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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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79883
Por Jorge Silveira - 7/5/2015 9:20:56
Toninho Rebello


Uma das pessoas que mais marcaram minha vida foi Toninho Rebello. Passei a conviver com ele e a conhecê-lo bem a partir de 1966, quando de sua primeira passagem pela prefeitura. Ele como prefeito, eu como o repórter indiscreto, ainda jovem, à cata de manchetes e "furos" de primeira mão. E esta convivência, que durou e perdurou por 26 anos, foi para mim um aprendizado incomum e fértil. Com ele aprendi o caminho dos verdadeiros homens públicos, marcado pela retidão,competência, honestidade e humildade. Mas o traço mais marcante de Toninho era a bondade. Ele era um homem bom de coração, solidário, que desconhecia o ódio.
Como prefeito, foi indiscutivelmente o melhor que Montes Claros já teve em toda a sua história. Administrou a cidade em duas gestões (67/70 e 77/82) e é difícil mensurar qual de sua administração foi melhor. Da primeira vez, deu a arrancada que transformaria Montes Claros na capital do norte de Minas. Construiu toda a rede de esgoto e águas pluviais no centro da cidade; asfaltou as ruas centrais e periféricas,
que eram todas de piso de terra; construiu o Parque Municipal e o antigo Mercado da rua Joaquim Costa. Já na segunda gestão, partiu para obras maiores, como a Avenida Sanitária (que mudou completamente o aspecto urbanístico da cidade), a Rodoviária, o Centro Cultural, o Anel Rodoviário Sul e o Ceanorte. E suas obras não eram de isopor, pois estão aí até hoje, firmes e compactas.
Toninho era diferente da maioria dos homens. Apesar de rico, não gostava de ostentação. Sempre foi um homem simples e de uma humildade franciscana. Como homem público, tinha um respeito exemplar pelo dinheiro do contribuinte.
Sabia aproveitar bem cada tostão e tinha a consciência e as mãos limpas. Foi prefeito durante dez anos e saiu da vida pública com o conceito imaculado, como exemplo de retidão e honestidade. Muito diferente dos políticos brasileiros, a
maioria manchada pelo estigma da corrupção e do desrespeito aos recursos públicos.
Em maio deste ano, em uma de nossas conversas, perguntei-lhe se ele não gostaria de ser prefeito novamente de Montes Claros. E ele me respondeu: "eu sou um homem ultrapassado para a política de hoje. Eu não sei fazer nada do que estes políticos fazem. Esta política não serve para mim".
Ele tinha razão. Afinal, o seu modo de administrar era mesmo diferente. Ele foi um prefeito que sempre doou o seu salário para entidades beneficentes, que sempre andou no seu próprio carro, que nunca aceitou presentes de empreiteiras, que fazia questão que seus filhos não pisassem na prefeitura para não dar o que falar. Ele era um homem íntegro e que não abria mão dessa integridade. Era um homem acima
qualquer suspeita.
Ele vai fazer falta, não como administrador, pois não voltaria mais à prefeitura. Montes Claros cresceu e sua população hoje, cosmopolita, prefere os populistas e os demagogos. Ele vai fazer falta aos muitos amigos que deixa, aos homens honrados que sabem o quanto vale a honra, aos idealistas que sonham com as grandes causas. Ele vai fazer falta, sim, aos que acreditam que ainda é possível a honestidade na vida pública mesmo que isto possa parecer um sonho.
Mas Toninho Rebello cumpriu sua missão. Pnncipalmente com sua terra que ele tanto amou e na qual deixou marcas indeléveis. Ele se foi, mas seu nome ficará gravado permanentemente na história de Montes Claros. E também na minha memória, enquanto for vivo, pois com ele aprendi muitas virtudes que poucos homens são capazes de transmitir.
(Publicado no Jornal de Notícias, em 11 de novembro de 1992, no dia seguinte da morte de Toninho Rebello)


(Último capítulo do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79851
Por Jorge Silveira - 1/5/2015 7:43:17
Uma produtiva viagem a Sertãozinho


Não era apenas na administração pública que Toninho Rebello tinha idéias avançadas e projetos pioneiros. Como pecuarista e liderança rural, foi um dos primeiros a adotar a inseminação artificial em sua vacada, quando na região quase ninguém sabia o que era isso (até hoje sua filha Cristina mantém o projeto). Lembro-me bem de uma viagem que fizemos a Sertãozinho (SP), para conhecer a Central de Inseminação da Lagoa da Serra, no princípio da década de 1970, se não estou enganado.
A viagem foi capitaneada pelo ruralista Dezinho Dias, grande figura com a qual sempre tive amistosa relação - até hoje, vez por outra nos falamos - e composta por fazendeiros de peso na época: João Carlos Moreira, Edilson Brandão, Djalma Versiani dos Santos, Júlio Gonçalves Pereira, Toninho Rebello, Oswaldo Souto, o veterinário Tanure (não me lembro o primeiro nome) e este jornalista, na época editor do Diário de Montes Claros. Fomos em duas Chevrolet Veraneio, uma dirigida por Dezinho Dias, a outra por Djalma Versiani.
Hoje é fácil ir a Sertãozinho, via Ribeirão Preto, pela BR.365, que liga Montes Claros a Uberlândia. Vai-se fácil em um dia. No princípio da década de 70, ainda não existia a BR. 365, que estava em construção, no governo Rondon Pacheco. Assim, a viagem era longa, passando por Belo Horizonte e daí para frente não sei qual era o trajeto. Sei que passamos pela barragem de Furnas, que vi pela primeira vez. Por sinal não apenas eu não conhecia Furnas. Para todos os companheiros de viagem era a primeira vez. Então, ficamos por muitas horas apreciando a barragem. Sei que perdemos muito tempo e Ribeirão seguinte, onde nos hospedamos no Hotel Bradesco.
Sertãozinho fica a pouco mais de 30 quilômetros de Ribeirão Preto. É uma cidade que mais parece um jardim - pelo menos era naquela época. Recordo-me bem que todos nós ficamos extasiados com a beleza da cidade (Toninho, como administrador público que era, mais do que todos). Passamos o dia inteiro na Central de Inseminação da Lagoa da Serra, conhecendo todo o processo de coleta de sêmen, os touros doadores, a sistemática de análise e preparação dos sêmens no laboratório, enfim, foi um aprendizado e tanto para quem estava se iniciando na prática da inseminação artificial. Depois visitamos uma fazenda para conhecer o processo de pastoreio conhecido como "voisant". Eram pastagens irrigadas, divididas em piquetes de dois hectares. Quando o gado comia num piquete os outros, irrigados, se recuperavam. Assim, o aproveitamento do capim era excepcional. E o gado ganhava mais de uma arroba de peso por mês. Para a época, era um processo avançadíssimo.
João Carlos Moreira, Toninho e Djalma compraram muitas ampolas de sêmen, de diversos touros nelores. Os outros compraram menos, mas todos compraram. Alguns levaram sêmen de gado holandês leiteiro (se não me engano Júlio Pereira e Tanure). Hoje, no norte de Minas, a inseminação artificial é coisa rotineira, naqueles tempos era novidade, uma tecnologia completamente desconhecida. Então, esta viagem a Central de Inseminação da Lagoa da Serra abriu o caminho para a melhoria genética do rebanho regional. Foram aqueles pecuaristas, que participaram daquela viagem, os precursores da inseminação na região.
Como sempre, Toninho foi um dos que lideraram este movimento de melhoria genética do rebanho regional. Por sinal, todos os que participaram da viagem eram cabeças que pensavam na frente. Enxergavam que o rebanho do norte de Minas em São Paulo, no Paraná e no novo eldorado da pecuária brasileira, o centro-oeste, formado por Goiás e Mato Grosso do Sul. A partir daquela viagem, da experiência recolhida, de tudo
o que foi visto em questão de melhoria genética, iniciou-se na região um novo ciclo para o rebanho do norte de Minas, tanto no gado de corte como no leiteiro. Hoje, o gado produzido aqui não fica nada a dever aos de outras regiões. E a impressão digital de Toninho faz parte desse processo.
Mas nem sempre a mente inovadora de Toninho colheu bons resultados. Uma de suas ideias que resultou num fracasso estrondoso foi o bombardeamento de nuvens para fazer chover. Ele era presidente da Rural e o norte de Minas passava por uma seca brava. Então, ele soube que no Ceará estava sendo feito uma experiência inédita para provocar chuvas de forma artificial, através do bombardeamento das nuvens por aviões previamente equipados para tal. O governo do Ceará criara até um órgão especial para cuidar do assunto, com recursos da Sudene. Alguns resultados positivos já estavam sendo colhidos, mas em caráter ainda muito experimental.
Quando Toninho soube disso, se entusiasmou. Achou que ia resolver o problema da seca na região com os tais aviões da chuva. Encarregou seu ex-secretário e amigo Júlio Gonçalves Pereira como o gerente do projeto, com totais poderes para cuidar do assunto. Coitado do Júlio, arranjou um problemão e ainda acabou ganhando o apelido, nada sério, de "Julinho pingo d`água", pois apesar de todos os seus esforços - e não foram poucos - os tais aviões da chuva foram um fracasso total. Não fizeram chover nada, praticamente nada. Bombardearam nuvens à penca, mas chuva que é bom, de verdade, nada. Com muito esforço e muitas tentativas, o máximo que se conseguiu, algumas poucas vezes, foram miseráveis pingos. As nuvens existentes no período de estiagem na região não eram apropriadas para se transformarem em chuva. Mas ainda bem que todos os custos foram pagos pela Sudene e pelo governo do Estado, não custando nada à prefeitura ou mesmo à Rural.
Infelizmente, o sonho de Toninho de diminuir os efeitos da seca na região, bombardeando nuvens, acabou se transformando num lindo (e fracassado) sonho de verão. Mas quem acabou mesmo pagando o pato foi Julinho, que nunca mais conseguiu se livrar do apelido!

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79811
Por Jorge Silveira - 25/4/2015 10:45:29
Quando Montes Claros tinha carnaval


Muita gente que mora hoje em Montes Claros acreditaria que a cidade já teve um dos melhores carnavais do estado, sem dúvida o melhor da região? Há bastante tempo, aqueles que gostam de carnal e moram em Montes Claros, têm que buscar a alegria da folia momesca em outras plagas. Quem tem mais recursos vai para o Rio, Salvador, Recife, Porto Seguro, locais famosos por seus quentíssimos carnavais. Quem quer gastar menos, se contenta com Januária, Pirapora, Janaúria, Pirapora, Janaúba ou Grão Mogol. O carnaval em Montes Claros acabou há muito tempo, mas já tivemos carnavais memoráveis na cidade, na década de 1970, quando Toninho Rebello era prefeito.
Montes Claros já chegou a ter cinco grandes escolas de samba naquela época, a maior delas a Academia de Vila, sob a batuta do empresário Geraldino Gonçalves Coelho, um entusiasta do carnaval e que ia pessoalmente ao Rio comprar todas as fantasias para a sua escola. A prefeitura financiava uma grande parte, mas muito saía do próprio bolso de Geraldino, que fazia questão de que sua escola fosse sempre a grande campeã do carnaval montes-clarense. Além da escola de Geraldino, mais outros quatro bairros estavam sempre representados no carnaval: Alto São João, Roxo Verde, Morrinhos e Santos Reis, todos com suas escolas de samba da melhor qualidade.
Toninho Rebello achava importante que a cidade tivesse seu carnaval, por vários motivos: 1º) para que a cidade não se esvaziasse no período momesco, causando prejuízos para o comércio; 2º) para que a população mais pobre, que não tinha condições de viajar para fora, pudesse também brincar seu
carnaval, festa que está no sangue do brasileiro; 3º) e para atrair turistas para Montes Claros, o que era importante economicamente para a cidade. Por isso, achava necessário que a prefeitura desse total apoio aos carnavalescos, para a montagem de suas escolas, pois sem a contribuição do poder público não haveria carnaval.
O desfile das escolas de samba se dava na Avenida Coronel Prates, ficando o palanque com as autoridades e com a comissão julgadora bem em frente ao prédio da prefeitura.
Em parte da avenida construíam-se arquibancadas para o povão. Por diversas vezes participei da comissão julgadora, a convite da municipalidade, junto com Zezé Colares, Reginauro Silva, Marina Lorenzo Fernandez, Lazinho Pimenta, Theodomiro Paulino, Milene Maurício e outros de quem não me recordo. O julgamento copiava muito o que se vê até hoje no Rio, com as notas sendo dadas à bateria, à comissão de frente, ao samba-enredo, ao mestre-sala, à harmonia e assim por diante. A escola de Geraldino Coelho ficava sempre em primeiro: era a mais rica, a com maior número de desfilantes, as fantasias mais bonitas e luxuosas. Mas as outras também não ficavam muito atrás. Sei que era um luxo só, como diriam os colunistas sociais! Eram mais de quatro mil pessoas envolvidas com as escolas, fora os blocos caricatos.
Toninho gostava de carnaval? Não, não gostava. Mas sabia da sua importância para a cidade, pelas razões já citadas.
Então, acreditava que era importante a participação do poder público municipal. E ele não fazia isso por demagogia ou populismo. A prefeitura financiava as escolas de samba não para agradar eleitores, para angariar votos, mas porque Toninho entendia que a festa era produtiva para o município no aspecto econômico, de lazer para a população e de incentivo ao Turismo. Os prefeitos que vieram depois deixaram o carnaval morrer. Deviam pensar diferente, talvez achando que investir no carnaval fosse jogar dinheiro fora. Quem saiu ganhando foram outros municípios, como Janaúba, Grão Mogol, Januária, que passaram a realizar suas festas e a atrair milhares de turistas para suas folias. Pirapora, desde àquela época, já tinha um bom carnaval, famoso em todo o estado.
E o nosso carnaval não era feito apenas das escolas de samba. Muitos blocos caricatos eram formados e também participavam dos desfiles na Avenida Coronel Prates. Em seu bom livro "A Baixada, nosso berço" o escritor João Afonso Maurício relembra com saudade os tempos do "Bloco do Chulé", que ele formara com alguns amigos e que foi crescendo com o tempo, chegando a ter mais de 600 componentes. Outro bloco famoso que participava de todos os carnavais era o Destak, lá do bairro Morrinhos. Havia muitos outros, cada bairro queria ter o seu, e o carnaval na cidade era de fato um dos melhores do estado. Não apenas o carnaval de rua, mas também o dos clubes, especialmente o do Automóvel Clube. Tudo isso acabou por descaso (ou desinteresse) da prefeitura, ficando apenas a saudade dos bons tempos em que Montes Claros tinha carnaval, dos mais animados, graças à visão de Toninho, que sabia muito bem que administrar não era apenas fazer obras, mas também apoiar a cultura popular. E há algo de mais popular no Brasil do que o carnaval?
Depois que Toninho deixou a prefeitura, Geraldino Coelho lu ou muito para que a prefeitura continuasse participando financeiramente do carnaval da cidade já que sem o apoio da municipalidade as escolas de samba não tinham como se manter. Infelizmente, não conseguiu convencer o prefeito Tadeu Leite, nas mãos de quem o carnaval de Montes Claros não sobreviveu. Interessante: no governo do prefeito que era considerado "da elite" (por ser um homem rico) o carnaval, uma festa popular, sempre existiu. Já no governo do prefeito considerado "dos pobres", o carnaval morreu. A diferença talvez fosse que um tinha visão, enquanto o outro andava de antolhos.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79791
Por Jorge Silveira - 21/4/2015 14:47:09
Toninho mais na intimidade


Poucas vezes eu estive a sós com Toninho, enquanto ele era prefeito. Em seu primeiro mandato, eu frequentava muito a prefeitura, entrava para o gabinete (quando ele não estava em reunião privada com algum secretário ou autoridade), mas em raríssimas oportunidades o encontrava sozinho. Geralmente, o gabinete estava sempre cheio. Além de Guarinello, Afonso (Prates) era figura sempre constante, na parte da tarde, pois de manhã não era de acordar cedo. Toninho gostava muito de conversar com Afonso, que era o homem das ideias luminosas, algumas extravagantes. Quando Afonso sumia, Toninho mandava chamá-lo - volta e meia ficava sabendo que ele estava no Automóvel Clube, bebericando um bom uísque. Eu ficava tentando conversar com Toninho, querendo saber se tinha alguma notícia, mas não era fácil. Ele nunca encontrava tempo. Na maioria das vezes, eu saía do gabinete sem conversar com Toninho. Garimpava as notícias com Guarinello ou com Geraldo Maia. Eles me diziam que Toninho me achava muito menino (eu tinha 23 anos), não confiava que eu reproduziria a noticia de forma correta.
No segundo mandato, até por ter enchido muito em sua primeira gestão, Toninho me dava mais atenção.
Mas aí eu não tinha tanto tempo para ir ao seu gabinete, pois já trabalhava na Codevasf e o expediente lá era apertado - eu era secretário executivo do diretor Roberto Amaral, exigente como ele só. Roberto em certos pontos era muito parecido com Toninho, trabalhador em excesso e perfeccionista em tudo que pretendia realizar. Eu costumava me encontrar muito com Toninho após o expediente, lá pelas sete horas da noite, em frente à prefeitura. Isso quando ele não ficava preso até mais tarde em alguma reunião. Algumas vezes a gente ia para a Cristal, para descontrair tomando uma cachacinha com coca-cola, sua bebida preferida.
Sentávamos bem lá no fundo, para tentar ser pouco incomodados, o que na verdade era quase impossível. Todo mundo que via Toninho encostava para cumprimentá-lo. Alguns, quando mais amigos, sentavam e prolongavam o papo. Apesar de aparentemente carrancudo, Toninho era muito accessível e extremamente cordial com todos. Ele só era meio bruto (no bom sentido da palavra), casca-grossa, com aquelas pessoas mais próximas. Comigo mesmo, vivia me xingando, detestava ser entrevistado. Tanto que nestas nossas saídas, tudo que ele me falava, fazia questão de deixar claro: "não é para ser publicado. Não é nenhuma notícia". Quando eu publicava alguma coisa que ele não gostava, a bronca era certa.
Muitas vezes, nestes bate-papos descontraídos, Toninho deixava transparecer qualidades que geralmente se escondiam detrás das feições muito sérias, carrancudas mesmo. Sua educação tinha sido muito rígida (normal naquela época) e esta rigidez transparecia em seu semblante. Por isso, não raras vezes ele amedrontava as pessoas. Quem não o conhecia bem, geralmente tinha uma impressão errada dele. No fundo, ele era um homem bom, de coração mole, ainda que aparentasse - e geralmente fazia questão de aparentar - ser muito durão.
Ele era sim muito exigente, em tudo, principalmente nas questões de princípios morais e éticos, dos quais não abria mão em nenhuma hipótese. No fundo, era um baita ser humano.
Mas era muito cabeça-dura. Difícil de se deixar convencer sobre qualquer assunto, quando tinha pensamento diferente. Muitas vezes eu morria de rir, intimamente, quando escutava ele discutindo com o deputado Humberto Souto, outro que costuma ser o dono da verdade absoluta. Quando os dois tinham pontos de vista diferentes, não havia acordo.
Mas Toninho tinha verdadeira adoração por Humberto, que ele considerava o paradigma do bom político. Humberto soube retribuir esta admiração: ajudou demais a administração de Toninho em Brasília, de todas as formas que pôde. Muitos dos projetos aprovados no Programa Cidades de Porte Médio tiveram o dedo de Humberto nos ministérios. Por isso torci tanto para Humberto quando ele se candidatou a prefeito recentemente. Se eleito, provavelmente seria um administrador quase tão bom quanto Toninho. Montes Claros perdeu muito ao não elegê-lo.
Muito rico, Toninho dava pouco valor ao dinheiro. Não no sentido de que achasse normal esbanjar. Ao contrário, era contra qualquer tipo de esbanjamento. Esbanjar dinheiro público então, nem pensar. Rico, ele era um homem simples.
Vestia-se sempre com aquelas calças folgadonas, que o deixavam mais gordo do que realmente era, camisa de algodão sempre para fora da calça, sapatos mal engraxados. No seu primeiro mandato, na década de 60, rodava num fusquinha verde, sempre por lavar, mesmo podendo ter um carrão da época (Osmane Barbosa tinha um Itamarati). No segundo mandato, já na década de 70, subiu um pouco o padrão: rodava num corcel marrom. Mesmo a serviço, andava no próprio carro, com gasolina por sua conta. Nas solenidades oficiais, usava um gravata apertando o gogó. Quem não o conhecesse, nunca imaginaria que aquele era o prefeito de Montes Claros. Parecia mais um rústico fazendeiro, o que realmente era.
Por causa de Toninho, por tê-lo conhecido tanto como pessoa e principalmente como administrador público, talvez por isso eu tenha sido sempre tão crítico com os prefeitos que vieram depois. Será que seria exigir demais de todos eles seriedade absoluta com os recursos públicos? Será que seria exigir demais uma fiscalização intensa das obras, para que se tivesse qualidade nos serviços?
Será que desejar que todo prefeito tivesse um planejamento, que pontuasse as obras mais necessárias à cidade, seria exigir demais?Desejar que o prefeito não permitisse nunca que a politicagem interferisse na administração, será que é exigir demais? Exigir que o amor a Montes Claros se sobrepusesse aos interesses pessoais, é excesso de exigência?
Toninho sempre teve tudo isso: respeito absoluto ao dinheiro público, fiscalização severa com a qualidade das obras, planejamento de tudo o que seria feito e do qual não se desviava, nunca permitindo que interesses políticos interferissem na administração. E seu amor por Montes Claros sempre prevaleceu em todas as suas decisões. E para que estes objetivos fossem possíveis e religiosamente cumpridos, se cercou sempre de bons assessores, pessoas de confiança e todas elas com o mesmo espírito público. Quando se junta tudo isso, é difícil dar errado.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79755
Por Jorge Silveira - 14/4/2015 7:16:32
Os cinco mil postes que não deram votos


