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7/4/2014 - Os 2 tremores de terra em M. Claros, no domingo 6 de abril, de 3,9 e 3,8 graus, sinalizam que a atividade sísmica no município está:

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           Manoel Hygino   

77785
Por Manoel Hygino - 15/4/2014 10:04:12
A língua espanhola entre nós

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Como numerosas pessoas neste país, comecei cedo na língua espanhola, antes da II Guerra, quando o Inglês se assenhoreou do mundo. Foi um dos efeitos do grande conflito, em que os americanos do Norte se juntaram aos ingleses (e outras nações) para combater Hitler e Mussolini, depois Hiroito.
Cercados por usuários do Espanhol praticamente por todos os lados, o Brasil permaneceu com a língua de Camões, mas assediado de perto por Cervantes. Incursionava-se no espanhol, que tem evidentemente semelhanças com o Português, mais fácil de assimilação do que a língua de Shakespeare.
Editoras argentinas, em determinado período, ofereciam livros a preços mais compatíveis com o bolso brasileiro. Ler ou tentar ler na segunda língua ibérica falada se tornou um hábito. Nesse ínterim, quis o governo facilitar o acesso mediante a introdução do Espanhol no currículo do curso médio.
Foi útil a iniciativa, como se constata pela leitura de “La poesia está en el viento”, publicação bilíngue da Embaixada da Espanha no Brasil, no Projecto Cometa Literária, editada pela Thesaurus, de Brasília. Nasceu uma bela coletânea de poemas em língua espanhola e com rica ornamentação de pintores, de cá e de lá.
As traduções são de Kori Yaane Bolivia Carrasco Dorado e há, ainda, um poema inédito de Luis Garcia Montero.
Comparecem com excelentes textos Begoña Sáez Martinez, Mário F. de Carvalho, Ana Paula Barbosa de Miranda e Antonia Regina Neri de Souza, Alicia Silvestre Miralles, Antônio Miranda, Nicolas Behr, Anderson Braga Horta, João Carlos Taveira, Angélica Torres Lima, José Jeronymo Rivera e Oleg Almeida, autores respeitáveis e a que tanto devem as letras da capital federal.
Eu teria de preencher mais laudas para dizer quais outras pessoas e organizações contribuíram para confeccionar esta joia. Entre aquelas Álvaro Trejo Gabriel Y Gaalán e Álvaro Martínez- Cachero Leseca, conselheiros respectivamente de Cultura e Educação da Embaixada da Espanha.
Ánderson Braga Horta confessa que seu contato primeiro com o idioma irmão vem dos dez anos, aproximadamente, quando também me aventurei no Espanhol, ao descobrir um bem ilustrado volume de “Dom Quixote”, numa estante de livros em minha terra natal. O que, aliás, também dá ideia de como Cervantes chegava ao interior do país.
Depois, fui agregando conhecimento por leituras diversas, em livros de baixo custo, que me acompanharam pelo curso ginasial e colegial, em educandário agostiniano, de padres espanhóis.
Daí para frente, jamais parei, até porque tive de revalidar estudos em Montevidéu, em provas orais e escritas em Espanhol. Aproximei-me de grandes autores, graças ao convívio com o poeta Enrique Romero Arenillas, com quem discutia sobre Pablo Neruda, Lorca e Gabriela Mistral. São tantos! Se, lamentavelmente, nenhum dos mencionados está mais entre nós, a obra permanece.


77781
Por Manoel Hygino - 14/4/2014 09:23:53
A insegurança generalizada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não há interesse em combater a corrupção, como se demonstra, à suficiência, com o caso Petrobras. Partidos, grupos e políticos obstam a que se averiguem os fatos denunciados, sob argumento de que integrantes de outras agremiações também cometeram delitos semelhantes, em outras ocasiões. Na troca de acusações e levantamento de suspeitas, num país em que crimes contra o patrimônio e o erário são recebidos como naturais, tudo parece cingir-se ao âmbito da troca de farpas e imputações.
Pode-se afirmar que, em um cenário ampliado, nada se faz, nem se pretende fazer, para aclarar falcatruas e apontar seus autores, sendo o Mensalão um episódio singular no reino da impunidade. Nem pode sair nas ruas de Brasília o presidente do Supremo e relator da matéria, apupado, xingado pelos comparsas dos malfeitores, por motivos perfeitamente compreensíveis.
Nãos nos acostumamos a prender e punir os responsáveis por crimes praticados por organizações criminosas ou pessoas envolvidas nos delitos.
Milhões de reais rolaram por aí e beneficiaram os agentes políticos, que dispõem de bens não adquiríveis no mero exercício da profissão. Têm luxuosos carros blindados importados, iates, palacetes e tudo mais quanto o permita, no Brasil ou no exterior, o dinheiro ilícito.
Corrupção é problema comum a todos os países. Mas nas grandes potências, nos ricos, ela atinge os contingentes mais favorecidos. Aqui, a despeito das fantasias de riqueza, incrementada pela publicidade governamental, procurando dar impressão de que muito temos, a situação é diversa. Mais sofrem os que já têm pouco ou nada e são coagidos a “contribuir”, como se fora facultativo.
Pratica-se crime contra direitos humanos, quando se avança sobre o Tesouro, porque para lá caminham todos os impostos. Ou deveriam caminhar, porque há desvios. A carga tributária entre nós é uma extorsão, porque extraída, em grande parte, de segmentos sofridos, que constituem a grande maioria da população.
O escândalo Petrobras poderia ser um marco na história do Brasil. Temos de convir com o juiz Isaías Caldeira quando diz que as leis penais já não feitas sob o influxo inteligente dos juristas, mas impostas pela força e barulho de militantes políticos, com óbvias exceções.
O caso Petrobras é uma violência contra o povo deste país, além daqueles outros crimes de que somos incessantemente vítimas em nosso cotidiano, nas vias públicas, nos lares, à porta das faculdades. O clima é de insegurança generalizada, pelo que se vê.


77745
Por Manoel Hygino - 11/4/2014 08:22:42

Enquanto a Terra treme

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A Terra tremendo, cada vez mais frequentemente. Não apenas no norte do Chile ou na China, por exemplo. Não é preciso ir tão longe. Na região norte - mineira, o fenômeno é registrado presentemente como jamais ocorrera antes.
A população de lá não quer ser notícia de telejornais, nem mostrar às câmaras as rachaduras nas paredes das casas, o desabamento parcial dos tetos. Não é motivo de orgulho, mas de medo, não mais circunscrito aos tiroteios das gangues no seu feroz ofício de destruir caixas eletrônicos pelo interior brasileiro.
As autoridades na capital da República não escondem os fatos, mas são evasivas. Informam apenas que foi a falha geológica. Mas e daí? Um estudioso do assunto, um técnico, levanta uma série de perguntas: Se foi a falha geológica, o que provoca que movimentação? Por que os blocos carsticos se movem? Para cima ou para baixo? São impulsionados pelo excesso de gás natural ou à extração do calcário pelas mineradoras próximas? As explorações desenfreadas de águas subterrâneas pode ser uma das causas?
José Ponciano Neto tem formulado estas indagações, e não me lembro de uma resposta clara, decisiva. Ele acredita que os sismos dos últimos anos são induzidos pelo homem. Em verdade, se causa ou causas há, cabe à autoridade pesquisar e esclarecer, determinando providências que evitem mais graves consequências e examinando a tese de outros especialistas, se for o caso.
Mesmo que fosse apenas um lugarejo, o problema deveria merecer atenção do poder público. Já é extensa a região atingida por esses abalos, e sua repetição alarmante. Não se esquecerá de que já houve morte.
Por que a falha de três quilômetros não se mantém no lugar como até algum tempo era? O que aconteceu?
Enquanto praticamente nada surge de objetivo e suficientemente elucidativo, a maior cidade norte - mineira e populações disseminadas pelas áreas rurais se mantêm em ininterrupta inquietação, tangidas pela insegurança. Essa gente tem o direito de conhecer os fatos, suas origens e seus efeitos!
Embora não se creia que nossos tremores sejam de magnitude comparável aos de outros países, pelo menos se deveria ser melhor aquinhoado com notícias. Um especialista alerta: é importante construir edificações mais resistentes para enfrentar o impacto dos abalos. Falta esclarecer quem vai assegurar os recursos.
As consequências foram maiores. No Hospital Universitário, faltou energia e os geradores não funcionaram. Seus servidores se assustaram porque havia pacientes entubados. O estrondo anunciador de uma provável catástrofe, foi pela manhã. A população saiu às ruas. A telefonia foi prejudicada. Depois, novos ruídos fortes no ventre da crosta terrestre. Os adolescentes estavam praticamente prisioneiros na Escola Normal, um prédio com escadas. Há uma certeza- novos tremores virão.


77315
Por Manoel Hygino - 27/3/2014 08:35:15
Nosso admirável mundo novo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Em 30 de março, quando a noite descer sob o sertão mineiro, o Clube/Leitura/Ateliê/Galeria Felicidade Patrocínio receberá, em Montes Claros, Ivana Rabelo, doutora em Literatura pela USP, para falar sobre “Admirável Mundo Novo”, o livro perene de Aldous Huxley.
Este é um dos livros mais lidos em nosso tempo, mesmo 83 anos após seu lançamento. Poder-se-ia conceituá-lo como um volume de ficção científica, mas é muito mais. A obra acena para projeção de um mundo futuro, faz-nos pensar na sociedade contemporânea de consumo, nos hábitos, nocivos ou não, que desenvolvemos no excesso de tecnicismo e na desumanização da sociedade, como a própria Ivana enfatiza.
É tema, pois, de relevância sobre as questões propostas, que levam à indagação de como uma pessoa deficiente, para Aldous, quase cega desde os 20 anos, e que só conseguiu ler com auxílio de uma grossa lupa e aprendeu Braille, seja considerado um “homem de visão”.
O autor nasceu numa família inglesa de personalidades. Seu avô Thomas, foi conhecido naturalista, e seu irmão, Julian, falecido em 1975, biólogo e filósofo, partidário das teorias da evolução. Aldous se fez um homem afeiçoado à cultura, sobretudo científica, tipo de intelectual onisciente, sedutor e com opinião sobre quase tudo.
Uma resenha que me encaminhou Fernando Guedes de Mello alerta para a posição de Huxley. Nela se condensa o pensamento do escritor: o avanço científico pode ser, em sociedades desiguais e mercantilizadas, o caminho para a barbárie.
Há uma indesviável pergunta: Seria pertinente reler, hoje, “Admirável Mundo Novo”? Seria pertinente retomar um livro escrito há tantas décadas, numa época tão distante que nem sequer a televisão fora inventada? Seria essa obra algo além de uma curiosidade sociológica, um best seller comum e efêmero que, no ano de sua publicação, 1932, vendeu mais de um milhão de exemplares?
No entanto, o livro dos anos 30 é surpreendentemente atual, tanto que as pessoas inteligentes vão e voltam a suas páginas nesta segunda década do século XXI, exatamente porque o assunto é muito nosso. É nossa conturbada época, instrumento hábil a reflexões sobre o homem, o mundo, a sociedade, o tempo de agora e o que virá.


77288
Por Manoel Hygino - 24/3/2014 08:44:02
As águas de março ainda frustram

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O brasileiro olha para o céu, principalmente se morador do Sudeste hoje, e não vê sinais de chuva. A natureza anda econômica em termos de despejar água sobre extensas regiões. O sol é causticante, os termômetros ultrapassam muito frequentemente os 30 graus, o suor castiga, o corpo padece sob a inclemência dos raios solares.
Por enquanto, não há racionamento de energia elétrica, embora as informações a respeito se intensifiquem, em ameaça constante ao homem, da cidade, ou do campo, que sobremaneira já sofre tantos outros problemas. Há exatamente um ano, os jornais chamavam atenção: a falta de chuva na nascente faz sumir trechos do Rio São Francisco, lá longe, perto da foz, na divisa de Sergipe e Alagoas. No Nordeste, as chuvas já deviam estar caindo, mas em 2013, nada. A profundidade do rio diminuiu. Pesquisadores observam que a situação se vem agravando e há trechos em que a água desaparece e já é possível caminhar em pleno leito seco do velho Chico.
Dez meses depois, jornal belo-horizontino destacava em 6 de fevereiro de 2014 (data do famoso tiroteio em Montes Claros, em 1930, que deixou ferido o vice-presidente da República Melo Viana), que o volume de Três Marias era historicamente o menor numa primeira semana de fevereiro: 26,6%, quando a média, na época, é de 96,2%. O nível da água encontrava-se 13,8 metros abaixo do esperado, representando consequentemente 37% a menos na produção de energia. Nas demais hidrelétricas de Minas, do Sudeste e Centro-Oeste, a situação era quase a mesma.
Simultaneamente, o consumo de energia, como compreensível, seguia em elevação. Em 2001, em situação semelhante, houve racionamento. Em consequência, ter-se-ia, como se faz, de apelar inapelavelmente para as termoelétricas para suprir o mercado, o que causa aumento das tarifas, o que não é bom, principalmente em ano de eleição.
E o que será da produção da agricultura, valioso suporte de nossa balança comercial? O panorama preocupa. O consumo de eletricidade deve crescer 4,3% ao ano, entre 2013 e 2023, segundo a Empresa de Pesquisa Energética.
Em março, de São José, não choveu no Sudeste o aguardado. A reduzida água que desceu dos céus não melhorou a situação dos reservatórios. Nas regiões mais sofridas, como Norte de Minas e Jequitinhonha, há ansiedade e desalento. No rio Congonhas, a novela de construção de uma barragem, não chegava ao capítulo final. O empreendimento ampliará o volume de água em Irapé, grande geradora de energia, mas também fornecerá água ao mineroduto que transportará o produto até o porto de Ilhéus. Confiava-se em que a presidente liberasse o edital de concorrência, o que não ocorreu até agora. Para a dança dos obstáculos e atrasos, também contribuiu o levantamento ambiental na área da barragem que, a sua vez, necessita de ação da SEMAD e da COPAM-NM.
Algumas cidades do Sudeste já adotaram racionamento. No Norte de Minas, vamos inovar. O governo, preocupado com os sofrimentos do cidadão e sua família, estimula a perfuração de cisternas, com alguns acréscimos úteis, para armazenamento da água em condições adequadas. Estamos evoluindo, mas falta muitíssimo para alcançar os objetivos maiores. O Brasil, que deveria ser o maior produtor de soja do mundo, frustrou-se pela falta de água. Foi ultrapassado pelos Estados Unidos. Inapelavelmente a conta de luz vai subir, alguns produtos da mesa já aumentaram até 500% e a inflação segue a rotina desastrosa.


77224
Por Manoel Hygino - 17/3/2014 09:13:47
Sob o signo do banditismo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Há uma obsessão generalizada com relação ao banditismo no país presentemente? Será que a imprensa exagera na ênfase dada ao problema, embora incontestável? A verdade nua, crua e fua – como dizia o professor Assis Sobrinho – é que brasileiros se encontram duramente sitiados, ainda que o Brasil tenha oito milhões e quinhentos mil quilômetros de extensão.
É muito difícil tomar conta desse tamanhão de território. Mas se as organizações e grupos de bandidos o podem, por que não as forças de segurança, nelas se incluindo todos os dispositivos, somando muitos milhares de homens e equipamentos modernos recém-adquiridos?
O caso de Itamonte é significativo, mesmo cinematográfico, lá no Sul do Estado, mas os criminosos levaram a pior, graças à conjunção de forças policiais de Minas e São Paulo, e a contribuição da PRF. Na mesma região, na histórica Itajubá, berço do presidente Wenceslau Brás (que declarou guerra ao Eixo na Primeira Guerra mundial), os bandidos usaram coquetel molotov, incendiaram coletivos e dispararam armas contra a residência do diretor do presídio.
Mas o setentrião mineiro está também na mira dos criminosos. Aliás, onde houver uma agência bancária, há risco e medo, quando não terror. O Brasil deixou ocupar-se pelos foras da lei, sejam da política ou dos esquemas criminosos. Em Riachinho, a mais de 500 quilômetros da capital, no Noroeste, fuzis, metralhadoras e espingardas de grosso calibre, submeteram os nove mil habitantes da pacata cidade, assaltando os dois bancos e fazendo a limpa.
O brilhante advogado Petrônio Braz, também escritor, narra o que ouviu: “Contaram-me que um senhor, cujo nome não me foi revelado, residente em uma cidade qualquer, sentindo a presença de um ladrão em sua residência, telefonou à Polícia e informou o fato. Na outra ponta da linha, alguém respondeu: “No momento não temos uma viatura disponível, mas está anotado e vamos providenciar”. Os movimentos no interior da casa continuaram. Passada mais de meia hora, o cidadão ligou novamente. Responderam: “Aguarde só um momentinho, que vamos atender”. Uma hora depois, ele telefonou: “Não precisam vir. “Eu matei o ladrão”. Em menos de dez minutos ouviam-se, as sirenes e duas viaturas já estavam na porta da casa. A televisão chegou primeiro e um batalhão de repórteres. Membros atuantes dos “Direitos Humanos” acorreram logo em seguida, para o indispensável protesto. O brasileiro, em sua residência, abriu a porta e declarou: “não se preocupem, o ladrão furtou o que quis e foi embora. Não matei ninguém, mesmo porque não posso possuir arma, nem mesmo para a defesa de minha casa e de minha família”.
As pessoas honestas e trabalhadoras estão enclausuradas em suas casas, cercadas por muros, sem direito de manter, por um segundo, a porta aberta. A lei desarmou o cidadão digno, mas não desarmou o bandido.


77193
Por Manoel Hygino - 11/3/2014 08:45:28
Uma visão nítida de Rosa

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Na edição nº 17, da revista “In Verbis”, pude ler o excelente texto do juiz Luiz Audebert Delage Filho, hoje desembargador—corregedor do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, focalizando “Guimarães Rosa, o sertão e o homem”. O magistrado não é da região em que Rosa nasceu. Pelo contrário, é de Juiz de Fora, mas juiz de direito da comarca de Pirapora, sentiu-se motivado a escrever, em abril de 1985, sobre o tema, quando a Rede Globo ali filmava para a minissérie sobre “Grande Sertão: Veredas”.
Delage assimilou a essência do escritor de Cordisburgo, porta de entrada do sertão. Sua resenha é das mais adequadas ao sentimento de Rosa ao relatar as aventuras dos jagunços que guerreavam para domínio da região, terminando os embates míticos no Rio do Sono. Embora reconhecendo ser difícil “sintetizar Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas”, por o escritor e a obra deverem “ser focados sob o aspecto da genialidade”, muito bem se houve o autor da resenha, valendo-se do adjutório de Franklin de Oliveira, de Alan Viggiano, mineiro de Inhapim, e de Leonardo Arroyo.
Quem quiser ingressar na obra de Rosa encontrará uma ajuda valiosa em Delage Filho. Diz ele: “Em Grande Sertão: Veredas, a estória é contada sob a aparência de diálogo, mas, na verdade, é um colossal monólogo. É a estória de Riobaldo, quando não é mais jagunço, quando já deixou a jagunçagem para ser estável fazendeiro, a passar o melhor de seu tempo no “bem bom do range-rede”, em recordações e dúvidas, sendo a maior delas a existência do diabo, “o diabo na rua, no meio de redemoinho”- refrão do livro e se realmente ele, Riobaldo, se tornara pactário ao vender a alma, à meia-noite, nas “veredas mortas”, pelas glórias do comando”.
O artigo em questão nos faz reviver, calidamente, toda a aventura relatada por Rosa, a partir da própria personalidade de Riobaldo, o herói problemático, o fáustico, pactário, herói resoluto, que trai a si mesmo; e o místico, herói frustrado. “O romance começa e todo ele é uma evocação de sua vida, portanto, não mais a história de um homem de ação, mas de um homem que interroga. De algum modo, um romance de ilusões perdidas”.
Nos bandos em guerra, aparece Riobaldo, ex-menino pobre do Vale do São Francisco e que, certo dia, saiu pelo mundo para pagar promessa e encontra um outro, com quem aprende a lição da coragem. É Reinaldo, que acompanhava Joca Ramiro, outro jagunço, já cheio de glória, depois assassinado por Hermógenes, a quem decidiria liquidar, onde fosse e na oportunidade que surgisse.
É um enredo intrigante, que Rosa valoriza esplendidamente com linguagem fantástica, em que se misturam palavras e expressões de uso regional com raízes do português antigo, bem do conhecimento do autor. No âmago da estória, como refere Luiz Audebert, o segredo maior do personagem Reinaldo, jagunço respeitado, por quem Riobaldo nutria amor inconfessável.
Num corpo a corpo, a faca, entre Reinaldo e o inimigo Hermógenes, que matara, à traição, seu pai, ambos morrem. Revela-se, com o trágico fim, que Reinaldo era simplesmente mulher, de apelido Diadorin, que o pai criara desde pequena como homem, “destinando-a às duras guerras do sertão”. Por batismo, era Maria Deadorina da Fé Bettencourt Marins, “que nascera para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo do amor”. Cumpria-se o destino bem arquitetado por Guimarães Rosa, insuperável ao transpor às letras as sagas da grande região de Minas.


77174
Por Manoel Hygino - 9/3/2014 14:58:59
A maioridade penal: Ficou no mesmo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Soou-me pelo menos estranho que a imprensa não tenha dado maior ênfase e dedicado mais espaço, na segunda quinzena de fevereiro, à notícia da rejeição da redução da maioridade penal. A matéria era examinada pelo Senado, cuja Comissão de Constituição e Justiça não aprovou o projeto que permite a diminuição da maioria penal de 18 para 16 anos, em casos de crimes hediondos, tráfico de drogas com uso de violência ou reincidência em delitos violentos.

Enquanto os veículos de comunicação publicavam longas reportagens sobre o tema, alertando para crescimento desse tipo de violência entre os jovens do país, a decisão causou surpresa na população. Por 11 votos a 8, os senadores recusaram o projeto. Mais do que isso, o autor da proposta, Aloysio Nunes Ferreira, chegou a ser acusado de fascista por um manifestante em plena reunião.

Há explicação: o Planalto é contra qualquer mudança na maioridade penal, mesmo com a maioria da população favorável à medida, segundo pesquisas. Embora ainda possa ser apresentado recurso para se votar em plenário a proposta, já rejeitada pela CCJ, o fato assustou e desalentou aqueles que querem punição para os jovens delinquentes, responsáveis por elevados índices de ocorrências em todos os estados.

As alegações de que o país não tem um sistema prisional capaz de abrigar esse novo contingente de transgressores da lei não parece suficiente quando a violência no Brasil é sentida e criticada internacionalmente. Então, a solução seria deixar como está, com a população sofrendo os perigos incessantes de furtos, roubos, sequestros, e crimes contra a vida?

Não se trata de postura politicamente correta. Um jornalista da mais alta competência, considerou, dias atrás, essa inação certamente perigosa. Para ele, e estou de acordo, o malogro do Estado brasileiro, nas suas três fatias, está arrasando a nação. Assiste-se a um retrocesso monumental, especialmente em termos morais. A omissão incentiva o crime e os criminosos, e o cidadão se acha à mercê de incalculável número de delinquentes. Como Cícero, em Roma, poder-se-ia perguntar: Até quando?

Ferreira Goulart, cidadão e poeta, a seu turno, confessava recentemente que o homicídio puro e simples não deixa de espantá-lo. Tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa incompreensível e inaceitável. Há pessoas que têm o prazer de matar e o fazem frequentemente. O poeta se lembrou de um jovem, preso logo após liquidar um desafeto. Quanto o policial lhe disse que, no ano seguinte, seria maior de idade e, se voltasse a matar alguém, iria para a cadeia, respondeu simplesmente:

- Pois é, não posso perder tempo


77088
Por Manoel Hygino - 25/2/2014 08:42:00
À véspera de acontecimentos

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Enfim, o governo acordou para as evidências da gravidade da hora que atravessamos. Minas decidiu tomar uma série de medidas para conter, até onde possível, a onda crescente de criminalidade, reconhecida mesmo pelas estatísticas oficiais. Verdade se diga: não estamos em paz e na onda de violência todos somos envolvidos. A imagem paradisíaca que se quer transmitir dentro e fora do país não pode prevalecer porque atravessamos um quadro de incessante transtorno.
Já em julho do ano passado, os responsáveis pela proteção ao papa trataram do assunto com a equipe do Vaticano, visando à proteção de sua santidade. Em junho, um software em uso pelo Centro de Defesa Cibernética do Exército filtrou informações postas nas redes sociais e serviu para identificar manifestantes que assumiram a linha de comando dos protestos.
A propósito, li observações de Isaías Caldeira, um cidadão de bem e do bem, juiz da Vara de Execuções Criminais na Comarca de Montes Claros, que merecem consideração. Na opinião dele, “esses elementos que saem às ruas em protestos estão brincando de revolucionários. Viram filmes e reportagens sobre os anos 60/70 do século passado e acham que devem repetir as passeatas da época contra o regime militar”.
Para o magistrado, esses grupos não têm um ideário, agem “por simples balbúrdia, pelo gosto único de manifestar-se contra o que sequer definiram, sejam centavos de aumento em qualquer tarifa ou a Copa do Mundo, ou coisa alguma”. A bizarrice da situação seria cômica, não fossem os resultados até aqui apresentados, onde depredações do patrimônio público e privado, a violência contra pessoas e o desafio às autoridades e ao aparato de segurança pública dão a dimensão da insensatez dos manifestantes, mascarados ou não.
E quem são o black blocs, os mascarados? Eles integram grupo organizado, que prega a destruição de todos os valores que sustentam a sociedade atual, com o aniquilamento das instituições e do próprio Estado. “São inocentes apenas nos seus propósitos, fruto da desocupação das coisas úteis, do ócio em que vivem”.
Enfim, “sem sustentação intelectual, nulos de conhecimentos, sob o influxo do peso da liberdade a que estamos submetidos e que nos torna senhores de nossa história pessoal. Falta-lhes o discernimento para o diálogo e a ignorância recomenda o embate físico, avessa aos ditames da racionalidade”. Tem-se de pensar.


77073
Por Manoel Hygino - 22/2/2014 12:11:20
As aventuras do presidente

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Em 11 de fevereiro, os jornais brasileiros publicaram a notícia do falecimento de Virgínia Lane. As novas gerações sequer saibam possivelmente quem era ou se interessou em saber. Mas quem ler a curta nota conhecerá algo sobre uma ex-vedete do teatro rebolado do Rio de Janeiro, em sua época áurea.
Virgínia era de pequena estatura, morena, e nasceu em 1920, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, começando cedo a carreira artística. Aos 15 anos, estreou no Cassino da Urca (naquela época o jogo era livre), e aos 18 anos, passava ao cinema. Participou de 32 filmes e dezenas de peças no teatro de revista, ganhando popularidade, principalmente pelas pernas, consideradas as mais belas do Brasil.
Sua fama atraiu Getúlio Vargas, presidente da República, ao teatro João Caetano, na Praça Tiradentes. Ignorando as possíveis críticas, o chefe da nação, também baixinho, deixou-se encantar pela artista, como aliás conto em meu livro “Vargas, de São Borja a São Borja”.
Evidentemente, o caso - e não foi o único de Getúlio -, se tornou notório, não ganhando maiores proporções porque a segurança era rigorosa e não permitia que a imagem presidencial fosse denegrida. Havia, ainda, a fama de Bejo, irmão de Getúlio, que não era das melhores, armando “barracos” em elegantes casas de shows.
Getúlio, mais discreto, tampouco “mandava pro bispo”, como se dizia. Assim aconteceu, por exemplo, em 1952, quando já presidente eleito. Ele foi a São João del-Rei, onde seria homenageado por trabalhadores. No quartel do 11º Regimento de Infantaria, comandado pelo coronel Olympio Mourão Filho, promoveu-se um churrasco, abrilhantado por uma orquestra contratada em Belo Horizonte. E Tancredo estava lá.
Vargas comeu e bebeu como o coronel jamais vira. Rolaram por baixo da mesa um barril de chope até perto ao visitante ilustre, que se encantara com a cantora com voz arrastada, o presidente dizia-lhe: “Te levarei para o Rio”. O entusiasmo durou pouco. A “crooner” desmaiou pela insolação e o show acabou antes da hora. Estava-se em pleno verão, fazia um calor infernal, sob o toldo armado na pista do campo de esportes do quartel. Getúlio comentou apenas: “Que pena! Que pena!”.
Dois anos depois, no ápice da crise provocada pelo atentado da rua Toneleros, em que morreu o major da Aeronáutica, major Rubens Vaz, Vargas se matou com um tiro no peito, no Palácio do Catete. Virgínia Lane contestou a versão oficial.
A vedete resistiu ao tempo, falecendo em Volta Redonda, onde morava, aos 93 anos, por falência múltipla de órgãos. No CTI do Hospital São Camilo se encontrava internada devido a uma grave infecção urinária.
Assim é. O presidente se foi em 24 de agosto de 1954; a estrela se apagou em 10 de fevereiro, 60 anos depois.


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Por Manoel Hygino - 20/2/2014 08:50:05
Vou-me embora daqui

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Tive madrinha Dagmar, nome de rainha, cujo complemento Alcântara também denotava nobreza, nascida em Grão Mogol. Daí, meu antigo interesse pela cidade norte - mineira. O pesquisador e escritor Haroldo Lívio acrescentou brasas ao calor de minha curiosidade. Em livro, contava ele, como na letra de música cantada por Elis, que “incrustada, no regaço da Cordilheira do Espinhaço, Grão Mogol é pedra, é cristal, é ouro, é diamante...”.
Magnífica descrição: “Protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra. Suas ruas, estreitas e tortuosas, foram pavimentadas de seixos rolados coloridos, imitando um bordado”.
De lá, partiram tropas de mulas carregadas de ouro e gemas preciosas para adereçar as cabeças coroadas de rainhas e princesas nas cortes de além-mar. No recanto privilegiado, há poucos anos, o empresário Lúcio Bemquerer, ex-presidente de entidades importantes na economia, decidiu instalar-se de vez, renunciando à vida agitada dos negócios e dos eventos, Encontrou ambiente adequado e implantou o maior presépio natural do mundo, recebendo bênção do papa Francisco. É o presépio Mãos de Deus.
Mais recentemente, o jornalista Alberto Sena, que é de Montes Claros, onde viveu 22 anos, decidiu transferir-se para Grão Mogol, após somar prêmios por sua atuação na imprensa e percorrer numerosos países, na Europa, América do Sul e do Norte, África e Ásia. Fez o caminho de Compostela, na Espanha duas vezes, andando 500 e mais 800 quilômetros a pé. Sem falar as quatro viagens do Caminho da Fé, vencendo os trezentos quilômetros de Águas da Prata ao Santuário de Aparecida.
Alberto Sena abandonou as andanças para assentar-se de vez na cidade de pedra. Apesar do amor pela capital mineira, percebeu que ela não era mais a que lhe marcara quarenta anos de existência e afirmação. Cansou-se do ar poluído que causa câncer, da violência que prende as pessoas em casa, do estresse provocado pelo trânsito intenso. Achou que merecia qualidade de vida e zarpou, com mala e cuia, para Grão Mogol, cidade que não se parece com nenhuma outra no Brasil.
Em crônica, espécie de carta de adeus ao passado, disse do projeto de semear sementes visando produzir bons frutos, numa região pacata e tranquila, com lindas paisagens e água em profusão, ar puro, onde se pode viver bem, porque se tem qualidade.
Grão Mogol é uma vida sem derivações. A natureza proíbe mudança de destino, que faz a cidade segura, onde o único ofício da polícia é conhecer os que chegam, à menor suspeita. As portas e janelas ficam abertas e os vizinhos trocam oferendas, identificadas só pelo apelido. Subir serra e descer encostas, cavernas convidativas e o presépio. Enfim, uma Pasárgada que encantaria todo Manoel Bandeira da vida, pois é outra civilização, e as velhas senhoras podem contar, tranquilas histórias da meninice.


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Por Manoel Hygino - 17/2/2014 09:18:34
Os dois fevereiros

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Evitei escrever sobre 6 de fevereiro, o dia mais trágico da história de Montes Claros, que, em 1930, selou a ruptura com o governo Washington Luís, anunciou a revolução e levou ao Catete Getúlio Vargas. Foi um fim de dia de muitos mortos e feridos, entre estes o então vice-presidente da República Mello Viana, ex-presidente do Estado. Ainda hoje, famílias lembram o episódio com tristeza e saudade.
O que inquieta profundamente, contudo, neste fevereiro 83 anos após, é o medo diante do crescimento dos índices de criminalidade e dos perigosos protestos nas ruas, renovados incessantemente, sem que as autoridades cheguem a um denominador comum de como contê-los ou enfrentá-los. Verdadeiramente, o país se transformou num imenso acampamento em que as pessoas sem senso da gravidade da situação fazem o que lhes apraz, enquanto praticamente o aparato legal se resume no registro das ocorrências.
E os fatos acontecem quando se tem programado um dos mais importantes acontecimentos esportivos do mundo. O clima é de tensa expectativa, quando sequer algumas obras essenciais foram concluídas. Segundo “O Estado de S. Paulo”, o “Ministério da Defesa manterá aquarteladas, durante a Copa, “reservas estratégicas” da Marinha, Exército e Aeronáutica para agir em caso de perda de controle na segurança, hipótese extrema em que assumirão o comando e substituirão as polícias estaduais, até na contenção de manifestações”. Diz ainda o jornal: “o aquartelamento faz parte da estratégia do governo para enfrentar protestos de massa ou ações criminosas, mas o uso de militares será a última alternativa, prevista somente para o caso de fracasso das forças policiais”.
No entanto, a avant-première já está sendo vivida, todos os dias, em território brasileiro, com maior ênfase nas capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e o próprio Distrito Federal. A Polícia Federal dependura simbolicamente as algemas. Os crimes se repetem, de modo geral cruelmente e por motivos torpes, a despeito dos esforços das polícias estaduais, militares e civis.
Li, aqui, na seção do Cláudio Humberto, que a população de Brasília lidera as solicitações de portes de armas de fogo. Desde 2010, o DF expediu proporcionalmente mais autorizações para uso dessas armas que o Rio de Janeiro, cuja população é seis vezes maior e mantém guerra aberta contra o tráfico.
E São Paulo? Com 43,6 milhões de habitantes, o Estado concedeu 7.300 portes de armas desde 2010. E aquelas outras que entram no país por outras vias. São, inclusive, metralhadoras e fuzis, de grande poder de fogo, como as usadas pelos bandidos e organizações criminosas. O grande Estado, contudo, continua sofrendo com atentados de toda espécie.
O presidente do Sindicato dos Agentes da Polícia Federal em São Paulo foi claro. A PF não tem condições de garantir a segurança durante a Copa. Em sua opinião, as Forças Armadas e a Força Nacional de Segurança deveriam assumir sozinhas a segurança do evento. Vivemos sob tempestade quase perfeita, como diria o ministro Rubens Ricupero.


