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25/6/2014 - O goleiro Bruno, condenado por homicídio, já está na Penitenciária de Francisco Sá. Seus advogados dizem que é "meio caminho" para que volte a jogar, no caso em M. Claros. Esta possibilidade trará para a cidade:

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           Ucho Ribeiro    Uchoribeiro@hotmail.com

78291
Por Ucho Ribeiro - 8/7/2014 11:55:18

SESSENTA E NOVE

- Mário, acorde! Tem gente mexendo na porta!
- Maria, a esta hora da manhã, deve ser ladrão. É melhor ficarmos quietos.
- Mário, levante e vai lá ver.
- Há gente pelos jardins e dois carros parados na porta.
- Será, Mário?
- É, vieram me pegar. Estão à paisana e não conheço ninguém.
Eram quatro horas da manhã quando tocaram insistentemente a campainha da nossa casa na rua Luiz Pires, 80.
Meu Pai foi até a sala, abriu a porta e disse: - Pois não?
Um deles perguntou: - É aqui que mora dr. Mário Ribeiro?
Marão, querendo se safar, respondeu: - Não, aqui mora Mário da Silveira, sinto muito! E tentou fechar a porta, quando um paramilitar colocou o pé à frente, impedindo.
Entraram, seguiram-no até o quarto para se vestir e determinaram que ele os acompanhasse imediatamente.
Minha mãe assustou-se com as duas armas apontadas para ela, exigiu que eles se retirassem para que pudesse trocar de roupa.
Papai, desorientado, procurou atrapalhadamente tranquilizá-la: - Não se preocupe, Maria, vou atender um cliente e volto já!
Ao se despedir, com um beijo, Marão cochichou: - Chame logo o Georgino.
Deitado na cama, assisti, pela porta aberta, àquele trança-trança de homens desconhecidos e armados dentro da minha casa. Rodopiaram por todos os cantos, foram até a biblioteca, pegaram os livros de capas vermelhas e mais o reles livro “Eu e a China”.
Toda a movimentação para levar meu Pai não durou cinco minutos.
Mamãe ligou para o Cel. Georgino, que chegou em seguida. Contou mal-mal o acontecido e ele saiu com uma maleta com algumas peças de roupas para serem entregues a Papai, caso ainda o encontrasse pela cidade.
Soube, depois, que o Georgino se encontrou com Marão no posto de gasolina ao lado do Batalhão. Ele estava numa Kombi com mais três detidos, salvo engano, o seu compadre Laert Ladeia David, dono da Gráfica Orion, Porfírio Comunista e o dr. Clóvis, médico do São Lucas.
O Coronel apresentou suas patentes, entregou a maleta e pediu toda atenção para com o meu Pai: - Independente de sua posição política, de ter sido cassado e de ter perdido seus direitos políticos, posso lhes assegurar que Mário é um homem de bem.
No clarear do dia, tio Otávio chegou nervoso lá em casa com vovó Fininha. Andava ao redor da mesa, fumava um cigarro atrás do outro e aconselhava alto com sua fala embaralhada:
- Maria Jacy, os meninos não devem ir ao colégio.
- Vamos ligar para Genival.
- Você já falou com Márcio de Castro e Silva?
Quando os meus irmãos e irmãs acordaram para ir à escola, Mamãe nos reuniu e explicou: - Hoje de madrugada, uns homens estiveram aqui e prenderam o seu Pai. Ele não fez nada de errado! Trata-se de perseguição política, porque ele pensa diferente do governo. Nós vivemos numa ditadura e quem pensa diferente é perseguido.
- Tio Otávio acha que vocês não devem ir ao colégio para não ficarem constrangidos. Mas vocês irão à escola, de cabeça erguida e peito estufado. Com muito orgulho do seu Pai.
- Pat, hoje à noite você tem apresentação de Ballet no Imaculada e nós todos vamos estar presentes. Você vai ser a bailarina mais bela e a que vai dançar mais bonito, viu?
Fui para o Colégio São José todo empinado, calado e introspectivo, à espera de uma sabatina por parte dos garotos.
Entrei e fui direto para a minha carteira, não fiquei pelos corredores brincando com os colegas. Fingi que terminava o dever de casa.
Aula iniciada, percebi que ninguém sabia de nada. Eu, preparado para o que desse e viesse, e meus colegas, agindo normalmente, nem me olharam diferente. Meu Pai havia sido preso às 4 horas da manhã, a notícia ainda não tinha se espalhado pela cidade.
No recreio, fiquei na minha, quieto, reservado, à espera de alguma gozação ou provocação. Mas, nada. Quase no final do recreio, meu amigo Wallen chegou perto de mim e perguntou: - Seu pai foi preso?
Eu, de pronto, já preparado por minha mãe, respondi, na pinta, com o queixo levantado:
- Foi, por quê?
- Não, nada não.

Marão perdeu os seus direitos políticos em julho de 1969. Estávamos no sítio Tira-Teima, quando ele ouviu pelo rádio o seu nome na lista dos cassados pelo Conselho de Segurança Nacional. Marquim, inocente, saiu alegremente gritando: - Ô, os minino, falaram o nome de Papai no rádio!
Marão permaneceu calado, cabisbaixo, depois de um tempo lamentou pela Famed: - Perdi minha Escola!
Um par de meses depois era a Parada de 7 de Setembro. As escolas públicas e privadas aproveitavam a data cívica como vitrine para se promoverem. A meninada toda se alvoroçava para fazer bonito no desfile. Uns queriam participar da fanfarra, tocar tarol, caixa clara, surdo, até mesmo corneta. Outros decoravam suas bicicletas com pequenas flâmulas e entrelaçavam os raios com papeis crepom coloridos. Havia os pelotões dos desportistas, dos troféus, dos estandartes e dos envergonhados e raivosos baixinhos do colégio - a indesejada e vaiada “rabada”, que marchava ao som das batidas dos próprios pés. Os ensaios eram quase diários. Por todos os cantos da cidade, dava para ouvir as bandas se aprimorando para não sair do tom ao passar pelo palanque das autoridades militares e municipais.
No Colégio São José havia um consultor militar, creio que do Tiro de Guerra, por conta de assessorar o nosso desfile. Ensinava com o maior rigor como os alunos deveriam alinhar, marchar, curvar, arrancar e não dispersar ou sair da ordem estabelecida. Os ensaios duravam semanas, a expectativa era imensa. A cidade inteira assistia as comemorações do Sete de Setembro.
Na véspera da parada, no ultimo horário de aula, esse militar, juntamente com um subalterno do colégio, retirou meus irmãos, Fred e Marquim, e eu das salas de aula, levou-nos até a um canto e sentenciou: - Amanhã, vocês três podem ficar em casa, não é para se apresentarem para o desfile. Estão dispensados desde já. Nem perguntamos o porquê.
Foi duro ouvir aquilo, mas o pior foi que, no dia seguinte, não pudemos assistir a alegre e esperada parada, pois seríamos os únicos meninos que não estariam na marcha e não teríamos como explicar aquela antipatriótica ausência. Passamos a manhã recolhidos, com os sentidos voltados aos sons das fanfarras, dos estampidos e no barulho unissonante das pisadas firmes dos meninos. A nossa casa ficava a meio quarteirão do rumoroso desfile e estávamos enclausurados e excluídos da festa.
De volta à noite da prisão, Marão nos disse que a viagem foi tragicômica. Ele, no maior cagaço, fingia que tudo não passava de um engano. Volta e meia, blefava para um dos companheiros presos que choramingava: - Calma, meu velho, a esta hora Magalhães Pinto já foi avisado. Vamos chegar no DOPS com a ordem expressa de soltura. Vocês vão ver, à tarde já estaremos soltos!
Que nada! Foi cadeia mesmo. Cana dura.
Ficaram lá uns dias, não sei quantos. Meu Pai nos contou que não foi torturado fisicamente, mas que tinha uns fidumaéguas que passavam o dia fazendo terror com perguntas aos outros carcereiros:
- O cara lá aguentou os choques ou se borrou todo?
- O do pau de arara abriu o bico, alcaguetou os outros?
O sempre solidário Genival Tourinho e tio Márcio mobilizaram uns amigos, desafiaram uns inimigos, encurralaram uns bunda-moles, cutucaram uns omissos e, depois de mexerem muitos pauzinhos, conseguiram tirar o velho da cana.
Segundo eles, após se comprometerem e se responsabilizarem pela custódia e soltura de Marão, aconteceu o mais inusitado. Na descida da escada do DOPS, já na rua, com Mário Ribeiro livre igual a um passarinho, meu Pai parou e disse: - Peraí um minuto, eu tenho que resolver um probleminha aqui.
Voltou-se e entrou de novo no prédio do DOPS.
Genival e Tio Márcio esperaram um pouco para entender aquela doideira e não vendo sentido foram atrás de Marão. Percorreram as salas até entrarem no gabinete do superintendente. Depararam com Papai pedindo-lhe uma autorização para comprar dinamite para a sua pedreira em Montes Claros.
O superintendente, possesso, sem entender aquele pedido maluco, voltou-se para Genival e perguntou: - Este cara é louco? Ele foi preso por ser cassado, subversivo e comunista. Sei lá se não é um terrorista, um guerrilheiro e quer di-na-mi-te! Eu vou é socar ele de novo nas grades.
Genival, então, atalhou: - Que é isto, Doutor? Ele está muito perturbado, insano, e quando fica assim, fica irreverente, vira um zombador. Desculpe! Desculpe! Ele está precisando é de repouso, de descanso.
Ao saírem de novo do prédio, tio Márcio deu-lhe uma bronca: - Cê tá doido, Mário? Você está querendo comprar dinamite no DOPS?
- Marcito, Marcito, minha pedreira está parada por falta de dinamite e são estes fidumas que dão a autorização pra a gente comprar os explosivos. Já que estávamos aqui, não queria perder a viagem.
Marão era desse jeito: prático e de um coração do tamanho do mundo - perdoava todo mundo.
Vários anos depois, num final de tarde, tomávamos umas no Bar e Restaurante Quintal, em uma mesa com muitos amigos e notei que Marão encontrava-se estranhamente calado. Ele estava a observar um cara sentado sozinho numa mesa apartada.
Passados uns minutos, ele levantou-se foi até o sujeito e o convidou insistentemente para sentar à nossa mesa, apresentando-o festivamente: - Este é fulano. Ele foi o meu algoz lá do DOPS, quando eu fiquei preso em sessenta e nove.


78241
Por Ucho Ribeiro - 30/6/2014 10:50:14
SESSENTA E QUATRO

Éramos uma ninhada, escadinha de sete crianças de 4 a 11 anos. Mamãe tinha 34 anos e Papai cinco a mais. Ela vivia por conta da gente e ele por conta de tudo quanto havia no planeta: política, reformas, eleições, medicina, construções, futebol, cinemas, fazenda, frigorífico, pedreira, curtume, imprensa, etecetera e tal.
O Brasil era uma efervescência e Marão era um alka-seltzer naquele burburinho todo. Vivia viajando a BH, Rio, Brasília e pelo circuito de seus cinemas no norte de minas. Só o víamos alguns dias na semana, entrando ou saindo, e mesmo assim acompanhado de um monte de amigos, companheiros, correligionários e curiosos. Chegava com aquela turba toda, cobrando almoços, lanches, jantares, pra já: - Maria, frita mais bifes, põe água no feijão, o pessoal tá com fome! Partimos amanhã cedo para o Distrito Federal. Darcy vai nos receber para aprovar umas escolas profissionais para nossa região.
Meu pai não dormia nem bebia naquela época, porque não dava tempo, o agito e a pressa eram demais para mudar, passar o país a limpo. Dava pitaco em tudo, falava pelos cotovelos, tinha idéias e soluções para todos os problemas do Brasil. Defendia apaixonadamente a educação de qualidade, uma saúde plural e básica e propagava que a terra improdutiva tinha que frutificar.
Após as refeições, ao agradecer sempre dizia: - Senhor, dai pão a quem tem fome e fome de justiça a quem tem pão.
Nos punha no colo e dizia aos amigos: - Este menino come três a cinco refeições ao dia, tem toda a assistência de saúde, tem uma cama, um teto, uma mãe formada em pedagogia e uma escola boa. Ou seja, tem todo apoio familiar e público para se tornar um cidadão decente e prestante. Chegou o momento de lutarmos para dar mais às outras crianças que estão desamparadas, famintas e sem estudo. É esta a revolução que temos que fazer. Por isso, a premência das reformas de base.
Porém, a revolução que veio foi outra: o golpe de 64. Primeiro de abril!
O Mario Ribeiro barulhento, inquieto, teve de se calar, recolher, entocar, sumir. Graças ao providencial aviso de tia Lourdes Pimenta: - Jacy, o compadre tem de sair da cidade agora, imediatamente... Ele se escondeu por uns bons tempos na fazenda Rio do Peixe de tio João Valle Maurício, fugido dos “bate-paus”.
Nossa casa esvaziou. Ficamos meses sozinhos, com as portas e janelas cerradas. Não podíamos brincar na rua, mesmo sendo ermo o bairro Todos os Santos naquela época. Fomos limitados ao nosso umbigo, ao nosso quintal.
Pat, Fred, Marquim e eu íamos juntinhos para a escola e voltávamos cercados pela garotada nos xingando: “comunistas”, “comunistas”. Crueldade de crianças. Reflexo do que escutavam dos pais em casa.
Não me lembro de temer aquele xingatório todo, estava blindado pelos esclarecimentos de mamãe. Tinha apenas receio dos meninos, que eram tantos e tão irados, baterem em Pat e nos meus irmãos.
Minha mãe conta que um dia a minha professora do grupo D. João Pimenta me levou até a minha casa e lhe contou com lágrimas nos olhos: - Estou lhe trazendo Ucho porque os meninos o estavam ameaçando e xingando de comunista. Ele disse que não era e nem sabia o que era comunista. Um deles o acusou: Se seu pai é comunista, você também é! Seu filho, então, respondeu: - Olha, se meu pai é comunista deve ser coisa boa. Eu também sou!
À noite, depois de rezarmos e pedirmos a Deus proteção ao papai, ficávamos todos embolados no quarto de minha mãe.
Além de Mauricinho, Toninho Rebello ia diariamente lá em casa:
- Comadre, está tudo bem? Vocês estão precisando de alguma coisa? Os meninos estão bem? Recebeu a feira que eu mandei? Precisa de dinheiro? Qualquer coisa mande me avisar! Fique tranqüila, eles não vão encontrar o Mário. Marcolina manda lembranças e está rezando por vocês.
A feira de Toninho foi tão farta, que comemos goiabada e gelatina durante anos. Tinha tanta comida na despensa que eu pensei: - meu Pai não volta nunca mais.
Mozart Caldeira era o outro grande amigo que aparecia para ajudar. Mas a minha impressão era de que ele tinha tanto receio de pegarem meu pai, que passava um pouquinho da sua tensão e medo pra gente.
Enquanto uns poucos foram solidários, outros tantos estavam no encalço de Mário Ribeiro. Há pouco tempo soube que alguns foram até a fazenda de Tio Maurício devido a suspeita dele estar lá escondido. Ao chegarem nos arredores, Lafayete, ex-supervisor da Escola Normal, se ofereceu para ir sozinho na frente, com o seguinte argumento: - Pessoal, como o Mário e seus comparsas devem estar armados e sendo eu o único solteiro, sem filhos, creio que devo ir até lá na sede para fazer uma prévia checagem.
Foi, viu Marão e Maurício na maior prosa, voltou e disse aos seus compartes: - Não foi desta vez, lá não tem uma viva alma, tudo apagado. Podemos voltar.
Minha mãe nunca pode agradecê-lo, quando soube deste ato de estima o Lafayete já havia falecido.
Lembro que mamãe, antes do golpe, alfabetizava adultos pelo método Paulo Freire na nossa casa, à noite. No meio daqueles alunos tão humildes havia uma senhora, mãe de uma dentista. Ela era nossa vizinha, mais velha, boa pessoa, e estava toda contente porque já começava a juntar as letrinhas. O golpe a fez sumir lá de casa. Nunca mais apareceu e passou a não nos cumprimentar. Para muitos passamos a ser leprosos sociais.
Por sorte éramos tantos, sete crianças e mais mamãe, a cozinheira Joana e suas duas filhas, Detinha e Dui, que nos bastávamos no quintalzão imenso.
Não esqueço da alegria de tio Enio. Esteve presente o tempo todo. Dormia no sofá da sala. Distraia-nos com suas brincadeiras e dava segurança à sua irmã Cici. Creio que foi este casulo familiar que nos manteve e nos mantém tão unidos até hoje.
Nossa casa ficava afastada da cidade, no bairro Todos os Santos, em frente onde hoje é o Skema Kente. O campo do Cassimiro não tinha nem muro direito. Éramos nós, o orfanato e mais cinco ou seis vizinhos espalhados numa manga sem ruas. A ponte para o bairro que cruzava o rio Vieiras é aquela passarela na Sanitária que liga o Sesc ao Posto Via Dupla. O resto era uma estradinha estreita que passava pela nossa porta e ia até o Pequi de Joanir.
Ao entardecer, eu ia para o quarto de Joana escutar no radio a novela “Gerônimo, Herói do Sertão, e o Moleque Saci” e ficava atemorizado. Imaginava e sentia o aperto que os meus heróis passavam ao serem perseguidos e encurralados, que devia ser o mesmo que o meu pai sentia. Torcia calado para que o Gerônimo escapasse e encontrasse Marão. Iria protegê-lo.
Na santa e obrigatória missa do domingo, íamos empoleirados no carro, chegávamos juntinhos e voltávamos todos grudadinhos para casa. Se não fossemos à missa, a acusação seria implacável: são mesmo ateus e comunistas de carteirinha.
Depois do Ofertório, na hora da Consagração, quando o padre levantava a hóstia e depois o cálice, mamãe pedia para a gente dizer com toda a fé do mundo: - Meu Senhor e Meu Deus, protegei Papai!
Passado um tempo, que não sei dizer quanto, em uma noite ele apareceu. Foi a maior alegria silenciosa. Não podíamos falar alto, fazer barulho ou arruaças, para não alardear vizinhos e bisbilhoteiros. As únicas luzes acesas foram as do fundo da casa, da cozinha. Matamos a saudade e a curiosidade, mas fomos dormir cedo, pois antes de clarear o dia um carro buscou meu pai com peruca e barba e o levou para Bocaiúva. Lá, ele tomou o trem e desceu em Sete Lagoas, de onde seguiu noutro carro para Belo Horizonte. As estações e rodoviárias eram vigiadas, um risco para os “perigosos comunistas”.
Na Capital, ficou escondido num pequeno apartamento, sob a guarda e proteção de tia Nini, irmã de mamãe, e de tio Ruy, seu marido.
Fico a imaginar como ele, que vivia ligado a 220 volts, cercado de gente por todos os lados e sem parar quieto um minuto, conseguiu suportar o isolamento, sem família, sem amigos, sem notícias, sem atender o telefone. Estava só. Enjaulado. Minha tia conta que, quando tocava a campainha, ele escondia dentro de um guarda-roupa.
Sei apenas que depois de muito tempo, toda a família foi de Kombi, no maior mistério, recebê-lo em Bocaiúva. Veio sem a peruca e a barba. A viagem foi a maior algazarra e alegria, parecia o retorno de um herói combatente de guerra.
De volta a Montes Claros, Papai se recolheu, restringiu suas atividades aos seus negócios de cinemas e ao consultório. Bico calado. O mar não estava para peixe.
Para nós, os filhos, foi bom. Passamos a ter um pai mais presente em casa. E que Pai!


78195
Por Ucho Ribeiro - 24/6/2014 12:00:46
O FIDUMA

Carlos Alberto era funcionário da Caemc, antiga Companhia de Águas e Esgotos de Montes Claros. Exemplar servidor. Assíduo e rigoroso nos seus afazeres. Era o responsável pela carteira das contas dos consumidores. Implacável na cobrança e impiedoso com os inadimplentes.
Sua vida resumia-se a seu ofício e às suas outras duas paixões: o futebol e a noiva Vera Lúcia.
Após cumprir o expediente diário, passava em casa, banhava-se, jantava e seguia para a casa da Verinha. Namorava na sala sob a vigília do sogro e da sogra, assistindo o Direito de Nascer ou Telecatch Montilla.
O término destas programações era o sinal para se retirar. Vera Lúcia o levava até o portão e Beto, quando tinha coragem e sorte no descuido dos velhos, pegava na sua mão. Já estava muito bom. Uma vez, roubou até um minúsculo beijo. Pretexto para suas fantasias noturnas.
O pai de Vera era duro, um renitente, sempre de olho nas possíveis investidas de Carlos Alberto. Quando afastava o pouco que fosse dos noivos sinalizava com os olhos para a esposa marcar o casalzinho.
Vera Lúcia, primeiro namoro, era vigiada ao extremo. Os pais a levavam e a buscavam ao grupo escolar onde lecionava e às festas. Não a deixavam sozinha de jeito nenhum. O controle era tal que até o pacote de modess era entregue pelo pai, um dia antes da sua regra mensal.
Beto era apaixonado por futebol, mas era um pereba, um verdadeiro perna de pau. Ruim de bola de doer. O jeito que encontrou para poder participar do esporte foi apitar os jogos. Ser o juiz. Inicialmente, era ignorado, quase um carta branca nas peladas. Como era dedicado, tinha apito e uniforme, começou a apitar as pelejas na várzea e logo depois nos campeonatos amadores da cidade. Fez curso por correspondência pela Federação Mineira de Futebol e passou a ser requisitado com mais freqüência para os torneios municipais.
Após cada jogo, Carlos Alberto narrava epicamente as partidas para Vera Lúcia. Se vangloriava no apito, principalmente nos lances que marcava faltas e pênaltis. Nos relatos das expulsões chegava a levantar-se do sofá com a mão estendida, como se estivesse com o cartão vermelho. A partida e o seu resultado não tinham tanta importância, o significante e majestoso era o seu desempenho, o seu arbítrio intransigente. Doesse a quem doesse. As torcidas podiam ficar mordidas, putas da vida, mas o seu apito era impiedoso, imperativo e irredutível. Ignorava e nunca relatava à noiva os impropérios que declinavam a ele e a sua digníssima progenitora.
O sonho de Beto era levar Verinha ao Estádio José Maria Melo, para que ela pudesse assistir ao seu esfuziante desempenho e a sua autoridade no apito.
Pois não é que na final do campeonato amador, Magalhães X São Pedro, Carlos Alberto conseguiu a permissão para que Vera Lúcia pudesse ir com a sua prima ao jogo. O pai as levaria e buscaria de carro na porta do estádio, mas durante a partida as duas estariam nas arquibancadas sem velas e acompanhantes.
Sentaram nos primeiros degraus, em frente de uma das rumorosas torcidas.
Ao ver o seu benzinho despontar em campo, ficou escandalizada como ele foi saudado pelas duas torcidas:
- Ladrão!
- Veado!
- Filho de puta com soldado!
Quando Carlos Alberto, engomadinho, de preto, todo bonitinho, chegou até o meio do campo para iniciar a partida, juntamente com os seus auxiliares, recebeu nova saraivada de palavrões:
- Veio roubar de novo, né, seu rato caiano!
- É hoje que você vai apanhar, fiduma égua!
E logo que o jogo iniciou, Verinha ficou ainda mais rubra e horrorizada de como a sua sogra era xingada e mais ainda de como rotulavam as opções sexuais do Betinho. Não teve coragem de olhar para trás, estava totalmente escandalizada com tanta selvageria. Ficou estagnada, muda, estatelada, ouvindo todos aqueles absurdos, sem entender porque os torcedores tinham tanto ódio do Carlos Alberto.
A qualquer som do apito, lá vinha:
- Ô, filé da puta, ladrão!
- Ô, filho de ratazana com mão lisa!
- Ô, bicha escrota!
Poucos minutos antes do final do primeiro tempo, numa jogada violentíssima dentro da área, um torcedor dos mais arrebatados gritou quase no pé do ouvido de Vera Lúcia:
- Cê não vai dar o pênalti não, seu corno? Chifrudo!
Descontrolada, desmedida, fora de si, Vera Lúcia deu um salto, se pôs de pé, voltou-se furiosa para a torcida e destramelou:
- Ah, não! Isto não!
Verinha, a bem criada, a recatada, jamais voltou a um estádio de futebol e nunca mais quis saber do fiduma Carlos Alberto.


78139
Por Ucho Ribeiro - 15/6/2014 08:47:24
ZÉ MUTAMBA E GUARANÁ

De volta das Cabeceiras, Zé Mutamba veio bem acompanhado. Arrumara um companheiro, unha e carne, bom de prosa, de gole, chegado num joguinho e mais ainda num rabo de saia. Era o notório Guaraná.
Ele trelou no Zé e convenceu o coitado a voltar para Monsclaro, com o argumento de que há dias não tiravam o atraso: “Zé, Zé, quando a gente começa a olhar pro tiché das éguas, tá na hora de retornar pra cidade”.
Desembarcaram na Socomil e ali mesmo entraram no rendez-vous da Geralda. Grudadinho na Freiopeças de Shazan. Esvaziaram suas primeiras ansiedades e foram se empoleirar mais à frente, no outro meretrício lecotreco da Carminha, na Praça de Esportes.
Lá sempre havia três ou quatro meninas, à disposição. Nenhuma era avião, nem mesmo teco-teco, mas todas caprichavam no trivial simples ou no serviço completo, barba e bigode, com o maior esmero. Se se catasse a miúdo os atrativos, as formosuras de cada uma, um olhar, um seio, uma perna, um naco de bunda, dava mal-mal uma rapariga meia-boca. O jeito era encher a cara e degustar uma com o sentido no encanto da outra.
Amansadas as necessidades, saíram para tomar uma gelada e arrumar um carteado barato num lugar mais arejado.
No caminhar, contornaram a Praça de Esportes, passaram pelo mercado antigo, subiram a Cel Joaquim Costa apreciando as lojas, reparando as desorganizadas bancas de vendas, até depararem um boteco onde havia banca de jogo do bicho.
- Zé, vamos fazer um fezinha? provocou Guaraná.
- Sei não, num sou chegado nesses viciozinhos, não.
- Que isso, Zé Mutamba, fala um bicho qualquer aí.
- Bem, pensando ní muié, só mesmo jogando em brabuleta: 16.
- Pois tá aí, muié pra mim é cobra: 33. Cinco contos no milhar 1633. E pra arregaçar, vai mais 20 contos no duque das dezenas 16 e 33 do primeiro ao quinto.
- Cê tá doido, Guaraná, cê vai jogar fora 25 contos nessa besteira? É dinheiro pra a gente ficar bêbado o dia intirim!
- Besteira, qual o quê? Nós vamos é ficar rico, Mutamba. O duque paga 200 vezes e o milhar muito mais. Hoje é quarta-feira, não tem mutreta. É pela Federal. Quando sair o resultado, nós só vamos beber é scotch e luxar na casa de Tiana. Lá, tudo de comer é de primeira! Gargalhou...
- Antes, nós vamos pro Seu Edson quebrar mais uma e daqui a pouco a gente volta para pegar a grana, tá?
No bar do pai do Baixim, praça dr. Carlos, tomaram todas e mais algumas. Saíram mamados, esbarrando um no outro, mas Guaraná, com a pule fechada na mão, não esqueceu o jogo do bicho.
Pois não é que deu o duque das dezenas 16 e 33. Muié pru riba de muié:

1º 7133 09 Cobra
2º 6069 18 Porco
3º 1716 04 Borboleta
4º 4758 15 Jacaré
5º 7212 03 Burro

Guaraná ganhou. A dupla empapuçou.
Os dois receberam a bolada. Uma em cima da outra. Nota preta.
De lá mesmo, o furdunço começou. Enterraram o dente no gole. Até o tal do scotch entrou na parada. No miolo de Moccity, reviraram tudo quanto é boteco que existia. Arranjaram até uns saca-trapos pra irem atrás deles soltando foguetes e batendo palmas.
Naquela turbulência toda, um foi mijar num reservado, enquanto o outro seguiu instintivamente o rabo de uma boazuda. Acabaram em bares trocados. Se desencontraram.
Daí começou a confusa busca, um procura daqui, outro procura dali, e nada de se encontrarem. Um descia a São Francisco, o outro subia a Grão Mogol. Um rodava a praça dr Carlos, o outro se perdia na praça da Matriz. Guaraná emburacava pelo Beco da Vaca, Zé supitava na travessa Silvio Jardim. Foi um aranzel de desencontros.
Até que, lá pelas tantas, Zé Mutamba, já desiludido, descendo a cel Altino de Freitas, deparou com dois guardinhas arrastando Guaraná pelo braço.
Zé, então, perguntou: - Que é isto, gente, porque cês prenderam o hômi?
- Cê conhece? Ele é seu amigo?
- É! É gente boa!
- Boa o caralho! Este vagabundo está preso por desacato à autoridade.
- Mas por que, seu guarda, o que ele fez?
- Esse fiduma, além de estar completamente bêbado, estava fazendo arruaça no rendez-vous de dona Geralda. Quando nós pedimos para ele maneirar, ele disse, aos berros: - Não vou maneirar porra nenhuma, pois eu estou é rico e tenho dinheiro para comprar tudo e todo mundo. Disse que comprava o puteiro, o delegado, a catedral, e que comprava até nós dois!
- Ora, seu guarda, deixa de besteira. Não ligue não, Guaraná é desse jeito mesmo. Toda vez que bebe, quer comprar tudo que é porcaria que ele encontra pela frente.
Não deu outra: Foram os dois dormir no xilindró.


78114
Por Ucho Ribeiro - 9/6/2014 11:28:25
BOA VIAGEM!

Quem me contou foi Artuzim, lá de Pedra Preta.
Ele estava no ônibus, lá no ponto da Socomil, à espera de voltar pra casa, quando pintou Zé Mutamba, truviscado.
O motorista rabugento, impaciente, olhou aquela figura com desprezo.
Zé Mutamba deu uma meia volta, uma bambeada, segurou na porta do ônibus e destramelou:
- Seu motorista, esse ônibus passa nas Cabeceiras?
- Passa, grasnou o motorista. – Sobe!
- Ele passa mesmo? Perguntou de novo Zé Mutamba, com um dos pés no degrau.
- Porra, eu já disse que passa. Sobe logo que eu estou atrasado.
- Zé Mutamba soluçou, hic, aprumou-se, subiu o outro degrau, hic, deu uma olhada comprida nos passageiros, firmou no banco, hic, e quando todos pensaram que ele iria sentar, desceu novamente e voltou para a posição antecedente.
- Seu motorista, eu estou avisando, só entro no ônibus se ele passar pelas Cabeceiras.
- Não encha o saco, caralho. Ou você entra ou sai, porque eu não tô aqui pra aguentar cachaçada de bêbado, não.
- Mas eu só quero saber se ele passa nas Cabeceiras...
Mutamba botou novamente o pé direito no degrau, tentou o segundo degrau, trocou de pé, deu um passo pra frente, outro pra trás e estacou.
O motorista, puto, largou o volante e partiu pra cima de Zé: - Escute aqui, seu bosta, cê vai encher o saco de outro, ou você embarca ou desce.
- Calma, moço, eu só queria saber se ele passava nas Cabeceiras...
- Passa, porra! Eu não disse que passa.
- Mas ele vai pra onde?
- Vai pra “Puta que Pariu”, gritou o possesso motorista.
Com o berro Zé Mutamba amofinou, entrou no ônibus lotado, esbarrando em um e em outro passageiro, firmando-se nas cabeças das pessoas e foi sentar lá no fundo. Uns arreliaram dele, mas Zé nem deu bola. Acendeu um paiozo, deu uma cusparada no chão, umas baforadas e começou a cantar “A mulher do compadre Mané Peedro...”, que poucos entenderam a letra. O ônibus não chegou na Maiada e ele já estava roncando com o paiozo apagado no beiço.
Daí até as Cabeceiras foi um pulo, um sossego. Zé Mutamba só acordou porque os passageiros o cutucaram. Quando o ônibus parou no encostamento para ele descer, Zé Mutamba se pôs de pé, rompeu até o motorista, virou-se para trás e, educadamente, disparou:
- Passageiros com destino para a “Puta Que Pariu”: Boa Viagem!
Saltou.


78058
Por Ucho Ribeiro - 2/6/2014 11:09:27
CAGAÇO

Zé Maria era um frouxo, um cagão. Morria de medo de defunto, lobisomem, alma penada e tudo quanto é. Não dormia sozinho e fugia de escuridão. Tinha até o apelido de Borreira.
Esse medo derivava da infância, desde quando os mais velhos na roça, à beira do fogo, em prosa, teciam medonhos e arrepiantes casos de fantasmas e assombração. O coitado, ao assuntar, trêmulo, tinha que se segurar pra não mijar nas calças.
Os ditos amigos viviam dando sustos no infeliz. Ora o acordavam com lençóis brancos e máscaras apavorantes, ora assobiavam ao redor da sua casa, unhando a porta.
Era medroso, mas prestativo, sem preguiça. Levava recados e embrulhos pra tudo quanto é canto. Na cidade, beirava os pontos dos fazendeiros, só no desejo de servir e cumprir ordens. Como era motorista cuidadoso, volta e meia era lembrado para levar uma vacina, um recado.
Foi daí que aconteceu o caso.
À-toa, bestando na praça Dr. Carlos, na Leiteria Celeste, Zé Maria foi convocado às pressas, no começo da noite, pra levar uns remédios pra um enfermo lá pras bandas das Contendas. Missão urgente e de responsabilidade graúda.
Viajar à noite não era do seu agrado. Perguntou se não podia sair cedinho, de madrugadinha. Nada. Tinha que partir de imediato, logo após a manipulação dos medicamentos.
Como não tinha como negar o pedido, saiu à caça de um companheiro de viagem. Foi ao posto de gasolina, não achou uma viva alma, passou nos botecos conhecidos e não arrumou ninguém para acompanhá-lo. O jeito foi partir já quase oito horas da noite, ressabiado.
Ao pegar a estrada de terra, fingiu que não estava com medo. Cantarolou, assobiou, se esquivou dos pensamentos arrepiantes. Volta e meia vinha à cachola um temorzinho, um pavorzinho, e Zé Maria tentava pensar noutras coisas: no forró do Rio Seco ou nas meninas de Zé Coco.
Depois dos Veados, hoje Nova Esperança, a lua saiu e Zé Maria lamentavelmente lembrou que mais à frente iria passar pelo mal-assombrado local do acidente da jardineira do Expresso Santana com o caminhão de pinga Claudionor.
Aí, pronto, o cagaço veio, num crescente, à medida que relembrava os fatos. O acidente ocorreu no comecinho de 1970, em janeiro, numa curva, onde logo após se avistava Mirabela. Morreram 23 pessoas, a maioria carbonizada, irreconhecíveis. Alguns passageiros nunca foram identificados, pois até os documentos se queimaram. O motorista do caminhão fugiu, escafedeu-se. Só se apresentou dias mais tarde, derruído, arrasado. Já o motorista da jardineira foi um santo, mesmo gravemente ferido ajudou a salvar nove pessoas, vindo a falecer mais tarde no hospital Pio XII em Montes Claros.
No pânico, Borreira desabafou: - Cruz Credo! Vale-me Nossa Senhora do Perpétuo Socorro! Logo eu que joguei no bicho as dezenas da placa 89 69 23 da jardineira e ganhei. Desconjure! Perdoe-me, meu Deus!
Daí em diante, foi uma tremedeira só, que aumentava à medida que chegava perto do local do acidente. E o pior é que o intenso tremor pelo corpo inteiro se findava no pé que apertava o acelerador num ritmo inconsequente. O jeep ia aos solavancos no compasso dos trancos e arrancos de Borreira.
Passava das 11 da noite, o pedaço de lua empinava no céu, quando entrou na tão sombria curva, onde no alto foi erguida uma pequena capela pelas vítimas do acidente. Aí, não teve jeito, entre bufas e tremores, o medo de Borreira tomou conta e deixou o carro morrer.
Bateu a chave, nada. Bateu de novo e só um ré-rém rém fraquinho. Pronto, era o fim, estava entregue às almas do outro mundo. E elas viriam tomar satisfação da sua jogatina com a desgraça dos outros. – Oh, Meu Deus do Céu, me acode! Eu devolvo o dinheiro! Juro que doarei tudim pros parentes das vítimas do acidente.
Nada. Não se ouvia nada. Só havia silêncio, frio e o breu abrandado pelo pedaço da lua.
Minutos se passaram, até que surgiu do canto da estrada um cachorro grande, preto, imenso, estranhamente de orelhas brancas. Alvíssimas. Veio em direção do carro, parou, levantou serenamente suas patas dianteiras e as colocou no para-lama do lado do motorista. Deu uma cafungada, como se tivesse cheirando algo no motor, olhou para o cagão do Borreira, e perguntou: - Qual o problema?
Estatelado, sem voz, sem saber se o que estava vendo era um cachorro ou um lobisomem, grunhiu fino: - O jeep encrencou e não quer pegar.
O cachorrão, então, ordenou rouco: - Sai do carro e levanta o capô.
Borreira, submisso, mudo, atendeu na maior ligeireza.
- Abre o distribuidor, tira o platinado e o esfregue no para-choque do jeep. Lixa a ponta e coloque de volta no lugar.
Borreira, amedrontado, fez direitinho, conforme mandado.
- Agora, fecha o capô, entre no carro e bata a chave. Veja se o jeep pega.
Mais que depressa, Borreira entrou no carro, virou a chave e vrummm... o motor pegou.
No terror que estava, nem agradeceu ao cachorrão. Sentou o pé no acelerador e saiu jogando cascalho pra tudo quanto é lado. Nunca correu tanto na vida. Não sabe nem como fez as curvas até chegar à Mirabela.
Entrou a mil na cidade, freando bruscamente na porta do único buteco aberto àquela hora.
O dono que estava fechando o bar se assustou com aquele estouvamento e perguntou: - Que é isso companheiro, parece que você viu assombração?
Borreira, com voz fina de mulher, desabafou: - Seu moço, seu moço, sabe aquela curva do acidente do caminhão de cachaça com o ônibus? Pois foi lá que o meu jeep quebrou. Eu estava sozinho, no desespero, a rezar pro mode de alguém me socorrer. E não é que por milagre ou assombração surgiu um cachorrão preto e me mandou lixar o platinado e o carro pegou.
Nisso o dono do bar, dando-lhe um copo d’água, perguntou: - um cachorrão desmedido, preto, de orelhas brancas?
Borreira, balançando a cabeça, confirmou: esse mesmo, esse mesmo!
O butequeiro, então, arrematou: - É, rapaz, cê teve uma sorte danada!
- Por que, por quê?
- Porque aquele cachorro é um enganador. Um palpiteiro! Ele não entende porra nenhuma de mecânica.


78041
Por Ucho Ribeiro - 30/5/2014 15:06:00
O TIC-TAC DA COPA.

A Copa está chegando e o povo está frio, cabreiro.
Os canais de TV bombam para criar um clima de euforia, de vamos lá!
E o brasileiro? Continua desconfiado.
Os meios de comunicação torcem para que o Brasil chegue a final, custe o que custar. Carecem deste mês de euforia, para faturarem. Afinal, precisam pagar as cotas de transmissão, os investimentos e ter um bom lucro. Mas os torcedores matreiros ainda estão com as bandeiras enroladas.
Dona Dilma e seu staff torcem pela vitória, pois o hexa anestesiará os escândalos e os vexames do seu governo.
O palco e os estádios estão prontos ou quase prontos. A segurança redobrada e a borracha dos cassetetes de molho, a espreita de qualquer tumulto. As eleições se avizinham. Os debates e as manifestações tendem a se aquecer. Existe o risco de torcedor e eleitor se confundirem. O campo de batalha poderá ser um só.
Como em futebol tudo pode acontecer, embora não seja o meu desejo, imaginem se o Brasil tropeçar na fase de grupos?
Suponhamos que nossa seleção perca o primeiro jogo para a Croácia e empate o segundo com o México, ou vice-versa. O tic-tac de espera até o terceiro jogo será deveras tenso. O pavio estará aceso.
O Brasil precisará ganhar do Marrocos a qualquer custo e talvez com muitos gols. Caso contrário, acabou a Copa.
Se formos desclassificados na 1ª fase, a turba tomará as ruas, mesmo debaixo dos cassetetes. Os jogos restantes serão um deus-nos-acuda.
Ajuízo que o Joseph Blatter e o Marin já refletiram sobre esta possibilidade e devem ter alguma carta na manga. Talvez, precavidos, já arranjaram um juiz do tipo Renan Calheiros para salvar a Copa.
Que este pavio não acenda!


76875
Por Ucho Ribeiro - 23/1/2014 15:55:30
O INFERNO DOS PRESÍDIOS.
Estou cansado deste lero-lero sobre as reformas dos presídios. Sempre a mesma estória, logo após um motim a imprensa cai de pau e mostra o descalabro das masmorras brasileiras. Passado o escândalo o assunto sai de cena até surgir outra rebelião.
As prisões para encarcerar o povo brasileiro sempre foram medonhas, superlotadas - o próprio inferno. Porém, existe prisão diferente para os bacanas, para os colarinhos brancos, para os políticos. Uma lei especial concede um cárcere diferenciado para os corruptos letrados, graduados, do porte dos protagonistas do mensalão. Duas leis, duas medidas, duas cadeias.
O único jeito de passar o rodo nisso é, primeiro, ter uma lei só valendo pra todo mundo. Segundo, é garantir que todos, indistintamente, que mijarem fora do pinico irão preso e, terceiro, deixar claro que todo mundo que for preso vai ser encarcerado na mesma cadeia. Zé Dirceu com Escadinha; Zé Genoíno com um Pé de Chinelo.
Se os políticos corruptos, os ladrões abastados e os membros podres do judiciário fossem presos, e fossem enjaulados nas mesmas celas dos ladrões de galinhas e traficantes, esses privilegiados almofadinhas iriam dar seus pulos e arrumariam rapidinho dinheiro para reformar todo o sistema prisional brasileiro. Presídios “a la primeiro mundo”.
Mas, enquanto houver dois Brasis, o dos que mandam e fazem leis, mas não vão presos, e o dos que obedecem e vão para cadeia se pisarem na bola, a enfadonha ladainha sobre a calamidade do sistema presidiário permanecerá.
A verdade é que as poderosas e privilegiadas aves de rapina não querem mudar as nossas vergonhosas leis, com medo de serem encarcerados nos aterrorizantes presídios brasileiros.


