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25/6/2014 - O goleiro Bruno, condenado por homicídio, já está na Penitenciária de Francisco Sá. Seus advogados dizem que é "meio caminho" para que volte a jogar, no caso em M. Claros. Esta possibilidade trará para a cidade:

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           Paulo Narciso    paulonarciso@montesclaros.com

76730
Por Paulo Narciso - 4/1/2014 15:41:57
No entardecer de 6 de dezembro, no Tempo da Epifania, depois de muitas vezes, consegui que Raio atendesse o interfone da casa/museu do seu pai, onde pincéis produziram quadros e horas inolvidáveis, como Pavão gosta de repetir.
Atendeu, identificou prontamente a voz que o buscava, saiu à porta e, milagre, aceitou alegremente deixar os seus domínios últimos, e conversar. (Igor, seu irmão, ontem perguntou: "com que trator conseguiu arrastá-lo?")

O fato é que Raio veio, contente conversar.
Ali perto, de uma varanda para a cidade, por 3 horas conversamos, ou mais. Apenas os dois. Nossas vidas de 60 anos foram recuperadas, e revisitadas, em cada quadra. Pareceu-me muito com o gigante que foi seu pai. Lúcido, raciocínio alto, controle da situação, despojamento, despreendimento.
Um sábio que se ancora na solidão, para melhor falar com Deus, que a todos ouve no grande deserto. Inesquecíveis 3 horas, de vasto sobrevôo.

Apenas uma vez Raio desceu às vicissitudes humanas, quando se sentiu, e confessou "rodeado de buracos".

A imersão, rápida, às regiões de dor sempre foram passageiras no fantástico mundo que sempre soube construir, um seguido sempre de muitos outros, infindáveis.
Tomei a iniciativa, deliberada, de afastá-lo dos "buracos", e provoquei para que voltasse aos planos costumeiros de sua lucidez, que a muitos pode parecer caótica, e nunca, nunca foi. A solidão dos altos vôos, a espaços rarefeitos, é um preço a ser pago, e ir lá nada tem de egoístico, de soberba ou superioridade.
Raio exibiu maioridade mental - leve, verdadeiro, autêntico, e nosso diálogo, com a promessa de muitos outros, foi longinquo e privilegiado, até para a noite que é de Epifania.

O homem tocando as suas cumeeiras, equilibrado e justo, no esplendor do pouco querer.
Lembrei-me de Taine, citado por Lima Barreto: "Tudo amar para tudo compreender, tudo compreender para tudo perdoar..."
Percorremos S. Joao da Cruz e Yogananda, e ele fluiu soberanamente, leitor voraz que sempre foi.

Fui entregá-lo de volta á sua casa, a pé, em função de detalhe que me impressionou profundamente.
Raio, quando aceitou vir comigo, naquele entardecer (repetirei sempre: começo de Epifania), a cada passo que se afastava da Casa do Pai, voltava-se com o olhar para ela.
Fez isto várias vezes, no espaço de 2 quarteirões.
Talvez se perguntando: se saberia voltar, se era capaz de voltar.
Temia não voltar, esquecer o caminho, perder-se?

Voltou.
Voltará muitas vezes. Numa Noite, Feliz.

(Estas lembranças dito com um só dedo, que é o que este mini-computador aceita, em trânsito, a caminho, para dizer "bravo" ao que depôs seu primo Ucholino, sempre muito bem. Raio vive)


72515
Por Paulo Narciso - 15/8/2012 15:16:22
São memoráveis estas novas páginas de Flávio Pinto, já consagrado por outras publicações – em jornal e livro. Ungido desde os tempos d “O Jornal de Montes Claros”, ainda na década de 60, rapazola.
As crônicas aqui ajuntadas eu as li em primeira mão, quando as recebi para publicar no nascente montesclaros.com, já agora com 12 anos. Tive o privilégio de lê-las em primeiro lugar – a primazia.
Quando Flávio decidiu colocá-las em fila, no livro, com o amorável título, mandou-me o rascunho.
Chegou-me em hora do almoço. Entre a refeição e a leitura, a emoção fez digitar no Ipad, com um só dedo, o bilhete que confessava a sedução em flagrante:

“Com um olho no prato e o outro no livro, acabo de percorrê-lo. O tempo está nublado em M. Claros, o que contrasta com a luminosa evocação que você faz dos nossos dias – eternas tardes ensolaradas que jamais se dissiparão. Chamadas para o livro, estas suas, nossas recordações, crescem muito mais. Corra a publicá-las. Esperaremos pressurosos. Iluminarão outras tardes, clarearão outras vidas. Sugiro a colocação das datas, para ancorar os fatos num tempo que realmente existiu – pois muitos duvidarão de que fomos tão felizes, e de que houve tempo assim, tão (ainda) perto de nós”

Nas evocações neste livro contidas, digo-o já, há um terno e singular lirismo, sem transbordamentos.Quando por exemplo o autor diz:

“-... os poetas, sempre voltarão.
Principalmente os que falam com as estrelas.
Um dia o povo ainda haverá de ouvi-los.
E se manifestará, nesta terra de eterna
Inconfidência.
Que não seja nunca.
E nem tarde”.

Ou, quando, mais à frente, deixa escapulir:

“O sargento vigiando os atiradores.
As freiras de olho nas moças.
O tocador, no olhar de certa.
Que atravessou toda a avenida e se perdeu
No tempo”.

Para, adiante, perguntar:

“E o Mural?
E responder, ele mesmo, autor:

“É o Cooper da atividade intelectual do montesclarense. Quantos poetas, quantos escritores, quantas idéias estariam hoje dentro do vazio de uma gaveta, junto a mofo e seculares poeiras, se não fosse este mágico Mural para retirá-los do buraco negro onde estavam e trazê-los para cá, cada um dando o recado de seu jeito, seja mais culto ou menos sabido e fazendo-nos ver e crer que existe realmente vida e coração alegres batendo à nossa volta”

Foi o que constatou em vésperas de Natal, o de 2006. Não sem antes, ou depois, deixar vazar o gemido, quando tombaram, tocaiaram sordidamente o prédio do antigo Seminário Diocesano, que foi sede do Ginásio Municipal e da Prefeitura, trespassado junto com a nossa avenida:

“Ai vi a foto publicada nos jornais, do velho ginásio. Destelhado, as telhas na calçada e a chuva molhando tudo. Como lágrimas. Que tristeza”.

Por tudo que vai neste novo livro, creio que não será muito pedir, por todos, que Flávio Pinto prossiga. Prossiga como cronista da nossa cidade. Pedir que lamba, sempre mais, a cria que é capaz de extrair do seu coração, dos refolhos, das dobras e das redobras, para ensolarar as muitas tardes de uma quase miragem que não se perdeu, nem se perderá. E que todos chamamos, e amamos, como os montes claros. Assim, seja.


71219
Por Paulo Narciso - 3/5/2012 17:42:52
Aconteceu perto de nós

Paulo Narciso - Jornal O Tempo (BH)

Guardo na sala de direção da Rádio Montes Claros 98 FM documento emoldurado que melhor ficaria depositado, e reverenciado, nos arquivos dos momentos mais altos da imprensa mineira e brasileira, se este cuidado fosse comum entre nós.
São as folhas originais do editorial de fechamento de um jornal de província. No caso, o “O Jornal de Montes Claros”, que circulou por 38 anos. Jornais, como pessoas, nascem, vivem e morrem, e assim dão sequência aos serviços da natureza como resumiu líder espiritualista mineiro.
Uma coisa distingue este jornal e o seu editorial de fechamento de quantos são conhecidos.
Na década de 80, o diretor Oswaldo Antunes, da mesma turma e linhagem de Edgar da Matta Machado, Alphonsus de Guimaraens Filho, Otto Lara Resende, José Mendonça, Hélio Pellegrino e Milton Amado, percebendo que não mais poderia sustentar o jornal com a altivez e correção de quatro décadas preferiu, ele mesmo, sufocá-lo. Matá-lo.
Produziu um documento primoroso. Raro. Extraordinariamente belo e alto. E, no gesto solitário, sereno, cortou o caminho que pudesse levar o jornal, como as pessoas, a sangrar em público e descer pela vida.
Oswaldo Antunes, assim como Wander Pirolli, Célius Aulicus, Fialho Pacheco, Hermenegildo (Monzeca) Chaves, Odair de Oliveira, Teódulo Pereira, Pedro Agnaldo Fulgêncio e muitos outros, fez escola. Deixou discípulos. Faleceu em 11 de abril, aos 88 anos. Entre as homenagens que recebeu juntou-se o minuto de silêncio que o Atlético Mineiro enviou-lhe na tarde ensolarada de domingo, ao saber que tinha em M. Claros, incógnito, um torcedor tão discreto quanto fervoroso e honrado.
Por muito tempo se lerá o editorial "Calar Antes do Fim”, entre a contrição do sagrado e a veneração discipular. Ensinava o mestre:
“... o órgão de imprensa, como os órgãos da emoção e da inteligência humana, não podem viver apenas para sobreviver. E quando essa sobrevivência somente seria possível com a mancha do dinheiro fácil, a ser conseguida no campo da corrupção e da submissão dos ideais, é melhor parar antes de sujar as mãos e a consciência. (...)
Este jornal viverá enquanto forem lembradas suas lutas, enquanto aqueles rapazes e moças que passaram pela redação continuarem, em outros órgãos de imprensa, a exercer com bravura, independência e inquietação social, tudo que aprenderam nesta casa, que souberam honrar e amar mais do que a pequena remuneração que recebiam. (...)
Um jornal acaba menos por se calar com honra e mais por submeter-se a interesses que não sejam os da comunidade. Por isso mesmo, resolvemos calar antes do fim!"

Na noite em que foi velado, enquanto a notícia se espalhava pela cidade de quem é o pai da imprensa, refletiram todos na ausência que impunha o coração que deixara de pulsar, mas não de viver. Inevitável era revisitar o “Calar Antes do Fim”. Para concluir que o editorial, extraído das cumeeiras morais mais altas, doeu mais naqueles que o leram, de súbito na tarde inadvertida da mocidade, do que no Homem que serenamente o datou e assinou, tão certo estava da convicção que o compelia. São momentos raros na vida dos povos. Existem. Aconteceu perto de nós e faz pouco tempo.


68141
Por Paulo Narciso - 4/7/2011 09:19:48

Foi Alberto Sena “fucutar” de Belo Horizonte e Wander Pirolli reapareceu completo, genial, nesta segunda de infinito céu azul em M. Claros. Manhã que guiará a tarde ensolarada de sempre no burgo que ele amou, e aonde veio muito, muito, nos últimos anos de vida – vida intensa.
Um dia, percorreremos juntos, novamente na companhia de Raquel, os caminhos cúmplices que juntos fizemos por estas ruas e praças.
Agora ainda é cedo.
Assim, eis que volta na bela manhã este imenso Wander, tão bem evocado por Alberto.
Em 2008, dois anos depois que “passou à imortalidade”, a outra, Tião Martins – editor do Estado de Minas, como Wander, como Alberto – encomendou uns "recuerdos" para o livro em torno do mestre incomum, ícone de uma geração.
Dói - por certo dói, rechamar os amigos que já não podemos ver, mas que continuam a existir – e cujo nome nunca será apagado de nossas agendas, para ficar na imagem que é do próprio Wander.
Mas Tião, sempre bom, encomendou e preparei umas linhas.
São as que seguem.
Se as republico agora, a culpa certamente é de Alberto Sena, que não pode assim, brusco, invadir o céu azul de uma segunda-feira do sertão. Céu infinitamente anil - reparem, por favor.
A só companhia de Wander, por alguns anos, já é suficiente para justificar qualquer vida. “Quando não se tem a alma pequena – resmunga o poeta, do lado de lá da montanha que querem desventrar.

A Wander:
26/8/2008 13:50:42
Desculpai todos, mas Wander foi o melhor

Paulo Narciso

Wander Pirolli, nome curto para um legado enorme.
Quando morreu Monzeca, também chamado de Hermengildo Chaves, Ayres da Mata Machado Filho pediu licença para ser enfático - “desculpai, mas Monzeca entre nós foi o melhor”.

O mesmo peço permissão para dizer.
Wander Pirolli, em tudo (editor, escritor, amigo, Homem) foi, de nossa geração (a dele, um pouco antes), o melhor de todos.

Já o conheci quando o autor da “Mãe e o Filho da Mãe” entrava nos 40 anos e eu, seu repórter na Editoria de Polícia do Estado de Minas, nos 20.

Foi Wilkie Rodrigues (por Wander batizado de “embaixador senegalês”) quem me segredou, com cerimônia e cumplicidade: “é o genial Wander, escritor”.

Nada sugeria o intelectual.

Sua simplicidade não cabia no molde do contista mineiro, classe que atingia o topo da glória naquela quadra.

Despojado, sem preocupação com o apuro em vestir, camisas eternamente queimadas por cinzas de cigarro, era o cidadão comum, um operário, origem da família italiana da qual se orgulhava, e cuja saga está no autobiográfico “A Mãe e o Filho da Mãe”.

No time de futebol bissexto da redação, era o único que jogava descalço, sem prejuízo de chutar forte com o dedão levantado. Perguntado se pretendia chegar à Academia Brasileira de Letras, respondeu afirmativamente.

- Sim, quando estiver entrevado.

Nada, repito, nada até os últimos dias indicava que o homem modesto era o escritor Wander Pirolli, admirado em toda parte, por tantos.

Foi o pai incontrastável de uma legião de colegas que o terão para sempre como referência absoluta.

A partir do primeiro encontro no jornal, acompanhei-o vida afora, de perto. Admirei-o como campeão da escrita enxuta, dos tipos mais humanos que vi, e como titulador (de notícias) sem igual.

No encontro que promovi entre os dois, o esfuziante Darcy Ribeiro o saudou, dizendo que seria o escritor número um do Brasil se tivesse a “concisão” de Wander.

Sem esforço, uma multidão de manchetes feitas por Wander retorna de muito longe: “Samurai da Vasp cai nos grotões de Maria Bonita”, “Fórum fecha, ou toma jeito”, “A esperança muito passageira do Trem do Sertão”.

(Aqui, é forçoso lembrar que o título do livro “Os Rios Morrem de Sede” deveria ter sido – e fui voto vencido – “Bumba, Meu Rio”. Mas, nem todos saberiam que “Bumba” é o doce apelido do menino filho de Wander, que na pescaria com o pai viu o caudal minguar e quase morrer, de sede).

Quando retornei à minha M. Claros da infância, pelo fim dos anos 70, a distância mais nos aproximou, anulada pela admiração que sua conduta incomum inspirava, de homem natural no convívio com os semelhantes-dessemelhantes.

Wander distinguia os amigos, e foi constante nas visitas ao sertão para descansar na casa que era do seu gosto despojado.

Amava viver, tanto que nas raras visitas que fazia ao médico pedia desculpas por não ter nada para se queixar, por não sentir doença alguma, nem dores, no corpo vigoroso e na mente privilegiada, apesar do cigarro e do exagero na bebida.

Foi na casa montesclarense, na companhia de Ricardo Eugênio, o “Dindorim” do Estado de Minas, que justamente sentiu o primeiro sinal do AVC progressivo que o levaria em 2006, com direito de usar boné no aceno derradeiro.

Nosso último encontro, uma viagem, permanecerá como cerimonial não previsto de uma despedida, de quem não partiu, nem partirá.

Pedi sua companhia para visitar a casa em reconstrução de CDA em Itabira, assim como o museu do poeta prestes a ser inaugurado.

Wander aceitou viajar, com alegria.

Na saída de casa, ainda falava com dificuldade, seqüela da doença que preservou sua mente, mas dificultou-lhe a fala e, progressivamente, a escrita, isolando-o em casa. O gigante já prisioneiro do próprio corpo.

Ao deixar-mos uma BH corrompida de favelas, no campo aberto do caminho, por algum prodígio Wander recuperou a integral capacidade de falar e expressar-se. Admirei a mudança, e chamei a sua atenção. Ele notou que falava de novo sem peias. Mistério.

Viajamos mansamente numa descansada trilha do passado, onde nada deixou de ser lembrado, como se ali inventariássemos a vida, ainda muito cedo para balanços.

Falou, discorreu, avaliou, refletiu, fez de tudo - na ida e na volta, como nos velhos tempos. Apenas ao chegar à cidade de Itabira, por razão que também desconheço, teve novamente passageira dificuldade para se expressar, limitação descartada na viagem de volta.

Ao deixá-lo na porta de casa, ainda na Serra, quando seu corpo levemente pendeu, não sabia que ali nos despedíamos.