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Por Manoel Hygino - 14/2/2014 09:17:01
Quando o gigante desaba

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Antes que virasse a folha do calendário para 2014, o jornalista e conterrâneo Paulo Narciso, vencedor do Prêmio Esso mais de uma vez, me enviou uma notícia. Depois de 24 anos, voltara à casa de Ernest Hemingway, na belíssima Key West, onde escreveu seus mais importantes livros, entre 31 e 40 anos. “Para se chegar lá, dirige-se por 250 quilômetros pela mais simpática estrada que conheço, tendo ao lado da pista as águas do Golfo do México, à direita, e do Atlântico Norte, do outro lado”. É uma bela casa, hoje museu, mantida como se o escritor tivesse saído para ir ao bar.
Vê-se que o jornalista insiste em causar-me inveja: a encantadora viagem, o mar, a residência do notável escritor, um dos maiores do século passado, homem que amava a aventura. Vargas Llosa o viu, uma única vez, descendo uma via em Madri, de braços dados com a deslumbrante Ava Gardner. “Parecia seu próprio mito: grande, forte, vital, ávido e feliz”.
Mas não era exatamente mais assim: “por baixo dessa aparência de triunfador, já havia começado a irremissível decadência do titã, a intelectual e a física, essa desintegração que o iria empurrando nos anos seguintes para o tiro de Idaho”.
Hemingway se matou em 2 de julho de 1961, em Ketchum, Idaho, com um tiro de fuzil de caça. Tinha 62 anos.
Filho de um médico da zona rural de Oak Park, Ililinois, cresceu em contato com um ambiente pobre e rude, acompanhando o trabalho do pai. Repórter, alistou-se no exército italiano em 1916, sendo gravemente ferido na frente de batalha da primeira guerra mundial. Seguiu escrevendo; “O sol também se levanta”, 1916, e “Adeus às Armas”, sobre sua experiência militar, editado em 1929.
A prosa de Hemingway foi modelada segundo uma espécie de ética física de coragem e do controle necessário nos momentos em que atinge o limite da resistência. A . Alvarez, estudioso inglês de tantos casos de autoextermínio, analisou o escritor americano. Concluiu sobre sua decisão: “As erosões naturais da idade – a fraqueza, a insegurança, a falta de jeito, a imprecisão e o declínio generalizado daquilo que um dia foi uma máquina extremamente apurada – teriam parecido tão insuportáveis quanto perder a capacidade de escrever. No fim, Hemingway acabou seguindo o exemplo do pai e se matou com um tiro”.
O gigante não resistiu no peso e simplesmente desabou. Sobraram sua obra e a casa-museu de Key West.


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Por Manoel Hygino - 1/2/2014 11:12:54
A penitenciária de Neves
01/02/2014

Neves, ou Ribeirão das Neves. É município encravado na Região Metropolitana de Belo Horizonte e o lugarejo nasceu no século 18, em torno da capela de Nossa Senhora das Neves, como conta Wanda Figueiredo, em “Balaio Mineiro”. O livro tinha como primeiro contar a saga da família Souza, na qual Henrique José de Souza ganhou destaque por ser o pai dos celebrados Betinho, Chico Mário e Henfil.
A família, de Bocaiuva, foi para Neves, por obra e graça de José Maria de Alkmim, nomeado pelo governador Valadares, diretor da Penitenciária Agrícola de Neves, construída pelo presidente de Minas, Antônio Carlos – mas somente em funcionamento na gestão de Benedito. Como o sistema prisional, por cruel coincidência, está na moda, é bom dizer que a penitenciária de Ribeirão das Neves foi a primeira experiência no Brasil de sistema aberto. Em nível mundial só se comparava sob determinados aspectos à Colônia Correcional de Witzwil, na Suíça.
Naquele dia memorável, em 1938, presente o próprio presidente da República, Getúlio Vargas, Alkmim pronunciou um discurso memorável. Declarou, então: “O mundo penitenciário há de constituir uma miniatura do mundo ordinário, de forma que os egressos dele encontrem um universo habitável, onde não se sintam estranhos ou não sejam repelidos. Habituar os detentos ao exercício regular do trabalho agrícola ou industrial, treiná-los para uma carreira em função na sociedade, eis uma das tarefas primordiais das instituições reformatórias. Num país como o nosso, elas podem chegar a definir-se como elementos ponderáveis na organização e distribuição das atividades, transformando energias inaproveitadas ou porque se ignorassem, ou porque tivessem encaminhado a rumos perigosos, em efetivos valores de trabalho”.
A penitenciária tinha capacidade para 650 detentos, chegando os primeiros 100 de cadeias de várias cidades e que apresentaram bom comportamento. Foi um êxito à época. Um jornalista espanhol, José Casal, em 1940, afirmou que a melhor impressão que guardou da visita a Belo Horizonte foi da Colônia Penitenciária de Neves. Não encontrou ali o sentimento de tristeza e desconsolo de outros presídios. Destacou o conforto dos detentos em celas individuais, limpas, alegres, alimentação sadia e abundante, modernas instalações sanitárias, cuidados nas enfermidades. “Também se divertem. Dispõem de salão de festas, cinema educativo, organizações líricas e desportivas”.
Betinho confessaria que passara ali oito anos de vida. “Eram presos que tinham cometido crimes, às vezes até hediondos, mas eles saíam em grupos de 60, 70, com guardas desarmados. Trabalhavam em fazendas. Era uma prisão modelo”. Não havia rebelião, talvez alguma fuga isolada. Um dia, um dos presos se rebelou. Refugiou-se no campo de futebol, nenhum guarda ousou enfrentá-lo. O franzino Alkmim aproximou-se e argumentou que, se a detenção era de 100 anos, seria paga parceladamente um dia depois do outro. Não seria tão penoso. E determinou: Use o facão para trabalhar. O detento se submeteu.
Agora, o sistema parece destinado a transformar-se novamente.


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Por Manoel Hygino - 18/1/2014 12:02:48
Lembrai-vos dos idos de março

Manoel Hygino

Todos sabemos, e quem não o souber bastaria recorrer aos dicionários. Os idos eram os dias 13 de março, de maio, de junho e de outubro, segundo o calendário romano, e os 15 dos demais meses. A data ficou gravada, histórica e definitivamente, pelo episódio de que foi protagonista e vítima Júlio César.
Ia o grande líder a caminho do Senado no ápice de sua glória, quando foi interrompido no percurso por um adivinho, na via pública, que o advertiu: “– Cuidado, César, com os idos de março!”. O imperador não deu maior atenção, mesmo quando o alerta foi repetido: “– César, cuidado com os idos de março!”.
Registrou-se a tragédia. No Senado, Júlio César foi assassinado, sobressaindo no atentado o próprio estimado filho adotivo, a quem o soberano, surpreso, se dirigiu, sangrando sob túnica: “– Tu quoque Brutus, fili mihi?”.
A admoestação parece válida diante do temor que efervesce o país neste 2014, que não é apenas o de centenário do início da 1ª Grande Guerra ou do golpe de Estado de 1964 no Brasil; sequer o sexagésimo aniversário do suicídio de Vargas, no Catete, naquela manhã indelevelmente gravada na história e na memória do povo.
Em verdade, a despeito dos altos índices de popularidade da mandatária maior da nação, não se sente felicidade efetiva, confiança no futuro e esperança de dias melhores. As circunstâncias sequer o permitem. Fatores múltiplos e adversos acendem o estopim de expectativa de dias sombrios, cujas manifestações de junho último apenas constituíram uma espécie de alerta.
Os altos índices de criminalidade; o banditismo desenfreado; os sucessivos assaltos ao patrimônio público e particular; o crescimento de explosões de caixas eletrônicos em bancos das grandes cidades ou nos mais pacatos e distantes municípios; as rebeliões em presídios e cadeias – de que o caso do Maranhão é apenas uma ponta e sintoma –; a rebelião de grupos indígenas contra os “civilizados”; a interrupção da circulação de veículos nas rodovias e nas ruas, tudo parece prenunciar tempos difíceis, e praza aos céus que assim não aconteça. Nem se fale no descrédito a que chegaram os partidos e os políticos.
A todo esse panorama acresce a formação de grupos de adolescentes, mobilizados pelas redes sociais, para reuniões cujo objetivo sequer esses jovens conhecem, de maneira clara e insofismável. Os rolezinhos são uma caixa com surpresas ainda inimagináveis. A autoridade não identifica, em sã consciência, modos e instrumentos para agir nesses casos e circunstâncias, porque a experiência é nova e desconhecida.


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Por Manoel Hygino - 16/1/2014 08:47:27

Uma vida ao bom e ao belo

Manoel Hygino

Há criaturas humanas iluminadas e luminosas, que orgulham as suas gerações, como as de hoje atribuladas e inquietas diante da velocidade das transformações deste nosso tempo. São pessoas que ainda nos nutrem de fé e confiança, quando estas são aniquiladas pelos próprios fatos.
Uma dessas pessoas é Yvonne de Oliveira Silveira, que – em 30 de dezembro de 2014 – completa cem anos. Filha do farmacêutico Antônio Ferreira de Oliveira e Cândida Peres de Oliveira, fez o primário na cidade natal, Montes Claros, em seguida a Escola Normal. Transferindo-se para a simpática e tranquila Brejo das Almas, cujo nome inspirou Drumond e a todos nos sensibiliza, acompanhou os pais e ali começou profissionalmente lecionando no Grupo Escolar local.
Regente de classe e professora de Educação Física por dez anos, casou-se com o fazendeiro Olyntho Silveira, que se revelou poeta e escritor. Dedicada às letras desde a adolescência, Yvonne colaborou – e colabora – com os jornais da região e da capital, publicando uma série de excelentes textos, como os da coletânea “Brejo das Almas”, cuja leitura é dever e prazer intelectual e espiritual.
Prestativa e sensível, mesmo não se furtando a viagens pelo país jamais deixou de atender pedidos, escrevendo, revisando e prefaciando livros, sem interromper as demais atividades sociais e literárias e no magistério. Graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da hoje Universidade Estadual de Montes Claros, ali se tornou professora e ocupou importantes cargos. Pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-MG, fez cursos de Literatura Portuguesa e Teoria de Literatura, com ativa participação na Comissão Mineira de Folclore.
Aluna do Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez, ingressou na Academia Montesclarense de Letras, de que é presidente há não sei quantos anos, recebendo a Casa seu nome pela grandeza de sua contribuição. Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, fundadora e primeira presidente da Associação Amigas da Cultura, sócia do Rotary Clube Sul e do Elos Clube, foi-lhe concedido o título de Honra ao Mérito pela Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco. Na sublime idade a que chegou, está presente em todas as solenidades e outros atos a que é chamada.
O espaço, aqui, é insuficiente para abrigar a relação de todas as láureas que lhe foram outorgadas. Não é uma simples colecionadora de honrarias. Em todas as atividades do espírito, vive a vida com a beleza que só sentem os privilegiados. Confesso que é uma alegria ser seu conterrâneo e atravessar este tempo glorioso de Dona Yvonne


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Por Manoel Hygino - 10/1/2014 17:22:43

O desembargador (foto) me enviou nesta sexta-feira, o seguinte e-mail:

"A Folha de SP, hoje, publica carta minha, onde ironizo os “baluartes” dos
direitos humanos. Agora, com o morticínio de presos no Maranhão, jornalistas
e intelectuais “engajados” escrevem e opinam copiosamente sobre a questão
carcerária e os direitos fundamentais. São como urubus, não podem ver uma
carniça.
Quando eu era juiz da infância e juventude em Montes Claros, norte de
Minas Gerais, em 1993, não havia instituição adequada para acolher menores
infratores. Havia uma quadrilha de três adolescentes praticando reiterados
assaltos. A polícia prendia, eu tinha de soltá-los. Depois da enésima
reincidência, valendo-me de um precedente do Superior Tribunal de Justiça,
determinei o recolhimento dos “pequenos” assaltantes à cadeia pública, em
cela separada dos presos maiores.
Recebi a visita de uma comitiva de defensores dos direitos humanos (por
coincidência, três militantes). Exigiam que eu liberasse os menores. Neguei.
Ameaçaram denunciar-me à imprensa nacional, à corregedoria de justiça e até
à ONU. Eu retruquei para não irem tão longe, tinha solução. Chamei o
escrivão e ordenei a lavratura de três termos de guarda: cada qual levaria
um dos menores preso para casa, com toda a responsabilidade delegada pelo
juiz.
Pernas para que te quero! Mal se despediram e saíram correndo do fórum.
Não me denunciaram a entidade alguma, não ficaram com os menores, não me
“honraram” mais com suas visitas e ... os menores ficaram presos.
É assim que funciona a “esquerda caviar”.
Abs.
Rogério


Folha de São Paulo, 10 de janeiro de 2014, Painel do Leitor

“Direitos humanos
“Tenho uma sugestão ao professor Paulo Sérgio Pinheiro, ao jornalista
Janio de Freitas, à ministra Maria do Rosário e a outros tantos admiráveis
defensores dos direitos humanos no Brasil. Criemos o programa social "Adote
um Preso". Cada cidadão aderente levaria para casa um preso carente de
direitos humanos. Os benfeitores ficariam de bem com suas consciências e
ajudariam, filantropicamente, a solucionar o problema carcerário do país.
Sem desconto no Imposto de Renda.
“ROGÉRIO MEDEIROS GARCIA DE LIMA, desembargador (Belo Horizonte, MG)”.


76658
Por Manoel Hygino - 20/12/2013 08:07:46
Papai Noel morreu no percurso do tempo

Manoel Hygino

Quando o Natal se aproxima, as pessoas geralmente são tomadas por um raro frisson. Trata-se de natural expectativa, que mais excita as crianças. Antigamente, elas se perguntavam: Papai Noel existe? Ou é invenção dos papais e vovós?
Hoje, não mais sequer se duvida, porque as famílias saem às ruas a visitar as vitrinas e os meninos e meninas escolhem um presente para si, aquele com que sonharam nos 11 primeiros meses do calendário. Os orçamentos auxiliam na definição do que se comprará para alegrar os dias imediatamente posteriores à data e até um novo fim de ano.
O comércio se exulta com os resultados das vendas, enquanto pai e mãe selecionam o que darão aos filhos, pressionados pelos apertados orçamentos domésticos. Os pobres, e os há sempre em todos os lugares do mundo, resignam-se a apenas olhar os mostruários das lojas ou contemplar pelas televisões os remotos regalos, magoados com a sorte ingrata que não admite serem todos iguais, mesmo na festa maior da cristandade.
O espírito natalino, contudo, vai perdendo valia e fôlego, diante do apelo predominantemente material e consumista da sociedade, espelhando e repetindo todos os meses. Efetivamente o ter prepondera sobre o ser, e as inspirações mais nobres e belas do Natal são transferidas às meditações e inquirições íntimas dos que ainda sentem as variantes do tempo e do poder pecuniário.
O Natal de antigamente faleceu em decorrência da longa enfermidade que acomete a sociedade. O presépio, uma criação do pobrezinho de Assis, se viu transformado simplesmente em cenário de curiosidade e de atração visual. Papai Noel se circunscreve a um velho de longas barbas brancas e de coloridas e vistosas roupas, que entra em cena para estimular o comércio e despertar o interesse das crianças que, mesmo vendo-o tão fagueiro e ágil, percebe que ele não passa de charmoso “clown” de ocasião.
Nos templos cristãos, ainda se procura instalar o ambiente de reflexão e respeito a uma criança que, há cerca de dois mil anos, nasceu numa cova de montanha, para disseminar, já adulto, notícias de bons tempos e maior felicidade. Então, homens e mulheres mais se respeitariam e se amariam como condição essencial de paz entre os de boa vontade. Por isso, foi martirizado e executado numa cruz, exposto à multidão ao lado de dois ladrões também condenados. Assim caminha a humanidade.


76491
Por Manoel Hygino - 19/11/2013 09:03:24
Há de quem nos ufanarmos

Manoel Hygino

Um reino da corrupção, com um pormenor: sem punição. É, de um modo geral, o que se pode dizer do Brasil de nossos tempos, sem macular o que existe, porque já de amplo e geral conhecimento. Nada mais conveniente e indicado, portanto, que sancionar os responsáveis por delitos comprovados.
Estas observações faço ao ler a reportagem de Amália Goulart, cá do HOJE EM DIA, sobre a atuação das “Damas de Preto”, magistradas que atuam em Minas contra aqueles que ferem os interesses do país e de sua população. São 11 mulheres, que exercem seu papel com mais desenvoltura e coragem do que muitos times de futebol de ases consagrados e que ganham fabulosas quantias por seus contratos.
Esse time feminino, que usa como uniforme a toga da magistratura, trabalha no Norte de Minas e no Jequitinhonha, regiões tradicionalmente carentes. Inclusive de chuva, além do descaso do poder público a suas reivindicações e causas justas.
Estas juízas, com cobertura dos Ministérios Público Estadual e Federal, da Polícia Federal, das Receitas Estadual e Federal, identificaram fraudes, que beiram hoje R$ 1bilhão. Bens foram bloqueados, executivos mandados para a cadeia, assim como vereadores e poderosos locais ou regionais.
Dinheiro que faltava para obras e serviços fluía pelo esgoto das falcatruas. Uma das meretíssimas indagou: “Como não se indignar?”. Elas não têm medo, porque sofrer ameaças faz parte do risco da profissão. Os corruptos inventaram um estratagema em juízo: alegam, em sua defesa, perseguição política. O Tribunal de Justiça, porém, não acolhe o argumento.
As denodadas e corajosas integrantes da magistratura dão um exemplo a ser seguido. Não se intimidam com o assassinato de colegas, inclusive a da juíza morta com uma saraivada de balas em Niterói. No Brasil, para se ser honesto e pautar dignamente a conduta, tornou-se demonstração de desprendimento, de destemor, de ousadia.
Acho que chegada é a hora de cada brasileiro assumir integralmente sua cidadania. Assumir deveres e não somente direitos, alguns destes duvidosos. Cada homem deste país, em sua profissão, tem de ser honesto, operoso, consciente. Fazer, enfim, o que as “damas de preto” fazem, com orgulho. Delas nos ufanamos.


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Por Manoel Hygino - 18/11/2013 11:03:42
Avisos que vêm de longe

Manoel Hygino

Recebi o recado, enviado por Fernando Guedes de Mello, um pensador diplomado em engenharia. É a opinião da filósofa russo-americana Ayn Rand, judia fugitiva da revolução russa e que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920.
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autosacrifício; então, poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
O leitor encontrará aí uma definição da hora difícil que atravessamos no Brasil. Não importa saber que o panorama descrito se enquadre no modo de ser e viver em outras nações, em épocas diversas da história.
Cabe a cada cidadão buscar a preservação da ética em todos os negócios, sejam de gestão pública, sejam de empresas. Lamentavelmente enfrentamos o problema da sua falta em todos os setores da sociedade.
E não há punição para os responsáveis, para os criminosos, para os assaltantes do erário, até para os assassinos de bocas de fumo, porque enfim estamos encerrados na mesma caverna de Ali Babá. Desfalecem os mais conscientes defensores da decência no trato com os bens alheios, em decorrência da falência de obrigações comezinhas.
Serviria para identificação dos desonestos o ensinamento de Rui: “Os políticos incapazes de ter princípios, ou habituados a não conhecê-los, senão para os violar, são precisamente os que não têm mãos a medir no luxo de invocá-los, para se deturpar à mercê dos interesses de ocasião”.
O crime compensa seus autores e cúmplices se não há punição. Constitui a improbidade, de fato, um estímulo à sua ampliação, estendendo-se a todos os setores da vida. Não sancionar representa, ademais, um incentivo aos atos de ilicitude e desonra. O prestígio e grandeza da administração pública se perdem nos desvãos da indignidade.
Aliás, foi o próprio Rui quem disse que as primeiras condições de respeitabilidade de todo poder, de todo agente de autoridade, em qualquer país, são a sua competência e a sua honestidade. E elas parecem faltar-nos, nesta fase da história brasileira, assistida com perplexidade pelo cidadão.
Quem tem legitimidade para repelir o crime, onde e quando praticado, é o Estado. Se seus agentes também bandeiam para o vício e a devassidão, a autoridade perde vigor e respeitabilidade.


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Por Manoel Hygino - 5/11/2013 08:10:22
As decepções na região do Velho Chico

Manoel Hygino

Os habitantes das regiões da bacia do São Francisco ficaram enfim eufóricos. A notícia do gás natural, até aqui conservado nas entranhas da Terra, era comemorável. Seu volume atingiria 194 bilhões de metros cúbicos, segundo o primeiro estudo divulgado há poucos anos. Confirmava-se a perspectiva do engenheiro Levínio Castilho e de demais entusiastas e interessados.
As estimativas, divulgadas pela imprensa e de boca em boca nos grotões, encheram de alegria a população generosa, confiante em mais interesse e atenção dos poderes públicos. Uma poderosa organização do setor indicou a existência de até 194 bilhões de metros cúbicos de gás natural.
A boa gente da região ouviu com um pé atrás. São muitas dezenas de anos de decepção. A própria Petrobrás já andara perfurando por lá nos anos 80, mas interrompeu o trabalho. Ela tem pressa de resultados. Principalmente, porque há eleições em 2014. A esperança da população é infinda e pode aguardar mais. Quanto tempo?
O governo de Minas ficou eufórico, em determinado período. A bacia do velho Chico tinha potencial para produzir 37 milhões de metros cúbicos por dia. Assim, logo nos eximiríamos de importar gás da Bolívia, evitando alimentar a dura lembrança da maneira bélica como a Petrobrás foi tratada pelo governo Evo Morales, que lhe invadiu as instalações pela força, sem qualquer protesto sério de Brasília.
Quando o penúltimo mês de 2013 começou, ocorreu a triste comunicação oficial de que a estatal brasileira decidira abandonar os últimos quatro blocos de identificação e produção do gás na região do São Francisco, depois de desistir de outros três. “Uma autoridade presente a uma reunião que tratara do assunto foi peremptória: “A gente gera muita expectativa”, e a perspectiva se desfaz como folhas secas ao vento.
Tentou-se justificar: os interesses estão voltados para os trabalhos do Pré-Sal, na bacia de Santos. Os resultados lá estão praticamente assegurados, se bem que a produção só comece, segundo os técnicos, depois de 2020. Seria ou será a autosuficiência em petróleo. Quando ao interior de Minas, que esperou durante séculos, pode aguardar mais. E já se fala nas reservas de xisto na bacia do rio na unidade nacional. O Velho Chico ponderou: “Pois, sim.”


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Por Manoel Hygino - 27/9/2013 08:20:34
Um autêntico herói do sertão

Manoel Hygino

No dia 3 de outubro, será a entrega da Medalha Cultural “Acadêmico Saul Alves Martins” ao advogado e escritor Petrônio Braz, por seu livro “Serrano de Pilão Arcado – A saga de Antônio Dó” e “Vultos Honoráveis de Brasiliano Braz e Saul Alves Martins”. A solenidade se realizará no Salão Rubi do Clube dos Oficiais da PMMG, na rua Diabase, no Prado.
Rende, assim, a Academia de Letras “João Guimarães Rosa”, da Polícia Militar de Minas Gerais, homenagem, a instância do acadêmico coronel João Bosco de Castro, seu presidente, a um dos mais prestigiosos pesquisadores e autores do sertão mineiro. Petrônio será o orador oficial da cerimônia.
Os mineiros, geralmente, por índole ou formação, são tímidos na divulgação de seus feitos, na exaltação dos que constroem sua história e seu futuro, dos que reverenciam as tradições e enfatizam, como convém, a importância de sua cultura. É o caso de Antônio Dó, autêntico homem do sertão, que não se curvou às injustiças e às vinganças de seus adversários, reagiu e foi executado. Sua personalidade forte se fixou através do tempo e mereceu realce na notável obra de Guimarães Rosa.
Petrônio Braz, membro da Academia Montes-clarense de Letras e fundador da Academia de Letras, Ciências e Artes de São Francisco, dedicou-se ao tema Antônio Dó, personagem menos conhecido, mas mais significativo para a região, do que o foi Lampião para o Nordeste. O livro de Braz ganhou repercussão e inspirou documentário selecionado para o VII Curta Canoa, no Festival Latino-Americano de Cinema de Canoa Quebrada. A produção de Elder Gomes Barbosa foi incluída entre os vídeos selecionados para a mostra competitiva.
“Serrano de Pilão Arcado” mereceu um esplêndido ensaio crítico da professora-acadêmica Yvonne de Oliveira Silveira, já reeditado e apresentado no Clube de Leitura Felicidade Patrocínio, um dos mais atuantes centros de cultura do interior de Minas. Para a médica e jornalista Mara Narcisa, a iniciativa exige atenção: “Alguém precisa enxergar isso e fazer crescer tal atividade. Caso não avance, todos perdem”.
Daí, a conveniência até de se dar presença no Clube dos Oficiais, neste outubro. Conhece-se um autor de excelentes méritos e mais de perto se ingressa no universo de Antônio Dó, vulto marcante na afirmação do homem de Minas. Afinal, sertão não é unicamente nordestino.


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Por Manoel Hygino - 19/9/2013 09:06:50
Para onde estamos indo? Pergunta-se

Manoel Hygino

Criança boliviana de 5 anos, em 28 de junho, é assassinada a tiros, em São Paulo, por um grupo de jovens brasileiros: um de 19 e outro de 18 anos. Considerados suspeitos e presos, foram conduzidos ao Centro de Detenção de Santo André até julgamento. A detenção não foi provisória, nem houve júri. Ambos foram encontrados mortos por envenenamento logo depois. Os companheiros de cadeia acharam melhor não aguardar o demorado processo na Justiça.
Um terceiro comparsa de 19 anos foi morto também a tiros. Um quarto e último se acha foragido. Certamente, será assassinado, extinguindo-se um quarteto de menores de 20 anos, que não se incluirão nas estatísticas de presidiários do país. Haverá quatro vagas no sistema penitenciário, tão precário em número e qualidade.
O Brasil se transforma numa imensa praça de guerra intestina. A apuração, julgamento e a punição atrasam em todas as esferas, porque não é do vezo do sistema aplicar sanções. As armas, contudo, estão por aí. O caso de Marcelo Perseguini, de 13 anos, não é isolado. Em minha cidade, um ex-presidiário, 24 anos, foi morto quando um indivíduo lhe desfechou três disparos fatais. Era o primeiro homicídio de agosto.
No oitavo mês, o IBGE divulgou que a expectativa de vida do brasileiro ao nascer cresceu 11,2 % entre 1980 e 2010. Média de vida 62,5 anos, no primeiro período; trinta anos depois, 73,7 anos. Se não perder a vida em acidentes de trânsito, nas estradas e por armas de fogo ou outras.
Tornamo-nos o quarto maior exportador de armas do mundo, segundo a entidade Small Arms Survey. Mas também, as compramos nos EUA, Rússia, Chile, Bélgica e China. Afora as de nossa própria produção, encontráveis à venda até na Praça 7, em BH.
Outro dia mesmo, na minha sertaneja cidade natal, um menino de oito anos foi apreendido exibindo uma garrucha de dois canos perto do Batalhão da PM. Estamos assim, e sem perspectivas de melhorar.
A legislação labiríntica induz à impunidade. A Justiça é lenta e tardia, frequentemente. Há os que acham melhor fazê-la com as próprias mãos.
Em 15 anos, quase 130 mil homicídios deixaram de ser contabilizados no Brasil. A grande maioria de mortes violentas registradas como “causas indeterminadas” pelo Datasus são, de fato, homicídios. Para o Ipea, os índices de assassinatos no país são 18,6% maiores do que os divulgados oficialmente. Os números espantam e inquietam.

(N. Da Redação: o escritor e jornalista Manoel Hygino é de M. Claros)


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Por Manoel Hygino - 10/9/2013 08:16:58
Agosto que sempre se repete

Manoel Hygino

Cada terra com seu fuso, cada roca com seu fuso. O adágio emerge do mais profundo de meu ser, lendo os relatos da 174ª Festa de Agosto e do 35º Festival Folclórico de Montes Claros. Muito passado presente, muitas vidas, muita história, lembranças infindas de uma das mais antigas e tradicionais comemorações do interior das Minas: arte em cada volta, beleza em cada passo, como programado.
O mundo evoluiu. O calendário é outro, as estações do ano - agora tão várias como diria a Folhinha Mariana - estão diferentes, as pessoas não são as mesmas, mas as tradições no maior burgo do Norte mineiro resistem. O que há de mais representativo saiu às ruas no oitavo mês ou se mostrou no Centro Cultural Hermes de Paula: lançamento do livro “O menino que sonhava com as estrelas”, de Amelina Chaves; apresentação de esculturas de Felicidade Patrocínio (que faz um esplêndido trabalho pelas artes e letras); e exposição de Afonso Teixeira.
Além de desfiles de cortejos do mastro de Nossa Senhora do Rosário, e dos reinados dela e de São Benedito, o Império do Divino Espírito Santo e o Encontro Mineiro de Ternos de Congado. Ainda que muito descrevesse, faltaria muitíssimo. Há curiosidade, interesse e carinho por essa época. A cidade, de intensas e múltiplas atividades, vira festa. Há alegria. Catopês, marujos e caboclinhos desfilam.
A meteorologia previa sol com algumas nuvens, mas nada obscurece as expectativas. Os ventos dos redemoinhos típicos de agosto trazem algum incômodo, mas anunciam que os catopês estão chegando.
O jornalista Paulo Narciso conta que, com quase 200 anos, o Reinado de Nossa Senhora do Rosário abriu o segundo dia de festas. O cortejo passou pelas ruas do centro e chegou à Praça Portugal, onde fica a Igreja do Rosário. O sol continuava com “algumas nuvens”.
2013, contudo, trouxe novidade, talvez a mais significativa desses dois séculos. As mulheres, antes fora do corso, foram recebidas, bem recebidas, entre catopês, marujos e caboclinhos. Desfilaram, vestidas a caráter, usando as roupas de cada grupo dançante, perfeitamente integradas. A população vê tudo e aplaude.
Há uma efetiva confraternização e turistas vêem de longe para assistir a um espetáculo de rara e simplória beleza. Das áreas rurais, chegam os apreciadores habituais. É a maior festa do sertão mineiro. Ninguém quer perdê-la. Cores, música, folclore, religiosidade. No ano que vem, tem mais.


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Por Manoel Hygino - 27/8/2013 15:09:56
A telefonia que não ouve

Manoel Hygino

Supõe-se que aborrecimentos só acontecem com as outras pessoas, assim como ganhar na Sena. No entanto, os primeiros, isto é, os desprazeres estão bem próximos ou junto a nós, como os assaltos, os acidentes de carro ou as crises hepáticas ou intestinais.
No Brasil, dói saber que os serviços públicos, diretos e indiretos, são tal mal executados por quem de dever. As reclamações no âmbito da telefonia formam uma imensidão. E entra em exaustão e exasperação quem tiver de pedir uma providência saneadora ou reclamar.
Cito o meu próprio caso com a Oi Fixo. Não uso o jornal para um registro pessoal, porque evidentemente milhares de cidadãos têm de passar ou estejam passando pela mesma situação, que incomoda o assinante e lhe dá direito de vir a ressarcir-se pelo tempo perdido em busca de soluções para questões simples.
O autor deste comentário constatou, por motivos que ultrapassam o limite de explicações simplistas, que sua conta telefônica mensal era expedida em nome de Manoel de tal dos Santos. Fez-se a solicitação para correção do nome por via telefônica, tendo a área indicada feito o respectivo registro e recomendado que deveria também usar o e-mail.
Agiu-se assim como recomendado e tudo ficou como dantes. Incomodado pela manutenção do erro, dirigiu-se, com documentos à mão, a uma loja da Oi, já que a afirmação era de que qualquer dessas unidades procederia à correção. Na rua Tamoios, a atendente esclareceu (?) que só poderia atuar no caso a unidade do Barro Preto.
Nova locomoção até o novo endereço, onde se disse que o assinante teria de comparecer pessoalmente ou atribuir a tarefa a um procurador. Na rua Tamoios com Rio de Janeiro, seria fornecida uma senha para acesso ao serviço.
Verifica-se, pela descrição, que uma concessionária de serviço público comete um erro elementar, não cuida de repará-lo, sequer orienta corretamente para consertar o malfeito, obrigando o assinante a perambulações pela cidade, enquanto muitos milhares de pessoas têm de movimentar-se em seus múltiplos afazeres. A falta de compromisso com o cidadão, que tudo paga e com seu dinheiro mantém os serviços é flagrante. Quando se protesta, há a resposta: “Isto é Brasil”.


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Por Manoel Hygino - 3/8/2013 09:16:15
Uma história de trilhos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A Agência Nacional de Transporte Terrestre discutiu, na última semana de julho, o projeto de uma nova ferrovia que passará por Montes Claros, fazendo o itinerário entre Belo Horizonte e o Porto de Aratu, próximo a Salvador, na Bahia. O empreendimento estará a cargo de empresa privada e será leiloado até o primeiro semestre de 2014. Prazo de construção: cinco anos.A ferrovia se destina a cargas e permitirá velocidade de até 80 quilômetros por hora. Os trilhos ficarão a uma distância entre 30 e 50 quilômetros da maior cidade do Norte de Minas, devendo exigir de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões. Com isso se substituirá a linha existente, construída nos anos 20. Mais do que tudo, porém, confirma que as lutas pela antiga estrada de ferro eram perfeitamente válidas e revelavam o espírito empreendedor, visão de futuro e notável pertinácia.O Norte de Minas sempre se sentiu isolado, distanciado do interesse dos homens de governo, longe do Palácio da Liberdade ou do Catete, embora lutando, brava e incessantemente, para ser integrado aos projetos da administração pública. A construção da estrada era uma imposição, que imensamente exigiu de esforços dos seus representantes nos parlamentos e de pressões de seu povo. A região precisava de comunicações, mas não conseguia rodovia ou ferrovia.
Na época da proclamação da República, chegou-se a constituir uma sociedade anônima para construir uma via férrea ligando Montes Claros a Extrema, no rio São Francisco; depois, mais duas iniciativas, que também se frustraram, não se sabe exatamente por quais razões. Somente com a nomeação de Francisco Sá, homem do norte-mineiro e celebrado empreendedor, o projeto começou a tornar-se realidade. Era 1922 e a ideia saía do papel. A estação de Bocaiuva, a quilômetros da cidade maior, foi inaugurada em 7 de junho de 1924, como registra Hermes de Paula, e houve festas inesquecíveis. O ministro visitou ambas as cidades, em meio a grande entusiasmo popular. Em 1º de setembro de 1926, a grande longitudinal alcançava seu ponto mais ao norte. O sonho se concretizava, até que um dia, muitos anos após, o trecho foi considerado antieconômico e os trilhos deixaram de servir a passageiros. Novo tempo de desânimo e sensação de desamparo. Agora ânimo, mas se terá de esperar.