76729
Por Ucho Ribeiro - 4/1/2014 14:53:03
UM RAYU EM MINHA VIDA.

Quando menino, Christoff era espevitado, expresso, curioso. Tinha todos os brinquedos, alguns inimagináveis, irreais até em nossos sonhos.
Sua flash presença enchia por completo a família, o colégio, o ambiente. Carisma em pessoa.
A meninada torpe estancava com tantas e mirabolantes idéias. Miragens para nosotros, terra firme para ele. Descobertas antevistas.
Invejava sua coragem adulta, sua certeza indubitável, lógica. O que era dois mais dois para ele, para o resto da turma boquiaberta, mediana, era uma um devaneio.
Dono do mundo, sem empáfia ou prosa. Simplesmente veio a passeio para desfrutá-lo, sem culpas e freios, até o osso.
Tinha hobies só seus e gosto refinado para arte, música e velocidade. Pisava fundo em seus veículos envenenados e remexidos. Sua alegria era turbinada por motores e carenagens transformados pela sua ousada autoria. Passava horas a elucubrar designs, a acelerar suas máquinas, a desenhar e rascunhar com sua farta imaginação.
Certos dias, afoito, batia a vida no liquidificador e bebia num gole só, noutros saboreava a noite gota a gota, gole a gole. Bastava ter uma companhia amiga, uma comunhão de alma ou uma comemoração que o amanhecer era certo.
O usual era cozinhar no próprio caldo. Borbulhava-se. Adorava ser o híbrido Rayu. Dadivoso. Fleumático, sem ser narciso.
Gostava de ficar só, a tramar, divertir, projetar, viajar, dar asas a sua privilegiada cachola. Se satisfazia. Feliz, amiúde.
Era sempre Rayu. Único, inteiro, pleno e iluminado.
Generoso, quase um pródigo para os mais próximos. Nunca despedi do primo sem ser presenteado com um mimo, um quadro, um incentivo, um toque, uma luz.
Jamais borocochou numa conversa, debreou ou jogou a toalha numa aventura. Despejava ânimos ou dava pitos quando vacilávamos.
Cagava e andava para boatos, disse-me-disses, fofocas. Ignorava a mediocridade, evitava os baba-ovos, a turbe ignara.
Vivia a vida sem horários, regulamentos, agendas e não dava satisfação a seu ninguém.
Degustava e flainava como um dandi. Livre, leve e louco.
Nas madrugadas, na mais pura intimidade, revelava-se apaixonado pelos filhos e o mais orgulhoso pai. Nikita e Ian eram suas pedras preciosas. Amava-os no silêncio e discrição.

Rayu Ribeiro Christoff, a inteligência e delicadeza mais bruta e amorosa que conheci, se foi. Escafedeu-se. Está a plainar sobre nós. Soberano, com toda a sua fleuma. Sinto-me desamparado, sem poita, uma lágrima só, num oceano enxuto e árido.
Rayu, meu primo, meu amigo, meu irmão, minha luz!
Vá em Paz!
Te beijo de longe, de onde sempre quis te trazer e não consegui, mas que será a partir de agora nosso lugar de encontro.
Ucho.
Rio Preto. 03/01/14


76504
Por Ucho Ribeiro - 22/11/2013 11:37:13
O mau cheiro insuportável empesta há muito os bairros Santos Reis, Jardim Brasil, Renascença, Edgar Pereira, Alice Maia. Infecta inclusive o Todos Santos II, passa pela Nova Morada e vai até o Eldorado. Catinga das mais fedorentas. E isto já tem anos e mais anos. Fedentina generalizada.
A Secretaria do Meio Ambiente sempre se silenciou. Mouca e muda. A Copasa por sua vez, ignora o esperneio e a gritaria da população. Continua calada, omissa, e não se defende quando a sua Estação de Tratamento de Esgoto é acusada de emitir o putrefato cheiro.
Uns culpam a ETE, outros acusam as descargas residuais das fábricas do distrito industrial, emitidas na calada da noite ou nos finais de semana, quando não há fiscalização ambiental. Se é que existe?
A Secretaria de Meio Ambiente deveria se manifestar de forma clara, objetiva e informar categoricamente de onde vem o fedor. Declarar se já aplicou alguma multa ou se já estabeleceu prazo para findar o mau cheiro.
Quais foram as efetivas medidas adotadas pela prefeitura para sanear este terrível fedor?


76466
Por Ucho Ribeiro - 14/11/2013 11:47:45
Bom senso futebol clube. Quarta feira histórica. Ontem, antes do Cruzeiro sagrar-se tri-campeão brasileiro, ocorreu a maior e mais representativa manifestação de protesto contra a atual situação do futebol brasileiro. A manifestação dos jogadores das 14 equipes que foram a campo, nesta quarta-feira, foi pacífica, necessária e legítima. Como os protestos de junho no país, as faixas pedindo respostas à CBF para o movimento “Bom Senso no Futebol” foram contundentes e verdadeiras. O árbitro de São Paulo e Flamengo, ao ver os atletas de braços cruzados, ameaçou punir os jogadores com cartão amarelo. Cena das mais tristes, que lembrou a ditadura. Os jogadores inteligentemente, para evitar os cartões, bateram bola amigavelmente por quase um minuto ao ser dado o início da partida. Imagem que vai percorrer e chocar o mundo. Retratará escancaradamente a nossa arcaica cartolagem e a deficiente estrutura do futebol nacional. Infelizmente, a Rede Globo continua a ignorar tais protestos e a mobilização dos jogadores dos campeonatos brasileiros das séries A, B e C. Silencia-se, por que sabe que o modelo atual das competições favorece suas transmissões e a audiência de suas novelas. A luta apenas começou. Muita água vai rolar até a Copa do Mundo. Veremos!


76424
Por Ucho Ribeiro - 6/11/2013 15:16:02
Ao reclamar da péssima qualidade da minha internet fui informado que a situação vai melhorar, pois a Anatel ampliou o limite mínimo de velocidade de banda larga. Pela nova regra da Anatel os provedores de internet de banda larga terão de entregar “no mínimo” 30% da velocidade pela qual nos cobram e, na média mensal, 70%. Uma pouca vergonha! Antes o limite mínimo era 20%. Pouca vergonha e meia! Para o ano que vem, em novembro, esses números passarão para um mínimo de 40% e uma média de 60%. O absurdo continuará! Nesse compasso lá por volta de 2020 estaremos empatando: os provedores vão nos entregar tudo pelo que pagamos estes anos todos. Mais uma aberração legitimada pelo governo. As prestadoras dos serviços deveriam devolver com multa e correção a diferença do que venderam e não entregaram.


76151
Por Ucho Ribeiro - 25/9/2013 10:50:46
DESPEDIDA

Ênio Pacífico abriu o Quintal para juntar os amigos. Era um adulo só. Pra cada um tinha um trato especial, um bajulo, um tira-gosto, um carinho e uma franciscana atenção para ouvir causos, lamentos e anedotas, mesmo que velhas. A turma chegava a partir das seis horas da tarde, mas alguns tinham ali como escritório, surgiam logo depois do almoço e atravessavam a tarde debaixo das mangueiras a bebericar e a filar a prosa boa do proprietário. Dárcio Cabeludo era um deles. Instalava-se ao lado da mesa de trabalho de Ênio e de lá mesmo despachava os serviços do seu escritório de contabilidade. Cervejinha mocada, assuntos aparentemente sérios e bicadas escondidas até às cinco e meia. Daí em diante, a gelada passava escancaradamente para cima da mesa cada vez mais aninhada de amigos.
Outro, menos assíduo, que passava pelo Quintal, era Túi, parente mais velho de Ênio, sempre duro e seco. Beirava o balcão com o olhar pidão à espera de um troco ou de uma dose. Acabava ganhando os dois. Voltava acanhado, dias depois, do mesmo jeito, calado, sem um tostão e numa vontade doida de tomar outra.
Dárcio Cabeludo era diário, inclusive nos sábados e domingos, quando chegava de manhã, por volta das dez. Sua rotina só mudava um pouco na quarta-feira, dia de reunião na Câmara Municipal, pois tinha que estar lá às sete da noite. Invariavelmente não estava com paletó e gravata e suplicava a Ênio o empréstimo da indumentária. Com o passar do tempo, o paletó e a gravata do amigo já ficavam pendidos num cabideiro à disposição do edil. Dava a hora de verear, Dárcio pegava o traje dependurado e seguia para a Câmara que ficava no mesmo passeio da Cel. Prates, a uma distância de uns cem metros. Terminada a sessão parlamentar, retornava ao Quintal para tomar a saideira e dependurava de volta as usadas peças.
Eis que um dia chegou a notícia da morte de Túi e da situação de penúria para providenciar o enterro. Ênio, parente e samaritano, tomou a frente de tudo e conseguiu fazer o funeral na Igrejinha do Rosário, bem em frente do Quintal.
O corpo começou a ser velado à tardinha por Marlene e Jacy, esposa e irmã de Ênio. Iam passar a noite acordadas, numa morosa maratona. Igreja vazia, nenhuma viva alma foi despedir de Túi.
Lá pelas 11 horas da noite, as duas cunhadas, caladas, já sem assunto, perceberam a entrada trôpega de Dárcio. Ele vinha do Quintal, após tomar a saideira. Passou, cumprimentou as comadres e dirigiu-se ao caixão. Ao avistar o corpo, balançou a cabeça e começou a resmungar: Ó não, como pode isto?
Puxou uma cadeira, sentou-se, curvou-se, pôs os dois cotovelos na borda do esquife, as mãos na testa e continuou a resmungar, a balançar a cabeça e a lamentar, sentidamente.
Jacy, então, comentou com Marlene: - Tá vendo, Nena, é por isso que ele se elege vereador. Nenhuma pessoa veio aqui despedir de Túi. Nenhuma, só o Dárcio. Ele é companheiro, solidário, amigo de todas as horas. Veja como tá comovido. Devem ter se conhecido nos bares da vida.
Marlene, sensibilizada, levantou e foi até Dárcio. Apoiou as mãos nas costas dele e tentou consolá-lo: - Ô Cabeludo foi melhor assim, Túi descansou, Deus sabe o que faz...
Dárcio, então, inconsolável, reclamou: - Este Ênio não tem jeito, é um desapegado, como pode fazer uma coisa dessas comigo? Olha pra você ver, lá se vão o paletó e a gravata.


76106
Por Ucho Ribeiro - 18/9/2013 11:34:05

Vejam esta bela história de Darcy, irmão de Marão, contada por sua grande amiga, Vera Brant, uma das pioneiras de Brasília

Histórias do Darcy

Vera Brant

Numa reunião de trabalho, almoçávamos no apartamento do Darcy: Paulo Renato, Cristovam e eu.
Durante o almoço, o Paulo Renato comentou que, quatro dias depois, num feriado, o coração dele faria um ano. Ele havia sido operado, no ano anterior.
Quando eles saíram, o Darcy comentou comigo: Acho que o Paulo Renato está querendo comemorar o primeiro aniversário do coração dele. Vamos chamá-lo para almoçar?
Concordei. Convidaremos umas vinte pessoas, o seu apartamento não comporta mais do que isso, com conforto.
Tudo combinado, fui para o meu escritório.
Mais tarde, liguei para a secretária do Paulo Renato para contar a novidade. O Darcy já havia ligado e dito que ela deveria fazer a lista de convidados e mandar para mim.
No dia seguinte, dei uma passada no apartamento dele para verificar a quantidade de pratos, copos, essas coisas. Não havia quase nada. Pratos, uns dez, copos, onze, xícaras, sete. Resultado: eu teria que levar tudo.
Mandei duas mesas de dez lugares, pratos, talheres, copos, tudo.
Quando fui ver onde colocar as mesas, verifiquei que a cortina da sala de jantar estava com uma mancha marrom, de cima a baixo, horrível. Devem ter deixado a janela aberta, molhado e manchado. Peguei uns alfinetes enormes que encontrei na gaveta, dobrei as cortinas e, pelo menos do lado de dentro, ficou razoável.
O Darcy me disse: “Filha, faça o Fernando Henrique saber que vai haver esse almoço e deixe-o à vontade para vir, ou não”.
O Fernando era presidente, na época. Liguei para a Ana Tavares e disse-lhe: “Tenho dois recados para o Fernando. Um, do Darcy, que é para informar que haverá o almoço e deixá-lo à vontade. O meu é diferente: Não deixe de vir, não, porque é um feriado, você estará desocupado, o Darcy está precisando desse carinho e o Paulo Renato merece esta homenagem”.
Vieram todos os convidados. Eram, mais ou menos, trinta pessoas. O apartamento estava todo florido e o
Darcy feliz da vida.
Lá embaixo estava cheio de jornalistas. Num determinado momento, começaram a pedir que chegassem à janela para uma foto.
O Fernando Henrique pegou o braço do Darcy e foi se dirigindo à janela dos alfinetes. Eu dei um pulo da cadeira e segurei o seu braço: Não, aí não. Ele: Por quê? Depois te conto, venha para esta outra aqui.
Foram e tiraram um monte de fotos, Fernando, Darcy e Paulo Renato. No dia seguinte, todos os jornais estamparam as fotos.
Depois, mostrei ao Fernando os estado da cortina, toda manchada, com alfinetes. Do lado de fora, através dos vidros, era visível a feiura.
O Darcy estava engraçadíssimo. Contou umas histórias malucas: Uma de suas tias havia perdido o filho e estava com os peitos cheios de leite, incomodando-a muito, doendo. Ela propôs ao Darcy chupar o leite, cuspir fora, chupar de novo. A cada chupada ela lhe pagaria tanto. O Darcy, que tinha cinco, ou seis anos, na época, ficou animado e aceitou a proposta. Fez isto várias vezes, durante vários dias. No quinto dia desistiu porque sentia enjôo e vomitava.
Anos mais tarde, quando foi conhecer a relação sexual com uma mulher, ele, todo animado, beijava a mulher, adorando aquela situação. Até que ela pediu a ele que beijasse o seu seio. Ele ficou horrorizado, vestiu a roupa e foi para casa, correndo.
Eu perguntei: Até hoje é assim?
Foi uma gargalhada geral.
Outra história: Sua bisavó paterna, Mariazinha, era viuva e tinha um amante de trinta e seis anos. Para ficar mais prático, ela casou sua filha Deolinda, de treze anos, com o amante. A Deolinda era avó do Darcy, e o amante, ele não disse o nome, era o avô.
O casal foi tendo filho, um atrás do outro, num total de oito.
Certa tarde em que a avó Deolinda voltou da missa mais cedo, viu o marido saindo do quarto da mãe, de ceroula. Tomou tanto pavor dele que nunca mais lhe dirigiu a palavra, nem falou o seu nome. Quando se referia a ele, dizia: “o homem”.
Quando o marido morreu, ela não colocou luto, nem derramou uma só lágrima.
E, quando estava à beira da morte, aos noventa anos, chamou os filhos e declarou o seu último desejo: Eu não quero ser enterrada com “o homem”.
Os jornalistas, debaixo do prédio, não estavam entendendo nada. Quando terminou o almoço, alguns subiram ao apartamento e a primeira pergunta foi: Por quê vocês riam tanto?
O Darcy: Era a Vera, contando os seus casos, as suas loucuras...........................


76069
Por Ucho Ribeiro - 11/9/2013 10:06:50
O TEMPO URGE

De todos os protestos de junho e mesmo das contestações recentes do Sete de Setembro não surgiu nenhuma nova liderança nacional ou mesmo regional.
Se existe, eu não vi, não ouvi, nem tive notícias.
Daqueles comoventes alvoroços, da patriotada efervescente, não brotou um único homem ou uma nova mulher, frutos dos ideais dos movimentos, para que possamos acreditar, alinhar e dar o nosso voto de confiança.
A população foi às ruas contra os políticos, contra a impunidade, contra a desfaçatez, contra a corrupção, mas não encontrou o seu representante nas manifestações. Não descobriu, não desvendou um novo candidato, sério, honesto, carismático, que a represente e lute pela moralização do país.
O eleitorado norte mineiro, sujeito às requentadas promessas e xaropadas eleitorais, terá de escolher entre os deputados estaduais de sempre, na sua maioria chapas brancas, aliados ao Palácio da Liberdade. Já para deputado federal, fora os inumeráveis paraquedistas, a escolha estará restrita a pouquíssimos nomes, que não enchem u`a mão. Os habituais candidatos de outras eleições estão impedidos ou nos seus ocasos. No empurra-empurra, a gata pariu uns, outros jogaram a toalha e o restante a justiça ou a morte os retirou forçosamente dos pleitos. Senão, vejamos: Wilson Cunha faleceu, Cleuber Carneiro abandonou a política, Tadeu Leite continua enfermo, Marcio Reinaldo encontra-se prefeito em Sete Lagoas, Ruy Muniz também está confinado aos afazeres e deveres municipais, Fernando Diniz findou-se, Walfrido dos Mares Guia abdicou-se das eleições proporcionais, Paulo Lopes retraiu, Warmillon está preso, Athos Avelino está impedido de candidatar, Ariosvaldo de Melo esmoreceu. Por derradeiro, o emergente Demerval de Taiobeiras foi arapucado pelo Ministério Público Federal.
Assim, para federal, restaram apenas Humberto Souto, Jairo Athayde e Saraiva. Pelo PT, o manda-chuva Virgílio Guimarães deve manter a candidatura do seu filho Gabriel e incentivar estrategicamente o lançamento de Paulo Guedes a federal, no intuito de ocupar espaços e abocanhar o espólio de votos deixado pelos ex- candidatos. Ruy Muniz, insaciável e ambicioso, ao perceber o vazio eleitoral e enxergar o universo de votos sem cabresto, poderá lançar sua esposa Raquel ao Congresso Nacional.
Enfim, o potencial de dois milhões de votos do norte de Minas é um chamariz e uma oportunidade para novas candidaturas a deputado federal, principalmente para quem apresentar uma postura séria, visível e combativa, que traduza e exalte o clamor das ruas. Para tanto, este candidato deverá alardear sua campanha, primordialmente, nas redes sociais, com a volúpia, a garra e o tesão das passeatas. Terá que despertar o imenso e inerte eleitorado cibernético e plugá-lo ávida e dedicadamente à sua empreitada eleitoral. Um exercito on line, diuturno, com a vontade e disposição de passar o rodo na politicagem, de passar o país a limpo.
Entretanto, pelo visto, deste mato não deve sair coelho, pois das agitações que balançaram o país não despontou nenhuma liderança com carisma para conduzir um processo de renovação. Onde estão os novos candidatos? Cadê a indignação da juventude, o renovar da política?
Desafortunadamente, não temos um projeto político audacioso e articulado para mudar o país, nem um braço para estender a bandeira da moralidade. Até mesmo a suposta pauta “pontual e salvadora” da presidenta para consertar e moralizar a nação foi jogada na lata de lixo. Não está mais na ordem do dia.
O certo é que o cavalo estará arriado para quem tiver verdadeiramente o discurso de oposição. Porém este pretendente tem que ser alertado da premente necessidade da sua filiação numa agremiação partidária.
É importante ter o conhecimento que uma candidatura para ser posicionada tem que primeiro seguir as determinações e as exigências da lei eleitoral. Só pode ser candidato quem for filiado a um partido político e o prazo para a filiação às próximas eleições é 03/10/2013 (art. 9º da Lei 9.504/97). Isto mesmo, quem não se filiar a uma legenda até o dia 3 de outubro deste ano não poderá ser candidato nas próximas eleições de 2014. O tempo é implacável. Hoje, faltam apenas 22 dias para o prazo final de filiação.
Donde se conclui que, nas condições atuais e devido ao exíguo prazo, será difícil surgir um candidato novo, com uma proposta de mudança, que empunhe o clamor das ruas. Na falta desta alternativa, o eleitorado com nojo dos atuais políticos anulará o seu voto ou se absterá das urnas como uma expressão de repulsa a farsa eleitoral.
Desde já prognosticamos que o voto nulo e a abstenção vão bater recordes no circo eleitoral de 2014 e que os céus e o sertão norte mineiro estarão, como nunca, cobertos de opulentos paraquedistas. A compração de voto será feroz. Viver para ver.


75910
Por Ucho Ribeiro - 8/8/2013 10:46:17
GUERRA SEM FIM

O melhor da pescaria são os preparativos. A pré-pescaria. É um mês de salvo conduto. Toda semana tem uma reunião para providenciar as tralhas. Álibi garantido para a patroa.
Normalmente os encontros se dão depois do trabalho, a partir das seis da tarde, sem hora para acabar. São detalhes, minúcias demais para combinar.
De volta à casa, de porre, a desculpa já está pronta: - Meu Bem, você precisa ver que pinga que o compadre Murilo arranjou pra a gente levar. Muito melhor que a de Ernane e a de Pedrinho. Boas também, mas num dá nem pra comparar!
A esposa só rosna: - Ruum!
Nos dias dos encontros, as ligações começam de manhã: - É hoje! Não falte, viu, fiduma!
- Olha, o Ronaldo vai também!
- Que bom! Leva aquela boa.
- Ô, fidoutra, a cascavel vai te liberar?
- A víbora pode sacudir o chocalho, pode destilar peçonha, jogar a praga que quiser, mas vou tá lá cedo, a espera de vocês.
No finalzinho da tarde, a turma começa a surgir. Cada um mais animado que o outro. Passaram a semana à procura de um regalo, de um adulo, para levar pra a viagem.
- Olha, gente, eu arranjei uma lingüiça “ispicial”, que vocês precisam ver.
- Pois eu, tô preparando uma costela, que é pra comer de joelho.
- Murilo está todo prosa com a pinga dele, mas cachaça boa, boa mesmo, vocês vão ver, é a minha. Consegui a reservada, a reservadíssima, a mocada de Beto Viriato. Tem que fazer genuflexão para prová-la.
- Deixa de papo de ex-seminarista, rapaz, nós vamos é encher os cornos de gole. Ninguém vai pra missa, não!
- Ô, os menino, o uísque eu levo. Tô com meia dúzia de Bala 12, goela larga, guardadinho. Coisa fina, de free shop.
- Druva, Durvalino, cê não precisa preocupar com a dobradinha. Passei a semana babando o ovo da minha sogra e a veia, pra me adular, tá dando um senhor trato num bucho. O paio, a calabresa e o feijão jalo, tudo novinho, já estão embalados.
- Enio, sabe aquela tequila mexicana de Jalisco? Pois vou por na roda. Você leva o sal e o limão. Porrete certo, compadre!
- Companheiro é companheiro!
- Estou levando umas revistas playboy e outras mais calientes pra a alegria de Seu João Lourenço e uma garrafa térmica de presente pra Dona Dalvina.
- Ah, já avisei na barranca do rio, para irem guardando uns peixinhos pra gente. De preferência uns molequinhos e uns dourados. Seguro morreu de velho!
- Informo aos patos do truco que o baralho eu estou levando.
- Gente, gente, e os foguetes? Os rojões?
- Quando vocês vêm com o milho, eu já vou com o fubá. Marquim e eu passamos em Mirabela e compramos na mão de João Fogueteiro 10 baterias e umas 30 caixas de 12 tiros. Aquilo lá vai virar um Vietnã, minino! Tem pipoco pra dar com pau. Januária e Itacarambi, acordai-vos!
- É, sei não? Desta vez, teremos dois pirotecnistas: Enio e Marquim. Eles são do pavio aceso.
No que outro retrucou: - E da pistola apagada!
Enio, então, lamentou: - Pô, pessoal, o bicho tá pegando, eu só vou poder ir na sexta-feira. Não vai dar para viajar com vocês na quarta. Zé do Grilo porá fogo nos meus foguetes até eu chegar.
- Xá comigo, Tio. Vou mostrar para eles o fogo das pistolas. Ui ui ui!
- As carnes do churrasco já estão reservadas no mercado. No capricho. Tudo de primeira e no jeito. Comprei até um cupim pra dar trabalho pro Gedeon.
- Surpresa! Dou o toba se alguém docês descobrir o que eu estou levando pra comer com mel.
- ...
- “Man-ga-ri-to”! Isto mesmo, mangarito! Consegui com Paulinho lá da Lagoinha. Sobremesa de lamber os beiços. De comer rezando.
- Ô, turma, a feijoada já tá encomendadíssima, pra mais de vinte, pra sobrar. Linguiça, lombo e costela defumada têm pra dar com pau, pra quatro dias. Caprichei, mano veio!
- Deixem as couves e as laranjas por minha conta. Na véspera, eu pego tudo fresquinho lá no meu sítio.
Nisso, um candidato à primeira pescaria intrometeu para dar um palpite: - Ô, pessoal, eu estou providenciando os anzóis, as varas, os carretéis, as iscas...
Quando foi interrompido por um gozador: - Porra, cara, não mude de assunto, nós estamos falando é de coisa séria, de pescaria, não vem com estas perfumarias, não, caralho! Daqui a pouco você quer levar até pijama.
A gargalhada foi geral.
Eis que Murilo interviu: - Cabe advertir aos iniciantes sobre os preceitos magnos da nossa pescaria e feijoada: Regra número 1 e fundamental: Dormir é respeitado. Quem apagar não pode ser molestado de forma alguma. Se acordado, vale tudo. Além disso, a digníssima feijoada é exageradamente calculada para durar mais que os dias previstos de pescaria. Serão aceitas turbinações complementares, caso a “furiosa” raleie, porém o Sr. Enio Pacífico está proibido de incrementá-la com peixe, frango e outras cositas mais que não descendam de cria de uma porca. Temperos serão aceitos com temperança e notório saber. Personas truviscadas, mesmo de conduta ilibada, sem profundo conhecimento culinário, estão restritos a degustar e se fartar.
- Outra coisa, devido ao usual grau alcoólico dos mestres cucas, as questões higiênicas serão ligeiramente relevadas. Ouçam bem: Apenas ligeiramente.
- Pra não ter briga, caso haja algum desentendimento entre os chefes de la cuisine, serão feitas duas ou três feijoadas apartadas. Com o compromisso verbal, em alto e bom som, de os cozinheiros não sabotarem a feijoada do concorrente. No entardecer do penúltimo dia da pescaria, haverá uma votação para escolher a melhor “furiosa”. Desde logo, já estão liberados o puxa-saquismo, a adulação escancarada e o suborno explícito para a compra do voto a favor da sua feijoada. Lembrem-se bem, vale tudo, menos sabotar a concorrente.
- Olha cambada, imploramos aos conhecidos flatulentos de plantão, por uma questão de amizade, respeito e consideração aos amigos, que se afastem de nosotros quando forem esvaziar suas forradas e constipadas tripas. Não custa dar uns dez passos adiante para liberar seus folguedos. A única exceção é quando estivermos no barco, pois, como dizia Marão: - Quem guarda pum, tem espinha!
- Ô gente, é bom avisar que está proibido parar em Lontra, porque senão Mirson Lessa apaixona de novo com a moça da folhinha da Pirelli pregada na borracharia. Da última vez, foi um upa para ele largar a loura de olhos azuis. No pau que estava, chegou a ajoelhar e implorar para a garota do cartaz acompanhá-lo à pescaria.
Antes que o papo descambasse, o Coronel Zeder, com sua voz de militar, interrogou: - Tropa, antes de tudo, é importante saber: quantos elementos, quantas viaturas?
Começou, então, a contagem, até que um gaiato sugeriu uma porrinha para definir quem seriam os motoristas. Os perdedores dirigiriam os carros.
Depois de muito papo, goles, tira-gostos e porrinha disputada, tudo ficou mais ou menos combinado, horário da partida quase definido, a distribuição do pessoal nos carros praticamente decidida, porém as tralhas, as comidas e as bebidas estavam totalmente acertadas.
Os marmanjos meninos voltaram para a casa ansiosos à espera da largada.
Dia da partida, de manhã, foi aquela alegria. O atraso certo e os esquecimentos usuais, mas o astral altíssimo.
Na saída, Aluízio Pinto ironizou: - Coitado de Enio! Ele não vai porque Mariflor não aprovou as suas companhias de pescaria.
No percurso, fora os motoristas que só deram uns biquinhos, o resto encharcou bonito. Às 8:28, deu para ouvir o primeiro “tizzz”. O som da abertura da primeira latinha. Depois, foi uma orquestra tizz, tizz, titizzz... A cerveja na caixa de gelo estava tinindo e a sede, de matar. A viagem durou o dobro. Tudo quanto é buteco na beira da estrada foi motivo para tomar uma ou duas.
Ao chegar na barranca do rio, muita coisa já estava preparada. Dona Dalvina, já tinha varrido o terreiro debaixo das seculares mangueiras, juntada a lenha para o fogão, que não iria apagar até domingo e deixado uns molequinhos no ponto de fritar. Afinal a trupe sempre chegava truviscada e com uma fome bruta.
Uns descarregaram as tralhas, Lóis e Aramis montaram o motor de popa, Marcos Pitangui e Vidal, mais precavidos, arrumaram suas barracas e Gê Novais e Getulio Fraga foram procurar velhos e experientes barranqueiros para pescar uns peixinhos, ou melhor, uns peixões, para a pescaria ser um sucesso. O velho anzol de cobre.
O trato era acertar com eles os dias de serviço à disposição e garantir a compra de tudo que eles conseguissem pescar. Isto livre, com bebida e comida de graça e à revelia.
Agasalhados mais ou menos, cerveja na mão e umas duas cangibrinas na cabeça, logo um espoletado soltou um foguete de 12 tiros para alegrar a turma ou para desafiar alguns fidumas que poderiam estar pescando perto dali. Taratá, tá-tá, tum!
Num demorou nadica de nada e a resposta veio do outro lado distante do rio: tá-rá-tá-tum!
Pedrinho logo gritou: - A guerra vai ser boa! Senta fogo aí, Curió, acaba com estes fidumaséguas.
- Quem são eles?
- Devem ser cruzeirenses.
Daí, começou: uma arriada na pinga e um pipoco: Tum! Uma cerveja aberta, outro tirambaço: Tum! Prova a tequila, um repipôco: Tum-tum-tum!
Mas, os pescadores da outra margem, rio abaixo, reagiam. Tu, turum, tum! Batalha dura.
Foi indo, foi indo, a trupe já está toda embalada, nível etílico nas alturas, papo enrolado e risadas soltas, destrameladas.
Ildeu, mais entretido na fazeção da comida, alertou: - Ô, gente, é melhor debrear nos foguetes, porque senão eles irão acabar logo, logo. Não vai dar pra amanhã e ainda tem muita pescaria. Os contras, os fidumas, parecem que estão bem municiados. Não tem pipôco que eles não retrucam.
O bando não deu ouvidos ao conselho. O tirambaço correu solto a noite toda.
No outro dia, pelo meio da manhã, Fernando Etienne, mais responsável, sugeriu: - Ô, os meninos, é melhor soltar um foguete a cada 4 cervejas. O estoque está baixando rápido demais.
E assim foi. Aberta a quarta ou quinta cerveja, olha o tirambaço. Tum- tum- tum!
De pronto, vinha a resposta: Tum-tum! Os fidumaséguas estavam bem abastecidos. O troco era instantâneo.
Os foguetes não deram pro começo da noite. E os contras conseguiram dar o ultimo tiro. Derradeiro e definitivo. Derrota fragorosa.
No porre que estavam, acabar a munição foi uma decepção. Uma verdadeira humilhação. Haviam perdido uma batalha foguetória nas barrancas do Rio São Francisco. A primeira.
Só havia um jeito de sanar aquele vexame: Ligar pra Enio, lá da Vila Florentina.
-Alô, Enio, dê seu jeito, arranque daí, hoje, pegue todo o dinheiro que conseguir e compre tudo de foguetes, rojões, bombas, o escambau a quatro. Estamos perdendo a guerra e feio!
- Mas...
- Não tem mas, nem menos. É questão de honra.
- Saia daí agora, entope o carro de munição e venha rápido, ligeiro. Se precisar de dinheiro, passa no escritório da empresa e pegue o que for necessário. Estamos esperando com o fósforo aceso. Senão o vexame vai ser horroroso. Já tem companheiro chorando de vergonha.
Nós temos ainda a sexta, o sábado e o domingo para acabar com esses carnes de pescoço. Venha logo!
Não deu outra. Enio só avisou que de noite não tinha como comprar foguetes, mas que tomaria providências. No outro dia cedinho, catou a grana disponível e entupiu o seu DKW até o teto. Saiu de casa com o xingo e o desprezo da mulher e seguiu estrada afora para salvar os amigos.
Nem teve coragem de fumar dentro do carro, com medo de ir pros ares.
Chegou no acampamento por volta do meio-dia. De longe já veio buzinando, pra animar o bando de manguaceiros. Com aquela munição toda, não tinha como perder a guerra.
Ao freiar, os amigos borrachos saquearam o carro, nem cumprimentaram o pobre do Enio. Cada um abriu uma porta do Vemaguete e pegou uma caixa de foguete, ou um rojão.
Foi aquele tiroteio, parecia o dia D, tiro que nunca viram igual. Tá-rá-tá-tá-tá!. Tum-rum-tum-tum-tum! Pôu-tá-tá!
Passado um segundo de silêncio, olha o revide: Tum-tum-tum – tá-tá!
Aí, Curió, no maior porrete, clamou: Tá vendo, Enio, os fidumaséguas estão cheio de munição. Mas agora eles vão ver o que é bom pra tosse.
Mais outra saraivada: Tum-tum-tum! Tum tum!
E o rebate, imediato: Tum! Tum!
-Puta qui pariu, num tem foguete que estes excomungados não revidam!
Aí, Enio, sóbrio, gritou: - Pára, Pára, Pára!
A turma quietou e Enio disparou: - É deste jeito, no pileque que cês tão, esta guerra vocês não ganham nunca, seus bestas. Cês não tão vendo que é o eco. O revide é o eco dos foguetes, tropa de bebuns! O troco é o eco, cambada!

Obs: Turma de pescadores: Seu Ênio, Murilo e Ronaldo Maciel, Pedrinho da Antártica, Edmilson Lessa, Wilsinho Curió, Lóis, Aramis, Marquim Ribeiro, José Aluizio e Lucas Pinto, Vidal, Fernando Etiene, Cel. Zeder, Edgar e Ernane Pereira, Marcos Pitangui, Gê Novais, Getulio Fraga. Chefes de cozinha: Durva, Gedeon e Ildeu.


75865
Por Ucho Ribeiro - 29/7/2013 15:04:18
TUTUCA

Tutuca chegou em Francisco Dumont no sábado, antes do Domingo de Ramos. Pretendia passar toda a Semana Santa na casa do seu amigo Camilo, o único médico da cidade. Mas deu com os burros nàgua, o doutor havia viajado para um congresso e esticado o feriado numa praia baiana.
Casa trancada, empregada desencontrada, sem as chaves, sem onde empoleirar, o jeito foi hospedar na pensão do Seu Rosa e Dona Teresa. Como estava completamente duro, as diárias, as refeições e o invernado gole foram pendurados. A bem da verdade, o crédito foi concedido por sua amizade com o renomado médico.
Enquanto esperava o retorno do Dr. Camilo para quitar suas contas, Tutuca valeu-se da sua simpatia e embromação. Era bom em desculpas e lorotas, quando regadas a muita cerveja e pinga curraleira. Todo “mêlete” tem o dom da simpatia.
Com o passar dos dias, Seu Rosa, incitado por Dona Teresa, sugeriu que o hóspede fizesse um acerto, pois qualquer dinheiro ajudaria pagar os fornecedores, principalmente o distribuidor da Brahma.
Tutuca, engasgado, desculpou-se alegando estar desprevenido naquele momento, embora estivesse no aguardo de uma ordem de pagamento. Todavia, por precaução e com medo do Dr. Camilo demorar, debreou na cerveja, mas não aliviou na aguardente.
Acordava amarrotado, arrumava o cabelinho que não via água há muito tempo e com poucas palavras ia direto para o bar da pensão. Tomava apenas um café preto, refugava o pão, o leite e a margarina.
No esquentar da manhã, os recém-conhecidos iam chegando e empoleirando, formando o escrete do gole, até que o mais corajoso ou o mais trêmulo solicitava a primeira, uma pequenininha para esquentar a tripa ou para curar o resfriado. Os compartes, solidários, o acompanhavam.
Daí em diante, a roda só aumentava. O pudor etílico era relevado, o riso afrouxava e a vozearia retumbava. O tema de sempre era a vida alheia, os velhos causos e o anedotário repetido. Um alegrião esfuziante. Bêbados, já se tratavam pelos apelidos, na maior intimidade: Pé de Cana, Fogo Eterno, Manguaça, Buteco, Dose Dupla, Copo Furado...
O almoço era trocado por esporádicos tira-gostos para segurar a onda. Sério mesmo era o gole fechado, o dia inteirinho. Se algum pedia algum belisca, vinha logo a gozação: “começão feroz, cachaça necas.”
Ao final da tarde, os bebuns, sorrateiros, com medo das patroas, iam escapulindo de volta para suas casas. Tutuca, já sem companhia, jantava pouquinho e se arrastava para quarto. Apagava antes da novela.
Dia seguinte, de volta à remoída rotina, gole em cima de gole, causos e piadas requentadas, gargalhadas estridentes e a conta da pensão e do bar cada vez mais alta.
No torpor, a turma desconhecia trabalho, obrigações e ignorava por completo os preparativos para a procissão do “Senhor Morto”.
Dona Teresa, coordenadora há anos do figurino da procissão, zelava, lavava e passava as roupas de todas as personagens: da tanga de Jesus Cristo às suntuosas vestes de Pôncio Pilatos.
Entretido e dedicado ao gole, Tutuca também não percebeu que a cidade silenciosa se vestia, se transformava. Ruas pintadas, janelas ornamentadas e rendadas, cruzes e santos cobertos de alfaias roxas, cavalos desarreados, tudo e todos devotados ao desfile do Santíssimo.
Na sexta-feira, Dona Teresa acordou espevitada, tinha que distribuir as roupas engomadas aos compenetrados atores. A cada entrega, alertava sobre o horário impreterível da largada, às 3 horas da tarde, na porta da Matriz. Iam subir até o posto de gasolina e desceriam a rua paralela até a casa de Sócrates Dumont, de onde retornariam à praça da igreja.
Infelizmente, Dona Teresa foi informada, de manhã, que o padeiro não poderia mais ser o São José, pois tinha viajado na véspera, às pressas, para São Paulo, devido à doença da patroa.
Deus Misericordioso, quem será o substituto, o pai de Jesus? Todos os católicos conhecidos já estavam escalados e paramentados. Pedir a um crente para ser santo, nem pensar. Cruz Credo! Tesconjuro!
Ao passar pelo boteco, encontrou a solução: Iria intimar o Tutuca, amigo do Dr. Camilo, para fazer o papel.
- Mas, Dona Teresa, eu? Nunca fiz nem pai de noiva em quadrilha, quanto mais ser logo o São José?
- Tem que ser você, Tutuca. Não tem outro. Você só precisa parar de beber até a hora da procissão. Promete?
Tutuca, no curé, parou, pensou no mico que teria de pagar, mas como negar alguma coisa à Dona Teresa? Estava na sua pensão há uma semana, bebendo, comendo e dormindo, sem um tostão para pagar a conta. E se ela o acochasse na cobrança? O jeito era capitular.
- Tá bom, Dona Teresa, a senhora me avise na hora.
- Olha, menino, procissão é coisa séria e o seu papel é dos mais importantes e destacados. Bom mesmo é você afastar da bebida. Deus castiga!
Tutuca continuou no bar, calado, figurante, sem muita potoca. Escondeu o copo na prateleira do balcão e passou a tomar suas talagadas na moita. Taludas, mas espaçadas, para não dar na vista.
Ás duas e meia, a dona da pensão, apressada, avisou-o: - Sua vestimenta está passada e engomada em cima da sua cama. Tá na hora de vesti-la. Daqui a pouquinho passo lá no quarto pra checar se está tudo direitinho.
Tutuca se levantou do banco, tonteou, segurou no balcão, firmou as pernas, tomou o resto do copo e saiu apalpando o corredor até o seu quarto. Lá chegando, deparou com aquele vestidão franciscano, esticado na cama, um cinto de corda e uma sandália trançada, à romana.
De porrete, sentou, pensou em desistir e a moleza o fez deitar para um cochilo.
Não passou minutos, Dona Teresa já chegou dando choque: - Tutuca, Tutuca, levanta, veste logo a túnica, a procissão já tá para sair: um, dois e já!
Não teve jeito, levantou, tirou a roupa, ficou de cueca, vestiu com dificuldade aquele manto marrom e logo entrou Dona Teresa para dar-lhe o arremate.
- Quieto, deixa eu dar o laço no seu cinto.
- Firma o pé para eu amarrar suas sandálias.
Tutuca só soluçava, hic-hic, não estava se agüentando em pé. Boca seca, precisava tomar mais uma. Nem que fosse uma pequetita.
Dona Teresa, aprumando-o, o pôs para fora do quarto e na saída arrancou-lhe os óculos e o relógio, dizendo: - Naquele tempo, não usavam estes trens, não!
Se já estava tudo anuviado com a bebida, imagina agora sem óculos. Tutuca estava perdidinho da silva. Trôpego e cego.
Foi guiado, a passos lentos, da pensão, que ficava numa esquina, até a quadra diagonal, mais acima, onde a Matriz sobressaia.
Chegando lá, escorou na porta da Igreja e, se não fosse o medo que tinha de Dona Teresa, teria escorregado até sentar na escadaria.
Ás 3 horas em ponto, sinos tocados, tilintados, estava a cidade inteira dividida pelos dois meio-fios da rua. Na ala da frente, São José balangandã, num porre só.
“Quando Jesus passar, quando Jesus passar,
quando Jesus passar, quero estar no meu lugar.”
No meio daquela cantoria e rezação, Tutuca balançava, galeava pro meio da rua e um menino o puxava de volta pro canto do meio-fio. Tutuca, puto, dava um coque na criança. Tropeçava de novo, o menino o aprumava. Outro coque e mais um pé na bunda do guri. E aí foi aquela rinha, um trupicão, uma puxada na saia, um tapa na cabeça da criança. O menino chorava, mas não largava, punha São José na linha. E recebia outro tabefe.
Rompido apenas um quarteirão, Dona Teresa, vestida de Ana, mãe de Nossa Senhora, largou sua posição e deu um basta naquela briga.
- Pelo amor de Deus, Tutuca, deixe de implicância, não faz isso com o menino, não. Ele é Jesus Cristim e tem de andar do ladinho do pai dele, São José!


