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montesclaros.com - Ano 23 - sexta-feira, 9 de junho de 2023


Ucho Ribeiro    [email protected]
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Por Ucho Ribeiro - 26/10/2022 10:11:04

DARCY RIBEIRO COMO EU O VI

Ucho Ribeiro

Darcy teve muitos couros na vida, trocou de peles diversas vezes. Dedicou-se apaixonadamente a vrias atividades - foi educador, antroplogo, socilogo, romancista, poltico, indigenista... e namorador. Escrever sobre Darcy no tarefa fcil e nem sou eu a pessoa adequada para tratar de cada uma de suas paixes, obras e ardores. Seus frutos, partos e legados j esto muito bem registrados e divulgados em vasta produo bibliogrfica essencial para o entendimento da cultura indgena e da formao do povo brasileiro.

Farei um simples depoimento de como era a relao familiar de Darcy e como foi minha vivncia com ele. Relatar que na infncia havia a expectativa de reencontrar o tio doido, que tinha histrias inventivas para as cabecinhas da meninada e planos mirabolantes e audaciosos para a carranquice dos adultos de Montes Claros.

Relembro de muitos fatos, desde a minha primeira visita ao apartamento dele em Copacabana, cheio de artefatos indgenas, quando tomei conscincia que ndio no era bugre, nem bicho, mas um humano muito criativo. Recordo tambm de suas visitas terra natal e da procisso de gente norte mineira curiosa para ouvir o falatrio destrambelhado e otimista do ministro da casa civil sobre o futuro - do Brasil que poderia ser, que haveria de ser. Viva ainda est nas minhas memrias a viagem ao Uruguai, para visit-lo no exlio. Em Montevideo, meninote, assisti, caladssimo, o seu encontro com Jango, Brizola e Waldir Pires, para tratar de assuntos assisados, incompreensveis para minha pouca idade. Depois, quando ele voltou para o Brasil, em 1968, e foi preso na Ilha das Cobras. Revivo o medo do mano Fred e o meu de mos dadas com a coragem de Tia Berta para visit-lo num quase calabouo no presdio da Marinha. Temor que s se abrandava quando o vamos e ouvamos as suas historietas ledas e espetaculosas.

Poderia contar uma srie de passagens de sua vida pblica, como quando ele voltou em 1974 para ser operado de cncer e a sua insistncia em permanecer no Brasil. Ou mesmo, aps a anistia aos presos polticos, quando Brizola e ele foram candidatos vitoriosos ao governo do Rio de Janeiro e, posteriormente, sua candidatura ao senado.
Seria descomplicado arrazoar pontualmente sobre cada uma das suas obras no Rio de Janeiro e no Brasil, mas para mim o mais interessante lembrar do que ele falava imaginosamente no cotidiano. Darcy no teve cabresto, no teve rdea, talvez pela ausncia da figura paterna em sua criao. Perdeu o pai, Reginaldo Ribeiro, aos 3 anos. Portanto, faltou-lhe a presena da autoridade. Nunca sofreu o mando sobre ele e, por no ter tido filho, no precisou exercer o julgo. Sentia-se uma pessoa livre, solta que tinha como caracterstica maior no se exercer como pai, sua despreocupao em sustentar uma famlia, em gastar tempo com educao de filhos ou deixar patrimnio material. Cheguei a ouvi-lo dizer que sempre seria um servidor do estado e, por conseguinte, no precisaria criar nenhuma riqueza.

Darcy era o inusitado, irreverente at o topo. Nunca podamos imaginar o que ele iria falar e qual seria a sua conduta para um fato corriqueiro. No era um comportamento habitual. Normalmente ele tinha uma viso diferente, uma tica dessemelhante para tudo. Quando indagado sobre qualquer assunto, a resposta era sempre inesperada e, algumas vezes, incompreensvel ou at mesmo dura. Cabia a ns decifrar o rebate, pois sempre cutucava, mexia, questionava, ou, no mnimo, nos provocava o pensar.

O admirvel sobre Darcy era sua erudio. Ele falaria uma tarde inteira sobre galinhas assim como discorreria o dia todo sobre islamismo, mecatrnica ou mesmo sobre minhocas. Por outro lado, ao encontrar algum que dominava algum tema, fazia questo de ouvi-lo e, se interessasse, ficava horas conversando, extraindo exausto todo conhecimento do sujeito.

Lembro-me que Darcy, certa vez, encontrou com um senhor que havia sido condutor de tropa (arrieiro, cometa), profisso que existia antigamente. Como no tinha domnio sobre as vivncias e habilidades desses bruaqueiros, esmiuou tudo, perguntou detalhes de cada aparelho e ferragem dos tropeiros. Guardava, sem anotar, todas as informaes. Sua memria era fabulosa.

poca em que eu fazia mestrado no Cear, comuniquei a meus pais a inteno em transferir-me para a Fundao Getlio Vargas no Rio de Janeiro. Passado alguns dias, surpreso, recebi uma carta de Darcy. Achei interessante que, logo no comeo, ao me saudar, ele explicou a origem do meu apelido Ucho, corruptela de Marucho, filho de Mrio. Elucidou a etimologia de Uxor, relativo a mulhero, e professorou conhecimentos do idioma grego e de latim. Em seguida, disse que iria para a Europa a estudos. Inicialmente para Inglaterra, a fim de entender por que os negros nunca se consolidaram por l, por mais que os ingleses estivessem frente do comrcio de escravos. De Londres iria Espanha, investigar por que os catales e os bascos insistiam em se separar da Espanha e qual a causa de os povos da pennsula Ibrica quererem tanto se apartar? Iria dedicar a fundo quelas pesquisas. No meio da carta, logo depois de explicitar seus interessantes estudos e preocupaes, escreveu: bem, mas no esse o objetivo desta carta. Estou lhe escrevendo porque seu pai me pediu que eu lhe aconselhasse a no largar o seu mestrado, lhe convencesse termin-lo bem e voltar para Montes Claros..., para casar-se com uma montesclarense, uma mineirinha, arranjar um empreguinho num banco e morrer de medo de ser cornudo. Mas voc faz o que bem entender e me liga para dizer o que est pensando da vida. Darcy sempre nos catapultava, nos lanava para a vida. Continuamente o seu questionamento era um alerta, ou um incentivo pra gente abrir os olhos e dizer: Aah!

Lembro-me que, jogando baralho, quando ele precisava de certa carta, comeava a solfejar uma msica indgena H Eeia r rei A rei rei r Heinah!. Dizia que era para dar sorte. Outras vezes, Darcy blasfemava para conseguir a carta: Exu... Exu... Exu... vai tomar no cu, Exu. Exu vai tomar no cu. A irreverncia dele nessas brincadeiras era imensa. Mas gostava mesmo era de ensinar, de nos desasnar. Porm, quando perguntvamos muito, durante longo tempo, ele se enfastiava e dizia: ... vamos parar por aqui, porque eu preciso pensar. Meu trabalho pensar, necessito de silncio, tenho que refletir sobre algumas coisas. E, professava, pensar cansa e di e eu ganho para isso, para pensar.

De vez em quando ele aparecia para passar com a famlia um final de semana, um feriado, e sempre havia uns fartos almoos. No raro, minha me ou algum parente falava , gente, vamos agradecer, rezar alguma coisa. Darcy no dava muita bola para esses ritos religiosos. Ficava na dele, mas, s vezes, alguma visita inadvertidamente dizia: ah... Darcy podia rezar pra gente. A, meu pai retrucava, no mexe com Darcy no, deixa Darcy.... Mas insistiam: No... no, Darcy, reza a. Ele, ento, rebatia assim: ... eu rezar o que? Eu no acredito em Deus! No acredito por culpa Dele! Ele no onipotente, onipresente? E destrambelhava, olhando para o cu: Deus, voc podia ter me dado f, mas no me deu, a culpa sua. Voc no o todo poderoso? Eu podia estar aqui igual todo mundo, morro de inveja desse pessoal que acredita em Voc, que tem f, mas eu no tenho e a culpa unicamente sua. Se quiser que eu passe a respeit-lo, eu posso at propag-lo, mas antes disso ter que me dar f, mas como Voc nunca me deu..., estou aqui aguardando.

Curioso que Darcy no escrevia os seus livros, nem a mo, nem mquina, pois no sabia datilografar, como tambm no sabia dirigir autos. Ele ditava suas publicaes... se sentava numa posio de yoga, com as pernas cruzadas em um sof especial do apartamento e ditava o texto para um gravador que ficava no seu colo. Passvamos longe para no incomod-lo. Era capaz de passar trs, quatro, cinco horas falando em voz alta. Depois suas secretrias colocavam aquelas fitas no aparelho de toca cassetes e, enquanto ouviam, registravam tudo que foi dito. Lembro-me de um pedalzinho que parava a fita, para pausar o udio enquanto as anotaes eram feitas. Tudo era datilografado em espao dois e o primeiro texto escrito era entregue a Darcy para as devidas correes. Eram dias inteiros naquele trabalho: gravar, digitar, corrigir, revisar, datilografar de novo. Quando ele estava em casa, trabalhava o tempo todo. Nunca vi algum trabalhar tanto e ser to ocupado. Era um cara diferente, genial, criativo e afoito. Ousava ter ideias prprias, em vez de ser um aplicado comentarista das ideias alheias. Meu pai dizia, , Darcy, voc no foi parido por minha me, voc foi fundado, teve fita para cortar e banda de msica.

Enfim, o importante que Darcy era um homem de fazimentos, era um homem que no se aquietava hora nenhuma. Ele sempre dizia: eu s descanso fazendo outra coisa. Quando estou cansado de alguma coisa, eu passo a fazer outra. Ele era uma pessoa que gostava de fazer, de construir, de realizar, tanto que idealizou, fundou e co-fundou o Museu do ndio, o Memorial da Amrica Latina, o Parque Indgena do Xingu e a Universidade de Braslia - UnB. No Estado do Rio de Janeiro, criou a Universidade Estadual do Norte Fluminense, idealizada para ser a Universidade do Terceiro Milnio; o Sambdromo, a Casa Laura Alvim, a Casa Frana Brasil e a Biblioteca Pblica do Estado do Rio de Janeiro. Tombou 100 quilmetros de praias do litoral sul fluminense e implantou a fbrica de escolas, alm de elaborar a Lei de Diretrizes e Bases da Educao.

A maior das suas paixes foi a educao. Era indignado com a educao brasileira. Advertia que, em todo o mundo, o ensino fundamental era em tempo integral. No existia no planeta escola de meio horrio, aula s de manh ou s tarde. Darcy escancarava que nenhum pas decente tem menor abandonado. No Brasil, voc no v carneiro, porco ou bezerro abandonado, mas criana abandonada, sim. Isto a coisa mais triste do mundo!

Nos governos de Brizola, Darcy dedicou-se implementao dos 506 Centros Integrados de Educao Pblica (CIEPs), que ofereciam educao em tempo integral e gratuita para crianas e adolescentes de baixa renda do Rio de Janeiro. No perodo da manh os alunos tinham aulas das disciplinas regulares e, no perodo da tarde, recebiam reforo escolar, formao tcnica profissional, esportes e educao artstica. Alguns dos CIEPs atuaram como casas de amparo s crianas de rua. Os governos posteriores repudiaram o projeto de Darcy e deixaram de investir nos CIEPs. Os prdios foram transformados em escolas comuns da rede estadual de ensino e o sonho da escola pblica de tempo integral foi ignorado. Resultado: a profecia de Darcy se tornou realidade: Se nossos governantes no investirem em escolas, em 20 anos faltar dinheiro para construrem presdios.

Sua maior repulsa era a esses prefeitinhos que desviam dinheiro da educao, que tm a obrigao de gastar vinte e cinco por cento da receita municipal na educao e gastam o dinheiro com outra coisa ou roubam a merenda. Darcy tinha verdadeira averso a essas pessoas.

O melhor de Darcy era o amor pela vida, a alegria de viver. Ele ficou muito aborrecido quando soube que findaria. Tinha mil coisas para fazer e indignava-se com aqueles que se acomodavam e deixavam a vida passar. Ele daria tudo para ter mais um ano de vida, e realizar mais alguns projetos.

Darcy nos comovia, instigava-nos a viver, a acreditar que podemos melhorar o mundo, que o Brasil a grande nao, que esse pas poderia ser passado a limpo. Despertava nossas conscincias ao afirmar que o Brasil j a maior das naes neolatinas, pela magnitude populacional, e comea a s-lo tambm por sua criatividade artstica e cultural. Precisa agora s-lo no domnio da tecnologia da futura civilizao, para se fazer uma potncia econmica, de progresso autossustentado.

Vaticinava que a Amrica Latina ser a nova Roma, uma Roma melhor, porque lavada em sangue ndio, em sangue negro e que as grandes transformaes, mesmo com tantos deslizes, iro surgir e florescer nessa nova civilizao, mestia e tropical, que est sediada na provncia mais bonita, mais generosa, mais fraterna do universo.
Enfim, o seu maior legado foi o amor vida, ao Brasil, a Amrica Latina, a tudo.


* Ucho Ribeiro sobrinho de Darcy, filho do ex-prefeito de M. Claros, Mrio Ribeiro, e depois, por sua vez, vice-prefeito. funcionrio aposentado da Receita Federal.


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Por Ucho Ribeiro - 13/4/2022 08:08:14

HAROLDINHO, L`ENFANT TERRIBLE

Hoje morreu-me mais um. E este foi um dos bons. Do corao. Meu irmo, meu amigo, meu irreverente mentor, meu "open mind". Leu tudo, sabia de tudo, porm exorbitava ao dar a sua interpretao para a vida, pois desprovia de toda e qualquer praticidade. Delirava em ideias e projetos para o mundo, cabea nas nuvens. Nunca aterrissou, no tinha os ps no cho.

Todo amigo porreta e a grande merda de envelhecer ver os nossos especiais morrerem. Mas Haroldo Costa Tourinho Filho, Cabs, Cabaret, foi um desses admirados no s pela cmplice amizade, mas pela audcia. Creio que seu atrevimento veio por ser um beatlemanaco de primeira hora. A proposta inicial da banda inglesa era causar incmodo. Haroldo, f incondicional, baterista, ficou insolente como os beatles, e pra ns, mais jovens, aquilo tudo era divertido e corajoso, pois no deixava de ser uma voz contra a autoridade careta.

Desafiava os mais velhos e ironizava a carranquice curraleira de Montes Claros. Alertava-nos que o mundo estava a virar de ponta a cabea e caoava a rapaziada da terrinha que achava a Exposio Rural o maior espetculo da terra. Haroldo vivia sintonizado no mundo, estava ligado no desenrolar dos protestos estudantis em Paris, na guerra do Vietnam, em assistir a pea Hair, em vadiar por Piccadilly Circus, Trafalgar Square e Soho em Londres, em assistir um show de rock no Cavern Club, em saber sobre os lisrgicos tours no Central Park em New York, e, principalmente, onde conseguir o ltimo lbum dos Beatles ou dos Rolling Stones.

O conheci em maro de 1974, ele morava na rua da Bahia, em frente ao Cine Guarani em Belo Horizonte, no quarteiro do Maleta. Meses depois, com a minha ajuda para carregar sua copiosa discografia e biblioteca, mudou-se para a rua Guajajaras e passou a ser meu vizinho. Quando eu no estava na faculdade era certo me encontrar em seu apartamento sempre numa conversa plural a palpitar sobre os grandes problemas do mundo. Cinfilo como eu, amos ao cinema com frequncia e de l empoleirvamos em algum bar para fazer a resenha do filme. Antes da meia noite eu pegava o caminho de casa e Cabaret continuava pela madrugada adentro. No dia seguinte, eu acordava e ia para a faculdade e ele matava aula, pois dormia a manh inteirinha, abraado aos livros.

Era urbano, citadino, bomio, noctvago, como tantos dos meus melhores amigos. Um espcime raro em extino. Tinha uma sapincia vadia, sem objetividades, molstia comum de um segmento da intelectualidade mineira, que tudo quer ler, de tudo quer saber, por pura fruio. Para esta casta letrada o saber no tem serventia para o que funcional, prtico. Haroldo era erudito em todas as nuances e sutilezas, mas com arrogncias afloradas medida que o grau etlico aumentava. No era algum que dava palpite raso, como muitos senhores do achismo. Falava com conhecimento profundo, porm quando avinhado dava aflio v-lo manifestar sua opinio, muitas vezes desmedida. Abusava de toda a sua erudio para participar de um bate papo trivial num boteco, ficava prolixo e tornava o papo enfadonho. Sabia o suficiente sobre direito, poltica, arte, literatura e qualquer outro assunto que no fosse vulgar. Por diversas vezes o ouvi aniquilar certas pessoas nscias com uma frase, embora o ofendido por ignorncia no entendesse o tiro certeiro e devastador. Haroldo foi uma mistura de Roniquito Chevalier e Charles Bukowski tupiniquim. Sbrio, era um gentleman. Bbado, ficava destemido, adotava um temperamento belicoso. Ningum podia ser patife perto dele. Os conhecidos no ousavam, pois seriam desmascarados. No raro, Cabaret levava uns esbarros de alguns chucros desvelados.

O seu conhecimento era de uso frvolo, especulativo, imaginoso, no o utilizava para a gesto da sua vida e do seu sustento. Foi um prdigo. O que tinha gastava hoje, no tinha amanh. Viveu a vida conforme suas concepes, audacioso e petulante, sem hipocrisias. Sempre de cabea em p, orgulhoso. Eu invejava sua coragem.

Fui seu padrinho de casamento e ele o meu primeiro empregador, quando ocupou um elevado cargo no Ministrio da Educao, em Braslia. Eu era seu funcionrio amanuense durante o expediente e assduo parceiro de gole noite. Muito do que eu escrevi, Haroldo copidescou com maestria. Era um bamba na pena. Certamente deve ter muita coisa escrita e guardada no seu apartamento. premente achar os seus originais e public-los. Sua responsabilidade, viu, Henrique!

Na quarta-feira, 23 de maro, como fazia sempre, encaminhou-me copiosa postagem da Folha de So Paulo e, em seguida, pediu-me para ser internado no Hospital Aroldo Tourinho, pois estava fraco, com dificuldades para respirar. Liguei para o provedor Paulo Cesar Almeida, que foi de uma ateno desmesurada, gentilssimo. Haroldinho, ao chegar no hospital, mandou-me sua ltima mensagem, em gratido: queixo cado com o apartamento do PC: geladeira sof, poltrona, netflix, terrao...estou no cu. Horas depois, seria encaminhado para o CTI e intubado. Adiou o que pode o seu internamento, s pediu ajuda no finalzinho para preparar o seu mergulho para a morte que o vinha cercando fazia tempo, com toda a naturalidade de quem sabia que chegara a hora de reciclar-se para a vida eterna.

Parodiando Mario Varga Llosa, o mundo dos rebeldes com frequncia pago com os seus desejos, mesmo sem desistir deles. A vida no a busca de um ponto de chegada, mas a degustao de uma srie infinita de caminhos, de encruzilhadas, de decises e dilemas. Para estes sonhadores no h ponto de chegada, apenas um caminho ao longo do qual eles querem continuar. A vida se sustenta em seu prprio curso, em seu prprio movimento. O importante no chegar. O importante so as descobertas, as experincias, as aventuras da jornada. O que os enriquecem, o que os fortalecem e o que os fazem ser verdadeiramente livres continuar a viagem.

Boa viagem, meu querido.

V em paz meu amigo, irmo, protetor, professor, guru, parceiro, afilhado, meu utpico sonhador. Descanse, menino, com todos os livros e alfarrbios do universo a sua volta, seus verdadeiros e grandes amigos, pois sei que voc levou mais horas da sua existncia lendo prazerosamente do que vivendo.

Um beijo terno do para sempre amigo Ucho.


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Por Ucho Ribeiro - 14/12/2018 10:28:40
VIVENDO DE AMOR

Ao escrever Cine So Luiz, meu Cinema Paradiso contei que o padre da cidadezinha italiana, onde se passa a histria, censurava os filmes a serem exibidos, por questes morais e religiosas. Exigia que todas as cenas de beijo, por ele consideradas obscenas, fossem cortadas pelo projecionista Alfredo.

Aqui no Norte de Minas, aconteceu um fato semelhante.

Antigamente, como havia dito, antes de iniciar a exibio do filme, tocava-se um prefixo musical para alertar a plateia que o espetculo iria comear. Numa vizinha cidade, que por discrio no cabe mencionar o nome, a msica executada no era sempre a mesma, como em Montes Claros. Tocavam-se os Tops das paradas de sucessos das rdios. O pblico ao entrar no cinema, informava ao bilheteiro a cano que gostaria de ouvir, e este avisava ao operador da cabine de projeo a mais votada para ser tocada na possante vitrola radiofnica.

Naquele ano, 1960, o sucesso das paradas era um antigo sambinha, composto em 1936 por Lupicnio Rodrigues, mas muito bem revigorado na voz da promissora cantora Elza Soares Se acaso voc chegasse. Nome do seu primeiro long play.

A rapaziada, ao entrar no cinema, pedia bota a Elza para ns. O refro da msica dizia: De dia me lava a roupa... de noite me beija a boca, e assim vamos vivendo de amor.

O velho sacerdote da cidade, ranzinza e moralista, tinha pavor do me beija a boca, e do vivendo de amor. Nos sermes, desancava a cano e a pouca vergonha da letra. Vetou sua execuo nas quermesses, nos leiles e proibiu de tocarem a msica nas sesses de cinema.

A revolta foi geral. Na igreja e nas quermesses o padre mandava, mas no cinema j era demais. O povo protestou e decidiu que, se no voltasse a tocar o disco da Elza Soares, todos deixariam de assistir os filmes.

O dono do estabelecimento, vendo que seu negcio ia naufragar, entrou num acordo com o sacerdote. Uma censura pontual. Levou o padre at a cabine de projeo, mandou tocar o disco e, com o dedo marcou o exato momento do beija a boca. Retirou o LP do prato e, em seguida, entregou ao padre uma tesoura para que ele fizesse um pequeno risco na parte pontuada. Feito o servio, o proprietrio do cinema consultou o sacerdote:

- Pronto, Reverendssimo? Agora podemos tocar o disco?

O padre, todo inchado, vitorioso, autorizou: - Pode!

Na sesso daquela noite, sala cheia, todos na maior expectativa, depois de terem votado quase unanimemente no sucesso de Elza Soares, caram na gargalhada ao ouvir a msica.

A emenda ficou pior que o soneto. Com o risco do padre o sambinha ficou assim: ... de dia me lava a roupa..., de noite fuc, fuc, fuc..., e assim vamos vivendo de amor....



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Por Ucho Ribeiro - 3/12/2018 10:16:11
TEM GENTE!

A Vila das Formigas cresceu recheada da alegria das mulheres-damas. Nunca segregou ou delimitou a sua zona bomia. Casas de encontros, algumas exuberantes, ocupavam as ruas centrais do povoado. Putas de todos os quilates enxameavam livremente o comrcio nos dias de feira e, aos domingos, frequentavam as missas, mais para se mostrarem do que por religiosidade. Para chamar a ateno, chegavam com o culto iniciado, exalando o eterno pachuli e exibindo vestidos de sedas e rendas raras. As esposas dos cidados assistiam a tudo caladas, sem direito a pio ou resmungo, com os olhos invejosos na opulncia das vestimentas das raparigas dos seus maridos. Eram as mulheres dadivosas, sempre alegres, esperando...

Famosas putas marcaram poca em fases diversas da histria municipal, com os seus inesquecveis apelidos: Mariquinha do Arraial, Maria Serrana, Canarinha, Chiquinha Baronesa, Douradinha, Aninha Parafuso, Mariazinha C* de Ferro e, ultimamente, Roxa, Leobina, Zinha, ... Em sua obra, Guimares Rosa conta sobre a contumaz fartura bomia montes-clarense e chega a destacar, na novela Do-Lalalo (Corpo de Baile), o romance de Soropita, vaqueiro e ex-jaguno que, apaixonado pela faceirice sensual da militriz Doralda, mulher que o estado de um perfume, a retira de um bordel de Montes Claros para fazer dela sua esposa.

A atual rua Padre Teixeira, em tempos idos, chamou-se rua da Raquel, por nela residir uma cobiada dama, com sangue hebraico, que o povo dizia ser turca. Ela veio do Recife para a Vila das Formigas, amasiada com um vigarista, jogador de baralho que, depois de limpar muitos patos, foi flagrado em trapaa e acabou espetado numa casa de jogo.

Raquel, desimpedida, sentiu-se livre para disponibilizar os seus atrativos e seu irresistvel poder de seduo. Passou a atender, reservadamente, cavalheiros recatados e abonados. Com o tempo, sua fama propagou-se devido s lascivas e exclusivas peripcias, prticas desconhecidas do mulherio local do meti.

Raquel residia defronte ao escritrio de Waldemar Tic-tac, contador metdico e obcecado em controlar tudo sua volta. De olho no relgio, sabia o horrio da chegada e sada de todos os funcionrios do comrcio e fazia um verdadeiro rastreamento na rotatividade da madama. Os clientes dela tinham horrios pr-estabelecidos de permanncia, hora e meia, e a entrada a sua casa era precedida por uma batida na porta com um repique em cdigo previamente definido. Batida certa, toc-toc, totoc, porta aberta.

Certa feita, um mancebo erado do Brejo das Almas, atrado pelas prendas da loba hebraica e desavisado, veio bater sua porta sem prvio agendamento. Batia, dava um tempo, batia de novo e nada... Waldemar Tic-tac, do lado oposto da rua, j registrara pela janela do escritrio que um velho fregus havia entrado na casa alguns minutos antes e devia estar a desfrutar o seu tempo. Assim, ao ver o rapaz insistir nos batimentos, no se conteve e bradou:

Oi! Pst! Psiu! moo, no tem ningum a, no!
, parece que no, mesmo... Eu bato e ningum responde.
Ora, desconfia, rapaz, se voc bate e ningum atende, porque tem gente! Xispa!



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Por Ucho Ribeiro - 27/11/2018 16:48:55

Cine So Luiz, meu Cinema Paradiso

UCHO Ribeiro

A maior diverso da minha infncia era o cinema. Fonte de riso e alegria. Queria ver todos os filmes, porm, a rotina de escola, deveres escolares, catequese-cruzadinha, interminveis missas e a pouca idade para assistir a certos filmes, impediam-me de realizar o sonho. Tudo precedia ao cinema:

- Voc s vai matin depois de estudar...
- Se no tirar nota boa, nada de filmes...
- Cinema, s depois de ouvir missa e comungar...

O pior castigo era ser privado do prazer de sonhar e deliciar-me com as histrias cinematogrficas. Hoje, com a tecnologia do "streaming" e "download", os meninos veem os filmes que quiserem, a qualquer tempo, sem nenhuma restrio ou censura. Fico a imaginar se, nos velhos tempos, tivssemos mo a "Netflix", "Amazon Prime", o "You Tube", as redes sociais, o que seramos atualmente? Para termos acesso a uma putariazinha mnima, tnhamos que conseguir algum exemplar do catecismo do Carlos Zfiro, coisa das mais difceis e sigilosas do mundo. Atualmente, a crianada tem tudo, o possvel e o inimaginvel, na palma da mo, atravs de seus celulares e "tablets".

As sesses do So Luiz aconteciam s 16 e s 20 horas. Nos finais de semana, havia as sees extras de 14 e 22 horas e, especialmente, aos domingos, passavam filmes s dez e meia da manh, para pegar a garotada saindo das missas.

Lembro-me na igreja, o corpo presente, mas a mente mirabolando longe, no tiroteio dos faroestes, no futebol do Canal 100 ou nos outrora filmes bblicos Ben Hur, Sanso e Dalila... A entrada dos cinemas era inundada de crianas a espera do espetculo. Umas teatralizavam o que veriam, com todos os gestos, uivos e bang-bangs; outras trocavam figurinhas do ltimo lbum e algumas expunham nas caladas os seus gibis, j lidos, para serem comercializados. Vendiam apenas o suficiente para obter o dinheiro do ingresso.

Terminada a missa, eu saa da Matriz direto para o So Luiz. No desviava um passo do trajeto. Tinha uma "permanente", entrada franqueada concedida s famlias scias dos cinemas. Subia correndo a escada lateral, que levava ao segundo piso, onde ficava a sala dos mistrios - o recinto da projeo era um tero pra mim. Ali, sentia-me protegido, confortavelmente instalado, observando e descobrindo detalhes no que eu mais amava, a mgica cinematogrfica.

Ao adentrar a ilha, cumprimentava Osmar, o projecionista do filme, que era o meu Alfredo do Cinema Paradiso. Ele, quase sempre calado, me respondia com leve aceno de cabea e continuava a revisar os rolos do filme a ser projetado.

Naquela poca, um filme de quase duas horas, ocupava entre cinco a seis rolos de fita. A sala de projeo possua normalmente dois projetores, que se revezavam. Colocavam-se os dois primeiros rolos nas mquinas e, medida que um terminava, era logo substitudo pelo seguinte. Enquanto um rolo era projetado, o outro era carregado pelo operador.

Ficava encantado com Osmar tirando o filme da bobina e colocando-o no projetor. Os furinhos nas laterais da pelcula se encaixavam nas rodas dentadas da mquina, que iam puxando a fita e fazendo cada fotograma do filme parar diante da luz e se tornar imagem. Era tudo ligeiro e misterioso. E o mais incrvel foi entender a explicao de Osmar:

- A cada segundo, 24 fotogramas passam pelas lentes e essa a velocidade que faz com que a imagem parea estar em movimento. Bingo! Ali estava a mgica.

Para quem assistia ao filme, sentado nas poltronas, era tudo fantasia: luz, som e sonho. Mas eu, na sala de projeo, via a luz passar pelo obturador, a plaquinha de metal que, segundo Osmar, antes de iluminar o filme, girava e bloqueava a luminosidade durante a passagem de um quadro a outro. Assim, durante a frao de segundo em que o fotograma ficava parado, era iluminado por uma forte luz emitida pela queima de um lpis de carvo, que se consumia incandescentemente. A fita entrava na mquina de cabea para baixo e, ao ser iluminada, passava por uma lente, onde a imagem era invertida e ento projetada na tela.

Descobri tambm que, durante a projeo, um aparelho lia o som a partir de uma faixa magntica afixada na lateral da pelcula, semelhante a uma fita cassete. Esse equipamento convertia as informaes em um sinal eltrico enviado a um amplificador que, por sua vez, mandava-o para os alto-falantes do cinema. Para entrar em sincronia com a imagem, o som ficava entre 19 a 20 frames adiantado. Da que aprendi a diferena entre a velocidade da luz e a do som.

Ao final de cada rolo, o filme era colocado em outra bobina, disposta em uma bancada, e ento eu ajudava o Osmar a rebobin-lo, girando a manivela para volt-lo ao comeo. Nessa bancada, utilizada tambm para cortes e remendos das fitas, era onde eu tinha acesso aos meus maiores tesouros: os pequenos pedaos das pelculas. Eram tiras com vrios fotogramas que o Osmar me dava ou eu sorrateiramente surrupiava. De posse dessas preciosidades e dos tocos dos bastes de carvo queimados, me sentia o tal.

Recordo muito das quebras das fitas, do barulho das mquinas, flaup-flaup-flaup, do claro da projeo na tela, das vaias dos espectadores, dos gritos Jac!, pois nesses momentos dos remendos dos filmes era que sempre sobravam umas tirinhas de pelcula para eu guardar e deliciar-me mais tarde.

Meu sonho era aprender a colocar a fita no projetor, mas isso o Osmar no deixava, e permitia apenas que, aps deixar o cinema meia-luz e recolher as cortinas, eu rodasse, no simplrio projetor lateral, o disco com slides de propaganda das lojas comerciais, ao som do prefixo musical Love Letters, by Victor Young(*). Com o tempo, essa tarefa tornou-se sem graa, mas, mesmo assim, sentia-me um assistente da arte cinematogrfica.

Hoje, mais velho, revejo sempre o filme Cinema Paradiso. uma carta de amor ao cinema e assisti-lo sempre uma alegria. Muitos amantes da stima arte classificam esse filme como o seu favorito, pelo enorme charme da histria, pela viso nostlgica dos vrios filmes mostrados na pelcula e pelo efeito que eles tm na vida de um garoto (Toto), que certamente o roteirista/diretor Giuseppe Tornatore. O menino cresce dentro da cabine do projecionista Alfredo e ao redor do cinema da cidadezinha italiana.

Entretanto, o mais encantador do filme est nas reminiscncias de Toto, que registra a vulnerabilidade de nossos sonhos e memrias. Ele lembra que o padre da cidade, o proprietrio do cinema, por questes morais e religiosas, censurava todos os filmes a serem exibidos, exigindo que todas as cenas de beijo fossem cortadas pelo operador Alfredo, tidas como obscenas pelo sacerdote.

Trinta anos depois, Toto, j homem feito, cineasta famoso, vai at a sua cidadezinha, ao velrio de seu amigo Alfredo, que lhe deixou um pequeno presente em uma lata de filme. A histria se encerra com a projeo da singela montagem de todos aqueles beijos proibidos recortados das pelculas. Uma cena repleta de momentos de paixo e sensualidade. Para mim, o mais belo e emocionante final de filme.

The End.

(*) Obs: Prefixo musical do Cine So Luiz (Dcada de 60): Love Letters, by Victor Young (https://www.youtube.com/watch?v=7JlKWWJdY7U).

Prefixo musical do Cine So Luiz (Dcada de 50): Jurame, de Mara Grever (https://www.youtube.com/watch?v=dZb8W-ln-jU).

Prefixo musical do Cine Ftima: Doucement, by Jean Paques (https://www.youtube.com/watch?v=4kR8TjHx8I8)


83675
Por Ucho Ribeiro - 19/11/2018 11:25:13
VADE RETRO

Aracy teve uma vida difcil. Nasceu numa famlia pobre, pai alcolatra, me caixa de supermercado, foi aluna de escola pblica suburbana e a nica filha no meio de quatro irmos, marmanjos que viviam toa.

A dura realidade a fez perceber que sonhos de bela adormecida e prncipes encantados no se realizariam. Entendeu, menina, que s o estudo lhe daria a chance de sair daquele fado de pobreza. Aps a escola, empacotava feiras no caixa da me, dando a ela as gorjetas recebidas para ajudar nas despesas da casa. Dedicava o tempo que sobrava s tarefas escolares e leitura.

O empenho nos estudos a fez arranjar emprego de escriturria numa contabilidade do subrbio. Ralava seis dias por semana, fazia horas extras e nunca tirava frias. Num dos seres, casta, caiu na lbia de um habitual galanteador, com promessas de casamento e vidinha do lar e acabou buchuda. Me solteira. Desabaram as quimeras e iluses.

Aracy isolou-se, pactuou-se com a amargura. Sua vida restringiu-se a educao de Esperana, sua filha. Ela, sim, teria uma vida de sucesso, seria bem casada, lhe daria netos e orgulho. Criou a mida com toda proteo e nos melhores colgios possveis, sempre a alertando sobre as maldades do mundo e a lbia dos garanhes indolentes. Nada de namoro, festinhas e ms companhias. A cada amizade que Esperana iniciava, era logo sabatinada sobre a origem e as intenes do pretendente.

Afora o seu diuturno trabalho contbil e a sua fiscalizao a rdeas curtas da vida da filha, Aracy se dedicava orgulhosa ao seu curso de advocacia por correspondncia e ao estudo do latim. No seu cotidiano, utilizava de frases latinizadas para alimentar seu ego e impressionar seus compartes contadores. At mesmo em casa abusava da lngua me para falar com a sua filha. Se a menina se preparava para sair, ela logo questionava:

- "Quo vadis", Esperana?

- Me, vou encontrar com uns colegas de escola.

- "Nota bene", o "status quo" no est mole, evite "persona non grata". Se eu te pegar "in flagrante delicto", voc vai ter comigo. Ningum vai abusar da minha filha. Voc veio ao mundo para bradar: "Veni, vidi, vici!". Lembre-se, sempre: "sine qua non" permanecer pura at o casamento!

Os anos passaram, Esperana, mesmo sobre viglia intensa, namorou, noivou e casou. Na despedida para a lua de mel, ouviu de Aracy: - Cuidado, todo o cuidado quando estiver "in natura" com ele. Se d ao respeito. Olha o "modus operandi" que te ensinei.

A viagem de npcias ocorreu sob uma expectativa imensa. Aracy nunca tinha ficado tanto tempo longe da filha e fez de tudo para no ligar e escarafunchar detalhes.

Na volta da sua cria, inquiriu sobre toda a viagem de npcias, at que fez a sua derradeira pergunta:

- E a, minha filha, "consummatum est"?

Esperana assentiu com a cabea, levantou as plpebras, e confidenciou com os olhos bem abertos:

- E "oeste", mame.


83660
Por Ucho Ribeiro - 12/11/2018 11:09:42
QUINCA

Quinca era um menino danado. Traquinas. Adorava um mal feito bem feito, sem rastros. Os mais velhos sabiam ser ele o autor da arte, mas no tinham como provar. Bom aluno, bom de bola, enturmado e presepeiro com a molecagem de dentro e de fora do colgio. Ao chegar da aula, fissurado numa pelada, jogava o uniforme para o lado e despencava para um campinho a fim de no perder o racha.

No final do ano, no encerramento do primrio, uns padres de batinas pretas passaram a ser frequentes em sua escola. Visitavam as salas de aula, propagandeavam sobre vocao sacerdotal, sobre a alegria de viver para Cristo, e pormenorizavam a divertida vida eclesistica. Profetizavam que entre cada atividade de estudo e rezao, havia muito futebol, natao e outros esportes, pois na educao crist moderna devia prevalecer o ideal da mens sana in corpore sano. Secavam os alunos de inveja ao contar que, nos finais de semana, os seminaristas participavam de torneios esportivos e acampamentos em cavernas e rios. A meninada crescia os olhos, afinal, o melhor time da cidade era o dos padres. Alm disso, havia as artes cnicas, o teatro, a possibilidade de subir nos palcos e apresentar as peas por Minas afora. E a piscina? Coisa rara. O sonho da molecada, que s tinha os rios para nadar.

Quinca no entendia como aqueles garotos tmidos e ingnuos, enclausurados naquele mosteiro, eram to bons de bola. Mas embalado pela msica da copa de 58: A taa do mundo nossa, com brasileiro no h quem possa, no resistiu goma teolgica-futebolstica, chegou em casa, assertivo: - Me, eu quero estudar no seminrio e ser padre.

A me, que h tempos passava o dia em preces para que seu rebento no puxasse boemia do pai, teve certeza de que a deciso do filho era a resposta a suas oraes.

- Voc quer mesmo ser padre, meu filho?
- Quero, me!
- Quinca, Quinca, isto coisa sria. juramento para o resto da vida.
- Eu sei, me. S preciso da autorizao da senhora e do pai pra levar pros padres.
- A minha t concedida, difcil seu pai aceitar. Ele tem uma birra com igreja e com padre.

Dia seguinte, eis que chega o marido meio alto, depois de tomar umas e outras, envolto em aromas de perfumes baratos. Dona Ruth subiu nas tamancas: - Muito bonito, Seu Lourivaldo! No dorme em casa e chega alcoolizado com este futum de rapariga.

- ...

- melhor ficar mudo mesmo. Quem t calado, tem culpa. Mas bom estar ciente que Quinca no vai seguir seu rastro, no. Quinca vai ser padre. Isto mesmo, pa-dre! Pelo menos ele vai se salvar desta sina de randevu e cachaa.

- Padre, o cassete! Filho meu no veste batina!
- Mas pai, eu quero e acho que tenho vocao - argumentou, Quinca.
- Veremos...

Aquela notcia desmontou o pai. Ficou encucado: - Imagina s, Quinca padre? Era s o que faltava. Um capetinha desse ser projeto de santo. Isto s pode ser armao de Ruth para infernizar minha vida.

Dias depois, Lourivaldo encontrou com o seu compadre, Zeca de Ferraz, chefe poltico do municpio, padrinho de Quinca. Era um gordo sorridente, imenso. Um popular gluto que vivia cercado de comida e de gente embasbacada diante de sua sagacidade poltica. No trocaram meia dzia de palavras e Lourivaldo confessou sua lstima.

- Compadre, compadre, c precisa ver o que sua comadre Ruth est querendo fazer com o seu afilhado Quinca. Quer transformar o menino em padre. Logo o garoto, que um triquetraz, esperto pra danar, d n em pingo dgua, pode ser tudo na vida e vai ser desperdiado numa beatice dessas. S o senhor me ajudando, dando uns conselhos pro pequeno e pra me dele.

Zeca permaneceu calado por um instante e disse: - Lori, diga a comadre Ruth que eu estou com saudade do franguinho com ora pro nobis, que s ela sabe fazer. Avise que passo l pra almoar no domingo. E lembre-se de debrear na bebida neste resto de semana. Fique mansim, mansim...

Avisada a patroa, Lourivaldo ficou domesticado, regulado na bebida, ciscando maneiro dentro de casa at que chegaram o domingo e a esperada visita do compadre Zeca.

Tudo corria bem, Ruth gostava do compadre pela sua gentileza e apreo que tinha com a famlia. J havia servido tira-gostos, cervejinha, e ficou na cozinha arrematando o frango to esperado, mas de escuta nas conversas dos compadres, pois o coronel sempre dava noticias sobre os fuxicos recentes.

O papo ia de vento em popa, quando de repente Zeca de Ferraz perguntou a Quinca, que a tudo escutava: - E voc, meu afilhado, o que voc vai ser quando crescer?

- , padrinho, eu vou ser padre. Ano que vem j vou pro seminrio, n, me?

- Que isso, menino, num esperdia sua vida, no. C pode ser tudo, basta querer. Imagina voc piloto de avio, craque de futebol, marinheiro, cientista? Voc pode morar no Rio de Janeiro, em Nova Iorque, em Paris. Eu sou seu padrinho e vou te ajudar a ser o bamba...

Pronto. Foi o que bastou para dona Ruth, l da cozinha, sair da toca: - Compadre, com todo o respeito, no vem que no tem. J percebi que este frango pura armao sua e de Lourivaldo pra dobrar o pobre do Quinca pra no ser padre. Pode tirar o cavalo da chuva que o Quinquinha vai ser padre mesmo. J tamos decididos.

O silncio tomou conta da casa. Aos poucos a conversa tomou rumo de chuva, da dificuldade com a criao na seca, at se aprumar de novo com as perspectivas da eleio e a necessidade de visitar os currais eleitorais.

Entre uma e outra cerveja, Zeca resolveu esvaziar a bexiga e pediu seu afilhado para encaminh-lo at o banheiro. L chegando, retomou a conversa antes interrompida.

- Quinca, quando tinha sua idade, eu tambm estava decidido ser padre. Cheguei at a entrar no seminrio. Nesse mesmo que voc est pensando em cursar. Mas bom voc ficar sabendo de uma coisa...

Seu Zeca comeou a afrouxar o correo, que apertava sua enorme pana, baixou as calas, e arrematou:

- A primeira coisa que os padres fazem com os novatos que chegam ao seminrio cortar o pinto deles pela metade. Veja a maldade que fizeram com o meu. Eu acho at que eles cortaram mais que a metade, no acha?

A vocao sacerdotal escafedeu-se.


83649
Por Ucho Ribeiro - 5/11/2018 20:11:04
INFLUENZA

Os antigos dizem que os dois tipos de homens prestantes, que Pedra Azul melhor sabe fazer, so o matador de gente e o amansador de burro.

Ao amanhecer, nas fazendas daquelas terras, a garotada sai pros pastos atrs de um animal, que a servir o dia inteiro, no curral, no aparto e na solta do gado, na ida pra escola, no retorno e nas estripulias do resto do dia. noite, as mes tm de ralhar para apartar os meninos da tropa. O apego demais. A afeio, desde a infncia, pelas montarias, forja apelidos pelo resto da vida: Pedro da Jega, Man Minha gua, Tamburete de Piquira, Funga Cio, Z Tich.

Na chacota, os mais idosos arreliam a meninada dizendo que a namorada deles a Maria Rincha. Brincadeira que tem um fundo de verdade. Tem muito moleque que nervoso escancara o cime pela sua eguinha. No deixa nem o melhor amigo passear com sua bichinha. A garotada cresce subindo nos cupins da fazenda, conhecendo-os pelo aprumo ideal para o alcance da namorada e pelo resguardo para no ser flagrado.

Quando um menino desaparece com a sua montaria, os homens velhos e novos j sabem o destino. Pedro da Jega, por exemplo, ganhou o afetuoso apelido porque o fazendeiro o mandou pegar uma jumenta no brejo e, por estar demorando demais, foi atrs pra conferir. Chegando l, avistou Pedro em cima de um cupinzinho, abraado no traseiro da jerica. Foi quando, gaiato, gritou: - Pedro! Pedro! Empurrando ela no vem no! Se voc no puxar pelo cabestro a jega vai ficar a empacada a manh inteira.

Na fazenda dos Antunes havia uma ninhada de meninos excitada com uma tropa nova, recm-chegada, sortida de potras e guas mansinhas de passar por baixo. A meninada arteira era de idade variada. Os mais novos apreendiam com os mais velhos a montar, cavalgar e arrear os animais, bem como domar as guas e at ferr-las e ferro-las.

Tiziu, azarado, um dos menores garotos, gripou nas frias e a me no o deixava brincar com os outros, queria que ele ficasse deitado tomando chazinho de capim cidreira com gengibre. Nada de sol quente e travessuras. O coitado estava pra morrer de tristeza, preso ali no quarto, s vendo pela janela, os amigos naquela arrelia e satisfao. Ao perceber que seus companheiros agruparam a eguada e a tocaram para a baixa perto do rio, onde estavam os cupins mais apropriados, no aguentou, pulou da cama decidido. Ao passar esbaforido pela sala, sua me ralhou: - Peri, Tiziu! Onde c pensa que vai?

- Me, eu s v ali, rapidim, com as guas com os meninos e j volto!

- Que isto, moleque, c t doido? Que histria essa?

- Mas Me, na sombra! Debaixo das mangueiras.


83638
Por Ucho Ribeiro - 29/10/2018 10:55:07
MUI AMIGAS

Glorinha e Sarita se sentiam as gr-finas do pedao, e eram. Afinal, foram arrancadas da efervescente capital para viver ilhadas na jequice daquela cidade, distante de tudo. Sentiam-se ludibriadas.

Na juventude, eram os morangos da sobremesa nos bailes do Minas Tnis Clube, desejadas pelos melhores partidos belorizontinos, e foram levadas para o interior pela lbia de dois mdicos recm formados.

Jamais pensaram em levar uma vida pacata, buclica, campestre - sonhavam com Paris, New York, com o "jet set". Todavia, o mundo d e deu as suas voltas, e olhem onde elas foram parar: na vidinha sem glamour, donas de casas, conferindo as tarefas dos filhos e passando os finais de semana no campo. Se levassem convidados fazenda, seria um arrependimento sem fim. Os homens se juntavam para prosear sobre bois, vacas e cavalos e sobrava para elas a companhia das capioas esposas, que s falavam de meninos e empregadas. A comida? Churrasco e cerveja. Urgh!

Sarita e Glorinha, convictas que embarcaram numa furada, sem retorno, decidiram fantasiar suas vidas nas alegorias dos seus sonhos juvenis. Sabedoras da farta e disponvel grana dos maridos, passaram a gast-la em festas e recepes. Turbinaram um jovem e vaidoso cronista social e ditaram as normas e a moda local. Esbanjavam charme e ostentao e, volta e meia, arregimentavam o beau monde belorizontino para os seus "happenings". Suas festas eram um sucesso, black tie obrigatrio, regadas a champanhe e fino scotch.

No jornal da semana, o cronista, adestrado, relatava didaticamente as iguarias dos jantares e as recepes das socialites, registrando o cardpio da noite, a cor da toalha da mesa e a procedncia da loua e prataria utilizadas, bem como a descrio pormenorizada dos vestidos das senhoras. Era um "insider" indiscreto que mostrava para o vido pblico curraleiro os ltimos gritos da moda e da "fine burguesy".

O prazer maior era, com o olhar de guia, criticar a bico pequeno a jequice das envelopadas madames locais: - Olha aquela ali de chapu coco em festa noturna!
- Veja que trambolho! No combinou nada com nada. Cruzes! Vou ter uma sncope!
- E aquela outra, com piteira e nem fumar fuma! Vai tossir a festa inteira!
- Coitada, o vestido lindo, o sapato maravilhoso, mas, d d, no sabe se equilibrar num salto alto, e andar, muito menos! Vai se esborrachar.
- Perdoai, Senhor, olha o fulano colocando coca-cola no scotch!

Para decepar a recepo de uma emergente, suas observaes eram afiadssimas: - Voc viu a festa ontem, tirando a comida fria e o champanhe quente, o resto estava razovel!
- msica brega, gente! No sabia que viramos para um rodeio!

Nos clmaces das festas, no porre mais sublime, erguiam as taas, brindavam e, parodiando Zzimo, esgoelavam, gargalhadas: Enquanto houver champanhe, h esperana!.

A vida foi uma festa, intercalada de viagens e deslumbres. A carneirada, cega e sem noo, as seguiu, na iluso de um dia ter tambm em mos a flauta de Hamelin para entorpecer outros carneirinhos, mais inocentes.

Os anos passaram atropelados, num hedonismo e pseudo glamour. Com o galope do tempo, o champanhe minguou, a esperana evanesceu, a badalao perdeu o charme, tudo foi um sopro. O "crme de la crme" se resumiu ao carteado semanal jogado pelos casais nas casas de Glorinha e Sarita. Porm, as calmas noites de buraco, embora enfadonhas, eram salpicadas por picantes alfinetadas das duas ofdeas.

Advindos mais anos, os maridos se foram, a Sarita foi picotada pelo lcool e diabetes e a Glorinha foi se apagando pelo Alzheimer. O carteado tornou-se impossvel. Os encontros das duas amigas se resumiam a visitas eventuais que uma fazia a outra, at que a Glorinha se enclausurou definitivamente devido doena e a Sarita passou a visit-la esporadicamente.

Na passagem do milnio, a Sarita, j sem as duas pernas, ceifadas devido s complicaes do diabetes, foi ver a amiga lel, para lembrar-se dos outrora rveillons.

Ao chegar casa de Glorinha, anunciou-se. A enfermeira foi at os aposentos da amiga, no segundo andar, e avisou-a: - Dona Glria, a Dona Sarita est a em baixo, veio visitar a senhora.
- Quem?
- Dona Sarita, sua amiga.
- Sarita? No me lembro.
- Calma, vamos l. Ao v-la, a senhora a reconhecer.

A enfermeira, delicadamente, vestiu o "peignoir" na patroa, penteou-a, ajudou-a a sair do quarto e a descer os degraus.

Sarita, efusiva, sorridente, estava estacionada ao p da escada, em sua cadeira de rodas, elegante em seu "tailleur", com suas pernas cortadas na altura dos joelhos, mostra.

No meio da escada, Glorinha, ao avistar a amiga cot, reconheceu-a, estancou, segurou o corrimo, e disparou:

- Sarita, Sarita, no combinou, no combinou! Cruzes! Por favor, coloque de volta as suas pernas, porque este seu "tailleur", divino, fica horrvel sem elas.



83627
Por Ucho Ribeiro - 22/10/2018 08:39:25
CODINOME

Numa viagem de trem pra Montes Claros, nos idos de 50, um experiente representante boticrio, h muito conhecido por Z das Plulas, alertava o seu novo e sisudo parceiro de propagandas farmacuticas: - Colega, com o povo do serto bom voc tomar cuidado. Difcil um visitante sair dessa terrinha sem ganhar um apelido.

Fonseca, sistemtico, j sabedor dos tremendos apelidos que l existiam, tais como, Manoel Quatrocentos, D Meu F, Bem-Pau-Vi, Quinhento Pro Cadver, Alala, , , , , , !, Mi de Ferro, Monzeca e mais centenas de outros, prometeu que no iria carregar alcunha alguma. Amuado, apostou com o parceiro que ficaria na cidade, faria as visitas aos mdicos e retornaria a Belo horizonte com o seu nome, Antenor Fonseca, impecvel.

Chegou calado no hotel So Jos, em frente praa Coronel, no deu papo ao recepcionista, preencheu, em silncio, a ficha de hspede, pegou a chave e instalou-se num quarto no ltimo andar.

Para no dar motivo a falatrios e manter a discrio, determinou que deixassem suas refeies porta do quarto, a fim de evitar contato com algum metido a engraadinho.

Metdico e curioso, a toda hora abria a janelinha do seu minsculo quarto, punha a cabea pra fora, espiava a praa, de um lado e de outro, via o movimento e fechava-a em seguida.

Passados os quatro dias de visitas programadas, satisfeito por no ter dado papo a desaforados e certo de que no carregaria nenhum apelido daquela poeirenta cidade, resolveu ir at a praa para engraxar os sapatos, pois, logo mais tarde, pegaria o trem de volta pra Belo Horizonte. Deu sua ultima espiadinha pela janela e desceu.