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Por Manoel Hygino - 24/7/2013 08:16:07
A infraestrutura médica

Manoel Hygino

O problema da carência de médicos no Brasil continua na ordem do dia. A ideia que se tem e que se comenta sobre o tema é vária. Por que faltariam médicos aqui? Temos o maior país da América do Sul em termos geográficos e de maior população; os profissionais desta área “ganhariam” bem e os respectivos cursos são os mais disputados nos vestibulares. Logo...
Algo está errado. Se temos de importar médicos e se eles são efetivamente competentes, não há de temer a revalidação da habilitação conseguida no país de origem. De fato, as condições de exercício do ofício em regiões recônditas são más, quando não péssimas. Inexistem equipamentos mínimos de saúde, há falta até de farmácia impedindo medicina responsável, o que, aliás, ocorre também na periferia das cidades maiores.
Verdadeiramente, estamos atrasados e quem desejar comparar pode recorrer aos romances do século passado ou às crônicas dos médicos que tiveram a coragem de enfrentar as dificuldades nos grotões. Um dos livros recomendados seria “Jornal de Serra Verde”, de Waldemar Versiani dos Anjos, romancista de excelentes predicados e irmão de Cyro dos Anjos, ex-membro da Academia Brasileira de Letras.
Iara Tribuzzi, sua sobrinha, recorda aqueles aparentemente remotos tempos heroicos da medicina, não tão distantes na prática. Ela evoca a personalidade do tio - médico, calmo, paciente e bem humorado. Era uma época em que o único exame disponível no sertão era o de fezes. E as moças ficavam acanhadas de enviar o “material” para o médico, que fazia às vezes de laboratorista.
Diante das circunstâncias inarredáveis, certa vez uma das clientes levou, bem lavada, uma latinha azul de pó de arroz Lady (que a gente simples chamava de Ladí), perfumou-a com o melhor dos perfumes - talvez “Je reviens” - e a enviou ao discípulo de Hipócrates, incluído nos sonhos da população feminina casadoira.
Imagine-se a surpresa do médico com o presente. Sobreveio o constrangimento ao abrir a latinha, em um tempo em que não se pensava sequer mencionar palavras como urina, sangue, menstruação, gravidez, nem suor. Como se terá comportado o novo médico procedente da capital com o diploma dependurado na parede do consultório? Iara cogita: “Teve vontade de rir, enfrentando material tão caprichado?”
Mesmo assim, boa era aquela época, tranquila e plácida. Hoje, o problema dos médicos chega ao mais alto tribunal de Justiça do país. O objetivo é melhorar a assistência. Vamos ver se se consegue. O Brasil precisa.


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Por Manoel Hygino - 10/7/2013 10:04:27
A importação de médicos

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Trazer médicos do exterior para suprir o mercado consumidor existente no interior do Brasil. Este um dos projetos do governo para atender necessidade básica. Não é solução tão fácil como se imagina. Gente é gente, doença é doença, o país é grande e as dificuldades de comunicação ainda são notórias, a despeito de avião, automóvel e telefone, por exemplo.
Uma dorzinha pode exigir ultrassonografia e o aparelho mais próximo fica distante. Não é só a máquina: exige ultrassonografista, com conhecimento específico para determinados casos. Se se precisar de uma tomografia, a solução está mais longe. Um equipamento de tomografia computadorizada custa bom dinheiro, requer especialistas para a operacionalização e interpretação do que se fotografa.
Quanto reclama em investimentos uma hemodinâmica, uma ressonância magnética, nem estou falando em medicina nuclear. A medicina é cara, as distâncias longas, impõe crescentemente saber cada vez mais a respeito de menos e menos. Lembraria Huxley.
Evitei referir-me a CTI. Se alguém necessitar de instalações de Centro de Tratamento Intensivo tem de penar para conseguir uma vaga, mesmo nas capitais. Médicos, de quaisquer nacionalidades, sofrerão com um paciente em condições graves. Depois, como transportar o doente para cidades com essas unidades, em que muito se confia ser a salvação?
O interior é pobre em assistência à saúde, muito mais do que se pensa. Cidades menores não contam sequer com radiologia, um laboratório de análises clínicas.
O que antes se fazia, quando se conseguia, e até hoje, é nomear médico para o interior, mediante proteção política e pistolão. Um profissional-escritor, Waldemar Versiani dos Anjos, conta em ficção, não tanto ficcional, suas agruras, venturas e desventuras, de jovem médico na minguada Serra Verde, em Minas. Havia um consolo: “A gente era boa de um modo geral, e estava alegre com seu novo médico”. “Feio e magro doutor, que as donzelas engordavam em devaneios e, no mais, tratavam de enredar e apanhar”.
Casamentos ajudavam no apego à terra, seus hábitos, seus carinhos e belezas. Os tempos são outros e as exigências públicas cada vez maiores. Ciência e tecnologia existem, aprimoram ininterruptamente.
Não só médicos nos faltam.


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Por Manoel Hygino - 8/7/2013 08:14:39
Os males do homem

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Nos dias conturbados que vivemos, em que parecem chegar ao ápice das inquietações das pessoas que ainda têm sensibilidade e bom senso, há de meditar-se. E indagar das razões que levam os homens a determinados tipos de perversões, desvios de natureza, material e ética, de degradação.
Com tristeza, pergunto-me o que os conduz a delitos como os cometidos por ex-autoridades de municípios de nosso Norte de Minas, de que a Imprensa de todo o país tomou conhecimento e comenta. São crimes de formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva...dentre outros.
Além dos assaltos de bandidos e vândalos ao comércio e ao patrimônio público, à guisa de insatisfação de cidadãos pela má gestão da coisa pública, lembro o caso do Brayan Capcha, o menino boliviano de 5 anos, morto em assalto à modestíssima casa da família em São Paulo. A criança completaria 6 anos no último dia 6. Os assaltantes se irritaram porque os pais só dispunham de R$ 4.500 na hora do assalto.
Desesperada, a criança ofereceu as moedas que amealhava para comprar um caminhão de brinquedo e alguma roupinha. Os marginais ameaçaram o menino com uma faca no pescoço e o mataram com um tiro na cabeça. Era filho único do humilde casal que deixara a pátria em busca de melhor futuro.
Num país desigual como o nosso, fatos como estes se repetem incessantemente. Não bastam mudanças na legislação, como a ora pretendida, nascida sob a desconfiança da população, decepcionada e frustrada durante décadas e décadas. Não avançamos materialmente como se afirma, e perdemos espiritualmente como jamais. O homem perde em humanidade, e aí reside o nosso mal maior. Daí lembrar uma verdade que precisaria ser ressuscitada para que possamos merecer redenção.
Reza um conto oriental que Deus, depois de criar o homem, ficou muito preocupado. Percebeu logo que o homem era perguntador, irrequieto e insatisfeito. Que, ao ver toda aquela maravilha ao seu redor, não descansaria até que encontrasse o seu Autor. Se Deus se escondesse no fundo do mar, o homem acabaria por descobri-lo lá.
Se fosse para a montanha mais alta do mundo, o homem a escalaria um dia. Se fosse para as estrelas, o homem viajaria até elas. Foi então que Deus teve uma ideia magna. Ele iria se esconder no último lugar em que os homens iriam procurá-lo: no coração do homem.


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Por Manoel Hygino - 10/6/2013 08:04:17
A fortuna

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

O comportamento de Francisco, o papa, causa certa surpresa ao mundo acostumado a ver pela televisão a grandeza material da Igreja em Roma. Os que conhecem a história do catolicismo, porém, não se escandalizam, considerando como se construiu o império eclesiástico. Novos caminhos podem surgir com o pontífice que nasceu em Buenos Aires e que se guia pelas lições do outro Francisco, o de Assis.
Para Eamon Duffy, historiador, dignidade do papa simboliza o próprio governo divino de seus corações, mentes e consciências. A presença de Francisco no Vaticano pode contribuir para resgatar a imagem corroída da Igreja, que tem em arcebispos, bispos e sacerdotes presença nos distantes rincões do mundo.
Estas considerações eu faço ao ler o testamento de João Antônio Pimenta, primeiro bispo diocesano de Montes Claros, nascido em 12/12/1859, em Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, que pertencera ao município de Minas Novas.
Ordenado em Diamantina, regeu as paróquias de sua cidade natal, de Água Boa, Piedade de Minas Nova (depois Turmalina) e Teófilo Otoni, antes de ser nomeado coadjutor do bispo de Porto Alegre.
Mas não posso estender-me, que este espaço é restrito. Enfatiza o bispo no seu último documento, após 45 anos de múnus pastoral: “Fui sempre pobre, não tendo podido fazer jamais economias superiores a vinte contos de réis, se é que tenha possuído algum dia bens que em tanto pudessem ser estimados.” Ajudou, no pouco que podia, os parentes em suas necessidades. Declarou: “Nada possuo na atualidade, a exceção dos objetos de meu uso; pelo que nada tenho de deixar de herança, a não serem estes pequenos objetos de muito pouco valor. Obrigado a trabalhar por minha diocese por deveres do cargo que ocupo, a ele pertencem quaisquer quantias, que achando-se em minhas gavetas, armários ou malas na ocasião de minha morte, não tenham destinação própria. Se houver dinheiro suficiente, que se mandasse celebrar 30 missas gregorianas.
Afirma que o palácio diocesano de Montes Claros, construído por ele, não lhe pertence, mas à diocese. Dispensava as coroas mortuárias, “de tradição pagã, que só servem para lisonjear a vaidade dos vivos. E um adendo: “Reine sempre na família a mais perfeita união”.


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Por Manoel Hygino - 1/6/2013 10:16:24
Uma escola de violência

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Nesta época em que, mais uma vez, se aventa a hipótese de fim do mundo, em que a terra treme sucessivas vezes no Norte de Minas – sobretudo na gloriosa Montes Claros, em que meteoritos cruzam os céus, um dos quais deixou em torno de mil mortos em território russo, há muita probabilidade de que muito mais possa acontecer. Cumpre ampliar conhecimentos sobre a matéria para se saber o que o futuro nos reserva.
Cientistas à 44ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária, nos Estados Unidos, concluíram que a rocha espacial responsável pela extinção dos dinossauros, não era um meteoro, mas um cometa. Isso ocorreu há 65 milhões de anos, nada mais. A revisão surgiu após análise na cratera do Chicxulub, no México, que tem 180 quilômetros de diâmetro.
Cientistas estimam que o corpo celeste era menor do que se pensara, mas se chocou contra a Terra em velocidade maior. Parte da comunidade científica é cautelosa quanto à conclusão. A tremenda colisão causou incêndios, terremotos e grandes tsunamis que encobriram o planeta de gás e poeira, derrubando a temperatura terrestre por centenas de anos e quebrando a cadeia alimentar de várias espécies animais, que se extinguiram como os dinossauros.
Ouvira dizer que um conterrâneo fora atropelado e morto quando descia da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Belo Horizonte, e tentava cruzar aquele importante logradouro público. A estação abriga hoje o Museu de Arte e Ofício.
Fato 2: Foi preciso que o tempo escoasse. Fiquei assim sabendo tratar-se do capitão João dos Anjos Fróis (naquela época as pessoas de relevo tinham um título militar sem passar pela caserna), nascido no Brejo das Almas (lugar que inspirou o título da obra de Drummond) e com experiência de vida. Vereador em sua cidade, professor de Escola Normal e funcionário público, com 67 anos, não era um velho. Sabia onde pisava e para onde ia. A capital era pobre em veículos automotivos. Mas o capitão foi atropelado e morto.
Vê-se que o homem está em permanente risco da vida, mesmo que não se leve em consideração a onda de violência que ora aterroriza os brasileiros de todos os recantos. Mata-se por torpes razões, ou sem qualquer motivo, movido o criminoso pelas drogas ou rivalidades esportivas. Ergue-se no Brasil uma escola de delinquentes e homicidas. E não mais se sabe verdadeiramente como se sobreviver em meio à violência.


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Por Manoel Hygino - 11/5/2013 11:50:30
Caixa d’água do Brasil

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

O governador Bias Fortes, José Francisco, em seus discursos, com voz grave, ensinava que Minas era a caixa d’água do Brasil. Tinha ponderável razão. Nas montanhas deste Estado nascem rios que fornecem água, energia e riqueza para grande parte do território brasileiro.
Mas as coisas não se desenrolam tão satisfatoriamente para a velha província. É o que se deduz, por exemplo, das obras da barragem de Berizal, em Rio Pardo, Norte de Minas, que beneficiaria 200 mil pessoas. Decorridos 14 anos do início da construção, com utilização ou desperdício de R$ 100 milhões de dinheiro público, o empreendimento está simplesmente paralisado no distante município de Taiobeiras.
A obra é de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), subordinado ao Ministério de Integração Nacional. Em 2002, o trabalho foi embargado por suspeita de superfaturamento, falta de licença ambiental e riscos de assoreamento que comprometeria a vida útil da represa.
Sobraram plataformas de concreto, ferragem, verbas perdidas, ações trabalhistas e problemas no pagamento de indenizações. Assim estamos com o processo em regime de confidencialidade restrita, a obra foi retirada do PAC 1 e o Ministério Público Federal instaurou inquérito há dois anos. Ficou como dantes.
Este o Brasil que progride. Conta-se que faltam R$ 60 milhões para a conclusão. E vergonha na cara, é óbvio.
Isso lá no Norte. No Triângulo, a Cemig se vê na contingência de recorrer à Justiça para a prorrogação da concessão da hidrelétrica da Jaguara, sob alegação de que o requerimento respectivo foi apresentado intempestivamente. Na época, a concessionária se negou a renovar qualquer uma das 21 suas usinas, sob as condições impostas pelo Ministério das Minas e Energia, em cuja frente se encontra o ministro Lobão.
Evidentemente S.Exa. desconhece a importância de Minas no processo de abastecimento energético do país, bem como sua atuação no desenvolvimento nacional. Jaguara é uma conquista memorável do Estado, desde que a União lhe surrupiou o aproveitamento de Estreito, também no Rio Grande. Minas parece condenada a servir apenas de depósito de água e de restos de obras estagnadas. E paira silêncio.



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Por Manoel Hygino - 19/4/2013 09:12:24
Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Conquistar sucesso pessoal ou para uma produção, qualquer que seja, permanece para quem vive no interior um grande desafio. Vencê-lo constitui quase uma façanha como numa corrida de obstáculos, de que só saem vitoriosos os efetivamente aquinhoados pelo talento e pertinazes para atingir seus objetivos.

Não sem razão os que desejam e lutam por oportunidade se instalam com armas e bagagens, nos centros demográficos e econômicos de maior expressão, que exercem fascínio sobre os que insistem em um lugar ao sol, embora isso possa parecer um lugar comum. Claro que também influem o prestígio político, a força de ancestralidade e, mui comumente, o fator dinheiro.

Rio de Janeiro e São Paulo, há longo tempo, são os principais destinos desses passageiros da esperança. Os que se mantêm nos burgos se candidatam ou se condenam ao desconhecimento de públicos mais numerosos, nas letras, nas artes, mesmo na ciência. A instalação de universidades ou faculdades em cidades do interior melhorou as condições dos que sonham ou ambicionam uma posição, mas o quadro não se transformou fundamentalmente.

Mineiros ilustres do Norte de Minas se destacaram por sua atuação na área do Direito. Para o jornalista Newton Prates, robustecido pela opinião de Paulo Narciso, o filho de Montes Claros que mais de destacou, até então, foi Antônio Gonçalves Chaves, o dr. Chaves, presidente das províncias de Minas Gerais e Santa Catarina na monarquia, magistrado, presidente da Câmara dos Deputados, senador da República, diretor da Faculdade de Direito de Minas Gerais, senador estadual, grande figura de seu tempo por sua cultura e inteligência, expoente do Direito, a quem Clóvis Beviláqua chamava de “meu mestre”.

Segue-lhe os passos Antônio Augusto Veloso, deputado provincial, senador estadual na Constituinte Republicana. Optou pela magistratura, foi desembargador brilhante, modelo de dignidade, autor de preciosos trabalhos jurídicos e traduções latinas. Darcy Bessone revelou-se no Direito Comercial e por importantes obras. Em nossos dias, há de apontar-se Carmen Lúcia, ministra do Supremo, presidente do TSE, com modelar atuação.

Permanecendo em Montes Claros, Petrônio Braz é autor de obras imprescindíveis no trato com o Direito Municipal, publicadas dentro e fora de Minas. Finalmente, anuncio Waldir de Pinho Veloso, professor universitário, que acaba de acrescentar “Registro Civil das Pessoas Naturais”, indispensável a quem labora na área, editado em Curitiba. Um plêiade.


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Por Manoel Hygino - 15/4/2013 09:37:59
Para enfrentar a seca

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

No tempo de Gonçalves Dias, havia palmeiras nas quais os sabiás cantavam. Depois dos penosos dias de sol e calor de 2012/2013 até recentemente, não acontece mais. As palmeiras estão acabando e aqueles pássaros as seguem.
No decorrer de décadas, acompanhei pessoalmente, pelo noticiário das revistas e jornais, pela televisão e rádio, por depoimentos pessoais, o fenômeno das secas desde o Nordeste ao sertão mineiro, avançando, avançando, por culpa dos brasileiros e pela ineficiência das políticas públicas. 2012 terminou, mas a estiagem ingrata, penosa, destruidora, não. Nada permitia a excessiva confiança em chuvas restauradoras no final do ano passado, no primeiro trimestre do atual. Mas a obstinação na esperança sempre remota entrou no segundo trimestre: barragens em níveis baixos de água, o risco continuado na redução da energia de fontes hidráulicas. O problema não está encerrado. O interior mineiro, afetado pelo drama, sofre. Plantações, a horta, os animais, a pequena produção destinada aos mercados, os córregos secando. Distraídos, os anjos da devoção popular não atendem ao clamor dos fieis.
Leio a notícia desalentadora: se os especialistas em meteorologia estiverem certos, não haverá mais chuvas significativas para o Norte de Minas nas “águas” atuais. A esperança é de que os institutos meteorológicos pátrios, com numerosos erros nas previsões, inclusive as recentes, falhem mais uma vez, agora em favor dos desvalidos. Como escreveu, há dias, o jornalista Paulo Narciso, fora da ciência, a chuva poderá driblar a previsão e vir alegrar o sertão. Acreditamos. Mas o governo se apanhou em omissão, porque confiava demais em São Pedro, sobremaneira ocupado com os graves problemas que afetam a Igreja que ajudou a fundar. Decidiu, assim, Brasília pela adoção de medidas inovadoras, originalíssimas, para uma tragédia imemorial, ainda nas palavras do periodista conterrâneo. A presidenta anuncia recursos para o Nordeste e a Área Mineira da Sudene. Deseja, enfim, enfrentar os efeitos de uma das piores secas dos decênios mais recentes. O dinheiro será aplicado – segundo se espera – na construção de 750 mil cisternas e no aumento da frota de caminhões-pipa. Além de bolsa-estiagem e restabelecimento de serviços essenciais, como recuperação de poços artesianos. Tem-se de esperar a tragédia para agir contra o desinteresse e o descaso.


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Por Manoel Hygino - 30/3/2013 10:44:03
Um crime bárbaro

A sordidez, a hediondez, a crueldade de crimes que se transformam em notícias para a Imprensa, às vezes extrapolando a mídia brasileira, parece constituir um estigma que marca a sociedade deste país nesta hora. Fica o cidadão envergonhado da condição humana, se humano se pode classificar condutas de desrespeito, de agressão e de eliminação do ser racional.
Mata-se no Brasil como se fora guerra. E a onda ganha dimensões nunca pensadas antes talvez, embora os que meditam sobre a hora que vivemos percebemos que este seria o caminho dos que perderam o bom-senso, o sentimento, as lições da família (quando existem), dos professores e dos que professam religiões. No primeiro mês deste ano, foram registrados 241 assassinatos em São Paulo.
O caso do goleiro Bruno é apenas um entre milhares no Brasil.
Nele, houve homicídio qualificado, ou seja, por motivo torpe e com uso de asfixia, sem chance de defesa para a vítima. Cúmplices, vários. O ato final, a execução, ficou a cargo de um ex-policial, que se teria encarregado de espancar a vítima e a estrangulou, decepou-lhe o corpo e atirou os restos a cães. Morte brutal, com pormenores amplamente divulgados pelo país. Em pleno século 21, no país poderoso, do futebol, do samba, do Carnaval, abençoado por Deus. Ainda?
A história não está encerrada. A verdade inteira não foi contada. Falta resposta a detalhes. E como o principal acusado se encontrou cercado de tantas pessoas na adversidade, inclusive por mulheres! Até hoje permanece rendendo juros o dinheiro do esporte? Não teriam encontrado para a vítima outros meios menos cruéis para resolver o problema, tampouco suficientemente esclarecido?
Assassinar pessoas assim, principalmente mulheres, se julgaria algo da Idade Média, para tempos medievais. Os fatos do século XX o demonstram. Em 3 de maio de 1913 – completam-se agora exatamente 100 anos – foi assassinado na sua fazenda de Canoas, o coronel Marciano José Alves, a golpes de facão. Também foram mortos Antônia Josefina Alves, a esposa, e a doméstica, Rita. Consta que, perpetrado o crime, cortaram-se os corpos e atiraram os restos aos porcos.
É uma longa e dolorosa história. O coronel era bisavô de João Vale Maurício, ex-secretário de Saúde de Minas, escritor, médico, da Academia Mineira de Letras. No livro “Emboscada de Bugres”, Milene Antonieta Coutinho Maurício, pedagoga, escritora premiada, esposa de João Vale Maurício, conta sobre o tríplice homicídio das Canoas. Os matadores foram João Cabeceira e outros, que agiram contratados por chefes políticos. Pairou mistério por muitos anos, mas não há crime insolúvel.


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Por Manoel Hygino - 14/3/2013 09:28:37
O perigo vem do céu

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Os tremores de terra têm assustado o Norte de Minas. Em 23 de dezembro, um deles atingiu regiões de Montes Claros, provocando danos e transtornos aos moradores. Em 27 de fevereiro, as cidades de Biquinhas e Morada Nova registraram o mesmo fenômeno, tido como moderado pelo Observatório Sismológico da UnB. O boletim da universidade revela que “moradores da cidade de Biquinhas relataram que sentiram uma intensa vibração do solo e ouviram um forte estrondo sonoro”. Perguntei-me: “Estrondo sonoro? Há algum silencioso?”Muitos e muitos anos antes, em 9 de fevereiro (data de nascimento de meu avô), em 1906, outro “presente” do espaço cortou os céus de minha cidade, com fulgor impressionante, caindo na Serra do Queixo, em terras do capitão Cesário da Rocha, fazenda do Sapé, Brejo das Almas, hoje Francisco Sá.
Era um “aerólito”, vulgarmente conhecido hoje como meteorito, semelhante ao que desabou em território russo recentemente deixando cerca de mil feridos. O jornal “Opinião do Norte”, que na cidade se publicava, nove dias após o fato noticiava: “Na noite de 9 para 10 deste mês, das 7 para 8 horas, diversas pessoas desta cidade puderam ver um bonito aerólito que descreveu uma grande curva do nascente para o norte, espargindo durante a sua rápida queda fulgurante luz.Era adjetiva a linguagem da Imprensa. E detalhava: “Pelo grande estampido, não muito longe daqui deve ter caído”.O jornalista acrescentava: “Muitas pessoas que acompanharam com atenção o belo fenômeno meteorológico, afirma que, ao estampido, seguiu-se, em alguns lugares, tremor de terra bastante intenso que chegou a produzir choque de garrafas em prateleiras, bater de portas, etc”. Expedições partiram de Montes Claros em busca do local exato em que se teria alojado o presente celeste. Encontraram-se duas brechas dentro da mata, produzindo sulcos. No roteiro, com cerca de doze metros de largura, árvores derrubadas em grossos troncos, galhos quebrados, pedras deslocadas, tudo amassado à passagem do estranho corpo, a não ser fragmentos de calcitas, fragmentos de natureza calcária. Nenhuma vítima racional ou irracional. Ainda bem.


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Por Manoel Hygino - 18/2/2013 09:20:24
Paisagens que são do passado

Manoel Hygino

O brasileiro teria uma excelente atração turística se os vapores do rio São Francisco estivessem operando como em velhos tempos. Lamentavelmente, o Brasil – ou os brasileiros – não contribui para preservação do passado, que é belo e glorioso. Entusiasma-se com o que é novo, caro e importado. Veja-se no caso de nosso sistema ferroviário, essencial ao desenvolvimento do país, à integração nacional, reduzido a trechos ainda operados ou a circuitos turísticos. Não fossem as estradas de ferro estaríamos parados em muitos setores.
O São Francisco, descoberto por Américo Vespúcio em 4 de outubro de 1501, se tornou ao longo dos séculos outro grande instrumento de desenvolvimento e integração. Para os índios, era o rio Opará, o rio-mar, um mar que corre pelo interior do maior país da América Latina. As povoações se formaram ao longo de seu curso, viraram cidades, e as pessoas passaram a ignorar a importância social e humana da sua via mais preciosa. Suas águas perderam em qualidade e diminuiram em quantidade.
Quem andou por ali ou ali mora sabe perfeitamente que o São Francisco perdeu imensamente em vigor e grandeza. A despeito de iniciativas dignas para protegê-lo, não conseguiu sensibilizar o poder público para sua salvação. Nem se avalia a sua importância para produção de energia elétrica e para transporte de cargas e pessoas como outrora. Em suas margens construiu-se uma nova civilização, a que não se prestigia ou ampara.
O grande empreendimento, recente preconizado, é o aproveitamento de suas águas mediante a transposição, a aventura mais nova. Pobres águas, que não são as de antigas épocas, porque poluídas por indústrias ou pela população, sem maiores perspectivas de afirmação pessoal ou profissional.
Desapareceram da paisagem os vapores que, em determinada fase, integravam a frota da Navegação Baiana e da Navegação Mineira, que transportaram milhares de homens e mulheres, inclusive excursões religiosas, até Bom Jesus da Lapa, no sertão da Bahia. Curiosamente, me lembro que, para uma recepção ao presidente João Goulart, naquela cidade, buscaram-se os peixes em Mato Grosso. Não dá o que pensar?
Em todo caso, façamos uma pausa. Para festejar sentimentalmente o vapor Benjamim Guimarães, construído há 100 anos por James Rees Sons & Co, e que agora precisa de tratamento em Pirapora. É um dos últimos marcos de uma era gloriosa. Em todo caso, o Banco Mundial promete revitalizar o rio e o transporte fluvial. Vamos ver.


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Por Manoel Hygino - 7/1/2013 09:31:26
Os temas recorrentes

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Poderá o leitor observar que ficamos repetitivos, há frequência no enforque de problemas e outras questões aqui examinadas. Não constitui novidade, se consideramos que eles – problemas – e elas – questões – permanecem. No penúltimo dia de 2012, por exemplo, ao apanhar os jornais, verificarmos que, em primeira página, um deles advertia para os desafios de Dilma Roussef no ano que ia deslanchar: pobreza, segurança, educação, saúde e habitação. Eu acrescentaria saneamento básico, fato gerador de numerosos outros que minam a sociedade.
Conviria falar em desemprego? É um tema preponderante, suponho. Sabemos que não afeta apenas o Brasil, em que aparentemente o governo teria resolver o caso. A Organização Internacional do Trabalho informou, quando ainda era dezembro, que o desemprego mundial saltou de 5,5% em 2007 para 6% em 2012. No Brasil, o número de trabalhadores na indústria teve queda de 1,2% em novembro, comparado ao novembro de 2011. Foi o 13º resultado negativo consecutivo nessa medição.
Voltando ao teor do primeiro parágrafo, é obrigatório nos referimos aos assuntos recorrentes. Assim, é o São Francisco objeto de vários comentários e de ampla repercussão, porque milhões de brasileiros dependem do rio denominado da “unidade nacional”. Nascido em Minas, percorre-lhe o território, para alcançar o Nordeste, antes de desembocar no Atlântico.
No governo federal que passou, resolveu-se usá-lo para uma obra ciclópica. Até hoje, apenas uma esperança, porque os obstáculos foram mais poderosos do que os cronogramas e o interesse dos políticos.
Agora, o biólogo José Alves Siqueira e outros 99 pesquisadores alertam que o Velho Chico está em processo de “extinção Inexorável”. O professor é integrante da equipe da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina, contratada pela própria União para monitorar o rio e as obras de transposição.
As observações e conclusões foram resumidas no livro “Floras das Catingas do Rio de São Francisco: História Natural e Conservação”. São nele avaliados os impactos do rio, pois, além do desvio das águas, há intenso uso para abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e outros fins, incrementados à medidas que corria o tempo. As conclusões são tristes e ameaçadoras. Os pesquisadores alertam que restam apenas 4% da vegetação das margens do São Francisco. Ele está praticamente inviável como hidrovia, espécies foram extintas e os ecossistemas alterados profundamente. Sua água não atinge os objetivos originais, frustram-se as populações e mata-se a grande corrente.


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Por Manoel Hygino - 27/11/2012 09:14:05
Quando verbas não faltavam

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Agora que a campanha eleitoral de 2012 é passado, pode-se constatar a imensidão de promessas que continuarão promessas, com o cidadão confiando que, algum dia, elas se consumarão. Enquanto a presidenta – como quer ser chamada – viaja ao exterior, sobra ao eleitorado órfão esperar por dias melhores, embora a máquina oficial pretenda impor à população que estamos no melhor dos mundos. Não é tanto assim.
O criminoso Anel Rodoviário de BH aguarda recursos e vontade política; a BR-381 recebeu o compromisso de que alguns trechos receberão estudos, a partir de 2013. O brasileiro cAonfia e tem esperanças. Até quando, não se pode saber. Nesta nossa época de avanços tecnológicos, quando se pensa até em passar temporada em Marte, é surpreendente verificar que, ao invés de se abrirem desvios nas estradas ou reformá-las, prefere-se instalar placas tipo “Cuidado, curva perigosa!” ou “Depressão na pista”.
Isso me levou a conferir algumas informações de 1950, quando se programava a inauguração da ligação ferroviária Norte-Sul, com 296 quilômetros a partir de Montes Claros, como registrou o cuidadoso escritor e agrimensor Nelson Viana, autor das “Efemérides Montesclarenses”, seguido em labor pelo médico-historiador-folclorista Hermes de Paula.
Transcorridos mais de 60 anos daquela visita preparatória à inauguração, chama a atenção como se conseguia realizar proeza dessa dimensão e grandeza. A obra envolveu tremendos empecilhos, sofrendo efeitos das secas e das enchentes em dez rios. Eram 15 as estações, 14 mil trabalhadores acompanhados das famílias, no tempo em que o impaludismo e suas recidivas causavam média de 500 doentes mensais, afora outras moléstias.
Construíram-se 13 pontes, além de quatro triângulos de reversão (o que não sei do que se trata) e 363 bueiros, com comprimento total de 5.402 metros, e 25 passagens inferiores. Para garantir o fornecimento de água às locomotivas, fizeram-se cinco barragens com cerca de 600 mil metros cúbicos e 11 poços tubulares. Também estenderam-se 48.600 metros de linha telegráfica dupla e uma rede completa de assistência social foi implantada, com médicos, hospitais e escolas. Era 1950 e não se falou na falta de recursos e verbas.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2012 23:45:20
O espólio da casa roubada
Jornal Hoje em Dia 24/11/2012

Múltipla tragédia no norte-mineiro. Jovem de 21 anos matou a namorada a facadas, usou o mesmo meio para ferir o tio da vítima, enfrentou a polícia, tomou uma arma de fogo de um dos soldados, atirou no delegado e o acertou, para se matar finalmente, com um tiro na cabeça.
Uma tragédia estúpida, cruel, em que, contrariamente a muitos outros casos, não se falou em drogas.
Na rede social, o moço cometeu mais delitos. Registrou: “Não acredito mais em palavras falsas dizendo vou te fazer e vou te amar pra sempre! Tudo ilusão; é por isso ki diz que oke olhos não ve o coração não sente”. Na verdade, a falta de boa educação e formação muito contribuem para a situação de risco em que vivemos.
Numa cidade bem ao Norte do Estado, um menor de 15 anos morreu em hospital, atingido na noite precedente por dois indivíduos. Ele não tinha passagem pela polícia e voltava de uma partida de futebol. Segundo a mãe, era dedicado e esforçado, trabalhou como vendedor de picolé, ajudou em oficinas mecânicas e foi servente de pedreiro.
Nem se fala em São Paulo, a locomotiva do desenvolvimento brasileiro, o Estado mais rico do país. Caminha para duas centenas de morte violentas, num ciclo de violência cujas nascentes parecem estar nos presídios. Quando será o fim do extermínio?
A conservadora Minas se inclui no âmbito do processo horripilante. Encontra-se em terceiro lugar na lista dos Estados com maior número de inquéritos de homicídios sem solução.
Havia, no princípio de novembro, 12.032 casos instaurados até 2007, em aberto. Reconhece-se o esforço do poder público, mas é imprescindível fazer mais. As cadeias nos municípios estão lotadas ou superlotadas, não podem receber mais presos. Os presídios se acham em idêntica situação, e as autoridades se veem na contingência de soltar dezenas dos que aguardam julgamento por absoluta falta de vagas.
O sistema permite a incessante apresentação de recursos à Justiça, agravando mais o quadro lúgubre desta hora. Concomitantemente se constata a existência de uma infraestrutura carcomida ou já destruída, enquanto escorre pelos ralos da podridão ou incompetência administrativa o quinhão suado dos contribuintes, pobres contribuintes! Faz lembrar, mais uma vez, Rui Barbosa ao eximir-se de candidatura à presidência para não gerir o espólio de uma casa roubada.