75772
Por Ucho Ribeiro - 15/7/2013 09:02:16
MINGUTA

Minguta era o porteiro da Cooperativa. Tomava conta do portão de entrada dos carros de leite que vinham matinalmente das fazendas.
Prosa boa, respeitoso, uniformizado, bota brilhando, chapelão na cabeça. Pra todo mundo soltava um sorriso e um “Bom Dia, Patrão”, com sua voz grave.
De manhãzinha, os caminhões e as caminhonetes entravam, iam direto à rampa onde os galões de leite eram descarregados. O pessoal dirigia-se ao portão para saber das novas e para comer o delicioso pastel que Minguta trazia de casa pra vender.
Rapidinho o pastel acabava. Não dava para quem queria.
Luizão Maia era um que, por fazer rota pegando leite de outras fazendas, só chegava atrasado. Neca de pastel.
Todo dia a mesma história: - Cê guardou meu pastel, Minguta?
- Como que guardo, Seu Luiz, o povo num deixa.
Aí, o Luiz implorou: - Minguta, vê se traz mais, homem! Faz mais um pouco. Eu venho jejuado, aguando por um pastel, chego aqui e nada.
- Ô, Seu Luiz, pode deixar, amanhã eu prometo trazer o suficiente que vai dar procê.
Dito e feito.
Ao voltar do serviço, avisou a patroa pra fazer mais pasteis, bem mais.
Ela, ao ver o tamanho da empreitada, resmungou baixo, pois teria que fazer mais massa, voltar ao açougue à procura de mais carne, da mesma qualidade que ela sempre encomendava, socar mais tempero, moer a carne, abrir a massa, fechar os pastéis, acordar ainda mais cedo para fritar os malditos, pois às 5 horas em ponto Minguta pegava no trampo. Resultado, com tantos resmungos e pragas, a mulher não dormiu, nem deixou o marido dormir direito.
Minguta amanheceu grogue, encruado com a rezinga da patroa. Seguiu sonolento para os afazeres, carregando aquela cesta pesada, entupida de pastel, para matar o desejo e o apetite do menino Maia.
Lá pelas tantas, sol já quente, uns dos últimos a chegar foi o Luiz e já foi logo cobrando: - E o meu pastel, Minguta, trouxe?
_ Ó Seu Luiz, trazer até que eu trouxe, e foi muito, mas num tem pastel que dá pra este povo não. Parece que eles estavam amarrados, mortos de fome. Posso trazer cem, duzentos pastéis, que eles comem tudo, tudim. Teve até briga. Não sobrou um. Sabe duma coisa, Seu Luiz, eu vou voltar a trazer só os meus vinte, e pronto!


75736
Por Ucho Ribeiro - 9/7/2013 10:11:00
É PARA LÁ QUE EU VOU...

Sossego eu conheci no Rio Preto. Atoice atroz. Papo pro ar. Sem ter pra onde ir nem o que fazer. Bestar pelas ruas, apreciar casas, fachadas, visitar igrejas, jiboiar em águas nítidas, aquentar sol, subir ladeiras, descer o rio, desvendar becos, conversar com um, beber com outro. Admirar a paciente ferragem de uma cavalgadura. Contemplar o zelo e o gosto do seleiro ao tecer uma cabeçada. Dar ouvidos ao trino trinar dos passarinhos. Dobrar esquinas por borboletas. Seguir cachorro sem rumo. Quietar horas na venda, num banco, vendo a arte do vender e do não vender. Assuntar prosa no buteco do Girino, a beira do rio.
- Pega uma cadeira pro moço, aí, menino!
- Cê que é de Montes Claros, né?
- Sou!
- É, cada dia chega mais um por aqui.
- Vem muita gente?
- Ô se vem, cê precisa ver é no carnaval. É um furdunço só. Fica lotado.
- E onde fica este povo todo?
- Espalhado por aí. Uns ficam nas casa dos parentes, outros abarracados na praia. Moço, cê não vai acreditar, no carnaval deste ano, no domingo, eu vendi quatorze cafés com leite. “Qua-tor-ze!” É gente demais...
Contive-me na certeza que ali era um lugar pra voltar. Nem celular pegava.


75648
Por Ucho Ribeiro - 25/6/2013 13:10:44
DEODORINA

Quando menino morria de medo de assombrações, mula sem cabeça, mãe d’água, curupira, lobisomem. Tinha até medo de virar um deles, já que sou descendente do famigerado Bicho da Carneira lá de Pedra Azul.
Na Fazenda Ipueira, sem luz elétrica, as conversas, à beira do fogo antes de dormir, davam calafrios: alma penada, vampiros, fantasmas, espíritos malignos.
Atemorizados, ouvíamos até o zurro da Mula Sem Cabeça. Hoje me pergunto: como ouvir o zurro se ela não tinha cabeça? Mas que zurrava, zurrava, pois eu ouvia e tremia nas calças.
Cagaço maior era quando os mais velhos ameaçavam nos entregar para Sá Deodora. Bastava desobedecer em qualquer coisa, aprontar alguma, que logo vinha ameaça: - Só chamando Deodora para dar um jeito n`ocês.
Sá Deodora era um mulherão de metro e oitenta, forte, taluda, braços grossos, mãos grandes e ásperas. Vestia saia até as canelas, lenço na cabeça, camisas sobrepostas em trapos. De pouca ou nenhuma conversa. Monossilábica. Vivia descalça, com os calcanhares rachados. Cobra sem peçonha esmagava a cabeça com o dedão do pé.
Pegava qualquer serviço de homem: fazer cerca, roçar pasto, destocar roça, e não aceitava receber como mulher, o que era usual na época.
Na lida, não amontoava com os outros, fazia sua tarefa apartada, talvez para mostrar o rendimento do seu serviço e comia sua marmita arredada. Retomava primeiro que os outros e era a ultima a largar o trabalho.
Sua casa ficava no oposto das demais, numa grota, onde corria a ipueira ao fundo.
Havia um folclore: se algum menino enxerido fosse vê-la tomar banho à noitinha, ela capava o moleque.
Embora reservada, era prestativa. Apresentava-se para qualquer serviço. Era muito demandada para benzeções, rezas e simpatias. Curava quebrantos, mal olhados, espinhelas caídas e ventos virados.
Uma vez, a mulher do vaqueiro estava parindo e o nascimento complicou, as parteiras, sem mais saber o que fazer, clamaram a presença de Sá Deodora.
Ligeiro ela chegou arregaçando as mangas, piou os meninos, os fuxicos, mandou arredar os curiosos, lavou as mãos, benzeu-se e entrou casa a dentro em direção à parturiente.
De lá, depois de um tempo, gritou rouca: - Tá encravado, mas com ajuda do minino Jesus Cristim, vamo dá um jeito. Ôces, muié, puxam uma reza para Nossa Senhora do Parto. Os home pra não ficá com cara de besta destelham a casa e abram as cancelas pra dar passagem pra criança nascer!
Dito e feito, cancelas destrameladas, escancaradas e o telhado já pelo meio destelhado, naquela ladainha de “Virgem Santíssima, virgem antes do parto, virgem no parto e virgem depois do parto tal foi a obra do Espírito Santo que gerou em Vosso ventre o Esplendor do mundo ”, deu para ouvir o grito do moleque nascido.
Sá Deodora nem esperou direito os agradecimentos, o Deus lhe pague, lavou os braços e as mãos ensanguentados, mandou dar canja para a parida, os peitos para a criança e sumiu no escuro do quintal.
Cresci com medo de Deodora, mas, rapaz, o terror diminuiu, embora o respeito tenha continuado.
Já na universidade, nas férias do meio do ano, festa de São Pedro, eu voltei, depois de muito tempo, à fazenda.
Cheguei de tardinha, boca seca, açodado, comecei logo a tomar umas e outras à espera da habitual quadrilha e do animado forró.
Quadrilha da roça mesmo, sem falsas fantasias e toscas maquiagens. Um sanfoneiro disposto e um animador porreta animam qualquer festa. E lá tinha dois dos bons. Sinfrônio punha os oito foles para gemer até soluçar e os gritos do popular Borreira endoidavam o povo: - Animação, gente, Anavam, Anarriê, Ó o pai da noiva, É mentira! Riliava com todo mundo, menos com Sá Deodora, que ficava apartada, sentada num toco, num canto mais escuro. Quieta, mas com o pesão batendo no ritmo da música.
Finada a quadrilha, começou o acalorado forró. Todo mundo no terreiro. Poeirão no ar.
Vendo aquela cena, aquele alegrião todo e só Deodora sem dançar, imaginei a vida inteira daquela mulher, só na labuta, sem homem, sem filhos, sem diversão e contentamento.
Tomei mais umas duas, assumi coragem e falei para os que estavam do meu lado: - Vou chamar Sá Deodora para dançar!
Assustados, dispararam, uníssonos: - Cê tá é doido?
De estalo, sem vacilar, atravessei o vivaz aranzel. Parei à frente de Deodora e desfechei: - Vamo dançar, Sá?
Ela parou, pensou, deu tempo para eu achar que ia levar uma taba, olhou dentro dos meus olhos e respondeu: - Vamo!
Caminhamos para um canto com menos alvoroço, juntei ela devagar, lembrei-me do que tia Marlene tinha ensinado, quando menino, que mulher não gosta de dançar com homem com mão frouxa, firmei então aquele mulherão e caímos no forró.
Não tinha intervalo de uma música para outra. A toada era direta. E lá íamos nós cada vez mais ousados, até que numa hora eu juntei a Sá Deodora com ânimo e percebi um negócio estranho. Colei a coxa e vi o trem armado.
- Viche Maria!
Assustado, recuei e falei: - Deodora?
Ela firmou minha mão, apertou meu ombro e ruminou grosso: - Quieto, menino, vamo dançar que isto é meu “delema”.


75601
Por Ucho Ribeiro - 18/6/2013 11:11:38
O OVO DA SERPENTE

O povo está nas ruas protestando.
O movimento tem tomado corpo e está violento.
A Rede Globo já não tem como omitir, fingir que nada está acontecendo.
De ontem para hoje, os protestos estão estampados em todas as suas edições jornalísticas.
A agitação tende a piorar. A população apóia os protestos, mas condena os quebra-quebras. O governo e as polícias não sabem como controlar todos estes tumultos e rebuliços.
É perceptível que a maior parte da mobilização é feita pelas redes sociais. Uns aderem espontaneamente, outros por convite, mas cada um tem o seu motivo, sua indignação e motivação.
A paciência do povo chegou ao limite.
A população está nas ruas contra os políticos. Contra a impunidade. Contra a desfaçatez.
Não é o aumento da passagem de ônibus, não são os abusivos gastos com a Copa.
O povo está com saco cheio é com a politicagem. Com a roubalheira. Com a mentira deslavada. Está irritado com as promessas de campanha não cumpridas. Com a demagogia.
Não são os miseráveis que estão protestando contra o custo de vida, são pessoas da classe média que não toleram mais tanta dissimulação e falta de vergonha.
Os ataques e os protestos são contra as casas legislativas, contra os palácios dos executivos. Onde se empoleira grande parte das aves de rapinas.
Triste é ver os políticos entocados, com os rabos entre as pernas, borrando as calças. Sem coragem de mostrar as caras e de defenderem-se.
O protesto é um direito e algumas vezes um dever, mas temos que tomar muito cuidado, pois os vândalos, os traficantes, os demagogos, os oportunistas e os que querem ver o circo pegar fogo estão a espreita para tomar a frente das manifestações.


75570
Por Ucho Ribeiro - 11/6/2013 11:07:15
CIPRIANO
Cipriano já estava gasto. Era só pigarro. O enfisema tomando conta. Um paieiro atrás do outro, fora o rapé cafungado o dia inteiro.
Morava na roça. Passou a vida entretido nos currais e em catiras. Gostava de fazenda, bois, vacas. E de mulas, éguas, cavalos. Muito mais de mulher.
Só via gente nas rodas de folia ou quando se desentocava da sede da fazenda atrás de um rabo de saia.
Sabedor de sua valentia, do seu estopim curto, raramente saia da fazenda. Evitava tumulto, confusão. Se bebia, qualquer faísca o atiçava, ficava feroz, sanhudo, tomava partido e entregava a boiada para entrar no rolo.
Na cidade ia pouco. Pouquíssimo. Uma vez ou outra, ano sim, outro não.
Numa dessas vezes, por pretexto de velório, veio a Montes Claros, numa Semana Santa. Era para ser vapt vupt, velar o corpo, enterrar o dito cujo e... pé na estrada de volta.
Mas imprevistos ocorreram. Perdeu o carro do leite e ficou impedido de viajar, teve que pousar, a contragosto, na casa dos parentes, na Praça Coronel Ribeiro.
A sobrinha, fazendo sala, vendo da varanda uma fila imensa, perguntou: - Tio, o Senhor gosta de cinema?
Cipriano, desconfiado, tirou uma baforada e respondeu:
- Gosto! D´casca um pra mim!
A sobrinha, rindo com discrição, explicou: - Né de comer não, Tio! Tá vendo esta fila imensa aí fora é pra assistir ao filme que está passando no cinema. O Senhor deve ir. Aposto que vai gostar.
Insistiu tanto que levou o velho até a bilheteria para comprar os ingressos. Já estava na hora da sessão. Entraram.
Como era Semana Santa, a fita em cartaz era “Paixão e Vida de Cristo”. O mesmo filme era passado todo ano e o povo o via como uma obrigação religiosa.
Terminada a sessão, Cipriano saiu exultante, maravilhado. Passou a noite falando do que tinha visto, do acontecido. Demorou dormir, estava exaltado.
Na manhã seguinte, domingo, acordou cedo, tomou café e ficou ciscando, inquieto. Esperava a sessão de cinema matutina. Logo que abriu a bilheteria às 10 horas, foi o primeiro a comprar o ingresso. Entrou, sentou e ficou à espera do filme.
Dez e meia em ponto a fita começou.
Passados uns 20 minutos, olha o Cipriano saindo do cinema de volta para casa dos parentes. Nervoso, resmungando. Puto.
A sobrinha, sem entender, perguntou: - Que foi, Tio, não gostou de rever o filme?
Cipriano, então, disparou: Sabe aquele cabeludinho, aquele barbudinho de ontem, que levou uma sova danada? Que sofreu uma covardia horrorosa? Que bateram, espancaram e pregaram uma coroa de espinho em sua cabeça, sabe? Pois é, cê num acredita, tava ele lá hoje de novo todo siligristido, montado no mesmo jegue, entrando novamente naquela cidadezinha, rindo e balançando os raminhos.
Ora, eu fui lá foi pra ver a desforra, pra assistir ele vingar todas as maldades e covardias de ontem. Achei que seus companheiros iam sangrar o bofe de uma meia dúzia para dar uma lição naquela corja. Mas não, tava lá o cabeludim de novo, feliz da vida, balançando raminho, com cara de atoleimado. Aposto que vai tomar outra surra daquela pra deixar de ser besta!


75460
Por Ucho Ribeiro - 22/5/2013 10:09:32

Creio que esta foto foi tirada em um dos casarões da baixada, lá no fundo da Matriz. Onde exatamente? Quando foi batida a chapa? O time da noite estava quase completo: Dico Zuba, Mário Ribeiro, Dácio Cabeludo, Diu Colares, ...., Ruy Braga, Afrânio Temponi, João Galo, ...., ...., Zé Priquitim e Lúcio Bemquerer. Faltam 3, quem são eles? Quem está vivo, vivíssimo, além de Lucio Bemquerer?


75088
Por Ucho Ribeiro - 9/4/2013 10:02:27
Adão e Eva

Quando menino eu não entendia algumas coisas. Uma delas era Adão e Eva.
Se no início apenas existiam os dois e só depois surgiram Caim e Abel, como é que eles procriaram?
Uma vez que Caim matou Abel, restaram pai, filho e Eva, a única fêmea, para que a espécie humana se multiplicasse.
Ou Eva teve outros filhos e filhas com Adão, o que nunca foi dito, ou Caim teve que procriar com sua própria mãe, caso contrário a raça humana teria sido extinta. Acasalamentos incestuosos entre irmãos e entre mãe e filho eram e são até hoje abomináveis, inaceitáveis e geneticamente inconvenientes.
Eu, criança, não tive a audácia de expressar minhas incertezas aos irmãos do Colégio São José temendo ser um herege.
Desconfiava que tal questionamento me condenaria a escrever algumas mil linhas de “Jamais devo questionar os mistérios e a verdade das palavras de Deus”, fora as outras centenas de “Pai Nossos” que eu teria de rezar ajoelhado na capela, como castigo por tamanha blasfêmia.
Resultado, deduzi com os meus botões que Darwin é que estava certo e, desde então, aceitei tacitamente a explicação da Teoria Evolucionista.
Só mais tarde, viajando em mitologias, li que no Jardim do Éden já existia outra mulher, Lilith, e que ela já estava presente antes mesmo de Eva aparecer. Dizem que por não aceitar submeter-se a Adão foi expulsa do paraíso e transformada em serpente a fim de representar o papel de demônio tentador. Ademais, o Livro do Gênesis enuncia que o primeiro casal teve numerosos filhos. Bem, mas isto são outras histórias.
Passaram-se anos, já adulto assisti minha sogra, católica praticante e fervorosa, dar a meu filho uma “Bíblia para Crianças”, toda ilustrada, no intuito de catequizar desde cedo o seu neto.
Meu filho Otávio, então com 8 anos, adorou debruçar-se sobre aqueles desenhos e figuras bem explicativos sobre as sagradas escrituras. Passou horas viajando e matutando naquele livrão.
Dois dias depois de ter recebido o presente, sua Vó Wanda, ao encontrá-lo, perguntou: “Tavo, meu querido, gostou do livro?”
Ele, de supetão, respondeu: “Vovó, gostei, já li tudinho”.
Na verdade, ele estava dizendo que “viu” os desenhos e as ilustrações nos mínimos detalhes e não que “leu” toda a Bíblia.
“E você entendeu tudo, meu amor?”
Otávio, parou, pensou e disse: “Tudinho, tudinho, não, Vovó! O que eu não entendi mesmo foi porque Adão e Eva tinham umbigo?”
Ao que dona Wanda respondeu: “Todo mundo tem umbigo meu bem, olha aqui, eu tenho, você tem, sua mãe tem...”
Intrigado, Otávio retrucou: “Mas o umbigo não é a cicatriz do cordão umbilical?”


74988
Por Ucho Ribeiro - 1/4/2013 11:51:44

Minha Dr. Santos

2ª parte - Da D. Pedro II a Padre Augusto

O miolo do mundo era a Dr. Santos. A cidade acontecia naqueles poucos quarteirões que ligavam as praças Coronel Ribeiro a Dr. Carlos. Tudo: negócios, empréstimos, fuxicos, catiras, elogios e desacatos, sucedia e arrematava naquele corredor de lojas, casas, consultórios, bares, pensões, botecos e mercado. Havia até dois jornais que pulavam miúdo para registrar todo o burburinho que efervescia naquela veia urbana e em suas adjacências.
Os passeios sempre foram estreitos para o trança-trança. Como existia pouco movimento de carros, as pessoas utilizavam também a rua pavimentada com paralelepípedos para transitar num tumultuado e calmo ir e vir.
Era o umbigo do mundo. De lá, escapando por ruas e becos podia-se encontrar estradas que se esticavam até as distantes Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador.
A esquina da D. Pedro II era das mais badaladas. Um fervedouro. Lembro-me das algazarras nas matinês de domingo no Cine Fátima. Ficávamos na fila do ingresso ou transitando, espiando, assuntando. Quando parados, escorávamos um pé nas paredes que ladeavam os passeios, fingindo ser gente grande, maço de minister no bolso, à espera da paquera, da sorte de um flerte relâmpago com a menina dos nossos sonhos. A rapaziada mais nova, de olho na portaria do cinema, trocava revistinhas e gibis, à espreita de um vacilo do comissário. O mais ferrenho era o Gaguinho. Inflexível, barrava sem dó a medrosa molecada, amontoada, a cuspir, a se contorcer, despistando e tomando coragem para enfrentar aqueles três degraus intransponíveis à sala escura. Lá dentro, o útero seguro de diversão garantida – aventuras, romances e sonhos. Eram imagens e sons que nos deliciavam e nos transportavam para além do nosso arraial.
Recordo de Marão, radiante, ao conferir o gordo borderô e falando para o nosso tio e contador Otávio Silveira: “Titavo, Titavo, cinema é o melhor negócio do mundo! A gente vende sombra, fantasias, à vista. À vistinha! Dinheiro na frente. E as pessoas saem do cinema, felizes da vida, prenhes de emoções. Só levam sentimentos e imagens na memória. Se não gostarem da fita, falam mal do diretor e dos atores. Não têm a quem reclamar.”
Abaixo da Sorveteria e Lanchonete “A Cubana”, descendo a Dr. Santos, no mesmo passeio esquerdo, se apresentava a JB Lançamentos, onde João Batista - Lelas - todo arrumadinho, de passos curtos, lançava moda. Calça boca de sino, cinto com medalhão na altura do umbigo, camisa de manga dobrada, sapato com bico quadrado e sola alta. Na capa. Os preços da roupa, o olho da cara. Proibitivos. Os pais, munhecas, só soltavam o dinheiro do cinema para os filhos.
Entre os passantes e circulantes desocupados deparávamos com personagens diversos, como Manoel Quatrocentos. Este não era doido nem tolo, ele que nos fazia de bobo com as suas ferradas. Pequeno, pernas curtas, ombro largo, carregava um inseparável machado. Fazia alguns serviços de lenhador nos quintais das casas. Usava sempre calça e camisa de mangas compridas, coloridas, sempre limpas. Se déssemos assunto, bravatava com desdém que conheceu e se enamorou nas antigas com Sophia Loren, Brigitte Bardot e Grace Kelly. Era lento no andar, mas ligeiro no falar e infalível no bote. Certa vez, junto com outros curiosos, estava eu debaixo da marquise das Lojas Macedo, a assistir a fixação de uma placa de propaganda, quando chegou manso e sorridente o Mané Quatrocentos. De repente, esquivou-se dando um pulo para trás como se a placa estivesse caindo. Ao darmos também um salto de banda, acompanhando o seu reflexo, disparou o seu famoso e certeiro “olalaica!”. Fomos fisgados mais uma vez.
A loja de Waldir Macedo(1) era a Ricardo Eletro daqueles tempos, comercializava de tudo, bicicletas, radiolas, discos, ferros de passar, o escambau a quatro. Interessante é que a venda era feita sem pressa, educada e respeitosamente, um negócio de compadres. Não se usava cheques, nem cartões de crédito, tudo era anotado no caderninho do fiado.
Em seguida, havia a Casa Eli, sapataria espelhada, moderna, do elegante e há muito pernambucano Zumba, casado com Nívea. A loja era gerenciada pelo educado e zeloso Brivaldo, que conhecia pelo nome todos os clientes, os seus gostos e preferências. No final de uma longa escada, o apartamento onde moravam as meninas ditas como as mais bonitas de Montes Claros: Rita, Eliana e Janice(2).
Coladinho no prédio da sapataria era a residência de Levindo Dias e Nenzinha(3), que foi comprada de Antônio de Oliveira Fraga. Na minha lembrança, salvo engano, a casa tinha um muro baixo, com elementos vazados, como uns vazinhos furados, que protegiam um pequeno jardim com grama e algumas roseiras. Junto havia o escritório de advocacia de Arnaldo Benício Dias Ataíde e do saudoso Afonso Brant Maia. Pelas memórias enevoadas, por ali também havia uma casa amarela de Davis. Nos dois cômodos da frente estava o seu escritório de contabilidade e nos demais, ao fundo, as dependências da sua casa. Talvez, em tempos distintos, este lugar tenha sido também o mesmo local de trabalho dos conceituados advogados.
Tenho também recordações que registram o consultório dentário do Dr. Sebastião Moreira, casado com a paisagista Josefina Mendonça(4).
Marcante era o equipado Foto Pinto, de José Figueiredo Pinto(5), especialista nos álbuns de casamento e de família. Um verdadeiro estúdio. Exímio maquiador fotográfico, com as mãos e seus lápis afiadíssimos corrigia as feiúras do povo. Era o photoshop da época. Onde andará o valioso arquivo de fotografias e negativos do Seu Pinto, registro da nossa longínqua Montes Claros que apaga a cada dia das nossas memórias? Talvez, o ex-combatente Izar, que comprou o Foto Pinto e o manteve no mesmo lugar por algum tempo tenha este arquivo. O pessoal do Instituto Histórico de Montes Claros deveria fazer uma pesquisa para localizar essas fotos. Outro fotografo das antigas, bom de foco e detentor de um belo e copioso arquivo é o José Gonçalves de Oliveira, o famoso Zé Cabecete. Ele teve loja na rua Simeão Ribeiro e por muito tempo na rua Dom Pedro II, em frente ao Hotel Monterey. Pesquisadores de plantão, Seu José é pai da bela Luzia Magna e de Fabio Marçal, fotógrafo oficial da prefeitura. Portanto, saiam em busca deles e de suas relíquias fotográficas. Tampouco se esqueçam de pesquisar os arquivos do Foto Facela, que alguns dizem ter funcionado por algum tempo no prédio de Zumba na Dr. Santos.
Acima do Foto Pinto, no segundo andar do prédio, era o NAE – Núcleo de Assistência Empresarial, que tinha como diretor Fábio Borém Pimenta. Luiz Tadeu Leite, radialista, recém-formado em direito, cheio de ideais e sonhos, era o apressado e articulado relações públicas(6).
No verão de 1975, durante as férias, fui estagiário daquele acalorado escritório de economia e planejamento. Ficava a ler projetos e estudos econômicos da região e de Montes Claros. Vivíamos o milagre econômico e a época das verbas fáceis da Sudene. Mas eu gostava mesmo era da hora do café da tarde, pão quentinho da Padaria Santo Antônio, manteiguinha Alvorada, leite, café, muitas vezes queijo e a prosa animada, salpicada de política e futebol.
Alguns amigos me alertaram da existência, naquele passeio esquerdo, da Farmácia Real, do famoso e agitado Zé Costa(7).
Rememoro, ademais, da Casa Coelho, de fachada azul, especializada em móveis, de Gabriel Cohen, que tinha o Vicente Rocha como gerente.
Viva igualmente na minha memória era a Jóias Palladium, onde uma moça muito bonita, me fazia passar devagar pelo passeio e dar uma olhadela rápida e acanhada, a fim de filar alguma formosura. Ela causava inveja às jóias. Salvador, pai de Hebert Pezão, chegou a trabalhar lá. A loja ficava bem em frente ao Jornal de Montes Claros.
Passeio abaixo estava a padaria Santo Antônio, da família Souto, produtora da gostosura do pão alemão. Lá, comi meu primeiro pudim, depois de uma visita ao Jornal de Montes Claros. Folclórico era a figura de Adão Padeiro na sua charrete ou em sua bicicleta cargueira. Saia pela cidade, de casa em casa, a buzinar e a entregar o famoso pão ainda quentinho. A meninada encolerizava-o ao gritar: - “Viií Adão”.
Grudado à padaria, havia um beco fino de uns 10 ou mais metros, com paredes descascadas, reboco à mostra, dando passagem para um pequeno largo, com piso de brita, onde funcionava uma fabriqueta de carimbos e uma gráfica já meio ultrapassada, que produzia basicamente volantes e panfletos. Creio que lá, antes, ficava o depósito de lenha que alimentava os fornos da panificadora.
Barulhenta era a Loja Americana, de Dizinho Bessa, casado com Anilda, professora de português do Colégio Agrícola(8). Vendia de tudo, vitrolas, radiolas, rádios, discos fogões e geladeiras.
Na esquina, no final do quarteirão, chegando à Padre Augusto, pousava o prédio do Banco de Minas Gerais - BMG. No segundo andar, residia o gerente João Damásio e sua família. Posteriormente, uma nova agência do Banco Real, antigo Banco da Lavoura, instalou-se naquele ponto, com toda a sua trupe(9). De lá, temos causos prá mais de metro, só falta o José Aluízio Pinto por no papel.
Findo o quarteirão, do outro lado da rua, espelhava outro Banco, o Comércio e Indústria, do gerente Armando Costa. Eu conhecia mesmo era a família do sub-gerente, Calixto, casado com Tiana, pais de Estefânia e do encapetado Bardo. Todos, juntamente com o menino Zezinho, habitavam o apartamento localizado no segundo andar.
À noite, a curta escadaria do banco, de uns cinco degraus, se enchia de moleques pré-adolescentes. Ficávamos a jogar conversa fora, a fumar, mascar chicletes, arreliar uns aos outros e a tramar algum mal feito. Os mais velhos da gang eram Nei e Breno Aranha. Este já era dark àquela época. Os mais novos, Rayu Christoff e Bardo, não menos traquinos e imaginativos.
Subindo de volta a rua, o próximo imóvel, onde hoje há um portão de ferro, era a Agência Chevrolet, de Lourenço Santana(10), que residia no apartamento no piso de cima. Ao fundo da revendedora havia uma enorme oficina com saída para a Padre Augusto(11).
Onde atualmente está a Caixa Econômica Federal fora uma área ocupada por uma vila, um cartório e o Jornal de Montes Claros.
Passeio arriba, se estabelecia a vila onde moravam Alberto Laborne Vale, pai de Cléa Márcia, casada com Haroldo Filpi, e Altamiro Guimarães, pai de Alba, casada com Humberto Souza Lima. A família Vale era dona do cartório. Parece-me que lá também funcionou uma antiga copiadora.
Bem, mas o que me vem mais forte à lembrança é “O Jornal Monsclaro di hooooje” que era aconchegado à vila.
O jornal era um pouco recuado e a vila se prolongava. Lembro-me de uma vez que eu, menino, estava com Marão a comprar o jornal quentinho, recém rodado, quando ele mostrou-me o canto de Tuia e mais abaixo a projeção da vila num lusco-fusco cenário da lua cheia fazendo companhia à torre da Catedral. Sem entender sua admiração e demora, perguntei: “O que é, Pai?” Ele disse: “Poesia, meu filho!”
A entrada do jornal não dava para a Dr. Santos, era lateral. Antes havia o escritório de advocacia de Orestes Barbosa(12). Lembro-me dele toldado pela perfumada fumaça do seu cachimbo. Sinto o doce cheiro achocolatado.
A recepção do jornal era uma sala com pintura envelhecida, piso de tacos surrados, uma mesinha, poucas cadeiras, máquina de escrever de teclas gastas. Não me recordo de quadros nem de ninguém especificamente, a não ser do meu sempre sério padrinho Oswaldo Antunes. A redação e a gráfica ficavam do lado oposto. Trago na memória o barulho das máquinas e da montagem dos textos feita com o ajuntamento dos ferrinhos de chumbo organizados em dezenas de caixas quadradas de letrinhas. Ouço o sonoro barulho deles, quando agrupados ou descartados pelo homem que vestia as palavras. O curioso é que ele, Meira, escrevia as frases de trás pra frente.
Ao lado do jornal, num recuado, fora do alpendre, ficava uma casinha de madeira cheia de tralhas, papéis e panos. Tuia morava ali. Segundo André Antunes, filho do dono e meu colega do São José, os funcionários do jornal enchiam as paredes de madeira de fotos de mulheres bonitas em poses sensuais para época – páginas retiradas das revistas Manchete e Cruzeiro. Uma curiosidade e mistério para nós meninos.
Tuia baseava-se ali mesmo no Jornal, mas às vezes andava pela Dr. Santos, lento, curvado, mascando fumo, com uma chupeta de bebê pendurada ao pescoço. Comovia-me a história de que ele era um ex-escravo. Se falasse “Tuia é bonzinho” ele sorria, se dissesse “Tuia é feio” ele levantava a bengala como fosse bater em alguém. Quando pequenos, lá em casa, deixamos de chupar bico devido ao infalível argumento de mamãe: “Tuia pegou seu bico, só você indo lá pedir para ele”. E o medo?
“O Mais Lido” tratava de assuntos basicamente locais e regionais. Lutava veementemente pelo asfaltamento da estrada para BH, pela melhoria da energia elétrica de nossa cidade, pela industrialização da nossa região. Era um jornal atento, severo, combativo em defesa dos interesses de Montes Claros e do norte de Minas. Sob a maestria de Waldir Sena Batista, foi a escola de grandes jornalistas, que obtiveram êxito e respeito nas redações dos grandes jornais brasileiros. Para vocês terem uma idéia, entre 1960 e 1965, o JMC tinha os seguintes “focas aprendizes”: Robson Costa, Berguinho Spíndola, Flávio e Nilo Pinto, Lazinho Pimenta e Paulinho Narciso. Parece um escrete, ou não?
Na grata e finda lembrança, resta a imagem de inocentes meninos a gritarem pelas ruas o eterno “Monsclaro di hooooje.”
Acima do Jornal, do mesmo lado, onde é hoje a My House, havia um sobrado, um pequeno palacete para a época, a casa de Alpheu Gonçalves de Quadros e de Helena Prates(13). Dr. Alpheu, entre eleições e nomeações, foi três vezes escolhido prefeito de nossa terra, em 1942, 1947 e 1955. Depois, foi vice-prefeito de Toninho Rebello entre 1967 a 1970.
No mesmo passeio, subindo, havia a garagem de GG que fazia parte do grande terreno da casa de Fabiano Peres, conhecido por Cica Peres(14). Este imóvel foi subdividido em diversas lojas. Tinha o folclórico e carnavalesco Geraldino Coelho que trouxe a primeira boutique para a cidade. Depois, a Ótica Lessa do magrelo e falante Edmilson e a Loja de Walcy Macedo, pai de Fernando Peito de Aço, que vendia bicicletas.
Mais acima a Andréa Calçados de Ruy Pinto, culto e bom de papo. Leitor diário do Jornal do Brasil e atualizadíssimo com o que ocorria em Montes Claros e no mundo. Ruy faz uma imensa falta, principalmente nos papos do Café Galo.
Finalmente, a casa de esquina na Dom Pedro II, de Juca Froés, casado com Conceição Lima, irmã de Gregória de Seu Dé. Seu Juca é pai de Marina, que casou com Wandaik Wanderley.

Meus amigos, triste é passar pelo centro de Montes Claros e perceber que a nossa Rua Dr. Santos existe apenas nas nossas efêmeras e finadas memórias.

Ao cabo, minha gratidão às assistentes e essenciais memórias de André Antunes, Bartola, Carlão Meira, Haroldo Tourinho, Fabio Marçal, Luiza Magna, José Gonçalves de Oliveira, Nilo Pinto, Robson de Quadros Figueiredo e Tadeu Leite.

(1) Pai de Waldizinho, Fernando, Flaucy, Flávio, Fábio, Gera, Cláudio e Áurea.
(2) Zezinho, Toninho e Dão, meninos, completavam a família.
(3) Pais de Arnaldo, Soninha, Chicão, Aldinha, Geralda e César (Bulei).
(4) Pais de Darlan, Olavo, Aline, Adriano e Robledo, todos residentes na Avenida Francisco Sá.
(5) Casado com Kita Sá, pai da colunista social Márcia Sá e de Fernando Kita.
(6) Os outros dedicados funcionários do NAE eram: Armênio Veloso, Rocha, Jorge Ferreira, Gilson Coimbra, Carlos Alberto Maia e Adão.
(7) Casado com Dona Bernadete, pai de Luiz Fernando Costa, de Jara, Soraia e Kátia.
(8) Pais de Waldir, Patrícia e Margareth Bessa.
(9) Funcionários do Banco Real: Boyzinho, Bichara, José Aluízio Pinto, José Marques Caldeira, José Messias Castro Brito, Odair Dangelis, Dario Avelino Pereira, Alvimar e Cesário Rocha.
(10) Casado com Zelita, pai de Osmane (Binha) e Lamberto Oliveira Santana.
(11) O chefe da oficina era Dida; Pedro Aragão, o gerente da casa de peças e Barlolomeu Lincoln, o popular Bartola, era o office boy.
(12) Casado com Iede e pai de Ruy, Toninho e Maria Helena.
(13) Pais de Sônia e Suzana Quadros.
(14) Casado com Helena Froés, pai de Fabiano, Omar, Sônia, Teresinha de Bento Campos e outros.


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Por Ucho Ribeiro - 6/3/2013 10:25:20
Depois de amanhã é o Dia Internacional das Mulheres - Dia apropriado para desvelar o machismo montesclarense.
Até hoje, entra câmara, sai câmara, elegem-se novos vereadores e nenhum propõe a mudança dos nomes de dois logradouros de Montes Claros: Viúva Coronel Francisco Ribeiro e Viúva Paculdino. Uma rua no centro, ao lado do Banco do Brasil e uma avenida no Jaraguá II.
Trata-se de homenagens a duas dignas e honradas senhoras. A viúva do Coronel Francisco Ribeiro chamava-se Dona Luísa Magalhães Ribeiro e foi a principal doadora e fundadora do Orfanato Nossa Senhora do Perpétuo Socorro. A viúva Paculdino chamava-se Dona Esther Alkmim Ferreira Paculdino e pertencia a uma das mais ilustres famílias de Bocaíuva.
Entretanto, a perpetuação dos atuais nomes estampa a nossa abominável e vergonhosa macheza.
Reitero o pedido para que algum vereador ou vereadora apresente um projeto na câmara para a substituição dos nomes dos maridos pelos destas virtuosas e merecedoras mulheres.
A propósito, dois lindos nomes: Luísa e Esther.


74591
Por Ucho Ribeiro - 18/2/2013 11:07:25
Dias desses, conversando com um senhor sobre coisas da vida, fiquei encantado com tantas vivências e conhecimentos.
Insensato, acabei perguntando: - Quantos anos o senhor tem?
De pronto, respondeu: - Uns dez anos!
- Dez anos? Arguí.
Ele, então, retrucou: - Sim dez. Eu já tive 65, muito bem vividos, curtidos, findados. Agora, provavelmente só terei mais dez. Dez com saúde, tesão e disposição para vida. Pretendo vivê-los intensamente. O resto, o restolho, se vier, se eu tiver, será arrastado, suportável. Um perrengue. Tosse e dor.

E eu, quantos anos tenho?


74506
Por Ucho Ribeiro - 6/2/2013 09:42:15
Minha Dr. Santos

1ª Parte – Da D. João Pimenta a D. Pedro II.

