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2/8/2014 - "existem pessoas (...) comprando áreas aqui em Montes Claros para chacrear, ganhar um “burro de dinheiro”, e vão embora deixando os ludibriados proprietários de chácaras irregulares “a ver navios”. A ocupação desordenada da região serrana decorre:

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           Wanderlino Arruda    wanderlin@gmail.com

78406
Por Wanderlino Arruda - 4/8/2014 08:22:10
LÍNGUA OU DIALETO?

Desculpe-me o leitor se volto ao assunto da língua portuguesa no Brasil, continuando a alinhavar argumentos postos no tabuleiro das discussões, tão ao meu agrado, como estudioso e amante desta última flor do Lácio inculta e bela. Tema que sempre me permitiu saudosas referências ao trabalho universitário de vinte e dois anos na Unimontes, no geral de interesse para a formação da cultura lusíada-americana, sei que a língua é a formadora da arquitetura do sistema principal de comunicação e tem como argamassa o material mais duro e resistente do mundo: a palavra. Estudar a linguagem e a metalinguagem foi sempre um excelente trabalho e passatempo proveitoso de gente séria, realmente interessada no que há de mais sagrado e marcante da personalidade humana, pois é do logos que vem todo o saber. Um motivo, entretanto, surge interessante e dinâmico para a subida de mais um degrau, quando o competente jornalista e crítico literário Hélio C. Teixeira, que muito honrou em colunas de jornais, e muito nos transmitiu da sua competência, teceu comentários e evocou melhores argumentos sobre a realidade do estilo brasileiro da língua portuguesa. Confesso que foi exatamente o culto jornalista que, de modo direto, levou-me a examinar mais uma vez a documentação polêmica sobre a nossa realidade linguística e dialetal. Sei, por experiência própria, em muitos anos no convívio da disciplina, na Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, através de pesquisas dos alunos e mesmo das minhas como professor, que as diferenças constituem mais um estilo brasileiro que um divórcio formador de duas línguas, pois ninguém, até hoje, de sã consciência, deve ter pensado em criar um dicionário bilíngue entre Brasil e Portugal. Como bem disse o estudioso Hélio C. Teixeira, "jamais haverá no Brasil, uma língua inteiramente emancipada do idioma lusitano". Primeiro, porque uma língua dispõe de um fortíssimo esquema de analogias, rigorosamente obedecido, onde cada falante pode gerar ou transformar frases, criá-las ou recriá-las, mas jamais fugir, impune, à estrutura do sistema. Pode, é verdade, e isso até é bom, fazer substituições nos eixos do paradigma ou do sintagma, mas, nunca, nunca mesmo, quebrar ou tentar quebrar o mecanismo das funções que cada elemento exerce. Foi, por esse motivo, que o árabe, estruturalmente bem diverso do português, apesar do domínio de mais de sete séculos na Península Ibérica, deixou apenas cerca de setecentas palavras, menos de uma por ano, mas por mais incrível que pareça, nenhuma frase. Aí estão, de testemunhas, as palavras oxalá e salamaleque, que eram frases na língua árabe e não conseguiram resistir como tais no português. Por que, então, tantas discussões? É porque motivos deve haver, pois, onde há fumaça, há fogo. Ninguém perderia tempo, se não encontrasse um alicerce onde se afirmar para emitir argumentos. Pena não dispormos, até hoje, senão de uns poucos mapas linguísticos além dos levantados na Bahia, no Rio, em Minas Gerais e, me parece, apenas um em Trás-os-Montes. Se houvesse maior material científico, tudo seria mais compensador. Espero com ansiedade, o Mapa dos falares da Paraíba, em que se encontrou empenhada de corpo e alma a minha amiga e professora Socorro Aragão, Presidente do Círculo de Linguística do Nordeste, de cujo trabalho me inteirei, recentemente, quando de minha visita à sua Universidade, em viagem por João Pessoa. Sempre fui agradecido ao amigo Hélio C. Teixeira por suas bondosas referências o meu trabalho, sempre tido por ele como fruto do amor à lusitanidade. Não sei, contudo, se é bom despertar paixões em quem pode morrer de amor. Olhe que nossa língua - aqui brasileira - já não é tão desconhecida e obscura, mas ainda de alto clangor, do tom e silvo da procela, fruto da saudade e da ternura... Foi o que falou Bilac. Falou e disse... Academias Montesclarense de Letras e Maçônica de Letras do Norte de Minas.


78378
Por Wanderlino Arruda - 28/7/2014 08:25:05
A VIDA É MUITO MAIS AGRADECER

Wanderlino Arruda

É triste, muito triste, ver como o mundo se acha cheio de ansiedades, de conceitos puramente materialistas e utilitaristas. Pessoas e mais pessoas se esquecem da beleza da vida, da generosidade de outras pessoas, e se colocam como pequenos donos de um pedaço de meia-verdade, julgando-se numa independência que não existe. Esquecem-se de que a existência é um insistente ensino, uma perseverante luta pela felicidade e que só podemos ser felizes na caminhada solidária, de mãos dadas, unidos, com toda a alegria possível, com toda coragem, ou pelo menos com um pouco de sorriso em agradecimento à própria vida. De nada adianta o transbordamento das paixões, a manutenção de arestas morais, o narcisista, a supervalorização, a pretensão de domínio da inteligência ou do poder, o ódio sem direção ou direcionado. Tudo é vão, porque o viver é um crescimento espiritual de todo o tempo. Amar a si mesmo é importante, mas é preciso amar também o semelhante. E amar impõe sinceridade pessoal, desprendimento, uma visão clara de sonhos e realidades, um gostar do outro, um querer bem sem limites. De nada vale o isolamento, a limitação, só a defesa do próprio interesse, a fanfarronice vazia e boba, uma falsa autoconfiança, o desprezo bulhento aos que amam a vida. De nada vale a falsa declaração de amor, sem identificação com o bem geral. É preciso desnovelar-se num esforço de melhoria geral, abrir os olhos para a paz, a paz das quatro paredes da nossa casa, a paz da nossa rua, dos nossos companheiros de jornada, a paz do mundo. Para alcançarmos a alegria, necessário é desafadigar-nos das opacas viseiras da falsa autossuficiência, triste posição da pessoa infeliz. Há ardorosos propagandistas de si mesmo que não passam do labirinto da sua própria ilusão, mas que caminham por caminhos tão estreitos e tão vulneráveis que nunca enganam a ninguém. Falam de liberdade, pregam autonomia, fomentam guerras, exterminam simpatias, direcionam-se para o fanatismo, combatem falsamente os preconceitos, mas não sabem libertar-se da cordoalha da servidão mental a que são jungidos por si mesmos. É preciso restaurar a fé nos semelhantes, semear a palavra de vida na luz da esperança, viver com amor verdadeiro, perseverar no bem, tirar as lentes negras de diante dos olhos físicos e espirituais. Trombetear importância nunca foi medida levada a sério, a avidez de promoção pode ser atalho de caminhos, mas será sempre lodaçal de incompreensões. Não se deve morrer de orgulho, porque nem sempre a existência ajuntará o pequeno punhado de amigos que cada um tem. Eles podem espantar-se da nossa própria inconsciência. Que cada um submeta-se ao currículo da aprendizagem na academia da vida, propondo valorizar todas as lições que estudam e preparam a conquista de tesouros maiores da inteligência e do sentimento. Cada período brinda-se com nova gama de experiências. É importante saber tirar proveitos do equilíbrio dos que são verdadeiramente equilibrados. É importantíssimo saber viver todos os momentos possíveis da felicidade. Na verdade, ser feliz é a nossa meta. E para ser feliz é preciso saber bem retribuir, ter gratidão. A vida não é só pedir. É muito mais agradecer! Academias Montesclarense de Letras e Maçônica de Letras do Norte de Minas


78347
Por Wanderlino Arruda - 22/7/2014 08:56:56
DA CRÔNICA E DO CRONISTA

Wanderlino Arruda

Há coisas na vida de que não são ganhadores os que se levantam tarde, os que não têm coragem de acordar junto com os passarinhos, ao som dos primeiros cantos ou das primeiras trinadas. Quero dizer aqueles que só abrem os olhos e os ouvidos depois das sete ou das oito. Claro que perdem um pouco do melhor, da boa disposição física e mental, da própria alegria do amanhecer. Falei uma vez das empregadas que vão à padaria, dos pedreiros e serventes que vão ao trabalho de moto ou de bicicleta, das respeitáveis senhoras que vão às missas, dos passantes apressados que fazem caminhadas ou iniciam viagens. Outros valores ainda podem ser arrolados e entre eles a cor da luz do sol nascente, o vento brando e gostoso, o orvalho dos jardins, a própria existência humana que, de manhã, é mais interessante. Mas o que quero mesmo dizer é dos programas educativos que as TVs vêm fazendo, entre elas a Fundação Roberto Marinho, todas as manhãs, de segunda a sexta, durante meia hora, antes dos programas matinais, também bastante diretos e instrutivos. Falo das aulas destinadas aos alunos do segundo grau, de diversas matérias, um primor de didática, tudo preparado por gente que sabe onde está e anda o nariz. Um dinamismo que dá gosto! Cores, movimentos, sons, repetições bem feitas que não permitem ao espectador deixar de aprender. Neste ponto, a televisão tem seu melhor papel, a utilidade pública que lava todos os pecados dos horários enlatados e alienantes. Geografia, Matemática, História, Ciências, Educação, Língua Portuguesa, Literatura, excelente elenco de conhecimentos. De Literatura, por exemplo, a TV apresenta o que há de mais prático e convincente. Costumo até dizer aos meus companheiros de café, que saem depressa para o trabalho ou para o colégio, que uma aula preparada para o vídeo vale por algumas que um sofrido professor prepara para o esforço ao vivo, pois nunca seus recursos poderão comparar aos de que a televisão dispõe. Livros e autores, paisagens e costumes, sentimentos e gestos, tudo no melhor colorido, passa como um desfile maravilhoso em roupa de gala e luxo, prazerosamente limpinho e enxuto. Atores e declamadores profissionais, bem ensaiados, não deixam os textos em prejuízo de uma vírgula sequer. Ainda há pouco, o que passou sobre a experiência de Rubem Braga no jornalismo e na crônica não tem similar. Seu famoso escrito de muitos anos atrás - uma carta ao prefeito do Rio de Janeiro - foi uma delícia, o que até hoje pude ver de melhor em metodologia de redação. Alguns minutos que valem por uma vida de estudos. Como a apresentação do Rio de Janeiro, formou um cenário inimitável para a ordem da escrita! A beleza, a pressa, a violência, o romantismo e a malícia do carioca deram a Rubem Braga as condições de deslizar no texto como quem mergulha ou nada em águas translúcidas, sem esconder qualquer mistério. Sendo viva, a crônica tem de espelhar a realidade, o cotidiano, aquele ângulo de visão que o leitor sempre acha que poderia ter sido escrito por ele mesmo. Uma espécie de ponto de vista comum, feito naturalmente com arte e bom gosto, como fez Rubem Braga a vida inteira! Assim, dois convites ao leitor/leitora: levantar cedo, observar e... quem sabe, sonhar ou redigir também o mais alegre do nosso viver! Academias Montesclarense de Letras e Maçônica de Letras do Norte de Minas


78311
Por Wanderlino Arruda - 14/7/2014 09:51:44
APRENDENDO ETIQUETA

Wanderlino Arruda

Confesso que sou leitor vidrado em regras de etiqueta. Não perco uma linha do que se fala de educação e do bem-viver social, de como tratar as pessoas, de como buscar uma convivência pacífica e polida com os nossos semelhantes, principalmente quando pelo menos um mínimo de elegância é exigido. Leio tudo. Seguir, obedecer às regras, fazer do bom trato uma linha de vida é difícil, exige muita observação e muito esforço, mas é sempre possível se a gente for incorporando à cultura pequenos e grandes conhecimentos nesse setor. Em verdade, cautela e cuidados sociais não fazem mal a ninguém. Claro que a educação ou a finesse em sociedade, e por sociedade entender-se todo o relacionamento humano em qualquer parte, merece vasta gama de obediências, uma forma natural de agir, o saber como, quando e onde tomar atitudes. É preciso saber quem convidar, presentear, receber, desculpar-se. É preciso saber vestir-se, dar festas, ir a festas, sair com colegas e pessoas amigas, ir à rua, a um restaurante, a um barzinho, a um lugar da moda. Também é preciso saber conversar ou escrever um bilhete, uma carta ou simples recado sempre que isso for necessário, seja hora triste, seja hora alegre, nossas ou das criaturas com quem vivemos, de quem gostamos. É preciso saber o melhor comportamento no trabalho, nos encontros, nos esportes, em toda e qualquer oportunidade. Falando nestas coisas, lembro-me com saudades de uma experiência que tive em 1979 bem no século passado, no Rio de Janeiro, período em que ministrava um curso de Linguística para administradores do Banco do Brasil. Sempre que chegava do almoço, via no elevador, nos corredores e na entrada do auditório do Centro de Treinamento um vasto mundo de mulheres elegantes e bonitas, lindas-lindas, cada uma mais educada do que a outra. Num local em que a grande maioria era sempre de homens, aquela quantidade de belezas no mínimo parecia curioso, logo não tardando as explicações: estava sendo realizado ali um curso de etiqueta com uma professora da Socila, contratada pelo Banco para treinamento das secretárias de alta direção. Era isso a razão do belo visual e de toda finura do trato. Reunião de alta importância, reunião de gente fina, o que é outra coisa. Time de primeira linha, mesma professora que treinava as equipes internacionais da Varig. Dispondo da metade do tempo, pois só lecionava pela manhã, por um caminhão de razões, não tive outro jeito senão pedir ao chefe Dalton, que por sua vez pediu à elegante professora, para que eu fosse aceito como ouvinte e fiel observador de todas as lições. Imagine, minha senhora, que situação! Um homem só no meio de quarenta mulheres mais do que civilizadas. Mesmo pegando o bonde já em meio de caminho, não houve alternativa, tive que aprender tudo ou quase tudo. É que nas discussões sobre o papel da mulher, nunca pude deixar de representar o papel do homem, estabelecer o contraste de posições. Por mais educação que houvesse, foi briga de nunca acabar: "machista chauvinista, representante da tradicional família mineira, bandido!" Foi um sucesso de aprendizagem. E como! Academias Montesclarense de Letras e Maçônica de Letras do Norte de Minas


78287
Por Wanderlino Arruda - 7/7/2014 17:59:42
AINDA JOÃO MURÇA

Wanderlino Arruda

Murça mudou-se para Janaúba em 1959, vivendo lá 9 anos, até quando veio para Montes Claros, em 1967, já aposentado. Lá em Janaúba, sua política era a do PSP, partido populista de Ademar de Barros. Por aquelas bandas, também foi comerciante e delegado de Polícia, além de fazendeiro. Deixou de trabalhar duro mesmo foi em 1960, quando o antigo IAPC o colocou na vida boa, de quem não tem compromissos com horários. Em Montes Claros, como em Janaúba e Grão Mogol, viveu sempre no centro da cidade, pois, foi sempre metido a grã-fino! E o Murça maçom? Aos 7 ou 8 anos, conheceu o antigo salão da "Aurora do Progresso", loja de 92 associados em Grão Mogol. Era um terror até pensar em Maçonaria. As piedosas Filhas de Maria sentiam até arrepios só em ouvir falar do bode preto! Cruz credo, como podiam aqueles homens importantes e ricos mexerem com uma coisa perigosa destas? Tinham medo, mas, respeitavam. A Aurora do Progresso era uma das maiores lojas maçônicas do Brasil. Murça é filho da Deus e Liberdade, desde 14.3.50, quando era Venerável o inesquecível Sebastião Sobreira. Passou por Chico Tófani, passou por João de Paula, passou por José Gomes, passou, passou por todos, velhos e novos que lutaram para nos trazer este grande legado. Companheiro em 16.3.62 e Mestre em 13.7.62 foi mudando de avental, branco, branquinho, azul claro, vermelho, pretão parecendo cartola do Vasco, branco de novo, com todos os enfeites do Grau 33, desenho bem trabalhado de pelicano. Ao grau 18, Cavaleiro rosa-cruz, com diploma do Supremo Conselho do Brasil, foi elevado em 30.12.1967. Lembro-me muito bem da festa do final de carreira, quando fomos, em 8.10.76, elevados ao 33, juntos com pequeno número de irmãos. Murça o mais velho, eu o mais novo. Ele com muitos cabelos ou todos os cabelos brancos, eu com os cabelos pretos, mas, já quase sem cabelos. Chegávamos à posição de Grandes Inspetores Gerais da Ordem. Pelo menos, ele Murça tinha todo merecimen to. Era um prêmio ao trabalho e à fraternidade desse velho guerreiro! Murça, fundador, um dos fundadores da Loja Estrela de Montes Claros. Murça, fundador da Loja Maçônica Deus, Paz e Liberdade II, de Janaúba. Murça, reativador da Loja Maçônica Aurora do Progresso, de Grão Mogol, oficina que o viu nascer. Murça, herói da Deus e Liberdade, hoje membro-honorário, sócio por motivo de honra. Honoris causa. Murça, amigo e irmão: Suporta ainda o fardo de tuas obrigações/Caminha valorosamente, segue a tua estrada/Do acervo de pedra bruta nasce o ouro puro/Do cascalho pesado emerge o diamante/Do peso que transportamos de boa vontade, procede nas lições de que necessitamos para a vida maior! Se o suor te alarga a fronte e se a lágrima te visita o coração, é que a tua lágrima te visita o coração, é que a tua carga já se faz menos densa, convertendo-se, gradativamente, em luz para a tua e nossa ascensão. Tudo isso amigo e irmão Murça, já nem sei de quando, graças ao Grande Arquiteto do Universo! *Presidente da Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


78189
Por Wanderlino Arruda - 23/6/2014 08:22:58
O HISTORIADOR HENRIQUE OLIVA BRASIL

Wanderlino Arruda

Foi muito gratificante para mim, tempos atrás, fazer a apresentação da HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DE MONTES CLAROS, do escritor e historiador Henrique Oliva Brasil, homem de fé e de coragem, manancial de fortaleza e boa vontade, frente a tudo que era difícil na sua vida. Henrique Oliva Brasil, amigo e companheiro de Academia Montesclarense de Letras, era para mim um exemplo de capacidade de trabalho e de ousadia, um atestado existencial de tudo que a força de caráter, o desprendimento, o dinamismo pessoal podiam realizar. Nos muitos e muitos janeiros por que passou na vida, nem os minutos nem as horas foram problemas no seu trabalho e no seu esforço de incansável homem estudioso. Cada dia de Henrique Oliva tinha um refinado objetivo, uma meta a alcançar, pouco importava a dificuldade, de nada valiam os empecilhos de qualquer espécie. De cabeça erguida, marchava sempre em frente, olhando o futuro com a segurança de um jovem, sempre seguindo esperançoso e confiante. HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DE MONTES CLAROS foi fruto de minuciosa pesquisa, de longos períodos de estudo, que só um minerador do ouro dos acontecimentos poderia conseguir fazer. Foi tarefa de muito tempo e de muito lutar, resultado e cadinho do amor de um sertanejo que desejava deixar bem marcado seu traço de vida no conhecimento e nas consciências de todos nós, também amigos desta cidade e do seu progresso. É livro que faz justiça ao nosso processo histórico, sempre dinâmico e de acordo com o esforço pioneiro de um bom punhado de gerações, normalmente voltadas com sincera afetividade para os valores humanos e humanizadores, sentimentos que engrandecem e eternizam cada um e todos os momentos. A HISTÓRIA E DESENVOLVIMENTO DE MONTES CLAROS só não traz em seu bojo todos os acontecimentos, todas as personagens, quando isso não foi possível por falta de dados ou por falta de espaço. Segui, de perto, sua longa elaboração e sei que Henrique Oliva Brasil, com pureza e isenção, jamais poupou esforços ou qualquer tipo de sacrifício para chegar ao alvo da exatidão, ao centro da verdade. Cada levantamento foi revestido de exaustiva pesquisa, muito próxima da mais acurada exigência da moderna ciência histórica. O fato de não ser o autor graduado em História, alicerçado em diploma universitário, nunca impediu que o intelectual buscasse o que havia de melhor no estudo documental e na observação interessada, fatores valiosos para a perfeição dos resultados. Acima de tudo, o historiador teve sempre a honestidade de propósitos, uma santa vaidade de quem se compraz com o exato cumprimento de qualquer missão, por mais espinhosa que seja. Esperava que o leitor também participante da nossa História se sentisse satisfeito com a leitura ou o estudo sobre a importante e verdadeira vida de Montes Claros. Mais do que isso: espero que o leitor se faça sempre presente com incentivo e apoio aos historiadores que são os maiores apaixonados por esta cidade e por toda a região, pedaços de território ligados à nossa própria existência. Mais do que passado e presente, estou certo, o futuro e nós teremos de dar razão e fazer justiça, além de aplaudir estudiosos e escritores com o prêmio do mérito de materializar em livros nossos principais acontecimentos. A lembrança dos esforços e do trabalho de Henrique Oliva Brasil estarão sempre vivos e nossa memória. Em nossas melhores considerações e reconhecimento. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros – Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


78075
Por Wanderlino Arruda - 4/6/2014 15:54:43
MESTRE DA VINCI

Wanderlino Arruda

Uma das mais notáveis inteligências que a humanidade já teve em toda sua história. Uma habilidade intelectual e manual que - juntas - nem antes nem depois, jamais foi superada. Leonardo, o mestre Da Vinci, foi realmente um artista de talento. Em todos os sentidos, tanto na qualidade como na quantidade de criações. No espaço e no tempo, de tal modo que se coloca magistralmente até em nosso século, com invenções até hoje sendo incorporadas ao nosso acervo de cultura e de utilidades. Há algum tempo, um caderno de rascunho de sua lavra foi vendido por milhões de dólares num leilão de raridades. Desenhos, projetos, receitas de inventos, tiradas filosóficas, conselho sobre artes e saber da vida, tudo com valor de hoje. Não houve campo de especulação humana por onde não passasse o seu gênio. Assim, passou pela botânica, pela hidráulica, pela arquitetura, pela estratégia militar, fez mergulhos pelo mundo submarino e revoadas pelos ares. De sua prancha saíram desenhos de helicópteros, armas de guerra, hélices de navios, coletes salva-vidas. De seus lápis e pincéis apareceram belezas de formas e de cores de nenhum modo ultrapassadas, nem antes nem depois, acredito em tempo algum. Na escrita, o livro "Breviários", repositórios de notas dos cadernos, oferece-nos trechos que podem ser aplicados tanto na escola como na vida. São observações de eterno interesse. Em qualquer avião moderno de passageiros, os coletes salva-vidas são de sua receita: "Para salvar-se de naufrágio, precisa-se duma roupa de couro que tenha as paredes do peito em dobro com a espessura de um dedo e que seja igualmente duplicada da cintura aos joelhos. Ao caíres no mar, sopra para dentro e deixa-te ao sabor das ondas. Na boca deverás ter um canudo que ligue com a roupa, por onde deverás receber ar, quando a espuma te impedir de respirar". Sobre pintores que se queixam da vida: "Há uma classe de pintores preguiçosos que querem viver só sob o ouro e o azul; alegam ingenuamente que não trabalham bem porque são mal pagos. Gente reles! Não sabem fazer nada que preste, mas dizem: esta está bem paga, mas esta outra é medíocre e aquela é devido à casualidade; mostram assim que têm obras para todos os preços. Assim, pois, pintor, tem cuidado que o afã do lucro não prevaleça sobre a honra da arte: a conservação desta honra é mais importante que o prestígio das riquezas". A respeito das cores na pintura: "As cores, de longe, são ignoradas e imperceptíveis. Para desenhar o realce é mister que o olho do modelo esteja na mesma altura do olho do artista. Isso fará com que a cabeça fique natural, pois os transeuntes com quem cruzas na rua, todos têm os olhos à altura dos teus e se os fizesses mais altos ou mais baixos, teu retrato não seria nada parecido. As roupas devem desenhar-se do natural. Os velhos devem parecer preguiçosos e de lentos movimentos, as pernas vergadas nos joelhos e os pés aleijados, a espinha curvada, a cabeça para a frente e os braços pouco estendidos. As mulheres em atitudes modestas, as pernas fechadas, os braços juntos, a cabeça baixa e inclinada. As velhas devem ser representadas atrevidas, com movimentos vivos e raivosos, com fúrias infernais: os movimentos dos braços mais vivos do que os das pernas". Uma definição de paz: "Dizem que o castor, quando perseguido, por saber que seus testículos possuem virtudes médicas, não podendo mais fugir, para, depois de fazer as pazes com os caçadores, corta os testículos com seus dentes agudos e os deixa com seus inimigos". Uma definição de avareza: "Avareza é a do sapo que come terra, mas nunca tanto quanto deseja, com medo que acabe". E sobre a arte, centro de sua vida: "A pintura sobrepuja todas as obras humanas pela sutil especulação que lhe pertence. Se vós, historiadores, poetas, observadores, não tivésseis visto com os olhos, nada poderíeis referir em vossos escritos, que são nascidos da pintura". Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros - Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


78030
Por Wanderlino Arruda - 27/5/2014 19:13:07
UNIMONTES - FACULDADE DE DIREITO

Wanderlino Arruda

Normalmente, chegávamos à casa do professor José Oliveira Fonseca, na Rua Carlos Pereira, às cinco da manhã. Todos os dias, de segunda a sábado, lá estávamos para a aula de análise sintática e de outras questões mais objetivas da língua portuguesa. Não éramos muitos, mas, éramos bastante curiosos e interessados, principalmente o Mauro Lafetá, o Corbiniano Aquino, o Afrânio Nogueira, o Adil Oliveira e eu. Eles, candidatos ao vestibular de Direito em Pouso Alegre ou Niterói; eu, estudante do curso de Letras, aproveitando a maestria do professor Fonseca, o melhor que passou pela matéria em Montes Claros. Era um tempo excelente, alegre, pleno de maduro entusiasmo, sonhos de pessoas que, a certa altura da vida, sabem o que fazer e com que se ocupar. O Afrânio acabava de deixar as aulas de primeiro estágio do Madureza e já cursava, à noite, as últimas unidades para enfrentar o segundo grau, num esforço tremendo de ano e meio entre a escola primária e a universidade. O Mauro, com toda aquela pose que Deus lhe deu, sério, compenetrado, sonhador, quase já exigia que o tratássemos de Doutor. Era tudo uma beleza, embora o professor nunca nos tenha dado um cafezinho para espantar o sono do levantar tão cedo... Foi por aí, madrugadas em transformação de aurora, manhãs de gostoso friozinho para pouco agasalho, que o professor e nós fizemos as primeiras propostas para a fundação da Faculdade de Direito. Entre uma análise e outra, entre um verso e um substantivo, uma nova observação sobre o futuro da segunda faculdade de Montes Claros. Quem estaria disposto a colaborar? Com quais advogados poderíamos contar para a formação do corpo docente? Quem poderia ser o primeiro diretor? Onde funcionar? Onde buscar apoio financeiro? Eram perguntas e mais perguntas, tão constantes e tão assíduas como os próprios formuladores. Não durou muito tempo a temporada de sonhos e cogitações e, em menos de um mês, já estávamos, na rua, buscando apoio, tendo-o encontrado no deputado Lezinho, tio do Mauro e homem próximo ao Governo, e no Inspetor Zezinho Fonseca, que ficou mais entusiasmado do que nós próprios. A luta tomara corpo, criava-se do espírito de séria decisão. O Mauro cada vez mais encantado e, antecipadamente, vitorioso. Iniciamos as primeiras consultas aos principais advogados, através de uma comissão - Mauro, Afrânio e eu - num desdobramento de trabalho feito antes por Francolino Santos e Corby. Ninguém pode imaginar nem prever as reações humanas e profissionais diante de um desafio. Quem poderia calcular onde estaria o interesse pessoal, o desprendimento, o entusiasmo ou, ao contrário, o medo de futura concorrência? Quem poderia acreditara naqueles sonhadores, querendo fazer as coisas de baixo para cima, invertendo toda a lógica aceitável? Realmente, diante da proposta, futuros mestres mostraram-se ora alegres, ora tristes, na maioria das vezes terrivelmente irônicos. "Quem" era mesmo que queria fundar uma faculdade de Direito em Montes Claros? Que saberiam aqueles três sobre espírito universitário? Loucos, era o que pensavam que éramos... Por que não iam estudar por correspondência como fizeram tantos outros, passeando de vez em quando? Seria mais fácil do que criar uma esco la... Dois fatores tornaram-se importantíssimos em nossa luta: O JMC ficou contra, afirmando a não necessidade de formação de novos bacharéis, o mundo já estava muito cheio de advogados; apareceram interessados em nosso trabalho o professor João Luiz de Almeida e os deputados Francelino Pereira e Cícero Dumont. Doutor João cedeu-nos as instalações do Instituto para funcionamento da escola e se dispôs a ser o primeiro diretor; Francelino levou as ideias e os planos ao governador Magalhães Pinto; Cícero organizou os estatutos da Fundação. Ninguém poderia segurar mais. O contra e o a favor estimularam ainda mais nossa frente de batalha. A reação da imprensa provocou um desafio, a ajuda dos amigos poderosos deu o tempero que faltava. Hoje uma história feliz, com a Fadir completando praticamente meio século! Tenho bem guardadas as gravações do dia definitivo da fundação, reunião realizada na Rua S. Francisco, na Delegacia de Ensino, sala de trabalho de José Monteiro Fonseca!

Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros – Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


77986
Por Wanderlino Arruda - 19/5/2014 10:50:45
PRIMEIRA FACULDADE, NOSSAS FAFIL

Wanderlino Arruda

Creio que o grande laboratório de ideias a usina dos sonhos tenha sido mesmo as salas de aulas da Universidade Federal de Minas Gerais, onde moças montes-clarenses terminavam diferentes cursos, tão distantes uns dos outros que iam da História à Pedagogia, das Letras à Matemática, da Geografia às Ciências Sociais. Diplomadas, portadoras de muito saber e incentivo de antigos professores da capital, Isabel Rebelo de Paula, as irmãs Baby e Mary Figueiredo, Sônia Quadros Lopes, Florinda Ramos Marques, Dalva Santiago de Paula, ansiosamente, se uniram a outros idealistas, e o resultado foi o nascimento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas - Fafil - aqui em Montes Claros. Verdade é que não houve oposição ao seu trabalho e até não faltou crédito ou aquele sempre necessário voto de confiança. Todo mundo acreditou nelas, com o Colégio Imaculada Conceição cedendo espaço físico e moral, a Fundação Educacional Luiz de Paula fornecendo recursos e entusiasmo , professores como Jorge Ponciano Ribeiro, Maria Ribeiro Pires, Geraldo Majela de Castro, todos dando logo a sua melhor quota de serviços. Foi uma beleza o começo, um sucesso o primeiro cursinho de Montes Claros. Lembro-me bem, da primeira aula de francês que tivemos com a professora Baby Figueiredo, com texto solto, impresso fora de livro, uma novidade! Lembro-me de Adélia Miranda elaborando, como secretária, os primeiros relatórios, apertando os primeiros alunos retardatários para não atrasarem no pagamento das mensalidades ou início das aulas. Era uma experiência interessantíssima com passagens de se emocionar! Era tanta sabedoria nova, um conhecimento tão organizado, uma perspectiva de aprendizagem tão grande, que problemas apareciam a toda hora, todos querendo aproveitar de tudo, sorver de vez todo um alimento que por não existir antes, estava sendo negado a quem muito o desejava. Acontecia então o troca-troca de salas, uma espécie de mineração de assuntos, um descobrir quem era o melhor professor um abeberar de toda uma nova filosofia de vida. Não posso contar tudo sobre as aulas de nossos cursos, nos primeiros dias do semestre, porque os acontecimentos vinham aos borbotões, quase sufocando a curiosidade, até confundindo as cabeças. Era como se fosse um vasto ciclo de conferências de palestras, um eterno comício. Hamilton Lopes, calouro, ensaiava os primeiros passos da política estudantil, João Valle Maurício, José Nunes Mourão, Hélio Vale Moreira, Mauro Machado Borges, alunos mais vividos, mostravam uma compenetração pouco natural de estudantes. Yvonne Silveira, esta num a santa vaidade de literata, se desmanchava em sorrisos e sutilezas numa alegria quase infantil. Tudo foi uma longa festa intelectual, uma corrida de muita sede à fonte, todos considerando um grande privilégio, uma oportunidade a mais de vencer na vida, em campos profissionais já longamente seguidos. Pela primeira vez, vimos professorinhas ensinando para pessoas de muito mais idade, alguns até já velhos, todo um elenco de construtores em tempos presentes e também do futuro! Agora, visto de longe, cinquenta e dois anos depois, mais do que uma ousadia, parece quase uma loucura. Mas que maravilhosa loucura! Que o diga Isabel Rebelo de Paula, nossa primeira diretora. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros Academias Montesclarense de Letras e Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 13/5/2014 08:25:42
FERNANDO PESSOA

Wanderlino Arruda

Se é difícil falar de uma pessoa, penetrar no seu íntimo, senti-la e transmitir seus sentimentos, imagine quando essa personalidade é dividida e subdividida, como aconteceu com o poeta português Fernando Pessoa, que tinha, no mínimo, cinco heterônimos, cada qual com sua biografia, seu mundo, seu estilo. Ele mesmo, Fernando, uma caudal de vibrações humanas e poéticas, uma sensibilidade tão à flora da pele e das ideias, que muitos chegaram a dizer nas raias da exuberância sobrenatural. Foi quem marcou a mais forte presença na poesia portuguesa e europeia no último século, já que ele começou mesmo a escrever e a publicar em português a partir de 1912, numa espécie de reencontro com suas origens lusitanas. Pessoa influenciou muito dos seus contemporâneos e continua até hoje arrastando uma falange de adeptos cada vez maior. Para o crítico Oscar Lopes, Fernando Pessoa é a mais importante personalidade da tendência pós-simbolista portuguesa. Para João Gaspar Simões, Pessoa tornou-se o mais imitado dos nossos poetas modernos, porque exprimira penetrantemente certas contradições inerentes à sua camada numa altura em que elas estavam latentes, quando ainda se fingia acreditar em certas sinceridades ou sentimentos poeticamente expressos, em certos ideais ou emoções teoricamente caritativas ou cívicas que, no fundo, se havia esvaziado de qualquer conteúdo concreto, quotidiano ou intimamente pessoal. Na sua poesia, tudo isso se ironiza e problematiza com uma justeza inexcedível de tom lírico, porque Pessoa opõe-se à metafísica sentimentalista romântica, que abstrai a sensibilidade da razão "o que em mim sente está pensando". "É preciso fingir para conhecer-se". Fernando Pessoa fez uma distribuição de sua obra por vários heterônimos e tem dado por isso ensejo a numerosas discussões sobre sua unidade ou pluralidade, ou sinceridade, já que foi um ser altamente contraditório. Na verdade, cada poeta de sua divisão criadora corresponde a um conjunto de posições polêmicas determinadas. Cada um com vida própria, cultura peculiar, sentimentos e problemas individuais, opondo-se ou identificando-se como seres humanos portugueses ou universais. Como não é possível dizer tudo em um só fôlego e espaço de jornal, eis algumas pinceladas sobre os principais e mais conhecidos: ALBERTO CAEIRO - reage em verso prosaicamente livre contra o transcendentalismo saudosista, mostrando que o "único sentido oculto das coisas / É elas não terem sentido oculto nenhum"; é contra o farisaísmo, então concorrentemente jacobino e devoto da poesia compassiva e sentimental. Caeiro apareceu em Fernando Pessoa com trinta e tantos poemas que ele escreveu de pé, numa espécie de êxtase, cuja natureza o próprio Pessoa afirmou não saber definir se mediunidade ou simples inspiração. Saiu daí "O Guardador de Rebanhos". RICARDO REIS - exprime contra as concepções meramente abstratas de sobrevivência post-mortem ou de progresso humano e em estilo que se pode designar com neo-arcádico, embora apresentando uma densidade de significado muito mais próxima do modelo horaciano; a antiga sabedoria epicurista egocêntrica de dores e prazeres prováveis. Ricardo Reis é desde o princípio um alto poeta formal, de alto refinamento artístico. Sentia-se apto a trabalhar a forma métrica ao verso à maneira dos que perpetuam na poesia como lavrantes amorosos, requintados e astutos das formas e do virtuosismo estético. Ricardo Reis proporcionou a Pessoa a primeira sensação de plena harmonia consigo mesmo e com a literatura. ÁLVARO DE CAMPOS - prega nas odes em verso livre entusiástico, a sabedoria futurista da sem-razão, da energia bruta, da vida jogada por aposta. Álvaro de Campos era uma mentalidade trabalhada pela civilização e pelo progresso. Engenheiro, ultrapassa de longe nas ambições até o próprio Pessoa. É em verdade o mais simulado dos heterônimos e entre todos, o mais mistificadoramente concebido. Pretendeu formar uma nova escola e o conseguiu. Desculpe-me você se o assunto foi por demais erudito, tratando-se de apresentação crítica literária. Um dia, quem sabe, voltarei falando mais do homem do que do artista. Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 6/5/2014 09:38:23
E A VIDA CONTINUA

Wanderlino Arruda

Viver é consagrar-se inteiramente à vida, acompanhá-la em cada tempo. Viver é uma busca eterna de aprendizagem, uma aventura interminável, um sustentar sozinho o mundo inteiro, acertando-se ou contradizendo-se, sempre em busca da própria afirmação. Existir é estar, é ser, é compartilhar com os outros no aqui e no agora, uma participação do que há de melhor no interior de cada um na alma das outras pessoas. Viver é comunicar-se, é o interessar-se pela vida, o sentir mundo, o reviver o histórico, o sonhar o futuro. Não há vida isolada, pois, cada pessoa, como o real e o irreal das narrativas, estará integrada em vários contextos, personagem menor ou maior com seus dramas pessoais, suas alegrias, suas vitórias ou derrotas, tudo, tudo influenciando os acontecimentos. Cada indivíduo, de certo modo, é o centro do mundo, partindo dele tudo que irá determinar as outras vidas que lhe dizem respeito. Filosofando sobre o complexo ato de estar na vida, de ser num minuto ou num espaço maior da eternidade, é preciso dizer que o essencial é a forma que cada um liberta sua personalidade, influenciando, marcando presença, doando de si mesmo para crescimento da compreensão, do amor, da liberdade, da justiça. O importante é a integridade, o respeito, a paz. Melhor do que cada tema em particular é o resultado da realização da pessoa como indivíduo e como coletividade. Do estar consciente, vem a conciliação e concretização da parte boa dos sentimentos das emoções, mesmo que sejam desagradáveis. As insatisfações apenas arrastam as angústias e as injustiças, o contraditório. Se o mundo se tornou confuso, a pessoa terá de tomar pessoalmente as decisões, fazer suas próprias escolhas, arriscando errar ou acertar, porque nunca há paz total. Se é inevitável vivermos sob tensões, aprendamos a viver. É preciso comparar o amor com o teatro, um teatro sem plateia, onde todas participam e o cenário pode aumentar ou diminuir a intensidade das emoções. Pode até acontecer que em alguns casos, a plateia não consiga entender o tema de uma peça, mesmo que esta seja eterna e universal. E quando não se entende, vem a distorção, a discordância, podendo vir até o ódio. É o caso de pensar na liberdade, na democracia, que é a ausência de arbítrio, a não-violência, a presença da igualdade. É o caso de pensar que a sociedade esteja carente de justiça, ou farta de violência. Melhor, porém, é acreditar com otimismo no futuro. As ideias expostas, leitor, não são minhas, embora, pudessem ser, como também podiam ser de alguém que apreciasse a plenitude da vida, o realizar e o sonhar, o estar no mundo sem ser do mundo. As ideias foram de uma moça maravilhosa, plena de vida, interessada na paz e na justiça, uma moça que falava de emoções e de igualdade, uma jovem que lia de três a quatro livros por mês, que tinha preferências precisas sobre teatro, música, sobre poesia, que amava a pintura com toda sua alma. Estas ideias, leitor, foram de uma moça que acreditava na cultura, que lutava por uma instrução melhor para todas as pessoas, lendo, escrevendo, divulgando exemplos, amando a vida, ilimitada na criatividade. Foram e são afirmativas de quem gostaria de muito lutar para refazer o mundo, transformando-o para melhor, mais otimista, mais humano, um mundo ideal para dar e receber felicidade. Que estas imagens vivenciais sejam exemplo de que nem tudo está perdido, que a vida continua, e só o bem permanece, só o pensamento positivo constrói o amor que lava a multidão de pecados. Este raciocínio tão perfeito e tão lógico, leitor, foi expendido por uma jovem encantadora que, infelizmente, não se encontra mais entre nós no plano físico, pois, há bastante tempo criatura da eternidade: Cláudia Maria Athayde Soares. Academias Montesclarense de Letras e Maçônica do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 30/4/2014 09:00:23
FÁCIL ACABAR COM UMA IDEIA

Wanderlino Arruda

Claro que existem mil maneiras de acabar com uma ideia, sepultá-la, dispô-la em justo e eterno esquecimento, principalmente se essa ideia não for do interesse ou do agrado de quem tenha, no momento, o poder de decisão. Praticamente, todo presidente de reunião ou assembleia sabe disso, todo dirigente tem até uma fórmula de solução para cada caso, quando isso lhe é de seu desejo. Assim, matar uma ideia nunca é difícil, não dá trabalho, basta um pouquinho de má vontade. O que é difícil é criar, construir, elaborar, fazer alguma coisa de útil, beneficamente social, favorável a todos os interessados, ajustável à famosa prova quádrupla que o Rotary gosta tanto de divulgar em todo o mundo, em todas as línguas: "É a verdade? É justo para todos os interessados? Criará boa vontade e melhores amizades? Será benéfico para todos?" Matar uma ideia é realmente fácil, nem precisa muita inteligência ou muitos argumentos para isso. Até os menos dotados de raciocínio conseguem. Qualquer um desses falsos líderes de qualquer campo de atividade consegue, principalmente nos chamados grupos de trabalho, nas famosas comissões, nos comitês. Com os novos ricos, então, é que tudo fica aplainado para uma derrota, já que eles, querendo tudo poder, acabam não podendo nada e mergulhando em fracasso. Os políticos que superestimam seu poder de fogo, que se julgam grandes, que tudo fazem para aparecer, esses coitados, dão até pena, principalmente os que se vendem por empregos ou representações. Uns que trocam de partido todo dia, que vivem como baratas tontas à procura de migalhas de prestígio ou de dinheiro, espécie de procuradores de partes, esses são verdadeiros sepultadores de ideias, vendilhões do templo de qualquer era. Quem deseja acabar com uma ideia não precisa fazer muito esforço, não precisa suar camisa, pode ser até um grande perdedor, um fracasso na vida em qualquer situação. Quem precisa sustentar ideias alheias quando as suas nunca chegam ao alvo vitorioso? Melhor que todos fracassem, que todos percam, que a ilusão seja geral, porque assim ninguém supera ninguém, fica tudo do mesmo nível. Afinal há o mundo dos que vencem e o mundo dos que só perdem, que nunca encontram uma vitória. Há o mundo dos que acreditam e há o mundo dos que invejam, que ambicionam, dos que sempre são dependentes de outrem pelo poder ou pelo dinheiro, esse o mundo dos vendidos, dos alugados mesmo que seja por pouco tempo. Um pobre mundo de pobres sonhos... "Isso não me anima nem um pouco". "É complicado demais". "Isso não está de acordo com as coisas que a gente faz aqui". "Não é possível, e pronto". "Todo mundo vai dizer que somos uns idiotas", (e às vezes são mesmo!). "Este é um assunto p ara outra reunião". "Isso não se adapta à nossa filosofia". "Em time que está ganhando não se mexe". "Eu já vi essa história antes". "Não vem que não tem". "Não vai funcionar". "Ninguém vai entender sobre o que você está falando". "Esse é outro lado da história". "Eu tenho uma ideia melhor". "Vamos formar um grupo de trabalho". "Vamos formar um grupo de trabalho", é a melhor forma, às vezes, de desaparecer com uma ideia, principalmente quando esse grupo é uma comissão de inquérito para fiscalização de gente de muita ambição. De todas as formas para acabar com uma ideia a mais decisiva é a formação do grupo de trabalho, de certos tipos de blocos. Nomear uma comissão é tiro e queda! Não há sugestão que fique de pé, que tenha andamento, quando o presidente de uma comissão for o próprio autor da ideia. Os coordenadores de reuniões sabem disso: quando alguém fala muito, dá muito palpite, quer resolver de vez todos os problemas da vida e do mundo, não precisa muita coisa para provocar silêncio, basta uma nomeação de presidência para dirigir outras pessoas. Quase sempre morre o grupo e sucumbe o ideal. Afinal, construir é que é difícil! Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 23/4/2014 09:40:13
MAR DE AVENTURAS

Wanderlino Arruda

Antes de mais nada, confesso que nasci muito longe do mar, algumas centenas de bons quilômetros de distância, separado por céus e terras, pela Serra Geral, pelo Rio Pardo e por muitos outros acidentes geográficos. Quem conhece sabe que a mineiríssima cidade de São João do Paraíso está cravada num recolhido sertão entre a Bahia de Condeúba e este Setentrião, longe, muito longe do mar, sem nenhuma condição de ter filho com vocação para marinheiro. A única coisa parecida com mar que nós tínhamos por lá, e nos bons tempos de fartura, era o manso e tranquilo verde canavial, lindo e extenso, adorável vale de maravilhas, parecia feito para as peraltices do menino ou para as saudades do futuro adolescente sentimental. O mar só me veio aos dezenove anos. Ou melhor, só fui a ele depois de muitos anos de vida bem vivida em Salinas, Mato Verde, Taiobeiras e, principalmente, em Montes Claros. Não era um mar tão lindo como o de Maceió, o mais lindo do mundo: falo do mar da Ilha do Governador, no Rio de Janeiro, que já em cinquenta e quatro, vivia cheio de manchas de óleo, subproduto pouco simpático da presença constantes de navios e barcos petroleiros. O de Copacabana era verde-azul, bonito, violento, transparente, rolado em branquíssimas espumas, mas distante para o convívio de um mineiro interiorano e retraído. O mar de Niterói, das barcas da Cantareira, do aerobarco, era um mar de vai-e-vem de início e fim de dia útil, promessa e lembrança de trabalho. Mar da Bahia, mar de Todos os Santos, de Itaparica, aonde fui, há muitos anos, com Olímpia, visitar um velho professor e de onde partimos, recentemente, com a turma toda, embarcados de carro e tudo num ferryboat, para um bom período de férias entre a praia e as dunas baianas. Mar de Santa Catarina é em Camboriú ou Florianópolis, mar dos passeios de barco pelas velhas ilhotas, cenário de vetustas fortalezas, de construções do militarismo colonial, onde as paredes portuguesas de pedras brasileiras ainda estão de pé, metro e meio de largura, cobertas de musgos e espinhos, testemunhando o tempo e o contratempo de nossa história. Mar de Torres, no Rio Grande do Sul, revolto e atuante a esbater-se nas pedras e nos turistas. Mar de Ilhéus, de Valença e de Olivença, mar sujo de Santos e São Vicente, poluído e proibido. Mar de Vila V elha, de Vitória, de Anchieta, da moderna Nova Almeida, todos no Espírito Santo, povoados de mineiros, de uma mineirada de nunca acabar. Mar de Fortaleza, verdes mares da terra cearense, mares de Alencar e de Iracema. Mar de Natal, de João Pessoa, mar de Boa Viagem em Recife. Mar de Olinda, transbordante de belezas de sonhos. Mas, de que mar e em que mar foi mesmo a minha aventura que quero dividir com o leitor? No mar doce do Amazonas, onde vi o encontro das águas do Rio Negro lado a lado com as do Rio Solimões, correndo coloridas, sem se misturar? Foi em Leixões, berço idolatrado da raça lusitana? Foi nos arredores de Lisboa, em Sintra, na Boca do Inferno, onde se afirma, morreu Fernando Pessoa, o Super-Camões? Foi em São Luís, de viagem para Alcântara, quando o barco revolto e balançando como bêbado quase se vê presa fácil dos ventos e das águas? Não sei, não sei... Acho que foi o mar da vida, nem sempre azul, nem sempre verde-esperança, poucas vezes sereno, na maior parte do tempo, agitado. Navegante há quase oitenta, muita água passou por baixo do barco e muito vento soprou de lado e por cima. Como dizia muito bem o sempre lembrado Guimarães Rosa, viver é perigoso. A vida em si já é um grande perigo, um grande mar, um enorme mar de aventuras... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros - Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 8/4/2014 08:14:45
NELSON VIANNA

Wanderlino Arruda

Escolhi, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, o curvelano montes-clarense. Escolhi-o como desejo de marcar de modo definido minha admiração pela obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do Norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao frequentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de causos, ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites e aos que, cansados das tarefas do dia, sentavam-se ou se sentam nos calca¬nhares para ouvir ou falar com a maior sabedoria do mundo. Nel¬son Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esperteza do interiorano de Minas, homo rusticus ou homo urbanus, sempre com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza para nossa literatura. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicácia, um savoir-vivre e um savoir-faire difíceis de se encontrar em outra literatura. Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo mineiro, que vem de Curvelo até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários de vida e de literatura tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, não dava muita oportunidade aos mais novos para conversas e troca de ideias. Lembro-me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, no vestíbulo da casa de Osmani Barbosa. Estava eu naquela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e o Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto telúrico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista - do homem e do literato - para que eu pudesse, depois, compará-lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou-se, olhou-me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu- e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guimarães Rosa não tinha propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele um joão-ninguém. É isso o que pensava. Não, não era po ssível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão descritivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, eram um só. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser... mais para o não ser. O encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, como também estava sendo o primei¬ro. Mudou-se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes-clarense das Ruas Tupis e Rio de Janeiro, mas aparentemente distraído e, senhor ou não da vida, nunca me reconheceu. E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou. Coisas que só o Haroldo Lívio deve entender... Presidente da Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 1/4/2014 08:13:58
ZAMENHOF E O ESPERANTO

Wanderlino Arruda

Eis uma vida interessante, que um dia o mundo inteiro ainda conhecerá: a vida de Lázaro Luiz Zamenhof, um médico polonês, judeu, nascido na segunda metade do Século XIX, na cidadezinha de Bialistok, onde se falavam normalmente quatro línguas. Criador da língua internacional ESPERANTO, que a cada dia tem aumentado o número de falantes, chegará a época em que Zamenhof fará parte dos estudos de jovens e velhos, e a admiração pelo seu nome e por sua vida lhe dará páginas inteiras nas enciclopédias. Não se trata de sonho esta minha afirmativa. Na verdade, qualquer caminho que a humanidade escolher, passará, no futuro, pelo Esperanto, a única língua que permitirá o entendimento normal e fraterno entre todos os povos. Queiram ou não queiram os donos do mundo, sejam eles americanos, russos ou chineses ¬como o foram a seu tempo os gregos, os romanos, os ingleses, ou como quiseram os alemães e italianos - nenhuma nação conseguirá impor o seu idioma nacionalista. Nenhuma pát ria aceitará a dominação cultural de outra pátria. Não existe imposição neste senti¬do. Os árabes dominaram a Península Ibérica durante oito séculos e só deixaram lá duas frases! Por outro lado, o Esperanto não é língua de ninguém, de nenhuma nação, mas de todas ao mesmo tempo. Não defende o Esperanto nenhuma cultura nacional, não tem chauvinismos, não tem gírias de grupos ou de classes sociais. O Esperanto é uma língua neutra, desvinculada de ideologias raciais. Facilmente aprendido pelo falante de qualquer outro idioma, será sempre uma língua auxiliar e jamais ocupando o lugar das falas de qualquer país ou região. Com tendência a ser amado e admirado, o Esperanto é a mais fraterna de todas as formas de comunicação, nivelando e igualando falantes, fazendo desaparecer dominações, nunca deixando margens para ninguém ser humilhado. Um esperantista ale¬mão ou americano terá a mesma categoria social de um esperantista brasileiro, angolano ou japonês. O esperanto será sempre uma segunda língua para um chinês, um espanhol ou um romeno. E uma segunda língua nunca tem dono, será sempre uma escolha, uma opção. É o Esperanto a língua mais fácil de s er aprendida no mundo. Não tem segredos, não tem exceções, não tem gramática complicada nem excesso de regras. A gramática do Esperanto é de uma simplicidade que encanta: tem apenas dezesseis itens, fruto da mais absoluta lógica e inteligência linguística. Enquanto o francês dispõe de 3.600 formas verbais, o Esperanto precisa de apenas doze. Enquanto o português utiliza de inúmeras formas de plural para substantivos, adjetivos e verbos, o Esperanto tem apenas uma para substantivos e adjetivos. As preposições do Esperanto são perfeitas, definidas. As palavras que indicam tempo, lugar, quantidade, causa, razão, modo, qualidade têm sempre as terminações fixas para cada caso assim também como as que denotam coletivos, indivíduos, conjuntos, graus, parcelas. Aprende-se contar em Esperanto em apenas dez minutos. O conteúdo gramatical pode ser do¬minado em poucas horas. Já houve na história quem o tenha aprendido em horas: o genial Tolstoi, por exemplo, que chegou a traduzir do Esp eranto para o russo com menos de meio dia de es¬tudo. Não creio que exista outra experiência intelectual melhor ao que a aprendizagem do Esperanto. Tem o sabor da história, a sensação da matemática, a curiosidade da lógica, a luminosidade da geografia, o mistério das artes. O Esperanto é tão perfeito, que criado por Zamenhof há cem anos, estudado e dissecado por linguistas do mundo inteiro em noventa e oito congressos internacionais, não teve até hoje uma única modificação em sua estrutura. É ainda a mesma língua do sábio polonês de Bialistok, com a mesma perfeita estilística. E sem sotaques! Presidente da Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas


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Por Wanderlino Arruda - 27/3/2014 08:13:37
INESQUECÍVEL ADÉLIA MIRANDA

Wanderlino Arruda

Como em fins de 1988, vejo ainda e sempre Adélia Miranda, doce e querida amiga, como a tenho visto desde os dias em que, quase menino, cheguei a Montes Claros. Ela, também garota, novinha, estudante não me lembro se do Colégio ou do Instituto, era colega de Mary, filha de Dona Tonica, proprietária da pensão onde fiquei morando. Adélia fazia parte de um lindo grupo de Tiana Osório, Belvinda e Lola Chaves, amigas da Mary, tudo gente fina, do melhor trato, um resumo social do melhor que havia. Não demorou muito e todas se viram ligadas a mim, acredito mais pelo inglês que eu sabia e lhes era útil do que propriamente pela minha alegria de viver e pelo meu espírito brincalhão que as fazia rir o tempo todo. Elas grã-finas, elegantes, bem postas na vida. Eu, pobre estudante e balconista de duas mudas de roupa, um só par de sapatos, provinciano, salvando-me apenas pela garra de trabalho e estudos e pela confiança no destino que poucos jovens do mundo poderiam ter. Mentalmente, escrevendo esta crônica, vejo Adélia ainda em nossa sala de estudos da casa de Mary, janela para a Rua Afonso Pena, esquina com a Padre Marcos, aquele bequinho que saía do Colégio. Fugindo das horas movimentadas do almoço e do jantar, o ambiente fazia silêncio para as almas jovens, interessadas e estudiosas. Pouco se falava de namoros, de cinemas, de footing, mas muito de gramática, de história, de geografia, de latim, territórios em que eu, mesmo nos primeiros dias, já circulava com a maior desenvoltura, inclusive com experiência de redação. Tempo gostoso e bom, quando eu me sentia importante, bem visto, cortejado por uma admiração que podia ser notada facilmente nos olhos de cada uma. Afinal, como podia aquele garoto de São João do Paraíso saber tanta coisa que a escola não lhes ensinara? Adélia, então, chegava a fazer-me confidências do quanto os nossos encontros eram agradáveis e proveitosos. Ninguém faltava. Ninguém atrasava. Era satisfação que transitava em todas as direções! Muitos anos depois, já longe das escolas secundárias, separados pelo trabalho e pela própria dinâmica da vida, vejo-me, de novo, junto a Adélia nos primeiros dias de Faculdade de Filosofia, quase no mesmo espaço geográfico da pensão da mãe de Mary, uma vez que a FAFIL se instalou exatamente no prédio do Colégio das irmãs. Lá estava Adélia, secretária de todas as horas, doçura de amizade, consideração sem igual, sempre presente em alma jovem e sincera, raro privilégio da vida. Adélia da mesma simpatia, sabor de mel no convívio ameno e prazeroso, suave em todos os momentos! "Quem não gosta de Adélia, de quem gostará?", eterna pergunta que a beleza de sua própria voz apresenta nos cantos das serestas tão vivas de Montes Claros! Doce Adélia, muitos e muitos anos de FAFIL, tão amada em todo o tempo! Estimada, admirada, querida de todos, linda presença de uma eficiência sem igual. Adélia, a própria FAFIL! Se não existisse, teria de ser inventada! De todos esses anos de FAFIL, também com Belvinda, com Lola, com tantos e notáveis companheiros e companheiras de estudo e de trabalho, jamais será esquecida a figura quase santa de Adélia Miranda, grande secretária! Para o quase meio século de bons serviços, muitos tributos ainda serão cobrados em favor da importância do trabalho de muitos dirigentes, de centenas de professores, de funcionários estimadíssimos, até de um punhado de bons alunos. Nenhuma figura, entretanto, em nenhuma época, será tão importante como a de nossa doce Adélia, grande Adélia Miranda, amada e protegida de Deus e de todos os deuses da amizade e do amor! Há algum tempo no Mundo Maior, acredito muito e muito admirada, tenho certeza de que todos os ambientes que a circundam são e serão sempre luminosos e cheios de sonoridades. Tão lindos como as suas melodias na seresta de Montes Claros e da nossa Minas Gerais!

* Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 20/3/2014 09:00:20
Academia Maçônica Inova com Participação Feminina

Wanderlino Arruda

A Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas foi instalada na noite de quarta-feira, em evento realizado na Loja Maçônica Filhos de Hiram, em Montes Claros, com uma novidade: receberá mulheres como Sócias Honorárias. O presidente Wanderlino Arruda anunciou a filiação de Ivone Oliveira Silveira, presidente da Academia de Letras de Montes Claros que neste ano comemora 100 anos, além de Amelina Chaves, viúva do maçom Almir Chaves e também da Academia de Letras de Montes Claros. Será a primeira vez que mulheres participarão de uma Academia Maçônica de Letras. Desde o ano de 2009 que a Maçonaria discutia a criação da Academia de Letras em Montes Claros, nos moldes da existente em Sete Lagoas e Juiz de Fora. A Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas tem como diferencial sua jurisdição regional, pois envolve 75 lojas de 86 municípios, vinculadas ao Conselho de Veneráveis do Norte de Minas (Convenorte). O presidente do Conselho, Silvio Cesa Carvalho salienta que a principal função da Academia Maçônica de Letras é fomentar a atividade cultural dentro da instituição. Além da posse de 40 maçons como sócios efetivos, a Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas tem sócios honorários, como o ex-reitor da Universidade Estadual de Montes Claros, José Geraldo de Freitas Drumond e o empresário Luiz de Paula Ferreira, ambos egressos da Loja Deus e Liberdade, Thier Penalva, considerado um dos maiores pesquisadores sobre a Maçonaria, Cesario Termando Rocha, Célio Brito, Dário Cotrim, José Jarbas Oliveira Silva e Waldir Senna Batista. Entre os beneméritos, os Grão-Mestres Euripedes Barbosa Nunes, de Goiás e Amintas Araujo Xavier, além de Jorge Lasmar, da Academia Maçônica de Letras de Minas Gerais. O sócio correspondente é Joenildo Chaves, montes-clarense desembargador em Mato Grosso do Sul. Todos associados até agora são maçons, ativos ou mesmo afastados. A exceção agora será a filiação de mulheres; A filiação de Ivone Silveira e Amelina Chaves deverá ocorrer na próxima sessão magna da Academia Maçônica, que poderá ser no lançamento do primeiro livro, com os currículos e história dos quarenta patronos, além dos associados efetivos, honorários, beneméritos e correspondentes. A inserção feminina na Academia Maçônica recebeu o apoio dos Grão-Mestres presentes a solenidade, Eurípedes Barbosa Nunes e Amintas Araújo Xavier. A escritora Ivone Silveira, que neste ano completa 100 anos de idade, parabenizou a Maçonaria pela criação da Academia de Letras e convidou os novos acadêmicos a trabalharem em parceria com a Academia Montesclarense de Letras, sob sua presidência há 29 anos.


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Por Wanderlino Arruda - 17/3/2014 14:07:10
2014, Centenário de Yvonne Silveira

Wanderlino Arruda

Yvonne e Olyntho Silveira realizaram, lá pela meia idade, uma mais do que querida adoção. Receberam, com muita alegria, Ireni, Ireni Mota Carlos, que lhes deu dois netos: Maria Luíza e Pedro Vinícius. O nascimento de Maria Luíza Oliveira Silveira foi elegantemente comemorado com um soneto de Olyntho, um dos mais bonitos que ele escreveu. De Maria Luíza, curso superior de Enfermagem, casada com Leandro Pimenta Peres, nasceu o bisneto Vinícius Silveira Peres, que já anda como rapaz, dá recados e faz as honras da casa quando chega uma visita. Moram todos numa linda casa da Rua Basílio de Paula, que liga a Vila Brasília ao Bairro Todos os Santos. Para a época de antanho do casamento, em Brejo das Almas, Olyntho e Yvonne se uniram já bem coroas (76 anos de vida em comum), ele com 23, ela com 18. E só se casaram depois de quatro anos de namoro, porque Olyntho não lhe dava sossego, passando dia e noite de bicicleta em frente à casa de D. Cândida e Niquinho Oliveira, s eu pai. Por falar em Niquinho, é bom dizer que ele, na verdade, tinha um nome de literato e de orador e dois apelidos como farmacêutico, um no Brejo, outro em Montes Claros: o normal era Niquinho Oliveira. O outro, que lhe foi posto por Joaquim Sarmento, um dos seus melhores amigos, era Niquinho Açúcar, só usado pelos mais íntimos. E por que Ninquinho Açúcar? Havia, na Camilo Prates, da Padre Augusto até a Praça Doutor Carlos, dois Niquinhos farmacêuticos: Niquinho Teixeira e Niquinho Oliveira. O Oliveira, louro e brancão, como disse antes, de olhos verdes; o Teixeira, um tanto quanto amorenado. Para distinguir melhor, Joaquim Sarmento apelidou-os de Niquinho Açúcar e Niquinho Rapadura, ficando assim bem mais clara a identificação. Quando não era ainda normais as viagens para outros países, Dona Yvonne fez duas aventuras na Europa. A primeira em 1981, lembro-me muito tendo de memória os comentário do seu companheiro de turismo, Lazinho Pimenta. A segunda em 1991, com um turma de amigas, um mês inteiro percorrendo Portugal, depois de participar como representante brasileira em uma Convenção do Elos, no Faro, quando D. Fernanda Ramos era presidente internacional. Sem dúvida, fizeram muito sucesso, bela apresentação do elismo brasileiro, principalmente do nosso Elos Clube de Montes Claros, que sempre esteve na vanguarda. Desejo lembrar também aqui da admissão de Dona Yvonne na Academia Montesclarense de Letras, juntamente com Simeão Ribeiro Pires, Olyntho Silveira, Cândido Canela e Sílvia dos Anjos, primeira turma convocada para se unir aos fundadores Alfredo Marques Vianna de Góes, João Valle Maurício, Joaquim Cesário dos Santos Macedo, Francisco José Pereira, Orlando Ferreira Lima, Heloísa Neto de Castro, Antônio Augusto Veloso, Maria Ribeiro Pires, Dulce Sarmento, José Raimundo Neto, Hélio Oscar Valle Moreira, Avay Miranda e Geraldo Avelar. A curiosidade é que os criadores da Academia não queriam ter patronos, privilégio que ficaria para eles mesmos, quando morressem. Foi Yvonne Silveira que os convenceu a adotar a prática normal. Neste grandioso 2014, ano de seu centenário, estaremos em constantes festas, preparando e comemorando juntamente com ela todas as glórias que Deus lhe permitiu. Ana Valda Vasconcelos, representando o Elos Clube, Maristela Cardoso planejando pelos artistas, e eu, como presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, estamos nos reunindo com muitas instituições para realizarmos importantes reuniões festivas. Elos Clube, Academias de Letras, Instituto Histórico e Geográfico, Rotary, Conservatório, Fundação Marina, Ateliê Felicidade Patrocínio, Associação dos Artistas Plásticos, Automóvel Clube, Câmara Municipal e Assembleia Legislativa. As duas maiores manifestações deverão ser da Reitoria da Unimontes e da Secretaria de Cultura. O Reitor João dos Reis Canela já está preparando sua festa para o mês de maio.

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Por Wanderlino Arruda - 10/3/2014 16:31:39
Yvonne Silveira e o Largo de Cima

Wanderlino Arruda

Yvonne de Oliveira Silveira é de Montes Claros e veio ao mundo em 30 de dezembro de 1914, numa casona de esquina das Ruas Padre Augusto/Doutor Santos, onde agora reina o Banco Itaú. Tempo bom de infância de Cândido Canela, Mário Veloso, Waldir Bessone, Raul Peres, Ciro dos Anjos, Felicidade Tupinambá, tempo de suas amigas Walkiria Teixeira, Zuleica, Luíza Froes, Dora dos Anjos, Idoleta e Maria Maciel. Tempo de seu futuro namorado, noivo e marido Olyntho Silveira. Dona Yvonne tem duas origens interessantes: da família Peres, de tradição montes-clarense e do sangue alemão do seu pai Antônio Ferreira de Oliveira, lourão de olhos verdes, sobrenome brasileiro, porque traduzido. Teve sete irmãos: Wilson, Lívio, Zilda, José Laércio, João Hamilton, Paulo Nilson e Nilza. Muitos tios: Alexina, Francisco, Levy, Iracy, Raul, Rubens, Zelândia e Zélia. Francisco era o famoso Cica Peres. Raul, é o doutor Raul Peres, agora chegando aos 104. Foi criada pertinho do Largo de Cima, conhecedora perfeita da Praça Doutor Carlos, ouvinte de todo o barulho de fereiros e de animais amarrados em moirões e palmeiras. Tudo uma alegria para a menina que vivia entre canteiros de flores e hortas de alface, brincadeiras de quintal e jogos de rua, estórias dos mais velhos no escurecer da boquinha da noite, assentados na calçada. O tempo corria lento, marcado pela posição do sol e pelo sino do relógio da torre do mercado, um batido musical para cada meia hora e tantas e tantas pancadas coerentes com o número do mostrador; meio-dia e meia-noite, claro com doze lidas sonoridades. O que não era poeira do chão, era boniteza colorida das dos pequis, dos cachos de banana, dos sacos de laranja, dos bacuparis e das pitangas, das carnes cheirosamente penduradas e pingando gordura. Tudo, tudo entre a realidade e os sonhos. Agora Dona Yvonne – assim eu a sempre tratei mesmo como colega de faculdade - vive seu centenário e faz a vida se transformar em obra de arte. Sempre parecendo que saiu do banho, cabelo arrumado, perfume de mãos que oferecem flores, seu olhar é de quem ama mais do que tudo a existência. Em Yvonne Silveira, nada mais condizente que as palavras de Emmanuel construídas no sonho e concretizadas no amor: “Duas asas conduzirão o espírito humano à presença de Deus: uma chama-se AMOR, a outra, SABEDORIA. Pelo amor, que, acima de tudo, é serviço aos semelhantes, a criatura se ilumina e aformoseia por dentro, emitindo, em favor dos outros, o reflexo de suas próprias virtudes; e, pela sabedoria, que começa na aquisição do conhecimento, recolhe a influência dos vanguardeiros do progresso, que lhe comunicam os reflexos da própria grandeza, impelindo-a para o Alto”. O Curso de Letras, o primeiro em nível superior em Montes Claros, teve início no Colégio Imaculada Conceição, em 1963, teve matrícula de 52 e formatura de somente sete: Yvonne, Saturnino, Hugo, Adilson, Lola, Irmã Guiomar e Wanderlino. Quando o terminamos em 1967, para sermos professores universitários em nossa própria escola, Yvonne e eu tivemos de seguir para a pós-graduação na Universidade Católica de Minas Gerais, ela na especialização em Teoria da Literatura, eu em Linguística Geral, isso além de termos de prestar exames de suficiência, ela na Universidade Federal em Belo Horizonte, eu na Federal de Juiz de Fora, porque o registro da Fafil iria demandar ainda algum tempo. Já com muita prática no ensino de Português e de Literatura, fomos na área os primeiros a preparar futuros alunos e candidatos ao vestibular. Daí, da cátedra e da titularidade de professores, vivemos entre importantes gerações de estudantes que, hoje, marcam o jornalismo, a vida social, a bat alha política e cultural em várias partes deste Brasil. Fico encantado quando um aluno de Yvonne marca lembranças de suas aulas, principalmente por recordar cada minuto do entusiasmo dela, principalmente das muitas palavras de incentivo à leitura e à escrita. Como a sua estreia no magistério foi aos doze anos, ela teve no mínimo oitenta e oito de oportunidades para despertar vocações, quase um século de benfazeja prestação de serviços à cultura. Vale muito comemorarmos seu centenário o ano inteiro!

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Por Wanderlino arruda - 3/3/2014 17:23:43
VOLTA DAS FÉRIAS

Wanderlino Arruda

Ninguém sabe explicar como e porque o tempo de férias, gasto sem fazer nada, passa tão depressa e de modo tão imperceptível. Os dias e semanas voam encantados, bailando sobre nossa alegria pelos momentos que sobram da tribulação do sempre e do constante. Humberto de Campos, em uma de suas inesquecíveis crônicas de fim de vida, lá pelos idos de trinta, dizia que o tempo de alegria tinha a velocidade das borboletas, a agilidade multicolorida de asas que vão aqui e acolá, saltitantes, a zombar da tristeza e da dor, que rastejam como lentas e lerdas lagartas. A alegria é como o perfume, plena de presença, mas, sempre fugaz, passageira, marcando um fluxo de bem-estar. Alegria é como o azul ou qualquer outra cor, que só aparecem com a luz, o tênue espaço de claridade. Teço estas considerações sobre o tempo e sobre a alegria, para dizer que não vi passar os dias e as horas de ausência dos e-mails, do Facebook, das muitas páginas virtuais, quando não sei como nem de que ocupei todas as minhas horas de folga em longa viagem ao Uruguai e à Argentina, que ganhei de presente, porque este ano marca o início dos meus bons oitenta anos. Quase não mais Brasília - nas tarefas de organizar cursos e dar aulas para colegas mais novos, quase não viagens para falar do Rotary International, da Fundação Rotaria e até mesmo de literatura, tantos e tantos outros assuntos. Juntados às demais tarefas nas academias e no Instituto Histórico e Geográfico, é justo e normal o acúmulo de cansaço e disposição para o descanso. Janeiro, ressaca das festas do Natal, início e fim de pequenas tarefas, transforma-se em mais um motivo de acomodação. Fevereiro chega e acabam-se as desculpas, esvaem-se os sonhos de folga e haja mãos no serviço, que o trabalho não espera por ninguém. É claro que com tudo isso, não precisava ficar ausente do viver normal de todos estes muitos anos de luta diária. Desculpas não valem. Nenhum motivo pode ou deve obrigar a ausência deste convívio tão doce de cada manhã de domingo e dos dias normais de semana. É como um som de piscina a revigorar o corpo e a alma, tonificando a amizade de quem lê e quem escreve, mesmo quando quem escreve não escreve lá tão grandes coisas... Aqui estou, depois da Primavera e em pleno Verão, tempo-início de novas jornadas, ano do centenário de Yvonne Silveira, com programação que Ana Valda e eu estamos a elaborar e a incentivar. Tempo histórico, marco de muitas lutas de velhos e de novos bons companheiros. Tempo e saudades dos mais antigos, ainda diletantes, apesar dos sessenta anos de jornalismo, sessenta de bancos, de magistério e de Rotary, pois, em tudo desde 1954, recém-saído do Grêmio "João Luiz de Almeida" e do Tiro de Guerra, desenvolvimento na política estudantil, contatos com o mundo social de que era o tempero do Rotary Montes Claros, no velho hotel São Luiz, presidência de Luiz de Paula , animação de João Souto. Que este início de ano tenha sempre o sabor de todas as idas e vindas das letras de forma dos jornais e dos livros. Que este ano, quando espero lançar pelo menos dois livros, deixar perfeita e prestigiada a Academia Maçônica de Letras do Norte de Minas, fundar a Academia Montes-clarense de Artes e publicar no mínimo mil e duzentas páginas de história através do nosso Instituto. Espero que o 2014 seja riquíssimo em produção de cultura e em despertamento de muitos e muitos ideais. Acima de tudo demonstrar que idade - mesmo quando avançada - não pode ser motivo de acomodação ou de descanso. O centenário da intelectual Yvonne de Oliveira Silveira vai dizer do quanto Montes Claros é a cidade da arte e da cultura. Que Deus nos proteja e garanta a muita saúde!

