, pinga, vermutes, de um tudo enfim, a quem morava no centro de Montes Claros."

Para Altamiro
As lembranças do leitor Mariano levaram-me de volta aos anos sessenta, quando morava em Montes Claros. Tenho saudades do moço Altamiro _ claro , tranqüilo e reservadissimo, que mantinha sempre aberto seu bar na esquina da Av. Afonso Pena com a Travessa Padre Marcos. Talvez vendesse muitas doses de pinga e de conhaque, mas tinha estoque para as emergências das donas de casa. Vendia um excelente bolo de fubá em fatias, e doces tentadores: cocadas, pés de moleque e doces de leite. Por onde andarão Dona Neinha, aparentada do Padre Janjão, seu marido e os muitos filhos? Defronte a casa de meus pais na Avenida Afonso Pena moravam Neném Barbosa e Dona Geny , sua filha Luisinha se casara em mil novecentos e sessenta. A casa era nova, bonita, recém construída, e as empregadas uniformizadas. Seu Neném, muito amigo de meu pai, ia sempre à nossa casa, na Travessa Padre Marcos, antiga residência de Carmélia Barbosa , ver as crianças e tomar um café, bem ralinho, como gostava. Ricardo, aos três anos e muito falante, comentou: _ Não conheço outro neném velho, só esse. Doutor Mariani morava ao lado da casa de meus pais,na Avenida Afonso Pena, com Dona Lia e o filho José, e adorava conversar na porta da rua. Um pouco adiante moravam Vovó Antonia e o marido José Luiz, padrasto de Mamãe . Espirituoso e voraz leitor de romances.Os filhos Tereza, Maria Luiza, Coró e Chiquito moravam ainda com os pais. A primogênita Silvia já se casara e Zezito estudava medicina no Rio de Janeiro. Em frente a casa deles residia Dona Dezuita , em sua famosa Escola de datilografia, por onde passaram gerações de monteclarenses. A casa dos primos Nuno Lages Filho e Gisélia Henriques era bem próxima e mais adiante ficava a casa dos tios Lelé e José Henrique de Souza Seu Aristides Maia e Dona Naná residiam junto a casa de Doutor Mariani. Numa noite, em hora bem avançada, ela bateu nossa porta. Não havia Estação repetidora de televisão, todos se recolhiam cedo mas eu ficava até tarde corrigindo os exercícios dos alunos do Grupo Escolar. Pois dona Naná entrou dizendo: _ Vim conversar um pouco com você. Aristides chegou em casa às seis horas da tarde, vestiu o pijama e sentou-se na varanda. Tentei puxar assunto, várias vezes, ele sempre calado e as horas passando. Então lhe disse: _ Oh! Aristides, o assunto esta ótimo, a prosa muito boa mas eu vou ali conversar um pouco com Iara. Seu Aristides, sempre tranqüilo, não ficou agravado e a filha Cida e eu achamos muita graça da estória. Outra noite, também em hora tardia, Márcia Graça Andrade, filha de Dona Ruth e seu Armênio me chamou, aflita: _ A casa de Vovó Dona esta pegando fogo. O incêndio consumiu quase tudo, embora as pessoas tentassem ajudar. Não havia Corpo de Bombeiros. Não pude sair de casa,deixando as crianças, nem sei como o fogo começou. Lamentei que se perdessem tantos objetos bonitos de Dona Maria , Feli e Carmem Lúcia, que permaneciam calmas, apesar das perdas. Num fim de tarde de fevereiro de mil novecentos e sessenta e cinco embarcamos numa cabine dupla do trem de luxo da Estrada de Ferro Central do Brasil. Meus filhos, Ricardo, de três anos, Flávio, de dois e Lúcia Maria ainda bebê de dois meses, além de duas ajudantes. Meus pais e irmãos tinham ido a um casamento em Taiobeiras, e Hernani já trabalhava no Rio de Janeiro. Estávamos de mudança. Então, seu Lindolpho Laugthon, um amigo precioso, encarregou o filho Ricardo de nos acompanhar até a Estação de Montes Claros e acomodar tal “troupe” com sua enorme bagagem. Não havia fraldas descartaveis, iorgute em copinhos e nem barrinhas de cereais. Levávamos grande matula e muitas mamadeiras, apesar do vagão restaurante oferecer um bom jantar, fresquinho, com um inesquecível ovo frito,que meus filhos chamavam de ovo deitado . Assim resgato minhas lembranças dos bons tempos montesclararenses e dos amigos cavalheiros – Altamiro - um lord inglês calmo e imperturbável – e do Seu Lindolpho Laugthon, atento às dificuldades de uma mãe com tres crianças pequeninas. Iara Tribuzzi Outono de 2010