Levava debaixo do braço um São Francisco de Assis, do primitivo Assunção, barbeiro centenário, que visitamos.

Fisicamente nos despedimos, apenas.

Recebia dele originais de livros e, com freqüência, cartas e e-mails – pois Wander quis driblar o isolamento com ajuda da internet.

Certa vez, me lembro, ao descrever Paulo Lott, ainda nas reuniões informais da Editoria de Polícia do jornal (que o grande Fialho Pacheco chamava ironicamente de “petit comitê”), Wander refletiu, referindo-se a Lott, também cria sua:

-Este Peclot (resumo de Paulo Emílio Coelho Lott) ocupa o lugar exato no espaço.

Recomponho a frase, e revejo o elogio, sincero e preservado, que ela esconde.

O poder de síntese e de sabedoria para descrever o amigo que admirava talvez seja a melhor definição do próprio Wander, o tóteme que conheci, o intelectual sem afetação, humanista sem placa, gênio cuja natural modéstia dispersava aclamação e reverência.

Desculpai todos, mas Wander foi o melhor.


55981
Por Paulo Narciso - 11/3/2010 11:47:51
O que o mestre Oswaldo Antunes abaixo mandou fazer dá livros. Mas, hoje, no improviso, cabe numa linha: na vida, outra coisa não fiz, não fizemos todos nós seus discípulos, do que seguir o caminho que ele e Waldyr nos indicaram, tomando-nos pela mão. No meu caso, ainda menino. Menino antigo, sob os presságios da inapagável, amada presença de Nathércio França. Agora, já de cabelo e barba brancos, que a implicância e o filho mandam conservar para lembrar, recebi (ontem) aqui na redação conjunta da Rádio Montes Claros 98 FM, da Rádio São Francisco de Assis 93 FM e do montesclaros.com a visita sempre amena do honrado coronel Lázaro, ex-comandante da PM em Montes Claros. Entre abraços, evocações e lembranças, revivemos os nossos tempos inaugurais. Ele, como jovem e brilhante oficial da PM, eu como o repórter quase menino. Por dever de ofício, o tenente recebeu a incumbência, difícil, de ser censor de jornal em dias tempestuosos, ingrata função que cumpriu como soldado que segue ordens. Pois bem. O tenente foi a capitão, o capitão foi a major, a tenente coronel e a coronel, e como comandante do seu batalhão aposentou-se merecidamente, já faz 20 anos. Eu, disse a ele, sigo fazendo as mesmas rasas coisas que aprendi na redação d "O Jornal de Montes Claros", sem nunca me dar conta de que de alguma forma possa ter crescido, promovido, sequer mudado, escorado na sentença - "gente grande já foi criança, só esqueceu". Não, não esqueci. Nada retocaria na vida que seguiu, e em especial retornaria aos dias primeiros vividos numa redação de jornal, a minha casa definitiva - nunca provisória. Vida que jamais seria a mesma venturosa vida se numa tarde ensolarada - como no Cinema Paradiso - não houvesse passado o filme chamado "O Jornal de Montes Claros", em austero preto e branco. (Aos camaradas daqueles dias, chamo, e também aos que partiram, ouviu Lazinho? Sentem-se. Fechem os olhos. Revejam a película. A nos convidar, está o mais genial dos escritores do Brasil, com a frase eterna que a memória recita - "Convosco recomponho, revenho ver" ).


53312
Por Paulo Narciso - 27/12/2009 11:07:11
(A Editora O Lutador acaba de publicar em Belo Horizonte o livro - "O Sonho é Possível", coordenado pelo jornalista Itamar de Oliveira. Reúne depoimentos do cardeal Dom Serafim Fernandes e dos demais fundadores, reitores e professores da Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais, que completou seu primeiro meio século. Há, entre eles, o "recuerdo" abaixo, de um aluno da Universidade).

De Volta ao Cavaleiro de Preto

Paulo Narciso (*)


Itamar de Oliveira, o amigo com quem fiz dupla nas coberturas de imprensa nos anos 70 em Belo Horizonte (ele pelo Jornal do Brasil, eu pelo Estado de Minas), pede para assoprar o monturo de lembranças de nossa passagem pela Universidade Católica.

O ano é 1971.

Havia chegado do interior, onde entre os 15 e os 20 anos trabalhara como repórter em antológico jornal - “O Jornal de M. Claros” -, que deliberadamente escolheu cerrar suas portas a prosseguir sem a independência editorial que sustentou por 40 anos.

Contratado pelo “Estado de Minas”, já com registro de jornalista profissional aos 20 anos, pretendia estudar Direito, o curso de graduação preferido por quase todos os que escolheram o jornalismo como primeira profissão.

O assalto a um banco, de conotação “subversivo-terrorista”, como a censura impunha aos jornais dizer, fez-me trabalhar na cobertura até alta madrugada do dia da última prova da Universidade Federal, a que não pude comparecer. Acabei aprovado pela Universidade Católica. Passei a freqüentar as aulas pela manhã, reservando as tardes e as noites ao jornal, na editoria de Wander Pirolli, o célebre autor da “Mãe e o Filho da Mãe”.

No último ano da faculdade, migrei para o período noturno e assumi a assessoria de imprensa da universidade, a convite do vice-reitor Gamaliel Herval. A Faculdade de Direito chegava aos 25 anos, oito na frente da própria Universidade, hoje PUC, que agora alcança os primeiros 50.

O reitor Dom Serafim, posteriormente cardeal, desejou comemorar com gala o jubileu da “escolinha do bispo”, assim chamada por ter sido criada por Dom Cabral. Como assessor e formando, apresentei sugestão de que se criasse medalha, de âmbito nacional, com o nome de Sobral Pinto, para homenagear aquele que na atividade jurídica mais se destacasse na defesa dos Direitos Humanos, tão prostrados e humilhados.

Os tempos eram sombrios, melancólicos. O regime de exceção, radicalizado pelo AI-5, impunha sua férrea vontade sobre tudo, da atividade parlamentar ao trabalho da imprensa e também sobre a universidade e os demais centros de difusão do saber. A censura mutilava os jornais, a ponto de no lugar das notícias vetadas saírem receitas de bolo e irônicas previsões do tempo.

Prisioneiros políticos apareciam mortos sob a versão de atropelamento em fugas que jamais existiram. Outros, "suicidavam-se" na prisão.

A resistência ao arbítrio, fragmentada e sob cerco, rebrotava sempre, para sempre ser esmagada.

Neste triste cenário, um homem eternamente vestido de preto, de luto permanente pela morte de uma filha, em 1956, de câncer, mas jovem nos seus mais de 70 anos, um homem impunha-se ao País pela solitária coragem. Mineiro, chamava-se Heráclito Fontoura Sobral Pinto. Não havia semana sem que sua autoridade, moral e jurídica, não disparasse carta aos generais-presidentes, em linguagem respeitosa, mas dura, exigindo o fim dos tempos de exceção e arbítrio. Numa delas, de que guardo o original, dizia:

" É curioso que os nossos governantes militares não cessem de processar como subversivos aqueles que os acusam de estar suprimindo a liberdade em terras da Pátria. Entretanto, subversivos são eles, porque a disciplina militar cria para eles o dever de permanecerem dentro dos quartéis, preparando-se para, obedientes ao Poder Civil, defenderem a ordem constitucional da Nação. Em vez de cumprirem esta missão fundamental, eles saem dos quartéis, indisciplinadamente, e se apoderam do Poder, rasgando a Constituição, que deveriam defender e resguardar".

Era, o doutor Sobral, um veterano no enfrentamento das ditaduras. Arrostou a de Vargas e nela produziu a mais alta página da advocacia brasileira, ao invocar a Lei de Proteção aos Animais para salvar a vida de um cativo, Harry Berger.

O alemão companheiro de Prestes na Intentona Comunista era mantido prisioneiro num socavão de escada. Impedido de dormir e torturado com arame incandescente introduzido na uretra, aproximava-se do fim. Exausto de implorar por sua vida através da lei dos humanos, Sobral recorreu à lei dos animais. Também não foi atendido.

(Berger só deixaria a prisão no fim do Estado Novo, em 1945, para morrer na Alemanha, louco).

Antes, havia defendido também o escritor Graciliano Ramos, que nas "Memórias do Cárcere" fixou sua coragem e irrepreensível conduta.

Sobral Pinto era o nosso ídolo, dos jovens, e de quantos conhecessem a sua história. A admiração que por ele tínhamos enciumava Darcy Ribeiro, amigo e conterrâneo.

A criação da medalha, com nome assim tão alto, teria para nós o efeito, simbólico, de uma vela levantada em tempo de trevas.

O reitor dom Serafim ouviu a proposta e na hora respondeu:

- Será criada a medalha com o nome de Sobral Pinto, desde que os formandos de 1975 da Faculdade de Direito formalizem a idéia.

Tinha uma pedra no caminho.

Sobral Pinto nunca soube, mas houve resistência ao seu nome, por parte de alguns alunos, desinformados, vítimas da propaganda do regime, que o supunham “comunista e defensor de comunistas”.

Cabia dissipar o equívoco.

Procurei em caráter particular o professor Alberto Deodato, muito querido nos meios acadêmicos. Que aceitou alegremente a sugestão de repor o perfil do homenageado na coluna semanal que mantinha no “Estado de Minas”. Exultou a idéia e por ela se bateu. O colunista “mestre Midosa de Sá e Benevides”, o Péricles que escrevia pelas mãos de Theódulo Pereira, imediatamente se aliou em desfazer o engano, através de longa e respeitável coluna.

Em poucos dias, todos os formandos, sem exceção, apresentaram o documento que propunha a criação da Medalha. Dom Serafim atribuiu ao professor Afonso Henriques Prates Correia a formulação do estatuto.

Um lépido Sobral Pinto, de 82 anos, sempre de preto, veio entregar a primeira medalha e todas as seguintes, enquanto viveu. Colocou-a no peito de Edgar da Mata Machado, de Hélio Bicudo e de Tristão Atayde. Apenas tempos depois, na campanha das diretas, o Brasil despertaria para aplaudir numa apoteose (que as TVs incansavelmente mostram até hoje) o homem miúdo, de preto, que exigia obediência ao artigo primeiro da Constituição.

Ainda é preciso lembrar:

Uma comissão dos bacharéis de 1975 foi ao Rio fazer a comunicação oficial. Sobral residia em velha casa da Rua Pereira da Silva, perto do Palácio das Laranjeiras. Na manhã chuvosa, nos recebeu. O último a entrar, indagou:

- Doutor Sobral, é para deixar a porta aberta ou devemos fechá-la?

A resposta foi taxativa, para aqueles dias:

- Por mim, não há necessidade de fechar a porta. Mas, se vocês temem por alguma coisa, que a fechem!

Sim, havia medo por toda parte.

Ao Jornal do Brasil, aos demais jornais que maciçamente cobriram as suas vindas a Belo Horizonte, Sobral repetiria:

-“Parece que houve um certo exagero em transformarem minha atividade profissional numa láurea permanente para outros advogados que se esforçam no País para que sejam respeitados os Direitos Humanos, tão preteridos, tão esquecidos, tão desprezados. Há uma desproporção entre a honraria e minha atividade. O que eu fiz muitos outros certamente têm feito. De qualquer modo, se esta decisão partiu de jovens, isso prova que minha vida não foi inútil.”

A Universidade Católica ainda patrocinou “Lições de Liberdade”, o livro com suas petições que rapidamente escalou a lista dos mais lidos do País, ainda na ditadura.

Até desaparecer, em 30 de novembro de 1991, Sobral manteve-se ligado à PUC e a dom Serafim, a quem nas cartas reiteradas que escrevia invariavelmente começava com um pedido assim:

- "Estou certo de que será com prazer que me dará a sua benção episcopal, de que tanto careço; ela me reanimará, pondo-me no caminho da obediência evangélica, solicitando que, quando oficiar a Santa Missa sem intenção particular, se digne de consagrá-la a mim e aos meus..."


Trinta e três anos depois de deixar a Universidade, quando a ela torno neste retrospecto, é ao encontro do cavaleiro de preto que vou. Sinto a sua enérgica presença, sua autoridade moral incorruptível, a nos encorajar, a nos dizer: não desistam, não desistam da esperança, não desistam da luz!

E ouço, ouço ainda, como naquela noite fria de maio de 1971, a doce, a pequenina voz de Aires da Mata Machado Filho elevar-se por entre as flores do campus, os olhos quase cegos erguendo-se para a luz, a luz do luar:

É a ti flor do céu que me refiro
Neste trino de amor nesta canção
Vestal dos sonhos meus, por quem suspiro
E sinto palpitar meu coração

Oh! dias de risonha primaveras
Oh! noites de luar que tanto amei
Oh! tardes de verão ditosa era
Em que junto de ti amor gozei

Não te esqueças de mim por piedade
Um só dia, um só instante, um só momento
Não me lembro de ti sem ter saudades
Nem podes me fugir do pensamento

Quem me dera outra vez este passado
Esta quadra ditosa em que vivi
Quantas vezes eu na lira debruçado
Cantando em teu colo adormeci.


Foram dias que vivi. De março 1971 a 12 de dezembro de 1975


(*) Paulo Narciso é jornalista. Em 1975 diplomou-se em Direito pela PUC.


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Por Paulo Narciso - 26/8/2008 13:50:42


Desculpai todos, mas Wander foi o melhor

Paulo Narciso

Wander Pirolli, nome curto para um legado enorme.

Quando morreu Monzeca, também chamado de Hermengildo Chaves, Ayres da Mata Machado Filho pediu licença para ser enfático - “desculpai, mas Monzeca entre nós foi o melhor”.

O mesmo peço permissão para dizer.

Wander Pirolli, em tudo (editor, escritor, amigo, Homem) foi, de nossa geração (a dele, um pouco antes), o melhor de todos.

Já o conheci quando o autor da “Mãe e o Filho da Mãe” entrava nos 40 anos e eu, seu repórter na Editoria de Polícia do Estado de Minas, nos 20.

Foi Wilkie Rodrigues (por Wander batizado de “embaixador senegalês”) quem me segredou, com cerimônia e cumplicidade: “é o genial Wander, escritor”.

Nada sugeria o intelectual.

Sua simplicidade não cabia no molde do contista mineiro, classe que atingia o topo da glória naquela quadra.

Despojado, sem preocupação com o apuro em vestir, camisas eternamente queimadas por cinzas de cigarro, era o cidadão comum, um operário, origem da família italiana da qual se orgulhava, e cuja saga está no autobiográfico “A Mãe e o Filho da Mãe”.

No time de futebol bissexto da redação, era o único que jogava descalço, sem prejuízo de chutar forte com o dedão levantado. Perguntado se pretendia chegar à Academia Brasileira de Letras, respondeu afirmativamente.

- Sim, quando estiver entrevado.

Nada, repito, nada até os últimos dias indicava que o homem modesto era o escritor Wander Pirolli, admirado em toda parte, por tantos.

Foi o pai incontrastável de uma legião de colegas que o terão para sempre como referência absoluta.

A partir do primeiro encontro no jornal, acompanhei-o vida afora, de perto. Admirei-o como campeão da escrita enxuta, dos tipos mais humanos que vi, e como titulador (de notícias) sem igual.

No encontro que promovi entre os dois, o esfuziante Darcy Ribeiro o saudou, dizendo que seria o escritor número um do Brasil se tivesse a “concisão” de Wander.

Sem esforço, uma multidão de manchetes feitas por Wander retorna de muito longe: “Samurai da Vasp cai nos grotões de Maria Bonita”, “Fórum fecha, ou toma jeito”, “A esperança muito passageira do Trem do Sertão”.

(Aqui, é forçoso lembrar que o título do livro “Os Rios Morrem de Sede” deveria ter sido – e fui voto vencido – “Bumba, Meu Rio”. Mas, nem todos saberiam que “Bumba” é o doce apelido do menino filho de Wander, que na pescaria com o pai viu o caudal minguar e quase morrer, de sede).

Quando retornei à minha M. Claros da infância, pelo fim dos anos 70, a distância mais nos aproximou, anulada pela admiração que sua conduta incomum inspirava, de homem natural no convívio com os semelhantes-dessemelhantes.

Wander distinguia os amigos, e foi constante nas visitas ao sertão para descansar na casa que era do seu gosto despojado.

Amava viver, tanto que nas raras visitas que fazia ao médico pedia desculpas por não ter nada para se queixar, por não sentir doença alguma, nem dores, no corpo vigoroso e na mente privilegiada, apesar do cigarro e do exagero na bebida.