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Por Wanderlino Arruda - 24/2/2014 08:22:49
NOVELAS - Não sei se você já pensou pelo menos um pouco sobre o que as novelas vêm representando ou podem representar, sobre o que trazem de realidade e o que podem oferecer de sonhos ou de ilusões. Alguém dizer, hoje, que não assiste a novelas, que não dá confiança a elas, que não tem tempo para acompanhá-las, nem sempre representa uma verdade. De um ou outro capítulo, ou mesmo de uma sequência deles, ninguém escapa, pois a tevê - queira ou não queira alguém - ocupa sempre um lugar importante na casa, seja na sala, seja no quarto de dormir. Em algumas classes mais bem situadas, podem existir até muitos aparelhos em diferentes partes, incluindo aí até equipamentos de gravação. Assim, a pessoa - homem ou mulher, jovem ou velho - pode escapar do imposto de renda, das notícias violentas, da praga dos programas políticos, mas nunca da influência da televisão. E qual é mesmo a função social da novela? Tem ou não tem ela alguma utilidade prática, além do divertimento e da simples ocupação do tempo ocioso? É a novela didática, isto é, contribui para alguma aprendizagem, aumento de cultura? Que tipo de expectativas decorre do acompanhamento de uma delas, do convívio diário com as personagens, do amor e do desamor que elas provocam, das simpatias e das ojerizas, da beleza e da feiura, das carências e dos requintes? Muitas são as interrogações, mas não sei quantas poderá o leitor dar em termos de sua própria experiência. Quem sabe talvez seja esse um trabalho para sociólogos e psicólogos, para outros os cientistas do comportamento humano. O certo é que elas têm de ser notáveis por alguma coisa, pois, do contrário, não poderiam trazem tanta preferência por parte de gente de todas as idades, aqui, neste alegre e sofrido Brasil, e mesmo em centenas de outros países. Acredito que, até certo ponto, as personagens das novelas são pessoas do nosso dia-a-dia, as mesmas que convivem conosco ou são alvos de nossa atenção nas notícias dos jornais e das revistas, ou nos noticiários da própria televisão. Vejamos o exemplo da estratificação social, praticamente tudo em termos de oposição, aparecendo os embates emocionais entre ricos e pobres, educados e mal-educados, finos e grosseirões, bons e maus, virtuosos e pecadores, novos e velhos, desprendidos e ambiciosos, grã-finos e bregas. Há também os paralelos e as diferenças nas profissões, perfilando ao mesmo tempo, o industrial, o comerciante, o banqueiro e seus empregados de trabalho leve e trabalho pesado, todo mundo ao lado do médico, do padre, do advogado, do motorista, da secretária, da periguete, do jagunço, da empregada, da mãe-preta bondosa e conselheira, da dona de casa sobrecarregada, tudo dentro de determinadas normas, centrado por valores, situações e costumes mais diversos. Destaquem-se ainda o deslumbramento dos ricos, a problemática dos pobres, a luta homérica para a sobrevivência da classe-média, esta espremida entre o polo da ostentação da riqueza e o sofrimento marcante da miséria dos pobres. O rico sempre com uma montanha de supérfluos, buscando cada vez mais a ascensão social. Os pobres mergulhados na crendice (mal também dos ricos), no jogo do bicho, nas escolas de samba, nas barracas das feiras, no futebol, nas profissões de baixa renda, morando sempre em favelas, cortiços, ruas antigas e afastadas, vivendo em locais barulhentos e de grande densidade populacional. A felicidade raramente está desligada do dinheiro e do poder, do luxo e da boa vida, principalmente das lindas casas bem decoradas, cheias de móveis vistosos e ornamentadas, por fora, com carros do último ano. A felicidade sem dinheiro só aparece de vez em quando e, assim mesmo, com alguma obsessão de amor, com tentativas de casamentos impossíveis ou impraticáveis, pois casar exige quase sempre o mesmo "status" social, uma proximidade de classes. Acompanhar uma novela, de princípio ao fim, é candidatar-se para muito sofrimento, muita angústia, um convívio diário com toda espécie de paixão, embora algumas vezes gratificante pelos toques de humorismo, de esperança, de romantismo, de sabedoria, em proporções que só o drama ou a comédia podem oferecer. Mas como há vocação para tudo, gosto para todas as situações, sejamos telespectadores assumidos, porque a vida é breve, e a dos outros é sempre mais emocionante do que a nossa! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 18/2/2014 08:08:42
VERGILIUS - De todos os grandes nomes da arte universal, creio que o mais destacado amigo da Natureza tenha sido o poeta Vergílio, romano nascido em Andes, pertinho de Mântua, norte da Itália. Longe de ser nosso contemporâneo pelo nascimento, pois, de 70 antes de Cristo, é ainda de nosso tempo pela atualidade das suas ideias, da intransigente defesa de tudo que é natural, disposição íntima e política digna de ecologista do fim do Século XX. Tudo em Vergílio era de uma simplicidade a toda prova e vivia ele a cada som e casa matiz de todas as auroras. Homem íntegro, conversava naturalmente com reis ou pastores, tanto podendo conviver com os nobres dos palácios como com as crianças das campinas, dos flocos de neve das montanhas. As estrelas ou os rouxinóis, as tempestades ou o orvalho, os voos dos pássaros ou o despertar das flores, tudo para ele era música do coração, alegria dos olhos, inspiração da alma. A beleza do mundo e da vida era a melhor matéria-prima para seu trabalh o, o ofício de poesia, luz que daria sempre maior brilho à sua inteligência. Tinha Vergílio apenas 25 aos quando começo a composição das "Éclogas". Aos 30, produziu as "Geórgicas", poema didático em quatro cantos, em que celebrou a felicidade do trabalho rural e a vida mais próxima à Natureza. Amigo de Otávia, irmã do imperador, encantou-a com a leitura do Canto VI da "Eneida", referente à morte do seu filho Marcelo, o que lhe valeu dinheiro em quantidades para ficar rico e ainda muita proteção de Mecenas e do próprio César. Com a poesia, o jovem poeta ajudava a destacar o brilho de Roma e dos romanos, vivendo e fazendo com que outros também vivessem felizes. Inimigo do fausto, seus versos reconheciam as doçuras da vida em família e nada lhe era melhor do que o retiro e a solidão. Tímido, delicado, sensível, de coração terno, não lhe agradava a agitação da capital do Império, barulhenta e movimentada. Por incrível que pareça, o grande cantor da paixão de Dido, uma das mais belas páginas da poesia universal, nunca se dedicou ao casamento. C ulto e melancólico, preferiu viver só. Um dos livros bem vendidos no Brasil, no final do século passado, do escritor alemão Hermann Broch, tem toda sua trama baseada nas últimas horas da vida de Vergílio, que morreu em Brindisi, na Calábria. Estava o poeta com cinquenta anos e resolvera conhecer a Grécia, onde se incorporara à comitiva de Augusto e, por infelicidade, adoecera no meio das festas em Megara, na vizinhança de Corinto. É possível que durante o curto período de doença, no ano 19, tenha-lhe passado pela cabeça realmente toda uma perspectiva de vida, tenha feito de alma e coração um doce e amargo exame de consciência de si mesmo e dos seus contemporâneos. Para uma inteligência como a do autor da "Eneida", do verdadeiro criador de Enéas, a vida deve ter sido o mais monumental do todos os feitos da realidade e da arte. Afinal, estava para deixar o mundo um dos seus mais cultos intelectuais, envolvido em todas as províncias do Saber da Matemática à Veterinária, da Filosofia à Apicultura. Uma vida que, à semelhança das "Geórgicas", era uma epopeia de trabalho. Sempre tive muito entusiasmo, quando ouvia o meu grande amigo Padre Murta falar vidrado da poesia de Vergílio, ele Padre Murta que era o maior conhecedor da Eneida por esse nosso mundão a fora. E o que mais me encantava é exatamente saber da existência de inteligências sensíveis como a dele e do Prof. Pedro Maciel Vidigal, para buscar tão longe no tempo a vaidade do amor e o glorificar do raciocínio poético. Fico mais interessado ainda quando leio que era Vergílio também um poeta de grafite, escritor de muros, pintor de paisagens e mestre na feitura de belas estátuas. Imitador de Homero, foi imitado por Dante e por Camões. Amigo de Augusto e de Mecenas, pela eternidade do gênio ainda é nosso amigo. Quão bom seria se pudéssemos ler ainda seus últimos versos! Eles foram escritos para seu túmulo em Nápoles: "Mântua me deu a vida; Brindisi a morte; Nápoles, a sepultura. Cantei rebanhos, os campos e os guerreiros". Morreu como nasceu assim como seu admirador, o Padre Murta: para ser imortal! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/2/2014 14:22:14
APRENDER A VIVER A VIDA - Tenho pena das pessoas que vivem sempre em estado de prontidão, à espera de um alarme, de um sinal, de um apito, pressionadas pelas exigências criadas pela própria vida de obrigações, ou pelas coações ou forças interiores, espirituais ou psicológicas, emitida a cada minuto. Tenho pena das pessoas que não aprenderam ou não querem aprender a desarmar-se na hora certa, numa descontração natural. E tenho pena dessas pessoas, infelizmente, no mundo de hoje, quase que fico com uma multidão de amigos nesse rol imenso de gente que só vive no meio de angústias. E não é bom, porque a vida é feliz ou infeliz, dependendo do que cada pessoa faz dela, da maneira como age ou deixa de agir. Confesso que também não sei se há amigos por aí com pena de mim, achando que estou dando conselho que não consigo obedecer, uma vez que também não me escapo da pressa, da multidão de compromissos, do que é fazer mais do que necessário, daquele achar que existe pouco horário pela frente para executar todas as tarefas do mundo num tempo curto. Mas como conselho não é para seguir, é para dar, e dar de graça, que nunca se viu alguém pagar conselhos. "Faça o que mando, não olhe o que faço", tem sido um treiteiro ditado brasileiro, coisa da nossa arguta formação misturada de três raças, nem sempre sérias. O nosso mal é que queremos ou precisamos valorizar demais o sucesso, a competição, vitória que não se sabe qual será ou poderia ser. Nosso mal é não buscar somente a felicidade, como fazia antigamente o artesão, que visava apenas ao bem-estar, um sossego tranquilo de consciência, uma calma que oferecia muito mais qualidade de vida. Nunca me esqueço dos velhos sapateiros, das mulheres rendeiras, das cozinheiras que faziam cuscuz, dos lavradores de enxada e arado de tração animal, dos consertadores de cerca. Não me esqueço do tempo de futebol-arte sem tanta correria para passar na frente dos competidores. Essa tal filosofia do "importante é ter êxito" da era pós-industrial, instilada pelos donos de empresas, é que está atrapalhando tudo. Dizem que o homem tem angústia é pelo fato de ser o único animal que sabe da própria morte, ou melhor, que tem consciência de que vai morrer. É possível que isso lhe dê o aspecto altamente competitivo em que marca cada um dos seus dias, com a pressa de vencer, de conseguir o equilíbrio financeiro, a segurança, a posse, o prestígio social, o mando, infelizmente tudo muito relativo, pois nunca ninguém sabe o que é realmente suficiente a ponto de parar a luta. Não seria melhor voltar para o lado lúdico da vida? Por que não sempre buscar só a felicidade? Porque não imitar nossas crianças tão pouco preocupadas com a vitória imediata e muito mais envolvidas com o misterioso gosto do viver alegre? Não se pode dar todas as soluções. Mas de uma coisa creio que estou muito consciente: é preciso urgentemente aprender a viver a vida. E vive-la do melhor modo possível! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/2/2014 08:33:55
FILANTROPIA - Do grego philos - amigo - e anthropos - homem - veio a nossa palavra filantropia, que significa amizade pelo homem, pela espécie humana, sentimento humanitário, altruísmo. Quase sinônimo de fraternidade, filantropia é uma forma de amor universal, em cujo caminho devemos trilhar, observando e ajudando a todos os necessitados, desde os desvalidos da sorte até os aparentemente mais felizes. Deve ser abnegação sincera e legítima, em todos os sentidos da vida, em toda cooperação verdadeira, pois quem cede de si mesmo dá testemunho de solidariedade e de amor. A filantropia, no sentido do atendimento, da assistência, da busca de transferência da felicidade, é pura caridade, é puro amor. Ela inclui nosso dever de esclarecimento fraterno, a todo tempo que se faça útil e necessário, pois esclarecer também é amar e ajudar construir e edificar. Filantropia é prestação de serviço - intelectual, material ou espiritual - sem remuneração, sem constrangimento à pessoa auxiliada. E é exatamente no ponto de vista filantrópico que devemos ver nossa comunidade, nossos companheiros de viagem, dos difíceis trajetos da vida de nosso tempo, quando tudo, cada vez mais se transforma em sérios obstáculos. Se viver já é pesado, mais problemático ainda é a convivência de cada dia no duro ritmo de desesperados a que nós estamos acostumando, com mil obrigações de toda espécie. Parece até que já não somos irmãos, não somos vizinhos, não dedicamos nossa felicidade à felicidade do nosso próximo. Como somos todos eternos necessitados, sempre carentes de algo, e só aí o conceito igualitário é possível, a filantropia transforma-se em lei de assistência mútua, em cooperação, em suave troca de benefícios comuns, para quem doa e para quem recebe. O próprio ato de busca do aperfeiçoamento pessoal, de iluminação íntima, já é uma espécie de filantropia, uma vez que a autoeducação contribui, no plano geral, para a felicidade humana. Uma coisa é certa: somos responsáveis pela boa convivência, somos responsáveis ao menos por um pouco de alegria, um pouco de cultura, um pouco de bem estar da nossa comunidade. Se somos usufrutuários de bens e conhecimentos encontrados à nossa disposição quando tomamos conhecimento do mundo, somos por isso mesmo, devedores e coobrigados na melhoria social sob todos os pontos de vista. Não é justo que deixemos nossa comunidade da mesma forma que a encontramos, pois bom e certo é acrescentar-lhe alguma coisa de nosso trabalho, algo de nossa inteligência, alguma virtude - mesmo que pequena - de nosso coração. Não há, em verdade, vantagem nenhuma ter bens produtivos em regime de estagnação. Filantropia é dinamismo, é movimentação de valores em direção ao nosso próximo, é vivência em familiaridade respeitosa com todos, em todo o tempo, em toda a parte. Filantropia é a não retenção de excessos, na despensa ou no guarda-roupa, no bolso ou na conta bancária, assim, como dos objetos sem uso, ou mesmo de reservas outras que podem estar encaminhadas aos serviços assistenciais. Como bem escreveu o apóstolo de Tarso - em sua magnífica carta aos coríntios - o amor não folga com a injustiça, mas folga com a verdade. O amor tudo tolera tudo crê, tudo espera, tudo sofre. Verdade pura, leitor/leitora, porque amor ao próximo é filantropia e filantropia é caridade mais do que legítima. Academia Montesclarense de Letras


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Por Wanderlino Arruda - 29/1/2014 10:42:53
A NUDEZ DE JANEIRO - Chega o verão e com ele toda a nudez das piscinas e das praias, espocando universos de peles douradas de mulher jovem. Poderia isso não ser novidade, uma vez que todos os anos têm os seus janeiros e todos os janeiros seus dias de sol e calor. Mas acontece que neste ano da graça de dois mil e quatorze há novas visões de mais centímetros quadrados à mostra, coisa realmente muito linda como diria o saudoso Simeão Ribeiro. Aqui, alhures, em todos os hemisférios da gente feminina. Os maiôs, minha senhora, ficaram mais bikininíssimos, quase translúcidos, finos, sem peso, beirando a inexistência pura e simples, quase como aquela vista pelo almirante Pedro Álvares Cabral, quando veio por cá descobrir as índias. Chego a acreditar que, desde 1500, a nudez brasileira nunca - nunca mesmo - foi castigada... A notícia nos chega das praias do Norte-nordeste e do Sul, de todo o nosso lindo litoral. Nunca houve tanto feminino pelo ar descoberto, tudo natural com estilo bem apropriado para quem, com juventude, bem sabe desfilar a formosura. Sorte lançada desde o início de dezembro, salgada ou doce, quente, penetrante nos olhos de sol, fazendo e desfazendo as cabeças da moçada, deixando ouriçados os corações. E nem precisava notícia de fora porque, por aqui mesmo, a visão que encanta já se acha até inflacionada à beira de muitas águas. Quanta distância dos maiôs de gola e fitinhas de joelho das nossas vovós!... Quanta mudança a mais na descontração de quem pode e sabe usar as peças moderninhas!... Dizem que a verdadeira roupa do verão é a cor da pele, o dourado cobrindo todo o corpo por inteiro, numa ousadia do mostrar, do investir na sedução plena e arrasadora, cúmplice e solidária. Dizem que o verão é tempo de alegria como nenhum outro, salpicado de liberdade, cheio de férias e feriados, quase tempos de carnaval, de viagens, eterna folga e constância de folguedos. É o Verão, em que as temperaturas sobem e as pressões chegam ao máximo pela própria existência das horas de balanço e de sonhos de um ano já não tão novo, mas que muito promete. Neste janeiro de muita luz, a novidade está solta, o senso estético renovado, só beleza pura porque nenhuma gordurinha mais pode ser encontrada, nada de celulites ou coisas de estragar as vistas. De Fortaleza, de Natal, da Bahia, do Rio de Janeiro, de praias mil, os novos nomes dos pedacinhos de panos que cobrem as vergonhas que quase já não são: cortininha, cordãozinho, enroladinho, biquininho, corisco. Corisco, porque só deixa o risco... Quem queira usá-los tem de parecer bem natural, personalizar o máximo, estilizar dar a cadência e o balanço de Ipanema ou Itapuã. E será que isso é novidade? Pero Vaz de Caminha, escrevendo a El-Rei D. Manuel, mostra o sucesso quando diz "que entre todos que vieram não veio mais do que uma mulher, moça, a qual esteve sempre à missa, a qual deram um pano com que se cobrisse; e puseram-lho em volta dela todavia, ao sentar-se, não se lembrava de o estender muito para se cobrir. Assim Senhor, a inocência dessa gente é tal que a de Adão não seria maior..." Na verdade, o Almirante não tinha nem mesmo o que descobrir... Nem o teria hoje, se suas naus chegassem e aportassem em Copacabana ou em Camboriú... ou mesmo aqui nas piscinas de Figueira... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 16/1/2014 15:07:44
"Uma vida ao bom e ao belo Manoel Hygino Há criaturas humanas iluminadas e luminosas, que orgulham as suas gerações, como as de hoje atribuladas e inquietas diante da velocidade das transformações deste nosso tempo. (...)"

Excelente texto do conterrâneo Manoel Hygino sobre Yvonne Silveira, nossa presidente da Academia Montesclarense de Letras e sócia do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Na tribuna Yvonne Silveira tem voz de trinta anos, raciocínio perfeito sobre qualquer tema proposto. Sempre convidada para todas as mesas diretoras de todas as instituições em Montes Claros, fica zangada se não for convidada para falar. Como participantes do IHGMC, da Academia e do Elos Clube, estamos organizando uma série de reuniões festivas de homenagem a ela, durante todo o ano, a partir de fevereiro. A última deverá ficar a cargo da Secretaria de Cultura e da Unimontes, com participação de toda Montes Claros. Será no mês de dezembro quando chegará aos cem anos. A Assembleia Legislativa de Minas Gerais deverá prestar-lhe uma homenagem em março ou abril. Também a cidade de Francisco Sá, terra de Olyntho Silveira. Parabéns, Manoel Hygino pela beleza do seu texto e pela lembrança de nossa conterrânea. Wanderlino Arruda, presidente do IHGMC


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Por Wanderlino Arruda - 7/1/2014 08:11:52
ANTÔNIO FELIX E CÍCERO PEREIRA

Wanderlino Arruda

O espírito se enriquece com aquilo que recebe; o coração com aquilo que dá. Victor Hugo Construir pontes de amizade e entendimento, dialogar por toda a continuidade da vida, ser simples e autêntico como bom norte-mineiro - otimista, alegre, motivado sempre e sempre - acredito foram qualidades primordiais do professor Cícero Pereira, personagem e tema deste livro COLCHA DE RETALHOS, do irmão, companheiro e amigo Antônio Felix da Silva. Natural de Grão Mogol, Cícero dos Santos da Silva Pereira viveu vida plena e consciente com todos os coloridos de uma encantadora espiritualidade, só possível a seres iluminados por muitos méritos. Foi homem sem metades, sem lacunas, alma e corpo por inteiro, cristão em tempo integral da primeira à última hora. Todas as qualidades de um ser humano incomparável no seu tempo ou em qualquer tempo. Conheci muito Cícero Pereira em muitos e muitos dedos de prosa com a sua irmã Lisbela, querida amiga. Conheci Cícero através do seu irmão Ezequiel, este dileto amigo de longo convívio na Fraternidade Espírita Canacy, instituição fundada pelos dois, lá pelos idos de 1920. O professor Zeca dizia que o primeiro contato dele e de Cícero com o Espiritismo ocorreu na adolescência, quando passando pela Rua Rui Barbosa, em Montes Claros, encontraram dentro de uma valeta, uma mensagem psicografada, que lida em voz alta, foi um despertamento imediato, como se tivessem minerado um tesouro. Em uníssono, disseram mais do que imediato: - Vamos seguir esta doutrina. É boa demais da conta! Conheci Cícero Pereira também através da história de Montes Claros, estudando gentes e costumes. Cícero foi o primeiro gerente do Banco da Lavoura de Minas Gerais, de início localizado na esquina da São Francisco com a Praça Daniel Costa, coração e centro comercial. Homem bom por natureza, servir no banco ou na vida era uma atitude mental, um lema da existência. Em Cídero como em Ezequiel e Lisbela, o Evangelho tinha sentido real, era norte para todas as ações, em casa, na rua ou no trabalho. Não bastava conhecer a virtude, era preciso possuí-la e colocá-la em prática. Tudo sempre a favor, tudo sempre em melhoria das pessoas e das fases de progresso. Espírito consciente do próprio valor tem que ter virtudes de multisséculos, produzir e ensinar felicidade. "O amor não está no outro, está dentro de nós mesmos. Nós o despertamos, mas para despertá-lo, necessitamos do nosso próximo, do outro, de outrem. Não podemos deter o progresso... O Amor é difícil para os indecisos, assustador para os medrosos, avassalador para os apaixonados, para os que sabem o que querem. Nunca desistir da busca de ser feliz é para poucos". Palavras de Cecília Meireles. Cícero Pereira, nasceu em Grão Mogol aos 14 de novembro de 1881, fez curso primário em São José do Gorutuba e curso de magistério na Escola Normal de Montes Claros, onde chegou ao cargo de diretor. Casou-se com Guiomar Lellis em março de 1903. Ela e ele professores, ele além de professor, guarda-livros, taquígrafo, bacharel em Ciências Jurídicas e Sociais e poliglota. Foi também um bom esperantista. Em Grão Mogol, a partir de 1909, exerceu o magistério e foi prefeito, coletor estadual e colaborador assíduo da imprensa. Ali, levantou a bandeira do Espiritismo, conseguindo reunir elevado número de adeptos, mercê de sua simpatia, cultura e talento de grande orador. Em 1927, mudou com a família para Belo Horizonte, e lá fundou "O Tempo" e dirigiu o "Espírita Mineiro". De junho de 1937 a junho de 1940, foi presidente da União Espírita Mineira. Avesso à vaidade, sempre recusou medalhas e comendas. Nasceu, viveu e morreu pobre de bens materiais. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 30/12/2013 08:48:57
A magistral D. Yvonne Silveira, que hoje comemora 99 anos de vida, toda a nossa honra e alegria. Seus companheiros do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, da Academia Montesclarense de Letras, da Academia Feminina de Letras de Montes Claros, das Amigas da Cultura, da Unimontes, do Rotary, do Elos Clube de Montes Claros, da Assoc iação dos Artistas Plásticos, do Automóvel Clube, da Aclecia, do Facebook, afinal de toda a cidade, cumprimentam-na e pedem a Deus a conserve por aqui ainda por mais alguns anos.
IP:186.244.88.207


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Por Wanderlino Arruda - 24/12/2013 08:16:16
A VIDA MUITO MAIS AGRADECER

Wanderlino Arruda

É triste, muito triste, ver como o mundo se acha cheio de ansiedades, de conceitos puramente materialistas e utilitaristas. Pessoas e mais pessoas se esquecem da beleza da vida, da generosidade de outras pessoas, e se colocam como pequenos donos de um pedaço de meia-verdade, julgando-se numa independência que não existe. Esquecem-se de que a existência é um insistente ensino, uma perseverante luta pela felicidade e que só podemos ser felizes na caminhada solidária, de mãos dadas, unidos, com toda a alegria possível, com toda coragem, ou pelo menos com um pouco de sorrido em agradecimento à própria vida. De nada adianta o transbordamento das paixões, a manutenção de arestas morais, o popular narcisista, a supervalorização, o pretexto domínio da inteligência ou do poder, o ódio sem direção ou direcionado. Tudo é vão, o viver é um crescimento espiritual de todo o tempo. Amar a si mesmo é importante, mas é preciso amar o semelhante. E amar impõe sinceridade pessoal, desprendimento, uma visão clara de sonhos e realidades, um gostar do outro, um querer bem sem limites. De nada vale o isolamento, a limitação, só a defesa do próprio interesse, a fanfarronice vazia e boba, uma falsa autoconfiança, o desprezo bulhento aos que amam a vida. De nada vale a falsa declaração de amor, sem identificação com o bem geral. É preciso desnovelar-se num esforço de melhoria geral, abrir os olhos para a paz, a paz das quatro paredes da nossa casa, a paz da nossa rua, dos nossos companheiros de jornada, a paz do mundo. Para alcançarmos a alegria, necessário é desafadigar-nos das opacas viseiras da falsa autossuficiência, triste posição da pessoa infeliz. Há ardorosos propagandistas de si mesmo que não passam do labirinto da sua própria ilusão, mas que caminham por caminhos tão estreitos e tão vulneráveis que nunca enganam a ninguém. Falam de liberdade, pregam autonomia, fomentam guerras, exterminam simpatias, direcionam-se para o fanatismo, combatem falsamente os preconceitos, mas não sabem libertar-se da cordoalha da servidão mental a que são jungidos por si mesmos. É preciso restaurar a fé nos semelhantes, semear a palavra de vida na luz da esperança, viver com amor verdadeiro, perseverar no bem, tirar as lentes negras de diante dos olhos físicos e espirituais. Trombetear importância nunca foi medida levada a sério, a avidez de promoção pode ser atalho de caminhos, mas será sempre lodaçal de incompreensões. Não se deve morrer de orgulho, porque nem sempre a existência ajuntará o pequeno punhado de amigos que cada um tem. Eles podem espantar-se da nossa própria inconsciência. Que cada um submeta-se ao currículo da aprendizagem na academia da vida, propondo valorizar todas as lições que estudam e preparam a conquista de tesouros maiores da inteligência e do sentimento. Cada período brinda-se com nova gama de experiências. É importante saber tirar proveitos do equilíbrio dos que são verdadeiramente equilibrados. É importantíssimo saber viver todos os momentos possíveis da felicidade. Na verdade, ser feliz é a nossa meta. E para ser feliz é preciso saber bem retribuir, ter gratidão. A vida não é só pedir. É muito mais agradecer! Institutos Históricos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 15/12/2013 19:14:46
DINA PAULINO CORREIA

Wanderlino Arruda

Os noventa e três anos de coragem e alegria, que sempre marcaram e marcam nobreza, nunca envelheceram em Enedina Paulino Correia - nossa querida Dona Dina - a sua crença de amor à vida. Tem sido quase um século de invenção e re-invenção diárias, cada momento dedicado ao melhor da consideração humana. Sempre pensamentos de bondade e beleza irradiando positividade e fé, sempre o mais fino trato no ser, no estar e no compartilhar. Definitivamente marcante o amor à família, aos colegas de trabalho, aos amigos. Máxima elegância sempre! Filha de pai advogado e cronista da Gazeta do Norte, Dona Dina nasceu em Grão Mogol no quatorze de maio de 1919 e só veio para Montes Claros dois anos depois. Morou em Pires e Albuquerque oito, casou-se com dezenove. Porque o marido Geraldo de Paula Correia foi para São Paulo e voltou doente, a ela sozinha coube criar e educar os filhos Pedro, Theodomiro, Terezinha, Nadir, Carlos, Itamar, Geralda e Cláudia. Antes da aposentadoria aos trinta e cinco anos de trabalho na Escola Normal - direção de D. Taúde, de Luiz Pires, de Francolino e Sônia Quadros - sei que muitos foram os biscoitos e doces feitos no forno e fogão do Alto do Santo Expedito, casinha humilde, embora imponentemente rodeada de bonitas mangueiras. O terreno era de Neném Barbosa e ficava mais ou menos onde está o Montes Claros Shopping Center. Era de lá que o filho Theodomiro saia com a bandeja cheia para as vendas em domicílio. Dona Dina fazia questão de ter, fora do horário da escola, todos os filhos e filhas também trabalhando para garantir a lenha da cozinha e a feira dos sábados. Ela dava o melhor exemplo e fazia questão de ser seguida. Fui colega de Dona Dina, por duas vezes, no sobradão da Coronel Celestino, em 1954, quando lecionei inglês, e na Avenida Mestra Fininha, de 1965 a 1970 , quando eu era professor de português e literatura para as turmas do científico. Foi um tempo maravilhoso em nossas vidas, pois muitas e muitas amizades feitas naquela época duram até hoje e nos seguirão ao longo da jornada terrena. Dona Dina foi sempre uma colega perfeita, dedicada, presente, para mim e para todos os companheiros de trabalho, uma amiga insubstituível. Sua educação de berço, a voz sempre comedida, os olhos sempre brilhantes de consideração e amizade eram marcas de uma personalidade inesquecível para qualquer tipo de histórico pessoal. Podemos nos esquecer do que as pessoas nos dizem, mas jamais olvidaremos da forma que elas nos tratam, de como elas nos fazem sentir. Como nunca virou as costas para a vida, Dona Dina tem milhares de amigos e um milhão de admiradores. Para cada dificuldade e cada desafio, ela descobriu as respostas e a melhor forma de superá-los. Uma criatura de muitas vitórias! Com bom humor espalhando mais do que simples felicidade, Dona Dina é digna de todas as riquezas do mundo, de todos os horizontes de esperança, de todo o despertar dos sonhos. Fazendo sempre a sua parte e, muitas vezes, até a dos outr os, nossa homenageada é força visível e invisível do bem, suficientemente poderosa para transformar para melhor qualquer um dos nossos momentos. Se vivo fosse Henfil, ele poderia dizer que, em toda existência de Dona Dina houve frutos e valeu a beleza das flores, houve flores e valeu a sombra das folhas, houve folhas e valeu a intenção das sementes. Nas comemorações destes anos vividos nos mais de noventa, pedimos convictamente ao bom Deus que sempre protegeu Dona Dina e os que lhe são queridos - oito filhos, vinte e cinco netos, vinte e três bisnetos - continue amparando a todos com uma infinita e majestosa luz de amor! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros
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Por Wanderlino Arruda - 8/12/2013 23:02:02
CURIOSAS RUAS DE MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda

Vínhamos do Bairro São José para o Todos os Santos e lá, pela altura dos fundos da Praça de Esportes, sem ser solicitado, emiti uma instrução par o colega João Leite, dono e motorista do carro: "Siga em frente e entre na Rua do Marimbondo". É claro que ele se espantou, primeiro porque não estava me perguntando nada, segundo, porque não sabia que danada de rua era essa, a do marimbondo. Tive de explicar: a rua mencionada era a que ele conhecia pelo nome de Rua Altino de Freitas, aliás Rua Cel. Altino de Freitas, um famoso delegado municipal, pai de Deba, o mais poderoso chefe político que a cidade já teve. Logo adiante, pedi a João Leite para olhar à esquerda, para que pudesse ver e conhecer também as Ruas Marimbondinho e Marimbondão, ruelas, bequinhos estreitíssimos, até há pouco tempo locais de rendez-vous, tremendas barras-pesadas. Falei de outras ruas depois disso, mas nem sei se o companheiro estava interessado em dados históricos desta querida e sempre louvada cidade dos Montes Claros. Em casa, à noite, para me instruir mais no assunto de nomes antigo de ruas, fui em busca do auxílio de Hermes de Paula, no seu famoso "Montes Claros, sua História, sua Gente e seus Costumes". Não era a primeira vez que eu o consultara no assunto, mas esta foi muito importante, possivelmente pela motivação de novo interesse. Tudo bastante curioso. Por exemplo, a Rua do Marimbondo, além, desse nome, teve também o de Costa Carvalho, de Oriente, Xavier de Mendonça, Marquês de Paranaguá. O Costa Carvalho foi um erro na confecção da placa, pois a lei homenageava um dos fundadores da cidade, o Alferes José Lopes de Carvalho. Por azar, o Lopes passou a Costa. Hoje, isso não tem importância, porque várias camadas de denominações soterraram o engano. Um teste para você, leitor. Qual seria a Rua da Cagaiteira? Quais seriam as ruas da Assembleia, do Pedregulho, do Bate-Couro, do Pequizeiro, do Jatobá? Vejamos pela ordem estabelecida por Doutor Hermes. A rua da Cagaiteira, também chamada depois de Rua Sete de Setembro, é a atual Camilo Prates, que perdeu parte desse nome para João Souto, logo depois para Praça Cel. Ribeiro. Da Assembleia (por causa de uma famosa reunião de boêmios) era a Afonso Pena; do Pedregulho, chamada mais tarde de Ocidente, Joaquim Nabuco, que hoje se chama Gonçalves Figueira; do Bate-Couro, mais tarde Coração de Jesus, é a atual Governador Valadares; do Pequizeiro e também Juramento, a Rua Cel. Antônio dos Anjos; e a do Jatobá que, em outros entretantos, foi chamada de Avenida Estrela, claro, é a Cel. Prates, que perdeu as extremidades para a Praça Portugal e para a Avenida Mestre Fininha, porque hoje ela só é Cel. Prates dos fundos da Nau Catarineta (igrejinha do Rosário) até a Praça Honor ato Alves, mais chamada de Praça da Santa Casa. A rua São Francisco, bipartida para dar nome a D. Tiburtina (depois do Automóvel Clube, construído no terreno da casa dela), chamava-se da Soledade. A Doutor Santos era todinha Bocaiúva, antes chamada de Floresta. A Doutor Veloso era a Rua Direita, enquanto a atual Presidente Vargas havia passado por Rua Maria Souto e depois Quinze de Novembro. A Praça Doutor Chaves era a Largo da Matriz, e a Padre Augusto era a São Paulo. Por causa da antiga Santa Casa, a Praça Doutor Carlos foi por muito tempo denominada Largo da Caridade. O mais interessante deixei para o final. A Rua Simeão Ribeiro, antes Rua do Comércio, era a mesma Justino Câmara que desembocava ou começava na Rua da Raquel, que, por sua vez, teve os nomes de General Osório e depois Padre Teixeira, nome atual. Como nos velhos tempos montes-clarenses, nenhuma rua tinha nome de gente (pode haver exceções, que não sei), fiquei intrigado com o nome de Raquel. Veio em meu socorro o próprio doutor Hermes de Paula, explicando que Raquel foi uma famosa hetaira nos bons tempos. Aí danou tudo, tive que ir ao dicionário para ver o que significa hetaira. Caldas Aulete, sem mais nem menos, remeteu-me para outro vocábulo: hetera. Aí estava a explicação: hetera quer dizer cortesã, mulher de vida livre, mulher perdida, mulher dissoluta. Na Grécia antiga, prostituta, puta elegante, bonita e distinta. Falou, doutor Hermes!... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros
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Por Wanderlino Arruda - 4/12/2013 14:06:18
PRIMAVERA EM MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda

Montes Claros, começo da estação das flores, tempo de colorida beleza. Praças e avenidas, luminosas de vermelho-laranja e amarelo-ouro dos flamboyants verde-esmeralda. Praças Doutor João Alves, Doutor Carlos, Doutor Chaves, Santa Casa, Coronel Ribeiro, João Catôni, Geraldo Athayde, Dulce Sarmento, Avenidas Cel. Prates, Rui Braga, Esteves Rodrigues, Rua Cel. Francisco José Souto, o nosso antigo Corredor do Pequi, por toda parte, um celeiro bendito de flores, da espatódeas de vermelhão-francês ao intenso brilho de acácia amarelo-claro. Tudo muito bonito, lindo, lindo de morrer, machucando mesmo... Vale a pena visitar Montes Claros, sempre valeu, como explicam Waldemar de Oliva Brandão e Alberto Sena Batista, saudosos e apaixonados montes-clarenses, de Brasília e de Belo Horizonte. Vale muito mais visitar Montes Claros, agora neste meio de Primavera, com o superávit de verde, carregado de alguma chuva e de muito brilho de sol quente, folhas envernizadas e movimentadas pela brisa ou pelo vento bem comportado. Tudo aqui, para quem gosta de plantas, está agradável, muito agradável, mais do que nunca, graças ao trabalho que algumas empresas, vizinhanças e administração vêm tendo com jardins, fato que, mesmo se fosse isolado, já merecia os nossos aplausos. Aliás, é bom mesmo que Prefeitura e todos que trabalham diretamente no urbanismo continuem com esse elogiável amor às plantações, fazendo a cidade cada vez mais grata aos olhos e ao coração. Passando pela praça Doutor Carlos, dê uma olhada nas tamareiras, leitor. Lá estão elas verdinhas, imponentes, com seus cachos de dourado-escuro, espalhados em profusão, como era de agrado a Jair Oliveira e Mário Veloso, como é de agrado a Haroldo Lívio e a Novaisinho. Por sorte, também a buguenvília branca, cenário e teto dos lambe-lambe, lá está segura e florida como guirlanda em tarde de fim de noivado e princípio de casamento. Por sorte, lá estão as arálias, os imbés, as dracenas, as roseiras, até o tapete de grama de verde inglês. Tudo brasileiro muito brasileiro... Há outros lugares bonitos, nesta cidade, que você precisa ir para ver buguenvílias de todas as cores. Onde tem mais é no Bairro Todos os Santos e no Jardim São Luiz. Lindas: amarelas, rosas, roxas, brancas, cor de goiaba, lilás, quase azuis. Não deixe de ver é bom para a saúde mental. Outro lugar bonito está sendo a avenida Mestra Fininha, de subida vistosa como uma via romana em sopé de colina. Lá os jardins estão majestosos e insinuantes, principalmente os da Escola Normal e da ida para o Parque depois da Praça Jatobá. Os de D. Iede Christova estão, quase selvagens, tropicais, grandiosos. Uma beleza de se ver os de José Levy, Doutor Rameta/ Maria de Jesus, da antiga casa de Elias Siuffi; um encanto a visão dos bairros Morada do Sol e Ibituruna. Vá lá!... Venha, leitor, venha ver Montes Claros. Mas venha antes do final da Primavera. Venha ver uma cidade bonita, nossa cidade. Os que estiverem em casa, saiam à rua. Os que estiverem em outros lugares, longe, perto, corram para cá, venham correndo. Estamos esperando... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 19/11/2013 08:50:15
Hermes de Paula

Wanderlino Arruda

Montes Claros e Hermes de Paula, suas histórias, suas gentes e seus costumes, que formidável grande amor! Como sabe esta cidade gostar deste homem e como pode este homem amar tão carinhosamente esta cidade! Para Montes Claros, Hermes é o filho, o irmão, o companheiro, o amante, a extremosa dedicação do pulsar constante em seu favor o bem-amado, o sempre amado. Em toda parte, Hermes de Paula: na medicina, na seresta, na literatura, nos serviços comunitários, na sociedade, na história, no folclore, em tudo. Para Hermes, Montes Claros a melhor cidade do mundo e o encontro sagrado e existencial, plenitude de beleza, de bem-entender, lembrança passado-presente, vivência plena em ritmo de eternidade. Perfeitamente definíveis o homem e o historiador, pois, Hermes de Paula em Montes Claros nasceu e se criou, filho de Basílio de Paula, nome de rua, e de D. Joaquina Mendonça, nome de gente que espalhou família por um mundão sem porteiras. Aqui estudado, aqui casado, aqui vivido. Se saiu de Montes Claros por algum tempo, foi para fazer cursos no Colégio Arnaldo, em Belo Horizonte, e no Granbery, em Juiz de Fora. Dos anos morados em Niterói, para a Faculdade de Medicina e para o estágio científico, para cá voltou correndo logo depois de sabedor de tudo sobre cobras, soroterapia e microbiologia, aprendido com o papa do ofidismo, Vital Brasil, quase seu sogro. Hermes de Paula, um homem de sorte, formado pela inteligência, mas também por efeito de um prêmio de loteria, sem o que talvez não pudesse ter aqui saído ou à Faculdade não ter chegado. Hermes de Paula foi sempre um ativista da cultura, ligado, ligadão ao povo de sua terra. Sanitarista do Estado, chefe do Posto de Saúde, diretor da Santa Casa, do Instituto Antônio Teixeira de Carvalho, da Sociedade de Proteção à Infância. Fundador da regional da Associação Médica, idealizador do Pentáurea, do Grupo de Serestas João Chaves, hoje nacionalmente famoso, também ajudou na criação do Colégio São José, do Rotary Clube de Montes Claros, do Elos Clube, da Fundação Norte Mineira de Ensino Superior, da Faculdade de Medicina, da Academia de Letras, do Cassimiro de Abreu e do Ateneu. Professor de muitas escolas, professor de todas as escolas, membro da Comissão Mineira de Folclore, do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, da Sociedade Brasileira de Folclore, da Sociedade Sul A mericana de Genealogia, da Academia Montesclarense de Letras, patrono no Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Foi Hermes de Paula quem fez a igrejinha do Rosário, a nau catarineta da Praça Portugal. Foi Hermes quem inspirou a construção da igreja do Morro do Frade, aquela que Pedro Santos mandou fazer virada para a fábrica de cimento. E não seria por causa de Hermes de Paula que ainda existem catopês, marujos, caboclinhos, canjica, paçoca, festa de São Pedro, fogueira, quentão, licor de pequi, folclore, um tudo de tradição de nossa Montes Claros? Será que sem ele nossa memória poluída e industrial já não teria enterrado todos os velhos costumes? Um ótimo documento do seu trabalho e da sua vida, um perfeito e representativo retrato é o livro Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes, que é mais do que tudo Hermes de Paula, Montes Claros e bom povo que a construiu. Lançado em 1957, quando o centenário da cidade, que ele "inventou", o livro de Hermes de Paula tem sido uma espécie de bíblia mais do que sagrada para quantos estudam nossa história e nossas estórias e desejam saber os segredos do nosso progresso. Embora já há muito esgotado, é possível ler o livro de Hermes de Paula em nossa biblioteca pública, no Centro Cultural. Além de aumentar grandemente os conhecimentos, é, sem dúvida, uma tirada de doces férias numa sentimental viagem pelo passado. Uma doçura para o coração! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 12/11/2013 08:05:34
BB MONTES CLAROS, SETENTA ANOS

Wanderlino Arruda

Há uns vinte anos um fazendeiro já idoso, magrinho, alegre, radiante de simpatia, sóbrio no vestir e elegante, entrou na Agência de Montes Claros, do Banco do Brasil, e fez uma oferta ao gerente, que deu muito o que pensar e, parece, mudou temporariamente os destinos de muitos funcionários. Rápido e preciso, muito prático, o homem chegou e foi logo ao assunto: fora um dos primeiros clientes da Agência, no início de 1940, quando precisou de um empréstimo, e recebera tratamento excelente e imediato, o que lhe resolvera um grave problema de família e de negócios. - Nunca me esqueci da confiança que o Banco do Brasil teve em mim, naquela época em que eu era apenas remediado. Foi uma bênção! É por isso que eu venho oferecer-me para ajudar na festa de comemoração dos cinqüenta anos. Os senhores podem dispor do que precisar e estiver ao meu alcance! A visita do antigo cliente, amigo agradecido de meio século foi o sinal de partida para a preparação do programa de aniversário Dos cinqüenta anos do BB de Montes Claros. Administração e funcionários ficaram conscientes de que a festa teria que ser um grande evento, uma marca inesquecível na história da cidade e da região. Afinal, sempre fora o Banco do Brasil, em todos esses anos, a grande locomotiva a puxar os carros do progresso nos trilhos deste sertão, ajudando e orientando na formação de milhares de propriedades e de negócios em todos os ramos da economia. Na verdade, ninguém poderia prever o que seria de Montes Claros e do Norte de Minas não fosse o Banco do Brasil, a maior instituição brasileira desde D. João VI, como temos costume de dizer, 200 anos de honestidade legítima, um das empresas mais respeitadas do mundo. As primeiras providências para a grande festa foram agendadas pelo gerente Itamaury Teles de Oliveira. Antigos clientes e funcionários foram convocados para a tarefa de organização, coleta de documentos, levantamento da história e das estórias, relatos de alegria e gratidão de tudo que o Banco proporcionou e recebeu. Uma história rica de detalhes e muito dinheiro de lutas ingentes cronometradas pelo rigor das horas e dos minutos, numa contabilidade que nunca falhou. Podia até existir alguma instituição tão séria quanto o Banco do Brasil, mas mais responsável e correta nunca foi possível. O Banco tem sido o padrão, tem sido um modelo maior do que permanece de nobreza neste País. Como era eu o detentor dos primeiros documentos da primeira semana de funcionamento da Agência de Montes Claros, salvos há uns trinta anos de um processo de incineração de arquivo, emprestei-os para uma exposição. São até hoje papéis preciosos também à história da cidade, com assinaturas de Sebastião Sobreira, Hélio Thompson (o primeiro gerente). Daniel da Fonseca Júnior (Danielzinho de Jequitaí, foi uma das principais personagens de Guimarães Rosa), Mário Versiane Veloso, Godofredo Guedes, Geraldo Lourenço de Oliveira (o primeiro recibo de salário), Levindo Dias, José Dayrel, Genésio Tolentino e Cândido Canela. São documentos de ordens de pagamento, cheques, tomadas de empréstimos, depósitos (eram selados), compra de cerveja para os operários da reforma do prédio (Rua Governador Valadares, ao tempo, ainda Coração de Jesus) e reconhecimento de firmas. Tinha eu também carta do amigo Necésio de Morais, uma memória privilegiada, que muito esclareceu pormenores do iníc io de funcionamento da agência. Em janeiro de 1990, quando foi realizada a grande comemoração do primeiro centenário do BB, das personagens do primeiro mês da agência só duas estavam ainda em circulação: José Pereira de Souza e Cândido Canela. Souza (tio do Samuel Figueira e cunhado de Efigênia Parrela), de cabelos mais que branquinhos, visita Montes Claros com grande alegria. Veio rever parentes e amigos. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 5/11/2013 08:02:58
VIDA E GRATIDÃO

Wanderlino Arruda

É triste, muito triste, ver como o mundo se acha cheio de ansiedades, de conceitos puramente materialistas e utilitaristas. Pessoas e mais pessoas se esquecem da beleza da vida, da generosidade de outras pessoas, e se colocam como pequenos donos de um pedaço de meia-verdade, julgando-se numa independência que não existe. Esquecem-se de que a existência é um insistente ensino-aprendizagem, uma perseverante luta pela felicidade e que só podemos ser felizes na caminhada solidária, de mãos dadas, unidos, com toda a alegria possível, com toda coragem, ou pelo menos com um pouco de sorriso em agradecimento à própria vida. De nada adianta o transbordamento das paixões, a manutenção de arestas morais, o narcisismo, a supervalorização, o pretenso domínio da inteligência ou do poder, o ódio sem direção ou direcionado. Tudo é vão, o viver é um crescimento espiritual de todo o tempo. Amar a si mesmo é importante, mas é preciso amar o semelhante. E amar impõe sinceridade pessoal, desprendimento, uma visão clara de sonhos e realidades, um gostar do outro, um querer bem sem limites. De nada vale o isolamento, a limitação, só a defesa do próprio interesse, a fanfarronice vazia e boba, uma falsa autoconfiança, o desprezo bulhento aos que amam a vida. De nada vale a falsa declaração de amor, sem identificação com o bem geral. É preciso desnovelar-se num esforço de melhoria geral, abrir os olhos para a paz, a paz das quatro paredes da nossa casa, a paz da nossa rua, dos nossos companheiros de jornada, a paz do mundo. Para alcançarmos a alegria, necessário é desafadigar-nos das opacas viseiras da falsa autossuficiência, triste posição da pessoa infeliz. Há ardorosos propagandistas de si mesmo que não passam de labirinto da sua própria ilusão, mas que caminham por caminhos tão estreitos e tão vulneráveis que nunca enganam a ninguém. Falam de liberdade, pregam autonomia, fomentam guerras, exterminam simpatias, direcionam-se para o fanatismo, combatem falsamente os preconceitos, mas não sabem libertar-se da cordoalha da servidão mental a que são jungidos por si mesmos. É preciso restaurar a fé nos semelhantes, semear a palavra de vida na luz da esperança, viver com amor verdadeiro, perseverar no bem, tirar as lentes negras de diante dos olhos físicos e espirituais. Trombetear importância nunca foi media levada a sério, a avidez de promoção pode ser atalho de caminhos, mas será sempre lodaçal de incompreensões. Não se deve morrer de orgulho, porque nem sempre a existência ajuntará o pequeno punhado de amigos que cada um tem. Eles podem espantar-se da nossa própria inconsciência. Que cada um submeta-se ao currículo da aprendizagem na academia da vida, propondo valorizar todas as lições que estudam e preparam a conquista de tesouros maiores da inteligência e do sentimento. Cada período brinda-se com nova gama de experiências. É importante saber tirar proveitos do equilíbrio dos que são verdadeiramente equilibrados. É importantíssimo saber viver todos os momentos possíveis da felicidade. Na verdade, ser feliz é a nossa meta. E para ser feliz é preciso saber bem retribuir, ter gratidão. A vida não é só pedir. É muito mais agradecer! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 28/10/2013 10:07:47
PUBLIUS LENTULUS E O RETRATO DE JESUS

Wanderlino Arruda

Dizem que foi, partindo de uma carta que o senador Publius Lentulus, pró-cônsul da Judéia, endereçara a Tibério César, imperador de Roma, que os pintores do Renascimento se basearam para pin¬tar o retrato de Jesus. Essa carta estaria, até hoje, arquivada em museu da cidade eterna, mas prova provada disso ninguém pôde fazer, o que é lamentável, pois seria um documento notável de descrição de traços pessoais e psicológicos feito por um homem in¬teligente e muito observador. Ao longo do tempo, apareceram vá¬rias versões desse escrito, sucintas, completas, mas todas bastan¬te coerentes entre si, de modo a conservar a validade e uma possí¬vel origem verdadeira. O mais interessante texto veio inserido em velho livro da literatura portuguesa, em que o autor diz haver co¬piado da obra medieval, Vita Cristi, editado em língua arcaica, o que lhe dá um sabor todo especial, curioso e riquíssimo em valores filológicos e semânticos. "Existe atualmente na Judéia um homem de uma virtude singular, a quem cha¬mam de Jesus Cristo; os bárbaros têm-no como profeta; os seus sectários o adoram como sendo descendido dos deuses imortais. Ele ressuscita os mortos e cura os doentes, com a palavra ou com o toque; é de estatura alta e bem proporcionada; tem semblante plácido e admirável; seus cabelos de uma cor que quase se não pode definir caem-lhe em anéis até abaixo das orelhas e derramam-se-lhe pelos ombros, com muita graça, separados no alto da cabeça à maneira dos nazarenos." "Sua fronte é lisa e larga e suas faces são marcadas de admirável rubor. O nariz e a boca são formados com admirável simetria; a barba, densa e de uma cor que cor¬responde à dos cabelos, desce-lhe uma polegada abaixo do queixo e, dividindo-se pelo meio, forma mais ou menos a figura de um forçado". "Seus olhos são brilhantes, claros e serenos, e o que surpreende é que resplan¬decem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu sem¬blante, porque quando resplende, apavora, e quando ameniza, chora, faz-se amar e é alegre com gravidade. Tem os braços e as mãos muito belos". "Ele censura com majestade, exorta com brandura; quer fale, quer chore, fá-lo com elegância e com gravidade. De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jeru¬salém; sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e maravilham. Nunca o viram rir têm-no, porém, visto chorar muitas vezes. É sóbrio, muito modesto e muito casto. Enfim, é um homem que, por sua beleza e perfeição, excede os outros filhos dos homens". No texto medieval, porém, há mais explicações, definindo cores e si-tuações. Por exemplo: "os seus cabelos erã de avelhaã madura e chega¬vã aas orelhas yguaes e chaãos e dally ao fundo quanto quer crispos e puros e cobriã e avanavã sobre os ombros. A testa chãa e muy clara e a façe sem enverrugadura nem magoa: a qual aformosentava a vermelhidon temperada". Pelos dados, não é difícil concluir que os desenhistas e pintores do final da Idade Média ou já do pleno Renascimento não tiveram muita di¬ficuldade em traçar o que, em termos modernos, poderíamos chamar de o primeiro retrato falado da história de uma personalidade realmente univer¬sal. E eterna! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 22/10/2013 17:31:59
CÉLIO BARBOSA DE CASTRO

Wanderlino Arruda

Posso imaginar com a visão de imensa saudade de quando, aos meus treze anos, vi e ouvi os acontecimentos do bonito inaugurar da estação da Central do Brasil, em Monte Azul. D. Zema, nossa professora, escolheu os que ela considerava os seus melhores alunos na chamada Escolas Reunidas Mato Verde - cerca de vinte - e nos levou num caminhão de Sinhô Teles para participar de todas as festas da tarde e da noite. Foi um acontecimento inesquecível com bandeirolas dos estudantes e discursos dos engenheiros e políticos, entre estes o mais importante, o Coronel Levy Souza e Silva, a maior fama de valentia de toda a região, notável orador de nunca menos de hora e meia de discurso. Anos mais tarde, em Montes Claros, tive essas saudades em muito acrescidas quando o mais importante dos colunistas sociais do Brasil, Ibraim Sued, me disse - no Haras Pirâmide - que todas as fotografias foram batidas por ele, como enviado especial d` O Globo e da revista O Cruzeiro. Tudo isso relembro de coração, porque foi o tempo que a cidade de Monte Azul contou com o nascimento do menino que os pais registraram com o nome completo de Célio Barbosa de Castro, que viveu muitos anos de pés descalços, tanto na terra-mãe como em Montes Claros, incluindo aí as aulas no Colégio Diocesano (estudei), e as tarefas e passeios do Grupo de Escoteiros. Outras lembranças que tenho ao escrever este prefácio deste livro VERDADEIRO AMOR, do irmão e amigo Célio, é de que Monte Azul, cerca de dois meses depois das primeiras chuvas, é um dos lugares mais bonitos do mundo. Registrando esta beleza com mais precisão, é importante dizer que a geografia entre Monte Azul e Mato Verde, mercê das nuances do azul quase esmeralda das montanhas, e considerando também as tonalidades do verde e do amarelo-ouro das plantas, tudo ultrapassa em muito a graça e o charme do Pantanal, em Mato Grosso, e do Vale californiano de San Francisco, nos Estados Unidos. Não posso imaginar nada mais perfeito em termos de natureza nas minhas experiências de viagens. Nem o verde do canavial entre montanhas dos meus anos de menino em São João do Paraíso! Nascido e criado entre a beleza e a paixão de terras tão bem permitidas por Deus, Célio Barbosa de Castro tornou-se um poeta de muito mérito, mesmo não tendo conseguido estudar mais do que os cinco anos de curso primário. Bom leitor, excelente observador da vida, cérebro e coração voltados para o bem e para o bom trato, aprendeu melhor do que muita gente estudada, a precisão do bem redigir e do perfeito alinhavar e costurar as palavras tanto na prosa como na poesia. E como diz ele até com orgulho, que ainda teve a sorte de ser mineiro: "Cada um tem um destino, sorte quem nasce mineiro. Tem pureza de menino, na política é o primeiro." Vida de viajante, papo de vendedor, comportamento ético de escoteiro e de maçom, Célio Barbosa de Castro, teve sempre o maior respeito à cultura de nossa região, ao nosso modo de viver com simplicidade, ao carinho que temos com o próximo seja ele da família, da vizinhança ou do mundo. Até nas horas tristes - que todo mundo tem em algum momento - ele descreve com poesia: "Minha vida, meu sonho, meu enfadonho,/ não nunca quis seguir sozinho." ... "Quem queria namorar / menino de pé no chão?" .. Quero oração como deve ser / quando eu tiver mudado / para o Oriente Eterno. / Oração é vitamina da alma." Esteja certo, Irmão Célio de Castro, que todos nós os seus amigos e companheiros, estamos de pé e à ordem diante da sinceridade e da beleza dos seus versos. O seu livro é também nosso. Suas palavras são as nossas palavras, suas verdades terão eco eterno para com o viver e conviver a sinceridade do amor e da fé, qualidades só encontradas em um VERDADEIRO AMOR! Perfeito o Salmo 133, do Rei Davi, pai de Salomão, o mais sábio dos homens: Oh! Como é bom e agradável / é viverem unidos os irmãos! / É como o óleo precioso sobre a cabeça, / o qual desce para a barba, /a barba de Arão, / e desce para a gola de suas vestes. / É como o orvalho do Hermom, / que desce sobre os montes de Sião. / Ali ordena o Senhor a sua bênção, / e a vida para sempre. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/10/2013 10:49:37
LINDO O UNIVERSO FEMININO!

Wanderlino Arruda

Confesso que sou leitor vidrado em regras de etiqueta. Não perco uma linha do que se fala de educação e do bem-viver social, de como tratar as pessoas, de como buscar uma convivência pacífica e polida com os nossos semelhantes, principalmente quando pelo menos um mínimo de elegância é exigido. Leio tudo. Seguir, obedecer às regras, fazer do bom trato uma linha de vida é difícil, exige muita observação e muito esforço, mas é sempre possível se a gente for incorporando à cultura pequenos e grandes conhecimentos nesse setor. Cautela e cuidados sociais não fazem mal a ninguém. Claro que a educação ou a finesse em sociedade, e por sociedade entender-se todos o relacionamento humano em qualquer parte, merece vasta gama de obediências, uma forma natural de agir, o saber como, quando e onde tomar atitudes. É preciso saber como e quando convidar, presentear, receber, desculpar-se. É preciso saber vestir-se, dar festas, ir a festas, sair com colegas e pessoas amigas, ir a um restaurante, a um barzinho, a um lugar da moda. Também é preciso saber conversar ou escrever um bilhete, uma carta ou simples recado sempre que isso for necessário, seja hora triste, seja hora alegre das criaturas de quem gostamos. É preciso saber o melhor comportamento no trabalho, nos esportes, em toda e qualquer oportunidade. Importantíssimo é saber como atender e falar ao telefone! Falando nestas coisas, lembro-me com saudades de uma experiência que tive em 1979, no Rio de Janeiro, período em que ministrava um curso de Linguística Aplicada para administradores da Direção Geral do Banco do Brasil. Sempre que chegava do almoço, via no elevador, nos corredores e na entrada do auditório do Centro de Treinamento - ainda na Avenida Rio Branco - um vasto mundo de mulheres elegantes e bonitas, cada qual mais educada do que a outra. Num local em que a grande maioria era sempre de homens, aquela quantidade de belezas, no mínimo, me parecia curioso, logo não tardando receber explicações: havia ali um curso de etiqueta ministrado por uma professora da Socila, contratada pelo BB para treinamento das secretárias de alta direção. Era isso a razão do belo visual e de tantas figuras do mais fino trato. Time de primeira linha! Mais do que dispondo de muito tempo, pois só lecionava pela manhã, por um caminhão de razões, não tive outro jeito senão pedir ao chefe Dalton, que por sua vez pediu à linda professora, para que eu fosse aceito como ouvinte e fiel observador de todas as lições. Imagine você que situação! Um único homem, um só homem, no meio de quarenta e tantas mulheres comprovadamente civilizadas e lindas. Mesmo pegando o bonde já em meio de caminho, não houve alternativa, tive que aprender - desempenhando papel masculino - tudo ou quase tudo do universo delas. É que nas discussões sobre o papel da mulher, nunca pude deixar de representar o papel do homem, estabelecer o contraste e os valores de tão divergentes situações do dia-a-dia, em casa ou no trabalho. Por mais educação que houvesse, foi briga de nunca acabar: "machista chauvinista, representante da tradicional família mineira, bandido!", tive que aguentar até sorrisos de ironia e fina maldade. Foi um sucesso de aprendizagem que jamais será esquecida. Nunca, nem morto! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros www.wanderlino.com.br


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Por Wanderlino Arruda - 8/10/2013 10:46:15
VOCÊ GOSTA DE FALAR PALAVRÃO?

Wanderlino Arruda

Ser ou não ser falador de palavrões, eis a questão! Falar nomes considerados "feios" fica quase que na escolha de cada um, já não constituindo uma condenação tão terrível como acontecia algum tempo atrás. Às vezes, falar palavrões até parece grã-fino, dependendo do falante, da sua faixa de idade e do ambiente em que expressa sua fala. Tudo tem sido questão de modismos, de preferência de novo dialeto, quiçá de cultura, de vivência nova, de nova forma de raciocinar muito encontrada em certas camadas intelectuais e sociais. Claro que falo, aqui, do palavrão acatado ou tolerado, ou, quem sabe, até bem recebido e aplaudido, como vemos, por aí, todos os dias! Veja você que tudo dependerá do ambiente e da naturalidade com que as pessoas falem, da coragem com que emitam palavras ou conceitos passíveis de aceitação por quem esteja ouvindo ou lendo, como parte interessada ou mesmo como simples espectador de casa situação. Assim, temos o palavrão nem sempre inconveniente e, até ao contrário, indicador de riqueza sociológica e semântica, propulsor de sobrecarga tanto da área cognitiva como na área do sentimento e da emoção. Explico: às vezes, o palavrão constitui a linha mais reta para quem precisa se comunicar sem muitos rodeios, e encontrar o alvo com o impacto do que é claro e sensível. Explico mais: o palavrão, quase sempre, encurta caminho, não faz curvas. Não sei se, ao escrever sobre este assunto, estou a fazer censura ou a insinuar proselitismos e idiossincrasias. Não sei se estou defendendo ou acusando o palavrão. Não sei se estou aceitando, ou simplesmente depondo armas, eu que fujo o mais que posso do que venha parecer obsceno ou menos edificante. Realmente, não sei minha posição ou grau de tolerância. Mas, de uma coisa eu sei: a cada dia, estamos vivendo mais mergulhados no uso do palavrão, digamos até além do uso, ou melhor, no abuso! E para certificarmo-nos disso não é preciso ir ao teatro, assistir a algum filme ou novela, ver programas de televisão, frequentar rodas ditas intelectuais: basta andar na rua, assuntar as conversas por aí, como dizem os mais jovens. Para coroar de êxito maior o uso do palavrão já existe - não sei se já publicado - um dicionário todinho dedicado ao assunto, com toda a maestria do etnógrafo Mário Souto Maior, do Instituto Joaquim Nabuco de Pesquisas Sociais. É obra de registro do linguajar vivo da nação brasileira, repertório de todo o desbocamento semântico nacional, dizem partida de sugestão do pernambucano e mundialmente famoso Gilberto Freire. Ninguém perde por procurar, ou mesmo por esperar. Uns para evitar o uso, outros para enriquecer o vocabulário... O que você acha de tudo isso? Institutos Históricos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 30/9/2013 10:31:17
COMUNICAR - ARTE E TÉCNICA

Wanderlino Arruda

Comunicar é uma arte? Comunicar é uma técnica? Uma e outra ao mesmo tempo, não tenha dúvida. É verdade que há muita gente por aí - e quanta! - que jamais tenha pensado que uma simples palavra, uma pequena frase, um gesto, qualquer atitude seja comunicação. Sempre que uma pessoa transmite a outra uma intenção, ela está se comunicando, isto é, tornando comum um código, trocando ou tentando trocar uma informação. O que é difícil é comunicar-se com perfeição, sem perda, sem ruído, enviando dificuldade de interpretação, ambiguidades. Comunicar bem é realmente uma arte, um alto padrão técnico. E só pode fazer isso bem quem realmente se preparar com afinco, com decisão, através de muito estudo, de muita leitura. É claro que você está assistindo hoje á máxima valorização do fenômeno da comunicação praticamente em todos os minutos de sua vida: na rua, em casa, no clube, na escola, através dos jornais, da tevê, do cinema, dos livros, das revistas e principalmente pelo celula r e pela internet, em sites, blogs, no Twitter, no Facebook, no Google+, numa infinidade, numa multidão de redes. Aí estão também a linguística, a teoria da informação, a semântica, a semiótica, a literatura. Tudo isso gira em torno do mundo compacto de informações, algumas soltas, muitas com alvos previamente escolhidos, a maioria de cima para baixo, como se estivéssemos preparados para suportar todo o peso do mundo e da vida, com todas as suas facetas ideológicas e interesseiras. O que é preciso é evitar a perda da informação necessária, selecionando o que realmente nos diz respeito. É preciso evitar a saturação, a fadiga provocada pelo inútil, pelo lugar comum. É bom que tenhamos objetividade, suprimindo gastos ocultos de cansaço mental. Quantas reprises de inutilidades, dezenas de canais de televisão a nos impingir, a nós e às nossas crianças, com programinhas sem sal e sem doce, sem qualquer valor. Quanta notícia é veiculada pelos meios da leitura nos folhetos de propaganda, nas faixas e cartazes, comunicação que só causam o impacto da violência constrangedora! É preciso selecionar! Se o seu tempo é curto, é bom que se prepare, aproveitá-lo mais, com mais eficiência. Você aceitaria umas regras da arte da boa leitura e da boa prática de leitura? Se aceita, sua vida será mais feliz e você vai aprender muito mais. Em lugar do empanzinamento de informações, escolha coisas interessantes, objetivas, que realmente aumentem sua cultura útil. Prepare-se anteriormente para o tipo de leitura que vai fazer. Leia frases e não palavras. Preste atenção às palavras e não às letras. Concentra-se no que está fazendo. Evite distrações. Procure ler com a maior velocidade possível, porque isso aumentará a sua compreensão. Varie a velocidade de acordo com o tipo de leitura. Use sempre o Google ou outro mecanismo de busca, compre um bom dicionário e não deixe que ele se empoeire na estante, tendo-o sempre à mão. Use-o toda vez que o significado de uma palavra não lhe pareça claro. No Google, digite as frases, as ideias completas e veja atentamente os resultados. A o ler, não movimente os lábios nem mexa com a cabeça. Apenas seus olhos devem movimentar-se. E bom proveito, porque como dizia, há algum tempo, o colunista Ibrahim Sued, cavalo não desce escada! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 25/9/2013 08:11:05
"Bar do Tamiro, do Altamiro. Eis aí um lugar antológico de Montes Claros, nos anos 50/60/70. Ficava na avenida Afonso Pena, esquina da travessa Padre Marcos, santo belga cuja vasta casa foi derrubada recentemente. Ao contrário, minúsculo, 3 metros por 3, se tanto, o Bar de Tamiro supria de pão, de pastéis, biscoitos, balas, pinga, vermutes, de um tudo enfim, a quem morava no centro de Montes Claros. (...)"

Mariano e Iara, fico felicíssimo de participar das lembranças históricas dos anos 50/60/70 e mesmo das décadas seguintes. Já combinei com Waldir Senna Batista, Haroldo Lívio, Itamaury Teles, Dário Teixeira Cotrim, Fernandão da Macife e Petronio Braz para uma reunião mensal com a finalidade de levantar informações sobre fatos e personagens importantes para a história montes-clarense. Acredito que outros (as) companheiros (as) se juntarão a esse nosso grupo de estudos e de re-memória. Tudo pode ser básico para registro em nossa Revista do nosso Instituto Histórico e Geográficos de Montes Claros. Estou certo de vocês muito contribuirão, estando ou não por aqui. Abraços, Wanderlino.


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Por Wanderlino Arruda - 24/9/2013 10:26:41
"Bom dia, Wanderlino Sua crônica me levou à antiga Montes Claros,à Rua 15 que passei a frequentar em 59. Lá estava a Imperial - e só comprávamos lingerie com a Violeta! No quarteirão abaixo ficava a Casa Colombo,com seus tecidos tentadores e máquinas de costura... "

Iara, a pensão de Dona Tonica ficava na Rua Afonso Pena, esquina com o Beco do Padre Marcos, onde hoje há um prédio comercial. Não me lembro do boteco do Altamiro... até pode ser. A biblioteca era na Afonso Pena, lado esquerdo de quem segue do centro, em frente onde foi mais tarde um restaurante, acredito ao lado da casa de Luizinha Barbosa. Falo com muita saudade de tudo, querida amiga, pois era na biblioteca que Haroldo Lívio e eu líamos um livro por semana, muitos ainda aflorados na memória. Um grande abraço. Wanderlino.


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Por Wanderlino Arruda - 23/9/2013 22:22:41
TEMPO DE BALCÃO E COMEÇO DE ESTUDOS

Wanderlino Arruda

Nos anos cinquenta, a gente mais bonita e mais falante da cidade eram os jovens do footing, Rua Quinze e Praça Doutor Carlos, trecho que ia do antigo Clube Montes Claros até a esquina da Rua Doutor Santos, bar de Manoel Cândido e Hotel São Luís, transformado em Caixa Econômica e, depois, em Copasa. Pela única pista calçada da cidade, andavam as moças mais atraentes e os rapazes mais bem vestidos, mais bem postos na vida, seguros candidatos ao namoro, ao noivado e ao casamento. Assim como uma sala de visitas ao ar livre, a Rua Quinze era uma eterna passarela, principalmente ali pertinho do Clube dos Bancários, em frente às antigas Casa Ramos e Casa Alves, onde as esquinas eram muito mais claras, porque iluminadas pelas vitrines de luz florescente, ontem e hoje um grande luxo. Lá pertinho estavam o Cine São Luís, os bares, os salões de sinuca, as sorveterias, os melhores salões de barbeiros, os bancos, as lojas mais modernas e mais ricas. Quando cheguei a Montes Claros para trabalhar e estudar, janeiro de cinquenta e um, só se falava no Capitão Enéas, o novo prefeito que ia tomar posse, quando os alto-falantes não bradavam outra coisa. O Colégio Diocesano já estava quase terminando o curso de admissão, o Restaurante Valério, na Rua Simeão Ribeiro, marcava uma época de grande fama, e as lojas de discos da Praça Doutor Carlos faziam grande estardalhaço com o baião "Delicado", tocado dia e noite. Destinado a trabalhar como engraxate no Salão Rex, Antônio Guedes não me aceitou porque eu já não era tão menino como ele esperava, e - falando um pouco de inglês - não ficava bem em serviço tão humilde. A segunda possibilidade era trabalhar na Casa Leda, de Marcelo Alcântara, mas como Marcelo ia viajar uma semana inteira, não pude esperar, porque também podia não dar certo. Aí, o Dr. Carlyle Teixeira me levou para apresentar a Joaquim F. Correia, dono da Imperial, loja mais grã-fina da Rua Quinze e da cidade, onde já no dia seguinte, engravatado, camisa branca e calça azul, iniciei um período de aprendizagem sob as ordens do gerente Antônio Chamone. Na frente da Imperial, as lojas de José Alves da Silva e de Artur e Antônio Loureiro Ramos. Do outro lado da esquina, a Pernambucana, na Rua Camilo Prates, por onde passaram várias farmácias. Vizinha, de lado, a Gazeta do Norte, de Jair Oliveira, a Rádio Sociedade, de Zezinho Fonseca. O Chamone começou me ensinando que balconista não podia ficar sentado, não podia encostar nas prateleiras ou no balcão, não podia parar em tempo nenhum, todo momento de trabalho pleno, atendendo os fregueses, arrumando, limpando. Na loja de louças e de vidros, se quebrasse alguma coisa teria de pagar. Fumar, só se fosse no banheiro. Perfume, só usar se fosse do vidro de amostras. No primeiro dia, bati o pé em uma bateria de cozinha, que ficava na porta, e as panelas e caldeirões foram para o meio da rua. Nunca me esqueço do grito de "bota na minha conta" que o Afonso André Rodrigues gritou de lá de Casa Luso-Brasileira, e do pessoal da Gazeta que saiu para ver o que acontecia. Foi uma a ventura maluca... Por ter só duas calças, duas camisas e uma gravata, a Rua Quinze para mim só valia pelo que tinha nas horas do dia. A noite pertencia aos bem vestidos, a quem tinha dinheiro para passar pela sorveteria, normalmente bancários, comerciários mais velhos, filhos de comerciantes, estudantes ricos, sócios dos clubes. O brilho da noite nunca pertenceu aos deserdados e iniciantes. Para o estudante pobre, a noite foi sempre hora de dormir ou de ler bons livros, o que eu fazia a exemplo de outros companheiros da pensão de Dona Tonica. Nada complicado, porque, afinal, morávamos na esquina do beco do Padre Marcos com a Rua Afonso Pena, muito pertinho da Biblioteca Pública...

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Por Wanderlino Arruda - 17/9/2013 07:55:26
O POVO É QUE FAZ A LÍNGUA

Wanderlino Arruda

Há vários anos, quando eu estava formando a mesa para as solenidades de lançamento do livro "3 Vezes Poesia", de Patrício, Zoraide e Zoraya Guerra, na Academia Montesclarense de Letras, logo depois de convidar o doutor Konstantin Christoff, autor da capa, convidei também a apresentadora da obra, a professora Iede Ribeiro Christova, acentuando, como pude, as duas sílabas finais do seu sobrenome de casada, forma feminina do Christoff, de Konstantin, seu marido brasileiro nascido na Bulgária. No caminho de volta para casa, meu filho João Wlader perguntou-me o porquê de alternância masculino/feminino em nome próprio não comum em antroponímicos da língua portuguesa. Fiquei alegre da sua curiosidade e dei uma risada por dentro, contente de alguém ter mordido a isca da minha séria brincadeira em ter quantificado e sonorizado dois fonemas marcadores do gênero. A experiência foi gratificante. E daí, qual é a graça? Qual é o problema de um nome masculino tornar-se feminino e vice-versa? É que, no Brasil, isso não é normal. No caso de Konstantin e Iede, isso só foi possível porque eles obedeceram à origem búlgara do nome, utilizando mais à tradição dele do que à dela, prevalecendo o critério para nós não consuetudinário. Tenho em casa um caso quase semelhante, embora ao contrário: minha mãe ao se casar adotou o nome de Anália Morais Sobrinho, aproveitando o "Sobrinho" do sobrenome de meu pai, José Arruda Sobrinho, acredito para concordar com o oficial do Cartório em face do costume de usar sempre a última palavra do nome do marido, mesmo que tenha ficado uma forma bastante estranha e incomum. E agora, depois disso tudo, onde devo chegar? Claro que eu estava apenas preparando o seu espírito, estimado leitor, para o objetivo desta crônica. Na verdade, o nome próprio, bem diferente do comum, não tem conteúdo semântico, nada pode ou quer dizer, porque é apenas um título distintivo que menciona um ser particular. Substantivo próprio é quando indica diretamente alguém ou um ser ou instituição individualizado, propriedade particular, especial, especialíssima. Leitão de Abreu nada tem a ver com o significado de leitão, Rabelo ou Rebelo não diz coisa alguma da peça do arado, a rabiça como é chamado em Portugal, Valente, Barata, Leite, Pereira, Silva, Leão, Santos, Batista, Oliveira, Arruda, nada, nada obedece à significação etimológica, nenhum valor semântico conservam da origem. O que eu quero mesmo dizer é que a flexão de nomes próprios, em Portugal, é muito comum, principalmente no processo de formação popular das palavras, o que, em alguns casos de filiação, já era normal desde o velho latim vulgar da Península Ibérica, quando Mendes era o filho de Mendo, Álvares era o filho de Álvaro, Bernardes, de Bernardo, Fernandes, de Fernando. Assim, é trivial encontrarmos no território português mulher e filha de Rebelo chamada Rebela, de Frazão chamada Frazoa, de Pinho chamada Pinha e até de Leitão chamada Leitoa, assim como Mário marido de Maria, Precioso marido de Preciosa. O sobrenome Bezerra não é senão o feminino de Bezerro. O caso mais conhecido, em Portugal, data dos albores da língua, em 1187, quando el-rei D. Sancho I escreveu a primeira poesia do nosso idioma para a sua famosa e formosa mulher a Sra. Dona Maria Pais Ribeiro, composição logo denominada de "A Ribeirinha", a mais conhecida cantiga de amor da fase arcaica, citada por qualquer professor ou estudante do curso de Letras, de cá e de lá. Se vem de tão longe a tradição, não há remédio para pretensos puristas, invocados cães-de-fila da gramática. O povo é quem manda. O povo é que faz a língua... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/9/2013 16:43:43
JORNALISMO, UMA VOCAÇÃO, UM SONHO

Wanderlino Arruda

Não sei bem porque, mas ser jornalista era um sonho que eu acalentava há muitos anos, bem antes de ter-me mudado para Montes Claros, nos meus adolescentes dias de Salinas e Mato Verde, tempos de convívio com tudo que um ainda quase menino poderia sonhar. Escrever para jornais e revistas, naquela época já não me parecia uma coisa totalmente impossível, tinha cheiro de realidade, com boa marca de prazo por acontecer. Na verdade, foi de lá o bom começo, nos meus primeiros exercícios de charadismo e de palavras cruzadas, em Taiobeiras, quando não me limitava à passividade das decifrações, mas indo com determinação a bem mais do que isso: passei a compor charadas e a construir os primeiros desenhos e armar as primeiras batalhas de vocábulos e siglas, encaminhando-os à Revista "Libertas", que a Polícia Militar publicava em Belo Horizonte e à "Revista da Marinha", que o Ministério da Marinha editava no Rio de Janeiro. Era uma experiência e tanto, uma grande alegria ao ver textos e n ome publicados em letras de imprensa. Aníbal Rego, amigo e companheiro de estudos, um dos melhores professores que já tive, muito me incentivou, procurando valorizar cada um dos meus passos nesse tipo de atividade na imprensa. ......... Desenhar a nanquim eu sabia de alguma forma, o que eu não sabia era datilografar, que era coisa difícil em cidade de interior. Foi aí que Ageu Almeida, outro amigo, nas horas de folga da farmácia, me deu grande ajuda, ensinando-me, corrigindo e, mesmo, passando a limpo minhas primeiras produções. Foi uma boa escola, coisa de jamais me esquecer. Depois, vendo meu esforço, meu interesse, meu pai comprou uma máquina de escrever e um método simplificado de datilografia. Foi para mim, não tenho dúvida, uma fase de encantamento e alegria. Ainda me lembro de tudo como se fosse hoje: coloquei máquina e livro em cima da canastra de madeira e couro, que havia no meu quarto, bem em frente à janela para aproveitar a claridade, e passei a gastar nos exercícios resmas inteiras de papel almaço, batendo e rebatendo as quatro carreiras de teclas - dedos das duas mãos - até adquirir razoável destreza para escrever bilhetes, cartas e pequenos relatos de acontecimentos de cada dia. Foi assim que - quase datilógrafo - cheguei a Montes Claros, em janeiro de 1951, já com meio caminho andado para trabalhar em jornal. Quando o prefeito Enéas Mineiro e médico Luiz Pires Filho fundaram "O Jornal de Montes Claros", alvoroçado, vi abrirem para mim as portas de uma nova profissão, sentindo mesmo que o grande sonho poderia transformar-se em realidade. Nada, porém, aconteceu, porque o excesso de trabalho no comércio, as tarefas no Colégio Diocesano, a leitura de pelo menos um livro por semana, as cartas para Olímpia, tudo, tudo não deixava tempo para o futuro jornalista. Na faixa dos sonhos quase reais, num querer muito, acompanhei, mais do que interessado, a primeira fase do jornal, principalmente as polêmicas entre professor Pedro Sant`Ana e o jovem médico João Valle Maurício. Depois veio a política estudantil no grêmio do Instituto Norte Mineiro, com eleições perdidas e eleições ganhas, liderança construída quase a ferro e fogo. Foi também nesse tempo que recebi de Waldir Senna a presidência do Diretório dos Estudantes, numa velha sala da rua Doutor Santos, em frente ao Hotel São José. E daí, para quem vinha de tão longe na vida estudar de favor, o novo cargo era um brilho súbito, uma quase consagração, nome diariamente no rádio e pelo menos duas vezes por semana nos jornais. Deve ter sido por isso que o professor José Márcio de Aguiar, que não era tão meu amigo como o era de Haroldo Lívio e de Manoel Neves, resolveu atender o pedido de Oswaldo Antunes e me mandar para o Jornal de Montes Claros. Antes, recomendou-me o máximo de respeito à gramática, cuidados no contato com o público, e mais do que isso: nunca esperar do jornalismo a riqueza de saldos bancários, porque jornalismo teria que ser sempre como um sacerdócio, ou mais do que iss o. Trabalhei três meses sem ver cor de dinheiro, tudo completamente de graça e até com alguma despesa saída do meu próprio bolso. Depois, o diretor destinou ao jovem e apressado repórter o diminuto salário de mil cruzeiros, somazinha que nem dava para pagar um mês inteiro à pensão de D. Duca. Um bom começo. Claro, um bom começo e longa vida mergulhada em letras! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 2/9/2013 08:01:13
LÍNGUA BRASILEIRA

Wanderlino Arruda

- Quem és? - Chamo-me Peri, respondeu o índio. Sou goitacá, filho de Ararê e chefe da minha tribo; Bem deferente do português de lá, de Portugal, o sabor é bem brasileiro, com ritmo nosso, muito nosso, com a lentidão dos trópicos e o colorido de selvas recriadas pelo grande Alencar. Se a língua é a mesma no atacado, é bem diferente é no varejo, principalmente na embalagem. Originário de todas as partes de Portugal, pois nenhuma região predominou na remessa de colonizadores para o Brasil, o português que veio para cá não tinha a autenticidade de nenhum falar regional: nem do Minho, nem do Algarve, nem de Trás-os-Montes ou da Serra da Estrela. Felicidade nossa, porque a mistura de sotaques fez muito bem ao tempero que de cá recebeu, em confronto com o primitivismo dos tupis e guaranis e com a transfusão sentimental dos africanos, filho de Angola, da Guiné, e de outras partes. Respondendo a Pinheiro Chagas, em movimentada polêmica, José de Alencar dissera que no caso do transplante português-brasileiro a modificação seria mais do que normal. "A revolução é irresistível e fatal, com a que transformou o persa em grego e céltico, o etrusco em latim e o romano em vários idiomas, entre eles o espanhol, o francês, o italiano. No Brasil ela há de ser larga e profunda, como a imensidade dos mares que separam os dois mundos a que pertencemos. Os operários da transformação de nossas línguas são esses representantes de tantas raças, desde a saxônica até a africana. E muita razão tinha o romântico criador de Iracema, porque o dinamismo racial ocorrido no Brasil, iniciado desde o primeiro momento de colonização e até hoje não terminado, sempre esteve injetando novas e renovadas influências, principalmente no comércio, na política, nas artes e na filosofia. Extenso como é o nosso País, temos por aqui um universo total de modos de viver. " - Chamo-me Peri, Sou goitacá, filho de Ararê" Está visto que o português de Alencar tem um novo e gostoso tempero de nossa terra. Ele, filho de um mundo diferente, criado nas vastidões de uma pátria nova, quente, saudável, verde nas matas e nos mares, podia dar o grito de alerta para despertar a nacionalidade. "O aljôfar da água, escreveu em IRACEMA, ainda roreja, como à doce mangaba que corou em manhã de chuva. Enquanto repousa, empluma das penas do guará as flechas do seu arco e concerta com o sabiá da mata, pousado no galho próximo, o canto agreste". Lindo falar brasileiro, maravilhosa poesia cearense, doce cantar de um nordestino que percorria diariamente as ruas do Rio de Janeiro e sonhava com um Brasil genuinamente brasileiro, longe de influências europeias. "Gabriela, Gabriela, morena que cheira a cravo, morena cor de canela!" Isso tem de ser uma língua nova, salgada com águas do sul da Bahia, ventos gostosos de Ilhéus e de Olivença, onde Jorge Amado quase nos empanzina de brasilidade. É a linguagem do sertão litorâneo, do escritor moderno, naturalista, primitivamente nosso. É, como dizem os próprios portugueses sobre os nossos falares: uma língua açucarada, doce como o mel silvestre, pura como a brisa. Uma língua não se espalha através de uma região sem alterar-se aqui e ali. Em todas as terras colonizadas, a "última flor do Lácio, inculta e bela" encontrou diferenças étnicas, sociais, climáticas e políticas. No Brasil, por exemplo, era natural a diferenciação, tão grandes são as distâncias, tão variado é o nosso clima, tão mesclada a nossa raça. Uma língua em duas. Duas línguas em uma. Bem haja! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 26/8/2013 10:14:59
Montes Claros, vovó centenária

Wanderlino Arruda

Montes Claros Centenária é a canção do primeiro século de independência da cidade. É um marco de inteligência, de fé e de amor, cadinho de ternura de Luiz de Paula Ferreira, fruto importante da nossa história. É a síntese sentimental de um trovador, menestrel da cultura, doação viva à nossa realidade e aos nossos sonhos. A força desta canção é o constante entrelaçamento de duas existências, a de Luiz de Paula e a da cidade, ambos sensíveis ao eterno e ao efêmero, misticamente voltados para tudo que cheira ternura, saudade e afeição. Mais do que uma prece à meiguice do sangue, Montes Claros Centenária é um grito de sagrada paixão pela terra e pelo povo. Decorridos sessenta anos do Centenário, impossível descrever o entusiasmo, o afeto e o carinho com que a cidade comemorou os 250 anos de sua fundação e os cem de criação do município. Foram sete dias de festas, em que praticamente todas as famílias abriram suas casas para receber montes-clarenses saudosos vindos de todos os quadrantes da pátria. Em cada praça, em cada lar, a alegria do reencontro, o abraço emocionado de velhas lembranças, o eclodir sincero da mais pura devoção a um local abençoado por Deus. As pessoas se abraçavam, dançavam e cantavam nas ruas, cultuando o passado e extravasando esperanças. Era a transformação de cortejos em alegorias de amenas certezas, uma doce e gostosa gratidão ao berço natal. Feliz de quem teve a sorte de viver aqueles dias deste santificado Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José das Formigas, tudo tão Montes Claros. A canção Montes Claros Centenária, que a inspiração de Luiz de Paula transformou em hino de lirismo e vibração para velhos e jovens, foi o elo emocional necessário para fazer aquele momento mais do que inesquecível, iluminando recordações e cintilando o porvir. A gravação de 78 rotações feita na época, hoje guardada como relíquia, incrustação material no espaço afetivo, sempre se fez presente em novas técnicas, reavivando cada vez mais as ondas de sentimentos bons. Cantada também com o encanto da voz de Carlos Galhardo, do Quarteto em Cy, de Nivaldo, Benedito e Clarice Maciel, e por tantos outros notáveis, será com certeza a imortalização de um dos mais altos momentos de Montes Claros, o da alegria do seu primeiro Centenário. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 21/8/2013 11:26:49
OS QUASE SETENTA ANOS DE ROTARY

Wanderlino Arruda

Dos quase setenta anos de vida do Rotary Clube Montes Claros, em sessenta pelo menos tenho acompanhado a sua trajetória de trabalho e de lutas em favor da cidade e da região. Tenho seguido de perto as gerações de homens e de mulheres da Casa da Amizade que, juntos num esforço comum jamais negaram colaboração ao progresso da cidade. Lembro-me muito bem da primeira vez que fui a uma reunião rotária, no velho Hotel S. Luiz - onde hoje fica a Copasa - atendendo a um convite de João Souto, que muito enalteceu na visita o meu trabalho de repórter. Foi uma surpresa ver o muito de interesse daqueles homens importantes, bem vestidos e bem representativos de poder econômico, social e cultural. O Rotary Clube Montes Claros foi sempre uma organização de invejável sobriedade, comedido como deve ser um grupo de pessoas conscientes do seu próprio valor. Sempre houve nele um conteúdo de nobreza, difícil de encontrar em outro clube ou em qualquer outra entidade social ou de prestação de serviços. Muito me tem sido útil acompanhar o Rotary desde 1954, como jornalista ou como membro do seu quadro social, porque Rotary foi sempre uma grande escola, em todos os pontos de vista que o leitor possa imaginar. É um bom e agradável convívio de todas as semanas, sempre com assuntos novos, uma perspectiva de amor à humanidade, uma busca de ângulos que projetam a paz e a concórdia entre pessoas e nações. Quando cheguei ao Rotary Clube Montes Claros - e isso foi muito importante para mim - passei a publicar notícias e comentários gerados nas reuniões de quinta-feira em quase todas as edições do Jornal de Montes Claros. Era o Rotary a melhor fonte de informação, a autoridade segura para falar da cidade, em nome dela e de tudo que representava progresso e civilização. Como repórter era só anotar e organizar tudo, considerando que naquele tempo não havia a malícia e os desvios conceituais tão próprios das políticas de hoje. Havia muito mais sinceridade, muito mais amor à causa pública, sem segundos interesses e tanta vontade de ludibriar a opinião dos menos avisados. Verdadeira universidade de civismo! Agora que o Rotary Clube Montes Claros se prepara para comemorar seus setenta anos de contínua atividade com feitos notáveis em todos os campos, será que não poderia publicar todos as suas memórias, relembrando o valor dos homens que ajudaram a fazer a nossa história nestas sete décadas? Creio que seria muito bom e de bastante interesse, além de servir de exemplo, às novas gerações. Muita gente quer hoje ser dono das coisas e a falta de divulgação da verdade sempre causa transtornos e erros. Valerá a pena, não tenho dúvidas. Mais do que uma homenagem a pioneiros será uma boa informação, de que é mestra e sempre foi a nossa vida montes-clarense. Institutos Históricos de Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/8/2013 07:50:39
QUEM É BREJEIRO SABE O QUE É...

