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10/9/2014 -"...teve até o desfile de um mendigo novo, supostamente drogado, que andou pelo centro, o quarteirão fechado da rua Simeão Ribeiro, completamente nu, exibindo-se". A crescente degradação da Praça da Matriz e vizinhança pede:

»1 - Policiamento mais rigoroso
»2 - Redefinição do uso da praça que é o marco zero da cidade
»3 - Outra reforma física
»4 - Maior empenho das autoridades no cumprimento das leis
»5 - Uma recuperação em todos os sentidos

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           Manoel Hygino   

79117
Por Manoel Hygino - 6/12/2014 12:12:56
Os voluntários de Cuba

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os médicos cubanos chegaram, inúmeros outros já estiveram ou estão em outros países, certamente porque há nações que precisam desses profissionais. O mercado interno da ilha está bem abastecido deles, a julgar pelas notícias. Não só os discípulos de Hipócrates. Há cubanos, de todas as profissões, por este mundo afora. Trata-se do que o governo cubano denominou de “Internacionalismo proletário”, como lembra Antônio Rangel Bandeira, revolucionário nos anos rebeldes do regime militar brasileiro, ex-exilado.
Em seu “Sombras do Passado”, Rangel não se restringe ao tempo pretérito, porque as repercussões da revolução dos Castros ainda se mantêm. É o caso dos insulares que deixam a ilha sob a bandeira do altruísmo. O escritor não partilha a ideia: “O governo omitia os interesses econômicos da medida, a manipulação dos voluntários, e escondia as cifras que transformaram principalmente Angola e Etiópia num matadouro de cubanos, para exaltar a “vocação napoleônica do Líder Máximo”, conforme o general Rafael Del Pino.
Para ele, afora o contrabando de armas para diferentes países, em Angola o Movimento Popular de Libertação – o MPLA pagou 1 milhão de dólares por ano a Havana, durante os quinze anos em os soldados dos Castros permaneceram, em seu território. É muito?
É ainda mais: “Os angolanos pagaram mais de 4 milhões de dólares para a manutenção da tropa cubana. Segundo o próprio Fidel, foram enviados para os países africanos cerca de duzentos mil cubanos.
O general mencionado depôs: “No princípio de 1975, fui convocado para apresentar-me no Ministério do Interior. Vi-me frente a um desagradável burocrata, que, sem maiores comentários – me perguntou se eu estava disposto a cumprir uma missão internacionalista. Disse que sim. Uma semana depois, embarcaram-me em um cargueiro, junto com quatro mil homens. Não sabíamos para onde nos levavam. Só depois de doze dias, disseram-nos que a maioria ficaria em Angola.”
Aquela gente só sabia da África pelos discursos oficiais, que nada esclareciam de suficiente. “Em Cuba, a opinião pública não sabe praticamente nada sobre as guerras naquele continente. As famílias dois mortos foram proibidas de recuperar seus corpos, enterrados no estrangeiro; os que voltavam feridos ou doentes de AIDS foram mantidos reclusos em hospitais. E sanatórios, evitando-se que a população tivesse noção das proporções do desastre.
Mais de dez mil cubanos morreram em Angola e ficaram feridos em torno de 25 mil, mas os números são segredo de Estado. O propósito é “ocultar a carnificina provocada pela megalomania de Fidel e pelo fiasco da estratégia militar do regime”.
Quando o general Ochoa, um herói, regressou a Havana, passou a reclamar da falta de apoio aos cinqüenta mil cubanos que também voltavam, numerosos relegados ao desemprego e contaminados pela AIDS. Aí, começou a inquietar os irmãos Castros, e sabe-se o que com ele aconteceu. Não foi o único. Mas os dólares do mercenário compromisso já estavam em Havana.


79108
Por Manoel Hygino - 5/12/2014 10:25:18
Reenchendo a caixa d’água

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O governador José Francisco Bias Fortes, do velho PSD, criado por Vargas ao final de seu “curto período” de quinze anos à frente dos destinos nacionais, gostava em seus discursos, em tom solene e grave, de enfatizar que Minas Gerais era a “caixa d’água do Brasil”. Nas alterosas, de fato, têm nascentes e ganham volume, rios que asseguram comunicação, energia e o vigor da economia em extensas regiões do país.
Como é relevante essa caixa d’água! Quando a nação passa pelas graves dificuldades como as da hora presente, a apreensão se amplia. Falta o líquido nas torneiras da maior cidade do país, mas ele também míngua no próprio território de nossa velha província. Seco o nascedouro do São Francisco, rio da unidade nacional, todo o Sudeste pena e põe em risco o sistema interligado de energia.
A bela queda d’água na Serra da Canastra, em São Roque de Minas, não há mais. É o novo retrato do Brasil que não chega às torneiras. Mais uma vez, as montanhas e os rios da terra de Tiradentes têm de ajudar os vizinhos. As águas da bacia do Paraíba do Sul, abastecedora dos três principais estados da região, são compelidas a auxiliar em hora de desdita, inclusive a bacia do Cantareira,em São Paulo.
Assim, o governo federal estuda, em caráter de urgência, as instâncias de São Paulo, do governador Alckmin, e das lideranças políticas paulistas, para a transposição do Paraíba, cumprindo o mandato bíblico de dar água a quem tem sede. Minas é sempre lembrada nos momentos mais difíceis e delicados da nação, e não somente quando há assalto à liberdade como em 1943, e da gente das montanhas partiu o grave alerta contido no Manifesto dos Mineiros.
Ao invés de proteger o velho Chico e seus afluentes, cuidou o governo da República na gestão Lula de lançar um projeto faraônico e demagógico de transposição da corrente para atender às demandas do Nordeste. Ignorou-se que o rio, nos últimos tempos, perdera força e grandeza, tanto que é já atravessado a pé ou a cavalo junto à grande ponte de Pirapora, mantendo-se em operação apenas uma turbina em Três Marias.
Os períodos áureos se foram e, com eles, milhares e milhares de turistas deixaram de navegar por aquele belo e remoto rincão brasileiro, de gente trabalhadora e afável, a que muito devem a música e o artesanato mineiro.
Ali, não há, nem nunca houve, navios, porque lá subiam e desciam “os vapores”, movidos a lenha, trazidos da América do Norte. Mas não dispunham os visitantes de Tio Sam da alegre acolhida dos barranqueiros, prestimosos e gentis, com frutas regionais, peixes magníficos e a aguardente que tornou Januária famosa.
Quanto se foi perdendo pela falta de conhecimento e amor ao interior mineiro! A civilização também ingressou ali, víveres se destinavam às cidades maiores, como São Paulo e Rio de Janeiro, excelentes consumidores. E há templos históricos, que a propaganda oficial até hoje não importou em divulgar, alguns mais velhos do que os das cidades históricas do ciclo do ouro.
Retornemos, porém, aos dias de hoje: As chuvas voltaram na última semana de novembro. É hora de reencher a caixa d’água.


79047
Por Manoel Hygino - 25/11/2014 09:36:05
Na falta da água

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O tormento decorrente da longa estiagem deste ano – continuando as parcas chuvas de 2013 – incomoda a gente do país, sobretudo do Sudeste, porque somos um povo que adora banho. É uma tradição transmitida pelos ancestrais de sangue tupi e guarani, como registra Wanderlino Arruda, dos Institutos Históricos e Geográficos de Minas Gerais e de Montes Claros, e membro de um sem número de entidades que têm a ver com as letras, as artes e o saber.
Inegavelmente, a indiaiada amava – e ama – divertir-se na água e com a água, com ênfase os bugrinhos, costume herdado alegremente e decepcionando as gerações avoengas europeias. Com a crise desde 2014, priva-se o brasileiro de um prazer muito típico e gostoso, obrigando-se nestes dias de penúria a insatisfatórios e decepcionantes banhos de bacia e caneco. O racionamento que já atinge muitas cidades causa tristeza e revolta.
Quando elaborei texto para o livro sobre os 50 anos do “Madrigal Renascentista”, lembrei uma questão levantada pelos cantores, em excursão aos países nórdicos: queriam tomar banho, prática incomum naquele pedaço da Europa. Mas os artistas não abriram mão.
Wanderlino, aliás, evoca o testemunho do estimado padre Aderbal Murta, que deixou marcas de sua passagem nos lugares em que exerceu o sacerdócio. Ele, bonachão, recordava que o reitor da Universidade de Louvain, na Bélgica, melindrou-se quando os seminaristas brasileiros que lá chegavam também pediram um pequeno cômodo no grande conjunto de edifícios, para se banharem: água da cabeça aos pés, vinda de cima, passar sabonete, enxaguar o corpo, enxugar com uma toalha felpuda. Muita exigência! Então, banho era com luva, esponja, apenas esfregando, sem molhar o chão.
Os bárbaros, ao invadirem a Europa, atribuíram aos banhos coletivos a decadência romana. Destruíram todos os banheiros públicos e particulares, eliminando por quase um milênio o costume. Recomendava-se apenas lavar as mãos antes das refeições, como registra o sábio Ivan Lins.
Alguns casos ganharam fama. Isabel, rainha de Castela, só tomou dois banhos, ao longo da vida e se gabava disso: um, ao nascer, e o outro, preparando-se para o consórcio real. Das ideias da Idade Média, decorreu o desprestígio em que caíram os banhos. Augusto Comte escreveu: “Estreitamente preocupado com a pureza moral, esqueceu-se o catolicismo de constituir a purificação física como o primeiro degrau da disciplina individual, descurada como inútil à salvação eterna”. São Gregório proibiu os banhos aos sábados, “principalmente se a finalidade fosse higiênica”.
Compreende-se: tomar banho era pecado, ato de luxúria, algo muito mundano, um cuidado excessivo com o corpo. Langlois, contudo, observa que o hábito era corriqueiro entre os fiéis medievos. O banho, até acompanhado, principalmente em se tratando de amantes, com a cabeça coroada de flores, originou condenáveis abusos no dizer de Gautier.
Então, surgiram mulheres que se dedicavam a lavar a cabeça dos grandes senhores, embora as gentis profissionais não gozassem de boa reputação. Aqui e agora, é diferente, muito diferente. É preciso muita água e o desperdício é criminoso neste tempo de seca inclemente.


79032
Por Manoel Hygino - 18/11/2014 15:41:51
Montes Claros é pródiga em mulheres talentosas nas letras, nas artes, na pesquisa histórica, no magistério. Quem as conhece e ao que elas perfeitamente fazem avaliam méritos e virtudes, amplamente reconhecidos, até consagrados.
A presença e atuação das montes-clarenses nestes campos é notável e invejável. Imagino como uma cidade, no sertão que já foi longínquo, cresceu em tão bela seara.
Faço esta meditação, ainda sob o impacto do passamento de Ruth Tupinambá Graça, que tanto resumiu o panorama da inteligência e sensibilidade de nossa terra. Deixou-nos aos 97 anos, mas sua contribuição à crônica local supera o limite do tempo.
Por todos estes motivos, encaminhei, através de Wanderlino Arruda, modesto texto de homenagem a quem apenas partiu de nosso meio, deixando um legado de valor inestimável.

Meu estimado Wanderlino,
Há mais do que um vácuo pelo passamento de Ruth Tupinambá.
Ficou conosco a graça riquíssima de suas reminiscências, para que as novas gerações conheçam a Montes Claros que houve.
Não há como deletar as belas páginas que ela escreveu para a descendência seguinte.
O legado não se perdeu, nem se perderá. Veio para ficar.
É com este sentimento que recebo a pungente notícia.
Saberemos respeitá-la pela lindeza do que nos transmitiu e pelo que foi.


79002
Por Manoel Hygino - 13/11/2014 10:43:59
As chuvas no sertão

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Chuva no sertão é mais esperada, com mais fervor e ansiedade, que o prêmio maior da Sena. Enfim, a loteria beneficia apenas um, ou uns, quando do chamado bolão. As águas descendo das nuvens são mais democráticas, trazem bondades a milhares e milhares, mesmo milhões de pessoas. Por isso, o homem do sertão – ou mulher – diz que ela vem do céu, constitui algo sobrenatural, que depende de Deus, porque nele se crê.
Quando falta esta bênção no sertão, em longa temporada, reúnem-se as devotas para o terço na suas humildes habitações, fazem novenas e formam procissão com as fiéis carregando pedras na cabeça em cantorias tristes, expressando dor, mas também confiança em que não sejam esquecidas. E o sol, inclemente e impiedoso, desce em chispas sobre as cabeças desprevenidas.
Caminhões e caminhões, lotados dos que procedem de terras mais ao Norte, chegam carregando suas dores e já parcas esperanças. São dezenas e centenas de quilômetros de incômodo percurso, passando fome, lembrando o que ficará para trás, os pequenos e pobres bens que herdaram de pais e avós também sofridos. Sem mais condições físicas para enfrentar o extenso deslocamento ao Sul, ficavam em seus casebres os mais idosos, aguardando a hora final ou já sepultos na terra em que vieram à vida.
Quando outubro se esvaía neste 2014, o redator local, atento e com bom texto, registrou eufórico: chuva de encher rio, uniforme, vigorosa, comportada, sem raios e trovões. Chuva de lavar os ares, de acender a iluminação das ruas. Chuva de Deus, chuva da infância em minha cidade, quando a população toda rumava para a beira do rio Vieira, a fim de ver a enchente chegar e passar, ir levando grandes toras e tudo que achava pelo caminho. Chuva de transformar ruas em rios, próprias às brincadeiras dos indomáveis meninos que fomos todos. Chuva de se juntar às outras na memória da gente, de tapar os horizontes, de aquietar a terra, serenar, docemente lhe dizendo nas profundezas que aqui estamos nós, os filhos de Eva e da terra.
Persiste, porém, a dúvida. Ela vai continuar? As boas impressões persistiram, mas não longamente: as chuvas inaugurais do sertão, ou mesmo as saideiras, que abrem e fecham o ciclo das águas, costumam ser iradas. Este ano, não. Surgiu de mansinho, estendeu seu manto sobre a serrania com doçura e o calor forte fugiu. Temporariamente.
Reina a natureza, há festas nos ninhos, a natureza se recompõe, a ensinar aos homens que eles pertencem à natureza, e não o contrário, como julgam na sua soberba, e enfatiza o jornalista Paulo Narciso. Ele olha pela janela – os montes claros encobertos pela chuva mansa e pensa: é a sinfonia de sempre nos pingos de chuva. O Natal parece que chegou. Glória a Deus nas alturas.
Mas tudo não passou de um aviso prévio, para que todos se preparassem para quando a chuva chegar forte, ao ponto de destruir moradias humildes. Resta esperar, os rios estão secos, até o Velho Chico chora de saudade na lonjura de seu leito sagrado.
O São Francisco murchou, virou um filete de água, os peixes morrem, a agricultura ribeirinha padece duramente, o gado enfraquece e carrega seu esqueleto em busca de alimento. Que venha mais água do céu!


78991
Por Manoel Hygino - 10/11/2014 10:44:28
Relíquias... ou quase

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Leio uma lauda sobre a beatificação de Paulo VI, considerado o papa da continuação, conclusão, recepção e aplicação do Concílio Vaticano II. No texto, informo-me de que o pontífice beijou os pés do patriarca de Constantinopla, devolvendo a relíquia da cabeça de Santo André à Igreja Ortodoxa.
Os pormenores me chamam a atenção. Santo André é um dos apóstolos, o outro é Felipe, com nome grego. Natural de Betsaida, era irmão de Simão Pedro e pescador de Cafarnaum, sendo – juntamente com Pedro – chamado por Jesus ao apostolado. A tradição lhe atribui vários campos de atividade missionária, incluindo Bizâncio e Grécia, onde foi martirizado sobre uma cruz em forma de X, chamada Cruz de Santo André. Padroeiro da Rússia, ali Pedro, o Grande, criou a Ordem do Cavaleiro de Santo André.
Suas relíquias foram trasladadas, na época da quarta cruzada, de Acaia para Constantinopla e, em fins do século, para Roma, onde ficou principalmente em Amalfi, cidade italiana. Hume, “History of England”, 1891, conta que, no reinado do soberano inglês Henrique VIII, foi encontrado num “prego”, penhorado por quarenta libras (soma elevadíssima para a época) um dedo de Santo André, pertencente a um dos mosteiros ingleses mais célebres da Idade Média.
O tema, tão curioso, serviu para um capítulo de excelente obra de Ivan Lins (evidentemente o escritor), membro da Academia Brasileira de Letras, mineiro de Belo Horizonte. Lins, que foi meu amigo, recorda que o padre Vieira, no século 17, lembrava que foram disputadíssimos os restos mortais de São Francisco Xavier, cujo braço direito fora requisitado em Roma pelo Santo Padre, Paulo V.
Essa exagerada devoção gerou muitas fraudes. Frei Salibene, franciscano do século 13, nascido em Parma em 1221, deixou interessante crônica a respeito. Diz ele que, apareceu em Parma, carregada por frenética multidão em procissão, uma relíquia de Santo Alberto de Cremona. Era o pequeno dedo do pé.
Um cônego, dotado de extraordinário olfato, aproximou-se do andor e percebeu que o cheiro não era exatamente de santidade. Tomou em suas mãos a relíquia e constatou que a preciosidade não passava de um dente de alho.
O imenso valor das relíquias na Idade Média se devia a sua eficácia para exorcizar Satanás, o grande e permanente pesadelo medieval. Trata-se de algo que, mesmo hoje, ainda influencia os incautos e ingênuos. Guibert, Abade de Nogent, discípulo de Santo Anselmo, escreveu, em meados do século 12, a propósito de um dente de leite de Cristo, minucioso tratado que impressiona pela solidez da argumentação.
Naquele remoto tempo, até cidades europeias adiantadas acreditavam em estupendas relíquias. Várias localidades se orgulhavam de possuir sapatos, camisas, cabelos e até o próprio leite da Virgem. Autores garantem que o Papa Clemente V, em 1310, dividira em três o santo Umbigo, que teria sido conquistado por Carlos Magno ao império grego. Uma parte foi direcionada à igreja de São João de Latrão, em Roma, outra enviada a Constantinopla, e a terceira à igreja de Nossa Senhora de Châlons, onde se celebrou missa para recepcionar a honrosa partícula do corpo de Jesus.


78960
Por Manoel Hygino - 5/11/2014 10:30:30
Um mineiro na Semana de Arte Moderna

Manoel Hygino dos Santos

Daqui oito anos, estaremos comemorando o centenário da Semana de Arte Moderna. O encontro de escritores, artistas e jornalistas no Teatro Municipal de São Paulo, nos dias 13, 15 e 17 de fevereiro de 1922, foi um marco na história do Brasil, pelo que também representou política e ideologicamente.
Em princípio, os promotores do evento - a palavra assume aqui seu verdadeiro significado – queriam que os autores brasileiros, os artistas, tomassem ciência e consciência do que acontecia na Europa em termos de vanguarda do pensamento. Não era um movimento exclusivo desse segmento social, como afirmou Mário de Andrade em conferência, vinte anos depois, na Casa do Estudante, no Rio de Janeiro, em 30 de abril:
“Manifestado especialmente pela arte, mas manchando também com violência os costumes sociais e políticos, o movimento modernista foi o prenunciador, o preparador e por muitas partes o criador de um estado de espírito nacional. A transformação do mundo, com a prática europeia de novos ideais políticos, a rapidez dos transportes e mil e umas outras causas internacionais, bem como o desenvolvimento da consciência americana e brasileira, os progressos internos da técnica e da educação, impunham a criação de um espírito novo e exigiam a verificação e mesmo a remodelação da Inteligência nacional. Isto foi o movimento modernista, de que a Semana de Arte Moderna ficou sendo o brado coletivo principal”.
Como agora acontece, a sociedade queria mudança, não só a queriam os intelectuais, os artistas, os escritores, o próprio desenvolvimento econômico e social queria transformação, adaptando-se ao novo tempo. Após os governos militares do início da República, os senhores rurais voltavam ao poder, fortalecidos pela vigorosa ascensão do café, que girava em torno do Eixo São Paulo- Minas. Sobreveio “a política dos governadores”, quando os mandatários estaduais apoiavam o governo federal e este os governos estaduais”.
Surgiram as oligarquias, grandes e prestigiosas famílias ou grupos políticos que se perpetuavam no poder. Minas e São Paulo, os estados mais populosos, se revezavam no poder, fazendo a política do café-com-leite, que permaneceu até 1930.
Esse sentimento, consciência e atitude ganharam todos os segmentos aparecendo na música popular nos versos de Noel Rosa, lembrando que Minas dá leite, São Paulo dá café e o Rio de Janeiro dá samba. Não constituía, a verdade exatamente, mas era um espelho assemelhado da vida social, artística e política naquele período.
Após a primeira guerra mundial, terminada em 1918, em que um mineiro- Wenceslau Brás- se encontrava na presidência da República, as capitais brasileiras metamorfosearam, à frente São Paulo. Houve um surto rápido de progresso industrial, a urbanização, o nascimento do segmento sindical, a burguesia cada dia mais forte, embora marginalizada pela política econômica voltada para a produção e exportação do café. A
imigração europeia avançou principalmente no sentido dos grandes centros, ou seja, São Paulo preferencialmente, e para a região cafeeira. De 1903 a 1914, o Brasil acolheu 1,5 milhão de imigrantes.
Nasce um novo país, dividido entre urbano e rural. Os trabalhadores se preparam, desde então, para embates em torno de suas reivindicações, os anarquistas aparecem sobretudo em São Paulo e publicam seus jornais, como “La Bataglia” e “A Terra Livre”. Eclodem na maior cidade brasileira as primeiras greves a partir de 1905, a mais importante delas em 1917. Falava-se na Revolução Russa daquele ano, e o próprio Partido Comunista é fundado em 1922, representando simultaneamente o declínio anarquista.
Em setembro de 1922, um brasileiro chegava a Moscou para participar do IV Congresso da Internacional Comunista. Era Antônio Bernardo Canellas, de 24 anos, um dos mais jovens delegados dos 394 credenciados ao encontro. Canelllas sabia de cor e costumava repetir o pensamento de Kropotkin, anarquista russo: “Todas as coisas do mundo são de todos os homens, porque todos os homens delas necessitam, porque todos os homens colaboraram, na medida de suas forças, para produzi-las, porque não é possível avaliar a parte de cada um na produção das riquezas do mundo...”
A Semana de Arte Moderna compreendeu três sessões, nos dias 13, 15 e 17 fevereiro, principalmente por iniciativa do “festejado escritor, Sr. Graça Aranha, da Academia Brasileira de Letras”, como noticiou “O Estado de S. Paulo” e atraiu muita gente ao Teatro Municipal de São Paulo; gente dos meios intelectuais e artísticos, e curiosos. No saguão, pinturas e esculturas que causavam espanto.
O orador oficial da abertura foi Graça Aranha, que disse a certa altura: “Para muitos de vós a curiosa e sugestiva exposição que gloriosamente inauguramos hoje, é uma aglomeração de ‘horrores’. Aquele Gênio supliciado, aquele homem amarelo, aquele carnaval alucinante, aquela paisagem invertida, se não são fogos da fantasia de artistas zombeteiros, são seguramente desvairadas interpretações da natureza e da vida. Não está terminado o vosso espanto. Outros ‘horrores’ os esperam. Daqui a pouco, juntando-se a esta coleção de disparates, uma poesia liberta, uma música extravagante, mas transcendente, virão revoltar aqueles que reagem movidos pela força do Passado.” A repercussão foi enorme, como se esperava. No dia 15, Menotti Del Picchia discorreu sobre arte e estética, lendo textos de Oswald de Andrade, Mário de Andrade e Plínio Salgado. O público miava e latia. Ronald de Carvalho leu “Os Sapos”, de Manuel Bandeira, numa crítica ao parnasianismo. Nas escadarias do Municipal, Mário de Andrade leu fragmentos de “A Escrava que não é Isaura”. Perguntou depois: “Como pude fazer uma conferência sobre artes plásticas, na escadaria do Teatro, cercado de anônimos que me caçoavam e ofendiam a valer?...
Confusão e críticas e apupos, mas o movimento estava lançado com predominância por nomes fortes do meio literário e artístico de São Paulo. Di Cavalcanti sublinhou o lado político do movimento com ataque à aristocracia e à burguesia. Mário de Andrade definiu: “Lirismo: estado afetivo sublime – vizinho da sublime loucura. Preocupação de métrica e de rima prejudica a naturalidade livre do lirismo objetivado”.
Causou espécie a última noite. O maestro Villas-Lobos entrou em cena: de casaca... e chinelos; o público interpretou o episódio como futurista e vaiou. Só depois, pôde explicar que assim se apresentara no palco por força de um calo doloroso.
Entre os participantes da Semana, havia um mineiro, pouco conhecido presentemente: o poeta Agenor Barbosa, nascido em Montes Claros, em 1896 e evocado recentemente por um historiador da região – Haroldo Lívio. Este reconhece que o vate norte-mineiro é até ignorado presentemente por seus conterrâneos, ainda que outro menestrel, Cândido Canela, o considerasse “o maior de todos os nascidos na cidade”. Foi reverenciado em São Paulo, que o elegeu para o rol dos dez maiores poetas paulistas, juntamente com Guilherme de Almeida, Menotti Del Picchia e outras celebridades e cresceu “ainda mais, conquistando lugar cativo no coração dos paulistas, que o tinham como um dos nomes gloriosos da literatura de São Paulo, a despeito de mineiro do sertão.
Agenor, segundo Haroldo Lívio, foi o único participante aplaudido pelo público, que vaiara Manuel Bandeira, Villa-Lobos, Mário de Andrade e outros famanazes das artes.
Em sua cidade natal, fez o curso primário e, com a transferência da família para Belo Horizonte, aqui iniciou o secundário, que concluiria em São Paulo. Também lá se formaria em Direito e colaria grau em 1926, retornando a Belo Horizonte. Aqui, ingressou no serviço público e na imprensa como repórter do “Diário de Minas” e do “Folha de Minas”, nos quais também publicava poesias de sua lavra.
De retorno a São Paulo em 1916, ingressou no “Correio Paulistano”, admitido na redação, dirigindo também a editoria literária de “A Cigarra”. Pode-se dizer que se consagrara. Na paulicéia, em enquete da revista “Panóplia”, foi eleito como um dos maiores poetas de São Paulo. O escritor Mário da Silva Brito se refere a ele no livro “História do Modernismo Brasileiro”.
Em seu brilhante livro sobre a cidade, Nelson Vianna( ¹) transcreve soneto inédito de Agenor:
MONTES CLAROS
“A doçura sem fim do silêncio, que espalma
as suas asas sobre a noite, eu me avizinho
da terra, que me acena como um ninho
e, na distância, é sempre linda e sempre calma.

A minha terra vive dentro de minh’alma...
deixem que fale o coração, devagarinho...
Que eu pare um pouco, em meio à sombra do caminho
E lhe teça, a sorrir, este canto e esta palma”.

Ouço, de longe, a voz do berço que me chama.
Voz serena de amor, de carinho e piedade
que é suave como um beijo e arde como uma flama.

Minha terra natal! Minha velha cidade!
Dentro do coração que te pertence, clama
a dor do meu exílio e da minha saudade”.

Djalma Andrade, da Academia Mineira de Letras, na seção “História Alegre de Belo Horizonte”, publicada no jornal “Estado de Minas”, exaltou-o: “Agenor Barbosa, quando jovem, foi um dos poetas mais queridos de Belo Horizonte. Muito magro, muito pálido, escrevia nas revistas versos líricos, que eram gravados de cor pelas garotas de 1915. Nas varetas do leque de uma moça, numa festa de barraquinhas, escreveu:
“Quando for nosso noivado
Será tão lindo o teu véu,
Que um beijo o trará bordado,
Pelas santas lá no céu”.

Quando do centenário de Montes Claros, em 19 57, a comissão organizadora dos festejos decidiu incluir Agenor entre os convidados de honra, mas ele não se dignou de comparecer. O poeta Cândido Canela, enraizado no berço, tomou-se de dores, embora sequer o conhecesse, e escreveu uma série de cartas na quais um velho bardo, supostamente Esperidião Santa Cruz, afastado da terra natal há mais de meio século, demonstrava morrer de saudade e deplorava não regressar à origem para rever os amigos.
O historiador evoca, como o próprio Cândido Canela me contou: “Esperidião foi o pseudônimo que o autor das cartas criou para substituir o nome real do homenageado. A cidade inteira acompanhou a publicação, na Gazeta do Norte, das cartas chorosas que chegavam toda semana. Nos saraus familiares, tornou-se o assunto predileto, porque o macróbio Esperidião, apesar de um ancião de escasso convívio, recordava-se nitidamente da Montes Claros de sua mocidade. Declarava os nomes de sues antigos companheiros de bailes e serestas, como também se lembrava das donzelas românticas de seus tempos de rapaz. Ninguém sabia, exceto o jornalista Jair Oliveira, que se tratava de uma brincadeira do verdadeiro autor das cartas, e ambos se divertiam com o sucesso do público”.
A correspondência era tão fiel à realidade, que pessoas de boa memória acreditaram ter conhecido pessoalmente o missivista Esperidião Santa Cruz, que, ao final, ficou muito mais conhecido do que o próprio Agenor. Maria Ribeiro Pires, escritora e oradora de mão cheia, está à procura de exemplares dos jornais que publicaram as cartas, há mais de meio século.
A coleção, contudo, foi recolhida a local não sabido.

(¹ ) Vianna, Nelson, “Efemérides Montesclarenses”, Parte II, Coleção Sesquicentenário, vol.5, Editora Unimontes, Montes Claros


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Por Manoel Hygino - 1/11/2014 09:10:58
A Nova Cuba

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Por mais que se pretenda esquecer, as eleições de 2014 já estão inscritas entre as que mais mexeram com o sentimento popular. Não sem razão o país ficou dividido ao meio, com Aécio Neves somando mais de 51 milhões de votos.
A distribuição de votos pelos estados não constituiu surpresa, se se considerar que a Bolsa Família foi o mais importante contributo para a preferência pela candidata petista. A predominância de Dilma no Nordeste produziu repercussão. Segundo alguns, até que se deveria futuramente fundar os Estados Unidos do Nordeste para abrigar os dele nascidos e os habitantes de tão grande região brasileira, capaz de decidir os destinos nacionais, contrariando ou divergindo do próspero Sul.
Eleika Bezerra, vereadora em Natal, sugere a divisão do Brasil em dois países. O primeiro englobaria Norte e Nordeste e se chamaria Nova Cuba, por motivos não difíceis de adivinhar. Com 71 anos, Eleika é professora pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte e se elegeu em 2012, usando como principal bandeira a luta pela educação. Comprometeu-se a doar integralmente seu salário parlamentar para entidades filantrópicas, registrando o compromisso em cartório, para que dúvidas não pairassem.
Sem se explicar claramente, a ilustre edil e mestra propõe ainda que Minas Gerais seja “implodido e vire um lago”. Talvez pudesse suprir as necessidades hídricas da sequiosa São Paulo, caso haja uma tão extensa e inclemente estiagem como a deste ano.
No entanto, não perco a oportuna ensancha para referir-me aos muitos meios e métodos usados na América Latina para se chegar ao poder. Assim, aconselharia a leitura de “Tiranos & Tiranetes”, em que Carlos Taquari revela, com riqueza de pormenores, como se alcança o topo do comando nesta estupenda região do Novo Mundo.
Simón Bolívar, transformado em ídolo de segmentos político-ideológicos, já registrava em sua pátria: “Este país cairá, infalivelmente, nas mãos da multidão desenfreada, para depois passar ao controle de tiranetes de todas as cores e raças”. Previsão vencida ou ainda válida?
Pois é lá mesmo na Venezuela que aconteceu, entre outras, a lição proclamada pelo coronel Pérez Jiménez, à frente de um regime militar desde 1948. Para legitimar-se, convocou uma assembleia que elegeria o presidente. No decorrer da apuração, constatou que a situação não lhe era favorável. Suspendeu os trabalhos, exigindo contagem “mais correta” de sufrágios e, dois dias depois, o resultado saiu com a vitória do regime.
Nem assim se satisfaz. Com medo de um boicote da oposição, que comprometeria a confirmação da sua escolha, “convidou” os líderes contrários para reunir-se com ele em palácio. Seis compareceram.
Jiménez lhes exigiu apoio, que eles não aceitaram. Mal encerrado o encontro, todos foram presos pela polícia secreta, levados a um avião e encaminhados para o Panamá, sem documentos, dinheiro ou bagagem. Assim, a Venezuela, agora de Maduro, sucessor de Chávez, passou mais de cem anos ininterruptos sob caudilhos.


78924
Por Manoel Hygino - 28/10/2014 10:34:53
A defesa da soberania

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Fizeram-se as eleições de 2014, os resultados são sabidos e comentados. Mas o grande desafio, o maior deles, permanece. Há necessidade de se apurar fatos e identificar pessoas responsáveis por desvios e escândalos, fatos graves registrados nos últimos anos, além do mensalão.

Há, incontestavelmente, mais do que interesses eleitorais ou eleitoreiros. O Brasil se infestou de gentes que rezam pela cartilha da incompreensão, de objetivos inconfessáveis ou de desígnios que depõem contra nossos foros de civilização, nossas tradições, contra as próprias instituições. Vivemos sob risco permanente, não apenas pelos que nos impedem de circular tranquilamente pelas ruas, de ir e vir ao trabalho, do exercício do ofício que nos dá sustento e à família.

Percebe-se que há vontades, que – mesmo ocultas – a ninguém serão imperceptíveis, porque o pior cego é o que não quer ver. Há mais do que sequestradores, assaltantes de bancos, paranoicos soltos, ousados bandidos, pedófilos, usuários de drogas em surtos letais, bêbados ao volante, estupradores, comerciantes de drogas, corruptos e corruptores, contrabandistas, aliciadores de mulheres para fins sexuais, homicidas em potencial prontos a agir contra a vida humana.

Tudo isso existe, sim, é gravíssimo, mas muito mais há. Sem entrar especificamente nos escândalos que estigmatizaram a administração pública e envolvendo poderosas empresas, conhece-se a ação de grupos que professam princípios que ferem não só a Constituição, mas os ideais mais sagrados da nação.

As pessoas que formam esses ajuntamentos precisam ser identificadas, saber-se que fundos os mantêm e patrocinam suas ações; cumpre esmiuçar, por exemplo, até onde vão os propósitos do chamado Foro de São Paulo, não um simples movimento, mas uma entidade fundada por partido político e que pretende sobrepor-se ao Brasil, Estado independente, ligando-se a governos estrangeiros e organizações terroristas.

Não interessa ao Brasil viver com aqueles que não o respeitam, com os maus patriotas, os que não o amam, os que contribuem para, mais uma vez, vilipendiar sobre a livre manifestação do pensamento, como aconteceu, há pouco, com um periódico da capital de São Paulo, cujas instalações foram atacadas pela malta. Não foi meia dúzia de indivíduos, mas cerca de 200, segundo autoridades policiais. Quem eram? Quem está por detrás de sua atividade criminosa?

O Brasil quer saber mais e mais sobre o que acontece dentro de seu território, mas isso não convém a certos espécimes que só aparecem nos momentos propícios à vandalização. Não será com a censura à imprensa ou ameaças ou destruição de seu patrimônio material que ela se calará ou se avaliará seus possíveis excessos.

A história o prova. “A coação à imprensa, ferindo o indivíduo, ofende, ao mesmo tempo, a ordem pública, a nação, o regime de governo”, já admoestava Rui Barbosa: “Todo o poder que se oculta perverte-se”.

É imperativo abrir o jogo, antes que tornem impraticável a democracia.


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Por Manoel Hygino - 27/10/2014 10:16:40
O espólio perverso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O Brasil amanhece com um presidente a tomar posse. Assume em hora delicada, depois de uma campanha política marcada pela excessiva agressividade e ao chegar o partido no poder há 12 anos sendo alvo de acerbas críticas na condução dos problemas que avultam e pela onda de escândalos.
A hora convida a evocar Durkhein, que classifica tais períodos de “anomia”. É o “estado de uma sociedade caracterizada pela desintegração das normas que regem a conduta dos homens e asseguram a ordem social”.
Os fatos fazem retroceder cem anos, quando Rui Barbosa, em manifesto de 28 de dezembro de 1912, dizia da “crise de desfacelo dos elementos de nossa vida nacional”. Havia, então, razões sobejas para ele não se candidatar à sucessão. Se o fizesse, não disputaria um governo, mas “o espólio de uma casa roubada”, pois “o que há é uma falência, econômica e financeira, política e institucional, por liquidar”.
O “Correio da Manhã”, em 15 de novembro de 1914, fez análise minuciosa do governo que expirava, criticando o presidente, por “sempre que chamado, pela sua função, a deliberar um caso político afeto ao governo, esquecer o dever que lhe criavam as leis, de agir respeitando os direitos de cada um, para só procurar atender às conveniências dos amigos e associados políticos”.
O velho jornal acusava: “O partido do presidente, vivendo do bafejo do governo, do qual tirava as vantagens mais necessárias à sua existência e ao exercício de sua força como agremiação poderosa, não hesita em querer os maiores absurdos, nem o chefe do Estado em concedê-los”.
Mais veemente, afirmava que os destinos do país se tornaram “joguete de meia dúzia”, não possuindo a nação “verdadeiramente um governo, mas um diretório de facção política, que a explora em benefício dos seus, sem olhar aos grandes interesses gerais”.
Segundo o matutino, “o partido (do presidente) não serviu unicamente para enfraquecê-lo dentro do Congresso; serviu ainda para desmoralizá-lo perante a Nação, porque não houve crime que a quadrilha cometesse que logo não fosse apadrinhado” pelo chefe da nação e seus ministros.
Adiante: “Não haverá, por certo, em toda a história política do Brasil, lembrança de um governo que deixe o poder tão amaldiçoado, nem dum chefe de governo que saia da sua posição tão coberta pelo descrédito, pela cólera do povo e, até, ultimamente pelo ridículo.
Por isso, a manhã do dia desta segunda é como aurora de esperanças e a atmosfera que respiramos nos dá a ideia de ser mais oxigenada. Dir-se-ia que éramos cativos e reconquistamos a liberdade. O lixo da situação miserável que nos aniquilou vai, portanto, ser varrido”.
É com esses sentimentos e pensamentos que o Brasil desperta hoje. Há necessidade de uma tomada nacional de consciência para que os destinos do país não sejam desviados infortunadamente. Compreendemos a dor do próprio Rui, ao envergonhar-se por fazer parte “de um povo que não reconheço, enveredando por caminhos que não quero percorrer”. “Ao lado da vergonha de mim, tenho também pena de ti, povo brasileiro!”


78907
Por Manoel Hygino - 25/10/2014 09:21:18
Entrevista presidencial em Paris

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Fim de governo, proximidade de outro quatriênio presidencial. Bom tempo para recordar o passado. Rivadávia de Souza, gaúcho trabalhando na Imprensa de Getúlio desde que este assumiu a chefia do governo, lembra ser-lhe atribuído recepcionar na capital francesa, Juscelino, recém-eleito para o Catete. JK hospedou-se com sua comitiva em uma suíte do Hotel Crillon, na Place de La Concorde. Era praticamente uma casa, com sala, vários quartos e um corredor para a porta de entrada, para propiciar total privacidade.
Rivadávia sabia alguma coisa sobre Juscelino e procurou bem haver-se naquela ocasião única, quando a França queria conhecer o mineiro pobre, nascido numa cidade do interior brasileiro, rica em diamantes. Rivadávia, jornalista de Uruguaiana, não poderia falhar na missão, até porque poderia ser-lhe um contato importante na carreira.
Convocou-se uma coletiva, no amplo salão de conferências do Crillon, onde se afeririam as qualidades e virtudes do eleito para o governo brasileiro. De antemão se sabia que o presidente fora telegrafista, de horário noturno, no serviço público e colara grau em Medicina pela escola de medicina de Belo Horizonte, em 1927. Em seguida, médico da Polícia Militar de Minas Gerais, participara da Revolução de 1932, chegando a governador do Estado.
Uma carreira de incontestável sucesso, marcada pela construção de uma bela cultura. Alguém no círculo dos entrevistadores formulou uma pergunta. JK discorreu longamente, em francês brilhante, eloquente, escorreito, sem tropeçar numa sílaba sequer, como se discursasse de improviso, na própria língua, e não na de Montaigne e Voltaire.
Vários presentes já tinham participado de entrevistas ali. Mas, todos ficaram encantados com a facilidade verbal de Kubitschek, superando os depoimentos precedentes. No final, os jornalistas prorromperam numa entusiástica e calorosa salva de palmas, não somente pelo conteúdo das respostas, mas ainda pela forma primorosa com que as emolduraram.
Máximo Scioletti, conselheiro da Embaixada Brasileira em Paris, não escondeu sua surpresa: “Poucos franceses serão capazes de falar com tamanha eloquência”. Não conhecia, porém, a seleta plateia que Juscelino era um velho habitante da Cidade Luz. Lá cumprira bolsa de estudos no Hôtel Dieu, pronto-socorro de Paris, e fizera especialização com um dos mais celebrados cirurgiões e urologistas do mundo: o professor Chevassu.
Assim, no remoto 1930, o médico de Diamantina aprimorara o francês, instalando-se no pequeno hotel de La Paix, no número 225, do Boulevard Raspail. A jornada diária era de 8 horas da manhã às 6 da tarde, nas três primeiras semanas. Depois, vinha o treinamento no Hospital Cochin, onde se organizara o primeiro serviço do mundo especializado em vias urinárias. Não tinha como não aprender a língua que servira a Victor Hugo e Dumas.
Então, visitou o Louvre pela primeira vez e frequentou o Café Du Brèsil, onde conheceu Portinari e o fez seu amigo por toda a vida. Seguiu para a Alemanha para estágio no Hospital Charité, em Berlim, mas teve de voltar ao Brasil pela eclosão da revolução de 1930. De volta, escreveu, a bordo do navio Almirante Alexandrino: “Toda a minha timidez havia desaparecido, passei a amar a vida, certo de que ela nada mais me negará”.


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Por Manoel Hygino - 18/10/2014 10:36:10
Por onde penetram os ladrões

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Tomé, também chamado Dídimo, era judeu e apóstolo de Jesus, nascido na Galileia, figurando em três episódios no Evangelho de São João. Na última ceia, quando o Mestre anunciou aos discípulos que teria de deixá-los, mas que eles conheciam o caminho para se encontrarem, Tomé ergueu a voz: “Senhor, nós não sabemos para onde ides; como podemos conhecer o caminho?”
As atitudes de Tomé são curiosas. “Depois da ressurreição, e sem estar presente ao primeiro aparecimento de Jesus, declarou não acreditar sem ver e tocar as chagas no corpo do Mestre”. Em nova aparição, Jesus o censurou pela incredulidade, prostrou-se diante dele e exclamou: “Meu Senhor e Meu Deus!”.
Estas observações servem para justificar a crença de que Tomé queria sentir de perto os fatos. A tradição conta que evangelizou medos e persas e chegou à Índia, onde padeceu o martírio. Seu corpo teria sido trasladado a Edessa, antiga cidade da Mesopotâmia, hoje denominada Orfa, onde São João Crisóstomo indicou seu túmulo, assim como quatro outras sepulturas apostólicas. Sua pregação em Malabar é tradição conservada pelos chamados “Cristãos de São Tomé”.
O escrito mais antigo em que ele aparece são os “Atos de São Tomé”, redigidos em língua siríaca, obra anônima, apócrifa e recheada de elementos literários. Bem recentemente, novo achado redescobriu o apóstolo. Em 1945, num antigo cemitério de Nag Hammadi, no alto Egito, encontraram-se potes de barro, contendo 12 manuscritos em caracteres coptas, que trouxeram novamente Tomé ao núcleo do cristianismo.
O jornalista Paulo Narciso me advertiu para a descoberta, que deixou o mundo, sobretudo cristão, perplexo. É que o texto seria, de fato, o “Quinto Evangelho”, referido pela tradição oral. Aliás, além de Marcos, Mateus, João e Lucas, outros documentos preciosos foram localizados no Egito e nas proximidades do Mar Morto, que demonstram a força religiosa naqueles anos lindeiros ao nascimento de Jesus.
A localização dos escritos de Tomé por lavradores foi saudada, embora parte dos papiros encadernados em couro tenha sido usada para acender fogo. Uma outra parte foi vendida e encaminhada ao museu Copta do Cairo, e mantida, durante 11 anos, entre bugigangas.
Até que, pesquisadores estudaram cientificamente os documentos e constataram que ali estava o Evangelho do apóstolo Tomé, ou seja, cópias do original do século II da era cristã. Não se trata de descrições da vida de Jesus, como nos demais apóstolos, mas além de 100 sentenças ou aforismos de “Jesus, o Vivo”.
Chamam a atenção as observações iniciais: “Estas são as palavras secretas de Jesus o Vivo, escritas por Didymos Thomas. A palavra aramaica “Thomas”significa “gêmeo”, em grego “Didymos”. Ali estão ensinamentos esotéricos de Jesus, não para as multidões, mas especialmente escolhidas para os discípulos, capazes de compreender o sentido místico de certas verdades profundas, como comentou Huberto Rohden.
Eis o 103º ensinamento: “Disse Jesus: feliz do homem que sabe por onde penetram os ladrões! Assim pode erguer-se, reunir forças e estar alerta e pronto antes que eles venham”.


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Por Manoel Hygino - 16/10/2014 08:48:00
Um barão de verdade

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O jornalista Alberto Sena, de volta às raízes em Grão Mogol, como fez o sociólogo e empresário Lúcio Bemquerer, reacende luzes sobre o passado, contando com a rara memória de Geraldo Ramos Fróis, aos 77 anos. Lembrou-se uma personagem pouco reverenciada em nossa história: Gualtér, filho de Caetano Martins Pereira, proprietário da fazenda Santo Antônio, onde viveu 50 anos e cujo nome foi mudado para Cafezal.
Gualtér Martins Pereira era um homem bom, possuía mais de cem escravos e, abolicionista, libertou todos eles três meses antes da Lei Áurea. Juiz de direito de Rio Pardo de Minas, no Jequitinhonha, anulou a sentença de um homem condenado à morte e mandou-o a novo julgamento.
Entrou em acordo com seus cativos, para que calçassem a trilha de 15 quilômetros entre a casa na roça e a cidade. Dos diamantes encontrados no itinerário, 30% seriam dele e 70% deles. Fazia aquele trajeto a pé ou a cavalo, não usando liteira. O prédio da fazenda não existe mais, como tampouco arraigadas recomendações daqueles tempos heroicos.
Três escravos fugiram, reaparecendo três meses depois. Gualtér os advertiu: “Vocês já estão castigados por terem voltado e se humilhado”. Mandou construir um prédio (hoje Casa de Cultura), todo em pedras, para servir de hospital para o irmão que estudava medicina e onde clinicaria após colação de grau. Determinou que funcionaria como Santa Casa sob condição de que, quem não tivesse dinheiro, receberia tratamento gratuito.
Coronel da Guarda Nacional, organizou o 7º Batalhão de Voluntários da Pátria, em 1865, para ir à Guerra do Paraguai. No contingente, achavam-se quatro de seus irmãos, além de parentes e escravos, do Cafezal e de Lençóis, na Bahia. Recrutou 200 homens, fardou-os e armou-os a suas próprias expensas. Prometeu liberdade a todos os escravos-soldados que voltassem vivos da frente de guerra.
Sua atitude despertou atenção de Pedro II, que lhe concedeu o título de barão de Grão Mogol. O súdito foi ao soberano para agradecimento, dizendo-lhe não fazer jus à distinção por ter ideias republicanas. O imperador contestou-o: “Não agracio um homem de ideias republicanas, mas um grande brasileiro”.
O escritor Mário Martins de Freitas, em livro não publicado em vida, julga que o varão ainda não merecera “na história da pátria a devida láurea pelos serviços prestados ao Brasil, a não ser o nome de serra do Barão do Grão Mogol ou do Itacarambiruçu.
O memorialista Gerado Ramos Fróis não esquece: o barão gozava de alto conceito na corte, não fez curso superior, era destemido, teve 78 filhos, a maior parte deles com escravas. Era homem bondoso, constando que não castigava os escravos. Pediu até que fosse sepultado no mesmo cemitério deles. No entanto, faleceu no Rio Claro (SP), onde se encontrava em propriedade da família. O corpo foi levado do canavial paulista em que jazia pra Grão Mogol, sua terra natal, como sempre desejara. O traslado do corpo foi uma verdadeira aventura.


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Por Manoel Hygino - 7/10/2014 10:36:51
Eleições e saneamento

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Cinco de outubro pode ser uma data que se fixará definitivamente na história do Brasil, não por ser o décimo mês do ano e de revoluções, como a de 1930, com os entreveros anteriores e o desenlace trágico, em agosto de 1954, daquele que guindara à Presidência da República. Revoluções e eleições, não poucas, ocorreram para simplesmente desaguar no país de 2014.
Melhoramos? Pioramos? Realizamos nossos melhores sonhos ou apenas assistimos conformados ao andar da carruagem? Ainda sob os inquietantes fatos que marcaram os anos mais recentes, com escândalos sucessivos envolvendo até a maior empresa nacional, vimos engavetarem-se nos escaninhos da memória, os mais antigos, como o da poderosa chefe do escritório da Presidência em São Paulo, Rosemary Noronha, filhos e marido. Perderam foco os fatos, mas seus participantes se brindaram com os dinheiros e viagens pelo mundo afora, cobertos pelo cofre público. Silêncio em torno.
Nem se fale no mensalão, cujo desenrolar as pessoas acompanharam de perto, graças à mídia. Uma sucessão de crimes enfeixados em um só, praticados por figuras de proa na administração do país, porque entre nós os negócios públicos e os interesses políticos e pessoais se misturam no balcão de entendimentos e propostas escusas.
Não fora a pertinácia do ministro Joaquim Barbosa, tudo ficaria como antes. O interesse notório da cúpula era esconder. Por detrás ou sob o manto que cobre as negociações ilícitas, cometem-se os crimes mais torpes, e o cidadão conhece, às vezes, detalhes porque a mídia divulga.
Joaquim Barbosa já não é mais ministro do Supremo, não mais o preside, mas nenhuma entidade em favor do negro do Brasil saiu em sua defesa pelas críticas sofridas. Estende-se uma cortina de reservas à sua atuação, em que se critica o verbo forte e o comportamento inusual do mineiro de Paracatu.
Lamentavelmente, o Brasil não vai bem, obrigado. Há a bandidagem, criminalidade, a desastrosa estiagem refletindo sobre tudo e todos, o autêntico pibinho, os modestos níveis de produtividade industrial, o São Francisco – seco na nascente e que não ameniza sequer a voracidade dos potentados e as necessidades da população sofrida.
Neste país que esquece o essencial, constata-se que permanecem sem esgoto 42,9% das residências, que atiram dejetos no entorno, em terrenos baldios, córregos, lagoas, rios e mar.
Dados recuperados pelo professor José Geraldo Freitas Drumond alertam para essas questões, ele que foi presidente da Fapemig e é membro titular da Academia Mineira de Medicina. Comenta que o país é secularmente defasado em indicadores de saúde que medem a qualidade de vida de seus cidadãos, que se exaurem nas filas de ambulatórios médicos e entulham os corredores das emergências públicas.
Poder-se-ia mais explicitar. O Plano Nacional de Saneamento Básico prevê esgotos coletados e tratados em 93% dos municípios, no prazo de 20 anos. Na estatística que tenho à mão, só se investiram R$ 8,4 milhões em um ano. Daí, avaliar-se a prioridade na saúde pública, quanto a lixões e a progressiva contaminação do solo, da água e do ar, que contribuem para agravar os indicadores de saneamento básico. Em verdade, sabemos todos que, somente com educação e saúde, chegaremos a ser uma nação desenvolvida e rica.