Ao sentar-se na cadeira, ouviu do engraxate, sorridente:

- Graxa e lustro, n, seu "Cuco"?

J estava apelidado e mal sabia.


81939
Por Ucho Ribeiro - 8/11/2016 10:54:47
HELOISA

Capuletos versus Montecchios, Chimangos X Maragatos, Cascudos X Chimangos, Rua de Cima X Rua de Baixo. A histria registra, h milnios, que a luta pelo poder sempre foi rdua e tribal. S na teoria e nos palanques que o poltico diz que vai governar para todos, sem ver as cores partidrias. Na prtica, conquistado o poder, no voto ou no tapa, o governante administra para os seus e aplica os severos rigores da lei aos rivais. Passa a cheirar pra uns e catingar pra outros. Antigamente, a rivalidade era explcita, os correligionrios viviam amontoados, apartados dos adversrios. Em vrias cidades o afastamento era escancarado, percebia-se uma linha divisria entre as faces. Cada um no seu canto, no seu territrio - ningum ciscava em terreiro alheio.

Os mais velhos ruminavam com baba grossa aquela malquerena. Mal-mal cumprimentavam os contras. Convvio, de jeito nenhum. Negcios, muito menos, mesmo pra levar grande vantagem. Namoro e casamento, nem pensar. Havia at aquela mxima: Tome cuidado com os amigos, porque so eles que comem as mui da gente. Os adversrios nem tm como cheg perto.

Desde muito cedo a meninada absorvia aquelas cismas e averses pelos rivais. Moleque que marcasse bobeira e passasse pelo terreno alheio, apanhava. Os meninos, quando saiam do bairro ou da sua regio, andavam em bando, em trincas, para evitar sovas. Na maior parte do tempo permaneciam nas suas ruas, nos seus guetos, brincando entre si e tramando alguma desforra contra os fidumas do lado oposto. No mais, a vida seguia, cotidianamente, arrastadamente, com cada cardume em sua lagoa. Festas, atos cvicos, carnaval, dias santos, tudo era celebrado em separado e competitivamente. Bandinha de c, bandinha de l. Santo devoto de c, padroeiro de acol. gua e leo. No se misturavam. At os mdicos tinham a sua clientela restrita a seu grupo poltico. No atendiam pacientes da outra faco, pois estes jamais o procurariam. Se o cardiologista era do outro lado, o cardaco tinha que se virar com os seus mdicos. Se a turma de c no tivesse obstetra, que as mulheres procurassem uma parteira amiga para aparar o seu beb.

Em certa cidade havia um prefeito, Agenor Alvino, casado h alguns anos com uma bela e simptica senhora, Dona Maria Heloisa, que no conseguia ter filhos. O casal tentava, tentava, e nada. Todo ms era aquela expectativa para a boa nova, mas sempre sobrevinha a regra e, consequentemente, a decepo. Com o tempo, no presumvel perodo menstrual da primeira-dama, os correligionrios, principalmente as mulheres, passaram a intensificar suas visitas casa do prefeito. Acompanhavam, a par e passo, a regra de Dona Heloisa. Veio? Atrasou? Quando informados de qualquer retardo, era aquele alvoroo e vivas. As correligionrias se desdobravam para adular a madame e presentear o futuro herdeiro. Era uma romaria para chs, cafs e entrega de presentes: sapatinhos, babadorezinhos, vira-mantas, cueiros e chupetinhas para o futuro beb. A alegria de Maria Heloisa durava pouco, pois o sonho da maternidade se esvaia em sangue. Novenas e mais novenas se sucediam, muitas delas compartilhadas por metade da cidade.

Dona Maria Heloisa j estava irritada com tanto puxa-saquismo, bajulao, sugestes de remdios caseiros e inmeras simpatias milagrosas com as quais as partidrias amigas a sufocavam. Resolveu, ento, se fechar, no tocar mais no assunto e dar um tempo s visitas. Era muito tumulto e seguidas desiluses. Manter-se-ia reservada, apenas com sua solitria novena para SantAna, de quem passou a ser fervorosa devota.

Passaram-se meses at o final da novena, quando ento veio a boa nova: a menstruao no chegou. Ser? Feliz, mas cabreira, Dona Heloisa permaneceu calada. No abriu o bico para o marido e nem para a melhor amiga. No queria criar falsa expectativa e decepcionar novamente. Esperou alguns dias e nada. Nadica de menstruao. Esperou mais uns dias e neca de sangue. Ser? Ser que finalmente Agenor e eu teremos nosso herdeiro? , beno! Obrigada, minha Senhora de SantAna!

Aquele milagre tinha que ser guardado a sete chaves. Tinha que ser mantido em segredo at a plena confirmao. Mas como iria saber ao certo da gravidez? Uma certeza lhe ocorreu: se comunicasse ao seu mdico e compadre, no mesmo dia a notcia se disseminaria como fogo em palha nas hostes amigas. Depois de muito matutar, s vislumbrou uma sada: consultar discretamente o doutor Saulo Salgado, o nico ginecologista e obstetra da mulherada da banda de l, embora fosse ele o lder da oposio e o maior adversrio do seu marido. Dr. Saulo talvez desconhecesse toda a pregressa histria de suas tentativas e fracassos para alcanar a gravidez e no havia necessidade de abrir o bico e contar a sua prenhez positiva ou negativa.

Decidida, esperou o melhor momento e ligou para o mdico:
- Doutor Saulo, aqui Heloisa, mulher do Agenor Alvino.
- Quem?
- Dona Maria Heloisa Alvino, esposa do prefeito Agenor Jos Alvino.
- Pois no, minha senhora, em que posso lhe ajudar?
- Doutor, o senhor deve achar estranho a minha ligao, mas eu gostaria de marcar uma consulta. Consulta reservada, reservadssima, se possvel num dia e horrio especiais. Rogo a gentileza que nossa conversa e a consulta fiquem restritas a apenas ns dois, pois nem mesmo o meu marido Agenor poder tomar cincia desse procedimento. Desculpe-me, doutor, mas, se possvel, gostaria que nem a sua assistente esteja no consultrio, caso decida por me atender.

- ...
- Pois no, madame, deixe-me checar a agenda... No sbado tarde, s 17 horas, ficaria bem para a senhora, Dona Maria Heloisa?
- Perfeito, doutor. Estarei no seu consultrio, neste sbado, s 17 horas. Reitero o sigilo para a nossa conversa. Uma boa tarde!

Dr. Saulo, um mdico arguto nas asperezas da vida, ainda que experiente nas vicissitudes humanas, ficou encucado ao desligar o telefone: Nem mesmo o marido pode saber?

No dia e hora marcados surge Dona Heloisa. Trazia a cabea e o pescoo envoltos num sombrio leno e enormes culos escuros lhe tapavam toda a cara. Ela entrou no consultrio em passo rpido como estivesse fugindo de algo ou de algum. Doutor Saulo, sereno e resolvido, a recebeu formalmente, dirigiu-a sem circunlquios para a sala de exames e lhe pediu para deitar na cama ginecolgica. Isto feito, cobriu-a com meio lenol e iniciou o procedimento.

Passados uns longos e ansiosos minutos, Dona Heloisa, curvando-se um pouco de lado para avistar o mdico, perguntou-lhe:

- E ento, Dr. Saulo? Eu estou grvida?
- Estava, Dona Heloisa, mas eu dei um jeitinho...


81921
Por Ucho Ribeiro - 31/10/2016 20:59:04
PLOC! PLUC!
VAPT-VUPT!

Joaquim tinha uma quitanda sortida e colorida. Vendia de tudo, peixes, hortalias, castanhas, frutas, flores e temperos. H duas dcadas estava sedimentado naquele comrcio, originado por seus pais portugueses, que ali tinham montado uma banca desde a vinda deles da provncia de Trs-os-Montes. A clientela era fiel e amistosa. O trana-trana era enorme e sempre havia rotativas turminhas que por l passavam pra saber das novas e trocar fuxicos. Um burburinho s. As mulheres surgiam matutinamente para compras. Saracoteavam pelas bancas e debulhavam os assuntos da cidade e das novelas. J os homens apareciam ao final da tarde pra quebrar uma e falar das ltimas do futebol. Alojavam-se nos bancos e caixotes ao fundo da venda, debaixo das gaiolas dos passarinhos por ali dependuradas. A rixa entre atleticanos e cruzeirenses era calorosa, porm, respeitosa. O acatado Joaquim, ardoroso vascano, conhecido boca pequena por Quincas Munheca, devido sua aguda po-durice, no dava palpite sobre os times alheios e nem permitia que as paixes clubistas se exacerbassem. O campo era neutro.

Cruzmaltino igual a ele s o inveterado fregus, dr. Figueira, patrcio, urologista formado no Rio de Janeiro no comeo dos anos 50, poca do Expresso da Vitria. Com acentuado sotaque portugus, repetia num carrilho aquele timao: Barbosa; Wilson e Rafagnelli; Ely, Danilo e Jorge; Djalma, Maneca, Ademir, Friaa e Lel. O quitandeiro Joaquim chegava a babar ao ouvir aquela melodia de craques. Sem parar o que estava fazendo, apontava com o queixo a parede com a flmula do tricampeonato e a foto do escrete publicada no Jornal dos Sports. De 1945 at 1952, o Vasco foi o rei do Rio, do Brasil e da Amrica (em 1948) com um esquadro avassalador, habilidoso, ligeiro e letal no ataque.

Certa quarta-feira, os antecipados jogos do brasileiro, atraram mais cedo os fregueses para o lar. A quitanda ficou vazia, sem barulho, e restaram na prosa apenas os dois vascanos. Papo vai, papo vem, Joaquim interrompeu a descontrada conversa para tirar a gua do joelho e demorou. Na volta, perdido o embalo do assunto, o dr. Figueira, perguntou-lhe:

- Joaquim, tu ests com dificuldade para urinar?
- . Bem...
- Desculpe a intromisso, mas por ser a minha especialidade e dada a nossa amizade, creio que posso te perguntar:
- Urinas com dificuldade, Joaquim?
- , dr. Figueira, ultimamente minha pila anda falhando. Mijo espaado, demorado, e tenho a sensao de que sempre sobra alguma urina, por mais que eu me esforce.
- Tu j fizeste o toque retal, Joaquim?
- Doutor, eu nunca fiz e no tenho vontade de fazer. No quero carregar esta ndoa, no.
- Que isso, meu filho, o exame fsico do reto um exame simples e necessrio. Todo homem acima de 50 anos tem que se sujeitar ao exame da glndula prosttica.
- No, dr. Figueira, no se preocupe no.
- Que isso, amigo, precisamos saber o porqu da tua dificuldade para urinar. Passe amanh s duas da tarde no ambulatrio da faculdade, anuncie a tua chegada s enfermeiras, que no demorarei a lhe examinar.

Joaquim foi dormir cabreiro, mas, antes, confessou patroa a receosa conversa que tivera momentos antes.

- Mulher, o dr. Figueira disse que est preocupado com a minha apertura em urinar e quer me examinar a prstata.
- Ora, Quincas, est passando da hora de voc fazer este exame. Aproveite a boa vontade do dr. Figueira. Ele um homem bom, amigo e discreto. Ns, certamente, vamos economizar a consulta, que cara. Se ele lhe disse para ir ao posto de sade da faculdade, vai acabar no cobrando nada. Bom demais. A consulta vai ficar barata.

-, sei no. No o teu...

O quitandeiro acordou grilado. Logo mais tarde iria enfrentar aquele calvrio. As horas no passavam e ele s se lembrava das mos do doutor. Pra qu mos to grandes? E aqueles exagerados dedos? Mos de borracheiro, dedos de graxeiro, de tratorista. Melhor desistir. Mas desistir como, se a economia da consulta j ajudaria no pagamento da faculdade de Ins Maria, sua amada filha? Mesmo contrariado, o jeito era seguir pro matadouro.

Por volta das 13h30, aps se esforar no vaso e tomar um higinico banho, subiu a rua, calado e cabisbaixo, em direo ao ambulatrio. Ignorava os cumprimentos dos conhecidos. Estava compenetrado, a imaginar a cena prestes a enfrentar. Ao chegar ao posto de sade, procurou uma enfermeira e falou baixinho, acanhado:

- Eu sou o Joaquim, o dr. Figueira pediu-me para vir at aqui para...
- Pois no, senhor, estamos sabendo, o doutor nos avisou. Adentre pra iniciarmos os preparativos.

A enfermeira ps a mo no seu ombro e o direcionou at uma sala toda azulejada, branca, com pouqussimos mveis. Tinha basicamente uma cama, um cabide para pendurar a roupa e uma mesa, de aproximadamente um metro cbico, com uma manivela ao lado.

Tonha, a enfermeira, pediu a Joaquim para tirar toda a roupa e ficou esperando. Ele, acabrunhado, ficou quieto, at que a ficha caiu.

- Aqui, agora? Na sua frente?
- Isso mesmo, pode tirar a roupa toda.

Quincas, mido, mais encolhido que maracuj de gaveta, ficou de costas e comeou a tirar a camisa, a cala...

- Tire a cueca tambm!
- Mas precisa?
- Precisa!

Acabrunhado, Quincas, lentamente, tirou sua cueca e a pendurou no cabide.

- Ah! Pelo visto teremos que fazer uma limpa no seu traseiro. Tem cabelo demais. Enquanto o doutor no chega, vamos barbear este bumbum peludo.

Tonha vestiu no Joaquim uma camisola branca, no melhor estilo Tiradentes, que s lhe tampava a frente, com tiras para amarrar atrs, e o deitou pela metade sobre o mesa quadrada. Ele ficou de p, mas curvado, com a barriga, o peito e a cabea debruados sobre a parte de cima do mvel. A cada manivelada dada pela enfermeira, a bunda do Joaquim ia se suspendendo e ficando cada vez mais empinada, mostra. Elevou o traseiro at que Quincas ficou na ponta dos ps, abatido, sobre a mesa do exame, na posio genu-peitoral. Com maestria Tonha tesourou aquela cabeleira at dar-lhe um desbaste bom; depois ensaboou aquilo tudo e barbeou com esmero aquela bunda e a regio perianal. As ndegas do Joaquim ficaram iguais a uma garrafa, lisas, lisas, reluzentes, embora as rubras bochechas faciais do Quincas escancarassem a sua mais profunda vergonha.

No demorou muito e o dr. Figueira entrou na sala, despachado:

- Como , Joaquim, pronto para o exame? A Tonha te tratou bem? Pelo visto ela fez um belo acero? Bunda de patrcio sempre cabeluda, denuncia o sangue lusitano. Pois bem, tinha me esquecido que hoje aula prtica dos meus alunos de urologia. Fique vontade, no se acanhe, so todos quase mdicos.

Incontinente, abriu a porta e entraram 13 estudantes de medicina, todos de avental, com luvas e o dedo do meio ereto, cheios de disposio para aprender. Joaquim, ao olhar desconfiado, de menesgueio, deparou com aqueles rapazes e moas, uns conhecidos, alguns fregueses, outros filhos de seus amigos e umas trs meninas que eram unha e carne com a sua filha Ins Maria.

- Ol, Seu Joaquim.
- Tudo bom, Seu Joaquim?

O prostrado paciente, naquela situao vexatria, balanou a cabea timidamente saudando todos. Sem perda de tempo, o dr. Figueira breou com vaselina o fiof do amigo e iniciou as suas explicaes:

- Caros alunos, no se esqueam, o dedo a ser utilizado dever estar bem lubrificado para uma introduo fcil, suave, e que no cause mal-estar ao paciente. Devemos, ao introduzir o dedo, afastar as ndegas, franquear docemente o esfncter anal, procurando incomodar o mnimo possvel o paciente. Prestem ateno!

Ploc!

L se foi a inocncia do Joaquim. A partir de agora seria o que Deus quisesse.

- Ao toque vamos examinar cuidadosamente a mucosa retal, a prstata, as vesculas seminais, a uretra posterior, o trigono e o fundo vesical, a extremidade inferior do ureter e o canal deferente. Tente, ento, Lucas, d o toque. Pluc! Isto, sinta agora as caractersticas da mucosa retal e tambm as laterais, apalpe a parede anterior do reto, indo de baixo para cima e descreva o toque. S assim, voc poder fazer o seu diagnstico.

- Agora tua vez, Alice, vamos l!
- D licena, Seu Joaquim.

Contorcendo-se e olhando para trs, envergonhado, o pai de Ins Maria respondeu:

- Pois no, minha filha, fique vontade.

O dr. Figueira voltou a explicar:

- Preste ateno, Alice, a prstata est situada a 4 ou 5 cms do orifcio anal. O teu dedo tem que explor-la, ating-la em todo o seu contorno. Saiba que a prstata normal indolor, porm a do Joaquim est um pouco inchada, motivo pelo qual ele est urinando com dificuldade. Pluuc!

E tome dedadas, pluuc, pluc, e mais dedadas, fluc, fluuc, de Marcelo, de Srgio, de Ceclia, de Jssica, de Daniel e de outros tantos. Seu Joaquim perdeu as contas de quantos medicuzinhos o conheceram profundamente.

Por fim, o dr. Figueira tranquilizou o pobre Joaquim:

- Patrcio, fique tranquilo, tua prstata est ligeiramente aumentada, mas com um remedinho poderemos control-la e tu voltars a verter gua divinamente.

A Tonha aproveitou a posio genu-peitoral do Joaquim, limpou a sua bunda toda breada de vaselina e despertou-o do angustiante transe:

- Tudo pronto! C`est fini! Pode vestir a roupa! T liberado!

O pacato Joaquim, antes de vestir as calas, de pernas bambas, sem saber o que dizer, humildemente, balbuciou:

- Vocs todos esto servidos, meus jovens, ficou faltando algum?

- No! No, a aula j terminou.

- Viste? Foi um vapt-vupt, um incomodozinho e j passou, arrematou o dr. Figueira.

De volta pra casa, murcho, com vontade de chorar, o Quincas resmungou:

- Ora, pois! Consulta barata, uma ova!


81896
Por Ucho Ribeiro - 13/10/2016 13:28:44
MIRABELICES

Z de Gernimo, quando jovem, morava na pacata Mirabela, onde nada acontecia. O dia a dia era ir para o colgio, assistir as aulas, voltar pra casa, almoar, esperar passar o mormao e no final da tarde ir para o campo bater uma bolinha com os amigos. Na verdade, treinar srio e puxado, pois o time da cidade queria manter a rdua e longa invencibilidade de quase um ano.

Mas, num janeiro, em plenas frias escolares, eis que chegou pacata cidade um nibus todo modernoso, placa do Rio de Janeiro, com uma faixa pregada na lateral:Projeto Rondon - Integrar Para No Entregar. Ao abrir suas portas, exceto o gordo motorista, desceu uma juventude jamais vista em Mirabela. Linda, maravilhosa, bronzeada, sorridente e de uma fala mansa diferente, cheia de esses. Ipanema veio parar nas terras de So Sebastio. Eram estudantes cariocas de medicina, enfermagem, fisioterapia e afins. Se instalaram na penso de Dona Zefa e, no dia seguinte, monitorados por 2 mdicos professores, j estavam em campo, consultando, aferindo presso, colhendo sangue, urina, fezes e vacinando a populao. A cidade virou um fervedouro. Os velhos nunca tiveram uma assistncia mdica daquela e os jovens mirabelinos nunca viram tanta moa bonita. Estes no conseguiam nem responder as perguntas. Na anamnese, ficavam mudos, babando com tanta beleza.
As futuras doutoras pareciam artistas de cinema.
- Seu nome?
- Han?
- Por favor, seu nome? Como voc se chama?
- Z.

Era uma tolemice sem fim. Z e seus amigos, acanhados,no trocavam muitas palavras com as cariocas, mas acompanhavam-nas meia distncia por todos os cantos. Eram uma presteza a toda prova. Um adulo sem fim. Colhiam mangas e pinhas nos quintais, pediam as avs para preparem fornadas de biscoitos, doces e levavam tudo pra penso das meninas do Rondon. Menos pequi, porque elas detestaram. Na coleta do sangue, eles deixavam as inexperientes estudantes furarem os seus braos quantas vezes quisessem.
- Dessculpe, no consigo encontrar tua veia. T doeendo?
O jovem doador mirabelense mesmo se mijando de dor e cagao, respondia candidamente quela fala mansa: - No, no! Se quiser pode tentar de novo. Uma hora oc consegue.

Todas as meninas eram bonitas, mas tinha uma, Tatiana, que era uma deusa, uma princesa. Uma beleza nunca dantes vista e imaginada. A formosura era tamanha que platnicas paixes floresceram, mas nenhum amor foi declarado.

Passado o ms, uma grande festa, com baile e banda, foi marcada para o sbado,vspera da despedida do projeto Rondon. Toda a cidade se alvoroou para preparar uma festana em gratido aos bons servios prestados pela estudantada carioca.A Tatiana, percebendo o zelo e o carinho com que a populao organizava os festejos, prometeu que danaria no baile com o garoto de Mirabela que fizesse um gol no clssico, de sbado tarde, entre os jovens craques da cidade contra o rival escrete de Japonv.A promessa foi a gota dgua pra imperar a desarmonia no time de futebol. Ningum queria ficar na reserva, nem no gol e, muito menos, jogar na defesa. Foi um upa para montar e escalar o time. Os jogadores entraram em campo, sem conversar, nada do grito de guerraum por todos e todos por um, dali em diante era cada um cuida de si, murici..

Logo na sada da bola o time todo partiu para o ataque, ningum se preocupou em defender. Resultado: Levaram de onze. Um vexame nunca visto. A valia foi que nos minutos finais, por um descuido da defesa do Japonv, o Z de Gernimo chutou desesperadamente a bola para o gol e ela entrou. Final 11 x 1. Em todo aquele vexame, a glria foi de Z. Faturou a dana com a princesa Tatiana e a oportunidade de declarar a sua paixo.

noite, tomou um banho demorado, se esfregou todo, escovou os dentes trs vezes, se vestiu, se perfumou,se perfumou de novo, foi a privada mais de duas vezes, tomou coragem e foi com a roupa domingueira, exalando naftalina,pra porta da penso de Dona Zefa, esperar a mulher mais linda do mundo. Ao chegar l, deparou com uma multido a espera das estudantes para seguirem cortejo at o clube da cidade. O corao de Z de Gernimo estava para sair pela boca de tenso e emoo.

s dez horas, as participantes do projeto deixaram a penso em direo ao baile, e Z num ato de coragem se postou ao lado de Tatiana que, ao perceber sua presena,delicadamente pegou no seu queixo e disse: - Muito bem, meu artilheiro.

As pernas de Z amoleceram, mas,mesmo vexado, aguentou firme at o clube. L, sentou-se mesa com as cariocas, porm no abriu a boca. Ao som dos hits parades da poca, tomou um cuba libre, imitando-as, e aguardou o grande momento em que danaria com Tatiana. Seria a derradeira e nica oportunidade para declarar todo o seu verdadeiro amor.

Passado um tempo, a banda criou um suspense com piruetas sonoras, suspendeu a msica e passou o microfone para o prefeito.
- Povo de Mirabela, estamos todos aqui para agradecer o Projeto Rondon que veio prestar relevantes servios nossa comunidade. Veio trazer sade para nossa cidade e elaborar um levantamento de nossas doenas, endmicas, para que de posse desses estudos possamos enfrent-las de frente e dar uma melhor qualidade de vida para o nosso povo. Daqui alguns dias o projeto Rondon nos enviar os resultados de todos os exames colhidos dos cidados mirabelenses e nos apresentar um diagnstico da nossa sade. Uma salva de palmas para estes jovens doutores, que nossa cidade guardar no fundo do corao.Agora a bela Tatiana, terceiranista de medicina, danara com o nosso jovem conterrneo, Jos de Gernimo, para que fique registrado para sempre os nossos laos de amizade.

A banda,de volta com seus instrumentos e depois de um elucubrado prembulo, passou a tocar a msica Meu Primeiro Amor, Z comeou a danar com Tatiana e o clube de p aplaudiu sem parar aquela apoteose.
O barulho era tamanho que Z no conseguiu falar nada com a garota dos seus sonhos, mesmo estando a centmetros do seu ouvido.

O nico momento que conseguiu dizer alguma coisa para ela, foi na despedida,j na porta da penso, quando,acanhadamente, indagou: - Posso te mandar uma carta?
No que ela respondeu: - Pode. Dona Zefa tem o meu endereo do Rio.

No dormiu. Passou a noite rabiscando cadernos, na tentativa de por no papel uma declarao de amor e saber o que ela achava dele.

Depois de muitos burriscos, resumiu nestas palavras: Tatiana, detentora do meu corao, em voc eu encontrei a razo do meu viver. O que voc encontrou em mim?.

Passaram-se dias, mais de duas semanas. O Z de Gernimo, ansioso, no aguardo da resposta de sua missiva, ia todo dia at a oficina dos correios, bem na hora da entrega da correspondncia pela jardineira.Fez s contas,sete dias pra ir e sete dias pra voltar, a carta de Tatiana deve estar pra chegar. E chegou.

Ao abrir, tomou um choque. Levou um tempo para entender. Mas decifrou tudo. Tudinho. No podia acreditar naquilo. E saiu numa carreira alegre e saltitante para mostrar a carta de Tatiana aos seus amigos que o estavam esperando no campo para mais um treino.

De longe, aos gritos, pulava e mostrava com a mo levantada a carta do seu amor.
- Pessoal, veja a carta que chegou de Tatiana. Eu sabia que ela ia responder. Eu sabia.
-U, leia o que ela escreveu a.
Z, ento, altivo, comeou a ler: - Meu artilheiro,o que eu encontrei em voc foi tnia saginata, necator americanus, scaris lumbricoides e oxyurius vermiculares.

O pessoal comeou a gargalhar e caoar de Z. Chegaram a rolar na grama de tanto rir.No que Z de Gernimo, todo orgulhoso, respondeu: - Cs so uns bestas, em mim, Tatiana s encontrou vermes estrangeiros. Em vocs, ela s vai encontr lumbriga!


Esta histria do finado amigo e escritor Jos Luiz Rodrigues. Foi-me contada de corpo presente na promessa de me presentar com o seu livro Verme Estrangeiro, pois eu tinha reclamado que no o encontrava nas livrarias edio esgotada. Ouvi com agrado e dei boas gargalhadas. Fique com Deus, Z!


81853
Por Ucho Ribeiro - 26/9/2016 09:23:41
SEXLOGA DE ARAQUE

Eu devia ter uns 10 anos, Pat e Fred eram dois e um ano mais velhos, e os outros quatro irmos menores, Marquim, Mnica, Paulim e Mrcia, vinham numa escadinha com degraus de um ano e trs meses de diferena. ramos sete. A oitava cria, Bertha, a rapa do tacho, s viria ao mundo dois anos depois, em 67.

A casa era um alvoroo, correria e estripulia o dia inteiro. Meninos por todos os lados, os de casa e mais a molecada vizinha. Quando a aprontao estava demais, mame perdia a pacincia, dava um basta, a garotada saa de fininho, ela ento nos colocava de castigo ou nos dava uma sova. Na verdade sovinha, pois a dzia de bolos nas mos era aplicada com uma indolor sandlia de borracha.

De vez em quando, para amainar os agitos, ela nos levava para a sala e lia algum livro. Era a maneira de ficarmos sossegados. Lembro-me das poesias de Manoel Bandeira, algumas sensuais. Eu achava estranho mame ler aquelas coisas indecentes:
Teu corpo claro e perfeito
Teu corpo de maravilha
Quero possu-lo no leito
Estreito da redondilha...

Aquela leitura sugestiva e caliente despertava a libido dos machinhos, direcionando-os para o banheiro. Ali, a contumaz demora fazia com que mame batesse porta pedindo pressa. Muitas vezes pedia pra gente tomar banho de porta aberta, com o que Maro no concordava e dizia:
- Maria, deixe os meninos tomarem banho sossegados. E com a porta fechada, se assim quiserem.
- Desse jeito no d, Mrio, eles ficam horas debaixo do chuveiro e ainda saem sem tomar banho direito.
- Maria, largue os meninos, so os hormnios da puberdade. Se apertar o brao de um deles, hormnios espirram igual sumo da casca de laranja. da idade. Relaxe.
- Mrio, s voc conversando com seus filhos. Voc, como mdico, podia muito bem dar uma aula de iniciao sexual pra eles. Ontem, Mnica me perguntou como os bebs entram na barriga da me... Semana passada, Paulim veio com o calo arriado me questionar:
- Olha, mame, meu pipi t duro! Tem um osso aqui dentro?

Por seu turno, Maro se esquivava, tirava o corpo fora, alegava que no tinha tempo, nem jeito, e que mame mesmo reunisse a tchurma e desse uma aula. Pois bem, l foi a coitada da Maria Jacy comprar livros, enciclopdia, tomar revistas emprestadas, ler tudo sobre o assunto, estudar, pesquisar e quando sentiu-se preparada, chamou a ninhada para uma conversa sria, legal e democrtica.

A data foi marcada com antecedncia e a hora para depois do jantar. No dia aprazado, a molecada se empoleirou nos sofs e se esparramou pelo cho da biblioteca, barriga pra baixo, mo segurando o queixo, olhos brilhando e a cabea a mil.

Mame sentou-se bem frente da gente, num sof vermelho, cercada de sabedoria por todos os lados, mais a Barsa, livros, revistas e comeou a aula que preparara com todo o zelo e tenso. Mesmo com certo gaguejo, explicou tudo, tudinho, ci-en-ti-fi-ca-men-te: sementinhas pra l, vulos pra c, muito amor do papai e da mame, patati-patat. Histrias de papai do cu e cegonhas bicudas no entraram na conversa.

Deu para perceber que mame terminou a explanao suada, mas aliviada por ter cumprido a misso. A batalha, porm, estava apenas comeando. Ao perguntar aos queridos anjinhos se haviam compreendido tudo, se queriam fazer alguma pergunta, Linka foi logo confessando:
- Eu compreendi tudo, s no entendi aquele negcio que para ter filho tem que por um "tnis" na vagina.
Mame quase caiu para trs:
- Valha-me, Deus, como que ?
Fred, desde a infncia didtico e irnico, explicou:
- o seguinte, Paulim, quando coloca um Kichute, nasce menino; quando coloca um conga, nasce menina, entendeu?

Dona Jacy, ento, deu uma nova explicao cientfica para Paulim.
Aos cochichos, Mnica, que estava ao meu lado, comentou com Pat:
- Nossa, quer dizer que papai j fez isso com mame sete vezes? Ave Maria!

A professora Jacy pediu silncio e, em seguida, Mrcia quis saber pra que servia modess. Mame foi ao quarto dela, apanhou um absorvente, vestiu-o por cima da roupa, explicou, explicou tudo bonitinho, ci-en-ti-fi-ca-men-te. Ao terminar, eu sussurrei pra Fred:
- No lhe falei,Fred, que Bertinho estava nos ensinando errado? Ele no sabe nada.
Mame, apavorada, interferiu:
- Como que ? O que Bertinho lhes ensinou?
Eu respondi, baixinho:
- Bertinho nos falou que as mulheres usam modess quando fazem indecncia com os homens.
- Que isso, menino, surpreendeu-se mame. E reviu o tpico menstruao.

Para encerrar, com mame j exausta, balangand, Quincas levantou o dedo para fazer sua pergunta.
- Fala, Marquim, o que voc quer saber?
O filsofo mirim abriu o bico pela primeira vez na reunio:
- Mame, ns s queria saber o que que rapariga...

Nocaute. A professora arriou no sof vermelho. Rateou, rateou, tentou explicar, gaguejou, os livros e a enciclopdia no ajudavam em nada, e Dona Jacy jogou a toalha:
- Meus filhos, por hoje j est bom demais, a pergunta de Marquim fica pra prxima aula.
Estamos esperando at hoje a segunda aula. Viu, sexloga de araque?

Obs: Escrevi esta crnica em homenagem aos 87 anos do meu umbigo, que aniversaria hoje, 23/09/2016. bno e parabns minha me.


81832
Por Ucho Ribeiro - 19/9/2016 16:38:55
ETCTERA E TAL.

Tio Maurcio que me contou o causo, mas no me confidenciou o sobrenome do personagem. Disse apenas que era um aprendiz de alfaiate, conhecido por Dorival, D para os ntimos. Morava nos Morrinhos e trabalhava numa alfaiataria da rua XV. Nos intervalos do trabalho ia para o bar da esquina, o Boca de Pito, contar potocas e revelar seu sonho de ser um renomado costureiro.

- Ainda vou ser famoso, vou fazer roupa pra gr fino l em So Paulo, cs vo ver!

Tanto disse e repetiu, que um dia fez as malas, passou na casa da sua noiva Gracinha, fez juras de amor, prometeu que retornaria em breve com o certificado de alfaiate e as passagens pra lev-la casada pra cidade grande. Dito e feito.

Passado pouco mais de um ano, eis que chega estao de trem de Montes Claros, Dorival, nos trinques. Terno azul-escuro estalando, com um corte diferente, modernoso, leno vermelho dobrado no bolsinho do palet, camisa listrada, cala vincada e sapato lustrado, bicolor, com ponteira de metal. As malas novssimas de couro e com fechadura dourada.

Os funcionrios e passageiros, na plataforma de desembarque, contemplaram aquela elegncia toda, mas no atinaram que a figura era um cidado montesclarense repaginado. Apenas, um menino, vizinho e morador da Ovdio de Abreu, o identificou e perguntou:
- , D, c quer que eu leve suas malas?

Dorival, formalmente, respondeu:
- Pois no, Guri, faa o favor.

Ao descer a escada da estao, o garoto desconfiado j mudou o tratamento:
- , Seu D, pra onde ns vamo?
- Guri, eu vou hospedar no hotel So Jos, na praa Coronel Ribeiro, etctera e tal.

Seguiram pela Baro do Rio Branco e foram descendo, no que o Dorival perguntou:
- Como andam as chuvas por aqui, escassas? etctera e tal.
- Tem tempo que no chove, Seu Dorival.
- Venho da terra da garoa. L em So Paulo, difcil o dia que no chove, etctera e tal.

Ao chegar ao Hotel, o alfaiate perguntou ao menino: - Guri, voc sabe onde mora Dona Clarice, nos Morrinhos? etecetera e tal.
- Sei sim, a casa de Gracinha, sua noiva.

Dando uma gorjeta grada, lhe ordenou: - Pois bem, v l e diga a ela que vou tomar um banho, repousar um pouco, etctera e tal, e que mais tarde passarei por l, etctera e tal, para a gente sair, etctera e tal.

O menino partiu numa carreira e rapidinho estava na porta da casa da noiva, de onde gritou:
- de casa? de casa?

Nisso, apareceu Dona Clarice e perguntou:
- Que isso, menino, pra que esta gritaria toda?

- pra avisar pra Gracinha que o seu Dorival cheg, etctera e tal, que t no hotel So Jos, etctera e tal, que vai tom um banho e descans, etctera e tal, e depois vai pass aqui pra busc-la, etctera e tal, e que eles vo sair, etctera e tal.

Dona Clarice ouviu aquilo tudo, estranhou o palavreado e disse:
- Menino, volte aqui, que histria essa de etctera e tal?

O garoto virou e, batendo a mo esquerda aberta na outra fechada, sentenciou: - Sei no, dona Clarice, mas eu acho que , : Top! Top! Top...


81813
Por Ucho Ribeiro - 6/9/2016 16:11:33
CORONEL GEORGINO

Quando menino, eu era vizinho do Cel. Georgino Jorge de Souza. Morvamos na baixada da Santa Casa, contrapostos na esquina da Irm Beata com Luiz Pires. Ruas de paraleleppedos, poucos carros, casas sem muros, sem antenas, crianada solta. No finalzinho do dia os vizinhos se encontravam para uma fresca, um dedo de prosa. Eventualmente o Coronel aparecia l pelas oito horas da noite e tomava lugar no murinho onde a meninada se empoleirava. Ao chegar, a algazarra diminua, o tom da falao abrandava e aos poucos todos se calavam para ouvir os causos daquele bravo e respeitvel homem de voz rouca e pausada. Eram histrias do tempo do ona, quando no existiam luz eltrica, nem automvel.

O Coronel sempre dava corda as nossas conversas at pegar uma deixa e introduzir sua histria: - No final dos anos quarenta, quando fui responsvel pelo censo do efetivo da polcia militar na regio do Vale do Rio Doce e do Mucuri, rodei milhares de quilmetros em lombo de burro, fazendo o levantamento dos policiais cadastrados na polcia mineira. Chegava s cidades e ia direto delegacia procura do soldado ou dos soldados que haviam sido designados para aquela unidade. Comum era encontrar ningum, a delegacia s moscas. O policial podia estar -toa em casa ou num buteco ou mesmo encangado na fazenda de algum chefe poltico do municpio ou at mesmo pescando. Uns no tinham mais uniformes, muito menos munio, alguns nem arma, outros desleixados, gordos, no cabiam mais nas suas fardas e a renunciavam, quantos no amasiaram com prostitutas e cachaa, enquanto tantos no foram sequer encontrados.

Contou que certa vez, ao chegar numa cidade mucuriana, deparou com uma populao arredia, amedrontada, com pavor de polcia. O Cabo Tibrcio, destacado para l, havia estabelecido uma verdadeira tirania. Por qualquer motivo prendia e humilhava os cidados, at mesmo os considerados dceis e de boa ndole. Os com o passado obscuro, ou que manifestassem alguma intrepidez ao serem admoestados, eram presos e espancados. Muitas famlias tiveram membros sovados e humilhados. A cidade estava sob a chibata do Cabo. Silenciosa e revoltada.

Georgino, poca capito, relatou o caso ao comando da capital mineira e foi autorizado a resolver a questo com severidade exemplar. Imediatamente prendeu o cabo por 30 dias por abuso de poder. O policial ficou uma arara, puto da vida, mas o Capito Georgino foi glorificado. A cidade o ps em andor, passou a adul-lo e a convid-lo para almoos e festas.

Enquanto cobria o tempo da priso do cabo e aguardava a chegada de um novo praa para a jurisdio, o Capito foi desfrutando bajulos e conhecendo o pacato e religioso povo da cidade, que tinha retomado a alegria.

Havia chegado recentemente na parquia um padre jovem, moderno, cheio de idias novas, com prticas e aes que agitavam e mobilizavam a juventude e dissolviam as carranquices e teias de aranhas dos velhos. Criou um coral, uma banda de msica, as filhas de Maria, os encontros de casais e um grupo de teatro para apresentar peas religiosas.

Como estava prxima a Semana Santa, a fervorosa comunidade crist, sob a tutela do Padre Estevo, entrou em ebulio com a suntuosidade que seria encenada a Paixo de Cristo. Os fiis, de mamando a caducando, fariam parte da procisso. Havia papel para todos, de Jesus Cristim a So Jos, passando pelas Marias Madalenas, Joo Batista, Barrabs, Herodes, Ana e famlia. A nica dificuldade era arranjar um cidado para fazer o soldado que aoitaria Cristo na procisso dos passos. Ningum queria fazer o personagem que golpearia Jesus arrastando a cruz. Cruz Credo! Bater em Cristo seria uma urucubaca pra o resto da vida!

O Capito Georgino, em um dos almoos em sua homenagem, sabedor da falta de viv`alma pra fazer o cruel romano, encontrou a soluo. Foi at o Cabo Tibrcio e o designou misso, com a promessa de que se tudo corresse no de acordo iria reduzir sua pena.

Os ensaios, sem o Cabo Tibrcio, eram dirios, os textos tomados e retomados, o trajeto e os passos muito bem definidos, as falas repassadas, as vestimentas refeitas com tecidos novos, costuradas com capricho pelas melhores profissionais. Tudo correu certinho, ensaiadinho. Nos trinques. Trouxeram at um ator de fora pra representar o Cristo. Ele, alto, forte, bonito, chegou todo gal, metido, com todos os trililiques de artista famoso. Foi bem alojado e afeioado por todos.

No dia do cortejo e da encenao da morte de Cristo, tudo estava enfeitado para a procisso, as ruas ganharam flores, areias e as janelas foram enfeitadas com colchas, toalhas e com o santo da devoo. O ator famoso, depois de horas de maquiagem, surgiu todo ensanguentado base de urucum, mercrio cromo e molho de tomate, com a espinhenta coroa presa nos longos cabelos da sua peruca, causando compaixo e d ao emocionado pblico.

O Capito Georgino, com muito custo, trouxe o Cabo Tibrcio, enraivado, vestido com uma sainha romana de couro, uma sandlia de gladiador tranada at abaixo do joelho, com um chicotinho de pano, e ordenou: - Oua bem, Cabo, voc vai ter de seguir esta procisso at o final, encenando o algoz de Jesus Cristo. Vai fazer cara de mal e chicote-lo da forma mais convincente possvel. Estamos certos?
O Cabo, puto, consentiu com a cabea.

A procisso partiu e era aquela comoo ver o soldado romano chicotear o chiliquento Cristo. O ator se desmanchava em sofrimento, fingindo o maior martrio por carregar aquela cruz que parecia ter uma tonelada. A cada chicotada os fiis vaiavam e xingavam o soldado:
- Covarde!
- Bandido!
- Fariseu!
- Deus vai te levar pros quintos dos inferno, Belzebu!

Na verdade, o povo aproveitava para desabafar, insultar e se vingar do Cabo Tibrcio que tanta maldade fez. A vaia era unssona, barulhenta e a procisso, morosa. Na primeira queda de Cristo, o badalado ator se derreteu, fingiu to bem que as pessoas pensaram que ele havia passado realmente mal. O Tibrcio, cansado de tantos faniquitos, chegou a parar de bater nele com aquela falsa piratinha. O Padre Estevo, prolixo, aproveitou para debulhar suas interminveis explicaes sobre aquele santificado passo, sobre o mistrio da cruz.

Jesus, depois de seguidas tentativas, se levantou sob a comoo dos devotos e o corso seguiu arrastado. O soldado, por no mais bater em Jesus, foi advertido pelo rspido olhar do Capito Georgino, cobrando mais empenho e teatralidade. A cada chicotada uma estrondosa vaia e xingos de todos os calibres: - Cumunista! Zelo! Facnero! Fio de Lampio! Ocorreram at cusparadas e insultos do tipo: - Corno!
O Tibrcio se contorcia de raiva, estava possesso.

Na segunda queda, deu-se o completo desmantelo de Cristo, o ator debaixo da cruz se estrebuchava, lngua pra fora e o povo comovido, s lagrimas. Mas enquanto o Padre Estevo dava incio aos seus longos esclarecimentos sobre aquele passo, sobre o encontro da humanidade com Deus, o Cabo saiu sorrateiramente em direo ao Bar do Z de Chico, bem em frente.

J entrou mandando: - Z, pe uma a pra mim.
O dono do bar se negou: - Hoje no dia de vender bebida pra ningum.
- Que isto, homi, pe uma dose caprichada pra mim. T precisando!
- Olha, seu Tibrcio, eu no sirvo e nem serviria um fariseu que se sujeita a bater em Cristo.
O Cabo fechou o olhar e curvou pra cima do dono do bar e este, receoso, tibiou: - A bebida t a na prateleira, se quiser beber, voc mesmo pega e bebe.
Tibrcio, ento, pegou a garrafa, catou um copo que estava por perto, encheu at o colarinho e virou. Nem fez cara ruim. Encheu de novo, olhou firme pro Z de Chico e jogou a marvada no fundo da goela. Ignorou at o pouquinho pro santo. S disse: - Anote a.

Ao sair deparou-se com uma chibata de couro cru tranado que estava largada em cima de uma das mesas. Catou-a, jogou pro lado a piratinha faz de conta, voltou at a pinga, deu uma boa talagada, cuspiu, e mastigou com a boca torta: - Aquele chiliquento vai ver agora o que sova.

Cristo ainda estava debaixo da cruz, gemendo e se contorcendo, quando apareceu o Tibrcio empurrando o povo e gritando enraivecido: - Agora c vai ver o que apanhar, fiduma! C fica nesses fricotes, nesse dengo sem motivo, quero ver voc debaixo desta chibata! E desferiu no desmantelado Cristo uma chibatada com toda a fora que tinha.

O ator despertou assustado do seu transe performtico, jogou a cruz pro lado, j sob outra chicotada, e partiu enfurecido pra cima do Cabo que no parava de chibatear. Cristo e o soldado romano tranaram-se em surdes e sopapos. Pancadaria pesada. Palavro de tudo quanto tipo e qualidade, cada um mais inapropriado que outro para aquela celebrao religiosa.

A sorte foi o severo Capito Georgino estar por perto e agir, com a sua fora moral, enrgico e destemidamente, separando aquelas imensas onas raivosas, que estavam a ponto de se matar.

Depois de um tempo, passado o rebulio, acalmada a multido, o Padre Estevo ainda tenso deu prosseguimento procisso. At o final do cortejo, o Capito Georgino permaneceu lado a lado dos dois briges, apartando-os, e atento as suas rosnadas e a seus raivosos olhares, cheios de dio e hematomas.


81740
Por Ucho Ribeiro - 28/7/2016 09:10:09
Pombinhos

Quatro anos de arrastado e vigiado namoro. Os encontros eram permitidos as quartas e sbados, impreterveis, das oito s nove e meia da noite, sob a espreita vela da famlia. Em alguns domingos, Donato era convidado para os fartos almoos da sogra Marins. Comia at pouco para no soltar a mo de Ritinha por baixo da mesa.
Quando iam ao cinema era sob a vigia dos irmos mais novos da namorada, que sentavam ladeados ao casal. O trisca que Donato conseguia - um beijo, um toque - era quando dava um troco pros garotos comprarem balas, logo ao apagar das luzes para os trailers.
Devido ao aparente bom comportamento e aos longos anos de namoro, Dona Marins comeou a ter mais confiana no rapaz. Passou at a cham-lo de Donatim.
Numa quarta-feira, finda a novela, a sogra disse num adulo ao genro: - Donatim, fique a vontade, aguente s mais um pouquinho, que vou fritar uns bolinhos e fazer um caf quentinho pra ns.
Foi s ouvirem o barulho da sogra entretida na cozinha que o rala e rola comeou. Beijos, apertos, mordidelas, trana de pernas, cinto frouxo, saia sungada, mo naquilo, aquilo na mo, gemidos abafados, teso supitando no ar e o sof aguentando firme, sem alcaguetagem, sem gemura.
O gruda-gruda estava pegando fogo, quando Dona Marins anunciou, l da cozinha: - Meninos, os bolinhos esto prontos e o cafezinho est quentinho. Foi o tempo pra os pombinhos recomporem os cabelos, as amarrotagens e as vestimentas.
Veio de bandeja na mo, ofereceu um bolinho para o genro, enquanto servia o caf.
Donato, ainda com as orelhas quentes do esfrega, pegou um bolinho com as pontas dos dedos, apreciou-o e deu uma cheirada forte: - Hummm...
A sogra, ento, sentenciou: - Prove, que voc vai gostar.
Donato, educadamente, respondeu: - Dona Marins, claro que vou gostar. Eu adoro bolinho de bacalhau!
A sogra quase teve uma sncope. Envermelhou, arregalou os olhos e rosnou grave e forte: , Seu Muliquim, isto bolinho de mel, seu safado! De mel, ouviu? Col o qu de bolinho de bacalhau? C respeita esta casa e as filhas dos outros. Lave esta mo e passe daqui pra fora e pra j!


81665
Por Ucho Ribeiro - 20/6/2016 11:47:02
LAS BELLES DE JOUR

As aulas no Colgio So Jos terminavam depois das 11 horas da manh. Quase diariamente eu descia a rua Belo Horizonte at a igrejinha e pegava a Padre Augusto, um caminho mais longo para ir para casa. O trajeto normal, mais curto, era pela D. Pedro II ou pela Dom Joo Pimenta, pois eu morava ao lado da Santa Casa, mas o baixo meretrcio, situado num pedao da rua Padre Augusto, me atraia magneticamente.
Logo na descida dessa rua, depois da casa da famlia Urze de Almeida, estabeleciam-se uns ferreiros que colocavam ferraduras nos animais. Um deles era o temido Exuprio Ferrador, o Bigode de Arame, que eu morria de medo, pois corria a lenda que ele tinha sido cangaceiro de Lampio e como jaguno havia participado ativamente do tiroteio de 1930, por ocasio da tumultuada visita de Melo Viana. O ambiente era tosco, o cho batido, sem nenhuma cobertura, uns poucos troncos e sempre meia a uma dzia de burros e cavalos encabrestados espera da caladura. Eu passava a passos largos.
Transposta a esquina da Pires de Albuquerque, a rua era toda grudenta, pichada de preto pelos dejetos dos leos queimados pelas locomotivas diesel da Cemig. Eram imensos geradores de energia, alinhados de dois a dois, em cada lado da rua. Um barulho medonho e um cheiro de fumaa de caminho. Na minha imaginao infantil, sentia-me no futuro, numa embaada metrpole, intoxicado pela fumaa, pelo fedor e pelos rudos das monstrengas mquinas.
Os misteriosos lupanares vinham logo a seguir. Eu pegava o passeio da direita, diminua o ritmo das passadas, o corao disparava, num tum-tum que faltava sair pela boca. Tomava flego, levantava lentamente a cabea e a girava em direo casa de Roxa, no intuito de registrar fotograficamente tudo o que ocorria no prostbulo. O olhar cirrgico era esmiuador em busca de putas ou de parte delas: coxas, calcinhas, bundas, bocas, peitos, sutis, batons numa obsessiva coletnea de imagens e fantasias para o bom uso e devaneio logo que chegasse em casa.
Fotografado pelo olhar e feito o registro do primeiro bordel, morrendo de medo de ser zombado por algumas das putas, partia para o segundo que, salvo engano, era o de Miana. Deslocava-me, trpego, atravessando todos aqueles rudos, palavres, gargalhadas de putas e a msica alta, lembro at de um bolero recorrente de Altemar Dutra, sonhei/ que tu estavas to linda/ numa noite de raro esplendor, e concentrava-me para colher, mais uma vez, com a apurada viso, quaisquer partes ou detalhes que me despertassem, em casa, a ss, lbricos e pecaminosos desejos.
Envolto naquele burburinho da rua e no meu redemoinho interno, prosseguia para passar pela porta do terceiro prostbulo, o de Geralda Brejeira, minha ltima chance de mirar e satisfazer meu sonho cotidiano: uma puta peladinha, estalando gostosura, tilintando nudez, sorrindo, com os peitos, a vergonha e os tufos de cabelos amostra, para eu morrer feliz no hedonismo mais carnal.
Pronto. Passou o derradeiro cabar. Atravessei o devasso caminho. Dessa vez, meus clics olhares registraram uma perna em cima de uma cama ou sof, uma angua e uma calcinha dependuradas no varal de um quintal e um magistral meio peito, com o bico quase pulando do suti de uma puta que fumava no pequeno alpendre de uma das casas. Ela olhou e piscou pra mim, quase me despiu com a piscadela. Aquele sinal com os olhos tinha mais devassido que todas as minhas fantasias. Ela ia se ver comigo mais tarde.
De posse das imagens captadas, debulhava-as na mente, sem dar mais bolas para os demais quarteires, para o beco que cortava a Padre Augusto e para os seus comrcios. Tudo passava despercebido: a transportadora, o armazm dos irmos Jos Maria e Joo Melo, o moinho de Z Vieira...


81651
Por Ucho Ribeiro - 16/6/2016 11:30:51
OCUPADO

Em um bom papo com Tio Joo Valle Maurcio, ele me segredou que na rua Padre Augusto, nos anos cinqenta, tinha uma dama discretssima, de sangue bvaro, chamada Frieda, que atendia, reservadamente, cavalheiros recatados e abonados. Era bem frequentada, pois alm de loira, tipo raro no serto, fazia clebre peripcia que as putas habituais de Montes Claros desconheciam ou acanhavam no ofcio. Ela morava bem em frente do escritrio de Waldemar Tic Tac, contador metdico, que tinha por obsesso controlar tudo sua volta. De olho no relgio, sabia o horrio da chegada e sada de todos os funcionrios das lojas comerciais adjacentes e fazia um verdadeiro rastreamento na rotatividade da madama.
Os clientes tinham os seus horrios pr-estabelecidos, hora e meia, e a entrada na casa de Frieda era precedida por uma batida na porta com um certo repique, previamente definido. Batuque certo, porta aberta.
Certa feita, um mancebo erado do Brejo das Almas, atrado pelas prendas da alem, desavisado, veio bater na porta da loba germnica, sem prvio agendamento. Batia, dava um tempo, batia de novo e ... nada.
Waldemar Tic Tac, do outro lado da rua, pela janela do seu escritrio, j tinha registrado que um velho fregus, minutos atrs, j havia entrado na casa e estava desfrutando seu tempo. Ao ver o rapaz bater insistente na porta, no se conteve e bradou:
- Oi, psiu! moo! No tem ningum a, no?
- , parece que no. Eu bato e ningum responde.
- Ora, desconfie, rapaz, se voc bate e ningum responde porque tem! Xispa!