Wanderlino Arruda

Desde as Festas de Setembro de 2007 da nobre cidade de Brejo dos Almas, que eu estou querendo alinhavar esta crônica sobre dizeres populares que, pelo menos para mim, são bastante interessantes. Seis longos anos de espera desde que o Rotary Clube de Francisco Sá-Norte fez e promoveu uma camiseta para levantar recursos destinados aos próprios festejos. Na parte de traz a lista dos patrocinadores, que eu, por questão de amizade, também honradamente me apresentei. Na frente, em palavras da cultura brejeira, dezenas de frases antes gravadas em mentes e corações, todas mais do que conhecidas, verdadeira fonte de identidade para todos. De épocas de antanho e de tempos presentes. Dou para os leitores pelo preço de compra, ou seja, com estão escritas na malha branca. Ei-las: Namorar no Morro do Cristo. Tomar uma na alameda. Festa do alho. Frango assado do Pé na Cova. Vento que levanta a saia. Pirulito de Dóia. Ponte para sempre provisória. Notícias no alto falante. Pensão de D. Quinó. Padraria de Simplícia. Consultar com Dr. José Mendonça. Galdina, Pasconito, Maria Bocão. Churrasquinho de João Manga Rosa. Racho da Lua. Ir para Montes Claros na jardineira de Zinzim. Festa do Algodão. Tomar pito de Lúcia no Araês. Fonte Luminosa. Bar de Antônio Bezinha. Discurso de Waldemira. Sapataria de Zé Miúdo. Armazém de Seu Quincas. Estudar no Tiburtino Pena. Hotel Mineiro. Bloco de Cima e Bloco Sujo. Caminhar no Parque dos Namorados. Folia de Ataíde. Escola de Samba da Estrela Dalva. Farmácia de Zecão. Banho de Cachoeiro no Catuni. Ainda mais: Lua Cheia na Serra. Taxi de Edmundo. Bar de Sinhô Preto. Matiné no Cine Mineiro. Bandinha de é Divaldo. Candelabro, Teorema. Xanadu, Bar de Graça e Bar do Primo. Serenata de Casquinha. São João de D. Edite. Coração com D. Lourdinha. Baile de Debutante no Clube. Parques de Zé Sebim. Sanfona de Zezin Tocador. Teatro de Clézio. Ser devoto de São Gonçalo. Café de D. Iaiá. Dançar no Skindô. Nada na Pinheira. Causos de Boca. Roubar Manga na Chácara de Dr. Euler. Alfaiataria de Dão Buzo. Baile do Brejeiro Ausente com o Via Láctea. Alvorada. Catopês. Valeu, meus companheiros e companheiras do Rotary. Como disse o nosso supra Camões, amado Fernando Pessoa: "Tudo vale a pena quando a alma não é pequena" Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 6/8/2013 09:08:57
PROVÉRBIOS

Wanderlino Arruda

Começam logo depois do Salmo 150, escritos por David, homem e rei, lutador de vinda inteira. Os provérbios, com menos fôlego de tamanho, vão apenas ao capítulo 31, seguidos pelo Eclesiastes e, logo depois, pelos Cantares, também de grande beleza. Aí quem escreve é o filho Salomão, mais famoso, tanto como construtor do Templo como pela imensa sabedoria, a ponto de ser chamado o mais sábio dos homens. Gente boa, os dois, pelo que deixaram para meditação de todos os séculos, ora racionalizando, ora confeitando de mel nossa vida, mostrando que nada mais salutar do que a poesia. Provérbios de Salomão, filho de David, rei de Israel: para aprender a sabedoria, e o ensino; para entender as palavras de inteligência; para obter o ensino do bom proceder, a justiça, o juízo e a equidade para dar aos simples prudência e, aos jovens, conhecimento e bom siso; ouça o sábio e cresça em prudência; e o entendido adquira habilidade para entender provérbios e parábolas, as palavras e enigmas dos sábios. O temor do Senhor é o princípio do saber, mas, os loucos desprezam a sabedoria e o ensino. "Filho meu, ouve o ensino de teu pai, e não deixes a instrução de tua mãe. Porque serão diademas de trança para a tua cabeça, e colares para o teu pescoço. Filho meu, se os pecadores querem seduzir-te, não o consintas. Filho meu, não te ponhas a caminho com eles, guarda das suas veredas os teus pés. Guarda as veredas do juízo e conserva o caminho dos seus santos. Então entenderás justiça, juízo e equidade, todas as boas veredas. Porquanto a sabedoria entrará no teu coração, e o conhecimento será agradável à tua alma. O bom siso te guardará e a inteligência te conservará, para te livrar do caminho do mal, e do homem que diz cousas perversas. Assim andarás pelos caminhos dos homens de bem. Porque os retos habitarão a terra, e os íntegros permanecerão nela. Feliz o homem que acha a sabedoria, e o homem que adquire conhecimento, porque, melhor é o lucro que ele dá do que o da prata, e melhor a sua renda do que o ouro mais fino. Mais precioso é do que pérolas, e tudo o que podes desejar não é comparável a ela. A alongar-se da vida está na sua mão direita, na sua esquerda riquezas e honra. Os seus caminhos são caminhos deliciosos, e todas as suas veredas de paz. É árvore da vida para os que a retêm. O Senhor com sabedoria fundou a terra, com inteligência estabeleceu os céus. Pelo seu conhecimento, os abismos se rompem, e as nuvens destilam orvalho. Filho meu, não se apartem estas cousas dos teus olhos; guarda a verdadeira sabedoria. Quem ama a disciplina ama o conhecimento. O que lavra a sua terra será farto de pão, o que corre atrás das cousas vãs é falto de senso. O caminho do insensato aos seus próprios olhos parece reto, mas o sábio dá ouvido aos conselhos. A ira do insensato num instante se conhece, mas, o prudente oculta a afronta. O justo serve de guia para o seu companheiro, mas, o caminho dos perversos o faz errar. Na vereda da justiça está a vida. O que guarda a boca conserva a sua alma, mas, o que muito abre os lábios a si mesmo se arruína. O preguiçoso deseja, e nada tem, mas, a alma dos diligentes se farta. Uns se dizem ricos sem ter nada; outros se dizem pobres, sendo mui ricos. Pobreza e afronta sobrevêm ao que rejeita a instrução, mas, o que guarda a repreensão será honrado. Quem anda com os sábios será sábio. O que atenta para o ensino acha o bem. Os lábios instruídos são joias preciosas." Assim, muito melhor e mais sábio atuarmos na vida com bons pensamentos e sermos justos dentro e fora de casa. Honestidade e ética em toda e qualquer situação. O bem acima de tudo! Academia Montesclarense de Letras www.wanderlino.com.br


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Por Wanderlino Arruda - 30/7/2013 08:03:56
CORRESPONDÊNCIA E AMIZADE

Wanderlino Arruda

De todas as manifestações de amizade e de carinho, a correspondência é uma das mais interessantes, a que toca mais profundamente a sensibilidade de quem escreve e de quem recebe. Bom e agradável é ver nas mãos do carteiro um envelope com letra amiga, o nome escrito por quem de alguma forma quer a nossa felicidade, o nosso contentamento. Importante ligar o computador, o notebook, o tablete, ou mesmo o celular e encontrar uma mensagem amiga, uma manifestação, uma notícia de quem gosta da gente. Pode ser só escrita, pode ser só imagem, uma foto ou um conjunto de imagens em pps, ppt no Facebook, no Twitter. Tudo é válido, cada colorido ou cada ideia, um sabor de aproximação e de carinho. Escrever para as pessoas a quem queremos bem deveria ser um exercício de todos os dias, uma espécie de doação espontânea e viva, própria de almas afeitas à camaradagem, ao exercício da saudade construtiva, ao apego positivo e enriquecido. Afinal, a escrita é o gesto gravado com tinta e amor, direto e pessoal, até mesmo quando feito com os recursos mais modernos que não os do próprio punho. O que mais atrapalha as pessoas no ato de escrever aos amigos é a falsa noção de que correspondência tem que ser sempre sob a forma e a formalidade da carta, com todos aqueles palavrórios cheios de cerimônia e gramatiquices, com tratamento sério, repositórios de salamaleques verbais. Uma palavra num e-mail, uma saudação num blog, uma foto, com ou sem moldura, desde que seja pessoal, personalíssima ou não, tudo terá cheiro de amizade, de importância afetiva. A correspondência de amizade é coisa muito simples, mais no pessoal, despretensiosos gestos de simpatia através de um vocabulário do dia-a-dia, uma comunicação sem preconceitos, direta e limpa de enfeites. Um bilhete, um recado, uma cutucada no Face, um conselho, uma consulta, uma informação, um cumprimento, tudo o que dirigimos por escrito a uma pessoa amiga constitui correspondência. É preciso aprender a escrever com frequência, criando pontes de amizade, demonstrando que nossa memória está firme, de que o esquecimento e a ingratidão não são os nossos maiores defeitos. Não deixemos que o telefone, que nunca registros, seja um impedimento à nossa correspondência. A palavra escrita ainda vale muito mais porque, guardada, gravada eletronicamente, será sempre uma boa lembrança, uma forma de recordação. Aproveitemos qualquer papel, não importa o tamanho, a cor, a origem, aproveitemos a postagem do e-mail. Digitemos, escrevamos à tinta, a lápis, de forma calma ou apressadamente, mas escrevamos. Por que não usar um cartão, uma nota de compra, um recorte de jornal ou revista, um post da internet e, em último caso, até mesmo um papel de carta propriamente dito? O que interessa é nosso interesse pelo ato de comunicar, de dizer que estamos vivos, que ficamos alegres com a alegria do amigo, felizes com sua felicidade. Se não pudermos escrever vinte linhas, que escrevamos dez. Se não pudermos escrever dez, escrevamos três, mas não deixemos de escrever. O sorriso interior criado pela nossa amizade vale mais do que todas as fortunas do mundo! Experimente agora mesmo! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 23/7/2013 19:14:27
POESIA NO "MULO" DE DARCY RIBEIRO

Wanderlino Arruda

Não sei por que mecanismo fica guardado em nossa memória um assunto que julgamos de interesse futuro, e que em determinado momento nada temos a fazer com ele. Um dia, sem qualquer planejamento, aquele assunto aflora em nosso pensamento e, sem quê nem porquê, se insinua como se em nascimento de filho de parto invisível, produto de gravidez intelectual como a apelida Cyro dos Anjos, disso acometido muitas vezes na vida. Foi o que aconteceu hoje comigo, ao desengavetar da lembrança de uns quinze anos ou mais a sonoridade de uma poesia rítmica e bem feita encontrada na prosa do romance "O Mulo", de Darcy Ribeiro, obra que ali para fazer a apresentação quando do seu lançamento em Montes Claros. E com que alegria volto ao assunto para compartilhar com o leitor, principalmente por se tratar de boa lavra, uma mineração de ouro nas letras contemporâneas. Lembro-me da surpresa encontrada nos olhos do próprio Darcy, sempre crítico dos outros e de si mesmo, que, ao esperar uma série de dados biográficos dirigidos a e sobre um filho da terra, encontrou uma análise linguística e literária do seu romance, com busca de estratos fônicos e semânticos, de que talvez nem ele mesmo tivesse consciência clara. Foi assim que, quando descobri versos com balanço e métrica na sua prosa, versos coerentes e bem encadeados de uma poesia moderna e límpida, pequeno não foi o seu espanto. O livro "O Mulo" é todo Montes Claros, com um elenco de personagens gostosamente nossas, como nomes do passado e do presente: Agapito, Lopinho, Izupero Ferrador, Dio, Mia, Leonel Filogônio, Malaquias, Benedito Gomes, Quinzim, Deba, Pio; Pacopaco, Dominguim, ao lado de Bidê, Konstantin, Mauricinho, Ducho, Fininha, Alfeu, Lauzim. No "Mulo", Darcy é muito ele mesmo também, deixando aqui e ali em toda a obra pinceladas de irreverência, quando indiretamente fala do próprio câncer que lhe tomou um pulmão, de apelidos do seu tempo de criança e de rapaz, de definições que dá para a gente chamada povo ("só quer folgar e parir") e para cidade ("o que me arrelia, é estar sozinho. Nas cidades quando lá fui e vivi, estive sempre só, só no meio do povaréu, como um traste que ninguém vê, nem quer ver"). Gratificante, quando ele se torna lírico: "Ele sentava na ponta do banco, comendo no prato com a mão, fazendo capitão e me escutando". Lindo, quando ele fala de Benedito Gomes: "Chamei o compadre Benedito,/ homem de sabedoria, / para ver se descobria/ e me explicava a causa de tanto urubu / Não sabia! Ótimo quando se vê como o mulo, ele mesmo ou Filomeno: "Aquele sim, é o homem / que eu sou, / inteiro. Cabal. / Sossegado, Valente / Realizado. / Contente. / Isso tudo, sem saber./ Inocente". Veja leitor que beleza de ritmo: "Nessa casona,/ hoje, um homem espera a Morte. / Eu. Nem homem sou. / Sou é um des-homem, / de punhos atados, / de dentes cerrados,/ de pernas peadas, / aos pés do Senhor! Quanta coisa boa! Mas devo respeitar o espaço, e só tenho tempo de falar de Emilinha, uma gostosura de poema e de figura: "Emilinha não era desse mundo. / Ou era, demais. da conta. / Safada de nascença. / Nela havia o sumo de dez, / de cem mulheres/ muito fêmeas. / Tanto que extravasava, / sopitava em cheiros e babas./ Suspiros e choros. / Era uma força viva,/ selvagem como esses bichos silvestres. / Emilinha me fez homem/ como jamais fui antes nem depois./ parecia até feitiço. / Eu e ela inesgotáveis... / Vi por fim,/ me convenci,/ de que ela me vencia,/ me amofinava./ Era mulher demais para um homem só./ Eu não podia com a mulinha!... Precisa mais, leitor?
Academia Montesclarense de Letras
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Por Wanderlino Arruda - 16/7/2013 16:54:25

GODOFREDO GUEDES, RICA BIOGRAFIA

Wanderlino Arruda

A maior tela do pintor acadêmico Godofredo Guedes está em Belo Horizonte, no Instituto de Educação. Tem grande dimensão, quatro metros por três. Trata-se de um busto do inesquecível João Pinheiro, que provocou lágrimas do filho, Governador Israel, quando o viu pela primeira vez, diante de tanta emoção face à beleza do quadro. Para o artista Godofredo o seu melhor trabalho foi realizado para outro grande artista, o pintor Konstantin Christoff: um retrato do velho e robusto Christo Raeff, em cores marcantes, um perfeição de relevo de luzes e sombras, de coloridos e matizes. Trabalho bonito, vivo, audacioso. Uma verdadeira obra de arte alimentada pelo calor da amizade de dois grandes gênios do pincel. A maior glória de GG, no seu próprio ponto de vista, era ter quadros e telas em grande parte dos lares de Montes Claros e do Brasil, tantos como os seus dias de alegria. Mas nem só de tinta viveu ele. De vez em quando deixava de ser mestre do pincel para ser mestre na harmonia dos sons, compositor que é de quase cinquenta belas músicas, muitas delas inseridas em cadernos de modinhas e de dobrados e de livros de grande destaque como o lançado pela historiadora Milene Coutinho Maurício. Muitas não são por aqui conhecidas, porque ficaram com as bandas de música da velha Bahia, guardando a saudade do autor. Nota interessante é que Godofredo começou a compor música em 1931, no mesmo ano em que se casou com D. Júlia, ao que tudo parece, um amor mais sonoro que colorido ou tão sonoro como colorido. Como compositor, Godofredo foi laureado com um primeiro prêmio num concurso de músicas juninas da Rádio Inconfidência de Minas Gerais. O título: "VAI, MEU BALÃOZINHO". Construiu também, para variar de arte, inúmeros instrumentos de cordas: violinos, violões e até um piano. Isso mesmo, um PIANO! Com cauda e tudo! Em Montes Claros, Godofredo recebeu cinco prêmios como melhor pintor. Em Belo Horizonte, oito anos participando da Feira da Praça da Liberdade, vendendo quadros todas as semanas, foi várias vezes homenageado. Em entrevista que me concedeu, não sei mais quando, sua maior emoção além do casamento com D. Júlia, o ato do recebimento do título de Cidadão Honorário de Montes Claros, em 1957, ano do centenário da cidade, aprovado por unanimidade da Câmara, a pedido do saudoso prefeito Geraldo Athayde. Outro grande momento foi a noite de comemoração dos seus 46 anos de pintura, quando todos os artistas de Montes Claros, sinceros amigos, admiradores conscientes, companheiros leais, juntamente com autoridades, esposa, filhos, genro, estiveram no Centro Cultural Hermes de Paula para abraçá-lo e louvá-lo. As solenidades, o encontro, marcavam quase meio século de Arte que o alegrou e fez crescer seus sonhos pelas belezas da vida. Foi um momento interessantíssimo, de máxima emoção, uma descoberta do verdadeiro sentido da importância de viver. Para Godô e para todos nós. Grande Godofredo, imenso Godofredo Guedes, importante Godô, ilustre GG, maravilhoso amigo, companheiro e mestre, nossa mais sincera gratidão pelo tempo em que, muitas vezes juntamente conosco, você viveu e conviveu com a arte. Um hino importante por todas as belezas da vida! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/7/2013 07:53:43
GODOFREDO GUEDES, AMADO-AMANTE DAS CORES

Wanderlino Arruda

Mesmo pintando por prazer, a exemplo de Miguel Ângelo, Godofredo Guedes pintava por profissão. Genial, perfeito, verdadeiro, amado-amante das tintas e das cores, em quase toda a sua vida foi um importante e reconhecido pintor. Suas aventuras e venturas com os pincéis tiveram início na adolescência, aos quinze anos, em 1923, na cidade em que nasceu, Riacho de Santana, Bahia, onde estudou francês e foi prático de farmácia. Primeiro trabalho, já com toque de mestre, óleo e pincéis, foi na Gruta da Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus da Lapa, barrancas do São Francisco. Até hoje lá estão para a glória de Deus e do autor, os doze quadros bíblicos da Via Sacra. Têm sido um momento de místicas contemplações para muitos dos romeiros e visitantes de quase um século. Sempre, uma religiosa admiração. Depois da Bahia, depois dos dias ensolarados do sertão interiorano, depois de encher a alma dos tons ricos das águas do São Francisco, Godofredo Guedes veio para Montes Claros, cidade bem pequena em 1935, mas com uma admirável generosidade de muito sol e muito azul: azul no céu, azul nos montes, azul nos tubos de tinta azul da sua paleta de artista fogoso. O homem chegou pintando. Pintava tudo. Pintava placas, pintava letreiros, pintava fachadas, pintava quadros. Quando pintou o retrato de grande Prefeito Dr. Santos, recebeu dele um bruto elogio: "como poderia assim de modo tão fácil e artístico captar tão seguramente a personalidade de uma pessoa?". Muitas mudanças na cidade, muitos anos são passados e o retrato ainda aí está para quem quiser ver. É um sucesso até hoje. Quantos quadros deve ter Godofredo pintado em sua venturosa vida? Difícil saber, porque ele pintava todos os dias, todas as horas... Uns quatro ou cinco mil, Ou muito mais... Quantos amigos teve Godofredo? Ninguém sabe, tantos são eles, em toda parte. Quantos filhos, frutos de um feliz casamento com D. Júlia? Isso a história montes-clarense sabe: foram oito - Terezinha, Dolores, Neusa, José, Hélio, Maristela, Alberto e Lúcia. Hélio é o conhecido Patão, do folclore e também das tintas. Alberto, o genial Beto Guedes, um dos construtores da moderna música brasileira. Lúcia graduou-se como médica na Argentina e é doutora há um bom tempo. Os outros, com exceção de nosso sempre saudoso Hélio, todos de alguma forma ligados à pintura, aí estão, solteiros, casados, felizes sempre. Zeca - já não mais tão jovem como em nossos tempos de Colégio Diocesano, segue a trajetória dos pincéis do pai, mas até hoje não quis pintar quadros. D. Júlia de Castro Guedes, que sempre teve nas mãos e no grito, o comando da família, cuidou de tudo e de todos. Foi diretora e gerente ao mesmo tempo. Mulher e mãe que mandou um bocado e com razão, diante de família tão grande e de marido artista, que só se via obrigado a enxergar as belezas da vida. D. Júlia foi, sem qualquer dúvida, uma admiradora do marido. Falou dele sempre com grande carinho, mesmo quando estava de cara fechada ou precisando brigar. A ela, concordo, devemos grande parte da firmeza de GG na vida e na arte! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros.


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Por Wanderlino Arruda - 2/7/2013 11:59:11
EDWIRGES TEIXEIRA DE FREITAS

Wanderlino Arruda

Para a garota que nasceu em Mato Verde, em tempo de seca, Deus concedeu, em cada um dos seus dias, páginas de vida perfeita no livro do tempo, principalmente quando chegou para trabalhar em Montes Claros, em 1939. Menina-moça, de pés descalços e vestido de chita, tudo no seu viver e conviver tem sido múltiplos quilates do melhor ouro da inteligência e da determinação. Fiel a si mesma e aos outros, à vida particular e à suas profissões, humilde, recatada, despida de orgulho, sempre soube edificar sua própria biografia sem distância entre sonhos e realidade. Tudo constância e brilho de luz, tudo! Primeira escola na cidade natal, onde também estudei - as Escolas Reunidas - muitas leituras e muitos projetos nos apontaram para cá. O desejo de progresso e a determinação de vencer nos conduziram a múltiplas experiências, conhecimento e reconhecimento do que havia de melhor em aprendizagem profissional. Fase de ascensão da cidade, Edwirges aprendeu cedo o cheiro e o trabalho de prótese nos laboratórios de famosos dentistas, entre eles os doutores Aslóquer, Plínio, José Barbosa, Sebastião e José Moreira. No balcão da Bombonière da Rua Quinze, viu, em 1942, o incêndio da Casa Luso-Brasileira e no Caixa do Bar de Clóvis, conheceu Filomeno Ribeiro, Jaime Rebello, Benjamin Rego, Candido Canela e - acredito - outros importantões como Luiz Pires, José Esteves Rodrigues, Armênio Veloso, João Souto, Niquinho Teixeira, Nelson Vianna, João Chaves, além dos doutores Honorato e João Alves, este marido de D. Tiburtina. O apelido Du veio de D. Maria, esposa de seu primeiro patrão, Daniel, porque o nome Edwirges era muito difícil de pronunciar. O namoro com Mundinho começou em 1946, mas o casamento só aconteceu em 1950, tempo em que os limites de Montes Claros iam da Santa Casa à linha do Roxo Verde e do final da Rua Bocaiúva até a Praça Itapetinga. O Alto Severo era longe, os Santos Reis era para viagem a cavalo. Já casada, morou na roça, morou em São Paulo, sempre e sempre sonhando em voltar para cá. No nascimento do primeiro filho, conheceu a Irmã Beata; em 1964, dentista prática, foi perseguida como se fosse comunista, só porque era protética. O curso de madureza - ginásio e científico - foi de setenta a setenta e dois, com orientação do doutor Alcides Loyola. Pouco depois foi para Diamantina levando a filha adolescente e morando em pensionato, até conseguir ser dona de uma república de estudantes. Graduada com louvor em 1976, seu maior problema foi comprar um consultório, só possível porque já havia venda em prestações. Na mesma profissão, formou seus filhos Raimundo e Rodolfo, sendo Raimundo o fundador da primeira Escola Superior de Odontologia do Norte de Minas, uma das melhores do país. A filha Sueli tem curso superior de Design e gosta muito do que faz. Instalado o consultório da Rua Padre Augusto, esquina com a Rua Camilo Prates, seu primeiro cliente foi o senhorio dr. Antônio Augusto Veloso, seguido de D. Jacy Veloso, dr. Alfeu de Quadros, Osmane Barbosa e dr. Antônio Augusto Athayde, muitos e muitos outros, todos transformados em amigos. O trabalho sério e a competência da doutora Edwirges Teixeira de Freitas tem sido contínuo e continuado, muitas vezes das oito às vinte horas, algo que acontece até em fins de semana, descontado só o horário da missa. No meu ponto de vista, nenhum profissional melhor neste Brasil. E que Deus permita ela continue assim ainda por alguns anos. Melhor para ela, melhor para todos nós, seus clientes e admiradores. Academia Montesclarense de Letras Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 26/6/2013 09:48:15
DOMINGO DOCE E GOSTOSO

Wanderlino Arruda

Pode o leitor estar lendo o que escrevo, na tarde ou na noitinha de sábado. Pode ser que já seja domingo pela manhã, bem cedo ou mais para a hora do almoço, que muita gente gosta de dormir mais um pouco. O tempo do antes e do depois não importa, vale até dar uma saída à rua, de carro ou a pé, de moto ou de bicicleta, ir ás praças, subir e descer avenidas. Sair da toca para ver gente, muita gente, no fim de semana, gente que também saiu para se divertir, para respirar os ares de uma cidade que está sensacional no seu movimento humano, numa inusitada alegria quase infantil. Uma procura de beleza para os olhos, uma busca de voz amiga, uma harmonia para a alma e para o coração. Como têm sido suaves os nossos dias e noites de sábados, doces e gostosos os nossos domingos! Lindos e gratificantes, com muita fartura de emoções! A alegria, na verdade, pode ser encontrada em toda parte, muito mais do que a tristeza e a nostalgia. Sai dessa quem pensa no negativo! Montes Claros tem sido uma cidade muito feliz, com mil motivos de agradar, de preencher horas e horas com justos e bem-vindos entusiasmos. Vejam os barzinhos, as peladas dos clubes das várzeas, as piscinas, os campos de vôlei e de basquete, os passeios no parque, as rodadas no aterro do Interlagos, a praça da Matriz com a Feira de Artes, a Praça de Esportes, o Centro Cultural, o Conservatório, as serestas, os barzinhos e restaurantes da Santa Maria, as corridas mansinhas da Avenida Esteves Rodrigues. O ir e vir de alegres estudantes no início e no fim das aulas, o Kart do Ibituruna, o motocross da avenida que vai para do JK, as gincanas, as corridas, que eu já coloco no plural porque devem continuar e, aí, já mando um recado para todos que amam a alegria. A cidade é feliz, muito feliz, porque tem Yvonne Silveira chegando aos 99, Georgino Júnior escrevendo de vez em quando, Felicidade Patrocínio incentivando arte e cultura, tudo com uma adorada maciez de doce de leite feito em fazenda, tudo coisa de gente fina. Montes claros já é afortunada porque tem Paulinho Narciso para ver e ouvir os sons mais secretos dos nossos anseios, sentir o pulsar de um coração maior, um vidente que, vendo o belo, não se cega para obscurecer conscientes ou involuntários erros. A cidade de Montes Claros é festiva, é amorosa, grata aos que lhes são úteis pelo simples ato de viver e ser alegre, pelos que vestem uma roupa mais colorida, pelos que se dispõem a ter um jeito mais jovem, mais descontraído, pelos que amam e buscam ser amados! Que cidade feliz e de muitas flores! Depois das paineiras, as buganvílias, as rosas, o começo do ipê amarelo, tudo lindo, esvoaçante de juventude! Veja o leitor por si mesmo que maravilha está a Avenida Magalhães Pinto, quase em frente da Coteminas, aquele esplendor de cores da Natureza, coisa de se encantar! Olhe o muro vivo que circunda a Praça de Esportes, como já começa a florescer! Dê só uma espiadinha no Bairro Todos os Santos, no Jardim São Luís. Vá ao alto os Morrinhos e sinta que delícia estão os jardins da Rádio Montes Claros e da TV Globo, um encanto de carinho! Olhe o parque da antiga Siom, verde verdinho, o Aeroporto de Leni Tolentino tão bem cuidado, e se puder, faça uma visita ao viveiro de plantas que era de Josefina Mendonça! Se você está contente com a vida, saia para a rua para ver belezas e alegria. Se você está triste, um pouquinho doente, jogue a tristeza ou a doença de lado e corra para a amplitude do mundo lá fora e seja muito feliz. A felicidade não procura ninguém, nós é que temos de ir ao encontro dela. Isso é tão maravilhoso como o sol bonito da manhã de domingo! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 17/6/2013 09:02:16
O QUE REALMENTE É CRÔNICA?

Wanderlino Arruda

Antes de mais nada, é bom dizer que crônica é coisa de jornal. Sempre feita depressa, com hora marcada, muitas vezes com atraso. É construída de pequenos lances, registrando mais o circunstancial do que o definitivo. Assuntos efêmeros, que, vez por outra, ganham a concretude, a universalidade, um jeito especial de ultrapassagem das fronteiras do tempo e do espaço. Soma de jornalismo e literatura, comentário de assuntos que podem ser ou não ser do conhecimento do público, a crônica terá - queira ou não - um ângulo subjetivo de interpretação do fato, algo recriado pelo cronista, busca do existente ou do imaginário muito próxima do conto - que é muitas vezes confundidas com ela - a crônica é uma narração do próprio autor dentro de sua experiência, de sua visão, como que uma reportagem comentada quase ao nível poético. Crônica tem de ter aparência de simplicidade, mesmo que seja construída com todos os recursos artísticos. Como um jornal nasce, vive, envelhece e morre a cada dia, a crônica é destinada a leitores apressados, feita para um momento de leitura. Precisa, entretanto, de pelo menos um sentido de duração, uma mensagem que deverá ficar na memória. Não pode ser esquecida com a folha impressa, mesmo que esta seja jogada fora. Crônica não é notícia comum, codificada só para informação diária. Tem profundidade, é mais para o sentimento, com palavras que vão diretamente à emoção do leitor, que também se transforma em cúmplice ideológico da condição humana de quem escreve. É um reencontro com o prazer ameno, uma intensidade de sinais de vida que, se não escritos, acabam escapando. Claro que é a pressa de viver do cronista a vontade de estar presente e de ser ao mesmo tempo em determinado lugar, que o faz testemunha, porta voz e intérprete de um quase real muito gratificante. A crônica é mais um espaço de dimensão interior repartida entre escritor e leitor, uma ternura resgatada das experiências de cada um. Cada palavra, cada frase, cada silêncio representarão um significado mais individual que coletivo, pois, no fundo, a crônica é uma conversa entre duas pessoas, um conluio positivo e amigo. Um vê o mundo e a vida da mesma forma que o outro gostaria de ver, mas não viu, ou não sabe ver. Assim, o autor constrói o texto e lhe dá o colorido quase que pré-combinado com o seu parceiro leitor. Comparada com formas mais consistentes, a crônica é mais uma tenda que uma casa de verdade. Serve só de abrigo ao espírito, como um ato de reflexão compartilhado, mágico, de conforto ligeiro. Na verdade, a crônica é algo que muito existe, mas que se não fossem os olhos de espião do cronista, jamais apareceria em público. É que acontecido não escrito fica apenas como potencialidade, disperso conteúdo não sentido, essência não encontrada. Assim, aos queridos companheiros cronistas do nosso Instituto Histórico e Geográfico, Itamaury Teles, Dário Cotrim, Petrônio Braz, Mara Narciso, Glorinha Mameluque, Yvonne Silveira, João Carlos Sobreira, Luiz Carlos Novaes - estes os que mais publicam - o meu mais fraterno abraço e os votos de que continuem escrevendo e... publicando. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/6/2013 16:30:02
MEU IRMÃO JURANDI

Wanderlino Arruda

"Antes de julgares a minha vida ou a minha personalidade, calça os meus sapatos e percorre o caminho que eu caminhei, vive as minhas tristezas, as minhas dúvidas, as minhas alegrias; percorre os anos que eu percorri, tropeça onde eu tropecei e levanta-te assim como eu o fiz." Provérbio Tibetano Sinceridade, fidelidade, companheirismo, dedicação, determinação, força de vontade e empenho para fazer sempre melhor têm sido a marca pessoal de meu irmão Jurandi nos seus 65 de existência e nos seus cinquenta anos de trabalho de dez horas ou mais a cada dia. Caminho duro para qualquer um, mas caminho normal para ele que sempre quis e fez o melhor em seus campos profissionais. Nascido em Mato Verde, veio para Montes Claros em 1955, com seis anos, quando meus pais mudaram para cá para que os filhos pudessem estudar, tempo em que eu já estava no primeiro ano de Contabilidade e era repórter do Jornal de Montes Claros. Jurandi fez o curso primário no Grupo Gonçalves Chaves e no Dom Aristides Porto, ginásio na escola da Rede Ferroviária, científico no Colégio Plínio Ribeiro. Foi aluno da primeira turma de Matemática da FAFIL. Aos doze anos, iniciou como auxiliar no Sindicato dos Bancários e aos quinze ocupou a gerência de escritório e de construção do Engenheiro Filomeno Pires. Aprovado com destaque em concurso do Banco do Brasil, trabalhou na empresa de 1973 a 1987: Agências de São Francisco, Valença, Vitória, Belo Horizonte e Montes Claros. Entre Belo Horizonte e o Cesec Montes Claros, foi comissionado na Vice-presidência do BB em Brasília como auxiliar técnico de planejamento. Deixou uma carreira brilhante no BB para se dedicar em tempo integral à construção civil, primeiramente na Construtora Argos, depois na Engest e, nos últimos oito anos, na Construtora Vanguarda. São do seu construir centenas e centenas de casas e apartamentos, além de prédios, escolas e hospitais. Jurandi nunca soube e acredito que não sabe como parar de trabalhar. Acha que a vida é uma constante e eterna ação para ele e para as pessoas que com ele convivem. Em muitas das etapas de construção chegou a administrar mais de três centenas de trabalhadores nos canteiros de obras e técnicos nos escritórios. Seu entusiasmo foi sempre contagiante os companheiros de empresas e para o pessoal da produção, prazo para inícios e prazo para as conclusões, porque nada é mais importante que a realização das tarefas e o cumprimento dos contratos. O bom nome acima de tudo. Quando alguém encontra seu caminho - sempre disse Jurandi - precisa ter coragem suficiente para dar todos os passos necessários e importantes. Se em um ou em outro momento chegam decepções, melhor considerá-las ferramentas que Deus utiliza para mostrar outras formas de andar, porque determinação, coragem e auto confiança são fatores decisivos para o sucesso. Em tudo, tudo, se estamos possuídos por uma inabalável determinação, conseguiremos superar quaisquer obstáculos. Independentemente das circunstâncias, devemos ser sempre humildes ,recatados e despidos de orgulho. Quando temos fé e força de vontade, os resultados daquilo que fazemos sempre superam as expectativas para nós mesmos e para os outros. Em palavras de Chico Xavier, Deus nos concede, a cada dia, uma página de vida nova no livro do tempo. Em palavras de Emmanuel: "Pensar em Deus, refugiar em Deus, esperar por Deus e confiar em Deus, porquanto, ainda mesmo quando nos suponhamos sós, em meio de tribulações incontáveis, Deus está conosco e com Deus venceremos. Muitas vezes perder algo de valor em mudanças impostas pelo sofrimento é o jeito de encontrar algo de mais precioso no caminho. Trabalhar e trabalhar sempre com a firmeza e conteúdo do bem e do amor. Nunca devemos nos esquecer das sábias considerações de Madre Tereza de Calcutá: "Não sei ao certo como é o Paraíso, mas sei que quando morrermos e chegar o tempo de Deus nos julgar, Ele não perguntará quantas coisas boas fizemos em nossa vida. Antes perguntará quanto amor colocamos naquilo que fizemos." E viva o amor! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 11/6/2013 15:22:17
PALAVRAS PORTUGUESAS COM CERTEZA

Wanderlino Arruda

Como todas as vezes que falo de Portugal o assunto desperta interesse, dá um pouco de ibope, permito-me voltar à apresentação de palavras e expressões idiomáticas curiosas para nós brasileiros, naturalmente bem diferentes das nossas. Mas ao mesmo tempo distanciadas, ligadas culturalmente no espaço, Portugal e Brasil acabaram criando mundos diferentes na dialetação, mais lá do que cá. Aqui a língua é mais uniformizada possivelmente em virtude da força social niveladora do rádio e da televisão, comuns no Brasil há muitos anos e de expressiva quantidade e qualidade. Os portugueses dizem que a língua mais antiga é a falada no Brasil, herança do século XV, quase que exatamente como veio para cá. A deles, não, porque os dialetos portugueses continentais estão absolutamente atualizados em vista da presença maciça da escola nos anos em que o Brasil gastava tempo, infelizmente, derrubando florestas. Seja o que seja, eis alguma coisa que se fala em Portugal, considerada a notável riqueza semântica do idioma um tanto enri¬quecido por Luiz de Camões, cantado e decantado também por Fernando Pessoa e Florbela Espanca: lá ESTAÇÃO DE CORREIO é o que chamamos de agência, ESTAR COM UM GRÃO NA ASA é estar de cara cheia, bêbado, borracho, chumbado, como se diz na Bahia. EXPLICAÇÕES são aulas particulares e, assim, EXPLICAÇÕES DE PORTUGUÊS, de MATEMÁTICA, etc. ABSTENCIONISTA é quem não vota nas eleições e ACERTAR AGULHAS é acertar os ponteiros, combinar ter o mesmo ponto de vista. ACIDENTE DE VIAÇÃO é acidente de transito, EMBATE é batida de carros, ALFAIAS, máquinas agrícolas, ARRECADAÇÃO, despensa, AUSCULTADOR, a parte móvel do telefone que se coloca no ouvido e BANDA DESENHADA é história em quadrinhos. Alguns signos do zodíaco são ditos em língua atual, todos em boa língua vernácula, nada de latim: CANCER é caranguejo, ÁRIES é carneiro. Mais: CAFÉ DE SACO é o que chamamos, café de coador, CAIXA DE VELOCIDADE é caixa de câmbio, PENSO HIGIÊNICO é absorvente íntimo, QUARTO DE CAMA é dormitório, SERVIÇO À LISTA é o atendimento com cardápio, PASTILHA ELÁSTICA, goma de mascar, CARTA DE CONDUÇAO, carteira de motorista, CRIANÇA DIMINUÍDA, criança excepcional, FITA COLA, durex, FOTOCOPIADORA ELECTROSTATICA, xerox, INDICADOR DE Dl¬REÇÃO, pisca-pisca, INTERVALO PARA COMPROMISSOS COMERCIAIS DE PUBLICIDADE é o nosso intervalo para comerciais. Toalha é LENÇOL DE BANHO, tanque de gasolina, DEPÓSITO DE CARBURANTE, comunicação de massa é FONTE DE INFORMAÇÃO MASSIVA, camping é PARQUE DE CAMPISMO, feijoada é TRIPAS À MODA DO PORTO (espécie de feijoada de dobradinha), transmissão radiofônica é TEMPO DE ANTENA, carro de lixo é CARRO DE HIGIENE, radiopatrulha é CARRO-RÁDIO. Há usos semânticos interessantíssimos para nós: o que chamamos de cueca, lá é CEROULAS, embora já estejam usando também o nome CUECA. Porém, em Portugal há CUECAS PARA SENHORAS (calcinha) CUECAS PLÁSTICAS (infantis) e CUEQUINHAS (fraldas para bebê). Veja a correspondência com alguns de nossos vocábulos: CAMISA DE DORMIR ou CAMISA DE NOITE (camisola), CAMISETE (camiseta), CAMISOLA (camisa de malha), CAMISOLA INTERIOR (camiseta). Nossa importação americana "jeans" lá na terrinha é CALÇA DE GANGA, o nosso "shampoo", é XAMPÔ, Charles Chaplin, CHARLOT, aparelho de gilete é MÁQUINA DE BARBEAR, hambúrguer é HAMBURGUESA. E CACHORRO só é chamado quando ainda cachorrinho (cão pequeno). Cachorro grande é CÃO. E, por último, calçar ruas com pedras pé-de-moleque, em Portugal, é CALCETAR. Quem calça ruas com pedras é CALCETEIRO. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 3/6/2013 16:00:14
CADA QUAL COM SEU JEITO DE DIZER AS COISAS

Wanderlino Arruda

Eu sei e você sabe que há muitas formas de dizer uma coisa. Muitas! Questão de estilo, jeito de falar, resultado da cultura ou da personalidade de cada pessoa. Há os que já nascem sérios, que falam como se estivessem sempre em dia de festa, aquele puxar de língua de reunião oficial frente a sisudas autoridades. Há os que sabem temperar e conversam ou desconversam no meio termo, saindo-se bem em todas as ocasiões. Mas há também os mais imaginativos, que em tudo põem graça, descobrem, ninguém sabe onde, um ângulo interessante e provocador de risos. Para todos o mundo tem lugar, haverá sempre uma hora mais adequada de ouvi-los e dar pouca ou muita importância ao que dizem. Para dizer hoje dos que ganham a vida com uma imponderável leveza de ser, dos que constroem alegria e despertam admiração, uso um velho livro de Leon Eliachar, um dos bons humoristas que este Brasil já teve, aproveitando frases inteligentes e de uma felicidade que raramente o pensamento humano consegue ter. O livro é o Homem ao Zero, edição nem mais sei de quando e de que editora, mas gostosíssimo em toda a sua concepção. Só os títulos já mereceriam incondicional aplauso, por exemplo: "O pior espectador é aquele que quer ver", "Aulas práticas, para alunos teóricos", "Piadas curtas para inteligências longas", Histórias reais quase fictícias". Etc. Veja os anúncios: "Ocasião - vende-se um metro pelo preço de oitenta centímetros", "Vende-se um segredo de cofre quem conseguir abrir o cofre, porque o dono não consegue", "Vende-se um táxi com apenas cinco postes de uso", "Vende-se uma tranca de direção tão boa que os ladrões levaram o carro mas não conseguiram levar a tra nca", "Vende-se um véu de noiva que nunca foi usado, nem o véu nem a noiva", "Vende-se um colchão de casal gasto de um lado só", "Vendo a minha consciência mas o preço quem faz é a sua", "Dá-se chance a uma secretária que dê chance". Em trechos mais alongados: "A humanidade divide o seu tempo em duas partes: guerra e paz. Durante a paz, vive discutindo a guerra e durante a guerra vive implorando a paz. A guerra foi inventada por um sujeito que morreu nela. A paz ainda não foi inventada". "A imprensa foi feita para orientar opinião pública, mas, em verdade, é a opinião pública que orienta a imprensa. Suas duas grandes forças são o crime e a política: a política é feita criminosamente e o crime não passa de política pra vender jornal". "A democracia é essa forma de governo onde todos concordam em discordar um do outro, mas não convém discordar muito, senão acaba a democracia. Há duas formas de ver a democracia: a primeira e a segunda. A primeira ninguém pode explicar porque a segunda não deixa." Melhor no livro é uma descrição de uma criança de dez anos com o título O pássaro e a fera. Coisa de se encantar. Espero que você leitor/a, concorde com o que foi dito. Eis: "Eu vou escrever a respeito de um pássaro que se chama coruja. A coruja não enxerga de dia e de noite é cega que nem um morcego. Eu não sei muitas coisas sobre a coruja, por isso vou falar sobre a fera que eu escolhi. É a vaca. A vaca é um mamífero. Ela tem seis lados: direito, esquerdo, em cima e em baixo. Atrás dela tem um rabo com uma escova na pontinha. Serve pra espanar os mosquitos pra não caírem no leite. A cabeça serve pros chifres crescerem nela e pra ter um lugar pra boca. Os chifres servem pra espetar e a boca pra mugir. O leite fica pendurado em baixo da vaca. Está prontinho pra ser tirado. Quando uma pessoa puxa, o leite sai e não acaba nunca. Como a vaca consegue isso eu ainda não consegui descobrir, mas sai cada vez mais. A vaca tem um jeito danado pra cheirar. A gene sente o cheiro de longe. Por isso é que o ar do campo é fresco. O marido da vaca é o boi. O boi não é um mamífero. A vaca não come muito, mas o que ela come, come duas vezes, de modo que tem o suf iciente. Quando ela está com fome, a vaca muge, e quando não diz nada é porque dentro dela está cheio de grama". Precisa mais? Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 27/5/2013 17:30:04
JEAN-FRANÇOIS CHAMPOLLION

Wanderlino Arruda

Quem primeiro me deu notícias de Champollion, ou melhor, Jean-François Champollion, foi meu sempre lembrado professor Pedro Martins Sant`Ana, entusiasmado lente de História do velho Colégio Diocesano, nos idos dos anos cinquenta. Era sensacional falarmos sobre a civilização egípcia com suas pirâmides, seus vales, os túmulos da nobreza, os grãos de trigo de 3.500 anos, as joias, as máscaras de ouro, toda uma parafernália de objetos significativos da riqueza e da evolução dos habitantes do vale do Nilo e paragens norte-africanas. Mas o que me fascinava mesmo era a história de Champollion, o linguista francês que decifrou os hieróglifos e permitiu todo o conhecimento do passado do Egito. Todo, ou quase todo... De vez em quando, a imprensa abre colunas para a comemoração da grande vitória do sábio francês face aos mistérios do passado remoto, de quando a primeira grande cortina foi afastada para deixar o curioso vislumbre de intenções egípcias, nobres e faraônicas. Vitória de lá e vitória de cá; de Champollion, por ser lembrado tanto tempo depois, numa espécie de consagração; da imprensa, por saber valorizar os altos feitos intelectuais, as iniciativas que engrandecem a espécie humana. Quando a conhecida expedição de Bonaparte ao Egito, em 1799, o capitão Bouchard, cavando umas fortificações nos arredores do porto de Roseta, perto de Alexandria, encontrou uma placa de basalto gravada no ano 196, a.C., em honra ao soberano Ptolomeu. Essa placa tinha três inscrições distintas, as duas primeiras em egípcio antigo, a terceira em grego, tradução da primeira. Texto mais do que complicado, fracasso de muitos ao intentar decifrá-la, coube a Champollion, o apaixonado estudioso, encontrar a chave da leitura, obtendo um resultado claro e exato. Em dois anos de obstinados esforços, Champollion conseguiu estabelecer uma teoria completa e coerente dos signos hieróglifos, com indicações semânticas e gramaticais. Cada palavra - descobriu ele - estava composta de duas classes de signos: os que representavam uma ideia e os que representavam um som. Em resumo, encontrou ele a chave dos sinais simbólicos e dos sinais fonéticos. Mais alguns anos, a leitura do egípcio lhe era familiar. Em 1828, uma excursão que o levou a delta do Nilo aos confins da Núbia, passou também por Karnak, Luxor, Abu Simbel, Tebas, Menfis e Gizeh, dando os últimos retoques na sua sabedoria. Foi uma consagração! Num dia de primavera de 1966, passei horas e horas de emoção percorrendo salas do Museu do Louvre, procurando conhecer o magnífico universo de artes lá existente e querendo, naturalmente, ver e admirar a Pedra de Roseta. Era uma busca alegre e curiosa, intensa e solitária, de quem viajava sozinho como turista. No Louvre, encontrei a Mona Lisa, a Vênus de Milo, a Vitória de Samotrácia, muito das artes grega, etrusca, romana e islâmica, um mundão de coisas lindas e de inestimável valor, mas não encontrei a Pedra de Roseta, página-texto de Champollion. No terceiro dia de visitas ao Louvre, já quase desistente, consultei um vigia da seção egípcia e ele sorriu de minha ignorância de assuntos da cultura de museus: a Pedra de Roseta não está em Paris. Está um pouco longe de lá, na Alemanha, Museu de Berlim. Espero vê-la algum dia... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 21/5/2013 15:25:33
O DIA DA MINHA INICIAÇÃO

Wanderlino Arruda

Foi numa noite bem cheia de emoções do dia primeiro de junho de mil novecentos e sessenta e três a primeira vez que vi as luzes do velho templo da "Deus e Liberdade", ainda na Rua Coronel Joaquim Costa, onde fica hoje a Soebrás. Minha impressão inicial era de que estava num pequeno cômodo quadrado, com cadeiras altas, gente sentada ao redor e coladas às paredes, falando uma linguagem teatral numa espécie de fogo cruzado, todos muito interessados em conhecer os profanos cada qual querendo saber mais sobre o que pensavam a respeito de uma série de coisas do passado e do atual. As vozes eram todas minhas conhecidas, nenhuma sem identificação, bastante familiares para um já calejado repórter, político e sindicalista bem entrosado em todas as camadas de pobres e ricos de nobres e plebeus. Tudo me impressionou muito e creio que também ao Renato Alencar, de Porteirinha, meu companheiro de posse. Dos que falavam mais de perto, lembro-me bem de Toninho Rebello, Renato Alarico, Almerindo Mendes, Luiz de Paula, Geraldo Novais, Geraldo Borges, José Gomes de Oliveira, este um mestre-sala que, parece, complicava mais as coisas, mostrando que tinha muito mais autoridade. Júlio Pereira, João Murça Júnior, Arnóbio Abreu, Ewany Ferreira Borges, Vadiolando Moreira, Tufy Felício, Cristóvão Costa Mendes, Alício Mendes, Pedro Spyer Rabelo, Hélio Athayde, João e Terezo Xavier, todos apareciam de vez em quando como a dizer que eu estava no meio de amigos, não devendo temer mal nenhum, e ao contrário, pudesse rejubilar-me de ser participante de uma assembleia composta só de gente portadora dos melhores e maiores méritos, de membros de uma sociedade milenar e de muito bom exemplo em toda a história do mundo. Mais distantes, mais calados, Antônio Franco Amaral, Almir Chaves, Hélio de Morais, Eugerson Novais, Adil Horta, Raulemar Conto, Djalma Coelho, Rodolfo Cândido, Antônio Pernambuco, Múcio Correia Machado, Walter Lopes, Petronilho Narciso, Diógenes Guimarães, Waldir Macedo, Tasso Rodrigues da Cunha, Pedro Paulo e Paulo Pedro Costa, Mário Reis, Nenenzinho, Rosalvo Carvalho, Cassimiro de Paula, doutor Almerindo de Brito Faria, e o meu quase conterrâneo Joviniano Ramos, todos curiosos e contentes com sorrisos de quase mistério. Não sei se poderia hoje descrever de memória todos os acontecimentos da noite, tão bonitos, tão fartos pela rápida sucessão, tão harmoniosos no conjunto, assim como a servir de eternos lembretes para uma vida de real fraternidade. Sei que não devo ter falhado em nada da confiança que em mim depositava, porque também sabia que a seriedade dos meus acompanhantes não deixava dúvida quanto à importância do momento. Deve ter sido um caso de confiança mútua, assim de conivente compreensão de ambas as partes, cada lado procurando demonstrar maior lealdade, pois, no fim, saímos todos para um jantar no Restaurante Mangueira, na Rua Doutor Santos, um encontro bastante amigável. Pergunto a mim mesmo se tenho saudades dos meus primeiros tempos da Deus e Liberdade, um notável grupo empenhado em desenvolver um trabalho social de grande alcance, onde a lembrança de Chico Tófane, Francolino Santos, Geraldo Athayde, João de Paula, trabalhadores de muitos anos, era sempre uma constante, nunca esquecidas por Paulo Duarte e Pereira, Lauro Nascimento, Geraldo Rodrigues Pereira e Alício Mendes, entre os mais vividos no lado mais importante de todos os acontecimentos. Lembro-me bem de Waldir Macedo, Giru Amaral, Gentil Antunes, Joel Stark, Walter Suzart, Aristides Gomes, Levindo Aguiar, todos da melhor camaradagem, tudo gente muito boa e de convívio bem agradável como acontecia com Jonas Almeida, Ormezindo Assis Lima, Aristides e Quincas Barbosa, Daniel Guimarães, Geraldo Borges, Carlúcio Freitas, Didi e Djalma Guimarães, Jaime Mendes e tantos outros. Muitos já não se encontram entre nós, causando falta, o marcando apenas a lembrança, o último a partir, esta semana, meu bom irmão Vadiolano Moreira. De lá para cá, bem mais de uma centena de bons companheiros chegaram para perto do trabalho e do estudo, construindo mais amizades, revolvendo terra da história em busca do grande monumento que é hoje a Deus e Liberdade. Tenho sido muito feliz todos esses anos, mais de encontros que de desencontros, mais de conforto que de desconforto, sobretudo muito mais de pureza de sentimentos, na verdade o único material com que se pode construir a solidariedade e o amor. E ainda bem que a vida tenha esse lado bom, segundo sempre repetia o meu grande amigo e irmão José Gomes de Oliveira... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/5/2013 10:08:24
FACULDADE DE DIREITO, REENCONTRO DE SAUDADES

Wanderlino Arruda

Muitas saudades marcaram os meus cinco anos de Faculdade de Direito, saudades em que com todos os tipos de alegrias e sensações, me trazem de volta um delicioso tempo de juventude. Cinco anos, pequeno e longo período, com uma boa percentagem de tempo de vida. Cinco anos com as preocupações de acompanhamento de programas, estudos constantes nem que fossem em época de provas, estágios, concursos, seminários, um universo de atividades das quais ninguém conseguiu escapar, bastou ter passado no vestibular e feito matrícula. Período de amadurecimento de ideias, afirmação do que é certo e do que é errado, do que deve ou não deve, do que pode ou não pode ser feito por alguém com consciência de cidadania. Cinco anos de excelentes amizades, algumas rusgas, pintadas aqui e ali de desentendimentos, para depois tudo correr num oceano psicológico de boa navegação. Tempo de saudades, por que não? Afinal, tem que ser muito importante, principalmente com os colegas que são as feições mais constantes, passageiros da mesma condução, gente por todos os lados, uns tímidos, uns por demais aparecidos, alguns sempre abertos em sorrisos, faladores num humor de encantar, outros desconfiados, arredios como quem daria um reino por um momento de silêncio ou de esquecimento. Com os mestres, um intercâmbio menor, porque nenhum acompanhando a turma o tempo todo, os cinco anos, alguns apenas por dois semestres, outros parecendo fugazes cometas de passagem rápida, em substituição aos titulares em viagens. Como o professor é um entre muitos, da cara dele ninguém se esquece, o semblante fica gravado a existência inteira. Tempo bom de Faculdade de Direito, com jovens donzelas quase impúberes, moços no dealbar dos dezoito, jovens senhoras, balzaquianas, pais de família na fase dos trinta, cavalheiros que começam a vida (a vida começa aos quarenta!), cinquentões, e até um sexagenário, ora pois! Um corte bonito no perfil social, amostra importante para crítico nenhum botar defeito, nem antes nem depois. Quem desejar experimentar um cadinho de esforços humanos e sobre-humanos, chegue para perto de uma turma de universitários de Direito, meça o valor das partes e do conjunto, observe as reações, sinta os dramas, pergunte sobre os compromissos para com o futuro, penetre no mundo ideológico, intercepte entusiasmos. Quem estiver querendo encurtar distâncias para um conhecimento mais rápido, pergunte aos professores, que eles saberão dizer muito pelo muito acompanhar em cada aula. Alguns anos depois, volto à estimada Faculdade de Direito, de cuja fundação pude participar ativamente em 1964, e não me contenho de contentamento ao encontrar os mentores e amigos de quem eu tinha tantas saudades. Não mais nas salas de aula, não mais a separação hierárquica professor/aluno, mais ainda um respeito profundo a cada um, consideração que nunca poderá faltar, mestre eternamente mestre. Com que prazer, encontrei e reencontrei o nobre Georgino Jorge de Souza na cadeira de diretor, solene, respeitabilíssimo, oferecendo grandeza ao cargo, presença visível de sabedoria mercê de muitos estudos. Emoções ao cumprimentar, na secretaria, Raul e Cleonice; na sala dos professores, entre muitos, os mestres Adão Múcio, Sebastião Vieira, Danilo Borges, José Carlos, Clídio Moura, Noraldino, Alciliano, Castro, Álvaro, Rita, Paulo César, Geraldo Barbosa, para dizer apenas os que lecionaram na minha turma. Que grande falta as ausências dos doutores José Nunes Mourão e Simeão Ribeiro Pires! Valeu a pena passar por lá. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 30/4/2013 10:39:31
Fafil. Prioneira do Ensino Superior

Wanderlino Arruda

Creio que o grande laboratório de ideias a usina de sonhos tenha sido mesmo as salas de aulas da Universidade Federal de Minas Gerais, onde moças montes-clarenses terminavam diferentes cursos, tão distantes uns dos outros que iam da História à Pedagogia, das Letras à Matemática, da Geografia às Ciências Sociais. Diplomadas, portadoras de muito saber e incentivo de antigos professores da capital, Isabel Rebelo de Paula, as irmãs Baby e Mary Figueiredo, Sônia Quadros Lopes, Florinda Ramos Marques, Dalva Santiago de Paula, ansiosamente, se uniram a outros idealistas, e o resultado foi o nascimento da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras do Norte de Minas - Fafil - aqui em Montes Claros. Verdade é que não houve oposição ao seu trabalho e até não faltou crédito ou aquele sempre necessário voto de confiança. Todo mundo acreditou nelas, com o Colégio Imaculada Conceição cedendo espaço físico e moral, a Fundação Educacional Luiz de Paula fornecendo recursos e entusiasmo, profes sores como Jorge Ponciano Ribeiro, dando logo a sua quota de serviços. Foi uma beleza o começo, um sucesso o primeiro cursinho de Montes Claros. Lembro-me bem, da primeira aula de francês que tivemos com a professora Baby Figueiredo, com texto solto, impresso fora de livro, uma novidade! Lembro-me do Adélia Miranda elaborando, como secretária, os primeiros relatórios, apertando os primeiros alunos retardatários para não atrasarem no pagamento das mensalidades ou início das aulas. Era uma experiência interessantíssima com passagens de se emocionar! Era tanta sabedoria nova, um conhecimento tão organizado, uma perspectiva de aprendizagem tão grande, que problemas apareciam a toda hora, todos querendo aproveitar de tudo, sorver de vez todo um alimento que por não existir antes, estava sendo negado a quem muito o desejava. Acontecia então o troca-troca de salas, uma espécie de mineração de assuntos, um descobrir quem era o melhor professor, um abeberar de toda uma nova filosofia de vida. Não posso contar tudo sobre as aulas de nossos cursos, nos primeiros dias do semestre, porque os acontecimentos vinham aos borbotões, quase sufocando a curiosidade, até confundindo as cabeças. Era como se fosse um vasto ciclo de conferências de palestras, um eterno comício. Hamilton Lopes, calouro, ensaiava os primeiros passos da política estudantil, João Valle Maurício, José Nunes Mourão, Hélio Vale Moreira, Mauro Machado Borges, alunos mais vividos, mostravam uma compenetração pouco natural de estudantes. Yvonne Silveira, esta numa santa vaidade de literata, se desmanchava em sorrisos e sutilezas numa alegria quase infantil. Tudo foi uma longa festa intelectual, uma corrida de muita sede à fonte, todos considerando um grande privilégio, uma oportunidade a mais de vencer na vida, em campos profissionais já longamente seguidos. Pela primeira vez, vimos professorinhas ensinando para velho elenco de construtores do futuro! Olhado de longe, cinquenta depois, quase uma loucura, maravilhosa loucura! Que o diga Isabel Rebelo de Paula, a primeira diretora. Que o digam os primeiros graduados dos cursos de Letras, História, Geografia, Pedagogia e Matemática. Alguns já nem mais na romagem terrena... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 24/4/2013 23:02:27
MONTES CLAROS, SESSENTA ANOS ATRÁS

Wanderlino Arruda

Quando Celso Brant dedicou toda a revista ACAIACA de agosto de 53 a Montes Claros, comandavam esta cidade o Capitão Enéas Mineiro de Souza e o Coronel João Lopes Martins, duas patentes ainda bem vivas na lembrança de leitores mais velhos, cada uma delas com personalidade bem forte, à moda da época, revolucionários e conservadores, marcantes de paixão, um tanto próximos do caudilhismo com feição regional. A Câmara Municipal, dirigida pelo flegmático João F. Pimenta, tinha a respeitabilidade da década, uma saudosa coerência de bom comportamento. Dos quinze cidadãos com acento na casa, nenhum mais aqui para servir de testemunha. Também já não temos o juiz Ariosto Guarinello, o bispo Luiz Victor Sartori, o delegado José Coelho de Araújo, nem os colaboradores da revista padre Agostinho Beckhauser, Nelson Washington Vianna, Alfred Hannemann, José Monteiro Fonseca, Neném Barbosa, Pedro Sant`Ana, Irmã Rudolfa e os poetas Geraldo Freire e Dulce Sarmento. Ninguém mais para contar a história, pois todos na longa viagem da eternidade... Com sessenta anos passados, é bom que ainda reste a lembrança de amigos como o professor Belisário Gonçalves, figura e estilo tão próximos de Castro Alves, do repórter José Prates, nosso primeiro jornalista de rua e de redação, ainda no batente, escrevendo do Rio de Janeiro para o Montesclaros.com. Também já ausentes do plano físico, Felicidade Tupinambá, João Vale Maurício, Konstantin Christoff, Flora Pires Ramos, Cândido Canela, Irmã Maria de Lourdes, Orestes Barbosa e Lourdes Martins, Áflio Mendes de Aguiar, Afonso Pimenta e Feliciano Oliveira. Vivos, bem vivos, muito vivos, aproximando-se gloriosamente dos cem anos, Luiz de Paula Ferreira e Yvonne Silveira, companheiros da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Todos juntos, formaram um belo corpo editorial, de prosa e poesia e de desenho, agradáveis, bem feitos, até com um lindo toque de romantismo pelo muito amor a terra montes-clarense. Confesso que o mais gostoso na velha revista ACAIACA era o conjunto de anúncios, alguns até de página inteira, muitos com ilustrações interessantíssimas. Yvonne Silveira e Luiz de Paula que me digam se estou ou não falando a verdade, se é ou não salutar o direito de ter saudades. Quem - dos mais velhos - não se lembra, por exemplo, de nomes importantes como, Casa Alves, Imperial Casa Ramos, Big-Bar, Salão Rex, Joalheria Coelho, Assombro da Pirotécnica, Casa Elza, Loyola e Companhia, Turmalina, Instituto de Beleza Gilda, Casa Paulino, Alfaiataria Ribeiro, Macarrão Iracema, Bar de Tito Versiane? Quem não tem ainda gravados na memória nomes tão conhecidos como Hotel São Luiz, Hotel São José, Hotel Santa Cruz, João Souto Consignações, Casa para Todos, A Construtora, Ayres Alfaiate, Joalheria Cima, Transportadora Armênio Veloso, Farmácia Americana, Maternidade Santa Helena? São gratificantes pedaços de lembranças, coloridos no tempo e nos sonhos... Tudo na revista é interessante, mas o sensacional mesmo são as fotografias feitas pela mão de mestre de José Figueiredo Pinto, também inesquecível. Na página infantil, retratos dos garotos Jorge Enéas e Catarina. Nas páginas de esportes, flagrantes de momentos históricos dos atletas do Montes Claros Tênis Clube, Moema, Zembla, Glória, Eunice, Ilza, Marlene, Shirley, Wilma, Norma Maria, Stela, Zenaide, Clarissa, Consolação. No bloco da educação, fotos de alunas e professoras, do Colégio Imaculada. Como fechamento de ilustração, bonitos exemplares das raças gir e indubrasil das fazendas de Dominguinhos Braga, Osmane e Neném Barbosa, João Alencar, Antônio Augusto e Geraldo Athayde. Naquele tempo, havia os Bancos do Brasil, Hipotecário e Agrícola, Minas Gerais, do Comércio, Crédito Real. Não havia Banco do Nordeste. O Banco do Estado de Minas Gerais ainda era chamado de Banco Mineiro de Produção. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros
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Por Wanderlino Arruda - 16/4/2013 15:34:40
A arte de comunicar

Wanderlino Arruda

Comunicar é uma arte? Comunicar é uma técnica? Uma e outra ao mesmo tempo, não tenha dúvida, minha senhora. É verdade que há muita gente por aí - e quanta! - que jamais tenha pensado que uma simples palavra, uma pequena frase, um gesto, qualquer atitude seja comunicação. Sempre que uma pessoa transmite a outra uma intenção, ela está se comunicando, isto é, tornando comum um código, trocando ou tentando trocar uma informação. O que é difícil é comunicar-se com perfeição, sem perda, sem ruído, enviando dificuldade de interpretação, ambiguidades. Comunicar bem é realmente uma arte, um alto padrão técnico. E só pode fazer isso bem quem realmente se preparar com afinco, com decisão, através de muito estudo, de muita leitura. É claro que você está assistindo hoje á máxima valorização do fenômeno da comunicação praticamente em todos os minutos de sua vida: na rua, em casa, no clube, na escola, através dos jornais, da tevê, do cinema, dos livros, nas revistas, de ruas e es tradas. Aí estão também a linguística, a teoria da informação, a semântica, a semiótica, a cibernética e literatura. Tudo isso gira em torno do mundo compacto de informações, algumas soltas, muitas com alvos previamente escolhidos, a maioria de cima para baixo, como se estivéssemos preparados para suportar todo o peso do mundo e da vida, com todas as suas facetas ideológicas e interesseiras. O que é preciso, minha senhora, é evitar a perda da informação necessária, selecionando o que realmente nos diz respeito. É preciso evitar a saturação, a fadiga provocada pelo inútil, pelo lugar comum. É bom que tenhamos objetividade, suprimindo gastos ocultos de cansaço mental. Quantas reprises de inutilidades a televisão está a nos impingir, a nós e a nossa criança, com programinhas sem sal, sem doce e inodoros. Quanta notícia é veiculada pelos meios da leitura nos folhetos de propaganda, nas faixas e cartazes, comunicação que só causam o impacto da violência constrangedora! É preciso selecionar! Se o seu tempo é curto, é bom que se prepare, aproveitá-lo mais, com mais eficiência. Você aceitaria umas regras da arte da boa leitura? Se aceita, sua vida será mais feliz e você vai aprender muito mais. Em lugar, escolha coisas interessantes, objetivas, que realmente aumentem sua cultura útil. Prepare-se anteriormente para o tipo de leitura que vai fazer. Leia frases e não palavras. Preste atenção às palavras e não às letras. Concentra-se no que está fazendo. Evite distrações. Procure ler com a maior velocidade possível, porque isso aumentará a sua compreensão. Varie a velocidade de acordo com o tipo de leitura. Compre um bom dicionário e não deixe que ele se empoeire na estante. Tenha-o sempre à mão. Use-o toda vez que o significado de uma palavra não lhe pareça claro. Ao ler, não movimente os lábios nem mexa com a cabeça. Apenas seus olhos devem movimentar-se. E bom proveito, porque como dizia o colunista Ibrahim Sued, cavalo não desce escada! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 9/4/2013 16:05:26
Atualidades estudantis

Wanderlino Arruda

Adauto Freire me trouxe, depois de mostrar a vários colegas de banco e fazer a maior propaganda do seu passado histórico, um folheto amarelecido de publicidade do nosso antigo programa de rádio "Atualidades Estudantis". O papel fininho, dobrado, emurchecido como uma flor seca em folhas de livro, era uma velha obra de arte da mui antiga Gráfica Orion, tenho impressão, composta pelo próprio Laerte David, onde todos nós jovens estudantes fazíamos ponto, diariamente, para discutir história, religião, política e muitos outros assuntos de alta relevância para a cidade e para o mundo. Quão grata lembrança foi pegar numa relíquia, àquela época, de vinte e sete anos! Quão agradável lembrar de feitos de jovens descomprometidos com tanta coisa que a vida nos havia imposto até aqueles dias! Só não agradeci mais ao Adauto, porque não queria que ele não me julgasse um irremediável sentimental. "Atualidades Estudantis" era um programa de rádio produzido e dirigido pelo Diretório dos Estudantes, que tinha sede lá na Praça Coronel Ribeiro, contra esquina com o Hotel São José, no sobradinho onde hoje fica o escritório de Ivani Pereira. A Rádio Sociedade ficava na Rua Presidente Vargas, numa sala do terceiro andar do prédio da Gazeta do Norte, ao lado da Imperial, em frente à Luso-Brasileira dos irmãos Antônio e Artur Loureiro Ramos. Íamos para a D-7 todos os domingos, mais ou menos depois do meio-dia e, só lá, aproveitando papel e máquina, é que começávamos a produção de notícias, de comentários, e Adauto inventava as piadas e Cerdônio Quadros poetava as poesias para Marilene Magalhães declamar. Até hoje não sei como era possível, mas apesar de toda improvisação, o programa nunca atrasou. Às vezes, em meia-hora, escrevíamos tudo o necessário para falar os trinta minutos ao microfone. O volante de propaganda mostrado em hora de expediente era claríssimo sobre nossas atividades, um espelho excelente da velha realidade de um grupo de jovens que sonhava com humildade mas com uma garra impressionante de confiança no futuro. "Uma das mais brilhantes iniciativas do Diretório de Estudantes de Montes Claros, "Atualidades Estudantis" era um programa completo: comentários, notícias, crônicas, poesias, curiosidades, humorismo e "consultório sentimental". Estas últimas palavras vinham sublinhadas porque era o bloco mais importante do horário. "Atualidades Estudantis" conta com a colaboração dos seguintes estudantes: Adauto Freire, Marilene Magalhães, Almir Maia e Silva, Luiz Gonzaga de Oliveira, Lúcia F. Veloso, Lauro de Vasconcelos, Iobe Botelho e muitos outros. Direção e narração de Wanderlino Arruda, sonoplastia de Carlos Souto Peres". A direção e narração também vinham sublinhadas, porque eram do presidente do Diretório e, tudo indica, precisava de destaq ue. Não falava em Cerdônio Quadros, não sei por que, mas tenho certeza de que ele participava em muitas apresentações, com ótima voz e muita personalidade. O interessante era que, nos primeiros tempos, o consultório sentimental não poderia funcionar sem as consultas que deveriam ser feitas pelos ouvintes, jovens e adultos. Anunciávamos muitas e muitas vezes, e como no terceiro domingo não chegavam cartas, o jeito foi o Adauto fazer o papel de apaixonadas consulentes, saudosas viúvas, abandonadas esposas expondo em mal traçadas linhas, séries e séries de desditas e problemas pessoais. A resposta a cada drama era eu quem professoralmente apresentava num papel de respeitável conselheiro, procurando oferecer maior impacto e convencer todos os ouvintes de que o perdão, a felicidade e amor sempre foram possíveis e sempre estiveram ao alcance de todos. Algum tempo depois, passaram a chegar dezenas de correspondências ao estúdio, e o consultório tornou-se um verdadeiro sucesso... graças à nossa persistência e aos problemas que o Adauto sabia muito bem inventar... Já não sei mais quanto tempo durou o "Atualidades Estudantis", mas não posso ter dúvida do bom efeito didático que causou na vida de cada um de nós. Aprender, todos aprenderam, mesmo os que eram exageradamente novos para o ano de 1955. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 26/3/2013 14:20:57
A maior todas as certezas

Wanderlino Arruda

Do ponto de vista material, é a morte a maior de todas as certezas. Talvez o único ponto de afirmação que ninguém tem direito de duvidar, pois, afinal, todos nós, cedo ou tarde, morreremos um dia. Quando, onde, como, por isso ou por aquilo só o futuro dirá. A escolha muito indireta ficará por conta de cada um, conforme a vida que leva, os vícios que carrega, os perigos que enfrenta, a idade, os hábitos, a hereditariedade, as doenças contraídas, etc., etc. O natural é que em determinada hora a nossa vida terá um fim, uma passagem para outro estado, uma transformação, uma mudança de material para espiritual. A lenda do judeu errante, aquele que vivia, vivia, andava, andava, e não morria nunca, não passa de lenda, simples estória. Até a personagem bíblica que mais viveu - Matusalém - teve o seu final; deixando o corpo físico ao pó da terra, num tempo que parece ainda não havia cremação. Ainda não existiu na planeta alguém isento do fenômeno de desencarne. Um dia o espírito se libertará; voltando ao Mundo Maior, de onde veio, e de onde de novo sairá para novas experiências; assim, é a lei. O caminho é a evolução; um eterno buscar de luz; um aperfeiçoar-se continuamente em direção ao Mais Alto. A semelhança da criatura humana com Deus está nessa força; nessa iluminação interior. De nada adianta termos medo da morte, já que ela é inevitável e iguala todas as pessoas, nivelando ricos e pobres, humildes e orgulhosos, jamais escolhendo ou discriminando. Podemos até dizer que a morte é social. Por outro lado, também os que não têm medo, os que a enfrentam com denodo ou desprezo, estes até morrem mais depressa, pois acabam buscando-a, quando menos esperam. Assim, uns morrem envoltos em tristezas, outros no centro de sensações de aventura, muitas vezes embriagados pelo brilho do mundo, pelos aplausos das arquibancadas da vida. Para os que vivem os postulados espíritas, a morte é apenas uma passagem, um novo percurso, uma mudança de dimensão. O centro da vida é o espírito, centelha de luz criada pelo Pai, eterna, definitiva, em ascensão constante pelo canal das sucessivas existências ou experiências. Sou espírito e o meu corpo físico nada mais é do que uma vestimenta passageira, que cederá lugar a outra da mesma espécie, diferente apenas no necessário para cumprimento da jornada reencarnatória. Daí a religião ser o constante reencontro, o religar criatura ao Criador; sempre juntos na eterna jornada.


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Por Wanderlino Arruda - 12/3/2013 16:36:25
Português de cá e de lá

Wanderlino Arruda

Mais para o lado do curioso que do científico, é sempre interessante verificar as diferenças existentes na língua portuguesa nos espaços ocupados por Brasil e Portugal, duas culturas numa só cultura e uma só origem: a lusitana. Juntos na época colonial e quase sempre juntos depois da independência, as duas literaturas, os noticiários de jornais, e mesmo as migrações conjuntas jamais conseguiram impor uma escolha linguística de modo a tornar comum muitas palavras e seus significados. Uma só usada lá, outras só pronunciadas aqui, algumas lá e cá, mas nem sempre com os mesmos sentidos. E, partindo para os dialetos, principalmente os portugueses (beirão, algarvio, interaminenho, transmontano, lisboeta) é aí, que a coisa pega, muito difícil pra nós brasileiros. Veja alguns exemplos colhidos em Portugal, nos hotéis, no comércio, nos cafés e restaurantes, no dia-a-dia das ruas e lindas praças de Lisboa, Porto e Coimbra. Também em Almada, em Santarém, na Serra da Estrela ou em Mangualde, terra de quase todos os nossos portugueses de Montes Claros. Não vá pensar que é brincadeira. É tudo verdade, pois fala é coisa séria, mesmo que seja divertida. Por exemplo: Pomar, em Portugal, é loja onde se vende frutas; puto é criança abandonada, rebuçado é bala doce; revisor, chefe-de-trem; sobrescrito, envelope; talho, açougue; traseira, fundo de casa; travão, freio de carro; miúdo é criança; folhetim é novela; recheio, móveis domésticos; anginas, dor de garganta; vendedor de carne, dono de açougue, é carniceiro. Mais ainda: alcatifa é carpete; soco é tamanco; sinaleiro, guarda de trânsito; tasca, botequim. De cá para lá, trânsito é viação; maquiadora é visagista; vitrine e montra; fogo é lume; bolsa é mala; mocotó é mão-de-vaca. Quando tomamos um táxi em Portugal o motorista, na hora de cobrar a conta, olha no relógio, que é o nome do taxímetro. Numa sorveteria ou geladeria, compramos gelado (picolé) e neve (sorvete). Num talho (açougue), pede-se lombo, que é o nome de filé. Num bar, pedimos gasosa (refrigerante), água de quinino (tônica), bagaceira (cachaça). Numa charutaria compra-se havano (charuto), iluminador (isqueiro). Num jogo de futebol (ludopédio, não, ludopédio é palavra brasileira!), podemos ver e admirar o relvado (grama), o esférico (bola), o guarda redes (goleiro); os avançados (atacantes), os castigos (pênaltis), as camisolas (camisas de malha). Ganhará a equipe que fizer mais golos. Num hotel, o pernoite é dormida e o banheiro é lavabo. Na escola, o professor escreve na ardósia. Na rua ou em casa, jovem séria é rapariga (feminino de rapaz) e pejorativa é o nome moça (que quer dizer desvirginada). Em alguns lugares, rapaz é chamado de senhorito, e se for pobre, é galego. Há muitas palavras comuns usadas em Portugal e no Brasil, dependendo da região: reclamo/propaganda, sumo/suco, vivenda/casa, pimenta preta/pimenta do reino, comboio/trem-de-ferro, condiscípulo/colega de escola. Constipação é resfriado, frigorífico é geladeira, arca congeladora é frízer. Mas já imaginou isopor chamar esferobite? Marcha à ré, marcha-a-trás? Lá o gordo e o magro são chamados de o bucha e o estica e os três patetas, de os três estarolas. Pai natal é papai Noel. O mais gozado, porém, é o nome recém-casados: casados de fresco. Eis uma pequena estória: "Um ciclomotorista (motoqueiro) vai à esquadra (delegacia) pede uma chapa de matrícula (placa) para a sua motorizada (moto) e depois, voa pelo alcatrão (corre em velocidade pelo asfalto). Ora pois, pois! Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 5/3/2013 14:46:26
Todos os Santos, uma história

Wanderlino Arruda

E claro que no Bairro Todos os Santos, como o título indica, só deve haver ruas com nomes santificados, longe da humana intimidade, nunca sem a necessária reverência. Quem isso inventou foi um homem inteligente, culto e estudioso que, por força de linha familiar, já tem garantida em placas da rua mais central uma definitiva lembrança. Quem criou o Todos os Santos foi Simeão Ribeiro Pires, autor do projeto sonhador que caprichou, noites, tardes e manhãs, no melhor da hagiografia, parte pelo prestígio dos santos, parte por uma definida preferência pessoal. Simeão, como Lúcio Costa, autor de Brasília, deve ter dividido o futuro bairro com uma cruz, criando inicialmente um ponto de apoio, uma espécie de eixos definidores: Rua Santa Maria e Rua S. José, bem ao lado do Orfanato, o centro nevrálgico, onde ele mesmo fez pulsar a primeira força de construção. As ruas que ficam na posição de acompanhamento do antigo rio Vieira, assim solidárias com o próprio rumo da cidade, só teriam lugar para os santos machões, fortes componentes da hierarquia celeste. As outras, em perpendicular, isto é, as que vão da cidade para os rumos da atual Unimontes, estas seriam todas eternamente femininas, com suaves intitulações de angélicas figuras de mulheres: só santas teriam lugar. Assim, a partir da Avenida Esteves Rodrigues, as ruas São Roberto, São Sebastião (fui o primeiro a nela morar), Santo André, São Carlos, São José, São Pedro, São Paulo, São João e Santo Antônio. São Mateus, São Marcos, de certo modo preferidos, ficaram mais para o fim, perto da São Geraldo. O bíblico São Lucas, coitado, não ganhou nada. Em outro rumo, do lado esquerdo da Santa Maria, Santa Lúcia, Santa Bernadete, Santa Terezinha. Do lado direito, a Santa Luzia e uma que ficou esquecida (acho que o terreno não era da família) e mais a Santa Cruz (esta não mulher, mas feminina) onde orgulhosamente (no bom sentido) vivem há muito tempo D. Maria do Carmo. Haroldo Lívio e as filhas. Quando Paulo Avelar ia construir sua casa, depois da Santa Luzia, desbravando novo território, na hora de registrar os papéis na Prefeitura, foi um deus nos acuda, uma vez que, de oficial, só tinha o registro da antiga fazenda Bois. Chamar um amigo vereador e pedir um projeto lei seria motivos de grandes demoras e ainda sujeito à sanção do Prefeito, o qual, numa primeira vez, poderia negar a assinatura. Sem nome não poderia começar os alicerces e muito menos as paredes. Era urgentemente necessária uma providência de grande autoridade. E o que fazer? Chamar o Simeão Ribeiro Pires para outra vez se debruçar no Calendário dos Ritos? Nada disso, a solução seria outra. Homem prático, decidido, conhecedor profundo da natureza tanto humana como da divina, Paulo tomou uma alta decisão, imediatamente deliberou. Encomendou, no mais bonito que pôde, bem esmaltada e com letras de um intenso azul, a mais nova placa do bairro Todos os Santos. O nome seguia na carta de pedido para a fábrica e, com toda clareza feito a nanquim, no projeto de construção agora entregue à Prefeitura. Era uma denominação sonora, trissílaba, paroxítona, devidamente antecipada pelo título de santa, como exigia o figurino. Uma justa homenagem a quem de muito merecimento, detentora de sua mais elevada admiração: a mãe de seus filhos, sua esposa e companheira de lutas, D. Coqui. E por isso que a sua rua é chamada de Rua Santa Clotilde. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 16/1/2013 11:07:13
Meu caro José Prates

Wanderlino Arruda

Espero você e sua esposa amanhã, dia 17. Acredito que chegarão num dos voos Rio-Belo Horizonte-Montes Claros. A que horas, querido amigo? Se me disser, estarei no Aeroporto para esperá-los. Partindo de lá tudo está mais do que mudado: uma ampla e linda Avenida Magalhães Pinto nos levará à Praça Lindolfo Laugton, que poucos montes-clarenses saberão onde fica, embora possam ter alguma ideia, porque Lindolfo, juntamente com Osmane Barbosa e Nozinho Figueiredo, foi um dos construtores do Parque de Exposição João Alencar Athayde. A partir do parque, passaremos por uma avenida de mais de meio século - a Geraldo Athayde - que nos colocará na Praça Joaquim Costa Jr., também desconhecida para quem não tem curiosidade de saber os nomes das vias e logradouros públicos. Contornando a Joaquim Costa Júnior, lindamente construída pelo prefeito Jairo Ataíde, não chegaremos mais ao Prado Oswaldo Cruz, que era o único nome em torno da Praça de Esportes. Agora são quatro nomes, incluindo o do grande Padre Chico. Já no centro da cidade, vocês terão saudades do trânsito do Rio de Janeiro, acredito bem mais pacífico do que o nosso. Até o local onde ficarão hospedados, prometo que gastaremos pelo menos uma boa hora para dar uma visão das mudanças e - mais do que tudo - da boa gente que anda pelas ruas e avenidas. O final da cidade, José Prates, não é mais a Santa Casa, a ponte pinguela no Rio Vieira, o Orfanato, a Vila Brasília, o final da Rua Bocaiúva, o Santo Expedito, no seu tempo ainda chamado de Alto Severo. Não há mais o nome de Rua Lafaiete - agora Joaquim Costa. A Praça da Catedral não tem mais aquelas casas velhas que diminuíam o jardim, agora bem ampla, asfaltada e quase sem árvores. A Rua Doutor Santos, companheiro, não é nem longe mais aquela do nosso tempo d` O Jornal de Montes Claros: está mais larga pelo lado esquerdo de quem sobe, tudo, tudo mesmo muito mudado pelo menos até onde ficava a casa de Mestra Fininha, onde Mário e Darcy Ribeiro nasceram. Estou escrevendo o verbo ficar no imperfeito, porque a esquina é hoje uma garagem como muitas outras casas e muitos e muitos prédios fo ram transformados. Esse negócio de garagens tem sido uma forma de resolver o problema de estacionamento e de proprietários ganharem um mundão de dinheiro. Aquela capitalzinha norte-mineira de pouco mais de cinquenta mil habitantes, hoje, José Prates, já se aproxima dos quatrocentos mil, tendo até gente exagerada que fala em meio milhão, aí incluindo - é claro - o bom povo do Polígono das Secas, que vem estudar, consultar médicos, fazer implantes dentários, passear e deixar dinheiro nos shopings e supermercados. Hoje, Montes Claros é acima de tudo uma cidade universitária, com quase duzentos cursos em todas as áreas do ensino superior, incluindo mestrados e doutorados. Três geradoras de televisão, mais de meia dúzia de rádios, uma revista mensal e três jornais de grande circulação. Se você me permite falar de redes sociais, aí querido amigo, as trocas de mensagens e informações devem chegar a centenas e centenas de milhares. Sem exagero! Lavarei vocês - se quiserem até mesmo antes de descansar da viagem - a todo universo montes-clarense, do Independência até à Morada da Serra, do Jaraguá até o Santa Rita, do Ibituruna, Melo, Jardim São Luiz até o Parque da Sapucaia, do Todos os Santos, Panorama, Barcelona Parque, Vila Atlântida até a Vila Oliveira, aí alto de serra com linda vista para a cidade. Verão a realidade do Distrito Industrial, dos condomínios de pouco mais de um salário mínimo até os de moradores abonados das casas de milhões. Mostrarei o Delfino Magalhães, O Alice Maia, a Morada do Sol, a Morada do Parque, o São José, o Santos Reis, o Canelas, o Cintra, a Roxo Verde, Todos os Santos, o JK, a Cidade Nova, o Edgar Pereira, o Funcionários, o Cândida Câmara, o Maracanã, o Renascença, o Augusta Mota, o São Judas Tadeu, o São Francisco, a Vila Regina, o Monte Carmelo, o Santa Clara, o São Norberto, a Esplanada, a Vargem Grande, tudo tudo até o Santo Inácio, que fica do lado de cá do anel rodoviário . Se houver tempo, chegaremos a mais de outros cem bairros e a dezenas de vilas. Tudo vai valer a pena! Em tempo, quero dizer que João Leopoldo, Divina e a maioria dos filhos moram em Goiânia, não mais existindo a casa da Avenida Francisco Sá com a Rua Dom João Pimenta, tendo em lugar dela um prédio de três andares. Do Bar de Zé Prequitinho só existe o imóvel. Há muitos anos já não mais existem a Farmácia Americana, as Casas Pernambucanas, a Casa Ramos, o Clube dos Bancários e o Clube Montes Claros, o Café do Zinho, a sapataria de Rui Pinto, o Senadinho de José Lafetá, o barzinho de Vadiolano Moreira, os hotéis São José, Santa Cruz e São Luiz, as pensões de Dona Duca e Dona Ismênia. Nem o hospício Santa Clara e o hospital Santa Terezinha... As novidades é que são muitas!