78755
Por Manoel Hygino - 6/10/2014 11:19:27
Recebi, com profundo pesar, a notícia do falecimento do Luiz Carlos Novais, o Peré, aos 61 anos. É uma perda inestimável para o jornalismo montes-clarence e para os que privaram de sua amizade. Trouxe alegria em seu nascimento num dia de Natal, mas nos deixa uma lacuna.


78693
Por Manoel Hygino - 27/9/2014 11:21:54
Esporte e crime


Manoel Hygino - Hoje em Dia

Os tempos mudaram. Antigamente, futebol era com bola; mais recentemente se pratica com bala, projétil. É o que se depreende pelas partidas mais importantes, os chamados clássicos, como se observa em várias regiões do país. Minas Gerais, até há pouco de gente recatada e pacata, não fica atrás nessa autêntica marcha da violência. O balanço policial de Cruzeiro x Atlético, dias atrás, é dura prova de agressividade, que foge inteiramente aos padrões e protótipos do mais puro esporte. Quatro pessoas baleadas, 22 rojões, duas bombas, um sinalizador e um soco inglês apreendidos.
Na fronteira entre os adversários, bombas foram lançadas em ambas as direções, como no ano passado, quando uma caiu na torcida do Galo. Em 2012, houve arremesso de objetos contra espectadores durante jogo no Independência. No início da tarde do último prélio, quatro atleticanos foram baleados na Floresta, quando esperavam coletivos para deslocamento ao Mineirão. Trocaram-se provocações e dispararam-se os tiros, com quatro feridos recolhidos ao HPS.
Brigas e tumultos caracterizam praticamente os jogos, que deveriam ser espetáculos de salutar convivência, não um selvagem enfrentamento, capaz de repercutir negativamente no futuro das pessoas, física e psicologicamente.
No caso mais recente, seis torcedores foram processados, três dos quais proibidos de frequentar estádios nos próximos quatro meses, conforme definido pelas autoridades. Uma, não aprovou o estabelecido e terá processo tramitando normalmente. Um segundo se apresentava em tal estado de embriaguez que não teve condições para sequer tomar decisão. De um terceiro cidadão, não foi possível acessar antecedentes criminais. A PM, todavia, apurou que as bombas atiradas na arquibancada partiram das torcidas.
Pelos fatos e circunstâncias, conclui-se que esses “torcedores” não se deslocaram ao estádio pelo simples desejo de assistir a uma peleja de futebol. Para ali foram dispostos a uma batalha campal, para o que se armaram até com instrumentos como aquele que matou um jovem torcedor do Peru numa partida do Corinthians naquele país.
O que as televisões mostraram em torno do grande estádio depõe contra os foros de civilização deste país. São jovens e homens maduros, mulheres se atracando, trocando socos, chutando corpos, especialmente as cabeças, em cenas bárbaras. Não se trata de brincadeiras de mau gosto, mas inequívocas demonstrações de falta de respeito entre seres humanos, aparentemente despreparados para viver em sociedade.
Baderneiros e/ou marginais transformaram as “torcidas organizadas” em bandos sem compromisso social, moral ou esportivo. Estão dispostos a todo tipo de arruaças e agressões, como se registra em todos os estados. Haja vista o torcedor que, em estádio do Recife, atirou um vaso sanitário sobre um cidadão, que perdeu a vida ingloriamente. Aqui mesmo, um suspeito de balear atleticanos no jogo recente, seria integrante de um desses grupos. Unidas para o crime, como se constata.


78686
Por Manoel Hygino - 26/9/2014 09:45:41
O tempo de Getúlio

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não gosto deste tipo de redação – quando me vejo constrangido a registrar em papel sobre minhas coisas. Acontece, no entanto, que tampouco posso omitir-me. As linhas iniciais do comentário desta sexta-feira (26) são para contar que, no dia 28 de setembro, na incipiente primavera, será apresentado no Clube de Leitura/ Ateliê/ Galeria Felicidade Patrocínio, em Montes Claros, o meu livro “Vargas – De São Borja a São Borja”.
A instituidora desse local de arte, letras, cultura, uma artista de alto nível, quis com o ato de domingo homenagear Getúlio, amado e repudiado, personagem que entrou definitivamente para a história, por sua vida e por sua trágica morte.
Quem abre a programação é Yvonne de Oliveira Silveira, presidente da Academia Montes-clarense de Letras, singular expressão de dedicação às letras, professora universitária, integrante de várias entidades atuantes na área, que – a todas as promoções – comparece altivamente, elegante e lúcida, sapatos altos, para desenvolver considerações sobre os temas propostos. Na altura de seus 100 anos, que completa em dezembro, cercada da estima e da admiração de todos que a conhecem e perdem os que não a conhecem.
O atual é período muito próprio para tornar mais conhecido o volume, que desvenda e revela episódios importantes, ignorados ou nebulosos, sobre Vargas, desde seu nascimento em São Borja, até o suicídio no Palácio do Catete, em 24 de agosto de 1954, em momento tormentoso da vida brasileira.
O advogado Petrônio Braz, membro de várias academias e presidente da que se fundou no Vale do São Francisco, fará uma análise do trabalho publicado e ater-se-á à figura de Vargas. Pois naquele ano indelével, Petrônio, jovem e já envolvido em movimentos políticos, viajou a Belo Horizonte para receber Vargas, no aeroporto, em sua última viagem fora da capital da República.
O filho de Brasiliano Braz, outro barranqueiro que amou e se orgulhou da terra em que nasceu, descreverá Getúlio, desde as margens do rio Uruguai, onde surgiu à vida e para a história, como diz em sua carta-testamento. Transcorridos decênios de seu desaparecimento, Getúlio permanece figura fulgurante no cenário político e a focalização de seu nome poderá servir à meditação, em época de mais uma eleição presidencial. Evidentemente, o analista dissertará sobre o passado e o presente, sinalizando novas perspectivas para o Brasil e as novas gerações.
Como acontece nessas reuniões, os presentes poderão expor seus pontos de vista, aduzir dados e comentários, que se prestem a melhor entender e sentir a significação do focalizado, isto é, Vargas. Para o autor destas mal traçadas linhas, é momento muito especial, porque pelo crivo desses debates já passaram pelo mesmo local nomes como os de Rubem Fonseca, recentemente falecido, Guimarães Rosa, o conterrâneo Cyro dos Anjos, o próprio Petrônio por sua “Saga de Antônio Dó”, o outro conterrâneo Darcy Ribeiro, Clarice Lispector, e o “Cantar de Amiga”, de Yvonne, dentre outros.


78612
Por Manoel Hygino - 18/9/2014 08:46:01
Chico Xavier está firme

Manoel Hygino - Hoje em Dia

No princípio, era o verbo. E o verbo – além de sinônimo de palavra – é tão importante que teologicamente identifica a segunda pessoa da Santíssima Trindade, encarnada em Jesus Cristo. É altíssima, portanto, a importância da palavra, do verbo.
Pois um depoimento que teria sido dado, informalmente, por Chico Xavier, durante jantar em sua casa em Uberaba, em 1986, serviria de introito, com a devida vênia, para este comentário sobre um livro publicado sob o título de “Não será em 2012”.
Os autores são Marlene Nobre e Geraldo Lemos Neto, que não conheço o trabalho, não consegui sequer um exemplar, até porque não dispunha de referência sobre a editora, sua localização e data de lançamento. No entanto, como o tema serviu à produção de um filme – “Data Limite – Segundo Chico Xavier”, com direção de Fábio Medeiros e codireção de Juliano Pozati e Rebeca Casagrande –, o assunto ganhou dimensões pela reportagem assinada por Ana Elizabeth Diniz.
Segundo Geraldo Lemos Neto, um dos escritores, “Chico Xavier nos informou que havia dado à humanidade terrestre um período extra de tempo de 50 anos a partir do momento em que o homem pisou pela primeira vez na lua, em julho de 1969”.
Constituía uma previsão e um alerta do médium de Pedro Leopoldo: “O que a raça humana e, principalmente, as nações mais poderosas e desenvolvidas do mundo fizeram neste período que se encerra em 2019, é que atestará a capacidade de nos desenvolvermos mais rapidamente e em paz a caminho de uma comunidade interestelar, gerando avanços ainda inimagináveis numa sociedade mais fraterna e mais justa, num mundo em regeneração”.
Há sempre um mas. Este aparece no texto seguinte: “Caso contrário, atrasamos o nosso passo evolutivo com um conflito nuclear de consequências arrasadoras e imprevisíveis”. Isto é, o futuro do planeta e de tudo que nele existe está atrelado às decisões que o homem tomar.
O coautor do livro resume: “Se passarmos esse prazo de 50 anos, sem nos lançarmos à terceira guerra mundial, então entraremos em um glorioso período de desenvolvimento acelerado, conquistando conhecimentos mais largos sobre nossa existência e integrando-nos definitivamente com a comunidade das civilizações extraterrestres mais evoluídas do que nós, absorvendo os ensinamentos e recebendo delas uma imensa e inimaginável cooperação”.
Os anúncios e advertências de Chico Xavier, pela credibilidade que ele tem e merece, devem ser analisados com isenção e bom senso. Os norte-americanos insistem em que não há seres de outros planetas a visitar-nos, o que contrasta com as ideias de conceituadas personalidades.
O ET de Varginha poderia ser uma notável realidade. Os exibidores de cinema poderão retirar das prateleiras os velhos filmes de viagens interplanetárias e levá-los às televisões.
Chico comentou: “fazemos parte de uma família universal e não somos o único mundo criado pro Deus”, e “Irmãos de outros planetas mais evoluídos terão permissão para nos apresentar abertamente”. É assunto muito próprio para Fernando Guedes de Melo.


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Por Manoel Hygino - 4/9/2014 09:23:28

Mistério de Itacambira

Manoel Hygino - Hoje em Dia

João Camillo de Oliveira Torres, pesquisador e estudioso de nossa história, focaliza, em “História de Minas Gerais”, as casas religiosas e santuários construídos pela piedade popular. Além das igrejas nas cidades, havia asilos e educandários. Nasciam pelo esforço e tenacidade de um ermitão de burel azul, bordão e relicário.
Entre eles, estão o Caraça, a ermida e o asilo da Serra da Piedade, a cidade santuário de Congonhas do Campo, e o colégio de Macaúbas, sítios inscritos na história da religião, das letras e das artes em Minas. São obras materiais e obras pias de relevo no processo de conquista da terra, da disseminação da religião e do fortalecimento do poder real.
O mais antigo é o recolhimento de Macaúbas. Mas houve também a Casa de Orações do Vale de Lágrimas, fundado em Itacambira, pelo padre Manuel dos Santos, em 1756. Segundo João Camillo, era um misto de convento e de colégio, chegou a ter muitas alunas e foi sempre muito elogiado por autoridades civis e eclesiásticas. Furtado de Menezes o considera o mais antigo colégio de Minas, embora hoje esquecido ou raramente citado.
Itacambira é uma pequena cidade no Norte de Minas, que ganhou publicidade quando se descobriram corpos mumificados na pequena igreja. O fato ganhou espaço na imprensa e reportagens foram inseridas nas páginas das grandes revistas e jornais. Eu mesmo estive lá para conhecer a localidade, o templo, a população, os fatos.
O engenheiro Simeão Ribeiro Pires, estudioso da região, fez aprofundada pesquisa e, em seu escritório em Montes Claros, guardou consigo uma daquelas múmias. Algumas delas, removidas dos porões da própria igreja, foram transferidas ao museu da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio de Janeiro.
Em Itacambira, teria existido a lagoa do Vupabussu, provável local da mina de supostas esmeraldas, descobertas por Antônio Dias Adorno, e que o bandeirante Fernão Dias veio procurar. O bispo de Montes Claros, dom João Antônio Pimenta, deslocou-se da sede da diocese para tentar achar a antiga lagoa e a Serra Resplandecente, fazendo relato circunstanciado ao governador. Ao contrário do esperado, encontrou sinais de uma febre endêmica, possivelmente tifo.
Itacambira já pertenceu a Minas Novas, Grão Mogol e Montes Claros, conseguindo autonomia administrativa em 1962. Lá se chegava por estradas de terra, de difícil acesso, mas com belas paisagens. Ladrões andaram por lá e furtaram bens da igreja de Santo Antônio, certamente não muito valiosos.
O que também mereceu atenção da mídia, em 1966, foi a reportagem de cinegrafistas americanos para uma edição costa a costa. Contava que Itacambira desapareceria, pois a população seria extinta pelo barbeiro e o mal de Chagas.
Não acharam o colégio, nem foi procurado, tampouco ouvi falar a respeito em autores recentes, como aconteceu com as esmeraldas de Fernão Dias, que acabou acometido por uma febre que o conduziu aos últimos dias.
Não se pode deixar de registrar, finalmente, que naquela igrejinha teria sido batizada a menina que, em “Grande Sertão: Veredas” foi a Diadorim, de Guimarães Rosa. Ao fato, aliás, faz referência Simeão em um de seus bons livros. Mistérios que pedem pesquisas. Itacambira e a história merecem.


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Por Manoel Hygino - 1/9/2014 09:16:48
O silêncio dos magistrados

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Doutor Honoris Causa por várias universidades no exterior, o ex-presidente acha que só ele tem direito de falar. Ministros do Supremo Tribunal Federal deveriam manter silêncio sobre os problemas do país e da administração dos negócios públicos.
Lula declarou peremptoriamente, em fevereiro último, e os jornais, que não brincam em serviço, publicaram: “Se quer fazer política, entre num partido político e seja candidato”. A crítica foi formulada, em Ribeirão Preto, durante evento com líderes do agronegócio, quando o ex-metalúrgico discursou ao se tocar no caso mensalão. “O papel do ministro da Suprema Corte é falar nos autos do processo e não ficar falando para a televisão o que ele pensa”.
Disse mais, repetitivo: “O cidadão, se quiser fazer política, que diga: ‘não aceito ser ministro (do STF), vou ser deputado, vou entrar num partido e mostrar a cara’”. Sem citar José Dirceu, José Genoino e Delúbio Soares, já então detidos, Luís Inácio choramingou, alegando que o seu partido “está sofrendo, pois tem companheiros presos, com os quais se solidarizava”. “Tenho que pagar se tiver prova contra mim, a Marta (Suplicy) tem que pagar e cada um de vocês (eram 1.500 pessoas no auditório) têm que pagar porque foi o nosso partido que não deixou sujeira debaixo do tapete. O que vale para nós tem que valer para todos”.
Lula preconizou que a campanha de 2014 não seria fácil. “Os tucanos não brincam em serviço, porque ninguém tem um bico daquele tamanho à toa. É bico de predador, de comedor de filhotinho”, asseverou.
O antecessor de Dilma evita tocar no assunto Petrobras, nos preços de energia elétrica, no subpis. Não alude as vendas de veículos e motos que, neste ano, tiveram o pior desempenho desde setembro de 2012. Nem considerou que os carros vendidos no Brasil estão entre os mais caros do mundo.
Feita a conversão de moedas, os adquiridos nos Estados Unidos chegam a ser duas ou três vezes mais baratos. Assim, o trabalhador daqui tem que suar quatro anos, três meses e 22 semanas para adquirir um.
Tampouco interessa. Mas Luiz Gonzaga Belluzzo, professor da Unicamp e conselheiro da presidente, admite que a situação está difícil. “A gente não pode se enganar”, até porque o próximo governo terá de resolver duas encrencas: reajustar preço da gasolina e deixar o dólar subir.
O que nos conduz inapelavelmente às declarações da ministra Carmen Lúcia, vice-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), que evidentemente não tem o direito de se manifestar, direito só dos políticos, segundo Lula.
“Muitas vezes, especialmente na parte administrativa, eu acho que estou maquiando cadáver. Esse Estado brasileiro, como está estruturado e como a Constituição previu há 25 anos, não atende mais a sociedade. O que era esperança, na década de 1980, pode se transformar em frustração. A tendência de uma frustração, o risco social é se transformar em fúria. E, quando a fúria ganha as ruas, nenhuma ideia de Justiça prevalece.


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Por Manoel Hygino - 30/8/2014 10:12:56
Quatro meses, e um novo ano

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Era uma vez, um país que se afirmava feliz, amante da paz, de gente cordial e amável, solidária e prestimosa, mas que andava devagar. Para que pressa? Hoje, tudo é rápido, vertiginoso, célere e agitado. Quem tem pressa como cru. O resultado se pode avaliar pela estatística. Acidentes de trânsito deixaram mais de 563 mil mortos no Brasil de 2003 a 2012, conforme dados do Dpvat. Sem falar em quase dois milhões de feridos.
Independentemente de partidos e candidatos, os fatos – os números – e as evidências demonstram que não estamos bem. A avaliação é de pessimismo, mas verdadeiramente nele vivemos e os que conosco não concordam sabem que temos razão. Existem pessoas que preferem narcisisticamente usar os aparelhinhos para tirar a própria foto, deixando para lá a preocupação com a realidade. Crime de omissão. A verdade tem muitas faces e cada um lhe dá a interpretação que mais lhe satisfaça.
Na primeira quinzena de agosto, já se publicava que “a desaceleração nas vendas do comércio, que bateu forte no varejo especialmente na época da Copa do Mundo, teve impacto negativo no emprego do setor”. Também a indústria demitiu mais que contratou. Indústria e comércio aliados na frustração.
As coisas não marcham a bom vapor. Por exemplo: cerca de 12% dos revisores de redação foram“reprovados” na última edição do ENEM. Atente-se: as redações são corrigidas por profissionais da área de letras e passam por processo de capacitação. Parece incrível, mas não é.
A poderosa PETROBRÁS, que com calor e entusiasmo os brasileiros criaram, há décadas, vê-se atirada no olho do furacão, envolvida em escândalos com repercussão internacional. Nem vamos falar em Passadena. Vamos referir-nos à demissão de empregados, traduzida como “demissões voluntárias”, visando redução de custos. O plano envolve 8.379 petroleiros.
No mesmo diapasão trabalha a indústria automobilística, usada demagogicamente para dar uma falsa noção de propriedade aos “trabalhadores do Brasil”, como discursivamente Getúlio saudava o povão no Estádio de São Januário, durante o Estado Novo. Pois bem. Até a primeira metade de agosto último, o setor cancelou contrato com 5.600 trabalhadores, a maioria nos programas apelidados de “demissão voluntária”. Pois, sim.
A Volkswagen dará férias coletivas a 4.500 operários de uma unidade de Taubaté e a Fiat suspende parte de produção em Betim. E a indústria de autopeças segue a via dolorosa.
Dependendo de São Pedro, que grave responsabilidade tem sobre os terráqueos, muito poderemos sofrer nos últimos meses de 2014, ao abrir e fechar as torneiras celestiais. Como dizia Aureliano Chaves, não adianta tapar, ou tentar, tapar o sol com a peneira. Fatos são fatos.
A própria Fundação Getúlio Vargas, que não é um organismo da oposição, já se manifestou. O Brasil passou por recessão técnica no primeiro semestre. A última vez, como registrou o IBGE, fora no início de 2009, na esteira da crise financeira mundial. Os males se repetem.


78531
Por Manoel Hygino - 29/8/2014 09:42:19
Um doente em agonia

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O tempo segue vário, adjetivo utilizado pela “Folhinha Mariana”, por décadas e décadas consultada pela gente humilde do interior mineiro para saber o que a aguardaria após a semeadura e plantio. E se as chuvas não chegarem em 2014, como aconteceu no inverno do ano passado? A situação não afeta somente as represas que abastecem de água e movem as turbinas do sistema energético.
Já estamos em um novo ciclo e o sertanejo olha para o céu – sem nuvens. Nas cidades, espera-se que a água bendita baixe a poeira e carregue a sujeira das ruas. Nos burgos menores, fazem-se novenas e promessas. E a chuva... nada.
Leio que os meteorologistas estão otimistas com mudanças a partir de outubro. Mas será época de eleições. Chuvas não poderão atrapalhar o comparecimento do eleitorado às urnas?
No Norte de Minas, as temperaturas serão dois graus a menos, causados por El Niño, fenômeno que só mais recentemente surgiu no panorama climático. A perspectiva é de mais chuva na região central do Brasil, podendo também ajudar a região mineira de seca. Se os meteorologistas estiverem certos, claro.
Parece existir uma conspiração firme e incessante contra as fontes naturais do progresso e da grandeza nacionais. Estamos ampliando o precipício a que seremos atirados irreversivelmente. Poderia parecer catastrofismo, se se disser que há generalizada falta de consciência sobre nossa responsabilidade perante as atuais e futuras gerações. E não somente dos políticos.
É algo muito pior do que o terremoto que abalou o norte da Califórnia, como aqui descrito pelo jornalista Ricardo Galuppo, e do que o do Chile e no Peru, no último domingo. A nossa tragédia poderá durar décadas e séculos.
Escrevi que o São Francisco agoniza. Não é força de expressão. O experimentado advogado e conhecedor dos problemas regionais deste Estado, Petrônio Braz, evocou, há poucos dias, o pernambucano Salomão Vasconcelos: “Em menos de cem anos, o rio São Francisco será apenas um grande cânion, cortando um extenso deserto central”, como há decênios ouvi de conceituados técnicos.
O que foi feito de concreto? O próprio Petrônio raciocina:
“Hoje, estamos convictos dessa dolorosa realidade. Em menos de uma geração, nós, brasileiros, destruímos o rio São Francisco. Muito se tem falado, demagogicamente, em defesa do rio São Francisco, em revitalização, em desassoreamento, e até em hidrovia – idiotas de gabinete –, mas nada, absolutamente nada, foi feito ou está programado, de forma positiva, realista. O governo federal ainda persiste com o faraônico projeto de transposição das suas águas para o Nordeste, como se fosse possível transformar um doente em agonia em doador de sangue”.
Catastrofismo? Repito a pergunta. Não me parecem alvissareiros os horizontes. Há poucos dias, o diretor do Operador Nacional de Sistema previu que as hidrelétricas em operação deixariam de receber, em agosto, 13% de volume de água para atender ao sistema elétrico. Além do mais, já se sabia que as usinas do Sudeste e do Centro-Oeste passariam, em agosto e setembro, pelo período mais crítico dos últimos anos. E setembro está aí.


78509
Por Manoel Hygino - 25/8/2014 09:04:13
Um outro BBB

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A trajetória de Darcy Ribeiro pela vida política e intelectual brasileira é de apenas conhecimento superficial, como ocorre com outros raros cidadãos do país. Recordo quando ele lançou livro sobre os costumes dos cadiueu, uma tribo do oeste brasileiro. Foi, salvo engano, a primeira publicação sua numa área de pessoal encantamento. Começava a encontrar-se e encantar-se com a América Latina.
Darcy viveu um dos períodos mais agitados da história brasileira. Foi ministro, chefe da Casa Civil da Presidência da República, fundador de uma universidade em uma cidade construída para ser capital nacional.
Nascido em família ilustre do sertão mineiro, foi um dos seus filhos mais prestigiosos e expoente. Suas eventuais extravagâncias, entre as quais a fuga de um hospital em que tratava de câncer, foram fruto ou consequência de sua maneira especial de viver e de encarar a vida.
Em 1962, como primeiro reitor da Universidade de Brasília, decidiu criar e publicar a Coleção Biblioteca Básica Brasileira, com notáveis méritos. Lamente-se que, com as mesmas iniciais, pôs-se no ar um programa de televisão que nada tem a ver com o Brasil e a educação. O objetivo de Darcy era proporcionar um conhecimento mais profundo da história do país e de sua cultura.
Agora, a Fundação Darcy Ribeiro vem publicar a primeira coleção de dez volumes, de um total com 150 diferentes títulos, que constituirão a Biblioteca, um dos mais acalentados sonhos do ex-ministro da Educação do governo João Goulart.
Os dez volumes me chegam, com o abraço fraterno de Paulo de F. Ribeiro, presidente da Fundação Darcy Ribeiro, e do irmão Ucho, que seguem à risca o desenvolvimento do programa do tio.
Observe-se a lista desta relação: “A América Latina”, de Manoel Bonfim; “América Latina: A Pátria Grande”, de Darcy Ribeiro, com prefácio de Eric Nepomuceno; “As Religiões no Rio”, de João do Rio; “Braz, Bexiga e Barra Funda”, de Alcântara Machado”; “Cultura e Opulência do Brasil”, de André João Antonil; “Memórias de um Sargento de Milícia”, de Manuel de Almeida; “Minha Formação”, de Joaquim Nabuco; “Os Bruzundangas”, de Lima Barreto; “Os Sertões”, de Euclides da Cunha; e “Viagem ao Brasil”, de Hans Staden.
Pela enunciação dos títulos, observa-se que se trata de um projeto do mais alto nível, com edição patrocinada pela Petrobras e Correios. Assim se valoriza a memória cultural brasileira, promovendo-se a democratização do acesso à cultura e o fortalecimento da cidadania.
Interrompido o programa na ditadura militar, foi ele retomado pela Fundação Darcy Ribeiro, aliada à Fundação Biblioteca Nacional e à Editora UnB. A partir daí, constituiu-se um comitê editorial para redesenhar o projeto e executá-lo, com a inclusão de novos títulos.
Isso quer dizer: 150 obras, totalizando 18 mil coleções, somando 2 milhões e 700 mil exemplares, para distribuição gratuita por meio das bibliotecas públicas em todo o país.


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Por Manoel Hygino - 22/8/2014 08:51:38
O carente São Francisco

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O historiador João Ribeiro, um dos notáveis polígrafos do Brasil no século passado e cujo sexagésimo aniversário de morte este ano se registra, deixou consignado: “...excluído o mar, caminho de todas as civilizações, o grande caminho da civilização brasileira é o rio São Francisco; é nas suas cabeceiras que pairam as grandes bandeiras, e daí se expande e ondula o impulso das minas, é no seu curso médio e interior que se expande e propaga o impulso da criação, os dois máximos fatores de povoamento”.
Joaquim Ribeiro, que não é o romancista de “A Carne”, mas o renomado polígrafo elogiava: “A amenidade do clima, a fertilidade da terra e a abundância da água garantem a higidez da população, que só conhece as catástrofes das grandes cheias, que, todavia, prenunciam safras prodigiosas vindouras”.
A situação não é mais tão feliz, como atestam as informações, contidas em relatórios oficiais e na imprensa, que não deixa de advertir pra os problemas atuais. As águas deixaram de servir, há muito, apenas ao abastecimento da população e à agricultura, porque o país necessitava de energia elétrica e o rio poderia prestar eficiente contribuição. Três Marias e Paulo Afonso o demonstram.
A ideia de aproveitamento das águas para suprir demandas do Nordeste foi posta em execução – sempre atrasada – pelo ex-presidente da República Lula, enquanto não se assegurava à suficiência o controle da qualidade e quantidade de volume emanado dos altos de São Roque e, em seguida, dos demais afluentes da miraculosa bacia.
Mas o São Francisco já não é o mesmo, diminuiu, se degradou, sem que se tomassem medidas prévias indispensáveis. A corrente é hoje frágil e a seca, que atormenta ponderável parte de Minas Gerais, atinge enormemente o rio da unidade nacional, com o sistema energético necessitando ininterruptamente de socorro das térmicas.
Enquanto a maior cidade do país sofre a falta d’água até nas torneiras, o espectro do racionamento de energia, sempre negado pela autoridade competente, passeia por um cenário de incertezas. Em Três Marias, por falta de água suficiente, reduziu-se o trabalho das turbinas, enquanto a cidade de Pirapora, mais embaixo, entra em regime de contenção de consumo. As populações ribeirinhas padecem angústia cotidiana e há previsões sombrias, a curto e médio prazos.
A própria navegação, sustentáculo da economia de extenso território, é afetada. A paralisação das viagens do velho Benjamim Guimarães, vapor de tradição nas barrancas, adverte para a gravidade do problema. Lembramos que a embarcação, trazida dos Estados Unidos, é a última movida a lenha ainda em atividade no mundo. No rol de adversidades, envolve-se, ainda, o turismo, valiosa fonte de economia para este segmento do São Francisco e oferecendo perspectivas alvissareiras.
O vapor interrompe o curso após 101 anos de sua construção, enquanto a cidade em que se inicia a navegação do Velho Chico se vê na contingência de lançar mão de solução de emergência para não faltar o precioso líquido nas torneiras. Sinal dos tempos!


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Por Manoel Hygino - 18/8/2014 08:34:01

Cem anos de belas lições

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Agosto, 14. Na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, por proposta do deputado Carlos Pimenta, prestou-se homenagem à professora Yvonne Silveira. Nenhuma iniciativa mais legítima e justa. O preito se deu ao ensejo do seu centenário de nascimento, enquanto se promoviam as festas típicas do mês na maior cidade do norte-mineiro, em que ela nasceu e a que dedica toda sua vida.
Em todas as ocasiões e lugares em que se fazia necessária sua presença no campo cultural, educativo, literário, artístico e cívico, lá estava. Suas aulas na faculdade se caracterizavam pela livre manifestação, interação e harmonia com seus discípulos. A mestra insistia na tecla da leitura dos bons livros e dos bons autores, como condição de formação intelectual, de êxito pessoal e profissional e, por extensão, para desenvolvimento do ser humano e da pátria.
As aulas constituíam, enfim, lições de espírito cristão, de transmissão de ensinamentos imprescindíveis, de sabedoria e brasilidade, de respeito ao passado e da visão de futuro.
No finalzinho de 2013, programavam-se os festejos, a que ela modestamente disse não fazer jus. Desde então, comoventes encontros se sucederam para cumprir, ou não, o que se deliberava. Dona Yvonne já deixara de pertencer-se, para pertencer à sua cidade, à sua história, à sua gente, a seus costumes e tradição, a seus ideais, ao magistério universitário, às letras.
Presidente da Academia Montes-clarense de Letras há muitos anos, tem dedicado ininterruptamente aos nobres objetivos da entidade identificada como “A Casa de Yvonne Silveira”, com Y e duplo n, como convém. No decorrer do calendário de 2014, tem sido alvo de sucessivas manifestações de apreço e admiração, e razões suficientes existem.
Dona Yvonne, grande dama da intelectualidade regional, não falta a compromissos, desloca-se a todo lugar e na hora em que é chamada, e persiste em sua linha de conduta neste ano como o fez ao longo de toda a existência. Jovem, em seus cem anos, não tergiversa, não falha. Um exemplo genuíno da tenacidade da mulher do sertão mineiro.
Lecionou literatura na Faculdade de Filosofia, a FAFIL, mas sua vida é a grande lição, insinuante no salto alto, a voz firme, a argumentação segura, a memória fantástica, que jamais deixa escapar um detalhe. Doutora em Literatura, o é também em comportamento e elegância.
No Dia Internacional da Mulher, institucionalizou-se a proposta de atribuir a uma brilhante mulher a placa alusiva à data. Por sinal, a distinção foi conferida exatamente a Dona Yvonne, nem poderia ser de outra maneira.
Esta apenas uma das expressões de carinho a quem se mudou da cidade natal, adolescente, apaixonou-se, casou-se e viveu com seu eleito durante 76 anos, um amor que parece novela, mas nunca se apaga.
Viúva, não se dobrou como o junco à adversidade. Não perdeu a doçura, o entusiasmo, o charme, a voz suave, o leve sorriso, para continuar a vida. Que completa um século, mas tem muito mais caminho a percorrer.


78382
Por Manoel Hygino - 29/7/2014 09:04:32
Caetana, a inexorável

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não só agosto traz desgosto como geralmente se crê. Não apenas o oitavo mês é aziago, como se pensaria, o que se depreende dos fatos registrados em julho de 2014. Depois do misterioso desaparecimento do vôo MH 370 da Malaysia Airlines, em 8 de março, desastres aéreos se repetiram e daquele sequer se encontraram vestígios da tripulação e passageiros a bordo, somando 239 pessoas. Abdução?
Em seguida, o vôo MH 17, ainda da Malaysia Airlines, deixou 298 pessoas mortas, ao sobrevoar o Leste da Ucrânia, talvez abatido por um míssil, em meio ao complexo ambiente de tensão entre a Rússia e Ocidente. Houve mais. Na sequência, um jato com 118 passageiros e tripulantes sumiu dos radares entre Burkina Faso e Argélia. Era a terceira grave ocorrência na aviação comercial em apenas sete dias, sem falar na queda de um bimotor da Transásia, em Taiwan.
Meras coincidências?
Porque, cá entre nós, também sofremos no Brasil golpes no período. O irreverente escritor João Ubaldo Ribeiro, baiano e fumante inveterado, fugiu ao rol dos vivos, entre os quais os seus confrades na Academia Brasileira de letras. Legou inédito “O correto uso do papel higiênico”, que certamente trará novidades.
Mineiro de Boa Esperança, cidade cantada em música e letra na composição de Lamartino Babo, subiu a lugar feliz Rubem Alves, embora pouco caso se tenha presentemente às boas e bonitas coisas do intermezzo terreno. Deixou escrito: “Compreendi, então, que a vida não é uma sonata que, para realizar a sua beleza, tem de ser tocada até o fim. Dei-me conta, ao contrário, de que a vida é um álbum de mini-sonatas. Cada momento de beleza vivido e amado, por efêmero que seja, é uma experiência completa que está destinada à eternidade. Um único momento de beleza e amor justifica a vida inteira”.
Finalmente, no entardecer de 23 de julho, Ariano Suassuna, largou as amizades e admiradores da Terra, para fazer alegria em novas companhias. Sofrera um AVC, foi operado em Recife e entrou em coma, para em seguida deixar seus seis filhos e quinze netos.
Nasceu em 1927, em Nossa Senhora das Neves, hoje João Pessoa, capital do estado, em 16 de junho, entre as festas de São João e São Pedro. Seu pai, João Suassuna, era governador da Paraíba. Após o mandato, mudou-se com a família para o interior. Quando Ariano tinha 3 anos, na revolução de 1939, um pistoleiro executou-lhe o pai com um tiro pelas costas, numa rua do Rio de Janeiro. Apontavam-no como mandante do assassinato de João Pessoa, que o sucedera no governo, também assassinado. Um dia antes, deixara carta aos nove filhos pedindo para não tentarem vingar-lhe a morte. Escritor feito e consagrado, querido, o autor paraibano, confessou: “Escrevo para enfrentar a transitoriedade. Não gosto da idéia de ter medo de morrer. A morte, na Paraíba, é uma mulher e se chamava Caetana. Eu me contento de encarar a maldita, se ela vier na forma de uma mulher, acolhedora, carinhosa, bonita e amante”.
Se bela e afetuosa, não se pode dizer, mas ela chegou. Mas Ariano, como Rubens, o mineiro, e João Ubaldo, o baiano, foi juntar-se às centenas de vítimas das aeronaves sinistradas e outros desastres graves. Caetana é inevitável e inexorável, em vias aéreas ou terrestres.


78348
Por Manoel Hygino - 22/7/2014 09:16:56
Onde a bossa-nova surgiu

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Vinícius de Moraes tinha raízes mineiras, dos Machados que produziram Lucas, o grande médico, Lúcia – a escritora, o acadêmico Ângelo Machado e tantos outros personagens queridos; Noel Rosa, já se viu, também teve ancestrais na montanha e, no ápice da carreira, veio aqui buscar cura de tuberculose; mais recentemente, descobri que João Gilberto veio a Minas para haurir na fonte inspiração para a bossa-nova.
E escolheu para sua experiência nada menos que Diamantina, terra de Juscelino, o carismático governador e presidente, empregado dos Correios antes de fazer o curso de Medicina e colar grau em 1927, ao lado de Pedro Nava, entre outros. E JK foi apelidado de “o presidente Bossa-nova”.
Ruy Castro, ao elaborar o seu “Chega de Saudade”, recorda a passagem de João Gilberto pela terra de Juscelino, de Francisco Nunes, o maestro, e em que viveu Helena Morley, a menina-prodígio – autora de um livro inesquecível, avó do acadêmico Eduardo Almeida Reis.
Acontece que Castro, o brasileiro, de nome Ruy, não se aprofundou no estudo sobre JK em Diamantina, como informou Juscelino Roque, conhecedor das pesquisas de alto nível realizadas por Wander Conceição sobre a histórica cidade e suas personalidades. Por sinal, o autor ainda luta para conseguir recursos para continuação de seu minucioso e revelador estudo.
Parece estranho, bossa-nova–Diamantina. Mas é fato. Aliás, o trabalho de Wander sobre a influência de Minas e de Diamantina na gestação da bossa-nova já extrapolou as fronteiras de Minas e do Brasil. O suicida jornalista alemão Marc Tischer lançou um livro em sua pátria com o título “Ho-ba-lá-lá, à procura de João Gilberto”, citando uma entrevista com Wander. Este trabalha seu projeto, há mais de década, sozinho, sem ajuda financeira de governo ou empresarial, mas não desiste. Ele sabe da valia de seu esforço.
Mas não somente Ruy Castro entrou no tema. Zuza Homem de Mello produziu um livro de 120 páginas, lançado em 2001, para festejar os 70 anos do compositor, explicando tecnicamente a formação do ritmo e dos acordes da bossa-nova. Diz Zuza, na página 33, que: “Foi especificamente em Diamantina, em 1956, que João Gilberto atingiu a magia que procurava”.
Como o compositor apareceu na terra dos diamantes? A irmã Maria da Conceição Dadainha era casada com um engenheiro civil, Péricles Rocha de Sá, que chefiava obras de uma rodovia na região, a BR-367. Antes, vivera em Diamantina um irmão de João Gilberto, o Jovino, que estudou no colégio Diamantinense, responsável por ensino de primeira qualidade. Mas ainda tocava violão e jogava futebol, pescava, além de integrar o Tiro de Guerra.
Os diamantinenses não conseguiam ver João Gilberto. Ele se enfurnara na casa do cunhado e da irmã, por oito meses. Trancava-se no quarto com o violão e não saía sequer na calçada. Fechava-se horas e mais horas no banheiro, também com o violão. À noite, percorria de meias, para não fazer ruído, os corredores da casa. Depois cantava e tocava baixinho, ao lado do berço de Marta Maria, a sobrinha, no quarto de criança. Para os diamantinenses, era um sujeito esquisito, que passava o dia de pijama tocando violão.


78336
Por Manoel Hygino - 18/7/2014 10:45:10
Espetacularização contestada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Um magistrado atuante no norte mineiro condenou pela imprensa uma operação policial que resultou na detenção de dezesseis suspeitos de malversação de dinheiros públicos, onze dos quais sequer foram indiciados. Para ele, era perfeitamente dispensável a espetacularização da diligência, porque apenas cinco foram acusados pelo desvio de R$ 35 mil, quando se anunciara um furo de R$ 10 milhões.
Eis em linha gerais, a causa da polêmica que se criou, em que se posicionaram a Associação Nacional dos Delegados da Polícia Federal, por sua diretoria regional; a Amagis- Associação dos Magistrados de Minas Gerais, que saiu em defesa do juiz Isaías Caldeira Veloso; e mais a Coordenadoria Regional das Promotorias de Justiça de Defesa do Patrimônio Público do Norte de Minas.
A crítica à ação policial resultou numa desastrosa série de críticas a que aderiram pessoas de duvidosa conduta em episódios políticos locais. Assim, a incontida animosidade tolda a vida de uma cidade, que precisa de temperança e de elevado senso de responsabilidade para sobrepairar a desentendimentos ocasionais, cujo conteúdo se percebe, e com melindres que afloram e suscitam copiosas diatribes ao magistrado.
Há de se esclarecer: o juiz em causa é cidadão cônscio de seus deveres e direitos, veemente contra os desvios de recursos públicos seja nos altos escalões da República, seja nos mais distantes grotões das Gerais. Um jornal de Belo Horizonte, sem conhecer nuances questão, inseriu em suas páginas uma nota sobre os fatos.
O magistrado voltou para dizer que nunca criticou os processos, nem juízes, mas os métodos dos investigadores, no caso o Ministério Público, com participação da autoridade policial. E mais: “Sou contra a espetacularização dos atos, com a mídia adrede preparada para filmagens e jornalistas a postos, quando das prisões. Prisões em geral por 5 dias, as tais prisões temporárias”, já apodadas atualmente de “prisões para humilhações”.
O juiz, diante daquilo que considerou uma agressão, desabafou: “Pago impostos, tenho filhos e amo meu país e a democracia. Enfim, sou cidadão. Não vou me calar, quando sentir que os postulados democráticos estão sendo atacados. Não quero ditadura, sob nenhum pretexto. Já vivi sob regime de exceção”.
Do alto de seus 54 anos, afirma ter vivido sempre às suas custas, lembrando que prendeu todos os líderes de facções criminosas da cidade (Montes Claros), recebendo a Medalha Tiradentes da PMMG, por sua maior produtividade em Minas. Orgulha-se de seu trabalho no fórum por 16 anos, sem nenhum processo ou sindicância contra sua atuação. Recebe quase 300 inquéritos por mês da Polícia Civil, a que responde trabalhando, a despeito das dificuldades operacionais. E sofre por ver-se perseguido por combater ferozmente a corrupção, inclusive por membros de um grupelho que jamais se contrapôs ao escândalo do mensalão e outros escândalos nos altos escalões.
O que preocupa o magistrado, agora, é quitar seu carro, comprado por consórcio e adquirir parta si um apartamento, deixando de vez o aluguel de R$ 1.200 que tanto lhe custa pagar ao início de todos os meses. E confia economizar para presentear, se possível, as filhas com uma viagem à Disney.


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Por Manoel Hygino - 17/7/2014 09:33:36
Morte na Semana Santa

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Felicidade é o nome, e diz muito. O currículo, extenso e rico, difícil resumir-se sem correr o risco de pecar por omissão de algum título. Mas, tento: escultora, gosta de escrever, professora de arte, ex-professora de Filosofia da Unimontes e do curso de Filosofia do Seminário Diocesano de sua cidade natal. Formada em Pedagogia Musical pelo Conservatório de Música Lorenzo Fernandez, pós-graduada em História da Arte e de Filosofia e Existência pela Universidade de Brasília, tem dezenas de artigos publicados, com textos versados inclusive para o italiano.
O espaço é curto para tantos títulos, demonstradores dos méritos dessa mulher, que lançou um livro recentemente, descrevendo a vida de um pintor norte-mineiro, premiado no Brasil e lá fora, e que viveu efemeramente, se se considerar o quanto poderia mais ter feito. Felicidade Maria do Patrocínio Oliveira, eis o nome completo da autora que integra a Academia Montes-clarense de Letras, criou e mantém um exemplar Clube de Leitura, no centro irradiador de cultura e arte, que muito honra Minas Gerais pelo que fez e faz.
Sua escultura tem enriquecido exposições em várias cidades brasileiras, enquanto outras embelezam locais nobres de sua terra natal e alhures. Para a escritora Maria Luiza Silveira Teles, é um ser humano raro, pela espiritualidade, desprendimento e doçura. Para a presidente da Academia Montes-clarense de Letras, Ivonne de Oliveira Silveira, é dona da palavra e cultiva a arte literária com estilo original e agradável.
É exatamente o que demonstra em “Raymundo Colares e o fogo alterante da criação”, lançado neste 2014, que não pode ser avaliado apenas em termos de Copa e futebol. Focalizando o pintor Ray, nascido em Grão Mogol, Felicidade retrata a curta vida e o fim trágico de uma das maiores expressões da arte mineira neste século até aqui transcorrido.
Entre nossos artistas, está Raymundo Colares, “presença fulgurante num momento crítico de transição da história das artes, quando se tornou referência do que há de mais genuíno e elevado na pintura brasileira”. Em seu livro, ilustrado com quadros do focalizado, tem-se a extensão, complexidade e beleza de um artista privilegiado. Nascido numa cidade fulgurante pela grandiosidade da natureza, transferiu-se pra a cidade maior e economicamente mais poderosa da região e ali começou a interessar-se por cinema, imagens e artistas. Introspectivo, fez-se leitor compulsivo e revelou sua inclinação pelo desenho e pela pintura.
Depois, houve muito mais, inclusive Rio de Janeiro, em 1960, tempo de transformações sociais e culturais. Sentiu espaço para voar, impressionou-se com a metrópole, que lhe abriu as portas do mundo. Fez-se professor, o que era natural, e versejava com sucesso, expôs em Londres. Após beber em um bar do Aterro do Flamengo, no Rio, foi atropelado, fraturando a perna e braços. Voltou à sua cidade, agudizou-se a droga, atirando-o à ruína, assumiu a homossexualidade, mesmo não a aceitando. Internou-se para desintoxicação. No leito, amarrado, percebeu que o colchão incendiava, talvez resultante de uma ponta de cigarro. Era Semana Santa. O corpo foi queimado quase inteiramente. Tinha 42 anos.


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Por Manoel Hygino - 14/7/2014 16:08:55
A diária da prisão

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O Brasil depois da Copa: o que será? Poderá uma competição esportiva internacional contribuir para mudanças fundamentais na vida do país e das pessoas? Fala-se no legado. Como será? Ficaremos apenas com estádios de custos altíssimos para disputas locais...ou, quem sabe, servir para jogos de várzea. Afinal, a imensidão de recursos públicos - ou seja, de cada brasileiro - terá resultado prático e bom para a gente ou restará como uma lição a ser deplorada?
Enquanto se desenrolava a Copa, muito aconteceu além do desabamento do viaduto Batalha dos Guararapes, em Belo Horizonte, e da agressão de um jogador colombiano a colega profissional do Brasil, astro da equipe. Enquanto a bola rolava, uma agência bancária em Francisco Dumont, norte de Minas, foi atacada por ladrões e roubada. Uma semana antes, explodiram um caixa eletrônico na mesma pequena e pacata cidade, chamada Conceição do Barreiro antigamente.
Daniel Marques, leitor de Virginópolis, alertava, há poucos dias, para a elevação das taxas de homicídios no país. Já em 2012, o número de mortos foi de 56.337, cinco vezes superior a apenas um ano de guerra no Iraque. E a estatística continua crescendo, enquanto o governo insiste em ser bonzinho com os que roubam, que matam, com os que não trabalham, não estudam, nada produzem.
Recentemente, o juiz de Direito Isaías Caldeira, de Montes Claros, bravo defensor das boas causas, advertia para o clima criado entre nós. Há "uma nova forma de aposentadoria precoce, através dos programas assistenciais, pois quem é inserido em tais bolsas ali permanece, sem previsão de mudanças, no gozo do ócio, sob sustento dos impostos dos que trabalham e recolhem aos cofres públicos, para o proselitismo caridoso dos mandatários ocasionais".
Enquanto isso, avultam a violência e o desrespeito a pessoas e patrimônios. O sistema prisional exibe péssimas condições, como opinou, a sua vez, o juiz de Direito de Execuções Penais de Governador Valadares, Thiago Colnago Cabral. É o que sabemos. Já em 2012, o país contava com 548.003 presos, para 310.687 vagas.
O Brasil parece privilegiar os ociosos, os viciados, os marginais, os criminosos enfim.
Suas famílias recebem benefícios e a própria proliferação da espécie é fonte pecuniária.
Os homens abandonam o trabalho e, com o dinheiro recebido da Bolsa, apelam para o álcool ou coisa pior. Recurso mensal chega do Tesouro, mesmo nas áreas rurais.
Uma verdade se diga, porque permanece como lição da Copa: é preciso mudar, mas - antes e acima de tudo - mudar o que? Para quê? Como? Quando? No caso do sistema prisional, é bom conhecer o que a Holanda está fazendo. Decidiu seguir a Dinamarca e a Alemanha ao impor a seus presidiários o pagamento de 16 euros (R$50) por dia atrás das grades.
O objetivo é obrigar o criminoso a assumir o custo de seus atos delituosos e poupar. O preso tem de entender que faz parte da sociedade e, se comente um delito, tem obrigação de contribuir para custear o ônus que provoca. Que seus atos não sejam pagos, do ponto de vista econômico, apenas pelo resto do cidadãos, advertiu o Ministério da Justiça holandês. No Brasil, o custo mensal de um preso é de R$1800, segundo o Ministério da Justiça.


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Por Manoel Hygino - 8/7/2014 08:56:28
A noite de mil anos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O jornalista Paulo Narciso, uma das melhores redações da Imprensa mineira, é um cidadão que se preocupa com os problemas de nosso tempo, do homem e da sociedade. Mais do que isso, entende e mais estuda modificações da natureza e do clima. Outro dia, ele registrou que, na madrugada de 21 de junho, sábado, o inverno começaria, oficialmente, às 02h04, com a mais longa noite do ano.
Acrescentava que, sexta-feira, o sol se poria mais cedo, às 17h31, só devendo o dia clarear às 6h23 da manhã de sábado. O dia precedente assinalou o período em que a Terra esteve mais afastada do Sol: daí, a noite ser a mais longa e o dia o mais curto. É a data do Solstício de Inverno no Hemisfério Sul, e do de Verão, no Hemisfério Norte, a que as televisões deram grande ênfase, focalizando fantásticos monumentos no Reino Unido.
Noite mais longa do ano! O fato nos direciona naturalmente à Idade Média, considerada frequentemente a mais longa das noites da história da humanidade. Contra esse ponto de vista, ergue-se Ivan Lins, belo-horizontino, da Academia Brasileira de Letras, em livros e conferências. Aliás, ao prefaciar um de seus bons livros, Afrânio Peixoto comentou, com toda razão:
“A Idade Média, por uma convenção espiritual puramente didática, é o espaço de tempo que medeia entre a Idade Antiga, que termina com o Império Romano, e a Idade Moderna, que começa com a queda da Constantinopla. Pura comodidade cronológica! O tempo antigo não acabou, menos ainda o médio, nem o moderno é geral e constante”.
Afrânio segue o raciocínio: “Idade Média, pois, é artifício, porque o tempo e seus caracteres continuam, aqui e ali, e continuarão; porque as divisões e os nomes são recentes e arbitrários. Nada mais errôneo que considerar a idade Média como a noite, o obscurantismo. Quem preparou o Renascimento foi a Idade Média”.
Lins emite seu pensamento: “Tão sedutora e cheia de atrativos é essa fase da história, onde, como em paradoxal milagre, surgem – da barbárie e do entrechoque das armas- as virtudes mesmas que constituem hoje o mais precioso apanágio do cavalheirismo; de ensinamentos”. A Idade Média não foi um dia perene, tampouco uma noite de mil anos, como a julgou Michelet.
Fala-se repetidamente sobre a Idade Média, para criticá-la. Louva-se e se gaba a beleza e grandeza da civilização romana. Mas se esquece de que, mesmo na fase áurea de Roma, os espíritos de escol não se revoltavam quando o pai deixava os filhos morrerem à porta, de fome e frio, por não querer educá-los. Simultaneamente se ignorava a selvageria habitual dos divertimentos em que mais se apraziam o povo.
Ivan Lins pergunta:“Que mais cruel do que os combates de gladiadores, essas matanças humanas, sistematicamente apresentadas ao público como soberbos espetáculos? Nada mais atraía tanto os romanos de todas as classes, e era com volúpia, que os assistentes, inclusive as vestais, se levantavam, freneticamente, como um só indivíduo, para abaixar o polegar e ter a delícia de presenciar o vencedor cravar a espada na garganta do vencido”.
A Idade Média surgiu e eliminou esse bárbaro costume, tanto quanto outros, que eram até motivo de orgulho de Roma. A malsinada Idade Média, porém, ainda pode ser identificada em episódios freqüentes do Século XXI.