81636
Por Ucho Ribeiro - 8/6/2016 10:42:36
STERCUS CANIS*

Em conversas tolas sobre prticas escatolgicas ou excretoterapia (designaes dadas a medicina popular que utiliza substncias ou aes repugnantes ou anti-higinicas, como fezes, urina, cera de ouvido e saliva) eu tive conhecimento da existncia de um livro antiqussimo chamado Errio Mineral, que um dos primeiros tratados de medicina brasileira com os mais extravagantes conselhos e experincias de prticas mdicas, escrito pelo cirurgio-barbeiro Lus Gomes Ferreira, editado em Lisboa, em 1735.

O autor veio para o Brasil com a inteno de se enriquecer com a minerao. Perdido nos grotes de Minas, ao defrontar com a ignorncia reinante na poca e com as inmeras doenas da populao, passou a ser, emprica e obrigatoriamente, mdico e cirurgio.

Curioso, eu naveguei na internet e encontrei o alfarrbio no site da Scielo Livros.** Como era muito interessante, embora copioso, imprimi as partes mais bizarras e as levei para So Gonalo do Rio Preto, onde pretendia l-lo no final de semana ao lado do meu guru e raizeiro Irineu. Lia e sabatinava o mestre matuto sobre os absurdos e as veracidades dos conselhos seculares do cirurgio-barbeiro.

No livro, o autor dizia que para acabar com alcoolismo teria que dar ao bebum um ovo de coruja mal cozido e vinho misturado com gotas de suor de cavalo. Irineu discordou e disse que a cura para cachaceiro botar uma garrafa de cachaa no ninho de choco da galinha e depois que esta tirar os pintinhos, dar o contedo (fermentado durante os 21 dias) ao biriteiro. O coitado vai pr as tripas pra fora de tanto vomitar e nunca mais vai querer tomar uma.

Para os carecas havia uma receita que no falhava: raspar navalha toda a cabea do sujeito e bezunt-la durante um ms com sebo de homem esquartejado. Irineu torceu a cara e disse: - Onde vamos encontrar homem esquartejado por aqui, Ucho?

Seguindo a extensa leitura, o cirurgio do sculo XVIII dizia que a inflamao da pele em volta da unha curava-se enfiando o dedo doente no anus de uma galinha. Para a cura da malria ele recomendava que o enfermo andasse com um osso de defunto pendurado no pescoo. Irineu se calou, cabreiro e, embora atento, dedicou-se ao preparo do seu paioso.

Minha leitura e os conselhos continuaram: no combate asma, devia-se comer, diariamente, uma lesma esmagada e fervida com mel; a saliva, logo ao se levantar, antes de falar qualquer palavra, era tima para curar feridas; as crises de asmas deveriam ser tratadas com o uso de formigas torradas com caf. O epilptico precisava beber, por uma semana, uma pinga guardada durante anos com um cordo umbilical de beb recm-nascido. Para as hemorridas, havia um tratamento supimpa, porm dificil de ser encarado: enfiar no anus trapos de panos encharcados em suco de limo, pimenta, cachaa e plvora. Irineu, agoniado, protegendo o seu, inverteu a posio das pernas e disse: so falt risc o fsqui, c besta!

Para feridas brabas, aplicar sobre elas um sapo aberto no meio. Ch de grilo para ictercia, ch de penas de urubu para hidrofobia, ch de saco de bode para dores nos rins, ch de coc de cachorro para tosse e sarampo...

- Pera! Interrompeu, Irineu: - J vi fal de muitos desses tratamentos e assimpatias. Os qui eu num sei, Abel da Raiz pode diz se j us ou no, mas ch de bosta de cachorro, se for alvinha e ressecada, bom mesmo pra caqueluche, sarampo e pra picada de cobra.

A, me presenteou com um dos seus causos. Contou que, h muito tempo, aparecia nas bandas das Boleiras, antes de existir o parque do rio Preto, um marchante turco munheca, chamado Nassib, com um palavreado todo atrapalhado, que no acreditava de jeito nenhum nas simpatias e mendicncias e fazia at chacota das crenas do povo. Arrotava que a nica coisa que tinha medo era de cobra peonhenta e por isso usava um amuleto da terra dele, azul, na forma de um olho. Segundo Irineu, a criatura tinha a mania de levantar as mos pro cu e dizer emboladamente: To me lasca! Era s oferecer alguma coisa pra ele e o turco achava caro e dizia: To me lasca!. Eu, hoje, deduzo que na verdade ele deveria dizer Tanrı askina!, que em turco quer dizer Pelo amor de Deus! e que sonoramente parece com To me lasca!

Era to arrogante e descrente das meizinhas e crenas do Jequitinhonha que o pessoal se ajuntou para armar uma arapuca pro filho da puta. Combinaram que no dia em que algum matasse uma cobra grada, esta deveria ser levada para o buteco, onde Nassib, invariavelmente, depois de farto almoo, se debruava e apagava sobre a mesa.

Tram-cham. No passou uma semana, Abel apareceu com uma jararacuu morta imensa. Esperou s o Nassib esmorecer sobre a mesa e colou a cobra do lado dele. Nisso Chico pegou uma daquelas tbuas finas de caixotes de banana, que tem dois pequenos pregos na extremidade, e explicou: Eu vou bater a tbua na perna do Nassib e vocs dois, com os porretes, fingiro que esto matando a cobra a pauladas.

Dito e feito. Chico, p ante p, golpeou a tbua, com os pequenos e finos pregos, na perna de Nassib, enquanto Abel e Xisto baixaram o cacete na jararacuu j morta, aos gritos de Olha a Cobra, Turco! Cuidado! Afasta, Seu Nassib!

O turco deu um pulo e ficou sapateando sem saber pra onde ia ou saltava. Quando viu o tamanho da cobra, a que sapateou bonito. Ao perceber o sangue brotando e os dois orifcios na perna, berrou: - To me lasca! (Tanrı askina!) O cobra me picou! Tanrı askina! O que que eu fao, meu gente?

Nisso, Chico segurou o turco com firmeza, sacolejou-o e disse: - Calma, Seu Nassib, eu vou fazer um torniquete pro veneno no espai pro seu corpo, mas fique aqui, quieto e deitado. Xisto, do lado, compenetrado, alertou o turco, j suando em bicas. Relaxa, homi, enquanto o torniquete vai ataiano o veneno, Abel vai prepar o ch de bosta de cachorro. Ele cobra criada no fazimento do ch.

- Nada de cobra criada! Socorro! Me tira daqui! Tanrı askina! Num a ch de titica de cachorro que vai me fazer viver. Onde tem uma automvel pra me levar pra cidade?

- Seu Nassib, aqui no tem carro e nem tem cavalo pra te levar a tempo pra cidade. So 10 lguas, turco! At l, voc j foi pros quinto do inferno. Confia no homi e no ch, pois so os meios que temo e Abel j salv uma meia dzia de ofendido de cobras.

- Prepara logo esta ch. Tanrı askina! Gritou.

- J esto acedendo o fogo, mas o ch s ficar pronto em 40 minutos.

- Voc est brincadeira, moo, ser que vou aguentar este tempo todo?

- Vai ter que aguent, pois o ch s faz efeito se ficar 40 minutos em gua fervendo.

- 40 minutas? Com quarenta minutas j apodreci com o veneno. Tanrı askina! Estarei todo gangrenado. Adeus, filho de Haluk e Sarila! Ser que vocs no podem adiantar a fervura?

Abel, Chico e Xisto balanaram a cabea negativamente.

Nassib, ento, no auge do desespero, clamou: gente! Tanrı askina! Me d logo uma pedao desta merda seca do cachorro para eu ir roendo at que a ch fica pronta.





*Stercus Canis Officinale, tambm chamado Album Graecum, era um medicamento popular encontrado nas farmcias antigamente, produzido a partir das fezes secas e embranquecidas de ces e de outros candeos, inclusive do lobo Guar, e usado na forma de ch pra tratar varias enfermidades, principalmente afeces nas vias respiratrias superiores.

**Scielo Livros, portal que publica e disponibiliza eletronicamente livros de carter cientfico, editados, prioritariamente, por universidades. O Errio Mineral foi ressuscitado e republicado, no ano 2002, graas a associao da Fundao Oswaldo Cruz e com a Fundao Joo Pinheiro (organizao Jnia Ferreira Furtado).


81608
Por Ucho Ribeiro - 30/5/2016 11:57:24
VENDA DE VALDIVINO

Dia morno na Jaba. O sol se ps arrastado, vermelho, deixando turvo de ferrugens o bordeado do horizonte. Foiceiros e vaqueiros, como de costume, largaram o trampo e se dirigiram venda de Valdivino para lavar a goela e fazer a resenha do dia, na paz.

De repente parou na porta da venda a Veraneio empoeirada e amassada da polcia de Itacarambi, conhecida como Lady Laura. O Delegado Abrantes desceu decidido, costeado por dois PM`s, ressabiados, com as mos apertadas sobre as armas. Foi direto ao proprietrio, sem rodeio: - Que lambana houve aqui, Seu Valdivino? Que abatedouro foi esse?

- Calma, Seu Delegado! Num foi nada no. Senta um pouco nesse banco que eu lhe conto a histria todinha. Mas se assossegue, pois de estampido assim eu posso num alembr duns detalhe, dot, mesmo tendo muita gente aqui que assistiu e particip da lambana, como o senhor disse... Certo que, depois da lida, a peozada estava toda esparramada pela venda, uns no gole, outros no truco e os de sempre contando mentira, at que Crispim de Josefa, aquele corno escurraado do Brejo do Mutambal, ignor, assim do nada, nadinha, meteu a mo no balco e coiceou: - Aqui na Vila Florentina no tem homi!... O pessoal ficou ressabiado, mordido, estranhando o vomitrio sem termo, aquele despautrio. O chifrudo, ento, volt a relinchar: - Eu sabia, aqui no tem macho messsmo, devia tudo andar de saia... Andalcio, na sinuca, no suportou o desaforo do desafeto antigo e, sem titubear, num giro, afundou o lado grosso do taco na cabea do Crispim de Josefa, que caiu no cho se batendo que nem galinha quando imolada. No reflexo, o junta de canga de Crispim, parceiro de foice dele l no Brejo, conhecido por Varmir, grunhiu de l e pass a sua afiada ferramenta de trabaio no cangote de Andalcio, que desab pra escanteio. O companheiro de sinuca de Dalcio, de apelido Z do Grilo, metido a valente, num solavanco arranc sua peixeira, empurr Varmir at as pratelra e furou ele que nem peneira. Fuc-fuc-fuc. E isto tudo num vapt vupt, pois o filho mais grado de Varmir, em defesa do pai, avan na balana da venda, peg o maior peso, de quilo e meio, e afund nos miolos de Z do Grilo. Deu pra ouvir at o crec do arco da moringa. At a, nos conforme, briga deles e eu no queria tom partido. Mas Ednaldo ps fogo na fervura ao peg a faca de retai porco, deixada no balco, e partiu pra cima de Ngo de Ramiro, meu parente afim, pro mode de coisa antiga, de mui, seu Delegado. Ento comearam a mistur as coisa, a ressucit vias mal querncia, que no procedia no momento. Naquele ingranzu, no que Durvalino, lascador de aroeira, jararaca de espera, se irrit tambm e machad uma das perna de Ednaldo? E ieu, at ento sem quer tom partido, instigado naquele redemoim de desavena, comecei a me sentir dentro da confuso. Eles soprando tio de fogueira e eu aqueeno, n? Por precauo palpei minha peixeira, prumei ela e ajeitei a menina pr`alguma serventia anunciada. No rebulio, a mui de Ednaldo, chamada Carmina, chegou por trs de Durvalino madeireiro, abraou ele qui nem tamanduau, pux a cabea do coitado pelos cabelo e degol o vivente num corte s. Sangue espirr que nem esguicho de gua, tintando o cho de minha venda. A no teve jeito, seu Delegado, eu e uns chegado, todo mundo de siso, j com a baba grossa dispindurada, se arrevoltemo. Lambana at certo ponto, n, dot?

- Hum! Mas e a, Seu Valdivino?

-A ns arretemo e tomemo partido. Foi quando a briga comeou.


81427
Por Ucho Ribeiro - 30/3/2016 10:40:49
O SILNCIO VERGONHOSO DA COPASA E A OMISSO DA SECRETARIA DO MEIO AMBIENTE

Em concordncia com o Milton da mensagem n 81423, nunca demais repetir que o insuportvel mau cheiro empesta h muito os bairros Santos Reis, Jardim Brasil, Renascena, Edgar Pereira, Alice Maia. Infecta inclusive o Todos Santos II, passa pela Nova Morada e vai at o Eldorado. Catinga das mais fedorentas. E isto j tem anos e mais anos. Fedentina generalizada.

A Secretaria do Meio Ambiente sempre se silenciou. Surda e muda. A COPASA por sua vez, ignora o esperneio e a gritaria da populao. Continua calada, omissa, e no se defende quando a sua Estao de Tratamento de Esgoto acusada de emitir o putrefato cheiro.

Uns culpam a ETE, outros acusam as descargas residuais das fbricas do distrito industrial emitidas na calada da noite ou nos finais de semana, quando no h fiscalizao ambiental. Se que existe?

A Secretaria de Meio Ambiente deveria se manifestar de forma clara, objetiva e informar categoricamente de onde vem o fedor. Declarar se j aplicou alguma multa ou se j estabeleceu prazo para findar o mau cheiro.
Quais foram as efetivas medidas adotadas pela prefeitura para sanear este terrvel fedor?


81377
Por Ucho Ribeiro - 14/3/2016 19:30:01

UM DOMINGO PREOCUPANTE

Estive nas manifestaes. Tudo muito colorido, bonito. Muita gente. O dia estava radiante. Era um amarelo s. Nunca havia visto tantas pessoas espontaneamente protestando contra um governo nas ruas de Montes Claros. Chaves gritados a pleno pulmes contra Lula, Dilma e a corrupo.

Que eu me lembre de multido assim, s nos showmcios das dcadas de 80 e 90, quando os candidatos, pra encher a praa, traziam cantores sertanejos do tipo chitozinhos e chorors. Naquela poca, o povo via o show e ia para casa satisfeito, sem dar muita bola para a politicagem. Mas, no domingo, vi alegria, disposio, muita gente cheia de esperana, numa vontade danada de passar este pas a limpo. Animei-me.

Cumprimentei e abracei muitas pessoas. Muitas. Quase todo mundo que eu via, abraava. Ento, comecei a perceber que era minha gerao que estava presente, que maciamente era minha classe social que estava na rua. Senti a falta de gente que no possuidora de um poder aquisitivo ou detentora de um padro de vida e de consumo razoveis.

A maioria das pessoas tinha certamente mais de 35 anos e pertenciam classe mdia. A pouca juventude presente era composta de meninos e meninas de at 15 anos que ainda acompanham obedientemente os pais. Raros eram os jovens de 16 a 35 anos protestando. Por que eles no foram? Alienados? Desmotivados? Com o que eles se preocupam? Onde estavam? Sentem que este pas no lhes pertence? Esquisito. No entendi.

Ns, os pais, estvamos l, em defesa de um futuro melhor para nossos filhos e netos e, eles prprios, ausentes. Parece que no esto nem a para o destino deste pas. Ligaram o foda-se. Uma pena! Que diferena da minha gerao. Lembro que nos comcios da Diretas J e do Fora Collor a presena majoritria era de jovens com as caras pintadas.

Como disse, senti falta tambm do povo, dos menos favorecidos. Ser que para eles tanto faz, toda poltica no passa de uma ladroagem, de uma pouca vergonha? Ao final, sempre so eles que pagam a conta. Agora mesmo, a incompetncia e a roubalheira do governo acarretaram a crise, a recesso, o desemprego e a inflao, males que quem vai pagar e sofrer intensamente sero os mais pobres.

Parece que no dia 18 haver passeatas em defesa de Lula e Dilma em todo o pas. Certamente tambm no veremos a presena espontnea do povo. Os populares presentes sero transportados, alimentados e remunerados pelos sindicatos, CUT e MST. Estas organizaes no vo para as ruas contra a corrupo, porque so scias muito bem remuneradas dessa putrefao e defendem desavergonhadamente o governo e os seus malfeitos.

Resta-nos continuar mobilizados, em defesa do estado de direito, das instituies brasileiras e em apoio condenao dos corruptos e safados, seja de que partido for.

Pressinto que os corruptos e os corruptores da Lavajato esto percebendo que iro para cadeia, em vista das futuras delaes premiadas que sero formalizadas por grados polticos e empresrios fugindo das altas penas. Assim sendo, a prxima fase ser do salve-se quem puder ou do preparo de uma imensa pizza para colocarem no forno. Os Temeres, Cunhas, Calheiros e Acios, na tentativa de salvar os seus couros e fugir das grades, vo propor um acordo, abenoado por Lula e Dilma, para tentar frear o ministrio pblico federal e a polcia federal.

quanto a isto que deveremos nos mobilizar de agora em diante, pois se estancarem ou melarem as atuais investigaes da Lavajato e as futuras averiguaes sobre os desvios do BNDES e dos Fundos de Penso este pas no vai ser passado a limpo e corre o risco de virar uma grande Venezuela.


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Por Ucho Ribeiro - 17/2/2016 15:27:06
REELEIO

Ano de eleio tempo dos candidatos criarem os seus slogans polticos e dos pobres eleitores suportarem a irritante ladainha da propaganda.

A maioria dos candidatos tem dificuldades para encontrar os seus slogans, porque, aparentemente, parece ser simples, mas no . Slogan tem que ser curto, de fcil assimilao e certeiro. Tem que ficar gravado, se possvel, impregnado na cabea dos eleitores. a alma da campanha e a partir dele que se vende a imagem do poltico. Um slogan errado um tiro no p.

H alguns geniais, como: Yes, we can (Sim, ns podemos), utilizado por Barack Obama na sua campanha presidencial, ou Brizola na cabea!, e h outros, desastrosos, do tipo: Agora vai!. A frase faz o eleitor relembrar das derrotas anteriores do candidato.

Montes Claros j teve vrios slogans que fizeram histria: Pisa na ful que Simeo j ganh; Pedro, o maribondo do povo; Mutiro de novo para o bem do povo.

Porm, nos ltimos anos, depois de aprovada a reeleio, as frases dos candidatos de situao so sem graa e sempre as mesmas:

- Bom pro povo fulano de novo.
- O que t bom vai continuar.
- Pra seguir em frente.
- Pra fazer ainda mais.
- Ele chegou com tudo e merece ficar.
- daqui pra melhor.
- preciso continuar crescendo. No pode parar!

H uma tima histria sobre o afoitamento de encontrar um slogan para a reeleio.
Dizem que um prefeito de uma pequena cidade do interior do norte de Minas iria se candidatar reeleio, mas estava em dvida com a escolha do seu slogan. Tinha feito uma boa administrao, mas no queria utilizar as manjadas frases de sempre, como as listadas acima.

J estava nas vsperas da conveno partidria para o lanamento da candidatura e a indeciso era imensa. Um dos coordenadores de sua campanha, que disputava ser o puxa saco mor, estava ansioso para achar logo um slogan para comear a trabalhar e reeleger o prefeito. A vitria seria a sua garantia de mais quatro anos de baba-ovo e seu emprego garantido.

O adulador, numa ida capital, passou por uma cidade e viu estampado nos muros: George fez George vai fazer. Pensou com os seus botes: Eureka! isso! O nosso prefeito tambm fez muito e vai fazer muito mais. No temos que inventar o que j est inventado, o slogan encaixa como uma luva em nossa campanha. Ser esse mesmo.

Deu meia volta no carro, retornou sua cidade, decidido fazer uma grande surpresa ao seu admirado prefeito. Nem foi em casa, comprou as tintas nas cores partidrias, saiu cata de todos os pintores disponveis e passou a noite no comando do servio de pintura dos inmeros muros dos correligionrios com o seu slogan adaptado. Foi dormir de manhzinha, estafado, mas orgulhoso, pois tinha dado a largada na vitoriosa campanha. O prefeito iria ficar satisfeitssimo e ele, com a bola cheia, teria possibilidade de ganhar at uma secretaria municipal.

No passou um par de horas, acordou sufocado com as duas mos do prefeito no seu pescoo, enforcando-o e gritando: - Eu te mato, fila da puta! C qu mi fud!

O infeliz bajulador, na ansiedade de ajudar, no percebeu um pequeno detalhe. O apelido do admirado prefeito era Nem. E a cidade amanhecera toda pichada: Nem fez Nem vai fazer.

Nem perdeu a eleio, o puxa-saco perdeu o emprego e ganhou o dio eterno do admirado prefeito.


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Por Ucho Ribeiro - 7/8/2015 16:50:38
AUDITORES FISCAIS DA RECEITA FEDERAL ENTREGAM OS CARGOS EM COMISSO EM TODO O BRASIL.

A Receita Federal do Brasil entrou no dia de hoje na maior crise interna da instituio em toda a sua histria. Ao evitar a incluso dos Auditores Fiscais da RFB (Receita Federal do Brasil) na PEC (Proposta de Emenda Constituio) 443/09, o Governo assumiu o risco de encarar o maior embate j travado contra a categoria.
Ao descumprir a promessa de que no haveria tratamento diferenciado entre AGU (Advocacia Geral da Unio), DPF (Delegados da Polcia Federal) e Auditores Fiscais, a base do Governo na Cmara dos Deputados demonstrou falta de compromisso com a categoria.
O lder do Governo, Jos Guimares (PT/PE), e o lder do Partido dos Trabalhadores, Sib Machado, contrrios incluso, enxovalharam a categoria publicamente ao colocarem os Auditores como uma classe menor frente a outras carreiras de Estado. Relegaram os Auditores a terceiro escalo do servio pblico ao trat-los como outras carreiras e tudo mais, ou seja, desprestigiando no s categoria, mas o rgo Receita Federal do Brasil.
A Receita Federal responsvel por aproximadamente 66% de tudo que se arrecada no Pas, dando sustentao aos programas sociais como o Bolsa Famlia, Pronatec, Cincias sem Fronteiras, dentre outros, viabilizando investimentos em infraestrutura, sade e educao, propiciando a formao dos Fundos de Participao dos Estados, Municpios e Distrito Federal, principal fonte de recursos de grande parte dos municpios e dando sustentabilidade a Previdncia Social, principalmente no pagamento de aposentadorias e penses e no menos importante faz o controle aduaneiro (regulando e fiscalizando a entrada e sada de mercadorias do Pas).
Dentro dessa estrutura, os Auditores Fiscais so responsveis pelas fiscalizaes, julgamentos administrativos de processos, anlise de pedidos de compensao e ressarcimento, despachos de exportao e importao, atuando firmemente no combate e na preveno aos ilcitos fiscais e aduaneiros como sonegao fiscal, contrabando, descaminho, pirataria, fraude comercial, trfico de drogas e de animais em extino e outros delitos relacionados ao comrcio internacional, alm do importante papel no combate a corrupo.
Para melhor compreenso s no ano de 2014 os Auditores Fiscais da Receita Federal lanaram mediante procedimento de fiscalizao mais de 150 bilhes de reais, julgaram processos tributrios que somam aproximadamente 126 bilhes de reais alm de apreenderem mercadorias que totalizam 1,8 bilhes de reais.
Essa grave crise institucional no principal rgo arrecadador do pas, devido natureza e complexidade do trabalho, vai comprometer a recuperao econmica no s da Unio, mais tambm dos Estados, Municpios e Distrito Federal, devido ser da Receita Federal a arrecadao dos recursos que compem os Fundos de Participao.
Tendo em vista o duro golpe sofrido pelos Auditores Fiscais no plenrio da Cmara dos Deputados, com a rejeio da Emenda Aglutinativa 16, orquestrada pelo lder do Governo e pelo lder do PT, todos os Auditores Fiscais da Receita Federal, detentores de cargos em comisso, esto entregando os referidos cargos em todo o Brasil.


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Por Ucho Ribeiro - 8/6/2015 10:25:01
O FURTO NA IGREJA DOS MORRINHOS

L pros fundos dos Morrinhos se escondia um restolho de cigano alcunhado de Turbio Caiano, danado para roubar o que via. Embolsava tudo. Matreiro, surrupiava na maior cara lisa. Era cleptomanaco de mo cheia. No podia ver nada dando sopa que auferia. Roubava por doena e burrice, pois no tinha nem a quem vender. Os receptadores refugavam a compra do objeto roubado tamanha era a escncara dos furtos.
No bairro, Turbio era nota de dois reais, conhecidssimo. Ao apontar nas ruas e becos o povo logo alertava: - L vem ele, olhem o rato, fechem as portas. Se desaparecia alguma coisa, o culpado era um s: o caiano.
Pois no que um dia sumiram o clice e a patena da singela Igrejinha dos Morrinhos.
O sacerdote, ao chegar no domingo para celebrar a santa missa, deu por falta do vaso utilizado para a consagrao do vinho e do prato que recebe as hstias consagradas. Ao comunicar o fato aos fiis, de pronto recebeu a sentena: - Ah, foi Turbio Caiano! Ele estava zanzando por aqui.
O sensato proco foi logo atalhando: - Que isto, meus filhos, no podemos acusar ningum. No podemos cometer injustias. Devemos ir delegacia registrar a ocorrncia e todos ns rezaremos para que o ocorrido seja esclarecido o mais rpido possvel. Assim, em orao, com o amparo de Deus, recuperaremos o clice e a patena sagrados.
Um dos fiis rezingou: - Pra qu polcia, Seu Padre? Basta dar um aperto no Turbio Caiano que ele afrouxa facim facim. O padre fingiu que no escutou e foi direto procurar o Major Abdo.
Explicado o sucedido, o Major Abdo solicitou ao sacerdote que tentasse arrumar trs testemunhas para lavrar a ocorrncia e poder prender o suspeito.
Par de horas depois, l estava na cadeia da Dr. Veloso, um povaru: o acusado Turbio de Jesus dos Santos, o paramentado padre, as trs testemunhas solicitadas e um amontoado de xereteiros da Parquia dos Morrinhos.
Segue-se o interrogatrio:
Major Abdo dirigiu-se ao sacristo Z Sinete, primeira testemunha, e perguntou: - O senhor viu o Sr. Turbio entrar na Igreja e roubar o clice e a patena?
Z Sinete: - Delegado, num vou mentir que eu vi, mas que foi ele, foi. Este descarado pega tudo que v pela frente. Pode prender sem remorso. Todo mundo sabe que foi ele.
Major Abdo argiu, ento, a segunda testemunha, a beata Dona Aparecida: - A senhora presenciou o furto do clice e da patena na Igreja?
Dona Aparecida: - Doutor Abdo, o senhor me conhece muito bem e posso garantir que eu ponho a mo no fogo se no foi este excomungado. O que ele v, ele apanha, sem d. Num respeita nem as coisas sagradas. rato caiano. Aplica um corretivo que ele abre o bico, Doutor.
Major Abdo para Tom, o vigia da igreja, ltima testemunha: - E o senhor? Pode me dizer se viu o Turbio roubar as coisas da Igreja?
Tom: - ia, Seu Delegado, v, anssim com os io, eu num vou diz que vi. Mas todo mundo du Morrim sabe que ele rba mmo, sem termo. Pode prend ele, dot! Prende logo esse larpio sem vergonha!
Major Abdo, depois de uma pausa: - Bem, os senhores e a senhora no viram o Turbio roubar o clice e a patena, no ?... Os senhores afirmam que foi ele, mas no viram o fato em si. Voc so testemunhas auriculares, de ouvido, de ouvir dizer. Infelizmente, tais afirmaes no so provas para o encarceramento do acusado.
Dona Aparecida, retrucou: - Num carece de v, dot! Todo mundo sabe que este rola bosta rba. Pode perguntar pra cidade inteira. Foi ele. Prende logo esse peste!
O Major Abdo, inclinando levemente a cabea, abrindo as palmas das mos para o sacerdote, dirigiu-se para o acusado com o olhar firme e sentenciou: - Olha aqui, Turbio! Eu tambm tenho certeza de que foi voc que roubou o clice e a patena da igreja. Mas, dada a insuficincia de provas materiais, slidas, conclusivas... voc est, por mim, absolvido.
Turbio, se borrando todo, esquivando-se do olhar do delegado, amofinou: - , Dot?... isto, Dot? Estou mesmo absorvido?
Major Abdo, srio: - Isto mesmo. Est absolvido.
Turbio: - Ento, que dizer que eu tenho que devolv aquela caneca e aquele pratinho besta?


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Por Ucho Ribeiro - 28/5/2015 10:24:51
TIMPIM MARITACA

Timpim Maritaca era um pinguo falastro e imprudente. Bravateiro que s ele. Passava a semana oculto na roa, no refgio da ressaca e no esquivo da enxada. No sbado, vinha cidade apurar uns mil reis na feira. Com o grosso do trocado abarrotava-se da marvada cana e a ninharia guardava para esvaziar numa rapariga chinfrim. Bebia de se contorcer. Chapado, arrotava coragens intercaladas com elogios sua montaria e s suas virtudes de cavaleiro.

Num desses sbados, depois de vender as poucas dzias de ovos e algumas galinhas que trouxera da roa, foi pra venda de Fraim, encher a lata e fanfarronar, como era seu costume. Sentou no habitual banco e, bbado, debulhou o repetido tero de confetes para o seu cavalo e a velha xaropada de mentiras.

No final da feira, depois de enfarar todos, deu de ir embora. Ao sair do buteco, defrontou-se com o seu garanho todo pintado de amarelo. Respirou fundo, deu meia volta e entrou furioso no bar, bufando e mastigando improprios:

- Quem foi o atrevido, o insolente, que pintou o meu rosilho? Se tiver cu que se apresente.

Dum canto da venda, levantou um vara pau, um cabra peito-largo, jaguno renomado, Andalcio Quatro-Presas, que caminhou decidido pra cima de Timpim, desembainhando lentamente sua famigerada peixeira e sussurrando entre os dentes:

- Olha aqui seu lo-ro-tei-ro de merda, o piquira de cor de bosta que t l fora o pan-ga-r que vai te levar ca-pa-do pra casa, seu borreeiira.

Timpim, mido, com voz trmula, esquivou-se:

- Pera, meu senhor! Pera, meu senhor! Eu s queria avisar que a primeira demo j t seca, sequinha da silva.


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Por Ucho Ribeiro - 12/3/2015 10:36:52
DIA 15 DE MARO

Como ser o protesto neste domingo em Montes Claros?
Inmeras convocaes virtuais escancaram-se nas redes sociais, conclamando a populao para protestar no dia 15 de maro. Porm, inexistem mensagens com informaes precisas sobre o horrio e o local da concentrao.
Domingo, dia de descanso, sem pessoas na rua, a data mais inadequada para mobilizaes. O local tem que ser o mais central possvel e que exija o menor deslocamento da populao. E o horrio? Caminhadas a sol a pino tendem a ser estafantes, dispersivas e fugazes.
Dia de protesto se faz em dia de semana, de segunda a sexta-feira, no final da tarde, com o sol j morno, quando as pessoas ao deixarem o trabalho, as escolas, os afazeres, podem aderir ao movimento.
Falo com uma certa experincia, pois desde pequeno vi e participei de passeatas e protestos. Em 68, rapazote, seguro pela mo de meu pai, assisti os estudantes de BH enfrentarem a cavalaria da polcia.
Na poca da faculdade, 74 a 77, metido at o pescoo no movimento estudantil, saia s ruas contra a ditadura e corria dos cassetetes da represso.
Em 79, no comeo da abertura, reunia, mobilizava e "passeatava" a favor da anistia ampla, geral e irrestrita e pela demarcao das terras indgenas.
Em 84, no Rio de Janeiro, participei do Comcio da Candelria a favor das diretas j, que foi a maior manifestao pblica da histria do Brasil, at ento.
Em 92, juntei-me nas passeatas milhares de brasileiros, caras pintadas, pedindo a sada do presidente Fernando Collor de Mello do poder.
No dia primeiro de janeiro de 2003, fiz questo de juntar-me a uma multido na esplanada dos ministrios em Braslia para assistir a posse do primeiro lder de um partido de esquerda eleito presidente da repblica. O primeiro operrio. Um homem do povo.
Tambm estive, junto com minha mulher e filhos, nos protestos de 2013, conhecidos como Manifestaes dos 20 centavos, Manifestaes de Junho, que teve uma propagao viral. Em seu pice, milhes estavam nas ruas protestando no apenas pela reduo das tarifas de nibus, mas tambm contra os exorbitantes gastos pblicos na Copa, contra a m qualidade dos servios pblicos, indignados com a corrupo poltica galopante.
Mesmo o domingo sendo um dia inapropriado para manifestaes, eu voltarei s ruas, com a minha famlia, para cobrar punio s falcatruas escancaradas e para que o julgamento deste lamaal no acabe em pizza. Ainda mais agora que Dias Toffoli, ex-advogado do PT, presidir o julgamento da Lava Jato. Bem, mas se for para chover no molhado, que a chuva dos nossos gritos indignados caia sobre os corruptos e corruptores. Que seja um tor de civilidade para lavar as sujeiras do nosso mundo poltico. Que a nossa voz rouca das ruas destampe os ouvidos moucos de nosso judicirio.
No vou como incendirio, pois sei que estamos vivendo um momento tenso e perigoso. Que estamos sentados num barril de plvora, basta ver os telejornais, ouvir as conversas nos botecos, dar uma olhada nos comentrios dos emails, whatsapps e telejornais. O Brasil est descarrilhado, temos que fazer alguma coisa. Omissos no podemos ficar. Precisamos salvaguardar nossas instituies, defender a imprensa livre e no incitar a violncia. essencial que saamos s ruas de forma ordeira, pacfica, como fizeram os parisienses por ocasio do atentado a Charles Hebdo, como protestaram recentemente os nossos hermanos argentinos diante da misteriosa morte do promotor Alberto Nisman, e como fizemos ns mesmos nos protestos do ano de 2013 o que nos resta para escancarar o nosso descontentamento e o nosso asco a tanta roubalheira e impunidade.
Entretanto, bom alertar ao povo que ir s ruas e aos organizadores do protesto que tenham juzo. Temos que ter a temperana que tem faltado a Lula e ao governo federal. O nosso prefeito Ruy Muniz e os chefes das polcias militar, civil e federal, que respondem pela segurana pblica, devem reunir-se e pensar num plano que assegure a ordem, mas que tambm garanta a livre manifestao da populao.
Ns, os descontentes, teremos que ter todo o cuidado e saber que grande o potencial para as provocaes baratas e para a ao de vndalos infiltrados. Deveremos afastar e at mesmo repudiar os manifestantes com bandeiras de partidos e organizaes polticas. As nossas legtimas armas num protesto democrtico so a voz, a indignao, a serenidade e a defesa do estado democrtico e de direito.
Para finalizar, bom estarmos alertas e precavidos com a turma golpista que defende a retomada do poder pelos militares. Possivelmente eles estaro por l e essa gente to inimiga da democracia como aqueles que na semana passada espancaram manifestantes em frente Associao Brasileira de Imprensa. Eu repudio o petralhismo militante, o bolivarianismo, bem como todas as ditaduras militares, mesmo que temporrias. Saio rua pelas liberdades democrticas, pelo estado de direito, pela necessria reforma poltica e contra a absurda corrupo que tomou conta do pas.
Vamos l! Domingo ser dia de protestar de cara limpa, sem mscaras, mas tambm ser um dia para cantar, rir, reivindicar, distribuir abraos, dar as mos para um pas melhor. Nossa indignao coletiva precisa ser fotografada, filmada e mostrada aos podres poderes de Braslia.
Vamos lutar por um Brasil melhor, mais justo, mais honesto, onde as pessoas respeitem as pessoas e os polticos respeitem o dinheiro pblico. Sem corrupo. Sonho? Talvez. Mas precisamos dar o primeiro passo.

luta! Nossos filhos merecem e nossos netos certamente nos agradecero!


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Por Ucho Ribeiro - 24/1/2015 08:58:45
IRINEU ESTELAR OU CONFETES CSMICOS

Dia desses, em atoice aguda no Rio Preto, em papo familiar, prosevamos a respeito de estrelas e de nossas insignificncias mundanas sob a atenta escuta do jequitinhonho Irineu. Um falava sobre a vertiginosa velocidade da luz, outro sobre as volumosas guas nas caldas dos cometas, um terceiro sobre o tamanho do universo, quando Tavo, meu filho, clareou-nos a cerca da escurido dos buracos negros.

- Os buracos negros existem, teoricamente, devido as grandes quantidades de matrias ou matrias em altssimas densidades. Eles tm a massa volumar to intensa, que tudo o que se aproxima engolido, sejam astros, asteroides, planetas, cometas. At estrelas podem ser surrupiadas. O campo gravitacional to forte, que nada escapa. Nem mesmo a luz, que move numa velocidade absurda, pode se safar, ela tambm roubada, por isso a escurido naquela regio.

Irineu, esquivado, olhar canteado, aparentemente desatento, sentenciou:- Ruum... apertem o criolo, apliquem um corretivo que ele entrega o servio. Nalgum lugar o cabra escondeu estas coisas tudo que cs to falando a, inclusive a fiao.

Gargalhadas ressoaram at que Fred comeou a demonstrar com uma laranja, as rotaes e as velocidades do nosso planeta.

- A Terra, no seu movimento de rotao, percorre em 24 horas sua circunferncia de 40.075 km, numa velocidade de 1.670 km por hora. Mais de quatro vezes a velocidade mxima alcanada por um carro de F1. No seu movimento de translao, a Terra orbita em torno do sol a 107 mil quilmetros por hora. E ainda movimenta junto com todo o sistema solar, que gira a cerca de um milho de quilmetros por hora em relao ao centro da galxia. Ns estamos destramelados a milhes de km por hora, gente!

- Viajo, exclamou, D. Jacy.

Ao girar rpido a laranja num circulo mnimo e o brao num movimento circular maior, esclareceu: - ns somos um pio zunindo a 1.670 km/h em volta de ns mesmo e deslocando a 107 mil km. Alm disso, durante o anual percurso de 365 dias, a Terra d dois leves balangands, afastando um pouquinho do seu eixo, mas aproximando ligeiramente um dos seus polos ao sol, o que faz ser vero num hemisfrio e, consequentemente, inverno no outro.

- Pra, pra, que eu quero descer, j estou ficando tonta, disse, Knia.

Irineu, desconfiado, afastou o copo de pinga, carburou o paiozo e olhou por cima, duvidoso.

Pat, ento, perguntou: - Porque tudo num despenca nesta velocidade toda?

- Gente, tudo parece que est parado. Apenas parece, porque as velocidades dos movimentos de rotao e translao da terra so constantes, no h acelerao ou desacelerao. como se o planeta fosse um avio. Todos e tudo que existe esto dentro dessa nave aoitada. Do lado de fora, d para perceber a tremenda velocidade, mas internamente no avio, tudo acontece normalmente: os passageiros esto sentados confortavelmente, uns se deslocam at o banheiro, outros lem revistas, a aeromoa serve o caf, tudo na mais perfeita ordem. Porqu? Porque todos, inclusive a aeromoa, a xcara, a garrafa trmica, o caf despejado, as revistas esto deslocando numa velocidade constante, idntica. Se desacelerar, sacolejar, baguna tudo.

- Imaginem se na nossa velocssima viagem csmica, o planeta Terra gaguejasse? Melhor dizendo, se desacelerasse, mesmo se fosse por um segundo? Seria o caos. Os oceanos lavariam os continentes. Desexistiramos num triz, num piscar de olhos. Sacaram?

Marquim, mais empolgado, destramelou: - Vocs sabiam que a luz do sol para chegar na Terra demora oito minutos? como se ligasse o acendedor l e a lmpada aqui s acendesse 8 minutos depois.

Irineu, nessa hora franziu a testa e refugou forte: Ruumm!

Eu, ento, fisguei-o: - C num acredita no, Irineu? C t duvidando desta conversa?

-, Ucho, esta conversa docs, de avio, bule de caf, pagad no sol, terremoto, bambol da Terra, s se for l pros lado dos Monsclaro. Aqui, desde que nasci, a num ser um ventinho ou outro mais aoitado, tudo do mesmo jeito, e eu garanto que pros antigos tambm. O sol todo dia nasce na banda de c e morre tardinha na banda de l. A lua tambm tem o prumo dela, o seu nascer e o seu minguar costumeiro, s muda o horrio. Mas cada um bebe e fuma o que quer e v o que credita.

Tomou papudo!


79261
Por Ucho Ribeiro - 7/1/2015 17:29:40
Prezada Maria Luza Silveira Teles,
Vendo sua mensagem n 79258, lembrei-me de ter lido h muito sobre o baixo uso da morfina no Brasil.
Era uma estatstica de propores disparatadas, do tipo: "enquanto nos hospitais americanos, de cada 1000 pacientes terminais, 380 fazem o uso da morfina, no Brasil, apenas 6 doentes ao final da vida so sedados para no sentirem dor`. A reportagem dizia at que na Argentina a aplicao era quinze vezes superior brasileira: de 96 para cada 1000 doentes graves.
O Brasil chegou a ser denunciado em foros internacionais por deixar pacientes sofrerem dores intensas e desnecessrias. Pelas explicaes da poca, a baixa utilizao da morfina era devido a nossa formao crist que considera a morte um sofrimento natural e doloroso, que todos devem passar. Um absurdo.
Hoje, ao navegar pela internet, deparei no site da Anvisa (http://anvisa.gov.br/medicamentos/controlados/alerta/mundo.pdf) com a seguinte informao:
"Menos de 20% dos pacientes terminais e daqueles que sofrem com o cncer ou traumatismos, no Brasil, recebem tratamento adequado para o alvio da dor, diz Elisaldo Carlini, titular de psicofarmacologia da Unifesp (Universidade Federal de So Paulo) e um dos membros da Junta Internacional de Fiscalizao de Entorpecentes das Naes Unidas".
Grande abrao, do admirador,
Ucho Ribeiro


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Por Ucho Ribeiro - 14/11/2014 23:22:57
BAIXADA DA SANTA CASA
4 PARTE

Uma minscula casa guinada para o poente, ao fundo do Colgio Imaculada, abrigava um casal germnico com trs filhos louros, de olhos azuis. O mais velho, John, era colega de Fred, o do meio, Henry, meu colega, e o menor, que no lembro o nome, tambm estudava no colgio So Jos. A porta, sempre trancada, s era aberta parcialmente pela me quando batamos para chamar os meninos para brincar. O pai nunca aparecia, no trabalhava nem saia de casa. Na frtil imaginao infantil, achvamos que o oculto e carrancudo alemo era da Gestapo e fugitivo da guerra. Suspeitvamos que fosse parceiro do famoso mdico da SS nazista, Josef Mengele, Anjo da Morte, responsvel pelo extermnio de judeus. Chegamos a montar uma carta denncia para a embaixada de Israel, colando cuidadosamente palavra por palavra, recortadas de revistas e jornais, porm nunca conseguimos tirar uma foto do temido e misterioso oficial ariano para anexarmos como prova. Creio que s no efetivamos a delao por causa da amizade e afeio que tnhamos pelos trs meninos.

Ao lado do refgio da famlia alem era o dormitrio do internato do Colgio Imaculada. Quase todas as semanas rapazes faziam serenata para galantear as resguardadas internas, entre elas, as belas Marina Queiroz e Suely Oliveira. O cortejo musical se estendia casa da frente, morada das jovens donzelas Lopes: Teresinha, Maristela e Vicentina(19).

No mesmo passeio em direo a Cel. Luiz Pires, residia o solitrio e elegante Pedro Santana, mestre nas cadeiras de histria, ingls e na norma culta, coloquial, sem grias. S saia de casa arrumado e bem penteado, sempre pronto para uma recepo. As duas casas vizinhas eram da famlia Dias. Na primeira, vivia Dona Aldinha, com suas filhas Ariana e Ana Verena e, na outra, Dona Nenzinha, que tinha uma filha chamada Neuza. Na direo a Rua Reginaldo Ribeiro, havia a casa de Dona Idlia, me de Joo Capoteiro, Ernestina, Arlinda e Nenm(20).

Tambm na irm Beata, lado oposto, vizinho do Seu Juquita Queiroz, morava Seu Geraldo Borges do Caf Diplomata, pai de uns dez filhos(21).

Findando a rua, direita, em frente a casa da famlia Tralal(22), ficava a casa do Seu Pndaro e Dona Ilda(23), que no fugindo regra, tinham uma poro de filhas, todas bonitas, e um punhado de marmanjos, dois deles notvagos e msicos, Dando e Davi.

esquerda, era a funerria da Santa Casa, onde fabricavam variados tipos de caixes para os defuntos da cidade. Uns eram acolchoados, nos quais Paulinho, meu irmo, quando matava aula, dormia. Maro o acordava cedo para ir ao Polivalente e ele se esquivava e corria para a funerria. L, destampava o caixo mais fofo, deitava e puxava a tampa e o ronco. S deixava uma frestinha para respirar. Acordava ao final da aula gazeteada. Esperava desinchar a cara e chegava para almoar.

Existia um nico caixo para os indigentes, construdo com o fundo falso. O pobre morto s era agasalhado at o cemitrio. Depois que o caixo descia na vala comum, o fundo era aberto e o coitado despejado. O fretro era recolhido e o defunto coberto de terra. Bai, bai...

Na Santa Casa, trabalhavam: Z Azul, motorista e brao direito das Irms, que as acompanhava para fazer compras no mercado e outras tarefas; Pedrinho e Tampinha, mecnicos e eletricistas, responsveis pela manuteno dos carros; Seu Liordino, um velho senhor que dirigia tanto a Veraneio das irms como a caminhonete fordona. Esta tinha uma carroceria de carregar defuntos para o cemitrio que parecia um oratrio.

Um dos divertimentos era cuspir fino e pouco nos olhos abertos dos mortos recm-chegados funerria, para ver se eles piscavam e fechavam a plpebra do olho salivado.

Tinha ainda dois outros senhores, responsveis pelo destrinchamento dos cadveres para a vistoria do legista Dr. Geraldo Drumond: Seu Geraldo e Seu Barbosa. Este ltimo era um negro forte que, antes de iniciar o servio de corte, ia ao boteco mais perto e tomava um copo at a tampa de pinga. Ao final, outro, para arrematar. Um para ter coragem, o outro para esquecer.

Na lateral da Santa Casa tambm tinha uma fabriqueta de hstias. S Joana, aps cortar as redondas pastilhas de trigo, distribua as rebarbas para a gulosa meninada. Tinha moleque que chegava entalar com as sobras que pregavam do cu da boca a garganta adentro.

Na esquina do Caf Diplomata, iniciava-se o beco da Coronel Spyer. Logo depois do muro da casa de Tla, no outro passeio, moravam Seu Idevano, gerente do Automvel Clube, e Dona Pedrelina(24), costureira de mo cheia. Nosso convvio era com os filhos Marco (Gordo) e Nenga (Nem Galinha). Este ltimo era o capeta em forma de gente. Uma vez, minha me estava encomendando uma roupa na casa de Pedrelina e viu Nenga correndo em cima do muro do quintal. Assustada, mame perguntou: - Ave Maria, P, este diabo do Nem Galinha frequenta aqui tambm? No sei como voc aguenta, ele falta me enlouquecer l em casa.
Pedrelina, sem graa, disse: - Jacy, eu tenho que aguentar, Marcos Antnio meu filho.

Colado na casa de Idevano havia o sobrado de Joo Caldeira, dono da madeireira que funcionava na Irm Beata, ao fundo lateral da nossa casa. O dia inteirinho ouvamos o barulho do vai e vem das serras cortando as imensas toras de madeiras. Era de l que pegvamos a serragem para colocar nos gols dos campinhos de futebol. Ele tinha um filho, Roger que, salvo engano, foi para Belo Horizonte estudar dana, e uma linda filha chamada Vilma. Havia tambm o assisado Jackson, que o ajudava na serraria, andava sempre arrumado e s se deslocava montado numa bicicleta verde toda paramentada e limpssima. Tinha um modernssimo dnamo para acender os faris e at um rdio acoplado no guidom. De dar inveja.

J quase no final do beco, situava-se a casa do Coronel Joo de Deus(25) e seus rebentos. Os homens, Ziba, Tra e Ada, eram companheiros de toda hora, tinham o sentido sempre voltado para as brincadeiras e para o futebol, quando no estavam no mundo encantado deles: Juramento. As meninas, Deusmira e Valmira, diferentemente, eram estudiosas e a ltima tornou-se promotora em Montes Claros.

Na Cel. Spyer tambm moravam Dona Joana e seus filhos, Amarildo, Ronnie e Alexandre, amigos da rapaziada.

Bem, depois de tantas e saudosas memrias, o que restou da minha baixada? Onde est o longo muro esburacado da Santa Casa? E o murinho da casa de Jessinho? Cad os campinhos de futebol e as casas dos meus amigos com as portas escancaradas? No vejo crianas nas ruas, nem o rio correndo vistoso e piscoso. No ouo mais a gritaria da meninada, apenas buzinas e freadas. O cheiro de caf foi substitudo pela fumaa dos carros e das ambulncias. S na memria e de olhos fechados ouo o variado barulho dos rolamentos percorrendo as diversas texturas dos passeios das residncias: zizizizi, vrum vrum vrum, tlec tlec tlec, vrup vrup vrup, ziiiiiiii, e o sonoro e contumaz tombo. Onde eu guardei as minhas bolinhas de gude, minha manivela de 16 cruzetas e o meu lbum completo de figurinhas, to quistos? Cad a minha tanajura mor, da bundona mais inchada, vitoriosa em todos os combates frente s dos outros meninos? E a meia dzia de cobras de vidro que eu guardava na gaveta do meu guarda-roupa? Para aonde foi a minha coleo de selos, herdada de mame? Lembro-me de pginas e pginas de Olho de Boi, que troquei com Ernesto e Paulo por mseros centavos, por um lpis de cor ou por uma desejada borracha? Cad a inocncia de Cori, os causos do Cel. Georgino, a gentileza de Seu Juquita, a amizade de Waltinha, a fidalguia de Jlio de Melo Franco, a alegria de Tola, as palhaadas de Tadeu, os tombos de Anbal, o fundo musical do piano de Jnia, as brincadeiras de strak-deixa, esttua, bolso esquerdo, a raa de Tra e Ada na defesa e os dribles de Tone Ldio e Malveira no ataque? No ouo mais a estridente corneta de Mazzaropi, nem a rouca buzina de Ado Padeiro, anunciando o seu po alemo. No mais flutuo por cima do rio Vieira, pendurado em cips, nem pego mais cari em suas guas. Nunca mais nadei em seus poos ou brinquei nos esconderijos de suas margens. Hoje tudo est cimentado, asfaltado, enterrado na nossa memria. Tudo passou, foi embora, levado para longe, como as enchentes do Vieira que arrastavam madeiras, foges, cobras, portas, vidas e sonhos.

Resto-me s, desamparado, neste caos urbano, annimo, tentando aspirar na memria, inocentemente, um pouco daquele cheirinho de caf torrado, na esperana de voltar minha infncia para brincar com aquela meninada alegre e amiga, principalmente com os que se encantaram e nos deixaram saudades.

Fim.


NOTAS:

(19) Filhas de Bi e Florinda Lopes, juntamente com Irm Marilda, Padre Joo Batista, o vereador Hamilton Lopes, Geraldo, Antnio Augusto (Antoninho), Romrio, Jason e Alexandre.
(20) Nenm, casada com Joo Rosquinha, pais de Ernane, Everaldo e Everlando.
(21) Geraldo Borges e D. Sinh, pais de Jandira, Elenice, Luciene, Cristina, Betinha, Marco, Walkir, Ir, Reinaldo e Marcinho.
(22) Ubaldino e D. Marlene, pais de Tone Ldio, Lal, Lucado, Cazoba, Caderinque (Ique), Sergio, Marcelo (Nem) e Viviane.
(23) Pndaro e D. Ilda, Ari, Davi, Dando, Ernani, Danilo, Oldack, Geralda (Gue), Kaia, Ieda e as gmeas Eni e Adi.
(24) Idevano e D. Pedrelina, pais de Marco (Gordo), Marco Antnio (Nem Galinha ou Nenga), Marlia, Mary e Marla.
(25) Joo de Deus e D. Durvalina (Vainha), pais de Ziba, Tra, Ada, Deusmira (Di) e Valmira.
4


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Por Ucho Ribeiro - 9/11/2014 13:20:24
BAIXADA DA SANTA CASA

(3 parte)

A encascalhada Rua Irm Beata era usada como corredor de bois para o matadouro Otani. Ao ouvir o toque do berrante repicado amadrinhando a boiada e ao avistar de longe a poeira em nuvem levantada, todos corriam para dentro de suas casas. Das janelas, portas e varandas, a meninada arreliava o tropel esquentado, bufante, torcendo por um estouro ou por um desatino de uma vaca mais doida, que no raro saltava a mureta de uma casa e fazia um escarcu no jardim. Passado o tumulto, a rua ficava toda esverdeada, salpicada de estrumes, que deixavam o rastro e um cheiro de curral.