Foi na casa montesclarense, na companhia de Ricardo Eugênio, o “Dindorim” do Estado de Minas, que justamente sentiu o primeiro sinal do AVC progressivo que o levaria em 2006, com direito de usar boné no aceno derradeiro.

Nosso último encontro, uma viagem, permanecerá como cerimonial não previsto de uma despedida, de quem não partiu, nem partirá.

Pedi sua companhia para visitar a casa em reconstrução de CDA em Itabira, assim como o museu do poeta prestes a ser inaugurado.

Wander aceitou viajar, com alegria.

Na saída de casa, ainda falava com dificuldade, seqüela da doença que preservou sua mente, mas dificultou-lhe a fala e, progressivamente, a escrita, isolando-o em casa. O gigante já prisioneiro do próprio corpo.

Ao deixar-mos uma BH corrompida de favelas, no campo aberto do caminho, por algum prodígio Wander recuperou a integral capacidade de falar e expressar-se. Admirei a mudança, e chamei a sua atenção. Ele notou que falava de novo sem peias. Mistério.

Viajamos mansamente numa descansada trilha do passado, onde nada deixou de ser lembrado, como se ali inventariássemos a vida, ainda muito cedo para balanços.

Falou, discorreu, avaliou, refletiu, fez de tudo - na ida e na volta, como nos velhos tempos. Apenas ao chegar à cidade de Itabira, por razão que também desconheço, teve novamente passageira dificuldade para se expressar, limitação descartada na viagem de volta.

Ao deixá-lo na porta de casa, ainda na Serra, quando seu corpo levemente pendeu, não sabia que ali nos despedíamos.

Levava debaixo do braço um São Francisco de Assis, do primitivo Assunção, barbeiro centenário, que visitamos.

Fisicamente nos despedimos, apenas.

Recebia dele originais de livros e, com freqüência, cartas e e-mails – pois Wander quis driblar o isolamento com ajuda da internet.

Certa vez, me lembro, ao descrever Paulo Lott, ainda nas reuniões informais da Editoria de Polícia do jornal (que o grande Fialho Pacheco chamava ironicamente de “petit comitê”), Wander refletiu, referindo-se a Lott, também cria sua:

-Este Peclot (resumo de Paulo Emílio Coelho Lott) ocupa o lugar exato no espaço.

Recomponho a frase, e revejo o elogio, sincero e preservado, que ela esconde.

O poder de síntese e de sabedoria para descrever o amigo que admirava talvez seja a melhor definição do próprio Wander, o tóteme que conheci, o intelectual sem afetação, humanista sem placa, gênio cuja natural modéstia dispersava aclamação e reverência.

Desculpai todos, mas Wander foi o melhor.


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Por Paulo Narciso - 25/8/2008 22:35:56


Na noite em que deveriam partir

Paulo Narciso *



No dia 4 de setembro de 1971, Judith Malina, teatróloga e militante anarquista, hoje com 81 anos, residente em Nova Iorque, escreveu no Diário que recolhe os acontecimentos de sua vida desde os 20:

“- 7h30m: Apertem os cintos. (...) Nossos passaportes nos foram devolvidos com um carimbo preto enorme – EXPULSO

- Ah, Brasil não foi em vão que te amei”

Publicado com exclusividade mundial pelo jornal “Estado de Minas”, em julho e agosto daquele ano, o jornal assim apresentou o Diário, cuja exibição parcial fez rilhar os dentes da censura no auge do regime ditatorial:

“Como peça literária, lembra a melhor corrente dos escritores americanos, uma literatura sem ênfase, contando o que pretende contar, sem apelação, nem efeito demagógico. Um relato, entre Hemingway e Malamud, a nostalgia de uma situação perdida, a realidade de sua situação vivida”.

Trinta e sete anos nos separam daqueles dias de abertura do Festival de Inverno de Ouro Preto.

Relembrá-los, ir de regresso, é doloroso exercício.

Primeiro, porque a leitura deste livro, que catapulta para a história páginas de jornal que serviram de trincheira à resistência, traz de volta amargas lembranças.

Dos dias do medo, ensombrecidos pelo estado policial instaurado para fazer valer a vontade e concepção única das coisas, e da vida. A tirania.

Doído recuo, de quatro décadas, nos faz aceitar que vencida a noite da ditadura, a última, não foi muito o que conseguimos avançar em conquistas libertárias. Caminhamos, mas ainda pouco.

Sonhávamos na juventude com o Brasil do futuro, que vimos à nossa frente, ao alcance das mãos. Mas o Brasil do futuro não chegou, não chega, parece que não chegará; insiste em escapar de nós.

Medonhos dias e noites aqueles, escuros.

No entanto, o ai que vazasse das prisões, e vazava apesar da repressão e da censura, o ai podia ser recolhido e multiplicado como tambores dispersos de uma floresta.

O gemido passava pela porta dos cárceres, vinha dos subterrâneos e dos porões, e era recolhido, e era ouvido; e uma rede de compaixão se estendia, acima das ideologias.

Hoje, que não há restrições nominais à liberdade, que o clamor é permitido e estimulado, já não há – paradoxo - quem nos ouça com conseqüência.

O insidioso rebuço do estado paira sobre a nação.

A inversão que desembarcou com as Caravelas em cinco séculos mudou de nome e de nuanças, mas prossegue sob variado disfarce.

O estado escancha sobre a nação, sufoca-a; dela servindo-se, quando servir é o seu fundamento.

No tempo em que a liberdade entre nós foi proscrita, o choro do embate, do revés, o da luta mesmo em desvario, era percebido, transpunha o manto do silêncio.

Hoje, quando falar é livre, não há quem nos ouça.

O estado fixa-se, rearruma-se novamente acima da nação, incontrastável, confirmando o dito do Império de que nada mais se assemelha a um conservador do que um liberal no governo.



Mas, é do Diário de Judith Malina que devemos nos ocupar aqui. Voltemos a ele.

Era jovem repórter. Tinha 20 anos. Havia acabado de chegar da natal Montes Claros, já com cinco anos de reportagem. Era grande a fila de estudantes de jornalismo para serem contratados. Fui encaminhado à cobertura policial em tempo recorde.

Ninguém menos do que o genial escritor Wander Piroli era o nosso editor. O mais premiado entre os repórteres de Minas de todos os tempos sentava-se ao lado, ensinava, com o eterno cigarro fumegando nos lábios. Chamava-se Fialho Pacheco.

A Editoria de Polícia, historicamente destinada a ser a mais acocorada do jornal, pela genialidade do seu editor, pela inquietação dos seus liderados, invertia as posições, a ponto de atrair a atenção e certo pasmo das demais.

Foi ao anoitecer que chegou a notícia.

Os membros do Living Theatre haviam sido presos em Ouro Preto. Ângelo Oswaldo, hoje curiosamente prefeito da outrora Vila Rica, era colega da Editoria Política e veio pressuroso – lembro-me bem – advertir de que aquela prisão transpunha o ambiente policial.

Julien Beck e sua mulher Judith Malina e toda a troupe internacional reconhecida como o grupo de teatro de vanguarda mais importante do planeta acabavam de ser presos.

Vagas acusações.

Eram cabeludos e mal-cheirosos; não gostavam de banhos. Seriam depravados, usariam drogas, mas nenhuma foi encontrada com eles, jovens artistas de variadas nacionalidades que depois de soltos, nos anos seguintes, ascenderiam ao topo da carreira em seus países de origem.

Presos e soltos em questão de horas, foram novamente trancafiados.

Uma intrigante, vistosa seta (de tinta branca, recente) no porão da residência apontava para o chão. A polícia disse que cavucou e encontrou maconha. Provisão denunciada por uma seta atribuída aos que tinham o máximo interesse em ocultá-la...


Foi o que bastou. Os teletipos espalharam a notícia pelo mundo, da prisão de um grupo que, acusado de ser mal-cheiroso, depravado, dado ao uso de drogas, tinha o costume de ler os clássicos da poesia grega e compêndios de política.

Subversivos! - acrescentou denúncia.

O Diário de Judith Malina que este livro reproduz e conserva para a história, tal qual foi publicado pelo jornal, conta a bizarrice deste folhetim.

Hoje é até capaz de fazer rir; naqueles dias, causou espanto, calafrios, medo.

O tom da escrita é sereno, meigo, poético. Gentil até com os carcereiros, os acusadores.

(Sempre admiti que Judith, por razões óbvias, deliberadamente baixou o teor da narrativa para que mais não pesassem a mão sobre eles. Hoje, observo que não. Falou nela o sentimento que chamamos de cristão, mas Judith, nascida na Alemanha, é judia).

O conteúdo é do humanismo de filosofia anarquista que fez do Living Theatre o grupo teatral de vanguarda mais importante do mundo, mesmo após a morte do seu fundador, Julian Beck, em 1985, nos Estados Unidos.

O Dops – "Delegacia de Ordem Política e Social" - era a prisão política de Minas mais temida, assim com os cárceres de Juiz de Fora, onde ficava o comando militar.

Reler os fragmentos do Diário de Judith Malina, como acabo de fazer, restaura o desalento que impregnou um período da nossa história, não tão distante quanto desejaríamos.

Mas tem o poder de despertar a recordação de uma mulher pequenina, afável, e de seu Julien, amoroso casal, e da filha de 4 anos, que dos pais com um aceno entre grades despediu-se, levada pela avó paterna para os Estados Unidos.

A incansável censura, às vezes dissimulada em cordialidade de ocasião, não reagiu à publicação e a abafou porque a repercussão foi imediatamente escorada pela imprensa internacional.

E como o Diário foi publicado, como submergiu dos porões?

Nas dezenas de entrevistas com o casal, especialmente na companhia escorreita do repórter do Jornal do Brasil, Itamar de Oliveira, soubemos que Judith mantinha no cárcere o hábito de escrever o seu Diário, tomado aos 20 anos.

Solícita, amorosa, encantadora, falei-lhe reservadamente da possibilidade de publicar os relatos últimos, e ela assentiu, com olhares receosos.

As bases para que o documento deixasse a enxovia pelas mãos do seu agente literário, que acabava de chegar dos Estados Unidos, foram definidas numa manhã de folga, no Hotel Normandy, onde o norte-americano se hospedara.

As folhas em inglês eram-me passadas pelo editor, no hotel, e o jornal encomendou a tradução.

Em série, dia após dia, ocupavam página inteira, com chamadas de capa, tudo reproduzido pelo “O Jornal”, do Rio, líder da cadeia associada, então majoritária no Brasil.

A publicação do Diário a cada nova manhã, debaixo do visível desconforto da censura, assegurava o seu prosseguimento no dia seguinte.

O jornal, visto frequentemente como conservador, ousava; não recuou, não se intimidou, e demarcou uma posição da qual retroceder seria impensável.

- Amor. Caminhávamos nas ruas como leprosos. Estou com medo. Tenha coragem. Eu te amo. Nós venceremos. Horror. Deus. Pobres. Vômitos. Pulgas. Escuro. Romeu e Julieta na prisão. Beijos de Adeus. Preces. Anoitece. Teatro. Brasil. Mezuzá. Amanhecer. Eu e Tu. Melancolia. Saudades. Brandura.

São palavras recorrentes deste depoimento que a história recolhe e novamente agita.

Em julho e agosto de 1971 dezenas de vezes fomos a Ouro Preto, para as audiências do processo.

Os presos viajavam num velho ônibus, com batedores de motocicletas à frente e policiais distribuídos pelo ônibus, com ajuda de cães, entre eles o célebre “Dólar”, o mais temido.

Sempre atrás do comboio policial seguíamos no fusca azul do jornal, acreditando ingenuamente que podíamos de alguma sorte representar uma garantia para os prisioneiros. Gente cujo crime, a rigor, foi abandonar a glamorosa Europa para bailar e cantar nas ruas com os pobres de Ouro Preto.

Judith registrou:

“Em procissão, viajamos por entre as magníficas montanhas. Espantados, depois de um mês de cadeia, pela amplidão do céu, pela magnificência da terra de Deus, da qual a mão do homem nos isola. Julien e eu trazíamos trabalho (os livros), mas o que podíamos fazer era apenas fitar sonhadoramente o mundo imenso, as montanhas áridas, a glória do céu claro com nuvens acima de nós, o sol tépido de inverno da beleza subtropical.”

O juiz belicoso, o rumor crescente da repercussão internacional, o exacerbamento do regime sob o comando do general Garrastazu Médici, tudo indicava que o processo se arrastaria, prolongando idas e vindas a uma Ouro Preto invernal, apinhada de estudantes.

Estudantes que ora aplaudiam a passagem do ônibus com os cativos, ora os contemplavam em silêncio tão profundo que os parecia libertar com os olhos, ali onde a cabeça de Tiradentes, erguida numa gaiola, foi prévia e sombria advertência aos que ousaram desafiar o estado.

Aconteceu que a Europa se mobilizou vigorosamente em torno do “Comitê Européen de Défense du Living Theatre”.

De lá partiam manifestações exigindo do governo brasileiro a imediata libertação da troupe.

A veemência da condenação – sempre enfatizando que “este l’ unedes compagnies théâtrales lês plus célèbres et lês plus importantes du monde” – embaraçava a diplomacia do Brasil em todos os países.

Pediam “la libération immédiate de tous lês menbres de la troupe” nomes conhecidos como os de Jean-Paul Sartre, Pierpaolo Pasolini, Alberto Moravia, Jean-Luc Godard, Jean Genet, Michel Foucault, Umberto Eco, Júlio Cortazar, Bernardo Bertolucci e centenas de outros intelectuais de reconhecimento internacional, freneticamente mobilizados.

Tornara-se insuportável para o governo brasileiro manter o Living preso, por falta de banho, por serem sujos e mal-cheirosos, quem sabe viciosos e até “subversivos” .

Foi no meio da audiência, na tarde azulada e fria de uma Ouro Preto envolvida pelo Festival de Inverno, que o cochicho percorreu o salão do fórum, lotado como sempre.

Advogados, meirinhos, acusadores e defensores, todos de cenho franzido se reuniram diante do juiz.

Trocaram palavras apressadas, que logo revelaram o acontecido.

Acossado e para se ver livre das críticas, o governo militar acabava de assinar o decreto de expulsão do Brasil de todo o grupo.

O ambiente de agitação e temor subitamente se desfez.

O pano desceu sobre a cena burlesca, de gazetilha. Nem tristeza, nem alegria; nenhuma comemoração. Estupefação talvez.

Pelo entardecer, seguimos o ônibus de volta pela última vez, em silêncio.

Ao descer no Dops, já de noite, Julien Beck e Judith Malina nos abraçaram, com lágrimas. Ela pouco conseguiu falar.

Julien, no dia seguinte, com solenidade que reservou para o que ia dizer, fixou as palavras e as pronunciou duas vezes:

- Esta é uma casa de horrores !

- Es-ta é uma ca-sa de hor-ro-res ! – escandiu bem as palavras.



Foi seu adeus.



No dia posterior, já deslocado para outra cobertura pelo jornal, pois o grupo seria embarcado para o Rio e, de lá, expulso e deportado do Brasil, soube por Itamar de Oliveira que perdi o que talvez tenha sido o momento mais alto da história que juntos vivemos, aos 20 anos de muita esperança neste País do futuro.

Julien Beck e Judith haviam sido mantidos no temido prédio do Dops, na avenida Afonso Pena, por todo o tempo. As mulheres foram encaminhadas à penitenciária feminina e os homens dispersos por mais de um xadrez.

Na noite em que deveriam partir, reunidos todos num mesmo lugar, eles fizeram um circulo no pátio da prisão. Ao luar, debaixo de respeitosa, muda e reverente assistência dos policiais, que espontaneamente se afastaram, ergueram uma canção.

A celebração começou com um murmúrio, que se foi alteando, como um cântico tribal que a noite invadiu e ocupou longamente.


Despediam-se da prisão, despediam-se do Brasil.

O Brasil que mereceu de Judith Malina a incontida declaração de amor que abre as primeiras linhas destes dolorosos recuerdos.



(Anos depois, de volta a M. Claros, em doce auto-desterro na própria terra, soube que Julien Beck morreu. Judith Malina uma vez voltou ao Brasil. Mantém-se ativa nos Estados Unidos, com o mesmo grupo. Ao morrer Sartre por sua vez, jornais e revistas destacaram que foi na prisão do Living Theatre, em 1971, que o filósofo pai do existencialismo mais se ocupou de uma questão ligada ao Brasil)



***



(* Paulo Narciso é o repórter que retirou da prisão o Diário de Judith Malina, publicado pelo Estado de Minas. Neste mesmo ano de 1971, a Comissão Julgadora do Prêmio Esso de Jornalismo abriu exceção no regulamento para conferir-lhe "Citação Especial". Deixou o jornal em 1976, depois de receber no ano anterior o Prêmio Esso de Jornalismo, categoria regional. Atualmente, dirige duas emissoras de rádio em Montes Claros e o jornal eletrônico "montesclaros.com").