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Por Manoel Hygino - 26/6/2014 09:58:37
Nossos grandes desafios

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Li, há muito tempo, a respeito da matança de jovens no Brasil. O que aqui acontece é inominável, um genocídio, uma guerra permanente não declarada que a ninguém faz bem. O assunto é imensamente exposto e discutido por todos os meios, lugares e pessoas, mas se perde no palavrório, em que os jornalistas somos envolvidos obrigatoriamente. Nem teríamos como evitar participar, porque é de cada um e de todos.
O caso dos moços deste país com menos de dezenove anos merece consideração à parte, porque é exatamente o período em que o cidadão deveria estar começando ou já trabalhando, produzindo. Não é o que acontece: três adolescentes em cada grupo de mil morrem no país antes de alcançar essa idade, conforme dados do Índice de Homicídios na Adolescência.
A taxa cresceu 14% apenas de 2009 a 2010. A previsão, se não houver queda nos próximos anos, é de que 36.735 jovens de 12 a 18 anos sejam executados, possivelmente por arma de fogo até 2016, na maioria negra. Calculado pela Universidade do Rio de Janeiro, o índice passou de 2.61 mortes por grupo de mil jovens para 2,98.
São dados referentes a municípios com mais de 100 mil habitantes, divulgados pela Secretaria de Direitos Humanos da Presidência da República e pelo UNICEF, em dezembro de 2012. De lá para cá, não acredito que os percentuais tenham decrescido, a considerar o noticiário da Imprensa.
O homicídio é indicado, entre nós, como principal causa de morte dos adolescentes e equivale a 45,2% do total de óbitos nessa faixa etária. Na população geral, as mortes por homicídios representam 5,1% dos casos.
Sem dados à mão, posso admitir que a situação, nos municípios com maior população, é muito mais grave, em grande parte atuando como fator de criminalidade o uso de crack e drogas, inclusive álcool. Envolvem-se nesses contextos os jovens que não trabalham, embora tanto se divulgue sobre a falta de brasileiros para o mercado produtivo. Enquetes divulgadas por jornais mostraram, há algum tempo, que os adolescentes na idade em questão não querem trabalhar ou estudar, com omissão perniciosa dos pais.
Para onde estamos indo? Quando isso cessaria?
Essas observações se repetem, mas soluções não há, ou pelo menos não houve, embora especialistas existiam operando por aí com numerosas propostas e sem respostas significativas. É algo profundamente triste, porque se percebe que os jovens pensam fundamentalmente em ser atletas ou artistas, para ganhar fábulas em dinheiro, ou ingressar no serviço público, considerado dos mais precários do planeta, embora mais seguro e bem rentável.
Há, deste modo, muitas frentes a atuar, antes que o mal se torne sem remédio. E sem remédio, seria o caos, não interessa a quem quer que seja e à nação, abençoada por Deus, mas esquecida pelos cidadãos, desestimulados pro motivos perfeitamente sabidos e consabidos.
Se os mais moços não querem estudar e trabalhar, se o número dos mais velhos é crescente, temos um desafio de consequências inimagináveis. Conhece-se que o sistema previdenciário já enfrenta desafios, que se agravarão nas próximas décadas, segundo o Banco Interamericano de Desenvolvimento e entidades e agências de pesquisas dignas de confiança. Para o BID, a população de idosos quadruplicará em menos de quarenta anos. Para um técnico, este é o momento de pensar em novas políticas para evitar um futuro mais doloroso. Atualmente, o Brasil já gasta mais de 14% da produção total do PIB, com seguridade social. E depois? Muita morte violenta, gente sem trabalhar, milhares de mutilados pelo trânsito e viciados em drogas e idosos em ascendência numérica. Onde vamos parar?


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Por Manoel Hygino - 17/6/2014 08:54:40
Os algozes e suas vítimas

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O governo publicou decreto da presidente que aperta a legislação contra uso e publicidade de cigarros e produtos semelhantes, ampliando restrições em ambientes considerados permitidos ao fumo. Até os chamados “fumódromos” estão proibidos a partir de 180 dias da publicação do decreto. Não haverá tampouco publicidade comercial de produtos do tabaco, embora não se saiba até que ponto isso contribuirá para desestimular o uso do terrível veneno.
Enquanto isso, o crack ganha terreno pelo interior adentro, porque nas capitais já é epidemia. O problema já foi mapeado até pela Confederação Nacional dos Municípios. O tratamento médico tem sido ineficiente, por múltiplas razões, até porque de altíssimo custo.
Curioso que o governo tomasse iniciativas para coibir o tabaco, deixando o campo bastante liberado para produtos semelhantes. E a população vai na onda, contribuindo para as marchas pela liberação da maconha, que reúne milhares de pessoas nas capitais. Legalizar seu uso em estados norte-americanos, na Holanda, no Uruguai, é um risco que se corre por lá. São povos diferentes, em condições de vida diferentes e de culturas diferentes.
O ex-presidente FHC defende a descriminalização da “cannabis sativa”. Em Paredão de Minas, distrito de Buritizeiro, barrancas do São Francisco, onde se rodou parte do seriado “Grande Sertão: Veredas”, influenciados os cidadãos por integrantes da equipe da televisão, começaram eles a fumar maconha, deixando o cigarro de lado. Passaram a plantar e colher a erva em seus quintais, consumindo-a abertamente.
A cannabis até curava doenças e, sob outro ponto de vista, é econômico: antes compravam o fumo de rolo ou o cigarro em maço.
Para o advogado Huascar Terra do Vale, as drogas se tornaram o maior problema social do século, mal que tem trazido desgraça a milhões de famílias em todo o mundo. Para ele, “todos os dias saem reportagens sobre o problema das drogas em revistas, em jornais e na televisão. Médicos e psicólogos famosos apresentam suas opiniões, sempre vazias e inócuas. Por quê?”
Não só os profissionais mencionados, porém, se manifestam. Enfim as drogas estão na pauta de todas as redações, nos escritórios de advocacia, nos consultórios, nas delegacias de polícia, nas festas, nos jogos esportivos, nas casas e nas ruas.
Huascar, contudo, dá resposta à última palavra do penúltimo parágrafo: “Por que? Todas as reportagens e palestras sobre as drogas se referem ao problema como se fosse uma calamidade da natureza, como as inundações, os tufões e os terremotos. Como se o homem não tivesse nada a ver com sua origem.
No entanto, o problema das drogas faz parte de um esquema gigantesco para ganhar dinheiro à custa de suas vítimas, o que demonstra também como as pessoas em todo o mundo são reféns de interesses econômicos”.
Existe uma grande conspiração do silêncio para jamais expor em público as verdadeiras causas do problema das drogas, a fim de manter o negócio. “O problema das drogas foi criado pelo próprio homem, que o transformou em um ótimo negócio”, como aconteceu com a indústria do tabaco, que formou verdadeiros impérios e magnatas em atividades paralelas. Huascar acrescenta: “É a lei da selva. É incomensurável a quantidade de sofrimentos derivados desse esquema infernal de exploração das fraquezas humanas”.


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Por Manoel Hygino - 14/6/2014 14:15:15
A memória de Baggio

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Domingo, primeiro dia de junho. Falece em Belo Horizonte Marco Aurélio Baggio, 71 anos, médico psiquiatra, psicanalista e psicoterapeuta. Foi agraciado, em quase 50 anos de carreira, com 35 insígnias e medalhas por mérito cívico; publicou 19 livros e integrou a Academia de Letras do Brasil. Era titular da cadeira 96 da Academia Mineira de Medicina e da de número dez do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, do qual era presidente emérito. Ocupou a cadeira 27 da Academia Brasileira de Médicos Escritores, Abrames, e presidente da Sociedade Brasileira de Médicos Escritores, regional MG.
O velório foi a partir da manhã do dia seguinte na Funeral House, na avenida Afonso Pena, e o enterro na terça-feira. O local é antiga residência de Antônio Pimenta, médico de Montes Claros, da Santa Casa e um dos fundadores do Sanatório Santa Terezinha. Casado com uma Alcântara, de Grão Mogol, não deixou filhos, elegeu-se deputado estadual, foi diretor do Departamento de Administração do Estado, transformado em Secretaria de Administração.
Membro da Arcádia Mineira, de que foi entusiasmado presidente, Baggio deixou ali amigos e admiradores. No dizer de Juçara Valverde, presidente da Abrames, “deixa semeadas angústias, dúvidas, reflexões, que sua inteligência registrou em seus muitos livros. Conosco cria moradia e saudade”.
Marco Aurélio não conseguiu realizar um de seus projetos: eleger-se à Academia Mineira de Letras, embora não lhe faltassem condições para ocupar uma cadeira. Frequentava a Casa de Alphonsus, Vivaldi e Murilo, fez ali conferências, inclusive sobre Guimarães Rosa. Um de seus últimos livros foi “Jesus de Nazaré: Esplendor no Ocidente”, que merece leitura atenta e meditação.
O autor afirma que “Jesus de Nazaré propôs uma forma inovadora de viver as relações humanas, baseada na fraternidade e fundamentada na prevalência do espírito. Profetizava a chegada de um novo tempo, em que as relações de poder que criavam a hierarquia de classes – uma oprimindo as outras – seriam substituídas pelo enlevo da espiritualidade, e anunciava o próximo evento – a vinda do reino de Deus”. Propôs a salvação dos pobres, a exaltação dos humilhados, a cura dos doentes, a distribuição da justiça, o respeito à liberdade de consciência e a utopia da vigência da solidariedade universal entre os homens.
Caminhando para o final de seu livro, Baggio enfatiza a enorme e excelsa contribuição de Jesus de Nazaré para a confecção de uma sociedade, tão significativa quanto avançada, a que chamamos, genérica e adequadamente, do Ocidente.
“Mais que todos, pairando acima dos principais expoentes, a pessoa e o ensinamento – a Boa Nova – de Jesus de Nazaré refulgem, esplendorosos, como um farol que norteia as intenções e funciona como o ímã que colige e retempera as realizações do Ocidente, rumo a seu vir- a- ser o seu porvir. Esse homem maiúsculo, vivendo em seu tempo, até hoje bastante insolvido: a pobreza e a exclusão das pessoas. Somos todos devedores dele, de Jesus de Nazaré, pela graça de nos manter nessa senda que ele, poeticamente, denominou “reino de Deus” – vale dizer – reino do espírito humano”.


78094
Por Manoel Hygino - 6/6/2014 08:21:46
Mesmo dentro do Fórum

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Há dias, em Montes Claros, mais importante cidade norte-mineira, uma idosa foi executada a tiros ao sair de um ato religioso acompanhada do neto. Eram 30 os assassinatos em maio, até onde segui na estatística macabra. Moc e outros burgos da região, as estradas para o norte do Estado e país, padecem a maior onda de violência na história, com população assustada, caixas eletrônicos destruídos e esvaziados, bandidos à solta, todos os dias e horas.
Em 27 de maio, dia de aniversário de minha única e saudosa irmã, ali nascida, 300 integrantes de um movimento dito de “trabalhadores desempregados” invadiram o fórum local em protesto contra a reintegração de posse de um terreno, que tinham ocupado.
Não se pode dizer que se trata de manifestação pacífica quando três centenas de pessoas adentram, sem permissão, um local em que se julgam feitos judiciais. Assim aconteceu. O B.O. da Polícia Militar conta que “o MM. Juiz de Direito foi agredido com empurrões, mesmo protegido pelos militares de serviço”.
Na ação, um PM que ali trabalha há anos, cidadão de bom caráter e conduta, foi agredido com golpes de capacete e sofreu ferimentos no rosto. Sua boina foi furtada e o óculos de grau quebrado. Somente pela intervenção de várias guarnições policiais militares restabeleceu-se a ordem, com a retirada dos arruaceiros de dentro da sede da Justiça, cujos portões passaram pela fúria dos invasores.
Com a atitude atrabiliária dessas pessoas, impediu-se a audiência, agendada para aquela manhã, de processos cujos prazos se esgotavam. Com isso, marginais serão ou foram libertados, sem que os autores de crimes ficassem em prisão até julgamento.
O juiz de Direito Isaías Caldeira, em tons veementes, condenou a manifestação transformada em baderna, apoiado por pessoas que se aglomeraram junto ao palco dos acontecimentos. Os invasores não eram pobres diabos, humilhados e ofendidos, como declarou um dos que assistiam ao desenrolar dos fatos: ...“tudo gente de boa saúde, pessoas de forma física excelente, mas que não têm força para trabalhar e conseguir com dignidade sua própria moradia. Hoje, eles ganham o pedaço de terra; amanhã, a vendem e, depois, fazem a mesma baderna para conseguirem mais”. Um outro cidadão afirmou: “Estamos chegando ao estágio da desobediência civil. A coisa vai ficar feia por aqui”.
O magistrado, dos Caldeira Brant da história mineira, não se deixou intimidar pela turba e condenou o desvio de rumos que determinados grupos estão dando à hora que a nação atravessa. Para o magistrado, o Brasil não pode retroceder e tornar-se novamente uma república de bananas.
Modus in rebus, cuidado com as coisas, diriam os romanos diante do período que vivemos e que deveria ser de comemorações com uma copa esportiva internacional, agendada – errônea e demagogicamente. Nas maiores cidade do país e nos grotões, percebe-se a existência de um caldeirão fervente de demandas e reivindicações, mas também de interesses subalternos ou espúrios. Assim se explica o verdadeiro esquema bélico do poder público para conter possíveis eclosões de destemperos de grupos mal intencionados, para os quais quanto pior, melhor. É uma hora delicada, que o Brasil acompanha com preocupação.


78012
Por Manoel Hygino - 23/5/2014 08:34:46
Prendeu, tá preso

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O leitor que acompanha este comentário terá percebido, até porque não escondo, minha preocupação com os dias que atravessamos. Não há pessimismo ou catastrofismo, mas uma candente inquietação no país, avaliável não apenas pelas manifestações das ruas, mas também pela conversa na rua, nos restaurantes, nos estádios esportivos, nas salas de aula, nas barbearias, nos deslocamentos em táxi e em coletivos. O Brasil está descontente e há, inclusive, os que admitem ou prenunciam o caos, que afinal não interessa a quem quer que seja e com o qual não concordo. Há meios e modos de evitar o pior.
O clima espiritual do Brasil não é o que desejamos, nem o que defendemos para o país em que nascemos e para a nação que integramos. Os crimes, muitos deles extremamente bárbaros, se repetem tragicamente em pequenos burgos ou grandes cidades. Receio agudo toma conta de todos os cidadãos, em todos os lugares e horas. As autoridades, mantidas com dinheiro público para proporcionar segurança e tranquilidade à comunidade, já se revelam impotentes, mais do que isso, temerosas, porque também reféns.
Há medo de sair às ruas, há medo de permanecer em casa. Vislumbram-se sintomas e sinais de descontentamento em grande parte dos setores produtivos e profissionais, até porque segue atuante e ousada a malta de bandidos soltos nas vias públicas, dos que vivem na marginalidade e dos que fazem de conta que são bons brasileiros, mas se mantêm contrários ou alheios ao império da lei e da ordem.
As próprias polícias – Federal, Rodoviária Federal e Civil – de vários Estados, entre as quais de Minas Gerais, São Paulo e Rio de Janeiro, protestam com esta situação. Os atos do último dia 20 serviram de alerta. Eles exigem a reformulação na política de segurança pública para o Brasil. É um apelo que tem de ser ouvido por quem de dever, antes que descambemos para o precípuo inimaginável do desarranjo das instituições.
Para esta sexta-feira, estavam programadas manifestações na capital de Minas, além das já costumeiras no Rio de Janeiro e São Paulo. Quando até os agentes de segurança discordam de rumos e pedem mudanças, sente-se que há algo de grave e errado no país, que, para ser bom efetivamente, tem de ser eficiente, correto e justo.
A palavra da comandante de policiamento de Belo Horizonte foi muito clara e lúcida: “Nós queremos é uma lei que funciona, que a gente não tenha que prender bandido mais de uma vez. Prendeu, tá preso, responde preso pelo seu ato”. Evidentemente, em todas as esferas da vida do país.
Em 2014, há eleição presidencial. É uma oportunidade sobremodo preciosa para se identificar o melhor candidato no elevado cargo, não se deixando influenciar por promessas só expressas em campanha política. Antigamente, candidato era o cidadão puro, cândido, sem mácula, que merecesse a confiança da nação. Em verdade, o povo precisa ser ouvido, mas lhe compete também votar conscientemente.
Aguardemos outubro.


77973
Por Manoel Hygino - 17/5/2014 11:07:26
Números reveladores

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Que haja mais recurso para a saúde no Brasil. O país está enfermo, possivelmente gravemente, e não se lhe tem dado a atenção imprescindível. Curiosamente, a própria população só reclama, protesta e até agride, quando as filas se tornam enormes e o quadro do paciente evolui desfavoravelmente. Há, então, entreveros entre as famílias dos pacientes e os funcionários das unidades de atendimento, só encerrados com a entrada em cena da polícia. É muito triste!
Sem embargo, estamos assistindo a um genocídio calamitoso, com nossa própria responsabilidade e culpa, nem que seja por omissão. Perde-se a sociedade no palavrório de discussões sobre como resolver os problemas, sem resultado prático. Para o desafio das drogas não há solução ou não tempos competência para resolvê-lo?
Quando me refiro a drogas, incluo o tabaco, a maconha dos viciados, as bebidas alcoólicas, tanto quanto o extasis e o LSD. Tudo é veneno sob várias fórmulas e formas, que conduzem as pessoas para os desvãos da degradação e dos crimes previstos nos Códigos Civil e Penal, enquanto enriquecem os eternos aproveitadores das desgraças alheias.
As ruas se infestam de pobres diabos, direcionados inapelavelmente aos mais perversos destinos. Acompanhamos a desintegração social e lastimável degradação. Numa leitura de jornais do mês cinco deste ano, cientificamo-nos de que o consumo de álcool no Brasil já é superior à média mundial. Mais de três milhões de pessoas morreram em 2013, em decorrência de consumo de álcool. Dados são da OMS, a maior autoridade no assunto. O álcool excessivo eleva o risco de desenvolvimento de mais de 200 doenças.
O crack, pro exemplo, também inquieta o país. O neurocientista Carl Hart, da Universidade de Columbia, que esteve, pela primeira vez, no Brasil para conferência em São Paulo, afirma que o Brasil está prestes a vivenciar o mesmo pesadelo da epidemia de crack, que ocorreu nos Estados Unidos, nos anos 80.
Para Hart, não é apenas a droga. Em verdade, a polícia e os governos se vêem na consequente contingência de apelar para a força para tentar conter o vício. O resultado é igualmente nocivo, porque os métodos costumam ser agressivos, até letais. Além de queda, coice como se diz no interior mineiro.
Por sinal, o índice de crimes violentos continua crescendo, o que confirma o agravamento da situação. Em Minas, conforme balanço da Secretaria de Estado de Defesa Social, os homicídios e latrocínios, no primeiro trimestre, passaram de 20.665 ocorrências no ano passado para 26.323 em 2014, com 27,3% a mais. É um mau sinal. Em março, no estado, subiram para 9.091 as ocorrências, 22,9% a mais do que 2013. Em Belo Horizonte, o avanço alcançou 23,4% no mesmo período. Os crimes violentos que mais aumentaram na capital, nos primeiros meses de 2014, foram os roubos.
Evidencia-se pelos resultados que os remédios prescritos por nossas autoridades e técnicos não produzem resultados positivos. Mas não devemos permitir que o quadro se agrave indefinidamente.


77929
Por Manoel Hygino - 10/5/2014 10:59:14
Panem et circenses, ainda

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A poluição pode ser sinônima de corrupção. Preste-se atenção nos fatos para extrair ideias adequadas. No último março, por exemplo, a imprensa publicou que quase metade da água dos rios, córregos e lagos de Minas e outros seis estados é considerada péssima ou ruim. Estatisticamente, assim estão 40% dessas correntes e reservas hidráulicas.
O dado resultou de levantamento da Fundação SOS Mata Atlântica, após análise das condições em 117 pontos fluviais entre março de 2013 e fevereiro de 2014. Na amostragem, consideraram-se pontos em Minas, São Paulo, Rio de Janeiro, Espírito Santo, Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do Sul. Somente 19 rios e mananciais, isto é, 11%, mostravam boa qualidade, em área de preservação ambiental. Nenhum ponto foi julgado ótimo. Os parâmetros de avaliação foram a qualidade da água, o nível de oxigênio e de pH, o odor e a presença de urina e fezes.
Quem lê e ouve notícias possivelmente terá tomado conhecimento deste fato. É algo muito grave, sobretudo nesta hora em que falta água em grandes, médias e pequenas cidades do país, a começar por São Paulo.
José Ponciano Neto, que é técnico, observa: “Sem dúvida é uma situação singular, faltou planejamento em todas as esferas de governo. Pelo menos as crises hídricas que ameaçam o abastecimento de água e a distribuição de energia servirão para os governos do Estado, federal e municipal entenderem que com água não se brinca. Dependemos do ciclo hidrológico, das tempestades solares que aumentam a evaporação das águas e a desertificação do solo, e principalmente, da vontade do Grande Arquiteto do Universo, que é Deus”. Mas o homem deve fazer a própria parte.
Não é responsabilidade ou culpa só dos governos. A população contribui enormemente para a degradação das águas, como acontece com os costumes políticos e com a deterioração do espírito de família, sentida até pela sucessão de crimes ignominiosos relatados na imprensa.
Perde-se qualidade de vida, que não se resume em possuir bens duráveis (?), viajar ao exterior a prestações ou por cartão, frequentar o chique dos hotéis e dos restaurantes, ir às casas de espetáculos, que essas têm ampla e atrativa programação presentemente. Tudo tem evidentemente de ser fruído, mas com limitações, como indica o bom senso.
Já os romanos adotavam uma política semelhante, mutatis mutandis. Era o provimento de comida e diversão do povo, com o propósito de reduzir ou amainar o descontentamento contra os governantes. A Copa, este ano, programada quando a situação econômica internacional era mais favorável, explica a velha prática, transferida à atualidade e a nosso país.
Então, não se disputava o ludopédio, ainda não inventado.
O povo se satisfazia com os combates entre gladiadores, promovidos nos anfiteatros, para se recrear a população, embora com o cruel assassinato de pessoas nas arenas. Enquanto isso, o pão era distribuído gratuitamente, uma espécie de Bolsa Família. O resultado foi imenso: enorme elevação de impostos, que impactava perversamente a economia do império. Eis aí o apogeu e a decadência do grande império.


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Por Manoel Hygino - 5/5/2014 08:15:44
Os preocupantes abalos sísmicos

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Ouvia-se antigamente falar em tremores de terra em Minas Gerais. Ficaram famosos, e serviram até ao anedotário, os de Bom Sucesso, no Oeste mineiro, terra natal de Cícero Ferreira, primeiro médico de Belo Horizonte e berço da família Guimarães. Mas persistia, mesmo assim, a versão de que o Brasil se preservara de terremotos, embora abalos sísmicos ocorressem.
Recentemente, a sucessão de tremores em Montes Claros, a maior cidade norte-mineira e sua área de influência, despertou a atenção para o problema, principalmente porque a imprensa, ativa, deu ênfase aos fatos. Equipe da UnB, que visitou o município entre 9 e 13 de abril deste ano, elaborou um relatório que faz pensar. O documento admite que a falha sismogênica tem dimensão maior do que a anteriormente encontrada em 2011/2013, com “ativação de um novo segmento”.
Os técnicos dizem ainda: “Não é possível prever como a atividade sísmica vai evoluir. Não há estudos capazes de auxiliar na previsão de tremores. Esta dificuldade faz parte da natureza e não resulta de falta de equipamento ou insuficiência de maiores estudos geológicos, geofísicos ou sismológicos. Diante desta incerteza, só é possível comparar com as dezenas de outros casos já ocorridos no Brasil”.
Quer dizer: o problema vem de longe no tempo, como, aliás, conta o especialista no assunto José Alberto Vivas Veloso, no livro “O terremoto que mexeu com o Brasil”. O autor focaliza principalmente os abalos em João Câmara, cidade potiguar, e o tremor ocorrido em 30 de novembro de 1986. Mas não se resume o registro a esse tremor mais lembrado, como leio no montesclaros.com, do jornalista Paulo Narciso. O tema aprofunda-se.
Resgatam-se, assim, fatos do segundo império, quando o imperador, embora preocupado com os problemas literários, mas também científicos, determinou a primeira pesquisa sismológica nacional. Hoje, os políticos parecem não se interessar tanto pelo assunto. Mas Pedro II, em 9 de maio de 1886, estava no palácio em Petrópolis, às 15 horas, quando sentiu a terra tremer.
Vivas Veloso anotou: “Meu livro mostra que não só existem terremotos no Brasil, como eles podem trazer problemas às pessoas e às cidades. O principal tremor, em João Câmara, com magnitude 5.1, danificou mais de 4.000 construções e criou um continente de 26 mil desabrigados”.
O sismólogo se avalia: “Não dá para ser um cientista de sangue frio o tempo todo. Na experiência de acompanhar sequências sísmicas com duração de dias e semanas no Rio Grande do Norte, no Ceará, em Pernambuco e em Minas Gerais, particularmente em cidades pequenas, percebo que logo surge uma afetividade entre o sismólogo e os habitantes locais. Aí a responsabilidade aumenta, porque você não está apenas registrando abalos de terra, mas lidando com a segurança e o bem-estar das pessoas”.
Esta é exatamente a sensibilidade que deve impregnar os que zelam pela segurança das comunidades, especialmente lembrados no período eleitoral. Temos de mudar essa mentalidade e pensar na sofrida existência dos milhões de brasileiros que dependem da assistência do poder público até para sobreviver.


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Por Manoel Hygino - 3/5/2014 10:08:54
Como o Brasil é visto

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Emanuel Medeiros Vieira, nome respeitável nas letras brasileiras, perguntava em Brasília e se respondia: “Pessimismo? O Brasil já é um dos países mais violentos do mundo”. Comentou ainda: “Não será com propaganda ufanista que se convencerá o país das maravilhas de uma Copa do Mundo certamente festiva nos estádios e problemática fora deles”. “O tempo dirá quem foi “pessimista”, como gosta de dizer a presidente, num discurso que beira um tipo de fascismo tupiniquim”. Emanuel foi um dos perseguidos pela ditadura, embora não pleiteie indenizações. Lembre-se Ruy Castro, que também se tornou autor nacional por biografias importantes, inclusive de Garrincha. Ele escreveu: “Nosso passado recente inclui prisioneiros metralhados às centenas numa cadeia, homens fritando seus semelhantes em ‘micro-ondas’ nas favelas ou abatendo helicópteros com fuzis. Chacinas são vistas como faxinas. Outros degolam companheiros de cela, chutam cabeças de adversários caídos nas arquibancadas, agridem moradores de ruas e gays e vão às ruas para destruir, queimar, matar”. O quadro que se tem presentemente do Brasil no exterior não é sentido só lá fora. Quem leu, com mais cuidado, os noticiários da imprensa escrita no finalzinho de abril, encontrou certamente uma informação que preocupa. O Ministério de Assuntos Exteriores da Alemanha divulgou relatório sobre a segurança que nosso país oferecerá na Copa do Mundo. O enfoque parece tão grave que o prestigioso “El País”, de Madri, repercutiu: “O relatório do Ministério, em sua seção ‘serviços ao cidadão’, que é lida com atenção por todas as grandes agências de turismo do país e pelos turistas que compram pacotes de férias, oferece uma imagem desoladora do Brasil, uma nação onde as leis não são respeitadas e onde o turista corre o risco de ser vítima de ladrões, sequestradores ou simplesmente de se envolver em confrontos entre a polícia e grupos criminosos, como aconteceu recentemente no Rio de Janeiro”. Continua o jornal: “... o Brasil se transformou em uma perigosa armadilha para viajantes desprevenidos que desconhecem a realidade do país. O Ministério recomenda que os turistas alemães não usem roupas chamativas e joias quando saírem a passear pelas ruas, que evitem levar grandes quantidades de dinheiro e escondam artigos eletrônicos, como telefones celulares e computadores portáteis. “Em caso de ataque, não resistir, porque os ladrões geralmente atuam sob influência de drogas, estão armados e não se amedrontam com ações violentas”.
Com ou sem Copa, o Brasil se tornou um campo de morticínio. Mata-se por qualquer motivo... ou sem razão alguma, inclusive crianças indefesas, grávidas, idosos, em todas as regiões e em todas as horas. Caso recente, por exemplo, foi a de um presídio na Bahia em que detentos foram enrolados em colchões pelos companheiros de cela, ateando-lhes fogo. Nada mais dantesco. E, mutatis mutandis, não se trata de caso isolado. No Rio Grande do Sul, no Paraná ou no Maranhão, o mesmo terror.O governo federal preparou 10 mil homens para apoiar as polícias militares nas doze cidades-sede dos jogos da Fifa visando conter protestos violentos durante o campeonato. E quem protegerá o resto da população?


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Por Manoel Hygino - 2/5/2014 08:44:54
O avião desaparecido

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Quando se publicou minha crônica “O 777 que soverteu”, registrando o caso do avião da Malaysia Airlines, texto repetido pelo site montesclaros.com, Isaías Pereira dos Santos, lá de nossa Januária, escreveu a propósito da tese da abdução da grande aeronave. Aliás, a palavra “soverteu”, usada no interior mineiro, significa exatamente “sumir”, desaparecer.
Isaías observou:
“Imaginei essa possibilidade no dia seguinte ao desaparecimento da moderna aeronave. Os recursos tecnológicos atuais permitem rastrear e localizar o trajeto de alguém com um simples aparelho celular, de um velho computador e nossas conversas via e-mail, GPS de veículos em trânsito, chips em animais etc. O Googleheart mapeia nossas cidades e localiza veículos em movimento. Penso que as buscas são apenas para despistar as causas reais. Uma cortina de fumaça. Já se vão alguns séculos que o genial Shakespeare disse: “Há mais coisas entre o céu e a terra do que supõe nossa filosofia”. Os alienígenas existem, estão por aí, por aqui, pertinho de mim e de você, que possui sensibilidade para me acompanhar nesse raciocínio”.
Já, em janeiro do ano passado, Fernando Guedes de Mello, conhecedor desse tipo de acontecimento e que vê além de olhos comuns, evocava que “o termo ‘teletransporte’ foi criado e popularizado pelos livros e filmes de Science fiction como, por exemplo, “Jornada nas Estrelas”. Na Bíblia, as narrativas de fenômenos correlatos referem-se a “arrebatamento”. Nos relatos de acontecimentos ufológicos, são referidos como “abdução”, quando se trata de um arrebatamento ou transporte sem o consentimento do abduzido; e, caso contrário, de resgate, quando é para o próprio bem do resgatado”.
Na verdade nos falta saber imensamente mais do que já aprendemos. O americano Hubble, em 1929- apenas 85 anos atrás- descobriu que existem bilhões de galáxias além da Via Láctea. Mais: que os mundos não são estáticos. Hubble liquidou a ideia do universo estável de Newton e demonstrou que o Cosmos está em expansão. Huascar fornece dado precioso: As galáxias se afastam uma das outras à velocidade de até trilhões de quilômetros por ano, nos limites do Universo visível. O homem é passageiro desta fantástica viagem a destino desconhecido. E no Cosmos não estamos sozinhos.
Ficamos na posição de Rachel Carson: “Cada mistério desvendado nos leva ao limiar de um mistério maior”. Não devemos estar sós no Universo, podendo existir milhões de planetas com vida no Cosmos, alguns com vida inteligente.
O próprio cristianismo pode entrar no âmago da questão. Como desapareceu o corpo de Jesus, transportado à tumba, após recolhido do local da crucifixão? É um tema sempre atual e candente, porque envolve fé e a própria ideia de milagre. Jesus teria atravessado paredes sólidas e desaparecido no ar. Milagre ou abdução? Quem poderá dizê-lo de forma definitiva e incontestável? Há várias teorias e nenhuma resposta convincente. É certo que algo de extraordinário aconteceu em consequência da morte de Jesus.


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Por Manoel Hygino - 21/4/2014 08:23:16
O 777 que soverteu

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O que se conhece é pouco, mas é tudo. Um enorme avião no Oriente distante levantou vôo de Kuala Lumpur, capital da Malásia, e simplesmente sumiu. Soverteu, como diziam os meus amigos da roça.
Por mais diligências que se tomassem, usando as técnicas mais avançadas para localização da aeronave, em terra e mar, nenhuma pista concreta.
O engenheiro Fernando Guedes, estudioso de problemas assim intricados, e o médico Marco Aurélio Baggio, psiquiatra, costumam ver mais longe do que os demais seres pensantes. O segundo advinha: “O Boeing, de 63 metros de envergadura e de comprimento, 297 toneladas, é um objeto grande, mas não tão enorme que não pudesse, como foi de fato, tragado por um objeto extraterrestre e capturado”.
Foi, além do mais, um prejuízo imenso. Duzentos e cinquenta milhões de dólares, embora o mais grave deva ser o medo que as pessoas possam ter, a partir de agora, de voar naquela região tão cheia de mistério.
Marco Aurélio tem, também, outra ideia mágica: juntar centenas de maus brasileiros, despiciendos e descartáveis, abrigá-los numa dessas naus voadoras e encaminhá-los à abdução.
A abdução é uma pista, que inúmeras pessoas podem não querer aceitar, mas que não se desprezará. Todas as formas de busca estão sendo utilizadas, sem nenhum rumo alentador.
Nada no céu, nada no mar, nada em terra. Mas o 777 da Malaysia Airlines existiu, fazia um vôo para a China, a partir de Kuala Lumpur, e desapareceu misteriosamente.
Baggio vai além: “Como cosmólogo amador, sei que os alienígenas são extraterrestres, pairando em ainda incognoscível dimensão cósmica. Suspeito, contudo, que não são extragalácticas, por serem as distâncias muito longas”.
O médico não tem esperança: Ave elegante, ultratecnologia aviônica da Boeing, o 777 merece tratamento especial neste momento, todo rigor nas investigações, mas não se tem encontrado senão um ou outro lixo oceânico. A explicação é clara: “Nossos parceiros alienígenas, sabe-se lá porque, aparecem súbito, fazem das suas e somem. Levam consigo aquilo que lhes interessa e, uma prestidigitação espacial, torna transparentes as coisas abduzidas. Isso é lá uma propriedade especial, típica deles. São mágicos em graus superlativos”. O avião sumiu, não deve reaparecer jamais.
As autoridades militares e pesquisadores dos céus nos Estados Unidos não acreditam, ou fazem de conta que não acreditam, na existência e em aventuras fantásticas dos alienígenas. Há arquivos inteiros sobre o assunto, mas Tio Sam não se abre, até porque pode não ser conveniente.
Desta vez, foram 239 os desaparecidos, os abduzidos no Oriente, em 12 de março. A mídia internacional, no dia seguinte, emitiu a hipótese de o vôo MH-370 ter sido alvo de sequestro por forças cósmicas desconhecidas. É a hipótese que prevalece.


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Por Manoel Hygino - 15/4/2014 10:04:12
A língua espanhola entre nós

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Como numerosas pessoas neste país, comecei cedo na língua espanhola, antes da II Guerra, quando o Inglês se assenhoreou do mundo. Foi um dos efeitos do grande conflito, em que os americanos do Norte se juntaram aos ingleses (e outras nações) para combater Hitler e Mussolini, depois Hiroito.
Cercados por usuários do Espanhol praticamente por todos os lados, o Brasil permaneceu com a língua de Camões, mas assediado de perto por Cervantes. Incursionava-se no espanhol, que tem evidentemente semelhanças com o Português, mais fácil de assimilação do que a língua de Shakespeare.
Editoras argentinas, em determinado período, ofereciam livros a preços mais compatíveis com o bolso brasileiro. Ler ou tentar ler na segunda língua ibérica falada se tornou um hábito. Nesse ínterim, quis o governo facilitar o acesso mediante a introdução do Espanhol no currículo do curso médio.
Foi útil a iniciativa, como se constata pela leitura de “La poesia está en el viento”, publicação bilíngue da Embaixada da Espanha no Brasil, no Projecto Cometa Literária, editada pela Thesaurus, de Brasília. Nasceu uma bela coletânea de poemas em língua espanhola e com rica ornamentação de pintores, de cá e de lá.
As traduções são de Kori Yaane Bolivia Carrasco Dorado e há, ainda, um poema inédito de Luis Garcia Montero.
Comparecem com excelentes textos Begoña Sáez Martinez, Mário F. de Carvalho, Ana Paula Barbosa de Miranda e Antonia Regina Neri de Souza, Alicia Silvestre Miralles, Antônio Miranda, Nicolas Behr, Anderson Braga Horta, João Carlos Taveira, Angélica Torres Lima, José Jeronymo Rivera e Oleg Almeida, autores respeitáveis e a que tanto devem as letras da capital federal.
Eu teria de preencher mais laudas para dizer quais outras pessoas e organizações contribuíram para confeccionar esta joia. Entre aquelas Álvaro Trejo Gabriel Y Gaalán e Álvaro Martínez- Cachero Leseca, conselheiros respectivamente de Cultura e Educação da Embaixada da Espanha.
Ánderson Braga Horta confessa que seu contato primeiro com o idioma irmão vem dos dez anos, aproximadamente, quando também me aventurei no Espanhol, ao descobrir um bem ilustrado volume de “Dom Quixote”, numa estante de livros em minha terra natal. O que, aliás, também dá ideia de como Cervantes chegava ao interior do país.
Depois, fui agregando conhecimento por leituras diversas, em livros de baixo custo, que me acompanharam pelo curso ginasial e colegial, em educandário agostiniano, de padres espanhóis.
Daí para frente, jamais parei, até porque tive de revalidar estudos em Montevidéu, em provas orais e escritas em Espanhol. Aproximei-me de grandes autores, graças ao convívio com o poeta Enrique Romero Arenillas, com quem discutia sobre Pablo Neruda, Lorca e Gabriela Mistral. São tantos! Se, lamentavelmente, nenhum dos mencionados está mais entre nós, a obra permanece.


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Por Manoel Hygino - 14/4/2014 09:23:53
A insegurança generalizada

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Não há interesse em combater a corrupção, como se demonstra, à suficiência, com o caso Petrobras. Partidos, grupos e políticos obstam a que se averiguem os fatos denunciados, sob argumento de que integrantes de outras agremiações também cometeram delitos semelhantes, em outras ocasiões. Na troca de acusações e levantamento de suspeitas, num país em que crimes contra o patrimônio e o erário são recebidos como naturais, tudo parece cingir-se ao âmbito da troca de farpas e imputações.
Pode-se afirmar que, em um cenário ampliado, nada se faz, nem se pretende fazer, para aclarar falcatruas e apontar seus autores, sendo o Mensalão um episódio singular no reino da impunidade. Nem pode sair nas ruas de Brasília o presidente do Supremo e relator da matéria, apupado, xingado pelos comparsas dos malfeitores, por motivos perfeitamente compreensíveis.
Nãos nos acostumamos a prender e punir os responsáveis por crimes praticados por organizações criminosas ou pessoas envolvidas nos delitos.
Milhões de reais rolaram por aí e beneficiaram os agentes políticos, que dispõem de bens não adquiríveis no mero exercício da profissão. Têm luxuosos carros blindados importados, iates, palacetes e tudo mais quanto o permita, no Brasil ou no exterior, o dinheiro ilícito.
Corrupção é problema comum a todos os países. Mas nas grandes potências, nos ricos, ela atinge os contingentes mais favorecidos. Aqui, a despeito das fantasias de riqueza, incrementada pela publicidade governamental, procurando dar impressão de que muito temos, a situação é diversa. Mais sofrem os que já têm pouco ou nada e são coagidos a “contribuir”, como se fora facultativo.
Pratica-se crime contra direitos humanos, quando se avança sobre o Tesouro, porque para lá caminham todos os impostos. Ou deveriam caminhar, porque há desvios. A carga tributária entre nós é uma extorsão, porque extraída, em grande parte, de segmentos sofridos, que constituem a grande maioria da população.
O escândalo Petrobras poderia ser um marco na história do Brasil. Temos de convir com o juiz Isaías Caldeira quando diz que as leis penais já não feitas sob o influxo inteligente dos juristas, mas impostas pela força e barulho de militantes políticos, com óbvias exceções.
O caso Petrobras é uma violência contra o povo deste país, além daqueles outros crimes de que somos incessantemente vítimas em nosso cotidiano, nas vias públicas, nos lares, à porta das faculdades. O clima é de insegurança generalizada, pelo que se vê.


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Por Manoel Hygino - 11/4/2014 08:22:42

Enquanto a Terra treme

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A Terra tremendo, cada vez mais frequentemente. Não apenas no norte do Chile ou na China, por exemplo. Não é preciso ir tão longe. Na região norte - mineira, o fenômeno é registrado presentemente como jamais ocorrera antes.
A população de lá não quer ser notícia de telejornais, nem mostrar às câmaras as rachaduras nas paredes das casas, o desabamento parcial dos tetos. Não é motivo de orgulho, mas de medo, não mais circunscrito aos tiroteios das gangues no seu feroz ofício de destruir caixas eletrônicos pelo interior brasileiro.
As autoridades na capital da República não escondem os fatos, mas são evasivas. Informam apenas que foi a falha geológica. Mas e daí? Um estudioso do assunto, um técnico, levanta uma série de perguntas: Se foi a falha geológica, o que provoca que movimentação? Por que os blocos carsticos se movem? Para cima ou para baixo? São impulsionados pelo excesso de gás natural ou à extração do calcário pelas mineradoras próximas? As explorações desenfreadas de águas subterrâneas pode ser uma das causas?
José Ponciano Neto tem formulado estas indagações, e não me lembro de uma resposta clara, decisiva. Ele acredita que os sismos dos últimos anos são induzidos pelo homem. Em verdade, se causa ou causas há, cabe à autoridade pesquisar e esclarecer, determinando providências que evitem mais graves consequências e examinando a tese de outros especialistas, se for o caso.
Mesmo que fosse apenas um lugarejo, o problema deveria merecer atenção do poder público. Já é extensa a região atingida por esses abalos, e sua repetição alarmante. Não se esquecerá de que já houve morte.
Por que a falha de três quilômetros não se mantém no lugar como até algum tempo era? O que aconteceu?
Enquanto praticamente nada surge de objetivo e suficientemente elucidativo, a maior cidade norte - mineira e populações disseminadas pelas áreas rurais se mantêm em ininterrupta inquietação, tangidas pela insegurança. Essa gente tem o direito de conhecer os fatos, suas origens e seus efeitos!
Embora não se creia que nossos tremores sejam de magnitude comparável aos de outros países, pelo menos se deveria ser melhor aquinhoado com notícias. Um especialista alerta: é importante construir edificações mais resistentes para enfrentar o impacto dos abalos. Falta esclarecer quem vai assegurar os recursos.
As consequências foram maiores. No Hospital Universitário, faltou energia e os geradores não funcionaram. Seus servidores se assustaram porque havia pacientes entubados. O estrondo anunciador de uma provável catástrofe, foi pela manhã. A população saiu às ruas. A telefonia foi prejudicada. Depois, novos ruídos fortes no ventre da crosta terrestre. Os adolescentes estavam praticamente prisioneiros na Escola Normal, um prédio com escadas. Há uma certeza- novos tremores virão.


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Por Manoel Hygino - 27/3/2014 08:35:15
Nosso admirável mundo novo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Em 30 de março, quando a noite descer sob o sertão mineiro, o Clube/Leitura/Ateliê/Galeria Felicidade Patrocínio receberá, em Montes Claros, Ivana Rabelo, doutora em Literatura pela USP, para falar sobre “Admirável Mundo Novo”, o livro perene de Aldous Huxley.
Este é um dos livros mais lidos em nosso tempo, mesmo 83 anos após seu lançamento. Poder-se-ia conceituá-lo como um volume de ficção científica, mas é muito mais. A obra acena para projeção de um mundo futuro, faz-nos pensar na sociedade contemporânea de consumo, nos hábitos, nocivos ou não, que desenvolvemos no excesso de tecnicismo e na desumanização da sociedade, como a própria Ivana enfatiza.
É tema, pois, de relevância sobre as questões propostas, que levam à indagação de como uma pessoa deficiente, para Aldous, quase cega desde os 20 anos, e que só conseguiu ler com auxílio de uma grossa lupa e aprendeu Braille, seja considerado um “homem de visão”.
O autor nasceu numa família inglesa de personalidades. Seu avô Thomas, foi conhecido naturalista, e seu irmão, Julian, falecido em 1975, biólogo e filósofo, partidário das teorias da evolução. Aldous se fez um homem afeiçoado à cultura, sobretudo científica, tipo de intelectual onisciente, sedutor e com opinião sobre quase tudo.
Uma resenha que me encaminhou Fernando Guedes de Mello alerta para a posição de Huxley. Nela se condensa o pensamento do escritor: o avanço científico pode ser, em sociedades desiguais e mercantilizadas, o caminho para a barbárie.
Há uma indesviável pergunta: Seria pertinente reler, hoje, “Admirável Mundo Novo”? Seria pertinente retomar um livro escrito há tantas décadas, numa época tão distante que nem sequer a televisão fora inventada? Seria essa obra algo além de uma curiosidade sociológica, um best seller comum e efêmero que, no ano de sua publicação, 1932, vendeu mais de um milhão de exemplares?
No entanto, o livro dos anos 30 é surpreendentemente atual, tanto que as pessoas inteligentes vão e voltam a suas páginas nesta segunda década do século XXI, exatamente porque o assunto é muito nosso. É nossa conturbada época, instrumento hábil a reflexões sobre o homem, o mundo, a sociedade, o tempo de agora e o que virá.


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Por Manoel Hygino - 24/3/2014 08:44:02
As águas de março ainda frustram

Manoel Hygino - Hoje em Dia

O brasileiro olha para o céu, principalmente se morador do Sudeste hoje, e não vê sinais de chuva. A natureza anda econômica em termos de despejar água sobre extensas regiões. O sol é causticante, os termômetros ultrapassam muito frequentemente os 30 graus, o suor castiga, o corpo padece sob a inclemência dos raios solares.
Por enquanto, não há racionamento de energia elétrica, embora as informações a respeito se intensifiquem, em ameaça constante ao homem, da cidade, ou do campo, que sobremaneira já sofre tantos outros problemas. Há exatamente um ano, os jornais chamavam atenção: a falta de chuva na nascente faz sumir trechos do Rio São Francisco, lá longe, perto da foz, na divisa de Sergipe e Alagoas. No Nordeste, as chuvas já deviam estar caindo, mas em 2013, nada. A profundidade do rio diminuiu. Pesquisadores observam que a situação se vem agravando e há trechos em que a água desaparece e já é possível caminhar em pleno leito seco do velho Chico.
Dez meses depois, jornal belo-horizontino destacava em 6 de fevereiro de 2014 (data do famoso tiroteio em Montes Claros, em 1930, que deixou ferido o vice-presidente da República Melo Viana), que o volume de Três Marias era historicamente o menor numa primeira semana de fevereiro: 26,6%, quando a média, na época, é de 96,2%. O nível da água encontrava-se 13,8 metros abaixo do esperado, representando consequentemente 37% a menos na produção de energia. Nas demais hidrelétricas de Minas, do Sudeste e Centro-Oeste, a situação era quase a mesma.
Simultaneamente, o consumo de energia, como compreensível, seguia em elevação. Em 2001, em situação semelhante, houve racionamento. Em consequência, ter-se-ia, como se faz, de apelar inapelavelmente para as termoelétricas para suprir o mercado, o que causa aumento das tarifas, o que não é bom, principalmente em ano de eleição.
E o que será da produção da agricultura, valioso suporte de nossa balança comercial? O panorama preocupa. O consumo de eletricidade deve crescer 4,3% ao ano, entre 2013 e 2023, segundo a Empresa de Pesquisa Energética.
Em março, de São José, não choveu no Sudeste o aguardado. A reduzida água que desceu dos céus não melhorou a situação dos reservatórios. Nas regiões mais sofridas, como Norte de Minas e Jequitinhonha, há ansiedade e desalento. No rio Congonhas, a novela de construção de uma barragem, não chegava ao capítulo final. O empreendimento ampliará o volume de água em Irapé, grande geradora de energia, mas também fornecerá água ao mineroduto que transportará o produto até o porto de Ilhéus. Confiava-se em que a presidente liberasse o edital de concorrência, o que não ocorreu até agora. Para a dança dos obstáculos e atrasos, também contribuiu o levantamento ambiental na área da barragem que, a sua vez, necessita de ação da SEMAD e da COPAM-NM.
Algumas cidades do Sudeste já adotaram racionamento. No Norte de Minas, vamos inovar. O governo, preocupado com os sofrimentos do cidadão e sua família, estimula a perfuração de cisternas, com alguns acréscimos úteis, para armazenamento da água em condições adequadas. Estamos evoluindo, mas falta muitíssimo para alcançar os objetivos maiores. O Brasil, que deveria ser o maior produtor de soja do mundo, frustrou-se pela falta de água. Foi ultrapassado pelos Estados Unidos. Inapelavelmente a conta de luz vai subir, alguns produtos da mesa já aumentaram até 500% e a inflação segue a rotina desastrosa.