Um dos projetos mais ambiciosos de Toninho Rebello em seu segundo mandato, era o de colocar luz em todos os pontos da cidade onde não houvesse iluminação. Na campanha ele prometera que não deixaria um morador sequer de Montes Claros no escuro. E para que a promessa fosse cumprida, seria necessária a colocação de cinco mil novos postes nas ruas sem iluminação, segundo levantamento prévio feito pela prefeitura. Número que poderia crescer com o passar do tempo, pois com as indústrias que estavam sendo instaladas na cidade com os incentivos da Sudene, o crescimento de Montes Claros era um dos maiores do Brasil, chegando a atingir índices de 12% ao ano.
Com este crescimento assustador, muitas ruas dos novos bairros que surgiam não tinham iluminação. E o povo, com razão, reclamava, pois a escuridão diminuía a segurança.
Toninho sabia que iria custar caro, mas meteu na cabeça que ao concluir o mandato, não haveria uma rua sequer na cidade sem iluminação. E quando ele metia uma coisa na cabeça, sai da frente, pois não tinha nada que o impedisse de realizar.
Assim, para que o programa fosse cumprido à risca, entregou sua implementação para seu secretário de Administração, Vivaldo Macedo. Como Vivaldo era vereador licenciado, a implantação do programa sob direção obviamente o ajudaria na reeleição. Pelo menos, era o que pensava Toninho. E Vivaldo se dedicou com intensidade para cumprir a meta estabelecida, também acreditando que cada poste instalado lhe renderia pelo menos um voto na urna na hora da reeleição.
Mas para diminuir o natural ciúme dos vereadores da situação, Toninho deixava que todos tratassem do assunto de iluminação com Vivaldo, definindo onde e quando seriam instalados os novos postes. Assim, cada vereador, se tivesse competência, teria condições de assumir a paternidade da obra junto aos seus eleitores. Vivaldo não gostava desse critério estabelecido por Toninho, o que o obrigava a disputar com outros vereadores a paternidade de cada poste instalado. Mas tinha que ser dessa forma, pois Toninho, não abria mão do que havia estabelecido, já que não admitia que a administração beneficiasse ninguém. No fundo ele acreditava que Vivaldo teria mais competência do que os outros para usufruir eleitoralmente do programa.
Quem na verdade mais se aproveitou do programa, eleitoralmente, foi o líder da oposição, o vereador Luiz Tadeu Leite. Tendo conhecimento da programação da prefeitura e sabendo onde seria instalado cada poste, ele anunciava em seu programa na ZYD-7, Boca no Trombone: "Dona Maria, já fiz o pedido na prefeitura e na próxima semana a luz estará chegando à sua rua". Vivaldo morria de raiva, mas nada podia fazer, pois Toninho fazia questão de que a programação assentamento dos postes fosse pública, aberta assim a todos os vereadores, inclusive os da oposição.
-Mas Toninho, a gente bota a luz e o Tadeu é que fica com a paternidade da obra. O povo acredita em tudo que ele fala. - Vivaldo reclamava com Toninho, que replicava: "se vira, Vivaldo, eu não posso proibir um vereador de ter acesso à programação da prefeitura, que é pública. Ganha quem tiver mais competência. E, sinceramente, eu acredito que você tenha. Afinal, você é quem gerencia o programa".
Os cinco mil postes foram instalados, com Toninho cumprindo em 100% a programação que estabelecera, não deixando uma rua sequer na cidade sem iluminação. Mas Vivaldo Macedo, o secretário que gerenciara o programa, não conseguiu retornar à Câmara Municipal. Teve pouco mais de 300 votos, nem chegando perto dos cinco mil que projetara - um voto para cada poste instalado. Mas não foi questão de competência, como Toninho acreditava que seria, que competência Vivaldo tinha de sobra. Foi questão mesmo de voto vinculado (assunto de outra crônica), que derrotou não apenas Vivaldo, mas outros vereadores de expressão, como Deosvaldo Pena e Juarez Antunes, ex-presidentes do Legislativo, e Geraldo Machado Filho e Alberto Fagundes, também ex-secretários de Toninho.
Dos secretários de Toninho que se candidataram, certos de que a grande administração realizada os elegeria, apenas Joel Guimarães obteve sucesso. Foi um dos cinco eleitos pelo PDS, o partido do governo, massacrado pelo PMDB que elegeu 12 vereadores, entre os quais alguns ilustres desconhecidos na política local, como Conrado Pereira, Marcos Pimentel e Osmar Pereira. Elegeu também a primeira mulher vereadora, Aparecida Bispo. Mas a derrota de Vivaldo Macedo, o candidato dos cinco mil postes, foi a que teve maior repercussão na imprensa na época. Só não foi maior do que a eleição para prefeito do vereador Tadeu Leite, eleito o chefe do executivo mais jovem da história de Montes Claros, derrotando o médico Crisantino Borém, o candidato apoiado por Toninho.
A luz que Toninho espalhara por todos os bairros não fora capaz de iluminar a cabeça dos eleitores na hora do voto.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79718
Por Jorge Silveira - 7/4/2015 9:24:15
Boas ideias que foram sepultadas


Nos dias atuais, os governos estaduais e municipais pensam e alguns até já executam a implantação de Centros Administrativos. Em Minas Gerais, o então governador Aécio Neves construiu em Belo Horizonte, perto de Confins, o Centro Administrativo do estado, local que reúne todas as secretarias e entidades públicas estaduais. A intenção é facilitar à população o acesso aos órgãos públicos, já que o cidadão encontra
tudo no mesmo local, diminuindo inclusive os custos para a solução de qualquer problema junto ao estado.
Esta idéia já fazia parte, há mais de 30 anos, da programação do ex-prefeito Antônio Lafetá Rebello, que pensava em aglutinar no mesmo local não apenas os órgãos municipais, mas também os federais e estaduais. Tanto que quando foi aprovado o projeto de loteamento do bairro Ibituruna, em sua gestão, a prefeitura exigiu dos proprietários a doação de uma quadra inteira para o município, para que a área fosse destinada à implantação do Centro Administrativo. O local era privilegiado, muito próximo do centro da cidade e de diversos bairros, o que facilitaria o acesso à população.
Infelizmente, os administradores que vieram depois não souberam aproveitar da forma planejada o terreno recebido em doação. Luiz Tadeu Leite, que assumiu logo após o segundo mandato de Toninho Rebello, construiu o prédio da prefeitura no entroncamento das Avenidas Deputado Esteves Rodrigues e Cula Mangabeira, desapropriando um terreno caríssimo, quando já existia a área para o Centro Administrativo no bairro Ibituruna. O próprio Tadeu e outros prefeitos subsequentes foram doando áreas destinadas ao Centro Administrativo para entidades que nada tinham a ver com o poder público, como o Rotary, a OAB, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais, a sub-seção da ABO, o Sindicato de Bares, Hotéis e Similares, etc.
Desvirtuou-se completamente a ideia original de Toninho Rebello. Pouquíssimos órgãos públicos, entre eles a Policia Militar, a AMAMS (Associação dos Municípios da Área Mineira construíram ali suas sedes. Muito pouco para o que realmente se pretendia e quem acabou prejudicada foi a população. A ideia central de se ter no mesmo local todos os órgãos públicos, municipais, federais e estaduais, não se concretizou. Interesses políticos e eleitoreiros prevaleceram e o terreno foi fatiado de acordo com a conveniência dos prefeitos de plantão.
Outra ideia avançada de Toninho Rebello e que não foi concretizada por seus sucessores foi a construção do Lago Sul.
Quando prefeito, Toninho projetou dois grandes lagos, na entrada e na saída da cidade. Por que a construção dos lagos? Em primeiro lugar para evitar que áreas pantanosas fossem destinadas a loteamentos, o que sem dúvida viria causar sérios problemas futuros para a administração municipal. Em segundo lugar, para embelezamento e lazer. E finalmente para melhoria do clima árido da cidade.
O lago Norte Toninho construiu em sua segunda gestão, através de convênio com o DNOCS. Não conseguiu concretizar a ideia de construir o lago Sul, mas deixou o projeto pronto para seus
sucessores. Infelizmente, onde deveria ser hoje o lago Sul, na antiga Vargem Grande, local pantanoso nos períodos de chuva por causa do córrego Bicano, foi implantado o Bairro Canelas. Como estudos técnicos indicavam, é só chover um pouco mais e o bairro fica totalmente inundado, causando problema para o poder público municipal. Problemas que poderiam ter sido evitados se tivesse prevalecido a ideia inicial da construção do lago e não os interesses políticos que aprovaram o loteamento do Bairro Canelas. O
custo para o município (e, consequentemente, para o contribuinte) será muito maior.
Administrar para Toninho era pensar a curto, médio e longo prazos. Em um curso que fez na Alemanha, patrocinado pelo governo federal para 40 prefeitos de cidades de porte médio, ele potencializou este conceito. Muitas vezes ele dizia para seus assessores: "não se pode administrar pensando apenas no hoje. Muitas vezes o amanhã é muito mais importante". Este pensamento gerou o Plano Diretor, o Centro Administrativo, o lago Norte, o Programa Cidades de Porte Médio, projetos que teriam dado a Montes Claros a oportunidade de crescer com uma qualidade de vida muito melhor para seus cidadãos.
O Plano Diretor, como se viu antes, foi derrubado no governo do prefeito Moacir Lopes, por pressão dos latifundiários urbanos. O terreno para a construção do Centro Administrativo, que o município ganhara de presente, foi fatiado por vários prefeitos para atender interesses eleitoreiros. O profeta do lago Sul foi engavetado (quem ganhou com isso?) e nunca saiu do papel. Em seu lugar, a cidade ganhou mais um bairro e mais problemas. O Programa Cidades de Porte Médio, parte do que não havia sido implantado por Toninho, foi quase que totalmente desmontado na primeira gestão de Tadeu Leite. Jairo Ataíde ainda aproveitaria parte dele, mais adiante, construindo a Avenida José Correa Machado, que fazia parte do sistema viário do programa.
Depois de Toninho Rebello, nenhum prefeito teve um programa de obras curto, o médio e o longo prazos, até por sistemática falta de continuidade administrativa. Athos Avelino iniciou os projetos do Bicano e do Pai João originários do Programa Cidades de Porte Médio, importantes para o saneamento e o sistema viário da cidade. Ambos foram literalmente abandonados por Tadeu. Assim, a cidade pagou caro o preço da descontinuidade administrativa, de maus gestores que muitas vezes colocaram os interesses políticos e pessoais sempre em primeiro plano. À maioria deles faltou um mínimo de visão do futuro, exatamente o que sobrava em Toninho Rebello. Se Tadeu Leite, em seu primeiro mandato, tivesse dado continuidade ao Programa Cidades de Porte Médio, provavelmente Montes Claros hoje seria outra. Ele preferiu trocar o desenvolvimento planejado pela "administração mutirão",que muitos apelidaram depois de "mentirão".
Como as boas idéias de Toninho e que viraram projetos foram sepultadas em grande parte por seus sucessores, quase sempre por motivos pouco ortodoxos, quem saiu perdendo, e muito, foi a cidade. Compare-se Montes Claros, urbanisticamente, com outras cidades do mesmo porte, e ter-se-á a dimensão exata de quanto se perdeu nos últimos anos com algumas administrações, na melhor das hipóteses, de eficiência duvidosa. Outras, completamente deficientes.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79690
Por Jorge Silveira - 2/4/2015 14:52:10
Voto vinculado e a avalanche Tancredo


Nas eleições de 1982, que elegeriam governadores, senadores, deputados federais e estaduais, prefeitos e vereadores, o governo militar caiu na besteira de criar a vinculação dos votos, acreditando que assim ajudaria os candidatos do partido do governo, o PDS. No que consistia esta vinculação?
Quem votasse num partido, por exemplo, para governador, teria que votar em candidatos do mesmo partido em todos os outros níveis. É bom lembrar que era a primeira vez que o eleitor brasileiro iria votar diretamente para eleger o governador de seu estado, direito que perdera a partir do golpe militar de 1964. Na verdade, as eleições de 1966 para governador ainda foram diretas. Como o governo militar teve seus candidatos derrotados em vários estados, acabou com a eleição direta também para escolha dos governadores, que passaram a ser nomeados. Em Minas Gerais, o último governador nomeado foi o deputado federal Francelino Pereira, na época presidente nacional da Arena, o partido do governo militar. Antes dele, foram governadores nomeados em Minas Rondon Pacheco e Aureliano Chaves. Francelino era deputado eleito com ampla votação no norte de Minas e sua nomeação acabou sendo uma vitória para a região.
Tão logo assumiu o governo, Francelino convidou Toninho Rebello, prefeito de Montes Claros, para um encontro no Palácio da Liberdade. Na visita, o governador pediu a Toninho que indicasse um nome para o secretariado que estava sendo formado. Toninho na hora teve um lampejo, sei lá, uma intuição, como contaria mais tarde para vários amigos. Em vez de indicar um nome para secretário, disse ao governador que preferia indicar o diretor geral do DER e o superintendente regional da Sudenor. Francelino aceitou na hora, pois ficava assim com uma secretaria livre para negociar com outras regiões.
Os nomes indicados foram o do engenheiro Carlos Alberto Salgado para a direção geral do DER e do economista Fábio Borém Pimenta para a Sudenor. Salgado havia sido chefe do DER em Montes Claros e, portanto, tinha muitas ligações com a cidade. Toninho o conhecia bem e sabia que ele poderia ajudar muito no programa de obras da prefeitura.
Como de fato ajudou. Na sua gestão, o DER construiu o Anel Rodoviário ligando as BRs 135 e 365. Vários convênios foram firmados com a prefeitura, para fornecimento de material para o asfaltamento das ruas, o que gerou uma economia muito grande para o município.
A Sudenor era a superintendência que fazia a ligação do estado com a Sudene. Todos os interesses da região junto à autarquia federal passavam pela Sudenor. Com um montes-clarense na direção da entidade, a região passou a agilizar seus projetos em Recife e todos os meses diversos empreendimentos eram aprovados principalmente para Montes Claros. Através de gestões da Sudenor, a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste financiou vários projetos de telecomunicações e de energia do norte de Minas. Tendo nas mãos o DER e a Sudenor, o norte de Minas ganhou muito mais do se tivesse tido um secretário de estado, que muitas vezes não pode privilegiar uma determinada região, pois sofre pressão dos deputados de todo o estado. Assim a decisão de Toninho, de trocar uma secretaria por dois órgãos de segundo escalão,
acabou beneficiando Montes Claros e a região muito mais. Intuição, sabedoria, golpe de mestre, nem Toninho nunca soube explicar direito. O que ele sempre soube é que sua administração, e, consequentemente, Montes Claros, ganhou muito com a indicação de Salgado e de Pimenta.
Mas na verdade, não era este o tema que iríamos abordar. Como dissemos no início, em 1982 o país teria pela primeira vez, depois de muitos anos, eleição direta para governador. E com voto vinculado. E para azar do partido do governo, o PDS, o candidato da oposição em Minas, pelo PMDB, era Tancredo Neves, o grande líder político da oposição ao governo militar, junto com Ulisses Guimarães. Tadeu Leite, que era vereador em Montes Claros, e com um programa de rádio muito ouvido pela população dos bairros,; vislumbrou
o que todo mundo previa: Tancredo iria promover um massacre em Minas. E como o voto era vinculado, levaria com ele todos os candidatos do PMDB, em todos os níveis. Para enfrentar Tancredo, o PDS escolheu o ex-ministro Eliseu Resende, que seria até um candidato forte em outras circunstâncias.
Mas não contra Tancredo.
Como se previa, foi um massacre não apenas em Minas, mas em todo o Brasil. O PMDB elegeu 23 governadores. Em Montes Claros, mesmo tendo feito a maior administração de toda a história do município, Toninho não conseguiu eleger seu sucessor, o vice-prefeito Crisantino Borém. Na avalanche provocada por Tancredo, o PMDB elegeu Tadeu como prefeito, José da Conceição a deputado estadual (25 mil votos em Montes Claros) e 12 dos 17 vereadores à Câmara Municipal.
De quebra, elegeu ainda o deputado federal Manoel Costa, um ilustre desconhecido que Tadeu apoiou (e que financiou sua campanha). Costa teve cerca de 22 mil votos só em Montes Claros. Com isso, quase derrotou o deputado Humberto Souto para a Câmara Federal, o que seria outra derrota terrível para Toninho, pois Humberto era seu amigo pessoal e um dos baluartes de sua administração, conseguindo liberar tudo e mais alguma coisa em Brasília para ajudar o desenvolvimento de Montes Claros.
O drama que Toninho viveu com a provável derrota de Humberto Souto é o tema da nossa próxima crônica. Mas o verdadeiro terremoto que Tancredo Neves provocou em todo o estado, inclusive em Montes Claros, na garupa do voto vinculado, tinha que ser relembrado, até para justificar a derrota que Toninho sofreu em sua sucessão, mesmo depois de uma administração fora de série.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79684
Por Jorge Silveira - 30/3/2015 16:15:36
A preocupação de Toninho era Humberto