Essa nem to beata rua foi uma chocadeira de artistas. Dali saram vrios msicos e compositores.

Depois da casa de Baixote morava Dona Carlota(15), me de uma poro de gente, inclusive de Tadeu, artista polivalente, mambembe, circense, itinerante. Rodou o pas como msico, teatrlogo, hippie, arteso e o escambau. Viveu e bebeu a vida como poucos. Sempre alegre e criativo. Seu irmo, Dirceu, foi-se novo. Outra das minhas primeiras sentidas mortes. Mas a figura que habita o melhor da minha lembrana Vicena, uma velha empregada, que passou a vida na casa de Dona Carlota. Era compacta, cheia, rosto redondo, despachada, alegre e conversada. Entendia-se bem com os adultos e dava conta da vida da meninada inteira. Sabia dos malfeitos, das brigas, dos romances e de todos os fuxicos e intrigas, mas no entregava ningum. Amigona da garotada, sempre alertava:
- , soverte, sua me est atrs de voc.
- Cuidado, Seu Cristvo est sabendo que voc passou bosta na chave do relgio da casa de Dona Piluxa.
- Os meninos j desceram para jogar bola.
- Fulaninha t dando mole proc! Acoche!
Era o cupido da safadeza. Estimulava e dava guarita pras malinagens. Sabia de tudo, mas sempre de bico calado. No entregava a crianada, que confiava nos seus conselhos e dicas.

A casa seguinte era a de Cori Gonzaga(16), a eterna criana. Desde pequeno j participava das molecagens dos mais velhos. No era o artfice, mas cmplice, sempre xereta. Cedo pendeu para msica e para os atrativos da noite. Adolescente, percorreu o Brasil com o Grupo Razes. No compor msicas belssimas procurou inspirao em muitos venenos e volta e meia calcava o p no coentro.

Uma vez, ao sair de casa noite, deparei com Cori sentado sozinho no murinho. Triste.
- E a, meu poeta, como vo as coisas?
- , Ucho, eu no t bom no. C acredita que eu esqueci o nome de me?
O jeito foi recomend-lo ir para casa tomar um copo de leite e dormir. Amanh conversaremos, Cori.

Outra feita, num velrio na Santa Casa, Cori, que morava ao lado, apareceu para ver quem era o defunto. Manso, chegou junto ao caixo e perguntou a um dos familiares: - , Nem, o compade a morreu de qu?
O parente, sentido, em voz baixa, respondeu: - J estava doente h muito tempo.
Cori arrematou: - Ah, ento j tava carunchado, n?

Casa cheia era a de Seu Juquita Queiroz(17). Fbrica de artistas e msicos. Tudo pedra noventa. Era gente que no acabava mais. Recordo do Seu Juquita sempre formal, bem vestido, educado, elegante. Cumprimentava todo mundo, levantava o chapu para as senhoras e tinha trato at para as crianas. Canarista e amigo do meu av Pacfico, que sempre remoa: Todo criador de canrio da terra gente boa e sria. Pode confiar.

Uma vez, Seu Juquita, ao chegar em casa, deparou com um menino em cima do muro contemplando o por do sol.
- O que voc est fazendo a em cima do muro, jovem?
O garoto pego de surpresa: - Ahn?
Seu Juquita, curioso, indagou de novo: O que voc est fazendo a em cima do muro?
O rapazinho respondeu, brandamente: - T de bobeera.
- De bobeira? Como assim?

tarde, sempre passava um vendedor gritando: - Olha a paoquinha! Olha a paoquinha! E em certos dias, frisava: Hoje tem! Hoje tem! Os desinformados achavam que ele anunciava que quem comprasse sua mercadoria afrodisaca ia ter uma caliente noite. Mas para os entendidos, avisava que naquele dia ele estava abastecido com outras especiarias mais alucinantes e contemplativas.

Existiam outros ambulantes vendedores de guloseimas para a molecada. Um era Mazzaropi, que de longe tocava sua corneta estridente avisando a chegada de sua deliciosa iguaria Olha o quebra queixo da Bahia, quem tem dinheiro compra, quem no tem espia..... Burlesca e ao mesmo tempo fnebre era a doceira Pacfica, sempre de luto, vendendo ps de moleque, doces de leite, cocadas brancas e pretas. A dupla concorria com os vendedores de pirulitos em cones de rapadura derretida, envoltos em uma fina pelcula de papel manteiga e encaixados nas dezenas de buraquinhos de uma tbua furadinha que ficava pendurada no pescoo do ambulante.

De noitinha, apareciam pipoqueiros na Praa da Santa Casa, com os amendoins achocolatados, os cocos caramelizados, os algodes doces coloridos e os tradicionais roletes de cana caiana. Mas o suprassumo das gostosuras era a bala de puxa das Irms do Imaculada. Na fissura de refrigerantes, bebida rara naquela poca, saamos de casa em casa atrs de garrafas e litros para trocarmos pelo guaran da fbrica RC, que por um tempo funcionou na Rua Irm Beata. Dividamos a bebida, gole a gole, sem nojo ou higiene. L perto tinha tambm uma das delcias de Montes Claros, a paoca de Dona Teresinha Vasconcellos(18), muito apreciada pelos adultos.

Doces no eram vigiados. Os adultos adoravam ver os pequenos comerem fartamente. At incentivavam a comilana. Ningum preocupava com obesidade e nunca vi criana fazer regime. A meninada era ativa, no ficava parada. As brincadeiras aconteciam na rua e despendiam muita energia. amos a p ou de bicicleta por todo o canto da cidade. Brincvamos at o anoitecer e nossos pais desconheciam o nosso paradeiro. A patota era unida e havia regras que eram seguidas risca, pois todos tinham o sentimento de pertena a baixada e se orgulhavam de ser da turma.

Continua...

NOTAS:

(15) D. Carlota, me de Tadeu, Dirceu, da grande mestra Edmia, de Dilma (namorada de Beto Viriato), Fredo, Frido, Lindia e Dlson. E a empregada Vicena.
(16) D. Clarice, viva de Antnio Gonzaga, pais de Cori, Antonina, Sandra e Artur.
(17) Seu Juquita Queiroz e D. Lia, pais de Ruy Bong, Dino, Marcos (Juquito), Juquitinha (Nun), Rosa, Amlia, Marly, Olvia, Suzana e Silvia.
(18) D. Teresinha Vasconcellos, me de Cludia, Snia, Tina, Juliana e Leonardo.
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Por Ucho Ribeiro - 31/10/2014 14:19:30

BAIXADA DA SANTA CASA

2 PARTE

O maior desejo da garotada era ter um carrinho de rolim. Andvamos a cidade inteira pelas oficinas mecnicas em busca de rolamento, que era a coisa mais difcil e cara do mundo. Precisvamos de quatro. Dois mais robustos para o eixo de trs, que ficava sob o banco e, outros dois, que podiam ser at menores, para o eixo da frente, que era comandado pelos nossos ps.
Os que no tinham carrinho se ofereciam para ser o braal motor do piloto. A cada cinco voltas, quem empurrava o blido pelo circuito dos passeios tinha o direito a uma volta de brinde. Os motores/meninos mais fortes, que proporcionavam maiores velocidades aos carrinhos, eram disputados e presenteados com voltas extras.
As competies eram rotineiras. A vontade de ganhar e a falta de freios causavam sucessivos acidentes. Todos os garotos tinham as palmas das mos escalavradas, os joelhos e os cotovelos arranhados e, algumas vezes, a testa rachada. tardinha, no banho, era um choror s. As mes esfregavam sem d as perebas dos pilotos para retirar a sujeira impregnada nos ferimentos e passavam o ardido mertiolate. Fora o esmeril causado pelos carrinhos de rolamentos, sempre tinha um menino com gesso no brao ou na perna, com dente quebrado e cabea lascada devido s outras estripulias.
Abaixo da casa do Georgino, residia Dona Pilucha(6). Em seguida, seu filho Jlio de Melo Franco, casado com Dona Santuza(7). Da rua, dava para ver, na biblioteca, o circunspecto jornalista e advogado manusear seus livros, e ouvir sua primognita tocar piano. Era Jnia que comandava os sazonais namoros da crianada. No meio de junho, ela comeava a arrebanhar os xucros meninos para a grande quadrilha que acontecia todo ano, em 4 de julho, aniversrio do seu irmo Aristeu. Era um upa para levar a meninada para ensaiar, pois todos s queriam saber de bola e brincadeiras na rua ou no mato. Com jeitinho Jnia ia amansando e acasalando os pares da quadrilha de acordo com o gosto das meninas, h muito definido. No comeo, os garotos nem pegavam nas mos das meninas. Ensaiavam numa m vontade que s vendo. No acertavam um passo, no batiam as palmas, o sentido era um s, dar linha daquela dana jeca. Mas com o tempo, o carinho e o perfume das garotas domavam os moleques. No dia da quadrilha, aps uns dez ensaios, a molecada estava toda caidinha pelas mocinhas. As mos at suavam de gosto. O tu j era rodopiado juntinho e brotava at cimes dos anavs, pois estes afastavam temporariamente os pares. Ao terminar a quadrilha, todo mundo estava enamorado. Paixo que no durava muito. Aos poucos os namoricos eram desfeitos, devido s troglodices dos garotos. Irrequietos, no aguentavam a regulagem das namoradas e acabavam fugindo daquela ardilosa arapuca para as brincadeiras de rua, o nadar no Vieira e as peladas.
No passeio oposto ao de Jlio Melo Franco, morava Seu Robson Cruso(8), um certo heri para crianada por ter sido, em tempos outros, chefe de escoteiros. Porm, nunca convivemos com este seguidor de Baden-Powell, nem com os seus filhos, devido diferena de idades. Colado neles, residia o fazendeiro Lauro Maia, alto, plido, meio seco. Era, no entanto, a mais calma das criaturas e vivia para satisfazer sua mulher e suas sete filhas(9) em todos os seus caprichos.
Abaixo, depois do Caf Diplomata, por um tempo, viveu uma senhora, Dona Badu, recatada, de sotaque dessemelhante, com os seus cordatos filhos, Arnaldo, Paulo e Guinha, que depois regressaram para sua saudosa cidade paulista. No final, virando direita, era a casa de Lla e, em frente, a morada temporria do encapetado Roberto Piranha. Ainda naquele toco de rua lateral, hoje chamada de Gabriel Passos, residiam o fotgrafo Valdevi, sua esposa Dona Neide e seus quatro filhos(10).
Havia trs campinhos de futebol. Um em frente ao Caf Diplomata, num terreno irregular com traves marcadas com pedras, onde passvamos a tarde tentando domar a enfurecida bola que chicoteava pelos tufos e buracos. O outro, dos eucaliptos, ficava mais adiante, perto do Curtume. L chegamos a jogar alguma coisa mais parecida com futebol, pois o campo, embora pequeno, era plano e tinha traves de madeira. Os craques eram Tola(11), Lla(12), Tone Ldio e todos os seus irmos, do maior ao tampinha de binga, inclusive sua exmia irm Viviane(13). O terceiro terreiro de bola era bem ao fundo do terreno do Colgio Imaculada, na Vila do Grilo. L, s jogavam renomados, Malveira, Mrcio, Marcos e outros com passagens marcantes pelo Ateneu e times da cidade. Jogar com e contra eles era um orgulho e um fiasco, pois humilhavam a garotada com dribles desconcertantes e goleadas de dois dgitos. Durante as peladas tabelavam at com duas arvores barrigudas que solenemente sombreavam o meio do campo. Zombavam at que uma delas fazia mais gols que todo o nosso time visitante.
O calado tnis no existia, quando muito um Kichute. De rede e jogo de camisa s me lembro de quando havia jogo na casa de Dr. Geraldo (Bil) (14). L tambm ningum derrotava os Machados. Apitavam at offside em futebol de salo para anular um gol marcado contra o time da casa. O nico jeito de ganhar era entrar para o invicto time deles.
Se no tivesse ningum jogando bola nos campinhos, era certo que a garotada se encontrava nas cavernas ou nos esconderijos beira do Vieira e do Pai Joo, onde, escondidos em latas enterradas, estavam os preciosos e indecentes catecismos de Carlos Zfiro. Apareciam de tempos em tempos e acabavam desfolhados devido ao contnuo uso. Eram a inspirao maior para as dirias e sucessivas bronhas. Havia at concurso para ver quem as batia mais e seguidamente. Tudo na maior desinibio ao vivo e a cores. Uns furavam o barranco de argila do rio com o dedo, punham um pouquinho de gua e mandavam ver. Degustavam em sonhos as mais belas meninas da cidade e uma sortida variedade de artistas de Rolide. Quase todos tinham uma bananeira escolhida como concubina, pela qual at manifestavam dor de cotovelo. Na altura da pingolinha, perfuravam o tronco e encontravam o cu. O pintinho permanentemente estava roxo, pois a ndoa demorava dias para sair. Pinto limpo, sem mancha, s mesmo na abstinncia da Semana Santa. Do domingo de Ramos at o sbado de Aleluia, a meninada guardava suas endiabradas pistolinhas, ou melhor, no as tiravam para fora do calo. Elas permaneciam intocveis at a meia noite da sexta-feira. O vcio solitrio e as indecncias eram pecados mortais na semana do Senhor morto. Suas prticas eram bilhetes certos, de ida, para o temido e ardente inferno. Todos ficavam acordados na espreita das primeiras horas do sbado de Aleluia, quando tudo retornava ao dantes e a garotada tirava o atraso. O imprio onanista imperava at a crianada atinar para a preparao da queima do Judas ou para a distribuio de cascudos nos outros meninos. No sei o porqu, mas no sbado, vspera da Pscoa, todos davam coques e belisces a torto e a direito e justificavam: Aleluia. Creio que o sentido era dizer: Cansei de ser santo, puro, imaculado. Chega!
Houve um torneio para ver quem seduzia a maior variedade de bichos e coisas. Linca, que no era fcil e por ser o menor, queria fazer o mais difcil para ganhar a competio, comer um cupim. No o cupinzeiro como o barranco do rio, mas o isptero, o inseto. Puxou o pinguelinho e colocou a criatura na pontinha do pintinho. No primeiro vai e vem levou uma ferroada bruta. No choror, desesperou vendo a cabecinha da sua pombinha crescer e roxear. Em poucos minutos, ele, menino, ficou a segurar aquele pinto de gente grande, sem nenhuma fimose. O rpido inchao apressou o rduo e dirio trabalho que os garotos tinham para retrair na munheca a capa da pistola e expor a glande para fora. Difcil foi ter coragem para explicar e pedir a Maro uma pomada para aquela extravagncia toda. Fora a dor e a prvia vergonha de mostrar ao velho, que no fez nenhuma reprovao, Linca foi vitorioso duas vezes: ganhou o campeonato e o trunfo de ter o primeiro pinto com a cabea totalmente exposta. Um par de dias depois, o desinchado e calvo pinto foi mostrado orgulhosamente para a invejosa meninada.

Continua...

NOTAS:
(6) D. Piluxa, me de Cristvo, Jlio, Mrcia e Cleusa.
(7) Jlio Melo Franco e D. Santuza, pais de Jnia, Aristeu, Floriano, Jlio Csar, Otvio Augusto, Suzana, Janice e Raissa.
(8) Robson Cruso e D. Zizinha, pais de Eustquio, Robinho, Raquel e Jaime.
(9) Lauro Maia e D. Nenzinha, pais de Marina, ngela, Marly, Ftima, Beatriz, Tnia e Andria.
(10) Valdevi e D. Neide, pais de Mara, Zana, Paulo Benzina e Rogrio.
(11) Tola, filho de Antnio Mineiro e irmo de Las.
(12) Lla, irmo de Dimas, Didi e Mnica.
(13) Antnio Eldio, filho de Seu Ubaldino e D. Marlene, irmo dos craques: Lal, Lucado, Cazoba, Caderinque (Ique), Sergio, Viviane e Marcelo (Nem).
(14) Dr. Geraldo (Bil) e D. Thais, pais de Geraldo, Flvio, Luiz, Marcelo, Telmo, Paulinho, Terezinha, Thais e Las.


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Por Ucho Ribeiro - 27/10/2014 10:34:02
BAIXADA DA SANTA CASA
1 PARTE

Dia desses, bestando calado em uma demorada espera de consulta mdica, fiquei abismado com o caos que se transformou o entorno da Santa Casa. Trana-trana de barulhentas ambulncias procura de um estacionamento e de indceis pacientes em busca de atendimento. Aquele furduno todo a acontecer no meu naco mais ntimo, onde vivi a minha divertida infncia e adolescncia...

Antes, era um arrabalde de casas ocupadas por famlias empencadas de crianas. No existia comrcio, nem consultrios, nem clnicas, nenhuma prestao de servios. No havia mo nem contramo, pois automveis no transitavam por ali, salvo os de uns poucos moradores. Precrias ruas sem pavimentao, cobertas de cascalho mido socado, terminavam naquela baixada, que tinha ao fundo o rio Vieira. A Coronel Luiz Pires, que comea na avenida Cel. Prates, s rompia trs quarteires abaixo, at pouco depois da fbrica do Caf Diplomata e reduzia-se a uma ruela ramificada em trilhas que nos levavam as margens do nadvel rio. A Rua Irm Beata morria na funerria da Santa Casa, em frente residncia de Pndaro. Sua paralela, a Cel. Spyer, era um beco sem sada, nem comeava direito e j esbarrava no muro lateral do Colgio Imaculada. Estes poucos logradouros e mais o mato ao redor eram o nosso gueto, o nosso umbigo, sempre envolto num perene aroma de caf torrado.

Raramente deparvamos com crianas que no fossem da nossa tribo. A baixada no era passagem para lugar algum, a no ser para uma pinguela que nos levava ao Curtume, onde um prtico dentista, sempre chapado, ameaava cair todo entardecer ao retornar do seu arranca-dentes. Durante as chuvas, a trilha ficava escorregadia e a meninada, empoleirada na escadinha do caf, torcia pelo tombo. Queda ocorrida, com aplausos e risos, corramos para socorr-lo.

A primeira casa da Cel. Luiz Pires era do seu Ernesto da Barroso(1), que no gastava tempo com a nossa rua. Toda manh o seu sentido estava no quarteiro do povo, na sua papelaria, no escarafuncho dos assuntos polticos e nos fumegantes fuxicos do Zim Bolo.

Abaixo, onde hoje a Santa Casa Olhos, morvamos ns(2) - papai, mame, oito filhos e, durante um tempo, os nossos avs maternos. As casas da baixada no eram protegidas por muros. Tinham apenas muretas ou grades pequenas, que no tapavam as fachadas das residncias. As portas viviam abertas, a meninada entrava sem bater, convocando para as brincadeiras. Andvamos em bando, conluiados, brinquedos e segredos compartilhados.

Em frente da nossa casa residia Dona Gladys(3), generosa mestra do Grupo Francisco S, que pacientemente alfabetizou metade dos meus irmos com suas aulas particulares. Vivia com seus filhos, trs sobrinhos e sua calada me, S Luza, sempre munida de cachimbo e muleta. tardinha, S Luza nos dava um troco para comprarmos o seu traado na venda de Genaro Meu Irmo(4).

Os seus filhos Tinim e Waltinha eram meus irmos de unha e carne na infncia. Eu passava o dia na casa deles. L crivamos pres, coelhos, tartarugas, cgados, passarinhos, fazamos manivelas, montvamos pipas, araras e guardvamos todos os nossos tesouros em seus quartos: bolas, canivetes, bilboqus, gibis, pios, bolinhas de gude e lbuns de figurinhas. Mnica, minha irm, tambm adorava estar ali, mas seu interesse era outro ler e reler as melosas fotonovelas das revistas Capricho e Contigo, que nossos pais proibiam terminantemente.

Ao fundo da casa de Dona Gladys havia outro caf, o Primor, do popular Tuca Amorim. Ao final do dia, escalvamos um robusto p de goiaba encostado no muro divisrio para nos deliciarmos vendo, pelas frestas do telhado, as funcionrias da fbrica tomarem banho para retirar o suor e a fuligem do caf.

A meninada, empoleirada, toda de pintinho duro, nem piava. De olhos arregalados, maravilhava-se com aquele mulherio pelado, risonho, ensaboando-se. Puro cinema. Marquim, meu irmo, que s conhecia xibiu de criana, ficou decepcionado ao subir na goiabeira pela primeira vez: - Ucho, eu s vi os peitos delas, no deu pra ver o resto, no. Todas puseram umas buchas entre as pernas.

Na esquina do Caf Primor, em frente, estava a casa de seu Edson, que era dono de uma Rural saia e blusa, branca alaranjada, e da lanchonete localizada no passeio da Praa Dr. Carlos. Ele e Dona Teresa tinham uma ninhada endiabrada de filhos: Panga, Baixote, Ed, Ninha e L. Patota malinamente entrosada com todos os meninos da rua.

No outro passeio da esquina da Irm Beata, residia o famoso Cel. Georgino(5). Era dos poucos adultos, ou o nico, que sentava com a meninada para prosear. Criana era apartada de gente grande. Mundos diferentes, mas como vivamos sentados no murinho da sua casa, maquinando para aprontar alguma, de quando em vez o Coronel aparecia e dava uma canja com seus causos.

Certa vez, ele chegou a esta mureta, onde amontoava-se a meninada mida e alguns grados e comeou a contar uns causos de ona. Cada um mais arrepiante do que o outro. Numa das estrias, depois de narrar com detalhes a enorme e raivosa ona pintada e relatar minuciosamente como a bichona faminta se encorpava pra cima dele, Ruy do Bong, troviscado, com os olhos arregalados, o interrompeu abruptamente: Coronel, Coronel, mas esta ona devia t muito doida pra querer enfrentar o senhor, no?

Georgino no conteve o siso, nem o riso, gargalhou.

Era neste baixo muro que a molecada se juntava, desde as primeiras horas da manh at a noite, para bolar as brincadeiras: brasil e espanha, me da rua, queimada, paredo, acadabaspar. Crivamos e praticvamos jogos com simples paus e pedras.

O nosso cabas par, chamado em Belo Horizonte de bentealtas, era jogado no passeio dos Melo Francos. L tinha uma tampa de ferro da Caemc que servia de um dos apoios para o jogo. As duplas se formavam e aguardavam a vez definida no par ou impar. Horas se passavam naquele divertido vai-e-vem, na tentativa de derrubar a casinha piramidal feita de trs pauzinhos de madeira pregados num quadradinho de couro. Nada como aparar no ar uma bola defendida ou arremessada e gritar: Vitria!

Quando surgia um lbum novo de figurinhas, o bafo tomava conta dos passeios. Chamava-se bafo porque era o vento provocado pelas mos durante a batida no monte de figurinhas que as fazia virar. A garotada formava roda para a disputa. Cada menino colocava uma quantidade combinada de figurinhas no bolo e, pela ordem, depois de arrum-las, batia com a mo em concha ou aberta no monte. As que viravam ao avesso eram recolhidas pelo garoto que tinha acabado de bater. Uns mais traquinos curvavam um pouco as figurinhas ou passavam um leve cuspe na mo para vir-las. Volta e meia uma trapaa era descoberta e os sopapos comiam soltos. Raiva e choros amansados, a molecagem voltava ao jogo. Ningum chamava papai ou mame. A parada era resolvida ali mesmo, naquele foro infantil.

Certas brincadeiras eram definidas pelas estaes. Em agosto, com os fortes ventos, no azul cu surgiam as coloridas pipas e araras. A meninada, com os sentidos nos ares, dedicava o dia manufatura de seus artefatos voadores. Cola, papel e os carretis de linha 40 eram comprados na loja de Tamiro, no beco Cnego Marcos, e as taliscas eram retiradas dos raros ps de bambus existentes na baixada.

O sonho da crianada era montar uma arara biteluda, multicolorida, rabuda ou sureca, e ter uma manivela de 16 cruzetas nas mos para recolher ligeiro e esticadinha a linha.

Final de setembro, com a chegada das chuvas e a maciez dos terrenos, iniciava-se a temporada dos jogos de finca e bolinha de gude. O cho das ruas ficava todo riscado pelas fincas e biloiado pela variedade de bolinhas existentes poca: gataiadas, leitosas, sorteiras, bolofofos. S se ouvia a crianada gritar: Gute, please, todos!, Bolol na minha!, Mo quieta!, Rondas!, Quero tudo e no dou nada.

A despedida das guas era o tempo de sairmos cata de tanajuras. A meninada toda, com uma garrafa litro debaixo do brao, se espalhava pelas ruas colhendo as formigonas bundudas para trocar com Toni Pinguim por um picol. O nordestino adorava com-las fritas como pipoca, mas tnhamos a leve desconfiana de que ele usava o creme das bundas delas para fazer os to procurados picols cremosos.

Continua...


NOTAS:

(1) Ernesto e D. Dilma, pais de Ana Amlia, Ernesto, Paulo, Dilsinho, Denise.
(2) Mrio e D. Jacy, pais de Pat, Fred, Ucho, Marquim, Mnica, Paulinho, Mrcia e Bertha; vov Pacfico, vov Eny; trs auxiliares que seguravam o tranco das tarefas caseiras: Joana, Dui e S Rita; e Benjamim, o motorista.
(3) D. Gladys, me de Beatriz, Fidelina, Tio, Tinim, Waltinha. Viviam ainda l, os sobrinhos Neguinha, Luizinha, Eustquio e a av S Luiza. E era diariamente frequentada pelos primos Carlcio (Tuca) e Lis.
(4) Genaro, pai de Glicrio, o rei das embaixadinhas, mascote do Cassimiro de Abreu, e de Glicria e Glicdia.
(5) Cel. Georgino e D. Dinorah, pais de Lcia, Ldia, Leda, Jorge, Georgino Junior (Gininho), Jefferson (Jessinho) e Guilherme.


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Por Ucho Ribeiro - 29/9/2014 11:45:05

um disparate!

O nosso poeta maldito, benquisto por muitos, cantor, compositor e escritor Elthomar Santoro, autor da msica Rapariga do Bonfim, morreu nesta manh no Hospital Haroldo Tourinho, por complicaes cardacas.

Elthomar tinha 56 anos e foi um dos maiores compositores musicais que Montes Claros j teve. Comps centenas de canes e vrias delas so e sero cantadas para sempre pelos nossos jovens.

Elthomar, voc foi embora
Vou morrer de tristeza e desgraa
Vou enterrar o meu dente na cachaa
por voc me abandonar.
Mas se queres ir embora para sempre
Ser um disparaaaate.

O corpo ser velado a partir das 13h no Centro Cultural Hermes de Paula.

Estarei l!


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Por Ucho Ribeiro - 15/9/2014 10:17:20
ADELNIO MEIA COLHER

No finalzinho dos anos setenta, coube a mim tomar conta da fazenda Ipueira, l nos cafunds da Jaba, beira do velho Chico e ermo do serto. Ia pra l desmatar, fazer carvo, plantar capim e criar boi. Triste sina. Quem sou eu, hoje, para derrubar um pau, uma rvore. Sou incapaz de quebrar um galho ou fazer uma poda e h 35 anos eu derrubava alqueires a corrento puxado por tratores D8. Juntava aquela imensa mooroca de aroeiras, angicos, barrigudas, ramas e cips e tacava fogo sem d nem conscincia. Um inferno que ardia por dias e noites. Era o que se fazia, desajuizadamente, com autorizao do IEF e do Ibama. O orgulho era arrotar: - Na minha fazenda no tem um pau, uma sombra. Tudo liso. Puro capim.

Hoje, macambzio, vejo as fazendas encapoeiradas e os rios secando um a um. Envergonho-me. Mos palmatria.

Bem, nessa poca, como eu passava a maior parte dos dias naquela tosca e rstica empreitada, precisava de pelo menos um canto pra repousar a noite. Resolvi, ento, fazer uma casa, mesmo sem luz eltrica e confortos. Porm, l no havia pedreiro, nem mestre de obra, as choupanas eram feitas de adobe e taquara. O ribeirinho do So Francisco era afastado do mundo. Televiso no existia, rdios, uns poucos, mesmo assim, desligados, pois pilhas eram caras e no tinham onde comprar. Materialmente, o povo sobrevivia de peixe e abbora, desconhecia qualquer tipo de consumo e tinha medo de automvel. A vila Florentina, que ficava ao lado da fazenda, era uma Macondo, que vivia em volta do seu umbigo. Existiam para eles mesmos e desconheciam o resto do planeta. Embora isolados, eram curiosos e respeitosos com a pouca e rara gente da cidade que aparecia.

Na longa busca por pedreiro em Montes Claros me restou Adelnio, que se apresentava dizendo: - Muito prazer, Adelnio Figueira, seu servo. Era metido a besta que s ele. Imagine um pedreiro que fazia as unhas aos sbados. Usava cabelinho glostora, empastado, fiapo de bigode aparado a navalha, perfumado a Lancaster. Quando o sol esquentava, o sobaco suava e o azedo do Rastro avisava.

Sonhava ir ao Chacrinha cantar Parece que eu sabia que hoje era o dia de tudo terminar. Se achava um gal. Sempre de pente no bolso, a toda hora o puxava e passava nos seus rebeldes cabelos. Era caspa para todo lado. Pior era quando ele batia o pente nos cantos dos mveis para o farelo branco cair. Sem contar que o gaiato andava com cotonetes e palitos de dentes na carteira de bolso.

Quando o levei para Jaba, ao terminar as refeies, ele abria a carteira, tirava pausadamente o seu usual palito, cutucava os seus cariados dentes e ao final dava a inevitvel chupadinha: chichi, chichi... Em seguida, retirava um dos seus guardados cotonetes, introduzia no ouvido, o rodopiava pra l e pra c e retirava suas ceras amareladas. Higiene explcita e completa.

Os barranqueiros, que no tinham nem escova de dente, assistiam aquele ritual como coisa de outro mundo e depois comentavam: - Viu que homem educado.
S Rita, a cozinheira, querendo ensinar bons modos as suas filhas, alertava: - Aprendam, meninas, prestem ateno, ele anda com o palito na carteira pra futuc os dente e limpa as oria com vareta de prstico com algodo na ponta. Nunca tarde pra aprender!

Para a obra andar e eu me livrar logo do Adelnio, arranjei dois sujeitos bons de servio para serem seus serventes e platia, Z e Ante.

A dupla logo-logo pegou o ritmo do servio, num faltava tijolo, nem massa para o pedreiro contador de potoca.

- J fiz minha inscrio no programa de Chacrinha. Uma pena que vocs no vo poder assistir. S estou precisando de uma partner para o meu show, ser que no tem nenhuma mocinha por aqui que eu possa levar aos estdios da Globo?

Ante, sem entender, perguntou: - Cum qui , seu Adelino?

- Adel-ni-o, meu filho, Adel-ni-o! Nome de artista: Adelnio Figueira.

- T bom, mas o que o senhor quer mesmo? Perguntou, de novo, Ante.

O pedreiro, carente, h dias socado naquele fim de mundo, doido pra arranjar um rabo de saia, de olho na assanhada filha mais velha de S Rita, jogou verde: - Ser que a Delcira num topa viajar comigo pra Montes Claros e de l ns irmos apresentar um show no Rio de Janeiro?

- Topa! Ela t at engraada com o senhor, mas o senhor num rompe, num toma as rdea.

Adelnio endoidou. Acabou o servio, tomou um banho, perfumou-se, penteou o rebelde por duas vezes e foi estalando pegar a janta na casa de S Rita. O sentido inteirinho na sua filha.

Acabado o jantar, finalizadas suas explcitas higienes, puxou conversa com a serelepe Delcira e a chamou para caminhar e ver a clara e redonda lua.

Papo vai, papo vem, promessas de viagens e presentes, tomou coragem e pediu a cabrocha pra namorar.

De pronto, Delcira topou e eles j voltaram de mos dadas.

A semana rodou, naquele ritual - trabalho, jantar, higiene e namoro. No escuro, Adelnio j beijava, roava e mastigava a Delcira toda. Ficava pra morrer de teso, pedia, implorava e nada. A filha de S Rita podia estar sopitando, mas sempre dizia: - No!

O coitado do pedreiro passava a noite pensando na namorada. Amanhecia bambo e ia insone para o trabalho. L encontrava com a dupla Z e Ante, que j sabendo do seu sofrimento, perguntava: - Comeu?

Adelnio, arrasado, sempre respondia: - Quase.

At que numa manh, Ante perdeu a pacincia: - Que quase, homi, comeu ou no comeu?

Adelnio, sofrido, duvidou: - , acho que ela no d no.

- No d? Ontem mesmo, depois que voc deixou ela em casa, o Z chamou ela pra debaixo do p de Jo e conferiu. Num foi, Z?

- , se foi, j peguei a bichinha quente e moiada. Ela chegou a assubi.

Ao ouvir aquilo, Adelnio perdeu a pacincia, jogou a colher de pedreiro pro lado, desceu do andaime e saiu procura da sua namorada Delcira.

Encontrou-a na beira do rio, batendo roupa. Sem discrio nenhuma, na frente das outras lavadeiras, Adelnio destramelou: - Delcira, eu estou te namorando srio esse tempo todo, prometendo-te levar pra Montes Claros e mais sei l o qu, e voc num d pra mim, mas d pra qualquer um?

Delcira, estranhando aquele ataque todo, respondeu calmamente: - Mas, Bem, c s pede. Eu digo no e c num passa a rasteira, num me dirruba.


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Por Ucho Ribeiro - 8/9/2014 12:06:35

HU!

Cansados de pescar no velho Chico, os compadres Enio Pacfico, Murilo Maciel e Pedrim da Antarctica programaram uma pescaria no Araguaia. (Histrica foto acima).
Juntaram as tralhas e mais meia dzia de amigos e rumaram para o miolo do Brasil. O sonho da maioria era pegar uma piraba de pelo menos 50 quilos pra matar de inveja os pescadores que no foram na viagem.

Despediram das patroas, das suas pragas e dos seus bicos, beijaram os bacuris e partiram para o meio da selva. O papo durante a viagem foi sobre a expectativa do que eles iriam encontrar naquela selvageria toda.

- Me disseram que l tem ndio igualzinho aos que estavam aqui quando descobriram o Brasil.
- , se tem... Tem e muito daqueles biteles, botucudos, pelades.
- Alfredo me falou que pra onde ns vamos tem bugre que nunca foi amansado, que nunca teve contato com branco. Bruto igual jaguatirica.

Pedrinho, apimentado, sonhou alto: - Ser que l num tem tambm umas indiazinhas no pelo pra gente amansar?

A viagem durou uns dois dias, at se abrigarem numa encantadora esquina de areia branca do Araguaia. Desceram os barcos, as tralhas, do caminho, armaram as barracas e montaram jeitosamente a cozinha na sombra de uma rsea sapucaia centenria. Instalaram os jiraus pras panelas, estantes para os fartos mantimentos e forquilhas pra secar os sonhados peixes. Tudo maravilha. Turma alegre, escolhida a dedo, estoque renovado de causos e piadas, bia de primeira, gole frouxo sem regrao e o riso solto, destramelado. Pescaria melhor? No se lembravam. J tinham esquecido de Monsclaro, das patroas e do trabalho.
A toda hora uma brincadeira: - Fulano, c j trabalhou? Em seguida, emendava: - , aqui t melhor do que trabalhar.

A rotina era acordar aos deus-dar, tomar um caf, sem pressa, reforado com ovo, farofa e banana frita. Entrar no barco, quando desse vontade, pescar o dia inteirim e s voltar para o acampamento tarde para tomar mais umas e saborear o criativo rango do cozinheiro Druvalino. Pana cheia, paia certa at o comeo da noite, quando uns iam jogar truco e outros mais fissurados voltavam para o rio procura da piraba desmedida.

L pelo quinto dia, no final tarde, depois da bia e do descanso, Enio e uns companheiros foram banhar e lavar as panelas no rio. Distrados com tanta beleza e vastido, demoraram a perceber as trs canoas que despontaram na curva do rio.

Murilo, treiteiro, desconfiou: - Ser que ndio?
Pedrinho: - Ih, so ndios e dos grandes!
A cambada atemorizada foi saindo de fininho do rio, sem correr para no parecer covardia e soverteram para dentro do mato e das barracas. Sobraram, dentro dgua, Enio, com as panelas na mo, e Pedrinho, agachado e escondido atrs do compadre.

Nisso, duas das canoas estocaram e a maior, com um indio desmesurado, foi deslizando ngua em direo dupla tremelique. O bitelo do ndio veio remando levemente em direo dos dois at que freiou sua canoa com um reverso movimento no seu remo. A canoa fez uma pequena meia lua e parou perpendicular a eles, estampando aquele imenso e carrancudo selvagem, como um totem.
Enio, a ver-se de frente daquele bicho selvagem, bruto, todo emplumado, encarnado de vermelho urucum, com uma rodilha de madeira no beio, comeou a fazer borbulhas dentro dgua, no focinho de Pedrinho.

Sem saber o que dizer, pois dilogo com ndio s havia visto em filme de Gary Cooper, largou as panelas, levantou o brao, abriu a palma da mo direita para cima e arriscou: - Hu!

O sisudo ndio apenas respondeu o cumprimento: - Hu!

Enio, atrapalhado, perdido como as suas panelas rio abaixo, perguntou com voz trmula: - Chefe, onde homem branco pegar peixe?

O empavido selvagem, pausou e respondeu: - No ri-o!

Enio, cercado de borbulhas, tomou coragem e engatilhou outra pergunta com o vozear pausado: - Mim, ca-ra p-li-da, que-rer pe-gar pe-i-xe gran-de. Co-mo pe-gar pe-i-xe gran-de?

O ndio, ento, destramelou: - Depende do seu equipamento. Vocs esto com carretilha ou molinete? Aqui pra pegar piraba grande s com carretilha DAM ou Abu Garcia. A vara tem que ser Fleming ou Sumax de 120 libras, a linha Raiglon 0,90 mm e o anzol Mustad 12/0. Mas tudo isto s serve pra quem tem brao pra fazer fora e pelo visto t faltando homem aqui.

Tomou, distrado?

PS. Acredite quem quiser - nesta pescaria eles pegaram uma Piraba de mais de 200 kg.


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Por Ucho Ribeiro - 25/8/2014 10:17:40
MACHO MAN

No vero de 94, Maro aporrinhou o seu compadre Joo Valle Maurcio a largar Monsclaro e viajar pelo mundo.
- Deixa de ser munheca, Joo! Vamos viajar! Adular as patroas! Voc fica guardando dinheiro para genro gastar. E olha que os seus so mais ricos que voc.
- Mrio, eu que sei dos meus apertos.
- Bobagem, vende o Fronteiro, cala os apertos e vamos queimar dinheiro. Jacy e as meninas programaram uma viagem pros States e Caribe. Leva a Milene e as filhas e faa uma mdia boa. Sero elas que vo tolerar suas rabugices e imundices na velhice.
Dito e feito. Um ms depois, fomos todos para Miami e em seguida para um cruzeiro no Caribe.
Naviozo colosso, dez andares de altura, mais de 2500 passageiros, muita festa e comilana.
Na primeira manh, fomos juntos para o deck da piscina apreciar aquela confraternizao toda. Maurcio, Milene, Maro, Jacy e as filhas aninharam-se em cadeiras ao redor da piscina, tomando margaritas e burritos. Eu, inquieto, fiquei a circular, observando aquele burburinho agitado ao som de rumba e salsa.
Nisto um apresentador poliglota, metido a gal, de microfone em punho, que circulava e animava o ambiente, me segurou pelo brao e disse: - Here one more for the contest Macho Man (Eis aqui mais um para o concurso do Macho Man).
Eu, sem entender direito, refuguei dizendo: - O qu?
O homem, ento, emendou: - Ah, brasileiro? De onde? Est gostando da viagem?
Eu s dizia: - No! No! No! Eu no quero participar do concurso.
A, o fiduma, sem me largar e de posse de seu potente alto-falante, perguntava a todos os passageiros do navio na mais diferentes lnguas: - He will participate in the contest Macho Man or not? l participar en el concurso Macho Man o no? Ele vai participar do concurso Macho Man ou no?
A cada pergunta do apresentador, centenas de pessoas espalhadas pela piscina e pelas sacadas dos andares respondiam: - Yes! Oui! Si! Sim!
No teve jeito. Esperneei, fiz de tudo, mas no consegui escapulir daquele mico.
O navio chamava-se Celebrity e eles queriam escolher j no primeiro dia a celebridade: o Macho Man.
Foram selecionados mais trs concorrentes e fomos colocados cada um num dos quatro cantos da piscina, em cima de palcos em forma de cilindros parecidos com aqueles das chacretes.
Eu, naquela semgraceza toda, torcia para acabar tudo rapidinho e o mico ser o menor possvel.
A primeira tarefa foi nos colocar para imitar o Mister Universo exibindo os msculos, como num concurso de fisiculturismo. Como no tenho e nem tinha msculos para mostrar, resolvi levar na gozao e estufei a minha barriga desenvergonhadamente. Uns riram, outros vaiaram. Um vexame.
Da, o agitador informou a segunda tarefa: - Macho que macho grita que nem Tarz. Vamos ver quem grita melhor e mais alto.
Eu ento pensei com os meus botes, bom, isso fcil, quantas vezes no imitei o Johnny Weissmuller na minha infncia?
Os outros concorrentes berraram uns gritos mixurucas mais sem graas e eu me animei. Quando o apresentador colocou o microfone na minha frente eu enchi o peito de ar, abri a boca e soltei com toda fora do mundo um grito horrvel: pfio, agudo e estridente. Como imitar Tarz com a boca totalmente aberta? Fiasco total com vaias unnime. Outro vexame.
Fui para a terceira tarefa, desmoralizado e envergonhado. Eles colocaram uma linda mulher, balzaquiana, sentada sublimemente num pedestal, como uma deusa, e tnhamos que galante-la com gestos, palavras e cantos, a la Don Juan.
Pensei, t lascado. L vem mais uma vaia. Olhei para os lados e vi Tio Maurcio. Abri os braos com as palmas das mos abertas mostrando o meu desespero e, ele, montesclarense at a alma, invejando o meu lugar, deu a soluo: - Cante Amo-te Muito! Cante Amo te Muito! Seria a perfeio, cantar o nosso hino de amor para um navio entulhado de gringos de todas as nacionalidades. Sem dvida, sucesso garantido.
S tinha um probleminha: no sei cantar nem sabia a letra de Amo-te Muito. A, foi o vexame dos vexames. Meu galanteio restringiu a um cumprimento a uma suposta alteza, referenciando-a com um suave movimento de brao e um beija-mo ridculo. Tio Joo olhou para mim, balanando a cabea com o desdm a um verme.
Hoje, fico a pensar, que deveria t-lo chamado para cantar em dupla. Ele soltaria orgulhosamente a voz e eu o dublaria mudamente. Tio Maurcio ficaria todo orgulhoso e eu me safaria do vexame.
Enfim, a quarta e ltima tarefa: cada um dos quatro concorrentes deveria chamar o maior nmero de mulheres para o seu canto da piscina. No foi to difcil assim, pois logo localizei minhas irms, minha me, dona Milene, Vitria e Liliane, e elas me ajudaram a arrebanhar mais gente. Mas, em seguida, o apresentador arrematou: - A pontuao ser dada em dobro a quem convencer s mulheres a pularem na piscina e, em triplo, se carem de roupa.
Antes de ele terminar de dar as explicaes, Mame deu um tibum dentro dgua, de roupa e tudo, para me dar a pontuao mxima. Mnica, Bertha e as Maurcio vieram atrs imitando-a.
Percebi num relance que naquele deck havia um imenso e repleto toalheiro com rodinhas e eu o puxei para perto da escada da piscina, onde medida que cada mulher saa da agua eu beijava sua mo, agradecia e lhe dava uma toalha. O navio inteiro foi um aplauso s. No teve apurao, todo mundo comeou a gritar: - Macho Man! Macho Man! Macho Man!
Ganhei brindes, perfumes e uma camiseta com os dizeres: Sou uma Celebridade. Sou o Macho Man. Nunca fui to famoso. Por onde passava algum me saudava: - Hi, Macho! - Ol Macho!
Uns 3 dias depois, de manhzinha, ainda no mandato de Macho Man, o navio aportou no Mxico. Tio Joo me chamou reservadamente e fez um ultimato: - Ucho, ns vamos descer do navio e no vai ficar uma bodega desta Acapulco em que ns no vamos tomar um trago, uma tequila. Combinado?
Eu, sem vacilar, respondi: - Combinado!
Samos os dois, alegres e joviais, com o Mxico sob os nossos ps. Tio Maurcio impecvel. Cala vincada branca, blazer azul marinho, botes dourados, leno vermelho no bolso da frente, sapatinho duas cores e um quepe de almirante estalando de novo. Pronto para o que desse e viesse. Eu de jeans e vestido com minha clebre camiseta de Macho Man.
O dia estava reluzente, cu e mar azuis de tinir, temperatura agradvel, brisa boa e nossa disposio para virar o universo ao avesso.
Na sada do navio abracei Tio Joo e ele foi desembrulhando conselhos como caramelos: - Ucho, a vida pra ser vivida mais aoitadamente. No podemos debrear. Lembre-se, sempre um usque a mais, um sono a menos, um calor, uma paixo. Temos que aquecer o corao. Devemos nos entregar aos sonhos. Hoje um dia que vamos nos presentear. Ns merecemos.
Dito e feito. Entramos em todos os bares que vimos pela frente. Pedamos a tequila no balco. Tio Joo puxou conversa com todo mundo, chicos e chicas, cantou, danou, recitou, fumou charuto, flertou com raparigas, aprendeu o grito del mariachi, ensinou-me Amo-te Muito, tomou mezcais e mojitos, provou todos os antojos e petiscos e encheu os meus e os seus olhos de alegres lgrimas.
Fomos completos e plenos durante o dia inteirinho, transbordamos contentamento e irmandade.
No entardecer, j atrasados para o embarque, voltamos cantando Rapariga do Bonfim, Amo-te Muito e gritando repetidamente: - Viva o M-rri-co.
No pau que a gente estava, nem notamos que os passageiros do navio estranharam aquela cumplicidade amiga e carinhosa do Macho Man com aquele elegante, singelo e rico senhor. Eram s cochichos e olhares maldosos...
Ns dois, amparados um no outro, entrelaados, rodopiamos pelo navio at alcanar as poltronas reclinveis da piscina. Pedimos mais duas saideiras tequilas Jose Cuervo e antes de sermos servidos nos apagamos nas espreguiadeiras. Nirvanamente mortos.
S abri os olhos um par de horas depois, devido ao estalar dos flashes das mquinas fotogrficas de uma poro de idiotas.
Percebi, com pena, o preconceito deles ao ver o Macho Man do navio dormir de mos dadas com o galante e idoso senhor.
Nem dei bolas, fechei os olhos em desprezo, certo e alegre de ter passado um dia maravilhoso com o supimpa Tio Joo Valle Maurcio. No larguei sua mo e continuo enlaado aos seus sbios conselhos.


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Por Ucho Ribeiro - 11/8/2014 11:17:20

Um Didal de Irineu

Para uns, um ningum. Para outros, um truo, um mentecapto. Isolado, disjunto, iletrado, isto ele . Como mesmo diz: - no fao nem o . mudo e mouco para este mundo apressado, mquino. Desconhece nossa vida eltrica, interntica, televisiva. Ignora leis, poltica, papis, carimbos, documentos. No sabe sua idade, mas, se entrega: - Na grande cheia de setenta e nove eu era rapazim, fiquei apartado na Boleira, do outro lado do rio por luas, comendo s quiabo da lapa e samambaia cozida em enchu de galinha.
devoto e doutor em formigas, rvores, passarinhos e besouros. Segue abelhas, pacientemente, atrs de favos de mel. Protege os insetos e no mata lagarta porque ela concebe as borboletas. Afirma categoricamente que alguns paus viram insetos e uns insetos quando morrem viram paus. D mansas e longas aulas sobre quebranto e mau olhado. Silencia-se, com olhar esconso, para decifrar pios e grunhidos. Conhece o tempo, o vento, as nuvens. Vigia o revoar dos pssaros, o canto da con, o colorido do cu, o deslize do rio. Sabe quando chove e quando estia.
- Vai parar de chover!
- Por que, Irineu? Est invernado h dias.
- Oh, olha a as tanajura! Elas t largano as asinha por tudo quanto lado. Essas bichinha so danada de protegida, quando elas aparece, estia.
O cu amanheceu anil.
Alguns o acham um man, um migu, um qualquer. Coitados, passaro a vida na ignorncia, sem conhecer os mistrios e os encantos contidos na matuta cachola do sbio catrumano. Calado fica de tanto ouvir as asneiras e baboseiras dos citadinos. S abre a boca afianado e se for muito instigado.
- No garimpo voc reza para achar a pedra grande?
- Moo, que isso? Diamante no apreceia reza, no! Diamante gosta de sangue, de confuso. Ouro mais carola, diferente, peg com Deus um djutro bom pra bamburrar.
Depois de um espirro, perguntei: - O que cura gripe, Irineu?
- Quem gargareja urina de mui veia de madrugada num gripa nunca.
- Mas no serve urina de mulher nova, no?
- No!
- Mas por qu?
- Mui nova num tem as mardade.
Dias desses caminhvamos na beira do rio, quando fui alertado:
- Olha o cip!
- Cip, que cip?
- Na sua frente, moo, cuidado!
- Viche Maria! uma cobra!
- Psiu! No fale este nome! Ela num sabe que peonhenta, no. Se sab, a de ns!
Eu o conheci quando comprei uma terrinha num canto formoso do vale jequitinhonho. Era mata pura, rio lmpido e mil criaturinhas bichos, insetos, plantas, peixes, pssaros, que me foram por ele nominados e apresentados um a um: - Monjolo madeira ispicial pra cho e brejo, j pereio o pau pros cabo das ferramenta; o ch de barbatimo cicatrizante e bom pra lav as partes das mui; o burro o animal que foi pra escola, d aula pra cavalo; quando a vaca cruza na lua cheia o bezerro nasce macho; arapu boa para ezipa; pra tir casco de p de gente, bom esfreg jenipapo verde; bicho de se preocup taturana, uma lagarta que faz homi mij perna abaixo e se no acudi mata criana pequena; banha de sucuri serve pra torcicolo... Num jorro contnuo de sabedorias, foi me explicando a natureza em detalhes.
Em simpatias, ento, uma sumidade: - Pra no abort s coloc sobre o telhado uma caixinha com maribondo; pra fazer minino pequeno fal basta d gua pra ele em sineta de igreja; se a mui t entulhada na hora do parto, a gente deve abr as cancela, se no der certo, abri as janela e as porta, e se continu encalhada, vai destelhando a casa pra d passagem...
Nesta toada ele me fez ouvir todo tipo de sapincias e mil maravilhas. Tenho tomado nota de tudo, inclusive aprendi a usar um mundo velho de remdios: guapo, poejo, tipi, batata de purga, papaconha, calumba, macela, mastruz, alcanfor do campo e outros tantos, e, aqui para ns, estou at ficando craque em rezas e benzeduras.

Mas no comeo de nossa convivncia, como eu no tinha casa no Alecrim, deixava meus trecos bicicleta, bias, coletes, caiaque com ele, que os guardava zelosamente em um dos seus cmodos. Quando chegava, era o primeiro lugar que eu passava, para pegar alguma das tralhas, filar uma boa prosa e encomendar um frango com ora-pro-nbis, para comer no finalzinho do dia.

Sua casa era de cho batido, o piso esfregado com o esmeraldino esterco bovino e as paredes clareadas com tabatinga. Seu porco Filomeno tinha trnsito livre, porm usava um espetado brinco de arame no nariz, para impedi-lo de futucar e esburacar o cho. As galinhas dormiam empoleiradas pelos cantos, a do choco se aninhava confortavelmente num velho forno de um inativo fogo a gs. As rapaduras apuradas com abelhas petrificadas ficavam dependuradas acima do fogo de lenha. Perguntado como ele aproveitava as rapaduras com tantas abelhas grudadas, respondeu de pronto: - No caf, elas fica no coador.
Num janeiro, poca em que findam os mantimentos, me comovi com a carncia remoda h meses por um malogro no garimpo, tristemente escancarada nos midos filhos e na mulher Maria, ossos vista. Fui cidade e comprei saco de arroz, feijo, acar, caixa de leo, macarro, caf feira farta, sacudida, para eles.
Sumi em meus afazeres montesclarinos por uns vinte dias. Ao voltar e passar em sua casa, com o sentido em pegar o colete para descer a cheia do rio, perguntei: - Cad minhas coisas?
Ele disse: - Esto a, no mesmo lugar.
Ao entrar no cmodo onde entulhavam as minhas tralhas, deparei com todos os sacos e caixas de alimentos intocados.
Sem entender, indaguei: - Vocs esto doidos? Porque no usaram a comida que lhes deixei?
Assustado, respondeu: - U, mas era sua...
- Que isso, Irineu? Eu comprei para vocs.
Par de lgrimas deslizaram dos olhos da bambeante Maria, abraada em amparo pelos meninos.
Quando levei sua famlia Diamantina, foi a primeira vez que os seus filhos saram da roa. Ao chegarmos numa lanchonete para merendar, os trs pequetitos, Ozia, Onofrim e Paulim, mergulharam no piso de cimento queimado e nadaram de braos abertos, esfregando seus corpos e faces naquela lisa superfcie. Era a inocncia, cheia de risos e de encantamento.
Na volta, no carro, perguntei: - Irineu, voc j viu televiso?
Ele deu um tempo e depois respondeu, seguro: - J!
- Voc viu onde?
- Vi no Alecrim. Tava desligada, mas eu vi!
No final da viagem, ao despedir, disse-me: - Ucho, a vida me ensin que tem dois tipo de gente: os que agradece e os amuado. Eu aprendi a agradec.
Eu tambm.
Bendito.