Nas brumas dos meus mais profundos relembramentos, recordo difusamente de uma bolinha percorrendo um pequeno aclive de um alpendre. Minha visão esconsa se delineava pela posição da minha cara postada no arejado e liso chão. Com o arco do meu braço, eu lançava uma bolinha de gude pelo cimento queimado e a assistia percorrer uma ligeira curva até retornar mansa à outra mão. O movimento repetido, silencioso, ecoa-me, até hoje, quietude e segurança. Posso até confundi-lo com um sonho longínquo, mas sempre foi a minha primeira lembrança.
Depois, misturadamente, lembro-me de tantas outras infantes coisas, gentes, lugares, cantos. Mas fora do seio familiar, o que ficou forte foi a casa da minha avó. Lá tinha morangos nos canteiros, histórias, um pé de manga ubá e forno de biscoito. Encantos e desejos dos netos. Viva é a lembrança da minha mão, balizada pela da vovó, a alinhavar as primeiras letras com o bico de confeiteiro. O biscoito espremido desenhava palavras, nomes, coisas. Mágica e ofício da Mestra Fininha.
Na casa da Vovó, o acesso permitido à rua se limitava ao resumido passeio da Dom João Pimenta até a barbearia de Osmar, Bigode e Caxangá, que ocupava o cômodo geminado na esquina com a Rua Dr. Santos. O outro era o consultório do meu pai. Na verdade, duas salas, uma de espera, bastante simples, e a outra de consulta com móveis espartanos. Na parede uma cópia da clássica pintura de Samuel Luke Fildes, que registrava uma criança doente assistida por um médico e o desespero da mãe, debruçada sobre a mesa, consolada pelo pai.
Das janelas, da mureta do jardim e pelo baixo portão de Dona Fininha, eu via a subida das pias senhoras com terço à procura de missa e a descida do Sr. Eupídeo da Rocha, de chapéu, todo circunspecto, com Irene de longa saia rosa, a segui-lo. De quando em vez, Tuia passava curvado com o bastão e seu bico enrolado, e resmungava baixinho: “Tuia é bonzinho, Tuia é bonzinho”. Volta e meia, surgia o fardado Leonel, imenso, reluzente, com sua boneca e banda despejando alegria pela rua. Fazia reclames das Casas Futurista e Pernambucanas num megafone de lata. Lembro-me daquela montanha vermelha e azul, com um turbante florido na cabeça, peitos enormes, desmedidos brincos de argolas, rodopiando os braços mambembes ao som da banda de João Tintureiro. Ao chegar perto da gente, se curvava, baixando sua gigantesca cabeça, e se contorcia de novo num trezentos e sessenta. Eu não sabia se corria, chorava ou aplaudia. Ficava extasiado, estarrecido. Aquela bonecona imensa tinha os pezinhos pequenos, desproporcionais, metidos num conga surrado. Na barriga dela, na altura do umbigo, entre os botões da blusa, havia uma telinha preta, que, hoje sei, era por onde o dono do conga espiava.
A barbearia era movimentada. Tinha 3 portas, uma para Dom João Pimenta e as outras duas para a Dr. Santos, sendo que uma delas permanecia meio fechada, com a parte de baixo fixa e a banda de cima escancarada. Havia cadeiras, um banco com jornais e revistas e um outro para engraxate. Na parede, destacavam-se os espelhos em frente às poltronas dos barbeiros e dois pequenos quadros. Um da Transamazônica, com a imensidão verde riscada por uma estrada alaranjada e o outro, em contraste, exibia uma paisagem campestre européia com montanhas nevadas no horizonte. O som ambiente, além do vozerio dos clientes, provinha do amolar das navalhas “Corneta” e “Solinger” no afiador manufaturado de raiz de tamboril.
A barbearia me inseriu no mundo. Sentado nas suas cadeiras, à procura dos semanais desenhos do Amigo da Onça na revista O Cruzeiro, ficava atento aos fuxicos e burburinhos de Moc. Nas longas esperas dos repetidos cortes do meu minúsculo topete alemão, assistia e ouvia a cidade passar e conversar, ao aroma de água Velva. Assuntava palestras e bravatas de gente grande, comerciantes e fazendeiros, via o passar discreto do povo simples e a euforia de Maria Babona, Requeijão, João Doido, Galinheiro e Requebra-Que-Eu-Te-Dô-Um-Doce. Betão Ronca-Ferro e Lena Doida vieram depois.
Na minha vez, Bigode, para lhe dar altura para o corte, empoleirava-me na tábua que colocava no apoio dos braços da cadeira de barbeiro, e eu, do alto, de camarote, assistia o desfilar das pessoas, feirantes e populares e dos poucos carros que desciam a Dr. Santos. Privilegiadamente, dali, testemunhei as tropas carregadas, descendo para o antigo mercado municipal, os feirantes cobertos de fieiras de galinhas e os carrinhos de mão com hortaliças. Vi e ouvi as carroças de leite da cooperativa tocarem o insistente sino a convocar os compradores de leite com os seus alvos litros e vasilhas, presenciei o troca-troca dos cartazes dos cinemas, a chatura dos cambistas de loteria e as cornetadas dos vendedores de quebra-queixo. Mais crescido, sentado sem a tábua, observei a chegada das primeiras kombis lotação e o asfaltamento dos paralelepípedos. Senti, então, pela primeira vez, o cheiro forte do piche preto.
Abaixo da barbearia, logo depois do consultório de meu pai, havia “O Guarani”, onde se vendiam as vitaminas de abacate, de mamão e os pastéis de Vadiolando. Em frente, a pensão e o armazém do seu pai, onde viviam também, Cori e Dedé, todos de Itapetinga. Segundo Marão, Vadim, jeitoso, gostava de uma catira – comprava e vendia tudo, de revólveres a bezerros.
A morada seguinte era de Jason Teixeira, onde nasceram Lucília e Adriano, depois vendida para o Crisantino Borém. Lá, vi crescer uma ninhada de louros e ruivos meninos e meninas, todos sob o carinho de Dona Celme, depois sob o afago e a tutela de Tetese.
No mesmo passeio, descendo, morava Seu Dé e Dona Gregória, pais de Nonô, Hélio, Jason, Didi e Tone, donos da Casa 5 Irmãos, e de Terezinha, Zoca, Geralda e Dezinho. Todos finados. Quem não se recorda da bem cuidada baratinha Volks do Seu Didi?
O lar subsequente era de Seu Meira, esposo de Dona Terezinha, progenitores de Carlão, Lú, Regina e do açodado Ernani. Foi ele o primeiro menino que vi casar. Na minha infantilidade e inexperiência, rezei por Nane e para sua família recém constituída, pois não sabia que conselhos dar para aquele desatino, aquela modernidade. O domicílio fazia muro com a grande residência de João Valle Maurício. Esta tinha janelões altos, abertos para a rua mais movimentada da cidade. Lá, talvez pelo meu pequeno tamanho, o pé direito era imenso, colossal. Da ampla sala saía um corredor que distribuía quartos e cômodos. As paredes eram cobertas por quadros e apetrechos antigos, históricos. Tudo muito limpo e brilhoso, cristais e mil objetos que nós, meninos, não podíamos encostar, nem tocar. O jardim lateral da casa, com roseiras coradas e brancas, dava passagem para o quintal que tinha uma espaçosa pista de patins, local de exibição dos jovens na tentativa de impressionar as mocinhas de Dona Milene: Mânia, Nairzinha e Vitória. Liliane não existia ou era pituxinha. Ali aconteciam o melhor São João e as mais fartas festas.
Colada na moradia de Dr. Maurício, se instalou por um tempo o Diário de Montes Claros, dos honrados, sérios e comprometidos jornalistas Décio Gonçalves de Queiroz e Julio Melo Franco, que mais tarde pulou para o outro passeio da Dr. Santos. Com a mudança da gráfica o ponto ficou um bom tempo fechado, mas depois foi instalada ali a pensão da Dona Sônia. A habitação seguinte era do Loyola, médico, professor, pai de Roberto, Eunice e Maria Helena. Fefeu e Jane nasceram bem depois.
Neste mesmo passeio, o esplendor da mansão de Domingos Braga estalava, ainda mais com o Cadilac Vermelho, rabo de peixe, na garagem. O homem era famoso, tinha até revolver todinho de ouro. Pelos fuxicos que ouvi nos anteontens, o palácio teria sido comprado à vista por Luís de Paula.
Quase chegando na Dom Pedro II, recordo tristemente da Prontoclínica São Lucas, onde, em 71, rezamos imploradamente para que Telmo Machado não morresse. Foi a minha primeira sentida morte. Dói até hoje.
Ao lado da Prontoclínica, na esquina, estava a farta, variada e moderna “A Cubana”, ponto da rapaziada fumar cigarros Minister, Capri e tomar Cuba Libre. Vendia até as raras e caríssimas maçãs niqueladas embrulhadas em papeis purpúreos, cheirosos, que só nos eram oferecidas quando estávamos doentes e sem apetite. No andar de cima do edifício moravam os Deusdarás e o casal Edílson Brandão e Aparecida, pais dos pequeninos Junior, Evana, Simone, Raquel e Elbinha.
Quina oposta, em uma construção mais alta, com pequena escada na entrada, residiam Dona Joaninha Colares e seus filhos: Geraldo, Teresinha, Rosarinha, Cassimiro, João Ricardo, Ray e Fernandinho. Acima, no mesmo passeio, viviam Lezinho Lafetá, mulher, filhos e filhas. Do lado, havia um corredor utilizado para esvaziar as sessões do seu Cine Fátima. Mais tarde, veio a ser um fliperama e na sobreloja uma boate.

Em seguida, uma casa da Tia de Ernani Meira, que depois foi de Carlos Leite e Felicidade Patrocínio. Parelho, havia um domicílio que foi antiga habitação de Moreira César e depois de Luis de Paula. Posteriormente, escritório da FUNM e, mais recentemente, depósito/escritório do mesmo Luis. Grudado era o ponto para onde o Diário saltara.
Não podia me esquecer também da Pensão de Dona Docha, residência de Janete, Ivonete e Clara e, posteriormente de Dona Zélia Peres, mãe de Gilson Capeta (hoje, Gilson de Jesus), da anja Railda e de Robertinho.
Ao fundo, com um corredor de entrada, um galpão abrigava o Supermercado da Cobal e a Gráfica Orion de Laerte e Mauziur, irmãos de Nice David. Os mais antigos dizem que o salão que abrigava o supermercado fora antes o restaurante Mangueira, palco de várias festas promovidas pelo colunista Lazinho Pimenta, como suas noites do Suéter.
Não me esqueço da Pensão de Dona Duca Guimarães, mãe de Edith, Judith e de Zenith dentista. Mais tarde, a pensão transformou-se no Prontocor, fundado por Mauricinho.
Logo após, passeio acima, um corredor profundo com duas residências dos filhos de Levi Peres; coladinho ao corredor havia a pensão Montes Claros, do Seu Son, pai de Glória e de João Beatles. Arriba, a Vidraçaria Carioca de Rosenthal, pai de Dawidson Caldeira e, passo adiante, a Lavanderia Estrela, de Luis.
Pronto. Salvo alguma falha da memória, retorno-me ao já mencionado ponto de Vadim, encerrando as casas da rua Dr. Santos naquele quarteirão.
Não me recordo de trança-trança de carros e motos. Só me lembro é de uma Montes Claros calma, sossegada, de um povo sem pressa, com todo tempo do mundo para um dedo de prosa. Que saudade!
Infância cada um tem uma. Estas recordações fazem parte da minha.
Bem, eu não poderia deixar de agradecer os bons papos e o auxílio das refinadas memórias de Ernane Meira, Nilo Pinto, Haroldo Tourinho, Roberto Machado, Magna e Fábio Marçal.


74373
Por Ucho Ribeiro - 23/1/2013 11:01:45
Enchente

Há uns 20 ou mais anos, em noite de janeiro, uma tromba-dàgua inundou o bairro Todos os Santos. Disseram, à época, que o reservatório do Pai João havia rompido, não aguentara o peso da chuva. A água, ladeira abaixo, atravessou os Bois até pousar no miolo do bairro, formado pelo baixio das ruas dos santos Mateus, Marcos, Antônio, João e Paulo, perpendiculares aos logradouros das santas Bernadete, Lúcia, Maria e Luzia. Ficou tudo encharcado. Uma enorme lagoa urbana.
O lendário Dr. João Vale Maurício, morador de esquina da São João com Santa Lúcia, contava que ao acordar de madrugada e descer da cama para ir ao banheiro, assustou-se ao molhar o meio das canelas. Suas sandalinhas boiavam serelepes na piscina em que transformara a sua suíte. Alarmado com o volume e com a constância que a água subia, despertou aos gritos toda a família para baterem em retirada.
Nas primeiras horas da manhã, ele, a patroa, as filhas e a cozinheira, de pijama e camisolas, transpuseram o aguaceiro até a garagem a procura de um escape a motor, mas o carro já estava cercado e embebido de água.
No desespero para a fuga telefonou para o irmão e pescador Joválcio, que morava dois quarteirões acima, na São Pedro: - Mano, Mano, só você vindo aqui nos acudir. A água já está no meu umbigo. Pelo amor de Deus, pegue seu barco e venha nos socorrer antes que seja tarde.
Dr. Joválcio, mais que depressa, com ajuda de vizinhos apijamados, arrastou a carreta com o barco pela rua Santa Lúcia até uns poucos metros depois da São Paulo. A partir dali, tudo era água trêmula e turva.
No seco, a beira do recente lago, amontoavam-se moradores assombrados, bem como curiosos admirados com o tamanho charco.
O irmão pronto, com a mesma empolgação de quando foi campeão de natação, desceu o barco da carreta, colocou-o na água e ligou o motor de popa. Olhou à sua volta, viu uma senhora despenteada com um bebê de meses nos braços e querendo ajudar perguntou: - Ô dona, a senhora quer ir?
A mulher, sem vacilar, assentiu com a cabeça e brucutu dentro do barco. Sentou-se e agasalhou a criança.
Dr. Joválcio, todo vaidoso, embicou a embarcação pela Santa Lúcia. No quarteirão abaixo, na esquina da São João, deparou com seu irmãozinho Maurício sacudindo os braços com água pelo peito e a família toda empoleirada nas grades da casa.
Joválcio, com pressa, disparou: - Aguenta mais um pouquinho Mano, que só vou despachar esta senhora e já volto!
Aí, voltando-se para a mulher, perguntou: - Ô Dona, a senhora vai pra onde?
A distinta deu uma pausa, emudeceu e depois destramelou: - Uê, eu pensei que a gente ia era passear.


74213
Por Ucho Ribeiro - 4/1/2013 16:24:41
João Galo, João Alegria. João todo amigo. João que recebia, que adulava, que ria. Que não deixava ninguém de fora. Que dava pão e abrigo. Quintaleiro de toda hora. Que juntava e reunia. Gargalhava alto e se divertia. Generoso, dadivoso com todos ao seu redor.
Escapuliu como um passarim a procura do seu bando. Lá em cima, o contentamento está demais. Há fila para abraçá-lo e paciência eterna para ouvir os novos causos da terrinha.
João, meu padrinho.


74196
Por Ucho Ribeiro - 3/1/2013 09:33:44
EDUARDO LIMA
Goya sempre foi o pioneiro. O atirado. O aventurado. O primeiro a pegar a barca e conclamar todos a fugir da mesmice.
Nos sessenta, Colégio São José, era o furacão, a alegria, o catalizador da meninada para o novo, para as mudanças que aconteciam no mundo. Tomava frente do grêmio escolar, mobilizava os alunos, nos chacoalhava com ideias, sonhos e fantasias. Era o organizador e participante-mor das quadrilhas juninas, dos jograis, e peças de teatro.
Nunca foi plateia nem coadjuvante, sempre o protagonista. Eterno enamorado da vida e das meninas. Paixão transbordante que encantava e maravilhava todos.
Garoto foi para a ZYD7 e comandou um programa de variedades, divertido, múltiplo, com um papo novo, udigrudi, tropicálico. A garotada ficava ligada, atenta aos toques e apliques. Organizava festivais e gincanas. Agitava a cidade.
Montes Claros ficou pequena, mudou-se para BH e lá irradiou sua alegria e entusiasmo pelas alterosas. Casou-se, teve filhos, candidatou-se a deputado, casou de novo, teve mais filhos, elegeu para vereador, continuou casando e tendo filhos, foi secretário de esportes, escreveu livros, namorou seguidamente e apaixonadamente procriou mais e mais, sem nunca perder a ternura, a alegria e a disposição para a vida. Por onde andou encantou até se encantar de vez.
Ficamos nós a ter saudades... Muita, muita mesmo!
Obrigado, Goiabão!
Valeu Mermão!
Já dizia Rosa: “Todos estão loucos, neste mundo? Porque a cabeça da gente é uma só, e as coisas que há e que estão para haver são demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabeça, para o total.”


74111
Por Ucho Ribeiro - 24/12/2012 08:50:38
TREMOR E TEMOR

O terremoto nos tornou conhecidos. Agora o Brasil inteiro, quiçá o mundo, sabe que aqui nos cafundós de Montes Claros a terra treme cada dia mais forte. Volta e meia aparecemos no Jornal Nacional: o povo correndo com medo, varandas rachando, desabando e os conterrâneos, os turistas e os viajantes fugindo dos prédios, dormindo nas calçadas e dentro dos
carros.

Uns se borram, outros fanfarreiam. Todos tem uma história pra contar.

Só quem não se manifesta de forma clara e precisa são as autoridades constituídas e os institutos sismológicos nacionais. Até agora nenhum pesquisador, um renomado cientista, um geólogo especialista ou um observatório idôneo, embasado em fatos e pesquisas circunspectas, deu uma explicação cristalina, pontual e exata.

Resta-nos o achismo, o chute no escuro, o palpite infeliz.

Desde os primeiros tremores, as explicações são as mais diversas: uns dizem que os abalos sísmicos são devido a uma falha geológica situada entre o Bairro Vila Atlântica e a Serra do Mel; outros acusam as detonações realizadas pelas pedreiras; vários afiançam que são acomodações naturais de camadas no subsolo a centenas de metros de profundidade; uns poucos, mais esotéricos, defendem as válvulas de ressonância do globo terrestre; e alguns técnicos, com papo de especialistas escolados, culpam a super exploração das águas subterrâneas numa zona cárstica, bem como a pressão hidrodinâmica com aumento da lixiviação na litosfera e outras pressões.
Ultimamente, foram proclamadas até visões apoteóticas de riscos luminosos no céu na hora do derradeiro grande estrondo e tremor.

Os reais convocados a dar explicações são unânimes em apenas duas assertivas: os tremores irão continuar e teremos que nos acostumar com eles. Ou seja: se virem!

Nós, montesclarences, leigos e mortais, ficamos ao deus-dará a espera do próximo tremor. Na torcida que seja brando e passageiro.

Por outro lado, o que estarão pensando os grandes empresários, potenciais investidores? Será que arriscarão seu money numa terra sujeita a abalos sísmicos e a apagões?
Alguém empatará seu capital em construções, edificações, barragens, prédios, indústrias numa terra que sacoleja cada dia mais forte e mais frequente?

Imagine se algum grupo farmacêutico, químico, petroquímico, laboratorial, terá coragem de montar suas instalações em Montes Claros. Um tremor mais forte pode desbancar prateleiras, causar um apagão e dar prejuízos monumentais. Pode até mesmo atrasar pesquisas que vinham sendo desenvolvidas há anos.

E uma nova barragem, uma nova usina na região, será que o empreendedor, público ou privado, não terá que elaborar sofisticadas pesquisas levando em consideração os abalos? Qual serão o preço e a complexidade destas pesquisas? Quanto elas impactarão financeiramente as obras?
As promissoras usinas eólicas, então, que necessitam de precisão e firmeza, aguentariam um solavanco?
E no futuro, será que os gasodutos, oleodutos, hoje projetados, poderão passar por nossa cidade? Os seus combustíveis poderão ser armazenados aqui em Terremoc?

Imaginem uma rachadura na Usina Biodiesel de Montes Claros, localizada pertinho ou bem em cima da falha geológica existente nas proximidades do bairro Santos Reis e da Vila Atlântica. Presentemente, depois da assiduidade dos tremores, a Petrobrás montaria ou ampliaria a sua usina naquele local?
As atuais distribuidoras de petróleo (Shell, Esso, Ipiranga, Texaco...) arriscariam armazenar aqui os seus produtos?

E a Novo Nordisk, Vallé, Nestlé, com os seus laboratórios e centros de estudos estão tranquilas em ampliar seus parques industriais e de pesquisas em Montes Claros?

Decidido investir pesado no norte de Minas com base na demanda do mercado e nas facilidades logísticas da região, um empresário escolheria de estalo a nossa terrinha ou sondaria Janaúba, Bocaiuva, Pirapora para montar o seu empreendimento.

Depois de ver as cenas que já passaram na televisão, um pai estaria seguro em aconselhar ou mandar seu filho estudar em Montes Claros?

A boca pequena fala-se que a Alpargatas atrasou quatro meses o seu projeto para rever as possíveis consequências dos tremores no seu processo de produção. Quais são as preocupações e providências da nova unidade da Case New Holland?

É sabido que há filas nas imobiliárias para devolver, trocar e vender apartamentos. A procura agora é por casa, por imóveis de um só piso.

A Prefeitura, as entidades de classes, a Associação Comercial e Industrial, a Câmara de Diretores Lojistas, têm que providenciar urgentemente um estudo técnico, qualificado, fundamentado, idôneo para mostrar e tranquilizar os atuais e pretensos investidores em Montes Claros.

Cada vez que a terra treme há um enxotamento de novos investimentos.

Cada tremor é um temor.

Acordai Montes Claros para que possamos dormir em paz!


73733
Por Ucho Ribeiro - 10/12/2012 15:23:35

Carta em que Darcy Ribeiro, então senador pelo Rio, pede ao amigo Oscar Niemeyer um projeto seu para M. Claros, então governada por seu irmão Mário Ribeiro. O propósito era localizá-lo no Parque Municipal.



Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1991

​Oscar, meu irmão,

​Sai de Montes Claros há 50 anos, mas meu coração ficou lá pulsando. Quando sonho com eu menino a cidadezinha me ressurge, com o seu frescor de ilha de arvoredo no meio do carrascal Norte-mineiro. As saudades que tenho são saudades de mim, lá, naqueles idos. Montes Claros tinha então umas 3 mil almas e corpos que comiam, todos juntos, nos três dias das festas de agosto. Todos também cantavam lãnguidas serenatas nas noites de lua cheia, no alto dos morrinhos, que era um morrinho à toa, mas de onde se via a cidadeza toda, ali, aos pés, e a imensidão do céu prateado. Hoje, minha cidade se chama MOC e tem quase 300 mil habitantes, coitada. Da última vez que fui lá, fechava os olhos para ver minha Montes Claros, que, agora, só existe no meu peito.
​Meu irmão está realizando seu maior sonho na vida que era ser prefeito de MOC. E quer prefeitar bonito, deixando alguma coisa bela, que ajude todo aquele povão, sobretudo à criançada, a ter alegria de viver. Precisa ser alguma coisa recreativa, esportiva, que é o que o povo gosta mesmo. Mas deve ser, também, tanto quanto possível, educativa, cultural e até científica, para situar minha gente nesses tempos modernos tão complicados. Mário destinou uma vasta área central (4 hectares) cercada por avenidas, que são as principais vias de acesso da cidade. Ao lado há um lago de 3 hectares e um bosque ainda maior, sobrevivente das queimadas. Pode gastar lá de imediato US$ 1 milhão e outro, logo depois. Com esse parco dinheiro quer fazer mundos e fundos com um projeto Oscárico programado por mim. Ambição é o que não falta àquele meu irmão. Como sonhar não é caro, fiz funcionar minha fábrica de utopias, que se fará quando o tempo der. Tudo se centrará num casarão, de onde se veja o lago, o bosque. O casarão deverá abrigar:
​- Auditório-teatro para 250 pessoas, com telão para receber imagens através de uma antena parabólica e para projetar discos de videolaser.
​- Videoteca com arquivo de 250 videocassetes, do cinema mundial e brasileiro e 12 televisões.
​- Sonoteca com acervo de 500 horas de música computadorizada, acessível através de 60 audiofones.
​- Centro de teledifusão, como mini-estúdio, ilha de edição e emissora UHF (60 m2).
​- Biblioteca com sala para 120 leitores e setor autônomo de empréstimos.
​- Central de informática educativa, de três salas, com dois conjuntos de 15 computadores cada, capazes de atender, simultaneamente, a 60 usuários.
- Galeria de arte para exposições temporárias. No futuro se poderia pensar em um museu com acervo próprio.
​- Fora do casarão, quero um parque infantil para os pais se livrarem dos filhos, por uma hora ou duas, enquanto se divertem ou estudam.
Precisamos, também, de uma casa de festa, que a população toda use, nos fins de semana, sobretudo nos dias santos e feriados. Simplesmente, para relaxarem e se divertirem. Neste conjunto quero contar com:
​- Anfiteatro, arena, concha, acústica para 5 mil pessoas, ao ar livre, onde se revivam as antigas serenatas em todo o seu esplendor e se ouçam concertos ou participe de shows.
​- Feira de comidas para curtir a culinária da terra - paçoca, carne de sol, surubim, pequi de forma bem popular.
​- Pista de dança, para a mocidade se esbaldar.
​Como não custa nada sonhar, e é até gostoso, vamos adiante, pedindo um centro olímpico que ofereça:
​- Seis quadras esportivas polivalentes (já existentes).
​- Dois campos de pelada, com vestiários e sanitários entre eles.
​- Centro olímpico, com as prescritas pistas de correr, pular e suar, em disputas esportivas.
​O fundamental mesmo deste conjunto é um piscinão, com repuxo d’água e prainha de areia para o povo se alegrar, refrescar e lavar os olhos na beleza das novas gerações que irão surgindo. Nas quadras de secura em que o verão é medonho, a cidade toda se refrescará no piscinão.
​Tudo isto no meio de um arvoredo de mangueiras, jaqueiras, pitombeiras, abacateiros, coqueiros, cajueiros e cajazeiros, por amor à sombra fresca, às fruta e à passarinhada.
Este é o meu sonho. Ambicioso demais, talvez, para as posses da terra. Mas apenas suficiente para atender meu coração.
​Acho um absurdo pedir isso a você, sem garantia de que seja feito com toda a grandeza que poderá ter. Mas, quem sabe? Uma vez existindo o projeto, talvez consiga, depois, dinheiro para se ir completando essas maravilhas.
​Quando ouvirem falar disso vão dizer outra vez que caí num outro dos meus sonhos desvairados. Por isso até crêem que meu desejo maior é ser imperador. Ignoram, os inocentes, que não é imperador do Brasil o que quisera ser. É tão só imperador do Divino Espírito Santo, nas festa de agosto, de Montes Claros. Nunca pude ser, quando devia, porque minha mãe, professora, não podia pagar os custos da enorme festança.
​Agora me vingo, pedindo a você que crie em Montes Clan um espaço aberto, permanente, para todo menino brincar de imperador do Divino.

Obrigado, Oscar. Meu abraço
Darcy Ribeiro
Exmo. Sr. Dr. Oscar Niemeyer


73723
Por Ucho Ribeiro - 7/12/2012 09:40:19
DESDÉM

Três projetos arquitetônicos elaborados e doados a Montes Claros pelo genial Oscar Niemeyer foram absurdamente ignorados. Nenhum foi executado.

Enquanto várias cidades do mundo lutaram por um projeto de Niemeyer, Montes Claros não levou adiante nenhum dos três que ganhou de presente: o Museu de História Natural, o Centro Integrado de Educação e Formação de Professores e a Capela Ecumênica da Unimontes.

O primeiro, o projeto do Museu, foi um pedido de Simeão Ribeiro, que na ocasião era prefeito da cidade. A obra seria na forma de um caracol e contaria a história do Arraial das Formigas, desde a fundação até os dias atuais. Os esboços e as plantas provavelmente estão nos arquivos e acervos da família de Simeão.

Já o segundo, o do Centro de Educação, surgiu em 1992, devido a uma súplica de Paulo Ribeiro ao seu tio Darcy para que fizesse gestões ao Niemeyer. A obra arquitetônica seria implantada ao lado do Parque Municipal e destinada à formação e qualificação de professores. Na época, foi orçada em 2 milhões de dólares e contaria com um centro cultural e de convenções, bem como biblioteca, videoteca, multimídias, concha acústica, cinema e teatro. A secretaria de planejamento da prefeitura deve ter cópia.

Por fim, o projeto da capela no campus da Unimontes foi um presente e uma homenagem póstuma de Niemeyer a seu amigo Darcy Ribeiro, em fevereiro de 1997. A Unimontes tem/tinha tudo documentado.

Recentemente, em 2009, no começo da administração do atual prefeito, Niemeyer foi procurado para realizar e doar outro novo projeto para Montes Claros, mas parece que o grande arquiteto já estava cansado de tanto desdém.

Montes Claros lhe deve gratidão.

Montes Claros, por sua insensatez, deveria estar de luto oficial por Niemeyer.

Que os alunos e professores de arquitetura de nossas faculdades fucem e ressuscitem estes preciosos arquivos em homenagem ao grande mestre Niemeyer.

Será que ainda há tempo de repararmos tamanha ingratidão?


73508
Por Ucho Ribeiro - 14/11/2012 11:40:28
QUITES

Manhã abrasadora, irrespirável. Umidade desértica. “Monsclaro”, recortada no calor, fritava-se há dias. Éramos uma população de calangos quarando.

O povo, sem lugar, trançava pelas ruas a procura de uma sombra, de alguma brisa inexistente. Amontoava-se debaixo de árvores, marquises.

Um oásis era o prédio da Receita Federal. Ar condicionado no toco. Funcionários calados, frios no trato, entretidos nos seus serviços. Os contribuintes, embora intimidados com a atmosfera tributária, se sentiam aliviados do calor naquele gélido ambiente e nem se impacientavam com a morosa e arrastada fila. Ruim era retornar ao tormento das ruas.

Era época de entrega da declaração do imposto territorial rural – ITR.
Eu, meio atento aos serviços, vi um velhinho dirigir-se à mesa da minha colega. Pediu licença para sentar. Sentou-se. Pôs o chapéu no colo e disse: Moça, obrigado por me atender. Eu preciso resolver o meu Incra. Tá muito alto. Olha, pra senhora vê! E estendeu a notificação do imposto.

A colega, competente e burocrática, colheu o número da propriedade, digitou no computador, a tela se abriu e surgiram centenas de códigos, letras e números. Ela virou o monitor para a melhor visão do velhinho e explicou: Meu senhor, é isso mesmo, o VTN da sua propriedade rural é elevado, consequentemente a alíquota alcançou um patamar superior. A tributação está correta. E calangou a cabeça como se o atendimento houvesse terminado, já à espera do contribuinte seguinte.

O senhor, coitado, sem entender a língua daquela mulher, repetiu: Ô Dona, eu quero é baixar o meu Incra, pra eu poder pagar.
A funcionária respirou fundo, reposicionou-se na cadeira, pegou sua caneta, apontou para a tela do computador e remoeu pausado: Meu senhor, veja bem, olha aqui, a sua terra não-tributável é diminuta, não há reserva legal, muito menos área de preservação permanente averbadas. Falta a protocolização do ADA. A área tributável, a alíquota e o tributo estão corretos. Ou o senhor paga ou apresenta impugnação nos termos do Decreto 70.235.
O velhote tentou de novo: Minha senhora, é só o Incra. O do meu vizinho, tá baratinho, dá pra pagar; já o meu... nem vendendo a criação toda.

Antes que a minha colega voltasse à carga, a interrompi: Pode deixar, eu o atendo.
O senhor levantou-se, agradeceu meneando a cabeça e dirigiu-se a minha mesa. Ajeitou no colo o chapéu amarfanhado, círculo de suor na copa, e repetiu: É meu Incra, moço! Tá alto!
Eu, então, falei: Peraí, vou dar uma olhada. Entrei no sistema, digitei o seu Nirf - número da sua propriedade rural - e vagarosamente fui fuxicando os detalhes da sua declaração de ITR. Realmente, tudo se apresentava correto e o imposto era aquele mesmo, conforme a minha colega havia lhe informado. Descompromissadamente, perguntei: qual é a área da sua fazenda?
Surpreso, o velhinho respondeu: Não é fazenda não, seu moço, é uma gleba de 1 alqueire.
Estranho, nos arquivos da Receita a propriedade tinha 484 hectares. Alguma coisa estava errada.
“Bingo!” Matei a charada. Um alqueire corresponde a 4,84 hectares. A vírgula havia sido omitida no preenchimento da declaração. Ao invés de lançar 4,84 hectares, foram declarados 484 hectares. E como toda a área era tributável, o valor do ITR tornara-se elevado. Resolvido o problema. Erro de fato, simples retificação.

Passados alguns dias, finalzinho do mês, corre-corre doido, filas imensas, colegas de férias, fui convocado para o plantão fiscal vespertino, onde somos consultados, questionados, espremidos, para dar conta e explicar minúcias da copiosa legislação tributária.

Cheguei cedo, pois sabia que a tarde seria longa e cansativa.
Começou a correria, atende um, atende outro, mais outro e os assuntos se multiplicavam, os mais diversos. O que eu não sabia, pedia um tempo, pesquisava, respondia. Quando não encontrava na legislação nem no Google, solicitava o telefone do contribuinte para explicar-lhe mais tarde. Ia me safando daquele tisuname de perguntas com explicações satisfatórias.

Sempre que levantava a cabeça, na esperança de ver a fila diminuída, enxergava um senhor no fundo da sala. Quieto, calmo, sem pressa. Parecia que estava aguardando alguém. Percebi que todos passavam na sua frente e ele, impassível, com o chapéu no colo, cedia sua vez, com a aparente tranquilidade daqueles que vivem mansamente.

No cabo do dia, fila findada, encerrado o expediente, dirigi-me ao senhor: Posso ajudá-lo?
Ele, calmamente, levantou-se, olhou-me e sorriu econômico: “Bom moço, o senhor já ajudou! Dias atrás, resolveu o meu problema do Incra.

Não precisava esperar tanto para falar comigo.

Moço, o senhor é muito ocupado. Eu não queria atrapalhar o seu serviço e nossa conversa tinha que ser reservada. Agora tá na hora d’eu ajudar o senhor. Cê não tem raiva de alguém, não? Algum fidumaégua já desrespeitou o senhor, sua senhora ou algum docês?

Sem entender, arguí: Por que o senhor está perguntando isso?
Porque eu tenho um menino de criação, muito obediente, e se precisar ele fura o peste. Mas se o senhor não gostar de lambança, de sangue, o rapaz sabe mexer com fogo também, e ele apaga rapidim o excomungado. Sem rastro. Fica tudo entre nós mesmo. Serviço limpo.

Atemorizado, eu disse: Não, que é isso, pelo amor de Deus. Eu não tenho nenhuma desavença não, esquece isso.

O velhinho voltou a sorrir com um sorriso miúdo e arrematou: então tamos quites, né? Olhou no fundo dos meus olhos, baixou ligeiramente a cabeça, homologando nossa conversa, virou-se, e saiu em passo manso, desobrigado.


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Por Ucho Ribeiro - 30/10/2012 20:49:34
Eleições 2012

O burburinho se foi, ufa!
Parecia que nunca mais teríamos paz. Muito barulho, especulações, acusações e calúnias.
A Eleição 2012 ficará registrada como a eleição da mentira, do descrédito nas pesquisas. Estas, se não foram venais, foram extremamente incompetentes, pois erraram grande e repetidamente.
Torço para que a futura Lei Eleitoral proíba a divulgação de pesquisas. Quando sérias e honestas, são imprescindíveis no monitoramento interno de uma campanha, mas, quando inidôneas e subornadas, divulgadas à revelia, configuram crime eleitoral, pois confundem a população e alteram o resultado do pleito. Foi o que aconteceu aqui em Montes Claros.
Se as pesquisas publicadas no primeiro turno fossem verdadeiras, a dupla candidata no segundo turno certamente seria outra. Humberto Souto, por exemplo, que certa pesquisa dizia ter 9%, obteve 23,97% dos votos. Por pouco não foi para o 2º turno. Imaginem quantos votos deixou de levar devido às pesquisas que o colocaram como o menos votado, sem possibilidades de ir para a nova etapa da eleição... Pergunto: os institutos de pesquisas serão responsabilizados ou responderão pelo erro ou pela farsa?
Em julho, no início do páreo, os azarões eram Ruy Muniz e Paulo Guedes. A barbada era Jairo Ataíde. Paulo Guedes, a princípio, era um franco atirador, nada tinha a perder. Conseguiu, com a sua candidatura, a oportunidade de colocar os pés e o corpo dentro da maior cidade do Norte de Minas e, mais, divulgou sua imagem maciçamente durante quarenta ou mais dias para 2 milhões de eleitores no norte de Minas - público telespectador da TV Grande Minas. Ao final, foi extremamente bem sucedido, tinha 1% dos votos no começo do pleito e terminou com 43,85%, totalizando 82.478 votos. Um êxito jamais imaginado, nem por ele, nem por seus assessores, e muito menos pelos analistas políticos. Hoje, consolidou-se como uma das maiores lideranças do PT mineiro. Na cúpula da sua campanha faltou a alma de um montesclarense (sem hífen). No seu discurso faltou a fala para o não eleitor do PT e para os eleitores de Humberto e Jairo. Inocentemente, repetiu no 2º turno, em tempos de julgamento do mensalão, a ladainha do primeiro: “Dilma e Lula, Lula e Dilma”.
Ruy não foi aceito como vice de Jairo Ataíde e nem de Athos Avelino. Encurralado, mas determinado, saiu corajosamente candidato por um partido nanico, sem tempo de televisão. Ao aliar-se ao PMDB do prefeito conseguiu, à duras penas, meia dúzia de salvadores minutos para os seus programas no rádio e na televisão, o bem mais precioso numa eleição. Tal aliança, entretanto, o fez carregar um pacote completo: além do tempo de televisão, levou a tarja de candidato da situação, a rejeição do prefeito, o desgaste da administração e a situação falimentar da prefeitura. Ah,ia me esquecendo de Zé Vicente e sua gente!
Ruy, escorregadio, hábil e ágil, esquivou-se do desgaste do prefeito, mas não do seu exército caninamente fiel. Com o seu carisma e talvez com a promessa de garantir o emprego de todos, cativou e mobilizou os milhares de contratados para sua campanha. O futuro nos dirá a que preço. As repartições estiveram vazias, os funcionários, mesmo com os seus salários atrasados, foram para as ruas defender ardorosamente o leite de seus filhos para os próximos quatro anos. Em contrapartida, a militância vermelha de outras cidades ocupava a assustada Montes Claros.
Ruy, manso, de guarda baixa, aguentou a pancadaria do PT e só prometeu e se comprometeu a transformar nossa Moczinha no paraíso terrestre. Imaginem o céu que será a nossa cidade toda asfaltada, com a saúde, a educação e a segurança nota 10. Haverá de chover milagres para inundar de verbas o sofrido e pobre cofre da prefeitura.
De qualquer forma, Ruy Muniz foi um visionário e obstinado candidato, demonstrou um enorme talento para tourear tantas adversidades e agressividades.
O outro, não menos vitorioso, foi Tadeu Leite. Com a saúde fragilizada, cansado, a prefeitura em frangalhos, sem crédito e invadida pela polícia, foi trabalhando pelas bordas, calado, com seu exército cativo de donas marias e seus josés, deu uma aula de como ter e transferir votos. No jogo político, foi brilhante, garantiu sobrevivência para Tadeuzinho e a sua blindagem por Ruy Muniz.
Que todos, sem ressentimentos e em favor da nossa Montes Claros, acatem a voz das urnas!


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Por Ucho Ribeiro - 3/9/2012 11:14:35
Qual será o destino do seu voto?

No dia 7 de outubro haverá eleição. Iremos às urnas, mas a maioria não sabe em quem vai votar e muito menos quem irá eleger para vereador. Vai votar em sicrano e elegerá beltrano.
Tenho notado uma grande desinformação acerca do sistema eleitoral, em especial no que se refere ao sistema proporcional, utilizado nas eleições para vereador.
No Brasil, existem dois sistemas eleitorais: o majoritário, aplicado às eleições para os cargos de presidente da república, governador de estado e prefeitos; e o sistema proporcional, utilizado nas eleições para os cargos de deputado federal, deputado estadual e vereador.
Nas eleições municipais, em relação ao sistema majoritário, poucas dúvidas persistem para o eleitor: ganha a eleição o candidato a prefeito mais votado.
Nos municípios com mais de duzentos mil eleitores, como em Montes Claros, é possível a ocorrência de segundo turno entre os dois candidatos mais votados, caso nenhum candidato alcance, no primeiro turno, votação superior à soma dos votos dados a todos os seus adversários, excetuados aqueles brancos, nulos e as abstenções.
Entretanto, os maiores absurdos ocorrem nas chamadas “eleições proporcionais”. Nem sempre o candidato a vereador mais votado é eleito e, não raro, um candidato a vereador pouco votado conquista a vaga parlamentar.
Esse sistema proporcional é ardiloso, confuso, e a maioria das pessoas desconhece porque ele nunca foi devidamente explicado nos meios de comunicação, e nem mesmo na publicidade institucional do TSE.
Tal desconhecimento é nocivo à democracia porque ele propicia às pessoas votarem contrariamente a seus próprios interesses por não saberem qual será o destino do seu voto.
O sistema proporcional não trata os candidatos como indivíduos, mas como representantes de um grupo político. As vagas são conferidas às coligações ou aos partidos mais votados e não aos candidatos.
Para melhor entender o funcionamento do sistema eleitoral proporcional, vamos analisar a situação em nossa cidade.
No município de Montes Claros existem por volta de 246.000 eleitores. Mas, no dia 7 de outubro, devido à tradicional abstenção, apenas 200.000 pessoas devem comparecer às urnas, sendo que destas, aproximadamente 16 mil votarão branco ou anularão seu voto, totalizando, assim, em torno de 184.000 votos válidos. Como em Montes Claros estarão em disputa 23 vagas para a câmara de vereadores, quem serão os eleitos? Os eleitos serão definidos com base no “coeficiente eleitoral” que é calculado a partir da divisão do número de votos válidos, 184.000, pelo número de vagas em disputa (23 vagas). Assim, o coeficiente eleitoral estimado deverá ser de aproximadamente 8.000 votos.
Desta forma, cada partido ou coligação, ao obter o coeficiente de 8.000 votos para vereador, elegerá um candidato.
Além disso, pela lei eleitoral, somente irão participar da distribuição das vagas disponíveis os partidos que atingirem pelo menos 1/23 avos dos votos válidos, ou seja, os 8.000 votos previstos. Os partidos ou coligações que não alcançarem este patamar serão excluídos, mesmo que alguns de seus candidatos obtenham, individualmente, uma votação expressiva.
Apenas depois que for apurado o número de votos de cada partido ou coligação serão determinados os eleitos entre os candidatos de cada bloco. Somente nessa hora que entra em cena a votação de cada candidato, pois as vagas de cada bloco partidário serão preenchidas pelos candidatos mais votados dentro do seu partido ou da sua coligação.
Como as campanhas são personalistas e a maioria das pessoas vota em candidatos, cria-se a ilusão de que o voto não é dado para o partido, e sim para a pessoa. Votar em um vereador específico significa votar no seu partido ou coligação, manifestando uma preferência pelo candidato escolhido.
Lembre-se, ao votar num vereador, você primeiro estará votando num partido ou coligação, e depois apontará qual candidato deseja. Na verdade, os dois primeiros números do candidato ao serem digitados define o partido e a digitação dos três números seguintes sugerem apenas o seu desejo em eleger aquele vereador.
Por isso, antes de escolher o candidato, é preciso saber se ele faz parte de alguma coligação e conhecer quais são os candidatos mais fortes dentro do bloco partidário, os “cabeças de chave”, pois certamente estes serão os candidatos eleitos com o seu voto.
Os donos dos partidos, os sagazes políticos profissionais, ao formarem as suas chapas e coligações têm como foco a perpetuação no poder e a eleição dos seus mais próximos e fiéis correligionários. Eles raramente aceitam a filiação de candidatos com perspectivas de votos superiores aos candidatos do seu grupo político.
Assim, ao votar no candidato que desperta sua simpatia, você não pode esquecer que, dentro do sistema proporcional, o seu voto sempre irá para o partido e provavelmente contribuirá para eleição de um velha raposa política, a não ser que esse seu candidato tenha verdadeiras chances de estar entre os mais votados do partido.
O pior é votar convicto em um candidato a vereador, por ser ele honesto, trabalhador, incorruptível e seu voto ser somado no balaio de uma legenda e coligação que irá eleger um desonesto profissional da política, um ficha suja.
Ou seja, o seu voto bem intencionado servirá para formar o quociente de um partido que tem como prováveis eleitos políticos corruptos.
Você vota no melhor das suas intenções, mas o seu voto contribuirá para eleger um tradicional malfeitor da coisa pública.
Fique atento ao votar, veja se o seu candidato tem chances, pois senão o seu voto será contado para eleger justamente quem você quer ver longe da política.
Abra o olho, no dia 07 de outubro você pode atirar no que viu e acertar no que não viu.