Não precisava ser nenhum futurólogo para prever que as eleições de 1982 seriam extremamente difíceis para os candidatos do partido do governo, o PDS. Com o movimento nacional em favor das eleições diretas para presidente, o PMDB de Ulisses e Tancredo se fortalecera demais. E com o fim do AI-5 e a Lei da Anistia, o governo militar do presidente Figueiredo praticamente agonizava. O movimento das Diretas Já levaria milhões às ruas das grandes capitais no ano seguinte e dava para sentir no ar a vontade do eleitorado de sepultar definitivamente o regime dos generais.
O prefeito Antônio Lafetá Rebello não condenava o regime militar. Tendo sido prefeito por duas vezes durante o período em que o país havia sido comandado pelos generais, não podia se queixar do governo federal, de quem sempre tivera o apoio para a implementação de obras fundamentais ao município de Montes Claros. Em seu segundo mandato, de 1977 a 1982,mudara completamente o aspecto da cidade com o Programa Cidades de Porte Médio, criado pelo governo federal, e que destinava recursos a fundo perdido, através do Banco Mundial, para cidades médias consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país. Montes Claros era uma delas.
Sem os recursos a fundo perdido do Programa Cidades de porte Médio a prefeitura nunca teria conseguido construir a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, de uma importância vital para o desenvolvimento da cidade. A avenida tinha várias finalidades, entre elas o saneamento do córrego Vieira, esgoto a céu aberto que cortava praticamente toda a cidade.
Quando se projetava a construção da avenida, até os próprios projetistas - Círiaco, Machado, e outros - a consideravam um sonho. Mas um sonho que podia ser sonhado, pois havia os recursos, financeiros e técnicos, para sua construção. Toninho se debruçava nas pranchetas junto com os técnicos e imaginava o que seria Montes Claros depois de pronta a obra. Ele sabia que seria a maior obra dos últimos cem anos de história de Montes Claros.
Mas Toninho Rebello era um homem muito pragmático.
Não se deixava levar por ilusões. Ainda que não tivesse alma de político, conhecia bem o sentimento do povo. E sentia, nas eleições de 1982, que o partido que representava o governo militar, o PDS, seria irremediavelmente derrotado. Sabia que as muitas obras que realizara - e a Avenida Sanitária era a maior delas e praticamente já concluída - não seriam suficientes para ajudar na eleição de Crisantino Borém, seu vice-prefeito e candidato à sua sucessão. Com a vinculação dos votos promovida pelo governo, o tiro iria sair pela culatra. A medida, que visava favorecer os candidatos governistas, tinha sido na verdade um tiro no pé. Em Minas, com Tancredo Neves candidato pela oposição ao governo do estado, estava escrito nas estrelas o terremoto que engoliria os candidatos do PDS.
A preocupação de Toninho era com o deputado federal Humberto Souto, a quem dedicava uma especial amizade e afeição. Humberto tivera participação fundamental no sucesso de sua administração, na liberação sempre constante dos recursos em Brasília. No pensamento de Toninho, a Humberto ele teria que dedicar todos os seus esforços para ajudá-lo em sua reeleição. Com este pensamento, sem que Humberto
soubesse, Toninho reuniu alguns amigos em sua casa, para pedir a todos especial empenho na busca de votos para a reeleição de Humberto. Lembro-me bem que nesta reunião estavam Júlio Pereira, José Gomes, Geraldo Gomes, Aristóteles Ruas (que era candidato a deputado estadual), Ciríaco, Waltinho, Machado, entre outros.
No dia seguinte, eu e Júlio Pereira resolvemos ir à Fábrica de Cimento pedir uma ajuda a João Bosco, diretor da Matsulfur, para a campanha de Humberto, que até o momento se mostrava de uma pobreza homérica. Bosco, que gostava muito de Humberto, se dispôs imediatamente a ajudar. Disse-nos que mandássemos confeccionar camisas, bonés, chaveiros, o que fosse preciso para a campanha, e depois enviássemos a conta para a Matsulfur.
Saímos da fábrica numa alegria só, para a reeleição de Humberto. Resolvemos ir até a casa do deputado para lhe dar a boa notícia. Foi quando quebramos literalmente a cara. Ao darmos a notícia para Humberto, recebemos a seguinte admoestação:
-Por acaso eu autorizei vocês a pedirem alguma coisa em meu nome? Voltem ao João Bosco e digam a ele que agradeço muito a boa vontade, mas que dispenso a ajuda. Pensem bem se posso aceitar isso? E se depois de reeleito Matsulfur vier me fazer algum pedido, como farei para recusar caso eu não me sinta à vontade para não atender? Vocês não têm juízo. São dois irresponsáveis. Querem acabar comigo. Pensem bem se vou ficar nas mãos de empresários?
Este era o deputado Humberto Souto. E era exatamente por ele ser assim que Toninho estava preocupadíssimo com sua reeleição. Toninho o conhecia muito bem e sabia que Humberto poderia até perder as eleições, mas não abriria mão nunca de seus princípios. Humberto acabou se reelegendo. Na rabeira do PDS, mas chegou lá. Em Montes Claros, Tadeu ganhou a eleição, derrotando Crisantino. Tancredo se elegeria governador, preparando o caminho para a presidência. O que se daria dois anos depois, na última eleição indireta para o maior cargo da República.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79663
Por Jorge Silveira - 27/3/2015 7:52:32
Quem bebeu não pode comungar


A campanha de 1982 corria solta. Todo mundo sabia que a eleição seria dificílima para os candidatos do PDS, partido do governo militar, que praticamente agonizava. Tancredo, candidato a governador pelo PMDB e já se preparando para a candidatura a presidente em 1984, liderava com folga as pesquisas em Minas. Toninho Rebello, dentro de suas limitações políticas, tentava de todas as formas ajudar aos seus companheiros de partido, mas sem misturar a administração com os interesses eleitorais. Além de Crisantino Borém, seu vice e candidato à sua sucessão, ele queria eleger Chico Pereira para a Assembléia Legislativa.
Toninho tinha como uma de suas qualidades a de ser muito agradecido a quem o ajudara na administração. Chico Pereira tinha sido seu secretário, na Procuradoria da prefeitura, e Toninho fazia questão de ajudá-lo como fosse possível na sua campanha para se eleger deputado estadual. Da mesma forma que torcia pela eleição de outros três secretários que disputavam vaga na Câmara Municipal: Vivaldo Macedo, Joel Guimarães e Iran Rego. Lá no seu modo de pensar, Toninho acreditava que quanto melhor fosse sua administração, maior seria a ajuda aos companheiros. Ledo engano. Política brasileira geralmente não funciona dessa forma. Funciona, normalmente na base da troca. Do toma lá, dá cá. Exatamente o que Toninho nao fazia de forma alguma.
Num domingo, festa religiosa em Santa Rosa de Lima, sai uma grande turma para o distrito, à caça de votos. Santa Rosa, núcleo eleitoral de Zé Avelino, era local de votação garantida para os candidatos do PDS. Cláudio Pereira, filho de Zé Avelino, era candidato a vereador. Comanda a viagem ao distrito, acompanhado de Toninho, Crisantino, Chico Pereira, Aristóteles, Júlio Gonçalves e mais um bocado de gente. Fomos no bolo, a convite de Toninho e Aristóteles. Comício em distrito não dava para perder, era uma festança de primeira.
Lá chegando, ainda pela manhã, bem cedo, começou o périplo por todas as casas do distrito. Em cada residência, no meio da petição de votos, saía sempre um café gordo, acompanhado de muito biscoito e tira-gosto. Para quem preferisse uma boa pinguinha, Santa Rosa de primeira, produção dos Avelinos. Chico Pereira, querendo agradar o eleitor dono da casa, hora nenhuma dava bola para o café. Preferia sempre a cachacinha, para aguçar o palavrório político e a petição de voto. Afinal, à noite teria comício e era preciso estar desinibido e com a oratória concatenada. E já haviam lhe dito que recusar uma boa pinga geralmente magoava o dono da casa, o que podia resultar em perda de votos.
Só que as visitas não acabavam nunca. Saia de uma casa entrava em outra. E mais café, mais tira-gosto, mais pinga. E Chico, sempre querendo agradar o dono da casa, não rejeitava o gole oferecido, mesmo porque a cachaça era de primeira. Arranjava sempre alguém para acompanhá-lo e aí não ficava só numa. Ia para a segunda, a terceira, a quarta. Se a demora fosse grande, entrava na quinta, na sexta e por aí continuava.
Desacostumado com cachaça, lá pelas tantas, mais de meio-dia, ele já estava pra lá de Bagdá, como se diz na cartilha dos bons de copo. Afinal, não tinha costume de beber tanto. Até que bebia, mas socialmente. E a hora do comício ainda estava longe, seria só à noite. Antes ainda teria a missa para a padroeira, afinal era festa da igreja.
À tardinha, sol quase se pondo, todo mundo para a igreja. Hora da missa, celebrada pelo padre João, irmão do vereador Hamilton Lopes. Nestas alturas do campeonato, Chico já não se aguentava de pé, depois de algumas garrafas da boa pinga. Mas estava lá firme na missa, ao lado de Toninho, Crisantino e Zé Avelino, cumprimentando os eleitores. Até que chega a hora da comunhão. Chico se levanta, cambaleante, e entra na fila para receber a hóstia. Era bom católico e sempre comungava. Mas Padre João, percebendo o estado dele, adverte aos fiéis:
- Só podem comungar aqueles que se confessaram antes.
Quem não se confessou não pode receber o corpo de Cristo, vocês sabem disso.
E Chico lá na fila, esperando sua vez. Cambaleando, quase caindo, mas aguentando firme. O padre João repete então a advertência: "quem não confessou não pode comungar, Deus não perdoou seus pecados. Quem não tiver confessado, favor sair da fila e voltar para seu lugar". E olhava para Chico de forma bondosa, como é de seu feitio, mas indicando que a advertência era para ele. Mas Chico não se tocava. Continuava lá firme na fila, já quase chegando a sua vez. Estava já fazendo boca para receber a hóstia quando o padre João não aguentou e gritou:
- Não podem comungar quem não confessou e também quem andou bebendo antes da missa. Apesar de Deus receber a todos os seus irmãos, lugar de bêbado não é na Igreja. Seu Chico Pereira, o senhor podia sair da fila e voltar para seu lugar. O senhor mal está conseguindo ficar de pé. Não pode comungar.
Chico não comungou como também não participou do comício mais tarde. A cachaça era boa, mas fez um efeito devastador. Depois da missa, ele caiu na cama e dormiu como um anjo, mesmo sem ter conseguido comungar. Só acordou no dia seguinte, numa ressaca de fazer dó. Apesar da bebedeira, a visita a Santa Rosa foi produtiva. Chico teve lá uma boa votação, mas insuficiente para elegê-lo. O que deixou Toninho muito contrariado, talvez até mais contrariado do que o próprio Chico Pereira, pois ficava aquela dorzinha na consciência de não ter trabalhado o bastante para a eleição do companheiro. Não era o caso, mas Toninho era assim mesmo.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79642
Por Jorge Silveira - 24/3/2015 9:06:48
O político com que todos sonhamos


Já foi dito aqui, nestas memórias, por diversas vezes, que Toninho Rebello não tinha grande vocação política. Seu negócio era administrar, colocar em prática seu grande amor por Montes Claros. Em questão de administração pública, ele era irredutível. Não saía uma linha de seu programa de governo. Não atendia pedidos políticos, fossem de vereadores, fossem mesmo dos chefes políticos que o haviam escolhido candidato único. Ele dizia - e com razão - que começasse a atender um aqui, outro ali, seu programa de governo, onde tudo estava bem delineado - e bem programado - acabaria não sendo cumprido, virando uma colcha de retalhos, em prejuízo da cidade.
Esta forma de administrar acabou prejudicando-o demais em termos políticos. Em seus dois mandatos - 10 anos de governo - Toninho não conseguiu eleger alguém de sua preferência (ou de sua escolha), a não ser o deputado federal Humberto Souto, que na verdade tinha voo próprio, sendo votado em toda região, dependendo muito pouco do apoio de Toninho. Humberto precisava muito dos votos de Montes Claros, seu principal reduto eleitoral, mas para ser votado no município não dependia de Toninho. Tinha seu eleitorado
cativo, pelos muitos serviços prestados à região.
Fora Humberto, Toninho perdeu a eleição com todos os candidatos que apoiou. Em sua primeira sucessão - em 1970 - o candidato apoiado por ele era o médico e historiador Hermes de Paula, por uma sublegenda da Arena. E o candidato do MDB, de oposição, era o arquiteto João Carlos Sobreira. Apesar da administração portentosa que realizara o candidato apoiado por Toninho perdeu a eleição para Pedro Santos, que teve no ex-prefeito Simeão Ribeiro, candidato então a vereador, seu grande porta-voz.
Em seu segundo mandato, em que realizou uma administração ainda mais admirável, implantando as maiores obras da história de Montes Claros, Toninho voltou a não eleger seu sucessor, seu vice-prefeito Crisantino de Almeida Borém, também um excelente candidato. Perdeu para o vereador Luiz Tadeu Leite, que em 1976 tinha sido o candidato mais votado de Montes Claros para a Câmara Municipal, turbinado por um programa na rádio ZYD-7, que ele comandava pelas manhãs. Mas o que elegeu mesmo Tadeu à prefeitura acabou sendo o o tisunami Tancredo Neves e o voto vinculado (temas de outra crônica). É aquele velho ditado: Tadeu estava no lugar certo na hora certa. E soube pegar o cavalo arreado.
Mas não foi apenas com seus candidatos à sua sucessão que Toninho sairia derrotado. Em 1982, apoiou entusiasticamente para a Assembléia Legislativa o seu secretário (procurador) Francisco José Pereira. Perdeu fragorosamente e ainda viu seu opositor, Tadeu Leite, eleger para deputado pelo PMDB, com mais de 25 mil votos em Montes Claros, o ex-vereador José da Conceição Santos. Toninho perdeu duplamente, pois apoiara também, em segundo plano, para deputado estadual o vereador Aristóteles Ruas - seu líder na Câmara
Municipal - que também foi derrotado. Às derrotas de Crisantino, para prefeito, e de Francisco José Pereira e Aristóteles Ruas, para deputado estadual, somaram-se ainda as de Vivaldo Macedo e Iran Rego, ambos secretários municipais e amigos pessoais de Toninho, para a Câmara Municipal. Toninho não tinha m esmo qualquer cacoete político.
Quando enfatizamos que ele apoiou entusiasticamente a candidatura de seu secretário Francisco José Pereira, abra-se um parêntese: em momento algum usou ou deixou alguém usar a prefeitura para beneficiar seu candidato. Não empregou ninguém, não asfaltou qualquer rua atendendo pedido político, não patrolou nenhuma estrada rural, não delegou a paternidade de nenhuma obra para candidato de sua preferência. Nunca nenhum funcionário ou veículo da prefeitura foi usado na campanha de Chico Pereira ou Aristóteles Ruas. Eles eram os candidatos do prefeito, mas da porta da prefeitura para fora.
Quão diferente dos prefeitos que vieram depois, que se elegeram deputado, elegeram a mulher, elegeram o filho, sem nenhum pudor ou constrangimento.
Como explicar quais as razões de um prefeito de tantas obras, considerado quase unanimemente como o maior de todos, não conseguir eleger seus candidatos? A explicação é simples e óbvia: ele nunca permitiu que qualquer centavo público fosse utilizado em favor da eleição de alguém. Toninho nunca misturou administração pública com política. Com razão passou à história como grande administrador e péssimo político. Na verdade, ele não era péssimo político. Simplesmente não era político, pelo menos o político tradicional, que todos conhecemos. Talvez fosse o político com o qual todos sonhamos. Mas que, infelizmente, é peça raríssima na política brasileira.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79622
Por Jorge Silveira - 22/3/2015 7:47:33
O espírito democrático de Toninho


O prefeito Antônio Lafetá Rebello governou Montes Claros, em seus dois mandatos (1967/1970 e 1977/1982) durante o regime militar. Apesar de muitas vezes até certo ponto intransigente, extremamente disciplinado e exigente, em ocasiões até meio "ditador", Toninho na verdade era um democrata por natureza. Não aparentava, mas era. Tive provas disso em muitas ocasiões. Uma delas, conhecida de todos, foi quando escolheu o jovem vereador Pedro Narciso, do MDB e de tendências esquerdistas, para exercer a liderança de seu governo na Câmara Municipal. Toninho era reconhecido como de direita, até por ter sido antigo udenista e por ser fazendeiro rico, mas se enquadraria melhor como um social-democrata.
O MDB tinha quatro vereadores e a Arena, amplamente majoritária, contava com onze. O prefeito Antônio Lafetá Rebello, então, não necessitava do MDB para aprovar seus projetos. Ainda assim, indicou Narciso para seu líder, atitude inexplicável para muitos, mas o que era um forte indicativo de sua natureza democrática. Com sua indicação, impediu que a minoria fosse esmagada pela maioria, criando um clima beligerante na Câmara Municipal, o que naquele momento de reconstrução da cidade, seria pouco producente. Sua atitude chegou até a criar alguns ciúmes, naturais, entre os vereadores de sua bancada, mas ele sempre soube contornar os problemas com sua indiscutível liderança.
Mas a maior prova de seu espírito democrático aconteceu em seu segundo mandato, quando sofreu uma campanha até certo ponto difamatória do vereador Luiz Tadeu Leite (que em 1982 se elegeria prefeito). Tadeu tinha sido o vereador mais votado da cidade, com mais de três mil votos, conseguidos graças a um programa de muita audiência que comandava na ZYD-7, na época a única emissora de rádio da cidade. O programa "Boca no Trombone", no horário da manhã, era ouvido em toda a cidade, principalmente nos bairros mais periféricos (na época a televisão ainda era produto de luxo).
Não tinha obra que Toninho fizesse que Tadeu não criticasse. A Avenida Sanitária (Deputado Esteves Rodrigues), em construção, para o vereador emedebista não passava "de uma avenida de pista dupla para os ricos passearem de carro". O novo terminal rodoviário, também em construção, na visão de Tadeu só serviria para os ricos, pois de tão longe, os pobres não teriam como pagar táxi para chegar ao local. Populista e demagogo, Tadeu visitava os bairros todos os dias, anotava as queixas da população, e fazia cobranças em seu programa, de forma veemente. Muito inteligente e profundo conhecedor da programação de obras da prefeitura, cobrava sempre o que ele sabia que logo seria feito e assim ficava com o mérito da obra. "Viu, dona Maria, foi só a gente pedir e a prefeitura já resolveu o problema. Me espera aí que amanhã vou tomar um cafezinho com a senhora", era o que mais se ouvia em seu programa. Toninho trabalhava e Tadeu ganhava votos, engabelando o povo.
Elias Siufi, diretor da ZYD-7, várias vezes procurado por pessoas ligadas à administração municipal, indignadas com a campanha difamatória que Tadeu fazia contra Toninho, preferia não tomar qualquer providência. Ele não entendia as críticas de Tadeu como ataques gratuitos a um governo que podia ter seus defeitos, mas que trabalhava incansavelmente para o desenvolvimento do município, como nenhum outro até então trabalhara. Tadeu na verdade fazia campanha política abertamente, nunca jornalismo sério e independente. Elias, mesmo amigo de Toninho, preferia prestigiar seu funcionário, cujo como prefeito pagaria o favor, colocando Elias como seu secretário (gestão 2008/2012).
Com as eleições se aproximando, assessores de Toninho sentiam que Tadeu crescia e incomodava cada vez mais com suas críticas mentirosas. Começaram então a buscar formas de calar o radialista. Como Elias não resolvia o problema preferindo apoiá-lo incondicionalmente, chegaram à conclusão de que o jeito seria apelar para o empresário João Saad, presidente e proprietário do grupo Bandeirantes, do qual a ZYD-7 fazia parte. O canal para chegar até Saad seria o governador Francelino Pereira, amigo de Toninho e interessado direto nas eleições de 1982.
Para comunicar a Toninho o que havia sido decidido, convocou-se uma reunião na prefeitura, no gabinete do próprio prefeito. Participaram alguns secretários municipais (Guarinelo, Vivaldo, Joel, Chico Pereira e Ubirajara Toledo), vereadores da situação (se não me engano, Augusto, Aristóteles e Geraldo Machado) e o vice-prefeito Crisantino Borém. Quem abriu a reunião foi Vivaldo Macedo, explicando que não era possível continuar aceitando que Tadeu permanecesse desmoralizando a administração em seu programa de rádio, sem que algo fosse feito. Era preciso tomar uma providência para calar as mentiras.
A solução que encontramos foi ir diretamente ao João Saad, para que ele interfira e mande a ordem para demitir Tadeu. Ele não vai deixar de atender a um pedido do governador. É o jeito de ficarmos livres desse bandido, que está crescendo as asas à custa das nossas obras. Tudo o que a gente faz ele assume a paternidade. E o povo acredita. O que você acha, Toninho? Podemos tocar a idéia para frente?
Aí veio a surpresa geral. Toninho não concordou. Ao contrário, deu uma tremenda bronca em todo mundo: - quer dizer que vocês querem incomodar o governador, fazer um pedido absurdo desse para o João Saad, para calar um menino que está aí apenas trabalhando, certo ou errado, mas trabalhando. Ele é vereador e jornalista, tem o direito de criticar. Se acharmos que ele está errado, e tenho certeza de que está, temos que ter a competência para mostrar ao povo que ele é um demagogo e mentiroso. Não podemos deixar é que ele seja mais competente do que nós. Mas tomar-lhe o emprego não é correto. Até porque ele ficará como vítima, com inteira razão.
Reunião encerrada, todo mundo enfiou o rabo entre as pernas e cada um foi cuidar de suas obrigações. Por causa do espírito democrático de Toninho, o que fazia parte de seus princípios, Tadeu continuou com seu programa de rádio, mentindo e engabelando o povo. Por sinal, mentiria e enganaria o povo com seu discurso populista por muitos e muitos anos. Eleger-se-ia prefeito por três vezes, do que se pode concluir que o povo gosta mesmo é de ser enganado. Além de prefeito, Tadeu foi também deputado federal e estadual, e secretário estadual de Justiça, no governo Itamar Franco, se não me falha a memória. Teve uma trajetória política invejável. E hoje eu me pergunto: será que tudo isso teria sido possível se naquele dia Toninho tivesse concordado em pedir a João Saad a cabeça de Tadeu?