78291
Por Ucho Ribeiro - 8/7/2014 11:55:18

SESSENTA E NOVE

- Mrio, acorde! Tem gente mexendo na porta!
- Maria, a esta hora da manh, deve ser ladro. melhor ficarmos quietos.
- Mrio, levante e vai l ver.
- H gente pelos jardins e dois carros parados na porta.
- Ser, Mrio?
- , vieram me pegar. Esto paisana e no conheo ningum.
Eram quatro horas da manh quando tocaram insistentemente a campainha da nossa casa na rua Luiz Pires, 80.
Meu Pai foi at a sala, abriu a porta e disse: - Pois no?
Um deles perguntou: - aqui que mora dr. Mrio Ribeiro?
Maro, querendo se safar, respondeu: - No, aqui mora Mrio da Silveira, sinto muito! E tentou fechar a porta, quando um paramilitar colocou o p frente, impedindo.
Entraram, seguiram-no at o quarto para se vestir e determinaram que ele os acompanhasse imediatamente.
Minha me assustou-se com as duas armas apontadas para ela, exigiu que eles se retirassem para que pudesse trocar de roupa.
Papai, desorientado, procurou atrapalhadamente tranquiliz-la: - No se preocupe, Maria, vou atender um cliente e volto j!
Ao se despedir, com um beijo, Maro cochichou: - Chame logo o Georgino.
Deitado na cama, assisti, pela porta aberta, quele trana-trana de homens desconhecidos e armados dentro da minha casa. Rodopiaram por todos os cantos, foram at a biblioteca, pegaram os livros de capas vermelhas e mais o reles livro Eu e a China.
Toda a movimentao para levar meu Pai no durou cinco minutos.
Mame ligou para o Cel. Georgino, que chegou em seguida. Contou mal-mal o acontecido e ele saiu com uma maleta com algumas peas de roupas para serem entregues a Papai, caso ainda o encontrasse pela cidade.
Soube, depois, que o Georgino se encontrou com Maro no posto de gasolina ao lado do Batalho. Ele estava numa Kombi com mais trs detidos, salvo engano, o seu compadre Laert Ladeia David, dono da Grfica Orion, Porfrio Comunista e o dr. Clvis, mdico do So Lucas.
O Coronel apresentou suas patentes, entregou a maleta e pediu toda ateno para com o meu Pai: - Independente de sua posio poltica, de ter sido cassado e de ter perdido seus direitos polticos, posso lhes assegurar que Mrio um homem de bem.
No clarear do dia, tio Otvio chegou nervoso l em casa com vov Fininha. Andava ao redor da mesa, fumava um cigarro atrs do outro e aconselhava alto com sua fala embaralhada:
- Maria Jacy, os meninos no devem ir ao colgio.
- Vamos ligar para Genival.
- Voc j falou com Mrcio de Castro e Silva?
Quando os meus irmos e irms acordaram para ir escola, Mame nos reuniu e explicou: - Hoje de madrugada, uns homens estiveram aqui e prenderam o seu Pai. Ele no fez nada de errado! Trata-se de perseguio poltica, porque ele pensa diferente do governo. Ns vivemos numa ditadura e quem pensa diferente perseguido.
- Tio Otvio acha que vocs no devem ir ao colgio para no ficarem constrangidos. Mas vocs iro escola, de cabea erguida e peito estufado. Com muito orgulho do seu Pai.
- Pat, hoje noite voc tem apresentao de Ballet no Imaculada e ns todos vamos estar presentes. Voc vai ser a bailarina mais bela e a que vai danar mais bonito, viu?
Fui para o Colgio So Jos todo empinado, calado e introspectivo, espera de uma sabatina por parte dos garotos.
Entrei e fui direto para a minha carteira, no fiquei pelos corredores brincando com os colegas. Fingi que terminava o dever de casa.
Aula iniciada, percebi que ningum sabia de nada. Eu, preparado para o que desse e viesse, e meus colegas, agindo normalmente, nem me olharam diferente. Meu Pai havia sido preso s 4 horas da manh, a notcia ainda no tinha se espalhado pela cidade.
No recreio, fiquei na minha, quieto, reservado, espera de alguma gozao ou provocao. Mas, nada. Quase no final do recreio, meu amigo Wallen chegou perto de mim e perguntou: - Seu pai foi preso?
Eu, de pronto, j preparado por minha me, respondi, na pinta, com o queixo levantado:
- Foi, por qu?
- No, nada no.

Maro perdeu os seus direitos polticos em julho de 1969. Estvamos no stio Tira-Teima, quando ele ouviu pelo rdio o seu nome na lista dos cassados pelo Conselho de Segurana Nacional. Marquim, inocente, saiu alegremente gritando: - , os minino, falaram o nome de Papai no rdio!
Maro permaneceu calado, cabisbaixo, depois de um tempo lamentou pela Famed: - Perdi minha Escola!
Um par de meses depois era a Parada de 7 de Setembro. As escolas pblicas e privadas aproveitavam a data cvica como vitrine para se promoverem. A meninada toda se alvoroava para fazer bonito no desfile. Uns queriam participar da fanfarra, tocar tarol, caixa clara, surdo, at mesmo corneta. Outros decoravam suas bicicletas com pequenas flmulas e entrelaavam os raios com papeis crepom coloridos. Havia os pelotes dos desportistas, dos trofus, dos estandartes e dos envergonhados e raivosos baixinhos do colgio - a indesejada e vaiada rabada, que marchava ao som das batidas dos prprios ps. Os ensaios eram quase dirios. Por todos os cantos da cidade, dava para ouvir as bandas se aprimorando para no sair do tom ao passar pelo palanque das autoridades militares e municipais.
No Colgio So Jos havia um consultor militar, creio que do Tiro de Guerra, por conta de assessorar o nosso desfile. Ensinava com o maior rigor como os alunos deveriam alinhar, marchar, curvar, arrancar e no dispersar ou sair da ordem estabelecida. Os ensaios duravam semanas, a expectativa era imensa. A cidade inteira assistia as comemoraes do Sete de Setembro.
Na vspera da parada, no ultimo horrio de aula, esse militar, juntamente com um subalterno do colgio, retirou meus irmos, Fred e Marquim, e eu das salas de aula, levou-nos at a um canto e sentenciou: - Amanh, vocs trs podem ficar em casa, no para se apresentarem para o desfile. Esto dispensados desde j. Nem perguntamos o porqu.
Foi duro ouvir aquilo, mas o pior foi que, no dia seguinte, no pudemos assistir a alegre e esperada parada, pois seramos os nicos meninos que no estariam na marcha e no teramos como explicar aquela antipatritica ausncia. Passamos a manh recolhidos, com os sentidos voltados aos sons das fanfarras, dos estampidos e no barulho unissonante das pisadas firmes dos meninos. A nossa casa ficava a meio quarteiro do rumoroso desfile e estvamos enclausurados e excludos da festa.
De volta noite da priso, Maro nos disse que a viagem foi tragicmica. Ele, no maior cagao, fingia que tudo no passava de um engano. Volta e meia, blefava para um dos companheiros presos que choramingava: - Calma, meu velho, a esta hora Magalhes Pinto j foi avisado. Vamos chegar no DOPS com a ordem expressa de soltura. Vocs vo ver, tarde j estaremos soltos!
Que nada! Foi cadeia mesmo. Cana dura.
Ficaram l uns dias, no sei quantos. Meu Pai nos contou que no foi torturado fisicamente, mas que tinha uns fidumaguas que passavam o dia fazendo terror com perguntas aos outros carcereiros:
- O cara l aguentou os choques ou se borrou todo?
- O do pau de arara abriu o bico, alcaguetou os outros?
O sempre solidrio Genival Tourinho e tio Mrcio mobilizaram uns amigos, desafiaram uns inimigos, encurralaram uns bunda-moles, cutucaram uns omissos e, depois de mexerem muitos pauzinhos, conseguiram tirar o velho da cana.
Segundo eles, aps se comprometerem e se responsabilizarem pela custdia e soltura de Maro, aconteceu o mais inusitado. Na descida da escada do DOPS, j na rua, com Mrio Ribeiro livre igual a um passarinho, meu Pai parou e disse: - Pera um minuto, eu tenho que resolver um probleminha aqui.
Voltou-se e entrou de novo no prdio do DOPS.
Genival e Tio Mrcio esperaram um pouco para entender aquela doideira e no vendo sentido foram atrs de Maro. Percorreram as salas at entrarem no gabinete do superintendente. Depararam com Papai pedindo-lhe uma autorizao para comprar dinamite para a sua pedreira em Montes Claros.
O superintendente, possesso, sem entender aquele pedido maluco, voltou-se para Genival e perguntou: - Este cara louco? Ele foi preso por ser cassado, subversivo e comunista. Sei l se no um terrorista, um guerrilheiro e quer di-na-mi-te! Eu vou socar ele de novo nas grades.
Genival, ento, atalhou: - Que isto, Doutor? Ele est muito perturbado, insano, e quando fica assim, fica irreverente, vira um zombador. Desculpe! Desculpe! Ele est precisando de repouso, de descanso.
Ao sarem de novo do prdio, tio Mrcio deu-lhe uma bronca: - C t doido, Mrio? Voc est querendo comprar dinamite no DOPS?
- Marcito, Marcito, minha pedreira est parada por falta de dinamite e so estes fidumas que do a autorizao pra a gente comprar os explosivos. J que estvamos aqui, no queria perder a viagem.
Maro era desse jeito: prtico e de um corao do tamanho do mundo - perdoava todo mundo.
Vrios anos depois, num final de tarde, tomvamos umas no Bar e Restaurante Quintal, em uma mesa com muitos amigos e notei que Maro encontrava-se estranhamente calado. Ele estava a observar um cara sentado sozinho numa mesa apartada.
Passados uns minutos, ele levantou-se foi at o sujeito e o convidou insistentemente para sentar nossa mesa, apresentando-o festivamente: - Este fulano. Ele foi o meu algoz l do DOPS, quando eu fiquei preso em sessenta e nove.


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Por Ucho Ribeiro - 30/6/2014 10:50:14
SESSENTA E QUATRO

ramos uma ninhada, escadinha de sete crianas de 4 a 11 anos. Mame tinha 34 anos e Papai cinco a mais. Ela vivia por conta da gente e ele por conta de tudo quanto havia no planeta: poltica, reformas, eleies, medicina, construes, futebol, cinemas, fazenda, frigorfico, pedreira, curtume, imprensa, etecetera e tal.
O Brasil era uma efervescncia e Maro era um alka-seltzer naquele burburinho todo. Vivia viajando a BH, Rio, Braslia e pelo circuito de seus cinemas no norte de minas. S o vamos alguns dias na semana, entrando ou saindo, e mesmo assim acompanhado de um monte de amigos, companheiros, correligionrios e curiosos. Chegava com aquela turba toda, cobrando almoos, lanches, jantares, pra j: - Maria, frita mais bifes, pe gua no feijo, o pessoal t com fome! Partimos amanh cedo para o Distrito Federal. Darcy vai nos receber para aprovar umas escolas profissionais para nossa regio.
Meu pai no dormia nem bebia naquela poca, porque no dava tempo, o agito e a pressa eram demais para mudar, passar o pas a limpo. Dava pitaco em tudo, falava pelos cotovelos, tinha idias e solues para todos os problemas do Brasil. Defendia apaixonadamente a educao de qualidade, uma sade plural e bsica e propagava que a terra improdutiva tinha que frutificar.
Aps as refeies, ao agradecer sempre dizia: - Senhor, dai po a quem tem fome e fome de justia a quem tem po.
Nos punha no colo e dizia aos amigos: - Este menino come trs a cinco refeies ao dia, tem toda a assistncia de sade, tem uma cama, um teto, uma me formada em pedagogia e uma escola boa. Ou seja, tem todo apoio familiar e pblico para se tornar um cidado decente e prestante. Chegou o momento de lutarmos para dar mais s outras crianas que esto desamparadas, famintas e sem estudo. esta a revoluo que temos que fazer. Por isso, a premncia das reformas de base.
Porm, a revoluo que veio foi outra: o golpe de 64. Primeiro de abril!
O Mario Ribeiro barulhento, inquieto, teve de se calar, recolher, entocar, sumir. Graas ao providencial aviso de tia Lourdes Pimenta: - Jacy, o compadre tem de sair da cidade agora, imediatamente... Ele se escondeu por uns bons tempos na fazenda Rio do Peixe de tio Joo Valle Maurcio, fugido dos bate-paus.
Nossa casa esvaziou. Ficamos meses sozinhos, com as portas e janelas cerradas. No podamos brincar na rua, mesmo sendo ermo o bairro Todos os Santos naquela poca. Fomos limitados ao nosso umbigo, ao nosso quintal.
Pat, Fred, Marquim e eu amos juntinhos para a escola e voltvamos cercados pela garotada nos xingando: comunistas, comunistas. Crueldade de crianas. Reflexo do que escutavam dos pais em casa.
No me lembro de temer aquele xingatrio todo, estava blindado pelos esclarecimentos de mame. Tinha apenas receio dos meninos, que eram tantos e to irados, baterem em Pat e nos meus irmos.
Minha me conta que um dia a minha professora do grupo D. Joo Pimenta me levou at a minha casa e lhe contou com lgrimas nos olhos: - Estou lhe trazendo Ucho porque os meninos o estavam ameaando e xingando de comunista. Ele disse que no era e nem sabia o que era comunista. Um deles o acusou: Se seu pai comunista, voc tambm ! Seu filho, ento, respondeu: - Olha, se meu pai comunista deve ser coisa boa. Eu tambm sou!
noite, depois de rezarmos e pedirmos a Deus proteo ao papai, ficvamos todos embolados no quarto de minha me.
Alm de Mauricinho, Toninho Rebello ia diariamente l em casa:
- Comadre, est tudo bem? Vocs esto precisando de alguma coisa? Os meninos esto bem? Recebeu a feira que eu mandei? Precisa de dinheiro? Qualquer coisa mande me avisar! Fique tranqila, eles no vo encontrar o Mrio. Marcolina manda lembranas e est rezando por vocs.
A feira de Toninho foi to farta, que comemos goiabada e gelatina durante anos. Tinha tanta comida na despensa que eu pensei: - meu Pai no volta nunca mais.
Mozart Caldeira era o outro grande amigo que aparecia para ajudar. Mas a minha impresso era de que ele tinha tanto receio de pegarem meu pai, que passava um pouquinho da sua tenso e medo pra gente.
Enquanto uns poucos foram solidrios, outros tantos estavam no encalo de Mrio Ribeiro. H pouco tempo soube que alguns foram at a fazenda de Tio Maurcio devido a suspeita dele estar l escondido. Ao chegarem nos arredores, Lafayete, ex-supervisor da Escola Normal, se ofereceu para ir sozinho na frente, com o seguinte argumento: - Pessoal, como o Mrio e seus comparsas devem estar armados e sendo eu o nico solteiro, sem filhos, creio que devo ir at l na sede para fazer uma prvia checagem.
Foi, viu Maro e Maurcio na maior prosa, voltou e disse aos seus compartes: - No foi desta vez, l no tem uma viva alma, tudo apagado. Podemos voltar.
Minha me nunca pode agradec-lo, quando soube deste ato de estima o Lafayete j havia falecido.
Lembro que mame, antes do golpe, alfabetizava adultos pelo mtodo Paulo Freire na nossa casa, noite. No meio daqueles alunos to humildes havia uma senhora, me de uma dentista. Ela era nossa vizinha, mais velha, boa pessoa, e estava toda contente porque j comeava a juntar as letrinhas. O golpe a fez sumir l de casa. Nunca mais apareceu e passou a no nos cumprimentar. Para muitos passamos a ser leprosos sociais.
Por sorte ramos tantos, sete crianas e mais mame, a cozinheira Joana e suas duas filhas, Detinha e Dui, que nos bastvamos no quintalzo imenso.
No esqueo da alegria de tio Enio. Esteve presente o tempo todo. Dormia no sof da sala. Distraia-nos com suas brincadeiras e dava segurana sua irm Cici. Creio que foi este casulo familiar que nos manteve e nos mantm to unidos at hoje.
Nossa casa ficava afastada da cidade, no bairro Todos os Santos, em frente onde hoje o Skema Kente. O campo do Cassimiro no tinha nem muro direito. ramos ns, o orfanato e mais cinco ou seis vizinhos espalhados numa manga sem ruas. A ponte para o bairro que cruzava o rio Vieiras aquela passarela na Sanitria que liga o Sesc ao Posto Via Dupla. O resto era uma estradinha estreita que passava pela nossa porta e ia at o Pequi de Joanir.
Ao entardecer, eu ia para o quarto de Joana escutar no radio a novela Gernimo, Heri do Serto, e o Moleque Saci e ficava atemorizado. Imaginava e sentia o aperto que os meus heris passavam ao serem perseguidos e encurralados, que devia ser o mesmo que o meu pai sentia. Torcia calado para que o Gernimo escapasse e encontrasse Maro. Iria proteg-lo.
Na santa e obrigatria missa do domingo, amos empoleirados no carro, chegvamos juntinhos e voltvamos todos grudadinhos para casa. Se no fossemos missa, a acusao seria implacvel: so mesmo ateus e comunistas de carteirinha.
Depois do Ofertrio, na hora da Consagrao, quando o padre levantava a hstia e depois o clice, mame pedia para a gente dizer com toda a f do mundo: - Meu Senhor e Meu Deus, protegei Papai!
Passado um tempo, que no sei dizer quanto, em uma noite ele apareceu. Foi a maior alegria silenciosa. No podamos falar alto, fazer barulho ou arruaas, para no alardear vizinhos e bisbilhoteiros. As nicas luzes acesas foram as do fundo da casa, da cozinha. Matamos a saudade e a curiosidade, mas fomos dormir cedo, pois antes de clarear o dia um carro buscou meu pai com peruca e barba e o levou para Bocaiva. L, ele tomou o trem e desceu em Sete Lagoas, de onde seguiu noutro carro para Belo Horizonte. As estaes e rodovirias eram vigiadas, um risco para os perigosos comunistas.
Na Capital, ficou escondido num pequeno apartamento, sob a guarda e proteo de tia Nini, irm de mame, e de tio Ruy, seu marido.
Fico a imaginar como ele, que vivia ligado a 220 volts, cercado de gente por todos os lados e sem parar quieto um minuto, conseguiu suportar o isolamento, sem famlia, sem amigos, sem notcias, sem atender o telefone. Estava s. Enjaulado. Minha tia conta que, quando tocava a campainha, ele escondia dentro de um guarda-roupa.
Sei apenas que depois de muito tempo, toda a famlia foi de Kombi, no maior mistrio, receb-lo em Bocaiva. Veio sem a peruca e a barba. A viagem foi a maior algazarra e alegria, parecia o retorno de um heri combatente de guerra.
De volta a Montes Claros, Papai se recolheu, restringiu suas atividades aos seus negcios de cinemas e ao consultrio. Bico calado. O mar no estava para peixe.
Para ns, os filhos, foi bom. Passamos a ter um pai mais presente em casa. E que Pai!


78195
Por Ucho Ribeiro - 24/6/2014 12:00:46
O FIDUMA

Carlos Alberto era funcionrio da Caemc, antiga Companhia de guas e Esgotos de Montes Claros. Exemplar servidor. Assduo e rigoroso nos seus afazeres. Era o responsvel pela carteira das contas dos consumidores. Implacvel na cobrana e impiedoso com os inadimplentes.
Sua vida resumia-se a seu ofcio e s suas outras duas paixes: o futebol e a noiva Vera Lcia.
Aps cumprir o expediente dirio, passava em casa, banhava-se, jantava e seguia para a casa da Verinha. Namorava na sala sob a viglia do sogro e da sogra, assistindo o Direito de Nascer ou Telecatch Montilla.
O trmino destas programaes era o sinal para se retirar. Vera Lcia o levava at o porto e Beto, quando tinha coragem e sorte no descuido dos velhos, pegava na sua mo. J estava muito bom. Uma vez, roubou at um minsculo beijo. Pretexto para suas fantasias noturnas.
O pai de Vera era duro, um renitente, sempre de olho nas possveis investidas de Carlos Alberto. Quando afastava o pouco que fosse dos noivos sinalizava com os olhos para a esposa marcar o casalzinho.
Vera Lcia, primeiro namoro, era vigiada ao extremo. Os pais a levavam e a buscavam ao grupo escolar onde lecionava e s festas. No a deixavam sozinha de jeito nenhum. O controle era tal que at o pacote de modess era entregue pelo pai, um dia antes da sua regra mensal.
Beto era apaixonado por futebol, mas era um pereba, um verdadeiro perna de pau. Ruim de bola de doer. O jeito que encontrou para poder participar do esporte foi apitar os jogos. Ser o juiz. Inicialmente, era ignorado, quase um carta branca nas peladas. Como era dedicado, tinha apito e uniforme, comeou a apitar as pelejas na vrzea e logo depois nos campeonatos amadores da cidade. Fez curso por correspondncia pela Federao Mineira de Futebol e passou a ser requisitado com mais freqncia para os torneios municipais.
Aps cada jogo, Carlos Alberto narrava epicamente as partidas para Vera Lcia. Se vangloriava no apito, principalmente nos lances que marcava faltas e pnaltis. Nos relatos das expulses chegava a levantar-se do sof com a mo estendida, como se estivesse com o carto vermelho. A partida e o seu resultado no tinham tanta importncia, o significante e majestoso era o seu desempenho, o seu arbtrio intransigente. Doesse a quem doesse. As torcidas podiam ficar mordidas, putas da vida, mas o seu apito era impiedoso, imperativo e irredutvel. Ignorava e nunca relatava noiva os improprios que declinavam a ele e a sua dignssima progenitora.
O sonho de Beto era levar Verinha ao Estdio Jos Maria Melo, para que ela pudesse assistir ao seu esfuziante desempenho e a sua autoridade no apito.
Pois no que na final do campeonato amador, Magalhes X So Pedro, Carlos Alberto conseguiu a permisso para que Vera Lcia pudesse ir com a sua prima ao jogo. O pai as levaria e buscaria de carro na porta do estdio, mas durante a partida as duas estariam nas arquibancadas sem velas e acompanhantes.
Sentaram nos primeiros degraus, em frente de uma das rumorosas torcidas.
Ao ver o seu benzinho despontar em campo, ficou escandalizada como ele foi saudado pelas duas torcidas:
- Ladro!
- Veado!
- Filho de puta com soldado!
Quando Carlos Alberto, engomadinho, de preto, todo bonitinho, chegou at o meio do campo para iniciar a partida, juntamente com os seus auxiliares, recebeu nova saraivada de palavres:
- Veio roubar de novo, n, seu rato caiano!
- hoje que voc vai apanhar, fiduma gua!
E logo que o jogo iniciou, Verinha ficou ainda mais rubra e horrorizada de como a sua sogra era xingada e mais ainda de como rotulavam as opes sexuais do Betinho. No teve coragem de olhar para trs, estava totalmente escandalizada com tanta selvageria. Ficou estagnada, muda, estatelada, ouvindo todos aqueles absurdos, sem entender porque os torcedores tinham tanto dio do Carlos Alberto.
A qualquer som do apito, l vinha:
- , fil da puta, ladro!
- , filho de ratazana com mo lisa!
- , bicha escrota!
Poucos minutos antes do final do primeiro tempo, numa jogada violentssima dentro da rea, um torcedor dos mais arrebatados gritou quase no p do ouvido de Vera Lcia:
- C no vai dar o pnalti no, seu corno? Chifrudo!
Descontrolada, desmedida, fora de si, Vera Lcia deu um salto, se ps de p, voltou-se furiosa para a torcida e destramelou:
- Ah, no! Isto no!
Verinha, a bem criada, a recatada, jamais voltou a um estdio de futebol e nunca mais quis saber do fiduma Carlos Alberto.


78139
Por Ucho Ribeiro - 15/6/2014 08:47:24
Z MUTAMBA E GUARAN

De volta das Cabeceiras, Z Mutamba veio bem acompanhado. Arrumara um companheiro, unha e carne, bom de prosa, de gole, chegado num joguinho e mais ainda num rabo de saia. Era o notrio Guaran.
Ele trelou no Z e convenceu o coitado a voltar para Monsclaro, com o argumento de que h dias no tiravam o atraso: Z, Z, quando a gente comea a olhar pro tich das guas, t na hora de retornar pra cidade.
Desembarcaram na Socomil e ali mesmo entraram no rendez-vous da Geralda. Grudadinho na Freiopeas de Shazan. Esvaziaram suas primeiras ansiedades e foram se empoleirar mais frente, no outro meretrcio lecotreco da Carminha, na Praa de Esportes.
L sempre havia trs ou quatro meninas, disposio. Nenhuma era avio, nem mesmo teco-teco, mas todas caprichavam no trivial simples ou no servio completo, barba e bigode, com o maior esmero. Se se catasse a mido os atrativos, as formosuras de cada uma, um olhar, um seio, uma perna, um naco de bunda, dava mal-mal uma rapariga meia-boca. O jeito era encher a cara e degustar uma com o sentido no encanto da outra.
Amansadas as necessidades, saram para tomar uma gelada e arrumar um carteado barato num lugar mais arejado.
No caminhar, contornaram a Praa de Esportes, passaram pelo mercado antigo, subiram a Cel Joaquim Costa apreciando as lojas, reparando as desorganizadas bancas de vendas, at depararem um boteco onde havia banca de jogo do bicho.
- Z, vamos fazer um fezinha? provocou Guaran.
- Sei no, num sou chegado nesses viciozinhos, no.
- Que isso, Z Mutamba, fala um bicho qualquer a.
- Bem, pensando n mui, s mesmo jogando em brabuleta: 16.
- Pois t a, mui pra mim cobra: 33. Cinco contos no milhar 1633. E pra arregaar, vai mais 20 contos no duque das dezenas 16 e 33 do primeiro ao quinto.
- C t doido, Guaran, c vai jogar fora 25 contos nessa besteira? dinheiro pra a gente ficar bbado o dia intirim!
- Besteira, qual o qu? Ns vamos ficar rico, Mutamba. O duque paga 200 vezes e o milhar muito mais. Hoje quarta-feira, no tem mutreta. pela Federal. Quando sair o resultado, ns s vamos beber scotch e luxar na casa de Tiana. L, tudo de comer de primeira! Gargalhou...
- Antes, ns vamos pro Seu Edson quebrar mais uma e daqui a pouco a gente volta para pegar a grana, t?
No bar do pai do Baixim, praa dr. Carlos, tomaram todas e mais algumas. Saram mamados, esbarrando um no outro, mas Guaran, com a pule fechada na mo, no esqueceu o jogo do bicho.
Pois no que deu o duque das dezenas 16 e 33. Mui pru riba de mui:

1 7133 09 Cobra
2 6069 18 Porco
3 1716 04 Borboleta
4 4758 15 Jacar
5 7212 03 Burro

Guaran ganhou. A dupla empapuou.
Os dois receberam a bolada. Uma em cima da outra. Nota preta.
De l mesmo, o furduno comeou. Enterraram o dente no gole. At o tal do scotch entrou na parada. No miolo de Moccity, reviraram tudo quanto boteco que existia. Arranjaram at uns saca-trapos pra irem atrs deles soltando foguetes e batendo palmas.
Naquela turbulncia toda, um foi mijar num reservado, enquanto o outro seguiu instintivamente o rabo de uma boazuda. Acabaram em bares trocados. Se desencontraram.
Da comeou a confusa busca, um procura daqui, outro procura dali, e nada de se encontrarem. Um descia a So Francisco, o outro subia a Gro Mogol. Um rodava a praa dr Carlos, o outro se perdia na praa da Matriz. Guaran emburacava pelo Beco da Vaca, Z supitava na travessa Silvio Jardim. Foi um aranzel de desencontros.
At que, l pelas tantas, Z Mutamba, j desiludido, descendo a cel Altino de Freitas, deparou com dois guardinhas arrastando Guaran pelo brao.
Z, ento, perguntou: - Que isto, gente, porque cs prenderam o hmi?
- C conhece? Ele seu amigo?
- ! gente boa!
- Boa o caralho! Este vagabundo est preso por desacato autoridade.
- Mas por que, seu guarda, o que ele fez?
- Esse fiduma, alm de estar completamente bbado, estava fazendo arruaa no rendez-vous de dona Geralda. Quando ns pedimos para ele maneirar, ele disse, aos berros: - No vou maneirar porra nenhuma, pois eu estou rico e tenho dinheiro para comprar tudo e todo mundo. Disse que comprava o puteiro, o delegado, a catedral, e que comprava at ns dois!
- Ora, seu guarda, deixa de besteira. No ligue no, Guaran desse jeito mesmo. Toda vez que bebe, quer comprar tudo que porcaria que ele encontra pela frente.
No deu outra: Foram os dois dormir no xilindr.


78114
Por Ucho Ribeiro - 9/6/2014 11:28:25
BOA VIAGEM!

Quem me contou foi Artuzim, l de Pedra Preta.
Ele estava no nibus, l no ponto da Socomil, espera de voltar pra casa, quando pintou Z Mutamba, truviscado.
O motorista rabugento, impaciente, olhou aquela figura com desprezo.
Z Mutamba deu uma meia volta, uma bambeada, segurou na porta do nibus e destramelou:
- Seu motorista, esse nibus passa nas Cabeceiras?
- Passa, grasnou o motorista. Sobe!
- Ele passa mesmo? Perguntou de novo Z Mutamba, com um dos ps no degrau.
- Porra, eu j disse que passa. Sobe logo que eu estou atrasado.
- Z Mutamba soluou, hic, aprumou-se, subiu o outro degrau, hic, deu uma olhada comprida nos passageiros, firmou no banco, hic, e quando todos pensaram que ele iria sentar, desceu novamente e voltou para a posio antecedente.
- Seu motorista, eu estou avisando, s entro no nibus se ele passar pelas Cabeceiras.
- No encha o saco, caralho. Ou voc entra ou sai, porque eu no t aqui pra aguentar cachaada de bbado, no.
- Mas eu s quero saber se ele passa nas Cabeceiras...
Mutamba botou novamente o p direito no degrau, tentou o segundo degrau, trocou de p, deu um passo pra frente, outro pra trs e estacou.
O motorista, puto, largou o volante e partiu pra cima de Z: - Escute aqui, seu bosta, c vai encher o saco de outro, ou voc embarca ou desce.
- Calma, moo, eu s queria saber se ele passava nas Cabeceiras...
- Passa, porra! Eu no disse que passa.
- Mas ele vai pra onde?
- Vai pra Puta que Pariu, gritou o possesso motorista.
Com o berro Z Mutamba amofinou, entrou no nibus lotado, esbarrando em um e em outro passageiro, firmando-se nas cabeas das pessoas e foi sentar l no fundo. Uns arreliaram dele, mas Z nem deu bola. Acendeu um paiozo, deu uma cusparada no cho, umas baforadas e comeou a cantar A mulher do compadre Man Peedro..., que poucos entenderam a letra. O nibus no chegou na Maiada e ele j estava roncando com o paiozo apagado no beio.
Da at as Cabeceiras foi um pulo, um sossego. Z Mutamba s acordou porque os passageiros o cutucaram. Quando o nibus parou no encostamento para ele descer, Z Mutamba se ps de p, rompeu at o motorista, virou-se para trs e, educadamente, disparou:
- Passageiros com destino para a Puta Que Pariu: Boa Viagem!
Saltou.


78058
Por Ucho Ribeiro - 2/6/2014 11:09:27
CAGAO

Z Maria era um frouxo, um cago. Morria de medo de defunto, lobisomem, alma penada e tudo quanto . No dormia sozinho e fugia de escurido. Tinha at o apelido de Borreira.
Esse medo derivava da infncia, desde quando os mais velhos na roa, beira do fogo, em prosa, teciam medonhos e arrepiantes casos de fantasmas e assombrao. O coitado, ao assuntar, trmulo, tinha que se segurar pra no mijar nas calas.
Os ditos amigos viviam dando sustos no infeliz. Ora o acordavam com lenis brancos e mscaras apavorantes, ora assobiavam ao redor da sua casa, unhando a porta.
Era medroso, mas prestativo, sem preguia. Levava recados e embrulhos pra tudo quanto canto. Na cidade, beirava os pontos dos fazendeiros, s no desejo de servir e cumprir ordens. Como era motorista cuidadoso, volta e meia era lembrado para levar uma vacina, um recado.
Foi da que aconteceu o caso.
-toa, bestando na praa Dr. Carlos, na Leiteria Celeste, Z Maria foi convocado s pressas, no comeo da noite, pra levar uns remdios pra um enfermo l pras bandas das Contendas. Misso urgente e de responsabilidade grada.
Viajar noite no era do seu agrado. Perguntou se no podia sair cedinho, de madrugadinha. Nada. Tinha que partir de imediato, logo aps a manipulao dos medicamentos.
Como no tinha como negar o pedido, saiu caa de um companheiro de viagem. Foi ao posto de gasolina, no achou uma viva alma, passou nos botecos conhecidos e no arrumou ningum para acompanh-lo. O jeito foi partir j quase oito horas da noite, ressabiado.
Ao pegar a estrada de terra, fingiu que no estava com medo. Cantarolou, assobiou, se esquivou dos pensamentos arrepiantes. Volta e meia vinha cachola um temorzinho, um pavorzinho, e Z Maria tentava pensar noutras coisas: no forr do Rio Seco ou nas meninas de Z Coco.
Depois dos Veados, hoje Nova Esperana, a lua saiu e Z Maria lamentavelmente lembrou que mais frente iria passar pelo mal-assombrado local do acidente da jardineira do Expresso Santana com o caminho de pinga Claudionor.
A, pronto, o cagao veio, num crescente, medida que relembrava os fatos. O acidente ocorreu no comecinho de 1970, em janeiro, numa curva, onde logo aps se avistava Mirabela. Morreram 23 pessoas, a maioria carbonizada, irreconhecveis. Alguns passageiros nunca foram identificados, pois at os documentos se queimaram. O motorista do caminho fugiu, escafedeu-se. S se apresentou dias mais tarde, derrudo, arrasado. J o motorista da jardineira foi um santo, mesmo gravemente ferido ajudou a salvar nove pessoas, vindo a falecer mais tarde no hospital Pio XII em Montes Claros.
No pnico, Borreira desabafou: - Cruz Credo! Vale-me Nossa Senhora do Perptuo Socorro! Logo eu que joguei no bicho as dezenas da placa 89 69 23 da jardineira e ganhei. Desconjure! Perdoe-me, meu Deus!
Da em diante, foi uma tremedeira s, que aumentava medida que chegava perto do local do acidente. E o pior que o intenso tremor pelo corpo inteiro se findava no p que apertava o acelerador num ritmo inconsequente. O jeep ia aos solavancos no compasso dos trancos e arrancos de Borreira.
Passava das 11 da noite, o pedao de lua empinava no cu, quando entrou na to sombria curva, onde no alto foi erguida uma pequena capela pelas vtimas do acidente. A, no teve jeito, entre bufas e tremores, o medo de Borreira tomou conta e deixou o carro morrer.
Bateu a chave, nada. Bateu de novo e s um r-rm rm fraquinho. Pronto, era o fim, estava entregue s almas do outro mundo. E elas viriam tomar satisfao da sua jogatina com a desgraa dos outros. Oh, Meu Deus do Cu, me acode! Eu devolvo o dinheiro! Juro que doarei tudim pros parentes das vtimas do acidente.
Nada. No se ouvia nada. S havia silncio, frio e o breu abrandado pelo pedao da lua.
Minutos se passaram, at que surgiu do canto da estrada um cachorro grande, preto, imenso, estranhamente de orelhas brancas. Alvssimas. Veio em direo do carro, parou, levantou serenamente suas patas dianteiras e as colocou no para-lama do lado do motorista. Deu uma cafungada, como se tivesse cheirando algo no motor, olhou para o cago do Borreira, e perguntou: - Qual o problema?
Estatelado, sem voz, sem saber se o que estava vendo era um cachorro ou um lobisomem, grunhiu fino: - O jeep encrencou e no quer pegar.
O cachorro, ento, ordenou rouco: - Sai do carro e levanta o cap.
Borreira, submisso, mudo, atendeu na maior ligeireza.
- Abre o distribuidor, tira o platinado e o esfregue no para-choque do jeep. Lixa a ponta e coloque de volta no lugar.
Borreira, amedrontado, fez direitinho, conforme mandado.
- Agora, fecha o cap, entre no carro e bata a chave. Veja se o jeep pega.
Mais que depressa, Borreira entrou no carro, virou a chave e vrummm... o motor pegou.
No terror que estava, nem agradeceu ao cachorro. Sentou o p no acelerador e saiu jogando cascalho pra tudo quanto lado. Nunca correu tanto na vida. No sabe nem como fez as curvas at chegar Mirabela.
Entrou a mil na cidade, freando bruscamente na porta do nico buteco aberto quela hora.
O dono que estava fechando o bar se assustou com aquele estouvamento e perguntou: - Que isso companheiro, parece que voc viu assombrao?
Borreira, com voz fina de mulher, desabafou: - Seu moo, seu moo, sabe aquela curva do acidente do caminho de cachaa com o nibus? Pois foi l que o meu jeep quebrou. Eu estava sozinho, no desespero, a rezar pro mode de algum me socorrer. E no que por milagre ou assombrao surgiu um cachorro preto e me mandou lixar o platinado e o carro pegou.
Nisso o dono do bar, dando-lhe um copo dgua, perguntou: - um cachorro desmedido, preto, de orelhas brancas?
Borreira, balanando a cabea, confirmou: esse mesmo, esse mesmo!
O butequeiro, ento, arrematou: - , rapaz, c teve uma sorte danada!
- Por que, por qu?
- Porque aquele cachorro um enganador. Um palpiteiro! Ele no entende porra nenhuma de mecnica.


78041
Por Ucho Ribeiro - 30/5/2014 15:06:00
O TIC-TAC DA COPA.

A Copa est chegando e o povo est frio, cabreiro.
Os canais de TV bombam para criar um clima de euforia, de vamos l!
E o brasileiro? Continua desconfiado.
Os meios de comunicao torcem para que o Brasil chegue a final, custe o que custar. Carecem deste ms de euforia, para faturarem. Afinal, precisam pagar as cotas de transmisso, os investimentos e ter um bom lucro. Mas os torcedores matreiros ainda esto com as bandeiras enroladas.
Dona Dilma e seu staff torcem pela vitria, pois o hexa anestesiar os escndalos e os vexames do seu governo.
O palco e os estdios esto prontos ou quase prontos. A segurana redobrada e a borracha dos cassetetes de molho, a espreita de qualquer tumulto. As eleies se avizinham. Os debates e as manifestaes tendem a se aquecer. Existe o risco de torcedor e eleitor se confundirem. O campo de batalha poder ser um s.
Como em futebol tudo pode acontecer, embora no seja o meu desejo, imaginem se o Brasil tropear na fase de grupos?
Suponhamos que nossa seleo perca o primeiro jogo para a Crocia e empate o segundo com o Mxico, ou vice-versa. O tic-tac de espera at o terceiro jogo ser deveras tenso. O pavio estar aceso.
O Brasil precisar ganhar do Marrocos a qualquer custo e talvez com muitos gols. Caso contrrio, acabou a Copa.
Se formos desclassificados na 1 fase, a turba tomar as ruas, mesmo debaixo dos cassetetes. Os jogos restantes sero um deus-nos-acuda.
Ajuzo que o Joseph Blatter e o Marin j refletiram sobre esta possibilidade e devem ter alguma carta na manga. Talvez, precavidos, j arranjaram um juiz do tipo Renan Calheiros para salvar a Copa.
Que este pavio no acenda!


76875
Por Ucho Ribeiro - 23/1/2014 15:55:30
O INFERNO DOS PRESDIOS.
Estou cansado deste lero-lero sobre as reformas dos presdios. Sempre a mesma estria, logo aps um motim a imprensa cai de pau e mostra o descalabro das masmorras brasileiras. Passado o escndalo o assunto sai de cena at surgir outra rebelio.
As prises para encarcerar o povo brasileiro sempre foram medonhas, superlotadas - o prprio inferno. Porm, existe priso diferente para os bacanas, para os colarinhos brancos, para os polticos. Uma lei especial concede um crcere diferenciado para os corruptos letrados, graduados, do porte dos protagonistas do mensalo. Duas leis, duas medidas, duas cadeias.
O nico jeito de passar o rodo nisso , primeiro, ter uma lei s valendo pra todo mundo. Segundo, garantir que todos, indistintamente, que mijarem fora do pinico iro preso e, terceiro, deixar claro que todo mundo que for preso vai ser encarcerado na mesma cadeia. Z Dirceu com Escadinha; Z Genono com um P de Chinelo.
Se os polticos corruptos, os ladres abastados e os membros podres do judicirio fossem presos, e fossem enjaulados nas mesmas celas dos ladres de galinhas e traficantes, esses privilegiados almofadinhas iriam dar seus pulos e arrumariam rapidinho dinheiro para reformar todo o sistema prisional brasileiro. Presdios a la primeiro mundo.
Mas, enquanto houver dois Brasis, o dos que mandam e fazem leis, mas no vo presos, e o dos que obedecem e vo para cadeia se pisarem na bola, a enfadonha ladainha sobre a calamidade do sistema presidirio permanecer.
A verdade que as poderosas e privilegiadas aves de rapina no querem mudar as nossas vergonhosas leis, com medo de serem encarcerados nos aterrorizantes presdios brasileiros.


76729
Por Ucho Ribeiro - 4/1/2014 14:53:03
UM RAYU EM MINHA VIDA.

Quando menino, Christoff era espevitado, expresso, curioso. Tinha todos os brinquedos, alguns inimaginveis, irreais at em nossos sonhos.
Sua flash presena enchia por completo a famlia, o colgio, o ambiente. Carisma em pessoa.
A meninada torpe estancava com tantas e mirabolantes idias. Miragens para nosotros, terra firme para ele. Descobertas antevistas.
Invejava sua coragem adulta, sua certeza indubitvel, lgica. O que era dois mais dois para ele, para o resto da turma boquiaberta, mediana, era uma um devaneio.
Dono do mundo, sem empfia ou prosa. Simplesmente veio a passeio para desfrut-lo, sem culpas e freios, at o osso.
Tinha hobies s seus e gosto refinado para arte, msica e velocidade. Pisava fundo em seus veculos envenenados e remexidos. Sua alegria era turbinada por motores e carenagens transformados pela sua ousada autoria. Passava horas a elucubrar designs, a acelerar suas mquinas, a desenhar e rascunhar com sua farta imaginao.
Certos dias, afoito, batia a vida no liquidificador e bebia num gole s, noutros saboreava a noite gota a gota, gole a gole. Bastava ter uma companhia amiga, uma comunho de alma ou uma comemorao que o amanhecer era certo.
O usual era cozinhar no prprio caldo. Borbulhava-se. Adorava ser o hbrido Rayu. Dadivoso. Fleumtico, sem ser narciso.
Gostava de ficar s, a tramar, divertir, projetar, viajar, dar asas a sua privilegiada cachola. Se satisfazia. Feliz, amide.
Era sempre Rayu. nico, inteiro, pleno e iluminado.
Generoso, quase um prdigo para os mais prximos. Nunca despedi do primo sem ser presenteado com um mimo, um quadro, um incentivo, um toque, uma luz.
Jamais borocochou numa conversa, debreou ou jogou a toalha numa aventura. Despejava nimos ou dava pitos quando vacilvamos.
Cagava e andava para boatos, disse-me-disses, fofocas. Ignorava a mediocridade, evitava os baba-ovos, a turbe ignara.
Vivia a vida sem horrios, regulamentos, agendas e no dava satisfao a seu ningum.
Degustava e flainava como um dandi. Livre, leve e louco.
Nas madrugadas, na mais pura intimidade, revelava-se apaixonado pelos filhos e o mais orgulhoso pai. Nikita e Ian eram suas pedras preciosas. Amava-os no silncio e discrio.

Rayu Ribeiro Christoff, a inteligncia e delicadeza mais bruta e amorosa que conheci, se foi. Escafedeu-se. Est a plainar sobre ns. Soberano, com toda a sua fleuma. Sinto-me desamparado, sem poita, uma lgrima s, num oceano enxuto e rido.
Rayu, meu primo, meu amigo, meu irmo, minha luz!
V em Paz!
Te beijo de longe, de onde sempre quis te trazer e no consegui, mas que ser a partir de agora nosso lugar de encontro.
Ucho.
Rio Preto. 03/01/14


76504
Por Ucho Ribeiro - 22/11/2013 11:37:13
O mau cheiro insuportvel empesta h muito os bairros Santos Reis, Jardim Brasil, Renascena, Edgar Pereira, Alice Maia. Infecta inclusive o Todos Santos II, passa pela Nova Morada e vai at o Eldorado. Catinga das mais fedorentas. E isto j tem anos e mais anos. Fedentina generalizada.
A Secretaria do Meio Ambiente sempre se silenciou. Mouca e muda. A Copasa por sua vez, ignora o esperneio e a gritaria da populao. Continua calada, omissa, e no se defende quando a sua Estao de Tratamento de Esgoto acusada de emitir o putrefato cheiro.
Uns culpam a ETE, outros acusam as descargas residuais das fbricas do distrito industrial, emitidas na calada da noite ou nos finais de semana, quando no h fiscalizao ambiental. Se que existe?
A Secretaria de Meio Ambiente deveria se manifestar de forma clara, objetiva e informar categoricamente de onde vem o fedor. Declarar se j aplicou alguma multa ou se j estabeleceu prazo para findar o mau cheiro.
Quais foram as efetivas medidas adotadas pela prefeitura para sanear este terrvel fedor?


76466
Por Ucho Ribeiro - 14/11/2013 11:47:45
Bom senso futebol clube. Quarta feira histrica. Ontem, antes do Cruzeiro sagrar-se tri-campeo brasileiro, ocorreu a maior e mais representativa manifestao de protesto contra a atual situao do futebol brasileiro. A manifestao dos jogadores das 14 equipes que foram a campo, nesta quarta-feira, foi pacfica, necessria e legtima. Como os protestos de junho no pas, as faixas pedindo respostas CBF para o movimento Bom Senso no Futebol foram contundentes e verdadeiras. O rbitro de So Paulo e Flamengo, ao ver os atletas de braos cruzados, ameaou punir os jogadores com carto amarelo. Cena das mais tristes, que lembrou a ditadura. Os jogadores inteligentemente, para evitar os cartes, bateram bola amigavelmente por quase um minuto ao ser dado o incio da partida. Imagem que vai percorrer e chocar o mundo. Retratar escancaradamente a nossa arcaica cartolagem e a deficiente estrutura do futebol nacional. Infelizmente, a Rede Globo continua a ignorar tais protestos e a mobilizao dos jogadores dos campeonatos brasileiros das sries A, B e C. Silencia-se, por que sabe que o modelo atual das competies favorece suas transmisses e a audincia de suas novelas. A luta apenas comeou. Muita gua vai rolar at a Copa do Mundo. Veremos!


76424
Por Ucho Ribeiro - 6/11/2013 15:16:02
Ao reclamar da pssima qualidade da minha internet fui informado que a situao vai melhorar, pois a Anatel ampliou o limite mnimo de velocidade de banda larga. Pela nova regra da Anatel os provedores de internet de banda larga tero de entregar no mnimo 30% da velocidade pela qual nos cobram e, na mdia mensal, 70%. Uma pouca vergonha! Antes o limite mnimo era 20%. Pouca vergonha e meia! Para o ano que vem, em novembro, esses nmeros passaro para um mnimo de 40% e uma mdia de 60%. O absurdo continuar! Nesse compasso l por volta de 2020 estaremos empatando: os provedores vo nos entregar tudo pelo que pagamos estes anos todos. Mais uma aberrao legitimada pelo governo. As prestadoras dos servios deveriam devolver com multa e correo a diferena do que venderam e no entregaram.


76151
Por Ucho Ribeiro - 25/9/2013 10:50:46
DESPEDIDA

nio Pacfico abriu o Quintal para juntar os amigos. Era um adulo s. Pra cada um tinha um trato especial, um bajulo, um tira-gosto, um carinho e uma franciscana ateno para ouvir causos, lamentos e anedotas, mesmo que velhas. A turma chegava a partir das seis horas da tarde, mas alguns tinham ali como escritrio, surgiam logo depois do almoo e atravessavam a tarde debaixo das mangueiras a bebericar e a filar a prosa boa do proprietrio. Drcio Cabeludo era um deles. Instalava-se ao lado da mesa de trabalho de nio e de l mesmo despachava os servios do seu escritrio de contabilidade. Cervejinha mocada, assuntos aparentemente srios e bicadas escondidas at s cinco e meia. Da em diante, a gelada passava escancaradamente para cima da mesa cada vez mais aninhada de amigos.
Outro, menos assduo, que passava pelo Quintal, era Ti, parente mais velho de nio, sempre duro e seco. Beirava o balco com o olhar pido espera de um troco ou de uma dose. Acabava ganhando os dois. Voltava acanhado, dias depois, do mesmo jeito, calado, sem um tosto e numa vontade doida de tomar outra.
Drcio Cabeludo era dirio, inclusive nos sbados e domingos, quando chegava de manh, por volta das dez. Sua rotina s mudava um pouco na quarta-feira, dia de reunio na Cmara Municipal, pois tinha que estar l s sete da noite. Invariavelmente no estava com palet e gravata e suplicava a nio o emprstimo da indumentria. Com o passar do tempo, o palet e a gravata do amigo j ficavam pendidos num cabideiro disposio do edil. Dava a hora de verear, Drcio pegava o traje dependurado e seguia para a Cmara que ficava no mesmo passeio da Cel. Prates, a uma distncia de uns cem metros. Terminada a sesso parlamentar, retornava ao Quintal para tomar a saideira e dependurava de volta as usadas peas.
Eis que um dia chegou a notcia da morte de Ti e da situao de penria para providenciar o enterro. nio, parente e samaritano, tomou a frente de tudo e conseguiu fazer o funeral na Igrejinha do Rosrio, bem em frente do Quintal.
O corpo comeou a ser velado tardinha por Marlene e Jacy, esposa e irm de nio. Iam passar a noite acordadas, numa morosa maratona. Igreja vazia, nenhuma viva alma foi despedir de Ti.
L pelas 11 horas da noite, as duas cunhadas, caladas, j sem assunto, perceberam a entrada trpega de Drcio. Ele vinha do Quintal, aps tomar a saideira. Passou, cumprimentou as comadres e dirigiu-se ao caixo. Ao avistar o corpo, balanou a cabea e comeou a resmungar: no, como pode isto?
Puxou uma cadeira, sentou-se, curvou-se, ps os dois cotovelos na borda do esquife, as mos na testa e continuou a resmungar, a balanar a cabea e a lamentar, sentidamente.
Jacy, ento, comentou com Marlene: - T vendo, Nena, por isso que ele se elege vereador. Nenhuma pessoa veio aqui despedir de Ti. Nenhuma, s o Drcio. Ele companheiro, solidrio, amigo de todas as horas. Veja como t comovido. Devem ter se conhecido nos bares da vida.
Marlene, sensibilizada, levantou e foi at Drcio. Apoiou as mos nas costas dele e tentou consol-lo: - Cabeludo foi melhor assim, Ti descansou, Deus sabe o que faz...
Drcio, ento, inconsolvel, reclamou: - Este nio no tem jeito, um desapegado, como pode fazer uma coisa dessas comigo? Olha pra voc ver, l se vo o palet e a gravata.