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Por Manoel Hygino - 6/11/2012 11:24:15
A conquista dos sertões

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A campanha política e o resultado das eleições deste ano trouxeram novidades. Entre elas, por exemplo, a escolha de um colombiano para prefeito de Palmas, capital de Tocantins. Em Minas Gerais, dentre outras, a do japonês Yuji Yamada, 66 anos, para o executivo de Janaúba, a cidade do Capitão Enéas Mineiro, que por sinal nasceu em Pernambuco. Aliás, como observou Waldyr Sena antes do pleito, feito ele o único forasteiro a se eleger prefeito, em 1950, de Montes Claros. Tinha base. Tornou-se, ainda segundo Waldyr, um dos grandes empreendedores da região, prefeito de Francisco Sá, um dos maiores fornecedores de dormentes para a Estrada de Ferro Central do Brasil, extraídos em sua fazenda Burarama. Na época, não havia crime ambiental, e no lugar da madeira ergueu-se uma cidade e recebeu seu nome: Capital Enéas.
Agora, quando as eleições municipais de 2012, são passado, ainda se pode meditar sobre o fenômenos comentado pelo jornalista consagrado no norte mineiro. Uma delas é que o brasileiro não tem preconceito nem faz restrições aos que, procedentes de outras regiões do país e mesmo do exterior, se instalem nos seus rincões para produzir o bem e o progresso. Lamentavelmente, tem-se de convir que, bandos há daqueles que se movem àquelas distantes regiões do sertão mineiro apenas para tirar proveito e lubridiar.
O Brasil mudou e a distante e desamparada região procurou e procura seus próprios caminhos. Historicamente, jamais pôde confiar e esperar muito dos que ocuparam o poder público ao longo de muitas décadas, mesmo séculos. Decidiu por obrigar e aceitar o que vinham de outras plagas, desde que capazes de oferecer à sociedade e o que ela reivindicava e necessitava.
As velhas e inquebrantáveis oligarquias interioranas se foram desfazendo. As novas gerações não conseguiram, de um modo geral, conquistar áreas de prestígio maior na administração, nem se interessar por cargos públicos. Os forasteiros surgiram para ocupar a lacuna, e sabem que há muito a construir.
O governo central, com outros interesses e escopos, faz pouco pela região. Na visita da presidente ao norte, em agosto, prometeu: a duplicação e outorga à iniciativa privada da BR-040, rodovia para Brasília, parcialmente construída; duplicação e entrega a iniciativa privada da Br-116 a Rios-Bahia; o a ferrovia entre Belo Horizonte e Salvador, que passa por Montes Claros, também transferindo a obra à iniciativa privada e, finalmente, a ferrovia entre Corinto e Uruaçu, em Goiás. E a União?


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Por Manoel Hygino - 27/10/2012 08:32:48
Uma lição que não se apaga

Jornal Hoje em Dia


Quando se aproximavam as festas cívicas e se desejava um discurso de excelência sobre as datas, o alto escalão administrativo se perguntava a quem escolher. Na lista sempre se encontrava Mello Cançado, Antônio Augusto de Mello Cançado, nascido em Pará de Minas, professor na Faculdade de Direito e da UFMG e da Mineira de Direito, acolhida sabiamente pela Universidade Católica.
Poeta e prosador, deixou muitos livros; escreveu para os jornais de uma época, que nem tão longe está; integrou a Academia Mineira de Letras, embora nos seus cem anos de nascimento tenha sido pouco lembrado. Uma injustiça que os tempos modernos, falhos de memória, cometem. Pequeno em estatura, grande em conhecimento, grande mestre, defendia ideias e amava o Direito Romano, de que foi notável professor.
Sua aula era uma lição – de Direito, de Filosofia, de Cultura, mas também de amor ao próximo, de civismo, de devoção às artes, à Justiça. Grande comunicador, ensinava com humor. Referindo-se às “Ordenações Filipinas”, comentava que no seu livro se aprende que a regateiro de então não é a de hoje. Tratava-se inocentemente das senhoras que vão hoje aos nossos supermercados comprar peixes, camarões, hortaliças e outros víveres para, depois, revenderem em domicílio.
Os mexeriqueiros não têm vez no Livro V das Ordenações. O título 85 mandava-os à cadeia. No título 81, ai de nós mineiros, proibiram-se as serestas. Indagava Mello Cançado: “Que mal fazem à alma da gente, dulcíssimas canções de amor ou de saudade, vindas do fundo da noite, ao esfrolar dos machetes, nos jardins de Pará de Minas, Uberlândia, Montes Claros, Pitangui ou Ouro Preto?”
Numa lição válida pelo tempo afora, aqui e por aí, Dom Felipe, no prólogo de seu Código, aos 5 de junho de 1595, deixava uma recomendações: “O bom rei deve ser sempre um, e igual para todos, em retribuir e premiar cada um segundo seus merecimentos. E assim como a Justiça é virtude não para si, mas para outrem, assim dever fazer o bom Rei, pois por Deus foi dado principalmente não para si, mas nem para seu particular proveito, mas para bem governar seus Povos e aproveitar a seus súditos como a próprios filhos...”
Para o centenário do sempre lembrado amigos e mestre, o magistério era uma paternidade. E, de fato, sem cansaços buscou transformar a escola em um lar, procurando adestrar, habilitar para a profissão, mas acima de tudo educar.


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Por Manoel Hygino - 22/10/2012 10:47:26
O sistema energético

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Houve época em minha cidade – e muitas outras passaram pelo mesmo problema – em que a iluminação pública nas ruas era extremamente deficiente. O mesmo acontecia nas residências, embora algumas ainda usassem lampiões a querosene, onde se dependuravam os fios sustentando a lâmpada incandescente, fraquinha, fraquinha.
Para o poeta Cândido Canela, era apenas uma luzinha, que para saber se estava acesa se tinha de acender uma vela. Para se conseguir uma iluminação digna, aguardou-se muito tempo até que a energia da usina de Três Marias lá aparecesse, depois de um intermezzo com reforço da hidrelétrica de Santa Marta. O Brasil cresceu, Minas caixa d´água do país – abastecia com a eletricidade de seus rios boa parte do território, depois apareceu Itaipu, etc.
Nas longas estiagens, com redução dos reservatórios a níveis mínimos, aumenta a preocupação com o abastecimento da indústria e da população, que já pena com o horário o horário de verão, que deveria constituir um apelo em casos de extrema necessidade, mas se transformou em prática anual. Não sem razão se permanece em ansiosa expectativa, e não só pelas repercussões em torno das renovações das concessões na produção de energia. Neste quase moribundo 2012, o nível dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste é o mais baixo em setembro de 2001, quando se racionou o consumo.
O Operador Nacional do Sistema informou, na primeira quinzena de setembro, que a capacidade de armazenamento de água nos lagos das usinas estava com 20,61% do total. Isso significa que o volume acumulado ocupava 47,89%, menos da metade do potencial reserva.
Trocando em miúdos. No mercado spot, que comercializava energia para grandes consumidores no curto prazo, o preço da energia subira 34,57%. E acontece exatamente quando o governo anuncia redução das tarifas de um modo geral, contra o que as concessionárias ameaçam com recursos na Justiça.
Aliás, no mês das eleições municipais, as distribuidoras de energia proclamavam que já deram sua cota de sacrifícios para diminuição de preço, não havendo espaço para mais reduções.
Nélson Leite, presidente da Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica, é peremptório: “As distribuidoras já estão impactadas, Não é possível reduzir mais os preços”;
Como 2013 não é de eleição, não se pode aguardar benesses oficiais. Se bem que, no próximo ano, já se estará trabalhando para 2014, quando se votará em pleito federal.


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Por Manoel Hygino - 15/10/2012 10:15:26
A morte de Francisco de Assis

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Era final de setembro, em Belo Horizonte. Uma das jovens, ao abrir a porta do carro para nele entrar, foi saudado pela motorista: “Bom dia, sol! Bom dia, árvores! Bom dia, minha amiga! “As expressões me pareceram mágicas pelos tempos difíceis que atravessamos.
Pairou lembranças de Francisco, o pobrezinho de Assis, que amava os seres todos, humanos, ou não; a flora. Primavera, mas ainda com aparência do inverno. No dia 27, Francisco de Assis – Ferreira – de Jesus, 40 anos, fora morto com quatro tiros nas costas em minha cidade. O 89º assassinato do mês. Outros já se registraram.
Dois dias após, rapaz de 19 anos foi executado, pela manhã, na avenida Santos – Guimarães, no bairro Sagrada Família. Novo homicídio de setembro, o número 90, na maior cidade do Norte de Minas. Li, em seguida: as imagens dos homicídios sem fim nas ruas ganham o mundo nas asas da internet. Postadas no outubro, levam a barbárie das nossas ruas e nossa vergonha muita pelo mundo afora. Estamos anestesiados, vendo este genocídio de braços cruzados. Somos majoritariamente cristãos, no sentido mais alto da palavra, e o silêncio nos acusa. Não dá para ficar indiferente. Deus, tenha misericórdia de nós!
Um autor, cuja identidade advinho, comentou no montesclaros.com. Sobre o assassinato, interrnacionalmente divulgado, apenas parte de um país que não saúda o bom e o bem, como as moças da capital, que não sei quem sejam. Vão virando rotinas nas ruas as execuções sumárias, com cenas brutais, com sangue. O mundo inteiro pode comprovar. Em todos os rincões do planeta, pode-se travar conhecimento com o horror que graça perto de nós, que nos cerca, verga e oprime, tudo sob nosso silêncio e omissão.
Aliás, foi esse o sentimento que percebi em numerosas mensagens recebidas até as vésperas da eleição, principalmente de escritórios de vários estados. Eles condenam e temem. Disse Paulo Narciso: as imagens do jovem executado, um Francisco de Assis, assassinado no bairro Sagrada Família, são chocantes. Envergonham-nos a todos, clamam.
Temos de ficar insensíveis, cegos às cenas que se repetem, dia e noite, nas cidades brasileiras? “Eu e você, irmãos da mesma humanidade, inertes, tomados e revirados estamos naquela poça de sangue. As mães chorando a imensa dor do mundo”.


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Por Manoel Hygino - 14/10/2012 08:04:16
O óbito indesejado

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Sou um tanto barranqueiro. Naveguei pelo São Francisco desde tenra idade, conhecendo os burgos e povoados às suas margens, chupando melancia ou experimentando depois as boas aguardentes da região. Gente boa e trabalhadora, que tem muito a contar, de sua vida e das lendas. Em criança, vi vapores encalhados nos bancos de areia e demorando até três dias para deles se livrar.
Desde remotas épocas se advertia para os problemas que teria o grande rio da unidade nacional. Suas águas não eram protegidas, transformava-se criminosamente em transportador de detritos e rejeitos de toda natureza, degradava-se, suas margens não recebiam a necessária defesa, enquanto se desertificavam extensas áreas do território mineiro. Mas se cuidava de distribuir o que sobrasse para atender a demanda de água do Nordeste, que em nada resultou até o momento.
Em setembro último, lançou-se, no Recife, um livro – diagnóstico, revelador do que se tornou o São Francisco. Cem especialistas descreveram o perfil da vegetação ao longo e no entorno do rio. “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” mapeia a flora regional, enquanto se executam as obras de transposição.
São 13 capítulos, o primeiro dos quais exibe título constitui um alerta: “A extinção inexorável do Rio São Francisco”. Em suas páginas medem-se os impactos na utilização do rio. Observa-se que, além de desvio das águas, há seu uso, intenso e incessante, para abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e muitos fatores poluentes.
O estudo vai mais além. Adverte que restam agora apenas 4% da vegetação das margens. O rio praticamente inviável como hidrovia, espécies foram extintas e ecossistemas profundamente afetados. Advertência: são imprescindíveis intervenções imediatas para mudar o atual cenário de degradação. Será que há alguém interessado? Se houver ainda o que se possa fazer algo para salvar a bela corrente nascida no Sudeste para percorrer os estados do Nordeste, deve agir rapidamente. O São Francisco está vivendo dias difíceis, seu estado é grave e seu óbito não interessa à nação em que vivemos.


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Por Manoel Hygino - 23/9/2012 09:09:44
As contas da saudade

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Plantada e implantada no sertão mineiro, tão bem descrita em lugares e personagens pelo cordisburguense Guimarães Rosa, Montes Claros é, de longo tempo, a maior e mais dinâmica cidade da região, dentro de um pedaço de Minas Gerais que já quis até desligar-se de Minas Gerais. Compreendia-se e se compreende.
Com sua dimensão geográfica e econômica, política e cultural, o burgo que gerou grandes nomes em várias áreas do saber e do fazer parecia esquecido dos poderes públicos. Só se lembrava de lá nos momentos de tragédia, dos nordestinos que desciam em direção ao hoje Sudeste, enfrentando toda espécie de dor e doença e a fome para fugir às extensas secas, pagando por pecados que não cometiam.
 A cidade é obra de muito esforço, de muita dedicação, de muito sacrifício, mas é. Existe e se explica naturalmente. Trata-se de uma das únicas do interior brasileiro com dois representantes na Academia Brasileira de Letras – Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, embora mais notáveis pudessem lá ter chegado e outros tenham engrandecido os quadros da Academia Mineira, como João Vale Maurício
.Outros marcaram sua existência na imprensa, não se esquecendo Hermenegildo Chaves, uma das mais altas expressões do jornalismo mineiro, também poeta, como o foi João Chaves, perenizado em música por composições de singular beleza. Numerosos atuaram e atuam nas letras, na música, no jornalismo, no rádio, no cinema, no teatro. A beleza passou por Montes Claros, ficou e inspirou.
 O livro “montesclaros.com.Amor”, de Flávio Pinto, é um relicário de inesquecíveis lembranças da cidade em que nasceu, passou infância e adolescência e se iniciou em atividades que o nortearam na vida. Suponho que mais se tenha realizado na imprensa, em “O Jornal de Montes Claros”, símbolo de veículo sintonizado com as mais caras reivindicações e anseios da cidade e de seu povo. Sob comando de Oswaldo Antunes, ex-integrante dos quadros de “O Diário de Belo Horizonte”, a publicação montes-clarense se caracterizou por independência e não por submissão, o que em qualquer canto do mundo pode ser mortal. E foi.
Flávio Pinto foi um dos jovens repórteres do jornal do querido, saudoso e respeitável Oswaldo Antunes, nos anos 60. E Oswaldo deixou discípulos e seguidores cuja missão se preserva com grandeza e dignidade, tendo como exemplo o montesclaros.com, de Paulo Narciso, que integra o título do novo livro de Flávio Pinto. Seu conteúdo é como contas de saudade de um velho rosário, que merece ser rezado.


72979
Por Manoel Hygino - 17/9/2012 18:54:34
Montesclaros.com AMOR, reunindo crônicas, reminiscências e meditações sobre belos tempos de infância e juventude, é um canto de saudade que se tornou passado cronologicamente, mas continua vívido e poderoso no coração e na memória. O livro de Flávio Pinto, recentemente editado, evoca uma época que se perde no calendário, mas ganhou força e beleza entre os jovens que cruzaram os anos 50 e 60 principalmente, do século que se foi.
Amavam a terra em que tinham nascido, o impacto de novas ideias desde o fim da II Guerra, que profundamente marcara toda uma geração. Depois dos sombrios dias do conflito, sonhava-se mais, mais se queria, desde a democracia, enaltecida e publicamente defendida no famoso Manifesto dos Mineiros em 1943, pela perspectiva de realização pessoal e profissional nas faculdades da capital até a carreira no jornalismo e nas letras, que já privilegiara Montes Claros com figuras da mais alta competência.
Flávio Pinto, com experiência adquirida na redação do Jornal de Montes Claros, nascido e dirigido, enquanto pôde, por Oswaldo Antunes, recorda sua afanosa passagem pela redação do corajoso veículo, símbolo de identidade com as melhores tradições e anseios da população.
Flávio Pinto, como outros jovens de então, construíram sua vida e hoje têm luz própria. Seu livro é agradável e uma lembrança de amor à terra e pessoas que jamais se apagam. Merece ser guardado o volume bem próximo ao coração.



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Por Manoel Hygino - 28/8/2012 16:07:51
Leio e analiso diariamente as notícias que me chegam pelo montesclaros.com. Tenho, assim, um retrato vívido e fiel da cidade em que nasci, desde as festas do Reinado de São Benedito em agosto, às atividades culturais, as ações do meio econômico, até o absurdo ciclo de crimes que se perpetram initerruptamente contra a população. Montes Claros é, de certo modo, uma foto do Brasil turbulento de nossos dias.
Tive acesso à crônica de Haroldo Lívio no dia 23 desde agosto findante. O historiador faz referências a ilustres filhos de brava gente do meu burgo citando Cyro dos Anjos, Darcy Ribeiro, Cândido Canela e Caio Lafetá, este tão prematuramente desaparecido de nosso convívio. Mas Haroldo me incluiu na relação, ao descrever episódios em que aparecem o conspícuo Waldir Senna Batista, eminentemente um homem de imprensa, e o escritor José Luiz Rodrigues.
 Haroldo muito me honra ao fazer as observações que fez a meu respeito. Acho mesmo que exagerou nos conceitos que de mim faz e do que, modestamente, construí no decorrer de décadas de existência. A esta altura, sua opinião se torna um epitáfio de luxo, cujo conhecimento público não poderia desconhecer.
É lisonjeiro ser considerado nos termos em que fui por tão admirado cultor de nossas letras e de nossa história. Guardarei como relíquia suas palavras.

(N. da Redação - O autor da mensagem é o jornalista Manoel Hygino, de 82 anos, colunista do jornal Hoje em Dia. Outro escritor, Haroldo Lívio, em crônica recente (mensagem 72 597 neste Mural, abaixo) - repetiu que Hygino é o nome mais alto das nossas letras. O aplauso geral fixou o consenso).


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Por Manoel Hygino - 19/7/2012 09:50:16
As portas da violência

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A notícia saiu pelos meios de comunicação na primeira semana de julho. Em cada grupo de brasileiros, seis têm medo de assalto à mão armada e assassinato. São dados de uma instituição confiável, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e se trata de um índice extremamente elevado com relação ao temor à violência.
A meia dúzia referida tem “muito medo” de assalto, assassinato e arrombamento de residência, além de agressão, sentindo-se menos seguras as mulheres. Mas certamente a grande maioria dos nascidos ou residentes neste país, nas capitais ou no interior, têm medo, quando não pavor, por viver sem segurança.
Apanho um exemplo: no dia 3 deste mês, um grupo de malfeitores entrou em ação no norte-mineiro. Dois invadiram um posto de gasolina no centro de Montes Claros, renderam o frentista com arma e roubaram dinheiro; dois assaltaram e roubaram dinheiro em Engenheiro Navarro, amarrando a funcionária dos Correios; em Corinto, uma agência foi invadida possivelmente pela mesma dupla. Funcionários e clientes foram rendidos e os facínoras levaram R$ 40 mil, celulares e armas dos seguranças; pouco depois, em Curvelo, carro usado na fuga se envolveu em acidente, mas dois dos marginais fugiram.
Episódios como estes fazem parte do cotidiano de um Estado com as dimensões de Minas Gerais, mas são extensivos a todo o país. Lamentavelmente o crime se tornou rotina, mas há evidentemente bandidos importados de outras unidades da Federação. A polícia faz o que pode, porém a marginalidade se disseminou por todo o território. Sequer as capitais, mais bem providas de agentes da lei, escapam. Pelo contrário, os facínoras se tornaram mais sofisticados em suas ações e em seus armamentos.
Como sair desta situação? Inúmeros dão palpite, autoridades expõem ideias, especialistas em segurança fazem reparos e críticas, sociólogos se manifestam, mas o panorama de medo e criminalidade não muda. Há até os que comentam: se em Brasília, a corrupção se instalou nos poderes da República, se milhões são consumidos na máquina administrativa corrompida ou corrupta, os fora de esquemas políticos se julgam com direito de também atuar na sociedade marginal.
Decreto assinado no final de junho concedeu R$ 150 milhões para aumento da verba de gabinetes dos 513 deputados federais. E os que tiveram elevação na escala social continuam sem pagar compromissos.


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Por Manoel Hygino - 4/7/2012 10:16:28
Antes que seja o fim

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O jornalista Girleno Alencar, em reportagem do dia 21 último, focaliza um tesouro em situação de risco. A preciosidade é a capela de Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Brejo do Amparo, em Januária, que já visitei mais de uma vez. A foto que ilustra a notícia revela o estado de degradação do templo, construído por escravos em 1688 e tido como o mais antigo de Minas.
Ao longo do tempo, a história mineira tem-se concentrado mais especificamente nas regiões de riquezas minerais. O ouro e o diamante atraíram a atenção do pesquisador, como fizeram àqueles que, vindos de Portugal, queriam saciar a sede de bondades na região central de Minas. Mas havia aquele outro grande fluxo que, descendo do Nordeste, estabeleceu-se no Norte mineiro e, dedicado a outras atividades, principalmente junto ao São Francisco, criou um novo posto civilizatório.
Foram gentes diversas, que incluíram os bandeirantes, mas também os emboabas, os vaqueiros, os indígenas da região e os afros, experimentados na agricultura. Levínio Castilho, engenheiro, nascido na região e por ela entusiasmado, observou:
“Essas raças confluentes descobriram, no último quartel do século XVII, as melhores terras agrícolas da região do São Francisco, onde se localizava a aldeia do Tapiraçaba dos índios caiapós. Era a mais poderosa e adiantada vila de toda a região, situada em terras frescas e férteis, e povoada por um gentio bravio e desconfiado, que ali se estabeleceu, formando um forte grupo agrícola, pastoril e comercial”.
A aldeia foi destruída. Cabe às novas gerações evitar que se destruam remanescentes valiosos do que ali obraram os pioneiros, principalmente os que, vindos do Nordeste, construíram monumentos às vezes simples, mas de grande sentido histórico. Aqui mesmo, denunciei o furto do sino da igreja de Nossa Senhora do Rosário, que pesava 300 quilos. Nunca mais se ouviu falar dele.
Agora, o templo corre risco, embora exista verba destinada à sua restauração. É algo que não pode ser adiado, porque aquele bem exige rápida recuperação. São mais de 300 anos de história e demonstração de muito amor e um símbolo de fé.
Os estudos preliminares já foram realizados. Agora, é mão à obra, para que o velho prédio não tenha o destino do sino, que há muito não badala.


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Por Manoel Hygino - 25/6/2012 10:25:28
A escola fechada

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Adolescente, acompanhei a extensa e intensa luta para implantar a Praça de Esportes, que tanto exigiu esforços das mais importantes vozes da sociedade de Montes Claros, a maior e mais forte cidade norte-mineira. Era uma época que não havia sequer rodovia asfaltada para a região, o que somente viria muito depois. Tudo em termos de suprir demandas da comunidade se concretizava a muito curso, como ocorreu, por exemplo, com a ferrovia que ligaria o sertão às capitais dos hoje Sudeste.
A população, todavia, sabia que para viver bem precisava mais do que simplesmente alimentar-se. Imprescindíveis saúde, para o que muito se lutou juntos aos organismos federais e estaduais, com água nas torneiras e saneamento básico, para o que muito se empenharam os prefeitos municipais.
Lideranças compreendiam também que se tornava valioso praticar o ensinamento latino de “mens sana in corpore sano”. Para isso, contou com o apoio da população, conservadora mais cônscia de que a Praça de Esportes fazia bem à cidade, dava-lhe prestígio, formava atletas habilitados a participar de competição em nível de igualdade nas capitais.
O médico e escritor João Valle Maurício afirmou que Montes Claros passou a ter gerações bonitas, sadias e ordeiras, tornando-se uma esplêndida escola para a mocidade de então. Chefe da Casa Civil da presidência da República, Darcy Ribeiro destinou uma verba fundamental para construir o ginásio aberto, que recebe seu nome.
Maurício sempre se orgulhou da Praça, o que afinal não é privilégio seu. Os montes-clarenses todos o seguiram, porque a cidade revelava esportistas para jornadas lá foram, sempre registrando perfomances de relevo. Outros municípios seguiram o exemplo e implantaram praças que produziram campeões estaduais e nacionais.
A cidade cresceu, a população também. E, quando mais se esperava que ela se mantivesse em permanente atualização, ocorre o que os jornais de Belo Horizonte comentam com destaque. A Praça, construída na antiga “Vargem”, será vendida para servir a interesses comerciais. Será que na cidade que se designa de Princesa do Norte não teria outro espaço? Se assim ocorrer, a Praça não será mais do povo, como quisera Castro Alves.


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Por Manoel Hygino - 13/6/2012 11:44:46
A morte está solta

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 6 do mês das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro houve mais do que o foguetório animador de antigamente. Em minha terra, onde as comemorações faziam exultar os corações, um rapaz, 25 anos, foi assassinado no Jardim Eldorado. E a Polícia Civil prendeu o suspeito de matar o estudante de direito.
Não muito distante, em Coração de Jesus, lugar natal do grande poeta Artur Lobo, bandidos atacaram o Banco do Brasil, arrombaram cinco caixas eletrônicos, guardaram as armas em malas e fugiram em quatro carros com placa de Uberlândia.
Mais perto da capital, seus facínoras explodiram também caixas do mesmo Banco e fugiram sem maior incômodo com o dinheiro em dois carros. A cidade em que nasceu o autor de "Sagarana" não podia ficar ausente da lista dos criminosos, que agora voltam sua atenção para os burgos do interior, já que nas capitais a polícia está mais rigorosa.
O leitor observará minha preocupação com o crime em geral e as drogas, com um genocídio indiscriminado em todo o país. O Brasil se tornou cenário de uma carnificina, que se deplora e se condena, mas não atenua. Mata-se na cidade e nos campos e nas vias que os ligam.
As estatísticas o demonstram, à saciedade. Recente estudo do Instituto Sangari revela que o Brasil tem o sétimo maior índice de homicídios entre as mulheres entre 84 países. Os estados com maiores taxas, em 2010, foram Espírito Santo, Alagoas e Paraná. Sessenta e oito por cento das vítimas foram agredidas na própria casa. Elimina-se o jargão: Lar, doce lar. Em verdade, degradou-se o espírito da família.
Nas rodovias, na maioria precárias, vidas são ceifadas. Levantamento recente mostra que o número de mortes em acidentes duplicou em Minas de 2000 a 2010. Passou de 2.247 para 4.044, a mais alta taxa do Sudeste do Brasil, chegando a 80%. Em nosso Estado, os carros matam mais, parcialmente explicável o fato por termos a maior rede rodoviária nacional. Se bem que São Paulo totalizou 6.946 ocorrências de trânsito em 2010, enquanto Minas quedou com os 4.044 acidentes referidos.
Lamenta-se especialmente que os criminosos quase sempre tenham sido liberados das prisões pela Justiça. Leia-se o noticiário dos jornais. Em uma reforma do Código Penal, evidentemente esses detalhes têm de ser considerados. Atualmente se cogita de ampliar para 40 anos o limite de cumprimento das penas de prisão dos detentos que cometerem novos crimes, aumentando dez anos. Uma ideia útil, mas não suficiente. Outras propostas para resguardar a vida do brasileiro têm de ser examinadas, discutidas e aprovadas. Com urgência.
Nem se fale em motos. O Brasil é o segundo país no mundo em mortes em acidentes envolvendo motociclistas, com 7,1 óbitos a cada 100 mil habitantes. À frente apenas o Paraguai. Nos últimos 15 anos, o crescimento da taxa de mortalidade nesse tipo de acidentes cresceu 846,5%, enquanto a de carros ficou em 58,7%. Mata-se mais do que em cruéis conflitos.


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Por Manoel Hygino - 6/6/2012 09:20:59
Além dos temores

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A professora Mônica Giannoccaro Von Huelsen, chefe interina do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, fez lúcida exposição sobre os abalos no Norte de Minas. Em resumo, ela disse que não há motivo para pânico. Em outros países em que há efetivos riscos de terremoto, "as pessoas aprendem desde cedo como proceder e não temem. Nós temos essa cultura ainda".
A explanação é de que esses tremores no Brasil não são capazes de levar ao chão edificações de qualidade, apenas produzir trincas ou rachaduras. "Edificações de qualidade", eis a questão. Concluiu o raciocínio: "Já uma construção ruim, feita sem vigas, pode cair até com abalos de 4 graus".
O mais forte tremor, dentre os 23 registrados, atingiu 4,5 graus na Escala Richter. Os técnicos recomendaram: "Dentro de casa, afasta-se de objetos que possam cair e de armários; vá para debaixo de uma mesa ou portal, desligue o gás. Fora de casa, vá para áreas livres; não entre em pânico; não se aproxime de edifícios, linhas de transmissão de energia, muros, monumentos e árvores. Em prédios: não use elevador ou escada; procure local seguro longe de janelas e armários; permaneça calmo e espere por ajuda".
Até aí, tudo bem, mas a orientação não serve a grande parte da população brasileira, que não goza dos mínimos benefícios do progresso e da modernidade, nem mora em cidades. Não faz muito tempo, naquela região sertaneja, uma menina morreu - primeira vítima desse tipo de fenômeno no Brasil - porque a habitação desabou sobre ela, lá em Caraíbas, no município de Itamarandiba.
São mundos diferentes, embora não tão distantes geograficamente. Deve existir estatística sobre quem mora na roça sem proteção alguma, sem projeto de engenheiro, sem alicerce, sequer com teto, coisas assim. Não faz muito tempo ruíram casas de conjuntos residenciais até de certo luxo, mesmo sem qualquer abalo sísmico, por força de deslizamento de terra, má construção, excesso de chuvas. Nem se imagina o que acontece todos os anos, quando modestas habitações, mesmo casebres, despencam dos morros ou são carregadas pelas enxurradas.
Na roça, no sertão, há pobreza que a propaganda oficial não esconde. Basta conferir, se bem que os brasileiros com algum rendimento mais expressivo preferem comprar um carro de luxo ou fazer uma viagem ao exterior, mesmo quando o dólar tem cotação mais alta.
A verdade é muito outra. O próprio IBGE informa que 18,5 milhões de pessoas, correspondente a 12% da população pesquisada, vivem em áreas urbanas com esgoto a céu aberto diante de suas moradias.
Pode-se morrer, assim, em abalo sísmico, em enxurradas, em desabamentos, ou por doenças produzidas por falta de saneamento básico ou assistência à saúde. Tudo isso tem de ser repensado e reavaliado. Os jornais publicaram: as pessoas com renda familiar per capita de R$ 291 a R$ 1.019 são as que formam a classe média brasileira. Com essa receita, não dá para fazer milagre.


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Por Manoel Hygino - 25/5/2012 10:24:16
Revolta da terra

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Guimarães Rosa utilizou a temática do sertão magistralmente. No princípio, eram poucos e privilegiados os que conheciam o seu verbo, o seu vocabulário, com expressões cujas raízes se perdiam na imensidão do tempo, palavras esquecidas nos desvãos da língua na Europa ou nas colônias. O escritor de Cordisburgo as resgatou. Hoje, milhões usam nas conversas, nos livros. Rosa se popularizou.
Mas ele não podia imaginar fenômenos como a pesada chuva do dia 14 em Montes Claros. A tempestade provocou alagamentos, queda de árvores e destelhamentos. Diz-se que na região chove pouco, e é verdade. O dia 14 quis demonstrar que a verdade tem outras faces. Moradores de um conjunto habitacional de Montes Claros foram os que mais sofreram. Além de alagamento, padeceram com as infiltrações nas paredes e queda de tetos de PVC.
A força do vento aprisionou em varanda de uma casa parte da família no bairro Olga Benário. O telhado de zinco de uma granja foi arrancado e ganhou os ares por 50 metros. Estradas danificadas causaram acidentes e vítimas de ferimentos.
E tudo aconteceu quando as beatas já se preparavam para orações contra a longa estiagem, que secara a terra e os rios, que matara a plantação e ameaçava o gado. Os jornais da capital já classificavam o período como dos piores da história de Minas. Anunciado uma calamidade que abrangia o Nordeste de Minas, o Norte, até o Sul da Bahia, era natural que se apelasse para forças mais poderosas e os milagres.
Em outros tempos, levas de irmãos do Nordeste desciam de suas paupérrimas regiões em busca de menor dor. Distribuíam-se pelo Paraná, São Paulo. Grande número se assentava mais ao Sul, nos municípios do Norte e Nordeste de Minas, onde ainda morava uma réstia de esperança. Mas também a esperança diminuía no sertão mineiro, porque, em 2012, marcou o início da estiagem. Tendo assistido uma das piores estiagens da história regional, conheço de perto o drama. Mas a seca periódica não interrompeu seu curso e se repete neste 2012 ainda no quinto mês. Como se pouco fora, mais um tremor de terra no dia 19 de maio.
A paciência do sertanejo, já tão sofrido, também se abala. Foram 11 tremores de terra nos tempos mais próximos. Os técnicos têm informações pertinentes, que esclarecem, mas não conformam. Após o abalo de 2008, os sismógrafos registraram, em apenas um dia, mais de 50 tremores de menor intensidade. Há algo que se possa fazer?
O sertanejo, e não somente o que habita as terras mais ao norte do território brasileiro, a cada infortúnio se demonstra efetivamente um forte, como o definiu Euclides da Cunha. Cá em Minas, surgem novas formas de provação, como se fossem poucas as de privação.
Há muito, tenta essa gente vencer a força destruidora da natureza e a insensibilidade dos homens. Há muito, sim, porque, a primeira região mineira a ser povoada foi a do Norte de Minas, através dos currais de gado do rio São Francisco e Rio Verde.