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


79608
Por Jorge Silveira - 19/3/2015 7:12:13
O plano diretor que virou vilão


Quando encerrou seu primeiro mandato, no início de 1971, Toninho Rebello não conseguira eleger seu sucessor.
Teve que passar a prefeitura para Pedro Santos, que derrotara Hermes de Paula, candidato que teve o seu apoio, e João Carlos Sobreira, que disputou pelo MDB. Como costuma ocorrer quase sempre, o povo preferiu eleger o candidato com menos qualidades para administrar o município, que já fora prefeito uma vez e que tivera uma administração das mais desastradas, para dizer o mínimo. Pedro Santos mostrara, de novo, que era um mito difícil de ser batido - só seria batido seis anos depois, derrotado pelo próprio Toninho Rebello.
O grande marqueteiro - se assim pode ser classificado - da campanha de Pedro Santos foi o ex-prefeito Simeão Ribeiro Pires, então candidato a vereador. Orador de primeiríssima linha, Simeão tomou o Plano Diretor que Toninho aprovara já no final do mandato como o tema mais importante da campanha. E de comício em comício, por toda a cidade, foi destroçando o Plano Diretor, dizendo em alto e bom som, que se implantado o programa iria tomar casas e terrenos de todo mundo. E que seu custo era astronômico, o que fatalmente iria quebrar a prefeitura, o que não era verdade. Mas o povo, mal informado sobre o Plano Diretor, acreditou na falácia, no grande tribuno que dominava os palanques, e derrotou o candidato de Toninho. Juntando a rejeição ao Plano Diretor à popularidade do médico Pedro Santos, a eleição foi um passeio.
E é bom lembrar que o MDB, que disputava sua primeira eleição municipal, tinha também um excelente candidato, o arquiteto João Carlos Sobreira.
Poucos dias após passar o mandato a Pedro Santos, Toninho Rebello concedeu uma entrevista ao Diário de Montes Claros, fazendo uma análise da derrota de Hermes de Paula.
Reconheceu que não ter divulgado antes as grandes qualidades do Plano Diretor para o desenvolvimento da cidade tinha sido um erro fatal. Mas Toninho era avesso à publicidade, que ele considerava dinheiro jogado fora. Desta falha foi que Simeão soube se aproveitar com extrema maestria. Se o povo desconhecia o que era o Plano Diretor, fácil seria desmontá-lo.
Pode-se dizer, então, que o melhor projeto de Toninho acabou sendo o principal responsável pela derrota de Hermes de Paula. Sim, ele considerava que o Plano Diretor tinha sido a maior de suas obras, nos quatro anos de mandato, pois era o programa que iria realmente transformar a cidade em metrópole.
Hoje, quarenta anos depois, se se analisar o Plano Diretor aprovado naquela época com isenção e tecnicamente, ver-se-á que Toninho tinha muita razão. Parece até que ele antevia, mediunicamente, o caos em que se transformaria o trânsito na cidade alguns anos depois. Se como se previa no Plano Diretor as ruas centrais tivessem sido alargadas e construídas as avenidas previstas, a cidade hoje provavelmente seria outra. Vale lembrar que o Plano Diretor nunca foi executado: quatro anos depois, seria derrubado pela Câmara Municipal a pedido do prefeito Moacir Lopes. Prevaleceu, no caso, o interesse dos grandes
proprietários de áreas centrais, que foram, na verdade, os que mais pressionaram para a derrubada do Plano Diretor.
Como lembrou Toninho naquela entrevista concedida ao Diário, o Plano Diretor não se restringia ao alargamento das ruas centrais. Era muito mais do que isso. Era um projeto para planejar e coordenar o crescimento da cidade nos próximos anos, em varias áreas: na saúde, na educação, no sistema viário, na aprovação de novos loteamentos, no saneamento básico, na distribuição e aplicação dos recursos públicos, na arrecadação de impostos. Numa prefeitura que nunca tinha tido nenhum planejamento - isto numa cidade que crescia por minuto - o Plano Diretor vinha suprir esta grave deficiência, obrigando os próximos prefeitos a seguirem um norte, cujo objetivo era o desenvolvimento planejado do município.
E foi por suas qualidades e não por seus defeitos que o Plano Diretor foi derrubado. Como ele colocava o interesse público, o interesse da cidade acima dos interesses privados, especialmente dos latifundiários urbanos, foi por isso, só por isso que ele foi derrubado, deixando de ser lei. Quem perdeu, vê-se hoje claramente, foi a cidade, que cresceu desordenadamente, com os problemas se sobrepondo uns aos outros, diferentemente de outras cidades do mesmo porte, que tiveram mais visão - e melhores administradores - e por isso não chegaram ao ponto que Montes Claros chegou. E o pior de tudo é que, depois do Plano Diretor de Toninho que foi derrubado e em nenhum momento executado, nunca mais o município teria outro projeto pelo menos semelhante que planejasse e coordenasse o crescimento da cidade. Houve outros "planos diretores", mas nenhum com a mesma densidade e profundidade.
Sem nenhum ressentimento, mas com a visão de futuro que tinha, Toninho previu naquela época, início da década de 70: "Montes Claros vai perder muito sem o Plano Diretor.
Nenhuma cidade como a nossa, do nosso porte, pode crescer sem organização. E esta organização tem que partir do poder público". Como ele tinha razão! Neste nosso trânsito tão congestionado de hoje, imagine as ruas Dr. Santos, Camilo Prates, Dr. Veloso, Padre Augusto e outras centrais, com mais seis metros de piso (três de cada lado da rua). Imagine uma larga avenida partindo da Cel. Prates até a rua Belo Horizonte. Realmente, a cidade seria outra. Visto desta forma, o Plano Diretor realmente era para ter sido a grande obra de Toninho para o futuro de Montes Claros. Pena que interesses marginais sobrepuseram ao interesse coletivo. Nunca mais o município teria outro prefeito que pensasse e administrasse a cidade com a mesma visão de futuro, pensando 20/ 30 anos na frente.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 15/3/2015 7:47:51
Uma grande visão de futuro


O primeiro prefeito de Montes Claros a se preocupar efetivamente com o desenvolvimento dos distritos no município foi Antônio Lafetá Rebello. Antes dele, a única preocupação da prefeitura com a zona rural era o patrolamento e o encascalhamento das estradas. O que se dava, geralmente, uma vez por ano, logo após as chuvas (quando se dava). Com Toninho, quase todos os distritos ganharam escola pública, energia, água encanada, posto de saúde, telefone público e sinal de televisão. E (supremo luxo) asfaltamento nas ruas principais.
Toninho costumava dizer que o homem abandonava o campo em busca de conforto nas cidades, pois a zona rural era carente de tudo. Não tinha energia elétrica, substituída pelo lampião e querosene.
Água era buscada no rio, em latas na cabeça. A comunicação era feita a cavalo. E como não havia escola, as crianças ficavam sem estudo. Ele entendia que se o poder público levasse tais comodidades à zona rural, o homem permaneceria no campo, que era seu habitat natural.
Por isso, uma de suas metas e que ele cumpriu integralmente, era dotar todos os distritos de boas escolas públicas. Construiu escolas em todos os distritos. Seu secretário da Educação, em seu primeiro mandato, Júlio Gonçalves Pereira, tinha ordem de não deixar nenhuma criança sem escola na zona rural. Júlio cumpriu a ordem religiosamente. Por várias vezes viajei com Júlio para visitar as novas escolas construídas, todas da melhor qualidade. Toninho levou também energia elétrica e água encanada a todos os distritos. Em alguns, aqueles mais populosos, como Miralta, Nova Esperança, Aparecida do Mundo Novo e São Pedro das Garças, as principais ruas foram pavimentadas. Alguns distritos ainda ganharam telefone público, para facilitar a comunicação. Tudo isso, nos dias de hoje, seria coisa corriqueira. Na década de 60/70, era um luxo, algo quase impossível. Mas era a forma que Toninho entendia de segurar o homem em seu local de origem, impedindo-o de emigrar para as médias e grandes cidades.
Toninho cansava de repetir, para quem quisesse ouvir: - fica muito mais barato manter o homem no campo do que na cidade. Quanto mais a cidade cresce com o êxodo rural, maiores são os problemas. E as soluções muito mais caras. E no campo, o homem está fazendo o que sempre soube fazer, plantar e colher. Na cidade, ele vai ficar desempregado, por falta de qualificação. Sai do campo e vem para a cidade morar em favela. Só cria problema para o poder público.
Pena que nossos governantes não tivessem tido o mesmo pensamento de Toninho Rebello. Se na década de 60, a grande maioria da população morava no campo, hoje a situação se inverteu completamente. As grandes e médias cidades incharam, enquanto a zona rural se esvaziou de forma impressionante. O homem do campo foi para as cidades maiores em busca de melhores condições de vida, boas escolas para os filhos, conforto que não encontrava no campo. Por isso, as favelas se multiplicaram nas grandes cidades. Até hoje, aqueles que vivem no campo, sofrem com a falta de infra-estrutura. É comum se ver na televisão, principalmente no Nordeste, as populações rurais sofrerem com a falta d`água. Ou com a falta de boas estradas para o escoamento da produção. Ou com prédios escolares da pior qualidade, caindo aos pedaços.
O que sempre me impressionou em Toninho foi exatamente isso: a sua visão de futuro, a facilidade que ele tinha para enxergar o que poderia acontecer mais adiante se algo não fosse feito hoje. Quando ele construiu a nova rodoviária em Montes Claros, muita gente, mas muita gente mesmo comentava: "pra quê uma rodoviária tão grande. Parece até que a cidade inteira vai viajar". Realmente a rodoviária era enorme para a época. Mas Toninho estava pensando 30 anos na frente. Ele sabia que Montes Claros iria crescer muito, por sua localização privilegiada, como segundo entroncamento rodoviário do país, e pelas indústrias da Sudene, que atrairiam milhares de pessoas em busca de emprego. Até o "boom" do ensino universitário ele previa. Lembro que certa vez ele disse para Eustáquio Machado, que fora ao seu gabinete convidá-lo para uma solenidade na Escola Técnica: "sua escola vai virar faculdade logo, logo. Não demora Montes Claros será capital também do ensino superior, como acontece em toda cidade industrial".
Algum tempo depois, sua previsão se realizaria. A industrialização até murchou um pouco, com o fechamento de algumas indústrias, mas o ensino superior cresceu como um foguete. Hoje, a cidade conta com várias universidades privadas, além da Unimontes (que é estadual), com quase 40 mil universitários ao todo. Pena que o poder público municipal, depois de Toninho, não conseguiu (ou não soube) acompanhar o crescimento acelerado da cidade. Talvez, quem sabe, os administradores que vieram depois não tivessem a mesma visão de futuro que foi sempre a marca registrada de Toninho. Com certeza não tinham, até porque como políticos, todos pensaram mais na carreira política do que no futuro da cidade.Todos se deram bem, enquanto a cidade...

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 12/3/2015 15:12:00
Geralmente, os prefeitos quando assumem não têm um programa de obras para ser realizado de imediato. Durante a campanha política, promete-se um pouco de tudo nas áreas de educação, saúde, saneamento, infra-estrutura, cultura e lazer. Mas se alguém apertar o candidato e quiser saber o que ele vai fazer especificamente, por exemplo, na área de educação, no mínimo ele vai desconversar e não responderá, pois não sabe mesmo o que fará. A situação se repete nas outras áreas: não há por parte de nenhum candidato um planejamento a ser seguido caso vença as eleições. É aquela história de que a teoria é uma e a prática é outra. No caso do político-candidato só existe a teoria, ou melhor, promessas que provavelmente não serão cumpridas. Ou cumpridas apenas em parte, quase sempre em partes muito pequenas.
Toninho Rebello, quando eleito da primeira vez, em 1966 - tomou posse em 1967 - como era candidato único, não precisou prometer nada. Em compensação, aproveitou o tempo para preparar um programa de governo, definindo praticamente tudo o que iria fazer. Por exemplo: ele sabia que iria derrubar o velho mercado da Praça Dr. Carlos e construir dois, um na confluência das ruas Cel. Joaquim Costa e Belo Horizonte e outro na rua Melo Viana. Sabia que iria implantar rede de esgoto em toda a área central, inclusive já tinha acertado tudo com o DNOCs mesmo antes de assumir. Já tinha entendimentos também com Milton Prates para a doação do terreno onde construiria o Parque Municipal. Mas sua grande meta era acabar com poeira, asfaltando todas as ruas que não tivessem pavimentação. Montes Claros, naquela época, era conhecida como "terra da poeira, das muriçocas e das mulheres de vida fácil".
Como não era nenhum alienado, Toninho sabia muito que não seria possível assumir num dia e começar tudo que tinha programado no dia seguinte. Conhecia a situação precária da prefeitura, onde os funcionários não recebiam salários há três meses. Por isso, elaborou uma programação básica para os primeiros 100 dias: limpar a cidade, acertar a situação financeira da prefeitura, pagando os salários atrasados;iniciar o projeto de esgotamento na área central, através do DNOCS; organizar os projetos de leis a serem submetidos à
Câmara de Vereadores e que permitiriam a execução das obras previstas, como por exemplo, a criação da "contribuição de melhoria", lei que possibilitaria cobrar o asfaltamento dos contribuintes beneficiados.
Para não ter problema com os vereadores, já que tinha necessidade de aprovar com certa urgência vários projetos importantes, Toninho radicalizou: escolheu como seu líder no Legislativo exatamente o líder da oposição, o vereador Pedro Narciso, eleito pelo MDB, partido que pela lógica deveria ser oposição ao prefeito da Arena. O regime militar, fazia pouco, tinha extinto os velhos partidos e criado o bipartidarismo, apenas com Arena e MDB. Fato raro que provavelmente nunca tinha acontecido na política brasileira e nunca mais viria a
tempos futuros: o MDB, com quatro vereadores -além de Pedro Narciso, tinha José da Conceição, Aroldo Tourinho e José Messias Machado - apoiar o prefeito da Arena durante os quatro anos de mandato. Era uma posição meio esdrúxula: os emedebistas atacavam o governo federal da Arena,mas apoiavam o prefeito arenista. E nem tinham como ficar contra um prefeito que em quatro anos transformaria a cidade em um verdadeiro canteiro de obras. Muitas vezes Pedro Narciso confessou: " se ficarmos contra Toninho, o MDB acaba na próxima eleição". Não acabou não, mas perdeu a eleição com o arquiteto João Carlos Sobreira. E, na Câmara Municipal, encolheu para apenas três vereadores.
Pedro Narciso e José da Conceição se projetariam muito na política municipal - ambos foram deputados à Assembléia Legislativa (Conceição foi também federal) e secretários de
estado - sinal de que o apoio ao prefeito da Arena não prejudicou suas carreiras. Ao contrário, parece ter feito muito bem.
Narciso até que chegou a ter dificuldades para se reeleger vereador em 1970 e aí se deu outro fato inacreditável para os preceitos da política brasileira: Toninho Rebello, da Arena, apoiou Pedro Narciso, do MDB, chegando a publicar anúncio nos jornais da cidade pedindo votos para o seu ex-líder. Toninho não conseguiu eleger seu sucessor na prefeitura, mas ajudou Narciso a se reeleger. Coisas que só aconteciam mesmo com Toninho, que não via a política de uma forma passional como geralmente é vista por quase todos os políticos. Para Toninho, a amizade e a consideração precediam à política.
Mas como a política mais parece uma roda que dá voltas, nas eleições de 1976, quando Toninho Rebello foi novamente candidato, lá estavam Pedro Narciso e José da Conceição, mas desta vez como adversários. Aquela foi uma eleição onde o povo de Montes Claros prestou sua homenagem à grande administração que Toninho fizera anteriormente. Disputando contra cinco adversários, dois da Arena (Pedro Santos e Hamilton Lopes) e três do MDB (Pedro Narciso, José da Conceição e Aroldo Tourinho), Toninho teve mais votos do que a
soma dos outros cinco. O mais importante: derrotou o mito Pedro Santos, que perdia uma eleição pela primeira vez.
Toninho Rebello retribuiria ao povo de Montes Claros a grande votação que tivera: sua segunda administração, desta vez seis anos (o governo militar estendera os mandatos por mais dois anos), seria ainda melhor do que a primeira. Foi quando implantou suas duas maiores obras, a Avenida Deputado Esteves Rodrigues (a Sanitária), mudando completamente o aspecto urbanístico e de saneamento da cidade, e a Rodoviária, até hoje uma das melhores do estado. Mas, mais uma vez voltou a mostrar que a política não era sua seara:
apesar da revolucionária administração, não conseguiu emplacar seu sucessor em 1982. O médico Crisantino Borém, seu vice-prefeito e seu candidato à sucessão, foi derrotado pelo vereador Luiz Tadeu Leite, do PMDB. Crisantino foi triturado pelo voto vinculado e pela avalanche Tancredo (assuntos de outra crônica).

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 9/3/2015 09:43:42
Estórias ou lendas que se contavam


Algumas histórias (ou estórias) permearam a administração do prefeito Antônio Lafetá Rebello, sem que fosse possível apurar se todas eram verdadeiras ou apenas lendas. Extremamente discreto com sua vida pessoal, Toninho sempre desconversava quando alguém queria saber, por exemplo, se ele realmente doava o seu salário, todos os meses, para o Asilo São Vicente de Paula. Ou para qualquer outra entidade beneficente. Certa vez, curioso, perguntei a Orlando Ferreira Lima, secretário da Fazenda e que pagava as contas da prefeitura, se esta história da doação era verdade. Orlando não quis responder, me mandou simplesmente perguntar a Toninho.
Outra história que corria sobre Toninho é que ele havia proibido qualquer parente, fosse irmão, filho ou sobrinhos, de entrar na prefeitura enquanto ele fosse o prefeito. A razão da proibição era simples, mas categórica: para que ninguém pudesse imaginar (ou fofocar) que qualquer parente dele tivesse ido à prefeitura pedir algum favor ao prefeito. Toninho seguia aquela velha história da mulher de César: "não basta ser honesta. Tem que parecer honesta". Ele fazia questão de evitar qualquer tipo de maledicência." Que diferença da maioria dos políticos, que a primeira coisa que fazem quando eleitos é exatamente nomear os parentes (com honrosas exceções,é óbvio).
Lembremos que Jairo Ataíde e Athos Avelino, quando prefeitos, nomearam os irmãos para a chefia de gabinete. Ruy Muniz fez o mesmo com a mulher. E ainda nomeou um irmão como secretário. Tadeu nomeou o sogro para tomar conta do cofre da prefeitura, em um de seus mandatos. Em outro, nomeou o cunhado para seu gabinete. É bom ficar claro que não existe nestas nomeações nenhuma ilegalidade, mas que é puro nepotismo, não há dúvida. É legal, mas pode não ser moral.
Contavam que Toninho, impreterivelmente, era sempre o primeiro a chegar à prefeitura pela manhã. Antes das cinco ele já estava em seu gabinete trabalhando. As seis ele saía com o secretário de obras para fiscalizar os serviços que estavam sendo realizados. Num certo período havia um mendigo que dormia nas escadas de acesso à porta de entrada da prefeitura, que na época funcionava no antigo prédio do seminário, na Avenida Cel. Prates (hoje o supermercado Bretas).
Sempre que Toninho chegava, acordava o mendigo, dava-lhe algum dinheiro e o mandava tomar café. Um dia, por curiosidade, Toninho perguntou ao mendigo: "você sabe quem eu sou?" - Claro que sei, respondeu o mendigo, o senhor é o prefeito desta bosta de cidade, onde um pobre cidadão não pode sequer dormir sossegado sem ser acordado ainda de madrugada.
Outra história que corria sobre Toninho: dizem que certa vez ele ficou sabendo que um funcionário do almoxarifado havia surrupiado um saco de cimento, para empregar numa reforma em sua própria casa. Mandou apurar e concluiu-se que era verdade. Imediatamente ordenou que o empregado fosse demitido. Alguns dias depois, ficou sabendo que o tal sujeito, pai de família, continuava desempregado, pois não conseguia novo emprego, já que ficara com a ficha suja. Comovido com a situação e provavelmente sentindo-se culpado pelas dificuldades que deveria estar passando aquela família, com o pai desempregado, telefonou para o presidente da Cooperativa Agropecuária e pediu-lhe que desse uma oportunidade ao rapaz. Só se tranquilizou quando soube que ele estava empregado. Toninho era assim: não abria mão de seus princípios, mas tinha um coração mole como gelatina.
Já em seu segundo mandato, ele viajou para a Alemanha, para um curso de planejamento e mobilidade urbanos, promovido pela ONU para prefeitos de diversos países da América do Sul. O governo federal, que na época desenvolvia o Programa Cidades de Porte Médio, mandou à Alemanha os 40 prefeitos beneficiados pelo programa. Montes Claros era uma das cidades beneficiadas. Quando chegou da viagem, a primeira coisa que fez foi pedir para conferir os pagamentos efetuados durante os dias em que estivera fora. Ele não abria mão de saber em que pé estavam as finanças do município.
Ao conferir, encontrou no caixa um cheque de um determinado secretário. Quis saber do que se tratava e foi informado por Joel (Guimarães): "fulano se apertou e me pediu para lhe adiantar o salário do mês. Deixou o cheque como garantia até sair o pagamento". Sem se alterar, Toninho perguntou para Joel: "e você adiantou o salário para todo mundo? Se fulano tem este direito, todos todos também devem ter, não acha?". Joel ficou sem resposta. Toninho então sacou do seu talão de cheques, encheu o valor que havia sido adiantado para o tal secretário e mandou que Joel sacasse o dinheiro e colocasse na conta da prefeitura.
Deu mais uma bronca em Joel e concluiu a conversa: "diga a fulano que quando receber o salário acerte o cheque comigo. E que não faça isto nunca mais, pois a prefeitura não é banco para emprestar dinheiro para funcionário. Muito menos para secretário". Toninho era assim, ainda que muitas vezes até radicalizasse. Mas para ele dinheiro público era sagrado. Talvez por isso, por ele ser tão diferente dos políticos tradicionais, tantas estórias e tantas lendas se criaram em torno de seu nome. Mas todas elas fazem jus ao que ele realmente era. Fossem verdades ou apenas lendas.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 4/3/2015 09:35:53
A velhinha da Ovídio de Abreu