76137
Por iara tribuzzi - 24/9/2013 08:25:05
(...) Nos anos cinquenta, a gente mais bonita e mais falante da cidade eram os jovens do footing, Rua Quinze e Praça Doutor Carlos, trecho que ia do antigo Clube Montes Claros até a esquina da Rua Doutor Santos, bar de Manoel Cândido e Hotel São Luís, transformado em Caixa Econômica e, depois, em Copasa. (...)

Bom dia, Wanderlino Sua crônica me levou à antiga Montes Claros,à Rua 15 que passei a frequentar em 59. Lá estava a Imperial - e só comprávamos lingerie com a Violeta! No quarteirão abaixo ficava a Casa Colombo,com seus tecidos tentadores e máquinas de costura... além do atendimento especial de Tatá e Jaiminho Rabello. Por favor me esclareça - a pensão da Dona Tonica ficava naquela casa onde se instalou o boteco do Altamiro ? E a biblioteca, onde estava ? Um abraço. Iara


76036
Por Iara Tribuzzi - 6/9/2013 09:41:43
NOTURNO NÚMERO DOIS*
Iara Tribuzzi

A única mulher de família que pôs os pés na Coréia, rua da zona boêmia de Salinas, e em plena madrugada, foi minha Vó Milota. Mesmo assim por engano e também porque não sabia dar corda no relógio de carrilhão do Vô Adelino. Ou talvez soubesse, mas era idosa para subir num banco e alcançar o tal relógio, lá no alto da parede da sala de visitas.

Sua viuvez era recente, depois de sessenta anos casada com o homem mais cordato da cidade. Ao perder o companheiro, passou a ser tutelada pelo único filho homem, bem menos cordato que Vovô, mas atento ao dever de zelar pela mãe. Sua primeira providência foi mandar buscar uma das muitas afilhadas de Vovó, mocinha educada e gentil, para acompanhá-la.

Do alto dos seus setenta e quatro anos, Vó Milota era vivaz e muito bem disposta. Vivia a fazer biscoitos e doces, costurava sempre, e recebia, aos sábados, suas comadres e compadres que vinham da roça. Servia-lhes uma merenda e lia para todos o que achava interessante no Almanaque do Santuário de Nossa Senhora Aparecida. Sempre me impressionou seu extremo cuidado com grávidas e parturientes. Apesar da rotina atribulada, tirava um dos dias da semana, com chuva ou sol causticante para subir ao Morro do Capim e ensinar os cuidados com o parto e com recém-nascidos. Recomendava, sobretudo, que no resguardo as parturientes fossem preservadas de sustos e de contrariedades, que lhes poderiam causar grande mal.

Numa das muitas noites de insônia, madrugada escura como breu, aconteceu com Vovó o inusitado. Não havia réstia de luz e nenhum luar. Ela sacudiu a afilhada Venerita, que resmungou não ser a hora de acordarem, porque ainda estava morta de sono. Vó Milota retrucou:

- Que nada! Os galos já amiudaram o canto, já amanhece!

- Mas, madrinha, aparteou Venerita, está escuro demais. Não enxergo nadinha.

- Pois vá buscar um lampião, acenda o fogo e passe um café.

Estremunhada de sono, a pobre moça fez o que lhe pedira Vó Milota.

Vestidas e arrumadas, saíram rua afora, rumo à capela do Colégio das irmãs, lá no alto, perto do Morro do Capim. Seguiram pela rua da Baixinha, subiram em direção à casa paroquial e alcançaram a rua do cinema.