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Por Manoel Hygino - 5/5/2012 14:40:15
De baioneta falada

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 7, quando Belo Horizonte escurecer, no salão de recepções do Tribunal de Contas do Estado, na avenida Raja Gabaglia, Genival Tourinho, Lígia Maria Pereira, Auxiliadora Faria e Vicente Tupinambá Flores lançam o livro "Baioneta Calada e Baioneta Falada", editado pela Imprensa Oficial. O volume, alentado, contém episódios biográfico-políticos do primeiro, meu conterrâneo mais novo, personagem polêmico na crônica partidária de Minas e do país. Murilo Melo Filho, jornalista, da Academia Brasileira de Letras o saudou, como fez a apresentação das 600 páginas de acontecimentos marcantes na vida de Genival.
Repito: Genival é o personagem. As professoras Lígia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria, professoras de UFMG, foram as concatenadoras do trabalho e redatoras, enquanto Vicente Flores teve participação dando assessoria na formatação. Atrás das cortinas, tiveram papel importante na publicação Paulo Ribeiro e Paula Tourinho, além de Ariosvaldo Campos Pires, incentivadores da "empreitada".
O título diz muito, porque resume a vida de Genival, cheia de lances, ricos em coragem, tantas vezes objeto de incompreensões. Para o biografado, inspirou-se ele em Oswald de Andrade, para quem a baioneta falada é indutora dos maiores desatinos, superiores mesmo aos praticado contra a humanidade contra a Santa Inquisição. Que assim seja!
Genival é um apaixonado por política, uma paixão revelada desde a adolescência, quando sequer eleitor e se integrou à campanha de Juscelino ao governo de Minas, abrindo comícios no Norte de Minas, como em Bocaiuva, Montes Claros e Pirapora. Naquela idade, começou a discordar do pai, pró-candidatura udenista de Gabriel Passos.
A esperança do autor-personagem era de oferecer leitura amena, o que conseguiu. Por outro lado, logrou-se o que é raro neste gênero: tudo corresponde à absoluta verdade. "O que não pude revelar, omiti. Não modifiquei ou retoquei. Os episódios na história da oposição, quando os conto, aponto realmente como aconteceram, sem acréscimos, sem pinceladas ou artifícios que os viesse deturpar".
Alguns fatos descritos tiveram repercussão nacional, como sublinha Murilo Melo Filho: a eleição para a Câmara dos Deputados, a fidelidade ao PMDB e PDT, a luta contra Geisel, as denúncias contra os generais Coelho Neto, Milton Tavares e Antônio Bandeira na "Operação Cristal", o assalto e agressão de que foi vítima no Eixo Rodoviário de Brasília e o processo que lhe moveu o Ministério do Exército.
Mas nem tudo é política, porque as atividades paralelas, a vida pessoal - a sua e de outros personagens - são lembradas, desde as origens da própria família, típica de classe média, para média alta. A grei era de cidade da Bahia, como os antigos chamavam Salvador. Registre-se que a capital da capitania de Porto Seguro teve como primeiro donatário Pero do Campo Tourinho.
A origem, pelo lado materno é de Minas, margem do São Francisco, em Manga. O coronel Bembém Pastor, último coronel de Minas, de fala mansa, responsável por não poucas escaramuças, tinha liame com sua avó. Enfim, muito a ler e apreciar, ao jeito e maneira de Genival, a que foram fieis as redatoras.


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Por Manoel Hygino - 24/4/2012 08:53:26
Tábua de pirulitos

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 12 de abril, os jornais publicavam que moradores do município de Engenheiro Dolabela foram surpreendidos por um tremor de terra. O fenômeno, antes raro no Norte de Minas, vai-se tornando frequente. Na última tremedura, esta de Dolabela, poucos a sentiram. Em Brasília, a central de Sismologia informou que nenhum fato significativo foi registrado pelas estações. De fato, Brasília fica muito distante dos problemas do Brasil. Os sismos por lá são outros.
No início de março, Montes Claros foi atingida por abalo de 3 graus na escala Richter, isto a Universidade de Brasília soube. No ano passado, o Observatório Sismológico da UnB registrara na maior cidade da região, em menos de um mês, dois desses abalos, de que antes não se tinha notícia. Lucas Barroso, pesquisador da UnB, confirmou o novo fenômeno baseando-se no histórico da cidade e nos relatos dos moradores. Segundo ele, somaram dez os abalos nos últimos dois anos. Explicou que a cidade deve estar localizada próxima a um falha geológica ativa, que gera tremores quando se movimenta. Para Barroso, a exata compreensão do problema depende de estudos permanentes e da criação de uma estação local.
E por que não se toma essa providência?
Não se pode esquecer que, em 9 de dezembro de 2007, menina de cinco anos morreu em Caraíbas, distrito de Itacarambi, perto de Montes Claros, quando um tremor de 4,9 graus na Richter atingiu a região. Foi a primeira vítima desse tipo de fenômeno no Brasil. A criança dormia em casa com a família quando a estrutura da habitação caiu e a esmagou. Várias casas foram atingidas completamente e outras duas pessoas sofreram traumatismo craniano, além de mais quatro internadas com ferimentos leves. O tremor foi sentido ainda em Itacarambi, Manga e Januária. Diante disso, a Cedec reativou, em 2011, sismógrafo que monitora Caraíbas.
Enquanto não se chega a uma conclusão objetiva e definitiva, cabe conhecer, por exemplo, o que diz José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente. Ele diz que os abalos sísmicos começaram este ano mais cedo. Eles ocorrem de maio a julho e de outubro a dezembro, períodos que coincidem com a pressurização e despressurização dos lençóis freático e subterrânea do nosso cárstico.
São vários os elementos que provocam tais tremores no setentrião mineiro. A água, através do seu movimento nos poros ou fissuras de um solo ou rocha, sob pressão hidrodinâmica; a temperatura que dilata a litosfera aflorada, afetando as cavernas; o fogo, que detona rochas para produzir a argamassa sobre a qual se erguem as moradias.
A pergunta: Pode ser hipotético, mas se estamos longe das tectônicas, sem a mínima chance da influência dessas placas, o que pode ser? Para o técnico, as perfurações desordenadas de poços, milhares sem licenças ou outorgas, fizeram com que a região se tornasse uma tábua de pirulito. O fogo (dinamite), que abala os irmãos do Alfeirão e a serra Ibituruna não está influenciando na queda dos tetos das cavernas e galerias? Há dois anos, há um estudo em banho-maria. E a estação prometida para a cidade ficou na promessa por enquanto. Até quando?


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Por Manoel Hygino - 19/4/2012 08:48:05
Ideal de grandeza

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

A televisão mostrou a cena da jornalista francesa Edith Bouvier, ferida na cidade de Homs, na Síria, de regresso à pátria, depois de muitos dias sem assistência médica. Também foram mortos a jornalista americana Marie Colvin e o fotógrafo francês Remi Ochlik. A Unesco reprovou. As autoridades sírias desrespeitam a Convenção de Genebra sob as guerras, em que o trabalho da Imprensa deve ser preservado.
Mas o problema não é restrito. Relatório do International News Safsty Institute colocou o Brasil como o sétimo lugar mais perigoso para jornalistas no mundo. Não há apenas a morte de Wladimir Herzog a lamentar. Em 2011, no Brasil, foram mortos cinco profissionais, do total de 124, em 40 países.
Os profissionais perdem a vida no cumprimento do dever ou simplesmente pelo cumprimento do dever. Faço estas considerações quando registro, com pesar, o falecimento de um homem de Imprensa que honrou seu compromisso, mais forte do que o diploma, que valida uma definição de vida, ininterruptamente exposta.
Refiro-me a Oswaldo Antunes, que partiu no entardecer do dia 11 último, ele que foi o pai da Imprensa moderna de uma cidade, na expressão de Paulo Narciso, que a seu lado esteve expressivo período na redação do "O Jornal de Montes Claros", na rua Dr. Santos. O dizer de outro companheiro daquela época, José Prates, nele se sentia competência e dignidade. Graças à sua conduta e idealismo, manteve a folha mais lida do norte-mineiro por longos anos, primando pela independência e imparcialidade, missão penosa em todos os lugares e tempos.
A sua guerra foi contra a incompreensão, os interesses subalternos da política, pois não compactuava com o que lhe ferisse princípios e a consciência profissional e pessoal. Daí, ter legado exemplos, não daqueles referidos pelo prefeito da cidade, em nota, ao aludir a "profissionais da Imprensa hodierna".
De um jornalista de escola, sobrevivente talvez de uma fauna em extinção, ouvi: "Sentiremos saudades, muitas. O dr. Oswaldo, depositado no chão do sepulcro, ao pé do qual estive, pareceu-me mesmo maior do que vivo - como na frase francesa, famosa". No único livro que deixou publicado, e que honrosamente me submeteu à leitura antes de editá-lo, Oswaldo Antunes conta sua odisséia para manter um ideal de grandeza. Ele faz parte de "O Diário", folha que alcançou números enormes de circulação no país, editado em Belo Horizonte, e do qual seria eu colaborador, depois diretor de redação e presidente.
Na antiga folha belo-horizontina, foi redator político nos anos 40-50, suas colunas recebiam e abrigavam talentos como Edgar da Matta Machado, Hélio Pellegrino, Alphonsus de Guimarães Filho, Otto Lara Resende, Milton Amado, o nosso excelente José Mendonça. Sem esquecer João Etienne Filho, Mello Cançado, João Camillo de Oliveira Torres, além de Tristão de Athayde, e ases do noticiário político, como Geraldo Magela Andrade e Geraldo Rezende.
Houvera espaço e mais diria. Creio, porém poder concluir com um pensamento que Oswaldo Antunes apreciaria, de Tocqueville: "A Imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."


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Por Manoel Hygino - 14/4/2012 12:29:26
Uma nova economia

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Ao longo de uma existência devotada ao trabalho com a gente simples do norte-mineiro, o curvelano Nelson Vianna colheu farto material para livros que são preciosas fontes de informações. Não lhe faltavam conhecimentos adquiridos Escola de Minas de Ouro Preto, nem a sensibilidade com a qual se nasce.
Entre seus bons livros, está "Foiceiros e Vaqueiros" (de que recebi um raro exemplar do historiador Haroldo Lívio), em que Nelson relata seu cotidiano com esses heróis de nosso mato sertanejo, trabalhadores satisfeitos durante o dia em penosos serviços, tocadores de viola à noite e cantores de modas regionais, sempre simples e cordiais.
Mas isso foi nos anos 20 do século findo, quando Montes Claros, a mais importante cidade daquele território, ainda tinha algo do Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José de Formigas, onde se formou a pequena povoação em torno de 1789. As atividades predominantes, o cultivo da terra e a pecuária.
Euclides da Cunha já registrava o regime pastoril, a que não faltavam ao gado as baixadas salobras dos barreiros. Desde Figueira, o primeiro proprietário da fazenda em que se gerou a cidade, ela se demonstrou uma extensa zona de criação de gado, revelada no alvorecer do século, como registra Hermes de Paula.
A indústria que se foi instalando na região procurava, por óbvias razões, aproveitar o que a terra produzia e o gado bovino possibilitava. Graças à produção algodoeira, surgiu a fábrica de tecidos, assim como a de óleo comestível, além de pequi. Já se pensava em utilizar a mamona para combustível, sem se esquecer que o pai do escritor Cyro dos Anjos instalou uma pioneira indústria de botões. O velho mercado, que não mais existe, era uma vitrina da riqueza regional, como descreve Cyro em "A menina do sobrado", com que Paulo Narciso me presenteou. Aos sábados, cereais, legumes, toucinho em postas, carne de sol, utensílios de cerâmica e, dependendo da estação, quanta fruta do mato podiam as chapadas e os tabuleiros.
Aquele tempo não morreu de todo, mas não sobreviveu de todo.
A cidade cresceu horizontal e verticalmente, são muitos milhares de habitantes, diversificou-se a produção, tornou-se metrópole, com todas as vantagens e desvantagens. Há rodovias, com muitos defeitos e problemas, mas existem. A rede aérea funciona. O homem não para de gerar riquezas e consumir.
Agora Montes Claros receberá a instalação de uma fábrica de veículos especiais, como de combate a incêndios, ambulâncias e de resgate para a defesa civil. Quem entrou nesse mercado é a italiana Pimme e Matacena, com investimentos de 50 milhões de libras na construção da fábrica, que atenderá o setor público.
O sertão não produz só gado e inteligência. A fabrica da Fiat Case New Holland investirá R$ 600 milhões na produção de tratores, empregando 2.700 pessoas. A Alpargatas montará a sua fábrica, para gerar 5 mil empregos.
Fatores favoráveis estar na área da Sudene, possuir incentivos fiscais e localizar-se entre o Sudeste e o Nordeste. São notícias que se deve divulgar com o otimismo.


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Por Manoel Hygino - 28/3/2012 09:29:42
Terna lembrança

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Leio "Montes Claros - Eterna Lembrança", memória de Ruth Tupinambá Graça, editado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade norte-mineira, com apoio cultural da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
Para Dário Teixeira Cotrim, presidente do IHGMC, "a obra de Ruth é uma fantástica viagem ao passado. Ela faz uma parada de reconhecimento pela saudosa rua Dona Eva, número 34, onde ela brincava com as suas amigas de chicotinho queimado, de veadinho quer mel e de cabra cega, passando - e bem longe - pela rua dos Marimbondos em busca do mercado velho e das casas comerciais no seu entorno".
Faço o trocadilho: eterna lembrança, mas também terna lembrança. Ruth consegue evocar um tempo inesquecível para os que o viveram e têm grato ensejo de revisitar a cidade, que - embora no mesmo lugar - é completamente outra, transformados os costumes, por mais amor que tenha ao pretérito e às tradições.
Sendo assim, não deixa de impregnar-nos de saudade imensa e de dor por constatar que, além dos costumes, perdemos uma época irrecuperável.
A autora, sabidamente de texto irreparável, reconstitui as ruas, a arquitetura, os templos, os clubes, as bandas de música, os educandários, os cinemas, e - antes e acima de tudo - as pessoas que deram vida e sentido à aventura de viver. Ali construíram uma comunidade consolidada, árvores que deram sombra e frutos, jardins que produziram belas flores, enfim, tudo que é belo e merece ser protegido.
Aí está, em linhas gerais, a metamorfose por que passam os aglomerados humanos. Eles perdem autenticidade, podem esquecer as raízes, por mais esforços que faça a nova localidade para preservar. De fato, o tempo é impiedoso e, dos belos relatos de Ruth Tupinambá Graça, se pode extrair lições das mudanças ocorridas nestes muitos anos da cidade... e de nós mesmos.
O livro fascina pela felicidade das descrições das coisas e das gentes, mas desperta, como natural, um sentimento de perda, de desencanto, que estão escondidos no mais íntimo de nós mesmos. Recordar doí, mas é preciso para fortalecer sentimentos e a reavivar lembranças indeléveis. Isso, a autora consegue e o leitor lhe fica devendo.
A publicação dessas páginas há de servir ainda como advertência pela desfiguração da paisagem urbana e humana de uma cidade que tem grandeza, não apenas econômica e material. A demolição de velhos prédios (outro dia, foi a casa de Godofredo Guedes) e de velhos conceitos, de princípios, é um atentado que se pratica contra a cidade.
O livro é um reencontro com os que se foram, os que aí estão a dar sequência ao trabalho dos pais, mas um reencontro conosco mesmo, que ali nascemos, vivemos - embora por reduzidos anos, e que amamos acima de tudo. Creio que, depois da leitura das observações e recordações apaixonadas de Ruth Tupinambá Graça, se poderia sugerir a substituição do título para "Montes Claros, eterno amor".
Dá prazer e alento revermos uma cidade que se agigantou, embora com o gigantismo surgissem vícios e violência. Mas parte do pretérito, pelo menos, está preservado, por força das origens e dos bonitos registros que a autora nos transmite. As casas simples, acanhadas e que se abraçavam constantemente, cederam lugar a edifícios, lojas e butiques, mas ficaram em nosso coração.


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Por Manoel Hygino - 9/3/2012 09:29:38
Sinos que silenciam

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Mais e mais se demonstra que os marginais que agem em Minas Gerais nos templos centenários não se restringem a furtar imagens históricas nas cidades mais importantes do Ciclo do Ouro. E o Estado dispõe dos altos serviços da Promotoria de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais. A velha província conta hoje com o maior número de bens culturais protegidos do Brasil, compreendendo cerca de 35 mil deles, entre os quais sítios arqueológicos, espeleológicos, paleontológicos, igrejas, casarões e núcleos históricos. A Promotoria Estadual para a área tem uma tarefa imensa a cumprir, para o que se esforça, embora encontre dificuldades notórias e conhecidas. Há pessoas que se conscientizam de serem corresponsáveis na preservação de nossas heranças culturais, como diz o promotor do Patrimônio, Marcos Paulo de Souza Miranda, mas se mantém incessante o furto de preciosas peças no interior, além de generalizado vandalismo daqueles que ignoram o importante legado.
Recentemente, na singela Itacambira norte-mineira, cinco imagens sacras foram simplesmente surrupiadas à noite, sem que a população e os cinco policiais locais percebessem. Terá de volta a matriz de Santo Antônio as imagens de São Miguel, Santo Antônio, São Vicente Ferrer, São Sebastião e Santana Mestra?
Em 2 de novembro do ano passado, foi arrancado da capela de Santo Antônio do Monte o seu sino de 120 quilos, e sua base de bronze, com 70 quilos, em Engenheiro Correa, Ouro Preto. Os gatunos não querem mais apenas as relíquias mais preciosas, de alto valor. Os sinos mesmo servem e, evidentemente, não para envio ao exterior ou enluxar casas ricas nas capitais.
Muito vivos, os ladrões descobriram que as "mercadorias" não se localizam apenas em Ouro Preto, Mariana, Diamantina e São João del-Rei. Daí, partirem para Itacambira, por exemplo, sequer sem estradas asfaltadas e tradição maior. Lá, buscaram as imagens de santos de grande devoção dos mineiros. Mais recentemente, o sino de Engenheiro Correa, que deve valer bastante pelo peso de seu bronze, sumiu. Não foi o primeiro. Aqui comentei o furto do sino da igreja de Brejo do Amparo, no município de Januária, no distante norte de Minas, às margens do São Francisco. Como nos outros casos, ninguém sabe dos criminosos, ninguém assistiu ao ilícito.
Mas a verdade é que o sino, com 300 quilos, foi removido à noite e ninguém mais teve notícias. Deve ter sido derretido, destino final do arrancado no distrito de Ouro Preto. Januária é também histórica, embora a civilização viesse por outros caminhos. Arraial de Nossa Senhora do Amparo foi elevado a distrito em 1811, de modo que divide a glória de ter 300 anos como Ouro Preto, Mariana e Sabará, embora com um título territorial inferior.
Para ilustrar, lembraria que Levínio Castilho, estudioso do tema, diz que a igreja de Nossa Senhora do Amparo e a primeira de Minas, construída em 1688. Há controvérsias. O fato incontroverso é que estamos perdendo imagens e sinos, possivelmente para nunca mais voltarem aos velhos templos que os abrigaram durante mais de dois séculos.


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Por Manoel Hygino - 25/2/2012 12:20:17
Rica Itacambira

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

É somente uma pequena cidade do Norte de Minas, pacata, de gente modesta, trabalhadora, incrustado o lugar num recanto em que gerações supuseram existir a lagoa do Vapabuçu. Para alcançá-la, há de se subir morro, atravessar um platô pétreo coberto de areias brancas, como do Abaeté disse Caymmi, e finalmente descer a serrania, por estrada precária, estreita, em pedregulho.
Uma das significações do topônimo é "pedra pontuda que sai do mato". Ali está a sede da paróquia de Santo Antônio do Itambacuruçu do Grão Mogol, que já integrou os municípios de Grão Mogol, Minas Novas e Montes Claros, mas que não passa de um aglomerado de casas humildes, com ruas tomadas pela poeira, ao tempo em que lá estive com o poeta Cândido Canela.
O historiador Hermes de Paula conta que, fragmentada a bandeira de Fernão Dias, em busca de esmeraldas, após remexer todo o Norte de Minas, encontrou a lagoa famosa, na região da chamada Tucambira. Lá estavam as covas cobertas de limo, em que se acharam as primeiras pedras verdes, abundantes. Mas não eram esmeraldas, e sim turmalinas, de reduzido valor.
O bispo D. João Pimenta foi pessoalmente à região, em 1926, para pesquisar e enviou relatório ao historiador Diogo de Vasconcelos, autor de "História Antiga das Minas Gerais". Concluiu o prelado que o local denominado de Vargem Grande, a cinco quilômetros do velho arraial, tinha a forma de grande lagoa, com muita quantidade de areia, resultante de grandes serviços de mineração em tempos remotos. Ela, a Vargem Grande, constituíra antiga Vapabuçu. Perto, o sítio da Serra Resplandescente, a respeito da qual se aprendia na escola.
Os bandeirantes modernos do alheio andaram recentemente por Itacambira, surrupiando no templo, acanhado e pobre, cerca de 20 peças, entre as quais imagens de São Vicente Ferrer, São Miguel, Sant`Ana Mestra, São Sebastião e Santo Antônio, que dá nome à igrejinha.
Itacambira, tão precária e relegada, é pois muito rica. Lá se encontraram múmias, com muito mais de 200 anos, como informou Simeão Ribeiro Pires. As múmias, retiradas dos porões úmidos e escuros da igreja, merecem presentemente destaque científico no Museu da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio .
Em 1966, Itacambira ganhara prestígio internacional, destinada a cidade a morrer pela comprovação clara das devastações ali causadas pelo Mal de Chagas. Mais recentemente, descobriu-se, depois do sucesso da obra de Guimarães Rosa, que na matriz de Itacambira teria sido batizada a mítica Diadorim, ou seja, Maria Deadorina da Fé Bittencourt Marins.
Em meio a tanta riqueza histórica, uma cidade-museu a céu aberto nos longínquos sertões de Minas, apenas os bandidos, ladrões de peças sacras valiosas se lembraram de Itacambira, que melhor sorte merece. Em verdade, Itacambira não é mera e bonita ficção de Rosa, tendo ali nascido o futuro intendente dos diamantes, Manoel Ferreira de Câmara Bittencourt e Sá.


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Por Manoel Hygino - 8/2/2012 11:29:12
Lembrando Afonso X

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Ângela Vaz Leão lançou, na Academia Mineira de Letras, o seu livro "Cantigas de Santa Maria", tornando-se, como enfatiza Jacyntho Lins Brandão, da UFMG, "uma das mais destacadas conhecedoras desse corpus, em todas as suas peculiaridades linguísticas, culturais e poéticas". As "Cantigas de Afonso, o sábio" ou "Cantigas de Santa Maria", obra de Afonso X, constituem o grande cancioneiro medieval galego-português. O soberano dedicou-se à cultura e às letras, em meio às lutas e inquietações de sua época, merecendo perfeitamente o apodo".
As "Cantigas" são eminentemente do rei e, pelo apuro da forma, um monumento literário de nossa língua arcaica, não inteiramente extinto pelo passar destruidor do tempo. Logo após o lançamento do livro da professora Ângela, Yvonne de Oliveira Silveira, formada em Letras pela hoje Unimontes, de que se tornaria professora de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, decidiu lançar seu "Cantar de Amiga", Pós-graduada pela PUC e sempre atualizada em cursos onde ocorrerem, ela trata a matéria com dedicação e denodo, como o demonstra.
O livro de Yvonne é a mais recente declaração de amor à região em que vive, à terra em que nasceu, as pessoas com as quais conviveu e convive, ressoando "traços fundamentais da gente montes-clarense", como observa Anelito de Oliveira, doutor em letras pela USP, dentre outros títulos.
Para apresentar o livro da escritora norte mineira, Raquel Mendonça diz que o caminho de Yvonne "foi sempre o das palavras, das lições, das letras e de cultivar a língua portuguesa e a literatura com generosas doses de amor, talento e conhecimento". Miriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, aprofunda o comentário:
"Poeta, merecedora das "doçuras matinais" (sequestro suas palavras) e "do sol da ventura imortal", e "das ondas de espumas dos Quinze anos", e do "mar longo da vida" e "do canto de violino ao redor dos sonhos rendados", Yvonne, influenciada pela cultura portuguesa, pelas cantigas de amigo, atualiza em seus cantares a vida de nosso tempo sob a ótica de uma intimidade espontânea, às vezes, na forma versificatória de quadras.
Outra escritora Maria Luíza Silveira Teles, proclama: "Yvone, ao exprimir toda a gama de sentimentos que a tomaram pela existência, brindou a uma celebração maior: a celebração de tudo que caracteriza a sua própria vida e compõe a belíssima canção da vida do Ser Humano".
Enfim, "Cantar de Amiga" é um hino de amor, porque a própria palavra dela emana. Nesse volume gracioso, a autora lembra minha mãe, "Tercília", que não mais está entre nós. Tampouco a rua não é mais aquela em que ambas residiram, pois - tomada pelo asfalto - perdeu a paz e o encanto, transformou-se em fervedouro:
"Carros, motos, bicicletas,/ bancos, lojas, farmácias,/ lanchonetes, restaurantes,/ tiraram amigos e o lar". Mas a autora, em espírito, lá permanece em evocação porque lá é a sua rua, a rua de sua infância, que tão longe está.
Cantiga ou Cantar de Amiga são versos para sempre.


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Por Manoel Hygino - 8/2/2012 10:51:41
A nobre raça

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Há mistérios indecifráveis nas velhas cidades mineiras integradas ao Circuito Histórico. Uma imensidão de fatos e personagens, famosas ou quase anônimas, falta ser desvendada e revelada. As incógnitas persistirão ao longo do tempo. Mas há também o ignoto mundo mais ao Norte, às margens do São Francisco ou nas estradas boiadeiras. É outra Minas que Guimarães Rosa despertou para o interesse do Brasil. Ali há outra gente, outro clima, há sertão, que gerações procuram descobrir sem inteiro sucesso.
É o caso de um cidadão, falecido em 9 do 9 de 2009. Em 16 de janeiro, último, faria 90 anos. Já há um livro sobre ele, escrito pela irmã Glorinha, advogada, psicóloga e autora de vários livros. Nascido à beira do rio, teve uma vida rica em acontecimentos, correu mundo, conquistou o diploma superior, voltou às barrancas, foi homenageado pelos integrantes da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, quando dos 500 anos da descoberta da portentosa corrente unificadora de distantes regiões do país. Naquela ocasião, Marcelo Mameluque Mota, sobre quem agora escrevo, declarou: "Posso dizer sem medo de errar que o rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais e morre no oceano Atlântico, no Estado de Alagoas, mas antes, em seu percurso, ele passa pelo meu coração com o tisnado barrento de suas águas, de onde destaco a sua mais extraordinária riqueza, que vem a ser sua gente, da qual faço parte, pois aqui vivo. Neste vale, dei o primeiro grito de vida e, com certeza, darei o meu último suspiro".
No sertão distante das capitais, dos centros decisórios do poder, a gente que ali sofre há séculos é, apesar de tudo, apaixonada pela terra que a recebeu e a abriga. Incessantemente luta pelas causas mais legítimas de uma população consciente de seus deveres e de seus direitos, assumindo a certeza de que "morrer, só morre o frio cadáver que não sente", na definição de Pedro Mameluque Mota.
É um povo muito especial, a um só tempo manso, bravo, compassivo e corajoso, que não leva desaforo para casa, capaz dos mais vigorosos atos em defesa de sua propriedade, de sua família, de sua fé, de seu nome. É um povo que tem uma sonoridade diferente de falar, que compõe e canta sua própria música, disseminada por recônditos lugares e conservada a autoria quase sempre no anonimato.
João Ribeiro, historiador, define a gente do médio São Francisco e seu papel histórico-geográfico: "...excluído o mar, caminho de todas as civilizações, o grande caminho da civilização brasileira é o rio São Francisco; é nas suas cabeceiras que as grandes bandeiras, e daí se expande e ondula a impulso das minas, é no seu curso médio e interior que se expande e propaga o impulso da criação, os dois máximos fatores de povoamento".
Ali, usos e costumes, tradições, mitos e lendas, hábitos e linguagens são próprios. Ali se chocaram as ondas mais intensas da conquista do interior mineiro e que contribuíram para forjar o tipo humano muito especial que habita a região. Marcelo é um exemplar típico da gente das barrancas, com todas as motivações e sonhos, não submisso às decepções do tempo e do espaço.


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Por Manoel Hygino - 12/12/2011 09:28:46
O sistema prisional

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

No último domingo de novembro, em minha cidade natal, registraram-se mais duas execuções de seres humanos, graças ao que Montes Claros alcançou gloriosamente a marca de cem assassinatos em 2011. Mas ainda havia mais de um mês à frente, de modo que novas mortes poderiam ser perpetradas.
Montes Claros é um retrato do Brasil, interiorano ou não. No caso, foram execuções sumárias, pode-se dizer, inclusive com disparos no tórax e cabeça. Usaram-se motos, como sói acontecer comumente nos últimos tempos e os assassinos já tinham passagens pela polícia.
Ainda no campo de criminalidade, há de anotar-se a decisão do Ministério da Justiça de rescindir 29% dos contratos entre União e Estados para construção de presídios, que nunca saíram do papel. Preste-se atenção. Havia recurso específico, contratos assinados, mas se resolveu voltar atrás. Evidentemente não seria pela excesso de vagas no sistema prisional. Talvez porque decisões tomadas legalmente permitem que autores de delitos têm condições de estarem soltos. Bom para os criminosos!
No caso dos presídios que ficaram só no papel, há de lembrar-se que, a partir de agora, o Departamento Penitenciário Nacional irá agir para reaver os R$ 160 milhões já na conta dos Estados ou parados na Caixa. Quem sabe poderiam ser utilizados nas obras da Copa?
Os contratos em questão foram assinados entre 2005 e 2010, embora existam outros nove, do total de 38, passíveis de perderem validade. A notícia dos jornais informam que o Ministério vai rever todos os projetos de prisões especializadas em jovens adultos, programa que até agora não prosperou. O leitor acompanha a onda de crimes que se consumam diariamente praticados por esses "jovens adultos".
Entanto, o presidente do Supremo, ministro César Peluso, que também preside o Conselho Nacional de Justiça, anunciou para o próximo ano a criação do Banco Nacional de Mandados de Prisão. Nele se encontrarão o nome de todos os presos do país e a situação de cumprimento das respectivas penas.
Um excelente feito. A partir do próximo exercício, os cidadãos terão acesso ao site do Conselho da Justiça na internet. Curiosamente, o ministro elogiou a União por destinar mais recursos para o sistema prisional. S. Exa. defende o repasse direto para os Estados, evitando excesso de burocracia.
São dados surrealistas. Ou seja: rescindem-se contratos para construção de novos presídios e, quase simultaneamente, se direcionam verbas para o sistema prisional.
A verdade verdadeira é que há uma situação extremamente grave no sistema, com juízes e delegados de polícia sem saber que caminho tomar, para melhor atender às necessidades públicas.
Minas Gerais tem presentemente 47.898 presos e somente 31.194 vagas nas penitenciárias. Há detidos aguardando julgamento, cadeias superlotadas e muitos milhares de criminosos soltos nas ruas. Fazer o quê?


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Por Manoel Hygino - 2/12/2011 10:50:10
Dezembro chegou

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Fui visitar a menina de quase 18 anos num leito de CTI. Linda entre a mãe e enfermeiras, sorria porque talvez acreditasse ainda em poder viver mais e concretizar os sonhos de quem tem essa idade mágica.
Partiu para a viagem inexorável, mas deixou marcas de sua generosa existência em escritos que não se perderam, porque os pais quiseram que as "Memórias" de Joyce Mayra Simões Alkimim fossem publicadas, como foram.
Quase ao fim do volume, a menina-moça confessa viver no mundo da fantasia, ser sonhadora. "Não gosto da realidade, sei que uma hora o sonho vai acabar, por isso prefiro não acordar deste sonho de aqui estar". Mas é cruel a vida e o sonho se esvaírem.
Lembro os fatos neste dezembro finalizante. Isso quer dizer que o Natal também se aproxima e, a despeito de sua comercialização e lamentável banalização, traz consigo mensagens de esperança e de uma luz ao tempo tormentoso que atravessamos.
Nos meus papéis, localizo a sempre bela expressão de sentimento de Paulo Narciso em seu escritos. Ele medita sobre a situação presente: "Não há São Francisco de Assis para tanta hipocrisia, e coisas mais. O desmanche é geral e intenso."
Refere-se a Chico Xavier e seus 470 livros. "Coisas assim, simples e estupendas, que deveríamos saber e não sabemos."...a morte é questão de sequências nos serviços da Natureza" - a matéria é força coagulada"..." o pensamento que tudo cria, renova e destrói para refazer"..."ninguém está só"...a vida é força divina que marcha para diante".
E, com um abraço de começo de ano e recomeço, formula votos de "um Natal dos nossos, com Pastorinhas, Brilho de Estrelas, Luares, Vaga-lumes na Escuridão, Harmonias, Noites Antiquíssimas.
O menino incomum vai renascer, e o soterramos de mercadorias inúteis em forma de presentes e mimos, em tudo contrários ao que ele veio dizer. É o menos falado na festa que é Sua", o que se há de lastimar e deplorar, mas "ótimo que o Menino não se importe. (Leu o criador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, quando fala do Menino Jesus? Em Portugal, vi a cômoda onde o poeta deitou o poema, de uma golfada, 40 e tantas poesias a fio... no que chamou de Dia Triunfal - vale ler a carta que escreveu a Casais Monteiro?). Mas a quem não leu a peça de Pessoa, nem viu a cômoda que a abrigou, cabe refletir sobre a beleza que há nas pessoas que vêm a praticar o bem e distribuir um pouco do que é bom, justo e puro aos que dividem o espaço terrestre na hora das incertezas ou das cruéis certezas como as que nos abalam.
Havendo amor, existe esperança, sem os quais - amor e esperança - não sobrevive o homem em integridade. Sabe-se que não se encontram em exposição e à venda nos estabelecimentos comerciais esses singulares ingredientes da vida e sem os quais não vale a pena, nem se justificaria a transitória passagem por aqui.
Penso assim, agora que o tempo do nascimento de um raro ser se acerca e merece comemoração. Mesmo os que não creem, sabem da importância do seu papel no mundo em permanente ebulição.
Reflitamos sobre ideias, agora que dezembro está chegando. Nada a perder, antes pelo contrário, ingressamos no último mês do ano com paz no coração e felizes expectativas.