37727
Por Paulo Narciso - 18/8/2008 10:06:05

Mestre Hygino:
Nunca se conhece bastante a própria cidade.
Na tarde deste domingo, o Reinado de Nossa Senhora, o Reinado de São Benedito e o Império do Divino despediam-se da velha cidade, quando – seguindo o cortejo, eu mesmo catopê, de araque - olhei para cima.

Vi a placa no segundo andar, que jamais havia visto.
E a fotografei.
E envio.

São recuerdos profundos,
que apenas uma procissão de Catopês pode revelar, numa tarde de domingo, de despedidas.
Abraços, pn


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Por Paulo Narciso - 18/6/2008 10:25:14
Com pesar e sentimento, M. Claros conta os dias em que perderá a presença, apenas física, de uma de suas grandes benfeitoras nos últimos 29 anos. Depois deste tempo, de exercício diário da Caridade, palavra que melhor e encantadoramente define o Amor, deixa-nos a irmã Irene, nome brasileiro de extraordinária alma belga, que se ausentou do seu país na mocidade para dedicar-se integralmente à Santa Casa de M. Claros. Assim como Irmã Malvina (que até hoje não recebeu do poder público o reconhecimento solene de todos nós), assim como Irmã Chantal, outra santa que a Bélgica nos enviou, Irmã Irene parte para o merecido reencontro da família e da Pátria, e para merecido descanso. Deixa-nos fisicamente, pois ficará na eterna lembrança, assim como eternamente nos levará, e nos terá, por laços que nenhuma força é capaz de romper. A viagem de volta está marcada para o dia 27.
Na Bélgica, já encontrará Irmã Chantal, muitas vezes santa nossa, e poderá visitar no colégio-mãe de Beerlar a lápide que cobre as relíquias de Irmã Malvina, sucessora de Irmã Beata, herdeira moral de Irmã Canuta e de tantas outras belgas que cruzaram o oceano para se doarem ao Brasil, deixando aqui a mocidade e os mais belos exemplos, coisa hoje vasqueira.
Um detalhe talvez seja possível mencionar agora, neste abraço que não será o final: quando, na sua exultante mocidade, Irmã Irene escolheu vir para o exercício da Caridade no Brasil, a freira - assim como outras religiosas de diversos outros países - encontrou dificuldades para obter a permissão de entrada no Brasil. O regime autoritário vigente, nos seus dias mais tempestuosos, temia que com elas viessem lições de uma alta dignidade que costuma incomodar e fazer tremer os poderosos, todos os poderosos do momento, de ontem e de hoje. Não foram poucas as expedições de humanismo despachadas para remover o veto, não pessoal, à entrada das religiosas. A Irmã afinal veio e escreveu entre nós uma silenciosa e belíssima Página de Amor. Imorredoura - como se dizia. E que, como todo exercício do Amor, pede modéstia, silêncio, humildade, abnegação - palavras em desuso. É assim que agora parte, sem nada esperar, sem coisa alguma pretender, sem o mais mínimo requesto de sinais de reconhecimento. Renúncia tão própria da vida humana dos santos, e dos que lhes seguem os caminhos de luz, como os casos aqui lembrados.
Montes Claros, ainda que tarde, uma dia compreenderá o que significou na sua vida, o que significa, a Missão que no princípio do século passado, nas pegadas do Padre Francisco Morreau, veio dar nas terras do Norte de Minas.
A cidade belga de Beerlar é, por todos os títulos, a irmã mais irmã de M. Claros. E muita dificilmente poderemos pagar em qualquer tempo as contas deste tesouro que a mais alta Caridade nos enviou.


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Por Paulo Narciso - 9/6/2008 15:45:56

No dia 1º de dezembro de 1968, Juscelino escreveu: “Aos caros amigos, Arinha e Pedro, o meu abraço”. E assinou – Juscelino Kubitscheck de Oliveira.

Eram dias tumultuosos da vida política do Brasil. Exatos doze dias depois, em 13 de dezembro de 1968, atônito, o Brasil veria desabar o Ato Institucional nº. 5, o tristemente famoso AI-5, que aprofundou a níveis inéditos o jugo ditatorial do estado sobre a nação, e que vigoraria por cerca de 20 anos.

Foi uma rude pancada de primitivismo político, muito mais ampla e de repercussões mais duras do que o próprio 31 de março de 1964.

Mas, esta é outra história, da qual o Brasil ouve e ouvirá falar por centenários.

Nesta mensagem, que desejo curta, procuro apenas fixar o dia em que Arinha e Pedro Veloso – dois dos mais altos personagens da história de M. Claros – receberam na Fazenda das Quebradas – que escrevo em letras maiúsculas – receberam o presidente da República mais popular do Brasil, já proscrito e perseguido.

Era sempre assim. As visitas mais altas, mais ilustres, sempre recolheram da Fazenda das Quebradas a expressão da cordialidade e do apreço de M. Claros. Era a sua sala de visita, a tradução mor de nossa lhaneza.

O abraço de JK lá está na parede, emoldurado por um vidro, que o preserva. Abaixo, a sua foto.

Esta Fazenda das Quebradas é o dodói de M. Claros, e pertence à sua história.

Pesquisem os livros e verão. A casa grande foi erguida há quase 150 anos, do outro lado da serraria que dá nome a civilização que surgiu do lado de cá do sopé dos montes claros.

(E de onde, lamentavelmente, nos dias de carnamontes é possível ouvir o barulho que não deixa a cidade dormir por duas noites, som desrespeitoso que vaza a muralha de pedra e incomoda também do outro lado, território de passarinhos).

Pois bem.

Esta casa que também recebeu JK, horas antes de desabar o AI-5 e sua corte arbitrária, esta casa que era o caminho da roça de Darcy Ribeiro nas suas vindas e nas cheganças de todos os altos nomes que nos honraram, esta casa está prostrada, golpeada, humilhada, desfalecida.

De sopetão, urdido na burocracia fria e insensível dos gabinetes, um decreto definiu que o patrimônio das gentes de M. Claros, a partir daquela data, deveria transformar-se em patrimônio do estado mineiro, distante, como sede de um Parque Florestal – chamado, creio, de Lapa Grande.

Ignoraram a história. Ignoraram o passado (que não passou). Ignoraram os que lá moram, tendo por símbolo Dona Arinha Veloso, esposa de Pedro Veloso, irmã de Lucy, já falecidos. Ignoraram tudo.

De uma só pancada, como um AI-5 de brutalidade municipal, o poder golpeou uma lenda, uma divisa.

Se o Parque realmente se tornasse realidade, honrando e premiando o trabalho de quem escreveu aquela história, recompensando a casa por trabalho centenário de preservação e de amor, não haveria de que lamentar. Não estaríamos a prantear. Estaríamos aqui de pé, para aplaudir.

Mas, o que se viu, foi bem diferente.

O decreto para a desapropriação humilhante tornou toda a área inerte, hibernando-a na ociosidade e na mandrice, que fazem o casarão histórico ruir sobre si, escombro de uma legenda.

De desgosto, dona Arinha nunca mais abriu as janelas do vetusto casarão.

Coisa impensável - depois de quase um século, em silêncio ela deixou o local. Com disposição de não voltar, para não aprofundar a dor já muito cava.
Mora agora fisicamente na cidade.

E apenas em pensamento cruza a montanha e visita o campo de muitas vidas, cercado de lendas e de histórias.

Seus netos não foram, até agora, por justo valor, indenizados pela propriedade que agoniza, silenciando ecos laboriosos que transpunham as penhas e traziam notícias venturosas para o lado de cá desta civilização que se construiu pelo trabalho e pela honradez.

O processo de desapropriação – injusto, desgastante, arrasta-se também para os demais proprietários, vizinhos.

Do outro lado da nossa municipal cordilheira agoniza parte da história de M. Claros. De maneira perversa, arrogante, injusta.

Em nome da natureza não contemplada, vimos, golpeou-se a história. Mais grave: em nome dela, mutilam-se pessoas que de todos só merecem aplausos.

Não será sobre injustiças que se construirá, para agora e para adiante, no futuro, um parque de onde as gerações que a esta sucederem recolherão belas histórias.

Não se faz o futuro desta forma, esmagando o passado de muitas lutas. Não, não podemos concordar.


(Nas fotos, JK e sua assinatura na parede nua; os escombros do casarão e o casal benemérito de Montes Claros, Arinha e Pedro Veloso, nos melhores dias das Quebradas)


30649
Por Paulo Narciso - 6/1/2008 22:31:57
Na internet, ao acaso, desembarco no texto que vai abaixo. Não há assinatura. Tento a certeza de saber quem é o autor, assim no escuro. Conheço duas pessoas inexcedíveis na admiração pública por Monzeca -, Hermegildo Chaves em Montes Claros, sua amada terra. (Ele se apresentava, à Eça de Queirós: "sou um pobre homem das barrancas do rio Verde...)"

Como o autor abre citando Rubem Braga, o cronista capixaba está fora; não pode ser ele, talvez enciumado com o elogio ao Mestre que primeiro é o seu mestre.

O texto então só pode ser de Mauro Santayana, amigo e colega dos tempos do Estado de Minas, jornal de Monzeca.

Para a esmagadora maioria da população de M. Claros, Monzeca é, talvez ainda, a esquecida doce viela de duzentos metros, se tanto, que separa a igreja da Matriz da rua Gonçalves Figueira, antiga rua do Ocidente, perto da outrora Escola Normal, depois Fafil. Doce lembrança, compatível com sua modéstia, e simplicidade..

Para este Mauro Santayana - pois desconfio que o texto é seu, só pode ser - Monzeca é "O Grande Mestre".Pequenino, porém.

O discípulo, no caso, sabei todos, é o autor dos mais belos escritos que a imprensa do Brasil publica nos últimos 40 anos. Entre eles, também o discurso em que Tancredo Neves, de quem foi redator, repete que "Liberdade é o outro nome de Minas".

Sobre Monzeca, que por acaso veio nesta noite, por Mauro Santayana:



"O grande mestre

Se Rubem Braga ainda estivesse vivo, concordaria com o meu juízo, porque ambos fomos seus alunos, com mais de duas décadas de intervalo. Era baixo e magro, usava discreto bigode, bem aparado. Quando o conheci, o cabelo era ainda negro, com destacadas manchas grisalhas. Amava a noite, mas não bebia, a não ser café, sempre acompanhado de bolinho de feijão, esse acarajé mineiro sem recheio. Gostava de jogar cartas, perdia com regularidade e parcimônia. Chamava-se Hermenegildo Chaves e detestava o apelido de Monzeca, que lhe haviam dado. Era, naquele tempo, o melhor redator de Minas e um dos melhores do Brasil.

Como era comum nas antigas redações, havia sido tipógrafo; aprendera a escrever com o tato, conhecia o peso dos fonemas. Isso explicava a magreza de seu texto, que dispensava o supérfluo, economizava advérbios e adjetivos, só admitidos quando convocados pela clareza. Era emotivo, o que o fazia inexcedível nos necrológios. Quando os políticos importantes se aproximavam do fim, Monzeca iniciava as notas sobre o futuro morto. Ia costurando o texto como se bordasse a mortalha, e retocava, dia-a-dia, os adornos, com os recursos da memória. Escrevia só a lápis, em aparas de papel de jornal, com a letra fina, bem desenhada, a pontuação esmerada, os parágrafos definidos.

Como emotivo, mudava muitas vezes de opinião, e explicava que todos nós erramos e podemos, eventualmente, fazer juízo equivocado sobre os outros. Só recorria às idéias para explicar os homens. Quando se agravou a crise de agosto de 1954, Monzeca revelou seu lado conservador, quase reacionário, reclamando, com elegância que faltava a Lacerda, a limpeza do Palácio do Catete. Estava de acordo com seu passado, quando, em 1930, se somara, em Minas, à Concentração Conservadora, contra a Aliança Liberal, e fora amigo íntimo de Mello Viana. Mas, com o suicídio de Vargas, mudou de posição, e definiu a situação como tragédia shakespeariana.

Não se curvou aos ídolos da época que se mantinham contra Vargas, depois da morte do presidente. Quando Alceu Amoroso Lima publicou, no Diário de Noticias, seu famoso rodapé com o título de Sangue e Lama, Hermenegildo Chaves foi cáustico, terminando por dedicar ao pensador brasileiro o juízo de Jean Cocteau sobre François Mauriac: nele tanto mais se afirmava o católico quanto dele se distanciava o cristão.

Os jornalistas são seres efêmeros, sobretudo quando sua carreira se passa, toda ela, na província. Mesmo em Belo Horizonte, os jovens jornalistas não sabem mais quem foi Monzeca, senhor de texto impecável e de inexcedível modéstia. Sou grato ao destino por ter com ele convivido. Se não pude, como pôde Rubem Braga ter sido bom aluno, pelo menos aprendi com ele o exercício da dúvida."


30344
Por Paulo Narciso - 23/12/2007 17:18:53
Está na praça um autêntico presente de Natal. De surpresa, o Grupo de Seresta “Lola Chaves” (nome que homenageia a filha de João Chaves) lançou o CD “Céu de Montes Claros”. Gravado aqui mesmo, é uma coleção eclética de músicas que foram apanhadas no fundo do baú da memória desta nossa civilização. Emociona no CD a preciosidade das melodias buscadas numa Montes Claros lírica, pequenina, toscamente bela, bela e crente, de joelhos nos ofícios religiosos de outros dias, de outros tempos. São, entre outras, músicas de coroação, que jamais devem ser esquecidas, e há pelo menos uma grata revelação: a belíssima voz de Lígia de Figueiredo Chaves e Oliveira, ninguém menos que Tia Lígia, irmã de Lola, também filha de João Chaves. Além de encantar com uma voz absolutamente diferenciada de todas as demais, rara no timbre e pungente na interpretação, Ligia Chaves vem com composição própria, letra e música, em homenagem a Nossa Senhora de Guadalupe, um hino para cortar a respiração e fazer bonito em qualquer parte, ainda mais que criado e cantado pela filha do Grande Bardo, nascido em Montes Claros e consagrado pelo Brasil. Há músicas quase inéditas de João Chaves e seus irmãos Hermegildo (Monzeca) e Joaquina Chaves. Estão lá as célebres “Vimos em Nome do Dia, da Noite, dos Passarinhos”, “Maio Veio” e “Adeus Maio”, todas da família Chaves, criação de interpretação, que toda criança de ou em M. Claros - de antes, de agora, de depois e de sempre, terá de saber na ponta da língua. Avançam na seleção o “Vinde Cristãos” na voz também rara de Olga Santos, e músicas das pastorinhas e outras de Natal. É um concerto belíssimo, artesanal que seja, que situa a Montes Claros genuína num dos momentos em que delibera ressurgir para acordar a cidade que vige em seu lugar. Panis Angelicus encerra como 17ª música, introduzindo esta seleção entre as relíquias que M. Claros guarda de sua mais autêntica cultura. “Nunca mudassem nunca estes caminhos” – repete a música de coroação de Monzeca. Nunca mudassem nunca estes caminhos – repetimos todos, neste Natal. É admirável ver que a Montes Claros profunda sempre é capaz de varar a espessa camada que cobre os seus dias de agora para vir dizer que a tudo suporta e resiste com imaculada e doce poesia. É o recado silencioso de que sobreviveu, e de que sobreviverá a todo transe.


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Por Paulo Narciso - 7/12/2007 23:12:46

A música mais que centenária de M. Claros levantou uma emocionada Curitiba, ainda há pouco, na apresentação de Natal no “Castelo Encantado”. É a cantata de fim de ano no edifício tricentenário do extinto Banco Bamerindus, espetáculo que todos os anos faz suspirar o Brasil. Centenas de crianças, entre elas órfãos absolutos, outras órfãos de pais vivos, entoaram músicas de Natal, por janelas que se abrem na venerável mansão dos sonhos. No meio, inesperadamente, eis que surgiu, em ritmo natalino, o “Deus Te Salve Casa Santa”, a música que os catopês se ajoelham para cantar, de cabeça baixa, já há quase duzentos anos, na humílima igrejinha do Rosário. O público devolveu com palmas, demoradas. Já havia aplaudido com igual fervor o Noite Feliz, Carinhoso de Pixinguinha, Panis Angelicus e, entre outras mais, a marcha Estão Voltando as Flores.

