(...) Estou enviando uma pesquisa que fiz sobre Aracy de Carvalho,casada com João Guimarães Rosa. Irei apresentar este texto na Academia Arcádia de Minas Gerais, na próxima quarta feira. Aracy de Carvalho, a JUSTA - Maria Ribeiro Pires Baseio estas palavras no livro "JUSTA - Aracy de Carvalho e o resgate de judeus, trocando a Alemanha nazista pelo Brasil". É o resultado de grande pesquisa feita pela historiadora Mônica Raisa Schpun, fruto de depoimentos e entrevistas. A autora é doutora em História pela Universidade de Paris com pós-doutorado na Universidade de Milão. Ela relata a grande amizade entre as duas mulheres, Aracy de Carvalho e Margarethe Levy, aproximadas pela tragédia da época. Aracy de Carvalho, brasileira, filha de pai português e mãe alemã, nasceu em Rio Negro, Estado do Paraná. Depois, viria morar em São Paulo. Recém-separada do marido embarcou em cinco de março de 1934 no navio Monte Pascoal com o filho de cinco anos Eduardo Tess, com destino a Hamburgo. Aracy passou a viver algum tempo em Hamburgo com uma tia alemã irmã de sua mãe. Um dos seus primeiros desejos foi comprar um carro e aprender a dirigir. Dominando perfeitamente o francês e o alemão, conseguiu trabalhar no consulado brasileiro, onde quatro anos depois conheceu o cônsul adjunto João Guimarães Rosa, com quem teria uma ligação amorosa e uma vida conjugal até a morte do escritor. Casaram-se no México. Maria Margarethe Bertel Levy, nasceu em Hamburgo e tinha 97 anos quando deu essas informações a autora deste livro. Estava lúcida e falando um excelente francês. Filha de mãe russa e pai polonês, Margarethe foi casada com o dentista Hugo Levy. O casal decidiu não ter filhos e levava uma vida sofisticada, viajando muito. Ela era rica, falava sete idiomas, cosmopolita e integrante da elite de Hamburgo. Ambos eram judeus não praticantes, liberais e seu marido atendia a todos em seu gabinete dentário, em pleno coração de Hamburgo, sendo alemães ou judeus. O casal foi considerado como membro de "raça inferior" pelos nazistas e decidiu sair da Alemanha para o Brasil. Com o aumento das atividades anti-semitas com os judeus, apresentadas por Hitler em Nuremberg no congresso do Partido Nazista em setembro de 1935, Margarethe e Hugo Levy apresentaram-se ao consulado Brasileiro de Hamburgo, solicitando vistos para o Brasil. Assim, conheceram Aracy, chefe do setor de passaporte. Is to foi conseguido com dificuldades e realmente conseguiram partir para São Paulo em 1938. Como era diferente a vida das duas - Margarethe, mulher de grande riqueza e Aracy trabalhando e cuidando do filho. Em meio a tantos obstáculos aconteceu uma grande amizade entre as duas, o que as uniria por toda a vida. Como no caso de Margarethe e Hugo, Aracy conseguiu a concessão de vistos para centenas de judeus, correndo sérios riscos de ser demitida e entregue à Gestapo. Pelo ato de coragem, compaixão e solidariedade, salvando a vida de inúmeros judeus, Aracy de Carvalho foi homenageada em 1882, com o título de "Justa entre as Nações" concedido pelo Museu do Holocausto de Jerusalém. No dia 28 de abril de 1982, ela já estava em São Paulo e, comovida, recebeu a medalha do Holocausto. Dentre os 20 mil "Justos" reconhecidos, 30 eram diplomatas em postos na Europa nazista. Desses trinta, dois são brasileiros e uma única mulher, Aracy de Carvalho. O outro é Luiz Martins de Souza Dantas, ex-embaixador do Brasil em Paris. Aracy deu uma entrevista ao jornal Resenha Judaica por ocasião de seus 80 anos. Sua nora, Beatriz, estava ao seu lado e contou um fato que teria ouvido da boca de sua sogra. Trata-se de uma viagem que Aracy teria feito à Dinamarca, levando judeus em seu carro. Na fronteira, a polícia alemã quis revistar o carro, mas Aracy resistiu, levantando a voz e invocando a imunidade que sua placa consular lhe proporcionava. Aracy reafirmou depois: "não só lhe procurei conceder-lhes os vistos, como escondi alguns em minha casa e até no porta-malas do carro para atravessar a fronteira". O mistério permanece. Por que ir à Dinamarca? Talvez para levar dinheiro para o exterior. Parece que, nessa época, Hugo corria sério perigo e ficou algum tempo escondido em casa de Aracy. As providências para os vistos exigiam quinhentos contos de réis ao Brasil, para a assinatura prévia da autorização de desembarque, já que o casal fora considerado "capitalista" e Aracy desejava o visto permanente e não o de turista. Segundo Margarethe, o casal já tinha tirado seu capital da Alemanha. Ela comprara um carro novo e nova aparelhagem para o serviço de dentista do marido. Era necessária uma verdadeira manobra financeira para fugir do controle dos nazistas. A solução, segundo Margarethe conta, foi dada por Aracy que enviou a carta pelo correio diplomático, driblando a censura alemã. Sempre discreta e nunca recebendo presentes ou pagamentos dos judeus que ajudara em suas atividades, Aracy disse em uma de suas poucas entrevistas a respeito: "Nunca tive medo, quem tinha medo era Joãozinho. Ele dizia que eu exagerava, que estava pondo em risco a mim e a toda