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Por Manoel Hygino - 30/11/2011 10:20:38
No alto da montanha

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Lúcio Bemquerer me expôs pessoalmente o projeto de seu Presépio Natural Mão de Deus, que está implantando na prodigiosa Grão Mogol, "lugar onde reina a paz e o silêncio", na definição do jornalista e escritor Alberto Sena. E, pelo que soube através da imprensa, a inauguração se dará em 9 de dezembro, com o que o Brasil passará a contar com o maior presépio natural a céu aberto do mundo, com 3.600 metros quadrados.
O empresário Lúcio, economista e sociólogo, ex-diretor de prestigiosa revista, é antes de tudo um idealista e realizador, ex-presidente da Associação Comercial de Minas. Deixou a capital, instalou-se na cidade natal, onde identificou condições para um empreendimento turístico valioso. Na paisagem única de Grão Mogol, em que a igreja paroquial foi construída de pedra, os muros, tudo pedra sobre pedra, como consignou o escritor Haroldo Lívio.
Ele diz que, protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra. Os muros divisores das propriedades foram levantados pelo trabalho sofrido de escravos. E em cada um deles deve ter ficado uma gota de sangue, assinalando o martírio dos cativos.
As figuras dos personagens da saga natalina terão até dois metros e meio de altura e estão sendo confeccionadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte pelo artista Antônio da Silva Reis. Confessa: "Me concentro muito para dar a feição a cada imagem. Peço inspiração a Deus para ser fiel à época do nascimento de Cristo". Depois de tudo pronto, o desafio será levar as pesadas obras por 600 quilômetros de estrada até seu destino.
Haroldo Lívio, em livro, denominou Grão Mogol de cidade-presépio e Lúcio Bemquerer deve ter assimilado a proposta, completando em lugar privilegiado a obra da natureza. O homem acrescenta agora outros instrumentos de desenvolvimento, como um hotel de três estrelas e uma hospedaria para peregrinos.
Sirvo-me das palavras do escritor. Enquanto permanecer quieta e desconhecida do mundo, confinada nos alcantis da cordilheira, em sua existência desambiciosa, Grão Mogol continuará um paraíso terreal de poucos eleitos. Mas, pelo que se constata, está mudando e, logo, será outra.
A simplicidade da região, a imponência pétrea, a construção do presépio, ficarão disponibilizadas aos que apreciam a beleza, e nada será comparável entre nós ao conjunto que ali se ergueu.
O lugar, de onde partiam os bandeirantes em busca das riqueza da Serra Resplandecente ou as tropas de muares prenhes de ouro e gemas para atrair olhares invejosos nas capitais europeias, vai tomar vulto, mais uma vez. Quando os minerais preciosos acabaram, chegou a ter apenas mil almas.
Presentemente, tem 15 mil almas, vai abrigar muito mais gente. Lá, também, estará a usina de Irapé no Jequitinhonha, cuja barragem será a mais alta do Brasil e uma das mais altas do planeta. Para se ter ideia do que virá, acaba de ser produzido o DVD sobre a história do município, iniciativa do MinC, de que falo depois.


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Por Manoel Hygino - 28/11/2011 11:33:42
Personagem de Darcy

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

O amigo e confrade Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras, poeta, cronista, marianense de quatro costados, nos princípio deste ano, me enviou página inteira do "Correio Braziliense" sobre Darcy Ribeiro, um cidadão brasileiro que não se esquece. Pois o filho de Dona Fininha foi focalizado também em sua terra natal por Wanderlino Arruda, que discorreu sobre ele na galeria Felicidade Patrocínio, em uma "conversa" de duas horas e meia, segundo Mara Narciso, jornalista e médica.
Segundo Mara, Wanderlino "desnudou Darcy", o que é altamente perigoso. Os antigos tinham medo ou faziam de conta que estigmatizavam o nu. Mas Darcy surgiu pessoalmente, despido, ou através de um de seus personagens, no romance "O Mulo", incessante objeto de discussão. O expositor afirmou que o cerne da história é o tio do autor, Filomeno Ribeiro, que eu conheci em tardes calorentas sentado à porta de sua casa no centro da cidade, de terno branco, sob calor intenso.
O personagem do livro tem algo de Filomeno, coronel de fato, rico, nome de cinema na cidade e antigo chefe rural. Só que na ficção do Fundador da UnB, a história se passa em Goiás, perto de Brasília, anos 60. Costumes dos moradores de Montes Claros e do lugar do personagem do romance são semelhantes, no que já está identificado pelo escritor Alaor Barbosa, nascido em Morrinhos, GO.
O goiano do romance é Philo-gônio Castro Maya, nascido sem pai, mãe ou nome. Ganhando idade, foi curador de bicheiras, piolho de soldado, muleiro, tropeiro e fazendeiro. Darcy transformou em prosa alguns versos que fizera, mudando apenas a disposição das frases.
"O mulo" é um romance corajoso e, como sói acontecer em outros congêneres, nele não se sabe distinguir a realidade da ficção. Seu Filó tinha comportamento contrário ao de Darcy em relação aos negros, no que foi prejudicado politicamente. Em compensação, os de cor o chamavam de mulo, embora as muitas mulheres que percorreram sua vida.
Entanto, há de se dar a versão de que o mulo poderia ser o próprio educador e escritor, porque tampouco deixou descendência. Aliás, a questão do sexo aparece desde a infância ou adolescência do personagem de modo não suficientemente claro, mas se admitindo que a iniciação costumava acontecer com animais no interior do país.
Ao fim da leitura, permanecem as dúvidas sobre o polêmico personagem que Darcy descreve. Até onde a ficção, até onde a realidade? De todo modo, o tema é instigante, como Fhilogênio Castro Maya, cujo primeiro nome lembra indesviavelmente o coronel norte-mineiro, uma figura singular na vida política e social de sua cidade.
Ao término da existência terrena, Castro Maya começou a se preocupar com Deus e a tentar chantageá-lo, segundo Mara, prometendo deixar tudo que tinha à paróquia, conforme confessava ao cura local, seu confessor, a quem tratava de "seu" padre ou "meu" padre.
Para as noites cálidas do sertão mineiro, a longa palestra de Wanderlino Arruda serviu para apresentar Philogônio e advertir para a personagem real, isto é, Darcy Ribeiro, que viveu entre índios parte do tempo entre nós, nunca se apegou a bens pessoais, sofreu câncer, fugiu do hospital, mas tinha uma casa em frente ao mar no Rio de Janeiro, longe de filhos que não teve.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2011 10:35:00
A ameaça do crime

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Volto ao tema e repito temer o grandioso futuro do país. Não são tão boas como se esperaria as notícias de fatos que se renovam, em praticamente todos os setores da vida nacional. Muito especificamente me impressionam e me inquietam os que envolvem a segurança nacional, resultado de políticas sociais inadequadas à realidade brasileira durante longo tempo.
As organizações criminosas estão em plena atividade, a despeito das providências mais recentemente adotadas pelo poder público para combater o crime, que inclui o comércio de drogas em todo o território, a disputa pelo postos de vendas e perversas ramificações de negócios. Não se pode ser condescendente com malfeitores.
Tem plena razão o juiz de direito Isaías Caldeira Veloso quando adverte: "O governo não está dando a atenção ao combate desse câncer terrível, chamado crack, que está se alastrando e destruindo adolescentes e jovens nas pequenas cidades". E nas médias e grandes igualmente (digo-o eu), se bem que não se esperaria que às menores chegasse tão rapidamente.
O magistrado confessa: "Quase todos os dias sou procurado por mães desesperadas, que contam que sabem que os filhos viciados em crack vão morrer por causa da droga, pelas mãos de traficantes no mundo crime, pois roubam para sustentar o vício". Pior é que o mal se estendeu à zona rural de municípios pobres do Norte de Minas, possivelmente estimulado pelo baixo preço do produto.
A guerra pelo tráfico está declarada e todos os dias, em todos o país, há referência aos combates travados, à luz do sol ou no escuro da noite. Há esperança de sairmos da situação de incessante realidade de preocupação, medo e dor? O que se pode fazer? Em verdade, as gangues permanecem atentas, atuantes e poderosas, procurando ainda mais consolidar sua força e conquistar mercados. Estas organizações estariam financiando cursos superiores para que seus integrantes melhor se cuidem e mais avancem sobre os bens alheios, inclusive a honra, a saúde e a vida.
A sociedade está encurralada, prisioneira dos bandidos, entre os quais se incluem os agentes da lei desonestos, e que não são poucos. As afirmações do criminoso Nem, chefe do tráfico na Rocinha, foi recentemente peremptório e suficientemente claro: metade do que faturava com seu negócio hediondo (R$ 100 milhões por ano) era entregue a policiais, R$ 50 milhões, pois, e somente em uma favela!
Não pode subsistir euforia diante da calamidade que aí está e que vem custando a vida de inúmeros brasileiros. As vias públicas das cidades e agora as áreas rurais estão invadidas pelos marginais, que ali montaram seu rendoso e macabro esquema de ludibriar os incautos, aprisioná-los às drogas, destruir-lhes as virtudes e as possibilidades de realização em qualquer âmbito.
A corja se acha em plena ação e se locupletando, a despeito do êxito de ações policiais dignas e imprescindíveis. Mas há de ter-se cuidado. O Brasil não pode tornar-se um segundo México e, por sua extensão, por suas imensas fronteiras, corre o risco de transformar-se no maior empório de drogas do mundo, e elas vêm acompanhadas de terríveis outros males de natureza social e humana.
O próprio Marcola, um mestre do sistema criminoso, afirmou - não recentemente - que para vencer estas organizações só com arma nuclear. Será que teríamos de chegar a esse ponto?


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Por Manoel Hygino - 21/9/2011 08:35:39
De mocós e tatus

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Nas terras descobertas por Cabral, um almirante luso que apareceu por aqui em 1500, parece ser uma tragédia quando um cidadão é posto em algemas, embora não seja sem razões que isso aconteça aqui e alhures. Viu-se no caso do todo-poderoso Strauss-Kahn, antes virtual candidato à Presidência da França.
Não foi furto ou roubo, mas sob acusação de estupro de uma camareira em hotel em Nova York. A história depois se demonstrou não ser exatamente assim, mas, por via de dúvida, Dominique teve de aceitar as algemas e restringir-se à prisão domiciliar, afora o trancafiamento em prisão por tempo reduzido.
E o prisioneiro não dera desfalques, não assaltara bancos, não se apropriara por meios indevidos de dinheiros alheios. O diretor-geral do FMI fora acusado de assédio e violência sexual. Por aqui, se se põe algemas em alguém protegido pela fortuna ou pelo prestígio, é um deus-nos-acuda.
Lembraria caso de Onyango, 67 anos, meio-irmão do falecido pai do presidente Obama. O parente torto se encontra nos Estados Unidos como imigrante clandestino desde 1992 e possui uma ordem de deportação, ainda não cumprida. Nascido no Quênia, Onyango está em um centro de detenção para imigrantes ilegais. Não faz lembrar algo de Batisti, o italiano?
O meio-tio fora detido por uma patrulha rodoviária em Massachusetts, por dirigir alcoolizado. Obama não tomou a defesa do queniano, porque se trata de um problema de lei e o detento tem de ser tratado como qualquer outro caso em justiça.
Em 2010, uma tia de Obama, foi libertada de cumprir ordem de deportação, ao vencer na Justiça o direito de residir nos EUA. Tem de ser assim.
Os autores de falcatruas não se intimidam para perpetrá-las. Temos leis elásticas, que possibilitam a fuga, a evasão, a prisão domiciliar, como no caso do jornalista de São Paulo que assassinou a namorada e ficou anos em conforto doméstico. Quando se trata de algemas, ferem-se melindres e evocam-se os direitos humanos, mas elas não foram inventadas para proteger ou ocultar delinquentes. Ademais, cadeia não foi feita só para pobres.
No dia em que os criminosos forem realmente tratados como tal, a situação deve melhorar. Não seremos o país com os altos índices de violência como os ora registrados, não haverá assassinatos nas praças e vias públicas, nos lares invadidos, à porta dos bancos, essa ignominiosa briga de tribos, que se repetem nas maiores cidades.
No entanto, a política existe. Dois trabalhadores, sem passagem pela polícia - um lavrador de 45 anos e um motorista de 48 - foram presos no norte do Estado, quando andavam pelo mato com uma sacola plástica contendo carne, de quatro mocós e de um tatu.
Os cidadãos foram presos e levados à delegacia de polícia por "transporte ilegal de produtos oriundos de espécies da fauna nativa". É questão de lei e ela deve ser obedecida. O que não se pode esquecer é que o homem, o ser humano, pertence à fauna terrestre, não pode também ser morto com a frequência e a hediondez de nossos dias.


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Por Manoel Hygino - 2/9/2011 11:09:23
No meio do caminho

Manoel Hygino dos Santos

Neste meado de ano, já caminhando pelas vias do acaso, um extenso e intenso programa assinalou, em minha cidade natal, os 45 anos de fundação da Academia Montesclarense de Letras, sob a sóbria e sábia presidência de Yvonne Silveira. É claro que aqui faço um registro apenas, que começa pela notícia de abertura das comemorações, com o lançamento do segundo volume da Revista da Academia.
Em agosto, a doutora Ivana Ferrante Rabello fez palestra sobre "Grande Sertão: Veredas", a obra maior de Rosa; houve lançamento do livro "Sabenças e Crenças no Norte de Minas", da acadêmica e folclorista Clarice Sarmento; e posse dos neoacadêmicos José Jorge Nunes Silveira e Luiz Carlos Vieira Novais.
Para setembro, exibição de documentário sobre Antônio Dó, personagem mítica do sertão mineiro, produção realizada pelos universitários de Comunicação da Universidade Federal de Viçosa; homenagem aos fundadores do sodalício e lançamento do livro "Cantar de Amiga", da incansável acadêmica Yvonne Silveira.
Outubro marcará o lançamento do livro "De Pilão Arcado a Montes Claros", de Agnaldo Ribeiro de Souza e entrega do diploma de sócio benemérito à saudosa Dália Fróes; recital de poesias; palestra sobre "O Amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos, por Karla Celene Campos.
Em dezembro, lançamento do III volume da Antologia da Academia e lançamento de "Balangador de Rede" de Itamaury Teles; encerrando-se a programação em dezembro, que afinal já 2012 bate à porta, pedindo passagem.
A cidade em questão é um centro importante historicamente, não se cingindo sua significação ao âmbito econômico ou como berço de personalidades. Aliás de lá são dois membros da Academia Brasileira de Letras, Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, vultos eminentes de nossas letras, de nossa cultura e de nossa comunidade intelectual.
Para confirmar, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e a Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e caboclinhos promoveram, no oitavo mês, o 33º Festival Folclórico e a abertura das Festas de Agosto, uma tradição preservada com especial carinho, nesta época de fácil esquecimento.
Como escreveu o jornalista Paulo Narciso, em quem se enraízam os mais puros sentimentos de amor à cidade natal, ao sertão mineiro, à autenticidade de nossas fontes de cultura, em agosto também ali atracou a Nau Catarineta, desembarcando marujos, catopês e caboclinhos. Fincou-se o mastro de Nossa Senhora do Rosário, enquanto se puxou o Reinado, da Praça do Automóvel Clube (ou seja, a João Alves, em que se deu o entrevero de 6 de fevereiro de 1930), seguindo as participantes para o local de tradição, a igreja do Rosário, original.
Lastimavelmente, para não deixar de confirmar que agosto pode ser de mau agouro, um grupo de dançarinos quilombolas, que se dirigia para as Festas de Agosto, capotou várias vezes na região de Capitão Enéas. Pelo menos nove pessoas perderam a vida e o ensejo de assistir à mais tradicional festa folclórica do sertão mineiro. É muito triste.


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Por Manoel Hygino - 13/8/2011 04:04:28
O Poder Judiciário

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O advogado e escritor Petrônio Braz, a que se devem valiosas obras no campo do Direito, da história e da ficção, em recente comentário levanta uma série de questões sobre o mundo, as nações e os governos. No período tumultuoso que vivemos, quando as economias balançam, a Grécia padece e o Norte da África e o Oriente Médio se dilaceram, em decorrência de graves problemas históricos, e com um imenso saldo de mortos e feridos, vale a pena analisar.
Uma das questões é a seguinte: "Seria a democracia, inventada pelos gregos, a melhor forma de governo, a ponto de ser imposta pela força a todos os povos? Os orientais viveram durante séculos sem democracia. Hoje, sem democracia, os chineses evoluem assustadoramente e os cubanos, há 50 anos, vivem sob regime outro e aparentam ser felizes." O articulista observa: "Não aprovo, contudo, a escravidão do povo".
Para Churchill, a democracia, embora plena de defeitos, ainda é o melhor sistema de governo. Mas se perguntaria: melhor para todos os povos e nações? Ou apenas para o mundo ocidental? Durante séculos e milênios, em muitos lugares do planeta se viveu sem ou fora da democracia.
E outra: o povo sabe efetivamente escolher os seus dirigentes? Ou como disse Pelé e outros confirmam: cada povo tem o governo que merece. São questões que merecem meditação para que se faça um juízo.
Para Petrônio Braz, a democracia no Brasil está criando gerações de governantes corruptos, sem garantir a segurança da população. Bem verdade que a situação decorre da própria falha nas leis, dos desvios que permitem, inclusive no que tange à equivocada utilização do voto pelos eleitores, influenciados por uma poderosa máquina de manipulação e por artifícios dos que bem sabem aproveitar de meios desonestos. Desonestos, mas legais.
Na definição clássica, atribuída a Aristóteles, democracia é o "governo do povo", ou seja, de todos os cidadãos, ou ainda de quem goza de cidadania, enquanto a democracia moderna impõe o estado de direito, baseado na soberania popular. Graças a isso, os cidadãos e grupos sociais tomam parte no processo de escolha dos governantes e disputam o poder político. Por meio da representação, os cidadãos participam, direta ou indiretamente, das estruturas de poder do Estado e dão contribuição nas decisões mais importantes para a coletividade.
Acontece, entre nós, contudo, que o cidadão praticamente se restringe a votar nos dias de pleito, deixando a partir daí que as decisões sejam tomadas por aqueles que escolheu, frequentemente de modo enganoso, por força da máquina eleitoral montada.
O modelo republicano de Estado baseia-se hoje na existência de três poderes independentes, que dividem as funções de governar, legislar e administrar a Justiça em três estruturas distintas. Ocorre que só Executivo e Legislativo são eleitos pelo povo. Assim, no raciocínio de Braz, poder-se-ia afirmar que o Judiciário não tem legitimidade, em uma democracia, para ser Poder; seria, sim, um órgão jurisdicional, subordinado a outro poder, "daí os abusos de autoridade, que geram prepotência, estabelecendo a ditadura do Poder Judiciário, num retorno ao "Roma locuta causa finita".


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Por Manoel Hygino - 5/8/2011 08:56:22
Valiosa reedição

Manoel Hygino dos Santos

No norte de Minas, sempre aqui lembrado por múltiplos e suficientes motivos, foi lançado, no último dia 25, a segunda edição de "Serrano de Pilão Arcado - A saga de Antônio Dó". Já me referi a esse romance de Petrônio Braz, um barranqueiro autêntico, fiel às origens e tradições, nascido em São Francisco, brilhante.
Quem formulou o convite para a noite de autógrafos, a que não compareci, como de meu feitio, foi o Rotary Clube Montes Claros Liberdade, sendo o ato no Centro Cultural, na histórica Praça da Matriz da maior cidade da região. A iniciativa, bom que o diga, mereceu apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Montes Claros, da Academia Montesclarense de Letras, Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Ateliê Felicidade Patrocínio e livraria Saramandaia.
Dito e conforme o registro, manifesto alegria pela nova edição do livro: Best-seller, Série Ouro, referenciado pelo Atlas das Representações Literárias Brasileiras 2009 do IBGE, por sua representatividade na literatura do sertão brasileiro, indicado pelo Conselho Universitário como leitura obrigatória para o Vestibular da Unimontes 2011/2012.
Fico feliz, porque num país em que vivemos sob influência dominante do Eixo Rio/São Paulo aparecer um livro como o de Petrônio Braz em segunda edição já significa algo válido como referência. E o é, de fato.
Principalmente depois de Guimarães Rosa construir algum edifício literário que mantenha em alto nível as letras sobre o sertão mineiro se torna um desafio, de que Petrônio Braz garbosamente sai triunfante.
O autor focaliza aproximadamente um tema de Rosa, mas não o imita ou copia. Os personagens são homens e mulheres da mesma região, mas a história de Antônio Dó é rigorosamente histórica, embora envolvida pelas naturais semelhanças com a saga. E a palavra sagarana, aliás, significa ao jeito ou feitio de saga.
Nos personagens do genial ficcionista de Cordisburgo, tem-se de tentar descobrir quem foram os modelos, quem os teria sugerido, quem está por detrás dos fatos. Nem entro na questão de linguagem de Rosa, que é inigualável. Em Petrônio, com sua obra, tem-se a reconstituição da vida e das aventuras de um sertanejo verdadeiro, que muitos conheceram e de que há lembranças fortes na memória popular. A própria crônica da Polícia Militar do Estado poderá ser consultada para lançar luzes (ou mesmo pôr em dúvida) sobre circunstâncias da longa luta da PM contra Dó e seus homens.
É muito árduo rebelar-se contra os ditames editoriais de São Paulo e Rio de Janeiro, mas a segunda edição de "Serrano de Pilão Arcado" prova que é possível vencê-los e revelar à nação aquilo que, no caso de Euclides da Cunha, se manteve oculto durante séculos. É preciso superar a rígida ditadura dos dois maiores centros da vida cultural brasileira. Conseguiu-se uma vitória importante.


68368
Por Manoel Hygino - 1/8/2011 08:46:51
Construindo o sertão

Manoel Hygino dos Santos

No número de março da revista "Magiscultura", excelente coleção de artigos e ensaios, assinados por expressões de nossa cultura jurídica, e também de nossa inteligência, além do convidado especial Eduardo Almeida Reis sobre Abgar Renault, uma figura solar. Mas vou registrar a participação do magistrado, aposentado (até certo ponto) Luiz Carlos Biasutti sobre Antônio Lopo Montalvão.
Ora, perguntareis: De quem se trata?
É o nome de um desses brasileiros, com ascendência portuguesa, que - enfrentando toda sorte de obstáculos - decidiu construir um lugar para viver e lhe promover o progresso. Aconteceu na primeira metade do século 20, porque Montalvão nasceu no dia de Santo Antônio, 13 de junho, de 1917, numa fazenda do município de Manga. Construir é difícil, mais talvez do que navegar. Montalvão enfrentou inimigos, trocou tiros, na época das obras de Goiânia, em que trabalhou após sair do Estado natal. Na capital em erguimento de Goiás, deu-lhe o vezo e adquiriu a determinação de fazer algo semelhante na sua região.
Voltou para o Velho Chico, mas enfrentou a obstinação dos jagunços da família Ludovico, de Goiás, a qual pertencera a vítima da briga. Os vingadores tentavam assassiná-lo, teve de fugir para a Argentina, onde aprendeu, trabalhando numa livraria, espanhol e inglês.
Mais uma vez de regresso, acendeu-lhe a ideia de oferecer a seus conterrâneos, gente humilde do sertão, efetivas condições para desenvolver-se e à região. Contratou em Poções, município de Manga, um professor, a suas expensas, para ensinar a crianças e adolescentes. Tinha a certeza de que o cidadão começa a forjar-se na escola.
A política atraiu Montalvão em Manga, por considerar que seria um instrumento para concretização de seus sonhos e projetos para a região natal. Perdeu eleições em 1954, ganhou apertado no pleito seguinte, quatro anos depois. Passou a administrar um grande pedaço de Minas, compreendendo hoje Jaíba, Matias Cardoso, Miravânia, São João das Missões, Montalvânia, Juvenília e a própria Manga.
É uma longa história, que envolve encarniçada luta e ambições.
Mas em 22 de abril de 1952, Mon-talvão lançou a pedra fundamental da cidade que construiria para os sertanejos, quando não havia estrada, energia elétrica, telefone nem sonhar. Dez anos após, conseguiu ver aprovada a emancipação da "Cidade de Montalvânia", como dizia com orgulho.
Ele próprio desenhou em papel de embrulho, como lembra Biasutti, as praças e ruas da cidade, com avenidas largas e o local da igreja.
Nos anos 50, conheceu Antônio Lopo Montalvão defendendo suas ideias. Os logradouros públicos da sua cidade exibem nomes de filósofos, cientistas, religiosos, músicos, poetas e políticos. Em 1992, 30 anos após a emancipação da cidade, partiu, mas ainda esperava fazer mais por seu povo.


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Por Manoel Hygino - 24/7/2011 14:11:48
De botões e calçados

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Montes Claros, que tantas perspectivas oferece ao investidor, ganhará uma fábrica de calçados da Alpargatas, maior empresa no gênero em toda a América Latina. O anúncio foi feito publicamente e não irá gorar como no caso da indústria de automóveis alemã. Serão, no caso da manufatura de calçados, 144 milhões de reais em aplicações, com geração de 2.200 empregos diretos e mais três mil indiretos.
Injeta-se na economia local e regional mais do que dinheiro: uma nova onda de esperança no desenvolvimento do Norte deste Estado.
Leio que a nova planta (importamos a expressão inglesa) começa a ser construída em agosto, com início de operação no segundo semestre de 2012. Constitui novo detalhe a se comemorar, numa demonstração de que iniciativa privada é mais célere que o poder público.
Entrarão no comércio cerca de 100 milhões de pares de calçados, representando um aumento de 35% na produção atual do grupo empresarial, que atua em 85 países.
Ao redigir este texto, lembro que, há muitos anos, chefiando o gabinete do presidente da CDI - Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais, participei de uma reunião com a diretoria da empresa calçadista. Pareceu-me familiar o nome de um de seus diretores. Descobri, então, que se tratava de um filho do nosso romancista maior, ou seja, Cyro dos Anjos.
Acendeu-me a curiosidade agora, porque atrelei o nome do filho ao do avô, que se empenhou por uma indústria em Montes Claros do século passado, de que não encontrei registros na portentosa obra de Hermes de Paula.
O historiador maior relata a coragem dos industriais locais, que enfrentavam toda sorte de dificuldades, a partir da falta de energia elétrica nos séculos 19 e 20, em sua primeira metade. E tudo ficava muito distante: as máquinas para as indústrias vinham em carros de bois e em lombo de burro, através de longas e péssimas estradas.
O autor de "O amanuense Belmiro" relata as inquietações do pai, que - após a construção do ramal ferroviário persistentemente reivindicado pela população - desejava ardentemente implantar uma indústria na cidade. A fictícia Santana, segundo o visionário empreendedor, tinha vocação manufatureira. Possuíra, no século anterior, uma fábrica de tecidos, que, destruída num incêndio, se refizera, funcionando até fenecer, por dificuldade de escoamento da produção.
O romancista registrou: "A cidade queria tornar-se a Manchester do Norte de Minas, como Juiz de Fora se fizera a do Sul. Não havia de limitar-se à pecuária e à lavoura, atividades principais". A fábrica de calçados de agora é uma continuação da de botões de meados dos anos 20 de um século que não morreu?
Montes Claros de hoje já dispõe da infraestrutura indispensável ao seu desenvolvimento. Há de crescer mais do que demograficamente; daí, o ressurgimento de expectativas de sua gente, que precisa de novas oportunidades de trabalho.
Assim seja!


68225
Por Manoel Hygino - 16/7/2011 10:12:06
O rei do cangaço

Manoel Hygino dos Santos

O fenômeno do cangaço ainda não foi, acho eu, examinado à luz das modernas ideias de guerra irregular que Alessandro Visacro examina em livro recente da Editora Concreto. Ele fala de terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. O autor deseja que seu trabalho sirva de instrumento para reflexão, e isso conseguiu.
Na prática, "guerra irregular é todo conflito conduzido por uma força que não dispõe de organização militar formal e, sobretudo, de legitimidade jurídica institucional. Ou seja, é a guerra travada por uma força não regular. Esse conceito pode parecer excessivamente abrangente e vago, mas é, apenas, simples". É o caso do cangaço.
O Brasil sofreu intensamente a efervescência no Nordeste, desde o Império. O fenômeno Antônio Conselheiro é apenas um. Em 1920, o país tinha 27 milhões de habitantes, a exportação não alcançara 1 milhão de toneladas. O elemento fundamental da superioridade agrícola era o latifúndio. Terminada a primeira grande guerra, irrompe a crise mundial que afetará as estruturas econômicas dependentes, e o Brasil estava entre eles. Em 1922, explodia o tenentismo.
A expressão máxima do poder do latifúndio reside na capacidade de recrutar e manter forças armadas, além das polícias estaduais. Nélson Werneck Sodré comenta que os coronéis mantêm tropas para afirmação de força. Surgem as ligas operárias nos centros importantes e o cangaço no Nordeste carente. Em meio a tudo, a Coluna Prestes.
Cangaceiros, jagunços e outros indivíduos chegam a associar aos governos e latifundiários contra os homens de Prestes. A nação em estado de sítio. Em "Lampião e o Estado-Maior do Cangaço", de Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, analisado com excelência por Enéas Athanásio, crítico conceituado de Santa Catarina e uma de suas expressões maiores, mostra-se "o ambiente sócio-econômico e político que permitiu o exercício dessa forma de banditismo". Enéas observa que a sobrevivência do cangaço encontra também explicação no apoio das populações rurais das regiões onde se desenrolava; apoio mesmo por medo, diria eu.
Em 1938, a pobre mídia da época informava que Lampião fora morto numa emboscada das forças estaduais na gruta de Angicos, em Sergipe. Sua cabeça e a de Maria Bonita, sua companheira, foram cortadas e, anos depois, as vi no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.
Mas o assunto não se encerrava. Em Brasília, em 2009 lançava-se o livro "Lampião, o Invencível: duas vidas e duas mortes", pela Thesaurus Editora, de Geraldo Aguiar, em que se defende a tese, com farta documentação, inclusive testemunhal, de que Lampião, o capitão Virgulino, não morreu na emboscada. Ele fugira antes e viera a residir em cidades norte-mineiras, usando nomes falsos, falecendo finalmente na cidade de São Francisco, onde viveu como Antônio Maria da Consolação ou João Teixeira Lima. O mito persiste. Geraldo Aguiar faleceu em maio último. Mas como Tagore Alegria, da Thesaurus, me conseguiu seu livro, voltarei ao tema.


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Por Manoel Hygino - 15/7/2011 07:39:33
Mourão vê Cyro

Manoel Hygino dos Santos

Quando do centenário da Academia Mineira de Letras, seu presidente Murilo Badaró incumbiu-me de elaborar o prefácio de "O Amanuense Belmiro", que seria reeditado pelo sodalício. Fazia-o por integrar eu a Casa de Alphonsus e de Vivaldi Moreira e, ainda, por ser conterrâneo do grande ficcionista que Montes Claros deu ao Brasil: Cyro dos Anjos.
Coincidentemente, na mesma época fui escolhido para participar de um documentário sobre Cyro, que sequer cheguei a conhecer pessoalmente, mas de quem recebera pequenas cartas em que recordava a nossa cidade natal, de que nos encontrávamos afastados, por circunstâncias da vida.
Este ano, em sua edição de janeiro/fevereiro, o Suplemento Literário de Minas Gerais inseriu um ensaio de Rui Mourão sob título "Cyro dos Anjos e o Amanuense Belmiro", contendo uma preciosa análise do romance. Mourão, diretor do Museu da Inconfidência e membro da Academia Mineira de Letras, teve oportunidade de conviver com Cyro, quando ele coordenava o Tronco de Letras, enquanto o próprio ensaísta dava aulas no Setor de Literatura Brasileira na UNB.
No percurso entre as quadras 306 e 305 em que vendiam, conversavam sobre quaisquer assuntos, como o passado em Minas, as perplexidades do trabalho no campus da Universidade de Brasília, literatura e escritores.
Conta Rui Mourão: "O humor sarcástico que em particular se desenrustia, a malícia na contemplação de espetáculos pouco meritórios da condição humana, a agudeza de observação e de análise conferiam riqueza e exuberância aos desempenhos do grande conversador".
Do ponto de vista crítico, o ensaio de Rui Mourão melhor se prestaria a servir de prefácio à republica-ção que do romance fez a nossa Academia. Nem faltam mérito e habilitações para fazê-lo o confrade à altura de sua competência e da grandeza do romance do escritor focalizado.
Não se dissociará agora o teor do comentário de Mourão da criação de Cyro dos Anjos, incontestavelmente um dos maiores autores do Brasil no século passado, construindo o nosso regionalismo, enquanto os nordestinos cuidavam do seu. "O Amanuense Belmiro" não pode ser considerada uma obra do passado, porque constitui o retrato fiel de um tempo e de um pretérito que permanecem muito presentes em todos os que se cruzaram por aqui, então.
O personagem e o autor se confundem em muitos episódios e pensamentos. Aliás, sabe-se que Cyro, quando da preparação para o seu "A menina do sobrado", pôs-se em dúvida, se faria como ficção ou como projeto memorialístico. Tirou a sorte para decidir-se. No entanto, mesmo em "A menina...", há muito de ficção e de realidade. O autor jamais conseguiu desvencilhar-se em passar ao papel o que havia dentro de si, de fato e de imaginação. Restou, ao final, uma grande construção.
O que se há de esperar é que as novas gerações apreciem e admirem o romance como merece, numa época em que o próprio substantivo "amanuense" se acha esquecido na linguagem cotidiana.


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Por Manoel Hygino - 1/7/2011 11:15:25
Tempo de tropelia

Manoel Hygino dos Santos

Os velhos jagunços não teriam mais hora e vez. As patas de seus cavalos foram substituídas pelas rodas das motos e dos carros, que oferecem mais velocidade que os quadrúpedes das quadrilhas que inquietaram o Brasil no século passado. Lampião é fichinha diante dos novos criminosos, motorizados, armados e municiados, com know-how de dar inveja.
As máquinas de duas rodas prejudicam não apenas os motoristas de um modo geral, serpenteando perigosamente entre os automóveis, caminhões e pedestres, nas ruas das cidades. Mais do que isso, são o veículo ideal para assaltos a estabelecimentos bancários, comerciais, principalmente aos postos de combustíveis. Os proprietários destes e as autoridades recomendam: não reajam, para não perder a vida. Um modo simples de resolver a questão sempre agravada. Umas das causas principais, ou a fundamental, a droga, cujo comércio e produção supera à de muitas outras atividades, principalmente, as lícitas. Em minha cidade natal, segundo o jornalista Ernesto Braga, 70% dos assaltos à mão armada são praticados com a duas rodas movida a gasolina. São mais de 50 mil desses veículos e mais de 50 mortos, já atingindo 60, este ano. A epidemia, gravíssima, abrange todo o território nacional, os agentes da lei se empenham com vigor, mas o mal já se estendera demais. Com leniência, não se resolve. Em Maracás e Planaltino, cidades baianas, há toque de recolher, decretado pelo juiz de direito. Depois de certa hora, como em outros municípios brasileiros, menores não podem mais circular pelas vias públicas, a não ser acompanhados. Objetivo: impedir envolvimento em atos infracionais, como consumo de entorpecentes e a prostituição. Na maior cidade do norte de Minas, monta-se uma força-tarefa contra as drogas. Mas as quadrilhas estão bem preparadas para a guerra, dispondo de espingardas, fuzis, metralhadoras, coletes à prova de balas. E toucas ninja, luvas e rádio comunicadores, para captar as frequências policiais.
O Norte de Minas já pertenceu a capitanias de Pernambuco e Bahia. E, no ambiente descrito por Euclides da Cunha e outros bons autores regionalistas, mantém-se o clima de inquietação e violência, agora se utilizando recursos modernos para ações criminosas. Em 30 de maio, 15 homens armados, à moda de Lampião e seus jagunços, invadiram a cidade de Ibiassucê, na Bahia, levando pânico. O grupo de cerca de 15 homens promoveu uma onda de assaltos ao comércio e postos bancários, para depois fugir em seus carros, agredindo pessoas e atirando para o alto, como se estivessem na época da conquista do oeste do Estados Unidos ou recuassem ao tempo da jagunçada. Vê-se daí que o nosso desenvolvimento não é tão completo como se pensa e se propala. No caso em questão, os bandidos levaram como reféns os dois soldados que trabalhavam e nada puderam fazer para impedí-los. Dias antes, dois bandidos usaram dinamite para explodir uma agência bancária em Sátiro Dias, também Bahia, e usaram reféns como escudo humano para atacar, a tiros, a delegacia de polícia. Este é o Brasil do século 21, vivido em meio ao foguetório de políticos alienados da realidade nacional.