(Também adaptada para o carnaval, a música de Paulinho Soledade irrompeu pelas janelas iluminadas do Palácio da Avenida, a construção mais cultuada da capital paranaense. Por décadas, transferiu-se de boca a boca a lenda de que o autor, doente de tuberculose e já desenganado, no estertor dos últimos dias, recebeu uma dose de penicilina, potente remédio que acabava de ser descoberto. Melhorou milagrosamente, fez a música – “Vê, estão passando as nuvens – Vê, estão voltando as flores – Vê, há esperança ainda” –, com letra que explicaria sua súbita melhora, para morrer em seguida. Na verdade, a romântica história não passaria de estória, bem adaptada para a emoção da letra e da melodia, pois que o autor Paulinho viveu até depois dos 80 anos e morreu de exaustão natural da vida, no Rio de Janeiro. Foi um romântico piloto brasileiro, pioneiro da aviação, que migrou para os Estados Unidos e voou pela Força Aérea de lá. Já depois dos 50 anos, retornou ao Brasil para compor novas músicas. Entre elas, se não me engano, o “Pequenino Grão de Areia”, que “era um eterno sonhador”).

Para nós, desta musical M. Claros, fica o engasgo de ouvir bem longe o “Cálix Bento” pela boca das crianças cantoras que todos os anos suspendem a respiração do Brasil, pelo Natal. O arrebatado gesto de fé, recolhido na tradição dos catopês de M. Claros, provavelmente será mostrado pelas redes de TV.

O certo é que nesta noite a esperança cantou pela boca das crianças de Curitiba, em apresentação inesquecível, quando também os fogos de artifício iluminaram a mais civilizada das capitais do Brasil, bela, moderna, mas sabiamente de hábitos encantadoramente provincianos, certamente mais desenvolvida do que acometida de certo duvidoso progresso que golpeia a vida, antes de conservá-la e protege-la (como a ainda recente mutilação da avenida coronel Prates). M. Claros, lá estava. Por sua música, que sempre foi, e vai, na frente, abrindo os caminhos. (Lembrai-vos do "caminheiro, não há caminho, o caminho é caminhar”.) Memorável noite de gala em plena Boca Maldita, celebrizada por Dalton Trevisan, o eterno "vampiro de Curitiba"


29458
Por Paulo Narciso - 8/11/2007 12:56:45

A história da imprensa mineira como toda história contemporânea é construída de milhares de fotos célebres, cada qual insubstituível no que atesta.
Há uma foto de 1944, esta aí de cima em branco e preto, que fixou no tempo a presença em Belo Horizonte do escritor Mário de Andrade, pai do modernismo. A visita, já foi dito aqui, resultou no não menos célebre poema “A Visita”, de Carlos Drummond de Andrade. Ao redor de Mário, de sua “Paulicéia Desvairada”, posaram alguns dos melhores nomes daquela geração brilhante.
Da esquerda para a direita, o cinegrafista Alcyr Costa, o crítico literário Roberto Frank, o jornalista Oswaldo Alves Antunes (de Brasília de Minas, a antiga Contendas), o psicanalista Hélio Pellegrino, o poeta Alphonsus de Guimarães Filho (naturalmente filho do maior poeta simbolista do Brasil), o escritor e acadêmico Otto Lara Resende, Alexandre Drummond e o jornalista José Mendonça; sentados, o memorialista Edgar da Matta Machado (um dos maiores nomes do humanismo mineiro), Oscar Mendes Guimarães, o escritor João Etienne Filho (do romance “Encontro Marcado”) e Milton Amado, autor da melhor tradução que se conhece em língua pátria do não menos célebre Dom Quixote de La Mancha, de Cervantes.

Pois bem. Dois dos ícones dessa geração incomum da imprensa mineira reencontraram-se ontem em Montes Claros. Oswaldo Antunes, que lançou no Automóvel Clube o livro “A Tempo”, recebeu a visita do seu colega de redação do antigo “O Diário” (também chamado de Diário Católico), José Mendonça. Lépido, feliz, memória privilegiada, alerta como nunca, Mendonça é obrigatória referência do jornalismo nacional, onde atuou em todas as áreas, desde a fundação da mais antiga escola de jornalismo de Minas até a direção das mais importantes sucursais dos grande jornais nacionais em BH.
Com brilho e espantosa memória, Mendonça ainda ontem ensinou a montesclarenses da gema minúcias de fatos acontecidos em Montes Claros. Foi também colega do cirurgião e artista plástico Konstantin Cristoff nos “preparatórios” em BH, e ontem estiverem, sem saber, reunidos no mesmo teto, sem que um desconfiasse da presença do outro. Não se encontram há mais de 60 anos, desde a mocidade, e por pouco não se abraçaram. Konstantin, ignorando a presença do amigo, saiu pouco antes. Hoje, provavelmente se abraçarão.
Oswaldo Antunes revelou que aquele colega, depois amigo e compadre Mendonça – tão saudável e rijo como o escritor que lançou o livro – foi quem revisou seu primeiro trabalho em jornal. (Não precisa traduzir que o mestre festejado de uma geração de jornalistas, emocionado, apresentava por sua vez o próprio mestre, de nenhuma forma menos conservado do que ele, do alto dos 83 anos).
O lançamento do livro “A Tempo” reacordou por instantes a M. Claros profunda, submergida na atual, inchada e ferida, como a recordar-lhe que pode sim voltar, e voltar-se sobre si, com cuidado e delicadeza, como alguém que revisita, mediante senha, sagrado lugar de luzes.
José Mendonça surpreendeu-se ao ser informado de que dali, daquele local onde centenas de pessoas colhiam o autógrafo do autor da noite, partiram os tiros inaugurais da Revolução de 30, que levou Getúlio Vargas ao poder. O historiador Hélio Silva não vacila em registrar que a Revolução de Outubro de 1930 teve o seu primeiro tiro em M. Claros, disparado exatamente do casarão de João Alves, demolido para nascer o Automóvel Clube. O episódio, sangrento, passou à historia do Brasil como o “ 6 de Fevereiro”, assim como o 11 de Setembro de 2001 em escala mundial.
Estas e outras histórias ontem passearam pelo Automóvel Clube no lançamento de “A Tempo”, livro para cuja passagem já se abrem alas. E reverências.


29414
Por Paulo Narciso - 6/11/2007 19:03:55

Montes Claros tem um encontro com a sua história amanhã, quarta-feira, dia 7 de novembro, às 20 horas, no Automóvel Clube. O jornalista Oswaldo Antunes autografará o livro de memórias "A Tempo". Ao lado de Waldyr Senna Batista, dr. Oswaldo - como o chamamos com carinho - é o decano e pai da moderna imprensa de M. Claros. Entre outras revelações agora definitivamente lançadas à consulta permanente da história, está o relato de como encontrou, morto, minutos depois, o ex-prefeito Toninho Rebello, o maior prefeito de todos os tempos de M. Claros.

Eis o relato daquele 10 de novembro de 1992:

“Dos amigos, o primeiro a chegar à casa naquele dia foi o Diretor de O Jornal de Montes Claros, que viu Toninho como que dormindo, semblante sereno, a cabeça apoiada no colo da filha Cristina, ela acariciando-o e chorando, as lágrimas a caírem sobre seu ventre expandido onde pulsava uma vida nova. Era vida menina, prestes a sair da Plenitude para o mundo, enquanto o avô se acabava no mundo fortuito e na Plenitude imergia. A cena revela mais esperança e futuridade do que tristeza e passamento. O homem público, pai, avô, amigo não se fora completamente: a vida e seu brilho pareciam ter ficado onde estava o corpo quieto, e, como lá fora a radiação da branca e diurna lua cheia, acariciavam a família despercebidamente, consolavam amigos, vigiavam a cidade amada. Seus cuidados pareciam flutuar no vento, como a resposta melódica na canção dos Beatles, farfalhando os galhos floridos da acácia amarela que fora plantada pelo morto”.

A cena que Dr. Oswaldo fixa, do momento em que Toninho transpõe em mais de um sentido os limites desta vida, a suavidade do quadro, sua altivez humílima que arrasta e comove, provocam-me a necessidade de também mencionar o que talvez tenha sido a ultima conversa de Toninho fora do ambiente familiar no princípio da tarde em que, sem aviso, partiu.

Por volta do meio-dia daqueles 10 de novembro, finalizado o expediente da manhã na Rádio Montes Claros 98 FM, vi-me paralisado diante do telefone. Um impulso, incomum, mandou-me que ligasse. Para quem ? – perguntei-me, incomodado pela necessidade rara. Empunhei o telefone como que cumprindo uma ordem e liguei para.... Toninho, o que não era habitual.

(Jamais lhe incomodei nos tempos repetidos em que foi prefeito e eu jovem repórter, e publicamente confesso que sempre acerquei-me mais do cidadão Toninho, fora e longe do poder, embora minha admiração pelo prefeito só faça crescer. Quando passou a ser alvo de perseguições as mais abjetas, que lhe pretendiam alcançar também a família, a ele me juntei instantaneamente, com que imantado ao que lhe poderia acontecer, e deste tempo também guardo recordações do seu exemplo, e sempre o mais alto).

Toninho estava ótimo naquele começo de tarde. Havia acabado de chegar do Parque de Exposições, e pelo telefone novamente o revi, manso, prudente, modesto, limpo no corpo e na alma, como sempre metido em camisa alva e bem passada por sobre a calça, como se ao alcance da mão existisse permanentemente um estoque de camisas, limpas como ele, sóbrias como sempre foi.

Na conversa, de vinte minutos, mencionamos aspectos da vida da cidade, lançamos um olhar sobre o cotidiano e nos despedimos com afeto, nos prometendo novas conversas mais amiúdes. Desci para o almoço com minha mãe, quando o telefone imediatamente tocou ao chegar.

Era o prefeito Mário Ribeiro. Ele avisou que ia me dar uma notícia dura, e recomendou que me assentasse. “Toninho Rebello acaba de morrer”.
Contraditei imediatamente, com veemência,dizendo que havia falado com ele quinze minutos antes, que era impossível, que era engano, que não podia ser - relutei o mais que pude. Mário Ribeiro não deixou dúvidas, categórico, mas não convincente. Larguei do telefone, tomei o carro, corri para a casa de Toninho.

Ao entrar na reservada rua que desemboca na sua casa, onde menino estudei com o seu filho Jacinto nas amoreiras que lá existiam, derramadas sobre o muro, ao entrar na rua o movimento na porta da casa fez-me convencer daquilo que não fora capaz o telefonema de Mário Ribeiro. Estava mesmo morto, e apenas fisicamente, o maior prefeito da história de M. Claros, paradigma do homem público que imaginei e conheci na vida, em profundo desacordo com o que viria depois e prossegue até hoje.

No rastro da emoção que o depoimento de Oswaldo Antunes desperta, contemplo seguidamente a cena de Toninho morto no colo da filha, que silenciosamente chora. Morto, parece ainda maior do que vivo, repete a lição do professor Pedro Sant’ana, também saudade nossa. Eternas lembranças, às quais, é preciso recorrer, e meditar.


29353
Por Paulo Narciso - 2/11/2007 19:40:45
Agora que José Aparecido de Oliveira é morto, e a saudade cicia, é bom saber um pouco mais sobre ele, Aparecido. Aqui vai um depoimento do maior analista político da história recente do Brasil, Carlos Castelo Branco, o Castelinho, sobre este intrigante personagem que nos deixou há apenas duas semanas. O trecho abaixo é extraído da entrevista que Castelinho deu a Adriana Zarvos, não muito distante de sua morte. Os dois - Castelinho e Zé -tornaram-se amigos; um, o maior cronista político do Brasil; o outro, descrito pelo primeiro como o mais brilhante articulador político de sua geração. Brilhantes, os dois, como craques de uma mesma e genial seleção:
“Como começou sua amizade com o José Aparecido?
O Zé chegou no Rio em 1958 ou 59. Magalhães Pinto era Deputado, e ele era secretário político do Magalhães. Na época ele estava trabalhando Magalhães para presidente da UDN nacional e, evidentemente, Governador de Minas. Quando o Zé chegou ao Rio, começou a fazer uma grande movimentação política, para aproximar os jornalistas do Magalhães Pinto. O Magalhães era Deputado há 15 anos, mas não tinha importância, só tinha como banqueiro. Quem deu importância ao Magalhães foi o Zé Aparecido, abrindo os canais com os jornais. Antigamente procurava-se o Magalhães pra se pedir dinheiro emprestado, só depois para pedir notícias. Eu conheci o Magalhães indo ao banco fazer um papagaio [empréstimo] lá.
Mas vocês eram pessoas completamente diferentes, não?
O Zé Aparecido era um homem muito competente politicamente, muito habilidoso, e o Magalhães era um homem também sagaz e inteligente, mas não tinha traquejo. Aí o Zé pegou o Magalhães e deu um impulso a ele. Então, fiquei conhecendo o Zé Aparecido, sendo seduzido e muito envolvido por ele. Eu já estava por volta dos 40 anos, e estava sem fé na imprensa e sem projeto de vida.
Bom, voltando ao José Aparecido...
Quando o Jânio Quadros foi eleito, o José Aparecido foi para a festa de posse, como convidado, e entrou na fila de cumprimentos ao Jânio. Quando o Jânio viu o Zé, perguntou: "O que você faz aí?" "Vim cumprimentá-lo." "Não, senhor, seu lugar é aqui do meu lado, como meu secretário particular". Depois ele disse: "Amanhã às sete horas no Palácio". No dia seguinte, o Zé disse a ele que, para ficar, precisaria ao menos um Secretário de Imprensa. Eu não estava interessado em ser, não queria. Estava aqui para fazer a cobertura da posse do Jânio para O Cruzeiro. Mas o Zé Aparecido estava obstinado, o Jânio me chamou no Palácio e me convidou. Eu disse: "Olha, Presidente, eu não tenho nenhuma razão para vir trabalhar com o senhor, não sou político, estou com minha vida organizada no Rio, sou jornalista, trabalho no O Cruzeiro e no Diário Carioca, minha mulher é juíza lá no Rio, não tenho nem como vir pra cá". Enquanto eu estava falando, ele tinha pedido uma ligação interurbana para o Rio, aí foi atender o telefone, era Leão Godim, Diretor do O Cruzeiro. "Leão, eu quero que você me empreste o Castello por seis meses, são só seis meses" Aí eu estava perdido, né? Ele disse: "O assunto está resolvido". Eu saí dali e fui conversar com o Quintanilha. "Fui compelido pela minha empresa a vir trabalhar aqui, emprestado, somente por seis meses. Mas não chego aqui às seis e meia da manhã, não há hipótese, não acordo antes das nove em lugar nenhum, não chamo ninguém de senhor nem de Vossa Excelência e não peço a ninguém licença pra fumar". Ele respondeu: "Ô Castello isso é pros outros, não é pra nós não". Fui desarmado! Comecei a trabalhar. Ia ao Rio nos fins de semana, e segunda-feira de manhã estava de volta.”


27158
Por Paulo Narciso - 20/8/2007 17:26:02

Lembranças dos Catopês de 2007.
O começo é pela música de dona Dulce Sarmento. Os Ipês Amarelos avisam que os Catopés vão chegar. E roxos ficam já de saudades do Catopê.

Lembro-me que mestre Expedito, do único terno de São Benedito, o mais humilde, por isto mesmo o primeiro entre todos, desfaleceu duas vezes. Uma dentro da igrejinha do Rosário; a outra, a caminho dela. Mestre Joaquim Poló, da Caboclada, o socorreu com o Buscopan que trazia para aliviar a dor do mal, tenaz, que o persegue, e do qual será operado em breves dias (se receber a devida e merecida assistência). Metade dos Caboclinhos ou é de filhos, ou é de netos, ou de parentes de Joaquim Poló, inclusive o menino que é a "Cacicona", extraordinariamente simpático. Poló, mestre também de Pastorinhas e das Folias, no Natal. É preciso segurá-lo com força, todos. Se partir, Montes Claros ficará dolorosamente mais pobre. (Ainda assim, dá o Buscopan da sua dor para o Catopê desfalecido pela dor menor).

Lembro-me da última apresentação, sábado, dos Marujos, agora chefiados pelo patrão Tim, substituto do pai Nenzinho. Já entraram na igreja chorando. Lágrimas só, sem rumor de escândalo. Quem chorou mais foi o filho de Tim, menino de oito ou nove anos, que no futuro substituirá o pai, que substituiu o avô, que substituiu o bisavô... sempre assim, há quase duzentos anos. Na roupa do menino, estampados, a foto e um nome – VOVÔ!

Lembro-me que perdi a imperdível cena dos Marujos cantando no cemitério, ao sol do meio-dia. Na sepultura do mestre, que partiu há pouco.