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Por Manoel Hygino - 17/3/2014 09:13:47
Sob o signo do banditismo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Há uma obsessão generalizada com relação ao banditismo no país presentemente? Será que a imprensa exagera na ênfase dada ao problema, embora incontestável? A verdade nua, crua e fua – como dizia o professor Assis Sobrinho – é que brasileiros se encontram duramente sitiados, ainda que o Brasil tenha oito milhões e quinhentos mil quilômetros de extensão.
É muito difícil tomar conta desse tamanhão de território. Mas se as organizações e grupos de bandidos o podem, por que não as forças de segurança, nelas se incluindo todos os dispositivos, somando muitos milhares de homens e equipamentos modernos recém-adquiridos?
O caso de Itamonte é significativo, mesmo cinematográfico, lá no Sul do Estado, mas os criminosos levaram a pior, graças à conjunção de forças policiais de Minas e São Paulo, e a contribuição da PRF. Na mesma região, na histórica Itajubá, berço do presidente Wenceslau Brás (que declarou guerra ao Eixo na Primeira Guerra mundial), os bandidos usaram coquetel molotov, incendiaram coletivos e dispararam armas contra a residência do diretor do presídio.
Mas o setentrião mineiro está também na mira dos criminosos. Aliás, onde houver uma agência bancária, há risco e medo, quando não terror. O Brasil deixou ocupar-se pelos foras da lei, sejam da política ou dos esquemas criminosos. Em Riachinho, a mais de 500 quilômetros da capital, no Noroeste, fuzis, metralhadoras e espingardas de grosso calibre, submeteram os nove mil habitantes da pacata cidade, assaltando os dois bancos e fazendo a limpa.
O brilhante advogado Petrônio Braz, também escritor, narra o que ouviu: “Contaram-me que um senhor, cujo nome não me foi revelado, residente em uma cidade qualquer, sentindo a presença de um ladrão em sua residência, telefonou à Polícia e informou o fato. Na outra ponta da linha, alguém respondeu: “No momento não temos uma viatura disponível, mas está anotado e vamos providenciar”. Os movimentos no interior da casa continuaram. Passada mais de meia hora, o cidadão ligou novamente. Responderam: “Aguarde só um momentinho, que vamos atender”. Uma hora depois, ele telefonou: “Não precisam vir. “Eu matei o ladrão”. Em menos de dez minutos ouviam-se, as sirenes e duas viaturas já estavam na porta da casa. A televisão chegou primeiro e um batalhão de repórteres. Membros atuantes dos “Direitos Humanos” acorreram logo em seguida, para o indispensável protesto. O brasileiro, em sua residência, abriu a porta e declarou: “não se preocupem, o ladrão furtou o que quis e foi embora. Não matei ninguém, mesmo porque não posso possuir arma, nem mesmo para a defesa de minha casa e de minha família”.
As pessoas honestas e trabalhadoras estão enclausuradas em suas casas, cercadas por muros, sem direito de manter, por um segundo, a porta aberta. A lei desarmou o cidadão digno, mas não desarmou o bandido.


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Por Manoel Hygino - 11/3/2014 08:45:28
Uma visão nítida de Rosa

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Na edição nº 17, da revista “In Verbis”, pude ler o excelente texto do juiz Luiz Audebert Delage Filho, hoje desembargador—corregedor do Tribunal de Justiça de Minas Gerais, focalizando “Guimarães Rosa, o sertão e o homem”. O magistrado não é da região em que Rosa nasceu. Pelo contrário, é de Juiz de Fora, mas juiz de direito da comarca de Pirapora, sentiu-se motivado a escrever, em abril de 1985, sobre o tema, quando a Rede Globo ali filmava para a minissérie sobre “Grande Sertão: Veredas”.
Delage assimilou a essência do escritor de Cordisburgo, porta de entrada do sertão. Sua resenha é das mais adequadas ao sentimento de Rosa ao relatar as aventuras dos jagunços que guerreavam para domínio da região, terminando os embates míticos no Rio do Sono. Embora reconhecendo ser difícil “sintetizar Guimarães Rosa e sua obra-prima Grande Sertão: Veredas”, por o escritor e a obra deverem “ser focados sob o aspecto da genialidade”, muito bem se houve o autor da resenha, valendo-se do adjutório de Franklin de Oliveira, de Alan Viggiano, mineiro de Inhapim, e de Leonardo Arroyo.
Quem quiser ingressar na obra de Rosa encontrará uma ajuda valiosa em Delage Filho. Diz ele: “Em Grande Sertão: Veredas, a estória é contada sob a aparência de diálogo, mas, na verdade, é um colossal monólogo. É a estória de Riobaldo, quando não é mais jagunço, quando já deixou a jagunçagem para ser estável fazendeiro, a passar o melhor de seu tempo no “bem bom do range-rede”, em recordações e dúvidas, sendo a maior delas a existência do diabo, “o diabo na rua, no meio de redemoinho”- refrão do livro e se realmente ele, Riobaldo, se tornara pactário ao vender a alma, à meia-noite, nas “veredas mortas”, pelas glórias do comando”.
O artigo em questão nos faz reviver, calidamente, toda a aventura relatada por Rosa, a partir da própria personalidade de Riobaldo, o herói problemático, o fáustico, pactário, herói resoluto, que trai a si mesmo; e o místico, herói frustrado. “O romance começa e todo ele é uma evocação de sua vida, portanto, não mais a história de um homem de ação, mas de um homem que interroga. De algum modo, um romance de ilusões perdidas”.
Nos bandos em guerra, aparece Riobaldo, ex-menino pobre do Vale do São Francisco e que, certo dia, saiu pelo mundo para pagar promessa e encontra um outro, com quem aprende a lição da coragem. É Reinaldo, que acompanhava Joca Ramiro, outro jagunço, já cheio de glória, depois assassinado por Hermógenes, a quem decidiria liquidar, onde fosse e na oportunidade que surgisse.
É um enredo intrigante, que Rosa valoriza esplendidamente com linguagem fantástica, em que se misturam palavras e expressões de uso regional com raízes do português antigo, bem do conhecimento do autor. No âmago da estória, como refere Luiz Audebert, o segredo maior do personagem Reinaldo, jagunço respeitado, por quem Riobaldo nutria amor inconfessável.
Num corpo a corpo, a faca, entre Reinaldo e o inimigo Hermógenes, que matara, à traição, seu pai, ambos morrem. Revela-se, com o trágico fim, que Reinaldo era simplesmente mulher, de apelido Diadorin, que o pai criara desde pequena como homem, “destinando-a às duras guerras do sertão”. Por batismo, era Maria Deadorina da Fé Bettencourt Marins, “que nascera para o dever de guerrear e nunca ter medo, e mais para muito amar, sem gozo do amor”. Cumpria-se o destino bem arquitetado por Guimarães Rosa, insuperável ao transpor às letras as sagas da grande região de Minas.


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Por Manoel Hygino - 9/3/2014 14:58:59
A maioridade penal: Ficou no mesmo

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Soou-me pelo menos estranho que a imprensa não tenha dado maior ênfase e dedicado mais espaço, na segunda quinzena de fevereiro, à notícia da rejeição da redução da maioridade penal. A matéria era examinada pelo Senado, cuja Comissão de Constituição e Justiça não aprovou o projeto que permite a diminuição da maioria penal de 18 para 16 anos, em casos de crimes hediondos, tráfico de drogas com uso de violência ou reincidência em delitos violentos.

Enquanto os veículos de comunicação publicavam longas reportagens sobre o tema, alertando para crescimento desse tipo de violência entre os jovens do país, a decisão causou surpresa na população. Por 11 votos a 8, os senadores recusaram o projeto. Mais do que isso, o autor da proposta, Aloysio Nunes Ferreira, chegou a ser acusado de fascista por um manifestante em plena reunião.

Há explicação: o Planalto é contra qualquer mudança na maioridade penal, mesmo com a maioria da população favorável à medida, segundo pesquisas. Embora ainda possa ser apresentado recurso para se votar em plenário a proposta, já rejeitada pela CCJ, o fato assustou e desalentou aqueles que querem punição para os jovens delinquentes, responsáveis por elevados índices de ocorrências em todos os estados.

As alegações de que o país não tem um sistema prisional capaz de abrigar esse novo contingente de transgressores da lei não parece suficiente quando a violência no Brasil é sentida e criticada internacionalmente. Então, a solução seria deixar como está, com a população sofrendo os perigos incessantes de furtos, roubos, sequestros, e crimes contra a vida?

Não se trata de postura politicamente correta. Um jornalista da mais alta competência, considerou, dias atrás, essa inação certamente perigosa. Para ele, e estou de acordo, o malogro do Estado brasileiro, nas suas três fatias, está arrasando a nação. Assiste-se a um retrocesso monumental, especialmente em termos morais. A omissão incentiva o crime e os criminosos, e o cidadão se acha à mercê de incalculável número de delinquentes. Como Cícero, em Roma, poder-se-ia perguntar: Até quando?

Ferreira Goulart, cidadão e poeta, a seu turno, confessava recentemente que o homicídio puro e simples não deixa de espantá-lo. Tirar deliberadamente a vida de alguém é coisa incompreensível e inaceitável. Há pessoas que têm o prazer de matar e o fazem frequentemente. O poeta se lembrou de um jovem, preso logo após liquidar um desafeto. Quanto o policial lhe disse que, no ano seguinte, seria maior de idade e, se voltasse a matar alguém, iria para a cadeia, respondeu simplesmente:

- Pois é, não posso perder tempo


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Por Manoel Hygino - 25/2/2014 08:42:00
À véspera de acontecimentos

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Enfim, o governo acordou para as evidências da gravidade da hora que atravessamos. Minas decidiu tomar uma série de medidas para conter, até onde possível, a onda crescente de criminalidade, reconhecida mesmo pelas estatísticas oficiais. Verdade se diga: não estamos em paz e na onda de violência todos somos envolvidos. A imagem paradisíaca que se quer transmitir dentro e fora do país não pode prevalecer porque atravessamos um quadro de incessante transtorno.
Já em julho do ano passado, os responsáveis pela proteção ao papa trataram do assunto com a equipe do Vaticano, visando à proteção de sua santidade. Em junho, um software em uso pelo Centro de Defesa Cibernética do Exército filtrou informações postas nas redes sociais e serviu para identificar manifestantes que assumiram a linha de comando dos protestos.
A propósito, li observações de Isaías Caldeira, um cidadão de bem e do bem, juiz da Vara de Execuções Criminais na Comarca de Montes Claros, que merecem consideração. Na opinião dele, “esses elementos que saem às ruas em protestos estão brincando de revolucionários. Viram filmes e reportagens sobre os anos 60/70 do século passado e acham que devem repetir as passeatas da época contra o regime militar”.
Para o magistrado, esses grupos não têm um ideário, agem “por simples balbúrdia, pelo gosto único de manifestar-se contra o que sequer definiram, sejam centavos de aumento em qualquer tarifa ou a Copa do Mundo, ou coisa alguma”. A bizarrice da situação seria cômica, não fossem os resultados até aqui apresentados, onde depredações do patrimônio público e privado, a violência contra pessoas e o desafio às autoridades e ao aparato de segurança pública dão a dimensão da insensatez dos manifestantes, mascarados ou não.
E quem são o black blocs, os mascarados? Eles integram grupo organizado, que prega a destruição de todos os valores que sustentam a sociedade atual, com o aniquilamento das instituições e do próprio Estado. “São inocentes apenas nos seus propósitos, fruto da desocupação das coisas úteis, do ócio em que vivem”.
Enfim, “sem sustentação intelectual, nulos de conhecimentos, sob o influxo do peso da liberdade a que estamos submetidos e que nos torna senhores de nossa história pessoal. Falta-lhes o discernimento para o diálogo e a ignorância recomenda o embate físico, avessa aos ditames da racionalidade”. Tem-se de pensar.


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Por Manoel Hygino - 22/2/2014 12:11:20
As aventuras do presidente

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Em 11 de fevereiro, os jornais brasileiros publicaram a notícia do falecimento de Virgínia Lane. As novas gerações sequer saibam possivelmente quem era ou se interessou em saber. Mas quem ler a curta nota conhecerá algo sobre uma ex-vedete do teatro rebolado do Rio de Janeiro, em sua época áurea.
Virgínia era de pequena estatura, morena, e nasceu em 1920, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, começando cedo a carreira artística. Aos 15 anos, estreou no Cassino da Urca (naquela época o jogo era livre), e aos 18 anos, passava ao cinema. Participou de 32 filmes e dezenas de peças no teatro de revista, ganhando popularidade, principalmente pelas pernas, consideradas as mais belas do Brasil.
Sua fama atraiu Getúlio Vargas, presidente da República, ao teatro João Caetano, na Praça Tiradentes. Ignorando as possíveis críticas, o chefe da nação, também baixinho, deixou-se encantar pela artista, como aliás conto em meu livro “Vargas, de São Borja a São Borja”.
Evidentemente, o caso - e não foi o único de Getúlio -, se tornou notório, não ganhando maiores proporções porque a segurança era rigorosa e não permitia que a imagem presidencial fosse denegrida. Havia, ainda, a fama de Bejo, irmão de Getúlio, que não era das melhores, armando “barracos” em elegantes casas de shows.
Getúlio, mais discreto, tampouco “mandava pro bispo”, como se dizia. Assim aconteceu, por exemplo, em 1952, quando já presidente eleito. Ele foi a São João del-Rei, onde seria homenageado por trabalhadores. No quartel do 11º Regimento de Infantaria, comandado pelo coronel Olympio Mourão Filho, promoveu-se um churrasco, abrilhantado por uma orquestra contratada em Belo Horizonte. E Tancredo estava lá.
Vargas comeu e bebeu como o coronel jamais vira. Rolaram por baixo da mesa um barril de chope até perto ao visitante ilustre, que se encantara com a cantora com voz arrastada, o presidente dizia-lhe: “Te levarei para o Rio”. O entusiasmo durou pouco. A “crooner” desmaiou pela insolação e o show acabou antes da hora. Estava-se em pleno verão, fazia um calor infernal, sob o toldo armado na pista do campo de esportes do quartel. Getúlio comentou apenas: “Que pena! Que pena!”.
Dois anos depois, no ápice da crise provocada pelo atentado da rua Toneleros, em que morreu o major da Aeronáutica, major Rubens Vaz, Vargas se matou com um tiro no peito, no Palácio do Catete. Virgínia Lane contestou a versão oficial.
A vedete resistiu ao tempo, falecendo em Volta Redonda, onde morava, aos 93 anos, por falência múltipla de órgãos. No CTI do Hospital São Camilo se encontrava internada devido a uma grave infecção urinária.
Assim é. O presidente se foi em 24 de agosto de 1954; a estrela se apagou em 10 de fevereiro, 60 anos depois.


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Por Manoel Hygino - 20/2/2014 08:50:05
Vou-me embora daqui

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Tive madrinha Dagmar, nome de rainha, cujo complemento Alcântara também denotava nobreza, nascida em Grão Mogol. Daí, meu antigo interesse pela cidade norte - mineira. O pesquisador e escritor Haroldo Lívio acrescentou brasas ao calor de minha curiosidade. Em livro, contava ele, como na letra de música cantada por Elis, que “incrustada, no regaço da Cordilheira do Espinhaço, Grão Mogol é pedra, é cristal, é ouro, é diamante...”.
Magnífica descrição: “Protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra. Suas ruas, estreitas e tortuosas, foram pavimentadas de seixos rolados coloridos, imitando um bordado”.
De lá, partiram tropas de mulas carregadas de ouro e gemas preciosas para adereçar as cabeças coroadas de rainhas e princesas nas cortes de além-mar. No recanto privilegiado, há poucos anos, o empresário Lúcio Bemquerer, ex-presidente de entidades importantes na economia, decidiu instalar-se de vez, renunciando à vida agitada dos negócios e dos eventos, Encontrou ambiente adequado e implantou o maior presépio natural do mundo, recebendo bênção do papa Francisco. É o presépio Mãos de Deus.
Mais recentemente, o jornalista Alberto Sena, que é de Montes Claros, onde viveu 22 anos, decidiu transferir-se para Grão Mogol, após somar prêmios por sua atuação na imprensa e percorrer numerosos países, na Europa, América do Sul e do Norte, África e Ásia. Fez o caminho de Compostela, na Espanha duas vezes, andando 500 e mais 800 quilômetros a pé. Sem falar as quatro viagens do Caminho da Fé, vencendo os trezentos quilômetros de Águas da Prata ao Santuário de Aparecida.
Alberto Sena abandonou as andanças para assentar-se de vez na cidade de pedra. Apesar do amor pela capital mineira, percebeu que ela não era mais a que lhe marcara quarenta anos de existência e afirmação. Cansou-se do ar poluído que causa câncer, da violência que prende as pessoas em casa, do estresse provocado pelo trânsito intenso. Achou que merecia qualidade de vida e zarpou, com mala e cuia, para Grão Mogol, cidade que não se parece com nenhuma outra no Brasil.
Em crônica, espécie de carta de adeus ao passado, disse do projeto de semear sementes visando produzir bons frutos, numa região pacata e tranquila, com lindas paisagens e água em profusão, ar puro, onde se pode viver bem, porque se tem qualidade.
Grão Mogol é uma vida sem derivações. A natureza proíbe mudança de destino, que faz a cidade segura, onde o único ofício da polícia é conhecer os que chegam, à menor suspeita. As portas e janelas ficam abertas e os vizinhos trocam oferendas, identificadas só pelo apelido. Subir serra e descer encostas, cavernas convidativas e o presépio. Enfim, uma Pasárgada que encantaria todo Manoel Bandeira da vida, pois é outra civilização, e as velhas senhoras podem contar, tranquilas histórias da meninice.


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Por Manoel Hygino - 17/2/2014 09:18:34
Os dois fevereiros

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Evitei escrever sobre 6 de fevereiro, o dia mais trágico da história de Montes Claros, que, em 1930, selou a ruptura com o governo Washington Luís, anunciou a revolução e levou ao Catete Getúlio Vargas. Foi um fim de dia de muitos mortos e feridos, entre estes o então vice-presidente da República Mello Viana, ex-presidente do Estado. Ainda hoje, famílias lembram o episódio com tristeza e saudade.
O que inquieta profundamente, contudo, neste fevereiro 83 anos após, é o medo diante do crescimento dos índices de criminalidade e dos perigosos protestos nas ruas, renovados incessantemente, sem que as autoridades cheguem a um denominador comum de como contê-los ou enfrentá-los. Verdadeiramente, o país se transformou num imenso acampamento em que as pessoas sem senso da gravidade da situação fazem o que lhes apraz, enquanto praticamente o aparato legal se resume no registro das ocorrências.
E os fatos acontecem quando se tem programado um dos mais importantes acontecimentos esportivos do mundo. O clima é de tensa expectativa, quando sequer algumas obras essenciais foram concluídas. Segundo “O Estado de S. Paulo”, o “Ministério da Defesa manterá aquarteladas, durante a Copa, “reservas estratégicas” da Marinha, Exército e Aeronáutica para agir em caso de perda de controle na segurança, hipótese extrema em que assumirão o comando e substituirão as polícias estaduais, até na contenção de manifestações”. Diz ainda o jornal: “o aquartelamento faz parte da estratégia do governo para enfrentar protestos de massa ou ações criminosas, mas o uso de militares será a última alternativa, prevista somente para o caso de fracasso das forças policiais”.
No entanto, a avant-première já está sendo vivida, todos os dias, em território brasileiro, com maior ênfase nas capitais, como São Paulo, Rio de Janeiro e o próprio Distrito Federal. A Polícia Federal dependura simbolicamente as algemas. Os crimes se repetem, de modo geral cruelmente e por motivos torpes, a despeito dos esforços das polícias estaduais, militares e civis.
Li, aqui, na seção do Cláudio Humberto, que a população de Brasília lidera as solicitações de portes de armas de fogo. Desde 2010, o DF expediu proporcionalmente mais autorizações para uso dessas armas que o Rio de Janeiro, cuja população é seis vezes maior e mantém guerra aberta contra o tráfico.
E São Paulo? Com 43,6 milhões de habitantes, o Estado concedeu 7.300 portes de armas desde 2010. E aquelas outras que entram no país por outras vias. São, inclusive, metralhadoras e fuzis, de grande poder de fogo, como as usadas pelos bandidos e organizações criminosas. O grande Estado, contudo, continua sofrendo com atentados de toda espécie.
O presidente do Sindicato dos Agentes da Polícia Federal em São Paulo foi claro. A PF não tem condições de garantir a segurança durante a Copa. Em sua opinião, as Forças Armadas e a Força Nacional de Segurança deveriam assumir sozinhas a segurança do evento. Vivemos sob tempestade quase perfeita, como diria o ministro Rubens Ricupero.


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Por Manoel Hygino - 14/2/2014 09:17:01
Quando o gigante desaba

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Antes que virasse a folha do calendário para 2014, o jornalista e conterrâneo Paulo Narciso, vencedor do Prêmio Esso mais de uma vez, me enviou uma notícia. Depois de 24 anos, voltara à casa de Ernest Hemingway, na belíssima Key West, onde escreveu seus mais importantes livros, entre 31 e 40 anos. “Para se chegar lá, dirige-se por 250 quilômetros pela mais simpática estrada que conheço, tendo ao lado da pista as águas do Golfo do México, à direita, e do Atlântico Norte, do outro lado”. É uma bela casa, hoje museu, mantida como se o escritor tivesse saído para ir ao bar.
Vê-se que o jornalista insiste em causar-me inveja: a encantadora viagem, o mar, a residência do notável escritor, um dos maiores do século passado, homem que amava a aventura. Vargas Llosa o viu, uma única vez, descendo uma via em Madri, de braços dados com a deslumbrante Ava Gardner. “Parecia seu próprio mito: grande, forte, vital, ávido e feliz”.
Mas não era exatamente mais assim: “por baixo dessa aparência de triunfador, já havia começado a irremissível decadência do titã, a intelectual e a física, essa desintegração que o iria empurrando nos anos seguintes para o tiro de Idaho”.
Hemingway se matou em 2 de julho de 1961, em Ketchum, Idaho, com um tiro de fuzil de caça. Tinha 62 anos.
Filho de um médico da zona rural de Oak Park, Ililinois, cresceu em contato com um ambiente pobre e rude, acompanhando o trabalho do pai. Repórter, alistou-se no exército italiano em 1916, sendo gravemente ferido na frente de batalha da primeira guerra mundial. Seguiu escrevendo; “O sol também se levanta”, 1916, e “Adeus às Armas”, sobre sua experiência militar, editado em 1929.
A prosa de Hemingway foi modelada segundo uma espécie de ética física de coragem e do controle necessário nos momentos em que atinge o limite da resistência. A . Alvarez, estudioso inglês de tantos casos de autoextermínio, analisou o escritor americano. Concluiu sobre sua decisão: “As erosões naturais da idade – a fraqueza, a insegurança, a falta de jeito, a imprecisão e o declínio generalizado daquilo que um dia foi uma máquina extremamente apurada – teriam parecido tão insuportáveis quanto perder a capacidade de escrever. No fim, Hemingway acabou seguindo o exemplo do pai e se matou com um tiro”.
O gigante não resistiu no peso e simplesmente desabou. Sobraram sua obra e a casa-museu de Key West.


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Por Manoel Hygino - 1/2/2014 11:12:54
A penitenciária de Neves
01/02/2014

Neves, ou Ribeirão das Neves. É município encravado na Região Metropolitana de Belo Horizonte e o lugarejo nasceu no século 18, em torno da capela de Nossa Senhora das Neves, como conta Wanda Figueiredo, em “Balaio Mineiro”. O livro tinha como primeiro contar a saga da família Souza, na qual Henrique José de Souza ganhou destaque por ser o pai dos celebrados Betinho, Chico Mário e Henfil.
A família, de Bocaiuva, foi para Neves, por obra e graça de José Maria de Alkmim, nomeado pelo governador Valadares, diretor da Penitenciária Agrícola de Neves, construída pelo presidente de Minas, Antônio Carlos – mas somente em funcionamento na gestão de Benedito. Como o sistema prisional, por cruel coincidência, está na moda, é bom dizer que a penitenciária de Ribeirão das Neves foi a primeira experiência no Brasil de sistema aberto. Em nível mundial só se comparava sob determinados aspectos à Colônia Correcional de Witzwil, na Suíça.
Naquele dia memorável, em 1938, presente o próprio presidente da República, Getúlio Vargas, Alkmim pronunciou um discurso memorável. Declarou, então: “O mundo penitenciário há de constituir uma miniatura do mundo ordinário, de forma que os egressos dele encontrem um universo habitável, onde não se sintam estranhos ou não sejam repelidos. Habituar os detentos ao exercício regular do trabalho agrícola ou industrial, treiná-los para uma carreira em função na sociedade, eis uma das tarefas primordiais das instituições reformatórias. Num país como o nosso, elas podem chegar a definir-se como elementos ponderáveis na organização e distribuição das atividades, transformando energias inaproveitadas ou porque se ignorassem, ou porque tivessem encaminhado a rumos perigosos, em efetivos valores de trabalho”.
A penitenciária tinha capacidade para 650 detentos, chegando os primeiros 100 de cadeias de várias cidades e que apresentaram bom comportamento. Foi um êxito à época. Um jornalista espanhol, José Casal, em 1940, afirmou que a melhor impressão que guardou da visita a Belo Horizonte foi da Colônia Penitenciária de Neves. Não encontrou ali o sentimento de tristeza e desconsolo de outros presídios. Destacou o conforto dos detentos em celas individuais, limpas, alegres, alimentação sadia e abundante, modernas instalações sanitárias, cuidados nas enfermidades. “Também se divertem. Dispõem de salão de festas, cinema educativo, organizações líricas e desportivas”.
Betinho confessaria que passara ali oito anos de vida. “Eram presos que tinham cometido crimes, às vezes até hediondos, mas eles saíam em grupos de 60, 70, com guardas desarmados. Trabalhavam em fazendas. Era uma prisão modelo”. Não havia rebelião, talvez alguma fuga isolada. Um dia, um dos presos se rebelou. Refugiou-se no campo de futebol, nenhum guarda ousou enfrentá-lo. O franzino Alkmim aproximou-se e argumentou que, se a detenção era de 100 anos, seria paga parceladamente um dia depois do outro. Não seria tão penoso. E determinou: Use o facão para trabalhar. O detento se submeteu.
Agora, o sistema parece destinado a transformar-se novamente.


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Por Manoel Hygino - 18/1/2014 12:02:48
Lembrai-vos dos idos de março

Manoel Hygino

Todos sabemos, e quem não o souber bastaria recorrer aos dicionários. Os idos eram os dias 13 de março, de maio, de junho e de outubro, segundo o calendário romano, e os 15 dos demais meses. A data ficou gravada, histórica e definitivamente, pelo episódio de que foi protagonista e vítima Júlio César.
Ia o grande líder a caminho do Senado no ápice de sua glória, quando foi interrompido no percurso por um adivinho, na via pública, que o advertiu: “– Cuidado, César, com os idos de março!”. O imperador não deu maior atenção, mesmo quando o alerta foi repetido: “– César, cuidado com os idos de março!”.
Registrou-se a tragédia. No Senado, Júlio César foi assassinado, sobressaindo no atentado o próprio estimado filho adotivo, a quem o soberano, surpreso, se dirigiu, sangrando sob túnica: “– Tu quoque Brutus, fili mihi?”.
A admoestação parece válida diante do temor que efervesce o país neste 2014, que não é apenas o de centenário do início da 1ª Grande Guerra ou do golpe de Estado de 1964 no Brasil; sequer o sexagésimo aniversário do suicídio de Vargas, no Catete, naquela manhã indelevelmente gravada na história e na memória do povo.
Em verdade, a despeito dos altos índices de popularidade da mandatária maior da nação, não se sente felicidade efetiva, confiança no futuro e esperança de dias melhores. As circunstâncias sequer o permitem. Fatores múltiplos e adversos acendem o estopim de expectativa de dias sombrios, cujas manifestações de junho último apenas constituíram uma espécie de alerta.
Os altos índices de criminalidade; o banditismo desenfreado; os sucessivos assaltos ao patrimônio público e particular; o crescimento de explosões de caixas eletrônicos em bancos das grandes cidades ou nos mais pacatos e distantes municípios; as rebeliões em presídios e cadeias – de que o caso do Maranhão é apenas uma ponta e sintoma –; a rebelião de grupos indígenas contra os “civilizados”; a interrupção da circulação de veículos nas rodovias e nas ruas, tudo parece prenunciar tempos difíceis, e praza aos céus que assim não aconteça. Nem se fale no descrédito a que chegaram os partidos e os políticos.
A todo esse panorama acresce a formação de grupos de adolescentes, mobilizados pelas redes sociais, para reuniões cujo objetivo sequer esses jovens conhecem, de maneira clara e insofismável. Os rolezinhos são uma caixa com surpresas ainda inimagináveis. A autoridade não identifica, em sã consciência, modos e instrumentos para agir nesses casos e circunstâncias, porque a experiência é nova e desconhecida.


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Por Manoel Hygino - 16/1/2014 08:47:27

Uma vida ao bom e ao belo

Manoel Hygino

Há criaturas humanas iluminadas e luminosas, que orgulham as suas gerações, como as de hoje atribuladas e inquietas diante da velocidade das transformações deste nosso tempo. São pessoas que ainda nos nutrem de fé e confiança, quando estas são aniquiladas pelos próprios fatos.
Uma dessas pessoas é Yvonne de Oliveira Silveira, que – em 30 de dezembro de 2014 – completa cem anos. Filha do farmacêutico Antônio Ferreira de Oliveira e Cândida Peres de Oliveira, fez o primário na cidade natal, Montes Claros, em seguida a Escola Normal. Transferindo-se para a simpática e tranquila Brejo das Almas, cujo nome inspirou Drumond e a todos nos sensibiliza, acompanhou os pais e ali começou profissionalmente lecionando no Grupo Escolar local.
Regente de classe e professora de Educação Física por dez anos, casou-se com o fazendeiro Olyntho Silveira, que se revelou poeta e escritor. Dedicada às letras desde a adolescência, Yvonne colaborou – e colabora – com os jornais da região e da capital, publicando uma série de excelentes textos, como os da coletânea “Brejo das Almas”, cuja leitura é dever e prazer intelectual e espiritual.
Prestativa e sensível, mesmo não se furtando a viagens pelo país jamais deixou de atender pedidos, escrevendo, revisando e prefaciando livros, sem interromper as demais atividades sociais e literárias e no magistério. Graduada em Letras pela Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da hoje Universidade Estadual de Montes Claros, ali se tornou professora e ocupou importantes cargos. Pós-graduada em Teoria da Literatura pela PUC-MG, fez cursos de Literatura Portuguesa e Teoria de Literatura, com ativa participação na Comissão Mineira de Folclore.
Aluna do Conservatório Estadual de Música Lorenzo Fernandez, ingressou na Academia Montesclarense de Letras, de que é presidente há não sei quantos anos, recebendo a Casa seu nome pela grandeza de sua contribuição. Membro da Academia Municipalista de Letras de Minas Gerais, fundadora e primeira presidente da Associação Amigas da Cultura, sócia do Rotary Clube Sul e do Elos Clube, foi-lhe concedido o título de Honra ao Mérito pela Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco. Na sublime idade a que chegou, está presente em todas as solenidades e outros atos a que é chamada.
O espaço, aqui, é insuficiente para abrigar a relação de todas as láureas que lhe foram outorgadas. Não é uma simples colecionadora de honrarias. Em todas as atividades do espírito, vive a vida com a beleza que só sentem os privilegiados. Confesso que é uma alegria ser seu conterrâneo e atravessar este tempo glorioso de Dona Yvonne


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Por Manoel Hygino - 10/1/2014 17:22:43

O desembargador (foto) me enviou nesta sexta-feira, o seguinte e-mail:

"A Folha de SP, hoje, publica carta minha, onde ironizo os “baluartes” dos
direitos humanos. Agora, com o morticínio de presos no Maranhão, jornalistas
e intelectuais “engajados” escrevem e opinam copiosamente sobre a questão
carcerária e os direitos fundamentais. São como urubus, não podem ver uma
carniça.
Quando eu era juiz da infância e juventude em Montes Claros, norte de
Minas Gerais, em 1993, não havia instituição adequada para acolher menores
infratores. Havia uma quadrilha de três adolescentes praticando reiterados
assaltos. A polícia prendia, eu tinha de soltá-los. Depois da enésima
reincidência, valendo-me de um precedente do Superior Tribunal de Justiça,
determinei o recolhimento dos “pequenos” assaltantes à cadeia pública, em
cela separada dos presos maiores.
Recebi a visita de uma comitiva de defensores dos direitos humanos (por
coincidência, três militantes). Exigiam que eu liberasse os menores. Neguei.
Ameaçaram denunciar-me à imprensa nacional, à corregedoria de justiça e até
à ONU. Eu retruquei para não irem tão longe, tinha solução. Chamei o
escrivão e ordenei a lavratura de três termos de guarda: cada qual levaria
um dos menores preso para casa, com toda a responsabilidade delegada pelo
juiz.
Pernas para que te quero! Mal se despediram e saíram correndo do fórum.
Não me denunciaram a entidade alguma, não ficaram com os menores, não me
“honraram” mais com suas visitas e ... os menores ficaram presos.
É assim que funciona a “esquerda caviar”.
Abs.
Rogério


Folha de São Paulo, 10 de janeiro de 2014, Painel do Leitor

“Direitos humanos
“Tenho uma sugestão ao professor Paulo Sérgio Pinheiro, ao jornalista
Janio de Freitas, à ministra Maria do Rosário e a outros tantos admiráveis
defensores dos direitos humanos no Brasil. Criemos o programa social "Adote
um Preso". Cada cidadão aderente levaria para casa um preso carente de
direitos humanos. Os benfeitores ficariam de bem com suas consciências e
ajudariam, filantropicamente, a solucionar o problema carcerário do país.
Sem desconto no Imposto de Renda.
“ROGÉRIO MEDEIROS GARCIA DE LIMA, desembargador (Belo Horizonte, MG)”.


76658
Por Manoel Hygino - 20/12/2013 08:07:46
Papai Noel morreu no percurso do tempo

Manoel Hygino

Quando o Natal se aproxima, as pessoas geralmente são tomadas por um raro frisson. Trata-se de natural expectativa, que mais excita as crianças. Antigamente, elas se perguntavam: Papai Noel existe? Ou é invenção dos papais e vovós?
Hoje, não mais sequer se duvida, porque as famílias saem às ruas a visitar as vitrinas e os meninos e meninas escolhem um presente para si, aquele com que sonharam nos 11 primeiros meses do calendário. Os orçamentos auxiliam na definição do que se comprará para alegrar os dias imediatamente posteriores à data e até um novo fim de ano.
O comércio se exulta com os resultados das vendas, enquanto pai e mãe selecionam o que darão aos filhos, pressionados pelos apertados orçamentos domésticos. Os pobres, e os há sempre em todos os lugares do mundo, resignam-se a apenas olhar os mostruários das lojas ou contemplar pelas televisões os remotos regalos, magoados com a sorte ingrata que não admite serem todos iguais, mesmo na festa maior da cristandade.
O espírito natalino, contudo, vai perdendo valia e fôlego, diante do apelo predominantemente material e consumista da sociedade, espelhando e repetindo todos os meses. Efetivamente o ter prepondera sobre o ser, e as inspirações mais nobres e belas do Natal são transferidas às meditações e inquirições íntimas dos que ainda sentem as variantes do tempo e do poder pecuniário.
O Natal de antigamente faleceu em decorrência da longa enfermidade que acomete a sociedade. O presépio, uma criação do pobrezinho de Assis, se viu transformado simplesmente em cenário de curiosidade e de atração visual. Papai Noel se circunscreve a um velho de longas barbas brancas e de coloridas e vistosas roupas, que entra em cena para estimular o comércio e despertar o interesse das crianças que, mesmo vendo-o tão fagueiro e ágil, percebe que ele não passa de charmoso “clown” de ocasião.
Nos templos cristãos, ainda se procura instalar o ambiente de reflexão e respeito a uma criança que, há cerca de dois mil anos, nasceu numa cova de montanha, para disseminar, já adulto, notícias de bons tempos e maior felicidade. Então, homens e mulheres mais se respeitariam e se amariam como condição essencial de paz entre os de boa vontade. Por isso, foi martirizado e executado numa cruz, exposto à multidão ao lado de dois ladrões também condenados. Assim caminha a humanidade.


76491
Por Manoel Hygino - 19/11/2013 09:03:24
Há de quem nos ufanarmos

Manoel Hygino

Um reino da corrupção, com um pormenor: sem punição. É, de um modo geral, o que se pode dizer do Brasil de nossos tempos, sem macular o que existe, porque já de amplo e geral conhecimento. Nada mais conveniente e indicado, portanto, que sancionar os responsáveis por delitos comprovados.
Estas observações faço ao ler a reportagem de Amália Goulart, cá do HOJE EM DIA, sobre a atuação das “Damas de Preto”, magistradas que atuam em Minas contra aqueles que ferem os interesses do país e de sua população. São 11 mulheres, que exercem seu papel com mais desenvoltura e coragem do que muitos times de futebol de ases consagrados e que ganham fabulosas quantias por seus contratos.
Esse time feminino, que usa como uniforme a toga da magistratura, trabalha no Norte de Minas e no Jequitinhonha, regiões tradicionalmente carentes. Inclusive de chuva, além do descaso do poder público a suas reivindicações e causas justas.
Estas juízas, com cobertura dos Ministérios Público Estadual e Federal, da Polícia Federal, das Receitas Estadual e Federal, identificaram fraudes, que beiram hoje R$ 1bilhão. Bens foram bloqueados, executivos mandados para a cadeia, assim como vereadores e poderosos locais ou regionais.
Dinheiro que faltava para obras e serviços fluía pelo esgoto das falcatruas. Uma das meretíssimas indagou: “Como não se indignar?”. Elas não têm medo, porque sofrer ameaças faz parte do risco da profissão. Os corruptos inventaram um estratagema em juízo: alegam, em sua defesa, perseguição política. O Tribunal de Justiça, porém, não acolhe o argumento.
As denodadas e corajosas integrantes da magistratura dão um exemplo a ser seguido. Não se intimidam com o assassinato de colegas, inclusive a da juíza morta com uma saraivada de balas em Niterói. No Brasil, para se ser honesto e pautar dignamente a conduta, tornou-se demonstração de desprendimento, de destemor, de ousadia.
Acho que chegada é a hora de cada brasileiro assumir integralmente sua cidadania. Assumir deveres e não somente direitos, alguns destes duvidosos. Cada homem deste país, em sua profissão, tem de ser honesto, operoso, consciente. Fazer, enfim, o que as “damas de preto” fazem, com orgulho. Delas nos ufanamos.


76484
Por Manoel Hygino - 18/11/2013 11:03:42
Avisos que vêm de longe

Manoel Hygino

Recebi o recado, enviado por Fernando Guedes de Mello, um pensador diplomado em engenharia. É a opinião da filósofa russo-americana Ayn Rand, judia fugitiva da revolução russa e que chegou aos Estados Unidos na metade da década de 1920.
"Quando você perceber que, para produzir, precisa obter a autorização de quem não produz nada; quando comprovar que o dinheiro flui para quem negocia não com bens, mas com favores; quando perceber que muitos ficam ricos pelo suborno e por influência, mais que pelo trabalho, e que as leis não nos protegem deles, mas, pelo contrário, são eles que estão protegidos de você; quando perceber que a corrupção é recompensada, e a honestidade se converte em autosacrifício; então, poderá afirmar, sem temor de errar, que sua sociedade está condenada”.
O leitor encontrará aí uma definição da hora difícil que atravessamos no Brasil. Não importa saber que o panorama descrito se enquadre no modo de ser e viver em outras nações, em épocas diversas da história.
Cabe a cada cidadão buscar a preservação da ética em todos os negócios, sejam de gestão pública, sejam de empresas. Lamentavelmente enfrentamos o problema da sua falta em todos os setores da sociedade.
E não há punição para os responsáveis, para os criminosos, para os assaltantes do erário, até para os assassinos de bocas de fumo, porque enfim estamos encerrados na mesma caverna de Ali Babá. Desfalecem os mais conscientes defensores da decência no trato com os bens alheios, em decorrência da falência de obrigações comezinhas.
Serviria para identificação dos desonestos o ensinamento de Rui: “Os políticos incapazes de ter princípios, ou habituados a não conhecê-los, senão para os violar, são precisamente os que não têm mãos a medir no luxo de invocá-los, para se deturpar à mercê dos interesses de ocasião”.
O crime compensa seus autores e cúmplices se não há punição. Constitui a improbidade, de fato, um estímulo à sua ampliação, estendendo-se a todos os setores da vida. Não sancionar representa, ademais, um incentivo aos atos de ilicitude e desonra. O prestígio e grandeza da administração pública se perdem nos desvãos da indignidade.
Aliás, foi o próprio Rui quem disse que as primeiras condições de respeitabilidade de todo poder, de todo agente de autoridade, em qualquer país, são a sua competência e a sua honestidade. E elas parecem faltar-nos, nesta fase da história brasileira, assistida com perplexidade pelo cidadão.
Quem tem legitimidade para repelir o crime, onde e quando praticado, é o Estado. Se seus agentes também bandeiam para o vício e a devassidão, a autoridade perde vigor e respeitabilidade.


76407
Por Manoel Hygino - 5/11/2013 08:10:22
As decepções na região do Velho Chico

Manoel Hygino

Os habitantes das regiões da bacia do São Francisco ficaram enfim eufóricos. A notícia do gás natural, até aqui conservado nas entranhas da Terra, era comemorável. Seu volume atingiria 194 bilhões de metros cúbicos, segundo o primeiro estudo divulgado há poucos anos. Confirmava-se a perspectiva do engenheiro Levínio Castilho e de demais entusiastas e interessados.
As estimativas, divulgadas pela imprensa e de boca em boca nos grotões, encheram de alegria a população generosa, confiante em mais interesse e atenção dos poderes públicos. Uma poderosa organização do setor indicou a existência de até 194 bilhões de metros cúbicos de gás natural.
A boa gente da região ouviu com um pé atrás. São muitas dezenas de anos de decepção. A própria Petrobrás já andara perfurando por lá nos anos 80, mas interrompeu o trabalho. Ela tem pressa de resultados. Principalmente, porque há eleições em 2014. A esperança da população é infinda e pode aguardar mais. Quanto tempo?
O governo de Minas ficou eufórico, em determinado período. A bacia do velho Chico tinha potencial para produzir 37 milhões de metros cúbicos por dia. Assim, logo nos eximiríamos de importar gás da Bolívia, evitando alimentar a dura lembrança da maneira bélica como a Petrobrás foi tratada pelo governo Evo Morales, que lhe invadiu as instalações pela força, sem qualquer protesto sério de Brasília.
Quando o penúltimo mês de 2013 começou, ocorreu a triste comunicação oficial de que a estatal brasileira decidira abandonar os últimos quatro blocos de identificação e produção do gás na região do São Francisco, depois de desistir de outros três. “Uma autoridade presente a uma reunião que tratara do assunto foi peremptória: “A gente gera muita expectativa”, e a perspectiva se desfaz como folhas secas ao vento.
Tentou-se justificar: os interesses estão voltados para os trabalhos do Pré-Sal, na bacia de Santos. Os resultados lá estão praticamente assegurados, se bem que a produção só comece, segundo os técnicos, depois de 2020. Seria ou será a autosuficiência em petróleo. Quando ao interior de Minas, que esperou durante séculos, pode aguardar mais. E já se fala nas reservas de xisto na bacia do rio na unidade nacional. O Velho Chico ponderou: “Pois, sim.”


76165
Por Manoel Hygino - 27/9/2013 08:20:34
Um autêntico herói do sertão

Manoel Hygino

No dia 3 de outubro, será a entrega da Medalha Cultural “Acadêmico Saul Alves Martins” ao advogado e escritor Petrônio Braz, por seu livro “Serrano de Pilão Arcado – A saga de Antônio Dó” e “Vultos Honoráveis de Brasiliano Braz e Saul Alves Martins”. A solenidade se realizará no Salão Rubi do Clube dos Oficiais da PMMG, na rua Diabase, no Prado.
Rende, assim, a Academia de Letras “João Guimarães Rosa”, da Polícia Militar de Minas Gerais, homenagem, a instância do acadêmico coronel João Bosco de Castro, seu presidente, a um dos mais prestigiosos pesquisadores e autores do sertão mineiro. Petrônio será o orador oficial da cerimônia.
Os mineiros, geralmente, por índole ou formação, são tímidos na divulgação de seus feitos, na exaltação dos que constroem sua história e seu futuro, dos que reverenciam as tradições e enfatizam, como convém, a importância de sua cultura. É o caso de Antônio Dó, autêntico homem do sertão, que não se curvou às injustiças e às vinganças de seus adversários, reagiu e foi executado. Sua personalidade forte se fixou através do tempo e mereceu realce na notável obra de Guimarães Rosa.
Petrônio Braz, membro da Academia Montes-clarense de Letras e fundador da Academia de Letras, Ciências e Artes de São Francisco, dedicou-se ao tema Antônio Dó, personagem menos conhecido, mas mais significativo para a região, do que o foi Lampião para o Nordeste. O livro de Braz ganhou repercussão e inspirou documentário selecionado para o VII Curta Canoa, no Festival Latino-Americano de Cinema de Canoa Quebrada. A produção de Elder Gomes Barbosa foi incluída entre os vídeos selecionados para a mostra competitiva.
“Serrano de Pilão Arcado” mereceu um esplêndido ensaio crítico da professora-acadêmica Yvonne de Oliveira Silveira, já reeditado e apresentado no Clube de Leitura Felicidade Patrocínio, um dos mais atuantes centros de cultura do interior de Minas. Para a médica e jornalista Mara Narcisa, a iniciativa exige atenção: “Alguém precisa enxergar isso e fazer crescer tal atividade. Caso não avance, todos perdem”.
Daí, a conveniência até de se dar presença no Clube dos Oficiais, neste outubro. Conhece-se um autor de excelentes méritos e mais de perto se ingressa no universo de Antônio Dó, vulto marcante na afirmação do homem de Minas. Afinal, sertão não é unicamente nordestino.


76110
Por Manoel Hygino - 19/9/2013 09:06:50
Para onde estamos indo? Pergunta-se

Manoel Hygino

Criança boliviana de 5 anos, em 28 de junho, é assassinada a tiros, em São Paulo, por um grupo de jovens brasileiros: um de 19 e outro de 18 anos. Considerados suspeitos e presos, foram conduzidos ao Centro de Detenção de Santo André até julgamento. A detenção não foi provisória, nem houve júri. Ambos foram encontrados mortos por envenenamento logo depois. Os companheiros de cadeia acharam melhor não aguardar o demorado processo na Justiça.
Um terceiro comparsa de 19 anos foi morto também a tiros. Um quarto e último se acha foragido. Certamente, será assassinado, extinguindo-se um quarteto de menores de 20 anos, que não se incluirão nas estatísticas de presidiários do país. Haverá quatro vagas no sistema penitenciário, tão precário em número e qualidade.
O Brasil se transforma numa imensa praça de guerra intestina. A apuração, julgamento e a punição atrasam em todas as esferas, porque não é do vezo do sistema aplicar sanções. As armas, contudo, estão por aí. O caso de Marcelo Perseguini, de 13 anos, não é isolado. Em minha cidade, um ex-presidiário, 24 anos, foi morto quando um indivíduo lhe desfechou três disparos fatais. Era o primeiro homicídio de agosto.
No oitavo mês, o IBGE divulgou que a expectativa de vida do brasileiro ao nascer cresceu 11,2 % entre 1980 e 2010. Média de vida 62,5 anos, no primeiro período; trinta anos depois, 73,7 anos. Se não perder a vida em acidentes de trânsito, nas estradas e por armas de fogo ou outras.
Tornamo-nos o quarto maior exportador de armas do mundo, segundo a entidade Small Arms Survey. Mas também, as compramos nos EUA, Rússia, Chile, Bélgica e China. Afora as de nossa própria produção, encontráveis à venda até na Praça 7, em BH.
Outro dia mesmo, na minha sertaneja cidade natal, um menino de oito anos foi apreendido exibindo uma garrucha de dois canos perto do Batalhão da PM. Estamos assim, e sem perspectivas de melhorar.
A legislação labiríntica induz à impunidade. A Justiça é lenta e tardia, frequentemente. Há os que acham melhor fazê-la com as próprias mãos.
Em 15 anos, quase 130 mil homicídios deixaram de ser contabilizados no Brasil. A grande maioria de mortes violentas registradas como “causas indeterminadas” pelo Datasus são, de fato, homicídios. Para o Ipea, os índices de assassinatos no país são 18,6% maiores do que os divulgados oficialmente. Os números espantam e inquietam.

(N. Da Redação: o escritor e jornalista Manoel Hygino é de M. Claros)


76056
Por Manoel Hygino - 10/9/2013 08:16:58
Agosto que sempre se repete

Manoel Hygino

Cada terra com seu fuso, cada roca com seu fuso. O adágio emerge do mais profundo de meu ser, lendo os relatos da 174ª Festa de Agosto e do 35º Festival Folclórico de Montes Claros. Muito passado presente, muitas vidas, muita história, lembranças infindas de uma das mais antigas e tradicionais comemorações do interior das Minas: arte em cada volta, beleza em cada passo, como programado.
O mundo evoluiu. O calendário é outro, as estações do ano - agora tão várias como diria a Folhinha Mariana - estão diferentes, as pessoas não são as mesmas, mas as tradições no maior burgo do Norte mineiro resistem. O que há de mais representativo saiu às ruas no oitavo mês ou se mostrou no Centro Cultural Hermes de Paula: lançamento do livro “O menino que sonhava com as estrelas”, de Amelina Chaves; apresentação de esculturas de Felicidade Patrocínio (que faz um esplêndido trabalho pelas artes e letras); e exposição de Afonso Teixeira.
Além de desfiles de cortejos do mastro de Nossa Senhora do Rosário, e dos reinados dela e de São Benedito, o Império do Divino Espírito Santo e o Encontro Mineiro de Ternos de Congado. Ainda que muito descrevesse, faltaria muitíssimo. Há curiosidade, interesse e carinho por essa época. A cidade, de intensas e múltiplas atividades, vira festa. Há alegria. Catopês, marujos e caboclinhos desfilam.
A meteorologia previa sol com algumas nuvens, mas nada obscurece as expectativas. Os ventos dos redemoinhos típicos de agosto trazem algum incômodo, mas anunciam que os catopês estão chegando.
O jornalista Paulo Narciso conta que, com quase 200 anos, o Reinado de Nossa Senhora do Rosário abriu o segundo dia de festas. O cortejo passou pelas ruas do centro e chegou à Praça Portugal, onde fica a Igreja do Rosário. O sol continuava com “algumas nuvens”.
2013, contudo, trouxe novidade, talvez a mais significativa desses dois séculos. As mulheres, antes fora do corso, foram recebidas, bem recebidas, entre catopês, marujos e caboclinhos. Desfilaram, vestidas a caráter, usando as roupas de cada grupo dançante, perfeitamente integradas. A população vê tudo e aplaude.
Há uma efetiva confraternização e turistas vêem de longe para assistir a um espetáculo de rara e simplória beleza. Das áreas rurais, chegam os apreciadores habituais. É a maior festa do sertão mineiro. Ninguém quer perdê-la. Cores, música, folclore, religiosidade. No ano que vem, tem mais.