68035
Por Manoel Hygino - 24/6/2011 10:06:52
Morte sobre rodas

Manoel Hygino dos Santos

Conterrâneo residente em Londres anotou que, no ano passado, houve 125 assassinatos na capital britânica. Dos casos, somente dois não foram resolvidos pela polícia, o que demonstra a eficiência da autoridade, a despeito da criminosa execução do brasileiro Jean Charles, confundido com um terrorista. Norte-americanos e europeus já vivem estado de pavor por possíveis ataques de grupos ou indivíduos fanáticos procedentes principalmente da Ásia ou norte da África.
Marden Carvalho raciocina que, obedecidos os parâmetros da Organização Mundial de Saúde, a nossa cidade Montes Claros, lá no Norte de Minas, deveria encerrar este ano com 37 homicídios. No entanto, já ultrapassou a marca de 53 assassinatos em 2011, um índice indesejável e demonstrador do grau de violência na cidade.
Não é fato isolado no mundo, embora não nos console o quadro geral. Para a Organização dos Estados Americanos, o continente americano é a região mais violenta do planeta, com uma pessoa morta a cada quatro minutos. Adam Blackwell, ao apresentar relatório da Secretaria de Segurança Multimensional da OEA, comentou ao falar à imprensa: "Desde que comecei a falar, aconteceu pelo menos um homicídio doloso e, quando eu acabar, terão ocorrido entre oito e dez".
Blackwell observou que há numerosos fatores que influenciam a situação vivenciada: "A desigualdade, a pobreza, a educação", por exemplo. Os números indicam que "é preciso buscar melhores soluções". Isto é, voltamos ao que sempre fomos, ultimamente, procurávamos esconder, até irresponsavelmente.
Sobram: desigualdade, pobreza. Faltam: segurança, educação e violência. Se minha cidade natal tivesse as dimensões de Londres, com 8 milhões de habitantes, somariam 1.105 pessoas assassinadas só na metade deste 2011, de tantas ebulições vulcânicas, inclusive na América Latina.
Sensatamente, o diretor do Denatran, Orlando Moreira, sugere restringir-se a circulação de motocicletas como forma de diminuir o número de acidentes no Brasil. Segundo a OMS, 20% das mortes de trânsito no Brasil atingem condutores ou passageiros de motocicletas. Aliás, não é só isso. Grande parte dos homicídios presentemente é produzido por passageiros ou condutores de motocicletas. Deve existir estatística a respeito.
Que se há de fazer? O governo no último ano incentivou exdruxulamente a fabricação e venda de veículos, de duas e quatro rodas. Era preciso fazer de conta que a felicidade e a prosperidade circulavam sobre pneus. Agora, o que fazer?
Outro dado: pesquisa da USP revelou que o trânsito aqui é muito mais perigoso do que em países desenvolvidos. Em relação à Suécia o índice de mortes no Brasil por bilhão de quilômetros percorridos é uma dúzia de vezes maior. O indicador considerou o tamanho da frota e da população, mas também a distância média percorrida.
O estudo confirma a relação entre desenvolvimento econômico e acidentes nas ruas e rodovias. Quanto maior o PIB per capita, menor o risco de morte no volante.


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Por Manoel Hygino - 18/6/2011 09:01:02
Presépio ao norte

Manoel Hygino dos Santos

Fascinou-me Grão Mogol tão logo conheci a descrição que da cidade fez o advogado e escritor Haroldo Lívio: incrustada no regaço da Cordilheira do Espinhaço, é pedra, é cristal, é diamante. "A igreja paroquial, de pedra construída, os muros de pedras, as ladeiras cansadas, é tudo feito de pedra sobre pedra. As serras penhascosas são cristais ponteagudos, rolam ouro e diamante nas águas escuras dos ribeirões: Protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra".
Os veios diamantíferos se esgotaram. O lugar parou no tempo, minguou. O quase esquecimento pode ser causa da paz e da segurança reinantes, como depôs Alberto Sena em duas excelentes crônicas. O cronista diz, o burgo possui de tudo um pouco, conservando tradições imunes à voracidade do tempo e a ganância dos que só querem ter, ao invés de ser.
Lá, como no Quartel de Abrantes: tudo como dantes. Cidade limpa, sem lixo na rua, lixeiras disseminadas pelas vias, todas as casas pintadas, sem favelas, caixas d`água azuis e cobertas, crianças não perambulando, todas estudam. O hospital propicia assistência a tempo e a hora, o posto de saúde funciona com eficiência.
No mais, igreja e capela com paredes de pedras construídas pelos escravos. Ar puro, água límpida; as pessoas se conhecem e se compreendem, clima europeu, não tão perto ou tão distante dos grandes centros, com seus tantos desvios e vícios.
E tudo fica pedra e mais pedra, e sobre elas se constrói um adorável canto para viver e meditar. E há muito o que meditar, o que tanto falta aos homens nos inquietos dias presentes, em centros urbanos avantajados. Sob muitos aspectos, melhor do que Passárgada, invenção de poeta, solteiro, com outras visões e perspectivas do mundo.
Por não ser bobo, por conhecer a sua patriazinha sertaneja e empedrada, Lúcio Bemquerer decidiu retornar, depois de duas dezenas de anos distante. Economista, fundador de uma revista de prestígio "Encontro", presidente da Associação Comercial de Minas com o êxito de duas gestões, empresário de reconhecida competência e idoneidade acima de qualquer suspeita, dirigente classista cogitado até para ser prefeito de Belo Horizonte, definiu-se. Acompanhado da esposa Wilma, pôs pé de volta na estrada, regressou à pétrea terra em que nasceu.
Reformou uma casa colonial, instalou-se com a companheira, certo de que o presépio natural de Minas serve para viver bem, não somente para nascer, como há mais de dois mil anos atrás na recôndita Palestina.
Bem-querendo e bem-querido, Lúcio deu nome à criação que fez em parceria com Deus. Em Grão Mogol, há hoje o presépio Mãos de Deus, cujas vias de acesso a visitantes o idealista está abrindo sobre e entre pedras, num lugarejo de extasiar as pessoas de sentimento. Mais do que navegar, meditar é preciso, convenceu-se. E sítio algum no mundo seria melhor do que aquele, de que se extraíram os minerais mais preciosos, em tempos pretéritos.
A cidade não espera milagres; ela própria já o é. Sua gente é boa e hospitaleira, não precisará de perambular em busca de um abrigo para a noite, como aconteceu com José e Maria, como está nos documentos bíblicos.


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Por Manoel Hygino - 11/6/2011 11:44:19
A justiça social

Manoel Hygino dos Santos -Hoje em Dia

Vou lendo os jornais. O Índice Global da Paz, divulgado pelo Instituto de Economia e Paz na segunda quinzena de maio, revela o Brasil na 74ª posição entre 153 países, entre os mais pacíficos do mundo. Está, pois, nove posições acima em relação ao ano de 2010.
Mesmo assim, nosso país está anda atrás do Egito, Nicarágua, Marrocos e Tunísia, que recentemente registraram revoltas populares, acompanhadas, sobretudo, pelas imagens da televisão. Vê-se que não há muito do que se ufanar, embora sem guerras e rebeliões sangrentas.
Entre as nações latinas, o Brasil se acha em nono lugar, enquanto o Uruguai, durante décadas considerado a Suíça das Américas, se encontra em primeiro lugar como o mais tranquilo da região, pelo segundo ano consecutivo.
Há de ressaltar-se que o mundo se encontra menos pacífico pelo terceiro ano consecutivo e o recrudescimento da violência causou um impacto de mais de 8,12 trilhões de dólares na economia mundial no ano que passou.
Seria por causa dessa situação vivenciada pelo Brasil que a cultura do empreendedorismo está abaixo da média mundial, segundo pesquisa realizada em 24 países? Porque, em verdade vos digo, que a tranquilidade não habita este país abençoado por Deus, como deveria.
As cidades brasileiras e os campos se acham em ansiosa expectativa. Não se pode dizer que há felicidade num país em que existe miséria, em que os empresários dos mais variados crimes, inclusive da droga, encontram-se soltos e agindo sob as vistas das autoridades, impotentes para enfrentá-los, até pela avalanche das leis, interpretadas frequentemente pelos seus aplicadores no interesse dos que as infringem.
Agendou-se para junho o lançamento do programa "Brasil sem Miséria" pela presidente da República. Admite-se que há 16,2 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Isto é, não vivem exatamente. São homens e mulheres não identificados sequer pelo Bolsa Família, com o qual se pretendeu amenizar a tortura de viver quase sem condições de sobrevivência, embora a afirmação seja algo polêmica. Esses miseráveis não têm acesso a serviços básicos como água, esgoto, saúde, educação, emprego e habitação.
Por mais que se queira impressionar o eleitorado, por maior que seja a evolução da renda nacional, por mais que se exalte a transposição de faixas de brasileiros para um patamar econômico mais alto, a verdade verdadeira é que temos de muito fazer para que a justiça social não seja apenas mais uma expressão útil na televisão, nos discursos parlamentares ou nos rareantes comícios.
Não custa verificar que, no momento em que se pensa institucionalizar uma campanha contra a miséria, a maior cidade do Brasil é apontada pela revista "Forbes" como a de maior concentração de bilionários do país situando-se em sexto lugar no mundo.
Esses 21 cidadãos do topo da pirâmide econômica possuem patrimônio estimado em US$ 85 bilhões, residem em São Paulo, que está à frente de Los Angeles, a oitava. Dá o que pensar.


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Por Manoel Hygino - 27/5/2011 07:58:00
Revoltas de fome

Manoel Hygino dos Santos (Hoje em Dia)

Focalizei aqui, mais de uma vez, o que se preconizava: o norte mineiro se desertifica, o que evidentemente não é de hoje, confirmando o desinteresse do poder público e de sucessivos governos por uma das ricas e extensas regiões do país. O que afirmei, e os técnicos já advertiam, agora se confirma.
Em estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente ao governo mineiro, exposto por jornal paulista, revela que um terço do território mineiro pode virar deserto em 20 anos. Assim serão o norte do Estado, o Vale do Jequitinhonha e o Vale do Mucuri. O fenômeno decorre da monocultura, da pecuária intensiva, do desmatamento e das condições climáticas adversas que sofre o solo de 142 municípios.
E ainda: se nada for feito para interromper e reverter o processo, essas terras não terão mais uso econômico e social, afetando 20% da população, ou seja, 2,2 milhões de pessoas. É necessário R$ 1,3 bilhão para conter a situação, que já causa danos sentidos e notórios.
Esse fato se inclui e se alinha a outros que deveriam merecer efetiva atenção. As autoridades não podem dizer que os desconhecem. A própria Agência Nacional das Águas, um organismo oficial, divulgou em março que o Brasil, dono da maior bacia hidrográfica do planeta, pode enfrentar problemas de abastecimento. A agência crê que se o Brasil não investir 22,2 bilhões de reais na captação e coleta de água até 2015, pode faltar o líquido essencial à vida em 55% dos municípios do país, ou seja 3.069 do total.
Técnicos observam que os municípios sob risco representam 73% da demanda de água do país inteiro. Desse universo, 84% das sedes urbanas carecem de investimentos para adequar seus sistemas produtores e 16% apresentam déficits decorrentes dos mananciais utilizados.
É algo muito grave, em que pouco se pensa, porque se cuida mal de assegurar recursos para os estádios destinados à Copa do Mundo e às olimpíadas, ao sistema aeroportuário e à rede hoteleira. O resto fica para depois. Depois?
No caso de Minas Gerais, caixa d`água do Brasil como gostava de ressaltar o governador José Francisco Bias Fortes, há de se considerar que a nossa bacia hidrográfica já foi afetada, o volume de águas decresce e sua qualidade sofre os efeitos da urbanização mal orientada e da evolução industrial.
O principal rio de Minas, o São Francisco, irá atender parte do Nordeste para arrefecer-lhe a sede. E, no meio do curso de suas águas...
Pouco adianta advertir, porque as imposições imediatas e a insânia são mais vigorosos.
Outro fato: a Organização das Nações para a Alimentação e a Agricultura alerta que o índice de preços dos alimentos alcançou, em fevereiro, pelo oitavo mês consecutivo, o seu mais alto nível desde 1990. A elevação dos preços dos alimentos, iniciada em meados de 2010, provoca o medo de uma explosão de "revoltas de fome", como as registradas em 2008 em vários países africanos, no Haiti e nas Filipinas.
E, diminuindo a água e aumentando a desertificação, onde iremos parar? O Brasil não é imune.


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Por Manoel Hygino - 26/5/2011 07:27:21
Cantos e desencantos

Manoel Hygino dos Santos

Admiro, mais do que isso - invejo, os que têm longa, útil e saudável vida. Em minha cidade, lembro Luiz de Paula, Ruth Tupinambás, Graça e Yvonne Silveira, que mantêm acesa a chama dos 20 anos depois de ultrapassarem em 70 essa idade. Os três são escritores de reconhecidos méritos. Dona Yvonne presidindo a Academia Montes-clarense de Letras com o mesmo entusiasmo de muito tempo atrás, participando das reuniões, viajando para cumprir a agenda da entidade, que é ampla.
Quando me empossei na Academia Mineira de Letras, ei-la no auditório Vivaldi Moreira, junto à mansão Borges da Costa, na Rua da Bahia. Uma viagem que, por terra, ida e volta, somaria mais de mil quilômetros. E ali, na noite de Belo Horizonte, elegante e bem disposta, uma dama, na verdadeira acepção da palavra. E Dona Yvonne, respeitada e admirada, me conheceu de franjinhas, menino de 9 anos, à porta do estabelecimento comercial de meu avô, numa cidade que era brava, mas não selvagem, hoje transformada em valhacouto e campo de ação de bandidos procedentes de outros estados. Deve a escritora sentir saudades dos dias e noites em que se reuniam as famílias à porta das residências, e também das serestas, inesquecíveis, que compunham o modo de viver da população.
Esses três autores amam a terra em que nasceram, seus modos e seus costumes, as pessoas de ontem e as que hoje seguem uma tradição de generosidade alegre, de doçura nos corações, de arraigado sentimento ao lugar e às suas gentes.
Pois Dona Yvonne assiste agora ao lançamento da segunda edição de "Cantos e Desencantos", contendo a poesia do esposo, falecido em 2009, cinco meses antes de completar o centenário de nascimento. Olyntho Silveira era um cidadão no verdadeiro sentido do termo. Em seu livro, ressaltava que vivemos o tempo do triunfo da ciência. Mas, adverte: "Não venham dizer-nos que esta afasta de si a poesia, lembrando o exemplo de Flammarion."
Começou a estudar em escola isolada pública, continuou pelos livros, com 19 anos, já escrevia para a "Gazeta do Norte", seguindo em outras folhas, inclusive da capital. Casado com Dona Yvonne, não deixou frutos da união, a não ser os versos que publicou. Aprendeu francês e espanhol pelas gramáticas e traduziu grandes autores, sendo considerado uma das ilustres personalidades de Montes Claros, embora nascido no velho Brejo das Almas quando aquela cidade completou 150 anos.
Para a viúva, foi exemplo de vida pela honradez, dignidade, modéstia e ausência de ambições. Para a mulher de sua existência, que continua com entusiasmo a humana linda, ainda é o "meu poeta". Evocaria Machado com a sua Carolina, que se despediu mais cedo, e meditava o poeta carioca que para tão grande amor é curta a vida.
Para Míriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, os poemas de Olyntho aludem "a um tempo vivo, iluminado com a sua luz própria, instantes em êxtase de últimas preces, como na utopia de estar vivendo em pleno paraíso. Uma poesia com o "sentido mais profundo da vida".


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Por Manoel Hygino - 19/5/2011 10:39:51
A Lei dos Tóxicos

Manoel Hygino dos Santos

À medida que passam os dias, a sucessão de homicídios, muitos deles bárbaros, parece indicar que o brasileiro está perdendo respeito pela vida. Embora não seja fenômeno isolado no tempo bárbaro que atravessamos, merece registro esse grave sintoma de desumanidade. Mata-se por qualquer "dá cá uma palha" e no diapasão se encontram pessoas de todas as condições sociais e econômicas, bem como de todas as idades. Verdade é que autores e grande parte das vítimas são jovens, o que mais se deplora. São pessoas que recém saíram da adolescência, havendo, inclusive, aquelas que sequer nela se encontravam.
Grande parte desses homicídios e outros crimes se dá em decorrência do uso das drogas, uma calamidade nacional, fruto também da leniência com que é tratado o problema.
Li também um depoimento claro, peremptório, de um magistrado que milita no interior. Refiro-me ao dr. Isaías Caldeira, juiz criminal, que afirma: "O tráfico de drogas saiu do controle do Estado, permeia as cidades e campos, destrói vidas e famílias, sendo responsável por mais de 80% dos crimes cometidos em comunidades como a nossa. De nada adianta o esforço tremendo das polícias no combate sistemático ao tráfico e traficantes. Dezenas são presos todos os meses, mas outros tantos assumem os lugares dos encarcerados".
O texto de Isaías Caldeira merece ser lido por todos os cidadãos deste país, sobretudo pelas autoridades responsáveis; porque para os bandidos e pessoas desonestas alçadas a importantes cargos públicos, nada mais adianta. Há necessidade inadiável de uma cruzada nacional para tentar salvar o que ainda pode ser salvo.
Para o juiz, também o usuário de drogas deve ser punido, como o era até o ano de 2008, quando entrou em vigor a Lei 1.343/06, a chamada "Lei de Tóxicos". Sabiam os traficantes, por exemplo, que o crack mata o usuário em curto tempo ou deixa incapacitado mentalmente, daí não desejarem seu uso. Além do que, essa droga é barata. Constataram os criminosos que se perdiam uma dezena, mas se ganhavam milhares, em todo o Brasil. Hoje o crack está nas cidades e nas zonas rurais, onde a pobreza avulta. Com a lei mencionada, liberou-se o consumo da droga, não punindo usuário.
Se preso, o consumidor é conduzido a delegacia e lavrado um TCO, liberado e encaminhado ao Judiciário, para receber advertências ou tratamento especializado. O juiz acrescenta: "Nunca poderá ser preso por desobedecer a sentença. Nunca se ouviu falar de crime sem pena, sem punição".
Conclusão: "Então, óbvio, o uso de drogas não é mais crime no Brasil desde a vigência desta Lei 1.343/06; àqueles que discordarem peço que examinem as estatísticas anteriores a esta lei e como o consumo de crack universalizou-se após seu advento. É simples. São números de ocorrências ligadas à venda e consumo de drogas no país.
Ninguém mentalmente hígido quer o simples encarceramento de usuários, mas a lei deveria converter em prisão o não cumprimento da ordem judicial emanada da sentença. Se não frequentassem a terapia ou não se submetessem ao tratamento determinado pelo Juiz, iriam para a cadeia". E repito com o juiz: "O tráfico de drogas saiu do controle do Estado"


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Por Manoel Hygino - 13/5/2011 11:11:59
Fatos e sonhos

Manoel Hygino dos Santos (Hoje em Dia)

Dia 25/4, 13h30: clínica médica na Rua Gregório Veloso foi atacada por assaltante. Duas funcionárias foram rendidas por indivíduo que lhes apontou um revólver de prata; mesmo dia, 21 horas, dois homens dispararam tiros contra um rapaz de 20 anos. Ele se encontrava assentado defronte estabelecimento comercial; dia 26, 18h30, dois homens, numa moto executaram um homem de 25 anos na porta de sua casa, na Rua Nossa Senhora da Vitória; mesmo dia, 15 horas: assaltantes de Montes Claros, invadiram casa lotérica e a roubaram em Capitão Enéas, a 68 quilômetros, fugindo em um carro. No dia 27, um cidadão de 23 anos foi baleado no Bairro Morrinhos, na Rua Dr. Tupiniquim, quando transitava de bicicleta, sendo atingido a tiros por motociclista e passageiro. Ainda não findaram o quarto mês do ano e já somavam 32 os assassinatos em Montes Claros, confirmando que a insegurança se tornara o problema mais agudo da cidade. Quem iria resolvê-lo? Como? Quando? São perguntas que o homem de bem e as famílias fazem e para as quais não há resposta. Outra indagação: Até quando? Eis a rotina tenebrosa de todos os dias. No dia 29, com que encerro esse balanço de sombra e medo, um empresário foi morto na cidade a tiros, quando - acompanhado da genitora - levava dinheiro para depositar em banco. Quatro pessoas foram presas, mas a vítima sequer mais se ergueu. O que se registra na maior cidade do Norte de Minas, a de economia mais forte e sólida, não passa do retrato de uma sociedade em crise, por saber que os meios de conter a criminalidade não têm produzido os resultados necessários. Faz-se uma nova campanha de desarmamento, mas os criminosos gozam de melhores condições para adquirir os instrumentos mortais, enquanto o cidadão permanece em penosa prisão domiciliar, sem sequer sair para seus afazeres, ou temeroso de fazê-lo, por correr risco ao transpor as portas do lar. Mas quem tem sossego também nas vias públicas? O que inicialmente se disse é apenas um ínfimo retrato de uma nação que tem medo e que, talvez, se aproveita do Carnaval e outras festas e eventos para esquecer os dias e noites de dolorosa expectativa. Não se trata de fatos como a chacina na Escola Tasso da Silveira, no Realengo, Rio de Janeiro, cuja divulgação adequada preocupa os homens de Imprensa, como demonstrou, há dias, competente jornalista Oswaldo Antunes. Nem simples casos de homicídios por postos de venda de drogas, como sói acontecer presentemente, de norte a sul, do oeste a leste, do país. Grande parte dos casos que ora ocorrem são crimes sórdidos, planejados e articulados por assassinos frios, ponderável número dos quais não liberados por vencidos prazos de pena ou beneficiados pela legislação; pelos que escapam às grades por toda série de artifícios e meios ilícitos e aqueles outros cujo sistema penitenciárioonde retê-los. Eis uma hora de indisfarçada inquietação; pelo que é o presente e pelo que pode ser o futuro.


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Por Manoel Hygino - 6/5/2011 10:17:18
Aconteceu em abril

Manoel Hygino dos Santos (Jornal Hoje em Dia)

Daqui dezenas de anos, ainda a chacina de Realengo será tristemente lembrada. As pessoas que passarem pelas imediações apontarão a escola que tem o nome de um escritor hoje pouco conhecido e dirão: "Ali aconteceu em abril de 2011". Quem poderia ou deveria ser responsabilizado pelo massacre? O esquizofrênico que disparou 62 vezes contra crianças indefesas? Os pais de criação, que não souberam ou não puderam oferecer-lhe tratamento adequado? A ciência que ainda não descobriu meios terapêuticos de evitar essas tragédias? As autoridades policiais que permitiram que as armas fosse parar nas mãos do homicida? Da direção da escola que não tinha suficiente número de funcionários para impedir o ingresso de um quase desconhecido em suas dependências? Dos que possibilitaram que aparelhos modernos lhe chegassem às mãos e lhe criassem a fantasia macabra que esse doente mental usou num ritual inusitado no Brasil? Deverá a sociedade ser incriminada pelo assassinato coletivo? Ou ninguém pode ser acusado pela urdidura do projeto maligno e sua consumação? O tempo fluirá sem que se alcance conclusão aparentemente clara, sensata, irretorquível. Não resta dúvida de que o morticínio foi premeditado, laborado por cérebro doentio de alguém com inteligência e conhecimento pleno dos fatos, personagens e locais em que agiria. Nossos loucos estão soltos e prisão não resolve seus problemas. Da confusão mental em que vivia o homicida do Rio, pode-se extrair prova contundente com algumas de suas considerações, encontradas após a chacina. Por exemplo: "A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram e eu morrerei não é exclusividade pelo que é conhecido como bullying. A nossa luta é contra pessoas cruéis, covardes, que se aproveitam da bondade, da inocência e da fraqueza de pessoas incapazes de se defenderem". O atentado não foi exatamente contra os cruéis, porque atingiu meninos da Escola do bairro carioca, desde então estigmatizado pelo crime hediondo. Por ele ninguém será punido, talvez os fornecedores de armas assassinas, vendidas regulamente no comércio de norte a sul do país. O Brasil se vai tornando uma nação desalmada e armada, sem o que não haveria esse turbilhão incessante de mortes por múltiplas razões, ou sem razão alguma. Uma das editorias mais trabalhosas na imprensa é a de polícia, que recebe dezenas de relatos e denúncias de crimes, a cada dia. Longe da Cidade Maravilhosa, estudante de uma escola em Francisco Dumont, no norte de Minas, viveram momentos de terror no dia 13 de abril, quando um aluno entrou armado com revólver e um facão na sala de aula, após discutir com a professora. Isso na pacata e modesta cidade de hoje, que foi distrito de Bocaiuva e já se chamou Conceição do Barreiro, terra natal de minha mãe. Na minha cidade de nascimento, são quase 30 o número de assassinatos este ano. E a tudo assistimos sem nada fazer, a não ser o registro como ora fiz e termino.


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Por Manoel Hygino - 1/4/2011 09:38:45
Manoel Hygino dos Santos

Konsta: in memoriam

Com o falecimento de Konstantin Christoff em 21 de março último, no lugar em que seus pais, procedentes da Bulgária, elegeram para viver e laborar, desaparece uma importante fase na história da maior cidade norte-mineira. Darcy Ribeiro, seu companheiro de tertúlias, comentava que o casal trasladado, com seu passado e seus costumes, ao sertão, ensinou os moradores da terra prometida a comer tomates e verduras. É verdade. Aquelas nossas gentes, bem identificadas com personagens de Guimarães Rosa, eram viciados a comer carne, de boi, de porco, galinha aos domingos ou na recepção a visitas. Ocasionalmente, de caça apanhada nos matos, principalmente veado, anta, paca ou tatu, pego pelo rabo, ou peixe pescado no Rio Verde. O casal contribuiu para mudar hábitos, até porque, graças aos conhecimentos que trouxeram da Europa, fizeram que os tomates ganhassem tamanho miraculoso, não mais aquelas frutinhas do tamanho de uma uva. Eram dois irmãos: Raio, que se diplomou em química industrial na Faculdade em Belo Horizonte: depois, Konstantin, que se sentiu atraído à Medicina, e muito bem se deu, para satisfação pessoal e saúde e vida da pacata população do interior. Pormenor: ambos eram exímios no traço, excelentes desenhistas. Raio nasceu em 3 de março; Konstantin se foi em 21 de março, bem próximo ao mês dos Idos, que culminaram com o assassinato de César no Senado, 44 anos antes de Cristo Jesus. Um acidente roubou a vida do engenheiro, enquanto o médico lutava pela existência saudável do sertanejo. Ambos se sentiram fascinados pela terra escolhida por Cristo, pai e D. Rosa. Formados, voltaram ao interior, aprestados para a profissão, muita disposição de luta, tenacidade, certeza de estarem no lugar certo. Lá pelo ano 2006, o médico e notável artista plástico, o grande pintor, escultor, fotógrafo, sofreu um AVC, que lhe dificultou a fala. Depois, em outra fase, internado na Santa Casa, perdeu o filho, arquiteto nomeado, já sofrido com o Mal de Parkinson, morto subitamente, na porta do hospital, a que fora visitar o pai. Celebrado nas artes, inclusive na de Hipócrates, com sua barba de profeta como o pai, Konstantin era um homem simples, um sertanejo nascido em distante região da Europa. Não fazia pose de bom; era bom. Servia a Deus, mesmo quando dizia não o conhecê-lo, supostamente agnóstico como Darcy Ribeiro, de que se tornou parente com o casamento com Yede, a companheira admirável que soube estar a seu lado na desdita da doença ou na glória de exposições internacionais. Propala-se que toda unanimidade é burra ou tola. Nada tão falso. Os eflúvios de sentimento pelo desaparecimento de Konstantin uniu todas as cores, escolas de arte, inclinações religiosas, representações de agremiações políticas. Afinal, ele estava acima. Desde que ilustrou meu pequeno livro, juvenil, posso dizer, conquistou a crítica, não porque desejasse conquistas, mas porque foi um artista notável, um cidadão que honra o Brasil em que se radicou.


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Por Manoel Hygino - 22/3/2011 07:41:57
Manoel Hygino dos Santos

No fundo da Terra

O terremoto no Japão e seguinte tsunami foram precedidos de um tremor de terra na primeira semana de março, em Montes Claros. Claro que não se há de temer que assumam proporções gigantescas as ocorrências na maior cidade do norte de Minas.
Enquanto na terra de Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, o abalo sísmico se situou em 3,2 graus na Escala Richter, no Japão o nível se aproximou de 10, o que dá ideia da diferença. Mas, em todo caso, há de se atentar para o fato, pois o tremor de março foi o sexto e o maior abalo na cidade, nos últimos quinze meses. Felizmente, por cá não houve vítimas, nem danos materiais a registrar. No entanto, a população por precaução saiu às ruas, principalmente com o estrondo anunciador que partiu das entranhas da terra. Nestas horas, muitos são os sentimentos e posições. O chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, Lucas Vieira Barros, é de opinião que exista uma fenda geológica, ou seja, uma "fonte sismogênica". Embora sejam microtremores, eles se repetem e nada mais conveniente do que estudá-los, o que evidentemente permitirá um quadro mais completo do que ocorre. O mapeamento os abalos determinará as dimensões físicas da falha geológica: "A partir do momento em que for conhecida a extensão da falha, será possível levantar a magnitude máxima de outros tremores que poderão ocorrer na cidade e recomendar as medidas preventivas".O que se teve, após a tragédia no Japão, não a primeira, foi a sensação de impotência do homem diante dos terremotos. É uma ciência pouco avançada, até porque as pesquisas são difíceis e não se pode penetrar na crosta terrestre para, bem no fundo e sistematicamente, estudar os fenômenos e chegar-se a conclusões. Há de se ater, ademais, ao que disse Vieira Barros: "Infelizmente, mesmo que fossem previsíveis, os tremores seriam inevitáveis." Cá no Brasil, no Caribe, na Turquia, Grécia ou no Japão, somos passageiros de acontecimentos ainda misteriosos. Antigamente se comentava comumente os abalos na região de Bom Sucesso, cidade berço da família Guimarães e dos Castanheiras. O assunto servia de brincadeira entre as pessoas, mas hoje elas já percebem que o problema tem de ser levado a sério, porque - principalmente no Norte de Minas - abalos se repetem, e com frequência, como se registrou em Itacarambi. Agora, divulgaram-se recomendações de como as pessoas se devem comportar em tais situações, ao invés de entrar em pânico. Oração não faz mal, mas pânico, sim. Os futuros edifícios poderão dispor de estruturas mais sólidas, pelo menos para dar mais sensação de segurança. A instalação de um sismógrafo nas proximidades também não faz mal. Quanto ao ruído que veio do fundo da Terra, não inquieta tanto. Afinal, os exagerados sons dos veículos nas vias públicas, com ou sem carnaval, já dão consciência de quanto a população é capaz de suportar.


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Por Manoel Hygino - 12/3/2011 11:53:49
Manoel Hygino dos Santos

Prisão em Ouro Preto

Há três anos, o jornalista Paulo Narciso, em documento pessoal, me dizia que "a cultura oficial quer de nós o silêncio, que este não incomoda ao poder". É assim, mas insistimos contrapor-nos ao que incomoda, dói e ofende. Recordo, por oportuno, os 40 anos de um episódio que marcou 1971, alcançando repercussão nacional. Naquele remoto e triste período, Judith Malina, teatróloga e militante anarquista, residente em Nova Iorque, esteve presa em Ouro Preto. Narciso, conterrâneo, jovem, movido pelos mais caros ideais de moço e homem de Imprensa, acompanhou os duros dias de Judith e do marido Julien Beck. Escreveu, então: "O ai que vazasse das prisões, e vazava apesar da repressão e da censura, o ai podia ser resgatado e multiplicado como tambores dispersos de uma floresta. O gemido passava pela porta dos cárceres, e vinha dos subterrâneos e dos porões, e era recolhido, e era ouvido; e uma rede de compaixão se estendia acima das ideologias." Era o `Living Theatre`, toda a troupe internacional reconhecida como o teatro de vanguarda mais importante do planeta. Por que a atitude estapafúrdia e infeliz? O jornalista anotou: "Vagas acusações. Eram cabeludos e mal cheirosos; não gostavam de banhos. Seriam depravados, usariam drogas, mas nenhuma foi encontrada com eles; jovens artistas de variadas nacionalidades que, depois de soltos, nos anos seguintes, ascenderiam ao topo da carreira em seus países de origem. Presos e soltos em questão de horas, e novamente trancafiados". Por quê? Na realidade, nada havia que justificasse a detenção. Enfim, "descobriu-se" uma vistosa seta de tinta branca recente, no piso da casa, que foi cavacada pela polícia. Maconha. A notícia ganhou o mundo. O grupo mal cheiroso, dado às drogas, e que tinha o costume de ler os clássicos da poesia grega e compêndios de política, estavam confinados detrás das grades. Judith mantinha atualizado o seu diário. Mas o tom é sereno, meigo, poético. "Gentil até com os carcereiros, com os acusadores". Para o jornalista, "falou nela o sentimento que chamamos de cristão, mas Judith, nascida na Alemanha, era judia. O conteúdo é do humanismo de filosofia anarquista que fez do `Living Theatre` o grupo teatral de vanguarda mais importante do mundo, mesmo após a morte de seu fundador, Julien Beck, em 1985". O repórter descreve: O fato "tem o poder de despertar a recordação de uma mulher pequenina, afável, e de seu marido Julien, amoroso casal, e da filha de 4 anos, que se despediu dos pais com um aceno entre grades", levada pela avó para os Estados Unidos. Judith, em seu diário, registrou: "Em procissão, viajamos por entre as magníficas montanhas. Espantados, depois de um mês de cadeia, pela amplidão do céu, pela magnificência da terra de Deus, da qual a mão do homem nos isola, Julien e eu trazíamos trabalho (os livros), mas o que podíamos fazer era apenas fitar sonhadoramente". Em pleno Festival de Inverno, pressionado pela mídia internacional e intelectuais, o governo militar expulsou Beck e Malina.