Não pensem que a administração de Toninho Rebello, em seu primeiro mandato, de 1967 a 1970, pavimentou praticamente toda a cidade sem cobrar dos contribuintes beneficiados. Ao contrário, nada foi feito de graça. Todo o serviço foi realizado com a cobrança da "contribuição de melhoria". Ou seja, a área asfaltada era dividida em três partes, ficando uma para a prefeitura e as outras duas para os proprietários beneficiados, de um lado e de outro da rua. A conta podia ser dividida em até 12 parcelas. A população aceitou bem a proposta, pois nas ruas onde não houvesse pelo menos 60% de aprovação, o serviço não era feito. Quem não queria trocar a poeira e a lama pelo asfalto? Só nas vias de acesso aos bairros mais distantes ninguém pagava nada. Era tudo por conta da prefeitura.
Só mais tarde, os prefeitos resolveram fazer asfaltamento de graça, por demagogia e interesses eleitorais, diga-se de passagem, o que acabou custando muito caro para a cidade.
E deu no que deu: serviços de péssima qualidade, sem nenhuma durabilidade. Ruas asfaltadas em um ano e no ano seguinte o asfalto desaparecia. Tadeu e Jairo foram mestres neste tipo de serviço. A consequência é que Montes Claros, hoje, após o período chuvoso, gasta milhões só para tapar os buracos no asfalto. É difícil encontrar qualquer cidade no país que tenha ruas asfaltadas de pior qualidade do que Montes Claros, infelizmente. A pavimentação da cidade precisa hoje ser totalmente recomposta. E como o custo é muito alto, entra prefeito e sai prefeito e nenhum se dispõe a executar o recapeamento geral da cidade.
Como na administração de Toninho o custo do asfaltamento não ficava só para a prefeitura, que arcava apenas com um terço das despesas, o serviço era de ótima qualidade. Lembro-me bem que por várias vezes ouvi Toninho dizer que a pavimentação que estava sendo feita teria durabilidade de no mínimo 20 anos. Poderia até ter durado mais, sem necessidade de recuperação, se a Copasa, na abertura de rede de esgoto, não tivesse sempre feito uma recomposição de péssima qualidade no asfalto. Infelizmente, a prefeitura nunca soube exigir um serviço de boa qualidade. Sem cobranças, o que era para durar por muito mais tempo, se deteriorou bem mais rápido.
Com esta história do proprietário ter que pagar uma parte do custo do asfaltamento, apareceram algumas situações dramáticas, em que a pessoa não tinha mesmo condições de arcar com o pagamento, ainda que dividido em 12 vezes. Entretanto, a ordem de Toninho era que cada caso fosse estudado com o máximo de cuidado e critério. Geralmente a solução encontrada era ampliar o prazo para 20,30 ou até 40 prestações. Sempre se dava um jeito para não deixar ninguém sem o melhoramento. O que Toninho não permitia era abrir exceção, perdoar o pagamento para quem quer que fosse. Ele tinha plena convicção de que se isso ocorresse daí para frente não seria possível cobrar de mais ninguém.
Esta dureza de Toninho gerou uma história que não presenciei, mas que me foi contada depois por um amigo, que por acaso estava no local acompanhando os serviços. Transcorriam as obras de asfaltamento da Avenida Ovídio de Abreu e Toninho estava lá fiscalizando quando se aproximou dele uma velhinha. Bastante constrangida, envergonhada mesmo, ela disse para o prefeito que não teria condições financeiras de arcar com a despesa do asfaltamento. Vivia só com o marido, este bastante doente, em uma pequena casa quase no final da Avenida, já bem perto dos trilhos da Rede Ferroviária Federal. Vivia de uma pequena aposentadoria do marido, que mal dava para comer. Acabou levando Toninho para um café em sua modesta casa, para que o marido pudesse conhecer pessoalmente o prefeito, de quem era fã incondicional. Toninho tomou o café, anotou o nome e o endereço dos velhinhos, e prometeu que iria verificar o que poderia ser feito.
Chegando à prefeitura, chamou Orlando Ferreira Lima, entregou-lhe o papel onde anotara nome e endereço dos velhinhos, e pediu: "retire a guia de pagamento da contribuição e melhoria deste endereço e me traga o valor. Quero saber quanto será". Orlando se retirou e voltou pouco depois.
Entregou a Toninho um papel com o valor da "contribuição de melhoria" anotada. Toninho tirou o talão de cheque do bolso, preencheu o valor que estava no papel e entregou para Orlando, dando-lhe a ordem: "quite o tributo e mande entregar a guia neste endereço, para a dona da casa. Não diga que fui eu que paguei. E não deixe que esta notícia se espalhe, viu?".
Orlando, muito discreto, não contou esta história para ninguém. Apenas me confirmou quando lhe perguntei se a história era verdadeira. E me relatou os detalhes, transcritos mais acima Mas me pedindo que não deixasse Toninho saber nunca que ele havia me contado. A história era para permanecer em segredo. Não sei as razões, mas não permaneceu, pois alguns anos atrás, meu amigo Sérgio Pinto Ribeiro me contou a mesma história, que soubera por terceiros. Como a história se espalhou é uma pergunta que não me faço. O que me pergunto até hoje: quantos prefeitos teriam a mesma atitude de Toninho?

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 28/2/2015 17:33:53
Uma revista e a inauguração do parque

Ao contrário do que acontece hoje, quando os administradores públicos gastam milhões com publicidade para se promoverem, num verdadeiro desperdício do dinheiro público, Toninho Rebello era avesso a qualquer tipo de promoção pessoal ou de sua administração. Em seu primeiro mandato (1967/70), nem tinha secretaria ou qualquer tipo de departamento para cuidar da comunicação. No segundo mandato, mesmo contra sua vontade, mas muito pressionado pelos assessores, nomeou o radialista Ubirajara Toledo para a área de imprensa. Tio Bira, como era conhecido, por um programa de rádio na ZYD-7, não tinha a menor experiência como assessor de comunicação, mas serviu a Toninho com uma fidelidade canina.
Não que Toninho tivesse qualquer ojeriza aos jornalistas. Ao contrário, era muito amigo de Osvaldo Antunes, diretor e proprietário de "Jornal de Montes Claros". E admirador confesso de Waldyr Senna Batista, secretário de redação do mesmo jornal. Tinha também muito boa relação com Júlio de Melo Franco, diretor do "Diário de Montes Claros", outro por quem nutria grande admiração. "Escreve pra caralho", me disse várias vezes, ao ler editoriais do Diário. Gostava também de um menino (menino mesmo) que começava na imprensa local, e que mais tarde, no Estado de Minas, seria prêmio Esso de Jornalismo: Paulo Narciso. Mas Toninho não dava muita bola para o que os jornais diziam dele ou da sua administração. Geralmente elogios às grandes obras em realização. E, principalmente, à seriedade e honestidade do governo municipal.
Por sinal, estes elogios irritavam Toninho. Várias vezes o ouvi dizer: "honestidade não é virtude. É obrigação. Prefiro que os jornais digam que sou bonito". Aí ficava difícil, pois ele era muito feio, com aquele narigão imenso. Mesmo sem conseguir um tostãozinho de publicidade, os jornais faziam muito mais elogios do que críticas à administração municipal. Toda vez que era procurado, para qualquer tipo de divulgação paga, Toninho vinha sempre com a mesma resposta: "pra que divulgar uma obra que o povo está vendo? É preferível gastar o dinheiro com mais obras. O povo não precisa de publicidade, precisa é de educação, saúde, rua asfaltada, áreas de lazer".
No final do seu primeiro mandato, ele se preparava para inaugurar o Parque Municipal Milton Prates, que ele considerava uma de suas obras mais importantes. Não apenas pelo aspecto de preservação ambiental - naquele tempo ele já se preocupava com o meio ambiente - mas principalmente por se tratar de uma área de lazer para as populações mais pobres. Ele dizia:
- No domingo, os mais privilegiados, ou mais ricos, vão para os clubes campestres, para os cinemas,viajam para as fazendas. Os pobres não têm nenhuma forma de lazer.
O Parque Municipal vai ser uma forma de as famílias menos privilegiadas poderem aproveitar o domingo e os feriados. Não há mais nada sadio e alegre do que um piquenique ao ar livre.
Toninho tinha razão. Até hoje, 40 anos depois, o Parque Municipal Milton Prates continua sendo a melhor forma de lazer para as famílias mais pobres de Montes Claros. Fica cheio aos domingos e feriados, mesmo não tendo sido conservado pelos prefeitos subsequentes da forma como merecia. Ao invés de preservar e aumentar o verde, construíram quadras pavimentadas e até mesmo um ginásio coberto em pleno parque, um verdadeiro atentado ao espírito do empreendimento. E vive, geralmente, em estado de pré-abandono, como se fosse uma obra de segunda categoria. O que se pode fazer? Nem todos têm a visão e o espírito público que eram marcas registradas de Toninho.
Mas voltando à véspera da inauguração do Parque Municipal, para o quê a prefeitura preparava uma grande festa popular. Na época, eu dirigia a revista Encontro, substituindo o grande jornalista e amigo Carlos Lindemberg, que por seu turno substituíra Lúcio Benquerer, Décio Gonçalves, Haroldo Lívio, Konstantin Cristoff e Enoque Sacramento. Isto na década de 60, quando até fazer jornal na cidade era um desafio. Revista, então, e da qualidade de Encontro, era quase um sonho impossível. O certo é que a revista circulou por mais de dez anos, grande parte sob a batuta de Lúcio (um cara fora de série, em todos os sentidos), depois de Lindemberg, ambos verdadeiros heróis em conseguir manter a revista em circulação.
E lá estava eu como diretor da revista, tentando não deixá-la morrer em minhas mãos. E procuro Toninho na prefeitura, para lhe pedir uma publicidade sobre o Parque Municipal.
A revista iria circular no dia da inauguração, com uma grande reportagem sobre a obra. Toninho me olha sério e pergunta: "publicidade pra quê? A obra está pronta e o povo vai conhecê-la no dia da inauguração. Não é a publicidade da revista que vai fazer o povo gostar ou não da obra. Seria um dinheiro jogado fora e você sabe que eu não faço isso".
Tentei argumentar que não era dinheiro jogado fora, que ele estaria ajudando a revista a se manter, o que era bom para Montes Claros, pois a revista era um orgulho para a cidade.
Ele me olhou novamente, sorriu de forma meio sarcástica e disse: "você me convenceu, rapazinho. Realmente é preciso ajudar a revista a se manter. Mas não com dinheiro público.
Pode fazer a tal reportagem, mas tire a nota em meu nome. Se eu gostar do que você escrever, eu pago. Combinado?"
Eu aceitei o desafio. E ele pagou. Do próprio bolso. Ajudou a revista a se manter por mais um tempo. Mas a reportagem, cá prá nós, foi um sucesso. Digna de uma revista da qualidade de Encontro. E que, muito mais, fazia jus às belezas naturais do Parque, com seu lago, sua área verde, suas árvores centenárias, até hoje um paraíso incrustado no meio da cidade, presente que Toninho doou a Montes Claros. E que não existiria hoje, não fosse a sensibilidade social e ambiental de Toninho.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, lançado em Montes Claros na noite de 25 de fevereiro)


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Por Jorge Silveira - 25/2/2015 06:26:17

Televisão: um sonho de Toninho

Mesmo antes de ser prefeito, Toninho Rebello tinha a ideia fixa de trazer o sinal de televisão para Montes Claros, onde muita gente já tinha o aparelho, mas via mais chuviscos do que imagem. Lembro-me que recém-casado, em 1965, eu ia muito à casa de minha sogra, para assistir o programa da "Jovem Guarda", comandado pelo Roberto Carlos, que no ano anterior tinha vindo à cidade para um show no Clube Montes Claros, numa promoção do colunista Márcio Figueiredo, meu amigo e colega de jornal. Eleito prefeito, em 1966, Toninho não mediu esforços, junto com Edes Barbosa, para viabilizar um sinal pelo menos sofrível para os telespectadores montes-clarenses. Por várias vezes, Toninho viajou pessoalmente com técnicos da TV Itacolomi (Edes à tiracolo) tentando descobrir os locais mais adequados para instalar repetidoras que trouxessem uma imagem de qualidade para Montes Claros.
Certa vez, viajei com ele até as proximidades de Gouveia, onde fora instalada uma torre repetidora. Foi uma viagem cansativa, por estradas esburacadas e poeirentas. Toninho tinha posto na cabeça - e quando ele botava algo na cabeça ninguém tirava - que a população de Montes Claros iria assistir a Copa de 1970 pela televisão com imagem de primeira. Não foi fácil - Edes Barbosa que o diga - pois naquela época, manter os links em condições satisfatórias não era tarefa das mais agradáveis. As torres repetidoras (e eram varias) ficavam localizadas geralmente nos picos dos morros mais altos. Chegar até elas era um sacrifício extremamente cansativo. Quando chovia, era quase inviável.
Mas Toninho conseguiu: o montes-clarense pôde acompanhar os jogos da seleção brasileira no México pela televisão, com uma imagem de alto nível. Naquela época, não era todo mundo que tinha o aparelho, que custava o olho da cara.
As casas que possuíam o aparelho ficavam lotadas nos dias de jogos, com amigos e vizinhos se acomodando como fosse possível para acompanhar Pelé, Tostão, Gérson, Rivelino e Cia.
Eu mesmo assisti aos jogos na casa do meu vizinho Clemente Santos, lá na rua Irmã Beata, onde morei durante algum tempo. Clemente dos Correios, como era mais conhecido, era um aficionado do futebol, técnico do juvenil do Ateneu. O Brasil conquistou o tri no México e Montes Claros pôde vibrar com o
título graças à garra de Toninho Rebello e de Edes Barbosa.
Foi uma vitória quase pessoal de Toninho, ainda que ele achasse que era obrigação da prefeitura custear o link que trazia a imagem até os lares dos montes-clarenses.
Há outra história que mostra como Toninho era mesmo meio fanatizado com televisão. Já no final de seu segundo mandato, juntou-se com Elias Siufi, Geraldo Borges, Raimundo Tourinho, José Correa Machado e João Bosco Martins, formou uma sociedade e juntos criaram a TV Montes Claros, que foi ao ar pela primeira vez em 1980 (me socorre Elias, se a data é esta mesmo) e por muito tempo seria uma glória para a cidade. Nenhum deles pretendia ganhar dinheiro com o empreendimento mas apenas realizar um sonho. Elias dirigiu a TV Montes Claros com incrível competência, primeiro como afiliada da Bandeirantes, depois da Globo. Tive o prazer de trabalhar com ele por mais de cinco anos,de 1989 a 1994. Tenho grande admiração por Elias, a quem até hoje chamo de "chefe". Este é outro cara a quem Montes Claros deve muito. Mato grossense, de Campo Grande, mudou-se para a cidade na década de 1960, para comandar a ZYD-7, e daqui nunca mais saiu. Adotou e foi adotado por Montes Claros.
Mas não tenham dúvidas: não fosse Toninho, não teria havido TV Montes Claros. Foi ele, junto com Elias, que embalando o sonho de dar à cidade um canal próprio de televisão, juntou o capital necessário para o investimento, que não era pequeno. Não sei, posso estar errado, mas penso que se Toninho não tivesse morrido, Elias não teria vendido a TV Montes Claros. De qualquer forma, se a cidade chegou um dia a ter um canal próprio de televisão, de um grupo de empreendedores locais - ou seriam sonhadores locais - isto só foi possível pela capacidade visionária de Toninho e de Elias, que acreditaram no sonho e correram atrás. Mas como tem sido ressaltado aqui por diversas vezes, esta era uma das qualidades mais presentes em Toninho Rebello: a persistência com que perseguia os sonhos, especialmente se de alguma forma isto viesse a beneficiar a cidade que ele tanto amava.
Infelizmente, depois que deixou a prefeitura, Toninho sofreu muito vendo os projetos que deixara prontos sendo relegados a segundo plano (ou mesmo engavetados) pelos prefeitos que vieram depois. Várias vezes, bebendo um gole comigo, no restaurante Quintal, do Waltinho, Toninho me confessou que ficava triste por ver que muita coisa boa que projetara para a cidade não seria executada. Tomando sua pinguinha com coca-cola, mistura que ele mais gostava, prognosticava, sem mágoa, mas ressentido: "ao abandonar o projeto viário que deixamos pronto, os prefeitos estão condenando a cidade a conviver com um trânsito impossível num futuro próximo". Ele estava coberto de razão.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lançado na noite de hoje, 25 de fevereiro, no Parque de Exposições, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 21/2/2015 18:51:52
O respeito com o dinheiro público