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Por Wanderlino Arruda - 16/10/2012 11:31:09
Montes Claros em tempo futuro

Wanderlino Arruda

Futuro é o intervalo de tempo que se inicia logo depois do presente e nunca vai ter um fim definido. É um momento que pertence ou pode pertencer a algo que ainda irá acontecer. Há o futuro da mecânica clássica, que é o algo que está por vir e há o futuro da mecânica quântica, em que não existe a figura de futuro, porque nela toda atuação é de forma atemporal, uma tradução aproximada de tempo que é e não é: tempo não tempo. Palavras filosóficas do Wikipédia. ´ Como o meu tema é a cidade de Montes Claros no futuro, tenho que ter tempo dentro do tempo, tempo medido, tempo sonhado, tempo desejado: alguma coisa que ainda não é e que tem tudo para ser. Algo assim como Montes Claros neste quase fim de ano, fim de administração do prefeito Luiz Tadeu Leite, alguma coisa como Montes Claros no final do próximo mandato, ou seja a cidade de dezembro de 2016, quando tudo indica já terá 500.000 habitantes ou mais, com um mínimo de 170.000 ocupando banco de escolas, do jardim de infância à universidade. Pode-se pensar na Montes Claros de 2030, quem sabe ultrapassando a casa do milhão, maior que algumas capitais do Norte e do Nordeste em tempo de agora. E em 2050, 2060? Conheci a cidade nos idos de 1951, quando só havia duas ruas com calçamento de paralelepípedos, do Shopping Popular à Rua Doutor Veloso, e Rua Simeão Ribeiro só até à Cristal. Era um pequeno pedaço de conforto rodeado por todo um universo de poeira vermelha e valetas de enxurradas, além dos buracos pós-chuvas tão naturais que até em asfalto existem. Para quem viu a cidade apenas com duas escolas secundárias, o Colégio Imaculada e o Instituto Norte Mineiro de Educação, poucos grupos de primário e nada de jardins, e hoje vê centenas de escolas e mais de cem cursos universitários, muito pode ser imaginado e dito, com segurança, de que ninguém segura esta Montes Claros. Digo isso, porque sei que tudo, queira ou não queira, passa pelos anos de estudo, pela juventude que aprende para enfrentar os vestibulares e o porvir. A cidade tem crescido tanto com o aumento do número de estudantes, que o trânsito já passa os limites do caótico nas horas de pico nos horários de início e de fim de aulas. Por falar em trânsito, já estamos na casa dos 170.000 veículos, entre estes quase 80.000 motos, fora as milhares de bicicletas. O que salva são as avenidas velhas e novas, as ruas um pouquinho mais largas dos bairros, e, mercê de Deus, as partes do anel rodoviário já prontas e pavimentadas. Quem quiser medir nunca imaginado aumento de carros, basta percorrer as ruas do centro de contar o número de garagens, tantas e tantas que muitas e muitas já estão em constante promoção, três reais no geral, sem direito a pechincha. Ressalte-se uma questão importante: nossa frota de veículos é muito, mas muito mais nova e mais atualizada que a de Buenos Aires, de Montevideo, de Assunção, e forçando um pouquinho até mesmo a de Santiago do Chile. Ponto pra nós. O setor de indústrias que já foi grande e ficou menor, já começa mostrar fôlego, melhorar até o número de empregos. Para uma que fecha, outra que chega, algumas até com inauguração política como a do biodiesel. Setor de comércio com grandes empresas de atacado e varejo, lojas de departamentos, shoppings crescendo muito, shopping se afirmando, tudo motivo de louvor. A cada pedaço de tempo, mais agências de publicidade, mais qualidade na imprensa escrita, mais canais de televisão, rádios AM, FM, rádios comunitárias, rádios piratas, que ninguém é de ferro. Se temos menos policiais a pé nas ruas, temos grande contingente em carros, motos e bicicletas. Temos tudo para saudar os modernos controles de segurança, com as modernas câmeras em toda a área central, capazes de detectar até o movimento de um relógio. Um encanto de crescimento. Em verdade, podemos fazer positivos augúrios para o futuro desta nossa Princesa do Norte, a cidade dos Montes Claros. Tudo por aqui é trabalho, é esforço, é entusiasmo, quando até nos cemitérios há muita gente trabalhando desde as primeiras horas da manhã. E onde há trabalho sério, há progresso, há desenvolvimento, há riqueza. Merecido louvor para as entidades de classes, para as instituições de cultura, para as escolas de artes. Tanto é a movimentação nas ruas, que nem posso imaginar a caminhação feroz que vai acontecer nos dias que antecederem as semanas do Natal daqui a uns vinte anos. Melhor seria um trânsito virtual, se possível aéreo. Bem haja, como dizem os portugueses. Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/10/2012 14:57:12
O cajueiro da pensão de D. Duca

Wanderlino Arruda

De quando eu vi mais cajueiros, na minha vida, foi viajando com Olímpia, entre Fortaleza e a cidade de Apodi, no Rio Grande do Norte. Não somente dez, vinte ou cem, mas uma floresta, uma mata, um reflorestamento de cajueiros, uma dessas ajudas que o homem presta à Natureza, aumentando a beleza e a utilidade, no espaço e no tempo. Três pintores, mestres e amigos, Konstantin Christoff, Godofredo Guedes e Samuel Figueira muito me ensinaram a respeito de tonalidades do verde, principalmente o Godofredo que era um apaixonado pelas paisagens e pelo exato matiz de troncos e de folhas. Mas, nenhum deles poderia imaginar quanta luz, quanta transparência poderia existir naquela mataria de cajueiros do Nordeste, desde o verde róseo-amarelado ao verde quase negro, tinto e retinto, e ao de tom ferrugem com tendência ao branco de prata, tudo numa miscelânea de lindo e gostoso colorido, tudo sedutoramente gratificante, só encontrável em faixas de litorais. Fruto de leituras, beneficiário ou vítima da divulgação moderna, cada vez mais repetitiva, a minha paixão chega a provocar saudade de seres que não conheço, entre eles três cajueiros, dois da Literatura, o primeiro de Humberto de Campos, em Parnaíba, e os outros, de Rubem Braga e de Roberto Carlos, ambos em Itapemirim, no Espírito Santo. Lembro-me de um dia, num jantar do Rotary de Teresina, quando cheguei a combinar com o prefeito de Parnaíba uma viagem, para conhecer o velho companheiro e filho vegetal de Humberto, e acabei não tendo a sorte de poder cumprir minha promessa, em virtude de imediata viagem de volta a Fortaleza. Tenho desse cajueiro, entretanto, um presente material, auxiliado por minhas próprias mãos de plantador: eis que o meu amigo Francisco Narciso, Chiquinho de Almeida Castro, me trouxera, de uma das suas viagens, algumas castanhas, que plantadas, já formaram duas árvores do meu quintal, cada uma mais linda do que a outra. Mas não é dos cajueiros de longe que eu quero falar, quero deitar as minhas lembranças, quero sonhar os meus sonhos um pouco mais no que foi real. A minha saudade de hoje é do cajueiro da pensão de D. Duca, aqui mesmo em Montes Claros, na Rua Dr. Santos, do mesmo casarão onde funcionou o Prontocor e hoje é um prédio bonito, com aquele comprido corredor de pensão de estudantes, quartos de um de outro lado, salas e cozinha no fundo, antes de pátio. Ali existia o mais amigo de todos os cajueiros da minha mocidade, esguio, durão, solícito, de tronco flexível, com galhos tão bem proporcionados na distribuição, que mais parecia uma escada ao prazer, momentos de férias de cada manhã e de cada tarde, depois do trabalho. Eu o chamava planta da benevolência, porque, em nenhuma parte do ano, faltava-me com os seus frutos. Não me lembro de ter tido qualquer decepção com ele, assim como um amigo de todas as horas. Outros companheiros de pensão, estudantes, como o Enock Sacramento, o José Jorge, o Passarinho, o Deoclides, também aproveitavam de vez em quando, se eu dava alguma folga. Até os sisudos Wilson Bessa, Luiz Gonzaga e Pedroso chegaram a tirar proveito, disso tenho certeza. Uma só coisa me intriga: depois de tanto tempo, e me pergunto se D. Duca ou o "seu" João Guimarães - principalmente ele, pois bem sisudo - não se importavam com aquele exagerado xodó que tínhamos pelo seu cajueiro, coisa até de desconfiar...


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Por Wanderlino Arruda - 3/10/2012 08:21:32
Deus e liberdade, uma loja octogenária

Wanderlino Arruda

E o semeador saiu a semear a sua semente. Na beira do caminho, na pedra rochosa, entre os espinhos, em terra fértil. Das quatro situações, das quatro possibilidades, das quatro escolhas, o livro do escritor Itamaury Teles de Oliveira firma-se, afirma e reafirma no quarto e melhor ponto de sintonia. Sua decisão de escrever a história da Loja Maçônica Deus e Liberdade, de Montes Claros, foi desde o início caminho de sucesso, motivo de esperanças: dele mesmo e de todos os irmãos: dos mais antigos - conhecedores da história e das estórias - e dos mais novos - agentes da mais sadia curiosidade. DEUS E LIBERDADE, UMA LOJA OCTOGENÁRIA é e será um dos maiores feitos de nossa Venerável Oficina, neste quase século de uma atuação das mais ricas em Maçonaria filosófica e operativa. Grande Irmão Itamaury! Fundada a Deus e Liberdade em 18 de setembro de 1932, por importantes e destacados líderes da cidadania montes-clarense e norte-mineira, entre eles Marçal Ferreira Coelho, da União Sertaneja; Dr. José Esteves Rodrigues, da Caridade e Firmeza; Luiz José de Magalhães, da Templários de Cananéia; Sebastião Sobreira de Carvalho, da Capitular Progresso; Eduardo Augusto Lico, da União e Trabalho; Gentil Sarmento, da Fraternidade Italiana; Antônio Narciso Pereira, da Fraternidade e Luz; Epaminondas Freire de Lemos, da Filadélfia; Alfredo Ramos de Abreu, da Deus, Humanidade e Luz; José Ribeiro de Castro e Athos Braga, da Roma II, a iniciativa teve um horizonte luminoso, sucesso nos sonhos, sucesso no planejamento, sucesso na organização. Bem recebida, muito bem aceita pelos agentes de bons princípios e bons costumes, logo de início ergueu templos à virtude e ao progresso, e abriu caminhos para os estudos e para o trabalho social. Época de entusiasmo, de cultura e de mudanças em Montes Claros - pouco tempo depois da inauguração dos trilhos da Estrada de Ferro Central do Brasil, da fundação do terceiro Rotary Clube brasileiro (1926) e do famoso episódio revolucionário de Dona Tiburtina Alves em recepção ao Vice-presidente Melo Viana (1930) - tudo era efervescência nos compromissos sociais, culturais e econômicos. Como continua sendo até hoje a principal cidade do Norte de Minas, Montes Claros sempre se sentiu vocacionada para o sucesso e para a eterna caminhada em direção ao futuro. Novas escolas, novas instituições, modernos meios de comunicação, comércio ativo, setores de serviços e agropecuária já marcavam posição de respeito. Tudo favorável para a implantação da Deus e Liberdade, principalmente por contar com a experiência maçônica de José Ribeiro de Castro, da Loja Roma II, de Belo Horizonte, e do prestígio cultural e político dos nobres José Esteves Rodrigues e Athos Braga. Tinha realmente que dar certo. Somente vitórias existiram na vivência filosófica e no trabalho social da Loja Maçônica Deus e Liberdade. Década após década, a cidadania da melhor cepa foi riscada e costurada com o melhor tecido e melhor linha de conduta. Por sorte do destino - em três quartos destes oitenta anos - tenho sido participante e testemunha de tudo ou quase tudo nos acontecimentos e decisões. Iniciado aprendiz em primeiro de junho de 1963, logo logo fui companheiro em dois de agosto e mestre em vinte de setembro. As elevações foram rápidas: Cavaleiro Rosa Cruz em 1969, Conselho de Kadosh em 1974, Supremo Conselho em 1976. Parte do tempo meu e de cada um, tempo total da soma de irmãos, realizamos oitenta gloriosos anos da cidade e de seu povo. Cada lance histórico foi marcante e teve a garantia de nossa sublime Ordem, porque ela sabe a que veio e o porquê de sua existência. Quadro social da maior importância, diretorias de visível prestígio, tudo em nossa Loja teve e tem valor histórico. Por iss o e por muito mais, merece o registro deste livro, pesquisado e escrito pelo inteligente Irmão Itamaury Teles de Oliveira, membro ativo da Academia Montesclarense de Letras e presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Sempre se concluiu que o amor à liberdade de pensar e de agir foi-nos dado juntamente com a vida, como um presente do Pai Celeste, o Grande Arquiteto do Universo - DEUS. Por isso, entes de visível e reconhecido livre arbítrio, só temos a agradecer a presença universal de uma instituição do quilate da Maçonaria, bastião de valores eternos e incomensuráveis. Tanto é assim, que entre os quase seis milhões de irmãos espalhados pelos cinco continentes, cerca de oitenta por cento vivem em países de língua inglesa, sem qualquer dúvida, centros de invejável vocação democrática e livre pensamento. Os registros da história sempre disseram que em nenhuma parte do mundo, jamais houve um grito de liberdade que não tivesse origem na Maçonaria ou que não contasse com o seu apoio. Assim, entre os cento e sessenta mil maçons brasileiros, também nós, os maçons de Montes Claros, muito temos que louvar pela liberdade, igualdade e fraternidade, no passado e no presente. Na mesma medida do semead or da Parábola do Divino Mestre Jesus, acredito sermos sementes plantadas em solo da mais alta fertilidade, solo da região norte deste sacratíssimo Estado das Minas Gerais.


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Por Wanderlino Arruda - 26/9/2012 15:56:37
A força da leitura

Wanderlino Arruda

A força do hábito que se transforma em rito; o dever; passatempo ou prazer; melhor conhecimento e compreensão da atualidade; satisfação ou interesse pessoal imediato; atendimento às necessidades práticas da vida; satisfação de uma necessidade de distração, etc. etc., são os motivos que o livro "Os Caminhos Da Leitura", de Ralph. C. Staiger, publicado pela Unesco, indica para alguém mergulhar-se ou apenas sobrenadar no atraente ou cansativo exercício de ler ou estudar. São também encaminhadores da leitura no trabalho profissional e a necessidade de progredir nele; atendimento à exigência do meio social; progresso pessoal e melhoria do patrimônio cultural; satisfação de exigências intelectuais e necessidade espiritual, ainda conforme o mesmo autor. São múltiplas, então, as causas da leitura ou as causas que respondem por sua necessidade no mundo moderno. Há causas práticas ou de interesses imediatos, assim como há causas nobres, profissionais ou intelectuais, esta última ocupando o primeiro plano. "O que não se aceita", segundo o professor Leodegário A. de Azevedo Filho, "é a não leitura pelo homem moderno, que deve sempre estar informado culturalmente sobre o próprio contexto histórico. Ler é uma obrigação ou é um hábito, é um trabalho ou é um divertimento. Seja o que seja, é sempre uma forma de se viver". É uma forma de aproveitar o tempo; nunca de perdê-lo. Ninguém pode ser alguma reflexão crítica, viver bem, integrado num processo de consequência, de participação nos acontecimentos do mundo. Ninguém, de espírito em posição vertical, poderá ficar ausente do livro ou de uma boa leitura. A verdadeira cultura exige o texto impresso, leitura de peso, de fôlego, linear, questionadora, de profundidade, muito mais do que o rádio e a televisão ou as discussões de esquinas podem oferecer. "Só o livro", no dizer do velho filósofo Maciel do Rego, de Taiobeiras, "atende ao sentido completo da cultura. Jornal e revista" - diz ele - "têm respiração curta, ocupam quando muito os minutos, nunca dias inteiros como os livros, companheiros, às vezes, da eternidade do nosso pensamento". Um bom livro é amigo para todos os períodos da vida, a força do conhecimento. Diz o professor Leodegário, que o poder mais poderoso é mesmo o da leitura, sobretudo porque não é transitório ou eventual como o poder da política ou o poder econômico. Passam governos, passam comandantes, passam tecnocratas, passam ricos argentários, mas, a cultura nunca passa. Ela é uma soma constante na história do mundo, acrescida de camadas como um enfeitado bolo de aniversário. Nunca se dirá que alguém que foi culto deixou de sê-lo, exatamente porque a cultura não é um bem que se perde como o dinheiro ou o mando, a legítima ou a falsa autoridade. Além disso, o progresso intelectual exige sempre atualização, permanência em todos os períodos da vida. Para uma pessoa de cultura, deixar de ler é tão grave como deixar de alimentar-se, é a própria condição humana. É importante, por isso, a formação de hábitos sadios de leitura e de aprendizagem, de acréscimo e de retenção do que se aprende, a transferência do aprendido para todos os campos de atividade, sejam as da sobrevivência, sejam as do simples prazer de viver bem dentro da harmonia espiritual. Ler é, antes de tudo, uma obrigação. Escrever ser possível...


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Por Wanderlino Arruda - 25/6/2012 15:32:48
Cônsul Fernanda Ramos

Wanderlino Arruda

Segundo Aristóteles, a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las. E conforme Edith Wharton, há duas maneiras de irradiar a luz: ser a própria fonte de brilho ou o espelho que a reflete. Grandeza, honra, luz, fonte, espelho, reflexo, um universo de palavras indicativas de valor e mérito. Em todas estas ideias e seus significados posso emoldurar a mulher corajosa e cheia de ideais, que é D. Maria Fernanda Reis de Brito Ramos, Cônsul Honorária de Portugal no Norte de Minas, minha amiga e mestra de longo tempo em vários setores da vida. A mesma D. Fernanda que é capaz de elogiar sem rodeios ou demonstrar uma inconformidade sem indecisões. É para esta mulher guerreira, que fazemos uma festa espiritual em comemoração aos seus oitenta anos, mais do que bem vividos. Multipliquemos os seus janeiros por meses e dias ou por horas e minutos, e podemos estar certos de que qualquer medida de sua existência vem gravada de proveitoso construir, do muito amar, de um esforço incrível para melhorar a vida e o viver. Dela mesma e de muitos. Dona Fernanda é um dínamo sem medida de voltagem, uma criatura sem limites na busca da perfeição, exigência própria, exigência com quem estiver à sua frente ou ao seu lado. Sempre chuva, nunca neblina, nada em D. Fernanda é calmaria, nada. Para ela, a vida é busca incessante do que fazer, do como agir, do assinalar exemplos, uma corrida olímpica de pistas e de pódios. É vencer ou vencer! A Montes Claros já chegou D. Fernanda, jovem esposa de Artur Loureiro Ramos, para ser grandeza do comércio e da indústria, vivência e trabalho na Casa Luso-Brasileira, centro e coração da cidade. Forte acento no caprichado falar da Universidade de Coimbra, onde a Faculdade de Engenharia lhe permitiu belíssima formação intelectual e liderança. Aqui o seu maior contato com a realidade regional e brasileira, a sua consolidação no trato de tudo e com todos. Atitudes fortes, cada atuação mais do que definida: a família, os amigos, as companheiras e os companheiros de intelectualidade, o trato social mais do que valorizado. Mínima a distância entre o ser e o atuar. Até no dia-a-dia foi moça de sorte, porque a Casa Ramos ficava exatamente na única esquina das duas ruas calçadas, a Rua Quinze e a Rua Simeão Ribeiro, quando toda inteireza urbana era vermelhidão de poeira. Dona Fernanda esteve sempre de bem com a vida, Algum descanso na Fazenda Vista Alegre, algum tempo em reuniões do Clube Montes Claros, do Automóvel Clube, da Associação Comercial e Industrial. Importante na fundação do Elos de Montes Claros, na Sociedade das Amigas da Cultura, na Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas, no Instituto Histórico e Geográfico. Importantíssimas as atividades de D. Fernanda como líder elista: conselheira, diretora, presidente internacional. Sempre presente em encontros regionais e inter-países, principalmente em convenções. Como presidente internacional tomou várias iniciativas de elevada repercussão, valorizando grandemente o Brasil e Portugal, além de benefícios aos países irmãos de fala lusitana. Um valioso exemplo de solidariedade e amor! Três fatos marcam definitivamente o seu prestígio: a vinda do Cônsul Sá Coutinho e esposa na fundação do Elos de Montes Claros, a homenagem que a dra. Manuela Aguiar, deputada federal em Lisboa, veio trazer-lhe pessoalmente na Sociedade das Amigas da Cultura de Minas Gerais e a sua escolha pelo governo português para o cargo de Cônsul Honorária no Norte de Minas. Quantos e quantos dirigentes do Elos Internacional vieram a Montes Claros a seu convite, por força do seu valor! Lembro-me como se fosse hoje da grande festa de inauguração do Consulado, na sua antiga residência da Avenida Cel. Prates, agora Praça Portugal. Muito difícil repetir o sucesso de D. Fernanda Ramos como o da sua presidência na ADCE, dias realmente dourados para o prestígio da instituição. Com que entusiasmo D. Fernanda planejou, construiu e vem mantendo o Hotel Fazenda Vista Alegre, local aprazível não só para hospedagens, como também para realização de eventos. Léon Denis, o sábio pensador francês, sempre achou que não basta crer e saber. É sempre necessário viver e fazer praticar na vida princípios superiores. Nossa existência tem que ser alegre, harmoniosa, plena de bênçãos de paz e de amor, sempre e sempre despertando esperanças. Não há como negar ser o amor a realidade mais pujante, porque o amar é o grande desafio. O amor deve ser causa, meio e fim. É por isso e por muito mais que Maria Fernanda Reis de Brito Ramos, nossa querida Cônsul, Companheira e Amiga, vive e sobrevive em razão dos seus muitos sonhos. Agora nos seus bem norteados oitenta anos e ainda por muito tempo mais. Bem haja! Institutos Históricos e Geograficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 19/5/2012 23:33:15
No Mercado Municipal, foi um verdadeiro alvoroço logo depois do tremor da terra e o barulho forte como se fosse a queda de um caixote ou a batida de um carro.Intessante é que em momento de quase pânico, todo mundo se une, há um bonito sentimento de solidariedade. Até os japoneses das bancas e das lojas ficaram ansiosos. Valeu a experiência de estar no meio d e uma multidão.


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Por Wanderlino Arruda - 16/6/2011 12:22:28
Brincando aos raios do Sol

Wanderlino Arruda

Da terra os encantos,
das noites os prantos,
são hinos, são cantos
que sobem a Deus!

Carlos Drummond de Andrade

Quem sonha com poesia e vive com alma, ganha asas e alimenta brisas, voa para a esperança e toca músicas no acalanto de cada verso. Quem se sabe assim, sabe muito de real sabedoria, e sabe também que todas as palavras de Deus são, em tudo e por tudo, a mais legítima verdade. O poeta, sete vezes ao dia e na maioria do tempo, louva bondade e justiça e nelas se alegra por infinitas vivências de amor. Para mim é um prazer imenso ler e sentir Brincando aos Raios do Sol, um livro encantador de Miriam Carvalho, colega e amiga, uma das mais lúcidas inteligências com que as letras mineiras pode contracenar. Ler seus versos é ouvir boa música, trilhar caminhos de muito alento, maravilhar-se com o melhor da culta e bela poética brasileira. Felicidade maior é nele viajar em sonhos e prefaciá-lo como quem toma banhos luminosos e se energiza com salmos de muitas cores. Assim, vejo-me importante com o convite do também escrever, e muito agradeço. A leitura do texto e do intertexto de Miriam é como um saborear e um alimentar de doces eflúvios em manhãs excelsas, perfil de aleluias eternas. O livro de Miriam representa, em suas próprias letras e em mineira alma, vivências de bonito sol levantando nuvens, friozinho de ombros nus, brilho estelar de olhos poéticos, fins de madrugada, vigília inconstante, névoa refrescante de uma noite que não quer permanecer. Nele o dia tem certeza e a tarde nunca cai sozinha ou se embriaga em sombras. Para Miriam, as coisas são certas ou incertas: crescem com existência ou são esquecidas pelo tempo como se fossem querenças jogadas ao léu, enxaguadas por infinitos dias. Tomar que direção? - pergunta-nos Miriam - nossa aplaudida colega na cátedra universitária e na prosa de muita poesia. E é ela mesma que responde em Brincando aos Raios do Sol:
A não ser o vento mais próximo
o que carrega a ilusão
no mesmo corpo
ou no mesmo campo
ou no mesmo rio
(quem sabe)
é a alma distante
das coisas que vivem nela
reticentes e longínquas.
Um coração ungido de bênçãos
não quer deixar dobras na alma,
nos deixa à deriva do tempo,
em corpo livre, mas cativo,
quem sabe magnético e lúcido
em rotação universal do amor.

A magistral poesia de Miriam Carvalho é - no arremate de mil horas e no traçar de sonhos – um jeito e um trejeito no olhar espiritual, recolhendo favos da noite em ricas ilusões com dizeres indizíveis. No seu mais íntimo versejar, “um resto de mim num retrato sem moldura, que vem engolindo mil bocas na dança nua”. Em Miriam, os versos vêm modernos e firmes como sino e sonho, hora de fé em fonte e oratório de mistérios retidos. Sua poesia – que elege a própria vida - é fala e audição com mil medidas no acontecer; sua poesia é alheia serenidade, musical fluir que aponta o que nós somos, nem tão divinos, nem tão humanos. Muito importante, leitor/leitora, ler Miriam com um sincero viver e o mais consciente pensar, alma para alma, alma dentro da alma, plena infinitude no conhecer Deus e saber o possível de todas as belezas da existência e do tempo divinamente humano. Vivendo e Brincando aos Raios do Sol, seja você também poeta e artífice, e fruto opimo e inteligente do melhor dos mundos. É preciso saber, saber querer, saber sonhar, porque são os sonhos que desenham as cores do nosso amar e viver. Senhor Deus da Fé da Esperança, Caritas de todas as belezas do amor, que a tua vontade se estenda sobre tudo que Miriam pensa e escreve; deixa-a beber sempre em bondade fecunda e infinita, onde todas as lágrimas se suavizam e todas as dores se acalmam. Dá a Miriam Carvalho, Senhor, a força de ajudar o progresso, a caridade pura, a fé e a razão, a simplicidade que dela faz alma e espelho, de onde reflete a tua santa imagem.Academia Montesclarense de Letras Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 19/5/2011 07:56:03
Banho, mania de brasileiro

Wanderlino Arruda

O Padre Aderbal Murta contava que o reitor da Universidade de Louvain, na Bélgica, não ficou nada satisfeito quando os seminaristas brasileiros, que iam chegando por lá, começaram a pedir um banheiro, um pequeno cômodo no grande conjunto de edifícios, algo que eles consideravam necessário e muito importante. Isso mesmo, um banheiro, um local onde se lavar de pé e cabeça, receber água vindo de cima, passar sabonete, enxaguar o corpo, enxugar, depois, com toalha felpuda. Não o banho de bacia, de sopapo, como diria o meu amigo Nô Barrão. Banho mesmo, de chuveiro, com água morna, não pelando, nem fria, que ninguém é de ferro. Essa exigência, disseram os administradores, era coisa de estudante subdesenvolvido, tinha que vir de brasileiros, sujeitinhos metidos a besta! Banho na Bélgica, até então, era banho de luva, de esponja, apenas esfregando, sem correr água, sem molhar o chão. . .
Pois bem! Agora, leio na revista BRASIL ROTARIO interessante comentário de Derli Antônio Bernardi, de Maringá, dizendo de quando tomar banho era pecado e dava até cadeia. Quanta curiosidade! Tinham perdido a sabedoria árabe, segundo a qual "a água e o mais eficiente de todos os remédios e o melhor de todos os cosméticos". Tinham perdido a experiência egípcia de quando se tomava banho em tinas de ouro, e, da Grécia, quando o palácio do Rei Minos possuía a mais espetacular banheira da antigüidade, decorada com mármore e pedras preciosas. Tinham se esquecido da tradição banhista de Roma, quando os banheiros eram tão grã-finos que havia vinte e cinco qualidades diferentes de banhos — com óleos, vapores, ervas, essências, etc. — e havia ao lado deles galerias de arte, teatros e templos dedicados aos deuses.
Os bárbaros, quando invadiram a Europa, pobres coitados, culparam os banhos coletivos pela decadência romana. Aproveita- ram a guerra e destruíram todos os banheiros públicos e particulares, varrendo, por quase mil anos, o higiênico e gostoso costume, fazendo praticamente desaparecer a palavra banho. O tempo corre, não para, e, na Idade Média, os livros de etiqueta recomendam apenas lavar as mãos antes das refeições, o que não é de se admirar, porque naquele tempo ainda não havia talheres, era tudo na base do capitão.
Coisa estranha, a Rainha Isabel de Castella não fazia segredo de quantos banhos havia tomado durante toda a sua vida: apenas dois, um ao nascer e outro ao se casar, para ficar cheirosa para o real consorte, no primeiro dia de lua-de-mel. Por mais incrível que pareça, também a religião contribuiu grandemente para o declínio da popularidade do hábito de banhar. São Gregório proibiu os banhos aos sábados "principalmente se a finalidade fosse higiênica". Houve até uma lei permitindo o banho apenas às terças-feiras. Banhar-se era pecado, luxúria, um gosto muito mundano, um zelo excessivo com o corpo, ora pois!
Foi em torno do ano de 1800 que, na Inglaterra, apareceu uma casa de banho à moda turca, com freqüência permitida apenas para homens e cortesãs, hermeticamente fechada às mulheres de família, porque indigna da gente seria do belo sexo. Na França, ao tempo de Napoleão, houve maior liberalidade e até apareceu uma nova profissão, a dos banhadores, que saíam, de casa em casa, carregando tinas para lavar a suja nobreza. Na América colonial, os puritanos consideravam banhos e sabonetes coisas impuras, chegando ao ponto de, na Filadélfia, quem tomasse mais de um banho por mês, tinha de ser condenado à cadeia por desrespeito aos bons costumes. A primeira casa de banhos publica de Nova York veio aparecer em 1852, mas só regulamentada por comissão especial em 1913.
Banho farto, diário, de mais de uma vez por dia é mesmo coisa de brasileiro. E não e devidamente por dois terços da nossa raça, a africana e a portuguesa, que também não era lá de muita água. Devemos a tradição aos ancestrais do sangue tupi e guarani, nossos índios que apreciavam e muito as brincadeiras e os mergulhos nos rios e nas praias, principalmente nos dias de maior calor, pois divertimento maior não poderia haver! Como disse: banho, mania de brasileiro.

(Institutos Historicos e Geograficos de Minas Gerais e de Montes Claros)


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Por Wanderlino Arruda - 10/5/2011 11:39:25
A palavra saudade

Wanderlino Arruda

Segundo Bess Sondel, as palavras podem suscitar todas as emoções; pasmo, terror, nostalgia, pesar... As palavras podem desmoralizar uma pessoa até a apatia ou espicaçá-la até o deleite, podem exaltá-la a extremos de experiência espiritual e estética. As palavras têm um poder assustador. E tudo isso é muita verdade, não acredito haja alguém que duvide. As palavras têm uma força, uma resistência, um poder que suplantam quase tudo que existe no mundo. Passam exércitos, passam impérios, passam repúblicas, mas as palavras não passam. Elas são permanentes, mais firmes do que os granitos dos palácios e dos monumentos. as palavras de Sócrates, escritas por intermédio de Platão, suplantaram todos os governos gregos e suas obras militares ou civis. Passarão as pirâmides e a esfinge do Egito, mas as palavras do "Livro dos Mortos" não desaparecerão. Deve ser por isso que nós dispomos, na Língua Portuguesa, de uma palavra que não tem igual no mundo em sentido, em significado, em força, tanto no aspecto denotativo (se isso é possível!) como no conotativo. É a palavra saudade, de origem tão obscura como o fundo dos mares portugueses, tão misteriosa como a virgindade das selvas brasileiras, ou tão cheia de calor como as terras de Angola ou Moçambique, também de linguajar lusitano. De onde veio realmente o vocábulo saudade? Do latim solitate (soledade, solidão)? Do árabe saudah? Dos arcaísmos soydade, suydade? Até Antenor Nascentes, que foi nosso melhor estudioso da etimologia, não é convincente na explicação da origem. Influência da palavra saúde, como pode parecer uma analogia fonética? Dificilmente. Não sendo possível definir a matriz de onde sai esta filha tão grata a todos nós, resta-nos apenas a satisfação e a honra de tê-la em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua de dentro ou de fora de nossa família latina. O francês solitude está longe de ter o mesmo significado. Mesmo do esperanto (re)sopiro e rememoro estão longe de alcançar nossa expressividade. São termos que passam a quilômetros de distância da riqueza semântica do que usamos. E o que é mesmo saudade? Um sentimento que deve existir no coração de toda criatura humana, seja ela de qualquer raça, de qualquer parte do mundo, seja pobre, seja rica. A saudade não escolhe, não discrimina, não se faz de rogada para existir. Ela vem de mansinho ou vem fortemente, chegando quando menos se espera. A saudade é amiga da solidão, companheira inseparável do amor, visita invisível da amizade, às vezes pedaço de paixão, em muitos casos suave perfume de momentos de carinho e ternura. Realmente, não é fácil definir o sentimento da saudade. E é talvez por isso que ela só exista, como palavra, na Língua Portuguesa, na mística do povo de nossa raça, principalmente no brasileiro, esta maravilhosa mistura de sangue tropical, fruto de três origens: a branca, a negra e a tupi. Saudade é dor que sufoca o coração e alegra a alma. Saudade é presença do ausente, é lembrança do bem-querer, um doce convívio com a distância, uma alegre e agradável tristeza do ver-não-vendo, do amar sem o objeto do amor...

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Por Wanderlino Arruda - 24/3/2011 09:27:02
KONSTANTIN E SAMUEL

Wanderlino Arruda

Leio o bonito e completo texto do meu amigo e irmão Samuel Figueira sobre o nosso amigo Konstantin Christoff, que acabou nos deixando pela força dos 88 anos de vida, e me lembro perfeitamente da primeira exposição de pintura do Samuca, no prédio da Rua Justino Câmara com Padre Teixeira, e da apresentação que fiz, com palavras que soam até hoje na minha consciência, como se aquele julgamento fosse eterno. Afinal, era a história de um menino genial, que, adulto, se tornava mais genial ainda. Abaixo, um pouco do que escrevi sobre o artista, a sua vida e a sua arte:
Um dia o garoto toma coragem, veste a sua melhor roupinha, põe na cara o melhor dos sorrisos, e corre pressuroso em busca do elogio e do incentivo do já famoso futuro colega Konstantin Christoff. Leva o mais trabalhado dos quadros, aquele mais acadêmico, mais certinho, de pinceladas bem cuidadosas. Pede a opinião e baixa a vista, modesto, temendo, antecipadamente, as palavras de louvor. Mas tudo sai ao contrário, Konstantin, jovem e fogoso, não sabe mascarar a verdade. Não gostando, diz sinceramente ao menino que não gostou. Faz mais: mando-o ir embora, esquecer o entusiasmo, jogar fora os pincéis e as tintas e tentar fazer outra coisa mais condizente coma sua vocação, que, de natural, pelo que via, não seria a de pintor. O menino revolta-se, fica com o espírito em br asa, assustado, coça a cabeça e, em princípio, resolve aceitar o conselho, a sugestão por mais terrível que ela seja. Chateado, chateadíssimo, sai e volta para casa. Triste e meditativo, raciocina melhor e conclui que está diante de um grande desafio, o que até pode ter sido o desejo de Konstantin. Analisa o passado, entrevê o futuro, e toma uma decisão: nem Konstantin nem ninguém pode ou vai sufocar o seu destino, sua vontade de ser artista. Se com aquelas palavras Konstantin estava mesmo é querendo despertá-lo, desafiá-lo, provocá-lo, ele iria ver, iria conhecer a sua reação de menino-homem, um grito de luta em busca de novo mérito. E quem sabe, até de elogios!
O que fez então o menino? Voltou a sua energia em direção ao próprio Konstantin, crítico ou conselheiro, produzindo, de súbito, a sua primeira e revolucionária composição moderna, uma mescla de variações geométricas e instrumentais, em cores robustas e enérgicas, pinceladas marcantes. Para compor o rosto, desenhou uma chave inglesa, representando todo o conjunto facial; para traduzir o cachimbo, enfiou-lhe um machado bem tosco na boca. Resultado: uma figura chocante, mas de grande efeito. O crítico Konstantin gostou. Gostou tanto, que o aconselhou agora a buscar de novo, e com muito amor, os velhos pincéis baratos. E que o garoto partisse para a realização de novas e muitas tentativas. Procurasse ser menos Godofredo e muito mais Samuel.
Data daí a nova fase da vida do artista Samuel. Pouca produção, muito cuidado, mais procura de melhor qualidade. Ideias sobre ideias. Formas sobre formas, transparências e coloridos novos. Entusiasmo comedido, decidida concentração, firmeza no ideal. Sem favor nenhum, pode-se considerar, em face do tempo, que Samuel Figueira, também meu mestre e crítico, é e será sempre um excepcional desenhista e pintor, artista de primeiríssima linha. Graças à inteligência, força de vontade e talento, dos melhores da história de Montes Claros. Sempre ele agradeceu isso ao amigo e colega Konstantin Christoff. Eu também!

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Por Wanderlino Arruda - 21/3/2011 19:11:56
Konstantin Christoff

Foi em 1974 que, numa das conversas com Konstantin, surgiu a idéia de uma feira de arte em Montes Claros. Feira ou exposição ao ar livre, numa praça, em dia de sol, todos os artistas juntos, arte e artesanato. Uma associação organizada, mas sem estatuto, sem presidente, sem secretário, sem tesoureiro, sem diretoria. Todos iguais, um ao lado do outro, sem escolha de lugares. Claro que com disciplina, mas a disciplina da amizade, do companheirismo, da consideração, ninguém mandando em ninguém. O que mais Konstantin pediu foi que nunca pensássemos em registro. Tinha que ser uma sociedade livre, para que os artistas pudessem entrar e sair sem pedir licença. Quer expor ? Apareça no local e no horário, e tudo bem. Para que inscrição ? Um único cargo, nada mais do que um, apenas o coordenador, porque pelo menos para dar informações, precisava de alguém. Discutidos os nomes, acabei sendo este alguém. Mas sem votação. Ele indicou-me.
Não é a feira de arte a lembrança mais antiga que tenho de Konstantin, pois amigo ele foi sempre desde os meus tempos de estudante no Instituto Norte Mineiro, estudantes passando na frente da casa dele, na Rua D. João Pimenta, e ele dando conselhos, falando como irmão, uma consideração muito carinhosa com os jovens. Lembro-me dele fazendo ilustrações para revistas de Montes Claros e de Belo Horizonte, lá de vez em quando colaborando com edições comemorativas de alguma coisa pelos jornais da cidade. Lembro-me dele médico sério e famoso na Santa Casa, cirurgião do maior respeito. Lembro-me muito da muita admiração que as moças casadoiras tinham por ele, um rapagão louro, de cabelos compridos sem ser demais, barba européia ariana, olhos claros, perfil de um possível marinheiro viking, financeiramente já bem posto na vida, tipo de genro que toda futura sogra desejaria para a sua filha.
A vida continua e Konstantin Christoff também continua na história de Montes Claros. Sempre admirado, sempre amado, um ícone da nossas artes maiores, pintura, escultura, desenho, a cada dia mais competente, a cada temporada com mais estudos teóricos, sabedor de tudo, estimulando jovens, criticando velhos, sugerindo sempre. Uma enciclopédia das artes e dos seus valores. Como era gostoso estar vendo ao mesmo tempo Konstantin e Godofredo Guedes, no estúdio de Godô, na Rua Rui Barbosa. Um completava o outro. Godofredo, um clássico, pôe todo academicismo que ainda é pouco,
escolha rigorosa de cores, pintura no mesmo movimento da escrita, da esquerda para a direita, de cima para baixo, se hoje como uma moderna impressora colorida de computador. Godô nunca abria mão dos detalhales, mínimos que fosse. Konstantin, não, um revolucionário, um iconoclasta, nada de detalhismo, nada de cores obedientes, traço rápido, um quase simplismo brincalhão, às vezes até puxado para a caricatura. Para Godofredo, Konstantin era um louco genial, um anarquista. Mas quanto o admirava!
O tempo passa e sempre Konstantin é um vencedor. Alguém mais do que um mestre. Uma assinatura sua é capaz de fazer uma folha de cartolina, uma tela vazia serem consideradas obras de arte. Um mágico fenomenal. Ontem e hoje bem aceito. Com exposições nas cidades maiores deste e de outros países,
tornou-se um bem-visto pela imprensa especializada. Nosso orgulho!
Agora, que você se despede de uma multidão de amigos, uma quase infinitude de admiradores, receba o meu abraço, de amigo e de irmão, Konstantin Christoff!
Inesquecível Konsta.

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Por Wanderlino Arruda - 20/10/2010 13:00:47
O VÔO DO ALBATROZ, O VÔO DE ISAU
Wanderlino Arruda

"A cada dia que vivo, mais me convenço de que o desperdício da vida está no amor que não damos, nas forças que não usamos, na prudência egoísta que nada arrisca, e que, esquivando-se do sofrimento, perdemos também a felicidade." Carlos Drummond de Andrade Segundo Emmanuel, a vida seria muito chata se tudo nos fosse fácil e independente de nossos esforços. O que dá gosto pela vida é saber que soubemos vencer as adversidades para chegar à vitória, ao sucesso. O importante é ter consciência de cada momento que buscamos o alimento, a saúde, a boa disposição ao trabalho, o descanso merecido, o entender e ser entendido, o amar e ser amado. É por isso que dizemos em nossas preces aos nos levantar e ao prepararmo-nos para dormir: dá-nos hoje a tua proteção, dá-nos sempre, Senhor. Jamais nos esqueçamos que - no dizer de Tiago - a fé sem obras é morta. Qual o proveito em dizer que temos fé mas não temos obras? Preciso é fazermos sempre o melhor, porque Deus não trabalha exatamente em cima da nossa ansiedade, mas em cima do nosso merecimento. O que é nosso, o que a nós deve ser destinado acontece na hora certa! As coisas acontecem exatamente quando devem acontecer! Busquemos sempre a sintonia do Amor em nossas vidas, e tudo estará sempre nos devido lugares. Sendo o trabalho lei da Natureza, cada qual de nós, seja de onde for, estará sempre construindo a própria vida, isto é, a vida que deseja. Em verdade, a nosso existência e as nossas experiências são a soma de tudo o que idealizamos e construímos. Toda melhoria que realizarmos é melhoria na estrada a que somos chamados a percorrer. Outra coisa: muito difícil vivermos bem se não aprendermos a conviver. A vida por fora de nós é a imagem daquilo que somos por dentro. Viver é a lei da natureza, mas a vida pessoal é a obra de cada um. Muitas coisas fazem parte de nós para nos defender do mundo externo, geradas pela nossa própria mão e pelo nosso próprio pensamento. Os orientais dizem: - Para você beber vinho numa taça cheia de chá é necessário primeiro jogar o chá fora para, então, beber o vinho. Ou seja, para aprendermos o novo é essencial deixarmos para trás o velho, visar e revisar valores, adaptarmo-nos a novas circunstâncias, a novos modos de ser, pensar e de agir. Depois de ler e reler O VÔO DO ALBATROZ, candente relato existencial do amigo Isau Rodrigues de Oliveira, menino de Taiobeiras, homem de Montes Claros, Minas e Bahia, homem do Mundo, vejo realmente muito mais que uma biografia, bem mais que um texto confessional, tudo muito acima do colorir esforços e superações. Trabalho a quatro mãos - do próprio Isau e da escritora Cyntia Pinheiro - são quase cem páginas didático-pedagógicas de um verdadeiro self-made man, ator e diretor de uma vida no plano pessoal e profissional merecedora de todo o nosso respeito e máximo de admiração. História envolvente em todo o seu conteúdo, tenho certeza de que qualquer leitor a lerá em um só fôlego, tal a composição lógica e emocional, mais do que tudo humanamente colorida. A melhor forma de aprender ou ensinar é acima de tudo imprimir bons e significativos exemplos. E o exemplificar em nossas vidas exige que dediquemos tempo e amor a todos os nossos sonhos e nossas atividades, sejam quais sejam os esforços e sacrifícios. O prof. Rubens Romanelli, pensador e poeta, quase um santo nas salas de aula da UFMG e nas reuniões do Evangelho, dizia-nos com lições do Mestre Jesus: "QUANDO te julgares incompreendido pelos que te circundam e vires que em torno a indiferença recrudesce, acerca-te de Mim: eu sou a LUZ, sob cujos raios se aclaram a pureza de tuas intenções e a nobreza de teus sentimentos; QUANDO se te extinguir o ânimo,as vicissitudes da vida e te achares na iminência de desfalecer, chama-Me: eu sou a força capaz de remover-te as pedras dos caminhos e sobrepor-te às adversidades do mundo; QUANDO te faltar a calma, nos momentos de maior aflição, e te julgares incapaz de conservar a serenidade de espírito, invoca-Me: eu sou a PACIÊNCIA que te faz vencer os transes mais dolorosos e triunfar nas situações mais difíceis; QUANDO, enfim, quiseres saber quem Sou, pergunta ao riacho que murmura e ao pássaro que canta, à flor que desabrocha e à estrela que cintila, ao moço que espera e ao velho que recorda. Eu sou a dinâmica da Vida e a harmonia da Natureza; chamo-me AMOR, o remédio para todos os males que te atormentam o espírito". É por isso, que de manhã, todas as manhãs, apresento ao meigo Nazareno a minha oração e fico esperando... Para Isau, felicidade é sabedoria, esperança, vontade de ir, vontade de ficar, presente, passado e futuro. Para Isau, felicidade é confiança, fé e crença, trabalho e ação. Ele tem vivido tão intensamente, que tudo indica não ter pressa de ser feliz, porque sabe que a felicidade vem devagarinho, sem depender de saúde ou de poder, sem ser fruto de ostentação, de luxo ou de ambição. Para Isau, felicidade é desprendimento, amor ao trabalho, organização, subida nos degraus do progresso pessoal e coletivo. Sempre e sempre uma visão de conjunto, cumprimento de passos e percursos de uma caminhada regida pela vontade e pela determinação, resultado de uma ou de cem batalhas. Ele, um campeão, sabe que as vitórias são alimentadas pelo trabalho em equipe, porque a grande maravilha do amor é ser um divino contágio. Também não importa o que tiraram de nós, o que importa é o que nós vamos fazer com o que sobrou. Nunca podemos nos esquecer de que o sol que brilha, a nuvem que passa, o vento que ondula, a árvore que se ergue, a fonte que corre, o fruto que alimenta e a flor que perfuma, toda a riqueza das horas tudo depende da proteção do Grande Arquiteto do Universo. Como cada um é o arquiteto do próprio destino e a vida é a soma de todas as escolhas, devemos saber que a honra é levantar-se a cada vez que se cai. Concluo este prefácio, pensando no carma positivo de Isau, para ele mesmo e para as pessoas próximas a ele, ou melhor, para todos nós os seus amigos. Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros www.wanderlino.com.br


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Por Wanderlino Arruda - 1/6/2010 07:10:13
UM PRESENTE PARA O CORAÇÃO

Wanderlino Arruda

Foi num mês de fevereiro, trinta e dois anos depois, que voltei a rever a minha terra, São João do Paraíso. Foi bem naquele fevereiro brabo de tantas enchentes, estradas intransitáveis, com um mundão de dificuldades para chegar lá, partindo de Taiobeiras. Foi depois de longa viagem por Valença e Nazaré, por Itaparica e Salvador, andanças de muito laudar pelo céu e pelo mar. Em São João, entramos num dia de intensa luz, depois das chuvas. E comigo estavam Olímpia, Rízzia e Gracielle, ao mesmo tempo que bons amigos como Joaquim da Caixa Econômica, Mário Português e meus cunhados, Anderson e Nelme, todos para dar maior prestígio ao filho que voltava à casa. Nas ruas, o Lauro, colega de curso primário, fazia a surpresa com muitas faixas de saudação, tudo muito grato, bom demais para os olhos e para a alma. Visitas, encontros, apresentações, um rememorar de saudades, o reviver de velhas e bem guardadas lembranças, uma alegria aqui, uma decepção ali, porque nem tudo que o coração registra fica imune à ação do tempo. Jovens transformados em velhos, velhos já não em vida. A paisagem já não a mesma e, ainda que melhorada pelo progresso, diferente. Não mais a ponte dos banhos de meninos pelados e jovens lavadeiras; não mais o canavial sem fim; não mais a serra verde escura ligada às nuvens; não mais a igrejinha do alto do morro, nova em folha; a grama da praça, substituída por pavimentação e postos de gasolina; o matagal do cemitério já bairro novo. Tudo mudado. Os olhos procuram, o coração deplora toda a ausência de eternidade nas coisas e nas pessoas! Quanta falta! A noite, o lançamento do meu livro, na Matriz, o louvor dos discursos, as explicações, os abraços, o rolar de tranqüilas lágrimas de gratidão ao passado, a riqueza das lembranças boas que só a infância pôde dar, o olhar reverente de jovens professoras ao câmara da mais velho, amadurecido pelas dores da vida. Olímpia me pergunta baixinho o que me passa pela cabeça, enquanto olho a velha igreja, ouço o antigo sino, sinto a paisagem pisada por pés descalços em tempo distante. O que responder? As coisas que passam pelo sentimento não podem ser analisadas, não são lógicas. As imagens são superpostas, principalmente as do meu pai, ainda novo, do meu avô Vicente, de longas barbas brancas, e da tia Raquel e de D. Adelina, gorda e clara. Vem o segundo dia e, enquanto dia, uma viagem pelo Mato Cipó para visitar os tios Júlio e Diolina, a passagem pela Lagoa da Viada, pelo rio, pelos mangueiros, a procura de velhas estradas por onde costumava passar, indo para a casa de Maria de Silvina, o caminho da fazenda do doutor Osório. A cada lembrança, uma fotografia, a promessa intima de pintar um quadro. Na volta, à noite, depois do jantar, a palestra na Escola, uma espécie de acerto de contas, um desfiar de vivos sonhos, um voto de confiança e um incentivo às novas gerações. Mais tarde, o passeio pelas ruas, o mingau de milho na sala de jantar de D. Benzinha, o café com biscoitos a convite do padre João, madeirense culto, amigo solícito. Foi durante o café, sentados em duros bancos, braços sobre uma mesa comprida sem toalha, daquelas feitas com madeira fornida, que resolvi fazer um comentário sobre meu primeiro professor, o velho Joaquim Rolla, mestre de régua e palmatória, de lousa e tabuada, de norma e abecê. Falei da escola, falei dos alunos, descrevi os objetos. Quando ia mostrar que me lembrava também dos móveis, Cristovina, a anfitriã, sorriu maliciosa, e com brilho no olhar me fez arrancar de dentro a mais querida das lembranças, pois aquela mesa, aqueles bancos, todo aquele ambiente era a minha primeira sala de aula. Havia eu, por acaso, me esquecido de que ela era a filha do professor? Estava ali o maior presente ao meu coração... Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 1/4/2010 07:10:45
QUE VENHAM TEMPOS DE ESPERANÇAS

Wanderlino Arruda

Houve um dia na história do mundo que deveria ter sido gravado em fita de ouro, conservados todos os sons, todas as cores, os movimentos todos. Não somente uma filmagem pessoal de uma câmara só, um ângulo isolado, mas um belo trabalho de equipe, com lentes naturais e de efeitos vários. Os sons, estes deveriam ser tomados de todas as distâncias, de todos os lados, do alto e do chão, até um microfone semi-enterrado como se faz em jogos de campeonatos. Deve ter sido uma manhã e tarde da maior importância na vida do maior gênio da arte de todos os tempos, uma coroação de esforços e de momentos de amor do italiano Leonardo da Vinci. Era a hora final dos retoque do quadro Mona Lisa, aquele minuto marcante de a obra de arte receber a moldura e ser exposto à crítica de todos os tempos e de todas as gentes. La Gioconda havia posado para ele por cerca de vinte anos, encantada com toda a equipe de moedores de tintas, de tocadores de alaúde e de cítaras, assobiadores, cantores, fazedores de graças, encantada, sobretudo, com a admiração do mestre e a luz bem distribuída do grande pátio e cenário. O que parecia eterno chegava ao fim! Assim é a vida. Por mais longo que seja o dia, haverá sempre um crepúsculo. A mais escura das noites, a mais tempestuosa ou a mais alegre e festiva será sempre substituída por uma aurora. As existências se sucedem num vai-e-vem eterno, monótonas para quem não saber ser, mas interessantíssimas para quem tenha olhos de ver novidades. Não há bem ou mal que nunca se extinga, porque tudo é passageiro. Definitivo, só o gesto de amor, o bem, a luz que ilumina a alma das criaturas. O mal? O mal também tem prazo de consideração, porque não há trevas que não sejam batidas pela claridade. Um gesto de crença verdadeira muda a história de muitas existências. Enquanto houver fé e esperança, enquanto houver amor, haverá felicidade. O desespero é o pior ângulo de qualquer atitude, do indivíduo ou da sociedade. Por que não esperar o amanhã? Estamos, hoje, num desses momentos de real importância em nossas vidas, um bem encaminhado início de século e de milênio que - ricos de angústias -, têm marcado profundamente o nosso modo de ser. Uma hora tão decisiva, tão propícia aos nossos conhecimentos, que ninguém - ninguém mesmo - fica realmente isolado dos acontecimentos. Se já não era, agora pessoa nenhuma será uma ilha. Vivemos o momento da informação realizada por todos os meios. É preciso muita garra para vivermos a nossa própria vontade, a nossa independência. Vivemos de uma só vez todas as vidas, da família, do trabalho, da profissão, da crença, dos grupos de aptidões, mas, em nenhum momento prevalece o direito realmente individual, aquela vontade saída do próprio coração. Tudo é grupo, dependente. Querendo ou não, um mundo de irmãos, de companheiros, de camaradas, sob o mesmo teto do mundo. Alegres, tristes, sofridos, angustiados, mas unidos. O egoísmo tornou-se uma ilusão, um engodo; somos, na verdade um enorme grupo de aldeia global, sacos de sorrisos e de sofrimento, ouvintes e assistentes compulsórios de verdades e de ilusões. Que venham tempos de esperanças. Se problemáticos, que sejam com dificuldades estimulando o raciocínio em busca de novas soluções. Que venham as possibilidades de perdão, de reajustamentos, de solidariedade. Que seja aberta uma fresta para a lembrança das promessas geradas no início da era cristã, na pobrezinha manjedoura do Belém! Havendo amor, haverá muita luz na saída do túnel. E que haja!

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Por Wanderlino Arruda - 24/3/2010 14:20:49
GAROTO SEM ESTILINGUE

Wanderlino Arruda

Sempre me preocupei pensando se o nosso Reivaldo Canela - que escrevia semanalmente sobre animais, grandes e pequenos, selvagens e domésticos, teria sido mesmo um menino sem estilingue, um garoto desarmado, um jovem de paz com a natureza. Tenho direito a cessa preocupação porque sei que Reivaldo viveu os anos de estripulia da meninada, tempo violento e cheio de brincadeiras de guerra, cada moleque agindo como bandido ou soldado, sempre luta divertida. Ele cresceu totalmente fora desta fase de agora, crianças envolvidas só com brincadeiras de era eletrônica: telões ful hd, ifones, mp3, ipods, mp4, ipads, mp12, telefones e celulares com tudo muito além do ouvir e do falar. Digo isso, porque minha geração - que foi também a dele - tinha de construir seus próprios brinquedos, jequis, quebras, arapucas, visgos, facas de folha de flandre e de fitas de aço, que vinham amarrando os volumes de mercadorias das lojas e armazéns. Foi nossa geração a do feliz "laissez faire" de toda espécie de instrumentos de sobrevivência da alegria, em todo tempo vago no antes e no depois da escola. Nunca vi estilingues ou qualquer outro tipo de atrativos para captar passarinhos na fase nova dos meninos do fim do século, principalmente nos mais moderninhos da classe média.Todo mundo limpinho, calçados de tênis, quase sempre andando de bicicleta e de moto, indo e vindo sem muita anarquia, bem diferente do que acostumava acontecer em tempos mais distantes, quando duas rodas eram um luxo sem igual. Os garotos atuais, ou de pouco tempo atrás, já não tiveram à sua disposição o mundo dos passarinhos e pequenas caças, aquele mundão em quantidade e fartura, que se tornava um grande atrativo à guerra de conquista de todas as horas, antes ou depois dos banhos pelados nos poços e nas lagoas, que a gente descobria onde eles existissem. Parece que tudo mudou no jeito e na formação dos jovens depois que inventaram os banheiros dentro de casa - tudo de cerâmica e de louça - e as lojas começaram a vender brinquedos em dez meses no cartão, e a comunicação passou a ser informatizada, meninos e meninas falando com outros meninos e outras meninas, via Messenger, tweet, Facebook, próximo ou infinitamente distante, deste ou do outro lado do planeta. É claro que hoje já não tenho problemas de consciência quanto ao amor que o Reivaldo dedicou aos passarinhos, ele que sempre pôde viver feliz e gastou não-sei-quanto de fubá para alimentar os seus dó-me-réis e os seus pardais. Posso afirmar que ele, que foi um São Francisco de Assis de fim e de início de séculos, viveu literalmente com os passarinhos, recebendo-os nas mãos, tudo na base de carinho e natural amizade, convênio não assinado, pacto de não-agressão grato a ambas as partes. Eu vi muitas vezes Reivaldo conversar com os bichinhos, parecia até chamando-os pelos nomes, fazendo com que aquelas grandes revoadas viessem para o seu lado, saltitantes de alegria inocente, bicando aqui, batendo asas ali... contentes com a vida, a exemplo do fiel protetor da Praça da Santa Casa. Para começo ou fim de conversa, a casa do Reivaldo era um grande viveiro, com todas as árvores que os passarinhos pediam a Deus, um encanto de ramos e folhas de toda espécie. Devia ser bem interessante o ato de ser amigo das avezinhas, amizade sem interesse, sem perspectiva de retribuição, a não ser a da felicidade. Amigos sinceros, homem e aves se confraternizavam todas as vezes que se encontravam, marcada ou não a hora. Durante muitos anos, nunca me foi possível visitar Cândido Canela, pai de Reivaldo, na casa ao lado, sem ver e ouvir passarada. É que, felizes, eles conviviam para sempre!

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56256
Por Wanderlino Arruda - 18/3/2010 07:18:42
CORRESPONDÊNCIA E AMIZADE

Wanderlino Arruda

De todas as manifestações de amizade e de carinho, a correspondência é uma das mais interessantes, a que toca mais profundamente a sensibilidade de quem escreve e de quem recebe. Bom e agradável é ver nas mãos do carteiro um envelope com letra amiga, o nome escrito por quem de alguma forma quer a nossa felicidade, o nosso contentamento. Escrever para as pessoas a quem queremos bem deveria ser um exercício de todos os dias, uma espécie de doação espontânea e viva, própria de almas afeitas à camaradagem, ao exercício da saudade construtiva, ao apego positivo e enriquecido. Afinal, a escrita é o gesto gravado com tinta e amor, direto e pessoal, até mesmo quando feito com os recursos mais modernos que não os do próprio punho. O que mais atrapalha as pessoas no ato de escrever aos amigos é a falsa noção de que correspondência tem que ser sempre sob a forma e a formalidade de carta, com todos aqueles palavrórios cheios de cerimônia e gramatiquices, com tratamento sério, repositórios de salamaleques verbais. Mas acontece que correspondência de amizade não é isso, é coisa muito mais simples, mais pessoal, despretensiosos gestos de simpatia através de um vocabulário do dia-a-dia, uma comunicação sem preconceitos, direta e desobrigada de enfeites. Um bilhete, um recado, um conselho, uma consulta, uma informação, um cumprimento, tudo o que dirigimos por escrito a uma pessoa amiga constitui correspondência. É preciso aprender a escrever com freqüência, criando pontes de amizade, demonstrando que nossa memória está firme, de que o esquecimento e a ingratidão não são os nossos maiores defeitos. Não deixemos que o telefone e o e-mail sejam impedimento à nossa correspondência tradicional. A palavra escrita ainda vale muito mais porque, guardada, será sempre uma boa lembrança, uma forma de recordação. Aproveitemos qualquer papel, não importa o tamanho, a cor, a origem. Escrevamos à tinta, a lápis, de forma calma ou apressadamente, mas escrevamos. Por que não usar um cartão, uma nota de compra, um recorte de jornal ou revista e, em último caso, até mesmo um papel de carta propriamente dito? O que interessa é nosso interesse pelo ato de comunicar, de dizer que estamos vivos, que ficamos alegres com a alegria do amigo, felizes com sua felicidade. Se não pudermos escrever vinte linhas, que escrevamos dez. Se não pudermos escrever dez, escrevamos três, mas não deixemos de escrever. O sorriso interior criado pela nossa amizade vale mais do que todas as fortunas do mundo. Experimente hoje mesmo!

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55930
Por Wanderlino Arruda - 10/3/2010 07:47:03
ENSINAR E APRENDER

Wanderlino Arruda

"Quem sabe faz, quem não sabe, ensina" - dizia sempre o doutor Hermes de Paula, repetido o dramaturgo inglês Bernard Shaw. Era a forma de ironizar seu próprio trabalho de homem que viveu a vida, tentando e conseguindo ensinar as coisas boas do saber viver. Ele, doutor Hermes, que não sendo um grande orador, não possuindo os arroubos da melhor oratória, sempre sabia empolgar todo e qualquer auditório fosse de crianças, fosse de moças e rapazes, fosse de gente grande e sabida. Era ele um professor nato, convincente, bem humorado, claro, direto no falar e no convencer. Nunca o doutor Hermes deixava uma audiência triste. Sabia enriquecê-la com a sabedoria e a virtude de amor. Era um grande mestre! Realmente, a vida consiste em aprender e ensinar. E diz a regra que aquele que mais ensina é o que mais aprende. Quem mais se dispõe a aprender é quem melhor ensina ou o sabe ensinar. Professor e aluno crescem sempre juntos, na medida em que vão realizando coisas importantes para eles mesmos, coisas importantes para seu meio social, sua terra, seu país. O aluno aprende com o professor, mas mais aprende o professor com o aluno. Um atende às necessidades do outro. Uma vida em honesto conluio, só agradável quando em franca e mútua disposição de progredir. Ensinar e aprender - diversão ou trabalho - só valem muito para quem tenha amor pelo conhecimento, pela descoberta do novo pelo sentimento de riqueza no poder da cultura! Aprender é renovar-se, mudar comportamentos, somar habilidades, descortinar horizontes. Ensinar é abrir caminhos, criar motivação saudável, crescer e fazer crescer. Aprender e ensinar são ações de grande valia, de importância indiscutível, porque nossa inteligência só se satisfaz com o inovador, com a novidade, com o que empolga e fascina, com situações que possam mudar destinos. A repetição será sempre rotina, nunca encaminha para o melhor no plano da gratificação da mente e do espírito. O homem será sempre o animal curioso, faminto do desconhecido, um desbravador, um insaciável vencedor de fronteiras. O professor é o arado que semeia, a mão que cultiva, a semente que multiplicadamente germina e haverá sempre de germinar. Sócrates foi professor de Platão. Platão ensinou a Aristóteles. Aristóteles fez o melhor que pôde por Alexandre... Se Alexandre não ensinou, aumentou o mundo para que outros ensinassem. Foram professores de diferentes regiões e de tempos diferentes que prepararam Miguel Ângelo, Leonardo, Giotto, Camões, Dante, Petrarca, Einstein, Sartre, Tristão de Athayde, Vinícius de Moraes e o Padre Aderbal Murta. Foram professores que ensinaram a Afonso Arinos, a Carlos Drummond de Andrade à Maria Luíza Silveira, a Georgino Júnior, a Petrônio Braz e a Dário Cotrim. Todos tiveram professores. Todos tivemos. Todos nós! Lembro-me muito bem de quando Lazinho Pimenta era aluno do velho Colégio Diocesano. Interessado, participante, tinha já todas as características de um bom jornalista. Sempre bem informado, era só armar um palco ou uma tribuna, ligar um microfone, lá estava Lazinho a dar as últimas novidades, a minerar novos valores entre a moçada. Está aí! Você já mais vivido, é possível, só tenha visto o Lazinho Pimenta como cronista e homem de jornal. Eu o vi sempre com bem maior amplitude. Sempre vi o Lazinho na qualidade de aluno e professor, vivendo e aprendendo e ensinando a conviver. Se ele cobrasse em provas o que ensina, estou certo, muitos agradeciam pelo tanto que aprendeu. Afinal, foram em muitos e muitos anos que o inesquecível Laércio Vitalino Pimenta transmitiu a boa etiqueta em sua página de jornal...

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Por Wanderlino Arruda - 3/3/2010 07:52:44
O MELHOR TEMPO É AGORA

Wanderlino Arruda

Adoro as pessoas que amam a vida, que gostam de viver, que são alegres que sabem valorizar cada minuto de felicidade. Nada melhor do que uma certa capacidade de conformação, um jeito de dar a volta por cima nas horas difíceis, de sacudir a poeira das vãs preocupações quando elas só podem nos atrapalhar. Não remoer mágoas é um ato de grande sabedoria. Perdoar, mesmo sem esquecer a ofensa, já é um sábia atitude. Perdoar, com esquecimento é suprema perfeição, coisa assim de quem já se sinta num excelente caminho evolutivo, pode-se dizer quase uma matrícula ao vestibular de santo. Adoro as pessoas que sabem fazer amigos, que são sociáveis que se interessam pelo contentamento do próximo. É dessa gente que a melhor parte do mundo é feita, que dá o lado útil da vida, o construtivo, o leal, o bom. De que adianta o negativismo? O que pode a tristeza realizar senão a dor moral de que ela é a própria argamassa? Os tristes estão sempre muito longe da vitória, do sucesso, e até mesmo de uma certa estabilidade vivencial. A tristeza não é o lado normal da criatura, pelo menos não é o mais agradável. Os tristes deveriam parar um pouco e pensar numa mudança mental, sorrir, procurar ver um mundo de coisas lindas que acontecem e estão aí na nossa frente todas as horas. Nada mais positivo do que os momentos de alegria! Adoro as pessoas que gostam da luz do sol, da brisa, da lua, pessoas que saibam olhar para cima à noite e ver estrelas com atitude de quem sonha! São estas que, por amarem a imensidão do infinito têm a mística ou a lógica da fé, acreditam num poder maior, num verdadeiro foco de amor de quem emana toda a sabedoria. Não se pode viver sem uma crença, uma certeza, uma diretiva para o bem que se pratica e que se recebe. É preciso ter a sensação de plenitude, a consciência firme de que fazemos parte do grande Infinito, partícula de luz eterna e caminhante para a sabedoria. Adoro as pessoas que sabem esperar quando outras desesperam, que guardam a fé, acima da tormenta das dúvidas, que suportam o peso da própria cruz. Adoro as pessoas que sabem cultivar o lado bom, que sabem discernir o justo valor das causas e das coisas, que amparam com sinceridade os que erram na caminhada da vida, que sustentam sempre o bom ânimo. Que ninguém se engane com falsas apreciações acerca da justiça, porque o tempo é o juiz de todos. Cada criatura colherá da vida não só pelo que faz, mas também conforme esteja fazendo aquilo que faz. Adoro o ouro do tempo e o serviço da paz! Amanhã será, certamente um belo dia, não tenho dúvidas. O meu senso de felicidade me indica, me dá certeza e confiança. Mas, para trabalhar e servir, renovar e aprender, acredite, o melhor dia é hoje mesmo, o melhor tempo é agora! Seja feliz!

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Por Wanderlino Arruda - 26/2/2010 07:27:58
TER OU NÃO TER TEMPO

Wanderlino Arruda

Conheço um mundão de pessoas que dizem nunca ter tempo para fazer as coisas mais necessárias. Sempre ocupadas demais, não sabem com quê. Nenhum momento disponível para escrever um e-mail, um bilhete, para uma palavra de amizade a um parente ou a uma pessoa amiga. Nenhum minuto para dar um telefonema de parabéns ou mesmo dizer qualquer palavra amável a alguém que teria grande alegria com essa atitude. Nenhum segundo para uma leitura proveitosa, para visita a um site, para um acréscimo ao conhecimento de utilidade, para um brilhozinho na cultura e na atualização do que anda acontecendo no mundo. Conheço um mundão de pessoas que só têm olhos para o que nada acrescenta de melhor à própria vida. Conheço-as e tenho pena de todas elas, pobres coitadas... É que não existe nada no mundo mais importante do que o tempo, a correta administração do tempo, esse ente incompreensível que só é longo quando a criatura vive e ou se encontra mergulhada no sofrimento e na dor. O tempo passa devagar só nas horas em que ele deveria correr mais depressa, quando estamos na angústia da espera de que ele logo se acabe, seja no leito da doença, seja na fila interminável que nunca anda. É difícil dispormos de tempo para todos os compromissos, mesmo aqueles bem distribuídos na agenda mental ou até na de papel ou do computador, principalmente aquele tempo que costumamos dizer que vale ouro, patrimônio sagrado que ninguém tem direito de malbaratar sem graves danos. "Há quatro coisas que não voltam atrás: a pedra depois de solta pela mão, a palavra depois de proferida, a ocasião depois de perdida, e o tempo depois de passado". Não me perguntem quem disse isso, que foi um tal de H. Riminaldo, que não sei quem é... Mas, que ele está certo, isso está, inclusive por mais isso: "A maior parte do nosso tempo, passa-se a passar tempo". Trezentos e sessenta e cinco dias do ano podem ser comparados a trezentas e sessenta e cinco áreas de plantio, cotas igualmente distribuídas para cada um em particular e para todos em conjunto, cada qual com certa liberdade de cultivá-las, dependendo do modo de pensar e agir. "Tudo tem o seu tempo determinado, e há tempo para todo propósito debaixo do céu", diz o Eclesiastes no início do capítulo três. "Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derribar, e tempo de edificar; tempo de chorar, e tempo de ri; tempo de prantear, e tempo de saltar de alegria; tempo de espalhar pedras, e tempo de ajuntar pedras; tempo de abraçar, e tempo de fartar-se de abraçar; tempo de buscar, e tempo de perder; tempo de guardar, e tempo de deitar fora; tempo de rasgar e tempo de coser; tempo de estar calado, tempo de falar; tempo de amar, e tempo de aborrecer; tempo de guerra, tempo de paz". Assim, há tempo para tudo, para a sublimação do santo, para a beleza do ato heróico, para a grandeza do sábio, para a angústia do penitente, para a provocação, para a alegria da simplicidade e até para a crueldade do malfeitor de qualquer grau. É o tempo um caudal de angústias e de tribulações para quem não saiba vivê-lo, ou simplesmente um limbo de inexistências par quem o deixe passar sem idéias do que fazer. Tempo é mar de ondas que nunca voltam, é chuva que passa sem obstáculos, um relógio de corda sem fim... E como você teve tempo de terminar... Perdoe-me se tomei muito do seu tempo!

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54941
Por Wanderlino Arruda - 10/2/2010 09:17:36
PEDRO II

Wanderlino Arruda

Há muito tempo, eu estava querendo escrever sobre o Imperador Pedro II, uma das mais admiráveis personalidades da nossa tão esquecida história. Porque escrever sobre ele, não sei. Sei apenas que o filho de Pedro I e pai da Princesa Isabel sempre me fascinou pela sabedoria e pelo caráter reto, uma grandeza de espírito e simplicidade muito raras nos políticos de qualquer época. Hoje, cumpro a promessa comigo mesmo, e sei que isso é bom, servindo de uma espécie de catarse, que é algo como um banho da própria alma, um descanso de compromisso e de tensões que nos invadem o saber e o querer. Cyro dos Anjos diz que tudo que a gente quer escrever ou escreve constitui uma gravidez intelectual e, quando não vem o parto, não virá o descanso. Bem haja, como dizem os portugueses! E o que sei eu de D. Pedro II? Não muita coisa, que isso dependeria de muita leitura sobre o Segundo Reinado. Mas sei um pouco, que posso passar, com prazer, para os que têm a paciência de me ler. Como é a moda, é bom começar dizendo que Pedro II foi um grande democrata, amigo do povo, simples como devia ser um perfeito cristão. Para não fugir à verdade, é bom também dizer que seus maiores amigos eram mesmo os filósofos, os poetas, os cientistas, os inventores, a gente da grande inteligência e da cultura. O que ele não gostava muito era da realeza cheia de pompas e de protocolos, o povo metido da nobreza, cheio de luxo e de aparências. D. Pedro II sentia-se bem mesmo era na companhia de homens como Victor Hugo, Renan, Thomás Edison, Longfellow, Graham Bell, Pasteur, Alexandre Herculano, Manzoni, Gonçalves de Magalhães, Francisco Otaviano, Carlos Gomes, Pedro Américo, intelectuais que ele admirava e protegia. Dizem que ele nunca deixou de demonstrar constrangimento diante das cortes de grande gala e muito ouro. De vestir, D. Pedro II gostava mesmo era de uma sisuda sobrecasaca preta, à moda dos professores da época, vivendo longe das jóias, com um ar discreto de um bom burguês, fino, educado, seduzido só pelas belas idéias e pela sabedoria dos pensadores. Gostava imensamente de viajar, mas viajava pouco. E, quando o fazia pelas cortes européias, pagava as passagens e as contas, tirando dinheiro do próprio bolso, nunca ofendendo os saldos do Tesouro Nacional, desvio tão à moda nos dias de hoje. Educado para reinar, mediante disciplina férrea, quase monástica, foi moldado como um responsável funcionário público, modesto e compenetrado. Tolerante ao máximo, bondoso, era também de vontade inquebrantável, renitente, intransigente em seus propósitos. Antes de tudo, a pátria, o trabalho, a obrigação. Madrugava no cumprimento do dever. Decidia com tanta justiça que mais parecia um juiz centralizador do bem e da paz. Homem livre, estudioso, de uma curiosidade científica de encantar, chegou muitas vezes a escandalizar as cortes do velho continente, deixando para trás até as idéias estapafúrdias dos conservadores. É que mais do que os palácios, visitava os livres pensadores, os rabinos, os artistas, os republicanos, ímpios como Renan e Victor Hugo. Pouco lhe importava a antipatia quase que natural do Papa Pio XI, um radical conservador, que nunca lhe poupou censuras. Claro que não chegava a ser um iconoclasta, isso nunca. Era um homem de paz, um bom sujeito de ótimo coração! Sério, compenetrado, virtuoso, respeitado e respeitador, discreto como homem e como governante, não deixou, porém, de ter uma boa seqüência de amores, além do que teve para com sua mulher, princesa napolitana D. Teresa Cristina Maria, modelo de bondade, D. Pedro II amou, e muito, outras mulheres, com as quais mantinha volumosa correspondência sentimental. Ocuparam seu coração nada menos do que a Condessa de Villeneuve, Madame de La Tour, Eponina Octaviano e a Condessa de Barral e Pedra Branca, sendo esta última sua preferida, a quem se dedicou profundamente. Ao contrário do famoso pai, nunca fez desses afetos motivo de escândalo. O amor para ele foi sempre um sentimento íntimo, de alma para alma. Expulso do Brasil numa trágica e tempestuosa madrugada de 17 de novembro de 1889, viajou chorando de tristeza e de saudades, já muito alquebrado pelos longos anos de trabalho e de estudos. Morreu num quarto simples do Hotel Bedford, em Paris, dois anos depois. Seu maior sofrimento eram as lembranças do Brasil. Quanto era doloroso a dor do exílio! Ainda bem que o Governo francês concedeu-lhe as honras de Chefe de Estado e seu enterro foi dos maiores que a cidade de Paris já viu, tão grande como o de Victor Hugo. Diante do sábio e do homem, mais uma vez a Europa se curvava perante o Brasil!

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Por Wanderlino Arruda - 3/2/2010 07:42:06
CORRENTE PRA FRENTE

Wanderlino Arruda

Sempre pensei que a mania de fazer e enviar correntes, diretamente ou pelo correio, para amigos ou para conhecidos, fosse uma dessas qualidades ou defeitos genuinamente brasileiros, um desses jeitinhos de levar alguma vantagem ou fugir de um supersticioso perigo. É que a corrente, sempre feita em número de seis ou meia dúzia, manuscrita ou digitada, contendo uma estória de princípio, meio e fim, sempre com ameaças a quem cometer a ousadia de interrompê-la: "Um fulano de tal não quis prosseguirr a corrente recebida e enviar as cópias aos amigos e... caiu de avião, batendo numa serra do litoral, esborrachando-se, mergulhando no mar como mergulhou nosso saudoso Ulisses Guimarães. Outro não deu seqüência em duas que recebeu e perdeu o emprego, passando a rechear as estatísticas dos desocupados. Outro fez tudo direitinho e... marcou os treze pontos sozinho na mega sena, e, ainda por cima, tirou o primeiro prêmio na federal". Correntes, correntes, já as vi de todas as maneiras possíveis, destinadas a ricos, a pobres e às classes média, baixa e baixíssima. Já as vi com todo tipo de redação, partindo de gente que entende, de gente que pouco mais sabe do que fazer um "ó" com fundo de garrafa. Há daquelas correntes que chegam em envelopes baratos, capeando surradas notas um real, já fora de circulação, aquelas que nenhuma criança aceita mais, nem por brincadeira. Há as que vêm por e-mail, controladas com comando de recebimento, cláusula de satisfação garantida ou seu dinheiro de volta", como se fossem de vendedoras de eletrodomésticos. Tudo muito interessante e bastante curioso... Não foi pequena minha surpresa, quando recebi, há poucos dias, de uma amiga, uma corrente realmente internacional, com passagens por vários países e destinada a esperantistas, tendo como agrado o recebimento, em linha final, de centenas ou milhares de cartões postais. Iniciada na Alemanha, seu exemplar foi remetido por correspondente que ela tem na Polônia, os primeiros nomes endereçados para o sul da Rússia e para a um bairro da cidade de Tóquio. Fiquei curioso e interessado, e lá vão correntes redigidas em esperanto, inglês, francês e espanhol, dirigidas a colegas de grupos de literatura moradores na Suécia, no Emirado Árabe, nos Estados Unidos e na França, além de outros que moram aqui mesmo nesta movimentada Montes Claros. Mas, de todas essas correntes, a mais interessante que recebi na longa caminhada da vida é a que passo a transcrever, nenhum comentário fazendo, e deixando a apreciação por conta do leitor que, a partir de agora, passa também à condição de destinatário. E que faça bom proveito. Ei-la: "Esta corrente foi feita para homens comprometidos e esgotados como você: não é necessário dinheiro. Faça 5 (cinco) cópias e mande para seus amigos na mesma situação e que sejam de inteira confiança. Em seguida, empacote sua mulher e envie para o primeiro da lista, acrescentando seu nome em último lugar. Quando seu nome estiver no primeiro, você receberá 16.478 mulheres, e algumas delas poderão ser interessantíssimas. Não quebre a corrente. Um sujeito quebrou-a e recebeu a mulher de volta. Um amigo meu já recebeu 18. Hoje, foi o enterro dele. Tinha nos lábios um sorriso nunca visto durante toda a sua vida... Mantenha a corrente e morra contente".