75997
Por Manoel Hygino - 27/8/2013 15:09:56
A telefonia que não ouve

Manoel Hygino

Supõe-se que aborrecimentos só acontecem com as outras pessoas, assim como ganhar na Sena. No entanto, os primeiros, isto é, os desprazeres estão bem próximos ou junto a nós, como os assaltos, os acidentes de carro ou as crises hepáticas ou intestinais.
No Brasil, dói saber que os serviços públicos, diretos e indiretos, são tal mal executados por quem de dever. As reclamações no âmbito da telefonia formam uma imensidão. E entra em exaustão e exasperação quem tiver de pedir uma providência saneadora ou reclamar.
Cito o meu próprio caso com a Oi Fixo. Não uso o jornal para um registro pessoal, porque evidentemente milhares de cidadãos têm de passar ou estejam passando pela mesma situação, que incomoda o assinante e lhe dá direito de vir a ressarcir-se pelo tempo perdido em busca de soluções para questões simples.
O autor deste comentário constatou, por motivos que ultrapassam o limite de explicações simplistas, que sua conta telefônica mensal era expedida em nome de Manoel de tal dos Santos. Fez-se a solicitação para correção do nome por via telefônica, tendo a área indicada feito o respectivo registro e recomendado que deveria também usar o e-mail.
Agiu-se assim como recomendado e tudo ficou como dantes. Incomodado pela manutenção do erro, dirigiu-se, com documentos à mão, a uma loja da Oi, já que a afirmação era de que qualquer dessas unidades procederia à correção. Na rua Tamoios, a atendente esclareceu (?) que só poderia atuar no caso a unidade do Barro Preto.
Nova locomoção até o novo endereço, onde se disse que o assinante teria de comparecer pessoalmente ou atribuir a tarefa a um procurador. Na rua Tamoios com Rio de Janeiro, seria fornecida uma senha para acesso ao serviço.
Verifica-se, pela descrição, que uma concessionária de serviço público comete um erro elementar, não cuida de repará-lo, sequer orienta corretamente para consertar o malfeito, obrigando o assinante a perambulações pela cidade, enquanto muitos milhares de pessoas têm de movimentar-se em seus múltiplos afazeres. A falta de compromisso com o cidadão, que tudo paga e com seu dinheiro mantém os serviços é flagrante. Quando se protesta, há a resposta: “Isto é Brasil”.


75888
Por Manoel Hygino - 3/8/2013 09:16:15
Uma história de trilhos

Manoel Hygino - Hoje em Dia

A Agência Nacional de Transporte Terrestre discutiu, na última semana de julho, o projeto de uma nova ferrovia que passará por Montes Claros, fazendo o itinerário entre Belo Horizonte e o Porto de Aratu, próximo a Salvador, na Bahia. O empreendimento estará a cargo de empresa privada e será leiloado até o primeiro semestre de 2014. Prazo de construção: cinco anos.A ferrovia se destina a cargas e permitirá velocidade de até 80 quilômetros por hora. Os trilhos ficarão a uma distância entre 30 e 50 quilômetros da maior cidade do Norte de Minas, devendo exigir de R$ 10 bilhões a R$ 12 bilhões. Com isso se substituirá a linha existente, construída nos anos 20. Mais do que tudo, porém, confirma que as lutas pela antiga estrada de ferro eram perfeitamente válidas e revelavam o espírito empreendedor, visão de futuro e notável pertinácia.O Norte de Minas sempre se sentiu isolado, distanciado do interesse dos homens de governo, longe do Palácio da Liberdade ou do Catete, embora lutando, brava e incessantemente, para ser integrado aos projetos da administração pública. A construção da estrada era uma imposição, que imensamente exigiu de esforços dos seus representantes nos parlamentos e de pressões de seu povo. A região precisava de comunicações, mas não conseguia rodovia ou ferrovia.
Na época da proclamação da República, chegou-se a constituir uma sociedade anônima para construir uma via férrea ligando Montes Claros a Extrema, no rio São Francisco; depois, mais duas iniciativas, que também se frustraram, não se sabe exatamente por quais razões. Somente com a nomeação de Francisco Sá, homem do norte-mineiro e celebrado empreendedor, o projeto começou a tornar-se realidade. Era 1922 e a ideia saía do papel. A estação de Bocaiuva, a quilômetros da cidade maior, foi inaugurada em 7 de junho de 1924, como registra Hermes de Paula, e houve festas inesquecíveis. O ministro visitou ambas as cidades, em meio a grande entusiasmo popular. Em 1º de setembro de 1926, a grande longitudinal alcançava seu ponto mais ao norte. O sonho se concretizava, até que um dia, muitos anos após, o trecho foi considerado antieconômico e os trilhos deixaram de servir a passageiros. Novo tempo de desânimo e sensação de desamparo. Agora ânimo, mas se terá de esperar.


75829
Por Manoel Hygino - 24/7/2013 08:16:07
A infraestrutura médica

Manoel Hygino

O problema da carência de médicos no Brasil continua na ordem do dia. A ideia que se tem e que se comenta sobre o tema é vária. Por que faltariam médicos aqui? Temos o maior país da América do Sul em termos geográficos e de maior população; os profissionais desta área “ganhariam” bem e os respectivos cursos são os mais disputados nos vestibulares. Logo...
Algo está errado. Se temos de importar médicos e se eles são efetivamente competentes, não há de temer a revalidação da habilitação conseguida no país de origem. De fato, as condições de exercício do ofício em regiões recônditas são más, quando não péssimas. Inexistem equipamentos mínimos de saúde, há falta até de farmácia impedindo medicina responsável, o que, aliás, ocorre também na periferia das cidades maiores.
Verdadeiramente, estamos atrasados e quem desejar comparar pode recorrer aos romances do século passado ou às crônicas dos médicos que tiveram a coragem de enfrentar as dificuldades nos grotões. Um dos livros recomendados seria “Jornal de Serra Verde”, de Waldemar Versiani dos Anjos, romancista de excelentes predicados e irmão de Cyro dos Anjos, ex-membro da Academia Brasileira de Letras.
Iara Tribuzzi, sua sobrinha, recorda aqueles aparentemente remotos tempos heroicos da medicina, não tão distantes na prática. Ela evoca a personalidade do tio - médico, calmo, paciente e bem humorado. Era uma época em que o único exame disponível no sertão era o de fezes. E as moças ficavam acanhadas de enviar o “material” para o médico, que fazia às vezes de laboratorista.
Diante das circunstâncias inarredáveis, certa vez uma das clientes levou, bem lavada, uma latinha azul de pó de arroz Lady (que a gente simples chamava de Ladí), perfumou-a com o melhor dos perfumes - talvez “Je reviens” - e a enviou ao discípulo de Hipócrates, incluído nos sonhos da população feminina casadoira.
Imagine-se a surpresa do médico com o presente. Sobreveio o constrangimento ao abrir a latinha, em um tempo em que não se pensava sequer mencionar palavras como urina, sangue, menstruação, gravidez, nem suor. Como se terá comportado o novo médico procedente da capital com o diploma dependurado na parede do consultório? Iara cogita: “Teve vontade de rir, enfrentando material tão caprichado?”
Mesmo assim, boa era aquela época, tranquila e plácida. Hoje, o problema dos médicos chega ao mais alto tribunal de Justiça do país. O objetivo é melhorar a assistência. Vamos ver se se consegue. O Brasil precisa.


75742
Por Manoel Hygino - 10/7/2013 10:04:27
A importação de médicos

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Trazer médicos do exterior para suprir o mercado consumidor existente no interior do Brasil. Este um dos projetos do governo para atender necessidade básica. Não é solução tão fácil como se imagina. Gente é gente, doença é doença, o país é grande e as dificuldades de comunicação ainda são notórias, a despeito de avião, automóvel e telefone, por exemplo.
Uma dorzinha pode exigir ultrassonografia e o aparelho mais próximo fica distante. Não é só a máquina: exige ultrassonografista, com conhecimento específico para determinados casos. Se se precisar de uma tomografia, a solução está mais longe. Um equipamento de tomografia computadorizada custa bom dinheiro, requer especialistas para a operacionalização e interpretação do que se fotografa.
Quanto reclama em investimentos uma hemodinâmica, uma ressonância magnética, nem estou falando em medicina nuclear. A medicina é cara, as distâncias longas, impõe crescentemente saber cada vez mais a respeito de menos e menos. Lembraria Huxley.
Evitei referir-me a CTI. Se alguém necessitar de instalações de Centro de Tratamento Intensivo tem de penar para conseguir uma vaga, mesmo nas capitais. Médicos, de quaisquer nacionalidades, sofrerão com um paciente em condições graves. Depois, como transportar o doente para cidades com essas unidades, em que muito se confia ser a salvação?
O interior é pobre em assistência à saúde, muito mais do que se pensa. Cidades menores não contam sequer com radiologia, um laboratório de análises clínicas.
O que antes se fazia, quando se conseguia, e até hoje, é nomear médico para o interior, mediante proteção política e pistolão. Um profissional-escritor, Waldemar Versiani dos Anjos, conta em ficção, não tanto ficcional, suas agruras, venturas e desventuras, de jovem médico na minguada Serra Verde, em Minas. Havia um consolo: “A gente era boa de um modo geral, e estava alegre com seu novo médico”. “Feio e magro doutor, que as donzelas engordavam em devaneios e, no mais, tratavam de enredar e apanhar”.
Casamentos ajudavam no apego à terra, seus hábitos, seus carinhos e belezas. Os tempos são outros e as exigências públicas cada vez maiores. Ciência e tecnologia existem, aprimoram ininterruptamente.
Não só médicos nos faltam.


75731
Por Manoel Hygino - 8/7/2013 08:14:39
Os males do homem

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Nos dias conturbados que vivemos, em que parecem chegar ao ápice das inquietações das pessoas que ainda têm sensibilidade e bom senso, há de meditar-se. E indagar das razões que levam os homens a determinados tipos de perversões, desvios de natureza, material e ética, de degradação.
Com tristeza, pergunto-me o que os conduz a delitos como os cometidos por ex-autoridades de municípios de nosso Norte de Minas, de que a Imprensa de todo o país tomou conhecimento e comenta. São crimes de formação de quadrilha, falsidade ideológica e lavagem de dinheiro, fraude em licitações, corrupção ativa e passiva...dentre outros.
Além dos assaltos de bandidos e vândalos ao comércio e ao patrimônio público, à guisa de insatisfação de cidadãos pela má gestão da coisa pública, lembro o caso do Brayan Capcha, o menino boliviano de 5 anos, morto em assalto à modestíssima casa da família em São Paulo. A criança completaria 6 anos no último dia 6. Os assaltantes se irritaram porque os pais só dispunham de R$ 4.500 na hora do assalto.
Desesperada, a criança ofereceu as moedas que amealhava para comprar um caminhão de brinquedo e alguma roupinha. Os marginais ameaçaram o menino com uma faca no pescoço e o mataram com um tiro na cabeça. Era filho único do humilde casal que deixara a pátria em busca de melhor futuro.
Num país desigual como o nosso, fatos como estes se repetem incessantemente. Não bastam mudanças na legislação, como a ora pretendida, nascida sob a desconfiança da população, decepcionada e frustrada durante décadas e décadas. Não avançamos materialmente como se afirma, e perdemos espiritualmente como jamais. O homem perde em humanidade, e aí reside o nosso mal maior. Daí lembrar uma verdade que precisaria ser ressuscitada para que possamos merecer redenção.
Reza um conto oriental que Deus, depois de criar o homem, ficou muito preocupado. Percebeu logo que o homem era perguntador, irrequieto e insatisfeito. Que, ao ver toda aquela maravilha ao seu redor, não descansaria até que encontrasse o seu Autor. Se Deus se escondesse no fundo do mar, o homem acabaria por descobri-lo lá.
Se fosse para a montanha mais alta do mundo, o homem a escalaria um dia. Se fosse para as estrelas, o homem viajaria até elas. Foi então que Deus teve uma ideia magna. Ele iria se esconder no último lugar em que os homens iriam procurá-lo: no coração do homem.


75563
Por Manoel Hygino - 10/6/2013 08:04:17
A fortuna

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

O comportamento de Francisco, o papa, causa certa surpresa ao mundo acostumado a ver pela televisão a grandeza material da Igreja em Roma. Os que conhecem a história do catolicismo, porém, não se escandalizam, considerando como se construiu o império eclesiástico. Novos caminhos podem surgir com o pontífice que nasceu em Buenos Aires e que se guia pelas lições do outro Francisco, o de Assis.
Para Eamon Duffy, historiador, dignidade do papa simboliza o próprio governo divino de seus corações, mentes e consciências. A presença de Francisco no Vaticano pode contribuir para resgatar a imagem corroída da Igreja, que tem em arcebispos, bispos e sacerdotes presença nos distantes rincões do mundo.
Estas considerações eu faço ao ler o testamento de João Antônio Pimenta, primeiro bispo diocesano de Montes Claros, nascido em 12/12/1859, em Capelinha, no Vale do Jequitinhonha, que pertencera ao município de Minas Novas.
Ordenado em Diamantina, regeu as paróquias de sua cidade natal, de Água Boa, Piedade de Minas Nova (depois Turmalina) e Teófilo Otoni, antes de ser nomeado coadjutor do bispo de Porto Alegre.
Mas não posso estender-me, que este espaço é restrito. Enfatiza o bispo no seu último documento, após 45 anos de múnus pastoral: “Fui sempre pobre, não tendo podido fazer jamais economias superiores a vinte contos de réis, se é que tenha possuído algum dia bens que em tanto pudessem ser estimados.” Ajudou, no pouco que podia, os parentes em suas necessidades. Declarou: “Nada possuo na atualidade, a exceção dos objetos de meu uso; pelo que nada tenho de deixar de herança, a não serem estes pequenos objetos de muito pouco valor. Obrigado a trabalhar por minha diocese por deveres do cargo que ocupo, a ele pertencem quaisquer quantias, que achando-se em minhas gavetas, armários ou malas na ocasião de minha morte, não tenham destinação própria. Se houver dinheiro suficiente, que se mandasse celebrar 30 missas gregorianas.
Afirma que o palácio diocesano de Montes Claros, construído por ele, não lhe pertence, mas à diocese. Dispensava as coroas mortuárias, “de tradição pagã, que só servem para lisonjear a vaidade dos vivos. E um adendo: “Reine sempre na família a mais perfeita união”.


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Por Manoel Hygino - 1/6/2013 10:16:24
Uma escola de violência

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Nesta época em que, mais uma vez, se aventa a hipótese de fim do mundo, em que a terra treme sucessivas vezes no Norte de Minas – sobretudo na gloriosa Montes Claros, em que meteoritos cruzam os céus, um dos quais deixou em torno de mil mortos em território russo, há muita probabilidade de que muito mais possa acontecer. Cumpre ampliar conhecimentos sobre a matéria para se saber o que o futuro nos reserva.
Cientistas à 44ª Conferência de Ciência Lunar e Planetária, nos Estados Unidos, concluíram que a rocha espacial responsável pela extinção dos dinossauros, não era um meteoro, mas um cometa. Isso ocorreu há 65 milhões de anos, nada mais. A revisão surgiu após análise na cratera do Chicxulub, no México, que tem 180 quilômetros de diâmetro.
Cientistas estimam que o corpo celeste era menor do que se pensara, mas se chocou contra a Terra em velocidade maior. Parte da comunidade científica é cautelosa quanto à conclusão. A tremenda colisão causou incêndios, terremotos e grandes tsunamis que encobriram o planeta de gás e poeira, derrubando a temperatura terrestre por centenas de anos e quebrando a cadeia alimentar de várias espécies animais, que se extinguiram como os dinossauros.
Ouvira dizer que um conterrâneo fora atropelado e morto quando descia da estação da Estrada de Ferro Central do Brasil, em Belo Horizonte, e tentava cruzar aquele importante logradouro público. A estação abriga hoje o Museu de Arte e Ofício.
Fato 2: Foi preciso que o tempo escoasse. Fiquei assim sabendo tratar-se do capitão João dos Anjos Fróis (naquela época as pessoas de relevo tinham um título militar sem passar pela caserna), nascido no Brejo das Almas (lugar que inspirou o título da obra de Drummond) e com experiência de vida. Vereador em sua cidade, professor de Escola Normal e funcionário público, com 67 anos, não era um velho. Sabia onde pisava e para onde ia. A capital era pobre em veículos automotivos. Mas o capitão foi atropelado e morto.
Vê-se que o homem está em permanente risco da vida, mesmo que não se leve em consideração a onda de violência que ora aterroriza os brasileiros de todos os recantos. Mata-se por torpes razões, ou sem qualquer motivo, movido o criminoso pelas drogas ou rivalidades esportivas. Ergue-se no Brasil uma escola de delinquentes e homicidas. E não mais se sabe verdadeiramente como se sobreviver em meio à violência.


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Por Manoel Hygino - 11/5/2013 11:50:30
Caixa d’água do Brasil

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

O governador Bias Fortes, José Francisco, em seus discursos, com voz grave, ensinava que Minas era a caixa d’água do Brasil. Tinha ponderável razão. Nas montanhas deste Estado nascem rios que fornecem água, energia e riqueza para grande parte do território brasileiro.
Mas as coisas não se desenrolam tão satisfatoriamente para a velha província. É o que se deduz, por exemplo, das obras da barragem de Berizal, em Rio Pardo, Norte de Minas, que beneficiaria 200 mil pessoas. Decorridos 14 anos do início da construção, com utilização ou desperdício de R$ 100 milhões de dinheiro público, o empreendimento está simplesmente paralisado no distante município de Taiobeiras.
A obra é de responsabilidade do Departamento Nacional de Obras Contra as Secas (Dnocs), subordinado ao Ministério de Integração Nacional. Em 2002, o trabalho foi embargado por suspeita de superfaturamento, falta de licença ambiental e riscos de assoreamento que comprometeria a vida útil da represa.
Sobraram plataformas de concreto, ferragem, verbas perdidas, ações trabalhistas e problemas no pagamento de indenizações. Assim estamos com o processo em regime de confidencialidade restrita, a obra foi retirada do PAC 1 e o Ministério Público Federal instaurou inquérito há dois anos. Ficou como dantes.
Este o Brasil que progride. Conta-se que faltam R$ 60 milhões para a conclusão. E vergonha na cara, é óbvio.
Isso lá no Norte. No Triângulo, a Cemig se vê na contingência de recorrer à Justiça para a prorrogação da concessão da hidrelétrica da Jaguara, sob alegação de que o requerimento respectivo foi apresentado intempestivamente. Na época, a concessionária se negou a renovar qualquer uma das 21 suas usinas, sob as condições impostas pelo Ministério das Minas e Energia, em cuja frente se encontra o ministro Lobão.
Evidentemente S.Exa. desconhece a importância de Minas no processo de abastecimento energético do país, bem como sua atuação no desenvolvimento nacional. Jaguara é uma conquista memorável do Estado, desde que a União lhe surrupiou o aproveitamento de Estreito, também no Rio Grande. Minas parece condenada a servir apenas de depósito de água e de restos de obras estagnadas. E paira silêncio.



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Por Manoel Hygino - 19/4/2013 09:12:24
Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

Conquistar sucesso pessoal ou para uma produção, qualquer que seja, permanece para quem vive no interior um grande desafio. Vencê-lo constitui quase uma façanha como numa corrida de obstáculos, de que só saem vitoriosos os efetivamente aquinhoados pelo talento e pertinazes para atingir seus objetivos.

Não sem razão os que desejam e lutam por oportunidade se instalam com armas e bagagens, nos centros demográficos e econômicos de maior expressão, que exercem fascínio sobre os que insistem em um lugar ao sol, embora isso possa parecer um lugar comum. Claro que também influem o prestígio político, a força de ancestralidade e, mui comumente, o fator dinheiro.

Rio de Janeiro e São Paulo, há longo tempo, são os principais destinos desses passageiros da esperança. Os que se mantêm nos burgos se candidatam ou se condenam ao desconhecimento de públicos mais numerosos, nas letras, nas artes, mesmo na ciência. A instalação de universidades ou faculdades em cidades do interior melhorou as condições dos que sonham ou ambicionam uma posição, mas o quadro não se transformou fundamentalmente.

Mineiros ilustres do Norte de Minas se destacaram por sua atuação na área do Direito. Para o jornalista Newton Prates, robustecido pela opinião de Paulo Narciso, o filho de Montes Claros que mais de destacou, até então, foi Antônio Gonçalves Chaves, o dr. Chaves, presidente das províncias de Minas Gerais e Santa Catarina na monarquia, magistrado, presidente da Câmara dos Deputados, senador da República, diretor da Faculdade de Direito de Minas Gerais, senador estadual, grande figura de seu tempo por sua cultura e inteligência, expoente do Direito, a quem Clóvis Beviláqua chamava de “meu mestre”.

Segue-lhe os passos Antônio Augusto Veloso, deputado provincial, senador estadual na Constituinte Republicana. Optou pela magistratura, foi desembargador brilhante, modelo de dignidade, autor de preciosos trabalhos jurídicos e traduções latinas. Darcy Bessone revelou-se no Direito Comercial e por importantes obras. Em nossos dias, há de apontar-se Carmen Lúcia, ministra do Supremo, presidente do TSE, com modelar atuação.

Permanecendo em Montes Claros, Petrônio Braz é autor de obras imprescindíveis no trato com o Direito Municipal, publicadas dentro e fora de Minas. Finalmente, anuncio Waldir de Pinho Veloso, professor universitário, que acaba de acrescentar “Registro Civil das Pessoas Naturais”, indispensável a quem labora na área, editado em Curitiba. Um plêiade.


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Por Manoel Hygino - 15/4/2013 09:37:59
Para enfrentar a seca

Manoel Hygino - Jornal “Hoje em Dia”

No tempo de Gonçalves Dias, havia palmeiras nas quais os sabiás cantavam. Depois dos penosos dias de sol e calor de 2012/2013 até recentemente, não acontece mais. As palmeiras estão acabando e aqueles pássaros as seguem.
No decorrer de décadas, acompanhei pessoalmente, pelo noticiário das revistas e jornais, pela televisão e rádio, por depoimentos pessoais, o fenômeno das secas desde o Nordeste ao sertão mineiro, avançando, avançando, por culpa dos brasileiros e pela ineficiência das políticas públicas. 2012 terminou, mas a estiagem ingrata, penosa, destruidora, não. Nada permitia a excessiva confiança em chuvas restauradoras no final do ano passado, no primeiro trimestre do atual. Mas a obstinação na esperança sempre remota entrou no segundo trimestre: barragens em níveis baixos de água, o risco continuado na redução da energia de fontes hidráulicas. O problema não está encerrado. O interior mineiro, afetado pelo drama, sofre. Plantações, a horta, os animais, a pequena produção destinada aos mercados, os córregos secando. Distraídos, os anjos da devoção popular não atendem ao clamor dos fieis.
Leio a notícia desalentadora: se os especialistas em meteorologia estiverem certos, não haverá mais chuvas significativas para o Norte de Minas nas “águas” atuais. A esperança é de que os institutos meteorológicos pátrios, com numerosos erros nas previsões, inclusive as recentes, falhem mais uma vez, agora em favor dos desvalidos. Como escreveu, há dias, o jornalista Paulo Narciso, fora da ciência, a chuva poderá driblar a previsão e vir alegrar o sertão. Acreditamos. Mas o governo se apanhou em omissão, porque confiava demais em São Pedro, sobremaneira ocupado com os graves problemas que afetam a Igreja que ajudou a fundar. Decidiu, assim, Brasília pela adoção de medidas inovadoras, originalíssimas, para uma tragédia imemorial, ainda nas palavras do periodista conterrâneo. A presidenta anuncia recursos para o Nordeste e a Área Mineira da Sudene. Deseja, enfim, enfrentar os efeitos de uma das piores secas dos decênios mais recentes. O dinheiro será aplicado – segundo se espera – na construção de 750 mil cisternas e no aumento da frota de caminhões-pipa. Além de bolsa-estiagem e restabelecimento de serviços essenciais, como recuperação de poços artesianos. Tem-se de esperar a tragédia para agir contra o desinteresse e o descaso.


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Por Manoel Hygino - 30/3/2013 10:44:03
Um crime bárbaro

A sordidez, a hediondez, a crueldade de crimes que se transformam em notícias para a Imprensa, às vezes extrapolando a mídia brasileira, parece constituir um estigma que marca a sociedade deste país nesta hora. Fica o cidadão envergonhado da condição humana, se humano se pode classificar condutas de desrespeito, de agressão e de eliminação do ser racional.
Mata-se no Brasil como se fora guerra. E a onda ganha dimensões nunca pensadas antes talvez, embora os que meditam sobre a hora que vivemos percebemos que este seria o caminho dos que perderam o bom-senso, o sentimento, as lições da família (quando existem), dos professores e dos que professam religiões. No primeiro mês deste ano, foram registrados 241 assassinatos em São Paulo.
O caso do goleiro Bruno é apenas um entre milhares no Brasil.
Nele, houve homicídio qualificado, ou seja, por motivo torpe e com uso de asfixia, sem chance de defesa para a vítima. Cúmplices, vários. O ato final, a execução, ficou a cargo de um ex-policial, que se teria encarregado de espancar a vítima e a estrangulou, decepou-lhe o corpo e atirou os restos a cães. Morte brutal, com pormenores amplamente divulgados pelo país. Em pleno século 21, no país poderoso, do futebol, do samba, do Carnaval, abençoado por Deus. Ainda?
A história não está encerrada. A verdade inteira não foi contada. Falta resposta a detalhes. E como o principal acusado se encontrou cercado de tantas pessoas na adversidade, inclusive por mulheres! Até hoje permanece rendendo juros o dinheiro do esporte? Não teriam encontrado para a vítima outros meios menos cruéis para resolver o problema, tampouco suficientemente esclarecido?
Assassinar pessoas assim, principalmente mulheres, se julgaria algo da Idade Média, para tempos medievais. Os fatos do século XX o demonstram. Em 3 de maio de 1913 – completam-se agora exatamente 100 anos – foi assassinado na sua fazenda de Canoas, o coronel Marciano José Alves, a golpes de facão. Também foram mortos Antônia Josefina Alves, a esposa, e a doméstica, Rita. Consta que, perpetrado o crime, cortaram-se os corpos e atiraram os restos aos porcos.
É uma longa e dolorosa história. O coronel era bisavô de João Vale Maurício, ex-secretário de Saúde de Minas, escritor, médico, da Academia Mineira de Letras. No livro “Emboscada de Bugres”, Milene Antonieta Coutinho Maurício, pedagoga, escritora premiada, esposa de João Vale Maurício, conta sobre o tríplice homicídio das Canoas. Os matadores foram João Cabeceira e outros, que agiram contratados por chefes políticos. Pairou mistério por muitos anos, mas não há crime insolúvel.


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Por Manoel Hygino - 14/3/2013 09:28:37
O perigo vem do céu

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Os tremores de terra têm assustado o Norte de Minas. Em 23 de dezembro, um deles atingiu regiões de Montes Claros, provocando danos e transtornos aos moradores. Em 27 de fevereiro, as cidades de Biquinhas e Morada Nova registraram o mesmo fenômeno, tido como moderado pelo Observatório Sismológico da UnB. O boletim da universidade revela que “moradores da cidade de Biquinhas relataram que sentiram uma intensa vibração do solo e ouviram um forte estrondo sonoro”. Perguntei-me: “Estrondo sonoro? Há algum silencioso?”Muitos e muitos anos antes, em 9 de fevereiro (data de nascimento de meu avô), em 1906, outro “presente” do espaço cortou os céus de minha cidade, com fulgor impressionante, caindo na Serra do Queixo, em terras do capitão Cesário da Rocha, fazenda do Sapé, Brejo das Almas, hoje Francisco Sá.
Era um “aerólito”, vulgarmente conhecido hoje como meteorito, semelhante ao que desabou em território russo recentemente deixando cerca de mil feridos. O jornal “Opinião do Norte”, que na cidade se publicava, nove dias após o fato noticiava: “Na noite de 9 para 10 deste mês, das 7 para 8 horas, diversas pessoas desta cidade puderam ver um bonito aerólito que descreveu uma grande curva do nascente para o norte, espargindo durante a sua rápida queda fulgurante luz.Era adjetiva a linguagem da Imprensa. E detalhava: “Pelo grande estampido, não muito longe daqui deve ter caído”.O jornalista acrescentava: “Muitas pessoas que acompanharam com atenção o belo fenômeno meteorológico, afirma que, ao estampido, seguiu-se, em alguns lugares, tremor de terra bastante intenso que chegou a produzir choque de garrafas em prateleiras, bater de portas, etc”. Expedições partiram de Montes Claros em busca do local exato em que se teria alojado o presente celeste. Encontraram-se duas brechas dentro da mata, produzindo sulcos. No roteiro, com cerca de doze metros de largura, árvores derrubadas em grossos troncos, galhos quebrados, pedras deslocadas, tudo amassado à passagem do estranho corpo, a não ser fragmentos de calcitas, fragmentos de natureza calcária. Nenhuma vítima racional ou irracional. Ainda bem.


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Por Manoel Hygino - 18/2/2013 09:20:24
Paisagens que são do passado

Manoel Hygino

O brasileiro teria uma excelente atração turística se os vapores do rio São Francisco estivessem operando como em velhos tempos. Lamentavelmente, o Brasil – ou os brasileiros – não contribui para preservação do passado, que é belo e glorioso. Entusiasma-se com o que é novo, caro e importado. Veja-se no caso de nosso sistema ferroviário, essencial ao desenvolvimento do país, à integração nacional, reduzido a trechos ainda operados ou a circuitos turísticos. Não fossem as estradas de ferro estaríamos parados em muitos setores.
O São Francisco, descoberto por Américo Vespúcio em 4 de outubro de 1501, se tornou ao longo dos séculos outro grande instrumento de desenvolvimento e integração. Para os índios, era o rio Opará, o rio-mar, um mar que corre pelo interior do maior país da América Latina. As povoações se formaram ao longo de seu curso, viraram cidades, e as pessoas passaram a ignorar a importância social e humana da sua via mais preciosa. Suas águas perderam em qualidade e diminuiram em quantidade.
Quem andou por ali ou ali mora sabe perfeitamente que o São Francisco perdeu imensamente em vigor e grandeza. A despeito de iniciativas dignas para protegê-lo, não conseguiu sensibilizar o poder público para sua salvação. Nem se avalia a sua importância para produção de energia elétrica e para transporte de cargas e pessoas como outrora. Em suas margens construiu-se uma nova civilização, a que não se prestigia ou ampara.
O grande empreendimento, recente preconizado, é o aproveitamento de suas águas mediante a transposição, a aventura mais nova. Pobres águas, que não são as de antigas épocas, porque poluídas por indústrias ou pela população, sem maiores perspectivas de afirmação pessoal ou profissional.
Desapareceram da paisagem os vapores que, em determinada fase, integravam a frota da Navegação Baiana e da Navegação Mineira, que transportaram milhares de homens e mulheres, inclusive excursões religiosas, até Bom Jesus da Lapa, no sertão da Bahia. Curiosamente, me lembro que, para uma recepção ao presidente João Goulart, naquela cidade, buscaram-se os peixes em Mato Grosso. Não dá o que pensar?
Em todo caso, façamos uma pausa. Para festejar sentimentalmente o vapor Benjamim Guimarães, construído há 100 anos por James Rees Sons & Co, e que agora precisa de tratamento em Pirapora. É um dos últimos marcos de uma era gloriosa. Em todo caso, o Banco Mundial promete revitalizar o rio e o transporte fluvial. Vamos ver.


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Por Manoel Hygino - 7/1/2013 09:31:26
Os temas recorrentes

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Poderá o leitor observar que ficamos repetitivos, há frequência no enforque de problemas e outras questões aqui examinadas. Não constitui novidade, se consideramos que eles – problemas – e elas – questões – permanecem. No penúltimo dia de 2012, por exemplo, ao apanhar os jornais, verificarmos que, em primeira página, um deles advertia para os desafios de Dilma Roussef no ano que ia deslanchar: pobreza, segurança, educação, saúde e habitação. Eu acrescentaria saneamento básico, fato gerador de numerosos outros que minam a sociedade.
Conviria falar em desemprego? É um tema preponderante, suponho. Sabemos que não afeta apenas o Brasil, em que aparentemente o governo teria resolver o caso. A Organização Internacional do Trabalho informou, quando ainda era dezembro, que o desemprego mundial saltou de 5,5% em 2007 para 6% em 2012. No Brasil, o número de trabalhadores na indústria teve queda de 1,2% em novembro, comparado ao novembro de 2011. Foi o 13º resultado negativo consecutivo nessa medição.
Voltando ao teor do primeiro parágrafo, é obrigatório nos referimos aos assuntos recorrentes. Assim, é o São Francisco objeto de vários comentários e de ampla repercussão, porque milhões de brasileiros dependem do rio denominado da “unidade nacional”. Nascido em Minas, percorre-lhe o território, para alcançar o Nordeste, antes de desembocar no Atlântico.
No governo federal que passou, resolveu-se usá-lo para uma obra ciclópica. Até hoje, apenas uma esperança, porque os obstáculos foram mais poderosos do que os cronogramas e o interesse dos políticos.
Agora, o biólogo José Alves Siqueira e outros 99 pesquisadores alertam que o Velho Chico está em processo de “extinção Inexorável”. O professor é integrante da equipe da Universidade Federal do Vale do São Francisco, em Petrolina, contratada pela própria União para monitorar o rio e as obras de transposição.
As observações e conclusões foram resumidas no livro “Floras das Catingas do Rio de São Francisco: História Natural e Conservação”. São nele avaliados os impactos do rio, pois, além do desvio das águas, há intenso uso para abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e outros fins, incrementados à medidas que corria o tempo. As conclusões são tristes e ameaçadoras. Os pesquisadores alertam que restam apenas 4% da vegetação das margens do São Francisco. Ele está praticamente inviável como hidrovia, espécies foram extintas e os ecossistemas alterados profundamente. Sua água não atinge os objetivos originais, frustram-se as populações e mata-se a grande corrente.


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Por Manoel Hygino - 27/11/2012 09:14:05
Quando verbas não faltavam

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Agora que a campanha eleitoral de 2012 é passado, pode-se constatar a imensidão de promessas que continuarão promessas, com o cidadão confiando que, algum dia, elas se consumarão. Enquanto a presidenta – como quer ser chamada – viaja ao exterior, sobra ao eleitorado órfão esperar por dias melhores, embora a máquina oficial pretenda impor à população que estamos no melhor dos mundos. Não é tanto assim.
O criminoso Anel Rodoviário de BH aguarda recursos e vontade política; a BR-381 recebeu o compromisso de que alguns trechos receberão estudos, a partir de 2013. O brasileiro cAonfia e tem esperanças. Até quando, não se pode saber. Nesta nossa época de avanços tecnológicos, quando se pensa até em passar temporada em Marte, é surpreendente verificar que, ao invés de se abrirem desvios nas estradas ou reformá-las, prefere-se instalar placas tipo “Cuidado, curva perigosa!” ou “Depressão na pista”.
Isso me levou a conferir algumas informações de 1950, quando se programava a inauguração da ligação ferroviária Norte-Sul, com 296 quilômetros a partir de Montes Claros, como registrou o cuidadoso escritor e agrimensor Nelson Viana, autor das “Efemérides Montesclarenses”, seguido em labor pelo médico-historiador-folclorista Hermes de Paula.
Transcorridos mais de 60 anos daquela visita preparatória à inauguração, chama a atenção como se conseguia realizar proeza dessa dimensão e grandeza. A obra envolveu tremendos empecilhos, sofrendo efeitos das secas e das enchentes em dez rios. Eram 15 as estações, 14 mil trabalhadores acompanhados das famílias, no tempo em que o impaludismo e suas recidivas causavam média de 500 doentes mensais, afora outras moléstias.
Construíram-se 13 pontes, além de quatro triângulos de reversão (o que não sei do que se trata) e 363 bueiros, com comprimento total de 5.402 metros, e 25 passagens inferiores. Para garantir o fornecimento de água às locomotivas, fizeram-se cinco barragens com cerca de 600 mil metros cúbicos e 11 poços tubulares. Também estenderam-se 48.600 metros de linha telegráfica dupla e uma rede completa de assistência social foi implantada, com médicos, hospitais e escolas. Era 1950 e não se falou na falta de recursos e verbas.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2012 23:45:20
O espólio da casa roubada
Jornal Hoje em Dia 24/11/2012

Múltipla tragédia no norte-mineiro. Jovem de 21 anos matou a namorada a facadas, usou o mesmo meio para ferir o tio da vítima, enfrentou a polícia, tomou uma arma de fogo de um dos soldados, atirou no delegado e o acertou, para se matar finalmente, com um tiro na cabeça.
Uma tragédia estúpida, cruel, em que, contrariamente a muitos outros casos, não se falou em drogas.
Na rede social, o moço cometeu mais delitos. Registrou: “Não acredito mais em palavras falsas dizendo vou te fazer e vou te amar pra sempre! Tudo ilusão; é por isso ki diz que oke olhos não ve o coração não sente”. Na verdade, a falta de boa educação e formação muito contribuem para a situação de risco em que vivemos.
Numa cidade bem ao Norte do Estado, um menor de 15 anos morreu em hospital, atingido na noite precedente por dois indivíduos. Ele não tinha passagem pela polícia e voltava de uma partida de futebol. Segundo a mãe, era dedicado e esforçado, trabalhou como vendedor de picolé, ajudou em oficinas mecânicas e foi servente de pedreiro.
Nem se fala em São Paulo, a locomotiva do desenvolvimento brasileiro, o Estado mais rico do país. Caminha para duas centenas de morte violentas, num ciclo de violência cujas nascentes parecem estar nos presídios. Quando será o fim do extermínio?
A conservadora Minas se inclui no âmbito do processo horripilante. Encontra-se em terceiro lugar na lista dos Estados com maior número de inquéritos de homicídios sem solução.
Havia, no princípio de novembro, 12.032 casos instaurados até 2007, em aberto. Reconhece-se o esforço do poder público, mas é imprescindível fazer mais. As cadeias nos municípios estão lotadas ou superlotadas, não podem receber mais presos. Os presídios se acham em idêntica situação, e as autoridades se veem na contingência de soltar dezenas dos que aguardam julgamento por absoluta falta de vagas.
O sistema permite a incessante apresentação de recursos à Justiça, agravando mais o quadro lúgubre desta hora. Concomitantemente se constata a existência de uma infraestrutura carcomida ou já destruída, enquanto escorre pelos ralos da podridão ou incompetência administrativa o quinhão suado dos contribuintes, pobres contribuintes! Faz lembrar, mais uma vez, Rui Barbosa ao eximir-se de candidatura à presidência para não gerir o espólio de uma casa roubada.


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Por Manoel Hygino - 6/11/2012 11:24:15
A conquista dos sertões

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A campanha política e o resultado das eleições deste ano trouxeram novidades. Entre elas, por exemplo, a escolha de um colombiano para prefeito de Palmas, capital de Tocantins. Em Minas Gerais, dentre outras, a do japonês Yuji Yamada, 66 anos, para o executivo de Janaúba, a cidade do Capitão Enéas Mineiro, que por sinal nasceu em Pernambuco. Aliás, como observou Waldyr Sena antes do pleito, feito ele o único forasteiro a se eleger prefeito, em 1950, de Montes Claros. Tinha base. Tornou-se, ainda segundo Waldyr, um dos grandes empreendedores da região, prefeito de Francisco Sá, um dos maiores fornecedores de dormentes para a Estrada de Ferro Central do Brasil, extraídos em sua fazenda Burarama. Na época, não havia crime ambiental, e no lugar da madeira ergueu-se uma cidade e recebeu seu nome: Capital Enéas.
Agora, quando as eleições municipais de 2012, são passado, ainda se pode meditar sobre o fenômenos comentado pelo jornalista consagrado no norte mineiro. Uma delas é que o brasileiro não tem preconceito nem faz restrições aos que, procedentes de outras regiões do país e mesmo do exterior, se instalem nos seus rincões para produzir o bem e o progresso. Lamentavelmente, tem-se de convir que, bandos há daqueles que se movem àquelas distantes regiões do sertão mineiro apenas para tirar proveito e lubridiar.
O Brasil mudou e a distante e desamparada região procurou e procura seus próprios caminhos. Historicamente, jamais pôde confiar e esperar muito dos que ocuparam o poder público ao longo de muitas décadas, mesmo séculos. Decidiu por obrigar e aceitar o que vinham de outras plagas, desde que capazes de oferecer à sociedade e o que ela reivindicava e necessitava.
As velhas e inquebrantáveis oligarquias interioranas se foram desfazendo. As novas gerações não conseguiram, de um modo geral, conquistar áreas de prestígio maior na administração, nem se interessar por cargos públicos. Os forasteiros surgiram para ocupar a lacuna, e sabem que há muito a construir.
O governo central, com outros interesses e escopos, faz pouco pela região. Na visita da presidente ao norte, em agosto, prometeu: a duplicação e outorga à iniciativa privada da BR-040, rodovia para Brasília, parcialmente construída; duplicação e entrega a iniciativa privada da Br-116 a Rios-Bahia; o a ferrovia entre Belo Horizonte e Salvador, que passa por Montes Claros, também transferindo a obra à iniciativa privada e, finalmente, a ferrovia entre Corinto e Uruaçu, em Goiás. E a União?


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Por Manoel Hygino - 27/10/2012 08:32:48
Uma lição que não se apaga

Jornal Hoje em Dia


Quando se aproximavam as festas cívicas e se desejava um discurso de excelência sobre as datas, o alto escalão administrativo se perguntava a quem escolher. Na lista sempre se encontrava Mello Cançado, Antônio Augusto de Mello Cançado, nascido em Pará de Minas, professor na Faculdade de Direito e da UFMG e da Mineira de Direito, acolhida sabiamente pela Universidade Católica.
Poeta e prosador, deixou muitos livros; escreveu para os jornais de uma época, que nem tão longe está; integrou a Academia Mineira de Letras, embora nos seus cem anos de nascimento tenha sido pouco lembrado. Uma injustiça que os tempos modernos, falhos de memória, cometem. Pequeno em estatura, grande em conhecimento, grande mestre, defendia ideias e amava o Direito Romano, de que foi notável professor.
Sua aula era uma lição – de Direito, de Filosofia, de Cultura, mas também de amor ao próximo, de civismo, de devoção às artes, à Justiça. Grande comunicador, ensinava com humor. Referindo-se às “Ordenações Filipinas”, comentava que no seu livro se aprende que a regateiro de então não é a de hoje. Tratava-se inocentemente das senhoras que vão hoje aos nossos supermercados comprar peixes, camarões, hortaliças e outros víveres para, depois, revenderem em domicílio.
Os mexeriqueiros não têm vez no Livro V das Ordenações. O título 85 mandava-os à cadeia. No título 81, ai de nós mineiros, proibiram-se as serestas. Indagava Mello Cançado: “Que mal fazem à alma da gente, dulcíssimas canções de amor ou de saudade, vindas do fundo da noite, ao esfrolar dos machetes, nos jardins de Pará de Minas, Uberlândia, Montes Claros, Pitangui ou Ouro Preto?”
Numa lição válida pelo tempo afora, aqui e por aí, Dom Felipe, no prólogo de seu Código, aos 5 de junho de 1595, deixava uma recomendações: “O bom rei deve ser sempre um, e igual para todos, em retribuir e premiar cada um segundo seus merecimentos. E assim como a Justiça é virtude não para si, mas para outrem, assim dever fazer o bom Rei, pois por Deus foi dado principalmente não para si, mas nem para seu particular proveito, mas para bem governar seus Povos e aproveitar a seus súditos como a próprios filhos...”
Para o centenário do sempre lembrado amigos e mestre, o magistério era uma paternidade. E, de fato, sem cansaços buscou transformar a escola em um lar, procurando adestrar, habilitar para a profissão, mas acima de tudo educar.


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Por Manoel Hygino - 22/10/2012 10:47:26
O sistema energético

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Houve época em minha cidade – e muitas outras passaram pelo mesmo problema – em que a iluminação pública nas ruas era extremamente deficiente. O mesmo acontecia nas residências, embora algumas ainda usassem lampiões a querosene, onde se dependuravam os fios sustentando a lâmpada incandescente, fraquinha, fraquinha.
Para o poeta Cândido Canela, era apenas uma luzinha, que para saber se estava acesa se tinha de acender uma vela. Para se conseguir uma iluminação digna, aguardou-se muito tempo até que a energia da usina de Três Marias lá aparecesse, depois de um intermezzo com reforço da hidrelétrica de Santa Marta. O Brasil cresceu, Minas caixa d´água do país – abastecia com a eletricidade de seus rios boa parte do território, depois apareceu Itaipu, etc.
Nas longas estiagens, com redução dos reservatórios a níveis mínimos, aumenta a preocupação com o abastecimento da indústria e da população, que já pena com o horário o horário de verão, que deveria constituir um apelo em casos de extrema necessidade, mas se transformou em prática anual. Não sem razão se permanece em ansiosa expectativa, e não só pelas repercussões em torno das renovações das concessões na produção de energia. Neste quase moribundo 2012, o nível dos reservatórios do Sudeste e Centro-Oeste é o mais baixo em setembro de 2001, quando se racionou o consumo.
O Operador Nacional do Sistema informou, na primeira quinzena de setembro, que a capacidade de armazenamento de água nos lagos das usinas estava com 20,61% do total. Isso significa que o volume acumulado ocupava 47,89%, menos da metade do potencial reserva.
Trocando em miúdos. No mercado spot, que comercializava energia para grandes consumidores no curto prazo, o preço da energia subira 34,57%. E acontece exatamente quando o governo anuncia redução das tarifas de um modo geral, contra o que as concessionárias ameaçam com recursos na Justiça.
Aliás, no mês das eleições municipais, as distribuidoras de energia proclamavam que já deram sua cota de sacrifícios para diminuição de preço, não havendo espaço para mais reduções.
Nélson Leite, presidente da Associação Brasileira de Distribuidoras de Energia Elétrica, é peremptório: “As distribuidoras já estão impactadas, Não é possível reduzir mais os preços”;
Como 2013 não é de eleição, não se pode aguardar benesses oficiais. Se bem que, no próximo ano, já se estará trabalhando para 2014, quando se votará em pleito federal.


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Por Manoel Hygino - 15/10/2012 10:15:26
A morte de Francisco de Assis

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Era final de setembro, em Belo Horizonte. Uma das jovens, ao abrir a porta do carro para nele entrar, foi saudado pela motorista: “Bom dia, sol! Bom dia, árvores! Bom dia, minha amiga! “As expressões me pareceram mágicas pelos tempos difíceis que atravessamos.
Pairou lembranças de Francisco, o pobrezinho de Assis, que amava os seres todos, humanos, ou não; a flora. Primavera, mas ainda com aparência do inverno. No dia 27, Francisco de Assis – Ferreira – de Jesus, 40 anos, fora morto com quatro tiros nas costas em minha cidade. O 89º assassinato do mês. Outros já se registraram.
Dois dias após, rapaz de 19 anos foi executado, pela manhã, na avenida Santos – Guimarães, no bairro Sagrada Família. Novo homicídio de setembro, o número 90, na maior cidade do Norte de Minas. Li, em seguida: as imagens dos homicídios sem fim nas ruas ganham o mundo nas asas da internet. Postadas no outubro, levam a barbárie das nossas ruas e nossa vergonha muita pelo mundo afora. Estamos anestesiados, vendo este genocídio de braços cruzados. Somos majoritariamente cristãos, no sentido mais alto da palavra, e o silêncio nos acusa. Não dá para ficar indiferente. Deus, tenha misericórdia de nós!
Um autor, cuja identidade advinho, comentou no montesclaros.com. Sobre o assassinato, interrnacionalmente divulgado, apenas parte de um país que não saúda o bom e o bem, como as moças da capital, que não sei quem sejam. Vão virando rotinas nas ruas as execuções sumárias, com cenas brutais, com sangue. O mundo inteiro pode comprovar. Em todos os rincões do planeta, pode-se travar conhecimento com o horror que graça perto de nós, que nos cerca, verga e oprime, tudo sob nosso silêncio e omissão.
Aliás, foi esse o sentimento que percebi em numerosas mensagens recebidas até as vésperas da eleição, principalmente de escritórios de vários estados. Eles condenam e temem. Disse Paulo Narciso: as imagens do jovem executado, um Francisco de Assis, assassinado no bairro Sagrada Família, são chocantes. Envergonham-nos a todos, clamam.
Temos de ficar insensíveis, cegos às cenas que se repetem, dia e noite, nas cidades brasileiras? “Eu e você, irmãos da mesma humanidade, inertes, tomados e revirados estamos naquela poça de sangue. As mães chorando a imensa dor do mundo”.


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Por Manoel Hygino - 14/10/2012 08:04:16
O óbito indesejado

Manoel Hygino - Hoje em Dia

Sou um tanto barranqueiro. Naveguei pelo São Francisco desde tenra idade, conhecendo os burgos e povoados às suas margens, chupando melancia ou experimentando depois as boas aguardentes da região. Gente boa e trabalhadora, que tem muito a contar, de sua vida e das lendas. Em criança, vi vapores encalhados nos bancos de areia e demorando até três dias para deles se livrar.
Desde remotas épocas se advertia para os problemas que teria o grande rio da unidade nacional. Suas águas não eram protegidas, transformava-se criminosamente em transportador de detritos e rejeitos de toda natureza, degradava-se, suas margens não recebiam a necessária defesa, enquanto se desertificavam extensas áreas do território mineiro. Mas se cuidava de distribuir o que sobrasse para atender a demanda de água do Nordeste, que em nada resultou até o momento.
Em setembro último, lançou-se, no Recife, um livro – diagnóstico, revelador do que se tornou o São Francisco. Cem especialistas descreveram o perfil da vegetação ao longo e no entorno do rio. “Flora das caatingas do Rio São Francisco: história natural e conservação” mapeia a flora regional, enquanto se executam as obras de transposição.
São 13 capítulos, o primeiro dos quais exibe título constitui um alerta: “A extinção inexorável do Rio São Francisco”. Em suas páginas medem-se os impactos na utilização do rio. Observa-se que, além de desvio das águas, há seu uso, intenso e incessante, para abastecimento humano, agricultura, criação de animais, recreação, indústrias e muitos fatores poluentes.
O estudo vai mais além. Adverte que restam agora apenas 4% da vegetação das margens. O rio praticamente inviável como hidrovia, espécies foram extintas e ecossistemas profundamente afetados. Advertência: são imprescindíveis intervenções imediatas para mudar o atual cenário de degradação. Será que há alguém interessado? Se houver ainda o que se possa fazer algo para salvar a bela corrente nascida no Sudeste para percorrer os estados do Nordeste, deve agir rapidamente. O São Francisco está vivendo dias difíceis, seu estado é grave e seu óbito não interessa à nação em que vivemos.