Se havia uma coisa da qual Toninho Rebello não abria mão, como prefeito, era um tremendo respeito com o dinheiro público. E exigia o mesmo comportamento de todos os seus auxiliares, indistintamente. Mas era ainda mais duro e exigente com aqueles secretários com os quais tinha mais intimidade.
Ou mais afeição. Estes ele tratava como um paizão, pois mesmo sendo um homem geralmente carrancudo, de semblante duro, tinha um coração mole como manteiga com aqueles de quem gostava um pouco mais. Ou muito mais, em alguns casos. Waltinho era um deles. Lourinho (Lourival Alcântara)
era outro. Ambos não tinham diploma, curso universitário, nem indicação política, mas ambos eram dois pés de boi. Não tinham medo de serviço pesado.
- Se eu preciso de que alguma coisa seja bem feita, com presteza, é só entregar para o Waltinho. Ou para o Lourival.
Se tiverem que descer ao inferno para cumprir a ordem, eles descem. Aí, posso ficar descansado, não preciso ficar cobrando. - Não foi nem uma nem duas vezes que Toninho me disse isto. E olha que, constantemente, ele ouvia de outros secretários que não devia confiar muito em Waltinho, pois ele bebia muito. "Por acaso você já o viu bebendo no serviço?", Toninho perguntava aos que falavam mal de Waltinho. "Não? Então deixe ele por minha conta". E era por causa desta confiança que o prefeito tinha nele, que Waltinho nunca o decepcionou. Muitas vezes - e não poucas - ia trabalhar numa tremenda ressaca, mas nunca faltava ao serviço. Sabia que tinha que corresponder à confiança e à amizade de Toninho, por quem tinha grande respeito e admiração.
Certa vez, Toninho estava no gabinete conferindo e assinando algumas ordens de pagamento. Ele não assinava nada, mas nada mesmo, sem conferir, mesmo tendo inteira confiança em Joel (Guimarães, secretário da Fazenda). Eu estava sentado conversando com Guarinello (Expedito, chefe de gabinete) quando, de repente, Toninho vira para Guarinello e lhe pede para chamar o Wanderley (Fagundes, secretário de Serviços Urbanos). Não disse para quê. Wanderley demorou, pois estava fora da prefeitura. Tinha saído com Ciríaco (Serpa de Menezes, secretário de Planejamento), para olhar algum problema na obra da Sanitária (Avenida Deputado Esteves Rodrigues), em construção e que seria a maior obra do segundo mandato de Toninho. Por sinal, para muitos, até hoje a maior obra construída em Montes Claros, que pode ser vista da seguinte forma: antes e depois da Sanitária.
Quando Wanderley chegou, Toninho lhe entregou uma ordem de pagamento e perguntou: "que despesa é esta? Não estou entendendo". Wanderley olhou e logo respondeu: "são as notas da viagem que fizemos a semana passada a Belo Horizonte, para aquela reunião no DER. Toninho parou o que estava fazendo, olhou para o Wanderley, e lhe disse em tom de censura: "na nota do hotel consta uma dose de uísque. Vou mandar o Joel estornar. A prefeitura não tem obrigação de pagar uísque para secretário. Você sabe disso. Se você não pode pagar do seu bolso, então não beba". Wanderley não aguentou e começou a rir. " Ora, uma simples dose de uísque, Toninho, que eu peguei no frigobar, à noite, antes de dormir. Nem me lembrei disso na hora de pagar a conta". Eu e Guarinello, que havíamos escutado a conversa, também achamos graça. Toninho continuou sério, assinando o resto da documentação. Nem deu bola para a explicação de Wanderley.
Ele era assim. Economizava o que fosse possível para o município. Ainda que em certos momentos tivesse que passar uma reprimenda em algum de seus auxiliares, como no caso do Wanderley (outro para quem Toninho tinha muita afeição).
Talvez por isso, o dinheiro da prefeitura tenha rendido tanto em suas duas administrações, época em que a cidade se encheu de obras, isto num tempo em que os recursos eram bem mais escassos do que hoje. E muitas dessas obras estão aí até hoje servindo à comunidade, como a Rodoviária, o Centro Cultural Hermes de Paula, o Parque Municipal Milton Prates, a Deputado Esteves Rodrigues, o Ceanorte, para lembrar apenas as mais importantes na cidade foi Toninho quem construiu. Segundo ele, "para amenizar a temperatura", pois Montes Claros era uma cidade muito árida e quente.
Como bom "mão de vaca" que era, o lago não custou um centavo sequer para o município, pois Toninho conseguiu que ele fosse construído pelo DNOCS, do qual seu secretário de Planejamento, Ciríaco Menezes, era funcionário.
O diretor regional do DNOCS, na época, Luiz Antônio Medeiros, está aí vivo para contar a história. Até porque, sem sua efetiva participação, talvez o lago não existisse. Depois de Toninho, em meus mais de 50 anos de jornalismo, nunca encontrei um homem público que tivesse tanto respeito com o dinheiro do contribuinte. Ao contrário, o que se vê por todos os cantos, em todos os governos, é um tremendo desrespeito com o dinheiro dos impostos, que serve para custear todos os tipos de mordomias, pouco sobrando para o essencial. Com Toninho, mordomia não existia. Nem carro oficial o gabinete do prefeito tinha. Toninho andava no seu próprio carro. Com gasolina paga do próprio bolso. No primeiro mandato, num fusquinha verde; no segundo, num corcel marrom. Difícil de acreditar, mas era assim.
Qual prefeito hoje, mesmo dos municípios mais pobres, não tem um carrão da prefeitura para rodar? Por sinal, a maioria dos prefeitos, tão logo se elegem, a primeira coisa que fazem é comprar um carro dos mais caros para a própria locomoção.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lançado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposições, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 19/2/2015 8:44:04
O nascimento da candidatura única

Antes de Toninho Rebello se tornar prefeito de Montes Claros, eu o conhecia muito pouco, mesmo já militando na imprensa local, onde comecei em 1962. Tinha mais conhecimento com Jaiminho, seu irmão, já que meu sogro, Seimando Sarmento, comprava muito na loja dele (Jaiminho), ali na rua Governador Valadares, na esquina com a Praça Dr. Carlos. Fiquei conhecendo Toninho pessoalmente numa reunião entre produtores rurais, em que ele, Antônio Augusto Ataíde e Roberto Campos fizeram uma palestra com vistas à venda de ações do Frigonorte, que na época estava sendo construído com recursos da Sudene. Se não me falha a memória, isto lá pelos idos de 1965. Seimando fez questão de me apresentar a Toninho, de quem era companheiro de maçonaria e muito amigos. Não estou bem certo, mas me parece que na época Toninho era o presidente do Frigonorte. Alguns anos depois ele seria presidente do Cortnorte.
Sabia, de ouvir falar, que Toninho tinha sido muito importante na instalação da telefônica em Montes Claros, na fundação da Cooperativa Agropecuária e na construção do Parque de Exposição. Era uma das grandes lideranças rurais da região, muito respeitado por todo mundo. Nos meios políticos, seu nome já começava a ser cogitado para uma candidatura a prefeito, para a sucessão de Pedro Santos. Toninho era udenista meio roxo, mas como não tinha militância política, transitava muito bem entre próceres do PSD e do PR, partidos de maior expressão na cidade. Mas com o golpe militar de 1964, já se comentava abertamente que os antigos partidos seriam extintos pelo presidente Castelo Branco, para a criação do bipartidarismo.
Consultado sobre a possibilidade de sua candidatura, que havia sido lançada primeiro pela maçonaria, Toninho não aceitou a princípio. Como não tinha militância política, dificilmente teria condições de derrotar nomes tradicionais como Simeão Ribeiro (ex-prefeito), João Valle Maurício, Alfheu de Quadros, já comentados como possíveis candidatos.
Bateu o pé de que só seria candidato numa candidatura única. A maçonaria entrou no circuito e começou a pressionar para que os partidos se unissem e lançassem Toninho como candidato único. O movimento ganhou força, com o apoio da Associação Comercial e Industrial, que enxergava a necessidade de um prefeito que melhorasse a infra-estrutura da cidade, que começava a receber as primeiras indústrias incentivadas pela Sudene.
Segundo me contaram, o nome de Toninho Rebello como candidato único foi homologado em uma reunião na casa de deba (Hildelberto Freitas), com a presença das principais lideranças do PSD, PR, UDN, PTB. Estavam por lá Cel Lopinho, José Avelino, Dr. Alfheu Gonçalves de Quadros João Valle Maurício, Pedro Santos, João Athayde, José Linhares Dr. Loiola, Geraldo Correia Machado; os deputados estaduais Euler Araújo Lafetá e Artur Fagundes; os deputados federais Edgar Pereira e Luis de Paula, o advogado Carlos Mota políticos. Provavelmente havia mais gente, mas quem nos nos contou na época não se lembrou. O certo é que o nome de Toninho foi aceito por todos, tendo o Dr. Alfheu como candidato a vice. Toninho não estava presente e foi comunicado depois da decisão conjunta.
Interessante como há quase cinquenta anos e quando a política local entre PSD, UDN, PR e PTB era acuradíssima, muito mais do que hoje, todos se juntaram em benefício da cidade, esquecendo as divergências políticas e até pessoais.
Comprovar-se-ia depois que a união seria extremamente benéfica para o município, que em quatro anos experimentaria um desenvolvimento extraordinário. Neste curto período, de 1967 a 1970, Montes Claros deixaria de ser "a cidade da poeira e das muriçocas"- e dizem alguns também das raparigas - para assumir de fato o papel de capital do norte de Minas.
A experiência deu tão certo que seis anos depois a própria população daria seu veredicto: elegeu novamente Toninho Rebello, desta vez em disputa com mais cinco candidatos ( Pedro Santos, Hamilton Lopes, Pedro Narciso, José da Conceição Santos e Aroldo Tourinho). O reconhecimento do povo foi tão grande que Toninho teve mais votos do que os outros cinco candidatos juntos. O mais significativo: pela primeira vez Pedro Santos era derrotado. Pelo próprio eleitorado Toninho foi cognominado de "o candidato positivo".
Foi uma campanha memorável, na qual após cada comício Toninho era carregado nos braços do povo. Ele saberia retribuir: sua segunda administração seria ainda melhor do que a primeira. Transformou a cidade num verdadeiro canteiro de obras, preparando-a para o desenvolvimento que viria com os projetos da Sudene.
Foi uma época única. Daí para frente, Montes Claros nunca viveria outra igual. Saudosismo? Talvez. Mas quase todos que viveram aquela época concordam que em nenhum momento de sua história Montes Claros respirou tanto desenvolvimento. A cidade transformou-se num imenso canteiro de obras. Empresários de fora traziam indústrias para a cidade, com incentivos da Sudene, entusiasmados com a seriedade e competência da administração municipal. O final da década de 1970 e o princípio da década de 1980 foram sem dúvida os anos de desenvolvimento de Montes Claros. Tudo fruto do desprendimento e amor a Montes Claros de lideranças políticas que lá nos idos de 1966, deixando de lado as vaidades e o interesse próprio, escolheram dar ao município uma candidatura única. E como prefeito, um homem acima de qualquer suspeita, o produtor rural Antônio Lafetá Rebello, criador de gado, sem militância política, mas tido e havido como bom gerente e administrador. Confirmaria estas qualidades em seus dois mandatos como prefeito.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lançado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposições, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 15/2/2015 14:25:39

Em quatro anos, a transformação

Tendo sido eleito como candidato único em 1966 (mais adiante contarei como se deu a escolha), o prefeito Antonio Lafetá Rebello tomou posse no início de 1967. Recebeu a prefeitura com salários atrasados em três meses. Pedro Santos, seu antecessor, não se notabilizava pela organização. Era grande medico, humanitário, atendia Deus e o mundo sem cobrar nada e por isso mesmo tinha milhares de votos sem precisar fazer campanha. Quando se elegeu, sucedendo o engenheiro Simeão Ribeiro Pires - o maior tribuno que já conheci - derrotou a dobradinha Maurício e Mário (os médicos João Valle Mauricio e Mário Ribeiro), considerada favoritíssima. Pedro Santos era tão desligado que uma vez foi fotografado, numa solenidade, calçando uma meia preta e outra branca. Não poderia ser um bom prefeito. Não tinha nada de administrador, mas tinha votos, pela grande alma que era. Por sinal, sua desastrada administração foi o motivo mais forte de as lideranças politicas do município optarem por uma candidatura única para sucedê-lo, convergindo para o nome de Antônio Lafetá Rebello. Toninho Rebello assumiu sabendo que ia administrar um pepino formidável. A cidade crescia ao deusdará. E as primeiras indústrias da Sudene chegando. A fábrica de cimento (Matsultur) e o Frigonorte já eram praticamente uma realidade. E quase toda a cidade sem calçamento, sem rede de esgoto sem escolas e postos de saúde nos novos bairros que surgiam. O mercado era tao antigo como a cidade, bem no centro (na praça Dr. Carlos) e ameaçava despencar na cabeça dos usuários. Rodoviária praticamente não existia, era uma coisa horrível e acanhadíssima próxima à Estacão Ferroviária. Era problema e mais problema para ser resolvido e Toninho sabia tudo que iria enfrentar. Mas não era homem de se intimidar. Ao contrário de Pedro Santos, primava pela organização.
Quando aceitou ser candidato, já tinha arquitetado tudo o que iria realizar.
Sua primeira ação, antes mesmo de assumir, foi escolher um secretariado de primeira grandeza, sem nenhuma interferência politica. Na chefia de gabinete, Expedito Guarinello, amigo e de sua extrema confiança. Para tomar conta do cofre, Orlando Ferreira Lima, homem seriíssimo e ex-fiscal de rendas do estado, acostumado com finanças. Para a Educação, outro amigo do peito, Julio Gonçalves Pereira, no qual depositava total confiança. Na saúde, o médico Ildeu Macedo, competente e de família tradicional. Para procurador da prefeitura, a escolha recaiu num jovem advogado, Afonso Prates Correia, privilegiada inteligência (quase um gênio), filho de português (Seu Correia). Mais tarde, Afonso chegaria a Sub-Procurador Geral da República, o que mostra como Toninho enxergava longe. Para a secretaria de obras, considerada primordial para o projeto que pretendia realizar, ele escolheu outro jovem promissor, com pouca experiência, mas que seria "o burro de carga" da administração: Geraldo Magela Maia, humilde, quase invisível, mas que ombreava com Toninho no trabalho incansável. Começava às seis da manhã e só parava já à noite. Almoçava quando dava. Não deixava obra parada por um segundo sequer.
Mas Toninho sabia que apenas um secretariado de primeira era pouco. Ia precisar de muito mais ajuda, pois tinha planos ambiciosos para a cidade. Assim, cooptou para ajudá-lo na área de projetos o jovem arquiteto José Correa Machado, da Construtora Casa Grande, que seria de inestimável colaboração na realização das obras da prefeitura, mais como um consultor. Foi o projetista do Centro Cultural. Machado ajudou Toninho inteiramente de graça, sem nunca receber um tostão. Mas se projetou muito e mais tarde se elegeria vereador e também secretário do prefeito Jairo Ataíde. Foi também presidente da Sociedade Rural de Montes Claros. Pouca gente sabe, mas Machado era o candidato escolhido por Toninho para sua sucessão, em seu primeiro mandato. Ele acabou não aceitando, pois além da Construtora Casa Grande, estava envolvido na implantação da SIOM, fábrica de óculos e de material óptico, com recursos oriundos dos incentivos fiscais da Sudene. E também previa que derrotar Pedro Santos seria tarefa quase impossível.
No programa de obras idealizado por Toninho, o carro chefe era a implantação de aproximadamente 200 quilômetros de asfalto em ruas da cidade sem nenhuma pavimentação, começando pela área central, que regorgitava de poeira na seca e de lama na chuva. Depois avançaria para os bairros, todos, sem exceção, sem pavimentação. Todos os Santos, São José, Vila Guilhermina, Santo Expedito, Alto São João, Funcionários, Cândida Câmara, Jardim São Luiz, Vila Brasília, Vila Ipê (hoje Edgar Pereira), Morrinhos, todos seriam asfaltados. Para bairros mais distantes, como Santos Reis, Três Pilastras, Delfino, Santo Antônio, Eldorado e outros, seriam asfaltadas as vias de acesso. Era muito asfalto previsto para muito pouco tempo. Toninho, então, motivou um grupo de empresários da cidade a formar a Pavisan, para disputar as muitas licitações que haveria nesta área de asfaltamento. A idéia deu certo e os engenheiros Jamil Habib Curi, Evanildo Guedes Fragoso, José Correa Machado, formaram a Pavisan, que seria responsável por grande parte dos serviços de asfaltamento realizados na primeira gestão de Toninho.
Mas a primeira grande obra de Toninho, tão logo se elegeu, pouca gente se lembra. Foi a construção de rede de esgoto e águas pluviais em toda a área central da cidade. Ruas como Dr. Santos Dr. Veloso, Camilo Prates, Afonso Pena, Presidente Vargas, Simeão Ribeiro e outras não possuíam rede de esgoto. Eram fossas em todas as casas. Antes mesmo de assumir, Toninho negociou com a DNOCS para que as obras fossem realizadas por aquele órgão federal. Muito amigo de Joaquim Costa, que era diretor regional do órgão na época, e com o apoio do deputado Edgar Pereira, em Brasília, conseguiu que o governo federal, através do DNOCS, realizasse toda a obra, com custo zero para a prefeitura. Foi sua primeira grande vitória poucos meses depois de assumir. Sem alarde, sem qualquer publicidade - a não ser a gratuita dada pelos dois jornais da cidade - mas com um trabalho sério e planejado, em seu mandato Toninho Rebello mudou completamente o aspecto urbanístico de Montes Claros. A cidade ficou pronta para receber as indústrias da Sudene. E recebeu dezenas. Mas isto é outra história, que deixo para historiadores mais competentes.
Além de asfaltar praticamente toda a cidade com asfalto de primeiríssima qualidade, de implantar a rede de esgoto e de águas pluviais em toda a área central, Toninho construiu dois novos mercados municipais (um na rua Joaquim Costa/esquina com Belo Horizonte, outro na rua Melo Viana), o Parque Municipal Milton Prates (com sua avenida de acesso), várias escolas e postos de saúde na cidade e na zona rural, tudo isso em apenas quatro anos. E entregou para seu sucessor Pedro Santos, uma prefeitura organizada e com alguns milhões em caixa. Fato que repetiria em 1983, quando transferiu a prefeitura para Tadeu Leite, que recebeu uma administração municipal enxuta e com o cofre abarrotado de dinheiro. Ao contrário da maioria dos prefeitos, Toninho conseguia não apenas realizar muito, mas também economizar como poucos.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lançado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposições, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 10/2/2015 14:25:54

Palavra do autor

Quando resolvi colocar no papel as memórias dos dois mandatos de Antônio Lafetá Rebello como prefeito de Montes Claros (1967/70 e 1977/82), minha intenção foi perpetuar a gestão daquele que considero ter sido o maior administrador público da história do município. Opinião compartilhada quase por unanimidade por quase todos que viveram as décadas de 1960/1970 na cidade. Como jornalista, vivi intensamente estes dez anos de frenética movimentação administrativa, onde as obras se sucediam como num turbilhão.
Toninho Rebello, como era conhecido, transformou a Montes Claros provinciana da década de 1960 na verdadeira capital do norte de Minas. Construiu as maiores obras que até hoje existem na cidade, como o Terminal Rodoviário, o Centro Cultural, o Parque Municipal, o Ceanorte, a Avenida Deputado Esteves Rodrigues, a Avenida Mestra Fininha (de acesso ao Parque) e outras menos lembradas, mas também muito importantes, como toda a rede de asfalto, de primeiríssima qualidade, que implantou em toda cidade, e quase uma dezena de praças, como a Wanderley Fagundes, a Itapetinga, a Flamarion Wanderley e outras.
Como conheci muito bem apenas o Toninho Rebello administrador e político, convidei sua sobrinha, professora emérita e escritora, Ivana Ferrante Rebello, para compartilhar comigo estas memórias, cabendo-lhe mostrar aos leitores como foi e o que foi o Toninho pai de família, o Toninho irmão, o Toninho filho de seu Jaime, o Toninho avô, enfim, o homem em todas as suas características e princípios familiares. Acredito que juntando as memórias de Antônio Lafetá Rebello a quatro mãos, teremos um retrato bem aproximado daquele que, em quase todos os sentidos, foi e continua sendo o paradigma de alguns conceitos tão em desuso nos dias atuais como austeridade, ética, honra, honestidade, amizade, cidadania e patriotismo.
Como político e administrador, sei que Toninho Rebello ainda hoje seria ave raríssima na nossa fauna política. Se no cenário político nacional houvesse pelo menos uns 20% de homens com ele, provavelmente o conceito do cidadão em relação à classe política seria outro. E se o dinheiro público fosse administrado da forma como Toninho o fazia, no mínimo o país estaria em outra posição no “ranking” das nações emergentes. No caso de Montes Claros, se os prefeitos que vieram posteriormente tivessem seguido um mínimo dos conceitos administrativos deixados por Toninho, certamente a nossa cidade estaria em muito melhor condição, não esse desastre administrativo com o qual convivemos diariamente.
É bom deixar claro que tudo relatado nestas memórias são fatos verídicos. Não existe romance ou ficção. Se houver algum erro de data ou de nome, desde já me penitencio e peço desculpas, pois tudo aqui narrado foi escrito de memora ( que pode eventualmente falhar). Como jornalista e repórter do “Diário de Montes Claros”, vivi de dentro da prefeitura e do convívio com Toninho, os dez anos em que ele administrou o município. Foram dez anos dos quais extraí uma lição importantíssima: por mais bem feito que se faça qualquer coisa, só se chegará próximo da perfeição se tudo for feito com amor, com muito amor. A administração de Toninho foi quase perfeita por suas várias qualidades, mas antes de tudo e muito mais pelo amor que ele tinha por Montes Claros. Era um amor que ultrapassava todos os sentidos, chegando a ser mesmo compulsivo em alguns momentos. Mas foi exatamente esta compulsão que fez da administração de Toninho a maior de todas que se viu em Montes Claros no últimos 50 anos ou mais. Mas é melhor deixar para os leitores, especialmente os que não conheceram Toninho Rebello e que não viveram aqueles dez anos de intensa euforia administrativa, a análise e o julgamento do homem e do político Antônio Lafetá Rebello. Há ainda vivos muitos políticos que viveram e compartilharam das administrações de Toninho Rebello, como Pedro Narciso, Aristóteles Ruas, José da Conceição Santos, Iran Rego, Deosvaldo Pena, Júlio Gonçalves Pereira, Humberto Souto, Carlos Pimenta, Cláudio Pereira, Augusto Vieira (Bala Doce) e outros. Todos citados foram ou são políticos. Alguns como Júlio e Iran, secretários municipais de Toninho, um na primeira administração, o outro na segunda. Augusto Vieira líder de Toninho na Câmara Municipal. Mas todos, sem exceção, foram testemunhas do que era Toninho e do que foram suas duas administrações. Poderão avaliar (ou não) tudo o que é relatado nesta obra.
Quanto ao Toninho homem, ao Toninho família, acredito que os leitores não poderiam estar em melhores mãos do que estando com Ivana Rebello. Ivana é das pessoas mais cultas e mais inteligentes que conheci e conheço. Estou certo de que os leitores irão se extasiar com sua prosa agradável, com suas análises corajosas, com seu texto perfeito. Sei que muito mais do que completar, ela engrandecerá estas memórias. Sinto-me orgulhoso de tê-la ao meu lado, resgatando para Montes Claros e seu povo a história daquele que foi um dos maiores montes-clarenses de todos os tempos, exemplo de administrador, de político e de homem de família. Um outro Juca Prates ( ou mais um) no amor à sua terra. Desejamos, Ivana e eu, que além de resgatar a memória de Toninho Rebello, ela sirva de parâmetro para outros prefeitos. Desejamos que o respeito ao dinheiro público, a organização administrativa, a visão de futuro e o acendrado amor a Montes Claros, marcas registrados de Toninho Rebello, possam orientar os nossos próximos administradores.
Para que assim a cidade possa ter prefeitos mais conscientes de que a prefeitura não deve nunca ser acesso ou trampolim para interesses pessoais ou políticos. Mas sim, e unicamente, uma forma, a melhor forma, de dar aos cidadãos que aqui vivem e criam seus filhos uma melhor qualidade de vida.