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Por Wanderlino Arruda - 27/1/2010 07:26:34
SOBRETUDO PALAVRAS

Wanderlino Arruda

Existe na cidade de São Paulo um cursinho de língua portuguesa destinado ao ensino de redação que dá, como único meio de aprendizagem, a contínua produção de poesias. Só poesias e nada mais, poemas sobre poemas, estrofes e mais estrofes de versos possíveis e impossíveis, com métrica e sem métrica. O universo de cada aluno é o eterno versejar, uma poetização do mundo e da vida, existam ou não existam vocações autênticas. Ninguém tem direito de não ser artista ou de não ter inspiração momentânea. Aquela estória de que aluno é o único redator que ter de escrever na hora em que não quer e sobre o tema que não pode escolher. E por que o cursinho de São Paulo escolheu tão gostosa e musical forma de ensinar o processo de comunicação em língua pátria? Onde a vantagem da busca de rimas, da medida de sílabas, do procura-que-procura o balanço dos sons? Isso resolve alguma coisa ou revoluciona o ensino? O que o noticiário diz é que os alunos estão surpreendentemente satisfeitos e até, segundo demonstram, mais inteligentes a cada dia que passa. Dois motivos levam a isso: vêem-se na obrigação de raciocinar em tempo integral e passam a valorizar muito mais a grafia, a sonoridade e o valor do significado de cada palavra, de cada vocábulo grande ou pequeno. Substantivos, adjetivos, advérbios, verbos com seus tempos e modos, números e pessoas, transformam-se em suave material de construção lingüística, tudo uma graça! Já imaginou como o mundo seria bonito e tão interessante se todas as pessoas se transformassem, de uma hora para outra, em dedicados menestréis, em declamadores, em jograis, em poetas? Já pensou se cada pessoa feia ou bonita, inteligente ou burrinha, se visse assim-assim no papel de musa inspiradora, foco da musicalidade da última flor do Lácio inculta e bela ou de outra língua qualquer? Já imaginou como o mundo seria bonito e tão interessante se todas as pessoas se transformassem, de uma hora para outra, em dedicados menestréis, em declamadores, em jograis, em poetas? Já pensou se cada pessoas feia ou bonita, inteligente ou burrinha, se visse pessoal e conscientemente em um papel inspirador, foco da musicalidade e da semântica da última flor do Lácio inculta e bela ou de outra língua qualquer? Outra luz iluminaria o amor e a amizade, outros cantares fariam da natureza o cântico da imaginação! Aí a palavra reinaria absoluta e os dicionários seriam os livros mais importantes de todas as estantes e gavetas, de todas as bolsas de estudantes daqui e de alhures. Mais do que nunca a palavra seria realmente uma entidade viva e palpitante. Fico pensando que essa idéia dos professores paulistas deveria ser imitada urgentemente, como se faz naqueles projetos de esforço concentrado que os nossos deputados e senadores aprovam madrugadas a dentro para não deixar para outro dia. Vencedora a palavra, amanhã os nossos valores seriam outros. Trabalho, competência, idéia, talento, amor, luta, democracia, honestidade, gente, fé, informação, povo, paz, arte, livro, liberdade, imprensa, fraternidade, justiça, esperança cultura, todo o universo de vocábulos seria a argamassa para a construção da vida.

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54055
Por Wanderlino Arruda - 20/1/2010 07:45:09
ENCONTRO COM O GÊNIO DA VINCI

Wanderlino Arruda

Eu lera com sofreguidão e por várias vezes o anúncio "assinado" por Leonardo da Vinci e publicado em revistas nacionais. Era um convite para uma exposição preparada, em Nova York, por um artista da IBM americana e destinada a salões do mundo inteiro. No Brasil, às cidades de São Paulo, Rio e Brasília. A publicidade dizia, com atualização, que até o fim do ano, mas sem marcar data específica, os admiradores da vida e da obra de Leonardo da Vinci poderiam com calma, percorrer toda a trajetória de suas invenções de aparelhos, seus textos, seus enigmas estariam à disposição de quantos se interessassem e dispusessem de algum tempo para viver e sonhar o sucesso. Era só esperar! Na ocasião da leitura do anúncio, prometi a mim mesmo fazer viagem a qualquer uma das três capitais, simplesmente porque não poderia deixar de ver a exposição, de conhecê-la, de admirá-la como um presente à cultura, ao conhecimento e à existência. Vida difícil, corrida, trabalhosa, o tempo passou, e a desinformação do interior acabou deixando passar despercebidas as mostras de São Paulo e do Rio. Nenhuma notícia, não onde, não quando. Nenhuma explicação para mim mesmo do porquê não ter acompanhado o assunto com mais cuidado. Cheguei a pensar mais tarde de quanto teria perdido se não fosse o acaso me ter colocado em Brasília exatamente nos três últimos dias de presença, do gênio e da alma do Leonardo, mesclados com a beleza e a grandiosidade do Teatro Nacional, formando uma simbiose de artes egípcia e italiana. Primeiro assistir ao vídeo bem feito com os principais fatos da existência do mestre Leonardo, seus relacionamentos, seus esforços, sua garra de criar o impossível e possível; depois, o percorrer de todo o roteiro inventivo. Não apenas um dos maiores pintores da humanidade, a curiosidade sem limites levou-o a explorar todos os ramos do conhecimento, criando engenhos ultrapassando obstáculos do tempo e do espaço. Assim, pela ordem, uma maravilhosa exposição explicativa, descritiva, da ponte giratória, do inclinômetro, da metralhadora tripla, da impressora automática, do macaco hidráulico, da assadeira com ar quente. Logo adiante, o higrômetro, o helicóptero, o ornitóptero, a transmissão de velocidade variável, a ponte de dois níveis, o pára-quedas, os cascos fusiformes e duplos de navios, o mecanismo de relógio, o odômetro, o tanque de guerra. Leonardo da Vinci, através do também gênio Roberto Guatelli da IBM, autor de todas as maquetes realizadas com absoluta precisão, estava mais vivo do que nunca, presente até, incorporado à mais avançada tecnologia mundial do momento, despertando e revivendo a admiração de cada visitante. Ninguém é capaz de resistir a emoção de vê-los e amá-los, de acompanhá-los como maiores inteligências e capacidades de sonho. Cinco séculos depois, afinal, a IBM pôde oferecer um dos mais belos acontecimentos, uma das provas mais palpáveis do quanto o esforço e a vontade de vencer podem engrandecer o homem. Não só o gênio é necessário. Leonardo da Vinci, mais do que qualquer outro artista é criador, provou que o trabalho incessante e decisivo ainda é a melhor forma de produzir inteligência e genialidade. Os séculos futuros jamais esquecerão Leonardo da Vinci!

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Por Wanderlino Arruda - 13/1/2010 07:29:06
RUAS DE LISBOA

Wanderlino Arruda

Não creio que exista outra cidade no mundo com ruas de no¬mes mais engraçados do que as de Lisboa. Parece que os portu¬gueses que viveram mais perto de El rei tinham mais aguçada a imaginação, eram mais românticos ou, então, queriam uma noto¬riedade pelo lado alegre da vida. Os lisboetas, lisbonenses ou ulis¬siponenses, conforme o grau de erudição, ou simplesmente alfaci¬nhas, conforme o grau de intimidade, foram sempre uma gente bem disposta, cheia de vida, vaidosa por sua cidade. Chamam Roma de cidade eterna, mas eu acho que Lisboa é que é cidade de nunca se esquecer. Ninguém passa pela capital portuguesa como um sim¬ples passageiro. Lisboa é terra para uma saudade de vida inteira, fina, aconchegante, educada, cheia de cultura, inteligência e arte em cada rua, em cada beco, nos largos, nas travessas, nas praças, nas ladeiras, nos terreiros em vielas ou avenidas, no morro do Castelo ou na beira do Tejo! Eterna menina moça, noiva e namorada, Lisboa tem a mágica de uma lembrança de muitos séculos de história, o encanto das descrições literárias de Eça, de Herculano, de Castilho e até do nosso saudoso David Nasser, que tanto amou o que ele chamava de "Portugal, meu avôzinho". Se Lisboa fosse brasileira, podería¬mos dizê la um doce de coco, tempero de cravo e canela, bem chegada ao nosso coração! Sentimental ou não, o papel do visitante brasileiro é ter muito amor, descobri la, percorrê la, vivê la com carinho e sofreguidão! Apaixonada como Lisboa, viva, vívida, bem vivida, talvez só a nossa Salvador, que em alegria quase santa, é cidade de todos os santos. Tão bonita ou mais bonita, possível que só o Rio de Janeiro. Aconchegante, faceira, quem sabe só Fortaleza ou Maceió! Lisboa muito tem de Manaus, de Porto Ale¬gre, de Belo Horizonte, de Curitiba! Linda, movimentada, antiga e moderna ao mesmo tempo! O gostoso é que Lisboa nunca perde seu encanto, com velhos elevadores, velhas igrejas, o casario de telhados vermelhos em Al¬fama, a beira do Tejo, rio mar, com brancas gaivotas; a historia viva nas paredes de pedras do castelo romano de São João, o Rossio, o Chiado, o bondinho valente da Graça, as cegonhas do Sete Rios, os vendedores de rua, as raparigas de chales negros, as feireiras de saltos de madeira e vistosos brincos de ouro, o Bairro Alto, o som do fa¬do! Encanto em todos os cantos! Mas o mais gostoso em Lisboa são os nomes das ruas ou de todos os lugares por onde passam as gentes, por onde a gente passa. Ninguém pode deles esquecer: Beco da Amorosa, Largo das Garridas, Poço dos Negros, Pátio do Albergue das Crianças Aban¬donadas, A Calçadinha de São Miguel, Beco do Pocinho, Rua das Escolas Gerais, Rua da Fresca, Rua da Bempostinha, Quinta do Espião, Pátio do Joaquim Polícia, Pátio das Malucas, Travessa do Pinto, Quinta da Argolinha, Rua da Horta Nova, Travessa do Vin¬tém das Escolas, Pátio do Ferro de Engomar, Travessa do Pau de¬-ferro, Azinhaga da Bruxa... Tudo um amor! Tem mais, tem muito mais: Pátio da Fartura, Rua da Cozinha Econômica, Rua da Horta das Tripas, Rua Joaquim Leiteiro, Bairro das Galinheiras, Beco da Bicha, Largo do Chafariz de Dentro, Beco do Pocinho, Rua do Benformoso, Vila do Penteado, Rua do Alfredo Pimenta, Largo da Bomba, Beco dos Surradores, Travessia da Ze¬bra, Vila do Cabaço, Rua do Saco, Travessa da Rabicha, Rua da Buraca, Rua dos Bons Dias, Pátio da Mariana Vapor. Cinco são as ruas chamadas Direita, uma rua chamada Esquerda, Rua da Pátria, Rua do Ouro, Terreiro do Paço. Quanta fartura de ruas com nomes de santos, só de Santo Antônio, quase cinqüenta! Existem até a Travessa dos Prazeres, a Rua da Triste Feia e a Praça da Alegria! Não sei quando, mas ainda vou vê las de novo!

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Por Wanderlino Arruda - 22/12/2009 09:15:42
NELSON WASHINGTON VIANNA

Wanderlino Arruda

Escolhi, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, um curvelano mais do que montes clarense. Escolhi o como desejo de marcar de modo definido minha admiração por sua obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do Norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao freqüentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de "causos", assim como ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites. Elegi-o em homenagem a todos os sertanejos que, cansados das tarefas do dia, se sentam nos calca¬nhares para ouvir ou falar com sabedoria. Nel¬son Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esper¬teza do interiorano de Minas, homo rusticus ou homo urbanus, pessoas com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza, tanto para a vida diária como para as letras. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicá¬cia, um savoir vivre e savoir faire difíceis de se encontrar em outra literatura. Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo, que vem do coração de Minas até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Mário Veloso, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou o grande cronista Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, ele não dava muita oportunidade aos mais novos nem para pequenas conversas ou ligeiras troca de idéias. Lembro me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, na varanda da casa de Osmani Barbosa. Estava eu na¬quela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto teórico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista, do homem e do literato, para que eu pudesse, depois, compará lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou se, olhou me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu - e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guima¬rães Rosa não tinha qualquer propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele - segundo ele mesmo - um joão ninguém. É isso o que pensava. Não, não era possível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão des¬critivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, ele e Guimarães eram literariamente sertanejos puros. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser . . . mais para o não ser. Aquele encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, o único, como também estava sendo o primei¬ro. Mudou se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes clarense da Rua Tupis com a Rua Rio de Janeiro, aparentemente distraído e solitário, senhor ou não da vida. Claro que não me reconheceu ... E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou nem a passeio. Coisas que só o Haroldo Lívio deve e pode entender...
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Por Wanderlino Arruda - 9/12/2009 07:06:55
DOCES SAUDADES DO COLÉGIO DIOCESANO

Wanderlino Arruda

Não me canso de ter saudades do tempo bom e gostoso das aulas do Colégio Diocesano, de quando podíamos, todos os dias, sentir e ouvir a alegria do Monsenhor Osmar, a braveza do Padre Agostinho e a terna amizade do Monsenhor Gustavo. É de fato um momento inesquecível, de quando cada gesto era uma lição, cada atitude uma experiência de seres em luta e em paz com a vida. Os três juntos, ou cada um em particular, eram para nós, meninos-rapazes, o grau mais alto da sabedoria, a fonte inesgotável de conhecimento, os degraus por onde alcançar a segurança do futuro. É claro que, particularmente, um por um tinha o seu séqüito de seguidores, dependendo da esperteza ou do grau de inteligência de cada aluno, ou mesmo da maturidade ou falta de juízo, como podíamos encontrar nos mais sérios como Geraldo Miranda e Nivaldo Neves, ou nos mais afoitos como Pai da Mata e João Doido. Em órbita havia gente de todo jeito, tipo Tereziano Dupin, Renato Pobre, Renato Almeida, Dezinho Dias, Ivan Guedes, Lazinho Pimenta, Raimundo Santana, José Maravilha, personalidades marcantes que iam do folclore à poesia, do trabalho sério à justa compenetração. Cada dia era um novo esquema de novidades, de surpresas, uma sensação de estarmos construindo o mundo, preparando-o para a nossa geração e para todas as outras que poderiam vir depois de nós. Ninguém fugia da luta, tirar o corpo de banda, em qualquer tarefa, era um sacrilégio. Matar aulas era pecado capital. Durante a semana não valia nem cinema nem namoro. A ordem era estudar! Uma única transgressão era permitida e só ao Miranda, porque ele havia inovado o sistema, inventado uma saída, namorando com a professora Lourdes, inteligentão que era. O Dezinho Dias, já mais velho um pouco, falava de fazendas, de vez em quando ou toda hora. O Raimundo Santana era um importante, pois tinha bicicleta e tomava uísque antes das provas de matemática. Ivan impunha grande respeito, já era destaque: de vez em quando jantava em restaurante, depois do grêmio e até em dias de semana, pois ganhava boas gorjetas aplicando injeções. A maioria, como eu, não tinha dinheiro nem para picolé ou quebra-queixo, e quando muito, bebíamos caldo de cana. Cafezinho era luxo para pouquíssimos! Professor bom mesmo era o Pedro Santana, vibrante, grã-fino, dominante nas cadeiras de História, Ciências e Inglês, um terror para quem não tivesse as matérias na ponta da língua, a capacidade de responder, falando ou escrevendo, sem gírias. Pedro era tão imponente, que não repetia ternos e gravatas durante um mês, cada dia uma nova cor, hoje um três-botões, amanhã um jaquetão, tudo dentro do melhor figurino de Vavá ou Wilson Drumond. O cabelo, ah! O cabelo era que merecia o maior cuidado! A barba, de um barbear diário na barbearia de Antônio Guedes, com massagem facial, na mesma hora em que também estavam sentados os intelectuais Júlio de Melo Franco e Nelson Vianna, fregueses de manhã cedinho. Errar com Pedro ou com o Padre Agostinho - outro elegante - era imperdoável. A nota menor que um bom aluno podia tirar era dez. O nove era um (de)feito vergonhoso! Havia outros professores famosos e entre eles o Tabajara, a Terezinha Pimenta, Doutor Carlyle, Maria Inês Versiani, D. Rosita Aquino. O professor Belizário, falava latim, declamava admiravelmente, e tinha o cabelo à Castro Alves. Em certas ocasiões, o bispo D. Antônio, simples e simpático, chegava a assistir a algumas aulas, sentado conosco, perguntando e participando, como se não soubesse de tudo! D. Antônio, muito querido de todos os alunos, era a maior inteligência da época, uma cultura universal, um poder oratório que Montes Claros nunca teve igual, nem com Simeão Ribeiro, ou com os doutores Maurício e Georgino. Tudo era um admirável mundo novo, principalmente para mim, que sem ternos e sem paletós - o primeiro foi o Vadiolando Moreira que me deu - achava tudo aquilo um sonho em realização. Maravilhosamente encantado, sedento de aprender, nunca cedendo o primeiro lugar a ninguém, a ninguém mesmo, uma coisa me marcou profundamente a diretiva na vida e me tem servido constantemente de bom exemplo: a alegria de viver de Monsenhor Osmar Novais de Lima, nosso diretor!

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Por Wanderlino Arruda - 1/12/2009 07:28:03
A FOME DO LEÃO DE ADAUTO

Wanderlino Arruda

Quem sempre inventou o maior número de lances da estória do circo pobrezinho é o Adauto Freire. De minha parte, tenho dado a maior contribuição de que sou capaz, mas, nunca consigo ter tanta imaginação como ele, a cada tempo com um novo colorido, um detalhe, uma figuração mais humana para dar mais crédito à criatividade. A estória já tem uns vinte anos e, contada e recontada, principalmente para colegas e ex-colegas do Banco do Brasil, dá sempre um sabor novo e um halo de simpatia. A Raquel por muito tempo deliciou-se com os eventos, no trabalho e em casa, pois o Rafael e o Rodrigo, quando meninos, especializaram-se em armar circos de brinquedo só para fazer o leão urrar com depressão e tristeza. Paulinha, Paulo Sidônio, Maninho, Elizena, Mariazinha, Consuelo, mais sérios, sempre perguntaram até onde podia uma coisa dessas acontecer. Realmente, era um circo bem pobrezinho, muito embora dotado de bom palhaço, de artista comedor de fogo, de trapezista loura, baleiro, tratador do leão. A trapezista era a vendedora dos ingressos quando achava alguém com coragem de comprá-los. O tratador do leão era o mesmo encarregado da pirofagia, isto é, o lambedor das labaredas, e o vendedor de caramelos e de chicletes. O palhaço acumulava também a função de dono e gerente da companhia. Como vemos, pouca gente, que em condições normais seria fácil de se manter. A verdade, porém, era uma lástima, um miserê dos capetas, como diria nosso prefeito Luiz Tadeu Leite nos tempos em que era ainda radialista na D7, com a boca no trombone. Com o correr do tempo, passada a primeira semana com assistência normal, o circo virou uma verdadeira escola de sacrifícios, a fome chegou solta e para valer, privação total, salva apenas por dois pés de manga rosa bem em frente à bilheteria. O palhaço de tão pálido de desnutrição já nem precisava usar tinta amarela nem branca, no que ele aproveitava para fazer economia na pintura do rosto, bastando o vermelho, o preto e azul. Durante o dia, empregou-se como vaqueiro num sítio próximo e, nas horas vagas, trabalhava como embrulhador num supermercado. A trapezista foi ser empregada para almoço e jantar na casa do médico, fazendo ainda uma fezinha como lavadeira no tempo de descanso. O tratador do leão foi ser raizeiro no mercado, principalmente no horário de dar comida, pois, já não agüentava mais os lamentos do bicho, que a todo momento urrava - "e lugarrrr". Difícil mesmo era a situação dos meninos, filhos da necessidade com cara de herege, deitadinhos e coitados, de barriga para cima, perto das mangueiras, quando viam uma manga já com um pouco de brilho, subiam correndo tronco acima, e as virava para tomar sol do outro lado e amadurecer mais depressa, enquanto a fome não fosse de morte. Quando a situação ficou mesmo com o absoluto de pobreza, a metade da cobertura foi vendida para lona de caminhão carvoeiro e as tábuas das arquibancadas foram cedidas a preço de custo para tapume na construção de um grupo escolar da prefeitura. O mais engraçado, na falência da empresa, foi feito com o leão, e isso o Adauto sempre afirmou ser testemunha ocular: passaram sabão de coco com água no corpo da fera, fizeram a barba de alto a baixo e o venderam como cachorro para um comerciante de Montes Claros, cidade-sede da região...

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Por Wanderlino Arruda - 24/11/2009 11:28:20
PRIMEIROS PASSOS

Wanderlino Arruda

Não sei bem porque, mas ser jornalista era um sonho que eu acalentava há muito tempo, bem antes de ter-me mudado para Montes Claros, nos meus adolescentes dias de Taiobeiras, tempos de convívio com tudo que um ainda quase menino poderia sonhar. Escrever para jornais e revistas, naquela época já não me parecia uma coisa totalmente impossível, tinha cheiro de realidade, com boa marca de prazo por acontecer. Na verdade, foi de lá o bom começo, nos meus primeiros exercícios de charadismo e de palavras cruzadas, quando não me limitava à passividade das decifrações, mas indo com determinação a bem mais do que isso: passei a compor charadas e a construir os primeiros desenhos e armar as primeiras batalhas de vocábulos e siglas, encaminhando-os à Revista "Libertas", que a Polícia Militar publicava em Belo Horizonte e à "Revista da Marinha", que o Ministério da Marinha editava no Rio de Janeiro. Era uma experiência e tanto, uma grande alegria ao ver textos e nome publicados em letras de imprensa. Aníbal Rego, amigo e companheiros de estudos, um dos melhores professores que já tive, muito me incentivou, procurando valorizar meus primeiros passos nesse tipo de atividade na imprensa. Desenhar a nanquim eu sabia de alguma forma, o que eu não sabia era datilografar, que era coisa difícil em cidade de interior. Foi aí que Ageu Almeida, outro amigo, nas horas de folga da farmácia, me deu grande ajuda, ensinando-me, corrigindo e, mesmo, passando a limpo minhas primeiras produções. Foi uma boa escola, coisa de jamais me esquecer. Depois, vendo meu esforço, meu interesse, meu pai comprou uma máquina de escrever e um método simplificado de datilografia. Foi para mim, não tenho dúvida, uma fase de encantamento e alegria. Ainda me lembro de tudo como se fosse hoje: coloquei máquina e livro em cima da canastra de madeira e couro, que havia no meu quarto, bem em frente à janela para aproveitar a claridade, e passei a gastar nos exercícios resmas inteiras de papel almaço, batendo e rebatendo as quatro carreiras de teclas - dedos das duas mãos - até adquirir razoável destreza para escrever bilhetes, cartas e pequenos relatos de acontecimentos de cada dia. Foi assim que - quase datilógrafo - cheguei a Montes Claros, em janeiro de 1951, já com meio caminho andado para trabalhar em jornal. Quando o prefeito Enéas Mineiro e médico Luiz Pires fundaram "O Jornal de Montes Claros", alvoroçado, vi abrirem para mim as portas de uma nova profissão, sentindo mesmo que o grande sonho poderia transformar-se em realidade. Nada, porém, aconteceu, porque o excesso de trabalho no comércio, as tarefas no Colégio Diocesano, a leitura de pelo menos um livro por semana, as cartas para a namorada, tudo, tudo não deixava tempo para o futuro jornalista. Na faixa dos sonhos quase reais, num querer muito, acompanhei, mais do que interessado, a primeira fase do jornal, principalmente as polêmicas entre professor Pedro Sant"Ana e o jovem médico João Valle Maurício. Depois veio a política estudantil no grêmio do Instituto Norte Mineiro, com eleições perdidas e eleições ganhas, liderança construída quase a ferro e fogo. Foi também nesse tempo que recebi de Waldir Senna a presidência do Diretório dos Estudantes, numa velha sala da Rua Doutor Santos, em frente ao Hotel São José. E daí, para quem vinha de tão longe na vida estudar de favor, o novo cargo era um brilho súbito, uma quase consagração, nome diariamente no rádio e pelo menos duas vezes por semana nos jornais. Deve ter sido por isso que o professor José Márcio de Aguiar, que não era tão meu amigo como o era de Haroldo Lívio, resolveu atender o pedido de Oswaldo Antunes e me mandar para o JMC. Antes, recomendou-me o máximo de respeito à gramática, cuidados no contato com o público, e mais do que isso: nunca esperar do jornalismo a riqueza de saldos bancários, porque jornalismo teria que ser sempre um sacerdócio, ou mais do que isso. Trabalhei três meses sem ver cor de dinheiro, tudo completamente de graça e até com alguma despesa saída do meu próprio bolso. Depois, Oswaldo destinou ao jovem e apressado repórter o diminuto salário de mil cruzeiros, sominha que nem dava para pagar um mês inteiro à pensão de D. Duca. Um bom começo. Claro, um bom começo!

Do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/11/2009 13:04:26
ENCANTADORA A POESIA DE EVANY

Wanderlino Arruda

Somente a sabedoria nos coloca em situação de ver além das aparências, seja esta dos fatos, seja esta dos sonhos. Só a sabedoria remete-nos direto ao significado verdadeiro de cada acontecimento, de cada nesga ou lance de vida. Somente a sabedoria nos faz ver uma legítima dimensão poética e a função quase divina de quem pensa e de quem faz o verso e o ritmo do verso, melhor dizendo, de quem é e de quem se sente poeta. Digo mais: só a minha experiência - não muito nova no campo do saber literário - me remete à interpretação do muito bonito e encantador texto de Evany Cavalcante Brito Calábria, ao mesmo tempo história e marca de família, ao mesmo tempo estórias e causos mineiros, entreouvidos e sentidos com a marca existencial da menina, sempre linda e criativa. Leitor atento de todos os poemas deste INFÂNCIA VERDE, confesso que faço minha a conhecida posição de Ferreira Gullar em relação ao fazer poético e a esse universo que não conseguimos aprender no todo, porque nascido conosco no modo até mais do que pessoal. Somos seres do grafar e do laborar palavras e sentimentos. Temos o talento e a inspiração que chegam como relâmpagos e por caminhos de sonhos, tudo dividido ou multiplicado, tempo-espaço do ser, do viver e do conviver. Só ao poeta a necessidade de espanto com as coisas e com os acontecimentos, flor e fruto da motivação que leva ao poema e à poesia, algo muito mais do céu do que da terra. Em poesia o saber, o saber fazer e o querer fazer não são suficientes, porque de nada adianta a técnica quando não há inspiração e/ou marcas de sentimentos. Mesmo para seres privilegiados por Deus para entregar ao mundo a ordenação lógica das palavras, só uma vivência encantada nos permite construir - versos depois de versos - textos com cadência e musicalidade, haja ou não rimas de dentro ou de fora. Para o poeta a epopéia ou o lirismo, querendo ou não querendo um modo diferente de lidar com idéias, um superar limites racionais, quase sempre sem o controle da razão. Sinto-me feliz e prazeroso com os muitos textos de Evany, bonitos e elegantes do começo ao fim, tudo gramaticalmente limpo e perfeito, resgate da infância que o tempo não desviou em momento algum, sempre vida bem vivida em saudades do passado e em vôos de esperança e de futuro. Na idéia de D. Olga, mãe e conselheira, em Evany a poesia é um eterno querer bem, um dizer sim para todas as belezas do corpo e do espírito. Por mais que essa poesia se esquive de suas mãos, Evany fugir ou fingir não pode, porque ela inteirinha é um colorido momento de saudades, sempre e sempre uma pura alegria, cenário de sonhos, princesa e rainha vestida e revestida de amor. Sobre isso, a própria Evany faz relembranças: "Eu tinha doze anos e uma vida inteira". Tinha e tem, digo eu, prefaciador do seu primeiro livro. Não somente de imagens e de idéias, não somente arco-íris de beleza, Evany é mulher decidida e incrivelmente organizada, sempre afeita ao trabalho de cada dia. A ela, por isso, posso atribuir em parte e com pequenas modificações, os versos de Camões que dizem não aprender somente na fantasia, sonhando, imaginando ou estudando, senão vendo, tratando e pelejando. Afinal, o mundo vitorioso está nas mãos das pessoas que têm coragem de sonhar e laborar, pessoas capazes de correr risco para viver todos os seus sonhos. Feliz de quem atravessa a vida tendo mil razões para viver. Um charmoso jogo de amor! Desejo a Evany todo o sucesso do mundo, certo de que a sua lavra poética está entre as dez mais bem aquinhoadas de nossa Montes Claros. Conscientemente hábil nos raciocínios e nos sonhos, Evany pode dizer como disse o poeta Manuel Bandeira: "Não faço poesia quando quero e sim quando ela, poesia, quer." E como Cora Coralina: "Nunca escreverei uma palavra para lamentar a vida. Meu verso é água corrente, é tronco, é fronde, é folha, é semente, é vida". Evany - ser especial - é água, fogo, brisa e vento... Telúrica ainda menina, telúrica moça, telúrica mulher. É espaço, terra e tempo... É uma trajetória do pensar e do viver com alegria, vereda fértil de amor e de carinho, uma imensa vontade de caminhar... ir e vir ao mesmo tempo. Este INFÂNCIA VERDE, publicado em nosso Consórcio Literário da Secretaria de Cultura, não é apenas o seu primeiro livro, é pedra angular de muitos outros. O segundo e o terceiro já estão pertinho da editora... Academia Montesclarense de Letras


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Por Wanderlino Arruda - 20/10/2009 09:04:09
CLASSE E ELEGÂNCIA

Wanderlino Arruda

Como, há algum tempo, falei de etiqueta social, de um meio curso da Socila que acidentalmente fiz no Rio, aproveitando intervalos de função pedagógica no Banco do Brasil, sinto-me, hoje na obrigação de transmitir para o pessoal do centro e da periferia algumas regrinhas de bom-tom que muito ajudam na elegância do bem-viver. Falo assim de centro e periferia sem a mínima vontade de discriminar ou dividir o mundo em pobres e ricos. Longe de mim em pensar nisso! Falo, porque tudo hoje virou farinha do mesmo saco, ricos passando para a classe média, remediados chegando à pobreza, pobres subindo de vida, ou até mesmo ficando mais pobres. Uma mistura proletária na maior parte com o facão de impostos do governo podando por cima e por baixo. Na descida de quem paga e na subida de quem recebe, aparece até a classe dos marajás, que também precisam de etiqueta para explicar educadamente quanto ganham, ou abocanham. Pois bem, em primeiro lugar no trato do dia-a-dia é preciso aprender a apresentar ou ser apresentado, como cumprimentar, como pedir desculpas, como evitar ou sair-se das gafes, como ser elegante mesmo nunca tendo ao menos sonhado com um berço de ouro. Claro que há pessoas expansivas e pessoas tímidas, cada qual terá seu próprio ânimo na hora de agir. O essencial é não preocupar-se demais com as formalidades. Agindo naturalmente, a possibilidade de erros será sempre menor, embora necessário o conhecimento das regras. Nada de frases empolgadas como “permita-me que eu lhe apresente...”, “Eu tenho o imenso prazer de apresentar-lhe...”. Basta um “Você conhece...” ou “Faço a questão que você conheça...”. Apresente sempre a pessoa menos a mais importante. A mais jovem a mais velha, o homem à mulher. O sobrenome é válido, ainda mesmo que entre os jovens. É pelo sobrenome que as pessoas podem identificar, localizar os pontos de referência comuns. Nem sempre é indispensável citação da família, principalmente nas cidades menores. Cabe à pessoa mais importante, àquela que recebe a apresentação, fazer o primeiro gesto, e estender a mão, fazer um aceno de cabeça. Acrescente à apresentação algum dado que qualifique as pessoas. “Você conhece Eva, uma ótima professora?”, “Já conhece o Hércules, um excelente advogado?”. Isso dará a motivação para a conversa, o gancho para o início de assunto. Há sempre um momento de pânico quando você esquece o nome da pessoa que tem de apresentar. Há várias possibilidades: a) você pergunta claramente à pessoa em questão qual o seu nome, dizendo que se esqueceu; é uma maneira sincera de agir, mas corre-se o risco de magoar o outro; b) evita apresentar, incluindo apenas o outro na conversa; e c) você usa uma fórmula intermediária, do gênero: “Vocês já se conhecem?”, que, em geral, leva as pessoas a se apresentarem. Com simplicidade e simpatia, tudo ficará bem colocado. Outra coisa: pedir desculpas é bom e louvável, é um ato social indispensável, e bom que seja mesmo na hora do erro. Ninguém precisa ficar com vergonha de pedir desculpas. Se não o fizer na hora, que o faça depois por telefone, com um cartão, com bilhete. O que não pode é deixar passar um erro ou indelicadeza sem uma palavra de explicação. Seja você com toda a sinceridade. Só os inimigos não mandam flores! E por falar em sinceridade e educação, muito obrigado à Revista Nova, de onde realizei a pesquisa para toda essa sabedoria na arte de viver mais civilizada.

(Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros)


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Por Wanderlino Arruda - 7/10/2009 07:07:44
JOÃO CHAVES

Wanderlino Arruda

No antes, no durante e no depois sempre um feliz encanto tem marcado a vida de João Chaves. Isso é coisa que o leitor, que acaba de acompanhar todos os capítulos do livro de Amelina Chaves, não precisa de muito esforço para verificar. Basta um pouco de visão panorâmica e raciocínio comparativo para valores humanos - pessoais ou de família - importantes no tempo e na vida. Assim, vejamos, leitor/leitora, se estou ou não com a lógica, se tenho ou não tenho razão. Voltemos, pois, a nossa análise para para todas as páginas deste livro e decifremos os Chaves e a chave do sucesso do biografado João Chaves. A primeira visão, o primeiro foco tinha que estar realmente no Cônego Chaves, ser fecundante em idéias e ações, em amor à fé e à vida, multiplicador de encargos na qualidade e na quantidade da quase iniciante população da Vila de Formigas. Ótimo exemplo de quem deseja um mundo maior e melhor. Do ontem ao hoje, toda uma riqueza de filhos e filhos dos filhos, em quatro gerações, cada um dando conta do seu recado na mecânica da criação. Mais seres e saberes, nas belezas da vida e da arte. Bom e importante que no centro do tempo esteja João Chaves, nosso maior e mais conhecido autor e ator de serestas, com função encantatória de elevar poderes de amor ao Céu e à Terra. Nas manhãs, sublimidade nos cantos de fé; nas tardes e noites, ternura em canções de amizade e amor. Sempre arte, sempre emoção, compromissos com a lua, seja em estreitas ruas e pequenas praças: sedutoras por natureza; seja em frias campas: sentido mais nítido da verdadeira saudade. A importância de João Chaves não esteve somente na proficiência jurídica, em que foi mestre reconhecido e seguido. Muito devemos a ele pela antecipação de teorias e aplicações da Qualidade e da Inteligência Emocional, pois que tudo que realizou teve a marca de zelo profissional e paixão humanamente sorvida: um luxo só! Zelo nas letras, zelo nas músicas, vaidade na divulgação de umas e de outras. Um homem de marketing a aproveitar todo o tempo, disposição sem limites. Bem vestido, gravata borboleta como diferencial, era árbitro da elegância sempre com ternos bem talhados, sapatos de pelica, colarinhos e punhos magnificamente engomados. Palmas para Dona Mercês, senhora e escrava de tudo. Não é favor - e não é mesmo - colocar João Chaves entre os melhores e mais eficientes construtores da cultura de Montes Claros. "Amo-te muito" e " O Bardo", pontos altos da seresta, têm dimensões importantes no cenário nacional, principalmente para os mais entendidos. Não se tem notícia de qualquer idéia em contrário. Poucas músicas, no Brasil, receberam tão entusiásticos elogios. Em qualquer tempo! Parabéns, Amelina Chaves, amiga e companheira, pelo muito que você tem resgatado dos saberes e dos costumes de nosso povo e de nossa região, principalmente desta Montes Claros, cidade da arte e da cultura. Com este livro - JOÃO CHAVES, ETERNA LEMBRANÇA - todos nós ficamos mais bem informados e mais convencidos no papel de destinatários e produtores da história local. Continue produzindo, continue embelezando a poesia das vidas edificantes. As gerações vindouras, por certo, muito lhe vão agradecer.

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Por Wanderlino Arruda - 29/9/2009 09:10:51
O GÊNIO LEONARDO DA VINCI
Wanderlino Arruda

Eu lera com sofreguidão e por várias vezes o anúncio “assinado” por Leonardo da Vinci e publicado em revistas nacionais. Era um convite para uma exposição preparada, em Nova York, por um artista da IBM americana e destinada a salões do mundo inteiro, no Brasil às cidades de São Paulo, Rio e Brasília. A publicidade dizia, com atualização, que até o fim do ano, mas sem marcar data específica, os admiradores da vida e da obra de Leonardo da Vinci poderiam com calma, percorrer toda a trajetória de suas invenções de aparelhos, seus textos, seus enigmas estariam à disposição de quantos se interessassem e dispusessem de algum tempo para viver e sonhar o sucesso. Era só esperar!
Na ocasião da leitura do anúncio, prometi a mim mesmo fazer viagem a qualquer uma das três capitais, simplesmente porque não poderia deixar de ver a exposição, de conhecê-la, de admirá-la como um presente à cultura, ao conhecimento e à existência. Vida difícil, corrida, trabalhosa, o tempo passou, e a desinformação do interior acabou deixando passar despercebidas as mostras de São Paulo e do Rio. Nenhuma notícia, não onde, não quando. Nenhuma explicação para mim mesmo do porque não ter acompanhado o assunto com mais cuidado. Cheguei a pensar mais tarde de quanto teria perdido se não fosse o acaso me ter colocado em Brasília exatamente nos três últimos dias de presença, do gênio e da alma do Leonardo, mesclados com a beleza e a grandiosidade do Teatro Nacional, formando uma simbiose de artes egípcia e italiana.
Primeiro assisti ao vídeo bem feito com os principais fatos da existência do mestre Leonardo, seus relacionamentos, seus esforços, sua garra de criar o impossível e possível. Depois, percorri todo o roteiro inventivo. Não apenas um dos maiores pintores da humanidade, a curiosidade sem limites levou-o a explorar todos os ramos do conhecimento e a criar engenhos que ultrapassam tempo e espaço. Assim, pela ordem, uma maravilhosa exposição explicativa, descritiva, da ponte giratória, do inclinômetro, da metralhadora tripla, da impressora automática, do macaco hidráulico, da assadeira com ar quente. Logo adiante, o higrômetro, o helicóptero, o ornitóptero, a transmissão de velocidade variável, a ponte de dois níveis, o pára-quedas, os cascos fusiformes e duplos de navios, o mecanismo de relógio, o odômetro, o tanque de guerra.
Leonardo da Vinci, através do também gênio Roberto Guatelli da IBM, autor de todas as maquetes realizadas com absoluta precisão, estava mais vivo do que nunca, presente até, incorporado à mais avançada tecnologia mundial do momento, despertando e revivendo a admiração de cada visitante. Ninguém é capaz de resistir a emoção de vê-los e amá-los, de acompanhá-los como maiores inteligências e capacidades de sonho. Cinco séculos depois, afinal, a IBM pôde oferecer um dos mais belos acontecimentos, uma das provas mais palpáveis do quanto o esforço e a vontade de vencer podem engrandecer o homem. Não só o gênio é necessário. Leonardo da Vinci, mais do que qualquer outro artista é criador, provou que o trabalho incessante e decisivo ainda é a melhor forma de produzir inteligência e genialidade.
Os séculos futuros jamais esquecerão Leonardo da Vinci!

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Por Wanderlino Arruda - 22/9/2009 21:45:03
SER FELIZ É A NOSSA META
Wanderlino Arruda

É triste, muito triste, ver como o mundo se acha cheio de ansiedades, de conceitos puramente materialistas e utilitaristas. Pessoas e mais pessoas se esquecem da beleza da vida, da generosidade de outras pessoas, e se colocam como pequenos donos de um pedaço de meia-verdade, julgando-se numa independência que não existe. Esquecem-se de que a existência é um insistente ensino, uma perseverante luta pela felicidade e que só podemos ser felizes na caminhada solidária, de mãos dadas, unidos, com toda a alegria possível, com toda coragem, ou pelo menos com um pouco de sorriso em agradecimento à própria vida. De nada adianta o transbordamento das paixões, a manutenção de arestas morais, o narcisismo, a supervalorização, o pretexto domínio da inteligência ou do poder, o ódio sem direção ou mesmo direcionado. Tudo é vão, o viver é um crescimento espiritual de todo o tempo.
Amar a si mesmo é importante, mas é preciso amar o semelhante. E amar impõe sinceridade pessoal, desprendimento, uma visão clara de sonhos e realidades, um gostar do outro, um querer bem sem limites. De nada vale o isolamento, a limitação, só a defesa do próprio interesse, a fanfarronice vazia e boba, uma falsa autoconfiança, o desprezo bulhento aos que amam a vida. De nada vale a falsa declaração de amor, sem identificação com o bem geral. É preciso desnovelar-se num esforço de melhoria geral, abrir os olhos para a paz, a paz das quatro paredes da nossa casa, a paz da nossa rua, dos nossos companheiros de jornada, a paz do mundo. Para alcançarmos a alegria, necessário é desafadigar-nos das opacas viseiras da falsa auto-suficiência, triste posição da pessoa infeliz.
Há ardorosos propagandistas de si mesmo que não passam do labirinto da sua própria ilusão, mas que caminham por caminhos tão estreitos e tão vulneráveis que nunca enganam a ninguém. Falam de liberdade, pregam autonomia, fomentam guerras, exterminam simpatias, direcionam-se para o fanatismo, combatem falsamente os preconceitos, mas não sabem libertar-se da cordoalha da servidão mental a que são jungidos por si mesmos.
É preciso restaurar a fé nos semelhantes, semear a palavra de vida na luz da esperança, viver com amor verdadeiro, perseverar no bem, tirar as lentes negras de diante dos olhos físicos e espirituais. Trombetear importância nunca foi medida levada a sério, porque a avidez de promoção pode ser atalho de caminhos, mas será sempre lodaçal de incompreensões. Não se deve morrer de orgulho, porque nem sempre a existência ajuntará o pequeno punhado de amigos que cada um tem. Eles podem espantar-se da nossa própria inconsciência.
Que cada um submeta-se ao currículo da aprendizagem na academia da vida, propondo valorizar todas as lições que estudam e preparam a conquista de tesouros maiores da inteligência e do sentimento. Cada período brinda-se com nova gama de experiências. É importante saber tirar proveitos do equilíbrio dos que são verdadeiramente equilibrados. É importantíssimo saber viver todos os momentos possíveis da felicidade. Na verdade, ser feliz é a nossa meta. E para ser feliz é preciso saber retribuir o bem, ter gratidão. A vida não é só pedir. É muito mais agradecer!


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49829
Por Wanderlino Arruda - 9/9/2009 08:18:57
CRÔNICA É ALGUMA COISA QUE MUITO EXISTE

Wanderlino Arruda

Antes de mais nada, é bom dizer que crônica é coisa de jornal e de internet. Sempre feita depressa, com hora marcada, muitas vezes com atraso. É construída de pequenos lances, registro mais do circunstancial e não do definitivo. Assuntos efêmeros, soma de jornalismo e literatura, os temas, vez por outra, ganham concretude, universalidade, jeito especial na ultrapassagem de tempo e espaço. Crônica é comentário de assuntos que podem ser ou não ser do conhecimento do público, tipo assim - como dizem os jovens - de algum ângulo subjetivo de acontecências. Conteúdo de crônica é algo recriado pelo cronista, espécie de busca do existente ou do imaginário muito próxima do conto. Crônica pode ser sempre narração de experiência ou de sonhos, visão de mundo e de vida, reportagem quase em nível poético. A crônica tem de ter aparência de simplicidade, mesmo que seja construída com recursos artísticos. Como um jornal ou um blog nasce, vive, envelhece e morre a cada dia, a crônica é destinada a leitores apressados, feita para ligeiro momento de leitura. Precisa de pelo menos um sentido de duração, ser mensagem para ficar na memória. Não pode, nem deve ser esquecida como folha impressa ou imagem virtual. Crônica não é notícia comum, codificada só para informação diária, tem que ter profundidade. É mais para o sentimento, palavras diretamente ligadas à emoção, fazendo do leitor um cúmplice ideológico da condição humana. É um reencontro com o prazer ameno, uma intensidade de sinais de vida que, se não escritos, acabam deslizados para o esquecimento. Claro que é a pressa de viver do cronista a vontade de estar presente e de ser ao mesmo tempo em determinado lugar, que o faz testemunha, porta voz e intérprete de um quase real normalmente gratificante. A crônica é mais um espaço de dimensão interior repartida entre escritor e leitor, ternura resgatada das experiências de cada um. Cada palavra, cada frase, cada silêncio representarão significados mais do individual do que do coletivo, pois, no fundo, a crônica é uma conversa entre duas pessoas, um conluio positivo e amigo, quando um e outro vêem mundo e vida da mesma forma que ambos gostariam de ver. O autor constrói o texto e lhe dá o colorido quase que pré-combinado com o seu parceiro leitor. Comparada com formas mais consistentes, a crônica é mais uma tenda, um pequeno abrigo espiritual, nunca uma casa de verdade. A crônica serve ao espírito como ato de reflexão compartilhada e mágica, algo assim de ligeiro conforto. Em verdade, a crônica é alguma coisa que muito existe, mas que se não fossem os olhos do cronista, jamais apareceria em público. Um acontecimento não escrito é mera potencialidade dispersa, conteúdo não sentido, essência não encontrada. Viva - pois e assim - hoje e sempre - a crônica!

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49534
Por Wanderlino Arruda - 30/8/2009 23:18:41
Montes Claros, Cidade da Arte e da Cultura

Wanderlino Arruda

É Montes Claros realmente uma cidade de arte e cultura? O que tem sido feito nos últimos cinqüenta anos pelos artistas, pelos intelectuais e pelo poder público no sentido de aumentar a nossa produção de arte? Existe um esforço que possa ser considerado sério? Há liberdade ou há manipulação política nos setores da cultura? Afinal, quais são as perspectivas para o futuro, neste já bem iniciado século XXI e III milênio? Muitas são as perguntas, especulações de todo tipo podem ser formuladas, considerações de ordem erudita ou popular podem ser apresentadas. Muito espaço pode ser gasto em cogitações, porque o assunto é complexo e merece estudo minucioso. Nada mais verdadeiro, no momento, do que a necessidade de pensar e repensar, tudo tecnicamente, sem paixões, sem interesses pessoais, sem a demagogia dos que quiseram ou ainda podem querer impor, com exploração do povo, que, facilmente, se deixa iludir. A primeira coisa que deve ser feita, a meu ver, é acabar com a bobagem de divisão entre cultura erudita e cultura popular, porque tudo é a mesma coisa. A manifestação de arte e inteligência não escolhe origens, pode vir de qualquer parte da cidade, do município e da região. O que existe é interesse maior ou menor de estudos, de pesquisas, de trabalho de apresentação de resultados. De nada adianta querer sufocar as chamadas elites culturais, com pretextos de popularismos bestas e interesseiros no sentido eleitoral. Arte e cultura nada têm a ver com partidos políticos. Pertencem, sim, à sociedade como um todo. O apoio, ou melhor, a liberdade de ação deve ser oferecida de modo amplo e irrestrito a todos os habitantes, e em todos os setores: música, pintura, literatura, teatro, desenho, escultura, dança, sites, blogs, etc., que a inventiva humana não tem limites. Agora, que a Cultura está voltada para atividades de forma global, pode ser realmente uma fonte de programações que resultem movimentação artística verdadeiramente ampla, sem distinções de segmentação social. Não quer dizer que seja a Praça Doutor Chaves o único espaço de cultura, pois muitos outros existem, mas é lá - pode-se considerar - uma vertente de trabalho, o pólo principal, capaz de coordenar, incentivar, produzir, divulgar, distribuir, programar, premiar, provocar a criação constante. Muito pode ser esperado, principalmente porque a turma da Cultura de bom tempo para cá vem trabalhando com critérios técnicos e competência comprovada, sem ranço político de qualquer espécie e com trânsito livre em todo e qualquer setor da cidade. Mais do que tudo: com interesse da arte pela arte. Ótimo que já tenha passado o tempo da chamada inteligência do boi. Ótimo mesmo!

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49381
Por Wanderlino Arruda - 26/8/2009 08:00:36
ARTE DE FALAR EM PÚBLICO

Wanderlino Arruda

Em curso de oratória que tive oportunidade de ministrar, algum tempo atrás, para vinte participantes, na Academia Montes-clarense de Letras, vivi poucos dias e muitas horas de intenso labor dirigido aos objetivos do mais gratificante prisma da comunicação. É que o falar em público, a arte da eloqüência, o verdadeiro discurso, aquele que agrada e gratifica a quem fala e a quem ouve, é indiscutivelmente uma realização pessoal, sempre recebido com prazer e, muitas vezes, com emoção. Difícil de acontecer, porque, resultado de dom, de cultura, de domínio lingüístico e de longo treinamento, a oratória legítima fica a cada dia mais distante de se encontrar. Há os que falam com brilhantismo e beleza, os que dão vida às frases e períodos, criando o ambiente receptivo, estabelecendo os liames da verdadeira compreensão. Estes trabalham mais achegados no campo da arte ao gerar novas possibilidades no manejo do pensamento, plasmando formas, movimentos, cores, oferecendo novas imagens à inteligência. Há também os que, sem conseguir a perfeição da forma, alcançam a melhoria do entendimento, transmitido e comunicando com segurança a cultura e o saber, voltados mais para a ciência da didática e da informação. Estes mais professores do que artistas, mais objetivos e pragmáticos, são os informadores e formadores do conhecimento. Não sei a quem atribuir o mérito maior, já que o mundo é uma composição de ciência e de arte, de engenho e beleza. O pensamento, abstrato para quem só sabe pensar, mas muitissimamente concreto para os que materializam a palavra, em qualquer de suas formas, será sempre objeto de curiosidade e de interesse sincero. É através dele que se verificam a aprendizagem, a compreensão, o entendimento, bem como as possibilidades de análise, síntese e de crítica, coordenadas construtoras de todos os elementos civilizatórios. Na verdade, o mundo, em todo processamento histórico, vem sendo construído, em primeiro lugar, pela força das idéias, pela projeção do raciocínio dos grandes líderes de todos os tempos. Creio, sinceramente, que Juscelino Kubitschek, o grande modificador das estruturas do progresso brasileiro, o homem de fronteiras, o bandeirante do otimismo, realizou muito mais pela força da retórica do que propriamente pelo dinamismo do trabalho. Sua palavra, clara, direta e bonita, era uma receptiva usina de coragem e decisão, plasmadora de patriotismo, convincente, agradável de ser ouvida e, sobretudo, confiável e confiante. Um presidente de todos os lugares e de todas as pessoas, festivo nos contatos e sério nas decisões, soube liderar, escutando com paciência e falando com entusiasmo. Sua palavra rasgou mais territórios do que os tratores das construtoras, e desbastou e esculpiu e cinzelou uma nova realidade. Assim, palavra vai e palavra vem, é bom acreditar nela, convencer-se da sua força, sentir todo o seu poder. É necessário, pois, estudá-la, vivê-la, acostumar-se ao seu fascínio. Não nos esqueçamos de que foi com o exemplo e com a palavra que um humilde carpinteiro da Galiléia modificou a história da humanidade.

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48870
Por Wanderlino Arruda - 12/8/2009 07:49:28
Ruth Tupinambá
Wanderlino Arruda

Muito tempo atrás, num comentário que fiz no Elos Clube sobre Hermes de Paula, falando da continuidade de escrita da história de Montes Claros, apontei a acadêmica Ruth Tupinambá Graça como a pessoa indicada para essa importante tarefa. Sei que alguns elistas até puderam ter julgado minha opinião como fruto de entusiasmo de momento, um arroubo de palestrante amigo e companheiro. A própria Ruth Tupinambá deve ter pensado o mesmo, pois sorriu descrente, nunca se colocando como continuadora da obra do nosso mais famoso historiador. A memória recente sobre Hermes de Paula, principalmente agora no seu Centenário, ainda é muito viva. A admiração por ele é incontestável, a visão de sua luta diária com os acontecimentos o coloca como insubstituível e, por isso, ainda não se firmou o pensamento de que a história não pára e exige outro acompanhante.
Continuo, pois, dizendo que depois de Hermes de Paula, mesmo passado meio século da publicação do seu livro principal, deve vir Ruth Tupinambá Graça. Não só deve, como precisa que venha. Precisamos de alguém que conheça a cidade e sua gente, alguém que goste do trabalho de registrar acontecimentos e de marcar as presenças das personagens nesses acontecimentos. Alguém que tenha amor suficiente à cidade e que saiba como manusear as palavras para pintar e descrever os momentos dignos de registros. Precisamos, sobretudo, de uma pessoa que seja, ao mesmo tempo, repórter, cronista, documentadora e contadora de histórias. E estas qualidades a autora de “Montes Claros Era Assim...” tem de sobra. Sem nenhuma intenção de fazer trocadilhos, posso dizer que Ruth Tupinambá tem muita graça para isso. Escreve com a suavidade de quem toma banho em cachoeira, com limpidez e transparência.
Ressalte-se também o fato de ela conhecer muito bem o passado de Montes Claros, desde quando se entendeu por gente. Menina curiosa, versátil, muito inteligente e perspicaz, ela observou tudo e, às vezes, até acompanhou e viveu muitos episódios, principalmente a atuação das pessoas, as visões de cortes sociais, os ambientes, as mudanças físicas e psicológicas. Analista da alma humana, Ruth Tupinambá alcança cada gesto, cada piscar de alegria, cada remoer de tristezas. Em tudo ela vê cores, sons, dimensões, o amor ou o desamor, as crendices, o folclórico. Ruth tem imensa saudade de todas as horas, e isso lhe dá condições de sempre refrescar as lembranças da memória e do coração. Parece-me um bom passaporte para a posição de historiadora, pelo menos para a criação da história apaixonada como sempre o fez Hermes de Paula.
Já quase sem espaço nesta crônica, quero dizer que o livro “Montes Claros Era Assim...” é uma boa oportunidade de conhecermos o passado da cidade, esse conjunto de gente sertaneja e vivedora que soube crescer e multiplicar. É bom, minha senhora, ler depressa (ou devagar, conforme o gosto) todas as crônicas do livro de Ruth Tupinambá para saber tudo ou, pelo menos, o lado mais interessante das coisas e das gentes. Nelas estarão os “cometas”, os bruaqueiros, o velho Christoff (pai de Konstantin), o velho João Maurício, o primo Luís, o Sinval Amorim e seu bar, a Euterpe Montes-clarense, o Cine Montes Claros, o “footing” da Rua Quinze, as boiadas, os carros de bois, os circos, a brincadeira da argolinha, a Matriz, um grande universo de assuntos que marcam saudades.
Depois da leitura, pode vir o julgamento se Ruth Tupinambá é ou não nossa real e experiente historiadora, testemunha ocular e personagem ao mesmo tempo. Tudo com muito amor!

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48627
Por Wanderlino Arruda - 5/8/2009 18:10:49
O MULO DARCY RIBEIRO

Wanderlino Arruda

O lançamento do segundo romance de Darcy Ribeiro-"O MULO"- na Academia Montesclarense de Letras, numa descontraída noite de alguns anos atrás, foi um reencontro de alegria e de contrastes, com um amado e temido filho da terra a derramar nos ouvidos o mel e o fel de santas heresias e virtudes. Ora terno, doente de romantismo, saudoso filho de dona Fininha Silveira, ora demolidor, prenhe de força belicosa, irmão de Mário Ribeiro, ora compulsivamente criativo, primo espiritual de Konstantin Christoff. É que Darcy Ribeiro nasceu pouco adaptado ao modo e ao jeito dos mineiros, nunca afeito ao silêncio, ao retraimento, mas, ao contrário, incomodo para inteligências e sentimentos preguiçosos, bisturi ou látego auto-conduzido e sempre a si mesmo proclamado. Ao contrário de Ciro dos Anjos, outro montes-clarense famoso no mundo das Letras, este sereno, machadiano, universalista, acomodado como um velho funcionário público, a curtir um silêncio invisível, Darcy Ribeiro é e afigura-se agitado, fogoso, tropicalmente brasileiro, aquecido de alma e corpo, de lufa e de luta, instintivo, felino como um condor. De inteligência selvagem, incontida, Darcy raciocina como uma ventania de amor a tudo que é cultura. Curtido primitivamente no sol e no solo do sertão de Montes Claros, fruto teórico de ternura e de instinto, de voluptuosa ambição de mundo. Darcy é um caldeirão efervescente de idéias como a querer viver em uma só vida todas as vidas. Mortal, tem pretensões de imortalidade e imortal se fez pelos feitos multifeitos. Bem brasileiro, latinamente apaixonado, traz na alma o Mulo Darcy retalhos de peles de todas as cores: a cor do índio, a cor do negro, lembranças atávicas do misticismo dos celtas, aguerrida força de velhos godos, gosto de mando da alma ibérica, uma noção tão grande de espaço e de glória que só navegadores fenícios poderiam ter impregnado o sangue de marinheiros do velho Portugal. Tem mais: Darcy é lúbrico como um cristão novo, fogoso como um nômade cavaleiro árabe. Na verdade, é um homem com a alma da raça, e não só da portuguesa, da índia e da africana, misturadas no cadinho brasileiro. E da raça humana, pois portador de muitas virtudes e de muitos defeitos, um caldo bem temperado de sêmens jorrados do chuveiro eterno, não sei porque nascido em Montes Claros. O MULO é esta cidade sedenta de força humanamente parceira de Deus na distribuição da vida e da morte; divinamente sequiosa na busca de amor, criadoramente envolvente na caça do mando e do poder. Sensual, oportunista, material, religiosamente mística, faminta da novidade, sonhadora de futuro. O MULO é um pedaço de cada criatura que viva ébria da própria terra natal, homem ou mulher. O MULO tem muito de João Valle Maurício na palavra e na sutileza, muito de Konstantin no arregalo da anatomia, no desenhar das forças; muito de Crispim da Rocha no faro do homem do mato, forte e inteligente; muito de Filomeno na sede do ter e do governar; muito de Plínio Ribeiro, no misticismo, no gosto do idear, no ser e não ser da vida. O MULO é Darcy e é Mário Ribeiro, inconseqüentes e perseverantes, sempre determinados. O MULO, centro de uma bem romanceada trama de Realismo e Naturalismo, barroco talvez pelos contrastes, hereditariamente marcado pelo destino, fruto do amor e do desamor, sem peias, sem origem e sem destino produto da terra e da carne, tudo e muito de todos nós, pequenas ou grandiosas criaturas no sofrer e no gozar. E que Deus nos perdoe, amém!

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48344
Por Wanderlino Arruda - 29/7/2009 07:36:56
HOTEL SÃO JOSÉ

Wanderlino Arruda

Sempre foi bom e importante para as minhas lembranças o percorrer, aos poucos, a rua Doutor Santos, desde que recebi um pedido do meu amigo Elton Jackson e também em obediência a um esquema tempo/espaço traçado desde as minhas primeiras crônicas so­bre o centro de Montes Claros. O meu objetivo era chegar à Rua Bocaiúva e, aí, em atendimento a um sonho de minha amiga Nailê, fiel cobradora de minhas lembranças de vizinho, falar de quando ela era criança, quase menina‑moça, dos tempos de nascimento do João Wlader e de José Danilo. Passo a passo, saí do Hotel São Luiz, de D. Naza­reth Sobreira, e do Bar de Adail Sarmento, no início da rua, até chegar ao Hotel São José, de D. Laura e, depois, de D. Emília e do inesquecível Juca de Chichico e do eterno gerente Geraldo. São lembranças agradáveis, grandemente gratificantes de um jovem que alcançava a idade adulta, já hóspede em hotel, com uma indi­vidualidade e uma privacidade nunca antes imaginadas como mo­rador de pensões. No Hotel São José, cuja placa dizia ser o maior e o melhor, ser hóspede já era um grande privilégio, marcava, quer queira quer não, um status de matar de inveja os estudantes de repúblicas, ou aqueles que viviam desprezados nas casas de parentes, muitos em barracões de fundo de quintal. Foi lá que tive, pela primeira vez, um quarto só meu, com pia e guarda‑roupa, inicialmente, no térreo, do lado de dentro do pátio, na ala da praça Cel. Ribeiro, e, depois, no primeiro andar, quase de frente para os dois mais importantes endereços internos: os apartamentos de Ademar Leal Fagundes e do diretor do DNOCS, de quem não me lembro mais o nome. Foi uma melho­ria de situação social que quase não tinha limites, quando comprei, duas calças de tropical, uma meia dúzia de camisas sociais, novas meias e... realização de velho sonho, um rádio de segunda mão, rabo­ quente, que tocava músicas e dava notícias todas as manhãs. O Hotel São José era um mundo à parte, bom, alegre, impor­tante, chique, principalmente depois que "seu" Juca assumiu a di­reção e realizou uma grande reforma. A saudade marcada com a ausência de D. Laura foi compensada com a elegância de D. Emília e a descontraída presença dos filhos, principalmente de uma meni­na que era a mais bonita da rua Doutor Santos, a Mercesinha, já quase em início de namoro com o João Walter Godoy. Zé de Juca, Lauro, Bernadete, todos eram também bastante simpáticos com os hospedes. A hora do jantar era quase sempre uma festa, exigindo­-se a melhor roupa de cada participante do banquete diário, uma etiqueta fiscalizada de perto pelos garçons, principalmente pelo Fernando, que, até hoje, trabalha na profissão Poucos foram os estudantes que conseguiram a permanência no quadro de hóspedes. Um a um ia saindo, pedindo ou recebendo as contas, depois de uma brincadeira mais forte, ou do não respei­to à posição da gente importante e seria como era o sisudo e culto fazendeiro Ademar Leal, o milionário Manoel Rocha, a mais gra­duada figura do Exército na região, o sargento Moura, o advogado José Carlos Antunes, que falava inglês corretamente, Lagoeiro, músico‑chefe da regional da Rádio Sociedade, o diretor do IBGE, e o próprio dono, seu Juca, o único montes‑clarense, na época, a ter feito uma viagem internacional de muitos meses pela Terra Santa e pelo Mundo Antigo. Pode ser exagero de minha parte, mas, para nós, lá era o centro da cidade e da cultura. Bons tempos aqueles, justamente quando iniciava atividades, já com os pés no chão, O jornal de Montes Claros, não sei bem certo, parece-me já com a direção do Oswaldo Antunes, pois o ano em que estamos é o de 1955, quando recebi das mãos do Waldyr Senna a presidência do Diretório dos Estudantes e quando foi eleita a nossa rainha mais bonita de todos os tempos, nenhuma outra igualada em elegância e nobreza, nem antes nem depois: Cibele Veloso Milo!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


48181
Por Wanderlino Arruda - 22/7/2009 14:46:23
MOZART DAVID

Wanderlino Arruda

Agora que você terminou de ler este livro, é bom lembrar que a lei do amor é a essência da vida, de tudo que a vida tem, de tudo que a vida faz e nos permite fazer. A lei do amor é o caminhar, o escolher um horizonte, o definir a própria existência. Cada criatura se direciona pelo amor que elege: o que pondera, o que investiga, o que analisa, o que pensa, o que eleva. Há um amor que busca momentos, um amor maior que sonha a esperança e um que auxilia a construção do mundo. Dimensionar o amor é o que constitui a verdadeira sabedoria. De muitas fogueiras de amor viveu Mozart David, homem de família, intelectual, administrador, amado-amante da baianidade de Jacaraci. Em cada gesto seu a oportunidade de ser feliz e fazer a felicidade dos que o rodearam: em casa, na Prefeitura, nos encontros políticos, nas acontecimentos religiosos. Amor - sempre incessante e renovado - com dimensão dos melhores exemplos do ser e do viver. Um homem simples que se fazia grandioso quando tinha que dar exemplos de grandeza. Sempre equilibrado! Por todos os bons sentimentos de Mozart David, esta biografia traçada por Zoraide Guerra David constitui mais que um dever histórico. São reproduções ou descrições de tempos de pureza política, patriotismo não mais existente, uma cidadania não mais da mesma forma exercida. DOCUMENTÁRIO MOZART DAVID, UMA VIDA A SERVIÇO DE JACARACI é da primeira à última página, um documentário vivo e vibrante, interessantíssimo, marca do trabalho e da honestidade, ele um zelador do meio ambiente físico e espiritual. Mozart espraiou em torno de si o amor universal de espírito superior, corporificando e cumprindo missões possíveis e impossíveis. Vitória do bom senso, discernimento e responsabilidade! Importante destacar o papel exercido pelos familiares de Mozart David, muito importante, porque sempre consubstanciado no amor e no respeito, dedicação sem limite. Bons leitores, estudiosos, interessados, nunca faltaram ao seu líder com o apoio e o aplauso. E até não poderia ser de outro modo, porque Mozart David tornou-se um administrador e um político de dimensão regional e estadual, grande orador que era, opinião abalizada que sempre teve. Que este livro da historiadora Zoraide Guerra David sirva de exemplo a esta geração e às novas gerações de Jacaraci, da Bahia e do Brasil! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros (MG)


47752
Por Wanderlino Arruda - 9/7/2009 07:12:56
PETRÔNIO BRAZ, UM INCENTIVADOR

Wanderlino Arruda

Com longa estrada percorrida pelos caminhos de Minas e pelas veredas da cultura, Petrônio Braz, homem do tempo e da sorte, sempre andou próximo aos horizontes, sempre visualizou o sucesso: na política, na administração, no direito, na literatura, nas universidades da vida. Altivo no ser e no estar, no viver e no conviver, sempre teve fé e crédito no dourado mundo dos sonhos jurídicos e literários. Desde novo, concordante com Fernando Pessoa, sabe de uma grande verdade: Deus quer, o homem sonha e a obra nasce. Tudo isso dito para marcar a minha admiração pelo seu trabalho grandioso na pesquisa e na escrita do seu destacado caleidoscópio, ou melhor sua coleção de crônicas e artigos sobre autores e obras da nossa literatura regional norte-mineira, inclusive, é claro, quase tudo que surgiu nos últimos anos, em livros e textos esparsos. Conteúdo de primeiríssima linha, feito por quem sabe fazer, da primeira à última página tem quase sempre riqueza de detalhes, principalmente com relação aos estilos. Vitorioso, incentivador - principalmente dos jovens escritores - Petrônio escreve querendo que outros também escrevam. Ele nunca perde de vista o futuro e a esperança, nem para si mesmo nem para seus contemporâneos. Estudioso, disciplinado, conscientemente responsável do seu papel nas artes e o trabalho, é um autor que sempre recebeu as melhores notas da vida, e como diria os mais novos: tipo assim dez com louvor. Para Petrônio não há ponto final para o amar, principalmente no amor que enobrece as pessoas e as coletividades. Amar é viver e a existência é desenho de eternidade. Já que tem que amar, ama hoje; já que tem que viver, vive agora. Como Cora Coralina, nunca escreve ou fala para lamentar existências. Sua inteligência é fronde, é folha, é semente, é flor, é fruto. Inventa e reinventa, cria sempre! Se seu tempo é como o dos outros, faz a diferença sabendo sempre o que vai fazer com esse tempo. Não há, em Petrônio, espaços vazios ou perdidos; não há problemas, há soluções. Se as perguntas já encontraram muitas respostas, melhor inventar outras perguntas. Em verdade, tudo que Petrônio Braz tem publicado forma uma importante coletânea de apresentações e de críticas incentivadoras de praticamente tudo que já foi ou está sendo escrito por este lado de cima de Minas Gerais. Misto de crônicas e artigos, ilumina vocações, expõe idéias, valoriza conceitos, tudo com riqueza de detalhes. É ao mesmo tempo, vitrine e delinear acadêmico. É fruto e usufruto de escritos e de palavras, vereda importantíssima para os que percorrem caminhos em publicações de jornais e livros, parâmetros entre o que se escreve aqui e o que é publicado pela literatura em língua portuguesa: um prêmio a autores e a leitores. Conhecendo Petrônio Braz como conheço, tenho certeza de que sua atual série de bons e oportunos escritos terá pronta continuidade, com e sobre outros escritores. Petrônio Braz continuará arquiteto e operário de sonhos, dínamo competente para gerar de um tudo do bom e do melhor. Deo gratias! Institutos Históricos de Minas Gerais e de Montes Claros


47230
Por Wanderlino Arruda - 24/6/2009 07:48:55
IMPORTANTE O PENSAMENTO POSITIVO

Wanderlino Arruda

Respeito, consideração, fé, amor, admiração, carinho - tudo começa em você, tudo faz parte da teia da vida tecida no grupo pessoal, seja ele o familiar, o de trabalho, o de busca da verdade ou do entretenimento. O normal é ofertarmos somente aquilo de que dispomos e recebermos o que é do nosso merecimento. Ninguém dá o que não tem. A felicidade é um direito, mas temos que fazer jus a ela. Se você quer ter alegria, conforto íntimo, segurança da realização interior, comece logo a oferecer o que você tem de melhor. A vida é uma eterna troca de valores espirituais. Precisando mudar alguma coisa no que é e no que sente, comece tudo ainda hoje, porque a mudança começa em você. Procuramos Deus na infinitude dos céus, mas Ele - onipresente - está sempre dentro de nós, de cada criatura que Ele criou à Sua semelhança. A felicidade, a coisa mais importante que temos que aprender, é de nossa escolha. Ela está sempre ao nosso alcance, dependendo de como pensamos e de como agimos, de qual é a nossa relação com o nosso próximo. Se há momentos difíceis, temos é que aprender como administrá-los, como vivê-los, como vivenciá-los. Superar momentos difíceis é sabedoria, é arte, e isso tem que ser o nosso principal objetivo de vida. A melhor receita é saber amar, valorizar o amor, porque tudo que é sensível à mente e ao coração deixa-nos marcas positivas que nem o tempo consegue apagar. Importante substituir tristezas por alegrias, aproveitando cada lição que a existência nos oferece ou nos impõe. Sejamos felizes pelos momentos que haverão de vir, seja aos olhos dos nossos semelhantes, seja aos olhos de Deus. Em uma de suas mais bonitas afirmações, Thomas Jefferson disse que nada consegue impedir o homem que tem a atitude mental correta de atingir as suas metas. Chico Xavier, nosso grande Chico, sempre pedia a Deus para não lhe permitir perdesse a beleza e a alegria de viver, até mesmo quando as lágrimas brotassem nos seus olhos ou escorressem por sua alma. Importante lembrarmo-nos no início da leitura deste tão bonito e inspirativo livro de bolso e de cabeceira, o conteúdo maravilhoso de uma bênção irlandesa: Que Deus lhe dê: para cada tempestade, um arco íris; para cada lágrima, um sorriso; para cada cuidado, uma promessa. E uma bênção para cada provação. Que para cada problema, a vida lhe traga alguém fiel com quem dividi-lo; Para cada olhar, uma doce canção; E, para sua oração, uma grande resposta. Que este teu livro de pensamentos positivos, estimada Dannaé, filha querida de meus queridos amigos Said e Cida Campos, seja para todos que o venham lê-lo um verdadeiro celeiro de luzes e de boas atitudes, um incondicional agradecimento e louvor a Deus. Mais do que conscientes sejam os nossos agradecimentos ao Pai Celestial por todas as dádivas que nos concedeu e concederá! As pessoas poderão esquecer o que você disse e até não se lembrar do que você fez. Porém, jamais se esquecerão dos bons momentos de carinho, de amizade e de amor da convivência com você. Academia Montesclarense de Letras


47012
Por Wanderlino Arruda - 17/6/2009 07:10:53
A PALAVRA SAUDADE

Wanderlino Arruda

Segundo Bess Sondel, as palavras podem suscitar todas as emoções; pasmo, terror, nostalgia, pesar... As palavras podem desmoralizar uma pessoa até a apatia ou espicaçá-la até o deleite, podem exaltá-la a extremos de experiência espiritual e estética. As palavras têm um poder assustador. E tudo isso é muita verdade, não acredito haja alguém que duvide. As palavras têm uma força, uma resistência, um poder que suplantam quase tudo que existe no mundo. Passam exércitos, passam impérios, passam repúblicas, mas as palavras não passam. Elas são permanentes, mais firmes do que os granitos dos palácios e dos monumentos. As palavras de Sócrates, escritas por intermédio de Platão, suplantaram todos os governos gregos e suas obras militares ou civis. Passarão as pirâmides e a esfinge do Egito, mas as palavras do "Livro dos Mortos" não desaparecerão. Deve ser por isso que nós dispomos, na Língua Portuguesa, de uma palavra que não tem igual no mundo em sentido, em significado, em força, tanto no aspecto denotativo (se isso é possível!) como no conotativo. É a palavra saudade, de origem tão obscura como o fundo dos mares portugueses, tão misteriosa como a virgindade das selvas brasileiras, ou tão cheia de calor como as terras de Angola ou Moçambique, também de linguajar lusitano. De onde veio realmente o vocábulo saudade? Do latim solitate (soledade, solidão)? Do árabe saudah? Dos arcaísmos soydade, suydade? Até Antenor Nascentes, que foi nosso melhor estudioso da etimologia, não é convincente na explicação da origem. Influência da palavra saúde, como pode parecer uma analogia fonética? Dificilmente. Não sendo possível definir a matriz de onde sai esta filha tão grata a todos nós, resta-nos apenas a satisfação e a honra de tê-la em nosso vocabulário, sem o perigo de competição por parte de qualquer língua de dentro ou de fora de nossa família latina. O francês solitude está longe de ter o mesmo significado. Mesmo do esperanto (re)sopiro e rememoro estão longe de alcançar expressividade que a palavra tem em português. São termos que passam a quilômetros de distância da riqueza semântica do que usamos. E o que é mesmo saudade? Um sentimento que deve existir no coração de toda criatura humana, seja ela de qualquer raça, de qualquer parte do mundo, seja pobre, seja rica. A saudade não escolhe, não descrimina, não se faz de rogada para existir. Ela vem de mansinho ou vem fortemente, chegando quando menos se espera. A saudade é amiga da solidão, companheira inseparável do amor, visita invisível da amizade, às vezes pedaço de paixão, em muitos casos suave perfume de momentos de carinho e ternura. Realmente, não é fácil definir o sentimento da saudade. E é talvez por isso que ela só exista, como palavra, na Língua Portuguesa, na mística do povo de nossa raça, principalmente no brasileiro, esta maravilhosa mistura de sangue tropical, fruto de três origens: a branca, a negra e a tupi. Saudade é dor que sufoca o coração e alegra a alma. Saudade é presença do ausente, é lembrança do bem-querer, um doce convívio com a distância, uma alegre e agradável tristeza do ver-não-vendo, do amar sem ter presença, ou do sentir-se longe-pertinho do ente do amor...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 15/6/2009 07:20:48
VELHAS FOTOGRAFIAS
Wanderlino Arruda

Luiz de Paula, homem ilustrado e prático, lido, corrido e curtido na vida, disse-me, há alguns anos, com um tanto de malícia no sorriso, que a única arte que não progrediu no mundo moderno foi a da fotografia. Pelo menos, no que toca a ele, não tem visto nada de melhoria, principalmente nos retratos, os quais, a bem da verdade, até têm piorado muito. Por exemplo, quando ainda estava nos dezoito, nos vinte e cinco, nos trinta anos, os retratos que ele tirou com Serafim Facella, eram bem mais bonitos, com a pele mais lisa, os olhos mais brilhantes, os cabelos fartos, soltos e retintos de boa cor. A musculatura era de encantar, tudo no lugarzinho, tudo bem proporcionado, rugas nenhumas. Hoje, ele tem até medo de posar, porque mesmo os melhores fotógrafos, com as melhores máquinas, digitais ou de filmes supercoloridos, nada conseguem, nem mesmo uma vaga lembrança das antigas fotos cheias de charme e juventude. Uma lástima, uma involução terrível da fotografia!
É isso aí, nem tudo progrediu neste mundo, vasto mundo de artistas e mortais. Acredito que a queixa de Luiz de Paula quanto aos fotógrafos deve ser a de todos nós que, mercê de Deus, passamos dos cinqüenta, dos sessenta ou dos setenta, salvação talvez de raras exceções, que não ouso dizer os nomes, para não ficar denunciando idade de ninguém, principalmente das madames minhas amigas. Mas que a fotografia não progrediu com relação a este aspecto das feições humanas, isso realmente é verdade. Os leitores mais antigos, depois desta leitura, façam um exame nos álbuns de família, uma comparação no porte, o meio-de-campo sem barrigas, a retidão na coluna, o nariz afilado? Onde estão, na madame, o busto bem levantado e em posição de três horas, o pescoço escultural, os cabelos sedosos e cheios, a boca sensual, cada curvinha em seu lugar? Oh! Como tudo mudou! Como os fotógrafos perderam a técnica tão simples de iluminar a velha juventude!
De fato, só a fotografia é capaz de paralisar o tempo, de capturar momentos de luz, de segurar uma jovial feição enquanto esta ainda existe. Nada mais na vida é capaz de parar o tique-taque dos segundos ou da eternidade, solidificar minutos de uma existência, movimentos incessantes como as das chuvas e dos rios. A fotografia é um plasmar de realidade. É o que é: objetiva, concreta, verdadeira. O fotógrafo, o artista, o criador nada pode mudar, porque entre ele e o figurante existe a máquina, sempre fria, indiferente, veraz, permitindo quando muito só alguns retoques de negativo, hoje cada vez mais raros. O fotógrafo não pode ser como o pintor, que pode escolher a tinta e a cor da tinta, que trabalha mais com a imaginação do que com a realidade, um dos poucos profissionais ainda com direito a ser romântico num mundo de desilusões como o nosso. O fotógrafo, por mais criativo que seja, sempre encontrará limites à sua ação.
Mas é exatamente porque a fotografia é a prisão do tempo, que ela se torna importante e atual para cada etapa, ao mesmo caso documento e denúncia, repositório de bons motivos de muitas lembranças, quantas vezes moldura de infinitas saudades. Com que grata recordação vemos nossos traços dos anos de infância, dos dias de adolescência, da escola, da formatura, do casamento, da lua-de-mel. Como são lindas as paisagens das nossas inexperiências, dos sonhos inacabados, das gostosas torturas da paixão jovem! Como é importante o brilho de uma recordação! Tudo tão grato aos olhos do corpo e da alma!
Tem muita razão o meu amigo Luiz de Paula. Ele está certíssimo na birra e na zanga para com os que tiram retratos. Bem que os fotógrafos poderiam descobrir nova fonte de juventude. Mesmo que esta não espalhasse nem um pouquinho a mínima verdade!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 9/6/2009 07:18:19
ROTARY CLUBE MONTES CLAROS - NORTE

Wanderlino Arruda

A primeira vez que ouvi falar do Rotary Clube Montes Claros - Norte foi pela voz educada e amiga de Nathércio França, num mês de março de 1969, quando ele me convidou para fazer parte da lista de fundadores. Era Nathércio o encarregado de tomar todas as providências para a organização do quadro de sócios e apresentação dos documentos constitutivos, assim como do levantamento das possibilidades de serviços à comunidade pelo novo clube. Trabalho difícil, suado, mas nunca impossível para o dinamismo diplomático de Nathércio. A confiança nele depositada pelo Rotary International seria, marcou, muito antes do tempo previsto, um elogiável sucesso, com o clube oficializado já em maio, com as primeiras reuniões no Automóvel Clube. Foi o saudoso Benoni Gomes da Mota o presidente provisório, conhecido e reconhecido empresário que, no dizer dos jovens repórteres da década de cinqüenta, havia sido o melhor presidente da Câmara Municipal de Montes Claros. Éramos trinta e dois os sócios, representantes de quase todos os campos profissionais da cidade, ainda presentes no Clube apenas Victor Hugo Marques Pina e eu. Lembro-me perfeitamente do zelo com que o Nathércio França ensinava aos novos companheiros toda a trajetória de trabalho que deveríamos seguir, de forma a fazer do Rotary Norte um modelo de integração, com todas as possibilidades de firme prestação de serviços. O cuidado dele em semear a boa semente era tanto, sua sincera pregação de filantropia era tão grande, que muitos dos convidados menos decididos preferiram afastar-se logo, nem chegando a oficializar a admissão. O Rotary Norte teria de seguir o exemplo de energia do Rotary Montes Claros, campeão de progresso em todos os setores, decididamente um dos melhores clubes entre os dois mil e quinhentos existentes no Brasil. Estava lançado um enorme compromisso, iniciada uma entusiasmada luta. Dos velhos companheiros do tempo de recebimento da carta constitutiva, dos muitos que trabalharam pela afirmação do clube na primeira fase, olho hoje a relação, e pouco mais posso ver que uma imensa saudade. Quanta distância o tempo tem provocado! De uns, uma eternidade: Antônio Augusto Barbosa Moura, José Comissário Fontes e Ricardino Francisco Tófani, Antônio Brant Maia. Muitos como José Carlos Pereira, Antônio Jorge, Padre Aderbal Murta e Nelson Vilas Boas, que chegaram depois, também já freqüentam outro Rotary do mundo maior, deixando entre nós um incomensurável vazio. De outros, que a vida ainda nos faz companheiros, inclusive em outros Rotary Clubes, uma vontade sincera de que voltem pra o nosso convívio a cada semana, a cada dia de atividades, com um recomeço de alegrias. Tenho certeza de que a felicidade de ontem seria a mesma de hoje! Em 2009, o Rotary Cube de Montes Claros - Norte completou oficialmente seus primeiros quarenta aos de plena atuação. Está sendo uma oportunidade de muito relembrar, perfilando velhas histórias tão gratas a nossos corações, muitas delas com amplitude nacional e internacional. Que bom viver toda a tradição rotária dos Montes Claros! Um mundo de cultura e de serviços comunitários realizados pelo bom companheirismo de várias gerações. Afinal, foi na Montes Claros de 1926, o local de fundação do terceiro Rotary Clube brasileiro, sonho de Niquinho Teixeira, que, sem dúvida, muito deu certo.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 3/6/2009 08:07:24
PORTUGUÊS, LINGUA LUSO-BRASILEIRA