Venerita ponderava que estava tudo muito estranho. Não se via viv’alma.

- Madrinha, Madrinha, esta hora pode estar errada.

- Que nada, fique quieta. Estamos quase chegando.

Em silêncio, na escuridão total, continuavam ladeira acima mesmo vislumbrando, ao longe, pálidas luzinhas móveis, de lanternas de mão.

Venerita apavorou-se. Não seriam "visagens"?

De braços dados, subiam a rua Padre Salustiano, e quando passavam entre o Cine Teatro Salinas e a Igreja Presbiteriana, aconteceu um despropósito. Totalmente imersas na escuridão, andando devagar, amedrontadas, atentas aos sons da noite, ouviram, de repente, um piado triste da corujinha caburé que morava na torre da Matriz. Ao longe, um sapo coaxou em resposta, uma gata vadia miou, descontrolada, enquanto um vira-latas bobo latia para o nada. Acima do Morro do Capim uma chuva de estrelas, como brasas cadentes, riscou o negrume da noite.

- "Virge Nossa"! Que esparrame agourento, pensou Venerita, mais alarmada ainda.

Preocupadas, nem perceberam que as luzinhas distantes se aproximavam, e alguém perguntou a Vovó:

- Madrinha, que aconteceu? Aonde vai, a esta hora?

- Vamos assistir à missa no colégio das irmãs.

- Mas o colégio ficou para trás e aqui não é lugar para a Senhora. Estamos na "Coréia".

O rapaz, seu sobrinho, ofereceu-lhe o braço, deram meia-volta, e marcharam ladeira abaixo, em silêncio; Vó Milota emburrada, o moço ressabiado pela flagrante esbórnia e Venerita muito transtornada.

- E agora, madrinha? Se souberem que estive na "Coréia" nem casamento arranjo.

- E alguém precisa saber? Só se você mesma contar.

- Mas madrinha, falei com a senhora que aquele canto do galo era canto enganoso, não de dia amanhecendo. Diz o povo que galo quando canta fora de hora tem moça fugindo para casar.

Vovó passou-lhe um olhar de reprovação, mas, no escuro, ela não viu. Sentiu apenas a dor do apertão no braço, e ficou quieta. Calados, todos voltaram para casa, o moço se despediu e Vó Milota, para disfarçar o engano, deitou-se novamente. Antes de pegar no sono disse pra si mesma:

- Vai ver que esse galo velho endoidou de vez, melhor fazermos dele uma farofa.

Belo Horizonte, sem data.


75510
Por Iara Tribuzzi - 3/6/2013 11:48:07
" Uma escola de violência -Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia" Nesta época em que, mais uma vez, se aventa a hipótese de fim do mundo, em que a terra treme sucessivas vezes no Norte de Minas - sobretudo na gloriosa Montes Claros, em que meteoritos cruzam os céus, um dos quais deixou em torno de mil mortos em território russo, há muita probabilidade de que muito mais possa acontecer. Cumpre ampliar conhecimentos sobre a matéria para se saber o que o futuro nos reserva.(...)Ouvira dizer que um conterrâneo fora atropelado e morto quando descia da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Belo Horizonte, e tentava cruzar aquele importante logradouro público. A estação abriga hoje o Museu de Arte e Ofício.(...)

Sou leitora assídua do montesclaros .com, li sua mensagem e pergunto : - Seria este Capitão João dos Anjos Frois irmão do Coronel Antônio dos Anjos ? Verifiquei no meu vade-mecum - Historia da família Versiani e quero crer que seja mesmo nosso tio bisavô, mas não sabia do atropelamento. Agradeço-lhe, gosto muito das histórias da família. Sabemos, pelas narrativas dos familiares, que o "Vovô Antoninho" assinava apenas dos Anjos a pedido da sua mãe,para que não se finasse o sobrenome. Em 1940 , o Coronel Antônio dos Anjos viera a Belo Horizonte visitar os filhos ,há uma ultima foto sua com o neto Flavio Rabelo Versiani , ainda bebê, no colo. Ao chegar em casa pediu à filha Alice que lhe preparasse um chá, sentia um enorme cansaço. Ela o encontrou desfalecido, e ele veio a falecer logo depois. Um abraço. Iara Tribuzzi


75480
Por Iara Tribuzzi - 25/5/2013 08:05:49
Rondó


Ô avó triste e risonha,
Vê se agora me respondes
- Que profunda dor escondes
Atrás do teu doce olhar?