(Extraído do livro "Toninho Rebello, o Homem e o Político", de Ivana Rebello e Jorge Silveira, a ser lançado na noite de 25 de fevereiro, no Parque de Exposições, em M. Claros)


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Por Jorge Silveira - 10/6/2008 13:43:35
O TIME DO SOÇAITE
JORGE SILVEIRA

No início da década de 60 em Montes Claros, em certo momento, o "footing" da Praça Cel. Ribeiro foi transferido para a Praça de Esportes, com a realização de um campeonato de futebol de salão que mobilizou toda a juventude da cidade. Nos dias de jogos, a praça ficava lotada. Não existia ainda o Ginásio Darcy Ribeiro e os jogos eram realizados em duas quadras a céu aberto.
Um dos motivos que levaram as garotas a transferirem o tradicional "footing" da Praça Cel. Ribeiro para a Praça de Esportes foi o time do Soçaite, que o Mimi resolveu formar para disputar o campeonato. Do pessoal de sua turma, ele e o Quinquinha eram os únicos que jogavam um futebol decente. O resto era tudo perna de pau. Ele então enxertou no time o Pindoba, irmão do Márcio Milo e na época goleiro do Ateneu, e formou a zaga com Fernando Etiene e Geraldo Renam (este também irmão do Márcio). Na frente jogava ele próprio, o Mimi, e o Quinquinha (que já tinha sido jogador do Cassimiro e era bom de bola). Na reserva, o Waldyr Aguiar, Agnaldo Drumond e o Márcio Milo, que entravam em todos os jogos, pois como a turma era do gole, cansava fácil.
O time era ruim de fazer dó, apesar de o Pindoba operar milagres no gol. Perdia para todo mundo. Mas deixava a mulherada em êxtase total. Era interessante como um time que não ganhava de ninguém, tinha a maior torcida do campeonato. E a mulherada ficava o tempo todo gritando os nomes do Waldyr, do Agnaldo e do Márcio, que geralmente estavam no banco de reservas. E o Mimi era obrigado a colocá-los, para atender às fanáticas torcedoras. Edvar Ró-Ró, Hélcio e eu, que não jogávamos bola, servíamos de técnicos. Ficávamos de fora, gritando com a turma de dentro.
Nos intervalos, Márcio, em vez de água, bebia "cuba libre". Agnaldo, "Hi Fi". Mimi dava-lhes aquela bronca, mas eles diziam que era para botar energia nas veias. Como na época eu era repórter esportivo do "Diário de Montes Claros", o Socaite, apesar de toda a sua ruindade, tinha sempre uma notícia de destaque no jornal. Na coluna social do Lazinho Pimenta, então, nem se diga. Era notinha obrigatória. O Lazinho era também torcedor entusiasmado do Soçaite e na arquibancada comandava a mulherada.
Mas o time só teve fôlego para um campeonato. A turma logo cansou e deixou o Mimi na mão. Na verdade, o pessoal gostava mesmo era de festa. E naquela época, com os vários clubes volantes existentes (o IT, o Gardênia e o Social Figueira), festa é o que não faltava em Montes Claros. Como dizia Agnaldo, com sua verve: "viriá é muito melhor do que ficar correndo atrás de bola". Viriá era uma palavra que a turma usava e que significava "juntar as virilhas". Quando a gente ia dançar, dizia que ia" viriá". Quem inventou a expressão, se não me engano, foi o Carlos Peres, numa festa em Coração de Jesus. A certa altura, ele levantou da mesa e disse "acho que vou viriá". E foi dançar. E a expressão pegou para sempre.
O time do Soçaite durou pouco, mas marcou época em Montes Claros. Quem foi jovem no início da década de 60, naturalmente deve se lembrar dele. Timaço, de bola, era a Fadir. Ou o time do Banco Hipotecário. Mas o time das garotas mais bonitas de Montes Claros era, sem dúvida, o Soçaite. Que de bola entendia pouco, mas que esbanjava charme e beleza nas arquibancadas. E com uma torcida daquela, será que era preciso jogar bola?


35842
Por Jorge Silveira - 5/6/2008 12:10:42
Este mural é de fato uma das melhores coisas da imprensa de Montes Claros, pois além de ser porta-voz das reivindicações da população, é recanto de cronistas, poetas e escrevinhadores sem muito talento, como é o nosso caso. Mas antes de tudo, este espaço serve como relicário único da história de Montes Claros, através daqueles que viveram tantas coisas boas que a cidade já proporcionou a seus filhos. Agora mesmo, em função de algumas reminiscências que andei contando neste espaço, fico sabendo que Élcio Teixeira e Waldyr Aguiar estão vivíssimos, o primeiro morando em Belo Horizonte e o segundo em Araxá. Há muitos e muitos anos não os vejo,pois infelizmente a vida tem dessas coisas, separa as pessoas, deixando apenas as lembranças. Mais feliz é a turma do Gerinha Português, pois como nos conta o nosso grande cronista Augusto Bala Doce Vieira, ela ainda se reune para rememorar as histórias da adolescência, pura adolescência dos bons anos 60 em Montes Claros. E você tem toda razão, Augusto, naquela turma do Mimi todo mundo já trabalhava, até porque todos eram mais velhos do que vocês da turma do Gerinha. Mas de uma forma ou de outra, com lambreta ou sem lambreta, participando ou não das "Festas da Cueca", o importante é que todos nós tivemos uma juventude feliz e repleta de bons momentos, numa Montes Claros sem violência e onde todos se conheciam e eram amigos. E por isso, todos nós nos demos bem na vida, podendo hoje, de cabeça erguida, olhar com orgulho o nosso passado. E contar as nossas histórias daqueles tempos em que "éramos felizes e não sabíamos". Será que não sabíamos?


35793
Por Jorge Silveira - 3/6/2008 17:05:27
CANDELABRO ITALIANO
JORGE SILVEIRA

Se as motos hoje são motivo de medo, desconfiança e apreensão por parte de motoristas e comerciantes, pois em Montes Claros são a principal arma de trabalho de bandidos e marginais, na década de 60 as lambretas e vespas eram sinal de glamour e de requinte para a rapaziada. Embalada pelo sucesso do filme "Candelabro Italiano" e pelo romance de Troy Donahue e Suzane Plesethe pelas lindas paisagens da Itália, a juventude montes-clarense se embevecia com as lambretas rodando pelas ruas da cidade.

Se não me falha a memória, a primeira lambreta (ou vespa) a rodar em Montes Claros no início dos anos 60 foi uma de Waldir Aguiar, que era considerado pelas moças da época um dos partidos mais interessantes da cidade. Ele fazia parte de uma turma que vivia nas crônicas do Lazinho Pimenta, formada pelo Mimi (Hamilton Didier Guimarães), Agnaldo Drumond, Márcio Milo, Edvard Ró-Ró, Élcio Teixeira e Quinquinha. Quando a lambreta virou "grife" no país, Mimi e Agnaldo também compraram uma. À noite, no "footing" na Praça Cel. Ribeiro, eles encostavam as lambretas em frente à casa do Sr. Ladislau Braga e ficavam escorados nos assentos, fazendo pose para as garotas que em grupos rodavam a praça. Era o máximo!

Em uma de suas crônicas, Augusto Vieira Neto, o nosso Bala Doce, relembrou a turma do Gerinha Português, formada basicamente pelo Saulo, Odorico, Lindolfo, Marco Antônio, José Augusto e Fernando Thomaz, e que se reunia ali em frente ao antigo Clube Montes Claros, hoje Conservatório Lorenzo Fernandez. Já a turma do Mimi, tinha como local de encontro, após o "footing" na Praça Cel. Ribeiro, o restaurante da Madame, o Mangueira, ali na rua Dr.Santos. Impreterivelmente, depois das 11 da noite, a turma estava lá, bebendo "cuba libre" e jogando conversa fora. Quase sempre, a noite iria terminar na casa da Leobina, onde o mulherio era de primeira. E aí as lambretas ajudavam, pois a casa da Leobina ficava longe, muito longe para os padrões da época.

O único mecânico de lambreta (ou vespa, como preferiam alguns) na década de 60 na cidade era o Osmarzinho, que mais tarde ficaria rico com a "Motosmar". Por sinal, ele é o principal responsável por este verdadeiro congestionamento de motos que se vê nas ruas de Montes Claros. Vendeu moto para Deus e o mundo. Acredito que ele mesmo não imaginava nunca que o romantismo que cercava as lambretas de antigamente (ele também teve uma) se transformaria nesta loucura de hoje, com a moto servindo de arma para bandidos e assaltantes.

O que mais marcou a época das lambretas em Montes Claros foi a "Festa das Cuecas", que Mimi realizava toda passagem de ano em sua casa, aproveitando que sua família viajava para Alagoas, para visitar parentes. Para entrar na festa, tinha que chegar de vespa, com uma garota na traseira. Como se vê, a festa era muito selecionada, pois eram poucos os que tinham vespa na cidade. E também não era qualquer garota que tinha coragem de comparecer, pois como o próprio nome da festa indicava, lá pelas tantas, com todas na cabeça, a rapaziada tirava a calça e ficava só de cueca. Os tempos eram outros e as meninas ficavam com medo de ficar "faladas".

A turma do Gerinha, que não tinha lambreta, só ficava sabendo por alto o que se passava na "Festa da Cueca". E babava de inveja, ao ler a notícia na crônica do Lazinho. Que por sinal era o único que não tinha lambreta com autorização para participar daquele que era o réveillon mais particular (e mais invejado) da cidade. Fora eu, que também tinha lambreta, ainda estão vivos aí para contar o que se passava naquelas festas, o próprio Mimi, que mora hoje em Maceió, e o meu bom amigo Márcio Milo. E se não estou enganado, o Edvard Ró-Ró, que é médico e reside em Uberlândia, segundo me disseram. Passados quase 50 anos, acredito que o pacto que todos tinham de não contar nada, mas nada mesmo, para preservar a reputação das garotas, já deve ter caducado.


34927
Por Jorge Silveira - 5/5/2008 18:17:05
Esta indagação feita pelo sr. Eduardo, mensagem 34.921, à prefeitura municipal, sobre a destinação de 600 mil reais para a realização do Carnamontes, deveria ser feita pelos nossos dignos vereadores, pois a eles cabe fiscalizar as ações do executivo. Como até hoje não houve resposta à indagação, feita há quase 30 dias atrás - e agora repetida - supõe-se que seja verdadeira. E neste caso, o município estaria destinando recursos públicos para um evento onde os lucros são destinados para empresas privadas. Meio esquisito, não? Já que a prefeitura não se digna responder a dúvida de um cidadão-contribuinte, aqueles poucos vereadores independentes deveriam cobrar de forma oficial uma resposta do sr. prefeito. Até por educação, qualquer cidadão deveria ser tratado com maior respeito pela municipalidade, pois afinal é a população que paga os salários do prefeito e de seus assessores. E é um direito de qualquer cidadão solicitar esclarecimentos sobre a destinação dos recursos da municipalidade. E é obrigação da prefeitura prestar contas à população. Quem prega tanta transparência na publicidade oficial, não precisaria nem ser cobrado naquilo que deveria ser um hábito do sr. prefeito e assessores: prestar contas de seus atos aos contribuintes. Quem exerce cargo público precisa estar consciente, sempre, que seu patrão é o cidadão, que paga impostos e sustenta o governo, seja federal, estadual ou municipal.


34909
Por Jorge Silveira - 5/5/2008 12:58:44
Atendendo o pedido do cronista montes-clarense José Prates, radicado hoje no Rio de Janeiro, a quem leio sempre com prazer, algumas pequenas informações sobre Janaúba, que completa 60 anos de emancipação político-administrativa agora em 2008. A cidade cresceu tanto, a partir da década de 80, com a implantação do Projeto de Irrigação do Gorutuba, que, provavelmente, o cronista José Prates não conseguirá mais reconhecê-la. Janaúba deve ser hoje o terceiro maior município da região, em população e em arrecadação, só perdendo para Montes Claros e Pirapora. Aquela Janaúba que José Prates conheceu não existe mais. Transformou-se quase numa pequena metrópole, grande produtora de frutas, especialmente banana, e bonito pólo turístico, com a barragem do Bico da Pedra, construída pela Codevasf, empresa pública federal com sede em Montes Claros. Janaúba tem também uma das pecuárias mais fortes da região e sua exposição agropecuária só perde na região para a de Montes Claros. Como pode notar, caro cronista José Prates, assim como ocorreu com a nossa querida Montes Claros, também Janaúba foi descaracterizada pelo progresso. Não existe mais o bucólico povoado surgido com a Estação da Central do Brasil e que se resumia em algumas pequenas ruas que desaguavam na Praça Dr.Roquete Azevedo (se não estou enganado, este é o nome da Praça). Janaúba é hoje uma cidade de médio porte, progressista e forte na agricultura, na pecuária e no comércio. E abriga um grande frigorífico, antigo Frigodias, hoje Independência, que abate 1.100 cabeças de gado por dia. Esta a Janaúba que você verá hoje, caso resolva retornar para revê-la.


34148
Por Jorge Silveira - 16/4/2008 18:27:21
As estatísticas da polícia podem até mostrar o contrário, mas parece que o aumento dos assaltos ocorre proporcionalmente à diminuição das blitzes contra os motoqueiros. Nos últimos dias parece que a polícia entrou de férias, não se viu blitz em lugar algum da cidade, e, por consequência, os assaltos aumentaram. Só no final de semana, foram quatro assaltos a postos de combustíveis. E os bandidos, sempre de moto, que é hoje a principal arma dos assaltantes. A polícia não pode abrir a guarda um instante sequer e as blitzes têm que ser diárias, sempre em locais diferentes, para intimidar aqueles que se aproveitam da negligência policial para praticar pequenos e grandes furtos, deixando a população da cidade apavorada, com justa razão. Para a cidade dormir tranquila, a polícia tem que estar sempre acordada e alerta. Qualquer cochilo, é uma festa para os bandidos. E assim, Montes Claros vai só subindo no ranking das cidades mais perigosas do estado. Será que o nosso desenvolvimento, tão cantado e decantado por alguns, tem valido a pena?


32999
Por Jorge Silveira - 12/3/2008 07:28:39
Tornou-se inviável operar com o Banco do Brasil depois que a instituição assumiu o pagamento do funcionalismo do estado. Não se consegue mais fazer nenhuma operação em qualquer das agências na cidade sem se perder de 30 minutos a uma hora. Quando a espera não é ainda maior. É um absurdo que o banco não tome nenhuma providência, na maior desconsideração com os clientes. E o pior de tudo é que na maioria das vezes há terminais com defeito, tornando a situação ainda mais desgastante. Independentemente do registro de queixas por parte dos cidadãos, o Procon deveria agir junto à instituição, exigindo que o banco melhore o atendimento, já que a situação é visível a olho nu. E são milhares de pessoas prejudicadas, que não têm a quem recorrer. Ou o banco aumenta a quantidade de terminais nos caixas-eletrônicos, ou abre mais agências na cidade, dando maior opção a seus clientes. Da forma que está é que não pode continuar, pois é um desrespeito e uma desconsideração com as pessoas.


32321
Por Jorge Silveira - 26/2/2008 07:52:39
Vendo a foto da antiga Praça Dr. Carlos e lendo a maravilhosa crônica de Ruth Tupinambá, bate uma enorme saudade da Montes Claros antiga, quando se podia jogar conversa fora à noitinha na porta das casas. Hoje, quem correr este risco, pode se dar muito mal, pois os bandidos andam soltos por toda a cidade. Apenas como esclarecimento, é bom lembrar que a derrubada do antigo mercado, de saudosa memória, ocorreu na administração do ex-prefeito Toninho Rebello, sem dúvida um dos maiores administradores da história do município, senão o maior. Ele optou pela derrubada do antigo mercado como única forma de transferir do local antigos comerciantes que insistiam em permanecer na velha construção, apesar de a prefeitura ter construído um novo mercado nas proximidades da Praça de Esportes (quem não se lembra dele, uma beleza de mercado quando inaugurado em 1967, se não me engano? Talvez a derrubada do velho mercado na Praça Dr. Carlos tenha sido um dos poucos erros do ex-prefeito Toninho Rebello, que poderia ter tombado o imóvel e construído ali o museu de Montes Claros. Se isso tivesse feito, hoje seria ainda mais lembrado, e com mais saudade. E talvez a praça Dr. Carlos não teria se transformado naquele monte de concreto!


31888
Por Jorge Silveira - 13/2/2008 18:08:01
Lideranças rurais se reuniram ontem no Parque de Exposições João Alencar Athayde para tratar do problema que está deixando produtores à beira de um ataque de nervos: a mais forte seca que já se viu na região nos últimos 50 anos. As conclusões do encontro foram óbvias e já alertadas aqui deste mural: o governo até agora não se lixou para o problema e o norte de Minas corre o risco de se transformar num cemitério de bovinos a partir de junho/julho. O presidente dos sindicatos rurais da região, Júlio Gonçalves Pereira, prevê que morrerão mais de 500 mil reses, caso perdure a situação atual, de falta de chuvas e de completa omissão dos governos federal e estadual. Já o presidente da associação dos irrigantes do norte de Minas, Orlando Pereira, pede o que também já foi alertado daqui: ou o governo concede energia elétrica mais barata para os produtores rurais da região, ou quem tiver irrigação vai ter que parar. Deve-se, neste caso, atentar para um detalhe importante: nesta época, ou melhor, desde novembro, o normal seria os irrigadores estarem mesmo parados, por causa das chuvas. Mas como praticamente não choveu, quem pode vem irrigando suas lavouras para não perdê-las. Só que nos meses nos quais a conta da Cemig deveria vir zerada, representando uma economia para os produtores, isto não está acontecendo. A fatura, altíssima, continua chegando. E como a situação, a cada dia que passa vai ficando mais angustiante, pois a natureza tem um ciclo do qual não adianta querer fugir, os produtores sabem que quando o governo resolver se mexer, vai ser tarde demais. Se prorrogar dívidas e abrir novos financiamentos ajudaria há dois meses atrás, hoje já não resolve muito. Se financiar plantio de cana e capineira há 60 dias atrás teria sido uma grande ajuda, hoje está quase inviável. Se uma revisão para baixo nas tarifas da Cemig e no ICMS também poderia ter sido um estímulo antes, hoje ajuda mas não resolve. Ou seja, o governo deixou a situação chegar a um ponto tal em que até as soluções vão ficando cada vez mais difíceis. Falta de alerta não foi, pois o assunto vem sendo tratado pelas lideranças rurais com os governos desde o mês de novembro. Mais uma vez confirma-se a sina do norte de Minas e uma das razões de seu atraso: os governos ignoram completamente a região, mesmo quando a situação é desesperadora como agora. E nossos políticos, Deus me livre... o jeito é apelar mesmo para São Pedro!