76106
Por Ucho Ribeiro - 18/9/2013 11:34:05

Vejam esta bela histria de Darcy, irmo de Maro, contada por sua grande amiga, Vera Brant, uma das pioneiras de Braslia

Histrias do Darcy

Vera Brant

Numa reunio de trabalho, almovamos no apartamento do Darcy: Paulo Renato, Cristovam e eu.
Durante o almoo, o Paulo Renato comentou que, quatro dias depois, num feriado, o corao dele faria um ano. Ele havia sido operado, no ano anterior.
Quando eles saram, o Darcy comentou comigo: Acho que o Paulo Renato est querendo comemorar o primeiro aniversrio do corao dele. Vamos cham-lo para almoar?
Concordei. Convidaremos umas vinte pessoas, o seu apartamento no comporta mais do que isso, com conforto.
Tudo combinado, fui para o meu escritrio.
Mais tarde, liguei para a secretria do Paulo Renato para contar a novidade. O Darcy j havia ligado e dito que ela deveria fazer a lista de convidados e mandar para mim.
No dia seguinte, dei uma passada no apartamento dele para verificar a quantidade de pratos, copos, essas coisas. No havia quase nada. Pratos, uns dez, copos, onze, xcaras, sete. Resultado: eu teria que levar tudo.
Mandei duas mesas de dez lugares, pratos, talheres, copos, tudo.
Quando fui ver onde colocar as mesas, verifiquei que a cortina da sala de jantar estava com uma mancha marrom, de cima a baixo, horrvel. Devem ter deixado a janela aberta, molhado e manchado. Peguei uns alfinetes enormes que encontrei na gaveta, dobrei as cortinas e, pelo menos do lado de dentro, ficou razovel.
O Darcy me disse: Filha, faa o Fernando Henrique saber que vai haver esse almoo e deixe-o vontade para vir, ou no.
O Fernando era presidente, na poca. Liguei para a Ana Tavares e disse-lhe: Tenho dois recados para o Fernando. Um, do Darcy, que para informar que haver o almoo e deix-lo vontade. O meu diferente: No deixe de vir, no, porque um feriado, voc estar desocupado, o Darcy est precisando desse carinho e o Paulo Renato merece esta homenagem.
Vieram todos os convidados. Eram, mais ou menos, trinta pessoas. O apartamento estava todo florido e o
Darcy feliz da vida.
L embaixo estava cheio de jornalistas. Num determinado momento, comearam a pedir que chegassem janela para uma foto.
O Fernando Henrique pegou o brao do Darcy e foi se dirigindo janela dos alfinetes. Eu dei um pulo da cadeira e segurei o seu brao: No, a no. Ele: Por qu? Depois te conto, venha para esta outra aqui.
Foram e tiraram um monte de fotos, Fernando, Darcy e Paulo Renato. No dia seguinte, todos os jornais estamparam as fotos.
Depois, mostrei ao Fernando os estado da cortina, toda manchada, com alfinetes. Do lado de fora, atravs dos vidros, era visvel a feiura.
O Darcy estava engraadssimo. Contou umas histrias malucas: Uma de suas tias havia perdido o filho e estava com os peitos cheios de leite, incomodando-a muito, doendo. Ela props ao Darcy chupar o leite, cuspir fora, chupar de novo. A cada chupada ela lhe pagaria tanto. O Darcy, que tinha cinco, ou seis anos, na poca, ficou animado e aceitou a proposta. Fez isto vrias vezes, durante vrios dias. No quinto dia desistiu porque sentia enjo e vomitava.
Anos mais tarde, quando foi conhecer a relao sexual com uma mulher, ele, todo animado, beijava a mulher, adorando aquela situao. At que ela pediu a ele que beijasse o seu seio. Ele ficou horrorizado, vestiu a roupa e foi para casa, correndo.
Eu perguntei: At hoje assim?
Foi uma gargalhada geral.
Outra histria: Sua bisav paterna, Mariazinha, era viuva e tinha um amante de trinta e seis anos. Para ficar mais prtico, ela casou sua filha Deolinda, de treze anos, com o amante. A Deolinda era av do Darcy, e o amante, ele no disse o nome, era o av.
O casal foi tendo filho, um atrs do outro, num total de oito.
Certa tarde em que a av Deolinda voltou da missa mais cedo, viu o marido saindo do quarto da me, de ceroula. Tomou tanto pavor dele que nunca mais lhe dirigiu a palavra, nem falou o seu nome. Quando se referia a ele, dizia: o homem.
Quando o marido morreu, ela no colocou luto, nem derramou uma s lgrima.
E, quando estava beira da morte, aos noventa anos, chamou os filhos e declarou o seu ltimo desejo: Eu no quero ser enterrada com o homem.
Os jornalistas, debaixo do prdio, no estavam entendendo nada. Quando terminou o almoo, alguns subiram ao apartamento e a primeira pergunta foi: Por qu vocs riam tanto?
O Darcy: Era a Vera, contando os seus casos, as suas loucuras...........................


76069
Por Ucho Ribeiro - 11/9/2013 10:06:50
O TEMPO URGE

De todos os protestos de junho e mesmo das contestaes recentes do Sete de Setembro no surgiu nenhuma nova liderana nacional ou mesmo regional.
Se existe, eu no vi, no ouvi, nem tive notcias.
Daqueles comoventes alvoroos, da patriotada efervescente, no brotou um nico homem ou uma nova mulher, frutos dos ideais dos movimentos, para que possamos acreditar, alinhar e dar o nosso voto de confiana.
A populao foi s ruas contra os polticos, contra a impunidade, contra a desfaatez, contra a corrupo, mas no encontrou o seu representante nas manifestaes. No descobriu, no desvendou um novo candidato, srio, honesto, carismtico, que a represente e lute pela moralizao do pas.
O eleitorado norte mineiro, sujeito s requentadas promessas e xaropadas eleitorais, ter de escolher entre os deputados estaduais de sempre, na sua maioria chapas brancas, aliados ao Palcio da Liberdade. J para deputado federal, fora os inumerveis paraquedistas, a escolha estar restrita a pouqussimos nomes, que no enchem u`a mo. Os habituais candidatos de outras eleies esto impedidos ou nos seus ocasos. No empurra-empurra, a gata pariu uns, outros jogaram a toalha e o restante a justia ou a morte os retirou forosamente dos pleitos. Seno, vejamos: Wilson Cunha faleceu, Cleuber Carneiro abandonou a poltica, Tadeu Leite continua enfermo, Marcio Reinaldo encontra-se prefeito em Sete Lagoas, Ruy Muniz tambm est confinado aos afazeres e deveres municipais, Fernando Diniz findou-se, Walfrido dos Mares Guia abdicou-se das eleies proporcionais, Paulo Lopes retraiu, Warmillon est preso, Athos Avelino est impedido de candidatar, Ariosvaldo de Melo esmoreceu. Por derradeiro, o emergente Demerval de Taiobeiras foi arapucado pelo Ministrio Pblico Federal.
Assim, para federal, restaram apenas Humberto Souto, Jairo Athayde e Saraiva. Pelo PT, o manda-chuva Virglio Guimares deve manter a candidatura do seu filho Gabriel e incentivar estrategicamente o lanamento de Paulo Guedes a federal, no intuito de ocupar espaos e abocanhar o esplio de votos deixado pelos ex- candidatos. Ruy Muniz, insacivel e ambicioso, ao perceber o vazio eleitoral e enxergar o universo de votos sem cabresto, poder lanar sua esposa Raquel ao Congresso Nacional.
Enfim, o potencial de dois milhes de votos do norte de Minas um chamariz e uma oportunidade para novas candidaturas a deputado federal, principalmente para quem apresentar uma postura sria, visvel e combativa, que traduza e exalte o clamor das ruas. Para tanto, este candidato dever alardear sua campanha, primordialmente, nas redes sociais, com a volpia, a garra e o teso das passeatas. Ter que despertar o imenso e inerte eleitorado ciberntico e plug-lo vida e dedicadamente sua empreitada eleitoral. Um exercito on line, diuturno, com a vontade e disposio de passar o rodo na politicagem, de passar o pas a limpo.
Entretanto, pelo visto, deste mato no deve sair coelho, pois das agitaes que balanaram o pas no despontou nenhuma liderana com carisma para conduzir um processo de renovao. Onde esto os novos candidatos? Cad a indignao da juventude, o renovar da poltica?
Desafortunadamente, no temos um projeto poltico audacioso e articulado para mudar o pas, nem um brao para estender a bandeira da moralidade. At mesmo a suposta pauta pontual e salvadora da presidenta para consertar e moralizar a nao foi jogada na lata de lixo. No est mais na ordem do dia.
O certo que o cavalo estar arriado para quem tiver verdadeiramente o discurso de oposio. Porm este pretendente tem que ser alertado da premente necessidade da sua filiao numa agremiao partidria.
importante ter o conhecimento que uma candidatura para ser posicionada tem que primeiro seguir as determinaes e as exigncias da lei eleitoral. S pode ser candidato quem for filiado a um partido poltico e o prazo para a filiao s prximas eleies 03/10/2013 (art. 9 da Lei 9.504/97). Isto mesmo, quem no se filiar a uma legenda at o dia 3 de outubro deste ano no poder ser candidato nas prximas eleies de 2014. O tempo implacvel. Hoje, faltam apenas 22 dias para o prazo final de filiao.
Donde se conclui que, nas condies atuais e devido ao exguo prazo, ser difcil surgir um candidato novo, com uma proposta de mudana, que empunhe o clamor das ruas. Na falta desta alternativa, o eleitorado com nojo dos atuais polticos anular o seu voto ou se abster das urnas como uma expresso de repulsa a farsa eleitoral.
Desde j prognosticamos que o voto nulo e a absteno vo bater recordes no circo eleitoral de 2014 e que os cus e o serto norte mineiro estaro, como nunca, cobertos de opulentos paraquedistas. A comprao de voto ser feroz. Viver para ver.


75910
Por Ucho Ribeiro - 8/8/2013 10:46:17
GUERRA SEM FIM

O melhor da pescaria so os preparativos. A pr-pescaria. um ms de salvo conduto. Toda semana tem uma reunio para providenciar as tralhas. libi garantido para a patroa.
Normalmente os encontros se do depois do trabalho, a partir das seis da tarde, sem hora para acabar. So detalhes, mincias demais para combinar.
De volta casa, de porre, a desculpa j est pronta: - Meu Bem, voc precisa ver que pinga que o compadre Murilo arranjou pra a gente levar. Muito melhor que a de Ernane e a de Pedrinho. Boas tambm, mas num d nem pra comparar!
A esposa s rosna: - Ruum!
Nos dias dos encontros, as ligaes comeam de manh: - hoje! No falte, viu, fiduma!
- Olha, o Ronaldo vai tambm!
- Que bom! Leva aquela boa.
- , fidoutra, a cascavel vai te liberar?
- A vbora pode sacudir o chocalho, pode destilar peonha, jogar a praga que quiser, mas vou t l cedo, a espera de vocs.
No finalzinho da tarde, a turma comea a surgir. Cada um mais animado que o outro. Passaram a semana procura de um regalo, de um adulo, para levar pra a viagem.
- Olha, gente, eu arranjei uma lingia ispicial, que vocs precisam ver.
- Pois eu, t preparando uma costela, que pra comer de joelho.
- Murilo est todo prosa com a pinga dele, mas cachaa boa, boa mesmo, vocs vo ver, a minha. Consegui a reservada, a reservadssima, a mocada de Beto Viriato. Tem que fazer genuflexo para prov-la.
- Deixa de papo de ex-seminarista, rapaz, ns vamos encher os cornos de gole. Ningum vai pra missa, no!
- , os menino, o usque eu levo. T com meia dzia de Bala 12, goela larga, guardadinho. Coisa fina, de free shop.
- Druva, Durvalino, c no precisa preocupar com a dobradinha. Passei a semana babando o ovo da minha sogra e a veia, pra me adular, t dando um senhor trato num bucho. O paio, a calabresa e o feijo jalo, tudo novinho, j esto embalados.
- Enio, sabe aquela tequila mexicana de Jalisco? Pois vou por na roda. Voc leva o sal e o limo. Porrete certo, compadre!
- Companheiro companheiro!
- Estou levando umas revistas playboy e outras mais calientes pra a alegria de Seu Joo Loureno e uma garrafa trmica de presente pra Dona Dalvina.
- Ah, j avisei na barranca do rio, para irem guardando uns peixinhos pra gente. De preferncia uns molequinhos e uns dourados. Seguro morreu de velho!
- Informo aos patos do truco que o baralho eu estou levando.
- Gente, gente, e os foguetes? Os rojes?
- Quando vocs vm com o milho, eu j vou com o fub. Marquim e eu passamos em Mirabela e compramos na mo de Joo Fogueteiro 10 baterias e umas 30 caixas de 12 tiros. Aquilo l vai virar um Vietn, minino! Tem pipoco pra dar com pau. Januria e Itacarambi, acordai-vos!
- , sei no? Desta vez, teremos dois pirotecnistas: Enio e Marquim. Eles so do pavio aceso.
No que outro retrucou: - E da pistola apagada!
Enio, ento, lamentou: - P, pessoal, o bicho t pegando, eu s vou poder ir na sexta-feira. No vai dar para viajar com vocs na quarta. Z do Grilo por fogo nos meus foguetes at eu chegar.
- X comigo, Tio. Vou mostrar para eles o fogo das pistolas. Ui ui ui!
- As carnes do churrasco j esto reservadas no mercado. No capricho. Tudo de primeira e no jeito. Comprei at um cupim pra dar trabalho pro Gedeon.
- Surpresa! Dou o toba se algum docs descobrir o que eu estou levando pra comer com mel.
- ...
- Man-ga-ri-to! Isto mesmo, mangarito! Consegui com Paulinho l da Lagoinha. Sobremesa de lamber os beios. De comer rezando.
- , turma, a feijoada j t encomendadssima, pra mais de vinte, pra sobrar. Linguia, lombo e costela defumada tm pra dar com pau, pra quatro dias. Caprichei, mano veio!
- Deixem as couves e as laranjas por minha conta. Na vspera, eu pego tudo fresquinho l no meu stio.
Nisso, um candidato primeira pescaria intrometeu para dar um palpite: - , pessoal, eu estou providenciando os anzis, as varas, os carretis, as iscas...
Quando foi interrompido por um gozador: - Porra, cara, no mude de assunto, ns estamos falando de coisa sria, de pescaria, no vem com estas perfumarias, no, caralho! Daqui a pouco voc quer levar at pijama.
A gargalhada foi geral.
Eis que Murilo interviu: - Cabe advertir aos iniciantes sobre os preceitos magnos da nossa pescaria e feijoada: Regra nmero 1 e fundamental: Dormir respeitado. Quem apagar no pode ser molestado de forma alguma. Se acordado, vale tudo. Alm disso, a dignssima feijoada exageradamente calculada para durar mais que os dias previstos de pescaria. Sero aceitas turbinaes complementares, caso a furiosa raleie, porm o Sr. Enio Pacfico est proibido de increment-la com peixe, frango e outras cositas mais que no descendam de cria de uma porca. Temperos sero aceitos com temperana e notrio saber. Personas truviscadas, mesmo de conduta ilibada, sem profundo conhecimento culinrio, esto restritos a degustar e se fartar.
- Outra coisa, devido ao usual grau alcolico dos mestres cucas, as questes higinicas sero ligeiramente relevadas. Ouam bem: Apenas ligeiramente.
- Pra no ter briga, caso haja algum desentendimento entre os chefes de la cuisine, sero feitas duas ou trs feijoadas apartadas. Com o compromisso verbal, em alto e bom som, de os cozinheiros no sabotarem a feijoada do concorrente. No entardecer do penltimo dia da pescaria, haver uma votao para escolher a melhor furiosa. Desde logo, j esto liberados o puxa-saquismo, a adulao escancarada e o suborno explcito para a compra do voto a favor da sua feijoada. Lembrem-se bem, vale tudo, menos sabotar a concorrente.
- Olha cambada, imploramos aos conhecidos flatulentos de planto, por uma questo de amizade, respeito e considerao aos amigos, que se afastem de nosotros quando forem esvaziar suas forradas e constipadas tripas. No custa dar uns dez passos adiante para liberar seus folguedos. A nica exceo quando estivermos no barco, pois, como dizia Maro: - Quem guarda pum, tem espinha!
- gente, bom avisar que est proibido parar em Lontra, porque seno Mirson Lessa apaixona de novo com a moa da folhinha da Pirelli pregada na borracharia. Da ltima vez, foi um upa para ele largar a loura de olhos azuis. No pau que estava, chegou a ajoelhar e implorar para a garota do cartaz acompanh-lo pescaria.
Antes que o papo descambasse, o Coronel Zeder, com sua voz de militar, interrogou: - Tropa, antes de tudo, importante saber: quantos elementos, quantas viaturas?
Comeou, ento, a contagem, at que um gaiato sugeriu uma porrinha para definir quem seriam os motoristas. Os perdedores dirigiriam os carros.
Depois de muito papo, goles, tira-gostos e porrinha disputada, tudo ficou mais ou menos combinado, horrio da partida quase definido, a distribuio do pessoal nos carros praticamente decidida, porm as tralhas, as comidas e as bebidas estavam totalmente acertadas.
Os marmanjos meninos voltaram para a casa ansiosos espera da largada.
Dia da partida, de manh, foi aquela alegria. O atraso certo e os esquecimentos usuais, mas o astral altssimo.
Na sada, Aluzio Pinto ironizou: - Coitado de Enio! Ele no vai porque Mariflor no aprovou as suas companhias de pescaria.
No percurso, fora os motoristas que s deram uns biquinhos, o resto encharcou bonito. s 8:28, deu para ouvir o primeiro tizzz. O som da abertura da primeira latinha. Depois, foi uma orquestra tizz, tizz, titizzz... A cerveja na caixa de gelo estava tinindo e a sede, de matar. A viagem durou o dobro. Tudo quanto buteco na beira da estrada foi motivo para tomar uma ou duas.
Ao chegar na barranca do rio, muita coisa j estava preparada. Dona Dalvina, j tinha varrido o terreiro debaixo das seculares mangueiras, juntada a lenha para o fogo, que no iria apagar at domingo e deixado uns molequinhos no ponto de fritar. Afinal a trupe sempre chegava truviscada e com uma fome bruta.
Uns descarregaram as tralhas, Lis e Aramis montaram o motor de popa, Marcos Pitangui e Vidal, mais precavidos, arrumaram suas barracas e G Novais e Getulio Fraga foram procurar velhos e experientes barranqueiros para pescar uns peixinhos, ou melhor, uns peixes, para a pescaria ser um sucesso. O velho anzol de cobre.
O trato era acertar com eles os dias de servio disposio e garantir a compra de tudo que eles conseguissem pescar. Isto livre, com bebida e comida de graa e revelia.
Agasalhados mais ou menos, cerveja na mo e umas duas cangibrinas na cabea, logo um espoletado soltou um foguete de 12 tiros para alegrar a turma ou para desafiar alguns fidumas que poderiam estar pescando perto dali. Tarat, t-t, tum!
Num demorou nadica de nada e a resposta veio do outro lado distante do rio: t-r-t-tum!
Pedrinho logo gritou: - A guerra vai ser boa! Senta fogo a, Curi, acaba com estes fidumasguas.
- Quem so eles?
- Devem ser cruzeirenses.
Da, comeou: uma arriada na pinga e um pipoco: Tum! Uma cerveja aberta, outro tirambao: Tum! Prova a tequila, um repipco: Tum-tum-tum!
Mas, os pescadores da outra margem, rio abaixo, reagiam. Tu, turum, tum! Batalha dura.
Foi indo, foi indo, a trupe j est toda embalada, nvel etlico nas alturas, papo enrolado e risadas soltas, destrameladas.
Ildeu, mais entretido na fazeo da comida, alertou: - , gente, melhor debrear nos foguetes, porque seno eles iro acabar logo, logo. No vai dar pra amanh e ainda tem muita pescaria. Os contras, os fidumas, parecem que esto bem municiados. No tem pipco que eles no retrucam.
O bando no deu ouvidos ao conselho. O tirambao correu solto a noite toda.
No outro dia, pelo meio da manh, Fernando Etienne, mais responsvel, sugeriu: - , os meninos, melhor soltar um foguete a cada 4 cervejas. O estoque est baixando rpido demais.
E assim foi. Aberta a quarta ou quinta cerveja, olha o tirambao. Tum- tum- tum!
De pronto, vinha a resposta: Tum-tum! Os fidumasguas estavam bem abastecidos. O troco era instantneo.
Os foguetes no deram pro comeo da noite. E os contras conseguiram dar o ultimo tiro. Derradeiro e definitivo. Derrota fragorosa.
No porre que estavam, acabar a munio foi uma decepo. Uma verdadeira humilhao. Haviam perdido uma batalha foguetria nas barrancas do Rio So Francisco. A primeira.
S havia um jeito de sanar aquele vexame: Ligar pra Enio, l da Vila Florentina.
-Al, Enio, d seu jeito, arranque da, hoje, pegue todo o dinheiro que conseguir e compre tudo de foguetes, rojes, bombas, o escambau a quatro. Estamos perdendo a guerra e feio!
- Mas...
- No tem mas, nem menos. questo de honra.
- Saia da agora, entope o carro de munio e venha rpido, ligeiro. Se precisar de dinheiro, passa no escritrio da empresa e pegue o que for necessrio. Estamos esperando com o fsforo aceso. Seno o vexame vai ser horroroso. J tem companheiro chorando de vergonha.
Ns temos ainda a sexta, o sbado e o domingo para acabar com esses carnes de pescoo. Venha logo!
No deu outra. Enio s avisou que de noite no tinha como comprar foguetes, mas que tomaria providncias. No outro dia cedinho, catou a grana disponvel e entupiu o seu DKW at o teto. Saiu de casa com o xingo e o desprezo da mulher e seguiu estrada afora para salvar os amigos.
Nem teve coragem de fumar dentro do carro, com medo de ir pros ares.
Chegou no acampamento por volta do meio-dia. De longe j veio buzinando, pra animar o bando de manguaceiros. Com aquela munio toda, no tinha como perder a guerra.
Ao freiar, os amigos borrachos saquearam o carro, nem cumprimentaram o pobre do Enio. Cada um abriu uma porta do Vemaguete e pegou uma caixa de foguete, ou um rojo.
Foi aquele tiroteio, parecia o dia D, tiro que nunca viram igual. T-r-t-t-t!. Tum-rum-tum-tum-tum! Pu-t-t!
Passado um segundo de silncio, olha o revide: Tum-tum-tum t-t!
A, Curi, no maior porrete, clamou: T vendo, Enio, os fidumasguas esto cheio de munio. Mas agora eles vo ver o que bom pra tosse.
Mais outra saraivada: Tum-tum-tum! Tum tum!
E o rebate, imediato: Tum! Tum!
-Puta qui pariu, num tem foguete que estes excomungados no revidam!
A, Enio, sbrio, gritou: - Pra, Pra, Pra!
A turma quietou e Enio disparou: - deste jeito, no pileque que cs to, esta guerra vocs no ganham nunca, seus bestas. Cs no to vendo que o eco. O revide o eco dos foguetes, tropa de bebuns! O troco o eco, cambada!

Obs: Turma de pescadores: Seu nio, Murilo e Ronaldo Maciel, Pedrinho da Antrtica, Edmilson Lessa, Wilsinho Curi, Lis, Aramis, Marquim Ribeiro, Jos Aluizio e Lucas Pinto, Vidal, Fernando Etiene, Cel. Zeder, Edgar e Ernane Pereira, Marcos Pitangui, G Novais, Getulio Fraga. Chefes de cozinha: Durva, Gedeon e Ildeu.


75865
Por Ucho Ribeiro - 29/7/2013 15:04:18
TUTUCA

Tutuca chegou em Francisco Dumont no sbado, antes do Domingo de Ramos. Pretendia passar toda a Semana Santa na casa do seu amigo Camilo, o nico mdico da cidade. Mas deu com os burros ngua, o doutor havia viajado para um congresso e esticado o feriado numa praia baiana.
Casa trancada, empregada desencontrada, sem as chaves, sem onde empoleirar, o jeito foi hospedar na penso do Seu Rosa e Dona Teresa. Como estava completamente duro, as dirias, as refeies e o invernado gole foram pendurados. A bem da verdade, o crdito foi concedido por sua amizade com o renomado mdico.
Enquanto esperava o retorno do Dr. Camilo para quitar suas contas, Tutuca valeu-se da sua simpatia e embromao. Era bom em desculpas e lorotas, quando regadas a muita cerveja e pinga curraleira. Todo mlete tem o dom da simpatia.
Com o passar dos dias, Seu Rosa, incitado por Dona Teresa, sugeriu que o hspede fizesse um acerto, pois qualquer dinheiro ajudaria pagar os fornecedores, principalmente o distribuidor da Brahma.
Tutuca, engasgado, desculpou-se alegando estar desprevenido naquele momento, embora estivesse no aguardo de uma ordem de pagamento. Todavia, por precauo e com medo do Dr. Camilo demorar, debreou na cerveja, mas no aliviou na aguardente.
Acordava amarrotado, arrumava o cabelinho que no via gua h muito tempo e com poucas palavras ia direto para o bar da penso. Tomava apenas um caf preto, refugava o po, o leite e a margarina.
No esquentar da manh, os recm-conhecidos iam chegando e empoleirando, formando o escrete do gole, at que o mais corajoso ou o mais trmulo solicitava a primeira, uma pequenininha para esquentar a tripa ou para curar o resfriado. Os compartes, solidrios, o acompanhavam.
Da em diante, a roda s aumentava. O pudor etlico era relevado, o riso afrouxava e a vozearia retumbava. O tema de sempre era a vida alheia, os velhos causos e o anedotrio repetido. Um alegrio esfuziante. Bbados, j se tratavam pelos apelidos, na maior intimidade: P de Cana, Fogo Eterno, Manguaa, Buteco, Dose Dupla, Copo Furado...
O almoo era trocado por espordicos tira-gostos para segurar a onda. Srio mesmo era o gole fechado, o dia inteirinho. Se algum pedia algum belisca, vinha logo a gozao: comeo feroz, cachaa necas.
Ao final da tarde, os bebuns, sorrateiros, com medo das patroas, iam escapulindo de volta para suas casas. Tutuca, j sem companhia, jantava pouquinho e se arrastava para quarto. Apagava antes da novela.
Dia seguinte, de volta remoda rotina, gole em cima de gole, causos e piadas requentadas, gargalhadas estridentes e a conta da penso e do bar cada vez mais alta.
No torpor, a turma desconhecia trabalho, obrigaes e ignorava por completo os preparativos para a procisso do Senhor Morto.
Dona Teresa, coordenadora h anos do figurino da procisso, zelava, lavava e passava as roupas de todas as personagens: da tanga de Jesus Cristo s suntuosas vestes de Pncio Pilatos.
Entretido e dedicado ao gole, Tutuca tambm no percebeu que a cidade silenciosa se vestia, se transformava. Ruas pintadas, janelas ornamentadas e rendadas, cruzes e santos cobertos de alfaias roxas, cavalos desarreados, tudo e todos devotados ao desfile do Santssimo.
Na sexta-feira, Dona Teresa acordou espevitada, tinha que distribuir as roupas engomadas aos compenetrados atores. A cada entrega, alertava sobre o horrio impretervel da largada, s 3 horas da tarde, na porta da Matriz. Iam subir at o posto de gasolina e desceriam a rua paralela at a casa de Scrates Dumont, de onde retornariam praa da igreja.
Infelizmente, Dona Teresa foi informada, de manh, que o padeiro no poderia mais ser o So Jos, pois tinha viajado na vspera, s pressas, para So Paulo, devido doena da patroa.
Deus Misericordioso, quem ser o substituto, o pai de Jesus? Todos os catlicos conhecidos j estavam escalados e paramentados. Pedir a um crente para ser santo, nem pensar. Cruz Credo! Tesconjuro!
Ao passar pelo boteco, encontrou a soluo: Iria intimar o Tutuca, amigo do Dr. Camilo, para fazer o papel.
- Mas, Dona Teresa, eu? Nunca fiz nem pai de noiva em quadrilha, quanto mais ser logo o So Jos?
- Tem que ser voc, Tutuca. No tem outro. Voc s precisa parar de beber at a hora da procisso. Promete?
Tutuca, no cur, parou, pensou no mico que teria de pagar, mas como negar alguma coisa Dona Teresa? Estava na sua penso h uma semana, bebendo, comendo e dormindo, sem um tosto para pagar a conta. E se ela o acochasse na cobrana? O jeito era capitular.
- T bom, Dona Teresa, a senhora me avise na hora.
- Olha, menino, procisso coisa sria e o seu papel dos mais importantes e destacados. Bom mesmo voc afastar da bebida. Deus castiga!
Tutuca continuou no bar, calado, figurante, sem muita potoca. Escondeu o copo na prateleira do balco e passou a tomar suas talagadas na moita. Taludas, mas espaadas, para no dar na vista.
s duas e meia, a dona da penso, apressada, avisou-o: - Sua vestimenta est passada e engomada em cima da sua cama. T na hora de vesti-la. Daqui a pouquinho passo l no quarto pra checar se est tudo direitinho.
Tutuca se levantou do banco, tonteou, segurou no balco, firmou as pernas, tomou o resto do copo e saiu apalpando o corredor at o seu quarto. L chegando, deparou com aquele vestido franciscano, esticado na cama, um cinto de corda e uma sandlia tranada, romana.
De porrete, sentou, pensou em desistir e a moleza o fez deitar para um cochilo.
No passou minutos, Dona Teresa j chegou dando choque: - Tutuca, Tutuca, levanta, veste logo a tnica, a procisso j t para sair: um, dois e j!
No teve jeito, levantou, tirou a roupa, ficou de cueca, vestiu com dificuldade aquele manto marrom e logo entrou Dona Teresa para dar-lhe o arremate.
- Quieto, deixa eu dar o lao no seu cinto.
- Firma o p para eu amarrar suas sandlias.
Tutuca s soluava, hic-hic, no estava se agentando em p. Boca seca, precisava tomar mais uma. Nem que fosse uma pequetita.
Dona Teresa, aprumando-o, o ps para fora do quarto e na sada arrancou-lhe os culos e o relgio, dizendo: - Naquele tempo, no usavam estes trens, no!
Se j estava tudo anuviado com a bebida, imagina agora sem culos. Tutuca estava perdidinho da silva. Trpego e cego.
Foi guiado, a passos lentos, da penso, que ficava numa esquina, at a quadra diagonal, mais acima, onde a Matriz sobressaia.
Chegando l, escorou na porta da Igreja e, se no fosse o medo que tinha de Dona Teresa, teria escorregado at sentar na escadaria.
s 3 horas em ponto, sinos tocados, tilintados, estava a cidade inteira dividida pelos dois meio-fios da rua. Na ala da frente, So Jos balangand, num porre s.
Quando Jesus passar, quando Jesus passar,
quando Jesus passar, quero estar no meu lugar.
No meio daquela cantoria e rezao, Tutuca balanava, galeava pro meio da rua e um menino o puxava de volta pro canto do meio-fio. Tutuca, puto, dava um coque na criana. Tropeava de novo, o menino o aprumava. Outro coque e mais um p na bunda do guri. E a foi aquela rinha, um trupico, uma puxada na saia, um tapa na cabea da criana. O menino chorava, mas no largava, punha So Jos na linha. E recebia outro tabefe.
Rompido apenas um quarteiro, Dona Teresa, vestida de Ana, me de Nossa Senhora, largou sua posio e deu um basta naquela briga.
- Pelo amor de Deus, Tutuca, deixe de implicncia, no faz isso com o menino, no. Ele Jesus Cristim e tem de andar do ladinho do pai dele, So Jos!


75772
Por Ucho Ribeiro - 15/7/2013 09:02:16
MINGUTA

Minguta era o porteiro da Cooperativa. Tomava conta do porto de entrada dos carros de leite que vinham matinalmente das fazendas.
Prosa boa, respeitoso, uniformizado, bota brilhando, chapelo na cabea. Pra todo mundo soltava um sorriso e um Bom Dia, Patro, com sua voz grave.
De manhzinha, os caminhes e as caminhonetes entravam, iam direto rampa onde os gales de leite eram descarregados. O pessoal dirigia-se ao porto para saber das novas e para comer o delicioso pastel que Minguta trazia de casa pra vender.
Rapidinho o pastel acabava. No dava para quem queria.
Luizo Maia era um que, por fazer rota pegando leite de outras fazendas, s chegava atrasado. Neca de pastel.
Todo dia a mesma histria: - C guardou meu pastel, Minguta?
- Como que guardo, Seu Luiz, o povo num deixa.
A, o Luiz implorou: - Minguta, v se traz mais, homem! Faz mais um pouco. Eu venho jejuado, aguando por um pastel, chego aqui e nada.
- , Seu Luiz, pode deixar, amanh eu prometo trazer o suficiente que vai dar proc.
Dito e feito.
Ao voltar do servio, avisou a patroa pra fazer mais pasteis, bem mais.
Ela, ao ver o tamanho da empreitada, resmungou baixo, pois teria que fazer mais massa, voltar ao aougue procura de mais carne, da mesma qualidade que ela sempre encomendava, socar mais tempero, moer a carne, abrir a massa, fechar os pastis, acordar ainda mais cedo para fritar os malditos, pois s 5 horas em ponto Minguta pegava no trampo. Resultado, com tantos resmungos e pragas, a mulher no dormiu, nem deixou o marido dormir direito.
Minguta amanheceu grogue, encruado com a rezinga da patroa. Seguiu sonolento para os afazeres, carregando aquela cesta pesada, entupida de pastel, para matar o desejo e o apetite do menino Maia.
L pelas tantas, sol j quente, uns dos ltimos a chegar foi o Luiz e j foi logo cobrando: - E o meu pastel, Minguta, trouxe?
_ Seu Luiz, trazer at que eu trouxe, e foi muito, mas num tem pastel que d pra este povo no. Parece que eles estavam amarrados, mortos de fome. Posso trazer cem, duzentos pastis, que eles comem tudo, tudim. Teve at briga. No sobrou um. Sabe duma coisa, Seu Luiz, eu vou voltar a trazer s os meus vinte, e pronto!


75736
Por Ucho Ribeiro - 9/7/2013 10:11:00
PARA L QUE EU VOU...

Sossego eu conheci no Rio Preto. Atoice atroz. Papo pro ar. Sem ter pra onde ir nem o que fazer. Bestar pelas ruas, apreciar casas, fachadas, visitar igrejas, jiboiar em guas ntidas, aquentar sol, subir ladeiras, descer o rio, desvendar becos, conversar com um, beber com outro. Admirar a paciente ferragem de uma cavalgadura. Contemplar o zelo e o gosto do seleiro ao tecer uma cabeada. Dar ouvidos ao trino trinar dos passarinhos. Dobrar esquinas por borboletas. Seguir cachorro sem rumo. Quietar horas na venda, num banco, vendo a arte do vender e do no vender. Assuntar prosa no buteco do Girino, a beira do rio.
- Pega uma cadeira pro moo, a, menino!
- C que de Montes Claros, n?
- Sou!
- , cada dia chega mais um por aqui.
- Vem muita gente?
- se vem, c precisa ver no carnaval. um furduno s. Fica lotado.
- E onde fica este povo todo?
- Espalhado por a. Uns ficam nas casa dos parentes, outros abarracados na praia. Moo, c no vai acreditar, no carnaval deste ano, no domingo, eu vendi quatorze cafs com leite. Qua-tor-ze! gente demais...
Contive-me na certeza que ali era um lugar pra voltar. Nem celular pegava.


75648
Por Ucho Ribeiro - 25/6/2013 13:10:44
DEODORINA

Quando menino morria de medo de assombraes, mula sem cabea, me dgua, curupira, lobisomem. Tinha at medo de virar um deles, j que sou descendente do famigerado Bicho da Carneira l de Pedra Azul.
Na Fazenda Ipueira, sem luz eltrica, as conversas, beira do fogo antes de dormir, davam calafrios: alma penada, vampiros, fantasmas, espritos malignos.
Atemorizados, ouvamos at o zurro da Mula Sem Cabea. Hoje me pergunto: como ouvir o zurro se ela no tinha cabea? Mas que zurrava, zurrava, pois eu ouvia e tremia nas calas.
Cagao maior era quando os mais velhos ameaavam nos entregar para S Deodora. Bastava desobedecer em qualquer coisa, aprontar alguma, que logo vinha ameaa: - S chamando Deodora para dar um jeito n`ocs.
S Deodora era um mulhero de metro e oitenta, forte, taluda, braos grossos, mos grandes e speras. Vestia saia at as canelas, leno na cabea, camisas sobrepostas em trapos. De pouca ou nenhuma conversa. Monossilbica. Vivia descala, com os calcanhares rachados. Cobra sem peonha esmagava a cabea com o dedo do p.
Pegava qualquer servio de homem: fazer cerca, roar pasto, destocar roa, e no aceitava receber como mulher, o que era usual na poca.
Na lida, no amontoava com os outros, fazia sua tarefa apartada, talvez para mostrar o rendimento do seu servio e comia sua marmita arredada. Retomava primeiro que os outros e era a ultima a largar o trabalho.
Sua casa ficava no oposto das demais, numa grota, onde corria a ipueira ao fundo.
Havia um folclore: se algum menino enxerido fosse v-la tomar banho noitinha, ela capava o moleque.
Embora reservada, era prestativa. Apresentava-se para qualquer servio. Era muito demandada para benzees, rezas e simpatias. Curava quebrantos, mal olhados, espinhelas cadas e ventos virados.
Uma vez, a mulher do vaqueiro estava parindo e o nascimento complicou, as parteiras, sem mais saber o que fazer, clamaram a presena de S Deodora.
Ligeiro ela chegou arregaando as mangas, piou os meninos, os fuxicos, mandou arredar os curiosos, lavou as mos, benzeu-se e entrou casa a dentro em direo parturiente.
De l, depois de um tempo, gritou rouca: - T encravado, mas com ajuda do minino Jesus Cristim, vamo d um jeito. ces, mui, puxam uma reza para Nossa Senhora do Parto. Os home pra no fic com cara de besta destelham a casa e abram as cancelas pra dar passagem pra criana nascer!
Dito e feito, cancelas destrameladas, escancaradas e o telhado j pelo meio destelhado, naquela ladainha de Virgem Santssima, virgem antes do parto, virgem no parto e virgem depois do parto tal foi a obra do Esprito Santo que gerou em Vosso ventre o Esplendor do mundo , deu para ouvir o grito do moleque nascido.
S Deodora nem esperou direito os agradecimentos, o Deus lhe pague, lavou os braos e as mos ensanguentados, mandou dar canja para a parida, os peitos para a criana e sumiu no escuro do quintal.
Cresci com medo de Deodora, mas, rapaz, o terror diminuiu, embora o respeito tenha continuado.
J na universidade, nas frias do meio do ano, festa de So Pedro, eu voltei, depois de muito tempo, fazenda.
Cheguei de tardinha, boca seca, aodado, comecei logo a tomar umas e outras espera da habitual quadrilha e do animado forr.
Quadrilha da roa mesmo, sem falsas fantasias e toscas maquiagens. Um sanfoneiro disposto e um animador porreta animam qualquer festa. E l tinha dois dos bons. Sinfrnio punha os oito foles para gemer at soluar e os gritos do popular Borreira endoidavam o povo: - Animao, gente, Anavam, Anarri, o pai da noiva, mentira! Riliava com todo mundo, menos com S Deodora, que ficava apartada, sentada num toco, num canto mais escuro. Quieta, mas com o peso batendo no ritmo da msica.
Finada a quadrilha, comeou o acalorado forr. Todo mundo no terreiro. Poeiro no ar.
Vendo aquela cena, aquele alegrio todo e s Deodora sem danar, imaginei a vida inteira daquela mulher, s na labuta, sem homem, sem filhos, sem diverso e contentamento.
Tomei mais umas duas, assumi coragem e falei para os que estavam do meu lado: - Vou chamar S Deodora para danar!
Assustados, dispararam, unssonos: - C t doido?
De estalo, sem vacilar, atravessei o vivaz aranzel. Parei frente de Deodora e desfechei: - Vamo danar, S?
Ela parou, pensou, deu tempo para eu achar que ia levar uma taba, olhou dentro dos meus olhos e respondeu: - Vamo!
Caminhamos para um canto com menos alvoroo, juntei ela devagar, lembrei-me do que tia Marlene tinha ensinado, quando menino, que mulher no gosta de danar com homem com mo frouxa, firmei ento aquele mulhero e camos no forr.
No tinha intervalo de uma msica para outra. A toada era direta. E l amos ns cada vez mais ousados, at que numa hora eu juntei a S Deodora com nimo e percebi um negcio estranho. Colei a coxa e vi o trem armado.
- Viche Maria!
Assustado, recuei e falei: - Deodora?
Ela firmou minha mo, apertou meu ombro e ruminou grosso: - Quieto, menino, vamo danar que isto meu delema.


75601
Por Ucho Ribeiro - 18/6/2013 11:11:38
O OVO DA SERPENTE

O povo est nas ruas protestando.
O movimento tem tomado corpo e est violento.
A Rede Globo j no tem como omitir, fingir que nada est acontecendo.
De ontem para hoje, os protestos esto estampados em todas as suas edies jornalsticas.
A agitao tende a piorar. A populao apia os protestos, mas condena os quebra-quebras. O governo e as polcias no sabem como controlar todos estes tumultos e rebulios.
perceptvel que a maior parte da mobilizao feita pelas redes sociais. Uns aderem espontaneamente, outros por convite, mas cada um tem o seu motivo, sua indignao e motivao.
A pacincia do povo chegou ao limite.
A populao est nas ruas contra os polticos. Contra a impunidade. Contra a desfaatez.
No o aumento da passagem de nibus, no so os abusivos gastos com a Copa.
O povo est com saco cheio com a politicagem. Com a roubalheira. Com a mentira deslavada. Est irritado com as promessas de campanha no cumpridas. Com a demagogia.
No so os miserveis que esto protestando contra o custo de vida, so pessoas da classe mdia que no toleram mais tanta dissimulao e falta de vergonha.
Os ataques e os protestos so contra as casas legislativas, contra os palcios dos executivos. Onde se empoleira grande parte das aves de rapinas.
Triste ver os polticos entocados, com os rabos entre as pernas, borrando as calas. Sem coragem de mostrar as caras e de defenderem-se.
O protesto um direito e algumas vezes um dever, mas temos que tomar muito cuidado, pois os vndalos, os traficantes, os demagogos, os oportunistas e os que querem ver o circo pegar fogo esto a espreita para tomar a frente das manifestaes.


75570
Por Ucho Ribeiro - 11/6/2013 11:07:15
CIPRIANO
Cipriano j estava gasto. Era s pigarro. O enfisema tomando conta. Um paieiro atrs do outro, fora o rap cafungado o dia inteiro.
Morava na roa. Passou a vida entretido nos currais e em catiras. Gostava de fazenda, bois, vacas. E de mulas, guas, cavalos. Muito mais de mulher.
S via gente nas rodas de folia ou quando se desentocava da sede da fazenda atrs de um rabo de saia.
Sabedor de sua valentia, do seu estopim curto, raramente saia da fazenda. Evitava tumulto, confuso. Se bebia, qualquer fasca o atiava, ficava feroz, sanhudo, tomava partido e entregava a boiada para entrar no rolo.
Na cidade ia pouco. Pouqussimo. Uma vez ou outra, ano sim, outro no.
Numa dessas vezes, por pretexto de velrio, veio a Montes Claros, numa Semana Santa. Era para ser vapt vupt, velar o corpo, enterrar o dito cujo e... p na estrada de volta.
Mas imprevistos ocorreram. Perdeu o carro do leite e ficou impedido de viajar, teve que pousar, a contragosto, na casa dos parentes, na Praa Coronel Ribeiro.
A sobrinha, fazendo sala, vendo da varanda uma fila imensa, perguntou: - Tio, o Senhor gosta de cinema?
Cipriano, desconfiado, tirou uma baforada e respondeu:
- Gosto! Dcasca um pra mim!
A sobrinha, rindo com discrio, explicou: - N de comer no, Tio! T vendo esta fila imensa a fora pra assistir ao filme que est passando no cinema. O Senhor deve ir. Aposto que vai gostar.
Insistiu tanto que levou o velho at a bilheteria para comprar os ingressos. J estava na hora da sesso. Entraram.
Como era Semana Santa, a fita em cartaz era Paixo e Vida de Cristo. O mesmo filme era passado todo ano e o povo o via como uma obrigao religiosa.
Terminada a sesso, Cipriano saiu exultante, maravilhado. Passou a noite falando do que tinha visto, do acontecido. Demorou dormir, estava exaltado.
Na manh seguinte, domingo, acordou cedo, tomou caf e ficou ciscando, inquieto. Esperava a sesso de cinema matutina. Logo que abriu a bilheteria s 10 horas, foi o primeiro a comprar o ingresso. Entrou, sentou e ficou espera do filme.
Dez e meia em ponto a fita comeou.
Passados uns 20 minutos, olha o Cipriano saindo do cinema de volta para casa dos parentes. Nervoso, resmungando. Puto.
A sobrinha, sem entender, perguntou: - Que foi, Tio, no gostou de rever o filme?
Cipriano, ento, disparou: Sabe aquele cabeludinho, aquele barbudinho de ontem, que levou uma sova danada? Que sofreu uma covardia horrorosa? Que bateram, espancaram e pregaram uma coroa de espinho em sua cabea, sabe? Pois , c num acredita, tava ele l hoje de novo todo siligristido, montado no mesmo jegue, entrando novamente naquela cidadezinha, rindo e balanando os raminhos.
Ora, eu fui l foi pra ver a desforra, pra assistir ele vingar todas as maldades e covardias de ontem. Achei que seus companheiros iam sangrar o bofe de uma meia dzia para dar uma lio naquela corja. Mas no, tava l o cabeludim de novo, feliz da vida, balanando raminho, com cara de atoleimado. Aposto que vai tomar outra surra daquela pra deixar de ser besta!


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Por Ucho Ribeiro - 22/5/2013 10:09:32

Creio que esta foto foi tirada em um dos casares da baixada, l no fundo da Matriz. Onde exatamente? Quando foi batida a chapa? O time da noite estava quase completo: Dico Zuba, Mrio Ribeiro, Dcio Cabeludo, Diu Colares, ...., Ruy Braga, Afrnio Temponi, Joo Galo, ...., ...., Z Priquitim e Lcio Bemquerer. Faltam 3, quem so eles? Quem est vivo, vivssimo, alm de Lucio Bemquerer?


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Por Ucho Ribeiro - 9/4/2013 10:02:27
Ado e Eva

Quando menino eu no entendia algumas coisas. Uma delas era Ado e Eva.
Se no incio apenas existiam os dois e s depois surgiram Caim e Abel, como que eles procriaram?
Uma vez que Caim matou Abel, restaram pai, filho e Eva, a nica fmea, para que a espcie humana se multiplicasse.
Ou Eva teve outros filhos e filhas com Ado, o que nunca foi dito, ou Caim teve que procriar com sua prpria me, caso contrrio a raa humana teria sido extinta. Acasalamentos incestuosos entre irmos e entre me e filho eram e so at hoje abominveis, inaceitveis e geneticamente inconvenientes.
Eu, criana, no tive a audcia de expressar minhas incertezas aos irmos do Colgio So Jos temendo ser um herege.
Desconfiava que tal questionamento me condenaria a escrever algumas mil linhas de Jamais devo questionar os mistrios e a verdade das palavras de Deus, fora as outras centenas de Pai Nossos que eu teria de rezar ajoelhado na capela, como castigo por tamanha blasfmia.
Resultado, deduzi com os meus botes que Darwin que estava certo e, desde ento, aceitei tacitamente a explicao da Teoria Evolucionista.
S mais tarde, viajando em mitologias, li que no Jardim do den j existia outra mulher, Lilith, e que ela j estava presente antes mesmo de Eva aparecer. Dizem que por no aceitar submeter-se a Ado foi expulsa do paraso e transformada em serpente a fim de representar o papel de demnio tentador. Ademais, o Livro do Gnesis enuncia que o primeiro casal teve numerosos filhos. Bem, mas isto so outras histrias.
Passaram-se anos, j adulto assisti minha sogra, catlica praticante e fervorosa, dar a meu filho uma Bblia para Crianas, toda ilustrada, no intuito de catequizar desde cedo o seu neto.
Meu filho Otvio, ento com 8 anos, adorou debruar-se sobre aqueles desenhos e figuras bem explicativos sobre as sagradas escrituras. Passou horas viajando e matutando naquele livro.
Dois dias depois de ter recebido o presente, sua V Wanda, ao encontr-lo, perguntou: Tavo, meu querido, gostou do livro?
Ele, de supeto, respondeu: Vov, gostei, j li tudinho.
Na verdade, ele estava dizendo que viu os desenhos e as ilustraes nos mnimos detalhes e no que leu toda a Bblia.
E voc entendeu tudo, meu amor?
Otvio, parou, pensou e disse: Tudinho, tudinho, no, Vov! O que eu no entendi mesmo foi porque Ado e Eva tinham umbigo?
Ao que dona Wanda respondeu: Todo mundo tem umbigo meu bem, olha aqui, eu tenho, voc tem, sua me tem...
Intrigado, Otvio retrucou: Mas o umbigo no a cicatriz do cordo umbilical?