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Por Manoel Hygino - 23/9/2012 09:09:44
As contas da saudade

Manoel Hygino - Jornal Hoje em Dia

Plantada e implantada no sertão mineiro, tão bem descrita em lugares e personagens pelo cordisburguense Guimarães Rosa, Montes Claros é, de longo tempo, a maior e mais dinâmica cidade da região, dentro de um pedaço de Minas Gerais que já quis até desligar-se de Minas Gerais. Compreendia-se e se compreende.
Com sua dimensão geográfica e econômica, política e cultural, o burgo que gerou grandes nomes em várias áreas do saber e do fazer parecia esquecido dos poderes públicos. Só se lembrava de lá nos momentos de tragédia, dos nordestinos que desciam em direção ao hoje Sudeste, enfrentando toda espécie de dor e doença e a fome para fugir às extensas secas, pagando por pecados que não cometiam.
 A cidade é obra de muito esforço, de muita dedicação, de muito sacrifício, mas é. Existe e se explica naturalmente. Trata-se de uma das únicas do interior brasileiro com dois representantes na Academia Brasileira de Letras – Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, embora mais notáveis pudessem lá ter chegado e outros tenham engrandecido os quadros da Academia Mineira, como João Vale Maurício
.Outros marcaram sua existência na imprensa, não se esquecendo Hermenegildo Chaves, uma das mais altas expressões do jornalismo mineiro, também poeta, como o foi João Chaves, perenizado em música por composições de singular beleza. Numerosos atuaram e atuam nas letras, na música, no jornalismo, no rádio, no cinema, no teatro. A beleza passou por Montes Claros, ficou e inspirou.
 O livro “montesclaros.com.Amor”, de Flávio Pinto, é um relicário de inesquecíveis lembranças da cidade em que nasceu, passou infância e adolescência e se iniciou em atividades que o nortearam na vida. Suponho que mais se tenha realizado na imprensa, em “O Jornal de Montes Claros”, símbolo de veículo sintonizado com as mais caras reivindicações e anseios da cidade e de seu povo. Sob comando de Oswaldo Antunes, ex-integrante dos quadros de “O Diário de Belo Horizonte”, a publicação montes-clarense se caracterizou por independência e não por submissão, o que em qualquer canto do mundo pode ser mortal. E foi.
Flávio Pinto foi um dos jovens repórteres do jornal do querido, saudoso e respeitável Oswaldo Antunes, nos anos 60. E Oswaldo deixou discípulos e seguidores cuja missão se preserva com grandeza e dignidade, tendo como exemplo o montesclaros.com, de Paulo Narciso, que integra o título do novo livro de Flávio Pinto. Seu conteúdo é como contas de saudade de um velho rosário, que merece ser rezado.


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Por Manoel Hygino - 17/9/2012 18:54:34
Montesclaros.com AMOR, reunindo crônicas, reminiscências e meditações sobre belos tempos de infância e juventude, é um canto de saudade que se tornou passado cronologicamente, mas continua vívido e poderoso no coração e na memória. O livro de Flávio Pinto, recentemente editado, evoca uma época que se perde no calendário, mas ganhou força e beleza entre os jovens que cruzaram os anos 50 e 60 principalmente, do século que se foi.
Amavam a terra em que tinham nascido, o impacto de novas ideias desde o fim da II Guerra, que profundamente marcara toda uma geração. Depois dos sombrios dias do conflito, sonhava-se mais, mais se queria, desde a democracia, enaltecida e publicamente defendida no famoso Manifesto dos Mineiros em 1943, pela perspectiva de realização pessoal e profissional nas faculdades da capital até a carreira no jornalismo e nas letras, que já privilegiara Montes Claros com figuras da mais alta competência.
Flávio Pinto, com experiência adquirida na redação do Jornal de Montes Claros, nascido e dirigido, enquanto pôde, por Oswaldo Antunes, recorda sua afanosa passagem pela redação do corajoso veículo, símbolo de identidade com as melhores tradições e anseios da população.
Flávio Pinto, como outros jovens de então, construíram sua vida e hoje têm luz própria. Seu livro é agradável e uma lembrança de amor à terra e pessoas que jamais se apagam. Merece ser guardado o volume bem próximo ao coração.



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Por Manoel Hygino - 28/8/2012 16:07:51
Leio e analiso diariamente as notícias que me chegam pelo montesclaros.com. Tenho, assim, um retrato vívido e fiel da cidade em que nasci, desde as festas do Reinado de São Benedito em agosto, às atividades culturais, as ações do meio econômico, até o absurdo ciclo de crimes que se perpetram initerruptamente contra a população. Montes Claros é, de certo modo, uma foto do Brasil turbulento de nossos dias.
Tive acesso à crônica de Haroldo Lívio no dia 23 desde agosto findante. O historiador faz referências a ilustres filhos de brava gente do meu burgo citando Cyro dos Anjos, Darcy Ribeiro, Cândido Canela e Caio Lafetá, este tão prematuramente desaparecido de nosso convívio. Mas Haroldo me incluiu na relação, ao descrever episódios em que aparecem o conspícuo Waldir Senna Batista, eminentemente um homem de imprensa, e o escritor José Luiz Rodrigues.
 Haroldo muito me honra ao fazer as observações que fez a meu respeito. Acho mesmo que exagerou nos conceitos que de mim faz e do que, modestamente, construí no decorrer de décadas de existência. A esta altura, sua opinião se torna um epitáfio de luxo, cujo conhecimento público não poderia desconhecer.
É lisonjeiro ser considerado nos termos em que fui por tão admirado cultor de nossas letras e de nossa história. Guardarei como relíquia suas palavras.

(N. da Redação - O autor da mensagem é o jornalista Manoel Hygino, de 82 anos, colunista do jornal Hoje em Dia. Outro escritor, Haroldo Lívio, em crônica recente (mensagem 72 597 neste Mural, abaixo) - repetiu que Hygino é o nome mais alto das nossas letras. O aplauso geral fixou o consenso).


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Por Manoel Hygino - 19/7/2012 09:50:16
As portas da violência

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A notícia saiu pelos meios de comunicação na primeira semana de julho. Em cada grupo de brasileiros, seis têm medo de assalto à mão armada e assassinato. São dados de uma instituição confiável, o Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), e se trata de um índice extremamente elevado com relação ao temor à violência.
A meia dúzia referida tem “muito medo” de assalto, assassinato e arrombamento de residência, além de agressão, sentindo-se menos seguras as mulheres. Mas certamente a grande maioria dos nascidos ou residentes neste país, nas capitais ou no interior, têm medo, quando não pavor, por viver sem segurança.
Apanho um exemplo: no dia 3 deste mês, um grupo de malfeitores entrou em ação no norte-mineiro. Dois invadiram um posto de gasolina no centro de Montes Claros, renderam o frentista com arma e roubaram dinheiro; dois assaltaram e roubaram dinheiro em Engenheiro Navarro, amarrando a funcionária dos Correios; em Corinto, uma agência foi invadida possivelmente pela mesma dupla. Funcionários e clientes foram rendidos e os facínoras levaram R$ 40 mil, celulares e armas dos seguranças; pouco depois, em Curvelo, carro usado na fuga se envolveu em acidente, mas dois dos marginais fugiram.
Episódios como estes fazem parte do cotidiano de um Estado com as dimensões de Minas Gerais, mas são extensivos a todo o país. Lamentavelmente o crime se tornou rotina, mas há evidentemente bandidos importados de outras unidades da Federação. A polícia faz o que pode, porém a marginalidade se disseminou por todo o território. Sequer as capitais, mais bem providas de agentes da lei, escapam. Pelo contrário, os facínoras se tornaram mais sofisticados em suas ações e em seus armamentos.
Como sair desta situação? Inúmeros dão palpite, autoridades expõem ideias, especialistas em segurança fazem reparos e críticas, sociólogos se manifestam, mas o panorama de medo e criminalidade não muda. Há até os que comentam: se em Brasília, a corrupção se instalou nos poderes da República, se milhões são consumidos na máquina administrativa corrompida ou corrupta, os fora de esquemas políticos se julgam com direito de também atuar na sociedade marginal.
Decreto assinado no final de junho concedeu R$ 150 milhões para aumento da verba de gabinetes dos 513 deputados federais. E os que tiveram elevação na escala social continuam sem pagar compromissos.


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Por Manoel Hygino - 4/7/2012 10:16:28
Antes que seja o fim

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O jornalista Girleno Alencar, em reportagem do dia 21 último, focaliza um tesouro em situação de risco. A preciosidade é a capela de Nossa Senhora do Rosário, no distrito de Brejo do Amparo, em Januária, que já visitei mais de uma vez. A foto que ilustra a notícia revela o estado de degradação do templo, construído por escravos em 1688 e tido como o mais antigo de Minas.
Ao longo do tempo, a história mineira tem-se concentrado mais especificamente nas regiões de riquezas minerais. O ouro e o diamante atraíram a atenção do pesquisador, como fizeram àqueles que, vindos de Portugal, queriam saciar a sede de bondades na região central de Minas. Mas havia aquele outro grande fluxo que, descendo do Nordeste, estabeleceu-se no Norte mineiro e, dedicado a outras atividades, principalmente junto ao São Francisco, criou um novo posto civilizatório.
Foram gentes diversas, que incluíram os bandeirantes, mas também os emboabas, os vaqueiros, os indígenas da região e os afros, experimentados na agricultura. Levínio Castilho, engenheiro, nascido na região e por ela entusiasmado, observou:
“Essas raças confluentes descobriram, no último quartel do século XVII, as melhores terras agrícolas da região do São Francisco, onde se localizava a aldeia do Tapiraçaba dos índios caiapós. Era a mais poderosa e adiantada vila de toda a região, situada em terras frescas e férteis, e povoada por um gentio bravio e desconfiado, que ali se estabeleceu, formando um forte grupo agrícola, pastoril e comercial”.
A aldeia foi destruída. Cabe às novas gerações evitar que se destruam remanescentes valiosos do que ali obraram os pioneiros, principalmente os que, vindos do Nordeste, construíram monumentos às vezes simples, mas de grande sentido histórico. Aqui mesmo, denunciei o furto do sino da igreja de Nossa Senhora do Rosário, que pesava 300 quilos. Nunca mais se ouviu falar dele.
Agora, o templo corre risco, embora exista verba destinada à sua restauração. É algo que não pode ser adiado, porque aquele bem exige rápida recuperação. São mais de 300 anos de história e demonstração de muito amor e um símbolo de fé.
Os estudos preliminares já foram realizados. Agora, é mão à obra, para que o velho prédio não tenha o destino do sino, que há muito não badala.


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Por Manoel Hygino - 25/6/2012 10:25:28
A escola fechada

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Adolescente, acompanhei a extensa e intensa luta para implantar a Praça de Esportes, que tanto exigiu esforços das mais importantes vozes da sociedade de Montes Claros, a maior e mais forte cidade norte-mineira. Era uma época que não havia sequer rodovia asfaltada para a região, o que somente viria muito depois. Tudo em termos de suprir demandas da comunidade se concretizava a muito curso, como ocorreu, por exemplo, com a ferrovia que ligaria o sertão às capitais dos hoje Sudeste.
A população, todavia, sabia que para viver bem precisava mais do que simplesmente alimentar-se. Imprescindíveis saúde, para o que muito se lutou juntos aos organismos federais e estaduais, com água nas torneiras e saneamento básico, para o que muito se empenharam os prefeitos municipais.
Lideranças compreendiam também que se tornava valioso praticar o ensinamento latino de “mens sana in corpore sano”. Para isso, contou com o apoio da população, conservadora mais cônscia de que a Praça de Esportes fazia bem à cidade, dava-lhe prestígio, formava atletas habilitados a participar de competição em nível de igualdade nas capitais.
O médico e escritor João Valle Maurício afirmou que Montes Claros passou a ter gerações bonitas, sadias e ordeiras, tornando-se uma esplêndida escola para a mocidade de então. Chefe da Casa Civil da presidência da República, Darcy Ribeiro destinou uma verba fundamental para construir o ginásio aberto, que recebe seu nome.
Maurício sempre se orgulhou da Praça, o que afinal não é privilégio seu. Os montes-clarenses todos o seguiram, porque a cidade revelava esportistas para jornadas lá foram, sempre registrando perfomances de relevo. Outros municípios seguiram o exemplo e implantaram praças que produziram campeões estaduais e nacionais.
A cidade cresceu, a população também. E, quando mais se esperava que ela se mantivesse em permanente atualização, ocorre o que os jornais de Belo Horizonte comentam com destaque. A Praça, construída na antiga “Vargem”, será vendida para servir a interesses comerciais. Será que na cidade que se designa de Princesa do Norte não teria outro espaço? Se assim ocorrer, a Praça não será mais do povo, como quisera Castro Alves.


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Por Manoel Hygino - 13/6/2012 11:44:46
A morte está solta

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 6 do mês das festas de Santo Antônio, São João e São Pedro houve mais do que o foguetório animador de antigamente. Em minha terra, onde as comemorações faziam exultar os corações, um rapaz, 25 anos, foi assassinado no Jardim Eldorado. E a Polícia Civil prendeu o suspeito de matar o estudante de direito.
Não muito distante, em Coração de Jesus, lugar natal do grande poeta Artur Lobo, bandidos atacaram o Banco do Brasil, arrombaram cinco caixas eletrônicos, guardaram as armas em malas e fugiram em quatro carros com placa de Uberlândia.
Mais perto da capital, seus facínoras explodiram também caixas do mesmo Banco e fugiram sem maior incômodo com o dinheiro em dois carros. A cidade em que nasceu o autor de "Sagarana" não podia ficar ausente da lista dos criminosos, que agora voltam sua atenção para os burgos do interior, já que nas capitais a polícia está mais rigorosa.
O leitor observará minha preocupação com o crime em geral e as drogas, com um genocídio indiscriminado em todo o país. O Brasil se tornou cenário de uma carnificina, que se deplora e se condena, mas não atenua. Mata-se na cidade e nos campos e nas vias que os ligam.
As estatísticas o demonstram, à saciedade. Recente estudo do Instituto Sangari revela que o Brasil tem o sétimo maior índice de homicídios entre as mulheres entre 84 países. Os estados com maiores taxas, em 2010, foram Espírito Santo, Alagoas e Paraná. Sessenta e oito por cento das vítimas foram agredidas na própria casa. Elimina-se o jargão: Lar, doce lar. Em verdade, degradou-se o espírito da família.
Nas rodovias, na maioria precárias, vidas são ceifadas. Levantamento recente mostra que o número de mortes em acidentes duplicou em Minas de 2000 a 2010. Passou de 2.247 para 4.044, a mais alta taxa do Sudeste do Brasil, chegando a 80%. Em nosso Estado, os carros matam mais, parcialmente explicável o fato por termos a maior rede rodoviária nacional. Se bem que São Paulo totalizou 6.946 ocorrências de trânsito em 2010, enquanto Minas quedou com os 4.044 acidentes referidos.
Lamenta-se especialmente que os criminosos quase sempre tenham sido liberados das prisões pela Justiça. Leia-se o noticiário dos jornais. Em uma reforma do Código Penal, evidentemente esses detalhes têm de ser considerados. Atualmente se cogita de ampliar para 40 anos o limite de cumprimento das penas de prisão dos detentos que cometerem novos crimes, aumentando dez anos. Uma ideia útil, mas não suficiente. Outras propostas para resguardar a vida do brasileiro têm de ser examinadas, discutidas e aprovadas. Com urgência.
Nem se fale em motos. O Brasil é o segundo país no mundo em mortes em acidentes envolvendo motociclistas, com 7,1 óbitos a cada 100 mil habitantes. À frente apenas o Paraguai. Nos últimos 15 anos, o crescimento da taxa de mortalidade nesse tipo de acidentes cresceu 846,5%, enquanto a de carros ficou em 58,7%. Mata-se mais do que em cruéis conflitos.


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Por Manoel Hygino - 6/6/2012 09:20:59
Além dos temores

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

A professora Mônica Giannoccaro Von Huelsen, chefe interina do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, fez lúcida exposição sobre os abalos no Norte de Minas. Em resumo, ela disse que não há motivo para pânico. Em outros países em que há efetivos riscos de terremoto, "as pessoas aprendem desde cedo como proceder e não temem. Nós temos essa cultura ainda".
A explanação é de que esses tremores no Brasil não são capazes de levar ao chão edificações de qualidade, apenas produzir trincas ou rachaduras. "Edificações de qualidade", eis a questão. Concluiu o raciocínio: "Já uma construção ruim, feita sem vigas, pode cair até com abalos de 4 graus".
O mais forte tremor, dentre os 23 registrados, atingiu 4,5 graus na Escala Richter. Os técnicos recomendaram: "Dentro de casa, afasta-se de objetos que possam cair e de armários; vá para debaixo de uma mesa ou portal, desligue o gás. Fora de casa, vá para áreas livres; não entre em pânico; não se aproxime de edifícios, linhas de transmissão de energia, muros, monumentos e árvores. Em prédios: não use elevador ou escada; procure local seguro longe de janelas e armários; permaneça calmo e espere por ajuda".
Até aí, tudo bem, mas a orientação não serve a grande parte da população brasileira, que não goza dos mínimos benefícios do progresso e da modernidade, nem mora em cidades. Não faz muito tempo, naquela região sertaneja, uma menina morreu - primeira vítima desse tipo de fenômeno no Brasil - porque a habitação desabou sobre ela, lá em Caraíbas, no município de Itamarandiba.
São mundos diferentes, embora não tão distantes geograficamente. Deve existir estatística sobre quem mora na roça sem proteção alguma, sem projeto de engenheiro, sem alicerce, sequer com teto, coisas assim. Não faz muito tempo ruíram casas de conjuntos residenciais até de certo luxo, mesmo sem qualquer abalo sísmico, por força de deslizamento de terra, má construção, excesso de chuvas. Nem se imagina o que acontece todos os anos, quando modestas habitações, mesmo casebres, despencam dos morros ou são carregadas pelas enxurradas.
Na roça, no sertão, há pobreza que a propaganda oficial não esconde. Basta conferir, se bem que os brasileiros com algum rendimento mais expressivo preferem comprar um carro de luxo ou fazer uma viagem ao exterior, mesmo quando o dólar tem cotação mais alta.
A verdade é muito outra. O próprio IBGE informa que 18,5 milhões de pessoas, correspondente a 12% da população pesquisada, vivem em áreas urbanas com esgoto a céu aberto diante de suas moradias.
Pode-se morrer, assim, em abalo sísmico, em enxurradas, em desabamentos, ou por doenças produzidas por falta de saneamento básico ou assistência à saúde. Tudo isso tem de ser repensado e reavaliado. Os jornais publicaram: as pessoas com renda familiar per capita de R$ 291 a R$ 1.019 são as que formam a classe média brasileira. Com essa receita, não dá para fazer milagre.


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Por Manoel Hygino - 25/5/2012 10:24:16
Revolta da terra

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Guimarães Rosa utilizou a temática do sertão magistralmente. No princípio, eram poucos e privilegiados os que conheciam o seu verbo, o seu vocabulário, com expressões cujas raízes se perdiam na imensidão do tempo, palavras esquecidas nos desvãos da língua na Europa ou nas colônias. O escritor de Cordisburgo as resgatou. Hoje, milhões usam nas conversas, nos livros. Rosa se popularizou.
Mas ele não podia imaginar fenômenos como a pesada chuva do dia 14 em Montes Claros. A tempestade provocou alagamentos, queda de árvores e destelhamentos. Diz-se que na região chove pouco, e é verdade. O dia 14 quis demonstrar que a verdade tem outras faces. Moradores de um conjunto habitacional de Montes Claros foram os que mais sofreram. Além de alagamento, padeceram com as infiltrações nas paredes e queda de tetos de PVC.
A força do vento aprisionou em varanda de uma casa parte da família no bairro Olga Benário. O telhado de zinco de uma granja foi arrancado e ganhou os ares por 50 metros. Estradas danificadas causaram acidentes e vítimas de ferimentos.
E tudo aconteceu quando as beatas já se preparavam para orações contra a longa estiagem, que secara a terra e os rios, que matara a plantação e ameaçava o gado. Os jornais da capital já classificavam o período como dos piores da história de Minas. Anunciado uma calamidade que abrangia o Nordeste de Minas, o Norte, até o Sul da Bahia, era natural que se apelasse para forças mais poderosas e os milagres.
Em outros tempos, levas de irmãos do Nordeste desciam de suas paupérrimas regiões em busca de menor dor. Distribuíam-se pelo Paraná, São Paulo. Grande número se assentava mais ao Sul, nos municípios do Norte e Nordeste de Minas, onde ainda morava uma réstia de esperança. Mas também a esperança diminuía no sertão mineiro, porque, em 2012, marcou o início da estiagem. Tendo assistido uma das piores estiagens da história regional, conheço de perto o drama. Mas a seca periódica não interrompeu seu curso e se repete neste 2012 ainda no quinto mês. Como se pouco fora, mais um tremor de terra no dia 19 de maio.
A paciência do sertanejo, já tão sofrido, também se abala. Foram 11 tremores de terra nos tempos mais próximos. Os técnicos têm informações pertinentes, que esclarecem, mas não conformam. Após o abalo de 2008, os sismógrafos registraram, em apenas um dia, mais de 50 tremores de menor intensidade. Há algo que se possa fazer?
O sertanejo, e não somente o que habita as terras mais ao norte do território brasileiro, a cada infortúnio se demonstra efetivamente um forte, como o definiu Euclides da Cunha. Cá em Minas, surgem novas formas de provação, como se fossem poucas as de privação.
Há muito, tenta essa gente vencer a força destruidora da natureza e a insensibilidade dos homens. Há muito, sim, porque, a primeira região mineira a ser povoada foi a do Norte de Minas, através dos currais de gado do rio São Francisco e Rio Verde.


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Por Manoel Hygino - 5/5/2012 14:40:15
De baioneta falada

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 7, quando Belo Horizonte escurecer, no salão de recepções do Tribunal de Contas do Estado, na avenida Raja Gabaglia, Genival Tourinho, Lígia Maria Pereira, Auxiliadora Faria e Vicente Tupinambá Flores lançam o livro "Baioneta Calada e Baioneta Falada", editado pela Imprensa Oficial. O volume, alentado, contém episódios biográfico-políticos do primeiro, meu conterrâneo mais novo, personagem polêmico na crônica partidária de Minas e do país. Murilo Melo Filho, jornalista, da Academia Brasileira de Letras o saudou, como fez a apresentação das 600 páginas de acontecimentos marcantes na vida de Genival.
Repito: Genival é o personagem. As professoras Lígia Maria Leite Pereira e Maria Auxiliadora de Faria, professoras de UFMG, foram as concatenadoras do trabalho e redatoras, enquanto Vicente Flores teve participação dando assessoria na formatação. Atrás das cortinas, tiveram papel importante na publicação Paulo Ribeiro e Paula Tourinho, além de Ariosvaldo Campos Pires, incentivadores da "empreitada".
O título diz muito, porque resume a vida de Genival, cheia de lances, ricos em coragem, tantas vezes objeto de incompreensões. Para o biografado, inspirou-se ele em Oswald de Andrade, para quem a baioneta falada é indutora dos maiores desatinos, superiores mesmo aos praticado contra a humanidade contra a Santa Inquisição. Que assim seja!
Genival é um apaixonado por política, uma paixão revelada desde a adolescência, quando sequer eleitor e se integrou à campanha de Juscelino ao governo de Minas, abrindo comícios no Norte de Minas, como em Bocaiuva, Montes Claros e Pirapora. Naquela idade, começou a discordar do pai, pró-candidatura udenista de Gabriel Passos.
A esperança do autor-personagem era de oferecer leitura amena, o que conseguiu. Por outro lado, logrou-se o que é raro neste gênero: tudo corresponde à absoluta verdade. "O que não pude revelar, omiti. Não modifiquei ou retoquei. Os episódios na história da oposição, quando os conto, aponto realmente como aconteceram, sem acréscimos, sem pinceladas ou artifícios que os viesse deturpar".
Alguns fatos descritos tiveram repercussão nacional, como sublinha Murilo Melo Filho: a eleição para a Câmara dos Deputados, a fidelidade ao PMDB e PDT, a luta contra Geisel, as denúncias contra os generais Coelho Neto, Milton Tavares e Antônio Bandeira na "Operação Cristal", o assalto e agressão de que foi vítima no Eixo Rodoviário de Brasília e o processo que lhe moveu o Ministério do Exército.
Mas nem tudo é política, porque as atividades paralelas, a vida pessoal - a sua e de outros personagens - são lembradas, desde as origens da própria família, típica de classe média, para média alta. A grei era de cidade da Bahia, como os antigos chamavam Salvador. Registre-se que a capital da capitania de Porto Seguro teve como primeiro donatário Pero do Campo Tourinho.
A origem, pelo lado materno é de Minas, margem do São Francisco, em Manga. O coronel Bembém Pastor, último coronel de Minas, de fala mansa, responsável por não poucas escaramuças, tinha liame com sua avó. Enfim, muito a ler e apreciar, ao jeito e maneira de Genival, a que foram fieis as redatoras.


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Por Manoel Hygino - 24/4/2012 08:53:26
Tábua de pirulitos

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

No dia 12 de abril, os jornais publicavam que moradores do município de Engenheiro Dolabela foram surpreendidos por um tremor de terra. O fenômeno, antes raro no Norte de Minas, vai-se tornando frequente. Na última tremedura, esta de Dolabela, poucos a sentiram. Em Brasília, a central de Sismologia informou que nenhum fato significativo foi registrado pelas estações. De fato, Brasília fica muito distante dos problemas do Brasil. Os sismos por lá são outros.
No início de março, Montes Claros foi atingida por abalo de 3 graus na escala Richter, isto a Universidade de Brasília soube. No ano passado, o Observatório Sismológico da UnB registrara na maior cidade da região, em menos de um mês, dois desses abalos, de que antes não se tinha notícia. Lucas Barroso, pesquisador da UnB, confirmou o novo fenômeno baseando-se no histórico da cidade e nos relatos dos moradores. Segundo ele, somaram dez os abalos nos últimos dois anos. Explicou que a cidade deve estar localizada próxima a um falha geológica ativa, que gera tremores quando se movimenta. Para Barroso, a exata compreensão do problema depende de estudos permanentes e da criação de uma estação local.
E por que não se toma essa providência?
Não se pode esquecer que, em 9 de dezembro de 2007, menina de cinco anos morreu em Caraíbas, distrito de Itacarambi, perto de Montes Claros, quando um tremor de 4,9 graus na Richter atingiu a região. Foi a primeira vítima desse tipo de fenômeno no Brasil. A criança dormia em casa com a família quando a estrutura da habitação caiu e a esmagou. Várias casas foram atingidas completamente e outras duas pessoas sofreram traumatismo craniano, além de mais quatro internadas com ferimentos leves. O tremor foi sentido ainda em Itacarambi, Manga e Januária. Diante disso, a Cedec reativou, em 2011, sismógrafo que monitora Caraíbas.
Enquanto não se chega a uma conclusão objetiva e definitiva, cabe conhecer, por exemplo, o que diz José Ponciano Neto, técnico em meio ambiente. Ele diz que os abalos sísmicos começaram este ano mais cedo. Eles ocorrem de maio a julho e de outubro a dezembro, períodos que coincidem com a pressurização e despressurização dos lençóis freático e subterrânea do nosso cárstico.
São vários os elementos que provocam tais tremores no setentrião mineiro. A água, através do seu movimento nos poros ou fissuras de um solo ou rocha, sob pressão hidrodinâmica; a temperatura que dilata a litosfera aflorada, afetando as cavernas; o fogo, que detona rochas para produzir a argamassa sobre a qual se erguem as moradias.
A pergunta: Pode ser hipotético, mas se estamos longe das tectônicas, sem a mínima chance da influência dessas placas, o que pode ser? Para o técnico, as perfurações desordenadas de poços, milhares sem licenças ou outorgas, fizeram com que a região se tornasse uma tábua de pirulito. O fogo (dinamite), que abala os irmãos do Alfeirão e a serra Ibituruna não está influenciando na queda dos tetos das cavernas e galerias? Há dois anos, há um estudo em banho-maria. E a estação prometida para a cidade ficou na promessa por enquanto. Até quando?


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Por Manoel Hygino - 19/4/2012 08:48:05
Ideal de grandeza

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

A televisão mostrou a cena da jornalista francesa Edith Bouvier, ferida na cidade de Homs, na Síria, de regresso à pátria, depois de muitos dias sem assistência médica. Também foram mortos a jornalista americana Marie Colvin e o fotógrafo francês Remi Ochlik. A Unesco reprovou. As autoridades sírias desrespeitam a Convenção de Genebra sob as guerras, em que o trabalho da Imprensa deve ser preservado.
Mas o problema não é restrito. Relatório do International News Safsty Institute colocou o Brasil como o sétimo lugar mais perigoso para jornalistas no mundo. Não há apenas a morte de Wladimir Herzog a lamentar. Em 2011, no Brasil, foram mortos cinco profissionais, do total de 124, em 40 países.
Os profissionais perdem a vida no cumprimento do dever ou simplesmente pelo cumprimento do dever. Faço estas considerações quando registro, com pesar, o falecimento de um homem de Imprensa que honrou seu compromisso, mais forte do que o diploma, que valida uma definição de vida, ininterruptamente exposta.
Refiro-me a Oswaldo Antunes, que partiu no entardecer do dia 11 último, ele que foi o pai da Imprensa moderna de uma cidade, na expressão de Paulo Narciso, que a seu lado esteve expressivo período na redação do "O Jornal de Montes Claros", na rua Dr. Santos. O dizer de outro companheiro daquela época, José Prates, nele se sentia competência e dignidade. Graças à sua conduta e idealismo, manteve a folha mais lida do norte-mineiro por longos anos, primando pela independência e imparcialidade, missão penosa em todos os lugares e tempos.
A sua guerra foi contra a incompreensão, os interesses subalternos da política, pois não compactuava com o que lhe ferisse princípios e a consciência profissional e pessoal. Daí, ter legado exemplos, não daqueles referidos pelo prefeito da cidade, em nota, ao aludir a "profissionais da Imprensa hodierna".
De um jornalista de escola, sobrevivente talvez de uma fauna em extinção, ouvi: "Sentiremos saudades, muitas. O dr. Oswaldo, depositado no chão do sepulcro, ao pé do qual estive, pareceu-me mesmo maior do que vivo - como na frase francesa, famosa". No único livro que deixou publicado, e que honrosamente me submeteu à leitura antes de editá-lo, Oswaldo Antunes conta sua odisséia para manter um ideal de grandeza. Ele faz parte de "O Diário", folha que alcançou números enormes de circulação no país, editado em Belo Horizonte, e do qual seria eu colaborador, depois diretor de redação e presidente.
Na antiga folha belo-horizontina, foi redator político nos anos 40-50, suas colunas recebiam e abrigavam talentos como Edgar da Matta Machado, Hélio Pellegrino, Alphonsus de Guimarães Filho, Otto Lara Resende, Milton Amado, o nosso excelente José Mendonça. Sem esquecer João Etienne Filho, Mello Cançado, João Camillo de Oliveira Torres, além de Tristão de Athayde, e ases do noticiário político, como Geraldo Magela Andrade e Geraldo Rezende.
Houvera espaço e mais diria. Creio, porém poder concluir com um pensamento que Oswaldo Antunes apreciaria, de Tocqueville: "A Imprensa é, por excelência, o instrumento democrático da liberdade."


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Por Manoel Hygino - 14/4/2012 12:29:26
Uma nova economia

Manoel Hygino – Jornal “Hoje em Dia”

Ao longo de uma existência devotada ao trabalho com a gente simples do norte-mineiro, o curvelano Nelson Vianna colheu farto material para livros que são preciosas fontes de informações. Não lhe faltavam conhecimentos adquiridos Escola de Minas de Ouro Preto, nem a sensibilidade com a qual se nasce.
Entre seus bons livros, está "Foiceiros e Vaqueiros" (de que recebi um raro exemplar do historiador Haroldo Lívio), em que Nelson relata seu cotidiano com esses heróis de nosso mato sertanejo, trabalhadores satisfeitos durante o dia em penosos serviços, tocadores de viola à noite e cantores de modas regionais, sempre simples e cordiais.
Mas isso foi nos anos 20 do século findo, quando Montes Claros, a mais importante cidade daquele território, ainda tinha algo do Arraial de Nossa Senhora da Conceição e São José de Formigas, onde se formou a pequena povoação em torno de 1789. As atividades predominantes, o cultivo da terra e a pecuária.
Euclides da Cunha já registrava o regime pastoril, a que não faltavam ao gado as baixadas salobras dos barreiros. Desde Figueira, o primeiro proprietário da fazenda em que se gerou a cidade, ela se demonstrou uma extensa zona de criação de gado, revelada no alvorecer do século, como registra Hermes de Paula.
A indústria que se foi instalando na região procurava, por óbvias razões, aproveitar o que a terra produzia e o gado bovino possibilitava. Graças à produção algodoeira, surgiu a fábrica de tecidos, assim como a de óleo comestível, além de pequi. Já se pensava em utilizar a mamona para combustível, sem se esquecer que o pai do escritor Cyro dos Anjos instalou uma pioneira indústria de botões. O velho mercado, que não mais existe, era uma vitrina da riqueza regional, como descreve Cyro em "A menina do sobrado", com que Paulo Narciso me presenteou. Aos sábados, cereais, legumes, toucinho em postas, carne de sol, utensílios de cerâmica e, dependendo da estação, quanta fruta do mato podiam as chapadas e os tabuleiros.
Aquele tempo não morreu de todo, mas não sobreviveu de todo.
A cidade cresceu horizontal e verticalmente, são muitos milhares de habitantes, diversificou-se a produção, tornou-se metrópole, com todas as vantagens e desvantagens. Há rodovias, com muitos defeitos e problemas, mas existem. A rede aérea funciona. O homem não para de gerar riquezas e consumir.
Agora Montes Claros receberá a instalação de uma fábrica de veículos especiais, como de combate a incêndios, ambulâncias e de resgate para a defesa civil. Quem entrou nesse mercado é a italiana Pimme e Matacena, com investimentos de 50 milhões de libras na construção da fábrica, que atenderá o setor público.
O sertão não produz só gado e inteligência. A fabrica da Fiat Case New Holland investirá R$ 600 milhões na produção de tratores, empregando 2.700 pessoas. A Alpargatas montará a sua fábrica, para gerar 5 mil empregos.
Fatores favoráveis estar na área da Sudene, possuir incentivos fiscais e localizar-se entre o Sudeste e o Nordeste. São notícias que se deve divulgar com o otimismo.


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Por Manoel Hygino - 28/3/2012 09:29:42
Terna lembrança

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Leio "Montes Claros - Eterna Lembrança", memória de Ruth Tupinambá Graça, editado pela Secretaria Municipal de Cultura da cidade norte-mineira, com apoio cultural da Academia Montes-clarense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros.
Para Dário Teixeira Cotrim, presidente do IHGMC, "a obra de Ruth é uma fantástica viagem ao passado. Ela faz uma parada de reconhecimento pela saudosa rua Dona Eva, número 34, onde ela brincava com as suas amigas de chicotinho queimado, de veadinho quer mel e de cabra cega, passando - e bem longe - pela rua dos Marimbondos em busca do mercado velho e das casas comerciais no seu entorno".
Faço o trocadilho: eterna lembrança, mas também terna lembrança. Ruth consegue evocar um tempo inesquecível para os que o viveram e têm grato ensejo de revisitar a cidade, que - embora no mesmo lugar - é completamente outra, transformados os costumes, por mais amor que tenha ao pretérito e às tradições.
Sendo assim, não deixa de impregnar-nos de saudade imensa e de dor por constatar que, além dos costumes, perdemos uma época irrecuperável.
A autora, sabidamente de texto irreparável, reconstitui as ruas, a arquitetura, os templos, os clubes, as bandas de música, os educandários, os cinemas, e - antes e acima de tudo - as pessoas que deram vida e sentido à aventura de viver. Ali construíram uma comunidade consolidada, árvores que deram sombra e frutos, jardins que produziram belas flores, enfim, tudo que é belo e merece ser protegido.
Aí está, em linhas gerais, a metamorfose por que passam os aglomerados humanos. Eles perdem autenticidade, podem esquecer as raízes, por mais esforços que faça a nova localidade para preservar. De fato, o tempo é impiedoso e, dos belos relatos de Ruth Tupinambá Graça, se pode extrair lições das mudanças ocorridas nestes muitos anos da cidade... e de nós mesmos.
O livro fascina pela felicidade das descrições das coisas e das gentes, mas desperta, como natural, um sentimento de perda, de desencanto, que estão escondidos no mais íntimo de nós mesmos. Recordar doí, mas é preciso para fortalecer sentimentos e a reavivar lembranças indeléveis. Isso, a autora consegue e o leitor lhe fica devendo.
A publicação dessas páginas há de servir ainda como advertência pela desfiguração da paisagem urbana e humana de uma cidade que tem grandeza, não apenas econômica e material. A demolição de velhos prédios (outro dia, foi a casa de Godofredo Guedes) e de velhos conceitos, de princípios, é um atentado que se pratica contra a cidade.
O livro é um reencontro com os que se foram, os que aí estão a dar sequência ao trabalho dos pais, mas um reencontro conosco mesmo, que ali nascemos, vivemos - embora por reduzidos anos, e que amamos acima de tudo. Creio que, depois da leitura das observações e recordações apaixonadas de Ruth Tupinambá Graça, se poderia sugerir a substituição do título para "Montes Claros, eterno amor".
Dá prazer e alento revermos uma cidade que se agigantou, embora com o gigantismo surgissem vícios e violência. Mas parte do pretérito, pelo menos, está preservado, por força das origens e dos bonitos registros que a autora nos transmite. As casas simples, acanhadas e que se abraçavam constantemente, cederam lugar a edifícios, lojas e butiques, mas ficaram em nosso coração.


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Por Manoel Hygino - 9/3/2012 09:29:38
Sinos que silenciam

Manoel Hygino dos Santos – Jornal “Hoje em Dia”

Mais e mais se demonstra que os marginais que agem em Minas Gerais nos templos centenários não se restringem a furtar imagens históricas nas cidades mais importantes do Ciclo do Ouro. E o Estado dispõe dos altos serviços da Promotoria de Defesa do Patrimônio Cultural e Turístico de Minas Gerais. A velha província conta hoje com o maior número de bens culturais protegidos do Brasil, compreendendo cerca de 35 mil deles, entre os quais sítios arqueológicos, espeleológicos, paleontológicos, igrejas, casarões e núcleos históricos. A Promotoria Estadual para a área tem uma tarefa imensa a cumprir, para o que se esforça, embora encontre dificuldades notórias e conhecidas. Há pessoas que se conscientizam de serem corresponsáveis na preservação de nossas heranças culturais, como diz o promotor do Patrimônio, Marcos Paulo de Souza Miranda, mas se mantém incessante o furto de preciosas peças no interior, além de generalizado vandalismo daqueles que ignoram o importante legado.
Recentemente, na singela Itacambira norte-mineira, cinco imagens sacras foram simplesmente surrupiadas à noite, sem que a população e os cinco policiais locais percebessem. Terá de volta a matriz de Santo Antônio as imagens de São Miguel, Santo Antônio, São Vicente Ferrer, São Sebastião e Santana Mestra?
Em 2 de novembro do ano passado, foi arrancado da capela de Santo Antônio do Monte o seu sino de 120 quilos, e sua base de bronze, com 70 quilos, em Engenheiro Correa, Ouro Preto. Os gatunos não querem mais apenas as relíquias mais preciosas, de alto valor. Os sinos mesmo servem e, evidentemente, não para envio ao exterior ou enluxar casas ricas nas capitais.
Muito vivos, os ladrões descobriram que as "mercadorias" não se localizam apenas em Ouro Preto, Mariana, Diamantina e São João del-Rei. Daí, partirem para Itacambira, por exemplo, sequer sem estradas asfaltadas e tradição maior. Lá, buscaram as imagens de santos de grande devoção dos mineiros. Mais recentemente, o sino de Engenheiro Correa, que deve valer bastante pelo peso de seu bronze, sumiu. Não foi o primeiro. Aqui comentei o furto do sino da igreja de Brejo do Amparo, no município de Januária, no distante norte de Minas, às margens do São Francisco. Como nos outros casos, ninguém sabe dos criminosos, ninguém assistiu ao ilícito.
Mas a verdade é que o sino, com 300 quilos, foi removido à noite e ninguém mais teve notícias. Deve ter sido derretido, destino final do arrancado no distrito de Ouro Preto. Januária é também histórica, embora a civilização viesse por outros caminhos. Arraial de Nossa Senhora do Amparo foi elevado a distrito em 1811, de modo que divide a glória de ter 300 anos como Ouro Preto, Mariana e Sabará, embora com um título territorial inferior.
Para ilustrar, lembraria que Levínio Castilho, estudioso do tema, diz que a igreja de Nossa Senhora do Amparo e a primeira de Minas, construída em 1688. Há controvérsias. O fato incontroverso é que estamos perdendo imagens e sinos, possivelmente para nunca mais voltarem aos velhos templos que os abrigaram durante mais de dois séculos.


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Por Manoel Hygino - 25/2/2012 12:20:17
Rica Itacambira

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

É somente uma pequena cidade do Norte de Minas, pacata, de gente modesta, trabalhadora, incrustado o lugar num recanto em que gerações supuseram existir a lagoa do Vapabuçu. Para alcançá-la, há de se subir morro, atravessar um platô pétreo coberto de areias brancas, como do Abaeté disse Caymmi, e finalmente descer a serrania, por estrada precária, estreita, em pedregulho.
Uma das significações do topônimo é "pedra pontuda que sai do mato". Ali está a sede da paróquia de Santo Antônio do Itambacuruçu do Grão Mogol, que já integrou os municípios de Grão Mogol, Minas Novas e Montes Claros, mas que não passa de um aglomerado de casas humildes, com ruas tomadas pela poeira, ao tempo em que lá estive com o poeta Cândido Canela.
O historiador Hermes de Paula conta que, fragmentada a bandeira de Fernão Dias, em busca de esmeraldas, após remexer todo o Norte de Minas, encontrou a lagoa famosa, na região da chamada Tucambira. Lá estavam as covas cobertas de limo, em que se acharam as primeiras pedras verdes, abundantes. Mas não eram esmeraldas, e sim turmalinas, de reduzido valor.
O bispo D. João Pimenta foi pessoalmente à região, em 1926, para pesquisar e enviou relatório ao historiador Diogo de Vasconcelos, autor de "História Antiga das Minas Gerais". Concluiu o prelado que o local denominado de Vargem Grande, a cinco quilômetros do velho arraial, tinha a forma de grande lagoa, com muita quantidade de areia, resultante de grandes serviços de mineração em tempos remotos. Ela, a Vargem Grande, constituíra antiga Vapabuçu. Perto, o sítio da Serra Resplandescente, a respeito da qual se aprendia na escola.
Os bandeirantes modernos do alheio andaram recentemente por Itacambira, surrupiando no templo, acanhado e pobre, cerca de 20 peças, entre as quais imagens de São Vicente Ferrer, São Miguel, Sant`Ana Mestra, São Sebastião e Santo Antônio, que dá nome à igrejinha.
Itacambira, tão precária e relegada, é pois muito rica. Lá se encontraram múmias, com muito mais de 200 anos, como informou Simeão Ribeiro Pires. As múmias, retiradas dos porões úmidos e escuros da igreja, merecem presentemente destaque científico no Museu da Fundação Oswaldo Cruz, no Rio .
Em 1966, Itacambira ganhara prestígio internacional, destinada a cidade a morrer pela comprovação clara das devastações ali causadas pelo Mal de Chagas. Mais recentemente, descobriu-se, depois do sucesso da obra de Guimarães Rosa, que na matriz de Itacambira teria sido batizada a mítica Diadorim, ou seja, Maria Deadorina da Fé Bittencourt Marins.
Em meio a tanta riqueza histórica, uma cidade-museu a céu aberto nos longínquos sertões de Minas, apenas os bandidos, ladrões de peças sacras valiosas se lembraram de Itacambira, que melhor sorte merece. Em verdade, Itacambira não é mera e bonita ficção de Rosa, tendo ali nascido o futuro intendente dos diamantes, Manoel Ferreira de Câmara Bittencourt e Sá.


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Por Manoel Hygino - 8/2/2012 11:29:12
Lembrando Afonso X

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Ângela Vaz Leão lançou, na Academia Mineira de Letras, o seu livro "Cantigas de Santa Maria", tornando-se, como enfatiza Jacyntho Lins Brandão, da UFMG, "uma das mais destacadas conhecedoras desse corpus, em todas as suas peculiaridades linguísticas, culturais e poéticas". As "Cantigas de Afonso, o sábio" ou "Cantigas de Santa Maria", obra de Afonso X, constituem o grande cancioneiro medieval galego-português. O soberano dedicou-se à cultura e às letras, em meio às lutas e inquietações de sua época, merecendo perfeitamente o apodo".
As "Cantigas" são eminentemente do rei e, pelo apuro da forma, um monumento literário de nossa língua arcaica, não inteiramente extinto pelo passar destruidor do tempo. Logo após o lançamento do livro da professora Ângela, Yvonne de Oliveira Silveira, formada em Letras pela hoje Unimontes, de que se tornaria professora de Literatura Portuguesa e Teoria da Literatura, decidiu lançar seu "Cantar de Amiga", Pós-graduada pela PUC e sempre atualizada em cursos onde ocorrerem, ela trata a matéria com dedicação e denodo, como o demonstra.
O livro de Yvonne é a mais recente declaração de amor à região em que vive, à terra em que nasceu, as pessoas com as quais conviveu e convive, ressoando "traços fundamentais da gente montes-clarense", como observa Anelito de Oliveira, doutor em letras pela USP, dentre outros títulos.
Para apresentar o livro da escritora norte mineira, Raquel Mendonça diz que o caminho de Yvonne "foi sempre o das palavras, das lições, das letras e de cultivar a língua portuguesa e a literatura com generosas doses de amor, talento e conhecimento". Miriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, aprofunda o comentário:
"Poeta, merecedora das "doçuras matinais" (sequestro suas palavras) e "do sol da ventura imortal", e "das ondas de espumas dos Quinze anos", e do "mar longo da vida" e "do canto de violino ao redor dos sonhos rendados", Yvonne, influenciada pela cultura portuguesa, pelas cantigas de amigo, atualiza em seus cantares a vida de nosso tempo sob a ótica de uma intimidade espontânea, às vezes, na forma versificatória de quadras.
Outra escritora Maria Luíza Silveira Teles, proclama: "Yvone, ao exprimir toda a gama de sentimentos que a tomaram pela existência, brindou a uma celebração maior: a celebração de tudo que caracteriza a sua própria vida e compõe a belíssima canção da vida do Ser Humano".
Enfim, "Cantar de Amiga" é um hino de amor, porque a própria palavra dela emana. Nesse volume gracioso, a autora lembra minha mãe, "Tercília", que não mais está entre nós. Tampouco a rua não é mais aquela em que ambas residiram, pois - tomada pelo asfalto - perdeu a paz e o encanto, transformou-se em fervedouro:
"Carros, motos, bicicletas,/ bancos, lojas, farmácias,/ lanchonetes, restaurantes,/ tiraram amigos e o lar". Mas a autora, em espírito, lá permanece em evocação porque lá é a sua rua, a rua de sua infância, que tão longe está.
Cantiga ou Cantar de Amiga são versos para sempre.


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Por Manoel Hygino - 8/2/2012 10:51:41
A nobre raça

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Há mistérios indecifráveis nas velhas cidades mineiras integradas ao Circuito Histórico. Uma imensidão de fatos e personagens, famosas ou quase anônimas, falta ser desvendada e revelada. As incógnitas persistirão ao longo do tempo. Mas há também o ignoto mundo mais ao Norte, às margens do São Francisco ou nas estradas boiadeiras. É outra Minas que Guimarães Rosa despertou para o interesse do Brasil. Ali há outra gente, outro clima, há sertão, que gerações procuram descobrir sem inteiro sucesso.
É o caso de um cidadão, falecido em 9 do 9 de 2009. Em 16 de janeiro, último, faria 90 anos. Já há um livro sobre ele, escrito pela irmã Glorinha, advogada, psicóloga e autora de vários livros. Nascido à beira do rio, teve uma vida rica em acontecimentos, correu mundo, conquistou o diploma superior, voltou às barrancas, foi homenageado pelos integrantes da Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, quando dos 500 anos da descoberta da portentosa corrente unificadora de distantes regiões do país. Naquela ocasião, Marcelo Mameluque Mota, sobre quem agora escrevo, declarou: "Posso dizer sem medo de errar que o rio São Francisco nasce na serra da Canastra, em Minas Gerais e morre no oceano Atlântico, no Estado de Alagoas, mas antes, em seu percurso, ele passa pelo meu coração com o tisnado barrento de suas águas, de onde destaco a sua mais extraordinária riqueza, que vem a ser sua gente, da qual faço parte, pois aqui vivo. Neste vale, dei o primeiro grito de vida e, com certeza, darei o meu último suspiro".
No sertão distante das capitais, dos centros decisórios do poder, a gente que ali sofre há séculos é, apesar de tudo, apaixonada pela terra que a recebeu e a abriga. Incessantemente luta pelas causas mais legítimas de uma população consciente de seus deveres e de seus direitos, assumindo a certeza de que "morrer, só morre o frio cadáver que não sente", na definição de Pedro Mameluque Mota.
É um povo muito especial, a um só tempo manso, bravo, compassivo e corajoso, que não leva desaforo para casa, capaz dos mais vigorosos atos em defesa de sua propriedade, de sua família, de sua fé, de seu nome. É um povo que tem uma sonoridade diferente de falar, que compõe e canta sua própria música, disseminada por recônditos lugares e conservada a autoria quase sempre no anonimato.
João Ribeiro, historiador, define a gente do médio São Francisco e seu papel histórico-geográfico: "...excluído o mar, caminho de todas as civilizações, o grande caminho da civilização brasileira é o rio São Francisco; é nas suas cabeceiras que as grandes bandeiras, e daí se expande e ondula a impulso das minas, é no seu curso médio e interior que se expande e propaga o impulso da criação, os dois máximos fatores de povoamento".
Ali, usos e costumes, tradições, mitos e lendas, hábitos e linguagens são próprios. Ali se chocaram as ondas mais intensas da conquista do interior mineiro e que contribuíram para forjar o tipo humano muito especial que habita a região. Marcelo é um exemplar típico da gente das barrancas, com todas as motivações e sonhos, não submisso às decepções do tempo e do espaço.