31854
Por Jorge Silveira - 12/2/2008 20:59:05
O Banco Itaú divulgou hoje o seu lucro em 2007: mais de oito bilhões de reais, o maior de toda a sua história. Suplantou, inclusive, o Bradesco, que na semana passada também havia divulgado um lucro acima dos oito bilhões. No entanto, o governo Lula faz questão de se colocar como "o governo dos pobres". Paradoxo difícil de explicar: no governo dos pobres, os bancos têm lucros estratosféricos, ganhando dinheiro como nunca ganharam em toda a existência. Por sinal, o lucro líquido do Itaú e do Bradesco foi mais do dobro do que o governo gasta no ano com o Bolsa Família (ou bolsa esmola). Governo do pobre ou dos ricos? Cada um analise como quiser.


31710
Por Jorge Silveira - 8/2/2008 13:13:07
Há poucos dias, aqui deste mural, comentávamos sobre como as contas da Cemig inviabilizam a agricultura e a pecuária para o pequeno e o médio produtor no norte de Minas. Quando vem a seca - e ela sempre vem - o jeito é se conformar em perder tudo, pois não há como irrigar ou ligar um desintegrador para moer cana, pois quem isto fizer cai nas garras da Cemig e em pouco tempo estará virtualmente quebrado. Mas vendo agora a situação da Coteminas, é de se concluir que não apenas a agropecuária sofre com o alto preço da energia cobrada em Minas. Também a indústria ressente do mesmo problema. Sinal evidente de que há alguma coisa errada neste circuito. Não é possível que uma empresa da qual o Estado é um dos maiores acionistas, se transforme na vilã do sistema produtivo. Acrescente-se que o próprio Estado, em sua gana arrecadadora, também contribui - e muito - para esta situação, pois ainda acresce as contas de energia com um alto percentual de ICMS. Enquanto isso, caros leitores deste mural, nossos deputados se preocupam com o próprio umbigo!


31364
Por Jorge Silveira - 28/1/2008 20:35:52
Vejam só a qualidade dos serviços realizados pela prefeitura: pela manhã, taparam com asfalto uma grande ondulação que existia na avenida Herlindo Silveira, principal via de acesso ao bairro Ibituruna. À tarde, as chuvas que caíram (e não foi nenhum temporal)se encarregaram de destruir todo o serviço realizado pela manhã. Ou seja: o dinheiro gasto escorreu pelo ralo em menos de seis horas. É dessa forma que empregam o dinheiro do contribuinte. Lamentável.


31299
Por Jorge Silveira - 26/1/2008 11:35:02
A chuva ameaça, ameaça, e não cai. Os institutos de metereologia estão ficando desmoralizados, pois anunciam que vai chover, mas as chuvas acabam ficando só na esperança do produtor rural norte mineiro. E o problema da seca é muito pior do que autoridades e mesmo a imprensa estão imaginando.Depois de quase nove meses sem chuvas, no ano passado, quando a região viu morrer cerca de 160 mil cabeças de gado, o período que deveria ser de chuvas e de recomposição das pastagens e das lavouras, não se concretizou. Não choveu praticamente nada em novembro/dezembro e janeiro foi ainda pior. As lavouras de milho, sorgo, feijão e cana se perderam. As pastagens não se recuperaram e o pouco que brotou o gado está comendo. Não vai haver nenhuma reserva para o período de seca propriamente dito, que seria a partir de junho/julho. A região tem oito deputados estaduais e dois ou três federais que, infelizmente, não conseguiram que os governos movessem uma palha em qualquer tipo de ação que pudesse amenizar a situação futura, que vai ser dramática. O plano de emergência anunciado pelo governador Aécio Neves mostrou-se completamente inócuo (como bem frisou o jornalista Waldyr Senna Batista neste mural). De que adianta distribuir sementes se não há chuvas? Recomposição de dívidas é bom para quem deve e não pode pagar, mas não mata a fome do gado nos pastos sem capim. A continuar como está, sem nenhuma providência realmente efetiva do governo, o norte de Minas vai virar um imenso cemitério de bovinos, dentro de mais alguns meses, pois vai faltar comida e água para o gado.Quando isso começar a acontecer, aí talvez nossos dignos representantes resolvam acordar da inércia em que se encontram até agora. Mas será tarde demais. Infelizmente.


31187
Por Jorge Silveira - 23/1/2008 14:10:55
A mensagem da professora Lourdes, de nº 31151, é de uma singeleza de cortar o coração de todos os montes-clarenses que amam seu torrão natal. E que vêem sua cidade se descaracterizando a cada dia, perdendo pouco a pouco sua identidade, como no caso da avenida Cel. Prates. E o que a professora pede, em tom quase de súplica, é apenas o direito de conhecer o projeto que a prefeitura pretende implantar na Praça Dr. Chaves, para que não ocorra o mesmo que aconteceu com a Praça Dr. Carlos, que o ex-prefeito Jairo Ataíde transformou em um monte de concreto. O prefeito Athos Avelino, que fala tanto em administração participativa, deveria discutir primeiro com a comunidade o projeto que será implantado na Praça da Matriz, como pede a professora Lourdes. Evitando, assim, quem sabe, mais um atentado contra a identidade e a tradição de uma Montes Claros que aprendemos a amar, mas que nossos administradores aos poucos vão cuidando de destruir, em nome de um dito progresso que nem todos gostariam de usufruir. A praça Dr. Chaves, centenária, na qual Nelson Viana passeava todos os dias, que abriga o Palácio Episcopal, a Igreja Matriz e o Solar dos Oliveira, alguns poucos marcos que ainda restam de nossa história, não pode perder nunca suas características. Não custa discutir o projeto com a comunidade, antes que se cometa novo crime contra a cidade!


30854
Por Jorge Silveira - 12/1/2008 10:48:54
Impressionante como as pessoas que viveram a Montes Claros de ontem (20,30 anos atrás)sentem uma certa nostalgia dos tempos passados. Há bem pouco tempo a cidade era um local bom de se viver. Não havia violência, drogas era coisa da qual só se ouvia falar nos grandes centros (ou nos filmes de Hollywood, como em "easy river"), a nossa juventude aproveitava a vida de forma sadia - o máximo que se fazia era fumar e beber uns cubas libres de vez em quando. Nossos jovens passavam grande parte do tempo (quando não estavam na escola) na Praça de Esportes, onde o mestre Sabu ensinava natação e basquete. Cassimiro e Ateneu tinham grandes times e o futebol no domingo era quase uma obrigação. Naquela época exportávamos grandes jogadores, como Manoelzinho, Jomar, João Batista, Manoelito, Chinesinho, Nuno e muitos outros. Não precisávamos de escolas particulares, pois a Escola Normal ministrava um ensino de primeira qualidade, com professores excepcionais, como José Márcio de Aguiar (Português), Francolino (Ciências), João Luiz de Almeida Filho (Matemática), Pedro Santana (História), Terezinha Guimarães (Francês), Dona Jane (Inglês)e Dulce Sarmento (Música), para lembrar de apenas alguns, pois havia mais uma infinidade de ótimos mestres. Nossos políticos tinham o "status" de um Toninho Rebello, um João Valle Maurício, um Mário Ribeiro,um Cândido Canela, um Pedro Santos (que além de político, era o médico dos pobres). Sim, naquele tempo havia médico que se dedicava a atender os pobres de graça! Realmente, a Montes Claros daqueles tempos era uma cidade onde dava gosto viver. Não é à toa que muitos sentem saudade. Sentem com toda razão, pois é natural sentir falta de uma cidade tão boa como Montes Claros já foi.


30808
Por Jorge Silveira - 10/1/2008 18:55:38
Deputados federais da base governista já anunciam que podem discutir a volta da CPMF a partir de fevereiro. O que vem demonstrar, mais uma vez, como os políticos brasileiros vivem completamente divorciados do pensamento popular. Todas as pesquisas feitas mostraram que a população aplaudiu o fim da CPMF, um imposto cumulativo que encarecia todos os produtos e pesava no bolso de todos os cidadãos. Entretanto, o governo parece não ter engolido a derrota no Senado e já coloca seus esfrega-botas para colocarem novamente em pauta o retorno da CPMF. É preciso que o povo reaja, dando uma resposta exemplar nestes deputados que vivem de puxar o saco do governo para atingir seus objetivos pessoais. O Supremo Tribunal Eleitoral divulga atualmente na televisão um comunicado que deveria ser seguido à risca pelos eleitores: ficar de olho no deputado que elegeu, cobrando dele posição coerente com os interesses da nação. Isto significa, nada mais, nada menos, do que defender os interesses da população como um todo e não o próprio bolso. Deputado é empregado do povo e não do presidente da República ou do governo. O eleitot deve ficar de olho naqueles que já falam em ressuscitar a CPMF e dar-lhes a merecida resposta nas urnas.


30765
Por Jorge Silveira - 9/1/2008 19:24:44
O que mais se vê neste mural são queixas contra a violência que tomou conta da cidade, transformando a nossa Montes Claros num lugar difícil de se criar nossos filhos. Entretanto, em tempo não muito distante Montes Claros era uma cidade pacata e boa de se viver. Os jovens podiam fazer "footing" na Praça Cel. Ribeiro ou serenata para as namoradas. As festinhas dos clubes volantes eram em casas de família e transcorriam senpre em clima de amizade e de companheirismo. Ninguém se preocupava com penetras ou com gangues das periferias, até porque Montes Claros praticamente não tinha periferia - e muito menos gangues. Aos domingos, a nossa juventude marcava ponto pela manhã na boate da praça de esportes e, à tarde, na matinée do cine Fátima. À noite, na hora dançante do Clube Montes Claros. Os pais sempre sabiam aonde estavam seus filhos e não se preocupavam se eles chegariam em casa sãos e salvos. Sempre chegavam. Hoje a situação mudou e é difícil dimensionar o exato momento em que a cidade se transformou neste inferno de violência, drogas e intranquilidade. A verdade é que a Montes Claros de ontem era infinitamente melhor do que a de hoje. Não tínhamos universidades, mas tínhamos médicos da família para atender em casa. A maior festa da cidade era a exposição agropecuária, de dois em dois anos e sem os shows caros de hoje, pois eram os bois, os cavalos e os rodeios que faziam a alegria de todos, adultos e crianças. Não havia televisão, mas a diversão era muito mais sadia nos cines Montes Claros, Fátima, Coronel Ribeiro e São Luiz. Pode parecer saudosismo, mas que a Montes Claros de ontem era bem melhor, é indiscutível. Se este mural existisse naquele tempo, ninguém iria se queixar da violência.


30678
Por Jorge Silveira - 7/1/2008 17:50:04
A seca continua assolando a região de forma assustadora e nossas ditas autoridades competentes continuam dormindo o sono dos justos. As medidas anunciadas pelo governador Aécio Neves pouco vão resolver, ainda que aplaudidas pela Amams, num puxassaquismo muito compreensível. O que as autoridades parecem não estar enxergando é que uma seca está adentrando a outra, já que o período que deveria ser chuvoso está passando e as chuvas ainda não vieram. Não choveu praticamente nada em novembro e dezembro de 2007 e o ano novo começou com um veranico de torrar. Qualquer fazendeiro, seja pequeno, médio ou grande, está em completo estado de choque, sem saber o que fará dentro de mais alguns meses, pois tudo o que se plantou até agora está praticamente perdido. E as pastagens não se recuperam, exatamente quando deveriam estar exuberantes. Se em 2007 morreram mesmo 150 mil reses, agora em 2008 será muito pior. O pequeno produtor, coitado, vai morrer de fome, enquanto o médio vai entregar para os bancos o pouco que ainda lhe resta. Só mesmo os grandes produtores, que tiverem condições de levar seu rebanho para outras regiões, conseguirão salvar alguma coisa. Quando nossos representantes políticos acordarem, será tarde demais. Como 2008 é ano eleitoral, espera-se que a classe rural da região saiba dar sua resposta nas urnas.


30589
Por Jorge Silveira - 4/1/2008 08:27:47
A Polícia (militar e civil) parece estar perdendo a luta contra os marginais, que a cada dia mais tomam conta da cidade. Os assaltos se multiplicam por todos os bairros e, quase sempre, os assaltantes são motociclistas (ou motoqueiros), que se utilizam da facilidade deste meio de transporte para a fuga. A Polícia Militar promove algumas blitzes de vez em quando, no sentido de tentar prender alguns desses marginais, mas tudo é feito de forma muito empírica, tanto que no final acaba apreendendo alguns veículos, mas nenhum bandido. E os furtos na cidade continuam com a mesma intensidade, atemorizando as famílias e principalmente os comerciantes.A Polícia precisaria usar de mais inteligência para ter melhores resultados. Por exemplo: as blitzes teriam que ser móveis e em diversos pontos da cidade ao mesmo tempo, para evitar que os bandidos burlassem o cerco policial. Como é feito atualmente, em pouco tempo todos os motoqueiros ficam sabendo onde encontra-se uma blitz (uns avisam aos outros)e evitam passar pelo local, a não ser os que nada têm a temer.Se as blitzes fossem móveis - e bem mais frequentes - os resultados poderiam ser melhores. Seja como for, é preciso que o nosso sistema de segurança seja mais efetivo e mais eficiente, pois como as coisas andam, a cada dia o cidadão honesto e trabalhador fica mais exposto aos marginais, que parecem não ter medo da polícia, até porque são muito pouco incomodados. Polícia boa é aquela que é admirada pela população e temida pelos bandidos. Exatamente o contrário do que ocorre nos dias atuais.


30174
Por Jorge Silveira - 12/12/2007 15:31:12
Qualquer medida que o governo tomar para amenizar os efeitos da seca na região será meramente paliativa caso não se ataque o que mais prejudica o produtor rural da região: a conta da Cemig. Como se pode conviver com a seca, se o produtor não tem condições de ligar um desintegrador para moer uma cana ou mesmo um irrigador para molhar uma capineira? Pois se isto fizer, terá que vender o gado para pagar a conta da Cemig, sob a qual incide uma tarifa de ICMS de 18%, mais cofins. Apenas para exemplificar: tenho um pequeno sítio na saída para Juramento e para não deixar meus poucos animais morrerem de fome, liguei o desintegrador uma hora por dia no mês de novembro, para moer cana para o gado. E irriguei minha capineira mais ou menos três horas durante a noite, dia sim, dia não. Ontem recebí a conta da Cemig referente ao mês de novembro: R$1.375,00. Ou seja, vou ter que vender parte do meu gadinho para pagar a conta. Agora, os especialistas dizem que para o pequeno produtor conviver com a seca é preciso ter um canavial e uma capineira para tratar do gado no período de estiagem. Como, se a Cemig não deixa e quebra qualquer um que ligar um simples desintegrador? Pelo que se vê, caso o governo queira mesmo diminuir os efeitos da estiagem na região, a primeira coisa que terá que fazer é diminuir a boca larga da Cemig em cima dos pequenos produtores (e dos grandes também), caso contrário tudo será mera demagogia e dinheiro jogado fora. Por sinal, o presidente da AMAMS, Valmir Morais, lembrou muito bem deste problema em recente pronunciamento à imprensa local. E ele conhece bem a situação, pois também é produtor rural.Fica aí o alerta para os nossos políticos para que assim eles não venham com simples medidas paliativas e que não resolvem o problema.


29667
Por Jorge Silveira - 20/11/2007 14:10:19
Esta história da votação da CPMF no Congresso Nacional é o exemplo escarrado da total falta de vergonha na cara dos políticos brasileiros. Quem antes criou e aprovou a nefanda contribuição, hoje é contrário à sua manutenção. Quem antes era radicalmente contra, ou seja, o PT, hoje é a favor. Os argumentos dos tempos passados viraram cinzas (ou palavras mortas), tanto para uns como para outros. O que vale, simplesmente, são os interesses do agora. O PT, que votou em bloco contra a criação da CPMF e depois duas vezes contra sua prorrogação, diz hoje que sua manutenção é imprescindível para o país fechar suas contas. O que significa que antes eles votaram contra os interesses nacionais. Já o PSDB e o PFL (hoje DEM), que criaram o monstrengo que surrupia a economia do povo, fazem agora das tripas coração para rejeitarem a filha bastarda. E nossos dignos representantes ainda pretendem que o povo acredite neles! Infelizmente, o Congresso Nacional representa hoje o que há de mais desacreditado entre todas as instituições do país. É uma lástima, pois este descrédito do Congresso abre caminho para que os amantes do totalitarismo já comecem a pensar num terceiro mandato. Falta pouco para que nos transformemos numa Venezuela!


29640
Por Jorge Silveira - 19/11/2007 08:27:23
A matéria do jornalista Waldyr Senna Batista da última semana retrata bem a situação da seca na região e, melhor ainda, a inércia da nossa classe política. Nunca tivemos tantos deputados tão ineficientes. A região já vive nove meses de seca, já morreram mais de 100 mil reses segundo cálculos de especialistas, e até agora os nossos caríssimos deputados ainda não se mexeram. Parece até que não é com eles!E o nosso tão badalado governador Aécio Neves também se faz de morto. Em outras ocasiões, como em 1976, como bem lembrou Waldyr Senna, o ministro Rangel Reis, o governador Aureliano Chaves, o superintendente da Sudene e todos os nossos deputados, se reuniram em Montes Claros, no Automóvel Clube, e a região ganhou a construção da Barragem do Bico da Pedra, além de poços, contratação de mão de obra para obras emergenciais, abertura de créditos especiais no BNB e BB, ampliação dos prazos para pagamento dos financiamentos, etc. Hoje, quando a seca é até mais prolongada e a situação ainda pior, as autoridades continuam vendo a banda passar. A situação retrata bem o que há muito já se constata: a classe política brasileira baixou de nível de forma impressionante. Não temos mais políticos como os de antigamente! E olha que em 1976 era tempo de ditadura!


22611
Por Jorge Silveira - 4/4/2007 09:41:21
Gosto de ler este mural, pois nele dá para sentir bem o sentimento da população, não só com relação à sua cidade, como também com os políticos responsáveis pela administração do país. E o que se vê é uma completa decepção com a classe política. Ninguém, mas ninguém mesmo, acredita na ação dos nossos políticos. E todos estão cobertos de razão, já que nenhum deles (com raríssimas exceções)se preocupa com os reais problemas da população, colocando sempre em primeiro lugar o próprio interesse pessoal. Quem conhece história, deve relembrar a "Queda da Bastilha", quando o povo francês se cansou dos desmandos da realeza e saiu às ruas para guilhotinar os nababos da Corte, que viviam em festas e orgias enquanto a população passava fome. Não estamos muito longe disso. Os políticos que se precavejam! A paciência do povo pode um dia se esgotar.


22445
Por Jorge Silveira - 28/3/2007 09:41:45
Eu vejo hoje o prefeito Athos Avelino ser verdadeiramente massacrado por uma parte da imprensa - em alguns casos com razão, em outros nem tanto - e fico pensando se ele tem sido muito diferente dos outros prefeitos que passaram pelo Executivo Municipal nos últimos 40 anos. Na verdade, em todo este espaço de tempo, prefeito de verdade, bom de serviço, competente e extremamente honesto, só me lembro de Toninho Rebello. Os outros, foram simplesmente os outros, meras repetições de incompetência e inutilidade, Montes Claros é de fato uma cidade infeliz com seus administradores. Athos, portanto, não é exceção, é apenas repetição.


21949
Por Jorge Silveira - 14/3/2007 10:15:06
O prefeito Athos Avelino deveria dar uma passadinha na Avenida José Correa Machado, para ver como o mato tomou conta do canal. Quem caminha por aquela avenida fica envergonhado de verificar como a nossa cidade está abandonada, em questões tão simples! Será que está faltando foice na prefeitura?




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18/05/15 - 12h02
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18/05/15 - 12h02
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Manchetes dos jornais: “Barril de pólvora nos presídios mineiros” - “São Paulo solta infrator grave antes do prazo máximo” - “Levy prevê mais cortes e aumento de impostos”

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