Wanderlino Arruda

Segundo o professor Silvio Elias, a língua nasce como um produto da cultura, da alma de um povo, da sua filosofia, da sua lógica. E perdura enquanto a cultura perdurar. E é aí, entretanto, que é preciso contar com o fator homem, e não julgá-las, como fez Splenger, mero produto de forças históricas misteriosas e fatais. Claro que o homem, quanto mais bem dotado intelectualmente, quanto mais senhor das leis da natureza, quanto mais civilizado, maior poder exerce sobre as culturas. A língua, não existindo por si mesma, mas só no homem que a emprega, terá de adaptar-se ao seu estilo, e será como ele lerda ou ágil, majestosa ou vulgar, vivaz ou petrificada, uma espécie de espelho da realidade de cada povo, de cada região. Assim, a língua representa o próprio homem, sua condição social o local onde nasce e vive, seu grau de cultura. Representa também os sentimentos, a coragem, a força de vontade, as condições de saúde, o patriotismo, até a religião. Do povo depende a língua, que pode ser oculta, vibrante, civilizada ou vulgar. Dependendo dele, ela pode ser também romântica, lírica, política ou simplesmente comercial, opaca como o barro ou transparente e translúcida como o orvalho. No Brasil, falamos e escrevemos a língua portuguesa, é claro, a nosso modo, principalmente depois do brado de independência do grande brasileiro José de Alencar, misto de ufanismo e exaltação patriótica, verdadeiro minerador dos sentimentos dos trópicos selvagens de nossa terra, venha a inspiração das aldeias indígenas ou das ruas movimentadas de nossas metrópoles. Quatrocentos anos depois de trazida para cá, surgiram, como teria de surgir, considerável número de diferenciações, deu modalidades de expressão, de indisciplina espontânea tão própria à alma do nosso povo. E o romântico e bem brasileiro Alencar, criador de Iracema e de Poti, escrevendo bonito, foi quem melhor viu, anteviu e transformou literariamente em nova realidade. Mesmo fora do Brasil, na mãe-pátria portuguesa, no local da invenção, nossa língua não permaneceu estacionada, não se estratificou, como aliás, não poderia acontecer com nenhuma língua. Evoluiu como tinha de evoluir, mercê principalmente da alma conquistadora de amantes da descoberta e descortino de novos horizontes. Se é verdade que já não falamos a mesma língua de D. Sancho ou de D. Diniz, Camões também já não a falava, assim como Camilo ou Eça não se expressavam como Camões. Em Olavo Bilac, já bem diferente, encontramos música, lirismo, amor às tonalidades puras, versos com novo colorido verde-amarelo da paisagem brasileira. De Vieira, mais brasileiro que português, até Guimarães Rosa, outra grande distância. E porque não falar da metamorfose existente entre a poesia de Sá de Miranda e a de Carlos Drummond de Andrade e a de Cecília Meireles e Adélia Prado? Tudo boa gente falando a mesma língua, só que com tempero diferente. Sei que muita gente comenta que nossa língua está se acabando aos poucos, está sendo impiedosamente destruída pelos que falam ou escrevem mal, pelos que a deturpam, pelos que a não respeitam. Será que isso é verdade? Não terá a língua um automático instrumental de defesa da sua própria sobrevivência? Não sejamos apressados no julgamento, não sejamos injustos. Potencial vivo e vivificante, a língua portuguesa já, a esta altura, com quase um milênio de história, dos quais a metade no Brasil, ainda terá muito de que falar, ainda será objeto de muito estudo, contará com defesas e ataques neste nosso admirável mundo novo das comunicações. Melhor ler e prestar muita atenção em muitos dos nossos autores - sejam em jornais, revistas ou livros - que estão aí erigindo, com perfeição, grandiosos monumentos do nosso bonito e musical idioma, seja com tonalidade lusa, seja com os tons brasileiros. Tanto em prosa como em poesia, ora pois!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


46432
Por Wanderlino Arruda - 27/5/2009 07:35:59
NENÉM BARBOSA, MARIDO DE JENNY, PAI DE LUIZINHA

Wanderlino Arruda

Se ainda estivesse materialmente entre nós, Neném (Augusto Octávio) Barbosa estava completando quase cem anos de vida de trabalho e interesse por tudo quanto era bonito nas pessoas e na Natureza. Foi um mês de abril, tempo de sol e fim de estação chuvosa que ele nasceu para ser sertanejo e desbravador, estudioso de todas as horas, homem da fazenda e do comércio, observador do código de ética maior que pauta a existência dos grandes homens. Educado, fino, sabia falar à inteligência e ao coração, sempre excelente ouvinte, ponderado como ninguém. Um cavalheiro de tempo integral! Se estivesse ainda conosco, se estivesse fisicamente à disposição dos amigos - que eram muitos - Neném, mesmo com a muita idade, ainda estaria prestando relevantes serviços, sempre pronto e bem preparado para dirigir e aconselhar. Era um notável fixador caminhos, orientador de rotas, finíssimo arquiteto de muitos projetos de vida. Bom leitor, de várias horas de leitura por dia, Neném Barbosa era possuidor de uma vasta cultura, qualidade intelectual tão grande que se posicionava ao mesmo nível da cultura da esposa e professora Dona Jenny, assim como da querida filha Luizinha, esta uma das mulheres mais inteligentes e mais dedicadas ao saber filosófico e literário da história de Montes Claros. Chego a acreditar que grande parte dos conhecimentos de Luizinha tenha vindo de Neném Barbosa, seu eterno preceptor. Os dois foram sempre uma bela união de vontades, uma definitiva sintonia de valores. Luizinha Barbosa está aí para demonstrar o quanto Augusto Octávio, seu pai, foi importante em sua vida e quanto ele foi importante para a cidade e para a região. E o que ela sabe, o que ela é, o que ela vê como obrigação de dirigir, organizar e manter o patrimônio da sensatez de Neném é algo que só a fibra de uma grande mulher pode garantir. Eterna secretária do pai e de Dona Jenny, Luizinha segue uma trajetória que Neném traçou e que precisa ser preservada. Para que o leitor tenha uma idéia do legítimo pensamento de Augusto Octávio Barbosa, transcrevo, em fim de comentário, um texto que ele me ofereceu em setembro de 1975, que poderá ser a marca de muitas vidas. Ei-lo, para proveito de quem me lê: "Deus, Dai-nos a graça da moderação, o privilégio de sermos gratos. Que todos os nossos atos sejam pautados dentro do bom senso; que as nossas palavras só sejam liberadas depois que passarem pelo crivo da censura íntima. Ajudai-nos, Senhor, a agir com ponderação e não perder o domínio de nós mesmos, principalmente quando recebermos agressões verbais que atinjam nosso amor próprio. Nessas ocasiões. Pedimos a Vós não nos deixar ser tomados pela cólera, tóxico maligno que leva à precipitação e intemperança, contribuindo para o exceder-nos, dando, quase sempre, como discussões acaloradas que, no resumo, nada de proveitoso nos deixam. Suplicamos auxiliar-nos a evitar palavras inúteis e a servir da paciência e do silêncio como instrumentos preciosos para contarmos as situações difíceis. Eterna a boa memória, a saudade dos bons tempos de convívio com Neném Barbosa!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 20/5/2009 07:09:21
ANOS DE TINTAS E PINCÉIS
Wanderlino Arruda

Lembro-me como se fosse ainda hoje o dia em que, na casa de Samuel Figueira, eu dera palpites, mais do que o usual, na sua forma de pintar, no uso das cores, na escolha dos temas e creio que até na evolução dos seus quadros. Devo ter exagerado na função de crítico, e foi daí que veio o desafio: Por que eu, que queria saber tanto de pintura, não tentava fazer um quadro ali mesmo, diante dele, de Mila, sua mulher, e de Shirley Durães, que os visitava naquela tarde de domingo? Insulto ou convite, chamamento ou convocação, fosse o que fosse, não me fiz de rogado e lancei-me ao trabalho, imediatamente, pintando a minha primeira paisagem azul, branca e verde, chapada, lisinha e até com um pouco de transparência. Para começo, creio que foi até um sucesso, em pouco mais de duas horas, com ele Samuel orientando aqui, orientando ali, e até ajudando dar uns retoques nos coqueiros, pois me faltava naquela hora uma certa leveza que, aliás, falta até hoje. Mais tarde em Mirabela, Shirley me lembrou da façanha e perguntou-me se valeu a pena todos estes anos de aventura no mundo das tintas, dos pincéis, das espátulas e das telas. Quis saber também se eu me considerava mais feliz com a atividade de pintor, metiê que sofre tanta crítica de quem entende do assunto e até muito mais de quem não entende nada. E qual seria minha resposta? Claro que tudo ia bem, a pintura vinha sendo um grande passa-tempo, um exercício de paciência realmente maravilhoso, uma nova fonte de estudos, um encontro e reencontro com a arte que tem atravessado séculos de admiração e encantamento. Enquanto pinto ou enquanto escrevo, as horas passam como verdadeiros sonhos, interessantes, cheias de gratificação mental, gostosas mesmo. E quanto às críticas, principalmente as desfavoráveis, sempre me ajudam muito, contribuem para mudanças e busca de melhor desempenho. Na verdade, não sabia a quanto andava, porque sempre ficava muito tempo sem me encontrar com Samuel e com Konstantin, meus dois orientadores mais exigentes que, mesmo elogiando, ainda faziam reparos, davam sugestões, nunca se mostravam totalmente satisfeitos. Não falo de Godofredo, porque este nunca achava boa a pintura de ninguém e só raramente dava uma palavra de incentivo, tanto faz para velho como para novos. É que o bom GG achava a profissão muito sofrida, trabalhosa, difícil. E também para ele, pintura só valia a clássica - acadêmica - a real nas cores e na forma. Essas invenções nossas são coisas de gente que acha que sabe, mas, não sabe... Cristina Rabelo, em certa ocasião, olhou quase tudo que preparei para uma exposição no Centro Cultural, disse que gostou, mas, perguntou porque eu havia abandonado a pintura de flores... Os críticos da família, a Olímpia, a Wladênia, a Rízzia, a Nádia, estas sempre seguiram cada trabalho, serviam e servem de feedback no exato minuto de cada pedido de avaliação. É o que tem acontecido e não posso me queixar. Não me têm faltado os melhores e mais proveitosos momentos nestes mais de trinta anos de trabalho, exatamente quando vou completar os três quartos de século de vida. Pintar sempre fora uma distração, uma forma de paz interna e externa, uma evocação de viagens, um rememorar de paisagens. Depois que comecei a pintar, a Natureza jamais passou por mim (como eu tenho passado por ela), como página em branco. Cada estrada, cada pedaço de céu, cada folhagem, uma superfície de água, por menor que seja, é sempre uma festa para os olhos e para a imaginação. O pintor é um ledor de cores, de movimentos, de formas, um visualizador e dimensões que existem e que não existem... Já ia me esquecendo de fazer um conserto sobre o relacionamento de Godofredo com os seus colegas menores da arte pictórica. Ele não gostava é de pintura dos outros. Dos pintores ele sempre fora grande amigo. No que me toca, o mestre Godô só deu palavras de incentivo e de entusiasmo. Talvez seja eu a única pessoa a quem ele tenha ensinado as técnicas de pintura. E sou-lhe, eternamente, muito grato por isso!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 13/5/2009 07:46:37
DONA DINA PAULINO CORREIA

Wanderlino Arruda

Os noventa anos de coragem e alegria, que sempre marcaram nobreza, nunca envelheceram em Enedina Paulino Correia - nossa querida Dona Dina - a sua crença de amor à vida. Tem sido quase um século de invenção e re-invenção diárias, cada momento dedicado ao melhor da consideração humana. Sempre pensamentos de bondade e beleza irradiando positividade e fé, sempre o mais fino trato no ser, no estar e no compartilhar. Definitivamente marcante o amor à família, aos colegas de trabalho, aos amigos. Máxima elegância sempre! Filha de pai advogado e cronista da Gazeta do Norte, Dona Dina nasceu em Grão Mogol no quatorze de maio de 1919 e só veio para Montes Claros dois anos depois. Morou em Pires e Albuquerque oito, casou-se com dezenove. Porque o marido Geraldo de Paula Correia foi para São Paulo e voltou doente, a ela sozinha coube criar e educar os filhos Pedro, Theodomiro, Terezinha, Nadir, Carlos, Itamar, Geralda e Cláudia. Antes da aposentadoria aos trinta e cinco anos de trabalho na Escola Normal - direção de D. Taúde, de Luiz Pires, de Francolino e Sônia Quadros - sei que muitos foram os biscoitos e doces feitos no forno e fogão do Alto do Santo Expedito, casinha humilde, embora imponentemente rodeada de bonitas mangueiras. O terreno era de Neném Barbosa e ficava mais ou menos onde está o Montes Claros Shopping Center. Era de lá que o filho Theodomiro saia com a bandeja cheia para as vendas em domicílio. Dona Dina fazia questão de ter, fora do horário da escola, todos os filhos e filhas também trabalhando para garantir a lenha da cozinha e a feira dos sábados. Ela dava o melhor exemplo e fazia questão de ser seguida. Fui colega de Dona Dina, por duas vezes, no sobradão da Coronel Celestino, em 1954, quando lecionei inglês, e na Avenida Mestra Fininha, de 1965 a 1970 , quando eu era professor de português e literatura para as turmas do científico. Foi um tempo maravilhoso em nossas vidas, pois muitas e muitas amizades feitas naquela época duram até hoje e nos seguirão ao longo da jornada terrena. Dona Dina foi sempre uma colega perfeita, dedicada, presente, para mim e para todos os companheiros de trabalho, uma amiga insubstituível. Sua educação de berço, a voz sempre comedida, os olhos sempre brilhantes de consideração e amizade eram marcas de uma personalidade inesquecível para qualquer tipo de histórico pessoal. Podemos nos esquecer do que as pessoas nos dizem, mas jamais olvidaremos da forma que elas nos tratam, de como elas nos fazem sentir. Como nunca virou as costas para a vida, Dona Dina tem milhares de amigos e um milhão de admiradores. Para cada dificuldade e cada desafio, ela descobriu as respostas e a melhor forma de superá-los. Uma criatura de muitas vitórias! Com bom humor espalhando mais do que simples felicidade, Dona Dina é digna de todas as riquezas do mundo, de todos os horizontes de esperança, de todo o despertar dos sonhos. Fazendo sempre a sua parte e, muitas vezes, até a dos outros, nossa homenageada é força visível e invisível do bem, suficientemente poderosa para transformar para melhor qualquer um dos nossos momentos. Se vivo fosse Henfil, ele poderia dizer que, em toda existência de Dona Dina houve frutos e valeu a beleza das flores, houve flores e valeu a sombra das folhas, houve folhas e valeu a intenção das sementes. Nesta comemoração dos novent`anos, pedimos ao bom Deus que sempre protegeu Dona Dina e os que lhe são queridos - oito filhos, vinte e cinco netos, vinte e três bisnetos - continue sempre amparando a todos com a infinita e majestosa luz do amor!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 6/5/2009 12:17:24
RUTH TUPINAMBÁ E MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda

Não faz muito tempo, num comentário que fiz, no Elos Clube, sobre Hermes de Paula, falando em continuidade dos registros históricos de Montes claros, apontei a acadêmica Ruth Tupinambá Graça como a pessoa indicada para essa tarefa. Sei que alguns ouvintes devem ter julgado minha opinião como fruto de entusiasmo de orador de momento, um arroubo de amigo e companheiro. A própria Ruth Tupinambá deve ter pensado o mesmo, pois sorriu descrente, nunca se colocando como continuadora da obra do nosso mais famoso historiador. A memória remota e recente sobre Hermes de Paula ainda é muito viva a admiração por ele é incontestável, a visão de sua luta diária com os acontecimentos o coloca como insubstituível e, por isso, ainda não se firmou o pensamento de que a história não pára e exige outro acompanhante. Continuo, pois, dizendo que depois de Hermes de Paula deverá vir Ruth Tupinambá Graça, como eu disse a ela mesma hoje numa reunião conjunta da Academia Montesclarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros. Não só deve, como precisa que venha. Precisamos de alguém que conheça a cidade e sua gente, alguém que goste do trabalho de registrar acontecimentos e de marcar as presenças das personagens nesses acontecimentos. Alguém que tenha amor suficiente à cidade e que saiba como manusear as palavras para pintar e descrever os momentos dignos de registros. Precisamos, sobretudo, de uma pessoa que seja, ao mesmo tempo, repórter, cronista e contadora de histórias. E estas qualidades a autora de "Montes Claros Era Assim..." tem de sobra. Sem nenhuma intenção de fazer trocadilhos, posso dizer que Ruth Tupinambá tem muita graça para isso. Escreve com a suavidade de quem toma banho em cachoeira, com limpidez e transparência. Ressalte-se também o fato de ela conhecer muito bem o passado de Montes Claros, desde quando se entendeu por gente. Menina curiosa, versátil, muito inteligente e perspicaz, ela observou tudo e, às vezes, até acompanhou e viveu muitos episódios, principalmente a atuação das pessoas, as visões de cortes sociais, os ambientes, as mudanças físicas e psicológicas. Analista da alma humana, Ruth Tupinambá alcança cada gesto, cada piscar de alegria, cada remoer de tristezas. Em tudo ela vê cores, sons, dimensões, o amor ou o desamor, as crendices, o folclórico. Ruth tem imensa saudade de todas as horas, e isso lhe dá condições de sempre refrescar as lembranças da memória e do coração. Parece-me um bom passaporte para a posição de historiadora, pelo menos para a criação de história apaixonada como sempre o fez Hermes de Paula. Já quase sem espaço nesta crônica, quero dizer que o livro "Montes Claros Era Assim..." é uma boa oportunidade de conhecermos o passado da cidade, esse conjunto de gente sertaneja e vivedora que soube crescer e multiplicar. É bom e importante ler depressa (ou devagar, conforme o gosto) todas as crônicas do livro de Ruth Tupinambá para saber tudo ou, pelo menos, o lado mais interessante das coisas e das gentes. Nelas estarão os cometas, os tropeiros, os bruaqueiros, o velho Christoff (pai de Konstantin), o velho João Maurício, o primo Luís, o Sinval e seu bar, a Euterpe Montes-clarense, o Cine Montes Claros, São Luiz e Coronel Ribeiro, o footing da Rua Quinze, as boiadas, os carros de bois, os circos, os primeiros carros de praça, a seresta, as modinhas, a brincadeira da argolinha e a de fazer a gata parir, a matriz, a catedral em construção, as ruas das mulheres de vida livre, as publicações da Gazeta do Norte, um grande universo de assuntos que marcam saudades. Depois da leitura, pode vir o julgamento se Ruth Tupinambá é ou não nossa futura historiadora. De minha parte tenho mais que certeza disso! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


45691
Por Wanderlino Arruda - 29/4/2009 07:44:23
EDMILSON, SERVIÇO DE UTILIDADE PÚBLICA

Wanderlino Arruda

A cidade existe para servir às pessoas ou as pessoas existem para servir à cidade? Afinal, quem é dono de quem? Quem é mais importante: Montes Claros ou seu povo? Que um depende do outro, ninguém duvida, porque só a colaboração de cada habitante, o grau de interesse pelos problemas, a busca de solução particular ou geral, o elo de amor de cada um poderão marcar pontos positivos no progresso e na humanização da nossa vida, de jovens e mais idosos, de pobres e ricos, de conhecidos e de desconhecidos, todos donos de uma fração desta antiga Vila de Formigas. Por outro lado, a cidade não pode ter vida própria fora da vida dos seus moradores, longe do interesse de cada família, de cada estudante, ou de trabalhadores ou mães de famílias, de técnicos ou de simples artistas dos minutos de beleza que o dia-a-dia nos oferece generosamente. A cidade de Montes Claros, na verdade, somos todos nós, com todas nossas alegrias e tristezas, nossa pressa, nosso trabalho, nosso interesse às idas e vindas; os enganos e desenganos, a amizade dedicada e recebida; a concorrência em todos os campos da vida, a seriedade, necessária para fazer o mundo melhor. Não se pode desligar a cidade do cidadão. Quando alguém se isola, por comodismo ou por incompreensão, alguma coisa fica em débito na conta-corrente do progresso. E não falo do progresso só material, do desenvolvimento de pedra e cimento, tijolos e de asfalto, de mio fio e de muro cercando lote vago. Falo principalmente da argamassa psíquica de alegria e gosto de viver daquela sensação gostosa de morar numa cidade onde o humanismo seja a maior bandeira, onde o bicho-homem represente o geral e o particular, uma espécie de fio de ouro que ligue a terra ao céu. A meta tem de ser o homem. E quando falo em homem, quero representar bem o sentido bíblico de criatura, sendo homem a generalização de todas as raças e posicionamento na sorte, de crianças, velhos, mulheres, moças, homens jovens ou maduros. Não deve haver nenhuma discriminação, pois são todas as criaturas de direitos e deveres distribuídas pela Criação para o desempenho de papéis no eterno drama da existência. Cada indivíduo é um universo com todas as suas implicações no campo da sensibilidade. Ninguém é realmente uma ilha; todas as nossas vidas se encontram entrelaçadas; apertemos ou não mutuamente nossas mãos lisas ou calejadas, sujas ou limpas. Há e sempre houve e há muita gente trabalhando para o bem geral desta cidade de Montes Claros. Mulheres que se santificam no trabalho do ensino e do amparo social; na enfermagem e na higienização das ruas, na criação dos filhos, no preparo dos alimentos ou nos balcões de lojas e mesas de bancos e de escritórios. Há homens que lutam e se aperfeiçoam: que correm suados ou se assentam para busca de organização da própria vida em comum. Há profissionais que vivem para o cumprimento do seu dever, convivendo com a disciplina e gerando com seus próprios meios a felicidade desejada. O que desejo destacar, agora, é a marca histórica de um profissional de função pública que observei durante longo tempo, quando ele trabalhava com total dedicação e carinho no trato diário de seu trabalho. Lúcido, atento, gentil, tinha na dura luta pela vida só atitudes de tornar tudo mais gratificante para si mesmo e para as pessoas a que servia por obrigação e, como tudo demonstrava, por prazer. Era um guarda que o Décimo Batalhão colocara em serviço nas imediações do Grupo Escolar D. João Antônio Pimenta e do SESC. Sua atuação sempre fora impecável e as crianças e passantes diários pela rua adoravam-no e tinham por ele grande respeito e amizade, o que era bom e agradável para ambas às partes. Faço justiça, terminando esta crônica registrando o seu nome: Edmilson Oliveira Paz, perfeito e competente militar e um notável homem público. Por onde anda Edmilson não sei, mas tenho consciência de que a sua atuação será sempre inesquecível!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


45534
Por Wanderlino Arruda - 21/4/2009 18:41:05
APOSENTADORIA PROBLEMAS VANTAGENS

Wanderlino Arruda

Aos poucos, quando vem chegando o final da carreira, é importante a pensar na sempre tão sonhada situação de aposentado, fazer o exame de consciência necessário para interpretá-la compreendê-la, saboreá-la por antecipação. Parece que não existe trabalhador que não pense, não sonhe com o que chama de merecida aposentadoria. Conheço gente que tem quatro ou cinco anos de carteira assinada e já fala nos dias futuros em que não mais terá de assinar o ponto todas as manhãs, aquela vocação de quem não nasceu para as amarras do assalariado, que todo empregado é, seja humilde, seja grã-fino. De mansinho vem a idéia de interpretação se realmente a aposentadoria é mesmo um prêmio. Francamente, não sei se a aposentadoria não seja mais um castigo, algo de punição para modificar hábitos, desorganizar arraigados modos de vida, avacalhar o coreto do dia-a-dia dos trabalhadores e das famílias. Já imaginou, de uma hora para outra, não ter o que fazer? Ficar o dia todo dentro de casa, aranhando, vivendo sem pressa, desarrumando e arrumando papéis velhos, passando a toda hora perto das panelas na cozinha, beliscando, comendo antes do horário? Ou, de forma diferente, tendo de viver o dia todo no Quarteirão do Povo, de pé, conversando as mesmas conversas, "resolvendo" eternamente os mesmos problemas que os governos nunca resolvem? Francamente, minha senhora, não sei! O conselho de quem sabe e já passou pela experiência é que o problema menor do aposentado é a questão financeira. Nessa até que se dá jeito, podendo ser reforçada com alguns "bicos", um emprestimozinho, aqui ou ali. O que precisa ser suportado com galhardia é o descompasso violento entre algumas obrigações e a ociosidade. Há de haver uma preparação espiritual para receber os acontecimentos nunca como castigo. É preciso descobrir regalias, interpretar tudo como prêmio merecido, abrir opções de lazer, visitas possíveis e que não incomodem os visitados, prática de alguns esportes também possíveis e, sobretudo, a consciência do que não pode ou não deve ser feito. Em todo caso, vejamos alguns pontos positivos para os aposentados, nas palavras de um colega de muita experiência no assunto. O primeiro e mais agradável é a desobrigação dos horários rígidos, da responsabilidade de sentir-se sempre como peça importante de uma máquina que nunca pára, o que costumo chamar de servidão do relógio, disciplina, administração do tempo. Depois, há os favorecimentos da liberdade do ir e vir, do alimentar-se, do dormir na hora que mais convém, do não ter pressa, de ter todos os dias como domingos e feriados, do direito de tomar sol ou esconder-se do frio. Melhor, do viajar, de chegar e sair sempre que pedir licença. Assim é a vida. Até as coisas boas trazem problemas. Se todos nós preocupamos tanto com o muito fazer, por que esquentarmos a nossa cabeça com o dolce far niente, com o papo pro ar, a perna pra cima? Melhor aprender a suportar a realização dos sonhos. Isso, afinal, até que é bom, bem sei!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 14/4/2009 12:26:14
HERMES DE PAULA,UM TRABALHADOR

Wanderlino Arruda

Trabalho significa só pegar no pesado, ter as mãos calejadas? Trabalho é suar, cansar-se fisicamente, dormir à noite moído de dores em todo o corpo? Ou trabalho é o exercício continuado de uma ou de múltiplas atividades, esteja ou não desenvolvido para ganhar o pão de cada dia? Trabalho pode ser também a aplicação apaixonada do bem e do amor? Pode ser busca estética, busca de beleza, de cultura, esforço mental em benefício da coletividade ou do próprio trabalhador? Sempre achei que sim. Trabalho é a produção do progresso pessoal e coletivo, aprimoramento da boa vontade em direção ao semelhante, ação física ou mental sem fronteira de tempo ou de espaço. Trabalho é modo de fazer a independência da virtude frente às coisas erradas que acontecem no mundo. Trabalhar é o realmente viver a alegria de estar sempre fazendo algo proveitoso e digno de admiração pela utilidade ou pela beleza. Levados em conta todos esses considerandos, Hermes de Paula deixou-nos a todos com imensa saudade depois de ter desenvolvido uma estafante vida de trabalho. Trabalho de todos os dias - todos mesmo - até o seu último, na sexta-feira, dia 10 de junho de 1983, um dia antes da comemoração do "Dia da Raça", da nossa lusíada raça, cadinho de miscigenação de tantas outras. Foi Hermes de Paula um artista do trabalho amoroso à terra e ao povo, menestrel de todas as canções, poeta e trovador das boas causas, intelectual valorizador do melhor que podem realizar as lembranças do passado montes-clarense, remoto e recente. Hermes de Paula respirou e viveu sempre a cidade de Montes Claros, historiou-a e engrandeceu-a com todas as luzes do seu coração. Inteligente e lúcido, de memória invejável e invejada, interessado e perspicaz na observação dos fatos mais simples, , além de escrever, viveu a história, puxou-a, induziu-a num hino de encantamento. Foi um homem engajado ao seu tempo, um trabalhador no sentido mais amplo. Como homem sem riquezas, existência mais de poesia que de finanças, viveu sempre dependente do esforço pessoal aplicado ao ganho de todos os dias. Dedicado, consciente, estudioso, sempre procurou as vantagens da satisfação numa sincera prestação de serviços. Viver feliz foi sempre sua meta principal. Disso dependia sua constante socialização de uma ponderada alegria, um eloqüente contentamento, tudo muito bem distribuído a todos que lhe ficavam ao redor. Hermes, um homem de bem, um homem do amor! Merece a nossa maior consideração neste ano em que comemoramos o seu Centenário de Nascimento.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 7/4/2009 14:58:37
AS DUAS BRASÍLIAS

Wanderlino Arruda

A idéia de fazer cidades irmãs as duas Brasílias, a de lá do Planalto Central e a de cá deste sofrido setentrião de Minas, só podia ter saído da cabeça de Luiz de Paula, o nosso escritor, industrial, compositor e fazendeiro, que, todos os dias, em manhãs e tardes, reserva um bom naco de tempo para filosofar e empreender revoadas poéticas. Realmente foi do Luiz a invenção, as providências, o trato diplomático da união de Brasilinha e de Brasília-DF, a pobre e a rica do seu coração, uma porque terra do seu pai, outra porque ajudou a fazer, politicando e pagando impostos. Foi assim que a terra de Haroldo Lívio tornou-se irmã da capital de JK, com todos os direitos de papel passado, documento com assinaturas do então governador José Aparecido e do prefeito Francisco Simões, testemunhado por Oscar Niemeyer e pelo próprio Luiz de Paula. Tudo começou com o discutido e aprovado em uma reunião da UNESCO, em Paris no dia 7 de dezembro de 1987, quando Brasília foi consagrada como patrimônio Cultural da Humanidade, primeiro bem contemporâneo considerado monumento das novas gerações. A notícia, que circulou o mundo, acabou aterrissando na inteligência do Luiz e, tome lá poesia, veio a idéia da proposta ao governador Aparecido, num telefonema de muita ansiedade: - Chegou a hora de fazer justiça, meu caro Aparecido, é preciso que a grande Brasília dê as mãos a nossa Brasilinha, e cumpra as promessas de Juscelino e entrelace todos os corações e sejam as duas cidades um bom exemplo de fraternidade! - Só se for agora, Luiz. Você tem toda razão, venha cá com urgência. Hospede-se comigo, vamos muito conversar! E Luiz foi, sentou-se com Aparecido, tomaram uísque, recordaram velhos casos de Minas, falaram de cachaça, de licor de pequi, de doces caseiros, de umbu, dos nossos saudosos políticos honestos e, como não podia deixar de ser, do chamego do governador para com as coisas do Norte-mineiro, entre elas Brasília de Minas. Foi um bom encontro de amizade e sabedoria, com largos sorrisos, final definidor de data de ida de Luiz e do prefeito Chico Simões a Brasília foi chamada para assinatura de um protocolo histórico. Tudo muito mineiro e poético! Cinco são os itens de sustentação documental, considerando: a) a consagração de Brasília pelo UNESCO, como Patrimônio Cultural da Humanidade, em 7 de dezembro de 1987; b) a vocação pioneira da Capital, sonhada desde a Inconfidência, e conquistada pela vontade inabalável, e a visão histórica do presidente Juscelino Kubitscheck; c) o uso do nome Brasília para a capital da República; d) o gesto bonito da comunidade norte-mineira, que compartilhou o seu nome com Capital Federal, passando logo a chamar-se Brasília de Minas; e) afinal, as duas são cidades irmãs não apenas no nome, mas também nos compromissos de civilização e modernidade. Por isso, resolvem incentivar e aprofundar a cooperação entre ambas nas áreas sócio-econômica e cultural, reivindicando a imediata pavimentação asfáltica do trecho da estrada entre as cidades São Francisco e Unaí. Para fechar o entendimento com chave de ouro, o Prefeito de Brasília de Minas, no dia 21 de abril, à frente de delegação de cidade-irmã, inaugurou placa comemorativa, em local indicado pelo arquiteto Oscar Niemeyer, perpetuando as circunstâncias e a história da bonita união. Um lindo final feliz!
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


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Por Wanderlino Arruda - 24/3/2009 12:55:27
NELITON E OS CUIDADOS DA VIDA
Wanderlino Arruda

Eu me lembro muito bem de quando, há alguns anos, a família de Neliton chegava, em desespero, ao São Lucas, depois da notícia do acidente de moto ocorrido com ele na estrada de Janaúba. Muitas luzes acesas na Avenida Geraldo Athayde, muita gente, aquela triste curiosidade de quem chega e de quem passa. Uns diziam que se tratava de um fotógrafo, outros mais chegados sabiam o nome de Neliton, outros ainda mais próximos diziam que era um irmão da professora Neide Rodrigues Pimenta. Todos lamentavam o acontecimento e reprisavam a informação de que Neliton era um motociclista muito cuidadoso, bastante ponderado para saber evitar qualquer acidente de rua ou de estrada. “Estaríamos diante de uma fatalidade?” Todos perguntavam!
Passado muito tempo após a borrasca de dor, a terna lembrança, a doce saudade do amigo ainda marcando uma humana e lamentada ausência, acatada mas nunca compreendida ou aceita, principalmente por causa dos vigilantes cuidados que o Neliton tinha no dirigir e no dispor da máquina e de sua força, para ele um instrumento de condução normal desde que em mãos de pessoa sensata e não apressada. Alguns meses depois, recebi da Neide, minha colega de magistério, um trabalho do Neliton sobre motos e motociclistas, frases destinadas a um concurso promovido para a Revista Quatro Rodas. “Pouco tempo antes do acidente de que foi vítima, ele nos telefonou do Foto para nos pedir, a Baltazar e a mim, um favor” – disse-me Neide: “Ele queria sugestões e quando veio buscar o que havíamos feito, já trazia consigo três slogans de um tal Zé Gordo e muitas outras frases de sua autoria”.
De Zé Gordo: “Duas rodas, duas mãos e uma consciência”. “Para um equilíbrio perfeito, duas rodas bastam”. “Duas rodas bastam, quando há cautela”. Do próprio Neliton: “Motociclista, todo cuidado é pouco”. “Segurança nunca é demais”. “Segurança dobrada, acidentes evitados”. “Motocando ou pedalando, mas, sempre se cuidando”. “Segurança... segurança... como é bom!”. “Motociclista, não vacile, não abuse, não se invalide”. “Motociclista, não tenha pressa de morrer”. “Cabeça inteligente, cabeça protegia. Máquina, quente, cabeça fria”. “Motociclista, ligue-se mais”. “Motociclista, ultrapassar às vezes é suicídio”. “Farol aceso, uma idéia luminosa”.
Aos slogans de Zé Gordo e do Neliton, o professor Baltazar Pimenta acrescentou estes: “Sua moto não pensa, pense por dois”. “Ser livre é importante, mas... vivo”. “Desfrute de sua liberdade... de ser realmente vivo”. “Agarre-se ao guidão da vida, ao guiar sua moto”. “Seja vivo e permaneça vivo! Não confunda liberdade com velocidade”. “Fique vivo! Corra da morte, andando devagar”. “Na minha moto eu corro muito, mas muito mais... da morte”.
Anos depois das frases e da passagem de Neliton para a vida maior, bem seria que todos os motociclistas redobrassem o cuidado no amparo da própria segurança. Como Neliton, muitos outros já se foram, também deixando saudades.
Que as frases do concurso do Neliton, o excelente amigo, o bom rapaz, não fiquem em vão. Volte o leitor a contá-las e repare bem que os números já não são mais somente simbólicos; dão muito o que meditar e fazer nova tomada de consciência. Quem quiser ter uma idéia de número de acidentes todos os dias, visita um pronto socorro de qualquer hospital.
Que Deus proteja a todos nós, principalmente aos motociclistas, agora chamados de motoqueiros.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 17/3/2009 10:10:16
HERMES DE PAULA, DOUTOR HONORIS CAUSA Wanderlino Arruda

Foi com morosidade que as quase trezentas vozes, que pareciam mais de mil, pausadamente, atenderam o pedido de silêncio do diretor José Nildo e Silva para o início dos trabalhos da segunda Sefam", o seminário dos professores e alunos da Faculdade de Medicina. Era uma quarta-feira, meio de semana, com suspensão de aulas para a maior avaliação até hoje feita pela nossa Faculdade, um cuidado necessário para enfrentar o presente de dificuldades e o futuro de incertezas. O diretor chama para dirigir os trabalhos, o patrono do D. A. e primeiro dirigente e organizador da escola, Mário Ribeiro. Caberá a ele, Mário, a formação da mesa, o anúncio maior da finalidade do encontro. Poucos nomes são declinados e, quando se levantam, caminham sob aplausos de alunos que sabem admirar seus professores. Apenas dois professores de fora são nomeados, fora da mesa, com permanência no auditório: o professor Álvaro de Azevedo Ávila, diretor da Fadir e representante da FUMN, e eu, representante da Fafil. Olho, ao lado, e vejo, triste uma grande omissão; Hermes de Paula fica esquecido, não é lembrado, muito embora doutor Cláudio Pereira, também ex-diretor, esteja mais atrás, também sem menção. Iniciados os trabalhos, com apresentações objetivas, curtas como devem ser, o diretor fala da Fundação da escola, de sua finalidade, anuncia uma palestra sobre a história de todas as lutas e sofrimentos nestes anos iniciais. Volta a palavra ao mestre Mário Ribeiro (nessa noite, de cerimônias) e, este faz o anúncio maior: "No auditório está o idealizador da Faculdade de Medicina do Norte de Minas, o homem que tomou os primeiros passos para a sua criação, o homem que me convidou para primeiro diretor. Convido-o para tomar o lugar que lhe compete, que é seu por direito; que é seu pelo desejo maior de todos nós. Recebamos Hermes de Paula, o nosso maior nome nesta Escola. A sua cadeira o espera, Hermes. Venha nos dar a honra". E com dificuldade que o doutor Hermes de Paula se levanta e encaminha-se para o estrado da mesa diretora. Para subir, é necessário o amparo de uma mão amiga. Nunca se presenciou tantos e tão demorados aplausos. A turma, de pé, bateu palmas como se estivesse batendo pela última vez, numa gratidão que só se tributa a um grande herói, herói e amigo. É nessa hora que vem a verdadeira declaração do primeiro dia de trabalho da Sefam. O diretor José Nildo lê a resolução; Hermes de Paula é declarado o primeiro Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina, uma honra que lhe é deferida pela capacidade e por um milhão de méritos como o maior de todos os montes-clarenses. Nova ovação. Alegria e sentimentalismo. Existe algo no ar que ninguém sabe o que é. Aquele não é o momento qualquer nas estórias da vida. Existem minutos que valem por um século. Ou mais... Hermes de Paula toma a palavra. Não vai falar muito, que não é de discursos. "Senhores, formei-me em Medicina em 1937, em Niterói. Vital Brasil, um dos homens mais famosos na Medicina brasileira, convidou-me para trabalhar com ele, no seu Instituto ganhando um dos melhores salários que um profissional poderia desejar ou sonhar, Cr$ 1.800. Além de ganhar tanto dinheiro, muito para a época, eu teria a oportunidade de ser também muito famoso. Mas, a saudade de Montes Claros e a lembrança dos meus amigos não deixaram que eu ficasse lá. vim para cá. Em todos estes anos, questionei-me se eu não havia cometido um grande erro, escolhendo a minha terra, numa vida humilde e trabalhosa. Às vezes, eu achava que tinha feito o certo.. Hoje, porém, sei que não poderia ter tomado uma resolução melhor. Eu fiz bem em vir para Montes Claros. Senhores, muita coisa me tem acontecido, todas gratas e muito tenho agradecido a Deus, por elas. Mas, se nada tivesse ocorrido, só esta noite, só esta cerimônia, só fato de estar recebendo este diploma das mãos e dos corações de vocês, eu posso dizer com toda a minha convicção: valeu a pena. Valeu. Muito obrigado a todos". Dois dias depois, Hermes de Paula se despediu de Montes Claros, para a viagem eterna. Para nos também, valeu a pena a vinda dele. Valeu! Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/3/2009 11:37:32
Professor Ezequiel Pereira

Wanderlino Arruda

Acho que esta crônica deveria estar sendo escrita por Haroldo Lívio. Ele a faria bem melhor, com mais sabor telúrico, uma vez que ele sente muito mais de perto a força da terra de Grão Mogol, o cheiro do amor metafísico que perpassa pelas ruas tortas e pela velha praça nominada pela placa mais bonita que já vi, a placa da Praça Prof. Ezequiel Pereira, bem o no centro da velha cidade. O Professor Zeca é de Grão Mogol, de lá mesmo, município cheio de pedras escuras de verde-musgo e maduras de amarelo-dourado, lugar de águas tão claras como o cristal mais claro, árvores de um verde tão intenso que faz doer-nos a vista. Nascido lá, ali tomando contato com a natureza e com o mundo, lendo e escrevendo as primeiras letras, construiu, construiu, de menino, um feliz alicerce de vida mais do que feliz. Não sei quantos anos tive de convivência com o Professor Zeca nem posso precisar bem a época dos nossos primeiros encontros, de quando eu comecei a beber na fonte inesgotável de sua sabedoria, do manancial de erudição tão maravilhoso que ele sabia muito bem guardar envolto numa sincera e natural simplicidade. Foi o Professor Zeca um dos homens mais cultos e mais humildes que pude conhecer até hoje, cultura que a gente tinha de minerar aos poucos através de perguntas, de colocação de assuntos que pudessem provocar sua obrigação de ensinar, de esclarecer. Sabendo muito, por demais preciso nos seus conceitos de ciência, de filosofia, de religião, de lingüística, parece que tinha medo, ou mesmo por excesso de amor evitava ofuscar os que pouco sabiam ou sabiam quase nada. O Professor Zeca era impecável na limpeza. Limpeza física e de coração, limpeza de idéias, de vocabulário, uma limpeza alegre, descontraída, despojada de qualquer tipo de pompa ou de orgulho. Sua presença colocava as pessoas tão à vontade como se elas estivessem numa respeitosa festa de família. Era um homem de bem, tudo indica, sem qualquer defeito visível ou invisível. Os que conviveram mais tempo com ele, - os saudosos Olímpio Abreu, Ney David, D. Deuslira Filpi, D. Lisbela, D. Lia Rameta, João Afonso, todos diziam nunca terem notado nele qualquer faceta negativa. Espírita desde os treze anos, juntamente com seu famoso irmão Cícero Pereira, Professor Zeca foi estudioso da doutrina até os 84, paciente nas anotações, firme e sem desfalecimento até o fim. Um erudito, obediente à Codificação, firme no escrever e no proferir palestras, foi sempre mestre admirado de muitas gerações. Houve em Montes Claros - há três décadas - uma semana de comemorações do centenário de nascimento do Professor Zeca. Foram dias de repasse de feitos grandiosos de um homem que jamais sonhou com grandezas. Professor, coletor do Estado, chefe político, guarda-livros na antiga fábrica do Cedro, foi sempre metódico e seguro nas suas decisões. Foi um dos fundadores da Fraternidade Espírita Canacy, no início do século XX, companheiro também dos sempre lembrados Aristeu de Melo Franco e de Sebastião Sobreira. O Professor Zeca não estudava só em português e não podia assim fazê-lo numa época em que muitos livros importantes não haviam sido traduzidos para nossa língua. Lia diligentemente em francês, inglês, italiano, espanhol, esperanto. Eram excelentes seus conhecimentos de grego e de latim. Um intelectual exemplar. O Professor Zeca, Ezequiel Pereira, foi sempre uma raríssima figura humana, homem bom, atualizado, competente, de uma elegância sem par. Um homem de bem!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/3/2009 08:49:02
REVISTA 3 DO INSTITUTO HISTORICO E GEOGRÁFICO
Wanderlino Arruda
Desejo, de início, saudar o companheiro Dário Teixeira Cotrim, nosso ilustre vice-presidente, como o sempre vitorioso coordenador desta Revista, agora em seu terceiro volume, feito inédito para qualquer instituição científica ou literária. Um maravilhoso acontecimento que tem tudo para ser repetido pelo menos uma vez a cada semestre,pode esperar nosso querido público interno e externo, sempre pronto a elogiar um feito tão bem feito. A Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, edição primorosa graças ao bom trabalho gráfico da Editora Millennium Ltda., tem sido também um exemplo de uma exemplar capacidade de trabalho e de boa vontade de grande parte do nosso quadro social, agora já acima dos noventa companheiros na lista efetiva e de muitos dos companheiros correspondentes moradores em outras partes fora da região norte-mineira. Somos felizes com a colaboração de todos, seja com trabalhos publicados, seja com a crítica amiga e positiva, mais útil ao nosso aperfeiçoamento. Tudo tradução de muita alegria e muita esperança, capazes de implantar, mudar e transformar qualquer coisa, principalmente a construção dos sonhos e a concretização do amor a tudo que represente registro da cultura e do saber histórico e geográfico. Afinal, somos pessoas com os pés na terra e a cabeça nas estrelas, capazes de sonhar, sem medo de nossos sonhos. Idealistas, determinados, transformamos sonhos em metas, com uma vontade incrível de tornar tudo uma segura realidade. Desde os primeiros dias da fundação no final de 2006, nunca abrimos mão de construir nossos destinos e arquitetar o melhor para o nosso Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, que chegou orientado e protegido pelo centenário Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, uma das mais firmes instituições do país, reconhecida internacionalmente. Parceiros da eternidade, permitimo-nos até uma brincadeira com um assunto mais do que sério: os limites da vida humana, tudo mutável e muito passageiro. Na Revista número um, registramos as nossas saudades ao primeiro companheiro chamado pelo andar de cima, o historiador João Botelho Neto, da cidade de São Francisco. Na Revista número dois, uma saudade dupla, com o passamento do também mui querido Padre Aderbal Murta de Almeida, página de homenagem já com duas fotos. Agora, número três, o Grande Arquiteto do Universo antecipou nossa edição com o chamamento ao colega Reivaldo Simões de Souza Canela: três fotos marcando doces lembranças, imensa saudade e registro de três vagas no quadro social. Tudo fora do nosso controle e nem podemos nos queixar do Criador, porque vida e morte sempre farão parte do cenário tanto da História como da Geografia. Desculpe-me o leitor e vamos esperar que a quarta revista, que deverá sair em junho/julho não contenha qualquer foto nova que não a da página de homenagens desta edição. Nossa última palavra é a de saudação ao Centenário do notável Godofredo Guedes, nosso artista maior de todos os tempos.

Presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/2/2009 09:59:41
Lembranças do Tiro de Guerra 87

Wanderlino Arruda

"Aprendemos não para a escola, mas para a vida", pensamento latino do velho Colégio Diocesano, aulas de latim de Monsenhor Gustavo, que muito têm servido a muitos ao longo da existência. No meu caso, realmente, nunca estudei só para a escola, só com o objetivo imediato de ganhar boas notas, embora uma nota mais alta cause sempre em um adulto uma alegria quase infantil, situação importante em qualquer época da vida. Quero agora falar sobre resultados, sobre alegria íntima, lembranças de inesquecíveis tempos do Tiro de Guerra 87, espaço de civismo do meu saudoso mestre, Sargento Moura. Idos de 1953, turma de quase cem rapazes, todos da mesma idade, todos com o mesmo sonho, povoando por vários meses a poeirenta Praça da Estação, terreiro público onde a velha Rodoviária incomodava o formigueiro humano que entrava e saia de Montes Claros. O prédio de Tiro de Guerra, localização privilegiada, esquina da Rua Tiradentes com a Praça e a Rua Melo Viana, tinha grande espaço de manobras até a estátua de Francisco Sá, no meio de pequeno jardim, no início das outras avenidas. Casa enorme, com salas e salões, tinha nos fundos a moradia do Sargento Moura e um quintal onde um por um havia de montar guarda, dividindo a segurança com um camarada, que ficava na porta de entrada. Não havia cadeiras; havia bancos, duros e pesadões, separados com razoável distância para evitar cotoveladas e outros tipos de brincadeiras tão normais entre a rapaziada. De todos os lados, menos à direita, janelas e mais janelas, que existem até hoje no prédio que veio alguns anos depois, quando o TG saiu para o Bairro Edgar Pereira, mudou de instrutor e permaneceu lá até a chegada do 55 BI. O Sargento Moura, altão, moreno, elegante, imponente, falador sempre, era o dono incontestável do tempo e da turma, primeira e última palavra em qualquer situação, só humilde nas eventuais inspeções ou no exame final do mês de outubro, quando vinha um capitão ou um major, uma espécie de imperador ou professor-chefe, que passava a centralizar todo o nosso interesse e cuidado. O Sargento Moura só era muito sério nas horas de instrução, pois extremamente exigente nas ordens de comando. Nas outras partes do dia, quando íamos ao Tiro para qualquer assunto, ou quando nos encontrava na rua ou em nosso local de trabalho, era como se fosse um colega mais velho, bondoso, amável, sempre um grande amigo, brincalhão, a colocar a mão no ombro de cada um em tom de conselheiro. Como bom professor, sabia de tudo, todos os assuntos eram do seu domínio, pertenciam ao seu mundo de cultura e de experiência humana. Dos companheiros de caserna, se podemos chamar de caserna um local que nos segurava apenas em parte de cada manhã e em algumas horas a mais no domingos, dos companheiros, temos muito que lembrar. Afinal, havia gente de todo jeito para povoar toda um universo de lembranças, principalmente os mais extrovertidos que deixam marcas pela quase eternidade. Isso para não dizer das influências e notícias de turmas passadas e futuras que - queira ou não - surgem e ressurgem da saudade. No meu tempo, os mais compenetrados eram os dois Renatos, o Veloso e o Almeida, por sinal, os mais capazes, do RDE aos exercícios de marcha e de tiro. Os mais malandros eram o Pamplona e o Souto, os dois terrivelmente imprevisíveis, tanto para nós como para o Sargento. O Souto é hoje bem conhecido, gostando mais de ser chamado de Humberto, sem o Guimarães, depois de eleito deputado estadual e federal, depois de ser ministro, sem favor nenhum, um político sério, um dos mais honestos que o Brasil já teve. Havia os caladões, os resistentes, os corajosos, uns que queriam aparecer, e alguns poucos bem desligados. A maioria, com o máximo de interesse, sempre vibrantes. Bons tempos, com tantas lembranças, que acho terei de voltar ao assunto em outras oportunidades. De alguma forma, fico muito grato ao bom tempo de TG, evocação de importantes e saudáveis momentos de vida. A todas as Semanas do Reservista, até hoje, 55 anos passados, dedico-as à memória dos que passaram pelo inesquecível tempo de vida militar no velho Tiro de Guerra 87. Os destaques são sempre para o Sargento Moura e seus sucessores. E pelo muito aprendizado e experiência!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 28/1/2009 20:40:19
CORBINIANO R. AQUINO
Wanderlino Arruda

Foi com tristeza e, ao mesmo tempo, com emoção e alegria, que vi, há alguns anos, o amigo e companheiro Corbiniano R. Aquino, o tão querido Corby, fazer a grande viagem de volta ao Mundo Maior, deixando os familiares e amigos um tanto órfãos de sua presença e bondade, pois consideradas agradáveis e proveitosas todos os pequenos e grandes momentos em que estivemos juntos no trato diário e nos trabalhos e discussões da Academia Montesclarense de Letras. Tristeza, porque, mesmo sabendo-nos não-imortais, nunca esperamos de imediato a ausência dos que nos são mais queridos, principalmente os mais próximos de nosso viver e conviver.
Por mais que saibamos da realidade da morte nunca a aceitamos sem queixas e saudades e, assim, toda ausência definitiva parece nunca vir no tempo certo, tem sempre um tom de antecipação. Emoção e alegria, porque nada melhor e mais gratificante que a sensação de ver concluída tão brilhantemente uma vida e lutas e vitórias, com certeza do dever cumprido, o coroamento do êxito e consolidação de amizades verdadeiras.
Corby foi grande e constante amigo, bom irmão, colega, condiscípulo na escola do trabalho, mestre-professor sensível e determinado de todas as horas. Não passou pela vida simplesmente, porque a viveu no que ela tem de melhor, de mais útil, em seara do esforço incansável de cada dia, sem paradas, sem perguntar a que veio, mas com a sincera disposição de quem sabia o porquê de estar no mundo. A boa hora para Corby era aquele tempo em que podia ser lucrativo em termos de cultura, de conforto, de progresso e evolução para todos que lhe seguiam a trajetória da romagem terrena. Nunca viver bem social, um conjunto de valores isolado, um não vigoroso e efetivo ao egoísmo. O bem de Corby foi que pudessem, sem dúvida, trazer a felicidade ao maior número possível de pessoas. Viver, viver muito, mas acima de tudo, conviver!
Sei que muitas pessoas só conheceram Corby como industrial e comerciante. Sei que muitas só o consideraram como líder classista na ACI, como filantropo na Maçonaria, como orador e conferencista em entidades públicas e escolas. Alguns o conheceram como homem de fino trato, social e sociável, sério e alegre, amigo, acolhedor. Alguns o viram no cultivo da terra, vidrado em plantações, pelo colorido das flores, por tudo que o solo produz, enriquece e embeleza a vida. Mas quanto eu gostaria que os nossos contemporâneos tivessem aproveitado mais de sua inteligência como escritor e poeta, de sua habilidade como desenhista, de sua lógica contundente nos assuntos da sabedoria e do espírito! Foi ele um grande pensador, homem de cultura em todos os aspectos.
Autor dos livros ACONTECEU EM SERRA AZUL e ACONTECEU, dois excelentes romances, muita coisa ainda virá a lume para lhe dar um reconhecimento póstumo. Bom advogado, respeitado químico, redator consciente das exigências da gramática, espero não demorar muito o dia em que Corbiniano seja citado como um dos nossos melhores intelectuais. Na imprevista ideologia da política e dos políticos mineiros, penso que não basta nem satisfaz só o existir, é preciso que haja recompensa. E disso, é claro que um dia Corby virá a ser reconhecido como um grande e notável merecedor.
Ninguém perde por esperar! A justiça tarda, mas não falta.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 21/1/2009 12:38:45
Cap. Enéas e a fundação de Burarama
Wanderlino Arruda

A decisão definitiva de mudar-se para a beira do Rio Verde, no Sapé, meio de mundo cercado, de matas compradas do Dr. Marcianinho, foi tomada em Belo Horizonte. Era uma decisão bem desenhada de sonhos, cheia de cuidados com um cheiro romântico e premeditado de aventuras na densa floresta e nos macios carinhos da mulher mais linda do mundo, que o capitão Enéas Mineiro de Souza acabara de conquistar depois de seis meses de investidas. Maria Aparecida, Neném, maravilha de vinte anos, morena clara, olhos castanhos da cor de uma noite de Caruaru, pele nova e aveludada de doce mangaba, falava com uma musicalidade que só uma fada poderia ter, tudo e muito mais do que o pernambucano pedia a Deus. Era o que Enéas sempre sonhara em todas as horas fáceis e difíceis da vida. Estava decidido, e esta decisão jurada no apartamento novinho do Brasil Palace, de frente para a avenida, não podia vir em hora melhor. Neném não aceitava de modo nenhum morar com ele em Montes Claros, e em Belo Horizonte ele não podia ficar por causa dos negócios aqui na região Norte. O Sapé era uma vilazinha velha, sem conforto, feinha até, mas nada importava, porque ao lado de Neném ele haveria de criar uma cidade nova, novinha, onde ela fosse até mais do que uma rainha. Quem vivesse ou sobrevivesse, veria!
Neném ficou em Belo Horizonte duas semanas para dar tempo ao tempo, indo depois para mais uns quinze dias na casa de D. Altina, no Alto São João, em Montes Claros. Foi o prazo para Enéas comprar pneus novos para os caminhões, ajeitar alguma coisa nos motores, aprontar as ferramentas e ensacar o que comer e pegar a gasolina tão difícil na época. Antônio Miguel, Mestre Severino, Epifânio e José Porfírio, além dos motoristas a postos, só esperavam a ordem de viajar. Foi uma dura travessia de muito esforço e suor, principalmente depois de Brejo das Almas, em estradas feitas para animais e quando muito para carroções e carros de bois. As enxadas e os enxadões, as picaretas e alavancas não pararam tempo nenhum pela tarefa de derrubar barrancos e tapar buracos, acertando aqui e ali, empurrando pedras nos carreiros das rodas dentro dos rios e córregos. Dos lados da mataria densa, com cheiro de terra molhada, a natureza espocava em flores e sons, numa alegria depois de chuva rara. Chegaram ao Sapé, afinal, na madrugada do dia 20 de janeiro, ano de guerra de 1942, depois de quase meia semana de pelejas. Foi um sono só para todos nos catres sem conforto da casa já alugada, por carta, a D. Antônia, mãe de Elpídio da Rocha.
Instalada com a consciência de quem veio para ficar, Neném era, a seu ver, a mais jovem e mais bonita dona de pensão de todo o sertão brasileiro, competente, decidida, a gerir uma casa grande, bem assoalhada e de paredes brancas, logo mais uma hospedaria para doutores da estrada-de-ferro em construção, entre eles os engenheiros Demóstenes Rockert, Novais, Laviola, e os médicos Eduardo Morgado e Darce, todos gente de maior simpatia. Para cumprir as exigências dela e salvar as aparências, Enéas Mineiro de Souza, capitão da Polícia de Pernambuco, era apenas um hóspede a mais, empreiteiro de muitos serviços, desmatador chefe. Nada além disso, pelo menos durante o dia e até a hora em que todos iam dormir... Com as duas empregadas que Neném trouxera de Montes Claros, tudo espelhava limpeza e arrumação, já com luz elétrica e água encanada, providenciadas para o maior conforto de todos.
No mesmo dia 20 de janeiro de 1942, voltando pela velha estrada, Antônio Miguel e o capitão, no meio da esplanada de nunca acabar, capaz de abrigar dois milhões de habitantes se tanto fosse preciso, escolheram um pé de tingui bem copado para localização da primeira barraca do acampamento inicial. A idéia era colocar aquela mataria toda no chão e sobre as bancadas das serras, começando logo uma frente de serviço, tão comum em suas vidas... Era como se ali estivesse começando a história do mundo. E ainda bem, porque, um quilômetro abaixo, em casa, Enéas tinha uma mulher que valia por todas as minas de ouro da terra. Na coragem dos seus companheiros e na sua vontade e determinação de vencer, apareciam os primeiros toques para a existência da fazenda Burarama, de cujas avenidas e praças ele daria mais tarde a formação da futura cidade que, depois de sua morte, receberia o seu nome: Capitão Enéas.
Poderia haver momento mais feliz? Impossível!

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Por Wanderlino Arruda - 14/1/2009 21:52:18

SAUDADES DE DUCHO
Wanderlino Arruda

Poderia demorar o tempo que demorasse, depois de longo período de saudades, eu teria de escrever uma crônica sobre meu amigo Ducho, pai de Glacira e Thaís, de Lúcia e Fátima de Tarcísio e Expedito, de Tiãozinho e Raimundo, pai de Miguel e marido de Dona Geralda. E para isso valho-me de antigas anotações feitas por ocasião das homenagens que lhe foram prestadas por alunos e professores do Conservatório Lorenzo Fernandez, fruto de um momento vivo de amor e admiração, festa cantada em prosa e verso numa noite de maior alegria para o amigo Sebastião Mendes, mestre da arte de ser feliz.
Realmente, para falar de Ducho ninguém precisa ou precisava de pressa. Ele era o homem da calma constante, da boa disposição íntima, da alegria bem comportada, do sorriso sério, um desfilar de completa felicidade. Lúcido, realista, racional e equilibradamente místico, era o filósofo elegante e de bom trato, sempre portador de uma palavra amiga, sem qualquer sinal de ostentação. Ducho era um homem, sobretudo, interessante, sóbrio e limpo, parecendo estar sempre saindo do banho; amigo de todos. Equidistante, não se apegava nem se afastava de ninguém; um quase silencioso e respeitado companheiro, pois falava comedido como um velho marinheiro, voz suave de um vitorioso embaixador. Não creio que Ducho guardasse no coração qualquer traço de ressentimento; pois seu olhar era de completa paz, misto de Sócrates e de Gandhi, parecendo completo conhecedor dos mistérios de Eleusis, um tipo de viajante feliz do Nirvana, só com passagem por este planeta Terra.
Falando, certa vez, com Ducho sobre religião, perscrutando profundamente seu pensamento, perguntei-lhe sobre seu conhecimento espírita e até aonde ia sua convicção nos postulados da codificação de Kardec, tal sua harmonia de idéias, um tanto de Buda e muito Krishnamurti. Ele sorriu com o mais amistoso dos sorrisos e, sem qualquer atitude crítica, disse-me que era um fiel respeitador de todas as opiniões religiosas, mas que, por questão até de inteligência, procurava situar-se sempre acima delas, jamais as tocando diretamente. Para se viver bem com todas, respeitava-as, aproveitava de cada uma o melhor, pairando do alto, não se envolvendo, não tomando partido. Era preciso ler de tudo e retirar a essência como aconselhara o combativo e sábio apóstolo Paulo de Tarso. Aí estava o segredo obtido das suas observações e de muita leitura que sempre fez cuidadosamente, já que muitos são os caminhos que nos levam a Deus.
Para Ducho, o purgatório, que o homem tem construído, poderia transformar-se em céu, se o estado geral das consciências fosse melhor, se houvesse menos ambição, menos pressa, esse cansativo jogo em busca do poder e da riqueza. Cada criatura deveria legislar sobre o próprio bem com a busca do equilíbrio, da tolerância, confiando sempre na sabedoria divina, cuidando de não se ferir e não ofender os companheiros de romagem da vida. A felicidade pode ser encontrada, e ele sempre a encontrou. Afinal se não fosse assim, como estaria diante dos seus milhares de amigos?...
Já com mais de noventa anos, saúde perfeita, prática diária de longa, Sebastião Mendes, o nosso Ducho, empresário e artista, intelectual e filósofo, era o melhor exemplo de companheirismo, o melhor agente da soberania e da sóbria distinção dos sertanejos de Montes Claros. Um maravilhoso exemplo!

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Por Wanderlino Arruda - 7/1/2009 09:25:42
Osmar Cunha
Wanderlino Arruda

A lembrança mais antiga que tenho de Osmar Cunha é de Taiobeiras, ano de 1949, quando ele, estudante de contabilidade em São Paulo, veio a Minas para um período de férias. Sério e alegre ao mesmo tempo, parecendo mais novo do que a idade exigia, era a elegância em pessoa, com ternos e gravatas da última moda, tecidos caros, cortes perfeitos, qualidade distante para as que qualquer outro vivente comum poderia usar, inclusive seu irmão Dudu Cunha, que também era muito grã-fino. Ninguém vestia ou calçava como Osmar, porque, de São Paulo, ele sempre escolhia o melhor, uma vez que dinheiro e bom gosto nunca lhe foram problemas. Invejado por nós, pobres mortais de Taiobeiras? Não, não creio. Na verdade, Osmar Cunha era é respeitado, admirado, elevado a um patamar, algo assim como se fosse herdeiro do trono do Brasil. O melhor a quem de direito!
Também não me lembro de Osmar namorador como Dudu, ou como qualquer outro de nós, mesmo os meninos, que normalmente tinham mais de um flirt. Osmar era comedido, calmo, mais ligado às pessoas de idade, para conversas de assuntos mais importantes. Mesmo para uma cidadezinha culta como era Taiobeiras em 1949, quando se discutia literatura, acontecimentos mundiais, artes, esportes, concursos de misses, quando existia uma meia dúzia com algum domínio do inglês, Osmar ainda era considerado de padrão superior, principalmente por morar e estudar no centro da cidade de São Paulo, como filho de família rica. Mas, no meio de toda importância, Osmar fazia algumas concessões ao jogar futebol, nadar na barragem, jogar pôquer, dançar, dar voltas em torno da feira de sábado, ir à missa na antiga igreja perto de sua casa. Namorar, namorar, que era o esporte mais gostoso por lá, era só com a Laury, a moça mais culta e mais bonita, também viajada e lida como ele. Ou mais que ele!
Não me lembro de Osmar político, candidato a prefeito de Taiobeiras, porque aí, eu já morava em Montes Claros. Talvez por uns dois passeios rápidos por lá, quando eu ia ver Olímpia e a minha família, tenho lembranças poucas, flashes dos acontecimentos, com um quadro mergulhado de paixões, a situação batendo duro, furtando escandalosamente para não perder o mando, não respeitando nem a elegância de Osmar. Lembro-me de Laury lutando com todas as forças, até pegando em armas, como um dia em que ela espantou uma multidão de adversários, fazendo todos correrem sob a mira de uma carabina. Mas de Osmar, não me lembro! Sua capacidade administrativa, assim como sua diplomacia elevada bem acima das efervescências maledicentes, não o pôde conduzir a vitória. Votos comprados, urnas fraudadas, todo tipo de astúcias e tramóias dos adversários tiraram a sua vez. Triste e desiludido mudou-se para Montes Claros. Secretamente, caladão, nunca cicatrizou a paixão da derrota. Com amargo sorriso era que falava da política de Taiobeiras.
Em Montes Claros, sempre comerciante, ao lado de Dudu ou sozinho, Osmar talvez tenha sido o empresário mais amado e querido por seus funcionários, por seus clientes, pelos fornecedores. Não sei e talvez ninguém saiba de alguém que não gostasse dele. As pessoas o adoravam e nele confiavam sem limitações. Nenhum documento valia mais que a palavra de Osmar. Nenhum prazo era tão rígido no comércio que ele não pudesse ceder em favor de um devedor mais apertado. Quantas vezes Dudu não ficou com o coração nas mãos diante da bondade de Osmar, sempre ajustando vencimentos, sempre ajudando alguém! Osmar era uma espécie de pai dos pobres e deserdados, que o digam os pequenos comerciantes de Montes Claros e de todas as cidades do Norte de Minas e Sul da Bahia. Até hoje posso imaginá-los chorando de saudades!
Osmar Cunha, inesquecível presidente do Elos e do Rotary, marido, pai, irmão, companheiro e professor de muitos, nunca foi um homem comum, nem só um homem elegante. A estrela de ouro que, por nobreza, deixou no mundo, por muito tempo ainda brilhará e abrirá caminhos de luz, de amizade e de admiração!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


42080
Por Wanderlino Arruda - 30/12/2008 17:14:26
EDUCADORES E JEQUITIBÁ
Wanderlino Arruda

Começou com uma analogia feita por Rubem Alves, no livro "CONVERSA COM QUEM GOSTA DE ENSINAR", fazendo uma comparação entre jequitibás e eucaliptos, para confronto ou sintonia entre educadores e professores. Que diferenças existem entre um educador e um professor? Que diferença há entre um jequitibá e um eucalipto? Primeiramente é bom lembrar as diferenças entre um antigo boticário e um atual farmacêutico, entre um antigo tropeiro e um transportador moderno. O boticário era um homem que fazia tudo na farmácia: manipulava os remédios, embalava-os diretamente para as mãos do freguês, com o máximo de carinho, quando não os levava ao leito do doente. Boticário era a pessoa que tinha sempre um dedo de prosa para cada um que entrava na sua farmácia, era o principal nariz do seu estabelecimento comercial, um dirigente da cultura local, um distribuidor de notícias e conselhos, um agregador social, um encaminhador de diretivas de vidas. Um tropeiro era o homem que criava os seus animais, alimentava-os, limpava-os, arrumava os arreios, cuidava das cargas zeladas pela comida na trempe improvisada, fazia o pouso de dormida, contava estórias para a sua equipe de viagem. Hoje, o boticário é o farmacêutico que ninguém vê, ninguém conhece nem sabe que existe, em farmácias impessoais e apressadas, quase sem qualquer vínculo de consideração humana. As exceções, claro, são raras. O transportador nem existe mais em lugar do tropeiro. O que há são empresas dirigidas por escritórios que falam por telefone ou controlam por computadores, enviando e-mails com cheiros de nada, distantes, tão distantes como os destinos das mercadorias que transportam.
E os educadores? Eram mulheres ou homens dedicados por toda uma vida, mesclando suas existências com as existências dos seus alunos. Eram detentores da sabedoria universal, ensinando tudo, da higiene à história do mundo, desde a língua pátria aos mais complexos problemas de aritmética, da geografia à religião, do desenho às ciências naturais, da economia doméstica aos requintes dos salões. Era um tempo em que formavam rapazes competentes e moças prendadas, uma finura de nobreza, um ambiente em perfume de primavera. Os professores de hoje, pelo menos os que não são educadores, pobres coitados, são descartáveis, mão-de-obra perfeitamente substituível. Ficam em greves durante meses, entram em licença, saem de férias, são demitidos, sem nada influir suas ausências nas considerações dos governos, da pátria ou do povo. No lugar de um entra outro, pouco importa a competência ou o grau de conhecimento. A melhor comparação é feita entre o jequitaí e o eucalipto. O jequitibá é árvore de longa vida, de cinqüenta, cem, duzentos anos, passando de geração em geração, útil e precioso. Ao contrário, o eucalipto está maduro para uso em quatro ou cinco anos, pasto para nenhum vivente, deserto verde, alimento para nada, toca de silencia com ausência de pássaro e animais.
Verdade? Não adianta discutir, não adianta o profissional moderno de ensino, ou trabalhador de ensino, como gosta de ser chamado para efeito sindical, dizer que não é bem assim. É o próprio mundo que vem dissolvendo a tarefa do educador da mesma forma que também quase acabou com o jequitibá, com a braúna, a violeta, o jacarandá, o cedro, a peroba e já quase com a sucupira. O jequitibá, forte e eterno, simboliza o educador, tem o sentido de permanência, é para a vida inteira, utilidade em todos os sentidos; o eucalipto – descartável por natureza e quase fora da natureza – é o professor, que não mais acompanha o aluno, não mais dispõe de tempo, não mais vive o problema do aprendiz, não mais sente ou vive qualquer tarefa, um desesperado a correr de escola em escola, de classe em classe para conseguir o pão de cada dia, ou uma renda menos decepcionante. Professor já não sabe o nome do aluno; aluno já não se interessa mais pelo professor, nem de onde vem, nem para onde vai. Materiais de consumo de expediente, uns e outros. Nada mais!
O não dar certo em muitas coisas do mundo de hoje é problema de falta de fidelidade, de interesse, de motivação, de incentivo, da incapacidade de sonhar. O não dar certo na profissão de educador é que os governos não mais se interessam pelo problema do ensino, jogando-o de escanteio, livrando-se dele, principalmente porque o ensino nos lhe dá as interessadas vantagens adicionais, têm as campanhas políticas. Como tirar percentagens, o famoso terço, de folhas de pagamento? Assim, infelizmente muitos educadores com vocação de educadores acabam tornando-se simplesmente professores, como eucaliptos. Sem fidelidade, sem compromisso de vivência total. Sem desenvolvimento da capacidade de ternura, do refinamento, do interesse pessoal pelo que faz.
Feliz do professor que ainda é um educador que ainda consegue guardar a fidelidade e a vocação do tropeiro e do antigo boticário. Esse merecerá, sem dúvida, um cantinho nos jardins celestes!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 22/12/2008 11:28:58
AVENTURA ANTES DO NATAL

Wanderlino Arruda

Eu havia chegado de uma viagem de férias, começada em meados de dezembro, quando me entregaram aviso e um convite para receber um prêmio em Goiânia. A Segunda Semana de Artes de Goiás tinha escolhido um quadro meu - "Estrada em Movimento" - com premiação em dinheiro e diploma, e queria a comissão que eu fosse pessoalmente participar da festa. Como não estava em período de serviço ainda, nem pensei duas vezes e tomei o primeiro ônibus para Brasília, aonde cheguei numa manhã linda, com um sol de rara beleza nascendo multicolorido no meio dos dois blocos do Congresso Nacional, coisa de muito agradar a quem pinte ou escreva qualquer pedacinho de vida ou de natureza. E foi aí em Brasília que descobri o aperto em que me metera, um sério envolvimento de dificuldades em véspera de Natal. Não havia passagem para voltar a Montes Claros, a tempo de participar das festas da família. Tudo, além de difícil, impossível.
Quando as coisas não ficam fáceis, o pior que pode acontecer é esquentar o juízo, porque um pouco de calma será sempre o melhor caminho, já que cautela não faz mal a ninguém. Não ir para Goiânia, naquela hora, seria colocar a alegria e o sacrifício em total prejuízo. Ficar na capital não era bem o meu destino. Ir para outra cidade também não tinha graça. E o que fazer? Examinar todas as possibilidades, uai! E foi aí que achei a solução melhor. Rapidamente, vi que um velho sonho poderia ser concretizado, já que conhecer o grande sertão era meu mais velho desejo, principalmente se pudesse passar pela Serra das Araras e ver todas as matarias descritas por Guimarães Rosa nos seus livros. Comprei a última passagem, do dia 23, para São Francisco, previsão de saída às 7 e chegada às 5 da tarde, e nem mais pensei em prêmio de pintura, muitíssimo mais interessado em torno da nova aventura.
De volta de Goiânia, pouco antes das 7, em Brasília, uma multidão diante da tabuleta de nosso ônibus, gente que dava para quase três viagens. Faltando cinco minutos, o motorista avisou ao pessoal sem passagens que todos deveriam ir, a pé, até a W-3, aguardando lá por um tempinho, pois, só poderia sair da Rodoviária com viajantes sentados. Ficou na fila pouco mais de um terço, e uns sessenta saíram para obedecer à ordem.
O que vimos, em seguida, debaixo do primeiro viaduto, era para qualquer pessoa normal duvidar, pois não seria possível aquele carro suportar nem peso nem o volume de tão numerosa clientela. Foram seis longos minutos de acomodação, ajeito aqui, ajeito ali, gente mais nova sentada no colo de gente mais velha, namorados e recém-casados bem juntinhos, os mais afoitos sentados no encosto dos braços, uma verdadeira lata de sardinha humana.
Antes de Unaí, umas duas paradas para mais passageiros. Não adianta dizer que não dava, não podia, porque sempre era encontrado um recurso, um aperto mais e tudo bem! No ponto de café onde o motorista disse que era apenas um minutinho, só para sair gastamos um quarto de hora. Para entrar todo mundo de novo, aí já com mais seis passageiros, pelo relógio não foi menos de quarenta minutos. Houve horário de almoço, mais três companheiros de aventura e mais demora de entrar e sair, porque estômago cheio dá sempre preguiça. Quando paramos à tarde para o café, não precisou ninguém descer, porque as laranjas, bananas, melancias, pastéis e brevidades, assim como rodelas de cana tudo foi comprado pelas janelas. Uma grande novidade e um milagre de salvação foi o aparecimento de água mineral, creio nada mais importante num dia de tanto calor.
Na Serra das Araras, um lugarzinho bem bonito, arborizado, com praça toda verdinha de grama, apareceu uma senhora para viajar, com três meninos lourinhos e um engradado com dois perus fazendo glu-glu-glu. De início, o motorista não concordou, dizendo ser impossível, pois, se houvesse lugar para ela e para os garotos, onde é que iria colocar os perus? Foi uma curiosidade geral, gente e mais gente botando a cabeça para fora da janela, querendo dar palpites e ajudar na situação. Realmente, onde colocar os perus? Problema para nós e para o condutor, porque, para ela, tudo normal. A dona chamou o trocador, mandou-o tirar três ou quatro malas e alguns sacos e embrulhos, olhou e reolhou o bagageiro e, como velha viajante, enfiou seu caixote no meio dos tarecos do povo. Foi um alívio geral. De cabeça erguida, importante, ela pegou os meninos, sorriu, limpou o suor da testa, e com eles ocupou o primeiro degrau depois da entrada.
Quando chegamos a São Francisco, não às 5 da tarde, mas às 8 da noite, o ambiente interno estava tão carregado e tão cheio que a porta só podia ser fechada ou aberta por alguém do lado de fora. Ninguém precisava ter medo de cair ou escorregar, porque para isso não havia nenhum espaço vago. Embora não fosse minha obrigação, julguei importante fazer estatística para o DER ou para quem interessar possa. Com motorista, ajudante e todos nós, cento e vinte e três passageiros desceram: 121 humanos e 2 perus. Só nós sobrevivemos até o Natal. Os perus devem ter sido argumento de bom apetite durante as festas. Ou antes, porque sabemos que peru morre na véspera...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


41748
Por Wanderlino Arruda - 18/12/2008 11:57:13
AUTO DE NATAL

(Adaptação e dramatização dos textos de Lucas 1 e 2)

Wanderlino Arruda

NARRADOR - Nos dias de Herodes, rei da Judéia, houve um sacerdote chamado Zacarias, do turno de Abias. Sua mulher era das filhas de Arão, e se chamava Isabel.
Ambos eram justos diante de Deus, vivendo irrepreensivelmente em todos os preceitos e mandamentos do Senhor. E não tinham filho, porque Isabel era estéril, sendo eles avançados em dias.
Ora, aconteceu que, exercendo ele diante de Deus o sacerdócio na ordem do seu turno, coube-lhe por sorte, segundo o costume sacerdotal, entrar no santuário do Senhor para queimar o incenso: e, durante esse tempo, toda a multidão do povo permanecia da parte de fora, orando. E eis que lhe apareceu um anjo do Senhor, em pé, à direita do altar do incenso.
Vendo-o, Zacarias turbou-se, e apoderou-se dele o temor.
ANJO GABRIEL - Zacarias, não temas, porque a tua oração foi ouvida; e Isabel, tua mulher, te dará à luz um filho a quem darás o nome de João. Em ti haverá prazer e alegria, e muitos se regozijarão com o seu nascimento. Pois ele será grande diante do Senhor, não beberá vinho nem bebida forte, será cheio do Espírito Santo, já do ventre materno. E converterá muitos dos filhos de Israel ao Senhor seu Deus. E irá adiante dele no espírito e poder de Elias, para converter os corações dos pais aos filhos, converter os desobedientes à prudência dos justos e habilitar para o Senhor um povo preparado.
ZACARIAS - Como saberei isto ? pois eu sou velho e minha mulher avançada em dias.
ANJO GABRIEL - Eu sou Gabriel, que assisto diante de Deus, e fui enviado para falar-te e trazer-te estas boas novas. Todavia, ficarás mudo, e não poderás falar até ao dia em que estas cousas venham a realizar-se; porquanto não acreditaste nas minhas palavras, as quais a seu tempo se cumprirão.
NARRADOR - O povo estava esperando a Zacarias e admirava-se de que tanto se demorasse no santuário. Mas saindo ele, não lhes podia falar; então entenderam que tivera uma visão no santuário. E expressava-se por acenos, e permanecia mudo.
Sucedeu que, terminados os dias de seu ministério, voltou para casa.
Passados esses dias, Isabel, sua mulher, concebeu, e ocultou-se por cinco meses, dizendo:
ISABEL - Assim me fez o Senhor, contemplando-me, para anular o meu opróbio perante os homens.
NARRADOR - No sexto mês foi o anjo Gabriel enviado da parte de Deus, para uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré, a uma virgem desposada com certo homem da casa de Davi, cujo nome era José; a virgem chamava-se Maria.
ANJO GABRIEL - Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é contigo. Bendita és tu entre as mulheres !
NARRADOR - Ela, porém, ao ouvir estas palavra, perturbou-se muito e pôs-se a pensar no que significaria esta saudação.
ANJO GABRIEL - Maria, não temas; porque achaste a graça diante de Deus. Eis que conceberás e darás à luz um filho a quem chamarás pelo nome de Jesus. Este será grande e será chamado Filho do Altíssimo; Deus, o Senhor, lhe dará o trono de Davi, seu pai. Ele reinará para sempre sobre a casa de Jacó, e o seu reinado não terá fim.
MARIA - Como será isto, pois não tenho relação com homem algum ?
ANJO GABRIEL - Descerá sobre ti o Espírito Santo e o poder do Altíssimo te envolverá com a sua sombra; por isso também o ente santo que há de nascer, será chamado Filho de Deus.
E Isabel, tua parenta, igualmente concebeu um filho na sua velhice, sendo este já o sexto mês para aquela que diziam ser estéril. Porque para Deus não haverá impossíveis em todas as suas promessas.
MARIA - Aqui está a serva do Senhor; que se cumpra em mim conforme a tua palavra.
NARRADOR - Naqueles dias, dispondo-se Maria, foi apressadamente à região montanhosa, a uma cidade de Judá; e entrou na casa de Zacarias e saudou Isabel.
MARIA - Como estás, Isabel, prima querida ? Fico muito contente em poder visitar-te. Estás esperando um filho ?
NARRADOR - Ouvindo esta saudação de Maria, a criança lhe estremeceu no ventre; então Isabel ficou possuída do Espírito Santo.
ISABEL - Bendita és tu entre as mulheres e bendito o fruto do teu ventre.
E de onde me provém que me venha visitar a mãe do meu Senhor ? Pois logo que me chegou aos ouvidos a voz da tua saudação, a criança estremeceu de alegria dentro de mim.
NARRADOR - Bem-aventurada a que creu, porque serão cumpridas as palavras que lhe foram ditas da parte do Senhor.
MARIA - A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito se alegrou em Deus, meu Salvador, porque contemplou na humildade da sua serva. Pois desde agora todas as gerações me considerarão bem-aventurada. Porque o Poderoso me fez grandes coisas. Santo é o seu nome. A sua misericórdia vai de geração em geração sobre os que temem. Agiu com o seu braço valorosamente; dispersou os que no coração alimentavam pensamentos soberbos. Derrubou dos seus tronos os poderosos e exaltou os humildes.
NARRADOR - Maria permaneceu cerca de três meses com Isabel e voltou para casa. A Isabel cumpriu-se o tempo de dar à luz, e teve um filho. Ouviram os seus vizinhos e parentes que o Senhor usara de grande misericórdia para com ela, e participaram do seu regozijo. Zacarias, que continuava mudo desde a visita do Anjo Gabriel, na hora da circuncisão, pediu uma tabuinha e escreveu: João é o seu nome. E todos se admiraram. Imediatamente a boca se lhe abriu e, desimpedida a língua, falava louvando a Deus.
ZACARIAS - Bendito seja o Senhor Deus de Israel, porque visitou e redimiu o seu povo !
Tu menino, serás chamado profeta do Altíssimo, porque precederá o Senhor, preparando-lhe os caminhos, para dar ao seu povo conhecimento da salvação.
NARRADOR - Naqueles dias foi publicado um decreto de César Augusto, convocando toda a população do império para recensear-se. Todos iam alistar-se, cada um à sua própria cidade. José também subiu da Galiléia, da cidade de Nazaré, para a Judéia, à cidade de David, chamada Belém, por ser ele da casa e família de David, a fim de alistara-se com Maria, sua esposa, que estava grávida. Estando eles ali, aconteceu completarem-se-lhe os dias, e ela deu à luz o seu filho primogênito, enfaixou-o e o deitou numa manjedoura porque não havia lugar para eles na hospedaria.
ANJO GABRIEL - Nasceu na cidade de Davi, o Salvador, que é Cristo, o Senhor. Glória a Deus nas maiores alturas, e paz na terra entre os homens a quem ele quer bem.
NARRADOR - E ausentando-se deles os anjos para ao céu, diziam os pastores uns aos outros: Vamos até Belém e vejamos os acontecimentos que o Senhor nos deu a conhecer. Foram apressadamente e acharam Maria, José e a criança deitada na manjedoura.