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Por Ucho Ribeiro - 7/5/2012 17:10:42
Dia da Caça

Sábado, à noitinha, eu saí de casa para ir a um casamento. Meio sem vontade, arrastado pela obrigação social. Ao me deslocar para a igreja, já atrasado, parei mal estacionado na porta de um bar para comprar uma garrafinha de água mineral. Buteco lotado, mesas completas e o balcão cheio de homens sozinhos, desamparados, a mirar o fundo do copo.
Cheguei desviando, desculpando-me, e jeitosamente passei quase por cima de um freguês que bebia emborcado no balcão. Chamei o barman. Ocupado, o atendente não me deu atenção. Insisti, falando mais alto: “Ei, chefe, por favor, me atende aqui!” Nisso, o homem do balcão, de costas para mim, virou-se e disse: “Que qui é isso rapaz?”
Eu, com jeito, procurando ser delicado, disse: “Desculpe, companheiro, eu só quero comprar uma água mineral!” Aí, o emburrado, com a cara amarrotada e voz trôpega, grunhiu:”Cê sabe com quem que cê tá falando?”
Pronto. Que pergunta! Eu, com com pressa, atrasado, impaciente, tendo que responder o irrespondível. Ele voltou à carga, com a voz ainda mais grave: “Cê sabe com quem cê tá falando?” Sem saco, retado, puto, vendo meu sábado ir pras cucuias, acirrei a cabeça e retruquei: “Não, com quem?” Ele deu uma pausa, olhou dentro dos meus olhos, e desembuchou com a cara desabada: “Com o maior pé de chinelo de Montes Claros!”
Fiquei pasmo, mudo. Ele, impotente, lacrimoso, reprisou: “Com o maior fudido desta cidade.”
Bambeei as pernas, amoleci, passei o braço pelos seus ombros e convoquei-o: ”Ô, meu irmão, vamos sentar ali e tomar uma?”


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Por Ucho Ribeiro - 23/4/2012 10:42:47
Plico

Diabo, o Cujo, a Besta, Demo, Satanás, Capeta, o Cabrobó, Capiroto, Rincha-Mãe, o Muito-Beiços, o Rasga-em-Baixo, Faca-fria, o Fancho-Bode, o Cão, o Azinhavre, Aquele, Belzebu, o Arrenegado, o Bode-Preto, o Tinhoso, o Sujo, o Que-Diga, o Que-Era, O Que-É. Desde menino, estes eram os personagens que povoavam e marionetavam a cabeça de Plico.
Medo igual tinha do inferno, local de ofício dos Belzebus. Seu penso, seus sonhos eram um tumultuado cenário de trevas. Mesmo nos cochilos de dia sobressaltava-se com pesadelos demoníacos. Devaneios. Via-se atirado em abismáticas grotas, profundíssimas, amarrado, peado, surrado, na fila do inexorável caldeirão fumegante. Imaginava-se em putrefatos lamaçais, em desespero, aos gritos, em contínuas sovas, numa agonia de afogado. Tudo sob os efeitos sonoros dos guinchos, rugidos, mugidos e gargalhadas do Coisa-Ruim.
Plico via o demo a 3 por 2. Dia sim, outro também. Segundo Patrícia, a terapeuta reichiniana, a causa psicogênica fora o seu parto a fórceps, quando ficara horas entalado, gemido, cagado e esprimido. Daí o seu temor a claridades estalantes e o seu pavor dequalquer coisa que o oprimisse. Afinal, fora árdua e demorada a travessia da escura e protetora toca materna para o barulhento e fosforescente mundo exterior. Talvez daí o motivo de ele repudiar médicos, enfermeiros e hospitais.
Desde garoto, a capetada já o atazanava. Nunca esqueceu do frio assobio da régua da sua professora a zunir ao pé de seus ouvidos e o sonoro relincho da Besta: "Presta atenção, peste!". Pior era o professor de português, cara e óculos de Jânio Quadros, a explicar "este, esse, isto, isso...". Aquele só podia ser pactuante, um pactário do Maligno.
E aquele interrogador, inquisidor, travestido de padre, a fuxicar, a xeretar sua vida: Onde foi? Como? Com quem? Sozinho? Acompanhado? Foi bom? Cruz credo!... Vá bisbilhotar assim lá nos quintos do inferno!
Mas o pior mesmo era o fiduma daquele prático metido a dentista que, com certeza, era o capeta em figura de gente a judiar dos meninos. Recorda que era arrastado aos prantos para aquela sala de tortura. Naqueles tempos, usava-se uma máquina tosca, a pedal, com brocas que giravam movidas por correias. Utilizavam-se até tiras de couro para prender a garotada nas cadeiras. Plico tinha náuseas ao lembrar daquela sala desbotada, descascada e daquele mastodonte sobre ele debruçado, com os olhos vidrados. A pouca anestesia vinha de um galãozinho que exalava um anestésico metido a besta, com almíscar de éter. A cada aplicação do gás no paciente, o Coisa-Má tomava uma prise maior e ficava de porre com a fala arrastada: "Paare de isstrebuuuchar, meniiino, ainda tenho unss vinnte para tratarr hooje". Ao arrancar um dente com o boticão, a baba chegava a escorrer do canto da sua boca.
Quando rapazinho, seu pai, percebendo que Plico não gostava de cabresto nem de arreio e muito menos de escola, o colocou como contínuo num banco. Foi o aperto da arruela. Plico se sentiu arrochado, atarraxado. Além da forca da gravata, tinha sapatos a engraxar, uniforme a engomar, cabelo a cortar, camisa para dentro, horários e mais horários, apitos e sirenes, memorandos e regimentos. Era o cu-da-mãe joana. Ave Maria! Quem podia aguentar aquele quartel?
De quartel, bastava o inferno que fora o Tiro de Guerra daquele capitão, ou melhor, Capetão-mor, que o torturava desde às 5 da manhã, com marchas, contra-marchas, abdominais, flexões ... um-dois, três-quatro, quatro-três, dois-um... direita-esquerda, esquerda-direita... farda de lona verde, bate-bute acochado, o diabo a quatro, tudo na falsa conta da mãe-pátria. Dali, já havia escapulido, tornara-se desertor convicto. Nunca mais estaria sob a rédea de qualquer regulamento.
Nem de inverno Plico gostava, só pela horrível sonoridade do nome.
Na fuga dos diversos infernos da sua vida, uns existentes, outros imaginados, Plico foi aprendendo a evadir-se das dificuldades e ofícios. Era-lhe impossível estudar sob a tutela daquela legião de satanases e um tormento maior trabalhar com todos aqueles patrões e chefes impertinentes, pontuais e caretas. Urgh! Raios que os partam!
Plico passou a ter medo de ter a coragem de achar que o Demo não existia. E se ele realmente tomasse conta de tudo? Ou já tinha tomado? Sonhava que fosse decretado, em lei, no papel, sacramentado e vaticanizado: "Que não tem Diabo nenhum. Não existe o Demo. Ponto final". Pronto, acabou! Xispa, seu Satanão!
Em desespero, no breu, já havia até desafiado o Das Trevas: chamara por ele, esperou por ele, berrou: "Vem Bode Velho, seu Urucubaca de Trem Ruim. Seu Temba, Seu Drão, Diabim de meia tigela. Seu fidumaégua! Coorno!" Esperou, espreitou mais um pouco, suntou, e nada. Gritou de novo: "Cadê ôce, seu covarde, Cachorro Lazarento, Tendeiro, Morcegão, seu Encardido? Mas o bicho não apareceu. Passada a bravura, a estabanagem, amofinou e rezou o Credo, se borrando de medo.
Para esquecer tantos demônios, frouxar, relaxar a vida, só mesmo caindo nos gorós. Quando enchia a lata, o povoado mundo dos capetas desaparecia. Tudo ficava mais gozado, mais desapertado, mais relaxado, sem regras. Duro era parar de beber. De saideira em saideira passava a noite e muitas vezes o dia num porre só. Terminava sempre escornado na sarjeta, na velha e agoniosa ressaca.
Filme queimado, de cabo a rabo, Plico foi à fazenda de um amigo dar uma descansada, uma repensada na vida, fugir daquele inferno que era a cidade grande. Na roça, tudo ia bem, ninguém enchia o saco e o gole estava controlado. Até que, numa noite de lua, entornou uma cachaça fenomenal. Bebeu a noite toda, pegou um pau federal. Xingou o Dê, o Debo, o Demo e o Demônio. No clarear, truviscado, saiu tropeçando, oitopernando, catando apoio, urinado nas calças, com soluços e vômitos. Claudicante, seguiu uma cerca, segurando nos arames, se apoiando nos postes, se arranhando, se rasgando, balangandano, continuando. Foi pareado à cerca até encontrar uma outra, lá no meio da manga, onde tinha um tanque para dar de beber a uma vacada erada, escura, chifruda, guzerá. Parou, aprumou-se na muretinha baixa do bebedouro de cimento, tentou beber a água que saía de uma boiazinha no canto, mas não dava conta, pois tinha que se curvar demais. Decidiu, então, entrar no bebedouro, porque assim, de joelhos dentro dàgua, dava para beber no esguichinho da bóia. Só que, no pau que estava, Plico decidiu deitar no bebedouro, de barriga para cima, com a cabeça escorada na paredinha e refrescar - precisava melhorar do porrete. Era cedo, a água estava friinha, serenada, boa demais!
As horas foram passando, o dia esquentando, o meio-dia chegando, a água do bebedouro foi mornando, quase fervendo, e Plico começou a sonhar que estava no meio de uma caldeirada luciférica. Delirava, sacudia-se, remexia-se naquela panelada fumegante, mas não acordava. Era mais um pesadelo bruto, daqueles. De tanto espernear acabou despertando e se viu cercado por um mundaréu de beiços, ventas e chifres, todos imensos, pretos, embocados no caldeirão efervescente. Pronto, foi o suficiente, surtou mesmo, e de joelhos e dedos em cruz danou a gritar; "Xô Satanás, sai Belzebu, afaste-se Lúcifer, arreda Trem Ruim, some Chifrudo! Saltou do tanque, disparou no meio das vacas e desapareceu mato a dentro. Tiveram que juntar uns vaqueiros para campear o pobre do Plico e, ao encontrá-lo, perceberam que o delírio não tinha abrandado.
A solução foi levá-lo à cidade, procurar um médico amigo e interná-lo no hospital, para uma sonífera e apaziguada desintoxicação. Como o paciente ainda estava agitado, o Dr. Ruy prescreveu um sedativo leve, um soro glicosado e recomendou-lhe repouso. Plico ficou, então, incomunicável num apartamento do hospital, deitado, ligado a aparelhos, com mangueiras e sondas, que em seus pesadelos e delírios eram as peias do Demo. Abandonado ali, sozinho, com uma ressaca transatlântica, sentiu-se nas trevas. Aquele mal estar, aquelas cordas apertando, a boca seca, o calor supitando, a vontade louca de fumar, o desesperaram e o fizeram levantar da cama na tentativa de fugir do inferno. Mas foi detido pela mangueira do soro ligada a seu braço e pela porta trancada do quarto. Tonto, zepêra, meio grogue, deparou com o quadro de aviso afixado na porta. Ao ler o escrito deu um grito de pavor e disparou: - Puta quiu pariu, eu tô é fudido mesmo! Tô no "inferno" e aqui ainda tem regulamento!
Era o “Regulamento Interno" do hospital.


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Por Ucho Ribeiro - 21/3/2012 10:20:42
TERESINA

No início da década de oitenta fui convidado por Haroldo Tourinho Filho para trabalhar em Brasília, no Ministério da Educação. A Merenda Escolar passava por uma enorme mudança. O novo presidente do órgão, Dr. Teixeira, entusiasmado, queria abolir os alimentos industrializados, as misturas lácteas achocolatadas, ou melhor, decidiu substituí-los por arroz, feijão, verduras e carne. Resolveu dar uma refeição decente, de gente, às crianças.
Nos meses vindouros as escolas passariam a receber, via Cobal, os alimentos propostos e as cantineiras teriam que preparar pêefinhos substanciosos à meninada.
Para explicar aos secretários estaduais de educação as radicais alterações que estavam por vir na merenda, minha chefe Léa Cutz Galdenzi e eu fomos despachados para o Nordeste. Estávamos convictos e alinhados na certeza daquelas transformações. A idéia era dar na escola a comida que as crianças não tinham em casa.
Nosso primeiro pouso foi em Teresina, no Piauí. Ao descermos do avião, achei que o mundo estava derretendo. Mesmo acostumado com o calor de Monsclaro, aquilo era insuportável, um forno! Cheguei a pensar que a quentura que estávamos sentindo era devido à proximidade da turbina do avião. Não era possível aquele inferno. O horizonte no final da pista tremia como nos desertos.
Tirei logo o paletó e afrouxei a gravata. Vi a colega Léa sacolejando a saia para enxotar o calor que subia do asfalto. Suando, caminhamos apressados em direção à sala de desembarque do aeroporto em busca de um ar condicionado.
No baforento tumulto de pegar as malas, não percebemos que o sistema de som do aeroporto repetia: ”A Senhora Galdenzi e o Senhor Ribeiro estão sendo aguardados na sala Vip”.
Estranhamos aquele convite, afinal não éramos nenhuma autoridade. Mas no Nordeste as coisas são diferentes: funcionários oriundos da capital da república ou estão trazendo verbas ou estão fiscalizando a aplicação delas, motivos pelos quais devem ser bem tratados e paparicados.
Para nos adular e ciceronear, apresentou-se um assessor do Secretário de Educação. Uma verdadeira figura: cabelo ao estilo de Zé Bonitinho, paletó listrado, gravata curta e larga, amarelo furta-cor. Chegou todo splish splash: Heloo, boy! Heloo, girl! Foi distribuindo o seu cartãozinho e proclamando se chamar Braulino, “o Teresinense da Gota Serena”, e não parou mais de debulhar os maiores elogios ao Secretário e suas obras. Chegou até a declamar versos bajulativos. Pela voz impostada, trovejada, rouca, e pelos louvores ao patrão, entendi que ele tinha um programa no rádio e um bico na secretaria de educação. O soldo que recebia era para babar o ovo do chefe no trabalho e fora dele.
Como chegamos cedo para o encontro, Braulino nos sugeriu dar uma voltinha por Teresina e tomarmos uma “fresca” na beira do rio. Num fusquinha todo branco, furreco, fomos passear. O calado motorista arranhava as marchas, enquanto o Braulino, curvado para trás, arranhava o português, com todos os seus “menas”, para elogiar as maravilhas da sua cidade.
Ao passarmos pelo bairro Jockey Club, ele foi logo dizendo: Aqui moram os empresários e os industriais do Piauí.
Aí, eu perguntei: Empresários e industriais de quê?
Ele, de pronto, retrucou: Ora, de empresas e indústrias!
Quase dei uma gargalhada, mas segurei. Léa, por sua vez, fez que tossiu, fingiu ter engasgado com alguma coisa. Nos olhamos e vimos que ia ser divertido. Demos a maior corda ao radialista da gota serena.
Ele nos contou todas as maravilhas de Teresina, falou do Rio Poty, do Parnaíba, das suas fantásticas pontes e das exclusividades da cidade. Tudo o maior e o melhor do Brasil. Era o Juca Prates de lá.
Como tínhamos ainda um tempinho, ele nos levou a uma movimentada e moderna sorveteria com produtos dos mais variados sabores.
A Léa Galdenzi, gaúcha, judia e passageira de primeira viagem ao Nordeste, não conhecia quase nenhuma daquelas infinitas frutas nordestinas.
Ao perguntarmos o que é que tinha, o balconista disparou um rosário destramelado de nomes num sotaque arretado: Mangaba,Baru,Cagaita, Araticum, Gabiroba,Bacuri, Cupuaçu,Jatobá, Araçá,Jenipapo, Umbu,Sapoti, Caju,Macaúba,Manga, Pitanga, Murici, Pinha,Maracujá, Açaí...
Aí, eu falei – pára, pára, pára...já tá bom, me dá um de Mangaba.
Léa, por sua vez, naquele universo desconhecido de sabores, aceitou a sugestão do atendente. Encantada com o sabor sugerido, com o perfume e o paladar daquela fruta, mostrou-nos a delícia que estava experimentando e perguntou: O que é mesmo?
Aí, o diligente assessor da gota serena respondeu orgulhoso e pausadamente: “Pi-co-lé”.


69795
Por Ucho Ribeiro - 8/12/2011 12:12:20
Ao tomar conhecimento da Lei de Acesso a Informações Públicas, Lei nº 12.527, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, no último dia 18 de novembro, entrei em contato com o Arquivo Nacional do Ministério da Justiça, a fim de saber quais eram as informações que os órgãos de inteligência (SNI, Polícia Federal, Dops) tinham do meu pai, Mário Ribeiro da Silveira. Afinal, ele havia sido preso na ditadura e teve os direitos políticos suspensos, nos termos do AI-5, em 1969.
Para minha admiração, quatro dias após a minha consulta, a Coordenadora-Geral do Arquivo Nacional no Distrito Federal enviou-me correspondência com os “resumos” dos documentos existentes no Acervo do SNI, nos quais meu pai é citado. Estou atualmente a selecionar o material para requerer as cópias dos dossiês existentes nos conjuntos documentais do regime militar que fazem referência a Mario Ribeiro da Silveira.
Surpresa maior foi receber um telefonema do nosso alcaide, informando ter tido acesso a arquivos do SNI, outrora confidenciais, que registravam as atividades dos membros do Comitê Brasileiro pela Anistia/Montes Claros/MG. Relatou-me que nos documentos há referências a vários montesclarences, inclusive a Marão. Gentilmente encaminhou à minha família cópia dos registros que torno público no site www.monteclaros.com




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Por Ucho Ribeiro - 15/8/2011 09:35:22
ASTÚCIA

Fatos recentes revelaram o surgimento de uma nova aliança política em Montes Claros. O prefeito e o deputado Arlen Santiago evidenciaram que fizeram um acordo político visando a eleição municipal de 2012. Afinal, secretarias e altos cargos foram repassados e ocupados pelos partidários do deputado petebista.
Uma jogada astuciosa no tabuleiro eleitoral. O prefeito saiu das cordas, ou como dizia antigamente: “saiu do coré”. Tudo indicava que Tadeu Leite tinha todo o desprezo do governador e caminhava para ser o adversário visceral do Palácio da Liberdade na próxima eleição. Agora, Tadeu, com a aliança com o deputado, ao qual cedeu os anéis para não perder os dedos, pode ter o empresário Paulo César Santiago como vice-prefeito.
Dobradinha que coloca o governador numa situação difícil e delicada: como apoiar a candidatura de Jairo Athayde, de Gil Pereira ou a de qualquer outro aliado político se na chapa de Tadeu está o irmão do correligionário Arlen Santiago, o deputado mais votado na região, com prestígio e trânsito no Palácio?
E mais, não será sagacidade política do alcaide atiçar os ferrenhos adversários Jairo e Arlen a digladiarem na rinha da próxima eleição, enquanto alveja raia tranquila para sua reeleição, ou até mesmo para o seu filho Tadeuzinho?
Bem, o jogo teve início. Outras ardilosas jogadas advindas dos mais diversos flancos ainda acontecerão até o pleito eleitoral, porém o xeque-mate só saberemos nas urnas.


68241
Por Ucho Ribeiro - 18/7/2011 13:04:18
Urucubaca

Ucho Ribeiro

O sonho da família era ir à praia, conhecer o tão falado mar de água salgada e as inquietas ondas. Ano após ano, desde as núpcias, a desejada viagem foi sempre adiada por falta de dinheiro, por compromissos e imprevistos. Mas agora não, as férias iam acontecer na praia. Uma semana de papo pro ar, na brisa do mar.
Waltim, balconista de uma loja de peças, conseguiu alugar uma casa em Alcobaça, no sul da Bahia, e dobrar o sogro para emprestar o nojo do seu Monza que vivia estacionado na garagem.
Só precisavam levar a feira e as roupas de cama. O orçamento estava à continha, no risco, mas Suely, a mulher, inventou um punhado de frescuras de ultima hora - cabeleireiro, bronzeador, maiô, toalha, sandália, o escambau aquático – que fez a grana minguar e restar apenas o dinheirinho para a gasolina de ida e volta e olhe lá. Foi um upa para Waltin defender umas caixinhas de cerveja Nova Skin, duas garrafas de pinga de Salinas, três dúzias de pequi e uma mantinha de carne de sol.
Partiram no domingo, bem cedinho, cercados de um invejoso amontoado de vizinhos e parentes. O sogro, morto de remorso por ter emprestado o Monza, não parava de repetir aos ouvidos moucos do genro: ”Walter, vá devagar, tome cuidado com os buracos, esconda o carro da maresia, confira os pneus, não passe de 100...” Suely, gloriosa no banco da frente, de lenço, óculos escuros, depilada e hidratada, batia a mão em despedida para os ficantes. Atrás, a alegria estampada dos filhos Walterly e Suewalter era acompanhada do sorriso da velha e eterna empregada Dalvina.
A viagem, tirando os vômitos do caçula e o empacamento do toca-fita, transcorreu beleza. Chegaram no finalzinho da tarde. Deu para descer a bagagem do carro e correr para ver o mar e o seu horizonte niveladinho. Os meninos estavam para explodir de felicidade. Não sabiam o que fazer com tanta novidade. O corre-corre em fuga do vai-e-vem das espumas, a cata das incontáveis conchinhas, a star estrela do mar, os caranguejos andando de lado, tatuís furando buraquinhos na areia molhada, a fresca brisa, o entardecer, o mergulho das gaivotas, o castelinho de areia, a jangada retornando do mar. Suely, vendo aquilo tudo, sonhado, esperado, verdadeiro, temperado com gostinho de sal, emocionou-se, mareou os olhos, segurou a mão do marido e disse “Te amo, Bem!”. Waltin frouxou as pernas.
Fora as queimaduras da longa exposição ao sol nos primeiros dias e a inevitável caganeira causada pelo tempero baiano, a semana foi supimpa. Acordar tarde, andar na praia, participar da baba baiana, cervejinha, comidinha de Dalvina no capricho, cochilo à tarde. Atoice maior nunca viram.
Fizeram uma amizade com um casal vizinho, de pescadores, e armaram o carteado. Toda noite, para o jogo de buraco, levavam um pedacinho de carne de sol, uma pinguinha de Salinas e eram retribuídos com moquecas de caranguejo, camarão e outros frutos do mar. O céu.
Dormiam cedo, namoravam, juras de amor, tesão solar. Treinavam para fazer uma menininha, a Surlene. Pena que passou rápido demais. Quando acordaram, já era sábado, dia de voltar para o batidão. Suely, então, enlaçada no Waltim, propôs: “Ô Môzinho, podíamos era sair amanhã bem cedinho, antes da chegada da outra família que alugou a casa.”
Waltin, na sua praticidade, topou: ” Mas nós temos que deixar tudo prontinho, casa limpa e malas arrumadas. Melhor é dormir com as roupas que vamos viajar. Dalvina vai preparar o café e nos acordar às 5 horas da manhã, no escuro.” Pronto, tudo foi acertado e cumprido tim-tim por tim-tim até a hora de dormir.
Pena que despertaram no domingo as oito da matina, no susto, com o sol na cara. Assustados, percorreram a casa aos gritos, procurando Dalvina. Quando entraram no quarto da empregada, ó ela lá, na cama, esticada, com os olhos revirados. Mortinha da silva.
E agora, o que fazer? Tinham que deixar a casa, a outra família já estava prestes a chegar para ocupá-la. Não restava um tostão furado, além do dinheiro para a gasolina e para o pequeno lanche na viagem. Se avisassem a polícia, ia ser um rolo sem fim. Teriam que chamar o IML, comunicar a família da morta, solicitar e esperar a autópsia, o embalsamento do corpo, assumir as despesas da funerária e da vinda do ou dos representantes da numerosa família de Dalvina e trasladar o caixão para Minas. Agora pense, como resolver isto tudo na Bahia, num domingo e sem um tostão? O que fazer? Era urucubaca demais.
Nisso Suely, pensou alto: “Ô gente, só se rezarmos para São Judas ressuscitar Dalvina?”
Foi a deixa para Waltim arrematar o problema: “Sabe duma, Dalvina vai morrer é chegando em Monsclaro! Nós vamos colocá-la no porta-malas do Monza e, perto do Brejo das Almas, a gente põe ela sentadinha no banco de trás.”
Os quatro, com muita dificuldade, dobraram a pobre da Dalvina e a puseram no bagageiro, calçada por travesseiros.
As malas vieram nos colos e entre os meninos. Nem se despediram dos vizinhos do jogo de buraco. Pé na estrada, pois não sabiam que hora a velha tinha morrido e ela podia até feder.
No caminho, foram treinando o que falar com a família da falecida: “Olha, ela acordou de manhã, tomou os seus remedinhos de pressão e vinha boa-boa, calada e rezando com o terço na mão. Duma hora pra outra, já chegando aqui, deu um soluço, um gemido e morreu igual a um passarinho. O jeito foi acabar de chegar.”
A viagem foi só silêncio, cagaço e a torcida para tudo terminar logo. Parada, só em Salinas, já tudo previamente acertado: ”Abastecer, urinar, lanchar rapidinho e voltar para o carro. Se Deus ajudar, em duas horas estaremos em Montes Claros, salvos!”
Tudo correu como combinado. Carro abastecido, xixi feito e pão com linguiça no bucho. Não tiveram dinheiro para o refrigerante.
Ao saírem da lanchonete, cadê o Monza? Olharam para um lado e para o outro, nada! Rodaram o estacionamento todo do posto e nada! Perguntaram aos frentistas: nada! Perguntaram ao borracheiro: nada!
E agora? Duros e a pé, como explicar a Dalvina morta no porta-malas e o carro roubado?
Das tão sonhadas férias, restaram, para o casal Waltim e Suely, um processo de ocultação de cadáver, o desprezo e a descrença dos familiares de Dalvina, o eterno ódio do sogro pela perda do nojo do Monza e a rapa do tacho, a baianinha Surlene.


68183
Por Ucho Ribeiro - 11/7/2011 09:36:12
MULHER DAMA

Ucho Ribeiro

Nandinho só queria saber de bola. Já acordava catando as figurinhas da copa para na escola trocar e jogar bafo. No recreio, batia uma bolinha no pátio e comentava com os colegas os jogos que ouvira no rádio. Era um ufa para fazer o dever de casa, pois o sentido estava todo na pelada, no campinho de terra, ali pertinho. Só caia na real quando a cozinheira Joana berrava: “Nando, tá na hora da janta!”.
Pois não é que um dia, no final da tarde, Seu Procópio, o pai, foi buscá-lo no campinho? Nando estranhou aquilo, mas, obediente, o seguiu até a casa para tomar banho e vestir uma roupa. O pai mandou-o trocar a calça curta por uma comprida de homem, com corrião. Não ousou perguntar ao velho aonde iam. Foi, mudo, espiando o trajeto.
O carro tomou o destino do Alto São João. Bem depois da linha, virou à direita e depois à esquerda, para o bairro Esplanada. Desembocou numa rua mal falada e Nandinho pensou, imaculado: “É por esses lados que tem uma casa de muié dama da zona.” E não é que o carro parou bem em frente à famigerada casa? Foi um susto. O pior é que Seu Procópio disse: “É aqui que minino vira homem. Desapeie!”
Abriu o portão e conduziu o garoto cabisbaixo pelo braço. A entrada, um patiozinho cimentado, tinha umas mesas vazias e umas mulheres sorridentes de camisolas. O som tocava “O Bom Rapaz” de Wanderley Cardoso e uma moça novinha, descalça, com vestidinho curto e a calcinha aparecendo, encerava o cimento vermelho. Cantava e ria: “Parece que eu sabia, que hoje era o dia, de tudo terminar...”
O menino achou que era para ele, mas não retribuiu o sorriso.
Nisso, a cafetina, que atendia a única mesa ocupada, apareceu, toda gentil, cumprimentou Seu Procópio e ao pegar no queixo do menino perguntou: “É este o garoto, o rapaz, que falaste? Se puxar o senhor vai dar muito trabalho pras meninas!”.
“É, é este o galinho que vai entrar na rinha!”, respondeu o velho.
A senhora mais idosa saiu à cata das moças, batendo nas portas. Reuniu umas cinco mulheres, todas quase despidas, umas despenteadas, outras meio arrumadas, uma até segurava um aparelho gilete de raspar as pernas. Duas eram morenas, uma mais escura, menos alta, e a outra mais pra gorda. As outras três variavam de tamanho, peso e cabelo. Tinha uma bem seca com rolinho na cabeça; uma outra, bitela em tudo, das pernas ao nariz; e a quinta, meio leque-treque, escorada na parede, fumava. Atrasada, chegou mais uma, loura, de vestido escarlate, que deve ter demorado para arrumar-se.
O pai, então, determinou: “Escolhe uma aí, Fernando, menos a de vermelho, esta tem dono”.
Nandinho, perdido com tanta novidade e falta de experiência, ficou numa dúvida danada. Nem queria aquilo! Mas como não querer na frente do Pai? Tinha que escolher, mas escolher o quê, meu Deus, como, quem? O velho olhava, levantava a sobrancelha, cobrando a escolha. O menino suava frio e não sabia o que fazer. Até que disparou: “Aquela!” Escolheu a Bitela, pelo menos podia explicar depois o porquê: era a mais grandona.
A dona do bordel, então, tomou a frente e disse: ”Menina, leva o rapaz e capricha. Tira dele o melhor, sem pressa, viu?”
A moça se apresentou: “Me chame de Claudete, Dete.” E foi levando o Nandinho para o abatedouro. Na voz de Nelson Gonçalves, a vitrola prenunciava: “E tudo à meia-luz. Para brindar o amor. À meia-luz dos beijos. À meia-luz nos dois. E tudo à meia-luz. Crepúsculo interior. São suaves os desejos. À meia-luz do amor”.
O menino entrou no quarto de meia parede, sem forro, ouvindo seu Pai contar potocas para as desescolhidas e para um amigo recém chegado. Nando, perdido e meio, tirou os sapatos e se encolheu no fundo da cama. Ficou com o queixo nos joelhos, abraçando as pernas. Enquanto esperava o que Claudete iria fazer, viu as paredes cobertas de cartazes da Contigo: Jerry Adriani, Odair José, Evaldo Braga, Ronivon. No chão, ao lado da cama, havia uma bacia, uma jarra, papel higiênico, uma toalha pendurada na cabeceira e, numa velha mesa, uma casinha que dava teto a uma imagem minúscula de Nossa Senhora Aparecida. No mais, apenas uma folhinha da Casa Amaral, um gato de porcelana e um armário caindo aos pedaços. No espelho descascado, Nando se viu acocorado, triste, acuado.
Dete olhou para ele com um sorriso malicioso e apagou a luz. Nandinho, com as mãos geladas, ainda assistiu, no fusco da claridade vinda do outro cômodo, a moça tirar a roupa em ritmo burocrático. Na pouca luz, assustou-se com a escuridão que havia entre suas pernas, não imaginava que lá havia tanto cabelo. Mas a sua falta de saber piorava ao ouvir a voz do pai Procópio se avantajar: “No meu tempo, era assim, assado, patatí patatá “.
Ai, a Bitelona ajoelhou-se na cama e engatinhou em sua direção, com os úberes soltos, dependurados em banlangandã. Sua sombra projetou na parede uma giganta, uma tarântula, uma vaca de pernas e braços. Nandinho lembrou-se de seu pintinho bico de chaleira e murchou mais ainda. Teve vontade de chorar. A moça percebeu, passou a mão na sua cabeça e ajeitou o seu topete. Tentou acalmá-lo, desenroscá-lo, espichá-lo. Com dificuldade, conseguiu que ele deitasse na cama e foi desabotoando seus botões, primeiro os da camisa, depois os da calça. Por cima da parede, Nando ouvia gargalhadas, a voz rouca do Pai, o cheiro da fumaça do seu Beverly e o lamento de Nelson Gonçalves: “Negue seu amor, o seu carinho. Diga que você já me esqueceu. Pise, machucando com jeitinho...”
Despido, teve o primeiro contato com um corpo de mulher. Achou-o frio, a pele era lisa, parecia barriga de jia. Não sabia no que estava pegando. Confundia barriga com bunda, joelho com cotovelo. Assustava-se quando esbarrava nos pêlos crespos. Nada dava certo. Dete queria ajeitá-lo, desembolá-lo, mas o menino não entendia, não sabia donde começar, de que lado, por cima, por baixo? Quando imaginava estar a lamber os peitos de Claudete, estava com a boca em seu cotovelo. A tragédia e os desencontros rolavam ao som da voz paterna e do vinil de Nelson Gonçalves: “Boneca de trapo, pedaço da vida, que vive perdida no mundo a rolar. Farrapo de gente, que inconsciente peca só por prazer; vive para pecar...”
Nando teve arrepios, excitações, lampejos de ereção, mas tudo esmorecia quando caia em si, ouvia a voz do pai e percebia onde estava e o que estava fazendo. Tinha mulher demais na cama, onde tocava tinha corpo, perna, braço, pé, peito, barriga, cabelo, bunda. Demorava identificar cada parte. Nandinho não conseguia juntar aquele quebra-cabeça de membros e formar uma rapariga. Rodopiaram na cama algumas vezes e não conseguiram encaixar sua chocha ferramenta.
A Bitela chegou a ficar imóvel umas duas vezes, na tentativa de ajudá-lo, de acalmá-lo, mas nada adiantava. Subiu em cima, ficou por baixo, de ladinho, de bruços, cachorrinho, mas neca. O jeito foi desistir. Dete levantou-se, vestiu-se, depois ajudou-o a se vestir, a amarrar o sapato, mas não saiu do quarto sem antes dar um beijo carinhoso em sua testa. Ao fundo, o menino ouviu Evaldo Braga no seu lamento: “Sinto a cruz que carrego bastante pesada. Já não existe esperança no amor que morreu...”
Saíram do quarto juntos, ela abraçando a criança envergonhada, que olhava para o chão.
Seu Procópio, dono do pedaço, abraçado com a dama de vermelho, ao vê-los perguntou: “E aí, como foi o desempenho do moleque? Deu pro gasto?”
Dete, profissional de muitos carnavais, pontuou: ”Quem é o senhor, Seu Procópio, o menino é fogo no boné do guarda. Quase me mata, me chuchou todinha. Vixe Maria! Parece potro bravo. Este tem que ser amansado é aos pouquinhos. Só faltou relinchar!”
O Velho ficou cheio, todo-todo, serviu o primeiro copo de cerveja para Nando, acertou a conta, gratificou Bitela e a cafetina generosamente e com um olhar se despediu da sua rapariga.
Voltaram em silêncio para casa. Nandinho foi direto para o seu quarto, trancou a porta e só aí tomou pé do ocorrido. Aos poucos foi lembrando dos detalhes, dos floreios e foi revivendo tudo na palma da mão. “E aquela hora que eu quebrei ela de banda? E aquele beijo demorado, molhado? Melhor foi quando eu a pus de quatro... ai, ai. Acha que mexer com Nandinho é brincadeira?”


68142
Por Ucho Ribeiro - 4/7/2011 09:21:54
TRÉGUA

O Coronel andava tranquilo, desarmado, sem desassossegos, sem acreditar que chegara enfim o tempo de paz. Já estava cansado de não ter medo, de ser forte, empacar. A trégua firmada na Páscoa, continuava de pé, os limites das terras demarcados, as desavenças reparadas, o vizinho até convidou ele e a patroa para o São João. Disse inclusive que a Casa Grande estava de portas abertas.
Queria mesmo ir a festa para não parecer desfeita e para satisfazer as netas que estavam num vãoVô, vãoVô de atazanar, mas o acordo ainda estava novo, lactente, e a prudência tinha que ser administrada a pires de leite. Qualquer risco-trisco, qualquer faísca no pavio da cachaça podia assanhar a jagunçada e aí tudo ia pro beleléu. Eram muitos anos de desavenças e desacatos, finalmente mornados. Aquela temperança precisava continuar. Tempo de recomeço.
O melhor era mandar as mil desculpas e, como presente, o que tinha de melhor para uma festa junina, o trio triângulo-sanfona-zabumba, comandado pelo seu sanfoneiro de confiança, Tião Pé de Bode dos Oito Baixos. Este tinha nome e sobrenome no forró, ia agradar, deixar saudades e débito de gratidão. Foi o que aconteceu, tudo correu nos trinques.
A trégua seguia direitim da porteira pra fora, mas no quintal, aquela jagunçada toda, à toa, ciscando terreiro, estava incomodando e muito. Era homem demais, bigode demais, rodeando e espiando. A patroa e as meninas ficavam acanhadas, embaraçadas, para fazer suas necessidades, quando tinham que usar o banheiro fora da casa, muitas vezes de camisolas, sujeitas aos olhares compridos daqueles marmanjos zoiudos.
A cabrada toda sem ter o que fazer, sem ter para onde ir, sem serviço para executar, afinal só havia mesmo o marasmo da paz para cumprir. Já tinham limpado as orelhas dos animais, escovado os pelos, ensebado as selas, os arreios, lubrificado as carabinas, amolado as peixeiras, cosido os trapos de roupas, só não findavam os berros e as apostas do jogo interminável do truco. Foi indo, foi indo, até que o Coronel, ou era Capitão, resolveu acabar com aquele trança-trança, aquele furdunço no quintal e dar uma ocupação para o bando todo, nem que fosse numa parte do dia.
De manhã cedo, decidido, bateu para o comercinho e pediu socorro ao Padre Guinaldo. Contou a situação difícil que estava passando, a impossibilidade de desfazer dos homens, a inabilidade deles de mexer com roça e campear gado, o compromisso que tinha com cada um e até o receio, cruz-credo, do tempo de conflito com o vizinho voltar. O vigário acalmou o Homem, explicou seu plano e pediu para reunir a tropa no dia seguinte de manhã.
Dito e feito. De manhãzinha o Padre chegou, o Coronel bateu umas palmas, deu uns gritos e a jagunçada se reuniu toda, serelepe, disposta. Mandou os homi tirar os chapéus em respeito, tossiu e emendou grave: “Ó pessoal, cês tão muito à toa, esta situação de atoice ainda vai continuar sabe lá Deus quanto tempo e eu vou ter que ocupar ocês com alguma coisa. Conversei com Padre Guinaldo e resolvemos qu`ocês vão diquirí leitura. Isto mesmo, di-qui-rí lei-tu-ra. Já arrumei caderno, lápis, giz e um quadro negro. A partir de amanhã quero ocês tudo aqui, sem faltar nenhum e de café tomado!”.
À frente da cabrada macha, tomou a palavra o Andalécio, de diversos serviços bem prestados e sacramentados: “Coroné, Coroné, prá que isso, pra quê nóis vaí diquirí leitura numa altura dessa da vida? Que serventia vai tê essa dificulidade toda?”
Foi aquele branco. Nem o Coronel nem o padre respondeu de pronto. Os jagunços começaram olhar uns pros outros naquela sem razão, naquela sem precisão, uns até levantaram os ombros sem entender, até que o Coronel tomou um gole de pensamento e arrematou: - Imagine, Andalécio, volta a guerra, eu escrevo um bilhete procês: “ Matar o cumpadre Pedro!” Cês num sabe lê e matam o cumpadre João... “Ó ocês tudo criminoso!”