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Por Manoel Hygino - 12/12/2011 09:28:46
O sistema prisional

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

No último domingo de novembro, em minha cidade natal, registraram-se mais duas execuções de seres humanos, graças ao que Montes Claros alcançou gloriosamente a marca de cem assassinatos em 2011. Mas ainda havia mais de um mês à frente, de modo que novas mortes poderiam ser perpetradas.
Montes Claros é um retrato do Brasil, interiorano ou não. No caso, foram execuções sumárias, pode-se dizer, inclusive com disparos no tórax e cabeça. Usaram-se motos, como sói acontecer comumente nos últimos tempos e os assassinos já tinham passagens pela polícia.
Ainda no campo de criminalidade, há de anotar-se a decisão do Ministério da Justiça de rescindir 29% dos contratos entre União e Estados para construção de presídios, que nunca saíram do papel. Preste-se atenção. Havia recurso específico, contratos assinados, mas se resolveu voltar atrás. Evidentemente não seria pela excesso de vagas no sistema prisional. Talvez porque decisões tomadas legalmente permitem que autores de delitos têm condições de estarem soltos. Bom para os criminosos!
No caso dos presídios que ficaram só no papel, há de lembrar-se que, a partir de agora, o Departamento Penitenciário Nacional irá agir para reaver os R$ 160 milhões já na conta dos Estados ou parados na Caixa. Quem sabe poderiam ser utilizados nas obras da Copa?
Os contratos em questão foram assinados entre 2005 e 2010, embora existam outros nove, do total de 38, passíveis de perderem validade. A notícia dos jornais informam que o Ministério vai rever todos os projetos de prisões especializadas em jovens adultos, programa que até agora não prosperou. O leitor acompanha a onda de crimes que se consumam diariamente praticados por esses "jovens adultos".
Entanto, o presidente do Supremo, ministro César Peluso, que também preside o Conselho Nacional de Justiça, anunciou para o próximo ano a criação do Banco Nacional de Mandados de Prisão. Nele se encontrarão o nome de todos os presos do país e a situação de cumprimento das respectivas penas.
Um excelente feito. A partir do próximo exercício, os cidadãos terão acesso ao site do Conselho da Justiça na internet. Curiosamente, o ministro elogiou a União por destinar mais recursos para o sistema prisional. S. Exa. defende o repasse direto para os Estados, evitando excesso de burocracia.
São dados surrealistas. Ou seja: rescindem-se contratos para construção de novos presídios e, quase simultaneamente, se direcionam verbas para o sistema prisional.
A verdade verdadeira é que há uma situação extremamente grave no sistema, com juízes e delegados de polícia sem saber que caminho tomar, para melhor atender às necessidades públicas.
Minas Gerais tem presentemente 47.898 presos e somente 31.194 vagas nas penitenciárias. Há detidos aguardando julgamento, cadeias superlotadas e muitos milhares de criminosos soltos nas ruas. Fazer o quê?


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Por Manoel Hygino - 2/12/2011 10:50:10
Dezembro chegou

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Fui visitar a menina de quase 18 anos num leito de CTI. Linda entre a mãe e enfermeiras, sorria porque talvez acreditasse ainda em poder viver mais e concretizar os sonhos de quem tem essa idade mágica.
Partiu para a viagem inexorável, mas deixou marcas de sua generosa existência em escritos que não se perderam, porque os pais quiseram que as "Memórias" de Joyce Mayra Simões Alkimim fossem publicadas, como foram.
Quase ao fim do volume, a menina-moça confessa viver no mundo da fantasia, ser sonhadora. "Não gosto da realidade, sei que uma hora o sonho vai acabar, por isso prefiro não acordar deste sonho de aqui estar". Mas é cruel a vida e o sonho se esvaírem.
Lembro os fatos neste dezembro finalizante. Isso quer dizer que o Natal também se aproxima e, a despeito de sua comercialização e lamentável banalização, traz consigo mensagens de esperança e de uma luz ao tempo tormentoso que atravessamos.
Nos meus papéis, localizo a sempre bela expressão de sentimento de Paulo Narciso em seu escritos. Ele medita sobre a situação presente: "Não há São Francisco de Assis para tanta hipocrisia, e coisas mais. O desmanche é geral e intenso."
Refere-se a Chico Xavier e seus 470 livros. "Coisas assim, simples e estupendas, que deveríamos saber e não sabemos."...a morte é questão de sequências nos serviços da Natureza" - a matéria é força coagulada"..." o pensamento que tudo cria, renova e destrói para refazer"..."ninguém está só"...a vida é força divina que marcha para diante".
E, com um abraço de começo de ano e recomeço, formula votos de "um Natal dos nossos, com Pastorinhas, Brilho de Estrelas, Luares, Vaga-lumes na Escuridão, Harmonias, Noites Antiquíssimas.
O menino incomum vai renascer, e o soterramos de mercadorias inúteis em forma de presentes e mimos, em tudo contrários ao que ele veio dizer. É o menos falado na festa que é Sua", o que se há de lastimar e deplorar, mas "ótimo que o Menino não se importe. (Leu o criador de Rebanhos, de Fernando Pessoa, quando fala do Menino Jesus? Em Portugal, vi a cômoda onde o poeta deitou o poema, de uma golfada, 40 e tantas poesias a fio... no que chamou de Dia Triunfal - vale ler a carta que escreveu a Casais Monteiro?). Mas a quem não leu a peça de Pessoa, nem viu a cômoda que a abrigou, cabe refletir sobre a beleza que há nas pessoas que vêm a praticar o bem e distribuir um pouco do que é bom, justo e puro aos que dividem o espaço terrestre na hora das incertezas ou das cruéis certezas como as que nos abalam.
Havendo amor, existe esperança, sem os quais - amor e esperança - não sobrevive o homem em integridade. Sabe-se que não se encontram em exposição e à venda nos estabelecimentos comerciais esses singulares ingredientes da vida e sem os quais não vale a pena, nem se justificaria a transitória passagem por aqui.
Penso assim, agora que o tempo do nascimento de um raro ser se acerca e merece comemoração. Mesmo os que não creem, sabem da importância do seu papel no mundo em permanente ebulição.
Reflitamos sobre ideias, agora que dezembro está chegando. Nada a perder, antes pelo contrário, ingressamos no último mês do ano com paz no coração e felizes expectativas.


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Por Manoel Hygino - 30/11/2011 10:20:38
No alto da montanha

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Lúcio Bemquerer me expôs pessoalmente o projeto de seu Presépio Natural Mão de Deus, que está implantando na prodigiosa Grão Mogol, "lugar onde reina a paz e o silêncio", na definição do jornalista e escritor Alberto Sena. E, pelo que soube através da imprensa, a inauguração se dará em 9 de dezembro, com o que o Brasil passará a contar com o maior presépio natural a céu aberto do mundo, com 3.600 metros quadrados.
O empresário Lúcio, economista e sociólogo, ex-diretor de prestigiosa revista, é antes de tudo um idealista e realizador, ex-presidente da Associação Comercial de Minas. Deixou a capital, instalou-se na cidade natal, onde identificou condições para um empreendimento turístico valioso. Na paisagem única de Grão Mogol, em que a igreja paroquial foi construída de pedra, os muros, tudo pedra sobre pedra, como consignou o escritor Haroldo Lívio.
Ele diz que, protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra. Os muros divisores das propriedades foram levantados pelo trabalho sofrido de escravos. E em cada um deles deve ter ficado uma gota de sangue, assinalando o martírio dos cativos.
As figuras dos personagens da saga natalina terão até dois metros e meio de altura e estão sendo confeccionadas na Região Metropolitana de Belo Horizonte pelo artista Antônio da Silva Reis. Confessa: "Me concentro muito para dar a feição a cada imagem. Peço inspiração a Deus para ser fiel à época do nascimento de Cristo". Depois de tudo pronto, o desafio será levar as pesadas obras por 600 quilômetros de estrada até seu destino.
Haroldo Lívio, em livro, denominou Grão Mogol de cidade-presépio e Lúcio Bemquerer deve ter assimilado a proposta, completando em lugar privilegiado a obra da natureza. O homem acrescenta agora outros instrumentos de desenvolvimento, como um hotel de três estrelas e uma hospedaria para peregrinos.
Sirvo-me das palavras do escritor. Enquanto permanecer quieta e desconhecida do mundo, confinada nos alcantis da cordilheira, em sua existência desambiciosa, Grão Mogol continuará um paraíso terreal de poucos eleitos. Mas, pelo que se constata, está mudando e, logo, será outra.
A simplicidade da região, a imponência pétrea, a construção do presépio, ficarão disponibilizadas aos que apreciam a beleza, e nada será comparável entre nós ao conjunto que ali se ergueu.
O lugar, de onde partiam os bandeirantes em busca das riqueza da Serra Resplandecente ou as tropas de muares prenhes de ouro e gemas para atrair olhares invejosos nas capitais europeias, vai tomar vulto, mais uma vez. Quando os minerais preciosos acabaram, chegou a ter apenas mil almas.
Presentemente, tem 15 mil almas, vai abrigar muito mais gente. Lá, também, estará a usina de Irapé no Jequitinhonha, cuja barragem será a mais alta do Brasil e uma das mais altas do planeta. Para se ter ideia do que virá, acaba de ser produzido o DVD sobre a história do município, iniciativa do MinC, de que falo depois.


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Por Manoel Hygino - 28/11/2011 11:33:42
Personagem de Darcy

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

O amigo e confrade Danilo Gomes, da Academia Mineira de Letras, poeta, cronista, marianense de quatro costados, nos princípio deste ano, me enviou página inteira do "Correio Braziliense" sobre Darcy Ribeiro, um cidadão brasileiro que não se esquece. Pois o filho de Dona Fininha foi focalizado também em sua terra natal por Wanderlino Arruda, que discorreu sobre ele na galeria Felicidade Patrocínio, em uma "conversa" de duas horas e meia, segundo Mara Narciso, jornalista e médica.
Segundo Mara, Wanderlino "desnudou Darcy", o que é altamente perigoso. Os antigos tinham medo ou faziam de conta que estigmatizavam o nu. Mas Darcy surgiu pessoalmente, despido, ou através de um de seus personagens, no romance "O Mulo", incessante objeto de discussão. O expositor afirmou que o cerne da história é o tio do autor, Filomeno Ribeiro, que eu conheci em tardes calorentas sentado à porta de sua casa no centro da cidade, de terno branco, sob calor intenso.
O personagem do livro tem algo de Filomeno, coronel de fato, rico, nome de cinema na cidade e antigo chefe rural. Só que na ficção do Fundador da UnB, a história se passa em Goiás, perto de Brasília, anos 60. Costumes dos moradores de Montes Claros e do lugar do personagem do romance são semelhantes, no que já está identificado pelo escritor Alaor Barbosa, nascido em Morrinhos, GO.
O goiano do romance é Philo-gônio Castro Maya, nascido sem pai, mãe ou nome. Ganhando idade, foi curador de bicheiras, piolho de soldado, muleiro, tropeiro e fazendeiro. Darcy transformou em prosa alguns versos que fizera, mudando apenas a disposição das frases.
"O mulo" é um romance corajoso e, como sói acontecer em outros congêneres, nele não se sabe distinguir a realidade da ficção. Seu Filó tinha comportamento contrário ao de Darcy em relação aos negros, no que foi prejudicado politicamente. Em compensação, os de cor o chamavam de mulo, embora as muitas mulheres que percorreram sua vida.
Entanto, há de se dar a versão de que o mulo poderia ser o próprio educador e escritor, porque tampouco deixou descendência. Aliás, a questão do sexo aparece desde a infância ou adolescência do personagem de modo não suficientemente claro, mas se admitindo que a iniciação costumava acontecer com animais no interior do país.
Ao fim da leitura, permanecem as dúvidas sobre o polêmico personagem que Darcy descreve. Até onde a ficção, até onde a realidade? De todo modo, o tema é instigante, como Fhilogênio Castro Maya, cujo primeiro nome lembra indesviavelmente o coronel norte-mineiro, uma figura singular na vida política e social de sua cidade.
Ao término da existência terrena, Castro Maya começou a se preocupar com Deus e a tentar chantageá-lo, segundo Mara, prometendo deixar tudo que tinha à paróquia, conforme confessava ao cura local, seu confessor, a quem tratava de "seu" padre ou "meu" padre.
Para as noites cálidas do sertão mineiro, a longa palestra de Wanderlino Arruda serviu para apresentar Philogônio e advertir para a personagem real, isto é, Darcy Ribeiro, que viveu entre índios parte do tempo entre nós, nunca se apegou a bens pessoais, sofreu câncer, fugiu do hospital, mas tinha uma casa em frente ao mar no Rio de Janeiro, longe de filhos que não teve.


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Por Manoel Hygino - 25/11/2011 10:35:00
A ameaça do crime

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Volto ao tema e repito temer o grandioso futuro do país. Não são tão boas como se esperaria as notícias de fatos que se renovam, em praticamente todos os setores da vida nacional. Muito especificamente me impressionam e me inquietam os que envolvem a segurança nacional, resultado de políticas sociais inadequadas à realidade brasileira durante longo tempo.
As organizações criminosas estão em plena atividade, a despeito das providências mais recentemente adotadas pelo poder público para combater o crime, que inclui o comércio de drogas em todo o território, a disputa pelo postos de vendas e perversas ramificações de negócios. Não se pode ser condescendente com malfeitores.
Tem plena razão o juiz de direito Isaías Caldeira Veloso quando adverte: "O governo não está dando a atenção ao combate desse câncer terrível, chamado crack, que está se alastrando e destruindo adolescentes e jovens nas pequenas cidades". E nas médias e grandes igualmente (digo-o eu), se bem que não se esperaria que às menores chegasse tão rapidamente.
O magistrado confessa: "Quase todos os dias sou procurado por mães desesperadas, que contam que sabem que os filhos viciados em crack vão morrer por causa da droga, pelas mãos de traficantes no mundo crime, pois roubam para sustentar o vício". Pior é que o mal se estendeu à zona rural de municípios pobres do Norte de Minas, possivelmente estimulado pelo baixo preço do produto.
A guerra pelo tráfico está declarada e todos os dias, em todos o país, há referência aos combates travados, à luz do sol ou no escuro da noite. Há esperança de sairmos da situação de incessante realidade de preocupação, medo e dor? O que se pode fazer? Em verdade, as gangues permanecem atentas, atuantes e poderosas, procurando ainda mais consolidar sua força e conquistar mercados. Estas organizações estariam financiando cursos superiores para que seus integrantes melhor se cuidem e mais avancem sobre os bens alheios, inclusive a honra, a saúde e a vida.
A sociedade está encurralada, prisioneira dos bandidos, entre os quais se incluem os agentes da lei desonestos, e que não são poucos. As afirmações do criminoso Nem, chefe do tráfico na Rocinha, foi recentemente peremptório e suficientemente claro: metade do que faturava com seu negócio hediondo (R$ 100 milhões por ano) era entregue a policiais, R$ 50 milhões, pois, e somente em uma favela!
Não pode subsistir euforia diante da calamidade que aí está e que vem custando a vida de inúmeros brasileiros. As vias públicas das cidades e agora as áreas rurais estão invadidas pelos marginais, que ali montaram seu rendoso e macabro esquema de ludibriar os incautos, aprisioná-los às drogas, destruir-lhes as virtudes e as possibilidades de realização em qualquer âmbito.
A corja se acha em plena ação e se locupletando, a despeito do êxito de ações policiais dignas e imprescindíveis. Mas há de ter-se cuidado. O Brasil não pode tornar-se um segundo México e, por sua extensão, por suas imensas fronteiras, corre o risco de transformar-se no maior empório de drogas do mundo, e elas vêm acompanhadas de terríveis outros males de natureza social e humana.
O próprio Marcola, um mestre do sistema criminoso, afirmou - não recentemente - que para vencer estas organizações só com arma nuclear. Será que teríamos de chegar a esse ponto?


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Por Manoel Hygino - 21/9/2011 08:35:39
De mocós e tatus

Manoel Hygino dos Santos - Jornal "Hoje em Dia"

Nas terras descobertas por Cabral, um almirante luso que apareceu por aqui em 1500, parece ser uma tragédia quando um cidadão é posto em algemas, embora não seja sem razões que isso aconteça aqui e alhures. Viu-se no caso do todo-poderoso Strauss-Kahn, antes virtual candidato à Presidência da França.
Não foi furto ou roubo, mas sob acusação de estupro de uma camareira em hotel em Nova York. A história depois se demonstrou não ser exatamente assim, mas, por via de dúvida, Dominique teve de aceitar as algemas e restringir-se à prisão domiciliar, afora o trancafiamento em prisão por tempo reduzido.
E o prisioneiro não dera desfalques, não assaltara bancos, não se apropriara por meios indevidos de dinheiros alheios. O diretor-geral do FMI fora acusado de assédio e violência sexual. Por aqui, se se põe algemas em alguém protegido pela fortuna ou pelo prestígio, é um deus-nos-acuda.
Lembraria caso de Onyango, 67 anos, meio-irmão do falecido pai do presidente Obama. O parente torto se encontra nos Estados Unidos como imigrante clandestino desde 1992 e possui uma ordem de deportação, ainda não cumprida. Nascido no Quênia, Onyango está em um centro de detenção para imigrantes ilegais. Não faz lembrar algo de Batisti, o italiano?
O meio-tio fora detido por uma patrulha rodoviária em Massachusetts, por dirigir alcoolizado. Obama não tomou a defesa do queniano, porque se trata de um problema de lei e o detento tem de ser tratado como qualquer outro caso em justiça.
Em 2010, uma tia de Obama, foi libertada de cumprir ordem de deportação, ao vencer na Justiça o direito de residir nos EUA. Tem de ser assim.
Os autores de falcatruas não se intimidam para perpetrá-las. Temos leis elásticas, que possibilitam a fuga, a evasão, a prisão domiciliar, como no caso do jornalista de São Paulo que assassinou a namorada e ficou anos em conforto doméstico. Quando se trata de algemas, ferem-se melindres e evocam-se os direitos humanos, mas elas não foram inventadas para proteger ou ocultar delinquentes. Ademais, cadeia não foi feita só para pobres.
No dia em que os criminosos forem realmente tratados como tal, a situação deve melhorar. Não seremos o país com os altos índices de violência como os ora registrados, não haverá assassinatos nas praças e vias públicas, nos lares invadidos, à porta dos bancos, essa ignominiosa briga de tribos, que se repetem nas maiores cidades.
No entanto, a política existe. Dois trabalhadores, sem passagem pela polícia - um lavrador de 45 anos e um motorista de 48 - foram presos no norte do Estado, quando andavam pelo mato com uma sacola plástica contendo carne, de quatro mocós e de um tatu.
Os cidadãos foram presos e levados à delegacia de polícia por "transporte ilegal de produtos oriundos de espécies da fauna nativa". É questão de lei e ela deve ser obedecida. O que não se pode esquecer é que o homem, o ser humano, pertence à fauna terrestre, não pode também ser morto com a frequência e a hediondez de nossos dias.


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Por Manoel Hygino - 2/9/2011 11:09:23
No meio do caminho

Manoel Hygino dos Santos

Neste meado de ano, já caminhando pelas vias do acaso, um extenso e intenso programa assinalou, em minha cidade natal, os 45 anos de fundação da Academia Montesclarense de Letras, sob a sóbria e sábia presidência de Yvonne Silveira. É claro que aqui faço um registro apenas, que começa pela notícia de abertura das comemorações, com o lançamento do segundo volume da Revista da Academia.
Em agosto, a doutora Ivana Ferrante Rabello fez palestra sobre "Grande Sertão: Veredas", a obra maior de Rosa; houve lançamento do livro "Sabenças e Crenças no Norte de Minas", da acadêmica e folclorista Clarice Sarmento; e posse dos neoacadêmicos José Jorge Nunes Silveira e Luiz Carlos Vieira Novais.
Para setembro, exibição de documentário sobre Antônio Dó, personagem mítica do sertão mineiro, produção realizada pelos universitários de Comunicação da Universidade Federal de Viçosa; homenagem aos fundadores do sodalício e lançamento do livro "Cantar de Amiga", da incansável acadêmica Yvonne Silveira.
Outubro marcará o lançamento do livro "De Pilão Arcado a Montes Claros", de Agnaldo Ribeiro de Souza e entrega do diploma de sócio benemérito à saudosa Dália Fróes; recital de poesias; palestra sobre "O Amanuense Belmiro", de Cyro dos Anjos, por Karla Celene Campos.
Em dezembro, lançamento do III volume da Antologia da Academia e lançamento de "Balangador de Rede" de Itamaury Teles; encerrando-se a programação em dezembro, que afinal já 2012 bate à porta, pedindo passagem.
A cidade em questão é um centro importante historicamente, não se cingindo sua significação ao âmbito econômico ou como berço de personalidades. Aliás de lá são dois membros da Academia Brasileira de Letras, Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, vultos eminentes de nossas letras, de nossa cultura e de nossa comunidade intelectual.
Para confirmar, a Prefeitura, por meio da Secretaria Municipal de Cultura e a Associação dos Grupos de Catopês, Marujos e caboclinhos promoveram, no oitavo mês, o 33º Festival Folclórico e a abertura das Festas de Agosto, uma tradição preservada com especial carinho, nesta época de fácil esquecimento.
Como escreveu o jornalista Paulo Narciso, em quem se enraízam os mais puros sentimentos de amor à cidade natal, ao sertão mineiro, à autenticidade de nossas fontes de cultura, em agosto também ali atracou a Nau Catarineta, desembarcando marujos, catopês e caboclinhos. Fincou-se o mastro de Nossa Senhora do Rosário, enquanto se puxou o Reinado, da Praça do Automóvel Clube (ou seja, a João Alves, em que se deu o entrevero de 6 de fevereiro de 1930), seguindo as participantes para o local de tradição, a igreja do Rosário, original.
Lastimavelmente, para não deixar de confirmar que agosto pode ser de mau agouro, um grupo de dançarinos quilombolas, que se dirigia para as Festas de Agosto, capotou várias vezes na região de Capitão Enéas. Pelo menos nove pessoas perderam a vida e o ensejo de assistir à mais tradicional festa folclórica do sertão mineiro. É muito triste.


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Por Manoel Hygino - 13/8/2011 04:04:28
O Poder Judiciário

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

O advogado e escritor Petrônio Braz, a que se devem valiosas obras no campo do Direito, da história e da ficção, em recente comentário levanta uma série de questões sobre o mundo, as nações e os governos. No período tumultuoso que vivemos, quando as economias balançam, a Grécia padece e o Norte da África e o Oriente Médio se dilaceram, em decorrência de graves problemas históricos, e com um imenso saldo de mortos e feridos, vale a pena analisar.
Uma das questões é a seguinte: "Seria a democracia, inventada pelos gregos, a melhor forma de governo, a ponto de ser imposta pela força a todos os povos? Os orientais viveram durante séculos sem democracia. Hoje, sem democracia, os chineses evoluem assustadoramente e os cubanos, há 50 anos, vivem sob regime outro e aparentam ser felizes." O articulista observa: "Não aprovo, contudo, a escravidão do povo".
Para Churchill, a democracia, embora plena de defeitos, ainda é o melhor sistema de governo. Mas se perguntaria: melhor para todos os povos e nações? Ou apenas para o mundo ocidental? Durante séculos e milênios, em muitos lugares do planeta se viveu sem ou fora da democracia.
E outra: o povo sabe efetivamente escolher os seus dirigentes? Ou como disse Pelé e outros confirmam: cada povo tem o governo que merece. São questões que merecem meditação para que se faça um juízo.
Para Petrônio Braz, a democracia no Brasil está criando gerações de governantes corruptos, sem garantir a segurança da população. Bem verdade que a situação decorre da própria falha nas leis, dos desvios que permitem, inclusive no que tange à equivocada utilização do voto pelos eleitores, influenciados por uma poderosa máquina de manipulação e por artifícios dos que bem sabem aproveitar de meios desonestos. Desonestos, mas legais.
Na definição clássica, atribuída a Aristóteles, democracia é o "governo do povo", ou seja, de todos os cidadãos, ou ainda de quem goza de cidadania, enquanto a democracia moderna impõe o estado de direito, baseado na soberania popular. Graças a isso, os cidadãos e grupos sociais tomam parte no processo de escolha dos governantes e disputam o poder político. Por meio da representação, os cidadãos participam, direta ou indiretamente, das estruturas de poder do Estado e dão contribuição nas decisões mais importantes para a coletividade.
Acontece, entre nós, contudo, que o cidadão praticamente se restringe a votar nos dias de pleito, deixando a partir daí que as decisões sejam tomadas por aqueles que escolheu, frequentemente de modo enganoso, por força da máquina eleitoral montada.
O modelo republicano de Estado baseia-se hoje na existência de três poderes independentes, que dividem as funções de governar, legislar e administrar a Justiça em três estruturas distintas. Ocorre que só Executivo e Legislativo são eleitos pelo povo. Assim, no raciocínio de Braz, poder-se-ia afirmar que o Judiciário não tem legitimidade, em uma democracia, para ser Poder; seria, sim, um órgão jurisdicional, subordinado a outro poder, "daí os abusos de autoridade, que geram prepotência, estabelecendo a ditadura do Poder Judiciário, num retorno ao "Roma locuta causa finita".


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Por Manoel Hygino - 5/8/2011 08:56:22
Valiosa reedição

Manoel Hygino dos Santos

No norte de Minas, sempre aqui lembrado por múltiplos e suficientes motivos, foi lançado, no último dia 25, a segunda edição de "Serrano de Pilão Arcado - A saga de Antônio Dó". Já me referi a esse romance de Petrônio Braz, um barranqueiro autêntico, fiel às origens e tradições, nascido em São Francisco, brilhante.
Quem formulou o convite para a noite de autógrafos, a que não compareci, como de meu feitio, foi o Rotary Clube Montes Claros Liberdade, sendo o ato no Centro Cultural, na histórica Praça da Matriz da maior cidade da região. A iniciativa, bom que o diga, mereceu apoio da Secretaria Municipal de Cultura de Montes Claros, da Academia Montesclarense de Letras, Academia de Letras, Ciências e Artes do São Francisco, Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, Ateliê Felicidade Patrocínio e livraria Saramandaia.
Dito e conforme o registro, manifesto alegria pela nova edição do livro: Best-seller, Série Ouro, referenciado pelo Atlas das Representações Literárias Brasileiras 2009 do IBGE, por sua representatividade na literatura do sertão brasileiro, indicado pelo Conselho Universitário como leitura obrigatória para o Vestibular da Unimontes 2011/2012.
Fico feliz, porque num país em que vivemos sob influência dominante do Eixo Rio/São Paulo aparecer um livro como o de Petrônio Braz em segunda edição já significa algo válido como referência. E o é, de fato.
Principalmente depois de Guimarães Rosa construir algum edifício literário que mantenha em alto nível as letras sobre o sertão mineiro se torna um desafio, de que Petrônio Braz garbosamente sai triunfante.
O autor focaliza aproximadamente um tema de Rosa, mas não o imita ou copia. Os personagens são homens e mulheres da mesma região, mas a história de Antônio Dó é rigorosamente histórica, embora envolvida pelas naturais semelhanças com a saga. E a palavra sagarana, aliás, significa ao jeito ou feitio de saga.
Nos personagens do genial ficcionista de Cordisburgo, tem-se de tentar descobrir quem foram os modelos, quem os teria sugerido, quem está por detrás dos fatos. Nem entro na questão de linguagem de Rosa, que é inigualável. Em Petrônio, com sua obra, tem-se a reconstituição da vida e das aventuras de um sertanejo verdadeiro, que muitos conheceram e de que há lembranças fortes na memória popular. A própria crônica da Polícia Militar do Estado poderá ser consultada para lançar luzes (ou mesmo pôr em dúvida) sobre circunstâncias da longa luta da PM contra Dó e seus homens.
É muito árduo rebelar-se contra os ditames editoriais de São Paulo e Rio de Janeiro, mas a segunda edição de "Serrano de Pilão Arcado" prova que é possível vencê-los e revelar à nação aquilo que, no caso de Euclides da Cunha, se manteve oculto durante séculos. É preciso superar a rígida ditadura dos dois maiores centros da vida cultural brasileira. Conseguiu-se uma vitória importante.


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Por Manoel Hygino - 1/8/2011 08:46:51
Construindo o sertão

Manoel Hygino dos Santos

No número de março da revista "Magiscultura", excelente coleção de artigos e ensaios, assinados por expressões de nossa cultura jurídica, e também de nossa inteligência, além do convidado especial Eduardo Almeida Reis sobre Abgar Renault, uma figura solar. Mas vou registrar a participação do magistrado, aposentado (até certo ponto) Luiz Carlos Biasutti sobre Antônio Lopo Montalvão.
Ora, perguntareis: De quem se trata?
É o nome de um desses brasileiros, com ascendência portuguesa, que - enfrentando toda sorte de obstáculos - decidiu construir um lugar para viver e lhe promover o progresso. Aconteceu na primeira metade do século 20, porque Montalvão nasceu no dia de Santo Antônio, 13 de junho, de 1917, numa fazenda do município de Manga. Construir é difícil, mais talvez do que navegar. Montalvão enfrentou inimigos, trocou tiros, na época das obras de Goiânia, em que trabalhou após sair do Estado natal. Na capital em erguimento de Goiás, deu-lhe o vezo e adquiriu a determinação de fazer algo semelhante na sua região.
Voltou para o Velho Chico, mas enfrentou a obstinação dos jagunços da família Ludovico, de Goiás, a qual pertencera a vítima da briga. Os vingadores tentavam assassiná-lo, teve de fugir para a Argentina, onde aprendeu, trabalhando numa livraria, espanhol e inglês.
Mais uma vez de regresso, acendeu-lhe a ideia de oferecer a seus conterrâneos, gente humilde do sertão, efetivas condições para desenvolver-se e à região. Contratou em Poções, município de Manga, um professor, a suas expensas, para ensinar a crianças e adolescentes. Tinha a certeza de que o cidadão começa a forjar-se na escola.
A política atraiu Montalvão em Manga, por considerar que seria um instrumento para concretização de seus sonhos e projetos para a região natal. Perdeu eleições em 1954, ganhou apertado no pleito seguinte, quatro anos depois. Passou a administrar um grande pedaço de Minas, compreendendo hoje Jaíba, Matias Cardoso, Miravânia, São João das Missões, Montalvânia, Juvenília e a própria Manga.
É uma longa história, que envolve encarniçada luta e ambições.
Mas em 22 de abril de 1952, Mon-talvão lançou a pedra fundamental da cidade que construiria para os sertanejos, quando não havia estrada, energia elétrica, telefone nem sonhar. Dez anos após, conseguiu ver aprovada a emancipação da "Cidade de Montalvânia", como dizia com orgulho.
Ele próprio desenhou em papel de embrulho, como lembra Biasutti, as praças e ruas da cidade, com avenidas largas e o local da igreja.
Nos anos 50, conheceu Antônio Lopo Montalvão defendendo suas ideias. Os logradouros públicos da sua cidade exibem nomes de filósofos, cientistas, religiosos, músicos, poetas e políticos. Em 1992, 30 anos após a emancipação da cidade, partiu, mas ainda esperava fazer mais por seu povo.


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Por Manoel Hygino - 24/7/2011 14:11:48
De botões e calçados

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Montes Claros, que tantas perspectivas oferece ao investidor, ganhará uma fábrica de calçados da Alpargatas, maior empresa no gênero em toda a América Latina. O anúncio foi feito publicamente e não irá gorar como no caso da indústria de automóveis alemã. Serão, no caso da manufatura de calçados, 144 milhões de reais em aplicações, com geração de 2.200 empregos diretos e mais três mil indiretos.
Injeta-se na economia local e regional mais do que dinheiro: uma nova onda de esperança no desenvolvimento do Norte deste Estado.
Leio que a nova planta (importamos a expressão inglesa) começa a ser construída em agosto, com início de operação no segundo semestre de 2012. Constitui novo detalhe a se comemorar, numa demonstração de que iniciativa privada é mais célere que o poder público.
Entrarão no comércio cerca de 100 milhões de pares de calçados, representando um aumento de 35% na produção atual do grupo empresarial, que atua em 85 países.
Ao redigir este texto, lembro que, há muitos anos, chefiando o gabinete do presidente da CDI - Companhia de Distritos Industriais de Minas Gerais, participei de uma reunião com a diretoria da empresa calçadista. Pareceu-me familiar o nome de um de seus diretores. Descobri, então, que se tratava de um filho do nosso romancista maior, ou seja, Cyro dos Anjos.
Acendeu-me a curiosidade agora, porque atrelei o nome do filho ao do avô, que se empenhou por uma indústria em Montes Claros do século passado, de que não encontrei registros na portentosa obra de Hermes de Paula.
O historiador maior relata a coragem dos industriais locais, que enfrentavam toda sorte de dificuldades, a partir da falta de energia elétrica nos séculos 19 e 20, em sua primeira metade. E tudo ficava muito distante: as máquinas para as indústrias vinham em carros de bois e em lombo de burro, através de longas e péssimas estradas.
O autor de "O amanuense Belmiro" relata as inquietações do pai, que - após a construção do ramal ferroviário persistentemente reivindicado pela população - desejava ardentemente implantar uma indústria na cidade. A fictícia Santana, segundo o visionário empreendedor, tinha vocação manufatureira. Possuíra, no século anterior, uma fábrica de tecidos, que, destruída num incêndio, se refizera, funcionando até fenecer, por dificuldade de escoamento da produção.
O romancista registrou: "A cidade queria tornar-se a Manchester do Norte de Minas, como Juiz de Fora se fizera a do Sul. Não havia de limitar-se à pecuária e à lavoura, atividades principais". A fábrica de calçados de agora é uma continuação da de botões de meados dos anos 20 de um século que não morreu?
Montes Claros de hoje já dispõe da infraestrutura indispensável ao seu desenvolvimento. Há de crescer mais do que demograficamente; daí, o ressurgimento de expectativas de sua gente, que precisa de novas oportunidades de trabalho.
Assim seja!


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Por Manoel Hygino - 16/7/2011 10:12:06
O rei do cangaço

Manoel Hygino dos Santos

O fenômeno do cangaço ainda não foi, acho eu, examinado à luz das modernas ideias de guerra irregular que Alessandro Visacro examina em livro recente da Editora Concreto. Ele fala de terrorismo, guerrilha e movimentos de resistência ao longo da história. O autor deseja que seu trabalho sirva de instrumento para reflexão, e isso conseguiu.
Na prática, "guerra irregular é todo conflito conduzido por uma força que não dispõe de organização militar formal e, sobretudo, de legitimidade jurídica institucional. Ou seja, é a guerra travada por uma força não regular. Esse conceito pode parecer excessivamente abrangente e vago, mas é, apenas, simples". É o caso do cangaço.
O Brasil sofreu intensamente a efervescência no Nordeste, desde o Império. O fenômeno Antônio Conselheiro é apenas um. Em 1920, o país tinha 27 milhões de habitantes, a exportação não alcançara 1 milhão de toneladas. O elemento fundamental da superioridade agrícola era o latifúndio. Terminada a primeira grande guerra, irrompe a crise mundial que afetará as estruturas econômicas dependentes, e o Brasil estava entre eles. Em 1922, explodia o tenentismo.
A expressão máxima do poder do latifúndio reside na capacidade de recrutar e manter forças armadas, além das polícias estaduais. Nélson Werneck Sodré comenta que os coronéis mantêm tropas para afirmação de força. Surgem as ligas operárias nos centros importantes e o cangaço no Nordeste carente. Em meio a tudo, a Coluna Prestes.
Cangaceiros, jagunços e outros indivíduos chegam a associar aos governos e latifundiários contra os homens de Prestes. A nação em estado de sítio. Em "Lampião e o Estado-Maior do Cangaço", de Hilário Lucetti e Magérbio de Lucena, analisado com excelência por Enéas Athanásio, crítico conceituado de Santa Catarina e uma de suas expressões maiores, mostra-se "o ambiente sócio-econômico e político que permitiu o exercício dessa forma de banditismo". Enéas observa que a sobrevivência do cangaço encontra também explicação no apoio das populações rurais das regiões onde se desenrolava; apoio mesmo por medo, diria eu.
Em 1938, a pobre mídia da época informava que Lampião fora morto numa emboscada das forças estaduais na gruta de Angicos, em Sergipe. Sua cabeça e a de Maria Bonita, sua companheira, foram cortadas e, anos depois, as vi no Instituto Nina Rodrigues, em Salvador.
Mas o assunto não se encerrava. Em Brasília, em 2009 lançava-se o livro "Lampião, o Invencível: duas vidas e duas mortes", pela Thesaurus Editora, de Geraldo Aguiar, em que se defende a tese, com farta documentação, inclusive testemunhal, de que Lampião, o capitão Virgulino, não morreu na emboscada. Ele fugira antes e viera a residir em cidades norte-mineiras, usando nomes falsos, falecendo finalmente na cidade de São Francisco, onde viveu como Antônio Maria da Consolação ou João Teixeira Lima. O mito persiste. Geraldo Aguiar faleceu em maio último. Mas como Tagore Alegria, da Thesaurus, me conseguiu seu livro, voltarei ao tema.


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Por Manoel Hygino - 15/7/2011 07:39:33
Mourão vê Cyro

Manoel Hygino dos Santos

Quando do centenário da Academia Mineira de Letras, seu presidente Murilo Badaró incumbiu-me de elaborar o prefácio de "O Amanuense Belmiro", que seria reeditado pelo sodalício. Fazia-o por integrar eu a Casa de Alphonsus e de Vivaldi Moreira e, ainda, por ser conterrâneo do grande ficcionista que Montes Claros deu ao Brasil: Cyro dos Anjos.
Coincidentemente, na mesma época fui escolhido para participar de um documentário sobre Cyro, que sequer cheguei a conhecer pessoalmente, mas de quem recebera pequenas cartas em que recordava a nossa cidade natal, de que nos encontrávamos afastados, por circunstâncias da vida.
Este ano, em sua edição de janeiro/fevereiro, o Suplemento Literário de Minas Gerais inseriu um ensaio de Rui Mourão sob título "Cyro dos Anjos e o Amanuense Belmiro", contendo uma preciosa análise do romance. Mourão, diretor do Museu da Inconfidência e membro da Academia Mineira de Letras, teve oportunidade de conviver com Cyro, quando ele coordenava o Tronco de Letras, enquanto o próprio ensaísta dava aulas no Setor de Literatura Brasileira na UNB.
No percurso entre as quadras 306 e 305 em que vendiam, conversavam sobre quaisquer assuntos, como o passado em Minas, as perplexidades do trabalho no campus da Universidade de Brasília, literatura e escritores.
Conta Rui Mourão: "O humor sarcástico que em particular se desenrustia, a malícia na contemplação de espetáculos pouco meritórios da condição humana, a agudeza de observação e de análise conferiam riqueza e exuberância aos desempenhos do grande conversador".
Do ponto de vista crítico, o ensaio de Rui Mourão melhor se prestaria a servir de prefácio à republica-ção que do romance fez a nossa Academia. Nem faltam mérito e habilitações para fazê-lo o confrade à altura de sua competência e da grandeza do romance do escritor focalizado.
Não se dissociará agora o teor do comentário de Mourão da criação de Cyro dos Anjos, incontestavelmente um dos maiores autores do Brasil no século passado, construindo o nosso regionalismo, enquanto os nordestinos cuidavam do seu. "O Amanuense Belmiro" não pode ser considerada uma obra do passado, porque constitui o retrato fiel de um tempo e de um pretérito que permanecem muito presentes em todos os que se cruzaram por aqui, então.
O personagem e o autor se confundem em muitos episódios e pensamentos. Aliás, sabe-se que Cyro, quando da preparação para o seu "A menina do sobrado", pôs-se em dúvida, se faria como ficção ou como projeto memorialístico. Tirou a sorte para decidir-se. No entanto, mesmo em "A menina...", há muito de ficção e de realidade. O autor jamais conseguiu desvencilhar-se em passar ao papel o que havia dentro de si, de fato e de imaginação. Restou, ao final, uma grande construção.
O que se há de esperar é que as novas gerações apreciem e admirem o romance como merece, numa época em que o próprio substantivo "amanuense" se acha esquecido na linguagem cotidiana.


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Por Manoel Hygino - 1/7/2011 11:15:25
Tempo de tropelia

Manoel Hygino dos Santos

Os velhos jagunços não teriam mais hora e vez. As patas de seus cavalos foram substituídas pelas rodas das motos e dos carros, que oferecem mais velocidade que os quadrúpedes das quadrilhas que inquietaram o Brasil no século passado. Lampião é fichinha diante dos novos criminosos, motorizados, armados e municiados, com know-how de dar inveja.
As máquinas de duas rodas prejudicam não apenas os motoristas de um modo geral, serpenteando perigosamente entre os automóveis, caminhões e pedestres, nas ruas das cidades. Mais do que isso, são o veículo ideal para assaltos a estabelecimentos bancários, comerciais, principalmente aos postos de combustíveis. Os proprietários destes e as autoridades recomendam: não reajam, para não perder a vida. Um modo simples de resolver a questão sempre agravada. Umas das causas principais, ou a fundamental, a droga, cujo comércio e produção supera à de muitas outras atividades, principalmente, as lícitas. Em minha cidade natal, segundo o jornalista Ernesto Braga, 70% dos assaltos à mão armada são praticados com a duas rodas movida a gasolina. São mais de 50 mil desses veículos e mais de 50 mortos, já atingindo 60, este ano. A epidemia, gravíssima, abrange todo o território nacional, os agentes da lei se empenham com vigor, mas o mal já se estendera demais. Com leniência, não se resolve. Em Maracás e Planaltino, cidades baianas, há toque de recolher, decretado pelo juiz de direito. Depois de certa hora, como em outros municípios brasileiros, menores não podem mais circular pelas vias públicas, a não ser acompanhados. Objetivo: impedir envolvimento em atos infracionais, como consumo de entorpecentes e a prostituição. Na maior cidade do norte de Minas, monta-se uma força-tarefa contra as drogas. Mas as quadrilhas estão bem preparadas para a guerra, dispondo de espingardas, fuzis, metralhadoras, coletes à prova de balas. E toucas ninja, luvas e rádio comunicadores, para captar as frequências policiais.
O Norte de Minas já pertenceu a capitanias de Pernambuco e Bahia. E, no ambiente descrito por Euclides da Cunha e outros bons autores regionalistas, mantém-se o clima de inquietação e violência, agora se utilizando recursos modernos para ações criminosas. Em 30 de maio, 15 homens armados, à moda de Lampião e seus jagunços, invadiram a cidade de Ibiassucê, na Bahia, levando pânico. O grupo de cerca de 15 homens promoveu uma onda de assaltos ao comércio e postos bancários, para depois fugir em seus carros, agredindo pessoas e atirando para o alto, como se estivessem na época da conquista do oeste do Estados Unidos ou recuassem ao tempo da jagunçada. Vê-se daí que o nosso desenvolvimento não é tão completo como se pensa e se propala. No caso em questão, os bandidos levaram como reféns os dois soldados que trabalhavam e nada puderam fazer para impedí-los. Dias antes, dois bandidos usaram dinamite para explodir uma agência bancária em Sátiro Dias, também Bahia, e usaram reféns como escudo humano para atacar, a tiros, a delegacia de polícia. Este é o Brasil do século 21, vivido em meio ao foguetório de políticos alienados da realidade nacional.


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Por Manoel Hygino - 24/6/2011 10:06:52
Morte sobre rodas

Manoel Hygino dos Santos

Conterrâneo residente em Londres anotou que, no ano passado, houve 125 assassinatos na capital britânica. Dos casos, somente dois não foram resolvidos pela polícia, o que demonstra a eficiência da autoridade, a despeito da criminosa execução do brasileiro Jean Charles, confundido com um terrorista. Norte-americanos e europeus já vivem estado de pavor por possíveis ataques de grupos ou indivíduos fanáticos procedentes principalmente da Ásia ou norte da África.
Marden Carvalho raciocina que, obedecidos os parâmetros da Organização Mundial de Saúde, a nossa cidade Montes Claros, lá no Norte de Minas, deveria encerrar este ano com 37 homicídios. No entanto, já ultrapassou a marca de 53 assassinatos em 2011, um índice indesejável e demonstrador do grau de violência na cidade.
Não é fato isolado no mundo, embora não nos console o quadro geral. Para a Organização dos Estados Americanos, o continente americano é a região mais violenta do planeta, com uma pessoa morta a cada quatro minutos. Adam Blackwell, ao apresentar relatório da Secretaria de Segurança Multimensional da OEA, comentou ao falar à imprensa: "Desde que comecei a falar, aconteceu pelo menos um homicídio doloso e, quando eu acabar, terão ocorrido entre oito e dez".
Blackwell observou que há numerosos fatores que influenciam a situação vivenciada: "A desigualdade, a pobreza, a educação", por exemplo. Os números indicam que "é preciso buscar melhores soluções". Isto é, voltamos ao que sempre fomos, ultimamente, procurávamos esconder, até irresponsavelmente.
Sobram: desigualdade, pobreza. Faltam: segurança, educação e violência. Se minha cidade natal tivesse as dimensões de Londres, com 8 milhões de habitantes, somariam 1.105 pessoas assassinadas só na metade deste 2011, de tantas ebulições vulcânicas, inclusive na América Latina.
Sensatamente, o diretor do Denatran, Orlando Moreira, sugere restringir-se a circulação de motocicletas como forma de diminuir o número de acidentes no Brasil. Segundo a OMS, 20% das mortes de trânsito no Brasil atingem condutores ou passageiros de motocicletas. Aliás, não é só isso. Grande parte dos homicídios presentemente é produzido por passageiros ou condutores de motocicletas. Deve existir estatística a respeito.
Que se há de fazer? O governo no último ano incentivou exdruxulamente a fabricação e venda de veículos, de duas e quatro rodas. Era preciso fazer de conta que a felicidade e a prosperidade circulavam sobre pneus. Agora, o que fazer?
Outro dado: pesquisa da USP revelou que o trânsito aqui é muito mais perigoso do que em países desenvolvidos. Em relação à Suécia o índice de mortes no Brasil por bilhão de quilômetros percorridos é uma dúzia de vezes maior. O indicador considerou o tamanho da frota e da população, mas também a distância média percorrida.
O estudo confirma a relação entre desenvolvimento econômico e acidentes nas ruas e rodovias. Quanto maior o PIB per capita, menor o risco de morte no volante.


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Por Manoel Hygino - 18/6/2011 09:01:02
Presépio ao norte

Manoel Hygino dos Santos

Fascinou-me Grão Mogol tão logo conheci a descrição que da cidade fez o advogado e escritor Haroldo Lívio: incrustada no regaço da Cordilheira do Espinhaço, é pedra, é cristal, é diamante. "A igreja paroquial, de pedra construída, os muros de pedras, as ladeiras cansadas, é tudo feito de pedra sobre pedra. As serras penhascosas são cristais ponteagudos, rolam ouro e diamante nas águas escuras dos ribeirões: Protegida por agressivas muralhas rochosas da Serra Geral e fundada sobre bacia mineral, a cidade alterosa é uma fortaleza de pedra".
Os veios diamantíferos se esgotaram. O lugar parou no tempo, minguou. O quase esquecimento pode ser causa da paz e da segurança reinantes, como depôs Alberto Sena em duas excelentes crônicas. O cronista diz, o burgo possui de tudo um pouco, conservando tradições imunes à voracidade do tempo e a ganância dos que só querem ter, ao invés de ser.
Lá, como no Quartel de Abrantes: tudo como dantes. Cidade limpa, sem lixo na rua, lixeiras disseminadas pelas vias, todas as casas pintadas, sem favelas, caixas d`água azuis e cobertas, crianças não perambulando, todas estudam. O hospital propicia assistência a tempo e a hora, o posto de saúde funciona com eficiência.
No mais, igreja e capela com paredes de pedras construídas pelos escravos. Ar puro, água límpida; as pessoas se conhecem e se compreendem, clima europeu, não tão perto ou tão distante dos grandes centros, com seus tantos desvios e vícios.
E tudo fica pedra e mais pedra, e sobre elas se constrói um adorável canto para viver e meditar. E há muito o que meditar, o que tanto falta aos homens nos inquietos dias presentes, em centros urbanos avantajados. Sob muitos aspectos, melhor do que Passárgada, invenção de poeta, solteiro, com outras visões e perspectivas do mundo.
Por não ser bobo, por conhecer a sua patriazinha sertaneja e empedrada, Lúcio Bemquerer decidiu retornar, depois de duas dezenas de anos distante. Economista, fundador de uma revista de prestígio "Encontro", presidente da Associação Comercial de Minas com o êxito de duas gestões, empresário de reconhecida competência e idoneidade acima de qualquer suspeita, dirigente classista cogitado até para ser prefeito de Belo Horizonte, definiu-se. Acompanhado da esposa Wilma, pôs pé de volta na estrada, regressou à pétrea terra em que nasceu.
Reformou uma casa colonial, instalou-se com a companheira, certo de que o presépio natural de Minas serve para viver bem, não somente para nascer, como há mais de dois mil anos atrás na recôndita Palestina.
Bem-querendo e bem-querido, Lúcio deu nome à criação que fez em parceria com Deus. Em Grão Mogol, há hoje o presépio Mãos de Deus, cujas vias de acesso a visitantes o idealista está abrindo sobre e entre pedras, num lugarejo de extasiar as pessoas de sentimento. Mais do que navegar, meditar é preciso, convenceu-se. E sítio algum no mundo seria melhor do que aquele, de que se extraíram os minerais mais preciosos, em tempos pretéritos.
A cidade não espera milagres; ela própria já o é. Sua gente é boa e hospitaleira, não precisará de perambular em busca de um abrigo para a noite, como aconteceu com José e Maria, como está nos documentos bíblicos.


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Por Manoel Hygino - 11/6/2011 11:44:19
A justiça social

Manoel Hygino dos Santos -Hoje em Dia

Vou lendo os jornais. O Índice Global da Paz, divulgado pelo Instituto de Economia e Paz na segunda quinzena de maio, revela o Brasil na 74ª posição entre 153 países, entre os mais pacíficos do mundo. Está, pois, nove posições acima em relação ao ano de 2010.
Mesmo assim, nosso país está anda atrás do Egito, Nicarágua, Marrocos e Tunísia, que recentemente registraram revoltas populares, acompanhadas, sobretudo, pelas imagens da televisão. Vê-se que não há muito do que se ufanar, embora sem guerras e rebeliões sangrentas.
Entre as nações latinas, o Brasil se acha em nono lugar, enquanto o Uruguai, durante décadas considerado a Suíça das Américas, se encontra em primeiro lugar como o mais tranquilo da região, pelo segundo ano consecutivo.
Há de ressaltar-se que o mundo se encontra menos pacífico pelo terceiro ano consecutivo e o recrudescimento da violência causou um impacto de mais de 8,12 trilhões de dólares na economia mundial no ano que passou.
Seria por causa dessa situação vivenciada pelo Brasil que a cultura do empreendedorismo está abaixo da média mundial, segundo pesquisa realizada em 24 países? Porque, em verdade vos digo, que a tranquilidade não habita este país abençoado por Deus, como deveria.
As cidades brasileiras e os campos se acham em ansiosa expectativa. Não se pode dizer que há felicidade num país em que existe miséria, em que os empresários dos mais variados crimes, inclusive da droga, encontram-se soltos e agindo sob as vistas das autoridades, impotentes para enfrentá-los, até pela avalanche das leis, interpretadas frequentemente pelos seus aplicadores no interesse dos que as infringem.
Agendou-se para junho o lançamento do programa "Brasil sem Miséria" pela presidente da República. Admite-se que há 16,2 milhões de pessoas que vivem abaixo da linha da pobreza. Isto é, não vivem exatamente. São homens e mulheres não identificados sequer pelo Bolsa Família, com o qual se pretendeu amenizar a tortura de viver quase sem condições de sobrevivência, embora a afirmação seja algo polêmica. Esses miseráveis não têm acesso a serviços básicos como água, esgoto, saúde, educação, emprego e habitação.
Por mais que se queira impressionar o eleitorado, por maior que seja a evolução da renda nacional, por mais que se exalte a transposição de faixas de brasileiros para um patamar econômico mais alto, a verdade verdadeira é que temos de muito fazer para que a justiça social não seja apenas mais uma expressão útil na televisão, nos discursos parlamentares ou nos rareantes comícios.
Não custa verificar que, no momento em que se pensa institucionalizar uma campanha contra a miséria, a maior cidade do Brasil é apontada pela revista "Forbes" como a de maior concentração de bilionários do país situando-se em sexto lugar no mundo.
Esses 21 cidadãos do topo da pirâmide econômica possuem patrimônio estimado em US$ 85 bilhões, residem em São Paulo, que está à frente de Los Angeles, a oitava. Dá o que pensar.