41683
Por Wanderlino Arruda - 16/12/2008 09:49:55
CHEGOU O FILHO DE MARIA
Wanderlino Arruda

Há dois mil anos,
em humilde manjedoura,
e confraternização de paz,
chegou o filho de Maria,
um menino chamado Jesus:
pão da vida, luz do mundo.

Linda manhã, intenso clarear,
tudo de poder divino.

Clareiras abertas na fé,
novas veredas no espírito,
novo pensamento em tudo.

Ele veio para ficar,
eterna permanência,
novo ensino para novos corações.
Caminho, verdade e vida,
agora a noite tem mais estrelas,
tudo está iluminado.

Porque Ele veio,
obrigado, Senhor Deus,
obrigado, hoje e sempre,
de todo o nosso coração.

Que bom nos ter enviado Jesus,
trazendo-nos a sua paz!

Academia Montesclarense de Letras


41261
Por Wanderlino Arruda - 3/12/2008 10:47:02
CÂNDIDO CANELA
Wanderlino Arruda

Grande poeta, de nome nacional, pois vencedor de muitos e muitos concursos em Minas e em outros estados, mesmo à revelia, sem ser candidato. Era homem de sensibilidade, coração à flor da pele, todo o tempo voltado às atividades intelectuais, coisas do espírito. Cândido, mais do que montes-clarense, foi um sertanejo autêntico, amante de tudo que era do povo simples – gente da cidade e da roça – em todos os momentos verdadeiro.
Conheceu as minúcias do falar e do viver da gente norte-mineira, vivendo e convivendo com sua poesia, suas manias, tudo! Nada havia de oculto para ele. Era um desnudador de consciências, fosse através da observação pessoal, fosse por meio do diálogo direto e franco, ou até na vida profissional, atrás de sua mesa no Cartório da Rua Camilo Prates. Sabia sempre aproveitar cada minuto precioso do saber e sentir, principalmente quando se referia à natureza, sua maior paixão.
Conheci Cândido Canela desde que cheguei para viver em Montes Claros há quase seis décadas. Sempre tive dele como homem público, político, poeta, escritor, leitor, a melhor das impressões. Fui e sou eterno admirador da inteligência, de sua capacidade de absorver o lado interessante de tudo. Lírico, sagaz, irônico, irreverente, é às vezes, um santo, um puro de coração, era um casuístico crítico das falsidades humanas.
Uma situação nunca foi encontrada em Cândido Canela: a neutralidade. Ele estava sempre contra ou a favor dos acontecimentos, das pessoas ou das coisas. Parece que nunca aprendeu as lições do silêncio, em tudo tinha de emitir sua opinião. Teve e soube ter sempre o seu lado da verdade.
Cândido grande montes-clarense, foi membro das academias Montesclarense de Letras e Municipalista de Letras de Minas Gerais. Foi radialista, cronista, colaborador constante de vários jornais. Mereceu e merece o bom nome que teve e que tem. Um verdadeiro imortal!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 26/11/2008 09:35:04
CALENDÁRIOS

Wanderlino Arruda

Contei um caso, há algum tempo, sobre alguns exemplares antigos de Seleções do Reader`s Digest que Nathércio França havia me dado de presente. Falei da minha espera em recebê‑las e da alegria com que as tive em minhas mãos, e do prazer que tenho até hoje em lê‑las, tanto em Montes Claros como aqui em Belo Horizonte, de onde escrevo depois de uma cirurgia. Ainda bem cedo e bem agasalhado, tiro proveito de uma delas, a de novembro de 1945, pesquisando infor­mações para transmitir algumas curiosidades sobre o calendário, um pouco de história e uma proposta de mudança para tornar nos­sa vida mais arrumadinha em termos de meses e semanas. Não fi­que preocupado/a, leitor/a, porque, no momento, parece-me, nenhum governo está preocupado com essas coisas. Todos estão às voltas só com as dificuldades internacionais das empresas e das pessoas, com as dívidas ou com o aumento da arrecadação que poderão tirar de dentro da cartola.
O nome calendário vem de calendas, o primeiro dia de cada mês, na antigüidade romana. Já houve muitas formas de contar o tempo, modos com que cada povo praticamente tinha a sua forma de organizar semanas, meses e anos. Assim, houve o calendário hebraico, o chinês, o maia, o armênio, o egípcio, o hindu, o maometano, o de Roma, o asteca e, quem sabe, até o brasileiro, de quando os nos­sos tupis‑guaranis contavam o tempo pelas fases da lua. Foi sem­pre uma absurda mistura de critérios, de tal forma, que um avião que partiu de Londres em 5 de janeiro de 1939 chegou a Belgrado, na Iugoslávia, no mesmo dia, mas numa data designada como 23 de dezembro de 1933. Se um avião voar muito ligeiro e chegar ao Japão dentro de umas cinco horas, acaba saindo hoje e chegando ontem! É tão doidão que ninguém entende, por exemplo, porque a páscoa pode cair em qualquer data entre 22 de março a 25 de abril e o Natal sempre numa data fixa, o 25 de dezembro. Repare que a sexta‑feira da paixão é sempre uma sexta‑feira, mas nunca num mesmo dia do mês.
Os contadores que façam as contas e vejam que não existem dois trimestres no ano com o mesmo número de dias. Têm exata­mente 90, 91, 92 e 93, porque trinta dias têm setembro, abril, ju­nho e novembro; 28 terá um, e os outros trinta e um". Difícil tirar médias e fazer cálculos nas estatísticas. Os judeus ortodoxos, até hoje, ainda empregam um calendário lunar e sincronizam suas es­tações intercalando um mês extra de dois em dois ou de três em três anos. Os primeiros romanos viveram com um ano de dez me­ses, com 304 dias, até que Numa Pompílio, no Século Vll A.C., acrescentou janeiro e fevereiro. Mas era tudo tão incerto, que os altos sacerdotes habitualmente ainda os encurtavam mais quando seus adversários estavam no poder, e os ampliavam para agradar seus favoritos... Os egípcios, estudando as sombras das pirâmides, fizeram um ano de 365 dias e um quarto, com 12 meses de 30 dias e 5 dias extras para comemorações, um bissexto de 5 em 5 anos. Os astecas tinham o ano com 18 meses de 20 dias e mais as sobras para as festas ou dias chamados nefastos.
Para uma tentativa de uniformização, tal sistema foi adaptado ao mundo romano, quando Júlio César decretou que o ano 46 antes de Cristo fosse aumentado para 445 dias, a fim de ajustar‑se com o sol. Devido às superstições relativas aos números ímpares, os cinco dias de festas foram distribuídos entre os meses. Um dia foi tirado de Februarius e dado a Quintilis, que mais tarde mudou de nome, passando a chamar‑se Julius, em homenagem ao autor do calendário. Uma segunda amputação foi mais tarde perpetrada contra Februarius, por Augusto, que deu o referido dia ao mês do seu nascimento, isto é, agosto. Foi só em 325 depois de Cristo que o Concílio de Nicéia estabeleceu a semana de sete dias, indepen­dente dos meses e dos anos, ou seja, andando com as próprias pernas, se é que semana tem perna.
Foi em 1852 que o Papa Gregório corrigiu a astronomia de Cé­sar, ordenando que três dias bissextos fossem retirados de quatro em quatro séculos. Uma novidade: se for aprovado o calendário mundial, teremos trimestres iguais, cada um com 13 semanas a começar por um domingo e terminar num sábado. O 365º dia será extra e chamará Dia do Fim do Ano. Haverá uma grande desvanta­gem para nós brasileiros: o Natal e o Ano Bom cairão sempre em fim de semana. Vamos perder os feriadões...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 19/11/2008 09:25:05
A VOZ GOSTOSA DE EDITE PIAF
Wanderlino Arruda
É preciso saber descobrir sempre o lado gostoso e nobre de cada momento de nossa vida. Buscar a felicidade é uma obrigação e a própria busca deve ser um motivo de ser feliz. É o que acontece comigo todas as vezes que entro no foyer do Teatro Nacional de Brasília, que desço a rampa aveludada e bonita e vejo aquela majestade de auditório, aquele conjunto monumental que só Niemeyer poderia imaginar e realizar. Ir ao Teatro Nacional de Brasília me oferece um gratificante prazer, um bom motivo de alegria. Foi assim a sensação que tive quando Dagmar, Anderson e eu tomamos o primeiro contato com a nossa turma, antes e durante a apresentação de Bibi Ferreira, na peça Piaf, um sonho de interpretação. Foi assim quando nos sentamos, bem em frente, ao palco, num bom grupo composto por lasbek, Riza, Carlos Hetch, e Carmen, vendo do outro lado bons colegas de trabalho, tendo como destaque em mais de meio auditório o charme de Ângela Momm. Curioso que tenha prevalecido em grande parte a cor vermelha, um vermelho forte, vivo, flamejante. Entre nós, e muito feliz, de vestido, bolsa e sapatos vermelhos, a Ivone. Íria, mais feliz ainda, com um rosa-choque que, à luz da noite, ninguém diria que não era vermelho. Valquíria, Daniel, Eduardo, Roberto, Cardenas, todos de camisas vermelhas. O Carlos, não sei se menos ou mais, também com vários detalhes de vermelho. Quando acende a iluminação do palco, o fundo espoca em vermelhidão intensa, vivíssima como um campo de luta, formando conjunto com o foco avermelhado que iluminou Bibi durante todo o tempo.
Em contraste, como num romance francês, o negro das roupas do luxo e da pobreza que, de início, apavoram a consciência e a visão do espectador. Para compor, de nosso lado, a negritude da camisa do muito mineiro Moacir. De lá e de cá sempre o negro e o vermelho. A voz de Bibi Ferreira, a presença, os gestos, o pessimismo, o lado difícil da vida que ela faz explodir a todo instante, o minúsculo físico sem nenhum traço de beleza, tudo marca a alma de Edite Piaf. É Piaf purinha com a visão de contemporaneidade, é realmente como se estivéssemos em presença dela. Aliás, mais do que isso: as duas se parecem - quase uma mesma pessoa - todas duas famosas, marcadas visivelmente pela muita idade, com desgaste que a própria vida artística impõe e provoca. A voz, a principio, miudinha, pedindo desculpas por existir, de repente enche e preenche o ambiente e vai tomando volume, ganhando corpo, envolvendo, límpida, num crescendo admirável como se representasse toda a força da sonoridade da eterna França. É como se estivesse no espírito dos cabarés de Paris, no Olímpia, o máximo da glória de toda a arte, muito mais do que o Carnegie Hall ou qualquer outro teatro do mundo, inclusive o Nacional de Brasília, em que estamos presentes. Ouço e vejo Piaf e me transporto numa doce saudade para as ruas parisienses, as praças, os monumentos, os boulevards, os museus. Sinto no acordeom, na harmonia do fundo musical, e atmosfera de cultura, do gosto de sensibilidade que os franceses sabem cultivar com tanto amor. Vejo me no alto da Torre Eiffel, no Arco do Triunfo, na Place de la Concorde na Pigalle, no Sena, dentro de um bateau mouche, na Nôtre Dame, nos teatros de revistas, no Louvre, no meu modesto hotel de viajante solitário e muito feliz. Vejo-me correndo do frio, embevecido com o colorido das luzes, das bancas de jornais e revistas, das bancas de frutas vermelhinhas, com os brilhos dos restaurantes e cafés, ah! os cafés! Vejo-me envolvido com a alegria das crianças e a beleza magra das mulheres, com a diversidade de tipos, com as roupas que estrangeiros e franceses desfilam nos passeios e jardins.
Sonho e vejo! E depois de tudo, emocionado, agradeço à arte de Bibi e a oportunidade de estar em Brasília. Nada melhor do que matar uma saudosa saudade!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 12/11/2008 07:42:14
SAUDAÇÃO AO ACADÊMICO PETRÔNIO BRAZ
Wanderlino Arruda

É sempre no emotivo-racional que o meu amigo, irmão, colega, companheiro e confrade Petrônio Braz encontra a razão de ser e a razão de viver. Exatamente isso: Petrônio tem um coração inteligente e um cérebro afetivo com incríveis nuances de amor – amor a Deus, amor à pátria, amor à família, amor aos amigos, até o amor que povoa o mundo e as vidas do mundo. Desde os dias do seu curso primário no Grupo Coelho Neto até este momento de posse na Academia Montesclarense de Letras, cérebro e coração de Petrônio andam mais do que juntos. Até na hora da escrita de tratados de Direito - território de exigências de precisão acadêmica – ele pluraliza teorias e conceitua humana gestualidade. Homem de trilhas, de veredas, de caminhos, jamais adotou a paralelística dos trilhos. Nunca as formalidades fatalistas de destinos imutáveis, como se existências fossem semelhantes a traçados de estradas de ferro. Petrônio é um ser de livre arbítrio acima de tudo, ser de liberdade, alma em constante evolução, eternamente aluno na escola do viver e progredir. Determinado, nunca abriu mão de construir o próprio destino e arquitetar a própria vida. Ser social, mesmo estando só, trabalha para construir e reconstruir a história e a geografia onde acontecimentos se impõem.
Difícil para mim o compor a estrutura desta fala, porque há muito pouco tempo , aqui mesmo na Academia Montesclarense de Letras – na apresentação do livro Serrano de Pilão Arcado – delineei traços completos da biografia de Petrônio Braz, dizendo dos seus sólidos saberes, floreando sobre seus feitos políticos, jurídicos, históricos e literários, aplicando-me em dialética sobre suas vivências, convivências e conveniências. Não quero, não devo, não posso duplicar ou multiplicar informações, muitas das quais este público já conhece à exaustão. Naquele momento, falei da multidão de seus títulos em rica escolaridade no Brasil e no exterior, da participação continuada de inúmeras instituições em Belo Horizonte, São Paulo, Brasília e outras capitais, da elogiável plataforma de publicações no Direito e na Literatura, até com razoável riqueza em direitos autorais. Falei também da sua constante atuação política, a partir dos 23 anos de verde juventude, quando foi prefeito de São Francisco, cidade natal, onde também exerceu vários mandatos como legislador. Disse também de sua atuação como administrador e professor em Belo Horizonte, Montes Claros, Várzea da Palma, Coração de Jesus e João Pinheiro. Citei quase um mapa da região norte-mineira, onde atuou como conselheiro político e consultor jurídico, vasto currículo em municípios como Espinosa, Ibiaí, Ibiracatu, Indaiabira, Matias Cardoso, Montezuma, Novorizonte, Patis, Riachinho, Rio Pardo de Minas, Santo Antônio do Retiro, Taiobeiras, Ubaí, Urucuia. Vargem Grande, Chapada Gaúcha, Jaíba, Mirabela, Monte Azul, Pirapora, Santa Fé de Minas, São João da Ponte, São Romão, Fruta de Leite e por último, mas não por derradeiro, a cidade de Montes Claros, capital da região. Preciso aumentar latitudes e longitudes nesta geografia.
Fundador e presidente da Aclecia – Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, fundador e Diretor-secretário do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, fundador e membro da Aclav – Academia de Ciências e Letras de Várzea da Palma, Petrônio Braz atua diligentemente no Instituto Brasileiro de Estudos Monárquicos, na Associação Brasileira de Escritores, na União Brasileira de Escritores, na Academia Petropolitana de Poesia, na Academia de Letras de Uruguaiana, na Casa do Poeta Brasileiro e na Sociedade de Escritores Lationoamericanos y Europeos, esta na Itália. Muitos os prêmios literários, títulos de cidadania, muitas as medalhas e comendas recebidas por Petrônio, incluindo aí a Medalha Santos Dumont, do Governo de Minas Gerais. São tantos os certificados, tantos os diplomas, que muitas paredes seriam necessárias para uma exposição justa e meritória.
Treze obras jurídicas, algumas em coleção, sete obras literárias e participação em dezenas de antologias e revistas, publicação quase diária em jornais, Petrônio é realmente um homem de letras mais do que presente ao agrado de milhares de leitores. Trabalha agora em precioso livro sobre a Conjuração do São Francisco, primeiro momento na tentativa de independência, revisão histórica importante para o prestígio de Minas Gerais, esta Minas sempre incentivadora da autonomia pátria e da liberdade. Petrônio Braz, nos seus oitenta anos de vida, também hoje comemorados, é homem que muito realizou e que muito ainda tem a realizar. Sempre prático, trabalha por prazer e sabe que pode tornar reais metas traçadas ou sonhadas. Nunca temendo mudanças, tem coragem para abrir caminhos, enfrentar desafios, criar soluções, correr riscos. Intelectual completo, de cultura multifacetada, bom de serviço, sabe que tudo que faz sempre dá certo, principalmente quando conta com a ajuda da esposa Fátima, ainda mais determinada do que ele. Muito bom tudo isso, porque, no final, o lucro é nosso.
Neste momento de glória em que trinta e nove componentes da Academia Montesclarense de Letras abrem braços e corações para receber Petrônio Braz, agradecemos a Deus por tê-lo a completar o nosso quadro social. Juntos – ombreando academicamente – agora que somos quarenta como na velha Academia Francesa, muito mais poderemos realizar.
O nosso mais fraterno abraço, meu jovem oitentão, Petrônio Braz. Os que vão viver e continuar contigo, te saúdam. Calorosamente, sim Senhor!
Academia Montesclarense de Letras



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Por Wanderlino Arruda - 10/11/2008 10:38:50
LISBOA E OS BRASILEIROS
Wanderlino Arruda

Wladênia completa já os seus quarenta e dois anos, põe na moldura dois títulos universitários, freqüenta pela segunda vez uma escola de motorista e fica imensamente alegre com a beleza e a inteligência dos seus três filhos. Suas alegrias, que são também a minha e a de Olímpia, têm em mim um outro efeito – o da saudade, o de boas lembranças da viagem que fiz a Portugal, logo depois do seu nascimento em 1962, juntamente com Antônio Ramos, D. Flora, Dulce Sarmento, Correia e José Almeida. É que, quando viajamos, Wladênia mui pequenina, era a primeira mocinha da família, tanto contentamento que Olímpia nem esboçou o menor desejo de fazer uma viagem à Europa. Eu que fosse sozinho, ela ficaria para curtir o encantamento da filha mulher. Agora, tanto tempo depois, a viagem volta-me à memória verdadeira multidão de boas lembranças.
Vôo de dezoito horas, primeira escala em Recife, onde encontramos D. Fina e Dr. Hermes, que nos esperavam no aeroporto. Segunda descida na Ilha do Sal, pertinho da Costa d`África, onde encontramos outros brasileiros. Chegamos a Lisboa já bem à tardinha, saindo do avião com um envolvente frio do início da primavera. O primeiro impacto é quando a caravana brasileira dos Elos Clubes se reúne, ainda na pista para uma fotografia de chegada ao lado do DC4 da TAP. Sorrisos em todas a faces, com as boas vindas dos elistas portugueses, companheiros, irmãos e amigos. Logo depois o burburinho dos salões internacionais e da alfândega do Portela de Sacavém, o Aeroporto mais ocidental do velho continente. Mais fotografias, mais abraços, mais voto de feliz estada.
No caminho para o centro de Lisboa, os táxis deslizam por bairros moderníssimos como o de Moscavide e por avenidas de encantar as vistas, como o da Liberdade e a do Brasil; por praças realmente lindas como a do Teatro, o Rocio, o Terreiro do Paço; ruas como a do Ouro e da Prata. De longe, a visão sentimental do Tejo, da antiga fortaleza de São João, do Largo do Comércio, da Ladeira do Chiado, da velha Alfama. Quando o motorista passa próximo às fontes luminosas dos Restauradores mostra-nos a estátua de D. Pedro, e diz-nos, orgulhosamente, que ali está "o nosso D. Pedro quarto, vosso Primeiro", um dos grandes heróis da história portuguesa.
D. Flora e Antônio Ramos reviam as mesmas cenas depois de pouco tempo. José Almeida, natural do Norte, tinha estado em Lisboa apenas de passagem, quando veio para o Brasil. Joaquim F. Rodrigues Correia, que estudou em Coimbra quando menino, vira Lisboa fazia mais de quarent`anos, na sua própria linguagem. Dulce Sarmento e eu nos deslumbrávamos com a beleza pela primeira vez ou quando muito por saudades atávicas. Ninguém pode imaginar como é doce e gostosa a sensação de pisar no solo da pátria-mãe, sentir ali o berço da raça, origem da maioria de nossas tradições, um lugar que de modo algum para nós é estrangeiro. E como nós brasileiros somos bem recebidos em Portugal, em Lisboa, em Santarém, em Belmonte, no Porto em qualquer parte!
À noite, o primeiro passeio a pé, a visita ao interessante mundo da Praça da Alegria, de Sé, dos cafés do Chiado, o trajeto de metrô, a subida das ladeiras, o olhar curioso nas vitrinas de ourivesarias e de lojas, a aproximação das fontes de todas as cores e todos os sons, mais bonitas do que as de qualquer outra parte do mundo. Por aquelas ruas e praças haviam passado também D. Dinis, Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral, Luís de Camões, Eça de Queirós, Alexandre Herculano, Antero de Quental, Florbela Espanca, Fernando Pessoa! Por aqueles lugares havia passado também o brasileiro mais famoso em Lisboa, o nosso também sempre lembrado presidente Juscelino Kubitschek. Ele era tão querido lá, que quando chegava a qualquer lugar, teatro, cinema, restaurante ou café, todas as pessoas se levantavam em sinal de amizade, respeito admiração. Para nós, é claro, os portugueses não chegavam a tanto, mas sempre nos recebia com grande atenção e muito carinho.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 4/11/2008 09:40:17
GODOFREDO GUEDES, NOSSO MIGUEL ÂNGELO
Wanderlino Arruda

Mesmo pintando por prazer, a exemplo de Miguel Ângelo, Godofredo Guedes pintava por profissão. Genial, perfeito, verdadeiro, amado-amante das tintas e das cores, em quase toda a sua vida foi um importante e reconhecido pintor. Suas aventuras e venturas com os pincéis tiveram início na adolescência, aos quinze anos, em 1923, na cidade em que nasceu, Riacho de Santana, Bahia, onde estudou francês e foi prático de farmácia. Primeiro trabalho, já com toque de mestre, óleo e pincéis, foi na Gruta da Igreja de Nosso Senhor Bom Jesus da Lapa, barrancas do São Francisco. Até hoje lá estão para a glória de Deus e do autor, os doze quadros bíblicos da Via Sacra. Têm sido um momento de místicas contemplações para muitos dos romeiros e visitantes de quase um século. Sempre, uma religiosa admiração.
Depois da Bahia, depois dos dias ensolarados do sertão interiorano, depois de encher a alma dos tons ricos das águas do São Francisco, Godofredo Guedes veio para Montes Claros, cidade bem pequena em 1935, mas com uma admirável generosidade de muito sol e muito azul: azul no céu, azul nos montes, azul nos tubos de tinta azul da sua paleta de artista fogoso. O homem chegou pintando. Pintava tudo. Pintava placas, pintava letreiros, pintava fachadas, pintava quadros. Quando pintou o retrato de grande Prefeito Dr. Santos, recebeu dele um bruto elogio: "como poderia assim de modo tão fácil e artístico captar tão seguramente a personalidade de uma pessoa?". Muitas mudanças na cidade, muitos anos são passados e o retrato ainda aí está para quem quiser ver. É um sucesso até hoje.
Quantos quadros deve ter Godofredo pintado em sua venturosa vida? Difícil saber, porque ele pintava todos os dias, todas as horas... Uns quatro ou cinco mil, Ou muito mais... Quantos amigos teve Godofredo? Ninguém sabe, tantos são eles, em toda parte. Quantos filhos, frutos de um feliz casamento com D. Júlia? Isso os montes-clarenses sabem: foram oito – Terezinha, Dolores, Neusa, José, Hélio, Maristela, Alberto e Lúcia. Hélio é o conhecido Patão, do folclore e também das tintas. Alberto, o genial Beto Guedes, um dos construtores da moderna música brasileira. Lúcia graduou-se como médica na Argentina e é doutora há um bom tempo. Os outros, com exceção de nosso sempre saudoso Hélio, todos de alguma forma ligados à pintura, aí estão, solteiros, casados, felizes sempre. Zeca – já não mais tão jovem como em nossos tempos de Colégio Diocesano, segue a trajetória dos pincéis do pai, mas até hoje não quis pintar quadros. D. Júlia de Castro Guedes, que sempre teve nas mãos e no grito, o comando da família, cuidou de tudo e de todos. Foi diretora e gerente ao mesmo tempo. Mulher e mãe que mandou um bocado e com razão, diante de família tão grande e de marido artista, que só se via obrigado a enxergar as belezas da vida. D. Júlia foi, sem qualquer dúvida, uma admiradora do marido. Falou dele sempre com grande carinho, mesmo quando estava de cara fechada ou precisando brigar. A ela, concordo, devemos grande parte da firmeza de GG, da sua produção.
A maior tela de Godofredo está em Belo Horizonte, no Instituto de Educação. Tem grande dimensão, quatro metros por três. Trata-se de um busto do inesquecível João Pinheiro, que provocou lágrimas do filho, Governador Israel, quando o viu pela primeira vez, diante de tanta emoção face à beleza do quadro.
Para o artista Godofredo Guedes o seu melhor trabalho foi realizado para outro grande artista, o pintor Konstantin Christoff: um retrato do velho e robusto Christo Raeff, em cores marcantes, um perfeição de relevo de luzes e sombras, de coloridos e matizes. Trabalho bonito, vivo, audacioso. Uma verdadeira obra de arte alimentada pelo calor da amizade de dois grandes gênios do pincel.
A maior glória de Godofredo Guedes, no seu próprio ponto de vista era ter quadros e telas em grande parte dos lares de Montes Claros e do Brasil, tantos como os seus dias de alegria. Mas nem só de tinta viveu ele. De vez em quando deixava de ser mestre do pincel para ser mestre na harmonia dos sons, compositor que é de quase cinqüenta belas músicas, muitas delas inseridas em cadernos de modinhas e de dobrados e de livros de grande destaque como o lançado pela historiadora Milene Coutinho Maurício. Muitas não são por aqui conhecidas, porque ficaram com as bandas de música da velha Bahia, guardando a saudade do autor.
Nota interessante é que Godofredo começou a compor música em 1931, no mesmo ano em que se casou com D. Júlia, ao que tudo parece, um amor mais sonoro que colorido ou tão sonoro como colorido, como as duas artes poderão explicar, pelo menos por algum tempo, pois, afinal, prevaleceu a pintura. Como compositor, Godofredo foi laureado com o Primeiro Prêmio num concurso de músicas juninas da Rádio Inconfidência de Minas Gerais. O título: "VAI, MEU BALÃOZINHO". Construiu também, para variar de arte, inúmeros instrumentos de cordas: violinos, violões e até um piano. Isso mesmo, um PIANO! Com cauda e tudo!
Em Montes Claros, Godofredo recebeu cinco prêmios como melhor pintor. Em Belo Horizonte, oito anos que participando da Feira da Praça da Liberdade, vendendo quadros todas as semanas, foi várias vezes homenageado.
Sua maior emoção além do casamento com D. Júlia: o ato do recebimento do título de cidadão Honorário de Montes Claros, em 1957, ano do centenário da cidade, aprovado por unanimidade da Câmara, a pedido do saudoso prefeito Geraldo Athayde.
Outro grande momento foi a noite de comemoração dos seus 46 anos de pintura , quando todos os artistas de Montes Claros, sinceros amigos, admiradores conscientes, companheiros leais, juntamente com autoridades, esposa, filhos, genro, estiveram no Centro Cultural Hermes de Paula para abraçá-lo e louvá-lo. As solenidades, o encontro, marcava quase meio século de Arte que o alegrou e fez crescer seus sonhos pelas belezas da vida. Foi um momento interessantíssimo, de máxima emoção, uma descoberta do verdadeiro sentido da importância de viver. Para Godô e para todos nós.
Grande Godofredo, grande GG, grande amigo, companheiro e mestre, nossa mais sincera gratidão pelo tempo em que você viveu e conviveu com a arte. E conosco!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/10/2008 12:14:36
REIVALDO, A REALIDADE DOS SONHOS

Wanderlino Arruda

A maior e mais verdadeira prova de seu amor, Reivaldo, esteve sempre delineada e aplicada no ato diário de seu viver e conviver. Uma linda viagem terrena em que você doou, recebeu, compreendeu, compartilhou, apoiou, aceitou e foi aceito, olhou em torno e dentro de si mesmo. Sua existência, Reivaldo, foi uma lembrança sempre presente da infinitude do amor de Deus perante cada manifestação da natureza: nas flores, nas águas, na dança das folhas, nos vôos e nos cantos dos passarinhos, nas presenças e nas manifestações de carinho dentro de casa e no brilho dos olhos de seus amigos. Sua vida, Reivaldo, foi uma colheita de esperanças e alegrias, tudo positivo, ambição só a necessária para as despesas de cada dia. Sua vida, Reivaldo foi construída nos sonhos e concretizada no amor. Afinal, a fé sem obras é morta. Qual o proveito em dizer que tem fé, mas não tem obras? Seu pensamento, religiosamente ou não, foi o mesmo do apóstolo Tiago. Não bastava crer, era preciso realizar.
Você nem imagina como foi sempre a minha alegria e o sentimento da riqueza do amor sempre que visitei você em manhãs de domingo, casa cheia de olhares vibrantes de toda a sua família, às vezes do Reinine e até de um ou outro amigo mais próximo. Todos, mesmo parecendo com os pés na terra, tinham as cabeças nos sonhos. Quanta dignidade, quanta coerência no exercício de amor e na certeza de que a vida só é válida quando vem condimentada com os sabores da felicidade. Sabe o que foi sempre o mais bonito em você? Nunca se empolgou com o próprio brilho, nunca se envaideceu da maravilhosa inteligência que lhe dourou palavras e idéias, ações e realizações. Ser humano justo, em todas as horas você inspirou, estimulou, energizou, pessoas e coisas, proporcionou conforto a tudo que a natureza o rodeou e pôs no seu contato.
Pensando em você com saudade, lembro-me da Parábola do Bom Samaritano, daquele viajante que tendo saído de Jerusalém para Jericó, fora assaltado por ladrões no meio do caminho, ficando ferido e desfalecido, à beira da estrada, o que não sensibilizou os dois religiosos que, mesmo vendo a cena, desfilaram pela outra margem, sem preocupação ou vocação para o bem servir ou para a fraternidade. O atendimento foi feito por um passante originário da Samaria, uma região pobre e nunca considerada pelos importantes da época. O samaritano limpou-lhe as feridas, aplicou os remédios de que dispunha, colocou na alimária e seguiu viagem com ele até um ponto de apoio. Lá, hospedou-o, pagando as despesas, deu o atendimento complementar e, tendo de logo viajar, recomendou ao estalajadeiro bem cuidasse dele, prometendo, caso houvesse novas despesas, pagar-lhe na volta. Neste episódio há três filosofias: para os ladrões (partidários da distribuição social), a idéia é de que "o que é seu é meu"; para os religiosos (não responsáveis diretos pela violência ocorrida), "o que é meu é meu e o que é seu é seu", o problema é do dono do problema; para o samaritano, entretanto, sofredor do dia-a-dia, só vale uma decisão de amor, "o que é meu é seu". Cito este relato bíblico, Reivaldo, para lhe dizer que a sua vida foi efetivamente a de bom samaritano, três quartos de século de eterna doação. Sua alegria, sua gentileza, seu conhecimento, seu amor, todos os seus sentimentos de cidadania e de fraternidade sempre pertenceram às outras pessoas.
Nobre Reivaldo Canela, os que viveram próximo a você e todos nós, companheiros e amigos, continuaremos por aqui vivendo e saudando-o mais do que calorosamente. Você foi sempre amado e admirado. E árvore plantada com amor nenhum vento derruba. Nem mesmo num grave momento de despedida.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 23/10/2008 17:40:11
A ALEGRIA DE MONSENHOR

Wanderlino Arruda

Não me canso de ter saudades do tempo bom e gostoso das aulas do Colégio Diocesano, de quando podíamos, todos os dias, sentir e ouvir a alegria do Monsenhor Osmar, a braveza do Padre Agostinho e a terna amizade do Monsenhor Gustavo. É de fato um momento inesquecível, de quando cada gesto era uma lição, cada atitude uma experiência de seres em luta e em paz com a vida. Os três juntos, ou cada um em particular, eram para nós, meninos-rapazes, o grau mais alto da sabedoria, a fonte inesgotável de conhecimento, os degraus por onde alcançar a segurança do futuro. É claro que, particularmente, um por um tinha o seu séqüito de seguidores, dependendo da esperteza ou do grau de inteligência de cada aluno, ou mesmo da maturidade ou falta de juízo, encontradas nos mais sérios como Geraldo Miranda e Nivaldo Neves, ou nos mais afoitos como Pai da Mata e João Doido. Em órbita havia gente de todo jeito, tipo Tereziano Dupin, Renato Pobre, Renato Almeida, Dezinho Dias, Ivan Guedes, Lazinho Pimenta, Raimundo Santana, José Maravilha, personalidades marcantes que iam do folclore à poesia, do trabalho sério à justa compenetração.
Cada dia era um novo esquema de novidades, de surpresas, uma sensação de estarmos construindo o mundo, preparando-o para a nossa geração e para todas as outras que poderiam vir depois de nós. Ninguém fugia da luta, tirar o corpo de banda, em qualquer tarefa, era um sacrilégio. Matar aulas era pecado capital. Durante a semana não valia nem cinema nem namoro. A ordem era estudar! Uma única transgressão era permitida e só ao Miranda, porque ele havia inovado o sistema, inventado uma saída, ao namorar com a professora Lourdes, inteligentão que era. O Dezinho Dias, já mais velho um pouco, falava de fazendas, de vez em quando. O Raimundo Santana era um importante, pois tinha bicicleta e tomava uísque Cavalo Branco antes das provas de matemática. Ivan Guedes impunha grande respeito: de vem em quando jantava em restaurante, sábado à noite depois do grêmio. A maioria, como eu, não tinha dinheiro nem para picolé ou quebra-queixo, e quando muito, bebíamos caldo de cana. Cafezinho era luxo!
Professor bom mesmo era o Pedro Santana, vibrante, grã-fino, dominante nas cadeiras de História, Ciências e Inglês, um terror para quem não tivesse as matérias na ponta da língua, a capacidade de responder, falando ou escrevendo, sem gírias. Pedro era tão imponente, que não repetia ternos e gravatas durante um mês, cada dia uma nova cor, hoje um três-botões, amanhã um jaquetão, tudo dentro do melhor figurino de Vavá ou Wilson Drumond. O cabelo, ah! O cabelo era que merecia o maior cuidado! A barba, de um barbear diário na barbearia de Antônio Guedes, com massagem facial, na mesma hora em que também estavam sentados os praticamente nobres Júlio de Melo Franco e Nelson Vianna, fregueses de todas as manhãs, bem cedinho. Errar com Pedro ou com o Padre Agostinho – outro elegante – era imperdoável. A nota menor que um bom aluno podia tirar era nove e meio. O oito era um (de)feito vergonhoso!
Havia muitos outros professores famosos, entre eles o Tabajara, a Terezinha Pimenta, Doutor Carlyle, A Maria Inês, D. Rosita Aquino e o Belizário, que falava latim e tinha o cabelo parecido com o de Castro Alves. Em certas ocasiões, o Bispo D. Antônio Almeida chegava a assistir a algumas aulas, sentado conosco, perguntando e participando, como se não soubesse de tudo! D. Antônio foi a maior inteligência que conheci, uma cultura universal, um poder oratório que Montes Claros nunca teve igual. Era um admirável mundo novo, principalmente para mim, que sem ternos e sem paletós – o primeiro foi o Vadiolando Moreira que me deu - achava tudo aquilo um sonho em realização.
Maravilhosamente encantado, sedento de aprender, nunca cedendo o primeiro lugar a ninguém, uma coisa marcou-me profundamente a diretiva na vida e me tem servido constantemente de bom exemplo: a alegria de viver de Monsenhor Osmar Novais de Lima, nosso diretor!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 13/10/2008 10:14:59
CONSUL FERNANDA RAMOS
Wanderlino Arruda

Segundo Aristóteles, a grandeza não consiste em receber honras, mas em merecê-las. E conforme Edith Wharton, há duas maneiras de irradiar a luz: ser a própria fonte de brilho ou o espelho que a reflete. Grandeza, honra, luz, fonte, espelho, reflexo, um universo de palavras indicativas de valor e mérito. Em todas estas idéias e seus significados posso emoldurar a mulher corajosa e cheia de ideais, que é D. Maria Fernanda Reis de Brito Ramos , Cônsul Honorária de Portugal no Norte de Minas, minha amiga e mestra de longo tempo em vários setores da vida. A mesma D. Fernanda que é capaz de elogiar sem rodeios ou demonstrar uma inconformidade sem indecisões.
É para esta mulher guerreira, que fazemos uma festa espiritual em comemoração aos seus oitenta anos, mais do que bem vividos. Multipliquemos os seus janeiros por meses e dias ou por horas e minutos, e podemos estar certos de que qualquer medida de sua existência vem gravada de proveitoso construir, do muito amar, de um esforço incrível para melhorar a vida e o viver. Dela mesma e de muitos. Dona Fernanda é um dínamo sem medida de voltagem, uma criatura sem limites na busca da perfeição, exigência própria, exigência com quem estiver à sua frente ou seu lado. Sempre chuva, nunca neblina, nada em D. Fernanda é calmaria, nada. Para ela, a vida é busca incessante do que fazer, do como agir, do assinalar exemplos, uma corrida olímpica de pistas e de pódios. É vencer ou vencer!
A Montes Claros já chegou D. Fernanda, jovem esposa de Artur Loureiro Ramos, para ser grandeza do comércio e da indústria, vivência e trabalho na Casa Luso Brasileira, centro e coração da cidade. Forte acento no caprichado falar da Universidade de Coimbra, onde a Faculdade de Engenharia lhe permitiu belíssima formação intelectual e liderança. Aqui o seu maior contato com a realidade regional e brasileira, a sua consolidação no trato de tudo e com todos. Atitudes fortes, cada atuação mais do que definida: a família, os amigos, as companheiras e os companheiros de intelectualidade, o trato social mais do que valorizado. Mínima a distância entre o ser e o atuar. Até no dia-a-dia foi moça de sorte, porque a Casa Ramos ficava exatamente na única esquina das duas ruas calçadas, a Rua Quinze e a Rua Simeão Ribeiro, quando toda inteireza urbana era vermelhidão de poeira.
Dona Fernanda esteve sempre de bem com a vida, Algum descanso na Fazenda Vista Alegre, algum tempo em reuniões do Clube Montes Claros, do Automóvel Clube, da Associação Comercial e Industrial. Importante na fundação do Elos de Montes Claros, na Sociedade das Amigas da Cultura, na Associação de Dirigentes Cristãos de Empresas, no Instituto Histórico e Geográfico. Importantíssimas as atividades de D. Fernanda como líder elista: conselheira, diretora, presidente internacional. Sempre presente em encontros regionais e inter-países, principalmente em convenções. Como presidente internacional tomou várias iniciativas de elevada repercussão, valorizando grandemente o Brasil e Portugal, além de benefícios aos países irmãos de fala lusitana. Um valioso exemplo de solidariedade e amor!
Três fatos marcam definitivamente o seu prestígio: a vinda do Cônsul Sá Coutinho e esposa na fundação do Elos de Montes Claros, a homenagem que a dra. Manuela Aguiar, deputada federal em Lisboa, veio trazer-lhe pessoalmente na Sociedade das Amigas da Cultura de Minas Gerais e a sua escolha pelo governo português para o cargo de Cônsul Honorária no Norte de Minas. Quantos e quantos dirigentes do Elos Internacional vieram a Montes Claros a seu convite, por força do seu valor! Lembro-me como se fosse hoje da grande festa de inauguração do Consulado, na sua antiga residência da Avenida Cel. Prates, agora Praça Portugal. Muito difícil repetir o sucesso de D. Fernanda Ramos como o da sua presidência na ADCE, dias realmente dourados para o prestígio da instituição. Com que entusiasmo D. Fernanda planejou, construiu e vem mantendo o Hotel Fazenda Vista Alegre, local aprazível não só para hospedagens, como também para realização de eventos.
Léon Denis, o sábio pensador francês, sempre achou que não basta crer e saber. É sempre necessário viver e fazer praticar na vida princípios superiores. Nossa existência tem que ser alegre, harmoniosa, plena de bênçãos de paz e de amor, sempre e sempre despertando esperanças. Não há como negar ser o amor a realidade mais pujante, porque o amar é o grande desafio. O amor deve ser causa, meio e fim. É por isso e por muito mais que Maria Fernanda Reis de Brito Ramos, nossa querida Cônsul, Companheira e Amiga, vive e sobrevive em razão dos seus muitos sonhos. Agora nos seus bem norteados oitenta anos e ainda por muito tempo mais. Bem haja!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 12/9/2008 09:15:56
MEU AMIGO PADRE MURTA
Wanderlino Arruda

A primeira vez que vi o Padre Murta foi no sobradão da Rua Coronel Celestino, corredores da Faculdade de Filosofia, em noite de muita movimentação e barulho por ser início de ano letivo. Ele andava e conversava, olhava diretamente nos olhos dos colegas e batia-lhes nas costas, nos ombros e nas cabeças, em carinhosos gestos de coleguismo e amizade. Com os professores, um sorriso amigo, cumprimentos e até abraços. Parecia que conhecia a todos, de todos fosse um velho camarada, um companheiro de anos e anos de lealdade. O Padre Adherbal Murta estava chegando para ser aluno do curso de Pedagogia, mais um calouro da nossa querida Fafil. Um dos melhores ou o melhor que passou por lá.

Alguns anos mais tarde, tenho a honra de receber Padre Murta como confrade da Academia Montesclarense de Letras. Foram momentos de inusitado deleite intelectual, com discurso erudito e importante, pleno de sabedoria de um dos homens mais cultos deste País e do mundo. De formação humanística da maior e melhor qualidade, ele foi sempre um clássico por excelência, conhecedor de pleno domínio do latim e do grego como poucos ainda podem saber. A Eneida, de Vergílio, para ele, era texto do dia-a-dia, pronto para recitá-lo a quem pudesse interessar, na mais perfeita memória, de cor e na ponta da língua, fosse num salão, fosse durante uma viagem. Padre Murta dominava a lógica, a teologia, a história, a filosofia, a pedagogia, o mais vasto universo de cultura e conhecimentos. Não foi sem motivo que passou brilhantemente por tão importantes centros de cultura no Brasil e na Europa.

Mais tarde, vejo-me seu padrinho no Rotary Club de Montes Claros-Norte, noite de muita emoção para todos os mais de cinqüenta companheiros. Tive a honra de colocar em sua lapela o distintivo de uma das mais importantes organizações do mundo atual, com certeza a mais prestigiada pelo trabalho internacional de erradicação da pólio, pelos intercâmbios de cultura, pelos serviços comunitários em 185 países. Em dezembro de 2006, foi Padre Murta um dos primeiros que convidei para participar da fundação do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros quando, pela nossa mútua confiança, aceitou na hora, escolhendo como patrono Waldemar Versiani dos Anjos. Na noite de inauguração, era ele um dos mais entusiasmados e conscientes do dever de fazer e registrar a história.

Onde estivesse – no púlpito, na cátedra universitária ou de qualquer escola, na tribuna acadêmica, em qualquer encontro de amigos – Padre Murta sempre mostrava a que veio em passagem pela vida: sua oratória era realmente brilhante, com uma capacidade de amar o próximo em verdadeiro marco de grandeza. Seu dinamismo e capacidade de trabalho sempre encantaram a todos. O Criador concedeu ao Padre Murta qualidades – que eu creio ele nem pediu tantas. Sobrou-lhe, acima de tudo, talento e simpatia, fé nos destinos da humanidade.

Agradeço muitíssimo a Deus por ter sido contemporâneo dele, por ter convivido muito com ele. Sinto, porém, por demais, estar escrevendo esta crônica com os verbos no passado. São muitas as lágrimas, muitas, fruto de uma imensa e amiga saudade!
Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


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Por Wanderlino Arruda - 7/9/2008 08:35:26
ONDE O AMOR É MAIOR

Wanderlino Arruda

Permita-me, leitor, continuar com mais alguns comentários sobre o Livro "Montes Claros, Sua História, Sua Gente e Seus Costumes", do nosso companheiro Hermes de Paula, o maior amado-amante da cidade, um dos melhores montes-clarenses de todos os tempos. Foi, aliás, outro bom montes-clarense, Newton Prates que, prefaciando a obra na primeira edição, afirmara ser o relato histórico de Hermes de Paula um trabalho valioso, um modelo de honestidade. "Do alvorecer aos dias atuais, o livro é um quadro colorido, cheio de vida, um testemunho palpitante da força criadora de gerações". Para ele, "o livro não é apenas de interesse regional, é uma contribuição para o estudo do folclore, dos usos e costumes, da marcha da civilização no interior do Brasil", pois, "Montes Claros é o milagre do sertão". "Quem nela viveu nunca a esquecerá. Se está distante, a lembrança da cidade querida permanecerá sempre, ao seu lado, carinhosa e fiel".
Como Newton, também o seu parente Juca Prates, famoso pelo amor a Montes Claros, é personagem de Hermes de Paula. Também estão no livro Gonçalves Chaves, Honorato e João Alves, Celestino Soares da Cruz, o Cel. Antônio dos Anjos, José Correia Machado, Honor Sarmento, os três xarás Simeão Ribeiro dos Santos, Simeão Ribeiro da Silva e Simeão Ribeiro Pires, nome de uma importante rua de Montes Claros. Homens e mulheres foram um contínuo desfile de trabalho e de saudade e Hermes os traz para o nosso convívio em ameno bate-papo, lembrando velhos tempos, quando a televisão ainda não ocupava o lugar principal em nossas horas antes de dormir.
Com Hermes de Paula, vemos chegar a Montes Claros o primeiro "bicho caminhão", em 1920; ouvimos os tiros de pré-revolução de 6 de fevereiro de 1930; vemos acender as luzes dos lampiões de querosene, de 1912, e da usina hidrelétrica do Cel. Francisco Ribeiro, em 1917. Aparamos águas nas bicas do século passado e nas torneiras do século presente, no sonho finalmente concretizado depois de 82 anos. Com ele, assentamos os primeiros paralelepípedos, na Rua Quinze e os primeiros blockrets na Rua Rui Barbosa e na Praça Doutor Chaves; em 1950, com o dr. Alpheu; em 1955, com João F. Pimenta; e em 1957, com Geraldo Athayde. Com Hermes de Paula, pavimentamos até o pavimento a que ele não quis se referir, as muitas ruas calçadas pelo Capitão Enéas Mineiro de Souza, seu adversário político na campanha para prefeito de 1950.
Com Hermes, ficamos sabendo de velhos nomes de logradouros públicos: Rua do Pedregulho, atual Gonçalves Figueira, ex Joaquim Nabuco; Rua da Assembléia, atual Afonso Pena; do Bate-Couro, a Governador Valadares; do Pequizeiro, a Cel. Antônio dos Anjos; Largo da Caridade, a nossa Praça Dr. Carlos; do Urubu, a ainda velha Floriano Peixoto. É ele quem afirma ser o esdrúxulo nome do Roxo Verde proveniente de personagem de Alexandre Dumas, da literatura francesa, etimologicamente Rochefert. É Hermes que põe o nosso saudoso Pedro Mendonça fundando a Malhada, o Santos Reis e hoje, dividindo as terras em lotes para evitar a solidão. É Hermes que faz funcionar uma liga contra o alcoolismo e a faz acabar com as licenças dos associados de goelas secas. É ele quem põe o povo entregando um relógio de ouro ao Dr. João Alves, depois de uma terrível epidemia.
É por isso que ninguém sabe onde é maior o amor, se em Hermes de Paula, se em Montes Claros, uma vez que o autor se mistura com as personagens, numa paixão de nunca acabar.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros





38244
Por Wanderlino Arruda - 3/9/2008 09:19:11
BB MONTES CLAROS, QUASE SETENTA ANOS

Wanderlino Arruda

Há uns vinte anos um fazendeiro já idoso, magrinho, alegre, radiante de simpatia, sóbrio no vestir e elegante, entrou na Agência de Montes Claros, do Banco do Brasil, e fez uma oferta ao gerente, que deu muito o que pensar e, parece, mudou temporariamente os destinos de muitos funcionários. Rápido e preciso, muito prático, o homem chegou e foi logo ao assunto: fora um dos primeiros clientes da Agência, no início de 1940, quando precisou de um empréstimo, e recebera tratamento excelente e imediato, o que lhe resolvera um grave problema de família e de negócios.

- Nunca me esqueci da confiança que o Banco do Brasil teve em mim, naquela época em que eu era apenas remediado. Foi uma bênção! É por isso que eu venho oferecer-me para ajudar na festa de comemoração dos cinqüenta anos. Os senhores podem dispor do que precisar e estiver ao meu alcance!

A visita do antigo cliente, amigo agradecido de meio século foi o sinal de partida para a preparação do programa de aniversário Dos cinqüenta anos do BB de Montes Claros. Administração e funcionários ficaram conscientes de que a festa teria que ser um grande evento, uma marca inesquecível na história da cidade e da região. Afinal, sempre fora o Banco do Brasil, em todos esses anos, a grande locomotiva a puxar os carros do progresso nos trilhos deste sertão, ajudando e orientando na formação de milhares de propriedades e de negócios em todos os ramos da economia. Na verdade, ninguém poderia prever o que seria de Montes Claros e do Norte de Minas não fosse o Banco do Brasil, a maior instituição brasileira desde D. João VI, como temos costume de dizer, 200 anos de honestidade legítima, um das empresas mais respeitadas do mundo.

As primeiras providências para a grande festa foram agendadas pelo gerente Itaumary Teles de Oliveira. Antigos clientes e funcionários foram convocados para a tarefa de organização, coleta de documentos, levantamento da história e das estórias, relatos de alegria e gratidão de tudo que o Banco proporcionou e recebeu. Uma história rica de detalhes e muito dinheiro de lutas ingentes cronometradas pelo rigor das horas e dos minutos, numa contabilidade que nunca falhou. Podia até existir alguma instituição tão séria quanto o Banco do Brasil, mas mais responsável e correta nunca foi possível. O Banco tem sido o padrão, tem sido um modelo maior do que permanece de nobreza neste País.

Como era eu o detentor dos primeiros documentos da primeira semana de funcionamento da Agência de Montes Claros, salvos há uns trinta anos de um processo de incineração de arquivo, emprestei-os para uma exposição. São até hoje papéis preciosos também à história da cidade, com assinaturas de Sebastião Sobreira, Hélio Thompson (o primeiro gerente). Daniel da Fonseca Júnior (Danielzinho de Jequitaí, foi uma das principais personagens de Guimarães Rosa), Mário Versiane Veloso, Godofredo Guedes, Geraldo Lourenço de Oliveira (o primeiro recibo de salário), Levindo Dias, José Dayrel, Genésio Tolentino e Cândido Canela. São documentos de ordens de pagamento, cheques, tomadas de empréstimos, depósitos (eram selados), compra de cerveja para os operários da reforma do prédio (Rua Governador Valadares, ao tempo, ainda Coração de Jesus) e reconhecimento de firmas. Tinha eu também carta do amigo Necésio de Morais, uma memória privilegiada, que muito esclareceu pormenores do início de funcionamento da agência.

Em janeiro de 1990, quando foi realizada a grande comemoração do primeiro centenário do BB, das personagens do primeiro mês da agência só duas estavam ainda em circulação: José Pereira de Souza e Cândido Canela. Souza (tio do Samuel Figueira e cunhado de Efigênia Parrela), de cabelos mais que branquinhos, visita Montes Claros com grande alegria. Veio rever parentes e amigos.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


38141
Por Wanderlino Arruda - 30/8/2008 07:48:10
MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA

MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA é a canção do primeiro século de independência da cidade. É o marco da inteligência, de fé e de amor, cadinho da ternura de Luiz de Paula, fruto de importante momento da nossa história. É a síntese sentimental de um moderno trovador, menestrel da cultura, doação vida à nossa realidade e aos nossos sonhos. A força desta canção é entrelaçamento de duas existências, de Luiz de Paula e da cidade, ambos sensíveis ao eterno e ao efêmero, misticamente voltados para tudo que inspira e cheira saudade e afeição. Mais do que uma prece à meiguice do sangue, MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA é um grito de sagrada paixão pela terra e pelo povo.
Decorridos hoje, mais de cinqüenta anos do Centenário, impossível descrever o entusiasmo, o afeto e o carinho com que a cidade comemorou os duzentos e cinqüenta anos de sua fundação e os cem anos de criação do município. Foram sete dias de festas, em que praticamente todas as famílias abriram suas casas para receber montes-clarenses saudosos vindos de todos os quadrantes da pátria. Em cada praça, em cada rua ou avenida, em cada lar, a alegria do reencontro, o abraço emocionado de velhas lembranças, o eclodir sincero da mais pura devoção a um local abençoado por Deus. As pessoas se abraçavam, dançavam e cantavam, cultuando o passado e extravasando esperanças. Era a transformação de cortejos em alegorias de amenas certezas, uma doce e gostosa gratidão ao berço natal. Feliz de quem teve a sorte de viver naqueles dias neste santificado Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José das Formigas, tudo tão Montes Claros.
A canção MONTES CLAROS, VOVÓ CENTENÁRIA, que a inspiração de Luiz de Paula transformou em hino de lirismo e vibração para velhos e jovens, foi o elo emocional necessário para tornar o momento inesquecível, iluminando recordações e fazendo cintilar o porvir. A gravação de setenta e oito rotações feita na época, hoje guardada como relíquia, incrustação material no espaço afetivo, depois, em nova técnica, se fez presente e reativou nova onda de sentimentos bons, principalmente quando comemoramos o sesquicentenário, ano passado. Atualizada, cantada com o encanto da voz de Carlos Galhardo e do Quarteto em Cy, bem orquestrada, foi a garantia de perenização de um dos mais altos instantes de nossa tão querida Montes Claros, ontem e hoje idolatrada.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


37704
Por Wanderlino Arruda - 17/8/2008 08:47:22
DOUTOR SANTOS VISTA DE PERTO
Wanderlino Arruda


A Rua Dr. Santos começava no Bar de Manoel Cândido e Hotel São Luiz (agora Copasa) e no Banco Crédito Real de Minas Gerais (hoje Farmácia Real). Depois era o barzinho de Adail Sarmento, mais café do que qualquer outra coisa, pois, lugar pacato, sério, onde nem viajante hospedado no Hotel podia fazer barulho e conversar alto. Tudo ali era de muito respeito, principalmente no mini-restaurante em que alguns estudantes mais bem postos na vida – Ivan Guedes e Raimundo Sant`Ana, por exemplo – podiam tomar semanalmente um pequeno lanche, com gorjeta para o garçom. Pensando bem, o bar ou café de Adail Sarmento era um quase sucesso, com tiras de bilhetes de loteria e açúcar refinado, tudo bem ao olho do dono reclamador dos exageros. Quando um dia um viajante encheu a xícara todinha de açúcar, Adail perguntou, ironicamente, a ele por que gostava de café tão amargo... De lá saíam muitas estórias para a portaria do hotel no outro lado, onde muitos anos depois, ainda falavam de saudades do bom Sebastião Sobreira, que de tão bom, no dia em que morrera, os pobres choraram nas ruas no meio de muitos lamentos pela perda do amigo e protetor.
Era no Hotel São Luiz, nas quintas-feiras, à noite, a reunião do Rotary Clube, a mais fina nata da aristocracia montes-clarense, lugar em que pontificavam inteligências e interesse pelo bem público, como João Souto, Nozinho Figueiredo, Moreira César, Niquinho Teixeira , Cel. Coelho, Gentil Gonzaga, Chico Tófani, Nathércio França, Antônio Augusto Athayde, João Valle Maurício, Lezinho, Fontes, Levy Peres, Baendel, Gerardo Guerra entre os que se foram, e Luiz Pires, Luiz de Paula, Hélio de Morais e Josias Loyola entre os poucos que ainda estão muito vivos. Luiz de Paula, no meu acompanhamento de jovem repórter, foi o melhor presidente que conheci, quando uma noite no Rotary dava tanto assunto que, no dia seguinte, eu escrevia todo o JMC, com exceção da página de polícia. Até para crônica social do A. R. Peixoto, e, mais tarde, dos J. e J., eu fornecia dados para fazer sucesso. Era uma festa e tanto, e nenhum assunto importante poderia ser sugerido ou resolvido sem passar por lá.
Um pouco acima ficava a farmácia de Juca de Chichico, ele muito falante, bem vestido, alegre fazendo trocadilhos, mexendo com um e com outro que passava, já não muito novo, mas bastante saudável para viver intensamente como gostava. Dele me lembro muito bem nos dois extremos da rua, porque encontrávamos também várias vezes por dia no Hotel São José (praça Cel. Ribeiro), onde eu era hóspede. A farmácia São José (agora, Minas Brasil), era a única da Rua Doutor Santos antes de Montes Claros ser o maior paraíso de farmácias da face do planeta. À frente, o Banco Hypothecário e Agrícola, de Mauro Moreira e Lidehir, com placa ainda escrita com "y" e com "th", contrastando já com a modernidade do Bancomércio, onde trabalhava o jovem alto e elegante Theodomiro Paulino.
O barulho ficava por conta da loja de rádios, eletrolas, geladeiras e discos 78, de Dizinho Bessa, precursora das modernas lojas de muita propaganda, aonde muitas vezes fui buscar anúncios para o Jornal. Era um contraste com a linha de elegância e silêncio da "Renner", loja de camisas com colarinhos trubenizados e ternos vindos de Porto Alegre. Lá, a gente conversava com João Leopoldo, jovem cantor da jovem D-7, testes na Rádio Nacional do Rio, e com Nathércio França, o melhor e mais ponderado papo de tudo que cheirava ao atual da cidade e do país. Lá, além de ternos e passagens de avião, a gente comprava coletes, lenços e gravatas. E cuecas samba-canção, em grande evidência naquele tempo.
Como vêem, não chegamos ainda nem ao JMC (agora, Caixa Econômica Federal), que ficava em frente à Padaria Santo Antônio, onde o cheirinho de pão quente era uma gostosura...

Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais


37564
Por Wanderlino Arruda - 11/8/2008 12:22:20
O REGIONALISTA NELSON VIANNA

Wanderlino Arruda
Tenho, como patrono da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, um notável homem de letras da nossa região, um regionalista e sério pesquisador de costumes, literato de fôlego, um sentimental homem do sertão, sempre vestido com roupagens de sério trato: Nelson Washington Vianna, o curvelano montes‑clarense.
Escolhi‑o com o desejo de marcar de modo definido minha admiração pela obra diretamente ligada às gentes do grande sertão do Norte, ao agricultor, ao caboclo, ao vaqueiro, ao freqüentador de feiras, ao fazendeiro, ao contador de "causos", ao tocador de viola, ao solitário das madrugadas e das bocas de noites e aos que, cansados das tarefas do dia, sentavam‑se ou se sentam nos calca­nhares para ouvir ou falar com a maior sabedoria do mundo. Nel­son Vianna, com a sinceridade do cientista, contou muito da esper­teza do interiorano de Minas, homo rusticus ou homo urbanus, sempre com a alma aberta à criação de tipos, caracteres e personalidades de rara beleza para nossa literatura. Ele despertou um sentido novo de humor, uma figuração de inteligência e perspicá­cia, um savoir‑vivre e savoir‑faire difíceis de se encontrar em outra literatura.
Perscrutador impenitente, incansável olheiro da fraqueza humana, quase libidinoso no modo de ver e interpretar, Nelson Vianna foi imaculadamente o grande repórter de uma vasta reportagem do homem sertanejo desse lado de cá do mundo mineiro, que vem de Curvelo até os Montes Claros. Ele sempre viveu acompanhando vertentes e serrarias, capões de mato e serrados, veredas e gerais, cenários de vida e de literatura tão gratos aos nossos corações. E pena que eu não tenha conhecido tão bem Nelson Vianna como o conheceu Cândido Canela, Olyntho da Silveira, Vianna de Góes, como o estudou Haroldo Lívio. Homem distante, severo, de poucos amigos, não dava muita oportunidade aos mais novos para conversas e troca de idéias.
Lembro‑me de ter conversado com Nelson Vianna apenas uma vez, no vestíbulo da casa de Osmani Barbosa. Estava eu na­quela ocasião interessado em fazer uma pesquisa sobre a literatura do Grande Sertão, exatamente no pedaço de terra que fica entre o centro de Minas, a Serra das Araras e o Carinhanha. Precisava de dados comparativos de dois estilos que dissessem diretamente sobre o elemento humano, fruto teórico da paisagem sofrida, ponto de ligação entre a natureza e a vida do passado e do presente. Propus, então, a ele uma entrevista, do homem e do literato, para que eu pudesse, depois, compará‑lo com Guimarães Rosa, o outro lado do trato com o comportamento sertanejo. Nelson Vianna espantou‑se, olhou‑me de frente, franziu o semblante, parece até que tremeu— e, considerou minha atitude uma audácia: fazer comparação dele com Guima­rães Rosa não tinha propósito, não havia paralelos; Guimarães, o grande escritor, ele um joão‑ninguém. É isso o que pensava. Não, não era possível, era um absurdo, não me daria entrevista alguma. Insisti, mostrei que a diferença de estilos não desmanchava a beleza nem a precisão des­critivas da relação humana e humanística do tema e que, embora divergentes, eram um só. De nada adiantou, foi irredutível, iria pensar, poderia ser ou não ser... mais para o não ser.
O encontro de frente e direto na casa de Osmani Barbosa com Nelson Vianna foi o último, como também estava sendo o primei­ro. Mudou‑se o escritor, logo em seguida, para Belo Horizonte. Quando o vi de novo, foi andando lá pelo quarteirão montes‑clarense das ruas Tupis e Rio de Janeiro, mas aparentemente distraído e, senhor ou não da vida, nunca me reconheceu. E até parece que a Montes Claros nunca mais voltou. Coisas que só o Haroldo Lívio deve entender...

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


37479
Por Wanderlino Arruda - 7/8/2008 11:59:41
LABOR CLUBE DE MONTES CLAROS
Wanderlino Arruda

Na opinião de Andrés Segovia, a beleza estética consiste essencialmente em um ato de amor entre o artista e seu meio de criação. E é esse sentimento que se comunica ao público quando nos momentos de contato, este se vê diante de uma obra de arte, seja esta um filme, uma peça teatral, uma pintura, ou texto em livro ou na Internet. Um simples flirt ou uma concentração profunda estabelecerá a interação entre os dois, da qual surgirão os mais inusitados ou diferenciados sentimentos. Na maioria das vezes, é aceitar ou não aceitar, absorver ou não absorver, prazer ou felicidade. Em linguagem menos nobre, é pegar ou largar...
Juventude, companheirismo e serviço; notável exercício de cidadania, ideal de servir; ontem e hoje, muitas as lembranças por traz dos altos e baixos dos casarios de Montes Claros. Gratas memórias de Geralda Magela de Sena Almeida e Sousa em que a música da jovialidade coloria um tempo de sadios prazeres, tudo sonhos, tudo interesses no viver e conviver gostosamente. Arquitetura de história e estórias urdidas e bordadas em liderança inesquecível, moças e rapazes até hoje reconhecidos por dotes de inteligência e talento. Belezas deixadas e continuadas pelos cantos e recantos da vida, neste século espalhadas por infinidade de territórios da entidade chamada Brasil, quando dá gosto reviver os tempos do Labor Clube de Montes Claros.
Foi o Labor, ao lado de outros clubes similares – Orbis, Rotary, Lions – que deram força e coragem para o engajamento na construção e transformação de vários segmentos da sociedade montes-clarense, uma passagem linda do individual para o coletivo. Parece-me, a primeira vez, que jovens de lares abastados descobriram que nem todas as famílias faziam feira ou iam aos armazéns, nem todas as crianças dispunham de livros e materiais escolares, nem todos os idosos podiam ir às farmácias. De uma hora para outra, apareceu-lhe um novo mundo de necessidades e carências, que com um pouco de esforça pessoal e coletivo, poderiam ser remediadas. Pela primeira vez, o gesto solidário deixava de ser basicamente religioso, passando para a área institucional de serviços à comunidade. A solidariedade como dever maior, gente conhecendo gente, gente ajudando gente. A responsabilidade passou a ser coletiva com o novo espírito do Labor.
As ricas pesquisas feitas por Geralda Magela De Sena Almeida e Sousa vêm realmente atender o chamamento histórico dos 150 anos de Montes Claros, que não podiam ficar restritos a 2007, mas ter uma seqüência natural falada e escrita por todos que viveram ou estudaram a última metade do Século XX. É assim que ocorre um importante resgate de duas décadas, quando foram destaques além da própria Magela, Julinha Lafetá, Rosália Gomes, Fátima Mendes, Branca Dias Neto, Carmem Lúcia Antunes, Marinilza Mourão, Wanda Carvalho, Lídia e Lúcia Teixeira, Josefina Pereira, Felicidade Patrocínio, Mabel Morais, Márcia Melo Franco, Magna Casasanta, Almerinda Tolentino, Iranildes Cardoso, Wilma Sanches, Miriam Veloso Milo, Zulma Ribeiro, Maninha Cardoso, Lúcia e Laice Arruda, Beatriz Maia, Lúcia Lopes, Beatriz Santos, Elizabeth Brant, Marilda Veloso, Neusa Linda e Verônica de Paula, Regina Malveira. Como não lembrar carinhosamente das presenças de Selda Cabral, Regina Malveira, Márcia Valadares, Ceres Pimenta, Aparecida Costa, Alda Nogueira, Carmem Tupinambá, Dorinha Mendes, Iolanda Fróes Eugênia Brito, Joelita Leão, Laurita Ruas, Maninha Cardoso, Maria Augusta, Evangelina Miranda, Renata Brito, Raquel e Cristina Peres, Renata Brito, Luíza Freire? E por que não registrar também os nomes dos rapazes Giovane Santa Rosa, Paulo de Paula, Ildemar Mendes, Antônio Carlos Amaral?
Mesmo longe das atividades do Labor e do Orbis, porque já casado e no meu tempo de Câmara Municipal, como jornalista sempre acompanhei as atividades dessa moçada importante no tempo de entusiasmo que seguiu o primeiro centenário de Montes Claros. Louvo de alma e coração o trabalho perfeito da professora Geralda Magela, minha ilustre companheira no Instituto Histórico e Geográfico. Sinceros aplausos por sua minuciosa e bem feita pesquisa, pelo registro realmente bem redigido, importante subsídio para os que também vierem estudar e historiar os sucessos montes-clarenses. O livro LABOR CLUBE DE MONTES CLAROS é e será um ícone luminoso de uma época mais do que luminosa.

Os que vão viver saberão disso!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 1/8/2008 17:41:30
JOSÉ COMISSÁRIO FONTES

Wanderlino Arruda

Fontes, o companheiro, o irmão, o amigo, já não se encontra materialmente entre nós. Há alguns anos, em uma grande viagem pela eternidade, deixou este agitado vale de dificuldades, que está sendo o nosso mundo do primeiro quartel do Século XXI. Uma viagem de ida ou de retorno, não importa, mas uma saída que marca saudades em todos que lhe queriam muito bem, que no total, são milhares de corações, aqui, em Montes Claros, em Ervália, onde nasceu, em Belo Horizonte... Alhures... Fontes era homem
de muitos amigos, de admiração séria, devotada, carinhosa. Criatura de reconhecimento e respeito, pois, mesmo no centro de revolto mundo de armadilhas e problemas, foi sempre pessoa de bem, espírito de escol.
Bom brasileiro, bom mineiro, antes e depois de bom montes-clarense. Um devotado à causa do trabalho silencioso, do trabalho constante, mais direcionado para o seu semelhante do que a si mesmo. De esforços multipluralistas, viveu sem descansos, impregnado do melhor sentido da vida, sem abatimentos desnecessários por tristeza que não podia evitar, sem alegrias desmedidas fora do seu feitio de sisudez. Acredito sinceramente que Fontes, sem ter nascido em Montes Claros, foi um dos melhores representantes desta terra, comedidamente amado e desmesuradamente amante de tudo que é nosso. Fontes, o trabalhador, o operário do bom serviço, sempre membro ativo da comunidade.
Fontes veio para Montes Claros em 1942, algum tempo depois de ter feito do curso ginasial em Juiz de Fora, na Academia de Comércio. Chegou já na profissão que adotaria por toda a vida, a atividade comercial no ramo dos calçados. Antes, havia passado por Ponte Nova, Belo Horizonte, Rio de Janeiro, num caminho do autodidatismo da vida, aprendendo e praticando, tornando mais rica a cultura, construindo a sabedoria das grandes almas, aprendendo a agir e servir, elegendo como norma o amor, o verdadeiro amor cristão, voltado para a felicidade. Aqui chegou, aqui venceu.
Rotariano, a partir de 1951, ainda em companhia de João Souto, nos bons tempos de Niquinho Teixeira, de Nozinho Figueiredo, de Moreira César, pouco tempo depois de Sebastião Sobreira. Um rotariano consciente de lema `dar de si antes de pensar em si`, compenetrado nos direitos e obrigações da sociedade. Cursilhista dedicado, organizador de primeira hora, líder, fraternalmente irmão, entusiasta, sindicalista, sempre ligado ao Sindicato do Comércio Varejista, à Federação do Comércio, foi ele o grande herói do SESC, conseguindo trazer para Montes Claros esse trabalho maravilhoso de que todos somos reconhecidos. Foi colaborador direto na criação de empresas e entidades de interesse público, como a Companhia Telefônica, a Companhia de Águas e Esgotos, a Associação Comercial e Industrial. Incentivador do Mobral em nossa região, provedor da Santa Casa, Presidente do Rotary Club de Montes Claros – Norte e muitas outras atividades de inteligência e do coração.
Fontes, um jorrar de trabalho e de esforços para o bem comum, não será esquecido. Cumprindo bem sua missão, em passagem não muito longa pela vida, gravou indelevelmente o bom exemplo. Merece a nossa saudade e o melhor do nosso reconhecimento.
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 28/7/2008 22:29:35
O ROMÂNTICO MANOEL QUATROCENTOS
Wanderlino Arruda

Eu estava no décimo-quarto andar do edifício do Banco do Brasil, no centro de Fortaleza. Dentro, a temperatura era de dezoito graus, cortinas fechadas em quase todas as janelas, menos em uma que dava visão direta para o mar. Lá fora, calor intenso, um sol que daria gosto se estivesse na praia. O céu de brigadeiro, de um azul que indicava não haver igual em nenhuma parte do mundo. Fazendo moldura, abaixo da linha do horizonte, o Oceano Atlântico que parecia mais clorofila que água salgada: o verde era intenso, quase um verde de esmeralda ou de turquesa, daquele verde tão lindo como a cor dos olhos de uma bonita mulher de olhos verdes. Era o mar de Iracema, a virgem criada por José de Alencar, de lábios de mel e cabelos mais negros do que a asa de graúna e de pele mais macia que a pe1úcia de um pêssego maduro em manhã de chuva. Meu momento de professor de Lingüística num curso para palestrantes era a capital do Ceará.
Foi lá naquela festa urbana, onde trabalhava uns dias e vivia cada minuto, que recebi um telefonema de Olímpia, com notícias de casa, de Montes Claros e da região baiana de Minas. Sorvi, com atentos ouvidos, cada detalhe, cada ângulo de comentários. Misturava tudo com uma profunda saudade dela e das coisas com sabor mineiro. Quem nasceu? Quem vivia ainda? Morreu alguém conhecido? Ela me falou das mortes de dois prefeitos, das passagens súbitas de Caetana Meira, de Afrânio Tempone e da viagem eterna de Manoel Quatrocentos. Senti profundamente a ausência da Caetana, tão nossa amiga, quase nossa vizinha, companheira da Casa da Amizade, do Rotary, do Elos Clube. Ninguém nasceu para viver definitivamente. Haverá sempre um último dia. Mas acostumar-se com a ausência física de pessoas amigas, mesmo que não estejam sempre próximas de nós, é sempre uma angústia. Não existe alegria na morte. Mesmo de longe, senti muito a falta dos bons amigos. Importante pensar espiritualmente em cada um. Via méritos em todos: da alegria de viver de Tempone, por exemplo. Poucos dias antes, eu tinha convencido Caetana a ir com Meira a uma conferência do Rotary em Caxambu. Fiz propaganda de maravilhas do encontro rotário, e ela aceitou.
Do verde do mar, da imensidão do oceano, da fantasia do céu do Ceará, voltei-me inteiramente para todas as idéias que materializo hoje nesta crônica, focalizando na memória as muitas vezes que vi e admirei a figura nostálgica e cavalheiresca de Manoel Quatrocentos, um misto romântico de Dom Quixote e de Carlitos, último dos distantes conquistadores da beleza e do charme de mulheres famosas do velho cinema hollywoodiano. O verde do mar cearense seria como um foco dos sonhos do nosso romântico Manoel? De tudo que ele tinha na vida – e quase não tinha nada além do machado de cortar lenha – o de que mais se orgulhava era do verde dos olhos que herdara da mãe. Pode ser que fosse isso, porque nos olhos do Manoel Quatrocentos estavam quase todas as suas maiores qualidades: a gentileza, a alegria, o humanismo, o desejo de conquista, a admiração por Montes Claros, a cerimônia com as mulheres, a ironia com os orgulhosos, a malícia com os amigos, a simpatia com os jovens. Grande Manoel!
Lembrei-me perfeitamente dos meus primeiros tempos de estudante, lá pelos idos de 1951, quando íamos ouvir, aplaudir e anarquizar o jovem Manoel Quatrocentos, o "maior" cantor de boleros da Rádio Sociedade nos programas de auditório, no Cine Montes Claros e Cine Ipiranga. Chupando cana, comendo pipocas, fazendo bolinhas de papel de caramelos para jogar no animador e nos artistas, que grande alegria era cada manhã de domingo! Manoel Quatrocentos, mais romântico que o eterno romântico Adauto Freire, meu amigo, fazia poses de Gregório Barros, lançava beijos para as belezas invisíveis de Ingrid Bergman, Vivien Leigh e Lauren Bacall. Era como se ele estivesse vivendo cenas de Casablanca e de E o Vento Levou, só possíveis de serem descritas pelo companheiro Ângelo Soares Neto, outro fã incondicional do Manoel, que a esta hora também no mundo espiritual, deve estar sorrindo com ele, ou desfiando saudades como até hoje faz Haroldo Lívio. Quantas vezes pedíamos bis, bis só para sentir as impostações de voz de quem se acreditava, Tyrone Power, Charles Boyer, Errol Flynn, ou, nas horas de maior coragem, o próprio Charles Starett ou o Flash Gordon.
Lembro-me, agora, também da mania do Manoel Quatrocentos em falar línguas estrangeiras, no enrolado dialeto dos gringos: s`il vous plâit, merci beaucoup, yes, thank you, buenas noches, oh muchachas, take it ease, shut up, tão comuns aos artistas franceses, mexicanos ou de Hollywood. Era um tal de falar em footings e flirts que dava gosto! Lembro-me dos amores de Manoel Quatrocentos com o que parece ter sido seu único amor materializado – a Maria Tostão, lá no alto dos Morrinhos, quem sabe a sua alegria legítima. Perfumado sempre nas horas de folga, nunca sem gravata, castelhano gravado no sotaque, Manoel Quatrocentos foi um homem despojado de orgulho nas horas de trabalho braçal, dono de pouco, mas sempre sagrado dinheirinho para as próprias necessidades.
Do Ceará, mandei mentalmente meu último aplauso a Manoel Quatrocentos, o maior candidato ao noivado com as mais lindas mulheres do mundo. Que a manhã daquele sábado, 23 de abril de 1988, tenha sido para ele – Manoel Nunes da Silva – um fantástico momento de glória, uma contemplação maravilhosa do infinito azul do olhar de todas as belezas femininas da história. Ele muito fez por merecer!
Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 15/7/2008 11:03:07
GY REIS, POETA

Wanderlino Arruda

O homem bom tira coisas boas do tesouro do seu coração. O homem útil é feito de sonho e realidade, com palavras sempre traduzindo o que imagina e o que pode fazer. Algo muito parecido com o sábio que sonha realizando e realiza no viver todos os seus sonhos. Compreende a vida olhando-se para trás, mas vê esta mesma vida vivida, olhando-se para a frente. O homem bom existe e sobre-existe como muito bem expressou Thiago de Melo: "Não tenho um caminho novo. O que eu tenho de novo é um jeito de caminhar." Vejo com bons olhos o olhar poético do companheiro e amigo, professor Gy Reis Gomes Brito, autor de PARADOXO, Poemas e Contos, de feitura gráfica da Editora Unimontes, de apresentações inteligentes e bonitas dos professores Osmar Oliva e Anelito de Oliveira. PARADOXO que vem como leitura fluente, vívida e vivida, um amar no aprender amando, das palavras e versos de Carlos Drummond de Andrade, esta que é a nossa oportunidade de poetar, poetando na poesia do amigo Gy Reis. Bonita, lúcida, inteligente, moderna, atual, esta é a poesia que encanta e vai encantar-nos sempre e sempre. PARADOXO é, no dizer do próprio poeta, um amor como um rio em época de chuvas e um tempo em temporada de tempestades, versos em forma de gente, penhor de luz, passeio largo em frente de um boteco. Ele escolhe a poesia como redesenha a religião que liga e religa, liga e desliga para o bem de todos os mortais. É assim no antes e no depois do grande Tagore: "A noite abre as flores em segredo, e deixa que o dia receba os agradecimentos." É assim antes e depois de Goethe, o mais lembrado poeta alemão: "Quando uma criatura humana desperta para um grande sonho e sobre ele lança toda a força de sua alma... Todo o universo conspira a seu favor!" Valho-me agora das palavras do autor de PARADOXO, o grande Gy Reis: "Os frutos novos me velejam, me mordem e me desejam, pois são os meus reflexos, e isto os alimenta, porque agora, sou eu em cor e pele. Agarro a vida e seus objetivos como um tamanduá-bandeira agarra a presa. O homem não nasceu para si mesmo, nasceu para a comunhão. Se não fosse, cada um seria seu próprio rei. Vivendo a vida, construiremos o mundo. Tudo porque, além da atmosfera terrestre, há uma escuridão a ser desvendada. Se um colibri passa por aqui, Lembro-me de você beijando o néctar de uma flor nas praças, escolas e ruas , quando tudo está colorido e é Natal. No meio do caminho há uma flor, apalpando o novo, requerendo equilíbrios. O desconhecido é como um pássaro voando na noite e garimpando no alto Amazonas, onde serra ficou pelada, onde o tempo nos incentiva, mas o momento nos cobra o futuro. Esta minha mulher é tudo aquilo que sonhei. Esta minha mulher é minha noite, é o meu dia, é a minha dor e minha alegria. Não quero sair do meu chão, nem sair tão doido como peão que cai o potro alazão. Estrela da manhã, vem me fazer criança, vem cantar comigo, vem me fazer sorrir. Amo-te, pois és a minha pressão arterial. Nada pode ser tão doce assim... Termino com uma confortante prece irlandesa, que o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros dedica ao grande Gy Reis: "Que a estrada se abra à sua frente, Que o vento sopre levemente às suas costas Que o sol brilhe morno e suave em sua face, Que a chuva caia de mansinho em seus campos... E, até que nos encontremos de novo, Que Deus lhe guarde na palma de Suas mãos."

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 10/7/2008 11:57:01
DE MANHÃ, NA JANELA

Wanderlino Arruda

Não concordo com os que vivem para a noite, os noctívagos ou seja lá como se denominam os que varam as madrugadas, ou como dizia o meu amigo Claudionor Lima, que "matam o sol no peito". Sou muito mais de levantar cedo, pouco antes ou pouco depois das seis, quando o dia já está claro, sem exagero de luz. Naquela horinha de ver senhoras idosas indo para a missa, pedreiros e serventes pedalando de bicicleta para as construções, empregada doméstica dirigindo-se às padarias e botecos para comprar pão e café em pó. É claro que para a gente ver tudo isso é preciso ficar na porta da rua ou na janela, com aquele ar de quem se interessa em participar da vida.
Não concordo com os que se levantam tarde, depois das oito, depois das nove. Os que se levantam depois das dez, eu os condeno pura e simplesmente, porque estes não conhecem a melhor parte do dia, não vivem a hora de plenitude e beleza. Pela manhã, tudo é melhor e mais saudável e não há dúvida de que outra é a nossa disposição para o trabalho, para o estudo da vida, para observação da natureza, para a própria necessidade de meditação, parte integrante do nosso viver. Para se levantar um pouquinho mais tarde, tem os domingos e feriados, tem o período de férias. Aí está certo, porque também ninguém é de ferro.
Gosto de gente que participa da vida, que gosta de gente, que se interessa pela alegria dos outros, que se sente feliz com a felicidade alheia ou que respeita a tristeza dos que não podem ser alegres. Acho que é por isso que gosto de pessoas que olham pela janela, diletantes observadores do dia-a-dia, seguidores da eterna Glorinha, de Jorge Amado, por sinal viva até poucos anos atrás, moradora que era da praça principal de Olivença, na Bahia, onde a vi e observei muitas vezes. Não se deve viver no isolamento, pois a gente nasce é para viver em comunidade, no meio da luz, nunca na escuridão, na claustromania. E por falar em gente, lembro-me da satisfação do sempre bem disposto baiano-mineiro Ernesto Rodrigues Neves, sincero amante de Montes Claros, que ia, em velhos tempos, duas vezes por dia à estação da Central, nos horários de chegada dos trens de Belo Horizonte e de Monte Azul, jamais faltando a esse compromisso, chovesse ou fizesse sol. Era caso pessoal e intransferível. E o que ia "seu" Ernesto fazer na estação da Central, na chegada do trem? Ver gente, uai! Simplesmente ver gente que chegava e gente que saía, gente que ia lá receber ou despedir-se de parentes e amigos. Dizia ele que não havia nada melhor no mundo do que ver aquelas fisionomias sinceramente felizes ou saudosas, num real acontecimento de participação humana, um espetáculo de grandeza e de sensibilidade. E existe realmente alguma coisa melhor do que ser feliz? Pois "seu" Ernesto era, sempre foi, porque gostava de gente.
E viver por viver – dizia ele - deve ser ao lado da felicidade...