68073
Por Ucho Ribeiro - 27/6/2011 15:39:41
Serra do Bento Soares

Spix e Martius, naturistas alemães, em viagem pelo Brasil (*) a procura de espécies de nossa flora e fauna, chegaram em Formigas (antiga Montes Claros) exatamente no dia 12 de julho de 1818.
No relato, ao aproximarem do nosso povoado, vindos da região de Itacambira, enxergaram de estampa a nossa famigerada serra, hoje chamada de Serra do Mel, do Melo e da Sapucaia. Naquela época, era apenas Serra de Bento Soares.
Vejam a narração: “A 12 de julho, avistamos à nossa frente uma parte da Serra de Bento Soares, e, ao anoitecer, chegamos ao Arraial de Formigas, situado numa vargem ao pé desta serra baixa. Os habitantes deste pequeno povoado, constituído de algumas filas de cabanas baixas, todas de barro, são, como filhos do sertão, mal afamados como brigões e por seu banditismo, e não pareciam possuir a bela virtude da hospitalidade dos seus vizinhos: demo-nos por felizes, ao achar abrigo sob a coberta do mercado, até que o amável vigário nos convidasse para a sua casa. Formigas negocia com os produtos do sertão: gado e cavalos, couros crus de boi, de veados, estes últimos curtidos grosseiramente, toicinho, porém, sobretudo salitre, extraído em grande quantidade das cavernas calcárias próximas. Estas grutas também eram de grande interesse para nós, porque deviam conter ossada de enormes animais desconhecidos, dos quais já muitas vezes nos haviam falado no sertão.
No distrito de Formigas existem várias cavernas de salitre: a Lapa do Rio Lagoinha, a Lapa do Miréllis no Ribeirão Pacuí, da qual se extraíram 4.000 arrobas de salitre; as lapas do Cedro, Buriti, Boqueirão, etc. A mais importante, porém, entre todas, pareceu-nos a Lapa Grande, porque nela foram encontradas as tais ossadas de animais primitivos.(...) Foi aqui (na Lapa Grande), sobre um dos degraus de cima, que um dos nossos guias achou, há sete anos, uma costela de seis pés de comprimento e outros restos de ossadas de um animal primitivo. Cavamos na argila fina, que reveste esta região da caverna com uma camada de 4 a 8 polegadas, e foi grande a nossa alegria, ao acharmos, não ossos grandes, é verdade, mas alguns fragmentos, que nos deram a certeza de se tratar dos restos de um Megalonix, sobretudo achamos vértebras, metacarpos e últimas falanges. (...) Partimos de Formigas a 17 de julho, e tomamos, em direção noroeste, o caminho de Contendas (...)”
Reiterando a mensagem nº 46.063, de 13/05/2009, volto a informar que o francês Auguste De Saint-Hilaire, quando em andanças pelo sertão mineiro, em 1817, um ano antes da viagem da dupla de naturistas alemães, desejou que geólogos pesquisassem as cavernas desta região a procura de ossadas de animais pré-históricos.
Atentem para o sensato pedido de Saint-Hilaire, realizado há quase duzentos anos atrás, em seu livro Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (**), e para respectiva nota de rodapé nº 486, na qual cita a passagem dos sábios viajantes Spix e Martius pela Lapa Grande. Transcritas, in verbis:
“Seria para desejar que algum geólogo visitasse com cuidado as grotas do deserto. Encontraria aí provavelmente ossos fósseis, pois que me deram em Vila do Fanado um dente de mastodonte, que está atualmente no Museu de Paris, e me disseram ter sido encontrado em um terreno salitrado do sertão (...)”
Nota nº 486 do naturista francês: “ Depois que esse capitulo foi redigido vi, pelo livro dos Srs. Spix e Martius, que eles realizaram o voto que eu exprimira. Os (futuros) geólogos provavelmente não lerão sem interesse a descrição que esses sábios deram da caverna vizinha de Formigas que chamaram de Lapa Grande, e onde encontraram ossadas de tapires, coatis, onças e Megalonyx (***).”
Aí, pergunto: Conterrâneos meus, temos ou não temos que ir mais devagar com o andor ao analisar e aprovar a urbanização e os empreendimentos nos nossos valiosos sítios históricos e arqueológicos e até mesmo ambientais?

(*) SPIX E MARTIUS; Viagem Pelo Brasil; Editora Itatiaia; São Paulo; Editora da Universidade de São Paulo,1981; paginas 79 e 80.
(**) SAINT- HILAIRE, Augusto de; Viagem pelas Províncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais; Editora Vila Rica, Belo Horizonte; 2000; página 312.
(***) O Megalonyx, cujo nome significa " Garra gigante ", era uma preguiça gigantesca que viveu há 12 mil anos atrás durante o Pleistoceno e era do tamanho de um boi.


68002
Por Ucho Ribeiro - 20/6/2011 08:21:33
Fogo Morto

Ucho Ribeiro

Seu Argemiro dos Anjos, fazendeiro, erado, família criada, vivia viuvo e triste. Sem a patroa, ficou macambúzio, perdeu o cacoete para a vida. Não tinha onde ir, acuou. Não era destro para modernidades. Ficava ali na varanda da fazenda, jururu, fumando e cuspindo. O único amigo, o vaqueiro Isidoro, como um cão fiel, permanecia ao lado, preocupado. Mais não tinham o que conversar. Esgotaram o assunto há muito. Restaram olhares, gestos econômicos, monossílabos. Todos inteligíveis. O levantar das sobrancelhas era entendido, traduzido num átimo pelo parceiro.
Com o tempo, Isidoro atinou que a única solução para o amigo era uma mulher nova para sacudir aquela poeira amontoada no patrão. Pensou: bode velho, capim novo. Precisava de uma moça, de um caramelo para adoçar a boca do amigo. Tinha que motivá-lo a viver melhor o naco final da vida.
Por sorte, sua sobrinha, Elzinha, recém chegada de São Paulo, separada, carente de emprego, foi contratada para cozinhar e arrumar a casa da fazenda. Mulher nova, mas feita, vivida, inteira.
Nos primeiros dias, ela deu um sacolejo na casa, abriu todas as janelas, pôs as roupas e os móveis para quarar, ariou as panelas, vasculhou as teias de aranha, passou vassoura em tudo. Isto na maior alegria, risonha e saltitante.
A jovialidade somada aos adulos, cafezinho quente, sorrisos e comidinha supimpa, foram animando o Seu Argemiro. Com o tempo, aquele rufa-rufa pra lá e pra cá foi a conta para o fazendeiro começar a ciscar o terreiro, empinar a crista, zelar em roupas, banhos e passar até perfume.
Da cidade trouxe, aos poucos, televisão, um som novo e sempre um agrado para Elzinha.
O amigo Isidoro, que soprou a brasa, agora ficava de longe, na espreita, torcendo.
Não deu outra, com seis meses Elzinha virou esposa do Seu Argemiro. Festão, alegrião e uma viagem para as Águas Quentes de Goiás.
Argemiro tesudo, animado, nos primeiros dias até que acompanhou a saliência de Elzinha. Mas aqueles banhos quentes e o bate-bola a toda hora estavam demais. As pernas afrouxaram, a pressão despencou, o jeito foi pedir arrêglo: “ Elza, meu bem, você me desculpe, mas eu preciso de um descanso. Vá às compras, pega aí o dinheiro que precisar.”
No retorno, Elza encontrou o Argemiro escornado, roncando pesado. Dormindo continuou até o amanhecer. Café tomado, de volta para o quarto, Elzinha já passou a soprar o cangote do velho. Vai daqui, vai dali, olha os dois embolados de novo nos lençóis. A noiva buliçosa apresentou umas novidades, umas variedades. Seu Argemiro animou e entrou em cancha. No decorrer da peleja, Elzinha foi empurrando carinhosamente a cabeça do marido corpo abaixo, seios... umbigo e depois mais para baixo ainda. O velho delicadamente resistia e ela firmava sua cabeça, até que Seu Argemiro refugou de vez e disse envergonhado: “Elzinha, meu anjo, me perdoe, eu faço qualquer coisa procê, mas o problema é que meu istômogo é fraquim, fraquim!”
A lua de mel encerrou mais cedo, sob a desculpa da necessidade de resolver umas pendengas urgentes. Voltaram direto para a fazenda. Lá, talvez gemada, catuaba, ovo de codorna e a tal da novidade do viagra dessem um jeito no fogo de Elzinha. Mas que nada, o vapt vupt continuava direto e reto. O homem já estava trôpego, embolando as pernas.
Seu Argemiro, para fugir do campo de batalha, passou a ficar mais no curral, nos pastos, ir para a cidade com desculpas de negócios, mas ao chegar em casa tinha que conferir.
No desespero, procurou seu médico amigo, Dr. Maurício, e desabafou: ”Compadre, compadre, eu estou num calvário sem fim. Elzinha está me matando. Ela não se contenta com coisa alguma. O pior é que se eu afastar demais, corro o risco de chifre. Ai, Meu Deus! Imagine, chifre nesta idade! Estou tomando viagra igual se come pipoca. Você acredita, que ontem, ela me laçou de manhã, depois do almoço quis de novo e eu, com medo de mais uma investida, fui deitar no lusco-fusco da noite, sem bala na carabina. Veja bem o constrangimento, eu sem sono, deitado, de olhos fechados, fingindo de morto e ela a rodear a cama à espreita de um vacilo para me por na rinha. Para o meu azar, um fidumaégua dum mosquito posou na minha boca e ficou todo serelepe, zunindo as asinhas, ora nos meus lábios, ora na entrada do meu nariz. Zummmm. Aquele desespero todo sem eu poder fazer nada. Ave Maria! Estou numa situação de dar dó. Imagine, um homem que não pode matar nem um mosquito! Me ajude, compadre! Pelo amor de Deus!”
Dr. Maurício, vendo o desespero do companheiro, mandou recado para Elzinha vir à cidade consultar – fazer um check up. Afinal, os parentes dela eram todos chagásicos e a maioria tinha morrido antes dos quarenta anos.
Na semana, veio Elza acompanhada do Seu Argemiro. Consulta demorada, exame de tudo quanto é jeito, eletro, eco, esteira e a cara do médico cada vez mais preocupada. Chamou a secretária, pediu para cancelar umas consultas da tarde para poder dar atenção aquele caso raro, sujeito a todos os cuidados.
Ao final alertou: “Dona Elza, a senhora tem um problema hereditário! O coração de vocês é uma bombinha fraca, delicada, qualquer esforço desliga os fios e bau-bau. A senhora não pode fazer força, agitar, carregar peso, tomar susto. Qualquer movimento brusco é um perigo, pode ser fatal. Os exames estão dizendo que seu coraçãozinho está por um triz. Até mesmo as obrigações do casal, da mulher, devem ser relevadas, pois a senhora corre um sério risco de vida. E o senhor, Seu Argemiro, faça-me o favor de não provocar a Dona Elza. Ela tem que passar longe de sexo, porque senão ela morre. Ouviu? Mor-re! Estou receitando um remediozinho para Dona Elza tomar todos os dias, para o calor passar e ela ter uma vida mais mansa, mais sossegada.”
De volta para a fazenda, foi aquele muxoxo. Quartos separados, janelas fechadas, casa largada, rádio mudo. A alegria de outrora bateu asas. Os dias passavam, Elzinha olhava com olhar pidão e o marido Argemiro só alertava: “Elza, Elza, lembra do doutor! É para o seu bem, meu amor!”
Passados mais uns dias, tarde da noite, o Argemiro escutou os passos da patroa à beira do quarto. Pra lá e pra cá. Até que ela bateu na porta. Toc! Toc! Argemiro então, perguntou: “ Quê que cê quer, Elzinha?”
E ela: “Eu quero morrer!”


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Por Ucho Ribeiro - 13/6/2011 15:35:16
Viagem com Marão

“Vambora! Vambora! Tá ficando de noite, gente!”
Era assim, aos gritos e buzinando, que Marão, meu pai, chegava em casa, convocando a trupe toda para viajar. Podia ser para o Pentáurea, para a Jaíba, Rio ou Uruguai. Só viajava com o carro entulhado. Quando decidia fazer alguma viagem, levava todo mundo, parentes e aderentes. Nunca o vi preocupado se havia lugar, ou não, no carro para os convidados ou convocados. Sempre chegava com pressa: “Vambora, Vambora! Todo mundo fazendo xixi agora, para não pararmos à-toa na estrada!” Aí, era um corre-corre danado para catar as tralhas e brucutu dentro do carro. Ele sempre perguntava à mamãe: “Maria, você se lembrou de trazer a minha tesourinha?” Para ele, sua bagagem resumia-se numa tesourinha de unha das mais vagabundas e uma mala james bond fubenta e desbotada, onde guardava sua farmácia e o dinheiro. Hoje, desconfio que minha mãe já deixava uma malinha mais ou menos arrumada para as incertas de Marão. Com roupa nunca se importou. Ao rever as fotografias antigas, dá para vê-lo usando as mesmas camisas por décadas. Gostava mesmo era de ficar pelado, mas aí é uma outra estória.
Ele e o motorista iam na frente com mais um ou dois meninos e o resto se amontoava nos bancos de trás da Kombi. O resto era a filharada, amigos, aderentes, convidados e a pobre da Maria Jacy. Uns nos colos dos outros e empilhados no bagageiro, junto com as malas.
Antes de partir, não esquecia de catar todas as amostras grátis de remédios que tinha, mais as que pedia aos colegas, para medicar durante a viagem. Aí, dizia para o chofer: “Benjamim, passa na casa de Dona Terezinha para pegarmos uma paçoca e depois no mercado, para comprarmos andu, farinha e carne de sol, pois temos que adular fulano.” O fulano era um dos muitos amigos que iria encontrar.
No mercado, era Dotô Mauro. Ao descer do carro o povo frechava. De estalo consultava uns três, mandava outros procurá-lo no consultório, receitava em papel de açougue, distribuía remédios e pomadas, alertando “tem que friccionar bastante, senão não sara”. Dava palpite em tudo que via, rubricava pedacinhos de papel autorizando a meninada assistir de graça a matinê em um dos cinemas que era sócio, gritava “Galooo” quando via um atleticano e comprava tudo num exagero sem fim. Nunca o vi comprar nada unitário, eram sempre dúzias, feixes, sacos, caixas, e quase sempre arrematava: “Quanto você quer por tudo?” Mamãe alertava-o: “Mário, onde nós vamos levar tudo isto?” Ele retrucava: “Óooo, no carro, Jacy!”
O que não cabia no porta-malas ou no chão do carro, cabia em cima da gente. Mamãe até hoje não consegue viajar sem colocar uma sacola, uma caixa, no colo, mesmo se o carro estiver vazio. É viciadinha num embrulho.
Na viagem, o compra-compra continuava. Marão não podia ver nada à beira da estrada que mandava o carro parar e da janela gritava: “Ô menino, quanto você quer pelo feixe de galinhas? O saco de pequi tá quanto? Você vende o resto da bandeja de quebra-queixo? Se fizer por tanto eu levo tudo!” Repassava o que comprava para os bancos de trás e nós, empoleirados, tínhamos que nos virar para agasalhar as compras. Dava carona para deus e o mundo. Viajávamos amontoados e tagarelando. Adorava polemizar e para tanto cobrava opinião de todos que estavam dentro do carro. Ficava instigando a gente a debater com ele. Muitas vezes defendia uma posição distinta da sua pelo simples prazer de polemizar. Tinha gosto em colocar seus galinhos na rinha, vê-los argumentar. Ora apoiava uns, ora outros. Tínhamos é que ter opinião sobre tudo.
Durante o exílio de Tio Darcy, íamos para o Uruguai, nos anos 65 a 68. Papai, além de levar alguns filhos e Vovó Fininha, convidava um casal ou um amigo. Lembro-me de Tio Enio e Tia Marlene, de Sinval Amorim e Tita, da prima Mariazinha e Mânia de Tio Maurício. Na volta de Montevidéu, sempre trazia uns guerrilheiros camuflados no meio da numerosa família. Em 1966, Vovó, Mariazinha, Fred, onze anos, e eu, com dez, tivemos de voltar os 3.000 km de ônibus, porque na nossa Kombi vieram alguns canhotos amigos de Darcy e Brizola. Na ida, era um deus-nos-acuda, Marão carregava uma amostra de tudo que havia no mercado municipal, mais os doces, os biscoitos e as compotas de Vovó Fininha. Lembro-me até de um papagaio falador, chamado “Brasil”, que levamos para o tio matar as saudades. Afora a gente, os convidados, os presentes e as comidas, ele ia dando carona para todo mundo. De Minas ao Uruguai, os caroneiros que entravam no carro eram sabatinados por ele: “Você trabalha, com quê, para quem, cê estudou, quanto ganha, cativo ou livre, cê vota em quem, o que dá dinheiro aqui, como você enrola o seu patrão, você é sindicalizado?” Depois que chupava todas informações do sujeito, trocava o carona. Se o cara não gostasse de conversar, dava um jeito de terminar logo a ponga, “aqui está bom para você, não tá?”, colocava um outro ou uma outra no lugar e continuava a perguntação em portunhol: “A senhorita és donde? Tens marido? Quantos hijos? Tomas pilulas? Trabajas o dia todo fora de su habitacion? Acá as mujeres ganham iguale a los hombres? As escolas son em tiempo integral?
Papai era a caricatura dele próprio. Espalhafatoso em público e introspectivo, pensativo, quando sozinho. Uma vez ele me disse: “Filho, muita gente pensa que eu sou doido, faço que sou, pois posso ser do jeito que eu quiser. Eles arranjam as desculpas para mim. Não preciso de ficar me justificando, cheio de dedos. Eu tenho pressa, não tenho paciência para formalidade, hipocrisia, nhém-nhém-nhém e disse-me-disses”.
Ao arrancar o carro, Mamãe sempre fazia a chamada: “Pat? Presente! Ucho? Presente! Marquim? Presente! Mônica? Presente!”... Para não se esquecer dos seus filhos pelo caminho, como aconteceu com Fred, deixado na ermo Livramento. Marão sempre reclamava: “Para com esta ladainha, Jacy! Basta contá-los!”
Nas paradas, Papai repetia: “Lembrem-se de fazer xixi.” Durante a viagem, se ficássemos apertados, tínhamos de urinar numa garrafa. O difícil era colocar a pingolinha no buraquinho com o carro sacolejando. A mira tinha de ser boa nas estradas de terra, senão respingava nos outros e era uma chiadeira só.
Numas das voltas do Uruguai, acompanhados de um simpático casal de guerrilheiros, Fred perguntou ao homem: “Você trouxe sua garrafinha?” Ele olhou para sua parceira, sem entender, e ela ressabiada questionou: “Que garrafinha?” Fred, então, respondeu: “A de fazer xixi, porque Papai não pára não!”
Bertha, minha irmã, sempre enjoava e começava a chorar, porque sabia que iria tomar injeção. Marão, com o carro em movimento, abria a maleta james bond, sacava uma ampola de Dramin, preparava a velha seringa e aplicava em Bertinha, aos esperneios. Ela era pequena e tomava a metade da dose para adulto. Papai, então, aplicava em Marcinha o resto que sobrava na seringa. Márcia, coitada, chorava e reclamava “eu não estou enjoada, eu não precisava tomar injeção.” Ele, em sua praticidade e economia, justificava: “Vai desperdiçar? Vai desperdiçar?”
Quando parávamos para almoçar, ocupávamos várias mesas. Era aquele barulhão, juntava gente. Na confusão Marão distribuía comida e bebida para todos que aproximavam. Recordo-me de uma vez que um menino engraxava o seu sapato, enquanto Marão almoçava. Dava uma garfada para o menino, outra para ele, uma garfada para o menino, outra para ele. Até que Mamãe ralhou: “Mário, tenha modos!”. Ele de pronto argumentou: “Maria, Maria, e se este menino for Jesus Cristo?”


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Por Ucho Ribeiro - 5/6/2011 11:09:15
Senhor, escutai a nossa prece.

Ucho Ribeiro

Todo sábado, tínhamos que confessar os mesmos pecados. Antes da confissão, Fred, o mais velho, distribuía os pecadilhos. Dizia: - Marquim, cê fica com “desobedeci mamãe e briguei com meus irmãozinhos”; eu, com “falei coisas feias e pensei bobagens”; e Ucho com “magoei meus coleguinhas e fiz indecência.” Aí, eu chiava: - Cruz credo, de novo não, Fred, sacanagem! Não vou ficar novamente com as indecências!
O severo Padre Dudu iria perguntar novamente de dentro daquele confessionário inquisidor: - Você fez indecências sozinho ou acompanhado? E eu, tremendo de medo, pequenino, borrando as calças, vendo as trevas do inferno, iria responder baixinho: - Sozinho!
Depois de um humilhante sermão, Padre Dudu nos mandava rezar uma meia dúzia de Ave Marias para incinerar os pecados, que eram recitadas na rapidez de uma locução de uma corrida de cavalo – avmarichedgraçsenhôconvoscbendisovós...
Nós, livres daqueles pecados, zeradinhos de tudo, tínhamos de segurar a onda e a santidade até a comunhão do dia seguinte. Teríamos de nos manter ocupados e pios, contentar-nos com brincadeiras e leituras pudicas para não deixar que as nossas cabecinhas virassem oficina do diabo. Muito cuidado, pois existia o vicio do pensamento, que nos pegava na curva ou num descuido. Indecências, cinco contra um e palavrões... nem pensar. A apimentada revistinha Catecismo do Zéfiro tinha que ficar no mais fundo da gaveta. Qualquer vacilo, aiai, não poderíamos comungar na missa do dia seguinte.
Eu fazia de tudo para sair logo da igreja ao final da confissão, porque senão começavam as visões das imagens das Santas levantando as saias e piscando os olhos, para me atentar e pecar. Sabia que tentação era coisa do demo, não podia prestar atenção naquela pouca vergonha. Se acontecesse de cometer um pecadinhozinho de nadica de nada, estava ferrado, pois não poderia comungar na missa de domingo e toda a igreja saberia que eu era um pecador. Se comungasse com pecado, aí sim, a tragédia seria completa. Quando o padre colocasse a hóstia na minha boca, uma cachoeira do sangue de Jesus começaria a jorrar. Vexame e vergonha maior não poderiam existir. Imagine você todo tingido de vermelho lá na frente da Igreja, podia despedir-se de todo o mundo e pegar o caminho do inferno. Se pecássemos no sábado, depois de confessar, a estratégia era acordar cedinho no domingo e comer qualquer coisa, fingindo ter esquecido do jejum. Só podíamos comungar em jejum. Mesmo assim era uma tática manjada e a família toda sabia que algum pecadinho você tinha cometido e estava se safando.
Na missa de domingo, o povo se juntava calado, lustroso, nos trinques, cada um vestia sua melhor roupa, a domingueira. Ao chegar perto da igreja, parávamos para limpar a poeira do calçado, esfregando o rosto do sapato na perna da calça. Os pais cumprimentavam-se formalmente, sérios e mudos. Os meninos se amontoavam em bolinhos para falar com excitação do faroeste em cartaz, que seria visto logo após a missa.
Reunido o povo, sino batido, todos entravam na igreja. O sacerdote se dirigia ao altar enquanto se executava o cântico de entrada, fazia uma genuflexão, beijava o altar e iniciava a missa, de costas para todo mundo: In nomine Patri et Fíli et Spiritus Sancti. E todos, em pé, respondiam: Amen. Logo em seguida vinha o ato penitencial, quando o sacerdote exortava todos para arrepender dos pecados: Conifiteor Deo omnipotenti et vobis ... E todos batiam com a mão no peito ao confessar a culpa: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Era uma culpa sem fim.
Eu não entendia porque o padre celebrava a missa de costas e em latim. Jesus não falava esse idioma. Falava, com certeza, aramaico e possivelmente um pouco de hebraico, línguas da sua região. Depois me explicaram que a igreja se estabeleceu com sede em Roma e o latim era língua do Império Romano, o que permitiu a expansão da igreja por todos os domínios romanos. Pela regra, hoje, a igreja deveria adotar o inglês. Tentaram me explicar também que o celebrante ficava de costas para os fiéis para estar de frente para o sacrário, para Deus. Mas, para mim, a liturgia se reduzia a um espetáculo repetitivo, triste e sonolento. A toda hora recebia um beliscão para sentar, um beliscão para levantar, outro para ajoelhar. Boiava mais que tudo, a cabeça e os sentidos estavam no tiroteio do faroeste. As coisas mais alegrezinhas que tinha na missa eram: Saudai-vos uns aos outros, o sininho que tocava duas ou quatro vezes trilim-trilim e as três cruzinhas na fronte, na boca e no peito, quando o padre dizia: Dominus Vobiscum, e nós, Et com Spiritu tuo.
Na época em que acabou o latim, nossa família já frequentava a paróquia do Padre Quirino na Santa Casa. Ir à missa melhorou demais. Já dava para acompanhar o senta e levanta: Oremos, levanta; Irmãos e Irmãs, senta; Senhor tem piedade de nós, abaixa a cabeça; Minha culpa, minha culpa, as batidinhas com a mão no peito; Trilim-trilim, ajoelha; Jesus tomou o cálice em suas mão, trilim-trilim, continua ajoelhado; Felizes os convidados à ceia do Senhor, levanta; Eu não sou digno que entreis em minha morada, ajoelha. Até que chegava no “Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.”
Deo Gratias! Ad Finite! Agora podíamos ir para o cinema. Missa de novo, só domingo que vem. Urgh!
Quando surgiu o “Escutai as nossas preces”, foi o máximo. Os paroquianos passaram a poder dar um pitaco naquele monólogo monótono de só o padre falar, falar, dar broncas e puxar as nossas orelhas.
Mamãe uma vez me deu um papelzinho para eu ler na hora das orações espontâneas e eu orgulhosamente li: “Pelo reestabelecimento da saúde de Irmã Dulce e dos enfermos da Santa Casa, rezemos ao Senhor”. E todos repetiram, uníssono: “Senhor, escutai a nossa prece”. Senti-me o máximo. Mas meu orgulho não durou muito, porque Eninho, meu primo menor, que há domingos estava bombando coragem para falar também na hora do “Escutai a nossa prece”, tomou ânimo, entusiasmou –se e resolveu se manifestar também. Ele tinha aprendido umas palavras novas e estava todo encantado com uma palavrona bonita e grande. Logo em seguida à minha prece, ele, altivamente, engatilhou a dele e disparou: “Para que o Padre Quirino e as Irmãs da Santa Casa tenham mais PERSONALIDADE, rezemos ao senhor!”
E todos, querendo morrer de rir, responderam baixinho: - Senhor, escutai a nossa prece!


67749
Por Ucho Ribeiro - 31/5/2011 14:55:34
Sobre o óbvio

Nenhuma grande novidade acontecerá na próxima eleição municipal de Montes Claros.
Para que surja algo novo haveria que despontar uma liderança nova.
Até o momento não surgiu ninguém com carisma e liderança para conduzir um processo de renovação na política de Montes Claros. Tampouco há um cidadão ou um grupo de cidadãos com um projeto político-social ambicioso para o porvir desta cidade.
Pelo visto, nada de novo no front.
Uma candidatura para ser construída deve seguir as determinações e as exigências da lei eleitoral e se pautar em alguma obviedades.
Entretanto, quase a totalidade da população, que não se envolve com o processo eleitoral, e até mesmo os políticos novatos desconhecem o protocolo e os procedimentos essenciais à participação na vida pública. Já os os políticos tarimbados, conhecem, legislam e usufruem das regras e das normatizações eleitorais e inclusive das suas entrelinhas. Estrategicamente eles não alardeiam os ritos e os prazos exigidos pela lei eleitoral com o discreto propósito de perpetuarem no poder e de continuarem no domínio de seus partidos.
Vamos, então, tornar públicas algumas regras e obviedades eleitorais:
Primeira: Só pode ser candidato a prefeito, vice-prefeito, vereador e até presidente da república, quem for filiado em um partido político. Sem filiação não há nova candidatura (art. 11 da Lei 9.504/97).
Segunda: O prazo para a filiação às próximas eleições municipais é 01/10/2011 (art. 9 da Lei 9.504/97). Isto mesmo, quem não filiar a uma legenda até o dia 1º de outubro deste ano não pode ser candidato nas próximas eleições municipais de 2012. O tempo é implacável, faltam apenas 4 meses para o prazo final de filiação. Se Lula, o Papa, Pelé ou Padre Henrique quiserem ser prefeito de Montes Claros e não filiarem até a mencionada data, bau-bau, não poderão ser candidatos.
Terceira: Não adianta filiar e não ter o domínio do partido. A simples filiação não dá o direito de candidatar-se. A candidatura deverá ser homologada pelo diretório do partido até o dia 30 de junho do ano da realização das eleições (art. 8 da Lei 9.504/97). Assim, se o novo candidato não tiver a maioria dos delegados pode desistir de se lançar a um cargo majoritário. Vai nadar e morrer na praia.
Cabe alertar que atualmente os partidos já têm donos. Todos os diretórios municipais já estão ocupados pelos conhecidos políticos de Montes Claros e seus correlegionários. Senão, vejamos: DEM (Jairo Athayde e Ruy Muniz), PSDB (Ana Maria), PMDB (Tadeu Leite), PPS (Humberto Souto e Athos Avelino), PP (Gil Pereira), PTB (Arlen Santiago), PT (Paulo Guedes), PDT (Carlos Pimenta), PV (Antônio Henrique e Ariosvaldo Melo). Restam basicamente os nanicos, que também, em sua maioria, já estão ou estarão controlados pelos experimentados caciques políticos.
Donde se conclui que nas condições atuais será difícil um candidato novo conseguir um espaço numa grande legenda para se lançar a eleição majoritária. Os políticos de plantão não darão trincheira, munição e facilidades para um eminente adversário.
Volto a afirmar que não basta apenas a pura filiação para surgir uma candidatura nova. O pretenso candidato terá que filiar-se numa legenda juntamente com um exército de companheiros irmanados no compromisso de disputar e ganhar a convenção partidária, para então lançar oficialmente sua candidatura. Parada dificílima.
Quarta: Candidato em partido pequeno, sem coligação, não ganha eleição em cidade que tem programa eleitoral na televisão. Candidatura com pouco tempo de televisão não decola. Já dizia Duda Mendonça “as 3 coisas mais importantes numa eleição são: Televisão, Televisão e Televisão".
O eficiente uso da web pode ser suplementarmente importante numa candidatura, mas o carro chefe de uma campanha eleitoral ainda será um criativo programa na TV.
Sendo assim, se nos próximos quatro meses não surgir um meteoro político, um fenômeno eleitoral, o que é pouco provável, nenhuma grande novidade acontecerá na política de Montes Claros. E tudo estará como dantes no quartel de Abrantes.
Trata-se de uma leitura fria e óbvia do cenário político montesclarence.


67675
Por Ucho Ribeiro - 23/5/2011 11:20:03
AULA DE DICÇÃO

Éramos oito filhos barulhentos. Cada um mais estridente que o outro. Se um de nós quisesse dar alguma opinião tinha que elevar a voz, senão ninguém escutava, pois todos falavam ao mesmo tempo. Quem não estava acostumado, ao chegar lá em casa, achava que era briga. Eu tinha o apelido de Hermínia, nome da lavadeira, que falava igual à uma taquara rachada. A exceção era Marquim, famoso Zé do Grilo, que não era de muita conversa. Por muito, entrava mudo e saia calado. Gostava mesmo era de ir para o sítio Tira-Teima, ficar com vovô Pacífico à caça de passarinhos, pescar e cuidar dos bichos de estimação.
Para diminuir aquela zoeira, esvaziar a casa e ter uns momentinhos de paz, Mamãe decidiu matricular a ninhada quase toda nos mais diversos cursos do recém criado Conservatório Lorenzo Fernandes. Pat, dez anos, foi fazer acordeom; Fred, que tinha nove, foi dedilhar piano; Mônica, com seis, se deu bem, foi lambuzar-se nas tintas do curso de arte. Já eu, oito anos, e Zé do Grilo, sete anos, fomos alistados para estudar DICÇÃO. Os outros, Paulim, Márcia e Berta eram pequenos demais para cursar qualquer coisa. Ficaram com as babás. O triste é que sobrou logo pra mim e Marquim aquela tal de Dicção que não tínhamos a mínima idéia do que seria.
Segundo Mamãe, a professora era ótima, perfeita. Tratava-se da renomada educadora e artista, Dona Felicidade Tupinambá, que vivia para o Conservatório e tinha todos os alunos como filhos. O curso com certeza ajudar-me-ia a expressar mais pausado, civilizadamente, sem destramelos e estridência; e a Marquim a falar, desembuchar, pois vivia emudecido, na dele.
A notícia foi um xarope, imagine estudar naquele ambiente mais feminino, cheio de frescuras e tric-trics. Queríamos mesmo é ficar soltos, sem horários, na larga, com a meninada no campo do Cassimiro.
Fomos arrastados, macambúzios, para o primeiro dia de aula. Parecia que íamos para forca. Um suplício.
Ao chegar, Dona Felicidade estava à porta à espera dos alunos, com um grande sorriso. Era alta, e mais alta ainda por causa dos seus saltos de sapato imensos e finos e do seu coque, dourado, empinado, no alto da cabeça.
De homens, ou seja, de meninos, só tinha Marquim, eu e um garoto mais novo, de nome José. Este foi para corrigir sua fala rouca, grave e retumbante. Ainda hoje, ouço os seus rururus. O resto da sala era só de meninas, umas doze, todas animadíssimas, fresquíssimas, com vestidos de renda, frufrus, laçinhos nos cabelos, bolsinhas e um desprezo enorme pelo trio troglodita - nós três, Marquim, José e eu. A vergonha que sentíamos e o desprezo das meninas nos fizeram sentar lá atrás, na ultima fila. Sentamos, baixamos a cabeça e não abrimos a boca. As meninas, entretanto, comandadas por Ireninha, repetiam os trava-línguas no compasso das mãos da renomada Dona Feli Tupinambá: O RAA-TO ROO-EU A ROOU-PA ROO-XA DO REEI DE ROO-MA. O PE-LO DO PEI-TO DO PÉ DO PE-DRO É PRE-TO.
Como não abriamos a boca, a professora resolveu chamar-nos à frente para desenhar alguma coisa no quadro, no intuito de conseguir a nossa participação na aula. Fui o primeiro a ser convocado. Envergonhado e sob o olhar crítico das meninas, desenhei duas bobaginhas ridículas. Ao terminar, de cabeça baixa, calado permaneci. Então, Dona Feli perguntou-me: - Ucho, que desenho é este?
Eu respondi: - É uma casa. E ela de novo me arguiu: - E aqui do lado da casa, o que é? Eu, ainda cabisbaixo, falei: - Uma árvore. Ela, então, me cobriu de elogios, que eu tinha certeza de que eram falsos, ainda mais após assistir à saraivada de caretas da dúzia de meninas que ficavam na frente.
Marquim foi o segundo a ser chamado. Mas Zé do Grilo não levantou, só balançou negativamente a cabeça. Empacado ficou. Foi quando a professora convidou José para ir à frente e ele saiu do nosso lado em direção ao quadro, na maior pompa. Todo empinado.
Zé pegou o giz e já saiu de cara riscando uma linha horizontal de uma ponta à outra do quadro negro. Em seguida, voltou ao começo da lousa e riscou uma paralela que distava uns trinta centimetros da primeira. Ao final das paralelas, fez uma bola e um corte na ponta.
Eu, então, já comecei a estranhar aquilo e a pensar besteira. Veio a culpa de pecar por pensamento e a certeza que teria de confessar ao Padre Dudu, no sábado.
Pois não é que o Zé Mendes foi ao outro lado do quadro e fez mais duas bolonas no começo das paralelas? Aí, eu tive a convicção mesmo do que tinha imaginado, pois, pela cara da fessora, ela também teria de confessar ao Padre Dudu.
Dona Felicidade Tupinambá, azulada, esverdeada, furta-cor, toda sem rosca, escorou na mesa e perguntou: - José, José, você desenhou um dragão, não foi?
Ele, posudo e orgulhoso, disparou com a vozona grossa, retumbante e inocente:
“NÃO, ISTO É A RÔLA DO HOMI!”
O mundo parou. O silêncio tomou conta de tudo. Ficamos abestalhados, estupefados. Meu Deus do céu, de onde Zé tirou essa sandice mais doida? Depois de uns segundos de espanto e inércia, olhando para o vaidoso e pomposo Zé, Marquim partiu em disparada, a mais de mil, e eu, sem saber o que fazer, saí também, a toda, esbarrando nas cadeiras vazias e tropeçando nele. Pegamos a Rua Coronel Prates desembestados e rumamos para nossa casa no bairro Todos os Santos. Corríamos, corríamos, sem saber o porquê, afinal, não tínhamos nada a ver com a doidice de Zé, mas corríamos. Sinto-me como se estivesse correndo até hoje, sem culpa, mas culpado, pois eu tinha visto e ouvido aquela doidice.
Em seguida, veio o medo de Dona Feli contar o ocorrido à Mamãe e nos culpar de ter arquitetado aquilo, pois José só tinha seis anos.
Passamos a semana à espera de uma sova daquelas, que nunca veio. Só sei que jamais voltamos à aula de dicção. Ficou o dito pelo não dito.


67617
Por Ucho Ribeiro - 17/5/2011 14:09:09
Irineu

Acordei turvo, sem vontades de cidade. Permaneci nos travesseiros, entocado, na tentativa de fugir dos ermos da consciência. Após relutâncias, arrastei-me até o refúgio do banheiro. Opaco, sem ideia, fiz acareações no espelho, contorcendo em embrulhadas caretas. Refugava o asco impregnado das urbes. A custo, esguiei pela casa, desviando da TV e de suas imprestáveis notícias, ensurdeci para os ruídos do rádio da cozinha. Sigilosamente, engoli o café, peguei as chaves, parti timidamente para enfrentar a ofuscante luz do dia. Em busca de sombras, confuso, fui despertado pelos latidos do meu cachorro Angus, convocando-me para um passeio, um devaneio.
Entrei no carro. Abri a porta para o parceiro e saí desviando do centro, dos buracos, dos sinais e tráfego. Num ufa! peguei a estrada, escapuli. Montes Claros ficou para trás. Desliguei o ar, abri as janelas para a brisa azul. Céu matutino, temperatura branda, horizonte longínquo, nuvens em bolas e bolos, enfim sossego nas vistas.
Apaziguei, baixei a velocidade e senti o vento na cara. Angus, de cabeça para fora, refrigerava sua língua. Easy rider.
Relutava em não pensar em nada, mas o trânsito até Bocaiuva me laçava a realidade. Muitos carros, caminhões. Um azucrino. Resolvi, então, safar rumo ao Jequitinhonha. A estrada é outra, vazia, boa para divagar em bobeiras, lembranças, branduras. Pois foi o que aconteceu, remexi o baú das memórias, resgatei carinhos, gestos, delicadezas, reuni perdas e encontros. Borbulhei nos meus caldos. Adociquei meus recordos. O sorriso desabrochou, relaxei, desamarrotei. Olhei para o lado e Angus virou a cabeça, com a cara estalando gratidão.
Ao passar por Olhos D`Águas, os meus marearam em cumplicidade.
O caminho por instinto era Rio Preto, antiga Sapucaia, Felisberto Caldeira, hoje, São Gonçalo do Rio Preto. Não parei na cidade, fui direto para o mato, para casa de Irineu.
Pronto, estava no porto das calmarias. Bom dia para cá, bom dia pra lá, meninos e patroas boas. Cumprimentos formalizados, a conversa então foi tomando os rumos da natureza, das perplexidades.
- Ucho, o Jequitibá incorpou, taludou, mas os Ipês num firmaram, tão carecendo dágua.
- Molha então, Irineu!
- Num dianta água molhada, bom mesmo é as águas da misericórdia.
Papo vai, papo vem, espaçado por pitos de cigarros de palha, tomamos a serra pela trilha ao fundo da casa.
- E carrapato, Irineu?
- Preocupa não, eles só vêm com a friagem, no orvalho. Maio ainda num tá frio pra tanto.
Esbaforido, Angus nos seguia dando tibuns nos córregos d`água, refrescando-se. Eu com inveja, mergulhei também e caninamente refrigerei-me. Irineu, só riu. Daí a pouco, assuntando, profetizou: - Olha Ucho, hoje vai morrer um lá pelos lados do Alecrim.
-Como você sabe?
- Num tá ouvindo o canto do Coan(*) vindo de lá? É batata! No rumo que o Coan canta, nego espicha as pernas.
- Ah, não sabia!
Subimos mais serra, pulamos córregos, contornamos árvores, atravessamos cheiros de assa-peixe, capim gordura, gabiroba, sapucaia. Os passarins melodiavam toda a subida. E Irineu sanava minhas ignoranças.
- Essa água corre o ano inteiro?
- Ó Ucho, é seca e verde. Dagora em diante, ela imiúda, míngua, mas num corta.
- E estes peixinhos, Irineu? Nessas alturas, como eles vieram parar aqui, bem perto da nascente?
- Ô Ucho, peixe é microbi dàgua. Eles vêm é com o arco iris.
Pronto, já tava bom. Fisguei o puro encanto. A poesia.
Bendito.


(*) Coan ou Acauã (herpetotheres cachinans) pertencente à família do gavião, habita o Cerrado, a Caatinga e as florestas úmidas.


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Por Ucho Ribeiro - 11/4/2011 21:17:07

(Na foto da direita para esquerda - agachados e sentados: Tio Enio, Costa, Joãozinho, Emerson, Genesco, Marcelo, Ucho, Da Roça, Roy, Demerval, Eustáquio. Em pé: Carlinhos, Deisy, Etienne, Marcelo, Marão, Tola, Pancho, Helio, Claudio, Marcos Brito e Salvador)

SEM NEM

Hoje o céu abaixou. De joelhos, agachou para resgatar Nem e sua alegria.
Tiênio, tio Enio, tio de todos nós, passarim de pedra azul que há muito sentou pouso nos montes claros, foi-se, bateu asas, voou, subiu aos céus. Encantou-se.
Ficamos a deus-dará. Sós, com nós no peito. Saudade sem voz, atroz. Sem rumo, prumo, sem canto, cantos - desamparados. Estamos órfãos de singeleza e afeto.
Os pássaros desapareceram de cantar, os butecos emudeceram em minutos de silêncio, os peladeiros penduraram suas chuteiras, os pescadores recolheram suas linhas e os amigos se aninharam para suportar a ausência do Nem de todas as horas.
É desse jeito! Foi-se o melhor de todos nós.


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Por Ucho Ribeiro - 21/3/2011 17:44:15
Consternado recebo a triste noticia do falecimento do Dr. Konstantin.Fica a saudade do médico, do artista e do amigo Konsta que mais parecia um personagem de um romance russo. Um papo bom, diferente. Uma alegria inteligente, com ironia e humor fino.Na juventude, sentávamos nos bares da vida para ouvi-lo contar suas longínquas lembranças da Bulgária, a longa travessia do Oceano Atlântico, a pequinês de nossa Montes Claros na sua infância e a boemia de Belo Horizonte nos anos 50.Irreverente, sempre cobrava indignação e ousadia da nossa juventude.Mestre das cores, do desenho, nosso maior artista fazia charge da vida. Retratava e ironizava o grotesco mundo a partir de suas ateias crenças, de seus amigos e das personalidades do século XX. Vá, Konta, feliz e em paz, encontrar com os seus: Andrey, Marão, Mauricinho, Mozart. Dr. Haroldo e Darcy.Um terno abraço a Dona Yede, a Rayu e a Igor.


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Por Ucho Ribeiro - 1/12/2010 16:22:43
Conterrâneos desterrados!