-Não sei, não sei ...
Meu coração é transido
De dor esmaecida
Uma dor tão antiga

Dela até já me esqueci
Vive sempre escondida
Mas às vezes se revela
E inquieta, me sorri


Ô avó triste e risonha
Vê se agora me respondes
Que sonhos tu me escondes
Atrás do teu doce olhar?

Nem sei, nem sei...
Meu coração é aquecido
Por um sonho tão antigo
E agora esmaecido

Dele até já me esqueci
Vive bem escondido
Mas às vezes se revela
E assim me faz sorrir.


75473
Por Iara Tribuzzi - 24/5/2013 20:30:43
Classificados

Vende-se uma fazenda às margens do rio Verde Grande, com tamarindeiros imensos, um pé de abricó de macacos doado pelo Konstantin Christoff em 1984, além de muitos ipês, oitizeiros e sibipirunas adultos, e um jatobazeiro jovem.
Há alamandas antigas, na cerca do pátio interno, um arco de buganvílias explodindo em cores, uma cerca viva de folhagens trazidas da casa do Sion, em Belo Horizonte. Da janela da sala de jantar vê-se um grande pé de damas da noite ao lado de um manacá, este de menor porte. Há um gramado bem cuidado, e nele uma touceira de jasmins do Cabo, outra de murtas floridas. Adiante da sebe - um pé de sapucaia, um pau mulato, um jequitibá, três amendoeiras e dois flamboyants gigantescos, um deles com o tronco coberto de jibóias trepadeiras. Ao lado da garagem, misturados às flores de amor bem-casado, uns melões de São Caetano, que deixamos ficar, cobrem a cerca. Bem junto, bastões do Imperador, vermelhos, doados pela Cleonice Laugthon, e resedás branquinhos, que alguns chamam de escumilhas ou rosas Norma, fornecidos por Paulo Berutti, amigo agrônomo, um tapeceiro genial.
No final das tardes chuvosas costumam passar, à leste desse Éden, bandos de garças brancas, voando na direção sul - norte. Deixaremos outro bando, de cocás ou galinhas d` Angola, que estão lá há tempos, nunca permitimos matá-las.
Também deixaremos muitos sonhos bem enterrados, e estarão num bom lugar, porque a terra é boa, fértil, dadivosa e acolhedora. Sempre!


Este anúncio é dedicado ao amigo Reivaldo Canela, autor de "Menino Pescador", apaixonado pelos pássaros, peixes, plantas e frutas, e pelos antigos quintais da sua amada Montes Claros.


73061
Por Iara Tribuzzi - 27/9/2012 18:34:03
Oi, João Carlos

Foi duro nos despedirmos de você, entrarmos em sua casa enlutada, ver tanta tristeza no olhar de cada um dos seus meninos -Danilo, Dario,Daltron, Dirceu e João Carlos. Encontrar Zezé abatida, perdida em brumas .
Voltamos a BH, e as lembranças tomam conta de mim.
Lembra-se da comemoração dos vinte e cinco anos de formatura, sua e do Hernani? No ano de Deus de 1974?
Viajamos para o km 47 - como chamavam a Universidade Rural - de carro, já atrasados. Ouvindo histórias, do tempo em que,"internos" alí, vocês e o Jorge Nova da Costa, que viera também de São Luis do Maranhão, participaram dos primeiros tempos da nova sede. Sentiam falta do Rio e da praia, no campo afastado. Mal terminara a segunda guerra, as novidades do governo
eram muitas, as do Brasil também.
Finda a cerimônia, os discursos e o almoço fomos para o Rio e, à noite, vimos "Brasileiro - profissão esperança" - no Canecão, com Paulo Gracindo e Clara Nunes.
E mais saudades. Da antiga Montes Claros, que também a mim acolheu gentilmente, do Banzé, da juventude, das esperanças.
Da sua mansuetude e gentileza,qualidades hoje raríssimas.
Tantos sonhos ,agora preciosas lembranças. E saudades, sem esperanças.
O melhor abraço da sua velha amiga,
Iara