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Por Ucho Ribeiro - 1/4/2013 11:51:44

Minha Dr. Santos

2 parte - Da D. Pedro II a Padre Augusto

O miolo do mundo era a Dr. Santos. A cidade acontecia naqueles poucos quarteires que ligavam as praas Coronel Ribeiro a Dr. Carlos. Tudo: negcios, emprstimos, fuxicos, catiras, elogios e desacatos, sucedia e arrematava naquele corredor de lojas, casas, consultrios, bares, penses, botecos e mercado. Havia at dois jornais que pulavam mido para registrar todo o burburinho que efervescia naquela veia urbana e em suas adjacncias.
Os passeios sempre foram estreitos para o trana-trana. Como existia pouco movimento de carros, as pessoas utilizavam tambm a rua pavimentada com paraleleppedos para transitar num tumultuado e calmo ir e vir.
Era o umbigo do mundo. De l, escapando por ruas e becos podia-se encontrar estradas que se esticavam at as distantes Belo Horizonte, So Paulo, Rio de Janeiro, Salvador.
A esquina da D. Pedro II era das mais badaladas. Um fervedouro. Lembro-me das algazarras nas matins de domingo no Cine Ftima. Ficvamos na fila do ingresso ou transitando, espiando, assuntando. Quando parados, escorvamos um p nas paredes que ladeavam os passeios, fingindo ser gente grande, mao de minister no bolso, espera da paquera, da sorte de um flerte relmpago com a menina dos nossos sonhos. A rapaziada mais nova, de olho na portaria do cinema, trocava revistinhas e gibis, espreita de um vacilo do comissrio. O mais ferrenho era o Gaguinho. Inflexvel, barrava sem d a medrosa molecada, amontoada, a cuspir, a se contorcer, despistando e tomando coragem para enfrentar aqueles trs degraus intransponveis sala escura. L dentro, o tero seguro de diverso garantida aventuras, romances e sonhos. Eram imagens e sons que nos deliciavam e nos transportavam para alm do nosso arraial.
Recordo de Maro, radiante, ao conferir o gordo border e falando para o nosso tio e contador Otvio Silveira: Titavo, Titavo, cinema o melhor negcio do mundo! A gente vende sombra, fantasias, vista. vistinha! Dinheiro na frente. E as pessoas saem do cinema, felizes da vida, prenhes de emoes. S levam sentimentos e imagens na memria. Se no gostarem da fita, falam mal do diretor e dos atores. No tm a quem reclamar.
Abaixo da Sorveteria e Lanchonete A Cubana, descendo a Dr. Santos, no mesmo passeio esquerdo, se apresentava a JB Lanamentos, onde Joo Batista - Lelas - todo arrumadinho, de passos curtos, lanava moda. Cala boca de sino, cinto com medalho na altura do umbigo, camisa de manga dobrada, sapato com bico quadrado e sola alta. Na capa. Os preos da roupa, o olho da cara. Proibitivos. Os pais, munhecas, s soltavam o dinheiro do cinema para os filhos.
Entre os passantes e circulantes desocupados deparvamos com personagens diversos, como Manoel Quatrocentos. Este no era doido nem tolo, ele que nos fazia de bobo com as suas ferradas. Pequeno, pernas curtas, ombro largo, carregava um inseparvel machado. Fazia alguns servios de lenhador nos quintais das casas. Usava sempre cala e camisa de mangas compridas, coloridas, sempre limpas. Se dssemos assunto, bravatava com desdm que conheceu e se enamorou nas antigas com Sophia Loren, Brigitte Bardot e Grace Kelly. Era lento no andar, mas ligeiro no falar e infalvel no bote. Certa vez, junto com outros curiosos, estava eu debaixo da marquise das Lojas Macedo, a assistir a fixao de uma placa de propaganda, quando chegou manso e sorridente o Man Quatrocentos. De repente, esquivou-se dando um pulo para trs como se a placa estivesse caindo. Ao darmos tambm um salto de banda, acompanhando o seu reflexo, disparou o seu famoso e certeiro olalaica!. Fomos fisgados mais uma vez.
A loja de Waldir Macedo(1) era a Ricardo Eletro daqueles tempos, comercializava de tudo, bicicletas, radiolas, discos, ferros de passar, o escambau a quatro. Interessante que a venda era feita sem pressa, educada e respeitosamente, um negcio de compadres. No se usava cheques, nem cartes de crdito, tudo era anotado no caderninho do fiado.
Em seguida, havia a Casa Eli, sapataria espelhada, moderna, do elegante e h muito pernambucano Zumba, casado com Nvea. A loja era gerenciada pelo educado e zeloso Brivaldo, que conhecia pelo nome todos os clientes, os seus gostos e preferncias. No final de uma longa escada, o apartamento onde moravam as meninas ditas como as mais bonitas de Montes Claros: Rita, Eliana e Janice(2).
Coladinho no prdio da sapataria era a residncia de Levindo Dias e Nenzinha(3), que foi comprada de Antnio de Oliveira Fraga. Na minha lembrana, salvo engano, a casa tinha um muro baixo, com elementos vazados, como uns vazinhos furados, que protegiam um pequeno jardim com grama e algumas roseiras. Junto havia o escritrio de advocacia de Arnaldo Bencio Dias Atade e do saudoso Afonso Brant Maia. Pelas memrias enevoadas, por ali tambm havia uma casa amarela de Davis. Nos dois cmodos da frente estava o seu escritrio de contabilidade e nos demais, ao fundo, as dependncias da sua casa. Talvez, em tempos distintos, este lugar tenha sido tambm o mesmo local de trabalho dos conceituados advogados.
Tenho tambm recordaes que registram o consultrio dentrio do Dr. Sebastio Moreira, casado com a paisagista Josefina Mendona(4).
Marcante era o equipado Foto Pinto, de Jos Figueiredo Pinto(5), especialista nos lbuns de casamento e de famlia. Um verdadeiro estdio. Exmio maquiador fotogrfico, com as mos e seus lpis afiadssimos corrigia as feiras do povo. Era o photoshop da poca. Onde andar o valioso arquivo de fotografias e negativos do Seu Pinto, registro da nossa longnqua Montes Claros que apaga a cada dia das nossas memrias? Talvez, o ex-combatente Izar, que comprou o Foto Pinto e o manteve no mesmo lugar por algum tempo tenha este arquivo. O pessoal do Instituto Histrico de Montes Claros deveria fazer uma pesquisa para localizar essas fotos. Outro fotografo das antigas, bom de foco e detentor de um belo e copioso arquivo o Jos Gonalves de Oliveira, o famoso Z Cabecete. Ele teve loja na rua Simeo Ribeiro e por muito tempo na rua Dom Pedro II, em frente ao Hotel Monterey. Pesquisadores de planto, Seu Jos pai da bela Luzia Magna e de Fabio Maral, fotgrafo oficial da prefeitura. Portanto, saiam em busca deles e de suas relquias fotogrficas. Tampouco se esqueam de pesquisar os arquivos do Foto Facela, que alguns dizem ter funcionado por algum tempo no prdio de Zumba na Dr. Santos.
Acima do Foto Pinto, no segundo andar do prdio, era o NAE Ncleo de Assistncia Empresarial, que tinha como diretor Fbio Borm Pimenta. Luiz Tadeu Leite, radialista, recm-formado em direito, cheio de ideais e sonhos, era o apressado e articulado relaes pblicas(6).
No vero de 1975, durante as frias, fui estagirio daquele acalorado escritrio de economia e planejamento. Ficava a ler projetos e estudos econmicos da regio e de Montes Claros. Vivamos o milagre econmico e a poca das verbas fceis da Sudene. Mas eu gostava mesmo era da hora do caf da tarde, po quentinho da Padaria Santo Antnio, manteiguinha Alvorada, leite, caf, muitas vezes queijo e a prosa animada, salpicada de poltica e futebol.
Alguns amigos me alertaram da existncia, naquele passeio esquerdo, da Farmcia Real, do famoso e agitado Z Costa(7).
Rememoro, ademais, da Casa Coelho, de fachada azul, especializada em mveis, de Gabriel Cohen, que tinha o Vicente Rocha como gerente.
Viva igualmente na minha memria era a Jias Palladium, onde uma moa muito bonita, me fazia passar devagar pelo passeio e dar uma olhadela rpida e acanhada, a fim de filar alguma formosura. Ela causava inveja s jias. Salvador, pai de Hebert Pezo, chegou a trabalhar l. A loja ficava bem em frente ao Jornal de Montes Claros.
Passeio abaixo estava a padaria Santo Antnio, da famlia Souto, produtora da gostosura do po alemo. L, comi meu primeiro pudim, depois de uma visita ao Jornal de Montes Claros. Folclrico era a figura de Ado Padeiro na sua charrete ou em sua bicicleta cargueira. Saia pela cidade, de casa em casa, a buzinar e a entregar o famoso po ainda quentinho. A meninada encolerizava-o ao gritar: - Vii Ado.
Grudado padaria, havia um beco fino de uns 10 ou mais metros, com paredes descascadas, reboco mostra, dando passagem para um pequeno largo, com piso de brita, onde funcionava uma fabriqueta de carimbos e uma grfica j meio ultrapassada, que produzia basicamente volantes e panfletos. Creio que l, antes, ficava o depsito de lenha que alimentava os fornos da panificadora.
Barulhenta era a Loja Americana, de Dizinho Bessa, casado com Anilda, professora de portugus do Colgio Agrcola(8). Vendia de tudo, vitrolas, radiolas, rdios, discos foges e geladeiras.
Na esquina, no final do quarteiro, chegando Padre Augusto, pousava o prdio do Banco de Minas Gerais - BMG. No segundo andar, residia o gerente Joo Damsio e sua famlia. Posteriormente, uma nova agncia do Banco Real, antigo Banco da Lavoura, instalou-se naquele ponto, com toda a sua trupe(9). De l, temos causos pr mais de metro, s falta o Jos Aluzio Pinto por no papel.
Findo o quarteiro, do outro lado da rua, espelhava outro Banco, o Comrcio e Indstria, do gerente Armando Costa. Eu conhecia mesmo era a famlia do sub-gerente, Calixto, casado com Tiana, pais de Estefnia e do encapetado Bardo. Todos, juntamente com o menino Zezinho, habitavam o apartamento localizado no segundo andar.
noite, a curta escadaria do banco, de uns cinco degraus, se enchia de moleques pr-adolescentes. Ficvamos a jogar conversa fora, a fumar, mascar chicletes, arreliar uns aos outros e a tramar algum mal feito. Os mais velhos da gang eram Nei e Breno Aranha. Este j era dark quela poca. Os mais novos, Rayu Christoff e Bardo, no menos traquinos e imaginativos.
Subindo de volta a rua, o prximo imvel, onde hoje h um porto de ferro, era a Agncia Chevrolet, de Loureno Santana(10), que residia no apartamento no piso de cima. Ao fundo da revendedora havia uma enorme oficina com sada para a Padre Augusto(11).
Onde atualmente est a Caixa Econmica Federal fora uma rea ocupada por uma vila, um cartrio e o Jornal de Montes Claros.
Passeio arriba, se estabelecia a vila onde moravam Alberto Laborne Vale, pai de Cla Mrcia, casada com Haroldo Filpi, e Altamiro Guimares, pai de Alba, casada com Humberto Souza Lima. A famlia Vale era dona do cartrio. Parece-me que l tambm funcionou uma antiga copiadora.
Bem, mas o que me vem mais forte lembrana O Jornal Monsclaro di hooooje que era aconchegado vila.
O jornal era um pouco recuado e a vila se prolongava. Lembro-me de uma vez que eu, menino, estava com Maro a comprar o jornal quentinho, recm rodado, quando ele mostrou-me o canto de Tuia e mais abaixo a projeo da vila num lusco-fusco cenrio da lua cheia fazendo companhia torre da Catedral. Sem entender sua admirao e demora, perguntei: O que , Pai? Ele disse: Poesia, meu filho!
A entrada do jornal no dava para a Dr. Santos, era lateral. Antes havia o escritrio de advocacia de Orestes Barbosa(12). Lembro-me dele toldado pela perfumada fumaa do seu cachimbo. Sinto o doce cheiro achocolatado.
A recepo do jornal era uma sala com pintura envelhecida, piso de tacos surrados, uma mesinha, poucas cadeiras, mquina de escrever de teclas gastas. No me recordo de quadros nem de ningum especificamente, a no ser do meu sempre srio padrinho Oswaldo Antunes. A redao e a grfica ficavam do lado oposto. Trago na memria o barulho das mquinas e da montagem dos textos feita com o ajuntamento dos ferrinhos de chumbo organizados em dezenas de caixas quadradas de letrinhas. Ouo o sonoro barulho deles, quando agrupados ou descartados pelo homem que vestia as palavras. O curioso que ele, Meira, escrevia as frases de trs pra frente.
Ao lado do jornal, num recuado, fora do alpendre, ficava uma casinha de madeira cheia de tralhas, papis e panos. Tuia morava ali. Segundo Andr Antunes, filho do dono e meu colega do So Jos, os funcionrios do jornal enchiam as paredes de madeira de fotos de mulheres bonitas em poses sensuais para poca pginas retiradas das revistas Manchete e Cruzeiro. Uma curiosidade e mistrio para ns meninos.
Tuia baseava-se ali mesmo no Jornal, mas s vezes andava pela Dr. Santos, lento, curvado, mascando fumo, com uma chupeta de beb pendurada ao pescoo. Comovia-me a histria de que ele era um ex-escravo. Se falasse Tuia bonzinho ele sorria, se dissesse Tuia feio ele levantava a bengala como fosse bater em algum. Quando pequenos, l em casa, deixamos de chupar bico devido ao infalvel argumento de mame: Tuia pegou seu bico, s voc indo l pedir para ele. E o medo?
O Mais Lido tratava de assuntos basicamente locais e regionais. Lutava veementemente pelo asfaltamento da estrada para BH, pela melhoria da energia eltrica de nossa cidade, pela industrializao da nossa regio. Era um jornal atento, severo, combativo em defesa dos interesses de Montes Claros e do norte de Minas. Sob a maestria de Waldir Sena Batista, foi a escola de grandes jornalistas, que obtiveram xito e respeito nas redaes dos grandes jornais brasileiros. Para vocs terem uma idia, entre 1960 e 1965, o JMC tinha os seguintes focas aprendizes: Robson Costa, Berguinho Spndola, Flvio e Nilo Pinto, Lazinho Pimenta e Paulinho Narciso. Parece um escrete, ou no?
Na grata e finda lembrana, resta a imagem de inocentes meninos a gritarem pelas ruas o eterno Monsclaro di hooooje.
Acima do Jornal, do mesmo lado, onde hoje a My House, havia um sobrado, um pequeno palacete para a poca, a casa de Alpheu Gonalves de Quadros e de Helena Prates(13). Dr. Alpheu, entre eleies e nomeaes, foi trs vezes escolhido prefeito de nossa terra, em 1942, 1947 e 1955. Depois, foi vice-prefeito de Toninho Rebello entre 1967 a 1970.
No mesmo passeio, subindo, havia a garagem de GG que fazia parte do grande terreno da casa de Fabiano Peres, conhecido por Cica Peres(14). Este imvel foi subdividido em diversas lojas. Tinha o folclrico e carnavalesco Geraldino Coelho que trouxe a primeira boutique para a cidade. Depois, a tica Lessa do magrelo e falante Edmilson e a Loja de Walcy Macedo, pai de Fernando Peito de Ao, que vendia bicicletas.
Mais acima a Andra Calados de Ruy Pinto, culto e bom de papo. Leitor dirio do Jornal do Brasil e atualizadssimo com o que ocorria em Montes Claros e no mundo. Ruy faz uma imensa falta, principalmente nos papos do Caf Galo.
Finalmente, a casa de esquina na Dom Pedro II, de Juca Fros, casado com Conceio Lima, irm de Gregria de Seu D. Seu Juca pai de Marina, que casou com Wandaik Wanderley.

Meus amigos, triste passar pelo centro de Montes Claros e perceber que a nossa Rua Dr. Santos existe apenas nas nossas efmeras e finadas memrias.

Ao cabo, minha gratido s assistentes e essenciais memrias de Andr Antunes, Bartola, Carlo Meira, Haroldo Tourinho, Fabio Maral, Luiza Magna, Jos Gonalves de Oliveira, Nilo Pinto, Robson de Quadros Figueiredo e Tadeu Leite.

(1) Pai de Waldizinho, Fernando, Flaucy, Flvio, Fbio, Gera, Cludio e urea.
(2) Zezinho, Toninho e Do, meninos, completavam a famlia.
(3) Pais de Arnaldo, Soninha, Chico, Aldinha, Geralda e Csar (Bulei).
(4) Pais de Darlan, Olavo, Aline, Adriano e Robledo, todos residentes na Avenida Francisco S.
(5) Casado com Kita S, pai da colunista social Mrcia S e de Fernando Kita.
(6) Os outros dedicados funcionrios do NAE eram: Armnio Veloso, Rocha, Jorge Ferreira, Gilson Coimbra, Carlos Alberto Maia e Ado.
(7) Casado com Dona Bernadete, pai de Luiz Fernando Costa, de Jara, Soraia e Ktia.
(8) Pais de Waldir, Patrcia e Margareth Bessa.
(9) Funcionrios do Banco Real: Boyzinho, Bichara, Jos Aluzio Pinto, Jos Marques Caldeira, Jos Messias Castro Brito, Odair Dangelis, Dario Avelino Pereira, Alvimar e Cesrio Rocha.
(10) Casado com Zelita, pai de Osmane (Binha) e Lamberto Oliveira Santana.
(11) O chefe da oficina era Dida; Pedro Arago, o gerente da casa de peas e Barlolomeu Lincoln, o popular Bartola, era o office boy.
(12) Casado com Iede e pai de Ruy, Toninho e Maria Helena.
(13) Pais de Snia e Suzana Quadros.
(14) Casado com Helena Fros, pai de Fabiano, Omar, Snia, Teresinha de Bento Campos e outros.


74730
Por Ucho Ribeiro - 6/3/2013 10:25:20
Depois de amanh o Dia Internacional das Mulheres - Dia apropriado para desvelar o machismo montesclarense.
At hoje, entra cmara, sai cmara, elegem-se novos vereadores e nenhum prope a mudana dos nomes de dois logradouros de Montes Claros: Viva Coronel Francisco Ribeiro e Viva Paculdino. Uma rua no centro, ao lado do Banco do Brasil e uma avenida no Jaragu II.
Trata-se de homenagens a duas dignas e honradas senhoras. A viva do Coronel Francisco Ribeiro chamava-se Dona Lusa Magalhes Ribeiro e foi a principal doadora e fundadora do Orfanato Nossa Senhora do Perptuo Socorro. A viva Paculdino chamava-se Dona Esther Alkmim Ferreira Paculdino e pertencia a uma das mais ilustres famlias de Bocauva.
Entretanto, a perpetuao dos atuais nomes estampa a nossa abominvel e vergonhosa macheza.
Reitero o pedido para que algum vereador ou vereadora apresente um projeto na cmara para a substituio dos nomes dos maridos pelos destas virtuosas e merecedoras mulheres.
A propsito, dois lindos nomes: Lusa e Esther.


74591
Por Ucho Ribeiro - 18/2/2013 11:07:25
Dias desses, conversando com um senhor sobre coisas da vida, fiquei encantado com tantas vivncias e conhecimentos.
Insensato, acabei perguntando: - Quantos anos o senhor tem?
De pronto, respondeu: - Uns dez anos!
- Dez anos? Argu.
Ele, ento, retrucou: - Sim dez. Eu j tive 65, muito bem vividos, curtidos, findados. Agora, provavelmente s terei mais dez. Dez com sade, teso e disposio para vida. Pretendo viv-los intensamente. O resto, o restolho, se vier, se eu tiver, ser arrastado, suportvel. Um perrengue. Tosse e dor.

E eu, quantos anos tenho?


74506
Por Ucho Ribeiro - 6/2/2013 09:42:15
Minha Dr. Santos

1 Parte Da D. Joo Pimenta a D. Pedro II.

Nas brumas dos meus mais profundos relembramentos, recordo difusamente de uma bolinha percorrendo um pequeno aclive de um alpendre. Minha viso esconsa se delineava pela posio da minha cara postada no arejado e liso cho. Com o arco do meu brao, eu lanava uma bolinha de gude pelo cimento queimado e a assistia percorrer uma ligeira curva at retornar mansa outra mo. O movimento repetido, silencioso, ecoa-me, at hoje, quietude e segurana. Posso at confundi-lo com um sonho longnquo, mas sempre foi a minha primeira lembrana.
Depois, misturadamente, lembro-me de tantas outras infantes coisas, gentes, lugares, cantos. Mas fora do seio familiar, o que ficou forte foi a casa da minha av. L tinha morangos nos canteiros, histrias, um p de manga ub e forno de biscoito. Encantos e desejos dos netos. Viva a lembrana da minha mo, balizada pela da vov, a alinhavar as primeiras letras com o bico de confeiteiro. O biscoito espremido desenhava palavras, nomes, coisas. Mgica e ofcio da Mestra Fininha.
Na casa da Vov, o acesso permitido rua se limitava ao resumido passeio da Dom Joo Pimenta at a barbearia de Osmar, Bigode e Caxang, que ocupava o cmodo geminado na esquina com a Rua Dr. Santos. O outro era o consultrio do meu pai. Na verdade, duas salas, uma de espera, bastante simples, e a outra de consulta com mveis espartanos. Na parede uma cpia da clssica pintura de Samuel Luke Fildes, que registrava uma criana doente assistida por um mdico e o desespero da me, debruada sobre a mesa, consolada pelo pai.
Das janelas, da mureta do jardim e pelo baixo porto de Dona Fininha, eu via a subida das pias senhoras com tero procura de missa e a descida do Sr. Eupdeo da Rocha, de chapu, todo circunspecto, com Irene de longa saia rosa, a segui-lo. De quando em vez, Tuia passava curvado com o basto e seu bico enrolado, e resmungava baixinho: Tuia bonzinho, Tuia bonzinho. Volta e meia, surgia o fardado Leonel, imenso, reluzente, com sua boneca e banda despejando alegria pela rua. Fazia reclames das Casas Futurista e Pernambucanas num megafone de lata. Lembro-me daquela montanha vermelha e azul, com um turbante florido na cabea, peitos enormes, desmedidos brincos de argolas, rodopiando os braos mambembes ao som da banda de Joo Tintureiro. Ao chegar perto da gente, se curvava, baixando sua gigantesca cabea, e se contorcia de novo num trezentos e sessenta. Eu no sabia se corria, chorava ou aplaudia. Ficava extasiado, estarrecido. Aquela bonecona imensa tinha os pezinhos pequenos, desproporcionais, metidos num conga surrado. Na barriga dela, na altura do umbigo, entre os botes da blusa, havia uma telinha preta, que, hoje sei, era por onde o dono do conga espiava.
A barbearia era movimentada. Tinha 3 portas, uma para Dom Joo Pimenta e as outras duas para a Dr. Santos, sendo que uma delas permanecia meio fechada, com a parte de baixo fixa e a banda de cima escancarada. Havia cadeiras, um banco com jornais e revistas e um outro para engraxate. Na parede, destacavam-se os espelhos em frente s poltronas dos barbeiros e dois pequenos quadros. Um da Transamaznica, com a imensido verde riscada por uma estrada alaranjada e o outro, em contraste, exibia uma paisagem campestre europia com montanhas nevadas no horizonte. O som ambiente, alm do vozerio dos clientes, provinha do amolar das navalhas Corneta e Solinger no afiador manufaturado de raiz de tamboril.
A barbearia me inseriu no mundo. Sentado nas suas cadeiras, procura dos semanais desenhos do Amigo da Ona na revista O Cruzeiro, ficava atento aos fuxicos e burburinhos de Moc. Nas longas esperas dos repetidos cortes do meu minsculo topete alemo, assistia e ouvia a cidade passar e conversar, ao aroma de gua Velva. Assuntava palestras e bravatas de gente grande, comerciantes e fazendeiros, via o passar discreto do povo simples e a euforia de Maria Babona, Requeijo, Joo Doido, Galinheiro e Requebra-Que-Eu-Te-D-Um-Doce. Beto Ronca-Ferro e Lena Doida vieram depois.
Na minha vez, Bigode, para lhe dar altura para o corte, empoleirava-me na tbua que colocava no apoio dos braos da cadeira de barbeiro, e eu, do alto, de camarote, assistia o desfilar das pessoas, feirantes e populares e dos poucos carros que desciam a Dr. Santos. Privilegiadamente, dali, testemunhei as tropas carregadas, descendo para o antigo mercado municipal, os feirantes cobertos de fieiras de galinhas e os carrinhos de mo com hortalias. Vi e ouvi as carroas de leite da cooperativa tocarem o insistente sino a convocar os compradores de leite com os seus alvos litros e vasilhas, presenciei o troca-troca dos cartazes dos cinemas, a chatura dos cambistas de loteria e as cornetadas dos vendedores de quebra-queixo. Mais crescido, sentado sem a tbua, observei a chegada das primeiras kombis lotao e o asfaltamento dos paraleleppedos. Senti, ento, pela primeira vez, o cheiro forte do piche preto.
Abaixo da barbearia, logo depois do consultrio de meu pai, havia O Guarani, onde se vendiam as vitaminas de abacate, de mamo e os pastis de Vadiolando. Em frente, a penso e o armazm do seu pai, onde viviam tambm, Cori e Ded, todos de Itapetinga. Segundo Maro, Vadim, jeitoso, gostava de uma catira comprava e vendia tudo, de revlveres a bezerros.
A morada seguinte era de Jason Teixeira, onde nasceram Luclia e Adriano, depois vendida para o Crisantino Borm. L, vi crescer uma ninhada de louros e ruivos meninos e meninas, todos sob o carinho de Dona Celme, depois sob o afago e a tutela de Tetese.
No mesmo passeio, descendo, morava Seu D e Dona Gregria, pais de Non, Hlio, Jason, Didi e Tone, donos da Casa 5 Irmos, e de Terezinha, Zoca, Geralda e Dezinho. Todos finados. Quem no se recorda da bem cuidada baratinha Volks do Seu Didi?
O lar subsequente era de Seu Meira, esposo de Dona Terezinha, progenitores de Carlo, L, Regina e do aodado Ernani. Foi ele o primeiro menino que vi casar. Na minha infantilidade e inexperincia, rezei por Nane e para sua famlia recm constituda, pois no sabia que conselhos dar para aquele desatino, aquela modernidade. O domiclio fazia muro com a grande residncia de Joo Valle Maurcio. Esta tinha janeles altos, abertos para a rua mais movimentada da cidade. L, talvez pelo meu pequeno tamanho, o p direito era imenso, colossal. Da ampla sala saa um corredor que distribua quartos e cmodos. As paredes eram cobertas por quadros e apetrechos antigos, histricos. Tudo muito limpo e brilhoso, cristais e mil objetos que ns, meninos, no podamos encostar, nem tocar. O jardim lateral da casa, com roseiras coradas e brancas, dava passagem para o quintal que tinha uma espaosa pista de patins, local de exibio dos jovens na tentativa de impressionar as mocinhas de Dona Milene: Mnia, Nairzinha e Vitria. Liliane no existia ou era pituxinha. Ali aconteciam o melhor So Joo e as mais fartas festas.
Colada na moradia de Dr. Maurcio, se instalou por um tempo o Dirio de Montes Claros, dos honrados, srios e comprometidos jornalistas Dcio Gonalves de Queiroz e Julio Melo Franco, que mais tarde pulou para o outro passeio da Dr. Santos. Com a mudana da grfica o ponto ficou um bom tempo fechado, mas depois foi instalada ali a penso da Dona Snia. A habitao seguinte era do Loyola, mdico, professor, pai de Roberto, Eunice e Maria Helena. Fefeu e Jane nasceram bem depois.
Neste mesmo passeio, o esplendor da manso de Domingos Braga estalava, ainda mais com o Cadilac Vermelho, rabo de peixe, na garagem. O homem era famoso, tinha at revolver todinho de ouro. Pelos fuxicos que ouvi nos anteontens, o palcio teria sido comprado vista por Lus de Paula.
Quase chegando na Dom Pedro II, recordo tristemente da Prontoclnica So Lucas, onde, em 71, rezamos imploradamente para que Telmo Machado no morresse. Foi a minha primeira sentida morte. Di at hoje.
Ao lado da Prontoclnica, na esquina, estava a farta, variada e moderna A Cubana, ponto da rapaziada fumar cigarros Minister, Capri e tomar Cuba Libre. Vendia at as raras e carssimas mas niqueladas embrulhadas em papeis purpreos, cheirosos, que s nos eram oferecidas quando estvamos doentes e sem apetite. No andar de cima do edifcio moravam os Deusdars e o casal Edlson Brando e Aparecida, pais dos pequeninos Junior, Evana, Simone, Raquel e Elbinha.
Quina oposta, em uma construo mais alta, com pequena escada na entrada, residiam Dona Joaninha Colares e seus filhos: Geraldo, Teresinha, Rosarinha, Cassimiro, Joo Ricardo, Ray e Fernandinho. Acima, no mesmo passeio, viviam Lezinho Lafet, mulher, filhos e filhas. Do lado, havia um corredor utilizado para esvaziar as sesses do seu Cine Ftima. Mais tarde, veio a ser um fliperama e na sobreloja uma boate.

Em seguida, uma casa da Tia de Ernani Meira, que depois foi de Carlos Leite e Felicidade Patrocnio. Parelho, havia um domiclio que foi antiga habitao de Moreira Csar e depois de Luis de Paula. Posteriormente, escritrio da FUNM e, mais recentemente, depsito/escritrio do mesmo Luis. Grudado era o ponto para onde o Dirio saltara.
No podia me esquecer tambm da Penso de Dona Docha, residncia de Janete, Ivonete e Clara e, posteriormente de Dona Zlia Peres, me de Gilson Capeta (hoje, Gilson de Jesus), da anja Railda e de Robertinho.
Ao fundo, com um corredor de entrada, um galpo abrigava o Supermercado da Cobal e a Grfica Orion de Laerte e Mauziur, irmos de Nice David. Os mais antigos dizem que o salo que abrigava o supermercado fora antes o restaurante Mangueira, palco de vrias festas promovidas pelo colunista Lazinho Pimenta, como suas noites do Suter.
No me esqueo da Penso de Dona Duca Guimares, me de Edith, Judith e de Zenith dentista. Mais tarde, a penso transformou-se no Prontocor, fundado por Mauricinho.
Logo aps, passeio acima, um corredor profundo com duas residncias dos filhos de Levi Peres; coladinho ao corredor havia a penso Montes Claros, do Seu Son, pai de Glria e de Joo Beatles. Arriba, a Vidraaria Carioca de Rosenthal, pai de Dawidson Caldeira e, passo adiante, a Lavanderia Estrela, de Luis.
Pronto. Salvo alguma falha da memria, retorno-me ao j mencionado ponto de Vadim, encerrando as casas da rua Dr. Santos naquele quarteiro.
No me recordo de trana-trana de carros e motos. S me lembro de uma Montes Claros calma, sossegada, de um povo sem pressa, com todo tempo do mundo para um dedo de prosa. Que saudade!
Infncia cada um tem uma. Estas recordaes fazem parte da minha.
Bem, eu no poderia deixar de agradecer os bons papos e o auxlio das refinadas memrias de Ernane Meira, Nilo Pinto, Haroldo Tourinho, Roberto Machado, Magna e Fbio Maral.


74373
Por Ucho Ribeiro - 23/1/2013 11:01:45
Enchente

H uns 20 ou mais anos, em noite de janeiro, uma tromba-dgua inundou o bairro Todos os Santos. Disseram, poca, que o reservatrio do Pai Joo havia rompido, no aguentara o peso da chuva. A gua, ladeira abaixo, atravessou os Bois at pousar no miolo do bairro, formado pelo baixio das ruas dos santos Mateus, Marcos, Antnio, Joo e Paulo, perpendiculares aos logradouros das santas Bernadete, Lcia, Maria e Luzia. Ficou tudo encharcado. Uma enorme lagoa urbana.
O lendrio Dr. Joo Vale Maurcio, morador de esquina da So Joo com Santa Lcia, contava que ao acordar de madrugada e descer da cama para ir ao banheiro, assustou-se ao molhar o meio das canelas. Suas sandalinhas boiavam serelepes na piscina em que transformara a sua sute. Alarmado com o volume e com a constncia que a gua subia, despertou aos gritos toda a famlia para baterem em retirada.
Nas primeiras horas da manh, ele, a patroa, as filhas e a cozinheira, de pijama e camisolas, transpuseram o aguaceiro at a garagem a procura de um escape a motor, mas o carro j estava cercado e embebido de gua.
No desespero para a fuga telefonou para o irmo e pescador Jovlcio, que morava dois quarteires acima, na So Pedro: - Mano, Mano, s voc vindo aqui nos acudir. A gua j est no meu umbigo. Pelo amor de Deus, pegue seu barco e venha nos socorrer antes que seja tarde.
Dr. Jovlcio, mais que depressa, com ajuda de vizinhos apijamados, arrastou a carreta com o barco pela rua Santa Lcia at uns poucos metros depois da So Paulo. A partir dali, tudo era gua trmula e turva.
No seco, a beira do recente lago, amontoavam-se moradores assombrados, bem como curiosos admirados com o tamanho charco.
O irmo pronto, com a mesma empolgao de quando foi campeo de natao, desceu o barco da carreta, colocou-o na gua e ligou o motor de popa. Olhou sua volta, viu uma senhora despenteada com um beb de meses nos braos e querendo ajudar perguntou: - dona, a senhora quer ir?
A mulher, sem vacilar, assentiu com a cabea e brucutu dentro do barco. Sentou-se e agasalhou a criana.
Dr. Jovlcio, todo vaidoso, embicou a embarcao pela Santa Lcia. No quarteiro abaixo, na esquina da So Joo, deparou com seu irmozinho Maurcio sacudindo os braos com gua pelo peito e a famlia toda empoleirada nas grades da casa.
Jovlcio, com pressa, disparou: - Aguenta mais um pouquinho Mano, que s vou despachar esta senhora e j volto!
A, voltando-se para a mulher, perguntou: - Dona, a senhora vai pra onde?
A distinta deu uma pausa, emudeceu e depois destramelou: - U, eu pensei que a gente ia era passear.


74213
Por Ucho Ribeiro - 4/1/2013 16:24:41
Joo Galo, Joo Alegria. Joo todo amigo. Joo que recebia, que adulava, que ria. Que no deixava ningum de fora. Que dava po e abrigo. Quintaleiro de toda hora. Que juntava e reunia. Gargalhava alto e se divertia. Generoso, dadivoso com todos ao seu redor.
Escapuliu como um passarim a procura do seu bando. L em cima, o contentamento est demais. H fila para abra-lo e pacincia eterna para ouvir os novos causos da terrinha.
Joo, meu padrinho.


74196
Por Ucho Ribeiro - 3/1/2013 09:33:44
EDUARDO LIMA
Goya sempre foi o pioneiro. O atirado. O aventurado. O primeiro a pegar a barca e conclamar todos a fugir da mesmice.
Nos sessenta, Colgio So Jos, era o furaco, a alegria, o catalizador da meninada para o novo, para as mudanas que aconteciam no mundo. Tomava frente do grmio escolar, mobilizava os alunos, nos chacoalhava com ideias, sonhos e fantasias. Era o organizador e participante-mor das quadrilhas juninas, dos jograis, e peas de teatro.
Nunca foi plateia nem coadjuvante, sempre o protagonista. Eterno enamorado da vida e das meninas. Paixo transbordante que encantava e maravilhava todos.
Garoto foi para a ZYD7 e comandou um programa de variedades, divertido, mltiplo, com um papo novo, udigrudi, tropiclico. A garotada ficava ligada, atenta aos toques e apliques. Organizava festivais e gincanas. Agitava a cidade.
Montes Claros ficou pequena, mudou-se para BH e l irradiou sua alegria e entusiasmo pelas alterosas. Casou-se, teve filhos, candidatou-se a deputado, casou de novo, teve mais filhos, elegeu para vereador, continuou casando e tendo filhos, foi secretrio de esportes, escreveu livros, namorou seguidamente e apaixonadamente procriou mais e mais, sem nunca perder a ternura, a alegria e a disposio para a vida. Por onde andou encantou at se encantar de vez.
Ficamos ns a ter saudades... Muita, muita mesmo!
Obrigado, Goiabo!
Valeu Mermo!
J dizia Rosa: Todos esto loucos, neste mundo? Porque a cabea da gente uma s, e as coisas que h e que esto para haver so demais de muitas, muito maiores diferentes, e a gente tem de necessitar de aumentar a cabea, para o total.


74111
Por Ucho Ribeiro - 24/12/2012 08:50:38
TREMOR E TEMOR

O terremoto nos tornou conhecidos. Agora o Brasil inteiro, qui o mundo, sabe que aqui nos cafunds de Montes Claros a terra treme cada dia mais forte. Volta e meia aparecemos no Jornal Nacional: o povo correndo com medo, varandas rachando, desabando e os conterrneos, os turistas e os viajantes fugindo dos prdios, dormindo nas caladas e dentro dos
carros.

Uns se borram, outros fanfarreiam. Todos tem uma histria pra contar.

S quem no se manifesta de forma clara e precisa so as autoridades constitudas e os institutos sismolgicos nacionais. At agora nenhum pesquisador, um renomado cientista, um gelogo especialista ou um observatrio idneo, embasado em fatos e pesquisas circunspectas, deu uma explicao cristalina, pontual e exata.

Resta-nos o achismo, o chute no escuro, o palpite infeliz.

Desde os primeiros tremores, as explicaes so as mais diversas: uns dizem que os abalos ssmicos so devido a uma falha geolgica situada entre o Bairro Vila Atlntica e a Serra do Mel; outros acusam as detonaes realizadas pelas pedreiras; vrios afianam que so acomodaes naturais de camadas no subsolo a centenas de metros de profundidade; uns poucos, mais esotricos, defendem as vlvulas de ressonncia do globo terrestre; e alguns tcnicos, com papo de especialistas escolados, culpam a super explorao das guas subterrneas numa zona crstica, bem como a presso hidrodinmica com aumento da lixiviao na litosfera e outras presses.
Ultimamente, foram proclamadas at vises apoteticas de riscos luminosos no cu na hora do derradeiro grande estrondo e tremor.

Os reais convocados a dar explicaes so unnimes em apenas duas assertivas: os tremores iro continuar e teremos que nos acostumar com eles. Ou seja: se virem!

Ns, montesclarences, leigos e mortais, ficamos ao deus-dar a espera do prximo tremor. Na torcida que seja brando e passageiro.

Por outro lado, o que estaro pensando os grandes empresrios, potenciais investidores? Ser que arriscaro seu money numa terra sujeita a abalos ssmicos e a apages?
Algum empatar seu capital em construes, edificaes, barragens, prdios, indstrias numa terra que sacoleja cada dia mais forte e mais frequente?

Imagine se algum grupo farmacutico, qumico, petroqumico, laboratorial, ter coragem de montar suas instalaes em Montes Claros. Um tremor mais forte pode desbancar prateleiras, causar um apago e dar prejuzos monumentais. Pode at mesmo atrasar pesquisas que vinham sendo desenvolvidas h anos.

E uma nova barragem, uma nova usina na regio, ser que o empreendedor, pblico ou privado, no ter que elaborar sofisticadas pesquisas levando em considerao os abalos? Qual sero o preo e a complexidade destas pesquisas? Quanto elas impactaro financeiramente as obras?
As promissoras usinas elicas, ento, que necessitam de preciso e firmeza, aguentariam um solavanco?
E no futuro, ser que os gasodutos, oleodutos, hoje projetados, podero passar por nossa cidade? Os seus combustveis podero ser armazenados aqui em Terremoc?

Imaginem uma rachadura na Usina Biodiesel de Montes Claros, localizada pertinho ou bem em cima da falha geolgica existente nas proximidades do bairro Santos Reis e da Vila Atlntica. Presentemente, depois da assiduidade dos tremores, a Petrobrs montaria ou ampliaria a sua usina naquele local?
As atuais distribuidoras de petrleo (Shell, Esso, Ipiranga, Texaco...) arriscariam armazenar aqui os seus produtos?

E a Novo Nordisk, Vall, Nestl, com os seus laboratrios e centros de estudos esto tranquilas em ampliar seus parques industriais e de pesquisas em Montes Claros?

Decidido investir pesado no norte de Minas com base na demanda do mercado e nas facilidades logsticas da regio, um empresrio escolheria de estalo a nossa terrinha ou sondaria Janaba, Bocaiuva, Pirapora para montar o seu empreendimento.

Depois de ver as cenas que j passaram na televiso, um pai estaria seguro em aconselhar ou mandar seu filho estudar em Montes Claros?

A boca pequena fala-se que a Alpargatas atrasou quatro meses o seu projeto para rever as possveis consequncias dos tremores no seu processo de produo. Quais so as preocupaes e providncias da nova unidade da Case New Holland?

sabido que h filas nas imobilirias para devolver, trocar e vender apartamentos. A procura agora por casa, por imveis de um s piso.

A Prefeitura, as entidades de classes, a Associao Comercial e Industrial, a Cmara de Diretores Lojistas, tm que providenciar urgentemente um estudo tcnico, qualificado, fundamentado, idneo para mostrar e tranquilizar os atuais e pretensos investidores em Montes Claros.

Cada vez que a terra treme h um enxotamento de novos investimentos.

Cada tremor um temor.

Acordai Montes Claros para que possamos dormir em paz!


73733
Por Ucho Ribeiro - 10/12/2012 15:23:35

Carta em que Darcy Ribeiro, ento senador pelo Rio, pede ao amigo Oscar Niemeyer um projeto seu para M. Claros, ento governada por seu irmo Mrio Ribeiro. O propsito era localiz-lo no Parque Municipal.



Rio de Janeiro, 9 de setembro de 1991

​Oscar, meu irmo,

​Sai de Montes Claros h 50 anos, mas meu corao ficou l pulsando. Quando sonho com eu menino a cidadezinha me ressurge, com o seu frescor de ilha de arvoredo no meio do carrascal Norte-mineiro. As saudades que tenho so saudades de mim, l, naqueles idos. Montes Claros tinha ento umas 3 mil almas e corpos que comiam, todos juntos, nos trs dias das festas de agosto. Todos tambm cantavam lnguidas serenatas nas noites de lua cheia, no alto dos morrinhos, que era um morrinho toa, mas de onde se via a cidadeza toda, ali, aos ps, e a imensido do cu prateado. Hoje, minha cidade se chama MOC e tem quase 300 mil habitantes, coitada. Da ltima vez que fui l, fechava os olhos para ver minha Montes Claros, que, agora, s existe no meu peito.
​Meu irmo est realizando seu maior sonho na vida que era ser prefeito de MOC. E quer prefeitar bonito, deixando alguma coisa bela, que ajude todo aquele povo, sobretudo crianada, a ter alegria de viver. Precisa ser alguma coisa recreativa, esportiva, que o que o povo gosta mesmo. Mas deve ser, tambm, tanto quanto possvel, educativa, cultural e at cientfica, para situar minha gente nesses tempos modernos to complicados. Mrio destinou uma vasta rea central (4 hectares) cercada por avenidas, que so as principais vias de acesso da cidade. Ao lado h um lago de 3 hectares e um bosque ainda maior, sobrevivente das queimadas. Pode gastar l de imediato US$ 1 milho e outro, logo depois. Com esse parco dinheiro quer fazer mundos e fundos com um projeto Oscrico programado por mim. Ambio o que no falta quele meu irmo. Como sonhar no caro, fiz funcionar minha fbrica de utopias, que se far quando o tempo der. Tudo se centrar num casaro, de onde se veja o lago, o bosque. O casaro dever abrigar:
​- Auditrio-teatro para 250 pessoas, com telo para receber imagens atravs de uma antena parablica e para projetar discos de videolaser.
​- Videoteca com arquivo de 250 videocassetes, do cinema mundial e brasileiro e 12 televises.
​- Sonoteca com acervo de 500 horas de msica computadorizada, acessvel atravs de 60 audiofones.
​- Centro de teledifuso, como mini-estdio, ilha de edio e emissora UHF (60 m2).
​- Biblioteca com sala para 120 leitores e setor autnomo de emprstimos.
​- Central de informtica educativa, de trs salas, com dois conjuntos de 15 computadores cada, capazes de atender, simultaneamente, a 60 usurios.
- Galeria de arte para exposies temporrias. No futuro se poderia pensar em um museu com acervo prprio.
​- Fora do casaro, quero um parque infantil para os pais se livrarem dos filhos, por uma hora ou duas, enquanto se divertem ou estudam.
Precisamos, tambm, de uma casa de festa, que a populao toda use, nos fins de semana, sobretudo nos dias santos e feriados. Simplesmente, para relaxarem e se divertirem. Neste conjunto quero contar com:
​- Anfiteatro, arena, concha, acstica para 5 mil pessoas, ao ar livre, onde se revivam as antigas serenatas em todo o seu esplendor e se ouam concertos ou participe de shows.
​- Feira de comidas para curtir a culinria da terra - paoca, carne de sol, surubim, pequi de forma bem popular.
​- Pista de dana, para a mocidade se esbaldar.
​Como no custa nada sonhar, e at gostoso, vamos adiante, pedindo um centro olmpico que oferea:
​- Seis quadras esportivas polivalentes (j existentes).
​- Dois campos de pelada, com vestirios e sanitrios entre eles.
​- Centro olmpico, com as prescritas pistas de correr, pular e suar, em disputas esportivas.
​O fundamental mesmo deste conjunto um piscino, com repuxo dgua e prainha de areia para o povo se alegrar, refrescar e lavar os olhos na beleza das novas geraes que iro surgindo. Nas quadras de secura em que o vero medonho, a cidade toda se refrescar no piscino.
​Tudo isto no meio de um arvoredo de mangueiras, jaqueiras, pitombeiras, abacateiros, coqueiros, cajueiros e cajazeiros, por amor sombra fresca, s fruta e passarinhada.
Este o meu sonho. Ambicioso demais, talvez, para as posses da terra. Mas apenas suficiente para atender meu corao.
​Acho um absurdo pedir isso a voc, sem garantia de que seja feito com toda a grandeza que poder ter. Mas, quem sabe? Uma vez existindo o projeto, talvez consiga, depois, dinheiro para se ir completando essas maravilhas.
​Quando ouvirem falar disso vo dizer outra vez que ca num outro dos meus sonhos desvairados. Por isso at crem que meu desejo maior ser imperador. Ignoram, os inocentes, que no imperador do Brasil o que quisera ser. to s imperador do Divino Esprito Santo, nas festa de agosto, de Montes Claros. Nunca pude ser, quando devia, porque minha me, professora, no podia pagar os custos da enorme festana.
​Agora me vingo, pedindo a voc que crie em Montes Clan um espao aberto, permanente, para todo menino brincar de imperador do Divino.

Obrigado, Oscar. Meu abrao
Darcy Ribeiro
Exmo. Sr. Dr. Oscar Niemeyer


73723
Por Ucho Ribeiro - 7/12/2012 09:40:19
DESDM

Trs projetos arquitetnicos elaborados e doados a Montes Claros pelo genial Oscar Niemeyer foram absurdamente ignorados. Nenhum foi executado.

Enquanto vrias cidades do mundo lutaram por um projeto de Niemeyer, Montes Claros no levou adiante nenhum dos trs que ganhou de presente: o Museu de Histria Natural, o Centro Integrado de Educao e Formao de Professores e a Capela Ecumnica da Unimontes.

O primeiro, o projeto do Museu, foi um pedido de Simeo Ribeiro, que na ocasio era prefeito da cidade. A obra seria na forma de um caracol e contaria a histria do Arraial das Formigas, desde a fundao at os dias atuais. Os esboos e as plantas provavelmente esto nos arquivos e acervos da famlia de Simeo.

J o segundo, o do Centro de Educao, surgiu em 1992, devido a uma splica de Paulo Ribeiro ao seu tio Darcy para que fizesse gestes ao Niemeyer. A obra arquitetnica seria implantada ao lado do Parque Municipal e destinada formao e qualificao de professores. Na poca, foi orada em 2 milhes de dlares e contaria com um centro cultural e de convenes, bem como biblioteca, videoteca, multimdias, concha acstica, cinema e teatro. A secretaria de planejamento da prefeitura deve ter cpia.

Por fim, o projeto da capela no campus da Unimontes foi um presente e uma homenagem pstuma de Niemeyer a seu amigo Darcy Ribeiro, em fevereiro de 1997. A Unimontes tem/tinha tudo documentado.

Recentemente, em 2009, no comeo da administrao do atual prefeito, Niemeyer foi procurado para realizar e doar outro novo projeto para Montes Claros, mas parece que o grande arquiteto j estava cansado de tanto desdm.

Montes Claros lhe deve gratido.

Montes Claros, por sua insensatez, deveria estar de luto oficial por Niemeyer.

Que os alunos e professores de arquitetura de nossas faculdades fucem e ressuscitem estes preciosos arquivos em homenagem ao grande mestre Niemeyer.

Ser que ainda h tempo de repararmos tamanha ingratido?


73508
Por Ucho Ribeiro - 14/11/2012 11:40:28
QUITES

Manh abrasadora, irrespirvel. Umidade desrtica. Monsclaro, recortada no calor, fritava-se h dias. ramos uma populao de calangos quarando.

O povo, sem lugar, tranava pelas ruas a procura de uma sombra, de alguma brisa inexistente. Amontoava-se debaixo de rvores, marquises.

Um osis era o prdio da Receita Federal. Ar condicionado no toco. Funcionrios calados, frios no trato, entretidos nos seus servios. Os contribuintes, embora intimidados com a atmosfera tributria, se sentiam aliviados do calor naquele glido ambiente e nem se impacientavam com a morosa e arrastada fila. Ruim era retornar ao tormento das ruas.

Era poca de entrega da declarao do imposto territorial rural ITR.
Eu, meio atento aos servios, vi um velhinho dirigir-se mesa da minha colega. Pediu licena para sentar. Sentou-se. Ps o chapu no colo e disse: Moa, obrigado por me atender. Eu preciso resolver o meu Incra. T muito alto. Olha, pra senhora v! E estendeu a notificao do imposto.

A colega, competente e burocrtica, colheu o nmero da propriedade, digitou no computador, a tela se abriu e surgiram centenas de cdigos, letras e nmeros. Ela virou o monitor para a melhor viso do velhinho e explicou: Meu senhor, isso mesmo, o VTN da sua propriedade rural elevado, consequentemente a alquota alcanou um patamar superior. A tributao est correta. E calangou a cabea como se o atendimento houvesse terminado, j espera do contribuinte seguinte.

O senhor, coitado, sem entender a lngua daquela mulher, repetiu: Dona, eu quero baixar o meu Incra, pra eu poder pagar.
A funcionria respirou fundo, reposicionou-se na cadeira, pegou sua caneta, apontou para a tela do computador e remoeu pausado: Meu senhor, veja bem, olha aqui, a sua terra no-tributvel diminuta, no h reserva legal, muito menos rea de preservao permanente averbadas. Falta a protocolizao do ADA. A rea tributvel, a alquota e o tributo esto corretos. Ou o senhor paga ou apresenta impugnao nos termos do Decreto 70.235.
O velhote tentou de novo: Minha senhora, s o Incra. O do meu vizinho, t baratinho, d pra pagar; j o meu... nem vendendo a criao toda.

Antes que a minha colega voltasse carga, a interrompi: Pode deixar, eu o atendo.
O senhor levantou-se, agradeceu meneando a cabea e dirigiu-se a minha mesa. Ajeitou no colo o chapu amarfanhado, crculo de suor na copa, e repetiu: meu Incra, moo! T alto!
Eu, ento, falei: Pera, vou dar uma olhada. Entrei no sistema, digitei o seu Nirf - nmero da sua propriedade rural - e vagarosamente fui fuxicando os detalhes da sua declarao de ITR. Realmente, tudo se apresentava correto e o imposto era aquele mesmo, conforme a minha colega havia lhe informado. Descompromissadamente, perguntei: qual a rea da sua fazenda?
Surpreso, o velhinho respondeu: No fazenda no, seu moo, uma gleba de 1 alqueire.
Estranho, nos arquivos da Receita a propriedade tinha 484 hectares. Alguma coisa estava errada.
Bingo! Matei a charada. Um alqueire corresponde a 4,84 hectares. A vrgula havia sido omitida no preenchimento da declarao. Ao invs de lanar 4,84 hectares, foram declarados 484 hectares. E como toda a rea era tributvel, o valor do ITR tornara-se elevado. Resolvido o problema. Erro de fato, simples retificao.

Passados alguns dias, finalzinho do ms, corre-corre doido, filas imensas, colegas de frias, fui convocado para o planto fiscal vespertino, onde somos consultados, questionados, espremidos, para dar conta e explicar mincias da copiosa legislao tributria.

Cheguei cedo, pois sabia que a tarde seria longa e cansativa.
Comeou a correria, atende um, atende outro, mais outro e os assuntos se multiplicavam, os mais diversos. O que eu no sabia, pedia um tempo, pesquisava, respondia. Quando no encontrava na legislao nem no Google, solicitava o telefone do contribuinte para explicar-lhe mais tarde. Ia me safando daquele tisuname de perguntas com explicaes satisfatrias.

Sempre que levantava a cabea, na esperana de ver a fila diminuda, enxergava um senhor no fundo da sala. Quieto, calmo, sem pressa. Parecia que estava aguardando algum. Percebi que todos passavam na sua frente e ele, impassvel, com o chapu no colo, cedia sua vez, com a aparente tranquilidade daqueles que vivem mansamente.

No cabo do dia, fila findada, encerrado o expediente, dirigi-me ao senhor: Posso ajud-lo?
Ele, calmamente, levantou-se, olhou-me e sorriu econmico: Bom moo, o senhor j ajudou! Dias atrs, resolveu o meu problema do Incra.

No precisava esperar tanto para falar comigo.

Moo, o senhor muito ocupado. Eu no queria atrapalhar o seu servio e nossa conversa tinha que ser reservada. Agora t na hora deu ajudar o senhor. C no tem raiva de algum, no? Algum fidumagua j desrespeitou o senhor, sua senhora ou algum docs?

Sem entender, argu: Por que o senhor est perguntando isso?
Porque eu tenho um menino de criao, muito obediente, e se precisar ele fura o peste. Mas se o senhor no gostar de lambana, de sangue, o rapaz sabe mexer com fogo tambm, e ele apaga rapidim o excomungado. Sem rastro. Fica tudo entre ns mesmo. Servio limpo.

Atemorizado, eu disse: No, que isso, pelo amor de Deus. Eu no tenho nenhuma desavena no, esquece isso.

O velhinho voltou a sorrir com um sorriso mido e arrematou: ento tamos quites, n? Olhou no fundo dos meus olhos, baixou ligeiramente a cabea, homologando nossa conversa, virou-se, e saiu em passo manso, desobrigado.