Lembro-me de que, pelos caminhos, havia pessoas chorando; copiosamente, vendo passar um filme.

Lembro-me da mãe e do filho da mãe. Eram três. O pai – de Conceição do Serro, hoje Conceição do Mato Dentro, terra de Zé aparecido – conheceu a mãe na Bahia e, já os três, vieram morar em Montes Claros. Na identidade, consta que ele, o filho, tem 54 anos, meu colega. Na vida real, mente de apenas quatro. A mãe o governa, plena. Vivem apenas os dois. Sair uma vez por ano com os Catopês é o sumo glorioso de suas vidas. A mãe diz – levanta, e ele levanta; a mãe diz ajoelha – ele ajoelha. A mãe está suficientemente velha e o veterano Catopê, noutro mundo vivendo, sequer cogita do que será dele o dia em que não puder dela ouvir as ordens, de rara doçura e absurda cumplicidade. Moram no Renascença. Comove a história dos três, hoje dois, e o único destino de Ser Catopê. Eternamente Catopê.

Lembro-me que o pombo Roy anunciou, urbi et orbi, que beberia no sábado pelo amigo que sem aviso partiu. Bebeu. Bebi com ele

Lembro-me, e como me lembrarei, de que os marujos estreitaram o Catopê que a vaca fez despencar do viaduto. Cantaram, cantaram, cantaram -, e todos os outros os seguiram. Uns limpando as lágrimas dos outros. Em silêncio de reclamação nenhuma. O catopê "Senhor" – paralisado nas mãos e nas pernas – sacudindo os braços para acompanhar a música.

Lembro-me que a praça Dr. João Alves, a do tiroteio de dona Tiburtina, página da história do Brasil, manchete de O Globo, do Rio, por 30 dias corridos, a praça estava repleta, apinhada, na manhã de quinta, sexta e sábado. Todos falando com os catopês. Tirando fotos lá deles, abraçando, rindo, infinita admiração e camaradagem. Montes Claros profunda, acordada. Reacordada.

Lembro-me dos Catopês a caminho, acendendo fogo com velhos papéis da estrada, para afinar o som. No caso, o som do despojado tambor, que chamam de tamborim, de caixa, de instrumento. Diminuto no tamanho, infinito para abrir a caixa de lembranças.

Lembro-me que, este ano, ninguém superou a caboclada em beleza, no trinado também. Querem matar Joaquim Pólo, de saudade quem sabe. Cantaram uma música em que falam de um pica-pau, bateram as mãos assim, olharam com a ponta dos olhos, riram da mamãe-vovó bonita, de olhos verdes como os de Manoel Quatrocentos, professora de contar história para os meninos, nascida na Lontra. Ficaram de cantar a Trança do Cipó e, se cantaram, lá eu não estava. Ouvi, assim mesmo.

Lembro-me, sem compreender, que todos partem quando os Catopês, Marujos e Caboclinhos entram no ritual próprio deles. Se soubessem, não partiriam. Os tambores estrondam, e ainda assim soluçam, quando o mestre João Faria e seu irmão Tonão, no meio do cerimonial, ordenam que se ajoelhem todos. De cabeça baixa, as penas de pavão fazendo 90 graus com o chão, eles repetem, de joelhos: “Deus te Salve Casa Santa, onde Deus fez a Morada, onde mora o Cálice Bento e a Hóstia Consagrada”. É difícil agüentar. Um filme surge na cabeça de todos, particular. Momento solene. O mais alto.

(Muito poucos sabem o que significa. Quando quiseram enfim conhecer a alma infinita da festa, aguardem este momento. É raro, contundente. Para os iniciados, apenas).

Lembro-me do Catopezinho, de chupeta.

Lembro-me da Carmelita Descalça, de grande rigor na roupa, nela rebuçada severamente, por completo, acompanhando os Catopês, fugindo das fotos. De si, expunha apenas os olhos, mas os olhos revelavam o puro encanto de quem escapou da clausura e das laudes apenas para ver os Catopês. Não me atrevi, nada perguntei. Seus olhos falavam, tanto quanto a vontade de nada falar. Que venha, todos os anos. Esperaremos.

Lembro-me de Rubinho, cansado das meias-luas, doido para asilar-se no primeiro boteco. E de Ucho, explodindo de alegria e de calor, no frio, ensinando ao filho aquilo que os Catopês autênticos ensinam aos seus, mas que também podemos aprender. Todos podem.

Lembro-me do carroceiro Tonão. Aquele que, todo dia, com o suor da jornada, compra comida para a família e milho para o burro. Quando o ganhame escasseia, compra apenas o milho para o burro, de quem depende o sustento de todos. E todos compreendem porque o burro come, e eles não.

Lembro-me de Zanza, mestre geral, operado há oito dias. Pôs mola no coração e foi chefiar sua festa.

Lembro-me de Zezé Colares chegando à igrejinha, ela que levou a toada dos Catopés ao mundo inteiro, mundo que de pé bateu palmas para os Catopês.

De tudo me lembro.

Eu me lembrarei de tudo, eternamente, pois M. Claros volta no escasso espaço de quatro dias quando retornam os Catopês. Ouça-os, cantar ao coração.

(O estoque é suficiente para esperar a próxima florada, o rebroto dos Catopês. Entre o Ipê Amarelo e o Ipê Roxo. O que chama, e o que deles se despede. Amém.)

***
Nas fotos, mestre Joaquim Poló - mesmo enfermo - ensina a caboclada a empunhar a Bandeira.


27068
Por Paulo Narciso - 16/8/2007 17:36:00

O mastro de ontem à noite, de Nossa Senhora do Rosário, e o desfile, na manhã de hoje, do Reinado, confirmaram que as Festas de Agosto de Montes Claros, realizadas comprovadamente desde 1846, apresentam este ano um viço jamais visto, um degrau acima.

Todavia, muito provavelmente ficou para a parte menos visível da festa, ou menos acompanhada, o lance de maior emoção.

Quem viu o desfile chegar à praça Dr. Carlos, por volta das 11h de hoje, talvez não tenha percebido um homem de cabelos brancos encaracolados, com cerca de 60 anos, avançar determinado e arrebatar a bandeira dos caboclinhos, que este ano, mais do que em qualquer outro, apresentam-se de maneira esmerada.

O Homem chama-se Joaquim Poló, é pedreiro de profissão.

Há cerca de 40 dias, um rude diagnóstico médico apontou-lhe severa doença, para a qual será operado nos próximos dias.

A notícia, somada è enfermidade progressiva, tomou-lhe de imediato 12 quilos do corpo já franzino e longamente esgotado no trabalho.

Ele temeu pelo grupo de caboclinhos, sob seu comando há anos, o único da cidade, e peregrinou por médicos e hospitais, mas refez-se há três dias para não deixar de comparecer à festa chefiando os caboclinhos, meninos e meninas, e suas vozes de anjo.

Ontem à noite, sob a ação de remédios para a dor, ele acompanhou o mastro de Nossa Senhora, da sede dos Catopês, nos Morrinhos, até a igreja do Rosário.

Sem abater-se e sem se cansar. Infatigável, corrigindo, ensinando, o violino puxado ao peito analfabeto. Magro no corpo, ignorou a enfermidade e cumpriu a programação.

Hoje cedo, amanheceu ligeiro e renovado para o compromisso seguinte. Deixou a praça do Automóvel Clube com a mesma disposição.

Pela tradição, marujos e caboclinhos, no desfile, deixam as evoluções e o ritmo dos tambores quase sempre por conta dos três ternos de Catopês, que evoluem, cantam e cantam, chamando o povo aos exercícios de fé.

Marujos, manda a tradição, vão em silêncio, em fila indiana, com seus belos trajes. Caboclinhos assuntam, cheios de respeitoso olhar.

Quando entraram na antiga praça Dr. Carlos, na parte final do desfile, uma força arrebatou Joaquim Poló.

Ele gesticulava, ensinando a evolução aos porta-bandeiras, mas decidiu, num ímpeto, assumir o posto e evolucionar, ele mesmo.

Os que sabem do seu delicado estado de saúde, que ele não esconde de ninguém, entreolharam-se diante da reserva de forças que conseguiu ajuntar e exibir, num bailado próprio que há tempos não fazia, nem era visto por ninguém.

Foi a primeira grande emoção. O mistério.

A seguinte, viria já dentro da igreja do Rosário, quando os aplausos do caminho haviam cessado, quando Catopés, Marujos e Caboclinhos dançam quase sempre só para eles – Catopês, Marujos e Caboclinhos – e para a sua ilimitada fé.

O público mais grosso havia se retirado. Ficaram os de sempre.

Numa cadeira de rodas chegou o carpinteiro "Senhor", mestre de telhados e de catopés.

Está privado do movimento dos pés e das mãos, desde que, trabalhando na roça, despencou-se de um viaduto sobre a via férrea, fugindo do ataque de uma vaca.

Entrou chorando, silenciosamente, pela segunda vez nos últimos anos.

Foi envolvido por todos, que o abraçavam, e alguns com ele choraram.

Terminada a missa do padre-catopê, João Batista Lopes, os marujos, chamados por sua vez ao rito particular, foram em busca do catopê na cadeira de rodas, e a colocaram na frente do altar, diante de todos.

Então, o novato mestre de marujos Tim, que assumiu no lugar do pai Nenzinho, morto há dias, tendo ao lado o seu filho menino, aprendiz do ofício, discípulo dele, do avô e do bisavô, mestre Tim ordenou que começasse a cantoria, na sua estréia como mestre titular, por sucessão.

Os marujos obedeceram cerimoniosamente, e cantaram: - "Lá no céu tem um castelo, lá no céu tem um castelo, quem fez foi o Rei da Glória..."

Senhor Catopê, que já chorava, ainda tentou disciplinar a emoção.

Inútil.

Um marujo, depois outro, todos o envolveram na música, e cantaram, cantaram, enquanto o mestre, com o filho ao lado, na melhor tradição discipular, enxugava as lágrimas do catopê.

Quem viu, viu também que naquele instante as paredes da pequenina igreja se desfizeram diante do gesto demorado, longo, cerimonioso, como se mesmo fosse uma embarcação navegando a céu aberto, marujos no convés cuidando do catopê ferido.

(O ritual, improvisado, foi repetido por todos os demais ternos, até que o último deixou a igreja do Rosário, hoje por volta das 13h30m. Acontecido em M. Claros, nas Festas de Agosto, em 16 de agosto de 2007).


26099
Por Paulo Narciso - 5/7/2007 15:20:51
O Padre Henrique Munáiz, espanhol da Galícia, região que faz fronteira com Portugal, é um dos mais queridos moradores de M. Claros.

Jesuíta, ele está aqui há cerca de 40 anos, povoando nossas ruas com sua invariável rota batina preta, traço visível de sua modéstia e de sua humildade.

É um santo, dizem muitos, tratamento que recusa prontamente com uma sonora gargalhada.

Agora, nas comemorações dos 150 anos da cidade de M. Claros, a escolha de seu nome para receber a medalha Civitas foi recebida debaixo de aplausos unânimes.

Não há, nesta cidade, quem não se levante para aplaudir padre Henrique.

Humílimo, a ponto de distribuir tudo o que ganha - desde batina nova até carros, e o que mais vier, padre Henrique foi receber a medalha.

Estava "escoltado" por duas simpáticas irmãs que vieram da natal Pontevedra, cidade da Espanha onde a família está localizada desde sempre; vieram especialmente para também aplaudir o irmão.

(Alguns dizem que a família descende de ramos da nobreza espanhola, o que o padre nunca confirma, esquivo que é para assuntos de honra e honrarias próprias).

As duas irmãs, tão afáveis quanto o segundo irmão, demonstraram alegria com o merecido reconhecimento prestado ao padre.

Que, perguntado como anda, invariavelmente responde - "cada dia melhor".

A alguém que disse a uma das irmãs para cuidarem bem de padre Henrique, ela retrucou com enorme precisão: "e ele se deixa cuidar?".

É verdade.

Padre Henrique Munáiz sempre cuidou muito dos outros, de todo mundo que lhe bata à porta, a qualquer hora.

"É Jesus quem bate", ele ensina.

Cuida de todos, menos, e pouco, de si mesmo.

Assim, é natural que os caminhos se abram e as borboletas do caminho se levantam à sua passagem, como se vê.


25652
Por Paulo Narciso - 24/6/2007 20:27:23

Gerberas. Nas cores amarela e laranja, em ramagens de tangos. E alecrim.

(Gerbera, prima das margaridas, irmã dos girassóis.

Alecrim, que entre nós veda “o mau olhado”, e que para os mediterrâneos, de onde veio, é o símbolo máximo do amor - a "ros marinus", a "rosa do mar".

- “Alecrim, alecrim dourado/ que nasceu no campo/ sem ser semeado/ foi meu amor,/ que me disse assim:"que a flor do campo, é o alecrim".

O perfume do alecrim selando os guardanapos brancos).

E, sobre tudo, a tarde esfuziante.

Foi assim que a ensolarada tarde de sábado - o melhor presente - exultou os 90 anos de Luiz de Paula Ferreira.

(E que, a rigor, só fechará a conta das 9 décadas nesta quarta-feira, dia 27 de junho).

É, sem favor, entre os montesclarense nascidos na Várzea da Palma o mais montesclarense de todos.

Aquele que o fundador do Instituto Norte Mineiro de Educação, o professor João Luiz de Almeida, ele integrante do célebre “Grupo Verde", de Rosário Fusco e Ascânio Lopes - da sua Cataguazes natal, apontou como o melhor aluno da escola.

O menino, estudioso e ensimesmado, como sugere a foto, deixou a venda do pai, de pés no chão, e transformou-se, por esforço de autodidata aplicado, em industrial, poeta e compositor.

E agora, aos 90 anos, dá os passos iniciais para a travessia do centenário, depois de publicar dois livros inaugurais: “Na Venda do Meu Pai” e “Momentos”, tão bem recebidos.

É o autor celebrado que há 50 anos pode colher, ver e ouvir, por onde vai, a emoção que desperta sua música “Montes Claros Centenária”, hino de, e a M. Claros, e que divide com a modinha “Amo-te Muito” o topo da inspiração musical desta musical cidade.

De Brasília, veio o amigo e vice-presidente da República José Alencar juntar-se aos 300 parentes e amigos reunidos para a data que pediu, e obteve, música romântica, tango, bolero e saudades.

Mesmo o convite veio em poesia, último refúgio da mente operosa, e onde o nonagenário, estalando de novo em prontidão física e mental, reencontra-se repetidamente:

"Ao retornar ao passado/ trilhas da lembrança/ a alma se faz criança/ revendo um mundo encantado./ Cada novo passo dado a um outro passo convida /e nessa marcha invertida /eu vou encontrando a esmo /os pedaços de mim mesmo /deixados ao longo da vida”.


Foi (mais uma) tarde montesclarense autêntica.

(E que se vão tornando raras, à medida que as cidades – identificou um dia o poeta – tangenciam a hora dolorosa “em que querem ser diferentes de si mesmas”).

Com a esposa Isabel (a jovem professora que de fato criou o ensino superior em M. Claros, homenagem que lhe é devida), e ao lado dos filhos todos, da família, dos amigos do peito, Luiz de Paula colheu, quem sabe na retina por vezes cansada, mas vívida, recolheu o que auto-psicografou no verso-convite.

E debaixo de ruidosos aplausos. Ouçamos todos.

Na tarde esplêndida de M. Claros. Tarde de sábado.

Ensolarada alta tarde de gala.


***

(Nas fotos, Luiz de Paula, Isabel e o amigo Alencar, vice-presidente, em torno dos 90 anos. E as gerberas)


25398
Por Paulo Narciso - 19/6/2007 12:53:26
Havia, havia na Catedral, ontem, na missa de 7º Dia do menino Sidney Júnior mais mulheres do que homens.

E, talvez, até mais crianças do que homens, homens feitos, digo.
E a igreja estava plena, cheia.

Há muito noto o que ontem pôde ser visto, confirmado.

As mulheres, que são as mães dos homens, as mulheres estão tomando a frente, adiantando-se entre todos, principalmente nos momentos de grande dor, como este.

O exemplo é o de Simone Pacheco, tia do garoto imolado pelo viciado em drogas que transitava livremente pela cidade, embora já carregasse nas costas – não importa se débil mental ou não – pelo menos um outro homicídio, candidamente confessado: a morte da mulher que não lhe deu o dinheiro que exigiu.

Simone, de olhos claros, vivos, de intenso vigor, e fulgor, a inspirar decisão e autoridade, foi quem liderou as buscas ao menino.