família, mas não se metia muito e me deixava ir fazendo". Aliás, João Guimarães Rosa afirmava que tinha pena e gostaria de salvar a vida dos miseráveis judeus. São palavras de Aracy: "O Joãozinho, é claro, atendia a todos os pedidos de boa vontade. Ele sempre dizia "Se eu não lhes der o visto, essa gente acabará morrendo e aí vou ter um peso na minha consciência." Este livro retrata em riquíssimos detalhes o cenário com contexto histórico e social em que se misturam os primeiros anos do Terceiro Reich e a política restritiva imposta por Getúlio Vargas sobre a entrada de judeus no Brasil. Estimulada pelo Livro"Justa", procurei compreender melhor a tragédia sofrida pelos judeus na época nazista. Fiz pesquisas sobre a chamada "Noite de Cristal". Aprendi: nas noites de 9 e 10 de novembro de 1938, numa manobra cuidadosamente orquestrada por Joseph Goebbels - o chefe da propaganda nazista por toda Alemanha e recém conquistados territórios da Áustria e Checoslováquia, as populações judaicas foram vítimas de atentados e ataques continuados nas ruas e em suas casas e nas sinagogas, naquela que seria a maior tragédia da história. Pelo menos duas mil sinagogas e perto de oito mil lojas e escritórios foram incendiados. Mais de trinta mil judeus foram presos e enviados a campos de concentração. Para os judeus alemães, as restrições haviam começado muito antes da "Noite de Cristal" e leis e medidas anti-judaicas eram já aplicadas há vários meses. Entre as numerosas diretivas, os cidadãos judeus eram obrigados a declarar todos os bens, suas empresas e pequenas lojas ti nham de ser registradas e expressamente sinalizadas; os inquilinos judeus perderam todos os seus direitos legais; médicos, advogados e professores judeus foram proibidos de exercer suas profissões. Todos os judeus alemães passaram a ser obrigados a possuir um passaporte especial, marcado com um "J" e um nome próprio foi acrescentado a cada judeu: "Israel" para os homens e "Sarah" para as mulheres. A "Noite de Cristal" foi uma bofetada no rosto da Humanidade, como lhe chamou Elie Wiesel. Mas o mundo ignorou os sinais e voltou o rosto. O Holocausto estava à porta. O termo "Justo entre as Nações" existe desde 1953 e é dado a não judeus que se arriscaram para salvar judeus durante o genocídio nazista. O termo "Justo entre as Nações" é a tradução de uma expressão hebraica de origem rabínica referente aos não judeus que acreditavam em Deus e exprimiam uma atitude amigável em relação ao povo de Israel. Mesmo após as dificuldades da saída da Alemanha para o Brasil, ainda havia o problema do visto temporário de três meses - vistos de turistas. Passado esse tempo, os portadores eram tratados como clandestinos. Isto implicava em diversas dificuldades de ordem prática, como o trabalho. Os judeus não eram afeitos à agricultura. Eram urbanos. Além disto, Aracy ainda ajudou a resolver problemas de ordem financeira para os seus amigos judeus. Ela mesma trouxe, em um saco, jóias e pertences e conseguiu com amigos da aduaneira que o casal Levy fosse menos importunado ao desembarcar no Brasil. Coisas estranhas acontecem. Um alemão levou em Hamburgo ao consultório dentário de Hugo Levy a notícia de que se apressassem, pois o perigo estava prestes a desabar sobre eles. A explicação que Margarethe dá para esse procedimento é que a mãe de Hugo tinha dado o seio ao alemão quando ele nascera. Conta ainda que os seus cabelos foram tingidos e que, felizmente, tinha o nariz pequeno ao contrário do que caracterizava o rosto dos judeus de nariz adunco. Madame Levy repetia esta história diversas vezes, plenamente convencida de que seu novo aspecto físico tinha sido uma defesa importante. Margarethe diz que sua mãe demorara em uma viagem à Polônia e em seu retorno fora assassinada. O celebrado médico e escritor João Guimarães Rosa, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras a seis de agosto de 1963, sendo recebido por Afonso Arinos de Melo Franco em 16 de novembro de 1967. Guimarães Rosa faleceu três dias depois, em 19 de novembro de 1967. Sempre discreta, Aracy de Carvalho não se preocupou com toiletes para posse do seu famoso marido nas lides literárias, como membro imortal da Academia Brasileira de Letras. Por insistência de Margarethe, Aracy usou um vestido preto e um colar de pérolas. Depois do falecimento de Guimarães Rosa, Aracy ainda viveu alguns anos em casa de seu filho e nora no Rio. No dia da morte do marido ela estava justamente assistindo uma missa na Igreja de Nossa Senhora de Copacabana. Sua vida tornou-se silenciosa, discreta e cercada por amigos reconhecidos. Aracy morreu aos 102 anos em três de março deste ano de 2011, poucos dias depois da morte de sua amiga Margarethe. Ela sofria de Mal de Alzhimer. Guimarães Rosa dedicou-lhe o seu livro "Grandes Sertões Veredas", escrito em 1956. Diz assim a dedicatória: "À Aracy, minha mulher Ara, pertence este livro". Aracy deixou quatro netos e oito bisnetos Perdão, Aracy não morreu. Ficou encantada como dizia João Guimarães Rosa.
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