Vocês, que a muito, vivem longe da terrinha, vão morrer de inveja, vão ficar "aguano"!
Começou a safra do nosso velho e saboroso pequi. O aroma e as cascas já estão por toda parte. O povo está rindo de pança cheia.
Ao passar pelo mercado municipal, a caminho do meu trabalho, esbarro no movimento dos carrinhos de mão, transportando e espalhando o fruto amarelo para todos os cantos da cidade. Carregam-no, debulhado, a céu aberto, a exalar cheiros e desejos. Levam o riso solto, o contentamento dos monteclarences. Como dizem alguns: é a "Flor de Zíaco".
Até semana passada, só encontrávamos a falsa fruta amarela do longínquo Goiás. Estávamos sujeitos a um pequizinho chocho, sem gosto e sem polpa. Agora não, é cada bitelo, de dar água na boca. Alguns parecem uma manga ubá, da cor da gema caipira. Não precisa nem roer, dá até para morder.
Os vendedores os separam pela cor e pelo tamanho e barganham no preço: "melhor não tem, só quando chegar os de Campo Azul". Outros já retrucam, "bom mesmo são os de Ibiaí”.
O programa começa já nas compras. Tudo é motivo para tomar uma e mais outra nos preparativos do arroz com pequi. No mercado, ao comprar a carninha de sol, o tomatinho pocan, o coentro verdinho, a pimenta de cheiro, é inevitável o convite de um conhecido para uma talagada da boa. Ora, ninguém é de ferro!
Em casa, na hora do almoço, é um cheiro só, o aroma vem também das casas vizinhas, é a alegria que reina ao redor da panela amarela.
Alguns de vocês, talvez por estarem a muito tempo fora destas terras norte mineiras, esqueceram a receita do arroz com pequi. Cada família tem a sua, mas de qualquer forma, segue abaixo uma receita supimpa - da alegria e da satisfação.
MODO DE PREPARO
Primeiro abra uma cerveja. Ponha no copo e prove. Tá gelada? Então, dê um ou mais goles para encarar a empreitada. É serviço sério e você precisa estar atinado.
Em seguida, em uma panela, cozinhe por uns dez minutos os pequis, com bastante água e sal a gosto. Lembre-se, os pequis que vão a panela não podem ficar completamente cozido.
Bem, mas alguns pequis devem ser preparados, em separado, como tira-gosto, para ser comido com a senhora farinha de Morro Alto. Afinal, somos filhos de Deus e não vamos ficar esperando o arroz está pronto para comer um pequizinho.
Passado o primeiro passo, mais um golinho na loira e um didal na pinga. Roa uns pequis, conte umas potocas e vanglorie o seu arroz. Isto fará bem pra você e para o prato. Ele gosta de elogios.
Aí, então, corte a costelinha e a carne de sol em pequenos cubos e refogue em outra panela grande com corante (muito pouco porque o pequi vai colorir o arroz), alho, cebola e sal. Tome mais uma cervejinha e dê um trisca na pinguinha. Caiu na raia certa? Ótimo, tome ajuizadamente outra pequetita. Acrescente o arroz e frite sempre mexendo, até começar a pregar no fundo da panela. Aí, cuidado, tome uma rapidinho e despeje o pequi pré-cozido juntamente com sua água na panela do arroz. Prove o sal e acrescente o tomatinho pocan e a pimenta de cheiro.
Misture, coloque tampa na panela e pronto. Teremos 15 a 20 minutos para tomar uma e outras, sossegado, enquanto o arroz com pequi cozinha em fogo brando.
Quando estiver cozido o arroz, salpique o tempero verde por cima da panela e sirva quente.
Pronto, está feita a festa! Sucesso garantido!
E aí, aguaram ou não aguaram?
Atenção, Atenção! Cuidado com as atividades mais faceiras, pois o bicho, embora restaure as forças geradoras, é remoso e pode dar uma indigestão daquelas. Quem sabe até dá congestão, ai, ai...
Caso interessem, segue abaixo a lista dos ingredientes:
4 dúzias de pequi de Campo Azul (dos graudos);
4 copos de arroz;
1 quilo de carne de sol;
½ quilo de costelinha;
1 xícara pequena de óleo de cozinha;
1 cebola grande;
1 cabeça de alho;
½ quilo de tomate pocan (regateiro) – aquele pequeninho, redondinho;
1 colher sopa de corante;
Coentro verde em bolinhas;
Pimenta de cheiro;
Tempero verde picado;
Sal;
Farinha de Morro Alto;
Cerveja a rodo e pinga a revelia.
Se eu fosse vocês, e estivesse apartado a tempo, aproveitaria este dezembrozinho chuvoso e daria um pulinho aqui na terrinha para matar a saudade do arroz com pequi.


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Por Ucho Ribeiro - 20/8/2010 16:10:13
Meninos e meninas,

Agosto me traz a lembrança redemoinhos empoeirados, que bailavam pela cidade. Densas cirandas de ventos que eu pulava dentro, de um pé só, ressabiado, a procura do Saci Pererê e de suas estripulias. Era o mês dos ventos soprantes de araras, papagaios e pipas. Alísios que alçavam minha sureca (arara sem rabiola), vermelhamarela, losangular, saliente e atrevida. Raia que coroava o azul morno dos céus.

Os ventos chegavam sorrateiros, sem avisar, soprando devagarzinho, brisazinhas. Com o decorrer dos dias, iam engrossando, tomando corpo, e brotavam os redemoinhos. A meninada não tinha consciência cronológica dos ritos da natureza, agia instintivamente. Ventou, então estava na hora de soltar pipa.

Assim, a primeira semana de agosto era gasta no gosto de manufaturar araras e manivelas, de providenciar, no escondido, o pó de vidro e a cola de madeira para o cerol. De arranjar as taliscas de bambu no Pequi de Joani e descolar uns trocados para comprar os papéis de seda coloridos e os carretéis de linha 40 na lojinha do Seu Tamiro, na Travessa Cônego Marcos.

A chegada dos ventos levava a criançada para os finais das ruas, para os mangueiros, onde não havia postes de luz, nem os inimigos fios, ladrões dos artefatos de alegria. Ventanias que embicavam pelas ruas soprando catopés e embaralhando suas fitas de cores vivas. Poeira e brancura. Puras.

Nós, meninos, só queríamos olhar para os céus e ver nossas araras nas maiores alturas, sublimes, como um gavião reinante à caça de uma presa. Ficávamos de butuca a procura de outra pipa, içada por meninos de outros bairros. Os territórios e domínios da garotada eram demarcados pelos limites das ruas, mas o céu não era de ninguém. Lá em cima, no campo de batalha, valia tudo. Então, se víssemos uma arara empinada o desafio era certo e a conquista era resgatá-la com classe. A manha era dar fortes toques na linha, fazendo a pipa mergulhar lateralmente, em velocidade, até alcançar e laçar em 360º a outra linha descuidada. Fisgada, enlaçada, com ligeireza recolhíamos a presa na manivela e ficávamos no aguardo do envergonhado dono a procura da sua arara derrotada. O orgulho espirrava de satisfação. Aqui pra nós, pretéritos tantos anos, confesso: perdi a maioria das batalhas. Eu gostava mesmo era de “Cabaspará’, que meus primos de Belo Horizonte chamavam de ”Pentes Altas.”

Passados os ventos de agosto, a poeira, os catopês, os amarelos e roxos dos ipês, setembro surgia mais quente e trazia chuvas esporádicas. O pó sumia, a terra dura amolecia, os riscos das fincas e as bilóias apareciam. A meninada descalça, sem nem bem saber, esquecia as pipas, e furava o chão macio com o dedão. Estava na hora de desentocar as bolinhas de gude.

Dum dia para outro, não havia uma esquina que não tinha um bolo de meninos no “Gute please, todos”. Era assim mesmo, com essa mistura de inglês e português, que iniciava a partida de bolinha. Daí, um o garoto dizia: “bololô na minha, não dou nada e quero tudo”. Nada mais ditatorial. Quem gritasse primeiro esta frase, além de não poder ser alvejado, mesmo “estando no jeito”, tinha direito a todas regalias, mandingas e favorecimentos, tais como: mão quieta, mãos nos peitos, rondas... Cada um tinha sua bolinha sorteira (da sorte), o bolofofo (bolinha grande da cor de café com leite), a esfera minúscula e as “olho de gato” de matar de inveja.

E quem não brincou de “Guerau”, que traduzido ao Far West de outrora queria dizer “Get yours hands up”.

Bem, meninos e meninas de antigamente, deu saudade, né? Então, mate-a!

Neste sábado, dia 21/08, às 20 horas, no Skema Kent, estaremos reunidos para relembrar a nossa infância, quando “Éramos Felizes e Sabíamos”.

Apareça lá, e vamos reviver nossa Montes Claros Criança!


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Por Ucho Ribeiro - 1/7/2010 14:52:46
MENINICES

Sentados na cozinha da nossa casa, Marcinha e eu, garotos, ouvíamos embevecidos a prosa do tempo do onça de nossa avó Eny com a antiga cozinheira Joana. Recordavam conhecidos, distantes a muito: comadres, sinhás, agregados...
Joana coava um cafezinho e vigiava os biscoitos no forno. Vovó, aposentada a pouco do Dnocs, balançava a perna, pitava e soltava a fumaça em rodopios. Volta e meia entrelaçava os dedos e rodava os polegares em círculo. Para frente e para trás. Pressa? Nenhuma. A conversa ia maneira, parecia uma pescaria. Silêncio, silêncio, até que uma fisgava na memória um relembramento: “Ih, e Sá Joaquina? Passava roupa que era uma beleza. Tudo engomadinho, limpinho, alvim, alvim... Ouvi falar que uma neta dela, uma dos olhos gateados, amigou com um policial e mudou lá pros lados do batalhão. Mas num tá gostando não, dizem que o homem bate nela.”
Papo vai, papo vem, volta e meia pintava um pedinte para receber sua concha de feijão, que meus pais costumavam doar aos necessitados. Na cozinha, ficava um saco de mantimento, no seco e verde, que era distribuído no decorrer dos dias, ordeiramente, sem atropelos. Quando acabava, Benjamin, um empregado amigo, repunha um novo saco ao pé da porta.
Os mendicantes chegavam a nossa casa, que não tinha os altos muros de hoje, entravam pela garagem, punham a cara na porta da cozinha, davam um “bôoa”, estendiam seu embornal, ganhavam uma porção de feijão, deixavam um “Deus lhes abençoe” e iam embora providos. Uns, mais íntimos da cozinheira, eram adulados com café, pão e até prato de comida. Retribuíam o donativo com as novas da cidade, o disse-me-disse, um fuxico: “O menino de Leonel Beirão brigou lá nos Morrinhos, teve facada e tudo mais”.
Conversa vai, conversa vem, de súbito, surgiu um tipo horrendo, sujo, esfarrapado. A feiúra e o rompante foram tais que nos deram um grande susto. A pequena Marcinha, assombrada, abriu a boca. Num átimo, eu disparei: “tira a máscara, homem, tira a máscara, que ela pára de chorar”. Foi uma gargalhada só.
Passado o susto, os risos, as desculpas e a falta de graça, logo que o feioso foi embora, vovó Eny consolou minha mancada contando uma outra de sua filha Maria Jacy, minha mãe, quando menina.
Relembrou que outrora os viajantes a cavalo pousavam nas fazendas de conhecidos que ficavam nas ermas travessias. Normalmente, um cavalariano vinha na frente, avisando que fulano ou fulana com mais sicrano e beltrano iriam chegar ao final da tarde e solicitava pouso. O aviso evitava que o proprietário fosse pego desprevenido, dava tempo para lustrar a casa, esticar as roupas de cama, preparar uma comidinha e providenciar água quente para o banho tcheco. Ou melhor, tcheco, tcheco.
Pois bem, Vovó avisada da vinda da Sinhá Tiana, deixou escapulir, na frente da filha Jacy, a seguinte observação: “Oh, gente, a comadre Sebastiana é tão boa, tão prendada, mas dá pena a feiúra dela.”
Cici, pois, pequetita, ouviu aquilo e ficou esperando a chegada do estrupício. Lá pelas tantas, já entardecendo, foram para porta da fazenda aguardar o cortejo. Chegaram, desapearam. A menina Cici observava tudo, tanta gente nova, o cumprimenteiro geral, e não tirava os olhos da Sinhá Tiana, até que destramelou: “Uê, mãe, a comadre é feia, mas não é tão hor-ro-ro-sa assim como a senhora falô!”


59648
Por Ucho Ribeiro - 26/6/2010 20:14:46
Cansado, fugi hoje pela zona rural para tomar umas e saborear um franguinho, se possível, com abóbora e quiabo. Nem tão distante da cidade, encontrei um boteco com as portas viradas para o nascente, ventilado, debaixo de um frondoso pau-d`óleo. O céu estava azul junho, os cavalos amarrados ao redor e o povo curtindo o solzinho fresco. Entrei, cumprimentei apoucado uns e outros, pedi uma cerveja, encomendei o frango, avisei a falta de pressa e sentei numa mesa de madeira, ao canto. No princípio, fiquei assuntando a pouca conversa que girava sobre temas locais. Na parede do fundo, a copa era transmitida pela TV. O som baixinho.
Depois de ter tomado umas duas, desinibi, enturmei e caí aos poucos numa prosa amistosa e descompromissada com os moradores. Lá pelas tantas do segundo tempo, um deles me argüiu: “Oh, moço, esta Coréia e Uruguai são times de São Paulo ou do Rio de Janeiro?”.
Senti até alma que estava no lugar certo.


59236
Por Ucho Ribeiro - 12/6/2010 09:21:06
MONTES CLAROS LHE DEVIA PAIXÃO.

Ray Colares, que o consagrado Helio Oiticica vaticinou, na década de 70, ser “o grande jovem gênio brasileiro”, ressentia profundamente não ser reconhecido pelos montesclarenses. Lembro-me, no Rio de Janeiro, Baixo Gávea, Ray inconsolável, em pranto, lamentoso por seus conterrâneos não o conhecerem e nem valorizarem seu trabalho.
Entre um chopp e uma lamúria, sofejava: “E mês que vem eu vou de trem pra Montes Claros...”. Para logo em seguida, retrucar: “Não tenho nada com isso nem vem falar. Eu não consigo entender sua lógica..”.
“Cara, eu não entendo a lógica deles! Querem que eu seja artista e careta? Não dá! O Hélio é que dizia: Seja marginal, seja herói... Bicho, eles acham que eu aspiro é o abismo?”
Já com um chopp na mesa, levantava, pedia alto ao garçom outro e mais um uísque. Ao sentar, com os olhos brilhando, jurava que ainda iria pintar o teto de sua imaginável Igreja de Nossa Senhora de Montes Claros, onde dançaria fitado com os catopés e marujos. Pensativo, silenciava por um tempo e questionava: “Será que os riscos dos meus ônibus, dos meus quadros, são inspirados nas fitas dos catopês?” Nisso batucava na mesa o som dos tambores e dava um sorriso de criança. Felicíssimo Colares.
Ciclotímico, alternava momentos de depressão e excitação. Cantava “Amo Te Muito” para nossa Moczinha e em auto-reverse se dirigia aos desconhecíveis comensais das mesas ao lado, lamentando que ele não era querido em na sua cidade. “Lá, gente, imagine, eu só sou marginal, não sou artista”.
Daí, num susto, abria o JB na mesa do bar e repudiava os elogios do jornal às suas exposições nas galerias Paulo Klabin e Sarramenha no Shopping da Gávea. “Olha, Ucho, o Morais - referindo-se ao crítico Frederico Morais - ao invés de se conter em comentar apenas meus trabalhos, está dizendo que a minha vida é trágica. TRÁGICA? Trágica é a fome! Trágico é operário cair de andaime! Trágico é office boy morrer eletrocutado em trilho de metrô! Minha vida não é trágica porra nenhuma!. Eu não entendo a lógica deles!
Ray só queria ser amado, ser reconhecido. Era puro amor... não correspondido.
Pois bem, passados 24 anos do encantamento de Ray, enfim Montes Claros, tutorada por Viviane, Feli, Caíco, Fabiola e Andréa, resgatará a dívida de reconhecimento com o homem e o artista Colares. Cem criativos montesclarenses foram convidados e se dispuseram a prestar um tributo ao nosso gênio das artes. Receberam um guarda-chuva, como um substrato, para interferirem artisticamente em homenagem a Ray Colares e sua obra.
Os trabalhos de alta qualidade, estão divertidíssimos, bonitos de se ver numa exposição que acontecerá do dia 14 a 20 de junho, no Montes Claros Shopping Center.
É bom lembrar que a mostra tem caráter filantrópico.
Portanto, nesta segunda feira, dia 14, Ray receberá a maior demonstração de amor da sua cidade Montes Claros. Ele, agora, com certeza, estará encantado e em paz.
RAYMUNDO ETERNAMENTE FELICÍSSIMO COLARES.


58684
Por Ucho Ribeiro - 24/5/2010 17:10:21
Existe uma pequena fábula conhecida e transmitida pelos apaixonados por cachorros, que é sobre a fidelidade do cão de Mozart. É a seguinte:
Wolfgang Amadeus Mozart, o grande compositor, nasceu em 1756, em Salzburgo, na Áustria. Foi compositor do século XVIII e considerado um dos maiores músicos do mundo. Foi em Paris que suas primeiras obras publicadas apareceram, quando Wolfgang tinha apenas sete anos.
Mozart foi reconhecido por reinados de toda Europa. Entretanto, nunca soube lidar com dinheiro. A exploração de sua bondade e genialidade musical logo surgiu por parte de grandes oportunistas. Com poucos anos de casado, começou a ver sua vida desabar. A mulher abandonou-o. A mãe, que adorava, adoeceu gravemente. Mozart, sem dinheiro, vendia composições em troca de remédios para sua genitora, que morreu após alguns meses. Abatido e desesperançoso, Mozart caiu enfermo.
O seu fiel cachorro, o único amigo, foi quem ficou ao seu lado até o dia do seu falecimento, em 5 de Dezembro de 1791. Mozart foi enterrado numa vala comum, em Viena. Sua mulher, Constanze Weber, que residia em Paris, ao saber da morte de Mozart, voltou a Viena a fim de visitar o túmulo do marido. Ao chegar, entrou em desespero ao saber que Mozart havia sido enterrado como indigente, sem que lhe dessem nem uma placa com seu nome como lápide.
Era dezembro, em pleno inverno europeu, fazia frio e chovia em Viena. Constanze resolveu vasculhar o cemitério à procura de alguma pista que pudesse dizer onde Mozart fora enterrado. Procurando entre os túmulos, viu um pequeno corpo, congelado pelo frio, em cima da terra batida. Chegando perto reconheceu o fiel cachorro de Mozart.
Hoje, quem visitar Viena, verá um grande mausoléu, onde está o corpo de Mozart e de seu cachorro. Foi por causa do amor desse animal de estimação que Mozart pode ser achado e removido da vala comum onde fora enterrado. Ele permaneceu com seu dono até depois do final. Morreu junto ao tumulo de seu dono porque, sem ele, não poderia mais viver.


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Por Ucho Ribeiro - 20/8/2009 17:08:05
SER CATOPÊ

Ucho Ribeiro

Desde muito as cores das fitas e os sons das caixas dos Catopês me entorpecem.
Quando criança, ao final da aula do Grupo D. João Pimenta, segui atordoado aquele tum-trum-tum estonteante, ouvindo encantado o espocar dos foguetes e o bem-vindo sininho da antiga Igreja do Rosário. Fiquei ali horas, boquiaberto, me deliciando com o enlevo dos movimentos e das saudações ao São Benedito. Estava em transe com tanta glória e encanto quando fui puxado pelas orelhas e esculhambado pelo meu sumiço. Vexado por ter causado preocupações aos mais velhos - e com receio de uma sova - careci de coragem para inquirir o que era aquilo tão alegre e tão comovente. Cresci desejando pular para dentro daquela roda, daquele cordão de contentamento, mas as voltas da vida me afastaram para longe. Do distante só restou saudade dos matizes vivos das fitas arco-íricas e o pesar de não ter-me misturado em meia-luas com os Catopês.
Ao voltar à terra, a carranquice e o cotidiano sintonizaram-me às coisas menos importantes. O rito do dia a dia baixou a chama do menino, censurou seu fascínio e desejo catopêico. Vivi durante muito tempo um torpor para as coisas intangíveis, uma impassibilidade às ocorrências habituais, na busca peregrina do amplo acontecimento e da grande mudança.
Entretanto, os trancos e arrancos da vida, aos solavancos, me ensinaram que o ritmo tem que ser outro. O segredo está na simplicidade. Temos que perceber que tudo é um milagre e nosso maior poder é a capacidade de sempre agradecer a Deus. É a gratidão.
Resolvi, então, afrouxar. Frouxar a vida, as rédeas, os quereres e as rigidezes. Deixar estar. Procurar a humildade, que é a fé na sua expressão mais sublime.
Este desaperto do espírito somado aos incitamentos do Paulo Narciso, de Raquel e do meu padrinho Paulo Estevão, foram terminantes para tornar-me um Catopê. Paulo levou-me até Mestre João Faria, e o seu filho, o veterano PA, abençoou minha calorice. Raquel cuidou das minhas alegorias, emoldurando afetuosamente meu cocar com lantejoulas, miçangas e plumas de pavão.
Na quarta-feira a noite, estava pronto para altear o mastro de Nossa Senhora do Rosário e misturar o tum-tum-tum do meu coração com o tum-trum-tum das caixas, surdos, tamborins e pandeiros dos Catopês. A emoção transbordava por todo lado, por todos os poros, e mais ainda porque Tavinho, meu filho, sairia também no terno. Iria viver o que não pude viver na minha infância.
Ao chegar, Rubim e eu ouvimos o meu Mestre João Faria dizer: “Oh, os meninos, a alma precisa de festa.” E retrupicar : “Onde tem alegria não tem pecado”. Aquelas palavras bateram forte e de forma sagrada. Naquele momento decidi exercitar-me na fé e na alegria. Catopecizar na fé. Lembrar que a fé é o poder mágico. Isto não é uma coisa fácil, exatamente porque é muito simples. Procurei, então, esvaziar-me, deixar espaço para ela entrar. A alegria viria junto. Como veio. Ali, mais uma vez, aprendi que jamais devemos subestimar a simplicidade.
Chegou a hora. Concentramo-nos em uma rua quieta e escura. Os Catopês, para mim anônimos e desconhecidos, fizeram uma fogueira para afinar seus instrumentos de batuque. Aproximaram os tamborins e as caixas de folia junto do fogo para esticar o couro e apurar o som. Eu a tudo observava, sem entender bem o sentido das coisas. Receava também não dar conta de acompanhar o ritmo. Virgínia, filha do historiador Hermes de Paula, dissera-me que acreditava que a palavra “Catopê” era um vocábulo africano que significava batuque e eu, pobre de mim, jamais soubera batucar.
Partimos. Os dançantes me receberam como um deles e riram do meu desajeito. Ensinaram-me a batida de um toque lento e dois rapidinhos. Tum-trum-tum. Percebi que, além da fé, o riso é a única coisa que levam realmente a sério. Creio que é por isso que eles falam “brincar o Catopê”.
Frouxei-me ao ver Tavo ao meu lado, saltitando e batendo seu pandeirinho. A respiração ficou ofegante. Os olhos marearam. A face deixou escapar um sorriso longo e verdadeiro – como todos os sorrisos deveriam ser. Daí em diante, relaxei de vez, mergulhei inteiro nas festas, a gosto, passei a quinta e sexta-feiras; o sábado e o domingo em desatino, em desvario.
Voltei à minha menina Montes Claros, senti sua poeira e o seu calor, sua alegria. Experimentei o frescor da noite e o luar. Percebi, a cada passo, o lusco-fusco das luzes entrelaçar nas minhas fitas coloridas; senti o cheiro de manga rosa e do pequi. Ouvi os gritos alegres das crianças; o silêncio quieto das missas de Padre Quirino; vi em passeata as castas beatas irmãs imaculadas; o murmurejar dos mantras das novenas e dos terços. Relembrei o medo dos pecados e as pernas nas soltas camisolas das meretrizes da Rua de Baixo, prostitutas miúdas expulsas de casa pelo descuido no amor. Vesti-me dos redemoinhos poeirentos e voei alto em cor com as pipas e papagaios nos ventos do meio do ano. Senti o gosto dos infinitos biscoitos de Fininha, dos cocos e dos melados dos quebra-queixos de Mazaropi, dos tintos pirulitos em cone enfiados simetricamente na tábua pendurada ao pescoço de Pacífica. Ouvi em oração a sublime lamúria “Dê uma esmola a pobre cega que não pode caminhar...” Dilui-me em gostosos delírios.
Andei fitado, colorido, em rodopios pelas antigas ruas de Montes Claros, ao lado da alegria de Leonel e sua boneca; da singeleza e inocência de Tuia e seu bico alvo; dos faniquitos de Requebra que Eu Te Dou Um Doce; da obsessão de João Doido com “Terezinha é minha”; da solidão do nômade Galinheiro e sua enorme tralha em mudança; da beleza e jovialidade de Lena, quando era doida; dos invertidos Olhos Dessa Muquiça e o seu caminhão paramentado; e de Manoel Quatrocentos com Gina Lolobrigida e seus “Ô Lalaica” – toquei minha caixa de folia carinhosamente para cada um deles. Eu os vi e os ouvi, graças ao transe que vivi nestes dias. Viver Catopê não passa despercebido, não deixa ninguém incólume. Ninguém que foi tocado por aquelas tentáculas fitas continua o mesmo.
Dentro daquele turbilhão de emoção, percebi que além de fé e alegria, o que havia era solidariedade, generosidade e a mais terna amizade. Só consigo me lembrar dos brilhos dos nossos olhos e da frouxura dos nossos risos.
Assim aconteceu comigo. E nada mais posso fazer agora do que agradecer por ter tido tamanha oportunidade de ser Catopê. Ser Catopê é para mim um doce que derrete lentamente na boca e que não se gasta nunca.
Cada vez que os meus pés tocaram a calçada da Igrejinha do Rosário, ao lado de onde o sininho saúda a chegada dos Catopês, Marujos e Caboclinhos, e depois de testemunhar pelas ruas de Montes Claros as lágrimas, sorrisos e promessas dos meus conterrâneos, reafirmei o compromisso de devoção ao Divino, para sempre.

Para o ano eu voltarei para cumprir nova missão.

Viva os presentes. Viva os ausentes. O Catopê não tem fim...

Aúi!


46063
Por Ucho Ribeiro - 13/5/2009 15:23:14
As recentes pesquisas geológicas realizadas no entorno da Lapa Grande foram recomendadas por Auguste De Saint-Hilaire, em 1817, quando em andanças pelo sertão mineiro pediu, em seu livro “Viagem pelas Províncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais” (p. 312), que geólogos pesquisassem as cavernas desta região a procura de ossadas de animais pré- históricos. Vejam sua solicitação transcrita abaixo e a respectiva nota de rodapé 486, na qual cita a passagem dos sábios viajantes Spix e Martins pela gruta :
“Seria para desejar que algum geólogo visitasse com cuidado as grotas do deserto. Encontraria aí provavelmente ossos fósseis, pois que me deram em Vila do Fanado um dente de mastodonte, que está atualmente no Museu de Paris, e me disseram ter sido encontrado em um terreno salitrado do sertão. Não sei bem mesmo se não me falaram de ossadas descobertas nessa região”.
“486 - Depois que esse capitulo foi redigido vi, pelo livro dos Srs. Spix e Martins, que eles realizaram o voto que eu exprimira. Os geólogos provavelmente não lerão sem interesse a descrição que esses sábios deram da caverna vizinha de Formigas que chamaram de Lapa Grande, e onde encontraram ossadas de tapires, coatis, onças e megalonyx. Parece, aliás, que a Lapa Grande já não era mais explorada quando foi visitada pelos Srs. Spix e Martins –.”


45938
Por Ucho Ribeiro - 8/5/2009 11:44:33
CURIMATAÍ/CURUMATAÍ

Relendo mensagens passadas do Mural defrontei-me com a nº 44.689, de 23/03/2009, encaminhada pelo conhecido colunista Haroldo Lívio, levantando a questão sobre os nomes Curimataí e Curumataí.
Tempos atrás, por curiosidade, já me questionava sobre os nomes dos rios Jequitaí, Pacuí e Curumataí, muito parecidos, todos com o sufixo (í).
Passei, então, a pesquisar e percebi que os topônimos - nome próprio de lugar - têm normalmente uma de duas origens lingüísticas: a nativa, em língua tupi-guarani, ou a européia, em língua portuguesa.
Igualmente, os hidrônimos - nomes de rios - obedecem ao mesmo padrão e, no caso específico destes nossos rios, a origem está na língua tupi guarani.
Falar em tupi guarani não é fácil, pois é uma fala gutural, que vem da garganta.
Por exemplo: ( i ) é pequeno e ( í ) é água (se pronuncia com a língua no céu da boca).
Porém, em tupi (í) , (i), (y) e (yy), normalmente significam água, rio.

Vejam bem, pela língua tupi-guarani:
Pacuí é rio do Pacu; Jequitaí é rio do jequitá, que na língua nativa quer dizer palmeira (Desmoncus rudentum); e Curumataí é o rio do peixe Curumatá.
Mas voltando ao nome do distrito de Buenópolis, cabe destacar que nos relatos de viagens pelo sertão de Minas, Auguste De Saint-Hilaire, o observador e naturista, faz o seguinte registro: “ao deixar o Deserto, subi a serra do CURMATAÍ, para entrar no Distrito dos Diamantes, (...) em 22 de setembro de 1817(...)”.
CURMATAÍ era a passagem do caminho real que, nos tempos do Brasil colônia, ligava Diamantina ao norte do país.
Ainda hoje se pode ver e percorrer este histórico caminho, que se inicia ao pé da serra, no sítio de Valeriano Braga e, logo em seguida, no primeiro pouso da subida, tem-se um curral de pedra que funcionava como um posto de fiscalização da coroa, e de onde se avista a amplitude do sertão.
Portanto, em seus escritos, Saint-Hilaire identifica a antiga passagem dos vales do Jequitinhonha para o São Francisco como CURMATAÍ. Grafia que, intencionalmente ou não, omitiu uma das vogais em questão, (U) ou (I).
De acordo com o Aurélio: Curumatá, de origem tupi, é a designação de diversas espécies de peixes do Amazonas e do Rio São Francisco e Curimatá é nome dado à zona das Caatingas, apropriada a criação de gado.
Podemos deduzir, então, em concordância com o Sr. Haroldo Lívio, que o rio chama-se Curumataí - Rio do peixe Curumatá.
Já a localidade, Curimataí. Topônimo provavelmente procedente de caatinga.
De sobra, fuçando os dicionários tupi-guarani, acabei aprendendo que:
Acarai é rio do acará ou cará; Anhangay: rio do diabo; Camboi: rio das vespas; Canguari: rio do extremo; Capivari: rio da capivara; Iguaçu: água grande, lago grande, rio grande; Iguatemi: rio verde escuro, rio sinuoso; Imerim: rio pequeno; Ipanema: rio, água ruim, imprestável, lugar fedorento; Ipiranga: rio vermelho; Irani: rio do mel; Iririu: rio da ostra; Itacorubi: rio das pedras esparsas; Itai-guaçu: rio da pedra grande; Itai-mirim: rio da pedra pequena; Itaipu: barulho do rio das pedras; Itajai: rio do taiá; Itinga: rio branco, água clara; Piauí: rios dos piaus; Pirai mirim : rio de peixe pequeno; Pirai piranga: rio do peixe vermelho; Pirai: rio do peixe; Sapucaí: rio das sapucaias; Tamanduatey: rio que faz muitas voltas, rio torto; Uruguai: rio dos caramujos; Guaíba: gua (grande) + y (água, rio)+ ba (lugar) = "lugar de água grande"; Açaí: fruta que chora, fruta de onde sai líquido.
E aí, quem conhece outros rios no norte de Minas que tenham nomes com sufixo e prefixo em (i)?


44989
Por Ucho Ribeiro - 2/4/2009 17:02:09
VERITAS QUAE SERA TAMEN

Até quando chamaremos o maior feito dos mineiros de Inconfidência Mineira?
Como podemos aceitar, ainda hoje, uma identificação tão desapropriada para o maior movimento patriótico de libertação do Brasil?

O que significa inconfidência?
De acordo com o Dicionário Aurélio:“Falta de fidelidade para com alguém, particularmente para com o soberano ou o Estado. Abuso de confiança, deslealdade, infidelidade. Revelação de segredo confiado.”

Portanto, inconfidência é quebra de segredo, alcaguetagem. Nome escolhido estrategicamente por Portugal para batizar e homenagear a deduragem do, de fato, “inconfidente” Cel. Joaquim Silvério dos Reis.

A tirania portuguesa não só extinguiu a conspiração mineira como obrigou todos os brasileiros, desde então, a comemorar civicamente a vergonhosa delação.

Como a história é sempre contada pelos vencedores, por quem perpetua no poder e tem o controle político e ideológico da situação, restou a nós, brasileiros, há quase 200 anos, feriar o dia 21 de abril, impatrioticamente, reverenciando a interesseira deduragem feita por um coronel, a época, grande devedor do erário português.

O pior foi a propagação de inverdades, como a divulgação que Joaquim José da Silva Xavier era um traidor, um simples tirador de dentes, um reles soldadinho... Tiradentes era, na realidade, um homem do povo, de origem humilde, um alferes, fazia parte do regimento militar dos Dragões de Minas Gerais e exercia com dignidade diversos outros trabalhos, dentre eles minerador e tropeiro.

Ultimamente, pesquisadores, catedráticos e historiadores desvendaram e reconheceram a vida e as obras de Tiradentes. O revisionismo histórico iniciado com a publicação dos Autos da Devassa (1936/38) e a liberdade de pensamentos iniciada a partir de 1945 revelaram o verdadeiro Tiradentes: Um brasileiro visionário, estadista, um líder de homens influentes e letrados, que tinha um projeto para o Brasil e até uma utopia republicana de um país livre, soberano e próspero.

A atual Ouro Preto, na segunda metade do século XVIII, era a urbis mais importante, rica, populosa e culta de toda a América, inclusive a do Norte.

Apenas a simples pujança da impetuosidade não seria suficiente para um pueril alferes se destacar na efervescente vida comercial do Rio de Janeiro e na aristocrática sociedade de Vila Rica, a ponto de alavancar uma promissora revolução ou instigar a burguesia a um levante.

Tiradentes detinha também carisma, liderança e prestígio consolidados, do Rio de Janeiro a Vila Rica. Ao contrário do que foi propagado por Portugal, era instruído, articulado, orador eloquente e um homem viajado. Havia estado na Europa, em companhia do Padre Rolim, para imergir-se nos ideais de liberdade da Revolução Francesa, ocorrida em 1789. No sul da França, encontrou-se com Thomas Jefferson, a procura do apoio dos já libertos Estados Unidos (1776), para a projetada guerra de libertação do Brasil.

Destemido e lúcido, Tiradentes sonhou e lutou para criar uma nação brasileira fraterna, livre e soberana.

Ainda que tarde, é hora de nos levantarmos em defesa da nossa história de liberdade.
Como escreveu Mauro Santayana, redator dos discursos de Tancredo: “Liberdade é o outro nome de Minas”.

Precisamos mobilizar as lideranças mineiras para mudar o nome dado ao nosso maior episódio da história pátria.

É premente que seja abolido dos nossos livros escolares e das nossas comemorações cívicas a ultrajante titularidade “Inconfidência Mineira”, que blasfema a heroica trajetória de Tiradentes, nosso mártir da libertação Nacional.

O próximo 21 de abril é o momento ideal, ainda que tardio, para o nosso governador sancionar uma lei corrigindo esta inverdade e batizar o maior feito dos mineiros, o maior movimento patriótico de libertação do Brasil de “A Conjuração Mineira”, ou então, “A Libertação Mineira”.

Que Minas aproveite o Dia de Tiradentes e dê o seu grito de independência, reafirmando a sua importância na história brasileira e no cenário político nacional.

Eis aí, Governador Aécio Neves, a oportunidade de decolar sua candidatura à Presidência da República. Em Ouro Preto, o palanque estará montado, os holofotes acesos, a mídia e a atenção nacional presentes, só falta lapidar o discurso.

Santo Santayana, faça de São Paulo o nosso Portugal!

Ps: Lembre-se Governador, no ano que vem, no dia 21 de abril, o senhor estará afastado do cargo para se candidatar e não terá o palco para se lançar nacionalmente.


44746
Por Ucho Ribeiro - 25/3/2009 17:03:22
INCUBAÇÃO

Apartado da política, agora com tempo para circular, conviver e trocar idéias com as pessoas, testemunho como os tempos mudaram. Ninguém tem mais paciência para discurso político, estômago para reuniões partidárias e disposição para levantar bandeiras contra isso e contra aquilo. O desdém para a coisa política é assombroso. Nem mesmo quem está envolvido na vida partidária ousa, como antigamente, defender altos ideais: “Reforma Agrária, Anistia, Educação para Todos, Demarcação das Terras Indígenas...”.
Afinal, há quanto tempo não vemos uma arregimentação reivindicatória? Uma mobilização política? Um protesto? Quando ocorreu a ultima grande passeata - sem ser paradas gay?
Pelo visto, cada um está querendo é cuidar de si, sobreviver, se virar, dar asas a seus sonhos, sustentar sua família. As favas com a militância, a atuação política e os demagógicos estandartes.
Fui me dando conta de que as pessoas cansaram de ser carneirinhos e maria-vai-com-as-outras, descobriram com o tempo que o jeito de melhorar o mundo é sentar, conversar e cada um fazer um pedacinho, em vez dessa baboseira de fazer barricadas e odiar quem pensa diferente.
A geração das passeatas, dos protestos, das décadas de sessenta e setenta, hoje no poder, traiu seus ideais, rasgou os cartazes, recolheu as faixas, silenciou os microfones, esqueceu os valores éticos e, de través, prega agora a governabilidade, a política de resultados. Acabou-se o sonho! O onírico foi substituído pelo pragmatismo.
Muitos largaram a política, mas a maioria que permanece militante sustenta que, de certa maneira, neste meio, tem que sujar um “pouquito las manos”. Triste, né? Uma coisa é fazer alianças, acordos políticos em função do bem público. Outra, é exceder os limites, extrapolar, se locupletar. É intolerável tanta falta de ética.
Sem ética, sem ideais, não há política decente, digna.
Paralelo a este esmorecimento político tenho percebido que está surgindo em Montes Claros, Japonvar, São Paulo, China e Conchinchina, no mundo todo, um movimento silencioso, um novo jeito de pensar, agir e comunicar. Uma mobilização individual, livre, autônoma, crescente, imensa, que numa velocidade devastadora se espalha por todos os cantos do planeta.
A bandeira maior do movimento é a independência. As pessoas, principalmente os jovens, querem viver por conta própria, donos de seus narizes e negócios, sem chefe e horários, sem dar satisfação ao estado e a igreja. Não estão à procura de altos salários, nem segurança no emprego, buscam a liberdade, a autonomia. O alvedrio.
Hoje não há uma geração. Há tribos, galeras, turmas, cúmplices. A grande simbiose está sendo feita pela internet. Ela tornou possível que pessoas de interesses comuns se agrupem, conheçam, troquem idéias, tracem planos, projetos e fecundem coisas grandiosas.
Neste momento, neste exato segundo, milhões de conexões, entendimentos, sugestões e alquimias estão sendo realizadas. Tudo misturado numa panela, sem censura, sem termo, sem medida. São agrupamentos informais de cérebros, delírios e descobertas, sem que cada um perca sua individualidade e não deixe de perseguir seu objetivo pessoal, seu sonho, e mais, sem ter que prestar satisfação a seu ninguém. Servem-se da conexão internética para trocar idéias e ficar mais fortes e mais independentes.
São milhões de pessoas inquietas, irreverentes, céleres, que mesmo sem coordenação e consciência, mas numa rede colaborativa, mudarão intuitivamente o mundo - ralearão a burocracia, estremecerão os governos antiéticos e sabotarão os poluidores do meio ambiente.
Não podemos ter má vontade com esta nova gênese, pois nem eles, nem nós sabemos onde vamos parar. Uma coisa é certa, melhor interagir na internet do que ficar passivo na frente da televisão. Hoje, todos têm o direito a informação e a expressão. Acabou a época em que uns poucos privilegiados criavam e pensavam para quase totalidade e passiva assistência. Todo mundo pode criar, brincar, sugerir, expressar, produzir. Vejam o You Tube, os infinitos blogs na net, vejam o formigueiro de informações que é o mural do montesclaros.com!
Estamos vivendo em tempos exponenciais. O que não encontramos no Google? Segundo pesquisa, “existem mais de 330 bilhões de procuras no Google todo mês: 11 bilhões por dia”. A quem essas perguntas eram feitas antes? E as respostas, as informações captadas, a que se destinam?
Atualmente, um mundaréu de jovens já desconfiou que estuda para se preparar para empregos que ainda não existem, para usar tecnologias que ainda não foram inventadas, a fim de resolver problemas que nem sequer sabem se realmente existirão.
Estamos preparados para perder nossos empregos? Para o desaparecimento de nossas profissões? Para buscarmos uma nova e inimaginável fonte de renda?
Alertem-se, a queda entre as fronteiras do conhecimento será cada vez mais veloz. Tratem de aprender a aprender, de pensar com a própria cabeça, passem a agir estrategicamente com originalidade. Procure a evolução por conta própria, com base no emergente e no futuro.
Pode ser um delírio internético, mas tudo isto me instiga e me provoca, pois embora o mundo esteja mais complicado e vulnerável, está mais vibrante e interessante.
Afinal, a velocidade das mudanças e o questionamento de toda e qualquer premissa acabam colocando as coisas de cabeça para baixo, que não deixa de ser uma maneira diferente de ver o mundo.
E a percepção do mundo de vários pontos de vistas só tende a acelerar o processo criativo, que, por sua vez, é o dínamo desta nova estufa incubadora.
Já dizia Gandhi: “Seja a mudança que você quer no mundo”.