Chefiou a família, distribuiu missões, tratou com a polícia e se pôs – ela mesma – à frente da procura desesperada, urgente.

Chorando.
Sempre chorando.

Chorou, chorou, chorou.
Chorou sem parar por estes dias todos.
Desfaleceu de tanto chorar no cemitério.
Chorou muito na missa de ontem.

Contudo, esta Joana D’Arc do Sertão dá sinais de que não se entregará.

Nada sugere que venha a recuar, a ceder, a transigir, a desistir.

Ao contrário.

Do seu verde, limpo e alto olhar há luzes que apontam para outras direções.

Tiraram-lhe o sobrinho amado, redobraram-lhe a coragem.

É bom guardar o seu nome.

As mulheres podem nos salvar.

Talvez apenas elas.

E entre elas, as mães, únicas com autoridade e força para içar do despenhadeiro moral um Brasil que dá mostras de que desmaia - inerte, abobado, perdido, irreconhecível, extraviado, amputado do seu passado e distante do futuro que lhe foi antevisto pelos sonhadores de todos os tempos.


Ninguém pode tanto quanto as mães, e parece que elas não estão mais dispostas a ceder um milímetro em defesa da vida; elas – que são o centro deste prodígio humano/divino - a própria vida.

Ao preço que for.
Custe o que custar, elas nos salvarão.

Ontem, na Catedral, todos viram: era delas a ação e delas a determinação.

Tudo comandavam.

Com serenidade e firmeza, arrancadas não se sabe de onde; com doçura ainda, e imensas doses de energia, atitudes que comovem tanto quanto o drama do menino que ali nos levou e re-uniu.

O garoto imolado - é preciso repetir - na manhã ensolarada do Corpus Christi, numa área povoada, conhecida e freqüentada da cidade, o seu Parque de Exposições.

Aonde, historicamente, Montes Claros juntou as suas maiores multidões – de 40, 50, 60 mil pessoas, 80 mil.

Voltemos à missa.

Não houve ali, ontem, um estalido, um movimento, um mínimo gesto no encerro profundo delas, as mães, nada que pudesse ocultar ou sugerir o levante iminente, já a caminho.

Nenhuma insinuação de rebeldia, de revolta, de ira.

Os Dias de Ira, o dies irae (“Dies irae, dies illa/solvet saeclum in favilla:teste David cum Sibylla”), mantra do século 13, não arrostou os bancos apinhados da Catedral, tomados ontem pelas Mães.

Na imobilidade gestual de quem fala livremente com Deus, sempre e a sós, as mães exibiam, era possível ver, um fragor secreto, a força desconhecida que pode e vai nos salvar em breve, quando, talvez daqui mais um pouco, permitirem que soltem da garganta o grito lancinante que move o mundo, e o faz recomeçar.

E não para a vingança.

Mas para a reconstrução urgente do que se decompõe.

Não permitirão que seus filhos mais sejam mortos nas ruas.

Que seus maridos não voltem.

Que a porta da sua casa deixe de ser o território risonho da infância, para modelar-se como último recuo do medo.

As mães desconhecem o sentimento de covardia.

E o que acontece quando as mulheres, elas também, se calam, abafam o próprio rumor?

Ontem, na Catedral, centenas delas, em ordem, procuravam abraçar a mãe do menino, em silêncio.

E choravam.

Mais de uma tirou uma carta, lacrada em envelope, e a depositou às pressas nas mãos da mater dolorosa da noite.

O que pretendiam dizer? O que disseram?

Certamente não constará lá o desagrado pelo Dia de Luto Oficial que a prefeitura não quis, ignorou, pequeno gesto implorado pela tia, mas que untaria simbolicamente as dores de todos nós que sangramos com o martírio deste menino Sidney.

Bandeiras a meio-pau, a meio-mastro, são sempre dolorosas, rumorejam, rugem sobre a própria ferida -, mas falam profundamente para dentro de nós.

Talvez nem a lei permitisse que o prefeito assim o fizesse, mas ele precisava dizer publicamente alguma coisa. Perdeu uma rara oportunidade de levantar-se, e de levantar a cidade prostrada, caída junto do menino.

Quando as mães escrevem cartas e as vão entregar, com dispensa das palavras pronunciadas pela boca, numa missa de 7º Dia, talvez queiram dizer mais do que toda a fonética é capaz de explorar.

É possível entrever:

As mulheres, as mães do Brasil, já se movem em nosso socorro.


25363
Por Paulo Narciso - 18/6/2007 22:15:59

Dezenas de crianças que estavam dispersas pela Catedral foram convidadas para se assentarem nos degraus que levam ao altar, quando começou – exatamente às 18h30m, a missa em memória do menino Sidney Júnior, morto por um estuprador-drogado no dia do Corpus Christi, em Montes Claros.
A Catedral, o maior templo de Montes Claros, esteve repleta e silenciosa durante todo o ofício, e um telão foi colocado na praça da Catedral, para que as pessoas do lado de fora pudessem acompanhar as celebrações pelo 7º Dia de Morte.
O padre Alvimar, que concelebrou a missa, iniciou sua mensagem repetindo as reiteradas lições de perdão de Jesus Cristo. Em mais de um trecho de sua fala admitiu que acontecimentos como estes, que nos enlutam, decorrem da “podridão” que avança. Citou inclusive os 38 recentes assassinatos ocorridos em Montes Claros só neste ano.
O pai do menino Sidney, de 10 anos, sua mãe, seu irmão, de 7, assistiram o ofício religioso nas proximidades do altar.
A Seresta João Chaves cantou várias vezes e de maneira especial emocionou ao convidar:

"(Nossa Senhora)

Cubra-me com seu manto de amor
Guarda-me na paz desse olhar
Cura-me as feridas e a dor
Me faz suportar
Que as pedras do meu caminho
Meus pés suportem pisar
Mesmo ferido de espinhos
Me ajude a passar
Se ficaram mágoas de mim
Mãe, tira do meu coração
E aqueles que eu fiz sofrer
Peço perdão
Se eu curvar meu corpo na dor
Me alivia o peso da cruz
Interceda por mim, minha Mãe
Junto a Jesus
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Sempre que o meu pranto rolar
Ponha sobre mim suas mãos
Aumenta minha fé e acalma
O meu coração
Grande é a procissão a pedir
A misericórdia, o perdão
A cura do corpo e pra alma
A salvação
Pobres pecadores, oh Mãe
Tão necessitados de vós
Santa Mãe de Deus
Tem piedade de nós
De joelhos aos vossos pés
Estendei a nós vossas mãos
Rogai por todos nós, vossos filhos
Meus irmãos
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino, do meu caminho
Cuida de mim
Nossa Senhora me dê a mão, cuida do meu coração
Da minha vida, do meu destino"

Às 20h em ponto, quando terminou a missa (que teve a presença do prefeito Athos Avelino e de políticos), centenas de pessoas subiram para as escadarias do altar e abraçaram, anônimas, a comovida mãe do menino desaparecido e assassinado.
A igreja dispersou-se em silêncio.
Não houve protestos ostensivos.
Apenas faixas colocadas na frente da Catedral, no gradil.

Crianças, velhos, homens e mulheres, muitos, deixaram a igreja com os olhos vermelhos, ainda de choro.

Há uma passeata e um protesto marcados para o próximo sábado nas ruas de montes Claros.


23620
Por Paulo Narciso - 10/5/2007 10:29:39

Uma inesquecível noite de M. Claros pede o tambor ancestral dos Catopês, o violino por si triste dos Marujos e a alegre algazarra de Caboclinhos. Requer, precata, músicas seresteiras de João Chaves e os bailados do Banzé, jovens puxando de volta o passado que não passou.
Ontem, noite inesquecível, foram chamados todos à praça da Catedral para abrir as comemorações dos 150 anos da ‘cidade” de Montes Claros, que – ao assim se deixar chamar em 1857, por decreto imperial e curiosa particularidade, já era vila autônoma, dona do seu nariz e de sua bravura, com governantes seus, próprios. Nada anotei, ou anotei até que a noite se perdesse nos céus, transferida para a foguetada cívica, digamos, “maravilha de milhares de brilhos e vidrilhos”.
Vou tentar lembrar. O prefeito Athos fez a abertura e logo vieram os catopés - os carroceiros-irmãos Tonão e João Faria puxando a turma, sem o fardamento escorreito, só aos santos reservado nos seus dias de agosto e glória. O Banzé de Zezé Colares puxou os aplausos da platéia quando levantou as canções de dona Dulce Sarmento, tão nossa, e quando, como fez a seresta em seguida, interpretou “Montes Claros Centenária”, do mestre Luiz de Paula, ali todo integral nos seus próximos e quase 90 anos. A seresta, antecipei, veio com dona Fina de Paula, desnecessariamente apoiada num cajado, regendo tudo, cantando, cantando alto, por si e por Virgílio, ensinando, mostrando como se faz cultura sem nada pedir em troca.
Passeei o olhar em volta e vi, sim, que muito da história de M. Claros de alguma forma transita – como por toda parte - entre os 47 vivos tidos como herdeiros de outros 103, estes sim pioneiros/patriarcas listados como mortos, mas mais vivos do que nunca. (A história, diga-se, transfere responsabilidades e uns, depois de outros, deixam as sombras e assumem o seu papel – maior ou menor, não importa. Fazem o que têm a fazer, e não esperam reconhecimento algum – porque cumprem o que lhes impõe a consciência. Não perseguem gratidão, e de igual forma não estão ao alcance da ingratidão). Mas não é isto o que espero dizer.
Abri estas linhas, no impuslo que tudo devora, para contar que vi dona Ruth Tupinambá Graça (foto). Que revi dona Ivone Silveira e doutor Oswaldo Antunes e Waldir Senna, e que ruidosamente vivei Luiz de Paula quando a velha Catedral, ela também, inclinou suas torres austeras para ouvir mais de perto, em silêncio como todos, o “Montes Claros Centenária” – hino desta cidade do "Amo-te Muito". Que burgo é este, meu Deus, capaz de ostentar - com serena modéstia - hinos tão altos, cantados por todos, mundo afora?
Dona Ruth, ouso dizer, é quem com maior graça e ternura conta hoje a nossa história. Desce dos seus 91 anos para, com emoção e limpo e alto romantismo, narrar de onde partimos, a longa história e travessia - a nos tomar pelas mãos e nos conduzir por dias e noites, esplendor de sonhos. (Disse 91 anos, mas ninguém acreditará. Não usa óculos sequer para enfiar linha na agulha, mora só, por gosto de governar-se, e quando serve-se da caneta para conversar, ninguém é capaz de lhe seguir). Quando a virem, reparem nos seus olhos. Neles, por força do sonho-sonhos, não há mudança que se possa atribuir ao tempo – 9 décadas. A vida, é certo, não reside no que pode ser visto e contemplado, pois além transpôs. E ela, menina-catita de 90 anos, a todos isto ensina, com leve, encantador sorriso. Uma eterna princesa, em particular do nosso Chimbica, tão lembrado.
Não faz menos dona Ivonne Silveira, professora, mestra, heroína de rosto ameno, sempre disponível, amável – símbolo das mulheres de M. Claros, embora nascida no Brejo das Almas – belo nome que precisa voltar. Mãe de todos nós, seus filhos por amor, escolha e declaração. Que dizer de doutor Oswaldo Antunes, rijo preceptor da maior bancada de “homenageados” ali nomeada, representação do "O Jornal de Montes Claros", sem pedir, sem insinuar, sem pretender, sem jamais ousar. Bancada apenas menor, e talvez, do que os de sobrenome Chaves – incontrastavelmente instalados no zimbório intelectual máximo desta nossa breve civilização. (Monzeca, para não inchar a lista com seu sobrenome, discretíssimo preferiu não deixar a ruela sua na cidade velha). Zimbório que a todos acolhe, re-une sempre, domo, jardim de Academus.
De Luiz de Paula Ferreira, de alto estofo intelectual, repetirei para concluir e encerrar que as torres da Catedral se inclinaram longamente para ontem ouvir a sua poesia.
Foi, sim, uma noite inesquecível, debaixo do suave luar de Outono. Céu que hoje se deixou enfarruscar de saudades, já de ontem 9 de maio. Montes Claros.
(Foto: Rádio Montes Claros 98 FM)


23372
Por Paulo Narciso - 2/5/2007 16:25:54
Também me lembro do dia em que - cedo demais - partiu Lucy Veloso, irmã de Arinha, agora heroína da fazenda das Quebradas. Menino de 10 anos, relutei em ir à escola, exibir a dor; na volta, duramente sentido, pus as razões numa só pergunta - “que adianta ir à aula se ao voltar já não me aguarda a madrinha?”. Era seu afilhado, de batismo, vizinho também, vivendo o primeiro grande embate - logo com a morte, morte repentina, frontal, sem prenúncio algum. O açoite percorreu a avenida Coronel Prates, engolfou a risonha cidade. (Quatro décadas depois, voltaria o azorrague na garupa do sábado enfarruscado e triste. Para afligir, também de tocaia, de emboscada, a avenida em si, e matá-la, sem aviso nenhum, lentamente, cerimoniosamente, num pensado ritual de tortura e suplício, com as garras de aço sacudindo no ar árvores e lembranças, como a da Grande Dama. Rebrotará a avenida, como ela – a Grande Dama – ressurge em nós?). Na cabeça do menino, ciciando, ficou a frase ouvida ao pé do caixão, nunca esquecida: - "Ali dentro, junto do corpo, vão as cartas, todas, de Eldan, o filho amado”. Por que cartas, meu Deus, embarcam num ataúde? Haverá quem as recolha no Céu?


22867
Por Paulo Narciso - 14/4/2007 20:57:56
Um caminhão dos Bombeiros levou ao cemitério, no crepúsculo anilado de hoje, o corpo de Geraldão Machado.
Conduziu mais do que um ex-presidente da Câmara e vereador de muitos mandatos.
Conduziu os despojos, o que ficou do desprendimento daquele que talvez tenha sido, na sua geração, o herdeiro preferencial do chamado “jucapratismo”, nome que assinala (entre todos) os que têm por M. Claros o ilimitado amor. Fervor por Montes Claros.
Na Belo Horizonte do início dos anos 70, jovem estudante de l7, Geraldão - ele já era Geraldão - não fazia segredo de que as preocupações com as coisas da amada cidade tinham o sentido urgente de uma vida, e retornar após o aprendizado era a direção absoluta. Éramos assim.
As cartas que recebia da mãe, toda semana, numa época das comunicações difíceis, iluminavam as manhãs e transportavam a essencial luz montesclarina para a república da rua Guajajaras 720, reduto festivo dos estudantes que daqui foram buscar o que pretendiam repartir com os que ficaram, com os que não puderam ir – saber.
As cartas da mãe zelosa diziam assim: “Meu filho: aqui, já começa o frio, e das gavetas retiramos os primeiros agasalhos”.
Tinham, as cartas, além de luz, cheiro, cheiro de M. Claros.
Íamos, todos, lê-las, em procissão; sorver as notícias da mãe e da terra-mãe, cartas que por um momento transportavam nossa cultura para lá; cartas com força capaz de invadir a rua, o quarteirão, o bairro e a cidade lá deles. Força afetiva.
Era a ração semanal do ânimo que retinha nossos pés na capital e o coração mais longe, depois de transposto o rio das Velhas, no rumo norte.
O resto da história é sabido.

Ao ser entregue ao jazigo, hoje, prematuramente aos 53 anos, Geraldão pôs fim a uma galharda luta contra a doença que, se lhe cingiu o corpo a uma cadeira de rodas, jamais o circunscreveu e o abateu.
Conservou e reteve a alegria de viver, e o integral entusiasmo, desconhecida bela palavra grega que no seu mais cavo sentido só pode significar ter Deus dentro de si.
Que o sigam. Amem.
Amém


***
(Hoje, o casal Bilé/dona Taís devolveu o quarto filho ao Criador. Foi comovente ve-los, heróicos, sair do Campo Santo, de braços dados, conduzindo, ou conduzidos, por uma força que não se sabe de onde veio. Ao pé da sepultura do pai, o filho mais velho repetia, debaixo de lágrimas grossas: "Viva Geraldão! Viva Geraldão! Viva Geraldão!". Vivaram todos).