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Por Manoel Hygino - 19/2/2011 11:15:44
O menino da anilina

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Amigo e confrade na Academia Mineira de Letras, de laços com amigos vivos ou já na pátria das almas, Danilo Gomes, jornalista, poeta e prosador, bom de escrita e coração, não esquece, nem deixa o tempo esquecer.. No finalzinho de janeiro, para prová-lo, enviou-me exemplar do "Correio Braziliense", do dia 27. Anunciou, em carta de próprio punho:
"Vai aí página inteirinha sobre seu ilustre conterrâneo Darcy Ribeiro. Com direito a chamada de capa. Viva Moc!" Na capa do Diversão e Arte, o repórter Severino Francisco informa da publicação Já liberada, de coleção de dez volumes de bolso, sobre Darcy, pela Editora UnB, Fundação Darcy Ribeiro e Ministério da Cultura. O lançamento se deu naquela data no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília.
Na seleta, o polêmico brasileiro conta seu princípio: "Montes Claros, que nós, os de lá, gostamos de chamar carinhosamente de Moc, fica no norte de Minas. Por muito tempo esteve mais ligada à Bahia, daí que minha gente fale com sotaque baiano, dizendo "dezoitxo".
O repórter, porém, entra fundo no tema. Relata que, quando criança, Darcy ouviu um farmacêutico dizer que a anilina podia pintar de azul o Oceano Atlântico. O fedelho ficou com a imaginação eriçada. Furtou um pacote de anilina, convocou um amigo e resolveram jogar o produto num reservatório de água que abastecia a cidade. E quedaram ambos, na ansiosa expectativa.
No dia seguinte, quando as donas de casa abriram as torneiras de suas casas, ficaram apavoradas com a água azul que jorrava, passando a orar a Deus para que esconjurasse o suposto sinal do Apocalipse. O menino virou rapaz, amadureceu, mas continuou fazendo surpresas com ideias e traquinagens intelectuais.
Darcy viveu com os kadiueu no Oeste brasileiro. Quando me enviou um livro sobre a tribo que perdia a identidade nos sertões do Oeste, comecei a interessar-me pelo conterrâneo que não temia as consequências de seus malfeitos infantis, nem de conviver com uma gente que se destruía. Anos após, escreveu: "Aos poucos, com a acumulação das experiências e vivências, os índios me foram desasnando, fazendo-me ver que eram gente(...). Gente mais capaz que nós de compor existências livres e solidárias".
Darcy Ribeiro viveu em torno de dez anos com os habitantes da terra que Cabral inventou. Eles já estavam aqui e o menino da anilina soube entender e sentir os irmãos mais velhos do território de Vera Cruz. O homem Darcy não era de fingimentos, a não ser fazendo de conta que não estava tão mal de saúde e fugindo do hospital em que se achava internado. Foi um cidadão que nunca admitiu estar ou ser preso.
Ousado, venceu as miudezas da política, propôs soluções, implantou universidades, andou dando aulas e recebendo homenagens aqui, ali e acolá, sem ser jactancioso.
E confessou: "Enfrentei a vida com coragem, inocência e gozo. Sabendo sempre que o inevitável é o melhor, encarei os infortúnios como pontes para o desconhecido..."


65301
Por Manoel Hygino - 5/1/2011 22:00:28
O cidadão Hermes

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Afortunada a cidade ou município que tem cidadãos cuja vida é exemplo. Eis o significado e o conteúdo de "Hermes de Paula-Passado e Presente", livro organizado e escrito por Amelina Chaves e lançado pela Editora Saramandaia. Com homens da capacidade intelectual e de trabalho, com a visão de futuro, com o desprendimento, como o focalizado na obra mencionada, se vai construindo, com muito esforço e até com sacrifício, o Brasil que desejamos legar às gerações por vir.
Nascido em família do interior muito esquecido norte-mineiro, Hermes Augusto de Paula se formou em medicina no Estado do Rio de Janeiro, participou de experiências pioneiras de Vital Brasil, mas na hora de decidir o que fazer, diploma à mão, preferiu voltar às raízes. Sabia que a terra natal precisava dele e, deixando possivelmente prestígio maior, foi cuidar dos doentes da região de Montes Claros.
Não se restringindo ao rico campo das ciências médicas, Hermes de Paula se consagrou como cidadão integrado à sociedade, a que serviu durante toda a existência.
Devotou-se também à arte, inspirou a formação de um grupo de serestas, foi um dos entusiastas da Academia Montes-clarense de Letras, exerceu o magistério na Escola Estadual Professor Plínio Ribeiro e na Faculdade de Medicina, que ajudou a implantar.
Com a idade, tornou-se um dos principais pontos de referência sobre a região, que pesquisou incansavelmente, de modo a permitir-lhe a elaboração de uma história da cidade, sua gente e seus costumes, obra monumental editada pelo IBGE.
Ler o livro de Amelina Chaves, fruto da pertinácia e do bom gosto, constitui uma volta a tempos vividos, mas indestrutíveis. Os que colaboraram na produção do volume souberam expressar seu pensamento, seu sentimento e sua admiração para um ser humano digno de respeito e de carinho, como bem o demonstraram.
Aos que permanecem na cidade natal ou aos que partiram, como eu, resta uma profunda saudade, de que só a memória guarda e livros como este evocam. Virginia Abreu de Paula, filha de Hermes, ocupa páginas para recordar os tempos de criança e adolescência, as colegas de estudo, de brincadeiras, a pureza e a beleza da convivência em ruas que á foram pacatas e hospitaleiras.
Assim, o livro que foi lançado em dezembro é bem mais do que a biografia de uma pessoa singular na vida de burgo a que se devotou durante décadas. É o preito de companheiros de iniciativas de seus conterrâneos, dos que se serviram de seu ofício médico, mas também dos que dividiram com ele os melhores períodos de uma existência dedicada a interesses superiores.
Numa extensa entrevista a jornal local, uma retrospectiva afetiva, vívida de uma cidade em busca de melhores tempos, de seus políticos, das suas diversidades, das disputas entre os partidos de Baixo e de Cima, que resultaram algumas vezes em enfrentamentos sangrentos.
De todo modo, um registro fiel e necessário.


64535
Por Manoel Hygino - 9/12/2010 10:44:51
Manoel Hygino dos Santos - Jornal Hoje em Dia

Uma chama acesa

Não confundamos as coisas. Catibrum é o Teatro de Bonecos, que apresentou em Belo Horizonte o espetáculo "Dom João e a Invenção do Brasil", fundamentado no livro "D. João Carioca", do cartunista João Spacca e da antropóloga Lília Moritz Schwarcz, contando o episódio da transferência da corte portuguesa, em 1808, para o Brasil. Aliás, a data sugeriu o título do livro, muito bom, por sinal, de Laurentino Gomes, retratando o mesmo fato.
E Catibum, sem o `r` na última sílaba, é nome dos Cadernos de Cultura, editado pela Prefeitura de Montes Claros, através da Secretaria de Cultura. Seus editores são Georgino Junior, Luiz Carlos Novaes, Roberto Marques e Ildeu Braúna, com projeto gráfico, diagramação e arte do penúltimo relacionado e Wandaick Santos. Colaboradores de alto nível: Haroldo Lívio, Benedito Said, Felicidade Tupinambá, Yvonne Silveira, Lipa Xavier, professor Osmar Pereira Oliva, Augusto José Vieira Filho, Reginauro Silva, Anelito de Oliveira, Eduardo Lima, Silvana Mameluque, Aurélio Fabiano Lopes, Waldyr Senna Batista, Dário Teixeira Cotrim e Sérgio Mourão.
No âmago da pauta, uma entrevista de Cândido Canela, o maior poeta sertanejo de Minas, um Catulo da Paixão Cearense (o Catulo era pernambucano e morreu no Rio de Janeiro), que passou a vida em sua terra natal, por não saber sobreviver em outro lugar. Nas declarações ao escritor Haroldo Lívio, Cândido lembra quando foi designado pelo juiz de Direito, Dr. Bessone, defensor dativo de um criminoso de Bela Vista, hoje Mirabela. O jovem defensor tinha 20 anos e aceitou a causa.
O rapazelho leu obras de Direito, examinou o processo e subiu à tribuna, o juiz torcendo por ele. Naquela época, usavam-se bolas, brancas e pretas, para decidir se o réu era inocente ou culpado. Cândido conta:
E os jurados "tacaram" 30 anos no homem. Aí, foi o caso de eu ficar com a fama ruim de advogado criminal. Foram 30 anos! Então disseram que o homem, o assassino, me chamou e falou: "Agora, o senhor tem de partir a pena comigo; eu fico com 15 e o senhor com 15! Eu nunca esqueci isso!"
É bom explicar. Antes de se tornar a revista de hoje, o Catibum foi um movimento artístico-literário de jovens dos anos 70, que gerou letras e músicas; ou "anárquico-lírico", que pretendia contestar, como escreve Eduardo Lima.
Luiz Carlos Novaes registra que o Brasil anterior "atravessava anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo". "Conhecíamos, do Oiapoque ao Chuí, e alegria e a tristeza, o arbítrio, a censura, a tortura, lutando contra a ditadura e exigindo ares de liberdade."
Os tempos são outros: "As pedras que atiramos naquela época continuam a agitar, em círculos cada vez mais ampliados e distantes, as mentes e os corações de muitos dos jovens artistas".
O pretérito não estagnou ou morreu lá atrás, resgata-se, com louvor e qualidade, nos textos de agora, retrato de um burgo e de um povo sempre em busca de novas realizações e de afirmação.


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Por Manoel Hygino - 7/12/2010 09:22:34
Três estrelas

Manoel Hygino dos Santos

É alegria e orgulho para um burgo como o no qual nasci comemorar no mesmo ano fatos - vamos dizer, gloriosos - de sua existência. Bairrismo à parte, porque não é o caso, Montes Claros festejou e ainda festeja o centenário de Hermes de Paula, de Cândido Canela e João Chaves, este pelo centênio de sua centenária modinha "Amo-te muito".
A cidade se honra em ser uma das poucas do interior brasileiro com dois dos seus escritores guindados à Academia Brasileira de Letras: Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro. Agora acrescenta a seus mais nobres registros os de 2010, que percorreram todo o ano lembrados, como o centenário do "Amo-te muito", do poeta João Chaves, modinha que é uma espécie de hino nacional no gênero, que embalou gerações de namorados.
Não só, Wanderlino Arruda recontou como, no enterro de JK, a música brotou na assistência e calou progressivamente a catedral de Brasília, tomada de forte emoção. O corpo saiu de lá embalado pela composição, concebida quanto o poeta tinha 25 anos, em louvor de Julieta Guimarães, cujo amor pretendia. É um retrato do Brasil, lírico e amoroso, e da saudade.
Em 6 de dezembro, lança-se um livro muito interessante: "Hermes de Paula, Passado e Presente", de Amelina Chaves. Para quem não conhece personagem-título, é bom esclarecer que se trata de médico nascido na cidade, que lá viveu e deu grande incentivo às atividades artísticas, culturais, cívicas, tendo contribuído enormemente para a sensibilização e conscientização dos valores de uma gente privilegiada. É de sua autoria a mais completa obra sobre a história da região.
Finalmente, no dia 25 de novembro, houve homenagem a um dos mais autênticos talentos do norte do Estado em todas as áreas em que atuou: Cândido Canela, serventuário da Justiça, membro da Câmara Municipal, poeta, cidadão do bem, do correto e da justiça. O que produziu no campo das letras é de absoluta espontaneidade, autêntico, como foi em vida. Tivesse nascido em outra região do país, no Nordeste por exemplo, que melhor sabe aproveitar as qualidades dos que lá usam suas virtudes no campo do saber e das artes, seria cultuado nacionalmente. Mas o mineiro, mas introspectivo prefere o casulo, e nisso não há demérito.
A esses três catrumanos o preito de respeito, de admiração e de gratidão, confiando em que as futuras gerações mais lhes reconheçam o alto virtuosismo. Eles foram reais representantes do povo que habita uma região muito relegada pelos poderes públicos, mas jamais fugiram a seus deveres e renunciaram a seus valores.
Houveram por bem a Secretaria Municipal de Cultura, a Academia Montesclarense de Letras, a Associação Amigas da Cultura, o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, a Academia Feminina de Letras e, por extensão, a ACLECIA, render homenagem no finalzinho do ano cidadãos que nos dignificam o ano, como honraram a terra e sua gente enquanto vivos.


63560
Por Manoel Hygino - 10/11/2010 11:29:24
Missão cumprida

Manoel Hygino dos Santos

Aos 62 anos, Fernando Zuba partiu, sepultado no Bonfim, antes que o dia de Finados chegasse. Era o de Todos os Santos, zelosamente cultuado em nossa terra em tempos de profunda religiosidade. Passou o jornalista pela carreira, marcada por suas virtudes como programador visual privilegiado e primoroso texto. Jovem, chegou a Belo Horizonte e, irrequieto e travesso, era o furor das redações, a que ateava o fogo de brincadeiras e peraltices, que não apraziam suas vítimas, mas causavam alegria certa aos demais repórteres. Tão prematuramente, porque o futuro lhe reservaria mais realizações, partiu para a longa viagem, neste 2010, antes até que o Finados alcançasse as folhinhas.
Cumpriu aquilo que seria o objetivo do homem: teve um filho, um único filho; escreveu um livro, um único livro; mas plantou muitas árvores em seu sítio no município de Lagoa Santa, onde se recolhia da refrega cotidiana. Celso Fernando Ferreira Zuba manteve uma extensa guerra contra o diabetes e insuficiência renal crônica, inclemente nos últimos seis meses de vida, quando não mais sequer via e pouco ouvia, submetido a diálise e tratamentos na Santa Casa de BH. A outra guerra foi a que cobriu em 1992, talvez o único mineiro presente, então no arquipélago das Malvinas, nos curtos mas violentos embates entre ingleses e argentinos. Há de se enfatizar que a Guerra das Malvinas foi seguramente um dos conflitos mais controlados à Imprensa de todos os tempos, como avalia Paula Fontenelle em livro. E Zuba estava lá. Então, o Ministério de Defesa do Reino Unido autorizou a participação de um número sobremodo limitado de jornalistas, todos britânicos. A primeira-ministra Margareth Thatcher reconheceu que não queria profissionais estrangeiros. Foram submetidos os ingleses a duras restrições quanto ao que poderia ser veiculado. Nenhuma imagem de TV, e a censura foi imposta. No dia do sepultamento do jornalista mineiro, Thatcher, enferma há dias, mal conseguiu chegar às escadarias de sua residência no elegante bairro londrino de Belgravia para as festividades de seus 85 anos. Durante o conflito, uma emissora tentou usar uma tarja com o vocábulo "censurado" em suas reportagens, mas a proposta foi indeferida por Londres. Exigiu-se que a Imprensa se referisse às tropas com o pronome "nós", o que foi recusado e provocou suspense. Em 14 de junho de 1982, a dama de ferro fechou o certo em torno de notícias. Por nove horas, não se enviaram quaisquer informações para Londres. Margareth queria anunciar a vitória pessoalmente. O objetivo foi alcançado. Thatcher, cujo nível de popularidade estava em 24%, saltou para 60%. Fontenelle observou: a guerra foi curta, popular e bem sucedida. Concluída, Fernando Zuba voltou a BH para escrever sobre aquilo a que assistiu. É um relato fiel aos acontecimentos e à época. Um trabalho de bom repórter, com excelente texto. Um válido testemunho sobre episódio grave na história do século XX a que um jornalista brasileiro compareceu com coragem e se desincumbiu da missão com competência.


62869
Por Manoel Hygino - 21/10/2010 10:31:34
Obras suspensas

Manoel Hygino dos Santos

Nas rodovias brasileiras, um genocídio. Não é versão ou informação de jornalistas, contra a qual ou as quais tanto se rebela o ainda presidente da nação, que deixa o cargo dentro de dois meses e dias. Nisso, segue a linha de "companheiros", que não suportam que a imprensa cumpra o seu papel.
No caso, a comunicação é de um órgão oficial federal: O DNIT. Ele informou que as rodovias federais registraram em 2009 o maior número de mortes nos últimos doze anos. Em média, 20 pessoas morreram por dia no ano passado, somando 7.383 em 2009. A elevação do número de vítimas fatais cresceu incessantemente, com exceção de 1997 quando houve apenas 6.945 óbitos. Apenas.
Um especialista em transportes afirma que o fato tem relação com o crescimento da frota... que foi desacompanhado de investimentos na melhoria das estradas.
No entanto, não há perspectiva de mudanças a curto prazo ou médio. Conforme os jornais publicaram no dia da padroeira do Brasil, o próprio DNIT paralisou investimentos de R$ 1 bilhão em Minas, por suspeitas de irregularidades, pendências judiciais ou necessidade de revisão de orçamentos. Em consequência, 10 editais para melhorar as rodovias foram suspensos ou anulados, contribuindo para a escalada da morta e das mutilações no Estado que tem a maior malha do país. Entre os adiamentos, estão a revitalização do Anel Rodoviário da capital, fundamental para a Copa de 2014, tarefa que ficará transferida no tempo. Além de tantas obras importantes em Minas, como as da famosa Rodovia da Morte.
Será que o anúncio do adiamento não influi nas eleições presidenciais?
Entre outros fatos, Montes Claros, no norte de Minas, vai transformar-se no maior entroncamento rodoviário do país, sendo oportuno contar que já é o segundo, só superado por feira de Santana, na Bahia.
Pelo município passam as BRs 251, 135, 365 e 122, e com obras da segunda, entre Itacarambi-Monvalvânia e pavimentação de Juazeiro-Guanambi-BA, se aumentará o fluxo de veículos na 122. Bom? Altamente perigoso, porque Montes Claros será o líder brasileiro em interligação de estradas federais.
Este o fato, mas as consequências precisam também ser avaliadas. Uma série de providências está sendo proposta para evitar que se eleve ainda mais o número de acidentes fatais por esses trechos rodoviários, que exigem melhorias, entre as quais terceiras pistas e duplicação do trecho da Serra de Francisco Sá, para possibilitar o escoamento de tráfego de caminhões pesados, já que dez mil dessas viaturas por ali passam a cada dia.
Com a notícia dada pelo DNIT, houve um banho de água fria na esperança e os horizontes se tornam mais sombrios. Não haveria necessidade de mais promessas para o eleitorado. A execução de programas já definidos seria suficiente para inculcar mais confiança nos cidadãos.


62560
Por Manoel Hygino - 9/10/2010 10:28:09
Ruído de advertência

Manoel Hygino dos Santos - Jornal Hoje em Dia

Um círculo em torno do sol, em torna de 11h30 do dia 24 último, uma sexta-feira, sol quente em Montes Claros, foi visto pela população que ousava olhar para o alto. Os entendidos explicaram que não passam de fenômenos ópticos provocados pela refração da luz, uma espécie do que se vê nas noites de nevoeiro, cercando as lâmpadas nas ruas.
Cinco dias depois, a terra tremeu ali, quando o sol estava escaldante como nos dias precedentes. O site da Universidade de Brasília estava sobrecarregado devido ao elevado número de acessos. As pessoas temiam que algo fora de propósito acontecesse. O montesclaros.com esclareceu que dois tremores de terra tinham sido registrados às 13h05 e 14h35, com, respectivamente, 2.7 e 2.3 na escala Richter.
Até aquele instante, não se pensava que na cidade que marcou o surgimento do movimento revolucionário de 1930 em Minas Gerais, outros abalos pudessem ocorrer, mesmo por força da natureza. Coincidentemente o epicentro foi no centro da cidade, como 80 anos antes.
Novas informações do boletim sísmico seguinte com notícias tranquilizadoras: não haveria um Haiti no sertão mineiro em plena Primavera. Ainda bem!
De qualquer modo, o norte-mineiro assistia a tudo com desconfiança. Em tempos idos, a terra costumava tremer no Oeste do Estado, pros lados das cidades natais de Magalhães Pinto e Hélio Garcia. Em Bom Sucesso, berço dos Guimarães e dos Castanheiras, cidade do cirurgião Fábio Pimentel Martins, que me extirpou a vesícula recentemente, esses abalos eram folclóricos, como os bondes que, por décadas, percorreram suas ruas.
O fato se prestou a que eu tomasse conhecimento de que, há 50 anos, esse fenômeno se registra, sem consequências danosas à minha cidade e região.
São meras acomodações da crosta terrestre, que contudo intimidam as beatas e os que se inquietam com o fim do mundo.
O site do jornalista Paulo Narciso estava em posição escoteira: sempre alerta, enquanto populares saíam as ruas, principalmente os que moram em casas mais humildes e toscas. E, ainda, os que residem ou têm escritórios nos edifícios. A recomendação era para que todos mantivessem a calma, conselho sempre oferecido nas horas de incerteza e dor. Alguns segundos de oscilação na crosta e um único surdo ruído como um trovão, sem que houvesse qualquer sinal de chuva, fizeram com que se retirassem os terços e rosários das gavetas, porque é na hora das ameaças e das dores que mais se pensa e se apela a Deus.
Os mais fanatizados pela política insinuavam que o grande ruído no útero da terra e seus consequentes abalos eram uma séria advertência para que os cidadãos se compenetrassem da obrigação de votar com consequência no pleito que se avizinhava. Enfim, 3 de outubro estava chegando. O verdadeiro julgamento, porém, só poderia dar-se quatro anos após, na medição dos serviços prestados pelos candidatos eleitos. É da democracia.


60629
Por Manoel Hygino - 17/8/2010 13:51:58
Lassance, Itacambira
Um retrato de costumes, paisagens e culturas que revelam uma Minas Gerais bem distante dos cartões-postais e roteiros de viagem. Assim Clarissa Carvalhaes definiu as regiões e as cidades de Lassance e Itacambira, no Norte de Minas, na metade de 2010, quando ali esteve acompanhando professores e estudantes da Universidade Castelo Branco, do Rio de Janeiro, em programa do Projeto Senar Rondon.
São dois municípios representativos do estágio de desenvolvimento de numerosos lugares de Minas Gerais e do Brasil neste século. As belezas naturais da região são imensas, de deixar marcados nossos corações.
Com as belezas da natureza, a simplicidade, a operosidade de uma gente que arranca da terra a sobrevivência e para fazer sobreviverem os animais que a ajudam na alimentação: os bois e vacas, as galinhas e outros que, desprevenidos, possam ser apreciados no almoço de domingo, como algum tatu, as pacas que rareiam.
A estrada de acesso a Itacambira, evidentemente em terra e de branca areia depois do Juramento, no alto da serra, permite vislumbrar um dos mais belos panoramas das Minas Gerais, por onde passaram Fernão Dias e seus homens.
Lassance é caminho, ou era, da Estrada de Ferro Central do Brasil, percorrida por milhões de brasileiros durante os longos anos em que a ferrovia os serviu, diminuindo distâncias entre os mundos interiorano e o metropolitano.
Nas ruas, porcos e galinhas fazem a festa de todos os dias, buscando alimentos no que sobrou dos almoços humanos, fuçando ou bicando aqui e ali, em substituição ou complemento ao milho. Nem se lembrarão as pessoas, com outras preocupações e horizontes, que há cem anos um médico nascido em Oliveira por lá andou e descobriu algo que a ciência desconhecia e surpreendeu o mundo. O Mal de Chagas começou a ser desvendado ali e, a partir de então, inventaram-se meios de combatê-lo, de evitar sua proliferação e muitas mortes.
Sempre que se estudar a Doença de Chagas, a vida do grande cientista que foi colaborador e dileto amigo de Oswaldo Cruz, se lembrará alguém da exígua Lassance, da estaçãozinha da Central, palco dos estudos de um brasileiro interessado no bem dos seus conterrâneos.
É mais, muito mais do que passagem dos trens da Central, uma pobre cidade rica em história, com habitações humílimas, de pessoas que, de tão tímidas, temiam os homens que desconheciam e desciam das composições, sonho de sucessivas gerações de mineiros e que um brasileiro decidiu conduzir pelos trilhos até muito longe. O cidadão se chamava Francisco Sá.
Em Lassance, há as doenças que vêm do passado, resultantes das mínimas condições de assistência à pequena população de 6 mil habitantes. E dos cães que abundam na área urbana, constituindo um risco constante de leishmaniose, enquanto permanece elevado o consumo de álcool por aqueles que nada têm a fazer, mas já surgindo o espectro cruel do crack, que não perdoa sequer tão dignos recantos de gente honesta.
Itacambira é outra síntese do Brasil, que não consta dos mapas e das preocupações dos poderes públicos. A última viagem que à cidadezinha, encravada entre montanhas, fez o poeta Cândido Canela (que se torna centenário neste agosto), foi comigo, há muitos anos, simplesmente para que eu conhecesse a cidade.
De lá, o engenheiro-pesquisador da História, Simeão Ribeiro Pires, levara múmias, removidas do porão da igreja matriz, que ele conservou em sua casa-museu, como relíquia de uma época sobre a qual ainda pairam grandes mistérios.
Nas imediações, não identificada, à suficiência, haveria a Serra Resplandescente, que excitou a imaginação dos Bandeirantes e de outros aventureiros em busca de riquezas, sobretudo as esmeraldas que foram o sonho e o pesadelo de Fernão Dias Pais.
A paixão científica de Simeão Ribeiro Pires e de Carlos Chagas não conseguiu sensibilizar os homens de governo. Os municípios de Lassance e Itacambira continuam cenários de carências. A esperança está fenecendo.




Selecione o Cronista abaixo:
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Dário Cotrim
Davidson Caldeira
Efemérides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lívio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaias Caldeira
João Carlos Sobreira
Jorge Silveira
José Ponciano Neto
José Prates
Luiz de Paula
Luiz Ortiga
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Ribeiro Pires
Mário Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elísio
Ruth Tupinambá
Ruth Tupinambá Graça
Saulo
Ucho Ribeiro
Virginia de Paula
Waldyr Senna
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira
 



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16/04/14 - 7h
Tribunal de Contas aponta superfaturamento de 67 milhões de reais no Maracanã de 1,2 bilhão


15/04/14 - 18h
Borra de café, normalmente jogada fora, é ótimo isolante do calor. Cientistas aprovam seu uso na construção civil e desenvolvem tijolo

15/04/14 - 17h
Site manda repórter ao Brasil e ele confirma: os preços dos produtos da Apple são “inacreditáveis”, os mais caros do mundo

15/04/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “Sob pressão do PT, deputado afirma que vai renunciar” – “Polícia Federal indiciará 28, e Vargas vai renunciar a mandato” - “Dilma endurece, e ação da Petrobras despenca”

15/04/14 - 15h
60% de chance de chover 2mm, hoje e sábado, em Montes Claros. É toda a esperança da meteorologia para a Semana Santa

15/04/14 - 18h05
No fim da tarde, jornais de BH noticiam que goleiro Bruno, já com parecer favorável à sua transferência para M. Claros, identificou presidiário com quem vai permutar a vaga

15/04/14 - 14h
Governo prevê salário mínimo de 780 reais em 2015, no último reajuste pela lei atual

15/04/14 - 13h
Tremor de terra, de 1,8 graus, em Martinho Campos - a 151 km de BH e a 323 de M. Claros

15/04/14 - 12h
Pirapora é o exemplo - falta de chuva faz com que vazão nos reservatórios seja a 3ª pior da história

15/04/14 - 11h
Agência de risco agora rebaixa nota de 9 bancos brasileiros

15/04/14 - 10h
Felipão admite surpresas na lista final da seleção e dá esperanças a Miranda e Coutinho

15/04/14 - 9h
Importação brasileira é a 2ª que mais cresce no mundo, segundo a Organização Mundial do Comércio

15/04/14 - 8h
Por causa das eleições de outubro, Educação transfere Enem para os dias 8 e 9 de novembro

15/04/14 - 7h
Fiat, GM e Mercedes dão férias coletivas em Minas e São Paulo


14/04/14 - 18h
Eclipse desta madrugada inaugura a tétrade da Lua - quatro eclipses totais em 2 anos, até setembro de 2015

14/04/14 - 17h
Vírus da Aids já infecta mais heterossexuais adultos no Brasil. Mulheres em sua maioria

14/04/14 - 16h
Toque de recolher para menores é adotado em cidades do Sul de Minas e Mato Grosso

14/04/14 - 15h
Pesquisa mostra que faturamento da publicidade na internet passa o de TV nos EUA pela 1ª vez

14/04/14 - 14h14
Antes que o dia surja amanhã, a Lua Sangrenta vai flutuar nos céus por 78 minutos. Vale a pena acordar, para ver

14/04/14 - 14h
Meteorologia vai confirmando que a Semana Santa em M.Claros será sem chuvas

14/04/14 - 13h
Técnico do Atlético enaltece espírito, mas diz que ataque precisa melhorar

14/04/14 - 12h
A 60 dias da Copa, mais influente jornal do mundo “alerta para falhas em infraestrutura no Brasil

14/04/14 - 11h
Ladrões atacam posto de gasolina a poucos metros do prédio da prefeitura, domingo à tarde

14/04/14 - 10h
Manchetes dos jornais: “Pequenos trechos concentram 21% das mortes nas estradas” - “Ministério Público acusa responsáveis por perdas da Petrobras”

14/04/14 - 9h55
Tentativa de execução - partida de moto contra pai e filho, de bicicleta. O "filho encolheu-se, no intuito de se proteger"

14/04/14 - 9h50
Escritor Manoel Hygino: "Temos de convir com o juiz Isaías Caldeira quando diz que as leis penais já não feitas sob o influxo inteligente dos juristas, mas impostas pela força e barulho de militantes políticos, com óbvias exceções"

14/04/14 - 9h
Neymar é vítima de racismo em derrota do Barcelona no Campeonato Espanhol

14/04/14 - 8h
Brasileiros pagarão meio trilhão de reais em impostos, 2 dias antes que em 2013 – números do Impostômetro

14/04/14 - 7h
Presidente do Cruzeiro campeão não vê necessidade de contratações para as próximas disputas


13/04/14 - 11h31
"Vi aqui neste mural alguns relatos de pessoas espantadas com objetos voadores iluminados sobrevoando em algumas regiões da cidade. (...) Eles podem fazer movimentos horizontais e verticais. (...) Este nosso lazer não tem nenhuma relação com os tremores de terra, é bom que se diga!"


12/04/14 - 18h
Mãe biológica quer a guarda dos filhos de Michael Jackson

12/04/14 - 17h
Cruzeiro e Atlético amanhã terá transmissão da 98 FM a partir das 15 horas

12/04/14 - 16h
Eclipse lunar total poderá ser visto também de M. Claros, às 2 horas da madrugada desta Terça-feira Santa

12/04/14 - 15h
Semana Santa em Montes Claros vai ser de muito sol e quase nenhuma chance de chuva. É a previsão

12/04/14 - 14h
Brasil tem taxa de homicídio 4 vezes maior do que a média global, revela a ONU

12/04/14 - 13h38
"... é mais correto chamar de terremotos apenas os tremores mais fortes, com magnitudes acima de 7 graus, como o que atingiu recentemente o Chile (8.2 graus). “Não existe possibilidade de um terremoto catastrófico, de 7 ou 8 graus...”

12/04/14 - 13h
Mega-Sena de 30 milhões de reais, que será sorteada hoje, pode render 158 mil, por mês, ao ganhador

12/04/14 - 12h
Instituto Federal do N. de Minas tem 405 vagas, de nível técnico e superior. Inscrições até 9 de maio

12/04/14 - 11h
Conab abre concurso para 396 vagas. Salários chegam a 5.112 reais

12/04/14 - 10h00
Assim, há 307 anos, num 12 de abril de 1707, principiou o ajuntamento novo: "...estando os montes sempre claros, característica de onde proveio, dizem, o nome da Fazenda, servindo depois à cidade que, primeiramente, foi Vila de Montes Claros de Formigas”

12/04/14 - 10h
Manchetes dos jornais: “Mercado vê alto risco de racionamento de energia” - “Polícia Federal faz busca na Petrobras e investiga contrato de R$ 443 milhões” -“Polícia Federal faz apreensões e prisão na Petrobras”

12/04/14 - 9h
Minas registra duas mortes por dengue em uma semana. Casos chegam a 7

12/04/14 - 8h
Conta da Copasa ficará 6,18% mais cara já a partir deste domingo

12/04/14 - 7h
Segue o mistério do jatinho brasileiro interceptado na Venezuela, por atividade criminosa


11/04/14 - 18h
Com a volta de Willian, Cruzeiro terá força máxima para final do Campeonato Mineiro

11/04/14 - 17h
Viúva da Mega-Sena, acusada de mandar matar o marido, será submetida a novo júri popular no Rio

11/04/14 - 16h
Manchetes dos jornais: “COI intervém nas Olimpíadas do Rio” - “Corte de viagens custará concessão de ônibus”

11/04/14 - 15h
Com 6.399 notificações, telefonia lidera lista de reclamações do Procon Assembleia em Minas

11/04/14 - 14h
Pela meteorologia, a chance de chuva, hoje, em M. Claros, é zero; mas, chove agora a leste da cidade

11/04/14 - 13h34
Nota da PM: "...antes do incêndio foram vistos deslocando próximo ao sítio (...) cerca de 08 (oito) indivíduos suspeitos, aparentando serem menores de idade e que estavam com camisa sobre a cabeça"

11/04/14 - 13h
Brasil tem 11 das 30 cidades mais violentas do mundo, segundo a ONU. Belo Horizonte é citada no 44º lugar



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