41450
Por Ucho ribeiro - 9/12/2008 14:25:45
Depois de dias de chuva, o sol surgiu, trouxe luz e sombras claras. Tudo está admirável, radiante, resplandecente.
As plantas aprumaram-se, sacudiram as gotículas das folhas, empinaram-se altivas, vaidosas, em flerte com o sol, loucas para agradecer e exibir contentamento pela estiagem. A exultação é tamanha que alegra os passantes, os passarinhos, os andantes, os insetos e todo o entorno se multiplica em deslumbramento.
Defronte, de tanto espetáculo, de tamanha imensidão de detalhes, me amiúdo. Percebo minha pequenez e, só em olhos, mergulho nas minúcias da natureza. Desplumo da minha razão, sou êxtase, levado pelo prazer dos pormenores.
A beira do lago, não vejo água, miro apenas no seu, meu reflexo. Espelho do céu azul reflete pássaros que riscam a lâmina inerte e lisa. Bolas de nuvens, tufos de algodão, branqueiam o espelho que está a quarar ao sol.
Na margem, o seco cisco sem bolor, embola cascas de besouros e asas de mariposas. Aparto formigas do carreiro e me divirto com o seu universo bidimensional. Viajo no sobe e desce das suas escaladas acrobáticas, sem noção de estarem em cima, embaixo, de lado ou na vertical. Fico a contar e a observar as pernas dos insetos e suas serventias, as nervuras e dobradiças dos seus corpos. Submerso-me nos detalhes e transparências dos tênues tecidos das asas, desenhos de filó e crochê. Embasbaco-me com a fartura da natureza, com a multiplicidade do universo.
Porque nos prendemos a tão pouco e não nos rendemos a diversidade da vida?
Tropeço os olhos em sementes diversas em feitios, texturas e desenhos, infinitas em tamanhos - de minúsculos a descomunais - células da vida, multiplicadoras das existências.
Diante de tanto fascínio e deslumbre, ressuscito a consciência e comprometo-me a montar o meu museu da semente, o germe da vida. Passarei a colecioná-las, considerando tamanho, formato, função, cor e textura. Pesquisarei seus contornos, silhuetas e aerodinâmicas, a fim de saber como suas formas as ajudam a reproduzirem-se. Algumas planam, outras voam, outras tantas explodem e saltam em busca do sol, da luz, para germinar, crescer e proliferar.
Além de matizes variados, dos calibres diversos, elas têm os mais espantosos invólucros: uns são como uma bola, outros como uma espada, uma granada, uma hélice, uma espuma ou pluma, cápsulas que as ajudam na travessia da sombra para a luz, no pouso e no adubo do novo grão.
Espantosa engrenagem ininterrupta, ensinando que podemos nascer sempre, sempre que quisermos!


39970
Por Ucho Ribeiro - 22/10/2008 17:16:29
O Rio Preto, santuário das águas - onde reside a beleza - ameaçado de assoreamento!
Uma truculenta estrada pavimentada, nos moldes de uma BR, está programada para ser construída nas margens do Rio Preto, em direção ao parque estadual.
Segundo os engenheiros entendidos em auto-pistas, a rodovia foi planejada para dar fluxo aos veículos dos turistas. Por conseguinte, o projeto prevê uma estrada ampla, com reduzidas curvas e sem os acentuados aclives e declives, hoje existentes, para que os automóveis dos visitantes desloquem rápidos, em velocidade razoável e constante.
Há muito o povo riopretano reivindica um caminho decente até o parque, um corredor adequado para escoar seus excedentes da lavoura, uma passagem segura para trafegar a pé, a cavalo e de carroça, pois estes são os seus usuais meios de transportes. O desejo é antigo, até histórico, pois trata-se de uma estrada centenária, caminho de tropas, que integra o circuito da Estrada Real.
A comunidade local aspira uma estrada calçada e segura, mas singela e discreta, com o revestimento implantado no estável piso atual e com uma pista acessória para os caminhantes e cavaleiros trafegarem seguros, sem apreensões. Pleiteiam que o projeto preveja baias, mirantes e preocupe mais com as contenções das encostas, os assoreamentos, as erosões e o reflorestamento das margens do rio Preto.
Todos querem a estrada calçada, é verdade, se possível com calçamento poliédrico, mas desde que mantenha o seu trajeto atual, com suas sinuosas e belas curvas que margeiam o despoluído e majestoso Rio Preto. Reivindicam também retentores de velocidades, para que os motorizados trafeguem devagar e contemplem a beleza das matas e das alvas praias.
Provável é que a implantação do Projeto do DER, já com Edital de Licitação da Obra, venha causar o assoreamento do Rio Preto, pois extensos cortes de terra e aterros serão realizados em quase toda a extensão das margens do rio. Serão atingidos os córregos afluentes, várzeas, brejos, matas ciliares e outras reservas florestais, o que, inevitavelmente, provocará a obstrução e o comprometimento do curso perene do Rio.
Contamos com a ajuda e empenho de todos na defesa do Rio Preto.


38135
Por Ucho Ribeiro - 29/8/2008 15:46:11
Conheço há muito a escondida e singela Igrejinha de São Marcos. De tão pequena, parece infantil. Fica ligeiramente oculta, um pouco além da mata rala que beira a estrada rural em cima da Serra do Ibituruna.

Na verdade, está nas cercanias do antigo atalho que ligava pelo alto o distante Bairro Todos os Santos - antigo Pequi de Joani - ao velho caminho que ia para Coração de Jesus, hoje, uma pequena estrada que passa ao lado das torres de televisão e que, nos finais de semana e feriados, é uma gostosa e oxigenada trilha para andarilhos e ciclistas.

Lá de cima, na brisa, vemos e ouvimos o barulho turro e surdo de Montes Claros. No período das chuvas, que começa daqui a algumas semanas, o caminho vira um quiabo, é quando os motoqueiros e jipeiros se divertem em escorregas, deslizes e atoleiros.

Neste mesmo período do ano, em campanha eleitoral passada, a Igrejinha, já a época, abandonada, mas não tão depredada, foi cenário de um clip musical, quando uma linda criança cantou um hino a Montes Claros. Entretanto, o abandono, somado a ação de vândalos, quase a destruíram.
Nos últimos tempos, aquele santo lugar era utilizado até para culto ao satanismo. As paredes estavam pintadas de vermelho sangue, desenhadas e grafitadas com figuras demoníacas e frases indizíveis.

Estou feliz com as boas novas!
Ditoso em saber que montesclarenses de coração, como o presidente Adair do Trail Club, o Janjão Santiago e seus companheiros trilheiros, bem como o arquiteto Leo Assis estão recuperando aquele pequeno grande santuário.
Parabéns!


37978
Por Ucho Ribeiro - 25/8/2008 18:29:46

VER PARA CRER

Em São Gonçalo do Rio Preto, no alto Jequitinhonha, tem uma única borracharia e um cego borracheiro. Isto mesmo, um único e cego borracheiro!
Curiosamente os riopretanos consideram a coisa mais natural do mundo ter um borracheiro privado das vistas. Acreditam até que remendar pneus é habilidade exclusiva para quem é cego. Afinal, sempre foi assim!
Sua vida é doação, seu ofício é um sacerdócio a serenidade, um regozijo no servir. Não é de muitos risos, mas expande simpatia e gratidão. Ninguém passa incólume pela experiência do convívio - por mais breve que seja - com o Eli. É inevitável uma chamada a nossa consciência em repúdio aos nossos corriqueiros orgulhos e ambições. Esta introspecção providencial leva-nos a percepção da falta de sentido das nossas correrias, insatisfações e infortúnios e a observância do verdadeiro significado da vida.
Eli é um exemplo de paz neste mundo alucinado, célere e cobiçoso. De origem humilde, nasceu e viveu no vale Jequitinhonha. Até os 12 anos, quando sua visão apagou de vez, enxergou pouco e diminutamente. Hoje, no breu, ilumina-se em admirável luz pessoal. Resplandecente!
Antes, ainda rapaz, dentro de suas limitações, tentou alguns tratamentos, mas desenganou-se. As expectativas eram muitas para nenhum resultado.
Como a medicina evoluiu muito, principalmente a oftalmológica, procurei Fred e contei-lhe a situação. O Mano – oftalmologista – inteirou-se do fato dispondo-se a fazer os exames necessários e operá-lo, se fosse o caso. A mim caberia a preciosa incumbência de trazê-lo de Rio Preto para Montes Claros e, aqui internado, faria exames modernos obtendo um diagnóstico preciso do caso. Feito isso, ele poderia, quem sabe, recuperar alguma, ou toda, visão. Surpreendentemente, Eli, sem desdenho ou revolta, agradeceu-me humildemente, negando se submeter a tais intervenções. Não queria criar expectativas para o desconhecido. Receava desiludir-se novamente. “Sou feliz desse jeito e grato pelo que tenho: profissão, família e ... reconhecimento”, arrematou.
Além de ser o único borracheiro num raio de 30 kms, Eli improvisa, também, como mecânico, arruma correntes, coloca raios em motos e bicicletas e faz outros pequenos consertos. É um verdadeiro encanto vê-lo desmontar um pneu de trator ou de carreta que chegam, algumas vezes, a ter o tamanho dele. Encara a empreitada, singelamente, aos apalpos – tateando o veículo, as rodas e suas ferramentas.
Estar em frente da sua borracharia, num sábado de manhã, assistindo o rito dos seus trabalhos, apreciando aquele monumento de simplicidade exercer dignamente o seu ofício é, antes de um privilégio, um culto ao milagre da vida. Quando, pela primeira vez, vi o Eli trabalhar, mareei os olhos e agradeci a Deus por mim e por ele.
Na calçada, em frente sua borracharia, tem uma linha amarela para demarcar o local que ele pode e precisa andar livremente. Neste perímetro, Eli é o único protagonista, não se pode parar, estacionar, nem colocar pneus furados ou quaisquer outros objetos em seu espaço de movimentação, senão ele pode tropeçar e cair. Os meninos da cidade utilizam seu calibrador para encher os pneus de suas bicicletas e, em respeito, o recolocam no local.
A seqüência dos fazeres de Eli é a execução detalhada de um planejamento minucioso e preciso. Ele retira a roda do carro, do trator ou, seja lá do que for, limpa o pneu com uma vassoura, independente de estar sujo ou não, remove a câmara de ar, enche e a coloca numa descascada banheira esmaltada cheia d’água, para escutar o borbotar das borbolhas. Apalpa pacientemente a superfície à procura do furo - quando o buraco é minúsculo passa a câmara no rosto - pelo tato facial sente o ventinho saindo de algum orifício. Descoberto o furo, marca o local, raspa ao redor do buraco, cola o remendo, coloca na velha máquina de pressão e aí sim, na espera, proseia: “Conheço essa câmara de ar! O concerto anterior ficou bom?” E continua recomendando um manchão e minuciando sobre o diversificado e encantado mundo dos remendos. Findo o tempo de colagem, confere o serviço e volta com a câmara para dentro do pneu e da roda. Se o pneu é grande, a última etapa exige um trabalho árduo, e o Eli faz tudo sem pedir ajuda, na maior resignação e ciência. Todo o trabalho é feito no seu comodozinho, na penumbra, lumiado apenas pela rubra luz da máquina coladora de remendos. Prá que lâmpada para quem enxerga tão bem?
Imagino que Eli não tem concorrentes porque ninguém ousa se posicionar como tal, mas o que nos deixa descalibrados e instigados a simplificar e agradecer a vida é ouvi-lo perguntar: - Quantas libras?


27688
Por Ucho Ribeiro - 6/9/2007 09:56:46
Memórias da Minha Infância Parte VII

VOVÔ PACÍFICO

Vovô mergulhou minha infância na natureza. Mostrou-me a semente, o plantio, o cultivo e o fruto. O doce e o amargo. O bicho e a goiaba. Vovô me fez terra, minhoca, ovo e galinha. Ele me fez abelha, pólen e mel. Ensinou-me agasalhar enxames, formar colméias, colher o mel e a cera, conhecer o zangão e a rainha. Mostrou-me a vida operária. Fez-me sentir o orvalho e a luzes matinais. Perceber o frio na entrada do sol. Ensinou-me fazer fogo e apagar fogueiras. Achar água limpa, o remanso, o sossego, as sombras e os frescores. Apontou-me o beija-flor sedutor e a flor seduzida. Despertou-me para o vôo gaguejado das borboletas, para os dribles das andorinhas, para os trinados dos chapinhas, para o pedreiro João de Barro, para a reza dos sabiás. Mostrou-me como ensinar o assobiático hino ao sofrê, cuidar do guatis e dos mãos-lisas, descascar cana e colher amoras, roer pequi e encontrar sua castanha, juntar tanajuras e colocá-las para brigar, focar no piscar do tiché das éguas quando estas urinam, tratar dos arreios e o arriar, trotar cavalos e bicicletas, construir bilboquês e manivelas, criar e soltar pipas, deduar bilóias e olhos de boi na terra molhada, diferenciar cobras domésticas das peçonhentas, retirar o veneno e brincar com a serpente em bolsos e chapéus, gostar de lanternas, facas e canivetes, construir aratacas, armadilhas, ceveiros, visgos, bodoques, arapucas e estilingues.
Lembro-me do dia em que vi pela primeira vez um passarim canário ser pego numa armadilha. Cedo vi Vovô colher o bambu e o arame. Com o alicate, mediu, moldou e edificou o alçapão. Percebi ali o desejo, o afinco, a concepção, o planejamento, o foco, a construção, a espera e o desfecho. A materialização do sonhado. Vi Vovô preparar o laço, a armadilha e a canjica. Transformar o canário em vítima da própria fome.
Isto tudo aconteceu no decorrer de um dia. Assisti e ajudei com os olhos toda aquela operação. Menino de quatro a cinco anos, calado, atento - aprendiz. Quando vi e ouvi o plá do desarme do alçapão, não acreditei, explodi, gritei, gritei, corri, corri por todos os lados e ao redor do amarelim armadilhado. Estava em descontrole, excitado, desparafusado. Vovô me pegou, me levantou e me sacudiu por um par de vezes, dizendo: Menino! Menino!!! Calei-me estatelado. Cai na real. Ali, Vovô ensinou-me que eu poderia interferir na vida, no mundo. Percebi, garoto, que não deveria ser apenas platéia, mas coadjuvante e protagonista da vida.
Meu Avô tinha todo o tempo do mundo com a gente. Vivíamos em torno dele.
Educou-me em pessoas. Mostrou-me quem é vagabundo, ativo, ladino, preguiçoso e trabalhador.
- Este aí, Ave Maria, você pode desistir, olha o jeito de caminhar, parece que está escorando;
- Presta não, sinta a mão lisa. Este tem ojeriza de serviço pesado;
- Quem muito mostra os dentes quer morder;
- Todo criador de canário de briga é boa gente. Pode confiar;
- Cabo de enxada para aquele ali, só serve para dar de mamar;
- Olha no meu olho, seu merda, tá escondendo o quê?;
_ Não arrodeia não, vá direto ao assunto!;
Além de instruir-me em conhecer gente, ensinou-me a viver, perceber e apreciar o longo do dia: o espreguiçar, o acordar, o vermelhar do horizonte, o desamarelar do sol, os cantos dos bichinhos, o pru-ru-ru-ru ti-ti-ti às galinhas, o colher dos ovos, o choco e o chocar, a tratar das gaiolas dos passarinhos, o apartar dos camaradas na distribuição dos serviços, o leite e a espuma no curral, o cheiro de estrume e das tortas, o pear e o despear do rabo e do bezerro na vaca, a cura das bicheiras, a mansidão em devolver em aboio o gado para o pasto, a prosa com os peões escorados nas enxadas, o percorrer a cavalo os cantos e as cercas, a conversa séria dos porquês de tudo, e também dos “é porque é”, o lavar as mãos para a refeição quentinha e sustançosa, o melado com farinha e mandioca, o repouso depois do almoço, o despertar do cafezinho, a vistoria vespertina nos serviços, a colheita das frutas para dar e acarinhar as pessoas, o bater do feijão e o debulhar do milho, os ensinamentos e as brincadeiras com os cachorros, a espera terna da vinda de Vovó do Dnocs, a prosa dos dois, sem compromissos e cobranças, o poente entardecer, o recolher e o empoleirar dos bichos, a temperança dos jogos de paciência, na espera de Titavo e Dindinha chegarem para o buraco, a moleza e o cansaço tomando conta do corpo, o sono de mansinho amolecendo a gente, e o “tá na hora de ir pra cama.” Boa noite, cambada!”

Bença Vô,

Bença Vó...


27372
Por Ucho Ribeiro - 24/8/2007 17:41:54
Memórias da Minha Infância Parte V

VOVÔ PACÍFICO

Ucho Ribeiro

Uma das vezes que Vovô veio passear nas “nossas” férias, ao chegar na estação sentenciou: “Desta vez, vou transformá-los em cabras-machos.
Pronto, estabeleceu-se a escravidão de mala e cuia na Rua Cel. Luis Pires, 80. a tirania imperava. O tempo era regido por suas ordens e contra ordens. Éramos servos das suas vontades e de seus horários. Ele passava a ser o algoz de nossos dias.
A sessão de tormento iniciava-se ao despertar, de Vovô. O pacífico acordava-nos com todo tipo de perversidade: mosquitinhos no nosso rosto, água gelada no ouvido, algodão pegando fogo entre os dedos do pé, caminhos de rato em nossos cabelos, derrubando a gente da cama, quando não entrava batendo panelas aos gritos: ”acorda, bando de frouxos!”
Daí, tocava-nos para o jardim e açoitava-nos, com berros, para correr, saltar, flexionar, contorcer, exercitar, além da exaustão. Tudo isto aos urros, ao lado do quarto de Mamãe e Papai:
- Fred, seu maricas, trate de correr com vontade, parece que você tem o cu pregado nas pernas...;
- Ucho, seu bosta rala, você tá é querendo uns cascudos, né?
- Paulinho ... não empurre Marquinhos;
- Fiquem sabendo, é mais fácil eu ir pro céu do que vocês ficarem frouxos!
Papai e Mamãe dormiam. Nunca consegui entender como eles podiam ter o sono tão pesado.
Depois daquela ordem do dia, que continha até sessão de musculação com a mão do pilão e com um imenso osso de baleia, ambos servindo de alteres, era a vez das as aulas de jiu-jitsu.
Segundo o mestre Pacífico, ele teve que aprender esta arte para se vingar de uma surra que levou do Gedeão, no Grambery. Passou 10 meses exercitando nas barras paralelas e treinando a luta marcial para, no final do ano, desafiar o Gedeão diante de todo o colégio. Briga bruta, mas ao final espancou, arrebentou, arregaçou o grandalhão. E para suprema humilhação, baixou a calça do derrotado e cuspiu na bunda dele. Foi a glória, exultou-se!
A sede de vingança de Vovô foi a força motriz que o manteve no colégio. O objetivo de derrotar o Gedeão o fez agüentar aquele ambiente de “almofadinhas”, caso contrário teria voltado para Fortaleza, para sua fazenda, para a vida de vaqueiro, para cima do seu cavalo, para correr rês.
Bem, mas, voltando às nossas aulas de jiu-jitsu, lembro-me da tensão que ficávamos. Vovô nos irritava e nos incentivava a degladiar, eu com Fred e Marquim com Paulim. As lutas eram diárias e vinham após os exercícios que nos deixavam o sangue quente, à flor da pele. Eram brigas, arranca-tocos sérios, enraivados, porrada mesmo. E Vovô tacando lenha na fogueira:
_ Reaja Ucho, não deixa este merda rala bater em você.
_ Dá um telefone nele, Fred!
_ Solta o braço nele, Marquim!
Nós nos engalfinhávamos, rolávamos no chão, embolados um no outro, com toda raiva do mundo. Não podíamos galinhar, fazer feio na frente de Vovô. Era sopapo pra lá, sopapo pra cá. Briga de gente grande. Cacete. Quando um engravatava o outro e este ficava por baixo, imobilizado, o mestre Pacífico nos rodeava como numa rinha de galos e gritava para quem estava por baixo: ”Ô seu frouxo, se vira. Olha, para você se livrar desse alicate só lhe resta furar o olho, rasgar o nariz dele com o dedo, ou então apertar os bagos dele com força!”.
Esta rinha durava uma eternidade. Raiva e choro espirravam para todos os lados. Quando sopitavam o último grau de tensão, o nervosismo, o sangue quente, ele, maldosamente, levava seus galinhos de briga para o banheiro e lhes dava uma ducha fria. A água gelada, ao bater nos nossos corpos quentes, repelia instantaneamente nosso choro, deixava-nos sem ar, sem fala. Engasgados, parecia que íamos explodir. O choro voltava mais baixo, mais brando, mais calmo, até nos aquietarmos calados.
Iniciava aí a pior etapa, a xaroparia. Vovô, então, ruminava a mesma ladainha de sempre. “Vocês têm que aprender: irmãos não brigam. Edgar, Clemente, Sebastião e eu nunca brigamos. Passamos a infância juntos e nunca encostamos a mão um no outro. Vocês jamais podem esquecer isto: Irmãos não brigam. Ir–mã-os –não– bri-gam”.


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Por Ucho Ribeiro - 26/7/2007 12:46:37
Memórias da Minha Infância Parte IV

VOVÔ PACÍFICO

Meninos, Fred e eu fomos, com vovô e vovó, visitar a carinhosa, alegre e pia Tia Nini. O Banco do Brasil havia transferido Tio Ruy para uma casa amarelo-creme, incrustada alta num barranco na beira do Rio Doce, pertinho de uma ponte da mesma furta-cor. Foi a minha primeira viagem de ônibus. Na verdade, de jardineira, com escadinha para subir ao teto e tudo mais. Sentados nas poltronas da frente, seguimos viagem tranqüila, até assistirmos de camarote as cenas de um atropelamento de uma vaca. Começou com o zig-zag do ônibus, na tentativa do motorista em desviar da bitela. Em seguida, o grunhido da freada e a pancada. O animal foi lançado à frente do carro e só ficou o desmantelo no meio da pista. Foi um alvoroço, um berreiro doido.
Passados alguns minutos, veio o silêncio e o esmorecimento. Ninguém tomava nenhuma atitude, nenhuma iniciativa. Aí, o Seu Pacífico, meu avô, falou alto: “ô cambada, vamos seguir viagem, ou não vamos? Ocês aí, ó, ajudem-me a arrastar a vaca pra fora da pista e os outros desempenem a frente da jardineira”. Vovô tomou a dianteira, grudou com mais quatro passageiros a vaca e a arrastou para fora da estrada. A viagem seguiu e eu fiquei todo orgulhoso, todo inchado, do velho.
Em cima da ponte nova, vovô ensinou-me a pescar, a manusear minhocas, lançar o anzol, fisgar e tirar o peixe para fora dágua. Foi lá também que vi pela primeira vez uma cobra. Ganhei-a de presente. Tinha duas cabeças, era feia, branqüela e enrugada.
Rememoro, também, quando despenquei da mangueira do quintal da Timbiras e morri de medo de que Vovô soubesse. Ele havia me proibido de trepar na alta arvore. Fiquei pulando em um pé só durante dias, como se fosse um saci, com o intuito de despistar o velho e escapulir de imaginária surra. Foi Tio Márcio que, em visita habitual à casa dos sogros, estranhando aquele pula-pula, desconfiou e detectou a fratura no meu pé. Foi a salvação, engessei a perna, ganhei um tóten, e me safei de uma sova.


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Por Ucho Ribeiro - 19/07/2007
Memórias da Minha Infância Parte III

VOVÔ PACÍFICO

Vovô era agridoce. Mesclava estouvamento com pacificidades. Tinha a crueldade das crianças. Era manteiga para os seus e fratura exposta numa briga. Um burro xucro domado sutilmente pelas sábias rédeas de Dona Eni.
Lembro-me de Vovô antes mesmo de me tornar gente.
Em uma viagem a Belo Horizonte, para o casamento de Tia Zezé, fiquei em sua casa na Rua Timbiras, entre Rua da Bahia e Avenida João Pinheiro.
O que mais me impressionou foi o cordão de carros pretos, limpos e brilhosos desfilando como num enterro pelas ruas sem poeira. Fiquei boboquiaberto com o chiar do bonde e o faiscar robótico do trolebus. Eu vi o futuro. Em cada esquina ansiava esbarrar com Flash Gordon ou com Superman em sua Metrópole. A Sloper era um despropósito, um despautério, tinha tudo que eu não sabia para que servia. O passeio e as vitrines da Rua da Bahia desassossegavam-me com seus cheiros anti-sépticos e naftálicos. A Afonso Pena era sem fim, as perspectivas dos prédios e dos verdes densos e longos das suas árvores a esticavam e me amiudavam. Creio que foi lá que conheci os pardais. Estes estavam por todos os muros, galhos, fios e telhados. Nunca os tinha visto em Montes Claros.
Mas o que vem mais forte é a casa da Timbiras. Na entrada, um muro baixo com uma meia escada seguida de um alpendre. A porta grossa, com sua janelinha de espia, dava para uma sala ampla com piso de tábuas, com mesa, cadeiras e sofás; à esquerda, um janelão desmedido escancarava-se para as costas de uma casa lisa, nova, cinza, de dois andares; à direita, dois quartos, um onde eu dormia com Bisa, com suas caixas de madeira de goiabada, matéria prima para a confecção dos seus palitos a canivete, e o outro, era de Dora, irmã solteira de minha avó.
Na passagem para a copa, bem acima da minha pequena altura, o telefone preto, imenso, pregado à parede. Quando tocava, o papagaio estalava seco: ”Alô, é Dora”.
Ao fundo, antes do quarto de Vovô e Vovó, mergulhava uma escada de madeira em caracol parecendo peça de nau pirata, que nos levava para o andar de baixo, onde se escondiam o bolorento convés e seus mistérios. Lá, nos porões, descobri uma esquecida arca que, ao invés de tesouros, guardava carcaças - esqueletos humanos desmontados e amontoados. Eram fêmures, crânios, costelas, omoplatas, dedos e tochas de cabelo. Todos os ossos estavam amarelados, encardidos, alguns revestidos de pele murcha, ressecada. Urgh! Só poderia ser ossada dos ladrões e criminosos que o delegado de Pedra Azul havia exterminado. Aquilo me arrepiava todo, me fazia tremer de medo e me levava a pesadelos terríveis, mórbidos. Pior era a falta de coragem e ousadia para perguntar como sucedeu aquele holocausto, aquele extermínio. Imaginava, elaborava em minúcias a crueldade de cada morte. Calado eu vi, calado permaneci. Até hoje não sei de quem eram aquelas ossadas.
Contam que em Pedra Azul, nas antigas, uma professora ao lecionar nossa língua pátria disse a classe: ”Pedro matou João” – onde está o sujeito da frase? Ao que lhe responderam: “oh, só pode estar escondido na Aldeia ou na Cabeça Torta”. Fazendas do Pacifiquim.


26255
Por Ucho Ribeiro - 10/7/2007 14:50:25
Memórias da Minha Infância Parte II

VOVÔ PACÍFICO

_ Fale que foi briga, viu, moleque!
_ Mas, vô...
_ Num tem nada de “mas vô”, nem “menos vô!” Diga a sua avó que foi briga, pronto “acabô”.

Vovô Pacífico, de olho roxo, estava pronto, procurando desafeto. Era o efeito das maluquinhas que tomara no caminho da Lagoa do Peixe, onde tínhamos ido buscar uma nelorinha que Tio João presenteara seu afilhado Marquinhos.

Saímos de Montes Claros tarde, no meio da manhã. A viagem sem pressa e a prosa boa do motorista fizeram meu avô abrir o bico e ressuscitar uns causos de vaqueiros e de caçadas na sua Fortaleza.

À medida que a estrada passava debaixo da boleia do caminhão, Vovô se animava e destramelava atrozes e apimentadas histórias de um delegado de polícia.

Em Toledo, já pertinho da fazenda, paramos numa venda para comprar seu Beverly Ovais. O velho quebrou uma e em seguida duas amargosas, com a barriga vazia. A hora do almoço havia sido deixada para trás, há muito. Foi a conta.

Desapiou no terreiro da fazenda, agitado, ciscando como um garnisé desafiando o galinheiro. Arreliou um peão, provocou outro que estava apartando o gado. Esbarrou na cancela para assustar o mais manso deles. O velho estava com a macaca. Logo fez roda e começou a debulhar, com falsa modéstia, vantagens e coragens.

Depois de se glorificar em maldades, resolveu mostrar ao vaqueiro como pear a novilhinha esquentada, que bufava em cima do caminhão. De arranco, nos seus quase 70 anos, saltou na carroceria, pulou para dentro do caminhão e estouvadamente segurou o animal pelo chifre. Sacolejou-o e gritou: “Cê tá doida, bicha besta”. Incontinente, girou seu corpo em direção ao pescoço do animal como se fosse quebrá-lo e se jogou em cima do vacum. A novilha desabou e ele gritou, pedindo uma peia. Ao aparar a corda no ar, aprumou-se e de joelhos iniciou a peação.

Eu, exaltado e curioso, pulei e me agarrei na lateral do caminhão. Este movimento distraiu Vovô e o fez descuidar das amarras. Não deu outra. A nelore alva, num risco de agilidade, soltou uma das patas das cordas e a pregou com força na cara do meu avô. Foi um solavanco que o jogou a uns 2 corpos dela. O velho se amontoou no canto do caminhão e quietou. Pensei com meus botões: morreu!

Aos poucos, começou a se mexer, ficou de quatro, ajoelhou-se, pôs a mão na cara, em cima do olho esquerdo e bradou: ”É ... porrada igual a esta só levei do Gedeão, lá no Grambery. Só que esta tá doendo pra encardir. Se eu não ficar cego ou zarolho pelo menos perco mais um parafuso da moringa”.

Aí ministrou: “Olha Ucho, homem que é homem tem que ficar com o olho roxo. Pra bater tem que apanhar. Só maricas pensa que olho inchado é surra apanhada. Pra você bater em homem macho, você tem que levar umas também. Quem só bate é covarde!”. E fique sabendo: “briga é tudo rápido. Rara é a briga de mais de um minuto. É pá-pá, pá-pá... tum. Acabou. Quem der o primeiro surdão entra com muita vantagem. Tem que dar um pra valer. Você não viu a vaca?”.


26215
Por UCHO RIBEIRO - 9/7/2007 14:36:56
MÉMORIAS DA MINHA INFÂNCIA - PARTE I
VOVÔ, SUAS CAÇADAS E SEUS CACHORROS.


Ao buscar minha infância, rememoro o Sítio Tira-Teima, onde nós, os netos, passávamos os finais de semana junto à natureza e no convívio dos nossos avós. Nos feriados longos e nas férias escolares, éramos entregues ao mundo encantado do Vovô Pacífico e da Vovó Eni.
Durante o dia brincávamos e ajudávamos nas tarefas do sítio, sempre ladeados pelos cães Faísca, Medalha e “Seu Nome”. Todos mestiços, amigos e travessos.
À noite, deitados, embolados com os cachorros e espalhados pela varanda, ficávamos ao redor da cadeira do Vovô, ouvindo seus hipnotizantes causos de caçadas.
Começava sempre contando os preparativos, o estilo dos cachorros, a arrumação da tralha, a forma de agrupar e transportar os perdigueiros e os americanos.
Aproveitava nossa inicial atenção, para ensinar-nos o tipo, a função e a habilidade de cada raça. Falava da destreza, da agilidade, do caráter e da coragem dos cães da matilha, dando o nome e a descendência de cada um. Vez ou outra, frizava um ascendente e a este derramava glórias e lealdades. Distinguia os cachorros pelo faro, pelo latido, pelo rastro firme, pela esperteza e ligeireza em acompanhar a presa. Mas, meninos, queríamos mesmo era saber do calor da perseguição, do coração disparado, da tocaia dos caititus, do levante da onça, da corrida dos veados, dos tiros, do abate final.
Vovô preambulava a caçada descrevendo o relevo, a vegetação do terreno e o posicionamento de cada arma, de cada companheiro caçador. Montava o cenário, estabelecia as esperas e dava uma pausa... Nós, os netos, em total suspense, em silêncio, incorporávamos, cada um, um caçador, sua solidão e espreita. Aguardávamos. Num rompante, Vovô estalava um latido, ladrava alto, ruruivava o levante, que denunciava o animal acossado, longe. Pelo uivo dado, revelava o nome do cachorro mestre que levantou o bicho, e qual bicho: veado, onça, caititu ou outro bitelo qualquer.
Ato contínuo, podíamos sentir o desespero da presa e enxergar a direção tomada: o boqueirão, a picada, a encruzilhada ou o barranco do rio, postos onde os caçadores estavam aninhados com suas armas. Vovô continuava sonorizando o trote, os sopros da fuga, o alcance dos outros cachorros, os uivos e os apuros, o ziguezague do despiste, o açoite, o amoito... a quietude, o silêncio... o embaraço dos cachorros, a fungação crescente e desenfreada, a busca minuciosa. A netaiada, só ouvidos, firme em suas posições, resistia aos coices do coração. Meu avô recobrava o faro firme, e destramelava o estouro do desamoito, o latido da cachorrada, a retomada da correria, os galhos quebrando, o bicho chegando, o évem-évem, o virgemaria. O Velho não abandonava a marcação pausada do latido do cão mestre, agregando a cada passagem os quarteados, rugidos, roncos e ruídos dos demais perdigueiros e dos americanos, que se compunham cadenciadamente na perseguição desenfreada. Vovô guturava cada um dos latidos da canzoeira e nomeava os cachorros, enunciando qual tomou a frente, qual tinha atalhado, qual tinha retomado o piso. Boquiabertos e com os olhos esbugalhados, ficávamos inebriados com os ladridos, com a tensão e a agonia, na espera do animal acuado sair em cima da gente. A sinfonia rouca dos latidos, cada vez mais alta, cada vez mais próxima, o medo e a vontade, só findavam com o estampido apoteótico: Táaa!
O tiro certeiro atingia o bicho em cheio, que cambaleante vinha tombar a nossa frente, nos pés de Vovô.
Ufa!
Enlevados e extasiados, ficávamos sujeitos a inevitável e imperiosa ordem: “Tá na hora de ir para cama, cambada!”.


24989
Por Ucho Ribeiro - 13/6/2007 17:17:51
A dor que não tem fim.

Estamos todos de luto. Cabisbaixos, desamparados, sem lugar. Vemos as lágrimas das mães, o desalento nas ruas, a indignação das famílias. A cidade está triste, indefesa.
Todos se sentem vulneráveis, ameaçados, atemorizados.

Uma criança foi sacrificada. Um filho que podia ser um dos nossos.
Não consigo imaginar a dor dos pais do pequeno Sidney.
Que Deus os console e abençoe.

Nossa família também está enlutada.
Hoje, estaremos na passeata e amanhã usaremos uma tarja preta em nossas roupas.

Kênia, Ucho, Otávio e Bebel,




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Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Dário Cotrim
Davidson Caldeira
Efemérides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lívio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
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João Carlos Sobreira
Jorge Silveira
José Ponciano Neto
José Prates
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Luiz Ortiga
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Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Ribeiro Pires
Mário Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
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Roberto Elísio
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Ruth Tupinambá Graça
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“Indústria reduz produção e vende energia” – é manchete no Rio

21/07/14 - 10h
Manchetes dos jornais: “Inflação afunda sonho de fartura para a classe C” - “Indústria reduz produção e vende energia” - “Presos usam Facebook de dentro da cadeia”

21/07/14 - 9h
Cruzeiro abre 5 pontos de vantagem na liderança do Brasileirão. Galo se mantém em 11º lugar

21/07/14 - 8h
Empresas brasileiras perdem 108 dias por ano com burocracia e carga de impostos, que é de 36,27%

21/07/14 - 7h
Em carta, escritor mineiro Rubem Alves pediu para ter cinzas jogadas em ipê - revela a filha


20/07/14 - 19h52
"(Perguntai ao sumido Edes Barbosa, e ele vos contará de uma história passada na solidão enluarada dos nossos austeros píncaros serranos. E agora, os que têm mais de 55 anos. Fechai os olhos. Revisitai aquela noite histórica, numa cidade que também era de sonhos, e descobertas)"

20/07/14 - 18h57
Volta de Dunga à seleção brasileira será anunciada na próxima terça-feira


19/07/14 - 18h
Marquinhos, Marlone e Dagoberto disputam vaga no Cruzeiro para jogo deste domingo contra Palmeiras

19/07/14 - 17h
Sisutec tem 289 mil vagas para cursos técnicos. Inscrição começará na próxima segunda-feira

19/07/14 - 16h
Brasileirão terá 4 jogos hoje e 6 amanhã. A 98 FM vai transmitir o jogo do Atlético, neste sábado às 18h30, e o do Cruzeiro, amanhã às 16h

19/07/14 - 15h
Manchetes dos jornais: “Tragédia com avião atrasa a cura da Aids” - “Obama liga Rússia a disparo de míssil que derrubou avião” - “Míssil atinge em cheio a luta contra a Aids”

19/07/14 - 14h
Fim de semana em M. Claros será de sol, com máxima e mínima temperatura variando 15 graus

19/07/14 - 13h
Ao marcar contra o Lanús, Tardelli fica a um gol do 100º pelo Atlético

19/07/14 - 12h
A cada hora, 5 pessoas morrem no trânsito brasileiro - são números oficiais

19/07/14 - 11h
Prédio de 4 andares desaba na orla de Atalaia, em Aracaju. Cães farejadores procuram vítimas

19/07/14 - 10h
Mesmo com queda de 7% nas vendas, preço de carro sobe 6% entre janeiro e junho

19/07/14 - 9h
Lista oficial de 298 mortos na Ucrânia não tem norte-americanos: são 192 holandeses, 44 malasianos, 27 australianos, indonésios, ingleses, alemães e belgas

19/07/14 - 8h
Escritor João Ubaldo Ribeiro (que fumava, contra ordens médicas) será sepultado hoje às 10 da manhã, no Rio

19/07/14 - 7h
Boeing derrubado voava na faixa de segurança quando foi atingido


18/07/14 - 18h
Lanterna do Brasileirão, Flamengo vira motivo de deboche na Internet

18/07/14 - 17h
Empregador terá até o dia 7 de agosto para registrar empregada doméstica

18/07/14 - 16h
Para a ONU, desinformação entre jovens e discriminação contra gays aumentam casos de Aids no Brasil

18/07/14 - 15h
Ventos de 7 km e temperaturas entre 28 e 14 graus, hoje, em Montes Claros

18/07/14 - 14h
Manchetes dos jornais: “Medo volta a assombrar o mundo” - “Queda de avião com 298 acirra a crise entre Rússia e Ucrânia” - “Guerra abate avião com 298 inocentes”

18/07/14 - 13h
Revista aponta Dunga próximo de retornar à seleção brasileira

18/07/14 - 12h
10 profissões vão acabar, entre elas: carteiro, trabalhador rural, repórter de jornal, agente de viagem, lenhador, aeromoça, trabalhador industrial e da indústria gráfica

18/07/14 - 11h30
Escritor Manoel Hygino: "...tolda a vida de uma cidade, que precisa de temperança e de elevado senso de responsabilidade para sobrepairar a desentendimentos ocasionais, cujo..."

18/07/14 - 11h
Ucrânia recolhe 181 corpos em raio de 15 km onde caiu o avião da Malásia. Inteligência dos EUA culpa separatistas

18/07/14 - 10h48
"Cena de ontem em M. Claros. (...) "vou ali na Praça da Matriz fumar uma pedra de crack". Esta é a nossa realidade. Absurda"

18/07/14 - 10h
Congresso em recesso branco custa quase 1 milhão de reais por hora aos contribuintes, calcula ONG

18/07/14 - 9h
Neymar diz que jogador brasileiro faz “corpo mole” em treino

18/07/14 - 8h
Morre aos 73 anos, em casa, de embolia pulmonar, o escritor João Ubaldo Ribeiro, na Academia de Letras desde 93, onde será velado

18/07/14 - 7h
Ao passar pelo Vitória, Cruzeiro abre 3 pontos de vantagem na liderança do Brasileirão


17/07/14 - 18h
Cruzeiro recebe hoje, às 21 horas, o Vitória para defender liderança do Brasileirão. A 98 FM vai transmitir o jogo

17/07/14 - 17h
Hospital Universitário abre 201 vagas para médicos em M. Claros. Concurso ainda não tem data

17/07/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “Segurança de BH terá reforço de 200 policiais do interior” - “Para 69% dos brasileiros, preços subiram muito” - “Brasil sofre retrocesso no combate à Aids”

17/07/14 - 15h
Em véspera de lua minguante, previsão é de temperatura entre 14 e 28 graus, em M. Claros

17/07/14 - 14h30
Metade dos infectados no mundo não sabe que tem o vírus da Aids, adverte agência das Nações Unidas

17/07/14 - 14h
Avião que partiu da Holanda, com 295 pessoas, é abatido em área de tensão entre Rússia e Ucrânia. Kiev diz que míssil foi disparado por separatistas. 23 passageiros seriam norte-americanos, 154 holandeses

17/07/14 - 13h
Menor soca dona de casa e toma seu telefone, na área mais central, às 9h30m. Assaltos também contra padaria e posto

17/07/14 - 12h
CBF anuncia Gilmar Rinaldi como novo coordenador geral da seleção

17/07/14 - 11h
Pesquisa: 54% dos entrevistados acham que a Copa trouxe mais prejuízos que benefícios

17/07/14 - 10h02
Após 20 anos, Alemanha lidera lista da Fifa. Brasil fica atrás da Argentina, Holanda, Colômbia, Bélgica e Uruguai

17/07/14 - 9h15
Menino de 8 anos sobrevive a acidente que matou seus pais. Foi na temida Serra de Francisco Sá

17/07/14 - 9h
Brasileiro rejeita técnico estrangeiro e Tite é o favorito, aponta pesquisa do Datafolha

17/07/14 - 8h
Dois apostadores, de Uberlândia e Santo André (SP), são os novos milionários da Mega-Sena



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