22327
Por Paulo Narciso - 25/3/2007 19:53:48

Foi bonita a festa, pá
Fiquei contente
E inda guardo, renitente
Um velho cravo para mim

Canta a primavera, pá
Cá estou carente
Manda novamente
Algum cheirinho de alecrim

Queria descrever a festa que fizeram, ontem, para dona Nininha Souto. Com atraso, eu sei, mas festa suave para os 100 anos de, nome inteiro disposto, Maria Isaura Veloso Souto, completados em 2004, comemorados agora, quando foi possível, adrede.
Zonzo pela beleza do lugar, e por eflúvios, zonzo pela capelinha que luziu e balouçou no ar, na manhã e no campo azul que é o céu além destes montes, o que dou conta de lembrar, para relembrar, são os versos de Chico Buarque, na Revolução dos Cravos, lembram-se ?
“Foi bonita a festa, pá!”
Tão montesclarina, montesclarense.
Golpeada seguidamente, vi que a cidade e sua lembrança são capazes de ressurgir, de levantar-se, refeitas, remoçadas - completas. De ares leves, na manhã, para evocar doce Nininha, nascida em Fortaleza de Minas, quem sabe nascida no Grão Mogol.
Filhos, netos, bisnetos, sobrinhos, amigos, admiradores, rechamados ao berço para celebrar meiga matriarca, de olhos azuis e bondade infinitos.
Refizeram-lhe, com quase igual sempre apuro, e amor, as comidas-delícias que só ela conhecia. E no livro em que deitaram suas receitas e lições, agora públicas, para proveito geral, tascaram no título o resumo do que a festa de ontem foi – Doces Lembranças (copyright Rosalva Souto & Colaboradores).
É assim que, de tempos em tempos, Montes Claros restaura-se.

Alça-se, com graça e com doçura, para dizer que se refugiou, abrigou-se, na região dos refolhos. De onde virá, sempre que chamada. "Ai, por quem és, desce do céu...."

***
(Na foto dos anos 20, dona Nininha, o marido João Souto e os primeiros dos muitos filhos do casal).


37457
Por Paulo Narciso - 6/8/2006 16:37:23
José Fialho Pacheco

Este é o nome do mais brilhante repórter de Minas, um dos mais importantes do Brasil no século XX.

Conhecido e reconhecido como Fialho Pacheco, é disparado o recordista do Prêmio Esso de Jornalismo em Minas, com 5 lauréis, apesar de ter chegado à profissão aos 42 anos.

Tinha, e incompleto, o curso secundário, mas ninguém no seu tempo foi capaz, ou ousou, cobrir um acontecimento - especialmente na área policial - como ele, um autodidata nascido em Manhuaçu, filho de juiz e que, na juventude, foi sargento do Exército na Amazonia.

Nos seus anos últimos, ainda teve tempo, coragem e ousadia para ser prefeito da diminuta cidade de Juramento, muito próxima de Montes Claros, para onde o levou o amor.

Distante fisicamente das redações, e nunca do ofício de repórter, Fialho conservou entre os mais exigentes profissionais do seu tempo o elevado conceito de repórter imbatível, infatigável, vibrante, campeão de "furos" e da boa informação.

Partiu em 1 de fevereiro de 1989, dias depois de sofrer um derrame cerebral, ainda na primeira manhã, quando tombou sobre a máquina de escrever - uma extensão de sua vida de repórter animoso.

Seu corpo repousa no cemitério de Montes Claros, cemitério palavra grega que significa lugar de dormir, dormitório.

A frase exemplar na lápide resume a essência daquele cujo corpo ali repousa: "A vida de um jornalista é um varal ao sol . Jornalista sem vocação é como o médico que se formou porque atendeu aos apelos do pai. Um bisturi na mão de uma pessoa sem vocação é o mesmo que uma caneta na mão de quem não gosta de ser repórter". Pura verdade.

A lenda sobre Fialho Pacheco, a legenda do homem e do repórter que amou e perseguiu a notícia como ninguém, prossegue entre os que tiveram a ventura de conviver com ele na redação e ao longo de memoráveis reportagens.

Na velha redação do jornal Estado de Minas, no distante 2 de dezembro de 1974, ele datilografava freneticamente um texto, usando apenas os dedos indicadores. Ao fim do trabalho, com o cigarro que eternamente pendia dos seus lábios (sem nunca tragar), Fialho se encaminhou para um jovem colega e entregou-lhe 8 laudas, datadas e assinadas.

Era o seu memorial, finalizado de surpresa 15 anos antes de tombar sobre a máquina de escrever, na casa de Juramento.

São as páginas que se vai ler a seguir.

Foram cerimoniosamente guardadas por 32 anos pelo menino que as recolheu do homem que tinha, naquela hora, lágrimas nos olhos. Por que ? Nunca soube.

Parecia apenas segredo de amigo para amigo.

Fialho - apesar da linguagem intimista, quase confessional - nunca revelou o que pretendia com o gesto. Também não lhe foi perguntado.

Restou a lembrança, vívida, de uma cerimônia muda, rápida, intensa, que dura por uma vida inteira. Restaram outras lembranças.

Os dois haviam se conhecido na redação do jornal, no começo dos anos 70, e tornaram-se inseparáveis amigos, atuando em dupla - até o fim.

Eis Fialho Pacheco, por ele mesmo:

Fialho Pacheco


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Selecione o Cronista abaixo:
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Dário Cotrim
Davidson Caldeira
Efemérides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lívio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
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Isaias Caldeira
João Carlos Sobreira
Jorge Silveira
José Ponciano Neto
José Prates
Luiz de Paula
Luiz Ortiga
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Marcelo Eduardo Freitas
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26/07/14 - 8h
Para os EUA, Putin e Rússia são “culpáveis” por queda de avião da Malásia que matou 298 pessoas

26/07/14 - 7h
Cruz Vermelha virá ao Brasil para investigar supostos desvios de doações


25/07/14 - 18h
Hoje é o último dia para se inscrever no Sisutec que oferece cursos gratuitos

25/07/14 - 17h10
"É uma névoa fina sobre toda a cidade, até onde a vista alcança. Chuvinha, em pleno mês de julho, o que é raro, mas não impossível como se vê. A meteorologia acertou"

25/07/14 - 17h
CBF acusa 97 empresas por pirataria e uso ilegal de imagem da seleção brasileira

25/07/14 - 16h
Fifa rejeita tirar Copa do Mundo da Rússia por causa da crise entre russos e ucranianos

25/07/14 - 15h
Manchetes dos jornais: “Israel diz que Brasil é ´anão diplomático´ e governo reage” - “Israel reage à crítica e diz que Brasil é ´irrelevante´” - “Israel diz que Brasil é irrelevante e criador de problemas”

25/07/14 - 14h
Meteorologia vê chance de chuva em Montes Claros, de 2 milímetros, neste sábado, domingo e segunda-feira

25/07/14 - 13h
Nasa diz que a Terra passou por tempestade solar mais poderosa dos últimos 150 anos no dia 23 de julho de 2013

25/07/14 - 12h06
Relatos de leve tremor de terra em Montes Claros, ao meio-dia

25/07/14 - 12h
Banco Central altera regras de risco de crédito e R$ 45 bilhões dos bancos vão para empréstimo

25/07/14 - 11h
GM quer suspender contratos de 5.400 funcionários para ajustar produção e venda

25/07/14 - 10h
Polícia faz buscas na Rua Aranha, em Vespasiano, onde primo de Bruno disse estar o corpo de Eliza Samudio. (E nada foi achado)

25/07/14 - 9h
Jornal paulista revela dívida fiscal de Dunga, que o ameaça de processo por quebra de sigilo

25/07/14 - 8h
Governo francês confirma localização de destroços do avião em área inóspita e vasta

25/07/14 - 7h
Porta-voz de Israel reage a críticas do Brasil e retruca, ferino - "desproporcional é 7 a 1"


24/07/14 - 18h
Judiciário determina que estado e prefeitura forneçam derivado da maconha a criança com convulsão

24/07/14 - 17h
Ao invés de 10 minutos, condenado levou quase 2 horas para morrer com injeção, ontem, nos EUA

24/07/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “TCU condena 11 executivos da Petrobras por refinaria” - “Cowan vai refazer cálculos de 6 viadutos”

24/07/14 - 15h
Ventos de 11 km e temperatura entre 15 e 30 graus, hoje, em Montes Claros

24/07/14 - 14h
Israel reage a crítica do governo brasileiro e diz que país é “irrelevante”; Brasil rejeita ser "anão diplomático"

24/07/14 - 11h52
Agosto será ainda mais crítico para as hidrelétricas – revela jornal de São Paulo

24/07/14 - 12h
Motorista é rendido e trancado no baú do seu caminhão, em avenida. E dois, na ponta de revólveres, entregam suas motos, nas ruas

24/07/14 - 11h
Avião que voava para a capital da Argélia está desaparecido, com 118 pessoas – maioria é de franceses e espanhóis

24/07/14 - 10h
Depois de conquistar a Recopa, presidente do Atlético garante que Ronaldinho não sai antes do fim do contrato

24/07/14 - 9h
Brasil avança uma casa no desenvolvimento humano - da posição 80 para 79, mas continua atrás do Chile, Argentina, Uruguai e Venezuela

24/07/14 - 8h49
"A placa sul-americana, onde está localizado o Brasil, apresenta muitas fraturas. Estudos (...) têm mostrado que a região de Montes Claros (MG), onde recentemente ocorreram tremores, contém uma importante falha geológica"

24/07/14 - 8h
“Eu sei que vou morrer, mas meus personagens ficarão todos com vocês”, disse Ariano Suassuna, 6ª-feira. Ele, que se escondia de "Caetana"

24/07/14 - 7h
Na prorrogação, Atlético dá ao Brasil o 9º título da Recopa Sul-Americana


23/07/14 - 18h
Tratamento precoce contra Aids em bebês pode não prevenir a doença por causa de reservatórios intocáveis do vírus, diz estudo

23/07/14 - 17h55
Brasil perde ao entardecer um dos seus maiores intelectuais, o escritor Ariano Suassuna, de 87 anos

23/07/14 - 17h
Arrecadação de impostos no 1º semestre deste ano foi 0,28% maior do que a do mesmo período, no ano passado

23/07/14 - 16h08
Azul anuncia vôo Confins/Montes Claros a partir de setembro

23/07/14 - 16h
Ministério da Saúde abre 748 vagas com salário de até 9.874 reais. Concurso ainda não tem data

23/07/14 - 15h
Em vantagem, Atlético decide, hoje, Recopa contra o Lanús, da Argentina. A 98 FM vai transmitir o jogo a partir das 21h45

23/07/14 - 14h
Meteorologia acena com chance de chuva em M. Claros, domingo e terça, mas ela é improvável nesta época

23/07/14 - 13h
Brasileiros lideram ranking de horas gastas em redes sociais. Países mais desenvolvidos estão na outra ponta

23/07/14 - 12h
Avião faz pouso forçado em rodovia e 45 passageiros morrem, em ilha sob domínio de Taiwan

23/07/14 - 11h
Taffarel decidirá hoje se aceita fazer parte da comissão técnica da seleção

23/07/14 - 10h
Manchetes dos jornais: “Construtora culpa projeto por queda de viaduto em BH” - Tribunal manda INSS reduzir 100 mil benefícios até janeiro” - “Cargo de deputado no Distrito Federal é o mais cobiçado do país”

23/07/14 - 9h
TCU manda INSS revisar 106 mil benefícios por causa de pagamento duplicado

23/07/14 - 8h
Jogador brasileiro, naturalizado e casado com ucraniana, é convocado a lutar em conflito

23/07/14 - 7h
“Nova conta eleva em 2 bilhões de reais repasse para a tarifa de energia” – calcula a Folha


22/07/14 - 18h
Plano de saúde coletivo teve reajustes de até 73% em um ano – aponta Instituto de Defesa do Consumidor

22/07/14 - 17h00
Schumacher se comunica pelo movimento dos olhos e poderá usar cadeira elétrica controlada pela boca

22/07/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “Projeção do PIB cai, e governo não prevê melhora até eleição” -“’Colchões’ de deputados guardam R$ 10 milhões” - “Internet banda larga no Brasil é 33% mais lenta que a mundial”

22/07/14 - 15h
Mínima anunciada para hoje em M.Claros era de 16 graus, mas ela desceu aos 15

22/07/14 - 14h
Banda larga no Brasil é 33% mais lenta do que a mundial. E quase 10 vezes mais devagar do que a líder, Coreia do Sul

22/07/14 - 13h
Jornal o Tempo: “Deputados mineiros guardam 10 milhões de reais debaixo do colchão”

22/07/14 - 12h
CBF oficializa retorno de Dunga ao comando da seleção brasileira

22/07/14 - 11h21
Bar Sibéria, nome que vem desde os anos 50, vai fechar suas portas na próxima semana

22/07/14 - 11h
Ladrões da moto prata levam dinheiro, celulares, capacetes e rádio comunicador de motel. Loja entrega 22 celulares sob a mira de armas

22/07/14 - 10h09
"Para os diamantinenses, era um sujeito esquisito, que passava o dia de pijama tocando violão"

22/07/14 - 10h
Para Agência Atmosférica dos EUA, 2014 teve o junho mais quente já registrado

22/07/14 - 9h
174 remédios dispensados de impostos estão 12% mais baratos, divulga o governo

22/07/14 - 8h
Rafael Ilha foi preso com armas em Foz do Iguaçu. Ex-Polegar estava com a mulher e voltava do Paraguai

22/07/14 - 7h
Escritor Ariano Suassuna, de 87 anos, sofre AVC hemorrágico e é operado. Ele está em coma e respira por aparelhos


21/07/14 - 18h
Rodada do Brasileirão é a 2ª com menos gols na história dos pontos corridos

21/07/14 - 17h
Ministério Público já contesta 1.850 candidaturas – 1.141 somente em Minas

21/07/14 - 16h
Gol de James Rodríguez contra o Uruguai é eleito o mais bonito da Copa

21/07/14 - 15h
Presos usam telefone inteligente para acessar internet em cadeias e penitenciárias do Brasil

21/07/14 - 13h
Brasil tem 7 mortos em acidente de moto para cada 100 mil habitantes. É a 2ª maior taxa do mundo, atrás apenas do Paraguai

21/07/14 - 12h
Medo de não ir à próxima Copa leva CBF a chamar Dunga, acredita jornal

21/07/14 - 11h00
“Indústria reduz produção e vende energia” – é manchete no Rio

21/07/14 - 10h
Manchetes dos jornais: “Inflação afunda sonho de fartura para a classe C” - “Indústria reduz produção e vende energia” - “Presos usam Facebook de dentro da cadeia”

21/07/14 - 9h
Cruzeiro abre 5 pontos de vantagem na liderança do Brasileirão. Galo se mantém em 11º lugar

21/07/14 - 8h
Empresas brasileiras perdem 108 dias por ano com burocracia e carga de impostos, que é de 36,27%

21/07/14 - 7h
Em carta, escritor mineiro Rubem Alves pediu para ter cinzas jogadas em ipê - revela a filha


20/07/14 - 19h52
"(Perguntai ao sumido Edes Barbosa, e ele vos contará de uma história passada na solidão enluarada dos nossos austeros píncaros serranos. E agora, os que têm mais de 55 anos. Fechai os olhos. Revisitai aquela noite histórica, numa cidade que também era de sonhos, e descobertas)"

20/07/14 - 18h57
Volta de Dunga à seleção brasileira será anunciada na próxima terça-feira


19/07/14 - 18h
Marquinhos, Marlone e Dagoberto disputam vaga no Cruzeiro para jogo deste domingo contra Palmeiras

19/07/14 - 17h
Sisutec tem 289 mil vagas para cursos técnicos. Inscrição começará na próxima segunda-feira

19/07/14 - 16h
Brasileirão terá 4 jogos hoje e 6 amanhã. A 98 FM vai transmitir o jogo do Atlético, neste sábado às 18h30, e o do Cruzeiro, amanhã às 16h

19/07/14 - 15h
Manchetes dos jornais: “Tragédia com avião atrasa a cura da Aids” - “Obama liga Rússia a disparo de míssil que derrubou avião” - “Míssil atinge em cheio a luta contra a Aids”

19/07/14 - 14h
Fim de semana em M. Claros será de sol, com máxima e mínima temperatura variando 15 graus

19/07/14 - 13h
Ao marcar contra o Lanús, Tardelli fica a um gol do 100º pelo Atlético

19/07/14 - 12h
A cada hora, 5 pessoas morrem no trânsito brasileiro - são números oficiais

19/07/14 - 11h
Prédio de 4 andares desaba na orla de Atalaia, em Aracaju. Cães farejadores procuram vítimas

19/07/14 - 10h
Mesmo com queda de 7% nas vendas, preço de carro sobe 6% entre janeiro e junho

19/07/14 - 9h
Lista oficial de 298 mortos na Ucrânia não tem norte-americanos: são 192 holandeses, 44 malasianos, 27 australianos, indonésios, ingleses, alemães e belgas



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