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Por Manoel Hygino - 27/5/2011 07:58:00
Revoltas de fome

Manoel Hygino dos Santos (Hoje em Dia)

Focalizei aqui, mais de uma vez, o que se preconizava: o norte mineiro se desertifica, o que evidentemente não é de hoje, confirmando o desinteresse do poder público e de sucessivos governos por uma das ricas e extensas regiões do país. O que afirmei, e os técnicos já advertiam, agora se confirma.
Em estudo encomendado pelo Ministério do Meio Ambiente ao governo mineiro, exposto por jornal paulista, revela que um terço do território mineiro pode virar deserto em 20 anos. Assim serão o norte do Estado, o Vale do Jequitinhonha e o Vale do Mucuri. O fenômeno decorre da monocultura, da pecuária intensiva, do desmatamento e das condições climáticas adversas que sofre o solo de 142 municípios.
E ainda: se nada for feito para interromper e reverter o processo, essas terras não terão mais uso econômico e social, afetando 20% da população, ou seja, 2,2 milhões de pessoas. É necessário R$ 1,3 bilhão para conter a situação, que já causa danos sentidos e notórios.
Esse fato se inclui e se alinha a outros que deveriam merecer efetiva atenção. As autoridades não podem dizer que os desconhecem. A própria Agência Nacional das Águas, um organismo oficial, divulgou em março que o Brasil, dono da maior bacia hidrográfica do planeta, pode enfrentar problemas de abastecimento. A agência crê que se o Brasil não investir 22,2 bilhões de reais na captação e coleta de água até 2015, pode faltar o líquido essencial à vida em 55% dos municípios do país, ou seja 3.069 do total.
Técnicos observam que os municípios sob risco representam 73% da demanda de água do país inteiro. Desse universo, 84% das sedes urbanas carecem de investimentos para adequar seus sistemas produtores e 16% apresentam déficits decorrentes dos mananciais utilizados.
É algo muito grave, em que pouco se pensa, porque se cuida mal de assegurar recursos para os estádios destinados à Copa do Mundo e às olimpíadas, ao sistema aeroportuário e à rede hoteleira. O resto fica para depois. Depois?
No caso de Minas Gerais, caixa d`água do Brasil como gostava de ressaltar o governador José Francisco Bias Fortes, há de se considerar que a nossa bacia hidrográfica já foi afetada, o volume de águas decresce e sua qualidade sofre os efeitos da urbanização mal orientada e da evolução industrial.
O principal rio de Minas, o São Francisco, irá atender parte do Nordeste para arrefecer-lhe a sede. E, no meio do curso de suas águas...
Pouco adianta advertir, porque as imposições imediatas e a insânia são mais vigorosos.
Outro fato: a Organização das Nações para a Alimentação e a Agricultura alerta que o índice de preços dos alimentos alcançou, em fevereiro, pelo oitavo mês consecutivo, o seu mais alto nível desde 1990. A elevação dos preços dos alimentos, iniciada em meados de 2010, provoca o medo de uma explosão de "revoltas de fome", como as registradas em 2008 em vários países africanos, no Haiti e nas Filipinas.
E, diminuindo a água e aumentando a desertificação, onde iremos parar? O Brasil não é imune.


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Por Manoel Hygino - 26/5/2011 07:27:21
Cantos e desencantos

Manoel Hygino dos Santos

Admiro, mais do que isso - invejo, os que têm longa, útil e saudável vida. Em minha cidade, lembro Luiz de Paula, Ruth Tupinambás, Graça e Yvonne Silveira, que mantêm acesa a chama dos 20 anos depois de ultrapassarem em 70 essa idade. Os três são escritores de reconhecidos méritos. Dona Yvonne presidindo a Academia Montes-clarense de Letras com o mesmo entusiasmo de muito tempo atrás, participando das reuniões, viajando para cumprir a agenda da entidade, que é ampla.
Quando me empossei na Academia Mineira de Letras, ei-la no auditório Vivaldi Moreira, junto à mansão Borges da Costa, na Rua da Bahia. Uma viagem que, por terra, ida e volta, somaria mais de mil quilômetros. E ali, na noite de Belo Horizonte, elegante e bem disposta, uma dama, na verdadeira acepção da palavra. E Dona Yvonne, respeitada e admirada, me conheceu de franjinhas, menino de 9 anos, à porta do estabelecimento comercial de meu avô, numa cidade que era brava, mas não selvagem, hoje transformada em valhacouto e campo de ação de bandidos procedentes de outros estados. Deve a escritora sentir saudades dos dias e noites em que se reuniam as famílias à porta das residências, e também das serestas, inesquecíveis, que compunham o modo de viver da população.
Esses três autores amam a terra em que nasceram, seus modos e seus costumes, as pessoas de ontem e as que hoje seguem uma tradição de generosidade alegre, de doçura nos corações, de arraigado sentimento ao lugar e às suas gentes.
Pois Dona Yvonne assiste agora ao lançamento da segunda edição de "Cantos e Desencantos", contendo a poesia do esposo, falecido em 2009, cinco meses antes de completar o centenário de nascimento. Olyntho Silveira era um cidadão no verdadeiro sentido do termo. Em seu livro, ressaltava que vivemos o tempo do triunfo da ciência. Mas, adverte: "Não venham dizer-nos que esta afasta de si a poesia, lembrando o exemplo de Flammarion."
Começou a estudar em escola isolada pública, continuou pelos livros, com 19 anos, já escrevia para a "Gazeta do Norte", seguindo em outras folhas, inclusive da capital. Casado com Dona Yvonne, não deixou frutos da união, a não ser os versos que publicou. Aprendeu francês e espanhol pelas gramáticas e traduziu grandes autores, sendo considerado uma das ilustres personalidades de Montes Claros, embora nascido no velho Brejo das Almas quando aquela cidade completou 150 anos.
Para a viúva, foi exemplo de vida pela honradez, dignidade, modéstia e ausência de ambições. Para a mulher de sua existência, que continua com entusiasmo a humana linda, ainda é o "meu poeta". Evocaria Machado com a sua Carolina, que se despediu mais cedo, e meditava o poeta carioca que para tão grande amor é curta a vida.
Para Míriam Carvalho, mestra em Literatura Brasileira, os poemas de Olyntho aludem "a um tempo vivo, iluminado com a sua luz própria, instantes em êxtase de últimas preces, como na utopia de estar vivendo em pleno paraíso. Uma poesia com o "sentido mais profundo da vida".


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Por Manoel Hygino - 19/5/2011 10:39:51
A Lei dos Tóxicos

Manoel Hygino dos Santos

À medida que passam os dias, a sucessão de homicídios, muitos deles bárbaros, parece indicar que o brasileiro está perdendo respeito pela vida. Embora não seja fenômeno isolado no tempo bárbaro que atravessamos, merece registro esse grave sintoma de desumanidade. Mata-se por qualquer "dá cá uma palha" e no diapasão se encontram pessoas de todas as condições sociais e econômicas, bem como de todas as idades. Verdade é que autores e grande parte das vítimas são jovens, o que mais se deplora. São pessoas que recém saíram da adolescência, havendo, inclusive, aquelas que sequer nela se encontravam.
Grande parte desses homicídios e outros crimes se dá em decorrência do uso das drogas, uma calamidade nacional, fruto também da leniência com que é tratado o problema.
Li também um depoimento claro, peremptório, de um magistrado que milita no interior. Refiro-me ao dr. Isaías Caldeira, juiz criminal, que afirma: "O tráfico de drogas saiu do controle do Estado, permeia as cidades e campos, destrói vidas e famílias, sendo responsável por mais de 80% dos crimes cometidos em comunidades como a nossa. De nada adianta o esforço tremendo das polícias no combate sistemático ao tráfico e traficantes. Dezenas são presos todos os meses, mas outros tantos assumem os lugares dos encarcerados".
O texto de Isaías Caldeira merece ser lido por todos os cidadãos deste país, sobretudo pelas autoridades responsáveis; porque para os bandidos e pessoas desonestas alçadas a importantes cargos públicos, nada mais adianta. Há necessidade inadiável de uma cruzada nacional para tentar salvar o que ainda pode ser salvo.
Para o juiz, também o usuário de drogas deve ser punido, como o era até o ano de 2008, quando entrou em vigor a Lei 1.343/06, a chamada "Lei de Tóxicos". Sabiam os traficantes, por exemplo, que o crack mata o usuário em curto tempo ou deixa incapacitado mentalmente, daí não desejarem seu uso. Além do que, essa droga é barata. Constataram os criminosos que se perdiam uma dezena, mas se ganhavam milhares, em todo o Brasil. Hoje o crack está nas cidades e nas zonas rurais, onde a pobreza avulta. Com a lei mencionada, liberou-se o consumo da droga, não punindo usuário.
Se preso, o consumidor é conduzido a delegacia e lavrado um TCO, liberado e encaminhado ao Judiciário, para receber advertências ou tratamento especializado. O juiz acrescenta: "Nunca poderá ser preso por desobedecer a sentença. Nunca se ouviu falar de crime sem pena, sem punição".
Conclusão: "Então, óbvio, o uso de drogas não é mais crime no Brasil desde a vigência desta Lei 1.343/06; àqueles que discordarem peço que examinem as estatísticas anteriores a esta lei e como o consumo de crack universalizou-se após seu advento. É simples. São números de ocorrências ligadas à venda e consumo de drogas no país.
Ninguém mentalmente hígido quer o simples encarceramento de usuários, mas a lei deveria converter em prisão o não cumprimento da ordem judicial emanada da sentença. Se não frequentassem a terapia ou não se submetessem ao tratamento determinado pelo Juiz, iriam para a cadeia". E repito com o juiz: "O tráfico de drogas saiu do controle do Estado"


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Por Manoel Hygino - 13/5/2011 11:11:59
Fatos e sonhos

Manoel Hygino dos Santos (Hoje em Dia)

Dia 25/4, 13h30: clínica médica na Rua Gregório Veloso foi atacada por assaltante. Duas funcionárias foram rendidas por indivíduo que lhes apontou um revólver de prata; mesmo dia, 21 horas, dois homens dispararam tiros contra um rapaz de 20 anos. Ele se encontrava assentado defronte estabelecimento comercial; dia 26, 18h30, dois homens, numa moto executaram um homem de 25 anos na porta de sua casa, na Rua Nossa Senhora da Vitória; mesmo dia, 15 horas: assaltantes de Montes Claros, invadiram casa lotérica e a roubaram em Capitão Enéas, a 68 quilômetros, fugindo em um carro. No dia 27, um cidadão de 23 anos foi baleado no Bairro Morrinhos, na Rua Dr. Tupiniquim, quando transitava de bicicleta, sendo atingido a tiros por motociclista e passageiro. Ainda não findaram o quarto mês do ano e já somavam 32 os assassinatos em Montes Claros, confirmando que a insegurança se tornara o problema mais agudo da cidade. Quem iria resolvê-lo? Como? Quando? São perguntas que o homem de bem e as famílias fazem e para as quais não há resposta. Outra indagação: Até quando? Eis a rotina tenebrosa de todos os dias. No dia 29, com que encerro esse balanço de sombra e medo, um empresário foi morto na cidade a tiros, quando - acompanhado da genitora - levava dinheiro para depositar em banco. Quatro pessoas foram presas, mas a vítima sequer mais se ergueu. O que se registra na maior cidade do Norte de Minas, a de economia mais forte e sólida, não passa do retrato de uma sociedade em crise, por saber que os meios de conter a criminalidade não têm produzido os resultados necessários. Faz-se uma nova campanha de desarmamento, mas os criminosos gozam de melhores condições para adquirir os instrumentos mortais, enquanto o cidadão permanece em penosa prisão domiciliar, sem sequer sair para seus afazeres, ou temeroso de fazê-lo, por correr risco ao transpor as portas do lar. Mas quem tem sossego também nas vias públicas? O que inicialmente se disse é apenas um ínfimo retrato de uma nação que tem medo e que, talvez, se aproveita do Carnaval e outras festas e eventos para esquecer os dias e noites de dolorosa expectativa. Não se trata de fatos como a chacina na Escola Tasso da Silveira, no Realengo, Rio de Janeiro, cuja divulgação adequada preocupa os homens de Imprensa, como demonstrou, há dias, competente jornalista Oswaldo Antunes. Nem simples casos de homicídios por postos de venda de drogas, como sói acontecer presentemente, de norte a sul, do oeste a leste, do país. Grande parte dos casos que ora ocorrem são crimes sórdidos, planejados e articulados por assassinos frios, ponderável número dos quais não liberados por vencidos prazos de pena ou beneficiados pela legislação; pelos que escapam às grades por toda série de artifícios e meios ilícitos e aqueles outros cujo sistema penitenciárioonde retê-los. Eis uma hora de indisfarçada inquietação; pelo que é o presente e pelo que pode ser o futuro.


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Por Manoel Hygino - 6/5/2011 10:17:18
Aconteceu em abril

Manoel Hygino dos Santos (Jornal Hoje em Dia)

Daqui dezenas de anos, ainda a chacina de Realengo será tristemente lembrada. As pessoas que passarem pelas imediações apontarão a escola que tem o nome de um escritor hoje pouco conhecido e dirão: "Ali aconteceu em abril de 2011". Quem poderia ou deveria ser responsabilizado pelo massacre? O esquizofrênico que disparou 62 vezes contra crianças indefesas? Os pais de criação, que não souberam ou não puderam oferecer-lhe tratamento adequado? A ciência que ainda não descobriu meios terapêuticos de evitar essas tragédias? As autoridades policiais que permitiram que as armas fosse parar nas mãos do homicida? Da direção da escola que não tinha suficiente número de funcionários para impedir o ingresso de um quase desconhecido em suas dependências? Dos que possibilitaram que aparelhos modernos lhe chegassem às mãos e lhe criassem a fantasia macabra que esse doente mental usou num ritual inusitado no Brasil? Deverá a sociedade ser incriminada pelo assassinato coletivo? Ou ninguém pode ser acusado pela urdidura do projeto maligno e sua consumação? O tempo fluirá sem que se alcance conclusão aparentemente clara, sensata, irretorquível. Não resta dúvida de que o morticínio foi premeditado, laborado por cérebro doentio de alguém com inteligência e conhecimento pleno dos fatos, personagens e locais em que agiria. Nossos loucos estão soltos e prisão não resolve seus problemas. Da confusão mental em que vivia o homicida do Rio, pode-se extrair prova contundente com algumas de suas considerações, encontradas após a chacina. Por exemplo: "A luta pela qual muitos irmãos no passado morreram e eu morrerei não é exclusividade pelo que é conhecido como bullying. A nossa luta é contra pessoas cruéis, covardes, que se aproveitam da bondade, da inocência e da fraqueza de pessoas incapazes de se defenderem". O atentado não foi exatamente contra os cruéis, porque atingiu meninos da Escola do bairro carioca, desde então estigmatizado pelo crime hediondo. Por ele ninguém será punido, talvez os fornecedores de armas assassinas, vendidas regulamente no comércio de norte a sul do país. O Brasil se vai tornando uma nação desalmada e armada, sem o que não haveria esse turbilhão incessante de mortes por múltiplas razões, ou sem razão alguma. Uma das editorias mais trabalhosas na imprensa é a de polícia, que recebe dezenas de relatos e denúncias de crimes, a cada dia. Longe da Cidade Maravilhosa, estudante de uma escola em Francisco Dumont, no norte de Minas, viveram momentos de terror no dia 13 de abril, quando um aluno entrou armado com revólver e um facão na sala de aula, após discutir com a professora. Isso na pacata e modesta cidade de hoje, que foi distrito de Bocaiuva e já se chamou Conceição do Barreiro, terra natal de minha mãe. Na minha cidade de nascimento, são quase 30 o número de assassinatos este ano. E a tudo assistimos sem nada fazer, a não ser o registro como ora fiz e termino.


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Por Manoel Hygino - 1/4/2011 09:38:45
Manoel Hygino dos Santos

Konsta: in memoriam

Com o falecimento de Konstantin Christoff em 21 de março último, no lugar em que seus pais, procedentes da Bulgária, elegeram para viver e laborar, desaparece uma importante fase na história da maior cidade norte-mineira. Darcy Ribeiro, seu companheiro de tertúlias, comentava que o casal trasladado, com seu passado e seus costumes, ao sertão, ensinou os moradores da terra prometida a comer tomates e verduras. É verdade. Aquelas nossas gentes, bem identificadas com personagens de Guimarães Rosa, eram viciados a comer carne, de boi, de porco, galinha aos domingos ou na recepção a visitas. Ocasionalmente, de caça apanhada nos matos, principalmente veado, anta, paca ou tatu, pego pelo rabo, ou peixe pescado no Rio Verde. O casal contribuiu para mudar hábitos, até porque, graças aos conhecimentos que trouxeram da Europa, fizeram que os tomates ganhassem tamanho miraculoso, não mais aquelas frutinhas do tamanho de uma uva. Eram dois irmãos: Raio, que se diplomou em química industrial na Faculdade em Belo Horizonte: depois, Konstantin, que se sentiu atraído à Medicina, e muito bem se deu, para satisfação pessoal e saúde e vida da pacata população do interior. Pormenor: ambos eram exímios no traço, excelentes desenhistas. Raio nasceu em 3 de março; Konstantin se foi em 21 de março, bem próximo ao mês dos Idos, que culminaram com o assassinato de César no Senado, 44 anos antes de Cristo Jesus. Um acidente roubou a vida do engenheiro, enquanto o médico lutava pela existência saudável do sertanejo. Ambos se sentiram fascinados pela terra escolhida por Cristo, pai e D. Rosa. Formados, voltaram ao interior, aprestados para a profissão, muita disposição de luta, tenacidade, certeza de estarem no lugar certo. Lá pelo ano 2006, o médico e notável artista plástico, o grande pintor, escultor, fotógrafo, sofreu um AVC, que lhe dificultou a fala. Depois, em outra fase, internado na Santa Casa, perdeu o filho, arquiteto nomeado, já sofrido com o Mal de Parkinson, morto subitamente, na porta do hospital, a que fora visitar o pai. Celebrado nas artes, inclusive na de Hipócrates, com sua barba de profeta como o pai, Konstantin era um homem simples, um sertanejo nascido em distante região da Europa. Não fazia pose de bom; era bom. Servia a Deus, mesmo quando dizia não o conhecê-lo, supostamente agnóstico como Darcy Ribeiro, de que se tornou parente com o casamento com Yede, a companheira admirável que soube estar a seu lado na desdita da doença ou na glória de exposições internacionais. Propala-se que toda unanimidade é burra ou tola. Nada tão falso. Os eflúvios de sentimento pelo desaparecimento de Konstantin uniu todas as cores, escolas de arte, inclinações religiosas, representações de agremiações políticas. Afinal, ele estava acima. Desde que ilustrou meu pequeno livro, juvenil, posso dizer, conquistou a crítica, não porque desejasse conquistas, mas porque foi um artista notável, um cidadão que honra o Brasil em que se radicou.


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Por Manoel Hygino - 22/3/2011 07:41:57
Manoel Hygino dos Santos

No fundo da Terra

O terremoto no Japão e seguinte tsunami foram precedidos de um tremor de terra na primeira semana de março, em Montes Claros. Claro que não se há de temer que assumam proporções gigantescas as ocorrências na maior cidade do norte de Minas.
Enquanto na terra de Darcy Ribeiro e Cyro dos Anjos, o abalo sísmico se situou em 3,2 graus na Escala Richter, no Japão o nível se aproximou de 10, o que dá ideia da diferença. Mas, em todo caso, há de se atentar para o fato, pois o tremor de março foi o sexto e o maior abalo na cidade, nos últimos quinze meses. Felizmente, por cá não houve vítimas, nem danos materiais a registrar. No entanto, a população por precaução saiu às ruas, principalmente com o estrondo anunciador que partiu das entranhas da terra. Nestas horas, muitos são os sentimentos e posições. O chefe do Observatório Sismológico da Universidade de Brasília, Lucas Vieira Barros, é de opinião que exista uma fenda geológica, ou seja, uma "fonte sismogênica". Embora sejam microtremores, eles se repetem e nada mais conveniente do que estudá-los, o que evidentemente permitirá um quadro mais completo do que ocorre. O mapeamento os abalos determinará as dimensões físicas da falha geológica: "A partir do momento em que for conhecida a extensão da falha, será possível levantar a magnitude máxima de outros tremores que poderão ocorrer na cidade e recomendar as medidas preventivas".O que se teve, após a tragédia no Japão, não a primeira, foi a sensação de impotência do homem diante dos terremotos. É uma ciência pouco avançada, até porque as pesquisas são difíceis e não se pode penetrar na crosta terrestre para, bem no fundo e sistematicamente, estudar os fenômenos e chegar-se a conclusões. Há de se ater, ademais, ao que disse Vieira Barros: "Infelizmente, mesmo que fossem previsíveis, os tremores seriam inevitáveis." Cá no Brasil, no Caribe, na Turquia, Grécia ou no Japão, somos passageiros de acontecimentos ainda misteriosos. Antigamente se comentava comumente os abalos na região de Bom Sucesso, cidade berço da família Guimarães e dos Castanheiras. O assunto servia de brincadeira entre as pessoas, mas hoje elas já percebem que o problema tem de ser levado a sério, porque - principalmente no Norte de Minas - abalos se repetem, e com frequência, como se registrou em Itacarambi. Agora, divulgaram-se recomendações de como as pessoas se devem comportar em tais situações, ao invés de entrar em pânico. Oração não faz mal, mas pânico, sim. Os futuros edifícios poderão dispor de estruturas mais sólidas, pelo menos para dar mais sensação de segurança. A instalação de um sismógrafo nas proximidades também não faz mal. Quanto ao ruído que veio do fundo da Terra, não inquieta tanto. Afinal, os exagerados sons dos veículos nas vias públicas, com ou sem carnaval, já dão consciência de quanto a população é capaz de suportar.


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Por Manoel Hygino - 12/3/2011 11:53:49
Manoel Hygino dos Santos

Prisão em Ouro Preto

Há três anos, o jornalista Paulo Narciso, em documento pessoal, me dizia que "a cultura oficial quer de nós o silêncio, que este não incomoda ao poder". É assim, mas insistimos contrapor-nos ao que incomoda, dói e ofende. Recordo, por oportuno, os 40 anos de um episódio que marcou 1971, alcançando repercussão nacional. Naquele remoto e triste período, Judith Malina, teatróloga e militante anarquista, residente em Nova Iorque, esteve presa em Ouro Preto. Narciso, conterrâneo, jovem, movido pelos mais caros ideais de moço e homem de Imprensa, acompanhou os duros dias de Judith e do marido Julien Beck. Escreveu, então: "O ai que vazasse das prisões, e vazava apesar da repressão e da censura, o ai podia ser resgatado e multiplicado como tambores dispersos de uma floresta. O gemido passava pela porta dos cárceres, e vinha dos subterrâneos e dos porões, e era recolhido, e era ouvido; e uma rede de compaixão se estendia acima das ideologias." Era o `Living Theatre`, toda a troupe internacional reconhecida como o teatro de vanguarda mais importante do planeta. Por que a atitude estapafúrdia e infeliz? O jornalista anotou: "Vagas acusações. Eram cabeludos e mal cheirosos; não gostavam de banhos. Seriam depravados, usariam drogas, mas nenhuma foi encontrada com eles; jovens artistas de variadas nacionalidades que, depois de soltos, nos anos seguintes, ascenderiam ao topo da carreira em seus países de origem. Presos e soltos em questão de horas, e novamente trancafiados". Por quê? Na realidade, nada havia que justificasse a detenção. Enfim, "descobriu-se" uma vistosa seta de tinta branca recente, no piso da casa, que foi cavacada pela polícia. Maconha. A notícia ganhou o mundo. O grupo mal cheiroso, dado às drogas, e que tinha o costume de ler os clássicos da poesia grega e compêndios de política, estavam confinados detrás das grades. Judith mantinha atualizado o seu diário. Mas o tom é sereno, meigo, poético. "Gentil até com os carcereiros, com os acusadores". Para o jornalista, "falou nela o sentimento que chamamos de cristão, mas Judith, nascida na Alemanha, era judia. O conteúdo é do humanismo de filosofia anarquista que fez do `Living Theatre` o grupo teatral de vanguarda mais importante do mundo, mesmo após a morte de seu fundador, Julien Beck, em 1985". O repórter descreve: O fato "tem o poder de despertar a recordação de uma mulher pequenina, afável, e de seu marido Julien, amoroso casal, e da filha de 4 anos, que se despediu dos pais com um aceno entre grades", levada pela avó para os Estados Unidos. Judith, em seu diário, registrou: "Em procissão, viajamos por entre as magníficas montanhas. Espantados, depois de um mês de cadeia, pela amplidão do céu, pela magnificência da terra de Deus, da qual a mão do homem nos isola, Julien e eu trazíamos trabalho (os livros), mas o que podíamos fazer era apenas fitar sonhadoramente". Em pleno Festival de Inverno, pressionado pela mídia internacional e intelectuais, o governo militar expulsou Beck e Malina.


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Por Manoel Hygino - 19/2/2011 11:15:44
O menino da anilina

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Amigo e confrade na Academia Mineira de Letras, de laços com amigos vivos ou já na pátria das almas, Danilo Gomes, jornalista, poeta e prosador, bom de escrita e coração, não esquece, nem deixa o tempo esquecer.. No finalzinho de janeiro, para prová-lo, enviou-me exemplar do "Correio Braziliense", do dia 27. Anunciou, em carta de próprio punho:
"Vai aí página inteirinha sobre seu ilustre conterrâneo Darcy Ribeiro. Com direito a chamada de capa. Viva Moc!" Na capa do Diversão e Arte, o repórter Severino Francisco informa da publicação Já liberada, de coleção de dez volumes de bolso, sobre Darcy, pela Editora UnB, Fundação Darcy Ribeiro e Ministério da Cultura. O lançamento se deu naquela data no Memorial Darcy Ribeiro, na Universidade de Brasília.
Na seleta, o polêmico brasileiro conta seu princípio: "Montes Claros, que nós, os de lá, gostamos de chamar carinhosamente de Moc, fica no norte de Minas. Por muito tempo esteve mais ligada à Bahia, daí que minha gente fale com sotaque baiano, dizendo "dezoitxo".
O repórter, porém, entra fundo no tema. Relata que, quando criança, Darcy ouviu um farmacêutico dizer que a anilina podia pintar de azul o Oceano Atlântico. O fedelho ficou com a imaginação eriçada. Furtou um pacote de anilina, convocou um amigo e resolveram jogar o produto num reservatório de água que abastecia a cidade. E quedaram ambos, na ansiosa expectativa.
No dia seguinte, quando as donas de casa abriram as torneiras de suas casas, ficaram apavoradas com a água azul que jorrava, passando a orar a Deus para que esconjurasse o suposto sinal do Apocalipse. O menino virou rapaz, amadureceu, mas continuou fazendo surpresas com ideias e traquinagens intelectuais.
Darcy viveu com os kadiueu no Oeste brasileiro. Quando me enviou um livro sobre a tribo que perdia a identidade nos sertões do Oeste, comecei a interessar-me pelo conterrâneo que não temia as consequências de seus malfeitos infantis, nem de conviver com uma gente que se destruía. Anos após, escreveu: "Aos poucos, com a acumulação das experiências e vivências, os índios me foram desasnando, fazendo-me ver que eram gente(...). Gente mais capaz que nós de compor existências livres e solidárias".
Darcy Ribeiro viveu em torno de dez anos com os habitantes da terra que Cabral inventou. Eles já estavam aqui e o menino da anilina soube entender e sentir os irmãos mais velhos do território de Vera Cruz. O homem Darcy não era de fingimentos, a não ser fazendo de conta que não estava tão mal de saúde e fugindo do hospital em que se achava internado. Foi um cidadão que nunca admitiu estar ou ser preso.
Ousado, venceu as miudezas da política, propôs soluções, implantou universidades, andou dando aulas e recebendo homenagens aqui, ali e acolá, sem ser jactancioso.
E confessou: "Enfrentei a vida com coragem, inocência e gozo. Sabendo sempre que o inevitável é o melhor, encarei os infortúnios como pontes para o desconhecido..."


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Por Manoel Hygino - 5/1/2011 22:00:28
O cidadão Hermes

Manoel Hygino - Jornal "Hoje em Dia"

Afortunada a cidade ou município que tem cidadãos cuja vida é exemplo. Eis o significado e o conteúdo de "Hermes de Paula-Passado e Presente", livro organizado e escrito por Amelina Chaves e lançado pela Editora Saramandaia. Com homens da capacidade intelectual e de trabalho, com a visão de futuro, com o desprendimento, como o focalizado na obra mencionada, se vai construindo, com muito esforço e até com sacrifício, o Brasil que desejamos legar às gerações por vir.
Nascido em família do interior muito esquecido norte-mineiro, Hermes Augusto de Paula se formou em medicina no Estado do Rio de Janeiro, participou de experiências pioneiras de Vital Brasil, mas na hora de decidir o que fazer, diploma à mão, preferiu voltar às raízes. Sabia que a terra natal precisava dele e, deixando possivelmente prestígio maior, foi cuidar dos doentes da região de Montes Claros.
Não se restringindo ao rico campo das ciências médicas, Hermes de Paula se consagrou como cidadão integrado à sociedade, a que serviu durante toda a existência.
Devotou-se também à arte, inspirou a formação de um grupo de serestas, foi um dos entusiastas da Academia Montes-clarense de Letras, exerceu o magistério na Escola Estadual Professor Plínio Ribeiro e na Faculdade de Medicina, que ajudou a implantar.
Com a idade, tornou-se um dos principais pontos de referência sobre a região, que pesquisou incansavelmente, de modo a permitir-lhe a elaboração de uma história da cidade, sua gente e seus costumes, obra monumental editada pelo IBGE.
Ler o livro de Amelina Chaves, fruto da pertinácia e do bom gosto, constitui uma volta a tempos vividos, mas indestrutíveis. Os que colaboraram na produção do volume souberam expressar seu pensamento, seu sentimento e sua admiração para um ser humano digno de respeito e de carinho, como bem o demonstraram.
Aos que permanecem na cidade natal ou aos que partiram, como eu, resta uma profunda saudade, de que só a memória guarda e livros como este evocam. Virginia Abreu de Paula, filha de Hermes, ocupa páginas para recordar os tempos de criança e adolescência, as colegas de estudo, de brincadeiras, a pureza e a beleza da convivência em ruas que á foram pacatas e hospitaleiras.
Assim, o livro que foi lançado em dezembro é bem mais do que a biografia de uma pessoa singular na vida de burgo a que se devotou durante décadas. É o preito de companheiros de iniciativas de seus conterrâneos, dos que se serviram de seu ofício médico, mas também dos que dividiram com ele os melhores períodos de uma existência dedicada a interesses superiores.
Numa extensa entrevista a jornal local, uma retrospectiva afetiva, vívida de uma cidade em busca de melhores tempos, de seus políticos, das suas diversidades, das disputas entre os partidos de Baixo e de Cima, que resultaram algumas vezes em enfrentamentos sangrentos.
De todo modo, um registro fiel e necessário.


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Por Manoel Hygino - 9/12/2010 10:44:51
Manoel Hygino dos Santos - Jornal Hoje em Dia

Uma chama acesa

Não confundamos as coisas. Catibrum é o Teatro de Bonecos, que apresentou em Belo Horizonte o espetáculo "Dom João e a Invenção do Brasil", fundamentado no livro "D. João Carioca", do cartunista João Spacca e da antropóloga Lília Moritz Schwarcz, contando o episódio da transferência da corte portuguesa, em 1808, para o Brasil. Aliás, a data sugeriu o título do livro, muito bom, por sinal, de Laurentino Gomes, retratando o mesmo fato.
E Catibum, sem o `r` na última sílaba, é nome dos Cadernos de Cultura, editado pela Prefeitura de Montes Claros, através da Secretaria de Cultura. Seus editores são Georgino Junior, Luiz Carlos Novaes, Roberto Marques e Ildeu Braúna, com projeto gráfico, diagramação e arte do penúltimo relacionado e Wandaick Santos. Colaboradores de alto nível: Haroldo Lívio, Benedito Said, Felicidade Tupinambá, Yvonne Silveira, Lipa Xavier, professor Osmar Pereira Oliva, Augusto José Vieira Filho, Reginauro Silva, Anelito de Oliveira, Eduardo Lima, Silvana Mameluque, Aurélio Fabiano Lopes, Waldyr Senna Batista, Dário Teixeira Cotrim e Sérgio Mourão.
No âmago da pauta, uma entrevista de Cândido Canela, o maior poeta sertanejo de Minas, um Catulo da Paixão Cearense (o Catulo era pernambucano e morreu no Rio de Janeiro), que passou a vida em sua terra natal, por não saber sobreviver em outro lugar. Nas declarações ao escritor Haroldo Lívio, Cândido lembra quando foi designado pelo juiz de Direito, Dr. Bessone, defensor dativo de um criminoso de Bela Vista, hoje Mirabela. O jovem defensor tinha 20 anos e aceitou a causa.
O rapazelho leu obras de Direito, examinou o processo e subiu à tribuna, o juiz torcendo por ele. Naquela época, usavam-se bolas, brancas e pretas, para decidir se o réu era inocente ou culpado. Cândido conta:
E os jurados "tacaram" 30 anos no homem. Aí, foi o caso de eu ficar com a fama ruim de advogado criminal. Foram 30 anos! Então disseram que o homem, o assassino, me chamou e falou: "Agora, o senhor tem de partir a pena comigo; eu fico com 15 e o senhor com 15! Eu nunca esqueci isso!"
É bom explicar. Antes de se tornar a revista de hoje, o Catibum foi um movimento artístico-literário de jovens dos anos 70, que gerou letras e músicas; ou "anárquico-lírico", que pretendia contestar, como escreve Eduardo Lima.
Luiz Carlos Novaes registra que o Brasil anterior "atravessava anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo". "Conhecíamos, do Oiapoque ao Chuí, e alegria e a tristeza, o arbítrio, a censura, a tortura, lutando contra a ditadura e exigindo ares de liberdade."
Os tempos são outros: "As pedras que atiramos naquela época continuam a agitar, em círculos cada vez mais ampliados e distantes, as mentes e os corações de muitos dos jovens artistas".
O pretérito não estagnou ou morreu lá atrás, resgata-se, com louvor e qualidade, nos textos de agora, retrato de um burgo e de um povo sempre em busca de novas realizações e de afirmação.


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Por Manoel Hygino - 7/12/2010 09:22:34
Três estrelas

Manoel Hygino dos Santos

É alegria e orgulho para um burgo como o no qual nasci comemorar no mesmo ano fatos - vamos dizer, gloriosos - de sua existência. Bairrismo à parte, porque não é o caso, Montes Claros festejou e ainda festeja o centenário de Hermes de Paula, de Cândido Canela e João Chaves, este pelo centênio de sua centenária modinha "Amo-te muito".
A cidade se honra em ser uma das poucas do interior brasileiro com dois dos seus escritores guindados à Academia Brasileira de Letras: Cyro dos Anjos e Darcy Ribeiro. Agora acrescenta a seus mais nobres registros os de 2010, que percorreram todo o ano lembrados, como o centenário do "Amo-te muito", do poeta João Chaves, modinha que é uma espécie de hino nacional no gênero, que embalou gerações de namorados.
Não só, Wanderlino Arruda recontou como, no enterro de JK, a música brotou na assistência e calou progressivamente a catedral de Brasília, tomada de forte emoção. O corpo saiu de lá embalado pela composição, concebida quanto o poeta tinha 25 anos, em louvor de Julieta Guimarães, cujo amor pretendia. É um retrato do Brasil, lírico e amoroso, e da saudade.
Em 6 de dezembro, lança-se um livro muito interessante: "Hermes de Paula, Passado e Presente", de Amelina Chaves. Para quem não conhece personagem-título, é bom esclarecer que se trata de médico nascido na cidade, que lá viveu e deu grande incentivo às atividades artísticas, culturais, cívicas, tendo contribuído enormemente para a sensibilização e conscientização dos valores de uma gente privilegiada. É de sua autoria a mais completa obra sobre a história da região.
Finalmente, no dia 25 de novembro, houve homenagem a um dos mais autênticos talentos do norte do Estado em todas as áreas em que atuou: Cândido Canela, serventuário da Justiça, membro da Câmara Municipal, poeta, cidadão do bem, do correto e da justiça. O que produziu no campo das letras é de absoluta espontaneidade, autêntico, como foi em vida. Tivesse nascido em outra região do país, no Nordeste por exemplo, que melhor sabe aproveitar as qualidades dos que lá usam suas virtudes no campo do saber e das artes, seria cultuado nacionalmente. Mas o mineiro, mas introspectivo prefere o casulo, e nisso não há demérito.
A esses três catrumanos o preito de respeito, de admiração e de gratidão, confiando em que as futuras gerações mais lhes reconheçam o alto virtuosismo. Eles foram reais representantes do povo que habita uma região muito relegada pelos poderes públicos, mas jamais fugiram a seus deveres e renunciaram a seus valores.
Houveram por bem a Secretaria Municipal de Cultura, a Academia Montesclarense de Letras, a Associação Amigas da Cultura, o Instituto Histórico e Geográfico de Montes Claros, a Academia Feminina de Letras e, por extensão, a ACLECIA, render homenagem no finalzinho do ano cidadãos que nos dignificam o ano, como honraram a terra e sua gente enquanto vivos.


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Por Manoel Hygino - 10/11/2010 11:29:24
Missão cumprida

Manoel Hygino dos Santos

Aos 62 anos, Fernando Zuba partiu, sepultado no Bonfim, antes que o dia de Finados chegasse. Era o de Todos os Santos, zelosamente cultuado em nossa terra em tempos de profunda religiosidade. Passou o jornalista pela carreira, marcada por suas virtudes como programador visual privilegiado e primoroso texto. Jovem, chegou a Belo Horizonte e, irrequieto e travesso, era o furor das redações, a que ateava o fogo de brincadeiras e peraltices, que não apraziam suas vítimas, mas causavam alegria certa aos demais repórteres. Tão prematuramente, porque o futuro lhe reservaria mais realizações, partiu para a longa viagem, neste 2010, antes até que o Finados alcançasse as folhinhas.
Cumpriu aquilo que seria o objetivo do homem: teve um filho, um único filho; escreveu um livro, um único livro; mas plantou muitas árvores em seu sítio no município de Lagoa Santa, onde se recolhia da refrega cotidiana. Celso Fernando Ferreira Zuba manteve uma extensa guerra contra o diabetes e insuficiência renal crônica, inclemente nos últimos seis meses de vida, quando não mais sequer via e pouco ouvia, submetido a diálise e tratamentos na Santa Casa de BH. A outra guerra foi a que cobriu em 1992, talvez o único mineiro presente, então no arquipélago das Malvinas, nos curtos mas violentos embates entre ingleses e argentinos. Há de se enfatizar que a Guerra das Malvinas foi seguramente um dos conflitos mais controlados à Imprensa de todos os tempos, como avalia Paula Fontenelle em livro. E Zuba estava lá. Então, o Ministério de Defesa do Reino Unido autorizou a participação de um número sobremodo limitado de jornalistas, todos britânicos. A primeira-ministra Margareth Thatcher reconheceu que não queria profissionais estrangeiros. Foram submetidos os ingleses a duras restrições quanto ao que poderia ser veiculado. Nenhuma imagem de TV, e a censura foi imposta. No dia do sepultamento do jornalista mineiro, Thatcher, enferma há dias, mal conseguiu chegar às escadarias de sua residência no elegante bairro londrino de Belgravia para as festividades de seus 85 anos. Durante o conflito, uma emissora tentou usar uma tarja com o vocábulo "censurado" em suas reportagens, mas a proposta foi indeferida por Londres. Exigiu-se que a Imprensa se referisse às tropas com o pronome "nós", o que foi recusado e provocou suspense. Em 14 de junho de 1982, a dama de ferro fechou o certo em torno de notícias. Por nove horas, não se enviaram quaisquer informações para Londres. Margareth queria anunciar a vitória pessoalmente. O objetivo foi alcançado. Thatcher, cujo nível de popularidade estava em 24%, saltou para 60%. Fontenelle observou: a guerra foi curta, popular e bem sucedida. Concluída, Fernando Zuba voltou a BH para escrever sobre aquilo a que assistiu. É um relato fiel aos acontecimentos e à época. Um trabalho de bom repórter, com excelente texto. Um válido testemunho sobre episódio grave na história do século XX a que um jornalista brasileiro compareceu com coragem e se desincumbiu da missão com competência.


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Por Manoel Hygino - 21/10/2010 10:31:34
Obras suspensas

Manoel Hygino dos Santos

Nas rodovias brasileiras, um genocídio. Não é versão ou informação de jornalistas, contra a qual ou as quais tanto se rebela o ainda presidente da nação, que deixa o cargo dentro de dois meses e dias. Nisso, segue a linha de "companheiros", que não suportam que a imprensa cumpra o seu papel.
No caso, a comunicação é de um órgão oficial federal: O DNIT. Ele informou que as rodovias federais registraram em 2009 o maior número de mortes nos últimos doze anos. Em média, 20 pessoas morreram por dia no ano passado, somando 7.383 em 2009. A elevação do número de vítimas fatais cresceu incessantemente, com exceção de 1997 quando houve apenas 6.945 óbitos. Apenas.
Um especialista em transportes afirma que o fato tem relação com o crescimento da frota... que foi desacompanhado de investimentos na melhoria das estradas.
No entanto, não há perspectiva de mudanças a curto prazo ou médio. Conforme os jornais publicaram no dia da padroeira do Brasil, o próprio DNIT paralisou investimentos de R$ 1 bilhão em Minas, por suspeitas de irregularidades, pendências judiciais ou necessidade de revisão de orçamentos. Em consequência, 10 editais para melhorar as rodovias foram suspensos ou anulados, contribuindo para a escalada da morta e das mutilações no Estado que tem a maior malha do país. Entre os adiamentos, estão a revitalização do Anel Rodoviário da capital, fundamental para a Copa de 2014, tarefa que ficará transferida no tempo. Além de tantas obras importantes em Minas, como as da famosa Rodovia da Morte.
Será que o anúncio do adiamento não influi nas eleições presidenciais?
Entre outros fatos, Montes Claros, no norte de Minas, vai transformar-se no maior entroncamento rodoviário do país, sendo oportuno contar que já é o segundo, só superado por feira de Santana, na Bahia.
Pelo município passam as BRs 251, 135, 365 e 122, e com obras da segunda, entre Itacarambi-Monvalvânia e pavimentação de Juazeiro-Guanambi-BA, se aumentará o fluxo de veículos na 122. Bom? Altamente perigoso, porque Montes Claros será o líder brasileiro em interligação de estradas federais.
Este o fato, mas as consequências precisam também ser avaliadas. Uma série de providências está sendo proposta para evitar que se eleve ainda mais o número de acidentes fatais por esses trechos rodoviários, que exigem melhorias, entre as quais terceiras pistas e duplicação do trecho da Serra de Francisco Sá, para possibilitar o escoamento de tráfego de caminhões pesados, já que dez mil dessas viaturas por ali passam a cada dia.
Com a notícia dada pelo DNIT, houve um banho de água fria na esperança e os horizontes se tornam mais sombrios. Não haveria necessidade de mais promessas para o eleitorado. A execução de programas já definidos seria suficiente para inculcar mais confiança nos cidadãos.


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Por Manoel Hygino - 9/10/2010 10:28:09
Ruído de advertência

Manoel Hygino dos Santos - Jornal Hoje em Dia

Um círculo em torno do sol, em torna de 11h30 do dia 24 último, uma sexta-feira, sol quente em Montes Claros, foi visto pela população que ousava olhar para o alto. Os entendidos explicaram que não passam de fenômenos ópticos provocados pela refração da luz, uma espécie do que se vê nas noites de nevoeiro, cercando as lâmpadas nas ruas.
Cinco dias depois, a terra tremeu ali, quando o sol estava escaldante como nos dias precedentes. O site da Universidade de Brasília estava sobrecarregado devido ao elevado número de acessos. As pessoas temiam que algo fora de propósito acontecesse. O montesclaros.com esclareceu que dois tremores de terra tinham sido registrados às 13h05 e 14h35, com, respectivamente, 2.7 e 2.3 na escala Richter.
Até aquele instante, não se pensava que na cidade que marcou o surgimento do movimento revolucionário de 1930 em Minas Gerais, outros abalos pudessem ocorrer, mesmo por força da natureza. Coincidentemente o epicentro foi no centro da cidade, como 80 anos antes.
Novas informações do boletim sísmico seguinte com notícias tranquilizadoras: não haveria um Haiti no sertão mineiro em plena Primavera. Ainda bem!
De qualquer modo, o norte-mineiro assistia a tudo com desconfiança. Em tempos idos, a terra costumava tremer no Oeste do Estado, pros lados das cidades natais de Magalhães Pinto e Hélio Garcia. Em Bom Sucesso, berço dos Guimarães e dos Castanheiras, cidade do cirurgião Fábio Pimentel Martins, que me extirpou a vesícula recentemente, esses abalos eram folclóricos, como os bondes que, por décadas, percorreram suas ruas.
O fato se prestou a que eu tomasse conhecimento de que, há 50 anos, esse fenômeno se registra, sem consequências danosas à minha cidade e região.
São meras acomodações da crosta terrestre, que contudo intimidam as beatas e os que se inquietam com o fim do mundo.
O site do jornalista Paulo Narciso estava em posição escoteira: sempre alerta, enquanto populares saíam as ruas, principalmente os que moram em casas mais humildes e toscas. E, ainda, os que residem ou têm escritórios nos edifícios. A recomendação era para que todos mantivessem a calma, conselho sempre oferecido nas horas de incerteza e dor. Alguns segundos de oscilação na crosta e um único surdo ruído como um trovão, sem que houvesse qualquer sinal de chuva, fizeram com que se retirassem os terços e rosários das gavetas, porque é na hora das ameaças e das dores que mais se pensa e se apela a Deus.
Os mais fanatizados pela política insinuavam que o grande ruído no útero da terra e seus consequentes abalos eram uma séria advertência para que os cidadãos se compenetrassem da obrigação de votar com consequência no pleito que se avizinhava. Enfim, 3 de outubro estava chegando. O verdadeiro julgamento, porém, só poderia dar-se quatro anos após, na medição dos serviços prestados pelos candidatos eleitos. É da democracia.


60629
Por Manoel Hygino - 17/8/2010 13:51:58
Lassance, Itacambira
Um retrato de costumes, paisagens e culturas que revelam uma Minas Gerais bem distante dos cartões-postais e roteiros de viagem. Assim Clarissa Carvalhaes definiu as regiões e as cidades de Lassance e Itacambira, no Norte de Minas, na metade de 2010, quando ali esteve acompanhando professores e estudantes da Universidade Castelo Branco, do Rio de Janeiro, em programa do Projeto Senar Rondon.
São dois municípios representativos do estágio de desenvolvimento de numerosos lugares de Minas Gerais e do Brasil neste século. As belezas naturais da região são imensas, de deixar marcados nossos corações.
Com as belezas da natureza, a simplicidade, a operosidade de uma gente que arranca da terra a sobrevivência e para fazer sobreviverem os animais que a ajudam na alimentação: os bois e vacas, as galinhas e outros que, desprevenidos, possam ser apreciados no almoço de domingo, como algum tatu, as pacas que rareiam.
A estrada de acesso a Itacambira, evidentemente em terra e de branca areia depois do Juramento, no alto da serra, permite vislumbrar um dos mais belos panoramas das Minas Gerais, por onde passaram Fernão Dias e seus homens.
Lassance é caminho, ou era, da Estrada de Ferro Central do Brasil, percorrida por milhões de brasileiros durante os longos anos em que a ferrovia os serviu, diminuindo distâncias entre os mundos interiorano e o metropolitano.
Nas ruas, porcos e galinhas fazem a festa de todos os dias, buscando alimentos no que sobrou dos almoços humanos, fuçando ou bicando aqui e ali, em substituição ou complemento ao milho. Nem se lembrarão as pessoas, com outras preocupações e horizontes, que há cem anos um médico nascido em Oliveira por lá andou e descobriu algo que a ciência desconhecia e surpreendeu o mundo. O Mal de Chagas começou a ser desvendado ali e, a partir de então, inventaram-se meios de combatê-lo, de evitar sua proliferação e muitas mortes.
Sempre que se estudar a Doença de Chagas, a vida do grande cientista que foi colaborador e dileto amigo de Oswaldo Cruz, se lembrará alguém da exígua Lassance, da estaçãozinha da Central, palco dos estudos de um brasileiro interessado no bem dos seus conterrâneos.
É mais, muito mais do que passagem dos trens da Central, uma pobre cidade rica em história, com habitações humílimas, de pessoas que, de tão tímidas, temiam os homens que desconheciam e desciam das composições, sonho de sucessivas gerações de mineiros e que um brasileiro decidiu conduzir pelos trilhos até muito longe. O cidadão se chamava Francisco Sá.
Em Lassance, há as doenças que vêm do passado, resultantes das mínimas condições de assistência à pequena população de 6 mil habitantes. E dos cães que abundam na área urbana, constituindo um risco constante de leishmaniose, enquanto permanece elevado o consumo de álcool por aqueles que nada têm a fazer, mas já surgindo o espectro cruel do crack, que não perdoa sequer tão dignos recantos de gente honesta.
Itacambira é outra síntese do Brasil, que não consta dos mapas e das preocupações dos poderes públicos. A última viagem que à cidadezinha, encravada entre montanhas, fez o poeta Cândido Canela (que se torna centenário neste agosto), foi comigo, há muitos anos, simplesmente para que eu conhecesse a cidade.
De lá, o engenheiro-pesquisador da História, Simeão Ribeiro Pires, levara múmias, removidas do porão da igreja matriz, que ele conservou em sua casa-museu, como relíquia de uma época sobre a qual ainda pairam grandes mistérios.
Nas imediações, não identificada, à suficiência, haveria a Serra Resplandescente, que excitou a imaginação dos Bandeirantes e de outros aventureiros em busca de riquezas, sobretudo as esmeraldas que foram o sonho e o pesadelo de Fernão Dias Pais.
A paixão científica de Simeão Ribeiro Pires e de Carlos Chagas não conseguiu sensibilizar os homens de governo. Os municípios de Lassance e Itacambira continuam cenários de carências. A esperança está fenecendo.




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14/12/14 - 9h47
"Esfriou um pouco, como antecipou a meteorologia, que agora aumenta as chances de chuva para M. Claros: 31mm neste domingo, 17 segunda, 10 terça, 15mm quarta e 67 milímetros de chuva quinta feira. Oxalá caia toda esta chuva, mansa e criadeira como está"


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