55705
Por Iara Tribuzzi - 4/3/2010 08:36:54
Para dona Ruth e Feli

Iara Lúcia Ramos Tribuzzi

Querida dona Ruth,
Li, enternecida, sua crônica sobre Felicidade Tupinambá –nossa amada Feli. A inesquecível noite de seis de Janeiro de 1961- noite de Reis e véspera do meu casamento deixou-me a mais preciosa lembrança da sua generosidade.
Morávamos então em Montes Claros, na Avenida Afonso Pena esquina da Travessa Padre Marcos e na outra esquina, em diagonal, num casarão antigo cujas janelas se debruçavam também na Rua Pedro II, moravam Dona Josefina com os filhos Feli, Cassemiro, Dona Maria e a neta Carmen Lúcia .
Hernani Tribuzi e eu nos casaríamos na manhã seguinte, dia sete, às nove horas ,na igreja matriz de Nossa Senhora e São José, o Padre Quirino celebraria a cerimônia. Meus pais receberiam, depois, em casa, grande parte da nossa família salinense, e amigos.Haveria um almoço sob o comando de Olímpio de Abreu,casado com Sílvia Veloso Barbosa, irmã de Mamãe pelo lado materno.
Lá pelas sete da noite chegaram inesperados hóspedes de Belo Horizonte, e lembro-me de ter mudado de lugar os presentes recebidos, para abrir espaço e acomodá-los. Feli veio ver se precisávamos de alguma coisa, e Mamãe lhe disse que a casa não fora ainda enfeitada, ela não sabia o que fazer, nem como, e estava meio aflita. Feli atravessou calmamente a rua e trouxe de casa grandes vasos com arranjos de flores secas que nos pareciam belíssimos, mas ela deu neles alguns retoques. Ajuntou verduras, legumes, folhagens e flores e buscou algumas rosas do jardim de Dona Naná Maia, grande amiga e vizinha. Começou a trabalhar, calada e quieta. Montou na mesa da sala de jantar um inacreditável arranjo, usando todos os chuchus, grandes e pequenos , tirados do chuchuzeiro do quintal. Continuou trabalhando noite adentro, tranquilamente, com empenho e perfeição.Suas mãos habilidosas fizeram maravilhas, produziram milagres, e à medida que a noite avançava eu me acalmava, só de estar perto dela, que me falava, no silêncio da noite, sobre o seu próprio noivado desfeito, um grande amor contrariado.
A expectativa do casamento me assustava.Tinha apenas dezenove anos, poucas informações, e era pretensiosa, acreditando que o meu amor e o meu empenho fossem suficientes para uma vida feliz .Todas as pessoas da casa se recolheram, inclusive os hóspedes, ficamos as duas, dando os retoques finais. Ao terminar Feli olhou para mim e disse:
- Você se esqueceu de pinçar as sobrancelhas, dê um jeito nelas quando acordar.
Meu dia começaria de madrugada, assistindo a primeira missa da capela da Santa Casa para comungar. Não poderia ficar em jejum até as nove horas, como determinavam então as normas da Santa Igreja. Depois da missa e do desjejum a prima Gisélia Henrique Lage, também vizinha e madrugadeira, tiraria os “bobs” do meu cabelo, me pentearia com cuidado e ajudaria na maquillagem simples.
Lamento não ter uma só foto da casa enfeitada, e não sei se disse a Feli como foi importante sua presença e inestimável ajuda.
Faço hoje um agradecimento sensibilizado a ela, ao meu tio Olímpio de Abreu, pelo almoço fantástico, a Águeda Avelar pelas tortas maravilhosas, e a tantos outros montesclarenses generosos que organizaram nossa festa, naqueles bons tempos de simplicidade, quando não havia, ainda, os buffets.
Iara Tribuzzi
Verão de 2010




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