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Por Wanderlino Arruda - 1/7/2008 16:33:06
Loja Maçônica Deus e Liberdade

Wanderlino Arruda

O último dos fundadores da Loja Maçônica Deus e Liberdade a viver entre nós foi o bom amigo e mestre Professor Athos Braga. Todos os seus companheiros de fundação já haviam gozado do direito de uma nova iniciação no Oriente Eterno, deixando para os que vieram depois apenas a lembrança do bom exemplo, da coragem e da fé no trabalho e no estudo. Um a um, como tinha de acontecer, foi deixando a vida e entrando para a história, cada qual marcando a sua participação, assinalando uma hora importante do progresso da oficina. José Esteves Rodrigues, Sebastião Sobreira, Álvaro Marcílio, todos, cada um ao seu modo e com a força e prestígio que tinham, foram acrescentando o "algo mais" que tanto valor tem somado à instituição em Montes Claros nestes setenta e seis anos de tantas lutas e louvores da Maçonaria. Que poderia eu dizer de setembro de mil novecentos e trinta e dois? Quem dos leitores poderá dizer, com conhecimento de causa e com testemunho ocular, do que acontecia naqueles tempos bons e difíceis? Não acredito que seja possível falar muito de Maçonaria sem ser maçom, uma vez que a ordem nem sempre divulga os seus feitos ou anuncia a sua realização, ficando na maioria das vezes, a mão esquerda sem saber o que realiza a direita, como bem manda o figurino evangélico desde os tempos apostólicos. Avessa à publicidade, a maçonaria é pouco vista do lado de fora, só aparecendo o trabalho que, de forma alguma, pode ficar escondido. Assim, muita coisa dos setenta e seis anos de Deus e Liberdade permanece apenas na memória dos seus protagonistas, dos que tomaram parte direta nos próprios acontecimentos. Houve tempo, é certo, que nada poderia ser feito sem passar antes pela Loja e pelo Rotary, reuniões semanais que reuniam a maior parcela de liderança de Montes Claros. Do Rotary eu sei que cada reunião me dava quase totalidade da matéria de um jornal, nos meus tempos de repórter convidado por João Souto e Luiz de Paula, no salão dos jantares do velho Hotel São Luiz. Muitos e muitos - maçons e rotarianos - entrecruzavam-se nas duas organizações, entre eles Nozinho Figueiredo, Henrique Baendel, , Gentil Gonzaga, Sebastião Sobreira, João e Luiz de Paula. Quase nada teria realização segura, nenhum progresso poderia ser sonhado sem que uma palavra de ordem fosse comandada pelo movimentar deles e de suas duas entidades. A tradição local de maçons continua ainda apoiada na memória de Athos Braga, de José Gomes, de João de Paula, de Almerindo Alves de Brito Faria, de João Murça Júnior, os mais antigos, de iniciações mais remotas, na década de quarenta. Toninho Rebello, Júlio Pereira, Hélio Athayde, Geraldo Novais, Walter Suzart, Vadiolano Moreira, Cesário Rocha, Marcelo Furtado, José Geraldo Drumond, João e Terezo Xavier e mais um punhado de outros vieram depois de cinqüenta e sessenta, bem depois da longa administração de Chico Tófani e de Sobreira. Poucos ainda estão aí, vindos de antes. Como eu olhava com respeito aquele pessoal de avental vermelho, do grau dezoito, que se assentavam mais perto do Venerável! Os graus trinta e três só vieram tempos mais tarde, quando José Gomes foi ao Rio de Janeiro a chamado urgente e foi depois um sucesso! O tempo de irmo-nos igualando - alguns de nós - aos mais velhos veio nos idos de setenta e oito, quando pudemos nos postar ao lado de grandes amigos, entre eles o Georgino Jorge de Souza, de saudosa memória. Muito teremos ainda de escrever sobre a história de Deus e Liberdade. Espero que o futuro não nos negue tempo e memória. Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 25/6/2008 10:31:31
NOVELAS, SONHO E REALIDADE

Wanderlino Arruda

Não sei se você já parou um pouquinho para pensar sobre o que as novelas vêm representando para a sua família e para o povo em geral, o que elas trazem de realidade e o que elas podem oferecer de sonhos ou de ilusões. Alguém dizer, hoje, que não assiste a novelas, que não dá confiança a elas, que não tem tempo para acompanhá-las, nem sempre representa uma verdade verdadeira. De um ou outro capítulo, ou mesmo de uma seqüência deles, ninguém escapa, pois a tevê, queira ou não queira alguém, ocupa sempre um lugar importante na casa, seja na sala, seja no quarto de dormir. Em algumas classes mais bem situadas, existem até muitos aparelhos em diferentes partes da moradia, incluindo aí, o já indispensável DVD ou o home theater. Assim, o cidadão pode escapar do imposto de renda, da praga da política, do telefonema de cobrança, mas nunca da influência da televisão.
E qual é mesmo a função social da novela? Tem ou não tem ela alguma utilidade prática, além do divertimento e da simples ocupação do tempo ocioso? É a novela uma mídia didática, isto é, contribui para alguma aprendizagem, aumento de cultura? Que tipo de expectativas decorre do acompanhamento de uma novela, do convívio diário com as personagens, do amor e do desamor que elas provocam, das simpatias e das ojerizas, da beleza e da feiúra, das carências e dos requintes? Muitas são as interrogações, mas não sei quantas poderá o leitor dar em termos de sua própria experiência. Quem sabe talvez seja esse um trabalho para sociólogos e psicólogos, para outros os cientistas do comportamento humano. O certo é que elas têm de ser notáveis por alguma coisa, pois, do contrário, não poderiam trazem tanta preferência por parte de gente de todas as idades, aqui, neste alegre e sofrido Brasil, assim como em muitos outros países, inclusive em cultura diferente como a da China.
Até certo ponto, as personagens das novelas são pessoas do nosso dia-a-dia, as mesmas que convivem conosco ou são alvos de nossa atenção nas notícias dos jornais e das revistas, ou nos noticiários da própria televisão. Vejamos o exemplo da estratificação social, praticamente tudo em termos de oposição, aparecendo os embates emocionais entre ricos e pobres, educados e mal-educados, finos e grosseirões, bons e maus, virtuosos e pecadores, novos e velhos, desprendidos e ambiciosos, grã-finos e bregas.
Há também os paralelos e as diferenças nas profissões, perfilando ao mesmo tempo, o industrial, o comerciante, o banqueiro e seus empregados de trabalho leve e trabalho pesado, todo mundo ao lado do médico, do padre, do advogado, do motorista, da secretária, do jagunço urbano ou rural, da empregada doméstica, da mãe bondosa e conselheira, da dona de casa sobrecarregada, tudo dentro de determinadas normas, centrado por valores, situações e costumes mais diversos.
Destaquem-se ainda o deslumbramento dos ricos, a problemática dos pobres, a luta homérica para a sobrevivência da classe-média, esta espremida entre o pólo da ostentação da riqueza e o sofrimento marcante da miséria dos pobres. O rico sempre com uma montanha de bens supérfluos, buscando cada vez mais a ascensão social. Os pobres mergulhados na crendice (mal também dos ricos), no jogo do bicho, nas escolas de samba, nos botecos, nas barracas das feiras, no futebol, nas profissões de baixa renda, morando sempre em favelas, cortiços, ruas antigas e afastadas, vivendo em locais barulhentos e de grande densidade populacional. A felicidade raramente está desligada do dinheiro e do poder, do luxo e da boa vida, principalmente das lindas casas bem decoradas, cheias de móveis vistosos e ornamentadas, por fora, com carros do último ano. A felicidade sem dinheiro só aparece de vez em quando e, assim mesmo, com alguma obsessão de amor, com tentativas de casamentos impossíveis ou impraticáveis, pois casar exige quase sempre o mesmo "status" social, uma proximidade de classes.
Assistir a uma novela, de princípio ao fim, é candidatar-se para muito sofrimento, muita angústia, um convívio diário com toda espécie de paixão, embora algumas vezes gratificante pelos toques de humorismo, de esperança, de romantismo, de sabedoria, em proporções que só o drama ou a comédia podem oferecer. Mas como há vocação para tudo, gosto para todas as situações, sejamos telespectadores assumidos, porque a vida é breve, e a dos outros é sempre mais emocionante do que a nossa!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 11/5/2008 07:57:31
MINHA MÃE, MEU TESOURO

Amarás e servirás incessantemente,
todos os dias da tua vida,
eis o teu poder, a tua convicção,
o teu trabalho santificado.

Teus gestos serão movimentos de encanto,
busca de paz, homenagens sinceras a Deus
por ter permitido a vida a ti mesma
e a teu filho, a tua filha, a todos os teus filhos,
pedaços ou amplitudes do teu corpo e da tua alma...

Amarás, mãe, os minutos e os segundos
e tempo não te faltará para os mais santos carinhos
com que envolverás o fruto do teu amor.

E maternidade, mãe,
não precisa que seja do teu próprio ventre,
célula da tua célula,
porque ser mãe é passar pelo caminho da vida,
oferecendo dádivas do amor e da fé,
o melhor que exista no coração.

Ser mãe é passar com rastro fulgurante
em cendal de estrelas,
envolvendo em luz as trajetórias
dos seres que lhes são entregues
para cuidado e burilamento.

Ser mãe é sofrer amorosamente,
é sorrir na complacência,
é sonhar com a esperança.
Nenhuma tarefa é mais dignificante
do que a de mãe,
pois, em sua vida, dificuldade é ensino,
problema é lição, sofrimento é bênção,
tudo é alicerce divino na construção do bem.

Ser mãe é transmudar-se em bálsamo
e bom entendimento.
É ter a vida dos anjos,
é esparzir misericórdia
em nome do que há de mais sagrado no amor.
Ser mãe é curar o cansaço,
é amenizar a própria existência.

Filhos de todo o mundo, reverenciai as vossas mães.
Elas são seres insubstituíveis,
tesouros inestimáveis, maravilhas da criação.
A elas, jóias do mais fino labor de Deus,
o nosso amor!


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Por Wanderlino Arruda - 8/5/2008 15:58:53
GODOFREDO GUEDES

Godofredo Guedes, em várias décadas, foi o artista mais completo de Montes Claros: na pintura e no desenho publicitário. Na pintura, com figuras humanas fictícias e reais, paisagens urbanas e campestres, marinhas; no desenho publicitário, em portas, carrocerias de caminhões e paredes de estabelecimentos comerciais. Sua maior produção era a de letreiros em muros, placas, faixas e cartazes.
Um bom exemplo de qualidade. Tudo que Godofredo fez foi com a busca de um acabamento perfeito, principalmente nas cores, que ele não admitia não fossem reais. Enquanto não achava a cor exata de cada detalhe, não descansava. Vi-o muitas vezes gastando horas preciosas na busca de uma tonalidade, seja nas cores primárias ou nas secundárias. Ele produzia as suas próprias tintas, com exceção do verde. Seus azuis eram realmente maravilhosos, principalmente o celeste e o turquesa.
Creio que foi a pintura e o desenho o foco real de toda a sua vida. O estúdio ao lado de sua casa de morada, na Rua Rui Barbosa, tinha um vendaval de tintas que iam do chão ao teto. Praticamente todo o seu tempo era empregado na produção de telas e molduras para os quadros, assim como dos suportes para a confecção das placas.
A música – composição e execução – era mais uma forma de diletantismo a que o intelectual Godofredo Guedes se via ligado nos momentos de ócio. Foi músico profissional somente nos tempos de juventude, no Clube Minas Gerais, famoso cassino que ficava na esquina das ruas Carlos Gomes com Visconde de Ouro Preto, no centro de Montes Claros. Muitas das músicas cantadas pelo filho Beto Guedes eram composições antigas, acredito criadas ainda quando morava na Bahia.
Meu convívio com Godofredo foi a partir de 1974, quando de meu início na pintura. Era raro o dia que eu deixava de ir à sua casa para ficar sentado numa banqueta ao lado da sua. Passava longas horas, ouvindo-o e vendo o seu trabalho, suas explicações sobre cores e luzes, sobre a importância dos reflexos e das sombras. Ele gostava muito de mim e eu gostava muito dele, sendo grande a nossa afinidade em assuntos históricos e geográficos, principalmente na geografia humana. Godô era um homem culto, interessado em tudo que representasse conhecimento e marcasse progresso. Conhecedor profundo de formas e perspectivas, seus modelos – pessoas e coisas – faziam parte do seu próprio sentido de vida.
Dizia-me sempre que fui o seu único aluno de pintura, pois nem aos seus filhos e netos ensinava sua arte e seu ofício. Para ele a vida de artista era muito triste, economicamente pouco valorizada, sem sentido para quem precisasse vencer na vida. Dava muito prestígio, muita fantasia num sentido cultural, mas pouquíssimo dinheiro para a feira semanal de D. Júlia, sua mulher. Ele só não era infeliz, porque adorava ser um criador de belezas, vibrava com a própria habilidade nas tintas e nos pincéis. A mim me ensinava porque sabia que eu era independente financeiramente, e não precisava do dinheiro que a pintura pudesse me proporcionar, assim como acontecia também com Konstantin Christoff e com Samuel Figueira.
Muitas e muitas vezes contava-me sobre suas experiências como pintor em Belo Horizonte, expositor na Feira de Artes dos domingos, principalmente da alegria dos montes-clarenses quando viam seus quadros das igrejinhas dos Morrinhos e da Avenida Cel. Prates. Outro quatro seu que fazia o maior sucesso era o Palhacinho, que todo mundo achava ser o único comprador, mas que ele já havia pintado mais de novecentos. O êxito maior dos quadros da igrejinha do início da Cel. Prates era por dois motivos: primeiro porque ela não existia mais; segundo porque fora o local de batismo e de casamento de uma grande maioria. Uma lembrança mais grata a todos os corações.
Em verdade, foi Godofredo Guedes – cidadão e artista – um homem de admirável mérito, uma figura histórica exemplar, um ser realmente inesquecível. Dou graças a Deus por ter, de perto e por muito tempo, convivido com ele.

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros


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Por Wanderlino Arruda - 29/4/2008 18:31:15
TRIBUTO A REIVALDO CANELA

Menino Pescador, menino dos passarinhos, menino que lê e escreve muito bem há mais de quarenta anos. Um sucesso de leitura das edições de domingo dos nossos jornais. Tenho certeza de que todos os leitores, desde as noites de sábado, já ficam esperando pela bem traçadas linhas do Reivaldo. Sempre falando de coisas da terra, dos peixes de debaixo d`água até às aves de cima dos pés de pau e da beirada dos céus. Reivaldo é doido com tudo que tem vida, do vegetal ao animal, incluindo aí o bicho homem. Este quando ama a natureza, é claro. Recebo com muita alegria os originais do primeiro livro de Reivaldo, com uma linha nas explicações iniciais que me põe muito triste: o autor se diz no ocaso, só porque tem 72 anos, ou seja, nasceu em 1934, logo no em que eu também nasci. Ocaso que nada, ocaso uma figa, que esta hoje é uma idade das mais interessantes, principalmente para nós que adoramos tudo que é sertão e gente sertaneja, como o foi também Cândido Canela, um dos melhores poetas de toda uma vasta região, que até pode ser a do Brasil. Muito importante ler com atenção essa primeira página do livro, pois é aí que o escritor faz confissão e muitas promessas do que vem adiante. Um depoimento de escrivão! Mesmo sendo resumo de um vasto repertório de três mil textos publicados - em grande parte conhecido dos leitores - vale a pena mergulhar nos relatos, nas estórias, nas crônicas, nos tratados de leis naturais, nos poemas, muitos dos quais sonetos de perfeição. Ler Reivaldo Canela é desdobrar fibra por fibra o amor à vida, à simplicidade, aos feitos multifeitos da gente nossa dessas bandas das Minas Gerais. Ler Reivaldo é saber das espertezas telúricas de muitos dos seus saudosas companheiros de aventuras de beira-rio e de mato. Lá estão - entre muitos - Reinilson, seu irmão, Penalva, Dino de Campo Azul, Tunico de Caititu, Afonso lê Zezito Salgado, Joanir Maurício, Zé Figueiredo, Fino, Luiz Procópio, Waldir Macedo. Só gente boa de pá virada. Ler Reivaldo é buscar memórias, lavar a alma, reviver sonoridades de nomes tão gratos ao que viveram mais para o verde dos campos: maritacas, jandaias, priquitinho asas-de-ouro, mama-cadela, tatu canastra, jaratataca, saruê, guará, curimatá, lampreia, corvina, unhas-de-gato, sanhaços, juá-de-boi, surumbim-pintado, piaba-oião. Um universo de palavras-música para que tem mais de cinqüenta, já que os meninos e meninas de hoje são mais das piscinas, dos barzinhos, da televisão, da internet, dos vídeo-games, sem qualquer obrigação de saber dessas nossas bobagens. Em verdade, MENINO PESCADOR, o livro de Reivaldo Canela, é mais do que tudo um suspiro saudoso de velhos tempos de criança, tempos em que meninos ainda banhavam nus em qualquer poço, incluindo mesmo os que tinham, nas margens e nas pedras, honradas senhoras lavando, quarando e enxugando roupas. Em tempo, quero dizer que Montes Claros, em praticamente um século, na opinião de críticos literários, só teve um quarto de dúzia de sonetistas realmente bons: Olyntho Silveira, Benjamim Moura e Reivaldo Canela, este que ainda dá um bom caldo em escritos para jornais e, agora, para um bom livro. Que Deus o conserve!


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Por Wanderlino Arruda - 30/8/2007 10:31:23
JOÃO MORAIS,MEU AVÔ
De todas as pessoas que tenho conhecido mais de perto, o velho João Morais, meu avô, parece ter sido o único homem a viver oitenta e muitos anos de alegria em tempo integral. Era assim como se tivesse carteira assinada numa firma de felicidade, com todos os direitos, menos o de ficar triste e de deixar de ser alegre. Era, não tenho dúvida, como um papai noel de ano inteiro, a distribuir presentes de fraternidade a todas as criaturas. Fazia ele da convivência de todos os dias um painel harmonioso e de rica sabedoria. Conheci-o desde os meus primeiros anos, em sua fazenda perto de Salinas,numa casa-sede que ficava rodeada de pomar e jardim,entre "Ribeirão", de águas cristalinas, e a estrada principal, onde ninguém tinha direito de passar sem uma visita ainda que ligeira. Ali, cada visitante era recebido prazerosamente e, depois dos cumprimentos de praxe, levado para lavar a poeira dos rosto, tomar café-com-leite e biscoitos de tapioca e participar de uma gostosa conversa. Sabendo dividir bem as horas de trabalho nas pastagens e na lavoura, vivia animadamente para o trato com as pessoas, contando estórias, relatando casos, recriando-os com enternecedora vontade transmitir felicidade. Vovô foi, acima de tudo, um homem bom, o leme para muita gente neste mundo, que aprendeu com ele a andar no caminho certo, pois conselheiro melhor não havia naquele pequeno grande sertão entre Rio Pardo e Salinas. Era um velho forte e musculoso, vermelho como um europeu, e tinha os cabelos brancos e fartos, que lhe davam um ar de juventude bem conservada e um enorme halo de simpatia. Quando eu era pequeno, pensava que sua cabeça havia embranquecido pelo rigor do sol dos canaviais, onde trabalhou até poucos dias antes de morrer. Eu achava que ele tinha vindo aprimorar o mundo e as criaturas, num esforço de nunca parar, pois nem a doença que o acompanhou anos a fio o modificou em seus hábitos de homem feliz. Vi-o, muitas vezes, voltando à tardinha, enxada ao ombro, embornal pendurado no pescoço, sorriso de ponta a ponta, a cantarolar algumas de nossas modinhas prediletas. Todas as noites, após o jantar com toda a amília - ninguém podia faltar - deitava-se numa rede amarelecida de tanto uso, e o antigo violão passava a centralizar as atenções, numa suave evocação de lembranças e saudades, que só terminava bem tarde, quando o cansaço vencia e todos iam dormir. João Morais, meu avô, nasceu bem longe, na velha Bahia, pelas bandas de Caiteté, creio, num dia de festa até da natureza. Desde rapaz, tropeiro de profissão, viveu a vida dos campos e das estradas, dormindo ao relento, comendo feijoadas com rapadura e farinha de mandioca, e respirando o sereno de todas as madrugadas. Ele mesmo contava que foi naquele tempo que conheceu uma moça morena e bonita chamada Ritinha, neta de índios, de quem, seis meses depois do primeiro encontro, ficou noivo, e com quem, um ano mais tarde, se casou. E foi vendo a casa cada vez mais cheia de filhos e netos, fazendo e refazendo festas, que viveram mais de meio século em harmonia muito perfeita. Não assisti , mas dizem que ele morreu conversando e sorrindo, como costumava fazer durante todos os dias da vida, pedindo a todos para não chorar ou sentir tristeza. Embora sertanejo e de poucas letras, foi um romancista verbal, narrador inigualável desenhista de perfeitos quadrinhos existenciais de humanismo puro e sincero. Na verdade, meu avô tinha uma experiência de vida, uma habilidade diplomática, uma riqueza de inteligência e bondade, dignas de muita admiração. Ninguém que o conheceu deixa de dizer que ele era um velho alegre e agradável, verdadeiro construtor de amizade, sempre ouvido com interesse e prazer.


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Por Wanderlino Arruda - 6/8/2007 08:08:29
KARLA CELENE CAMPOS E `HIBISCOS MOLHADOS"

Vejo-me, na apresentação de "Hibiscos Molhados", como um acendedor de madrugadas, um libertador de belezas, um otimizador de primaveras, a um tempo só cronista e poeta, lúcido e em êxtase, muito espiritualmente acordado para dizer que esta é uma hora marcante de dourada e acadêmica alegria. E que bom para mim, porque assim desempenho um papel de introdutor e de testemunha num dos mais destacados momentos, ato de muito agradecer a Deus esta Karla que, desde a infância, sabe desnudar e vestir cores e sons, prismas e músicas, ritmos e tempos, mundos de visões e de sonhos, tudo nem sempre permitidos à normalidade de humanos mortais. Karla antevê e vê deslumbrantes rasgos de vidas, panoramas lúdicos só possíveis a quem, de cima dos horizontes poéticos, vislumbra matizes e sabe muito de ventos e brisas. Missionária, predestinada e mágica, é arquiteta e operária de mais do que dizem dicionários e textos. Graduada em Letras pela Unimontes, jornalista pela UNI-BH, pós-graduada em Língua e Literaturas Brasileira e Espanhola pela PUC-Minas, cursos em Salamanca, mestra de muitos magistérios, poeta e cronista vencedora de dezenas de concursos, mereceu, com todo louvor, o destaque 2004 do Salão Nacional Psiu Poético. No dizer de Maria Luíza Silveira Teles, que também viveu infância e adolescência no Brejo das Almas, Karla - quem sabe pelos ares brejeiros tocados por tempestades de inspiração - edifica poemas desde que aprendeu a escrever. Inteligente, profética, conspiradora de belezas, é e tem a majestade do imprevisível na tessitura moderna do mundo da comunicação e da expressão lingüística. Menina sempre, tem a simplicidade vocabular dos que entendem das coisas. Sabe, como mestra, registrar costumes, repintar entusiasmos, dignificar gestos e jeitos, musicalizar todas as energias que a Criação Divina colocou no mineiríssimo gosto de nossa gente. Karla é uma geminiana mais do que versátil e exerce suas atividades sempre com muito prazer. Faz várias coisas ao mesmo tempo, principalmente quando estas coincidem com a sua filosofia e cultura. Insaciável para saber, de tudo saber, tem na fala e na leitura constantes perguntas. Fascinante no dom da palavra, sua conversa é ágil e estimulante, tanta eloqüência que deixa a impressão de domínio completo em muitos campos do conhecimento. Intelectual sempre, acomodada nunca! Importantíssimo que Karla tenha tirado da gaveta as páginas que lá envelheciam e ali trancado a própria modéstia, para nada impedir a publicação dos seus livros. Sabe que a vida tem prosseguimentos e que, para ser interessante, nem precisa de históricos acontecimentos, grandes glórias ou tragédias grandes. Basta ser como é, aura pura de amizades e considerações. Mesmo passando depressa demais, a vida é sempre ótima, ponta de partida e ponto de chegada. Melhor ainda quando em cada manhã um poema novo, cada hora como fruta madura ao alcance das mãos. Mais do que tudo, os versos lindos de Karla são sentimentos de amor à vida: Orquestra de insetos do mato "Sou o cio! Agora sou caminho Chegadas e partidas. Sou estrela. Sou abismos, precipícios, sou meio, sou inteira. Sou metade. Sou avesso Sou tarde e Amanheço".
E-mail: arrud@wanderlino.com.br


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Por Wanderlino Arruda - 23/7/2007 07:35:24
AH! OS HORÓSCOPOS

Wanderlino Arruda

Confesso que entre as minhas muitas leituras quase não posso passar sem as dos horóscopos. Por exemplo, não ponho um jornal de lado enquanto não estiver lida a coluna que fala da sorte no dia ou na semana. Não me importa se vai ou não vai acontecer coisa alguma, se devo ou não acreditar. Interessa-me, porque acho gostosa a combinação de idéias, o tom otimista dos autores, a sensação de mistério, o número de probabilidades fantásticas. E sei que não estou só nessa empreitada, porque senão os jornais e as revistas não falavam tanto do assunto. Deve haver até muitos leitores muito mais apaixonados do que eu e do que você. Será? Conheço mais o que diz respeito aos nascidos no signo de Virgem, um povo leal e dedicado, afeito às letras, ao jornalismo, à contabilidade, a tudo que concerne a papel e que é nele escrito. Práticos, homem e mulher virginianos, são organizados e gostam de tudo certinho, arrumado como um relógio de hora certa, previsí¬vel, a ponto de sustentar uma eterna crítica deles mesmos. Quando um virginiano casa-se com uma virginiana, fazem mais do que um casamento: fundam uma organização com Características inte¬ressantíssimas, incluindo nessa organização os devaneios e as fantasias, desde que obedeçam a esquema traçado. Ponho como testemunhas disso meus bons irmãos e colegas Míriam e Dárcio, meus vizinhos de aniversário. A mulher de libra não tem nenhum critério na escolha do com¬panheiro? Tudo o que ela quer é unir-se a alguém muito elegante, inteligente e que decida por ela, a quem ela possa dedicar-se e que satisfaça seus caprichos sofisticados. É cheia de etiquetas e está sempre comprometida com as normas sociais. A libriana sem¬pre se preocupa com a opinião das pessoas. Já a mulher de Escor¬pião traz dentro de si o grito da liberdade instintiva. Inconformada, não sabe reprimir sua exuberância afetiva e sensorial, sempre cheia de empatia e intuição. De grande força de trabalho, assume tudo com garra. Outra mulher que adora a liberdade de movimen¬tar-se é a aquariana. Para ela, o ir e vir, conforme lhe convier, é o essencial, assim como o relacionamento e a participação na vida das pessoas. Já a canceriana é uma mulher sensível, dotada de grande capacidade de emocionar-se, permeável ao meio ambiente, misto de mãe e mulher, quase nem sabendo separar essas duas funções. As leoninas são protegidas pelos deuses, segundo a mitologia, parentes do fogo e, por isso, fáceis de incendiar-se. Brilhan¬tes, intransigentes e dominadoras, pensam como bem entendem. As mulheres de Gêmeos expressam com suas fantasias através do amor, ao contrário das taurinas, que são bastante realistas a ponto de recusar as ilusões e só ver a segurança e o que é real. Sem compromisso, variada, leve, não sei se pode haver leitura melhor do que as dos horóscopos. Pelo menos mais gostosa não há! Nem a de poesia bem feita!


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Por Wanderlino Arruda - 4/7/2007 11:56:25
RUAS E PRAÇAS DE MONTES CLAROS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Há vários caminhos para a gente saber os nomes de ruas e praças de Montes Claros: percorrer a cidade de ponta a ponta ou folhear o catálogo telefônico na parte dos endereços, lendo e anotando os destaques em negrito. Primeiramente, logradouros sem nomes, ou seja somente com números, Rua 1, Rua 2, etc., até começar pela Rua Abel Sena e terminar pela Rua Zulma Antunes Pereira, bem no finzinho do alfabeto. Uma delícia a viagem, a pé, de pé, assentado, dependendo do percurso escolhido e de como fazê-lo. Na prática, não adianta você ter pressa, porque o gostoso mesmo é ver e sonhar frente a cada denominação, seja nome de gente, de santos, seja de palavras que indicam pedras, metais, flores, cidades, províncias, países e até continentes. Há ruas e praças com títulos de coronéis, padres, engenheiros, príncipes, deputados, donas, irmãs, doutores. Trinta infinitos doutores, onze donas, cinco engenheiros. Viúvas somente duas: Viúva Francisco Ribeiro e Viúva Paculdino, a primeira no centro, a segunda no Jaraguá II, coisa de incrível machismo, porque, merecendo a homenagem, deveriam ter nas placas os próprios nomes e não os dos maridos. Dou um doce a quem encontrar os nomes delas nas famosas listas dos 150 x 2, da Prefeitura, e dos 300 da acadêmica Milene. Apesar de ser normal que nomes de vias públicas sejam de pessoas já do outro lado da vida, pelo menos três montes-clarenses receberam homenagem em vida: Mestra Fininha, Teófilo Pires e Hermes de Paula. Hermes chegou a ter três ruas, mas tendo reclamado o excesso, ficou com apenas uma. A Rua Simão Ribeiro, quarteirão fechado, ao contrário do que muita gente pensa, não é de Simeão Ribeiro Pires, mas de Simeão Ribeiro dos Santos, o tio. Bem curiosos os casos de algumas praças com nomes e apelidos: a Doutor Chaves é praça da Matriz; a da Santa Casa é Honorato Alves; a da Catedral é Pio XII; a da Estação é Raul Soares; a do Automóvel Clube é a Doutor João Alves; a Doutor Carlos que era praça do Mercado, hoje é Doutor Carlos mesmo. Wanderley Fagundes nunca poderia ter seu nome na praça onde está e acabou tendo por teimosia do seu amigo e prefeito Toninho Rebello. Ela está no centro do bairro Todos os Santos, local de somente destacados apóstolos e famosos figurantes do calendário da Igreja. De nada adiantaram as reclamações à época, porque Wanderley acabou, com justiça, canonizado por Toninho. O Brasil tem seis ruas, Brasília e as Guianas três. Bélgica, Bolívia, Argentina e Colômbia, duas cada uma, além de mais algumas antecedidas pela palavra República. A capital de estado com mais ruas é Porto Alegre, com três, mesmo tanto que tem Lázaro Pimenta. A flor mais homenageada é a violeta, com quatro. Há ruas da Boa Esperança e da Boa Vista, da Sorte e da Felicidade. Ruas com os nomes de João, José, Maria, Nosso Senhor e Nossa Senhora, Santo e Santa são muitas e muitas. São muitas também as começando por Lagoa, inclusive Lagoa do Bagre e Lagoas Cabalana e Canacari, que nem Haroldo Lívio deve saber o que significa. Quatro ruas Esmeralda, quatro Pedra Azul, três de Coração de Jesus, cinco dos barões. Uma de Tu Peixoto, uma de Janete Clair, uma de Ivete Vargas e duas de Urbino Viana. Duas do Cruzeiro, nenhuma do Atlético. Daniel Costa já mudou duas vezes: era praça, onde está o Shopping Mário Ribeiro (Shopping popular), passou para o lado da Santa Casa e depois, para ceder lugar para o Cel. Luiz Pires, foi para o Jardim São Luiz. Dezenas de ruas têm o nome de Francisco, Geraldo e Geralda; cinco dos índios Guaranis, sete do governador Magalhães Pinto. Nota final, realmente triste: Antônio Lafetá Rebello poderia ter ficado no centro, mas foi para o Santa Lúcia II; pior para os admirados doutores Alfeu Gonçalves de Quadros e Pedro Santos, até o momento, zerados na lembrança cívica. Uma pena!


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Por Wanderlino Arruda - 5/6/2007 09:23:52
HAROLDO, BARÃO DE GRÃO-MOGOL

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

A história é bem normal de tudo de conformidade com os cânones do comércio de nossos dias, fruto dos princípios da oferta e da procura. Negócio de toma-lá-e-dá-cá, envolvendo naturalmente valores e moedas comuns de qualquer ato comercial. Só põe romantismo numa operação dessas quem pode vê-la com olhos de poesia, com traços românticos de filosofia literária. Em tudo, não resta dúvida, mesmo nos atos de pura barganha e interesses outros, a gente consegue dar um colorido de fantasia, bem própria dos que vivem do trato das artes de das letras. É que a verdade é bem interessante, amigos. Haroldo Lívio, cidadão brasileiro, brasilminense de nascimento, montes-clarense de coração, agora assina um atestado de amor à terra de Grão Mogol. Assina e paga. Paga com toda a força que o dinheiro põe e dispõe no mundo moderno, mesmo em se tratando de coisas antigas. Haroldo Lívio - é bom dizer logo - acaba de efetuar uma transação comercial de alto coturno na cidade de Grão Mogol. Comprou e pagou e tomou posse, com registro em Cartório, mediante todas a cláusulas, inclusive a de evicção. Haroldo Lívio, ou melhor, Doutor Haroldo Lívio de Oliveira, brasileiro, advogado, casado com a socióloga, D. Maria do Carmo, é hoje senhor de um solar antigo e sensorial na cidade de Grão Mogol. Senhor legítimo de uma antiga casa, grande e imponente, construída possivelmente por mãos escravas, de paredes de pesadas pedras, escavadas com o suor do século passado. Caso de amor à primeira vista, Haroldo embeiçou-se pela nobre vivenda e sentiu-se imediatamente na pele de um poderoso grão-proprietário, dono da segurança de uma fortaleza ao mesmo tempo urbana e histórica. Viu e gostou. Gostou e comprou. Comprou e pagou. Pagou por ser o incontestável possuidor da possuída posse. A casa de Haroldo, amigos, não é uma casa comum, que a escritura diz construída de alvenaria, de simples e perecíveis tijolos. É obra granítica, com paredes de meia braça, a sustentar janelas coloniais, portas imensas, de duas bandas, com pesadíssimas traves e ferrolhos, frutos, não só da segurança mineira como da senhorial competência de suados ferreiros de antanho. A casa de Haroldo, de telhado de aroeira lavrada a golpes de enxó por mãos competentes, tem repetidas ripas de jacarandá! As paredes das salas mais nobres são revestidas com lambris e o piso é digno das passadas de um comandante-centurião. Na frente, o arquitetônico ornato de uma resistente cimalha dá o toque do poderio e da força de uma escolha consciente do construtor e mestre-de-obra, orgulho da arte de cantaria. O fundo do nobre solar, após generoso quintal de frutos opimos, divisa com as mais cristalinas águas do rio de areias brancas, leito de pedras polidas, barrancas atapetados de grama verdinha e capim gordura. Ao longe, mas não muito distante, o perfil elegante de centenárias árvores a formar moldura com o azul de ferrugem das serras e a linha cinzento-celeste do horizonte. Tudo uma graça, um encanto para os olhos e um prazer para o coração... Por tudo isso, pelo amor, pelo romantismo da decisão comercial, pela poesia, pelo gosto, pela nobre humildade e pela humilde nobreza de sã consciência, prevalecendo-me não sei de que autoridade, não tenho dúvida de atribuir a Haroldo Lívio, culto e intelectual senhor das Minas Gerais, o Título de Barão de Grão-Mogol.


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Por Wanderlino Arruda - 22/5/2007 22:27:39
AGOSTO DE CINQÜENTA E TRÊS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Quando Celso Brant dedicou toda a revista "Acaiaca" de agosto de 53 a Montes Claros, comandavam esta cidade o Capitão Enéas Mineiro de Souza e o Coronel João Lopes Martins, duas patentes ainda bem vivas na lembrança de leitores mais velhos, cada uma delas com personalidade bem forte, à moda da época, revolucionários e conservadores, marcantes de paixão, um tanto próximos do caudilhismo com feição regional. A Câmara Municipal, dirigida pelo flegmático João F. Pimenta, tinha a respeitabilidade da década, uma saudosa coerência de bom comportamento, fato que dos quinze cidadãos com acento na casa, oito ainda estão aí para servirem de testemunhas. Mas já não temos o juiz Ariosto Guarinello, o bispo Luiz Victor Sartori, o delegado José Coelho de Araújo, nem os colaboradores da revista padre Agostinho Beckhauser, Nelson Viana, Alfred Hannemann, José Monteiro Fonseca, Neném Barbosa, Pedro Sant`Ana, Irmã Rudolfa e os poetas Geraldo Freire e Dulce Sarmento. Deste time, já ninguém mais para contar a história. Todos na longa viagem da eternidade... Com trinta e três anos passados, é bom que ainda reste a lembrança de amigos como o professor Belisário Gonçalves, figura e estilo tão próximos de Castro Alves, e o reporte José Prates, o primeiro jornalista de rua e de redação deste O JORNAL DE MONTES CLAROS. Felizmente, bem vivos ainda, temos Felicidade Tupinambá, João Vale Maurício, Konstantin Christoff, Flora Pires Ramos, Luiz de Paula, Cândido Canela, Irmã de Lourdes, Yvone Silveira, Orestes Barbosa e Lourdes Martins. Também, embora distantes, mas em lugares certos e sabidos, Áflio Mendes de Aguiar, Afonso Pimenta e Feliciano Oliveira. Todos juntos, formaram um belo corpo editorial, de prosa e poesia e desenho, agradáveis, bem feitos, até com um lindo toque de romantismo pelo muito amor a terra montes-clarense. Confesso que o mais gostoso na velha revista "Acaiaca" é o conjunto de anúncios, alguns até de página inteira, muitos com ilustrações interessantíssimas. Os leitores mais vividos que me digam se estou ou não falando a verdade, se é ou não salutar o direito de ter saudades. Quem não lembra, por exemplo, do Big-Bar, do Salão Rex, do Assombro da Pirotécnica de Marcianinho Fogueteiro, da Turmalina, do Instituto de Beleza Gilda, da Casa Paulino, da Alfaiataria Ribeiro, do Macarrão Iracema, do Bar de Tito Versiani? Quem não tem ainda gravados na memória nomes tão conhecidos como Hotel São Luiz, Casa Para Todos, construtora, Ayres Alfaiate, Joalheria Cyma, Transportadora Armênio Veloso, Farmácia Americana, Maternidade Santa Helena? São gratificantes pedaços de lembranças, coloridos no tempo e nos sonhos... Tudo na revista é interessante, mas o sensacional mesmo são as fotografias feitas pela mão de mestre de José Figueiredo Pinto, também inesquecível. Na página infantil, retratos dos garotos Jorge Enéas e Catarina. Nas páginas de esportes, flagrantes de momentos históricos das atletas do Montes Claros Tênis Clube, Moema, Zembla, Glória, Eunice, Ilza, Marlene, Shirley, Wilma, Norma Maria, Stela, Zenaide, Clarissa, Consolação. No bloco da educação, fotos de alunas e professoras, do Colégio Imaculada. Como fechamento de ilustração, bonitos exemplares das raças gir e indubrasil das fazendas de Dominguinhos Braga, Augusto Otávio Barbosa, Antônio e Geraldo Ataíde. Naquele tempo, o Banco do Estado de Minas Gerais ainda era chamado de Banco Mineiro de Produção.


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Por Wanderlino Arruda - 17/4/2007 07:47:21
MESTRE KONSTANTIN CHRISTOFF

Wanderlino Arruda
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Foi em 1974 que, numa das conversas com Konstantin, surgiu a idéia de uma feira de arte em Montes Claros. Feira ou exposição ao ar livre, numa praça, em dia de sol, todos os artistas juntos, arte e artesanato. Uma associação organizada, mas sem estatuto, sem presidente, sem secretário, sem tesoureiro, sem diretoria. Todos iguais, um ao lado do outro, sem escolha de lugares. Claro que com disciplina, mas a disciplina da amizade, do companheirismo, da consideração, ninguém mandando em ninguém. O que mais Konstantin pediu foi que nunca pensássemos em registro. Tinha que ser uma sociedade livre, para que os artistas pudessem entrar e sair sem pedir licença. Quer expor ? Apareça no local e no horário, e tudo bem. Para que inscrição ? Um único cargo, nada mais do que um, apenas o coordenador, porque pelo menos para dar informações, precisava de alguém. Discutidos os nomes, acabei sendo este alguém. Mas sem votação. Ele indicou-me. Não é a feira de arte a lembrança mais antiga que tenho de Konstantin, pois amigo ele foi sempre desde os meus tempos de estudante no Instituto Norte Mineiro, estudantes passando na frente da casa dele, na Rua D. João Pimenta, e ele dando conselhos, falando como irmão, uma consideração muito carinhosa com os jovens. Lembro-me dele fazendo ilustrações para revistas de Montes Claros e de Belo Horizonte, lá de vez em quando colaborando com edições comemorativas de alguma coisa pelos jornais da cidade. Lembro-me dele médico sério e famoso na Santa Casa, cirurgião do maior respeito. Lembro-me muito da muita admiração que as moças casadoiras tinham por ele, um rapagão louro, de cabelos compridos sem ser demais, barba européia ariana, olhos claros, perfil de um possível marinheiro viking, financeiramente já bem posto na vida, tipo de genro que toda futura sogra desejaria para a sua filha. A vida continua e Konstantin Christoff também continua na história de Montes Claros. Sempre admirado, sempre amado, um ícone da nossas artes maiores, pintura, escultura, desenho, a cada dia mais competente, a cada temporada com mais estudos teóricos, sabedor de tudo, estimulando jovens, criticando velhos, sugerindo sempre. Uma enciclopédia das artes e dos seus valores. Como era gostoso estar vendo ao mesmo tempo Konstantin e Godofredo Guedes, no estúdio de Godô, na Rua Rui Barbosa. Um completava o outro. Godofredo, um clássico, põe todo academicismo que ainda é pouco, escolha rigorosa de cores, pintura no mesmo movimento da escrita, da esquerda para a direita, de cima para baixo, se hoje como uma moderna impressora colorida de computador. Godô nunca abria mão dos detalhes, mínimos que fosse. Konstantin, não, um revolucionário, um iconoclasta, nada de academicismo, nada de cores obedientes, traço rápido, um quase simplismo brincalhão, às vezes até puxado para a caricatura. Para Godofredo, Konstantin era um louco genial, um anarquista. Mas quanto o admirava ! O tempo passa e sempre Konstantin é um vencedor. Alguém mais do que um mestre. Uma assinatura sua é capaz de fazer uma folha de cartolina, uma tela vazia serem consideradas obras de arte. Um mágico fenomenal. Ontem e hoje bem aceito. Com exposições nas cidades maiores deste e de outros países, tornou-se um bem-visto pela imprensa especializada. Nosso orgulho!


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Por Wanderlino Arruda - 11/4/2007 10:28:43
MONTES CLAROS, CIDADE DA ARTE E DA CULTURA

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Enquanto muitos cuidam do viver e outros cuidam do sonhar, Montes Claros cumpre, como vem cumprindo há muitos anos, a função de cidade da arte e da cultura, epíteto que Reginauro Silva criou lá pelos idos de 1978, quando escreveu - parece-me - a sua primeira peça de teatro. Isso mesmo: Montes Claros, Cidade da Arte e da Cultura, com todos os substantivos com iniciais maiúsculas, destaque mais do que merecido, principalmente agora que iniciamos as comemorações do sesquicentenário, exatamente cinqüenta anos depois do grito histórico de Hermes de Paula, quando tudo mudou para melhor em termos de reconhecimento e progresso. Terra de muito trabalho, de múltiplas iniciativas, marcada a cada dia pela independência e pela ousadia, Montes Claros é realmente uma cidade de vida e de sonhos, já com escola para a formação de professores em fins do Século XIX. Em 1926 teve em funcionamento a estação ferroviária e inaugurou, com toques internacionais, o terceiro Rotary Clube fundado no país. Pouco tempo depois, bancos particulares, Banco do Brasil, aeroporto, telefone, difusora de rádio, postes de luz elétrica, redes de água e de esgotos na parte de baixo e na parte de cima, ou melhor da Avenida Cel. Prates até o Roxo Verde, da Rua Dona Eva até a Rua Bocaiúva, onde ensaiava e tocava a Euterpe Montes-clarense. Daí para a criação do Clube Montes Claros, na Rua Doutor Veloso com a Presidente Vargas, foi um pulo. Progresso para fazer muita inveja! Insaciável no encontro do real e do fantástico, Montes Claros foi sempre fonte de trabalho e estúdio de criação artística, principalmente na poesia. Em qualquer encontro valia um discurso, escrito ou de improviso. Faceira, romântica, apaixonada, o suor do ganha-pão nunca foi menor que as serenatas, o aboio dos vaqueiros, o cantarolar de viajantes ou o sapatear do lundu. Ano após ano, muito de coroações nas igrejas, muito de catopês, muito de pastorinhas. Todas as cores que o folclore e a saudade marcam direto. Quem quiser saber mais, melhor perguntar ao meu amigo Nivaldo Maciel, que no alto dos seus oitenta e tantos, ainda canta e abóia como ninguém. Vale todo o progresso que chegou a partir de cinqüenta. Sudene, batalhões da Polícia e do Exército, Companhia Telefônica, escolas de francês e de inglês, associações e sindicatos, Corpo de Bombeiros, Lions, Elos Clube, Academia de Letras, Parque de Exposições, jornais diários, revistas quase mensais. De duas ruas calçadas em 1951, o prefeito Enéas Mineiro espalhou paralelepípedos do centro comercial até a Praça da Estação. Depois de 1955, com a vinda da Cemig, energia elétrica em tempo contínuo. Por esse mesmo tempo, Banco do Nordeste para ampliação de financiamentos, curso científico do Colégio São José para que rapazes e moças tivessem permanência com suas famílias, não precisando sair para estudar em outras cidades. A partir da década de sessenta, com a fundação do da Fafil, Fadir, Famed e Fadec e a criação do Conservatório de Artes Lorenzo Fernandez, do Automóvel Clube, nada mais segura Montes Claros, porque o desenvolvimento tem garantia, principalmente depois da Unimontes e mais seis conjuntos de escolas superiores, que hoje fazem da capital do Norte de Minas uma verdadeira cidade universitária. Que o Instituto Histórico e Geográfico - que acabamos de fundar - seja a fonte de todos os registros e a marca da evolução física e humana de tudo que deveria ter sido sonhado pelo bandeirante Antônio Gonçalves Figueira nos idos de 1707.


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Por Wanderlino Arruda - 18/1/2007 22:25:04
MONTE AZUL DE MARIA DA GLÓRIA

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Depois do amor e da fome, prevalecem nas boas cabeças e nos justos corações - mais do que tudo - a vontade estética e o interesse de ser imortal. É o ideal do artista, como pessoa e como construtor do mundo e das existências do mundo. Proust, o autor de “La recherche du temps perdu”, saudosista de costumes e pragmático em acontecências, ressaltou que não haverá - na arte ou em qualquer outro setor intelectual - realidade mais profunda que aquela onde personalidades procuram encontrar expressões e ações da vida. Nada mais exato, porque a função da arte é principalmente a de descobrir verdades e reconstituir valores da consciência coletiva. Assim, querida amiga, “Monte Azul, Retrato e Relatos do Tremedal”, seu primeiro livro sobre a cidade do seu amor, chega no tempo certo e rodeado de belezas nas lembranças e nas idéias, mesmo não contando com os modernos recursos da fotografia digital. É um encantador celeiro de informações sobre coisas, lugares e pessoas. Um maravilhoso conjunto de ilustrações de um compreensível carinho por tudo que a história de Monte Azul registra em tempo de antanho e em tempos modernos, muitos deles da minha geração, pois tendo chegado à sua região em 1945 - melhor dizendo a Mato Verde - assisti a todas as mudanças políticas, à inauguração da estrada de ferro, à consolidação dos hábitos de cultura, e principalmente ao incremento da leitura de livros pelos jovens. Lembro-me dos longos e bem feitos discursos do Cel. Levy, da valentia de Arabel, das campanhas políticas de Sinhô Teles, da elogiada elegância de Lamartine. Continua tudo muito vivo em minha memória. É importante também saber que entre Mato Verde e Monte Azul, dois meses depois das chuvas, estão os cenários mais bonitos do mundo, formados pelo contrastado colorido das serras azul-cinzas e das árvores e lavouras verde-vermelho-amarelas. Podem – sem qualquer dúvida – competir com montanhas e lagos próximos a San Francisco, Estados Unidos; gramados de Montreal, Canadá; e a relevos do Rio de Janeiro e planícies do Pantanal de Corumbá. Você, Maria da Glória, é uma pesquisadora com elevada capacidade de registrar fatos, levantar tendências e reconstruir caracteres, tudo muito importante para a valorização histórica das gentes e dos costumes. Sem desfalecimento, você abriu baús, leu alfarrábios, colecionou retratos, ouviu histórias e causos, trabalho de quem sabe de responsabilidades e de valores cívicos, únicos caminhos para construção da verdadeira cultura. Parabéns, querida aluna do curso de Letras da nossa montes-clarense FAFIL, tempo romântico do maior amor às artes, fruto do ouro de privilegiadas inteligências.


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Por Wanderlino Arruda - 29/12/2006 15:32:55
POR QUE SÃO TOMÉ?

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Se o assunto está espichando muito, a culpa pode ser debitada ao leitor. A culpa ou o mérito, porque o leitor, em primeira e última análise é quem determina o caminho que deve ser seguido pelo cronista. Quando escrevemos em jornal, nosso maior prêmio é a leitura imediata, a apreciação do conteúdo, os comentários que fazem amigos e adversários, conhecedores, doutores ou simplesmente curiosos. Não adianta escrever para não ser lido. Quem escreve para si mesmo não deve publicar o que produz e os escritos poderão continuar guardados, em gavetas ou dentro de folha de livros, embora esse ato possa prejudicar a um virtual leitor, muitas vezes necessitando de uma talvez preciosa informação. Mas qual é mesmo o assunto que eu estou espichando? Nomes de ruas, uai!... Esse manancial que Montes Claros oferece a mancheias, rico, quase folclórico, divertido, de certo modo até com características históricas, o que poderá ser útil, no futuro, a alguém que deseje inventariar ou associar fatos da vida da cidade. Combinei com Haroldo Lívio para ele escrever o que sabia, já que ele foi o puxador do samba, mas o meu caro amigo e colega, num terrível silêncio, bateu asas e voou para um congresso de oficiais de cartórios em plena realização na bela Fortaleza do Ceará. Pode ser que, de lá, o Haroldo mande pelo menos um postal para o Lazinho, dizendo não ter se esquecido dos tão saudosos Montes Claros dessa iniciante primavera. Minha história é ainda do bairro Todos os Santos, pedaço de terra que o Simeão Ribeiro Pires santificou desde o papel vegetal do projeto-piloto, quando ele tinha escritório ao lado do Colégio Imaculada, naquele velho prédio da fábrica de tecidos de sua família. Digo minha história, porque nesta eu tomei parte, parte ativa. Foi uma pacata sessão de nossa Câmara Municipal, com todos os senhores vereadores presentes, num dia em que alguém disse não poder o bairro Todos os Santos ter uma rua com o nome de Antônio Narciso, não sendo ele santo de papel passado, embora membro de uma tradicional e respeitável família, a mesma do colega Paulo Narciso, o homem da FM. Haveríamos, então, de achar um nome de santo, para a rua que hoje é chamada de São Tomé. A primeira sugestão de projeto partiu de Jonas Almeida, que propôs o nome de São Judas Tadeu. Neco Santamaría não gostou da idéia e protestou na hora: São Judas não podia ser, porque é nome de traidor, que tinha vendido o chefe para os judeus. Não sei se foi o Humberto Souto que tentou um conserto de situação, indicando o nome de São João Nepomuceno. Ainda aí, Neco não concordou, dizendo que esse nome também era suspeito, muito complicado. Explicado tudo muito bem explica, que S. Judas Tadeu era outro que não os Iscariotes, que São João Nepomuceno era até nome de cidade, tão bom que era, o Neco continuou irredutível. Além disso, havia muita rua com o nome de São João, inclusive no bairro. Que arranjássemos um outro. Foi nessa hora que me lembrei de um velho amigo que, antes da abertura da rua, já morava naquele local, atrás do campo do Cassimiro de Abreu. Era um servente de pedreiro muito bom, alegre, trabalhador, casado com uma senhora muito distinta, boa lavadeira, boa doceira, prestativa, D. Pedrelina. Nunca ninguém jamais havia ouvido falar mal dele, era bom companheiro e bom vizinho, e tinha um nome muito sugestivo, de santo muito conhecido: chamava-se Tomé. Tomé de que, não sei. Tomé nome de santo. Neco protestou, ainda, dizendo que esse santo não tinha fé, e precisou de colocar o dedo na ferida de Jesus Cristo para acreditar na verdade. Não teve jeito, a Câmara estava decidida. Convencemos o Neco, que esse São Tomé era muito bom, tinha até os méritos das ciências exatas, porque queria ver e tocar para crer. A decisão não demorou e foi unânime. Hoje a rua chama-se RUA SÃO TOMÉ, e tem moradores muito importantes...


19462
Por Wanderlino Arruda - 27/12/2006 10:50:48
RUA DOUTOR SANTOS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Há cerca de dois anos, venho percorrendo, aos poucos, a rua Doutor Santos, a pedido do colega Elton Jackson e em obediência a um esquema tempo/espaço traçado desde a primeira crônica sobre o assunto. O meu objetivo é chegar à Rua Bocaiúva e, aí, em atendimento a um sonho de minha amiga Nailê, fiel cobradora de minhas lembranças de vizinho, falar de quando ela era criança, quase menina-moça, dos tempos de nascimento de João Wlader e de Danilo. Passo a passo, saí do Hotel São Luiz, de D. Nazareth Sobreira, e do Bar de Adail Sarmento, no início da rua, e, hoje, chego ao Hotel São José, de D. Laura e, depois, de D. Emília e do inesquecível Juca de Chichico e do eterno gerente Geraldo. São lembranças agradáveis, grandemente gratificantes de um jovem que alcançava a idade adulta, já hóspede em hotel, com uma individualidade e uma privacidade nunca antes imaginadas como morador de pensões. No Hotel São José, cuja placa dizia o maior e o melhor, ser hóspede já era um grande privilégio, marcava, quer queira quer não, um status de matar de inveja os estudantes de repúblicas, ou aqueles que viviam desprezados nas casas de parentes, muitos em barracões de fundo de quintal. Foi lá que tive, pela primeira vez, um quarto só meu, com pia e guarda-roupa, inicialmente, no térreo, do lado de dentro do pátio, na ala da praça Cel. Ribeiro, e, depois, no primeiro andar, quase de frente para os dois mais importantes endereços: os apartamentos de Ademar Leal Fagundes e do diretor do DNOCS, de quem não me lembro mais o nome. Foi uma melhoria de situação social que quase não tinha limites, quando comprei, duas calças de tropical, uma meia dúzia de camisas, novas meias e... realização de velho sonho, um rádio de segunda mão, rabo­quente, que tocava músicas e dava notícias todas as manhãs. O Hotel São José era um mundo à parte, bom, alegre, importante, chique, principalmente depois que "seu" Juca assumiu a direção e realizou uma grande reforma. A saudade marcada com a ausência de D. Laura foi compensada com a elegância de D. Emília e a descontraída presença dos filhos, principalmente de uma menina que era a mais bonita da rua Doutor Santos, a Mercesinha, já quase em início de namoro com o João Walter Godoy. Zé de Juca, Lauro, Bernadete, todos eram também bastante simpáticos com os hospedes. A hora do jantar era quase sempre uma festa, exigindo­se a melhor roupa de cada participante do banquete diário, uma etiqueta fiscalizada de perto pelos garçons, principalmente pelo Fernando, que, até hoje, nos setenta e cinco,trabalha na profissão. Poucos foram os estudantes que conseguiram a permanência no quadro de hóspedes. Um a um ia saindo, pedindo ou recebendo as contas, depois de uma brincadeira mais forte, ou do não respeito à posição da gente importante e seria como era o sisudo e culto fazendeiro Ademar Leal, o milionário Manoel Rocha, a mais graduada figura do Exército na região, o sargento Moura, o advogado José Carlos Antunes, que falava inglês corretamente, Lagoeiro, músico-chefe da Regional da Rádio Sociedade, o diretor do IBGE, e o próprio dono, seu Juca, o único montes-clarense, na época, a ter feito uma viagem internacional de muitos meses pela Terra Santa e pelo Mundo Antigo. Pode ser exagero de minha parte, mas, para nós, lá era o centro de Montes Claros e sua da cultura. Bons tempos aqueles, justamente quando iniciava atividades, já com os pés no chão, o nosso O JORNAL DE MONTES CLAROS, não sei bem certo, parece já com a direção do Oswaldo Antunes, pois o ano era o de 1955, quando recebi das mãos do Waldyr Senna a presidência do Diretório dos Estudantes e quando foi eleita a nossa rainha mais bonita de todos os tempos, nenhuma outra igualada em nobrezas nem antes nem depois: Cibele Veloso Milo!


19424
Por Wanderlino Arruda - 26/12/2006 12:01:22
RETRATO DE JESUS

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Dizem que foi, partindo de uma carta que o senador Publius Lentulus, pró-consul da Judéia, teria endereçado a Tibério César, em Roma, que os pintores do Renascimento se basearam para pintar o retrato de Jesus. Essa carta estaria, até hoje, arquivada em museu da cidade eterna, mas prova provada disso ninguém pôde fazer, o que é lamentável, pois seria um documento notável de descrição de traços pessoais e psicológicos feito por um homem inteligente e muito observador. Ao longo do tempo, apareceram várias versões desse escrito, sucintas, completas, mas todas bastante coerentes entre si, de modo a conservar a validade e uma possível origem verdadeira. O mais interessante texto veio inserido em velho livro da literatura portuguesa, em que o autor diz haver copiado da obra medieval, Vita Cristi, editado em língua arcaica, o que Ihe dá um sabor todo especial, curioso e riquíssimo em valores semânticos. "Existe atualmente na Judéía um homem de uma virtude singular, a quem chamam de Jesus Cristo; os bárbaros têm-no como profeta; os seus sectários o adoram como sendo descendido dos deuses imortais. Ele ressuscita os mortos e cura os doentes, com a palavra ou com o toque; é de estatura alta e bem proporcionada; tem semblante plácido e admirável; seus cabelos são de uma cor que quase se não pode definia caem-lhe em anéis até abaixo das orelhas e derramam-se-lhe pelos ombros, com muita graça, separados no alto da cabeça à maneira dos nazarenos." "Sua fronte é lisa e larga e suas faces são marcadas de admirável rubor. O nariz e a boca são formado com admirável simetria; a barba, densa e de uma cor que corresponde à dos cabelos, desce-lhe uma polegada abaixo do queixo e, dividindo-se pelo meio, forma mais ou menos a figura de um forcado". "Seus olhos são brilhantes, claros e serenos, e o que surpreende é que resplandecem no seu rosto como os raios do sol, porém ninguém pode olhar fixo o seu semblante, porque quando resplende, apavora e quando ameniza, chora, faz-se amar e é alegre com gravidade. Tem os braços e as mãos muito belos". "Ele censura com majestade, exorta com brandura; quer fale, quer chore, fá-lo com elegância e com gravidade. De letras, faz-se admirar de toda a cidade de Jerusalém; sabe todas as ciências e nunca estudou nada. Ele caminha descalço e sem coisa alguma na cabeça. Muitos se riem, vendo-o assim, porém em sua presença, falando com ele, tremem e maravilham. Nunca o viram rir têm-no, porém, visto chorar muitas vezes. É sóbrio, muito modesto e muito casto. Enfim, é um homem que, por sua beleza e perfeição, excede os outros filhos dos homens". No texto medieval, porém, há mais explicações, definindo cores e situações. Por exemplo: "os seus cabelos era de avelhaã madura e chegavã aas orelhas yguaes e chaãos e dally ao fundo quanto quer crispos e duros e cobria e avanavã sobre os ombros. A testa chãa e muy clara e a face sem enverrugadura nem magoa: a qual aformosentava a vermelhidon temperada". Pelos dados, não é difícil concluir que os desenhistas e pintores do final da Idade Média ou já do pleno Renascimento não tiveram muita dificuldade em traçar o que, em termos modernos, poderíamos chamar de o primeiro retrato falado da história de uma personalidade realmente universal. E eterna!


18097
Por Wanderlino Arruda - 2/11/2006 15:10:27
HERMES DE PAULA, DOUTOR HONORIS CAUSA

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Foi com morosidade que as quase trezentas vozes, que pareciam mais de mil, pausadamente, atenderam o pedido de silêncio do diretor José Nildo e Silva para o início dos trabalhos da segunda Sefam", o seminário dos professores e alunos da Faculdade de Medicina. Era uma quarta-feira, meio de semana, com suspensão de aulas para a maior avaliação até hoje feita pela nossa Faculdade, um cuidado necessário para enfrentar o presente de dificuldades e o futuro de incertezas. O diretor chama para dirigir os trabalhos, o patrono do D. A. e primeiro dirigente e organizador da es­cola, Mário Ribeiro. Caberá a ele, Mário, a formação da mesa, o anúncio maior da finalidade do encontro. Poucos nomes são declinados e, quando se levantam, caminham sob aplausos de alunos que sabem admirar seus professores. Apenas dois professores de fora são nomeados, fora da mesa, com permanência no auditório: o professor Álvaro de Azevedo Ávila, diretor da Fadir e representante da FUMN, e eu, representante da Fafil. Olho, ao lado, e vejo, triste uma grande omissão; Hermes de Paula fica esquecido, não é lembrado, muito embora o Cláudio Pereira, também ex-diretor, esteja mais atrás, também sem menção. Iniciados os trabalhos, com apresentações objetivas, curtas como devem ser, o diretor fala da Fundação da escola, de sua finalidade, anuncia uma palestra sobre a história de todas as lutas e sofrimentos nestes anos iniciais. Volta a palavra ao mestre Mário Ribeiro (nessa noite, de Cerimônias) e, este faz o anúncio maior: "No auditório está o idealizador da Faculdade de Medicina do Norte de Minas, o homem que tomou os primeiros passos para a sua criação, o homem que me convidou para primeiro diretor. Convido-o para tomar o lugar que lhe compete, que é seu por direito; que é seu pelo desejo maior de todos nós. Recebamos Hermes de Paula, o nosso maior nome nesta Escola. A sua cadeira o espera, Hermes. Venha nos dar a honra". E com dificuldade que o doutor Hermes de Paula se levanta e encaminha-se para o estrado da mesa diretora. Para subir, é necessário o amparo de uma mão amiga. Nunca se presenciou tantos e tão demorados aplausos. A turma, de pé, bateu palmas como se estivesse batendo pela última vez, numa gratidão que só se tributa a um grande herói, herói e amigo. É nessa hora que vem a verdadeira declaração do primeiro dia de trabalho da Sefam. O diretor José Nildo lê a resolução; Hermes de Paula é declarado o primeiro Doutor Honoris Causa da Faculdade de Medicina, uma honra que lhe é deferida pela capacidade e por um milhão de méritos como o maior de todos os montes-clarenses. Nova ovação. Alegria e sentimentalismo. Existe algo no ar que ninguém sabe o que é. Aquele não é o momento qualquer nas estórias da vida. Existem minutos que valem por um século. Ou mais... Hermes de Paula toma a palavra. Não vai falar muito, que não é de discursos. "Senhores, formei-me em Medicina em 1937, em Niterói. Vital Brasil, um dos homens mais famosos na Medicina brasileira, convidou-me para trabalhar com ele, no seu Instituto ganhando um dos melhores salários que um profissional poderia desejar ou sonhar, Cr$ 1.800. Além de ganhar tanto dinheiro, muito para a época, eu teria a oportunidade de ser também muito famoso. Mas, a saudade de Montes Claros, a lembrança dos meus amigos, não deixaram que eu ficasse lá. vim para cá. Em todos estes anos, questionei-me se eu não havia cometido um grande erro, escolhendo a minha terra, numa vida humilde e trabalhosa. Às vezes, eu achava que tinha feito o certo.. Hoje, porém, sei que não poderia ter tomado uma resolução melhor. Eu fiz bem em vir para Montes Claros. Senhores, muita coisa me tem acontecido, todas gratas e muito tenho agradecido a Deus, por elas. Mas, se nada tivesse ocorrido, só esta noite, só esta cerimônia, só fato de estar recebendo este diploma das mãos e dos corações de vocês, eu posso dizer com toda a minha convicção: valeu a pena. Valeu. Muito obrigado a todos". Dois dias depois, Hermes de Paula se despediu de Montes Claros, para a viagem eterna. Para nos também, valeu a pena a vinda dele. Valeu!


18016
Por Wanderlino Arruda - 30/10/2006 10:41:21
A DEVOÇÃO DO POVÃO

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Na cidade muito. Na roça, ainda mais. Em todas as partes, no sertão ou na beira do mar, na planície ou no alto das serras, o povo, o povão sempre buscou o amparo amigo dos santos. A devoção simples, mística, ingenuamente bem intencionada, foi sempre dirigida na busca de uma ajudazinha nas horas de aperto, porque ninguém é de ferro! Afinal, o próprio folclore, com sua repetição de boca-em-boca, o doce mistério das coisas de origem obscura, o maravilhoso tempero com gosto de sagrado, tudo leva a alma e o desejo do simples a uma situação de busca e sofreguidão. É a ordem natural das coisas, principalmente para os que aprendem, de ouvido, a sabedoria popular. E quem não tem, neste nosso mundo de alma portuguesa, pelo menos resquícios de misticismo? Pelo sim, pelo não... São José é patrono do lar, da família e dos carpinteiros. Quem crê em São José têm o trabalho garantido e nunca lhe faltará o pão. Quem crê em São José pode pressentir o dia da morte e tem o poder de livrar-nos da dor de dente.Santo Onofre é guardião da despensa, guarda-comida, onde que haja mantimentos. É padroeiro da fartura. São Lázaro é afastador de feridas bravas, doenças da pele, protege quem trata de cachorros abandonados, sem dono. "São Bento, água benta, / Jesus Cristo no altar. / Bicho bravo, baixe a cabeça, / deixe um filho de Deus passar". Santa Bárbara e São Jerônimo são protetores contra raios, coriscos e chuvas forte. Quando acontece uma tempestade, reza a gente boa e simples: "São Jerônimo, Santa Bárbara, levem essas trovoadas, que sobre nós estão armadas, para bem longe, onde não existem eira nem beira nem pau de figueira, nem galo de cantá!". "Santa Bárbara bendita, / no céu está escrito: / Com papel e água benta, / aplacai esta tormenta". Santa Luzia é protetora da vista. Quando a gente quer tirar um cisco do olho, a gente pede: "Corre, corre, cavaleiro, / vai à porta de São Pedro / dizer a Santa Luzia / que me dê uma pontinha de lenço / para tirar este argueiro". São Longuinho está incumbido de encontrar objetos perdidos. Quando a gente perde um objeto, a gente dá um nó cego num pedaço de palha e o coloca debaixo de uma pedra: "São Longuinho, você vai ficar por aqui e só vai ser solto, quando eu encontrar um canivete que perdi". São Gonçalo do Amarante é o padroeiro das meninas que querem casar. As mocinhas devem suplicar assim: "São Gonçalo do Amarante, / casamenteiro das moças, / casai-me a mim primeiro, / São Gonçalo do Amarante, / feito de pau de alfavaca, / que não tem rede e nem cama, / dorme em couro de vaca". Santa Clara é dissipadora de nevoeiro. São Lucas é o padroeiro dos médicos. Santa Cecília é a padroeira dos músicos. São Cosme e São Damião simbolizam a amizade. São Raimundo Nonato é o amigo das parturientes. Santa Helena responde pelo sono perguntas ao futuro. São Marcos protege o gado e amansa o mau gênio de crianças rebeldes. São Miguel é o guerreiro de Deus. São Pedro é santo chaveiro, protetor dos pescadores e dos marinheiros. É o porteiro do céu. Quando ele está arrumando e lavando a casa, lá em cima, ocorrem os trovões e as chuvas. Santa Rita de Cássia resolve as causas impossíveis. A pessoa que consegue dela uma graça, publica num jornal a sua oração: "Santa Rita dos impossíveis, / de Jesus sempre estimada, / sede minha protetora. / Rita, minha advogada / valei-me pelas coroas / a primeira de solteira, / com que fostes coroada. / A segunda de casada. / A terceira de freira, / tocada de divindade". E o que faz Santo Antônio? "Aplaca a fúria do mar, / tira os presos da prisão, / o doente torna são, / o perdido faz achar". Ou então, pedido de moça casadoira: "Meu Santo Antônio querido, / eu vos peço por quem sois. / Dai-me o primeiro marido, / que o outro arranjo depois". Ou "Meu Santo Antônio querido, / meu santo de carne e osso, / se você não me der um marido, / não tiro você do poço". São Cristóvão é o andarilho pelas estradas, protetor dos motoristas e dos caminhoneiros. São Judas... Tadeu é advogado das causas desesperadas e dos supremos momentos de angústia...
Cidade: M. Claros


17982
Por Wanderlino Arruda - 27/10/2006 18:56:44
A VOZ DO ESTUDANTE

Wanderlino Arruda
arrud@wanderlino.com.br

Sob a orientação do nosso saudoso Monsenhor Osmar de Novais Lima, órgão do Grêmio Lítero - Esportivo "D. João Antônio Pimenta", circulava em agosto de 42 no antigo Ginásio Municipal de M. Claros, direção de Antônio Augusto Athayde, redação de Luiz G. Prates, o jornal A VOZ DO ESTUDANTE, número 17 ano III, nova fase. Seis alentadas páginas, bem impressas, feitas pelas Oficinas Gráficas Simões, constituem, hoje, uma gostosura de passado histórico, interessante registro de uma época de patriótico respeito por instituições e costumes, uma como que quase revelação de pureza d`álma de jovens estudantes, ciosos e compenetrados na luta por um futuro melhor. A colaboração farta contava também com o professor Alfredo Coutinho e, segundo me parece, com alguma cousa do dr. João Antônio Pimenta, tal a seriedade de conceitos, que só o velho mestre sabia imprimir. Outros nomes, alguns ainda bem lembrados, outros esquecidos, representam, hoje, curiosidade: Barulas Alves Reis, Vivaldo Macedo, Ione Feitosa, Eunice Fialho, Zilca Miranda, Adelaide Barbosa, Manoel J. G. Calaça, Antônio Franco Henriques, Célia A. Neto, além de Geraldo G. Prates e de um misterioso A., tudo indica ser o mesmo Antônio Augusto Athayde, autor de outro artigo vazado em idêntico estilo e entusiasmo. Interessante é a coluna de aniversários. Vejam os nomes de quem naquela época já andava freqüentando ginásio: Aristides B. Braga, 1ª série; Péricles A. Andrade, José A. Guimarães, José Braga, 2ª série; os terceiranistas eram Rosália Pinto, José Romualdo Torres, Carlúcio Athayde; ainda do segundo ano, Élton Rocha e Artur Fagundes Oliveira. "A todos, principalmente ao Padre Gustavo F. de Souza, os votos de felicidades de "A VOZ DO ESTUDANTE" - dizia a nota. A colaboração principal parece que era mesmo a do diretor Antônio Augusto Athayde, que ainda escrevia o sobrenome sem o "h" e o "y", como o fazia também o Carlúcio, seu parente. Coisas de garotos... Antônio Augusto tinha boa redação e muita riqueza de adjetivos e verbos no gerúndio. Os períodos eram longos, cheios de subordinação, bem temperados à moda de Rui Barbosa, Castro Alves e Padre Antônio Vieira. Seria influência de muitas leituras? Por exemplo: "Em nossa memória tenra ainda, períodos como os que agora atravessamos ficarão gravados para jamais esquecermos dos tempos bons de nossa florida adolescência - tempos que não voltam mais..." Outro trecho: "Enquanto do alto dos céus, os raios fulgentes do sol sertanejo banham os vastos pátios do Ginásio..." etc. Tempo bom, tempo ótimo, coisa linda de tempo, Antônio Augusto! Nada mais coerente que a voz da juventude - espontânea, pura, colorida, limpa de coração... É pena que a realidade da vida nos tire tanta poesia e beleza. É pena que a crueza do dia-a-dia nos tire tanto da jovialidade dos primeiros anos de vida... Mas, afinal, é bom ter motivo de saudades...


11351
Por Wanderlino Arruda - 4/3/2006 11:48:07
Wanderlino Arruda

Deus te salve, Montes Claros,
Deus te ajude
no progresso,
no crescimento,
na poesia,
na seresta,
na alegria da hospitalidade,
que é a tua maior virtude.
És humana,
tens beleza,
sabes amar,
sabes sofrer, sabes esperar
por um futuro melhor.
Querida, admirada
e nunca esquecida,
és um lugar que marca saudade
no mais duro coração.
A tua luz, Montes Claros,
é vigor e é ternura,
como terno é o entardecer.
Na verdade, Montes Claros,
na verdade,
tu não és apenas uma cidade,
és uma declaração de amor!


38930
Por Wanderlino Arruda -
PAI NOSSO

Wanderlino Arruda

A ti, Senhor, que és
pleno de luz e de amor,
e estás nos céus e em toda parte,
seja teu nome sempre bendito e santificado,
em constante e eterna bondade.

A ti, Senhor, apresentamos nosso pedido:
dá-nos o teu reino
de alegria, de compreensão;
a tua vontade e não a nossa seja feita,
aqui, onde estamos, aí onde estás e estaremos um dia.

O pão da saúde, da disposição ao trabalho,
do entender e ser entendido,
do amar e ser amado,
dá-nos hoje, dá-nos sempre, Senhor.

Ainda caminhantes no erro,
dá-nos o teu perdão e o ensinamento
de como devemos perdoar.
À criança que existe ainda em cada um
dá, Senhor, a tua proteção.

Liberta-nos do mal,
ampara-nos no caminho do bem,
pois teu, Senhor, somente teu,
é o poder, o reino e a glória
para sempre,para todo o sempre!

Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros




Selecione o Cronista abaixo:
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Dário Cotrim
Davidson Caldeira
Efemérides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lívio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaias Caldeira
João Carlos Sobreira
Jorge Silveira
José Ponciano Neto
José Prates
Luiz de Paula
Luiz Ortiga
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Ribeiro Pires
Mário Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elísio
Ruth Tupinambá
Ruth Tupinambá Graça
Saulo
Ucho Ribeiro
Virginia de Paula
Waldyr Senna
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Web Outros
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Uma janela para Montes Claros


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29/08/14 - 13h
Calor de 33 graus e ventos de 10 km, hoje, em M. Claros; umidade desceu a 18%, ontem

29/08/14 - 12h
Erro de cálculo e pouco aço derrubaram viaduto em B. Horizonte, opina laudo da Polícia Civil

29/08/14 - 11h
Teto de aposentadoria do INSS deve passar para 4.662 reais em 2015

29/08/14 - 10h07
Pelo aplicativo, o Mural e as demais notícias do montesclaros.com podem ser acompanhadas diretamente através dos aparelhos celulares e dos diversos modelos de tablet

29/08/14 - 10h05
"A perspectiva é de mais chuva na região central do Brasil, podendo também ajudar a região mineira de seca. Se os meteorologistas estiverem certos, claro"

29/08/14 - 10h
Economia brasileira encolhe 1,2% no 2º trimestre, aponta prévia do Banco Central. Mercado vê recessão técnica

29/08/14 - 9h
Goleiro Aranha, do Santos, afirma que foi chamado de “preto fedido” em Porto Alegre

29/08/14 - 8h
Ligar de telefone fixo para celular fica mais caro até 1,5%, em todo o Brasil

29/08/14 - 7h
Assaltantes tomam caminhão e 2.380 reais no semáforo da avenida do Parque de Exposições


28/08/14 - 20h20
"Uma pessoa morre e três ficam feridas em acidente ocorrido na manhã desta quinta-feira (...) a 38 quilômetros de Montes Claros"

28/08/14 - 18h
Aquecimento global poderá espalhar epidemias para áreas que antes estavam ”protegidas”, diz OMS

28/08/14 - 17h
Presidente do Cruzeiro contesta pesquisa que aponta o Atlético com maior torcida de Minas

28/08/14 - 16h
População brasileira ultrapassa a marca de 202 milhões, estima o IBGE

28/08/14 - 15h03
Manchetes dos jornais: “Pesquisa e debate forçam nova rota para campanha” - “Ascensão de Marina agita o mercado”

28/08/14 - 14h
Calor em Montes Claros, nesta tarde, já beira os 35 graus. E a umidade recua para 24%

28/08/14 - 13h40
"Os pais da moça não queriam saber do noivo. Então, eles fugiram e já com um padre avisado numa cidade vizinha, casaram-se. E pronto! Nunca vi um casal tão perfeito e harmonioso"

28/08/14 - 13h
Energia usada pela indústria brasileira é a 8ª mais cara do mundo: 342 reais por MWh

28/08/14 - 12h
8 em cada 10 notas de 2 reais que circulam em Belo Horizonte têm traços de cocaína

28/08/14 - 11h
Babá de 22 anos insiste em fazer sexo com o patrão, de 32. É rejeitada e o persegue, e o fere - com faca

28/08/14 - 10h
Universitária Sarah, em nome de M. Claros, leva o 2º lugar no Miss Minas Gerais. Timóteo ficou com o título

28/08/14 - 9h06
Acidente na Avenida Magalhães Pinto, de madrugada, mata PM Warlén, de 32 anos. Outras duas pessoas ficaram feridas

28/08/14 - 8h
Cruzeiro alcança mil vitórias no Mineirão. Galo fica a um empate das quartas-de-final na Copa do Brasil

28/08/14 - 7h
Nova superbactéria, que causa gonorréia, resiste a antibióticos dos últimos 70 anos e provoca alerta de cientistas e médicos


27/08/14 - 18h
Palmeiras e Atlético se enfrentam, hoje, às 22 horas, pela Copa do Brasil. A 98 FM vai transmitir o jogo

27/08/14 - 17h
Técnico do Cruzeiro prega respeito ao Santa Rita e quer título da Copa do Brasil

27/08/14 - 16h
Mega-Sena sorteará, hoje à noite, prêmio que promete rendimento de 200 mil reais por mês

27/08/14 - 15h
Manchetes dos jornais: “Marina se distancia de Aécio e venceria 2º turno” - “Marina sobe 8 pontos e já encosta em Dilma” - “Marina passa Aécio e bate Dilma no segundo turno”

27/08/14 - 14h
No Arizona, onde ensinar criança a usar arma é comum, menina de 9 anos mata instrutor com tiro acidental de sub-metralhadora de 600 tiros p/ minuto

27/08/14 - 13h
Baixa natalidade pode extinguir 50% das cidades japonesas

27/08/14 - 12h
Pela meteorologia, noites frias da atual temporada em M.Claros já estão no fim

27/08/14 - 11h44
Apelo da PM: "Solicitamos à sociedade montesclarense que se tiverem conhecimento da autoria e do paradeiro dos envolvidos, que nos informe via telefone 190 ou 181, sendo que sua identidade será efetivamente resguardada"

27/08/14 - 11h
Refrigerante à base de maconha começa a ser vendido nos EUA

27/08/14 - 10h
Quatro tomam carro no Bairro de Todos os Santos e menor morre em tiroteio com a PM, na perseguição

27/08/14 - 9h22
"Segundo informações, esse veículo se encontra nas proximidades de Montes Claros. Estou desesperada, pois..."

27/08/14 - 9h01
Ex-menudo Robi Rosa volta a lutar contra tipo raro de câncer

27/08/14 - 8h08
"Aviões que se destinam a Montes Claros geralmente "sumiam" ao se aproximar da cidade. Hoje, surpreso, vi que o aeroporto de Montes Claros ganhou um desses..."

27/08/14 - 8h
Mais de 120 médicos e enfermeiros já morreram vítimas de ebola na África

27/08/14 - 7h
930 funcionários da GM entrarão em licença por 5 meses, de setembro a fevereiro


26/08/14 - 18h
Cruzeiro dá um tempo no Brasileirão para pensar na Copa do Brasil

26/08/14 - 17h34
"...com sinais de estar permanentemente possuído por forte droga, delirava num banco do quarteirão fechado entre a Praça da Matriz e a rua Lafetá. Quase 6 horas da tarde. Falava sem nexo. Crianças de 10 anos, não mais que isto, voltavam da escola. Passavam ao lado dele"

26/08/14 - 17h03
Indenizações pagas pelo seguro DPVAT crescem 14% no 1º semestre de 2014

26/08/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “Queda na produção de carros força o setor de autopeças a demitir” - “Tráfico e milícia impedem campanha em 41 favelas” - “Uso da maconha como remédio ganha força”

26/08/14 - 15h
Umidade relativa do ar recua agora para 14%, novamente em estado de alerta; previsão de 31 graus já foi superada

26/08/14 - 14h
Mineira de Espinosa, de 16 anos e 1,93m, é campeã mundial de vôlei de praia nos Jogos Olímpicos da Juventude, na China

26/08/14 - 13h
Queda na produção de carros derruba encomenda de peças e força setor a demitir no Brasil

26/08/14 - 12h
Fundação Getúlio Vargas diz que Brasil passou por recessão técnica no 1º semestre



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