73373
Por Ucho Ribeiro - 30/10/2012 20:49:34
Eleies 2012

O burburinho se foi, ufa!
Parecia que nunca mais teramos paz. Muito barulho, especulaes, acusaes e calnias.
A Eleio 2012 ficar registrada como a eleio da mentira, do descrdito nas pesquisas. Estas, se no foram venais, foram extremamente incompetentes, pois erraram grande e repetidamente.
Toro para que a futura Lei Eleitoral proba a divulgao de pesquisas. Quando srias e honestas, so imprescindveis no monitoramento interno de uma campanha, mas, quando inidneas e subornadas, divulgadas revelia, configuram crime eleitoral, pois confundem a populao e alteram o resultado do pleito. Foi o que aconteceu aqui em Montes Claros.
Se as pesquisas publicadas no primeiro turno fossem verdadeiras, a dupla candidata no segundo turno certamente seria outra. Humberto Souto, por exemplo, que certa pesquisa dizia ter 9%, obteve 23,97% dos votos. Por pouco no foi para o 2 turno. Imaginem quantos votos deixou de levar devido s pesquisas que o colocaram como o menos votado, sem possibilidades de ir para a nova etapa da eleio... Pergunto: os institutos de pesquisas sero responsabilizados ou respondero pelo erro ou pela farsa?
Em julho, no incio do preo, os azares eram Ruy Muniz e Paulo Guedes. A barbada era Jairo Atade. Paulo Guedes, a princpio, era um franco atirador, nada tinha a perder. Conseguiu, com a sua candidatura, a oportunidade de colocar os ps e o corpo dentro da maior cidade do Norte de Minas e, mais, divulgou sua imagem maciamente durante quarenta ou mais dias para 2 milhes de eleitores no norte de Minas - pblico telespectador da TV Grande Minas. Ao final, foi extremamente bem sucedido, tinha 1% dos votos no comeo do pleito e terminou com 43,85%, totalizando 82.478 votos. Um xito jamais imaginado, nem por ele, nem por seus assessores, e muito menos pelos analistas polticos. Hoje, consolidou-se como uma das maiores lideranas do PT mineiro. Na cpula da sua campanha faltou a alma de um montesclarense (sem hfen). No seu discurso faltou a fala para o no eleitor do PT e para os eleitores de Humberto e Jairo. Inocentemente, repetiu no 2 turno, em tempos de julgamento do mensalo, a ladainha do primeiro: Dilma e Lula, Lula e Dilma.
Ruy no foi aceito como vice de Jairo Atade e nem de Athos Avelino. Encurralado, mas determinado, saiu corajosamente candidato por um partido nanico, sem tempo de televiso. Ao aliar-se ao PMDB do prefeito conseguiu, duras penas, meia dzia de salvadores minutos para os seus programas no rdio e na televiso, o bem mais precioso numa eleio. Tal aliana, entretanto, o fez carregar um pacote completo: alm do tempo de televiso, levou a tarja de candidato da situao, a rejeio do prefeito, o desgaste da administrao e a situao falimentar da prefeitura. Ah,ia me esquecendo de Z Vicente e sua gente!
Ruy, escorregadio, hbil e gil, esquivou-se do desgaste do prefeito, mas no do seu exrcito caninamente fiel. Com o seu carisma e talvez com a promessa de garantir o emprego de todos, cativou e mobilizou os milhares de contratados para sua campanha. O futuro nos dir a que preo. As reparties estiveram vazias, os funcionrios, mesmo com os seus salrios atrasados, foram para as ruas defender ardorosamente o leite de seus filhos para os prximos quatro anos. Em contrapartida, a militncia vermelha de outras cidades ocupava a assustada Montes Claros.
Ruy, manso, de guarda baixa, aguentou a pancadaria do PT e s prometeu e se comprometeu a transformar nossa Moczinha no paraso terrestre. Imaginem o cu que ser a nossa cidade toda asfaltada, com a sade, a educao e a segurana nota 10. Haver de chover milagres para inundar de verbas o sofrido e pobre cofre da prefeitura.
De qualquer forma, Ruy Muniz foi um visionrio e obstinado candidato, demonstrou um enorme talento para tourear tantas adversidades e agressividades.
O outro, no menos vitorioso, foi Tadeu Leite. Com a sade fragilizada, cansado, a prefeitura em frangalhos, sem crdito e invadida pela polcia, foi trabalhando pelas bordas, calado, com seu exrcito cativo de donas marias e seus joss, deu uma aula de como ter e transferir votos. No jogo poltico, foi brilhante, garantiu sobrevivncia para Tadeuzinho e a sua blindagem por Ruy Muniz.
Que todos, sem ressentimentos e em favor da nossa Montes Claros, acatem a voz das urnas!


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Por Ucho Ribeiro - 3/9/2012 11:14:35
Qual ser o destino do seu voto?

No dia 7 de outubro haver eleio. Iremos s urnas, mas a maioria no sabe em quem vai votar e muito menos quem ir eleger para vereador. Vai votar em sicrano e eleger beltrano.
Tenho notado uma grande desinformao acerca do sistema eleitoral, em especial no que se refere ao sistema proporcional, utilizado nas eleies para vereador.
No Brasil, existem dois sistemas eleitorais: o majoritrio, aplicado s eleies para os cargos de presidente da repblica, governador de estado e prefeitos; e o sistema proporcional, utilizado nas eleies para os cargos de deputado federal, deputado estadual e vereador.
Nas eleies municipais, em relao ao sistema majoritrio, poucas dvidas persistem para o eleitor: ganha a eleio o candidato a prefeito mais votado.
Nos municpios com mais de duzentos mil eleitores, como em Montes Claros, possvel a ocorrncia de segundo turno entre os dois candidatos mais votados, caso nenhum candidato alcance, no primeiro turno, votao superior soma dos votos dados a todos os seus adversrios, excetuados aqueles brancos, nulos e as abstenes.
Entretanto, os maiores absurdos ocorrem nas chamadas eleies proporcionais. Nem sempre o candidato a vereador mais votado eleito e, no raro, um candidato a vereador pouco votado conquista a vaga parlamentar.
Esse sistema proporcional ardiloso, confuso, e a maioria das pessoas desconhece porque ele nunca foi devidamente explicado nos meios de comunicao, e nem mesmo na publicidade institucional do TSE.
Tal desconhecimento nocivo democracia porque ele propicia s pessoas votarem contrariamente a seus prprios interesses por no saberem qual ser o destino do seu voto.
O sistema proporcional no trata os candidatos como indivduos, mas como representantes de um grupo poltico. As vagas so conferidas s coligaes ou aos partidos mais votados e no aos candidatos.
Para melhor entender o funcionamento do sistema eleitoral proporcional, vamos analisar a situao em nossa cidade.
No municpio de Montes Claros existem por volta de 246.000 eleitores. Mas, no dia 7 de outubro, devido tradicional absteno, apenas 200.000 pessoas devem comparecer s urnas, sendo que destas, aproximadamente 16 mil votaro branco ou anularo seu voto, totalizando, assim, em torno de 184.000 votos vlidos. Como em Montes Claros estaro em disputa 23 vagas para a cmara de vereadores, quem sero os eleitos? Os eleitos sero definidos com base no coeficiente eleitoral que calculado a partir da diviso do nmero de votos vlidos, 184.000, pelo nmero de vagas em disputa (23 vagas). Assim, o coeficiente eleitoral estimado dever ser de aproximadamente 8.000 votos.
Desta forma, cada partido ou coligao, ao obter o coeficiente de 8.000 votos para vereador, eleger um candidato.
Alm disso, pela lei eleitoral, somente iro participar da distribuio das vagas disponveis os partidos que atingirem pelo menos 1/23 avos dos votos vlidos, ou seja, os 8.000 votos previstos. Os partidos ou coligaes que no alcanarem este patamar sero excludos, mesmo que alguns de seus candidatos obtenham, individualmente, uma votao expressiva.
Apenas depois que for apurado o nmero de votos de cada partido ou coligao sero determinados os eleitos entre os candidatos de cada bloco. Somente nessa hora que entra em cena a votao de cada candidato, pois as vagas de cada bloco partidrio sero preenchidas pelos candidatos mais votados dentro do seu partido ou da sua coligao.
Como as campanhas so personalistas e a maioria das pessoas vota em candidatos, cria-se a iluso de que o voto no dado para o partido, e sim para a pessoa. Votar em um vereador especfico significa votar no seu partido ou coligao, manifestando uma preferncia pelo candidato escolhido.
Lembre-se, ao votar num vereador, voc primeiro estar votando num partido ou coligao, e depois apontar qual candidato deseja. Na verdade, os dois primeiros nmeros do candidato ao serem digitados define o partido e a digitao dos trs nmeros seguintes sugerem apenas o seu desejo em eleger aquele vereador.
Por isso, antes de escolher o candidato, preciso saber se ele faz parte de alguma coligao e conhecer quais so os candidatos mais fortes dentro do bloco partidrio, os cabeas de chave, pois certamente estes sero os candidatos eleitos com o seu voto.
Os donos dos partidos, os sagazes polticos profissionais, ao formarem as suas chapas e coligaes tm como foco a perpetuao no poder e a eleio dos seus mais prximos e fiis correligionrios. Eles raramente aceitam a filiao de candidatos com perspectivas de votos superiores aos candidatos do seu grupo poltico.
Assim, ao votar no candidato que desperta sua simpatia, voc no pode esquecer que, dentro do sistema proporcional, o seu voto sempre ir para o partido e provavelmente contribuir para eleio de um velha raposa poltica, a no ser que esse seu candidato tenha verdadeiras chances de estar entre os mais votados do partido.
O pior votar convicto em um candidato a vereador, por ser ele honesto, trabalhador, incorruptvel e seu voto ser somado no balaio de uma legenda e coligao que ir eleger um desonesto profissional da poltica, um ficha suja.
Ou seja, o seu voto bem intencionado servir para formar o quociente de um partido que tem como provveis eleitos polticos corruptos.
Voc vota no melhor das suas intenes, mas o seu voto contribuir para eleger um tradicional malfeitor da coisa pblica.
Fique atento ao votar, veja se o seu candidato tem chances, pois seno o seu voto ser contado para eleger justamente quem voc quer ver longe da poltica.
Abra o olho, no dia 07 de outubro voc pode atirar no que viu e acertar no que no viu.


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Por Ucho Ribeiro - 7/5/2012 17:10:42
Dia da Caa

Sbado, noitinha, eu sa de casa para ir a um casamento. Meio sem vontade, arrastado pela obrigao social. Ao me deslocar para a igreja, j atrasado, parei mal estacionado na porta de um bar para comprar uma garrafinha de gua mineral. Buteco lotado, mesas completas e o balco cheio de homens sozinhos, desamparados, a mirar o fundo do copo.
Cheguei desviando, desculpando-me, e jeitosamente passei quase por cima de um fregus que bebia emborcado no balco. Chamei o barman. Ocupado, o atendente no me deu ateno. Insisti, falando mais alto: Ei, chefe, por favor, me atende aqui! Nisso, o homem do balco, de costas para mim, virou-se e disse: Que qui isso rapaz?
Eu, com jeito, procurando ser delicado, disse: Desculpe, companheiro, eu s quero comprar uma gua mineral! A, o emburrado, com a cara amarrotada e voz trpega, grunhiu:C sabe com quem que c t falando?
Pronto. Que pergunta! Eu, com com pressa, atrasado, impaciente, tendo que responder o irrespondvel. Ele voltou carga, com a voz ainda mais grave: C sabe com quem c t falando? Sem saco, retado, puto, vendo meu sbado ir pras cucuias, acirrei a cabea e retruquei: No, com quem? Ele deu uma pausa, olhou dentro dos meus olhos, e desembuchou com a cara desabada: Com o maior p de chinelo de Montes Claros!
Fiquei pasmo, mudo. Ele, impotente, lacrimoso, reprisou: Com o maior fudido desta cidade.
Bambeei as pernas, amoleci, passei o brao pelos seus ombros e convoquei-o: , meu irmo, vamos sentar ali e tomar uma?


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Por Ucho Ribeiro - 23/4/2012 10:42:47
Plico

Diabo, o Cujo, a Besta, Demo, Satans, Capeta, o Cabrob, Capiroto, Rincha-Me, o Muito-Beios, o Rasga-em-Baixo, Faca-fria, o Fancho-Bode, o Co, o Azinhavre, Aquele, Belzebu, o Arrenegado, o Bode-Preto, o Tinhoso, o Sujo, o Que-Diga, o Que-Era, O Que-. Desde menino, estes eram os personagens que povoavam e marionetavam a cabea de Plico.
Medo igual tinha do inferno, local de ofcio dos Belzebus. Seu penso, seus sonhos eram um tumultuado cenrio de trevas. Mesmo nos cochilos de dia sobressaltava-se com pesadelos demonacos. Devaneios. Via-se atirado em abismticas grotas, profundssimas, amarrado, peado, surrado, na fila do inexorvel caldeiro fumegante. Imaginava-se em putrefatos lamaais, em desespero, aos gritos, em contnuas sovas, numa agonia de afogado. Tudo sob os efeitos sonoros dos guinchos, rugidos, mugidos e gargalhadas do Coisa-Ruim.
Plico via o demo a 3 por 2. Dia sim, outro tambm. Segundo Patrcia, a terapeuta reichiniana, a causa psicognica fora o seu parto a frceps, quando ficara horas entalado, gemido, cagado e esprimido. Da o seu temor a claridades estalantes e o seu pavor dequalquer coisa que o oprimisse. Afinal, fora rdua e demorada a travessia da escura e protetora toca materna para o barulhento e fosforescente mundo exterior. Talvez da o motivo de ele repudiar mdicos, enfermeiros e hospitais.
Desde garoto, a capetada j o atazanava. Nunca esqueceu do frio assobio da rgua da sua professora a zunir ao p de seus ouvidos e o sonoro relincho da Besta: "Presta ateno, peste!". Pior era o professor de portugus, cara e culos de Jnio Quadros, a explicar "este, esse, isto, isso...". Aquele s podia ser pactuante, um pactrio do Maligno.
E aquele interrogador, inquisidor, travestido de padre, a fuxicar, a xeretar sua vida: Onde foi? Como? Com quem? Sozinho? Acompanhado? Foi bom? Cruz credo!... V bisbilhotar assim l nos quintos do inferno!
Mas o pior mesmo era o fiduma daquele prtico metido a dentista que, com certeza, era o capeta em figura de gente a judiar dos meninos. Recorda que era arrastado aos prantos para aquela sala de tortura. Naqueles tempos, usava-se uma mquina tosca, a pedal, com brocas que giravam movidas por correias. Utilizavam-se at tiras de couro para prender a garotada nas cadeiras. Plico tinha nuseas ao lembrar daquela sala desbotada, descascada e daquele mastodonte sobre ele debruado, com os olhos vidrados. A pouca anestesia vinha de um galozinho que exalava um anestsico metido a besta, com almscar de ter. A cada aplicao do gs no paciente, o Coisa-M tomava uma prise maior e ficava de porre com a fala arrastada: "Paare de isstrebuuuchar, meniiino, ainda tenho unss vinnte para tratarr hooje". Ao arrancar um dente com o botico, a baba chegava a escorrer do canto da sua boca.
Quando rapazinho, seu pai, percebendo que Plico no gostava de cabresto nem de arreio e muito menos de escola, o colocou como contnuo num banco. Foi o aperto da arruela. Plico se sentiu arrochado, atarraxado. Alm da forca da gravata, tinha sapatos a engraxar, uniforme a engomar, cabelo a cortar, camisa para dentro, horrios e mais horrios, apitos e sirenes, memorandos e regimentos. Era o cu-da-me joana. Ave Maria! Quem podia aguentar aquele quartel?
De quartel, bastava o inferno que fora o Tiro de Guerra daquele capito, ou melhor, Capeto-mor, que o torturava desde s 5 da manh, com marchas, contra-marchas, abdominais, flexes ... um-dois, trs-quatro, quatro-trs, dois-um... direita-esquerda, esquerda-direita... farda de lona verde, bate-bute acochado, o diabo a quatro, tudo na falsa conta da me-ptria. Dali, j havia escapulido, tornara-se desertor convicto. Nunca mais estaria sob a rdea de qualquer regulamento.
Nem de inverno Plico gostava, s pela horrvel sonoridade do nome.
Na fuga dos diversos infernos da sua vida, uns existentes, outros imaginados, Plico foi aprendendo a evadir-se das dificuldades e ofcios. Era-lhe impossvel estudar sob a tutela daquela legio de satanases e um tormento maior trabalhar com todos aqueles patres e chefes impertinentes, pontuais e caretas. Urgh! Raios que os partam!
Plico passou a ter medo de ter a coragem de achar que o Demo no existia. E se ele realmente tomasse conta de tudo? Ou j tinha tomado? Sonhava que fosse decretado, em lei, no papel, sacramentado e vaticanizado: "Que no tem Diabo nenhum. No existe o Demo. Ponto final". Pronto, acabou! Xispa, seu Satano!
Em desespero, no breu, j havia at desafiado o Das Trevas: chamara por ele, esperou por ele, berrou: "Vem Bode Velho, seu Urucubaca de Trem Ruim. Seu Temba, Seu Dro, Diabim de meia tigela. Seu fidumagua! Coorno!" Esperou, espreitou mais um pouco, suntou, e nada. Gritou de novo: "Cad ce, seu covarde, Cachorro Lazarento, Tendeiro, Morcego, seu Encardido? Mas o bicho no apareceu. Passada a bravura, a estabanagem, amofinou e rezou o Credo, se borrando de medo.
Para esquecer tantos demnios, frouxar, relaxar a vida, s mesmo caindo nos gors. Quando enchia a lata, o povoado mundo dos capetas desaparecia. Tudo ficava mais gozado, mais desapertado, mais relaxado, sem regras. Duro era parar de beber. De saideira em saideira passava a noite e muitas vezes o dia num porre s. Terminava sempre escornado na sarjeta, na velha e agoniosa ressaca.
Filme queimado, de cabo a rabo, Plico foi fazenda de um amigo dar uma descansada, uma repensada na vida, fugir daquele inferno que era a cidade grande. Na roa, tudo ia bem, ningum enchia o saco e o gole estava controlado. At que, numa noite de lua, entornou uma cachaa fenomenal. Bebeu a noite toda, pegou um pau federal. Xingou o D, o Debo, o Demo e o Demnio. No clarear, truviscado, saiu tropeando, oitopernando, catando apoio, urinado nas calas, com soluos e vmitos. Claudicante, seguiu uma cerca, segurando nos arames, se apoiando nos postes, se arranhando, se rasgando, balangandano, continuando. Foi pareado cerca at encontrar uma outra, l no meio da manga, onde tinha um tanque para dar de beber a uma vacada erada, escura, chifruda, guzer. Parou, aprumou-se na muretinha baixa do bebedouro de cimento, tentou beber a gua que saa de uma boiazinha no canto, mas no dava conta, pois tinha que se curvar demais. Decidiu, ento, entrar no bebedouro, porque assim, de joelhos dentro dgua, dava para beber no esguichinho da bia. S que, no pau que estava, Plico decidiu deitar no bebedouro, de barriga para cima, com a cabea escorada na paredinha e refrescar - precisava melhorar do porrete. Era cedo, a gua estava friinha, serenada, boa demais!
As horas foram passando, o dia esquentando, o meio-dia chegando, a gua do bebedouro foi mornando, quase fervendo, e Plico comeou a sonhar que estava no meio de uma caldeirada lucifrica. Delirava, sacudia-se, remexia-se naquela panelada fumegante, mas no acordava. Era mais um pesadelo bruto, daqueles. De tanto espernear acabou despertando e se viu cercado por um mundaru de beios, ventas e chifres, todos imensos, pretos, embocados no caldeiro efervescente. Pronto, foi o suficiente, surtou mesmo, e de joelhos e dedos em cruz danou a gritar; "X Satans, sai Belzebu, afaste-se Lcifer, arreda Trem Ruim, some Chifrudo! Saltou do tanque, disparou no meio das vacas e desapareceu mato a dentro. Tiveram que juntar uns vaqueiros para campear o pobre do Plico e, ao encontr-lo, perceberam que o delrio no tinha abrandado.
A soluo foi lev-lo cidade, procurar um mdico amigo e intern-lo no hospital, para uma sonfera e apaziguada desintoxicao. Como o paciente ainda estava agitado, o Dr. Ruy prescreveu um sedativo leve, um soro glicosado e recomendou-lhe repouso. Plico ficou, ento, incomunicvel num apartamento do hospital, deitado, ligado a aparelhos, com mangueiras e sondas, que em seus pesadelos e delrios eram as peias do Demo. Abandonado ali, sozinho, com uma ressaca transatlntica, sentiu-se nas trevas. Aquele mal estar, aquelas cordas apertando, a boca seca, o calor supitando, a vontade louca de fumar, o desesperaram e o fizeram levantar da cama na tentativa de fugir do inferno. Mas foi detido pela mangueira do soro ligada a seu brao e pela porta trancada do quarto. Tonto, zepra, meio grogue, deparou com o quadro de aviso afixado na porta. Ao ler o escrito deu um grito de pavor e disparou: - Puta quiu pariu, eu t fudido mesmo! T no "inferno" e aqui ainda tem regulamento!
Era o Regulamento Interno" do hospital.


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Por Ucho Ribeiro - 21/3/2012 10:20:42
TERESINA

No incio da dcada de oitenta fui convidado por Haroldo Tourinho Filho para trabalhar em Braslia, no Ministrio da Educao. A Merenda Escolar passava por uma enorme mudana. O novo presidente do rgo, Dr. Teixeira, entusiasmado, queria abolir os alimentos industrializados, as misturas lcteas achocolatadas, ou melhor, decidiu substitu-los por arroz, feijo, verduras e carne. Resolveu dar uma refeio decente, de gente, s crianas.
Nos meses vindouros as escolas passariam a receber, via Cobal, os alimentos propostos e as cantineiras teriam que preparar pefinhos substanciosos meninada.
Para explicar aos secretrios estaduais de educao as radicais alteraes que estavam por vir na merenda, minha chefe La Cutz Galdenzi e eu fomos despachados para o Nordeste. Estvamos convictos e alinhados na certeza daquelas transformaes. A idia era dar na escola a comida que as crianas no tinham em casa.
Nosso primeiro pouso foi em Teresina, no Piau. Ao descermos do avio, achei que o mundo estava derretendo. Mesmo acostumado com o calor de Monsclaro, aquilo era insuportvel, um forno! Cheguei a pensar que a quentura que estvamos sentindo era devido proximidade da turbina do avio. No era possvel aquele inferno. O horizonte no final da pista tremia como nos desertos.
Tirei logo o palet e afrouxei a gravata. Vi a colega La sacolejando a saia para enxotar o calor que subia do asfalto. Suando, caminhamos apressados em direo sala de desembarque do aeroporto em busca de um ar condicionado.
No baforento tumulto de pegar as malas, no percebemos que o sistema de som do aeroporto repetia: A Senhora Galdenzi e o Senhor Ribeiro esto sendo aguardados na sala Vip.
Estranhamos aquele convite, afinal no ramos nenhuma autoridade. Mas no Nordeste as coisas so diferentes: funcionrios oriundos da capital da repblica ou esto trazendo verbas ou esto fiscalizando a aplicao delas, motivos pelos quais devem ser bem tratados e paparicados.
Para nos adular e ciceronear, apresentou-se um assessor do Secretrio de Educao. Uma verdadeira figura: cabelo ao estilo de Z Bonitinho, palet listrado, gravata curta e larga, amarelo furta-cor. Chegou todo splish splash: Heloo, boy! Heloo, girl! Foi distribuindo o seu cartozinho e proclamando se chamar Braulino, o Teresinense da Gota Serena, e no parou mais de debulhar os maiores elogios ao Secretrio e suas obras. Chegou at a declamar versos bajulativos. Pela voz impostada, trovejada, rouca, e pelos louvores ao patro, entendi que ele tinha um programa no rdio e um bico na secretaria de educao. O soldo que recebia era para babar o ovo do chefe no trabalho e fora dele.
Como chegamos cedo para o encontro, Braulino nos sugeriu dar uma voltinha por Teresina e tomarmos uma fresca na beira do rio. Num fusquinha todo branco, furreco, fomos passear. O calado motorista arranhava as marchas, enquanto o Braulino, curvado para trs, arranhava o portugus, com todos os seus menas, para elogiar as maravilhas da sua cidade.
Ao passarmos pelo bairro Jockey Club, ele foi logo dizendo: Aqui moram os empresrios e os industriais do Piau.
A, eu perguntei: Empresrios e industriais de qu?
Ele, de pronto, retrucou: Ora, de empresas e indstrias!
Quase dei uma gargalhada, mas segurei. La, por sua vez, fez que tossiu, fingiu ter engasgado com alguma coisa. Nos olhamos e vimos que ia ser divertido. Demos a maior corda ao radialista da gota serena.
Ele nos contou todas as maravilhas de Teresina, falou do Rio Poty, do Parnaba, das suas fantsticas pontes e das exclusividades da cidade. Tudo o maior e o melhor do Brasil. Era o Juca Prates de l.
Como tnhamos ainda um tempinho, ele nos levou a uma movimentada e moderna sorveteria com produtos dos mais variados sabores.
A La Galdenzi, gacha, judia e passageira de primeira viagem ao Nordeste, no conhecia quase nenhuma daquelas infinitas frutas nordestinas.
Ao perguntarmos o que que tinha, o balconista disparou um rosrio destramelado de nomes num sotaque arretado: Mangaba,Baru,Cagaita, Araticum, Gabiroba,Bacuri, Cupuau,Jatob, Ara,Jenipapo, Umbu,Sapoti, Caju,Macaba,Manga, Pitanga, Murici, Pinha,Maracuj, Aa...
A, eu falei pra, pra, pra...j t bom, me d um de Mangaba.
La, por sua vez, naquele universo desconhecido de sabores, aceitou a sugesto do atendente. Encantada com o sabor sugerido, com o perfume e o paladar daquela fruta, mostrou-nos a delcia que estava experimentando e perguntou: O que mesmo?
A, o diligente assessor da gota serena respondeu orgulhoso e pausadamente: Pi-co-l.


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Por Ucho Ribeiro - 8/12/2011 12:12:20
Ao tomar conhecimento da Lei de Acesso a Informaes Pblicas, Lei n 12.527, sancionada pela presidente Dilma Rousseff, no ltimo dia 18 de novembro, entrei em contato com o Arquivo Nacional do Ministrio da Justia, a fim de saber quais eram as informaes que os rgos de inteligncia (SNI, Polcia Federal, Dops) tinham do meu pai, Mrio Ribeiro da Silveira. Afinal, ele havia sido preso na ditadura e teve os direitos polticos suspensos, nos termos do AI-5, em 1969.
Para minha admirao, quatro dias aps a minha consulta, a Coordenadora-Geral do Arquivo Nacional no Distrito Federal enviou-me correspondncia com os resumos dos documentos existentes no Acervo do SNI, nos quais meu pai citado. Estou atualmente a selecionar o material para requerer as cpias dos dossis existentes nos conjuntos documentais do regime militar que fazem referncia a Mario Ribeiro da Silveira.
Surpresa maior foi receber um telefonema do nosso alcaide, informando ter tido acesso a arquivos do SNI, outrora confidenciais, que registravam as atividades dos membros do Comit Brasileiro pela Anistia/Montes Claros/MG. Relatou-me que nos documentos h referncias a vrios montesclarences, inclusive a Maro. Gentilmente encaminhou minha famlia cpia dos registros que torno pblico no site www.monteclaros.com




68509
Por Ucho Ribeiro - 15/8/2011 09:35:22
ASTCIA

Fatos recentes revelaram o surgimento de uma nova aliana poltica em Montes Claros. O prefeito e o deputado Arlen Santiago evidenciaram que fizeram um acordo poltico visando a eleio municipal de 2012. Afinal, secretarias e altos cargos foram repassados e ocupados pelos partidrios do deputado petebista.
Uma jogada astuciosa no tabuleiro eleitoral. O prefeito saiu das cordas, ou como dizia antigamente: saiu do cor. Tudo indicava que Tadeu Leite tinha todo o desprezo do governador e caminhava para ser o adversrio visceral do Palcio da Liberdade na prxima eleio. Agora, Tadeu, com a aliana com o deputado, ao qual cedeu os anis para no perder os dedos, pode ter o empresrio Paulo Csar Santiago como vice-prefeito.
Dobradinha que coloca o governador numa situao difcil e delicada: como apoiar a candidatura de Jairo Athayde, de Gil Pereira ou a de qualquer outro aliado poltico se na chapa de Tadeu est o irmo do correligionrio Arlen Santiago, o deputado mais votado na regio, com prestgio e trnsito no Palcio?
E mais, no ser sagacidade poltica do alcaide atiar os ferrenhos adversrios Jairo e Arlen a digladiarem na rinha da prxima eleio, enquanto alveja raia tranquila para sua reeleio, ou at mesmo para o seu filho Tadeuzinho?
Bem, o jogo teve incio. Outras ardilosas jogadas advindas dos mais diversos flancos ainda acontecero at o pleito eleitoral, porm o xeque-mate s saberemos nas urnas.


68241
Por Ucho Ribeiro - 18/7/2011 13:04:18
Urucubaca

Ucho Ribeiro

O sonho da famlia era ir praia, conhecer o to falado mar de gua salgada e as inquietas ondas. Ano aps ano, desde as npcias, a desejada viagem foi sempre adiada por falta de dinheiro, por compromissos e imprevistos. Mas agora no, as frias iam acontecer na praia. Uma semana de papo pro ar, na brisa do mar.
Waltim, balconista de uma loja de peas, conseguiu alugar uma casa em Alcobaa, no sul da Bahia, e dobrar o sogro para emprestar o nojo do seu Monza que vivia estacionado na garagem.
S precisavam levar a feira e as roupas de cama. O oramento estava continha, no risco, mas Suely, a mulher, inventou um punhado de frescuras de ultima hora - cabeleireiro, bronzeador, mai, toalha, sandlia, o escambau aqutico que fez a grana minguar e restar apenas o dinheirinho para a gasolina de ida e volta e olhe l. Foi um upa para Waltin defender umas caixinhas de cerveja Nova Skin, duas garrafas de pinga de Salinas, trs dzias de pequi e uma mantinha de carne de sol.
Partiram no domingo, bem cedinho, cercados de um invejoso amontoado de vizinhos e parentes. O sogro, morto de remorso por ter emprestado o Monza, no parava de repetir aos ouvidos moucos do genro: Walter, v devagar, tome cuidado com os buracos, esconda o carro da maresia, confira os pneus, no passe de 100... Suely, gloriosa no banco da frente, de leno, culos escuros, depilada e hidratada, batia a mo em despedida para os ficantes. Atrs, a alegria estampada dos filhos Walterly e Suewalter era acompanhada do sorriso da velha e eterna empregada Dalvina.
A viagem, tirando os vmitos do caula e o empacamento do toca-fita, transcorreu beleza. Chegaram no finalzinho da tarde. Deu para descer a bagagem do carro e correr para ver o mar e o seu horizonte niveladinho. Os meninos estavam para explodir de felicidade. No sabiam o que fazer com tanta novidade. O corre-corre em fuga do vai-e-vem das espumas, a cata das incontveis conchinhas, a star estrela do mar, os caranguejos andando de lado, tatus furando buraquinhos na areia molhada, a fresca brisa, o entardecer, o mergulho das gaivotas, o castelinho de areia, a jangada retornando do mar. Suely, vendo aquilo tudo, sonhado, esperado, verdadeiro, temperado com gostinho de sal, emocionou-se, mareou os olhos, segurou a mo do marido e disse Te amo, Bem!. Waltin frouxou as pernas.
Fora as queimaduras da longa exposio ao sol nos primeiros dias e a inevitvel caganeira causada pelo tempero baiano, a semana foi supimpa. Acordar tarde, andar na praia, participar da baba baiana, cervejinha, comidinha de Dalvina no capricho, cochilo tarde. Atoice maior nunca viram.
Fizeram uma amizade com um casal vizinho, de pescadores, e armaram o carteado. Toda noite, para o jogo de buraco, levavam um pedacinho de carne de sol, uma pinguinha de Salinas e eram retribudos com moquecas de caranguejo, camaro e outros frutos do mar. O cu.
Dormiam cedo, namoravam, juras de amor, teso solar. Treinavam para fazer uma menininha, a Surlene. Pena que passou rpido demais. Quando acordaram, j era sbado, dia de voltar para o batido. Suely, ento, enlaada no Waltim, props: Mzinho, podamos era sair amanh bem cedinho, antes da chegada da outra famlia que alugou a casa.
Waltin, na sua praticidade, topou: Mas ns temos que deixar tudo prontinho, casa limpa e malas arrumadas. Melhor dormir com as roupas que vamos viajar. Dalvina vai preparar o caf e nos acordar s 5 horas da manh, no escuro. Pronto, tudo foi acertado e cumprido tim-tim por tim-tim at a hora de dormir.
Pena que despertaram no domingo as oito da matina, no susto, com o sol na cara. Assustados, percorreram a casa aos gritos, procurando Dalvina. Quando entraram no quarto da empregada, ela l, na cama, esticada, com os olhos revirados. Mortinha da silva.
E agora, o que fazer? Tinham que deixar a casa, a outra famlia j estava prestes a chegar para ocup-la. No restava um tosto furado, alm do dinheiro para a gasolina e para o pequeno lanche na viagem. Se avisassem a polcia, ia ser um rolo sem fim. Teriam que chamar o IML, comunicar a famlia da morta, solicitar e esperar a autpsia, o embalsamento do corpo, assumir as despesas da funerria e da vinda do ou dos representantes da numerosa famlia de Dalvina e trasladar o caixo para Minas. Agora pense, como resolver isto tudo na Bahia, num domingo e sem um tosto? O que fazer? Era urucubaca demais.
Nisso Suely, pensou alto: gente, s se rezarmos para So Judas ressuscitar Dalvina?
Foi a deixa para Waltim arrematar o problema: Sabe duma, Dalvina vai morrer chegando em Monsclaro! Ns vamos coloc-la no porta-malas do Monza e, perto do Brejo das Almas, a gente pe ela sentadinha no banco de trs.
Os quatro, com muita dificuldade, dobraram a pobre da Dalvina e a puseram no bagageiro, calada por travesseiros.
As malas vieram nos colos e entre os meninos. Nem se despediram dos vizinhos do jogo de buraco. P na estrada, pois no sabiam que hora a velha tinha morrido e ela podia at feder.
No caminho, foram treinando o que falar com a famlia da falecida: Olha, ela acordou de manh, tomou os seus remedinhos de presso e vinha boa-boa, calada e rezando com o tero na mo. Duma hora pra outra, j chegando aqui, deu um soluo, um gemido e morreu igual a um passarinho. O jeito foi acabar de chegar.
A viagem foi s silncio, cagao e a torcida para tudo terminar logo. Parada, s em Salinas, j tudo previamente acertado: Abastecer, urinar, lanchar rapidinho e voltar para o carro. Se Deus ajudar, em duas horas estaremos em Montes Claros, salvos!
Tudo correu como combinado. Carro abastecido, xixi feito e po com linguia no bucho. No tiveram dinheiro para o refrigerante.
Ao sarem da lanchonete, cad o Monza? Olharam para um lado e para o outro, nada! Rodaram o estacionamento todo do posto e nada! Perguntaram aos frentistas: nada! Perguntaram ao borracheiro: nada!
E agora? Duros e a p, como explicar a Dalvina morta no porta-malas e o carro roubado?
Das to sonhadas frias, restaram, para o casal Waltim e Suely, um processo de ocultao de cadver, o desprezo e a descrena dos familiares de Dalvina, o eterno dio do sogro pela perda do nojo do Monza e a rapa do tacho, a baianinha Surlene.


68183
Por Ucho Ribeiro - 11/7/2011 09:36:12
MULHER DAMA

Ucho Ribeiro

Nandinho s queria saber de bola. J acordava catando as figurinhas da copa para na escola trocar e jogar bafo. No recreio, batia uma bolinha no ptio e comentava com os colegas os jogos que ouvira no rdio. Era um ufa para fazer o dever de casa, pois o sentido estava todo na pelada, no campinho de terra, ali pertinho. S caia na real quando a cozinheira Joana berrava: Nando, t na hora da janta!.
Pois no que um dia, no final da tarde, Seu Procpio, o pai, foi busc-lo no campinho? Nando estranhou aquilo, mas, obediente, o seguiu at a casa para tomar banho e vestir uma roupa. O pai mandou-o trocar a cala curta por uma comprida de homem, com corrio. No ousou perguntar ao velho aonde iam. Foi, mudo, espiando o trajeto.
O carro tomou o destino do Alto So Joo. Bem depois da linha, virou direita e depois esquerda, para o bairro Esplanada. Desembocou numa rua mal falada e Nandinho pensou, imaculado: por esses lados que tem uma casa de mui dama da zona. E no que o carro parou bem em frente famigerada casa? Foi um susto. O pior que Seu Procpio disse: aqui que minino vira homem. Desapeie!
Abriu o porto e conduziu o garoto cabisbaixo pelo brao. A entrada, um patiozinho cimentado, tinha umas mesas vazias e umas mulheres sorridentes de camisolas. O som tocava O Bom Rapaz de Wanderley Cardoso e uma moa novinha, descala, com vestidinho curto e a calcinha aparecendo, encerava o cimento vermelho. Cantava e ria: Parece que eu sabia, que hoje era o dia, de tudo terminar...
O menino achou que era para ele, mas no retribuiu o sorriso.
Nisso, a cafetina, que atendia a nica mesa ocupada, apareceu, toda gentil, cumprimentou Seu Procpio e ao pegar no queixo do menino perguntou: este o garoto, o rapaz, que falaste? Se puxar o senhor vai dar muito trabalho pras meninas!.
, este o galinho que vai entrar na rinha!, respondeu o velho.
A senhora mais idosa saiu cata das moas, batendo nas portas. Reuniu umas cinco mulheres, todas quase despidas, umas despenteadas, outras meio arrumadas, uma at segurava um aparelho gilete de raspar as pernas. Duas eram morenas, uma mais escura, menos alta, e a outra mais pra gorda. As outras trs variavam de tamanho, peso e cabelo. Tinha uma bem seca com rolinho na cabea; uma outra, bitela em tudo, das pernas ao nariz; e a quinta, meio leque-treque, escorada na parede, fumava. Atrasada, chegou mais uma, loura, de vestido escarlate, que deve ter demorado para arrumar-se.
O pai, ento, determinou: Escolhe uma a, Fernando, menos a de vermelho, esta tem dono.
Nandinho, perdido com tanta novidade e falta de experincia, ficou numa dvida danada. Nem queria aquilo! Mas como no querer na frente do Pai? Tinha que escolher, mas escolher o qu, meu Deus, como, quem? O velho olhava, levantava a sobrancelha, cobrando a escolha. O menino suava frio e no sabia o que fazer. At que disparou: Aquela! Escolheu a Bitela, pelo menos podia explicar depois o porqu: era a mais grandona.
A dona do bordel, ento, tomou a frente e disse: Menina, leva o rapaz e capricha. Tira dele o melhor, sem pressa, viu?
A moa se apresentou: Me chame de Claudete, Dete. E foi levando o Nandinho para o abatedouro. Na voz de Nelson Gonalves, a vitrola prenunciava: E tudo meia-luz. Para brindar o amor. meia-luz dos beijos. meia-luz nos dois. E tudo meia-luz. Crepsculo interior. So suaves os desejos. meia-luz do amor.
O menino entrou no quarto de meia parede, sem forro, ouvindo seu Pai contar potocas para as desescolhidas e para um amigo recm chegado. Nando, perdido e meio, tirou os sapatos e se encolheu no fundo da cama. Ficou com o queixo nos joelhos, abraando as pernas. Enquanto esperava o que Claudete iria fazer, viu as paredes cobertas de cartazes da Contigo: Jerry Adriani, Odair Jos, Evaldo Braga, Ronivon. No cho, ao lado da cama, havia uma bacia, uma jarra, papel higinico, uma toalha pendurada na cabeceira e, numa velha mesa, uma casinha que dava teto a uma imagem minscula de Nossa Senhora Aparecida. No mais, apenas uma folhinha da Casa Amaral, um gato de porcelana e um armrio caindo aos pedaos. No espelho descascado, Nando se viu acocorado, triste, acuado.
Dete olhou para ele com um sorriso malicioso e apagou a luz. Nandinho, com as mos geladas, ainda assistiu, no fusco da claridade vinda do outro cmodo, a moa tirar a roupa em ritmo burocrtico. Na pouca luz, assustou-se com a escurido que havia entre suas pernas, no imaginava que l havia tanto cabelo. Mas a sua falta de saber piorava ao ouvir a voz do pai Procpio se avantajar: No meu tempo, era assim, assado, patat patat .
Ai, a Bitelona ajoelhou-se na cama e engatinhou em sua direo, com os beres soltos, dependurados em banlangand. Sua sombra projetou na parede uma giganta, uma tarntula, uma vaca de pernas e braos. Nandinho lembrou-se de seu pintinho bico de chaleira e murchou mais ainda. Teve vontade de chorar. A moa percebeu, passou a mo na sua cabea e ajeitou o seu topete. Tentou acalm-lo, desenrosc-lo, espich-lo. Com dificuldade, conseguiu que ele deitasse na cama e foi desabotoando seus botes, primeiro os da camisa, depois os da cala. Por cima da parede, Nando ouvia gargalhadas, a voz rouca do Pai, o cheiro da fumaa do seu Beverly e o lamento de Nelson Gonalves: Negue seu amor, o seu carinho. Diga que voc j me esqueceu. Pise, machucando com jeitinho...
Despido, teve o primeiro contato com um corpo de mulher. Achou-o frio, a pele era lisa, parecia barriga de jia. No sabia no que estava pegando. Confundia barriga com bunda, joelho com cotovelo. Assustava-se quando esbarrava nos plos crespos. Nada dava certo. Dete queria ajeit-lo, desembol-lo, mas o menino no entendia, no sabia donde comear, de que lado, por cima, por baixo? Quando imaginava estar a lamber os peitos de Claudete, estava com a boca em seu cotovelo. A tragdia e os desencontros rolavam ao som da voz paterna e do vinil de Nelson Gonalves: Boneca de trapo, pedao da vida, que vive perdida no mundo a rolar. Farrapo de gente, que inconsciente peca s por prazer; vive para pecar...
Nando teve arrepios, excitaes, lampejos de ereo, mas tudo esmorecia quando caia em si, ouvia a voz do pai e percebia onde estava e o que estava fazendo. Tinha mulher demais na cama, onde tocava tinha corpo, perna, brao, p, peito, barriga, cabelo, bunda. Demorava identificar cada parte. Nandinho no conseguia juntar aquele quebra-cabea de membros e formar uma rapariga. Rodopiaram na cama algumas vezes e no conseguiram encaixar sua chocha ferramenta.
A Bitela chegou a ficar imvel umas duas vezes, na tentativa de ajud-lo, de acalm-lo, mas nada adiantava. Subiu em cima, ficou por baixo, de ladinho, de bruos, cachorrinho, mas neca. O jeito foi desistir. Dete levantou-se, vestiu-se, depois ajudou-o a se vestir, a amarrar o sapato, mas no saiu do quarto sem antes dar um beijo carinhoso em sua testa. Ao fundo, o menino ouviu Evaldo Braga no seu lamento: Sinto a cruz que carrego bastante pesada. J no existe esperana no amor que morreu...
Saram do quarto juntos, ela abraando a criana envergonhada, que olhava para o cho.
Seu Procpio, dono do pedao, abraado com a dama de vermelho, ao v-los perguntou: E a, como foi o desempenho do moleque? Deu pro gasto?
Dete, profissional de muitos carnavais, pontuou: Quem o senhor, Seu Procpio, o menino fogo no bon do guarda. Quase me mata, me chuchou todinha. Vixe Maria! Parece potro bravo. Este tem que ser amansado aos pouquinhos. S faltou relinchar!
O Velho ficou cheio, todo-todo, serviu o primeiro copo de cerveja para Nando, acertou a conta, gratificou Bitela e a cafetina generosamente e com um olhar se despediu da sua rapariga.
Voltaram em silncio para casa. Nandinho foi direto para o seu quarto, trancou a porta e s a tomou p do ocorrido. Aos poucos foi lembrando dos detalhes, dos floreios e foi revivendo tudo na palma da mo. E aquela hora que eu quebrei ela de banda? E aquele beijo demorado, molhado? Melhor foi quando eu a pus de quatro... ai, ai. Acha que mexer com Nandinho brincadeira?


68142
Por Ucho Ribeiro - 4/7/2011 09:21:54
TRGUA

O Coronel andava tranquilo, desarmado, sem desassossegos, sem acreditar que chegara enfim o tempo de paz. J estava cansado de no ter medo, de ser forte, empacar. A trgua firmada na Pscoa, continuava de p, os limites das terras demarcados, as desavenas reparadas, o vizinho at convidou ele e a patroa para o So Joo. Disse inclusive que a Casa Grande estava de portas abertas.
Queria mesmo ir a festa para no parecer desfeita e para satisfazer as netas que estavam num voV, voV de atazanar, mas o acordo ainda estava novo, lactente, e a prudncia tinha que ser administrada a pires de leite. Qualquer risco-trisco, qualquer fasca no pavio da cachaa podia assanhar a jagunada e a tudo ia pro belelu. Eram muitos anos de desavenas e desacatos, finalmente mornados. Aquela temperana precisava continuar. Tempo de recomeo.
O melhor era mandar as mil desculpas e, como presente, o que tinha de melhor para uma festa junina, o trio tringulo-sanfona-zabumba, comandado pelo seu sanfoneiro de confiana, Tio P de Bode dos Oito Baixos. Este tinha nome e sobrenome no forr, ia agradar, deixar saudades e dbito de gratido. Foi o que aconteceu, tudo correu nos trinques.
A trgua seguia direitim da porteira pra fora, mas no quintal, aquela jagunada toda, toa, ciscando terreiro, estava incomodando e muito. Era homem demais, bigode demais, rodeando e espiando. A patroa e as meninas ficavam acanhadas, embaraadas, para fazer suas necessidades, quando tinham que usar o banheiro fora da casa, muitas vezes de camisolas, sujeitas aos olhares compridos daqueles marmanjos zoiudos.
A cabrada toda sem ter o que fazer, sem ter para onde ir, sem servio para executar, afinal s havia mesmo o marasmo da paz para cumprir. J tinham limpado as orelhas dos animais, escovado os pelos, ensebado as selas, os arreios, lubrificado as carabinas, amolado as peixeiras, cosido os trapos de roupas, s no findavam os berros e as apostas do jogo interminvel do truco. Foi indo, foi indo, at que o Coronel, ou era Capito, resolveu acabar com aquele trana-trana, aquele furduno no quintal e dar uma ocupao para o bando todo, nem que fosse numa parte do dia.
De manh cedo, decidido, bateu para o comercinho e pediu socorro ao Padre Guinaldo. Contou a situao difcil que estava passando, a impossibilidade de desfazer dos homens, a inabilidade deles de mexer com roa e campear gado, o compromisso que tinha com cada um e at o receio, cruz-credo, do tempo de conflito com o vizinho voltar. O vigrio acalmou o Homem, explicou seu plano e pediu para reunir a tropa no dia seguinte de manh.
Dito e feito. De manhzinha o Padre chegou, o Coronel bateu umas palmas, deu uns gritos e a jagunada se reuniu toda, serelepe, disposta. Mandou os homi tirar os chapus em respeito, tossiu e emendou grave: pessoal, cs to muito toa, esta situao de atoice ainda vai continuar sabe l Deus quanto tempo e eu vou ter que ocupar ocs com alguma coisa. Conversei com Padre Guinaldo e resolvemos qu`ocs vo diquir leitura. Isto mesmo, di-qui-r lei-tu-ra. J arrumei caderno, lpis, giz e um quadro negro. A partir de amanh quero ocs tudo aqui, sem faltar nenhum e de caf tomado!.
frente da cabrada macha, tomou a palavra o Andalcio, de diversos servios bem prestados e sacramentados: Coron, Coron, pr que isso, pra qu nis va diquir leitura numa altura dessa da vida? Que serventia vai t essa dificulidade toda?
Foi aquele branco. Nem o Coronel nem o padre respondeu de pronto. Os jagunos comearam olhar uns pros outros naquela sem razo, naquela sem preciso, uns at levantaram os ombros sem entender, at que o Coronel tomou um gole de pensamento e arrematou: - Imagine, Andalcio, volta a guerra, eu escrevo um bilhete procs: Matar o cumpadre Pedro! Cs num sabe l e matam o cumpadre Joo... ocs tudo criminoso!


68073
Por Ucho Ribeiro - 27/6/2011 15:39:41
Serra do Bento Soares

Spix e Martius, naturistas alemes, em viagem pelo Brasil (*) a procura de espcies de nossa flora e fauna, chegaram em Formigas (antiga Montes Claros) exatamente no dia 12 de julho de 1818.
No relato, ao aproximarem do nosso povoado, vindos da regio de Itacambira, enxergaram de estampa a nossa famigerada serra, hoje chamada de Serra do Mel, do Melo e da Sapucaia. Naquela poca, era apenas Serra de Bento Soares.
Vejam a narrao: A 12 de julho, avistamos nossa frente uma parte da Serra de Bento Soares, e, ao anoitecer, chegamos ao Arraial de Formigas, situado numa vargem ao p desta serra baixa. Os habitantes deste pequeno povoado, constitudo de algumas filas de cabanas baixas, todas de barro, so, como filhos do serto, mal afamados como briges e por seu banditismo, e no pareciam possuir a bela virtude da hospitalidade dos seus vizinhos: demo-nos por felizes, ao achar abrigo sob a coberta do mercado, at que o amvel vigrio nos convidasse para a sua casa. Formigas negocia com os produtos do serto: gado e cavalos, couros crus de boi, de veados, estes ltimos curtidos grosseiramente, toicinho, porm, sobretudo salitre, extrado em grande quantidade das cavernas calcrias prximas. Estas grutas tambm eram de grande interesse para ns, porque deviam conter ossada de enormes animais desconhecidos, dos quais j muitas vezes nos haviam falado no serto.
No distrito de Formigas existem vrias cavernas de salitre: a Lapa do Rio Lagoinha, a Lapa do Mirllis no Ribeiro Pacu, da qual se extraram 4.000 arrobas de salitre; as lapas do Cedro, Buriti, Boqueiro, etc. A mais importante, porm, entre todas, pareceu-nos a Lapa Grande, porque nela foram encontradas as tais ossadas de animais primitivos.(...) Foi aqui (na Lapa Grande), sobre um dos degraus de cima, que um dos nossos guias achou, h sete anos, uma costela de seis ps de comprimento e outros restos de ossadas de um animal primitivo. Cavamos na argila fina, que reveste esta regio da caverna com uma camada de 4 a 8 polegadas, e foi grande a nossa alegria, ao acharmos, no ossos grandes, verdade, mas alguns fragmentos, que nos deram a certeza de se tratar dos restos de um Megalonix, sobretudo achamos vrtebras, metacarpos e ltimas falanges. (...) Partimos de Formigas a 17 de julho, e tomamos, em direo noroeste, o caminho de Contendas (...)
Reiterando a mensagem n 46.063, de 13/05/2009, volto a informar que o francs Auguste De Saint-Hilaire, quando em andanas pelo serto mineiro, em 1817, um ano antes da viagem da dupla de naturistas alemes, desejou que gelogos pesquisassem as cavernas desta regio a procura de ossadas de animais pr-histricos.
Atentem para o sensato pedido de Saint-Hilaire, realizado h quase duzentos anos atrs, em seu livro Viagem pelas Provncias do Rio de Janeiro e Minas Gerais (**), e para respectiva nota de rodap n 486, na qual cita a passagem dos sbios viajantes Spix e Martius pela Lapa Grande. Transcritas, in verbis:
Seria para desejar que algum gelogo visitasse com cuidado as grotas do deserto. Encontraria a provavelmente ossos fsseis, pois que me deram em Vila do Fanado um dente de mastodonte, que est atualmente no Museu de Paris, e me disseram ter sido encontrado em um terreno salitrado do serto (...)
Nota n 486 do naturista francs: Depois que esse capitulo foi redigido vi, pelo livro dos Srs. Spix e Martius, que eles realizaram o voto que eu exprimira. Os (futuros) gelogos provavelmente no lero sem interesse a descrio que esses sbios deram da caverna vizinha de Formigas que chamaram de Lapa Grande, e onde encontraram ossadas de tapires, coatis, onas e Megalonyx (***).
A, pergunto: Conterrneos meus, temos ou no temos que ir mais devagar com o andor ao analisar e aprovar a urbanizao e os empreendimentos nos nossos valiosos stios histricos e arqueolgicos e at mesmo ambientais?

(*) SPIX E MARTIUS; Viagem Pelo Brasil; Editora Itatiaia; So Paulo; Editora da Universidade de So Paulo,1981; paginas 79 e 80.
(**) SAINT- HILAIRE, Augusto de; Viagem pelas Provncias de Rio de Janeiro e Minas Gerais; Editora Vila Rica, Belo Horizonte; 2000; pgina 312.
(***) O Megalonyx, cujo nome significa " Garra gigante ", era uma preguia gigantesca que viveu h 12 mil anos atrs durante o Pleistoceno e era do tamanho de um boi.


68002
Por Ucho Ribeiro - 20/6/2011 08:21:33
Fogo Morto

Ucho Ribeiro

Seu Argemiro dos Anjos, fazendeiro, erado, famlia criada, vivia viuvo e triste. Sem a patroa, ficou macambzio, perdeu o cacoete para a vida. No tinha onde ir, acuou. No era destro para modernidades. Ficava ali na varanda da fazenda, jururu, fumando e cuspindo. O nico amigo, o vaqueiro Isidoro, como um co fiel, permanecia ao lado, preocupado. Mais no tinham o que conversar. Esgotaram o assunto h muito. Restaram olhares, gestos econmicos, monosslabos. Todos inteligveis. O levantar das sobrancelhas era entendido, traduzido num timo pelo parceiro.
Com o tempo, Isidoro atinou que a nica soluo para o amigo era uma mulher nova para sacudir aquela poeira amontoada no patro. Pensou: bode velho, capim novo. Precisava de uma moa, de um caramelo para adoar a boca do amigo. Tinha que motiv-lo a viver melhor o naco final da vida.
Por sorte, sua sobrinha, Elzinha, recm chegada de So Paulo, separada, carente de emprego, foi contratada para cozinhar e arrumar a casa da fazenda. Mulher nova, mas feita, vivida, inteira.
Nos primeiros dias, ela deu um sacolejo na casa, abriu todas as janelas, ps as roupas e os mveis para quarar, ariou as panelas, vasculhou as teias de aranha, passou vassoura em tudo. Isto na maior alegria, risonha e saltitante.
A jovialidade somada aos adulos, cafezinho quente, sorrisos e comidinha supimpa, foram animando o Seu Argemiro. Com o tempo, aquele rufa-rufa pra l e pra c foi a conta para o fazendeiro comear a ciscar o terreiro, empinar a crista, zelar em roupas, banhos e passar at perfume.
Da cidade trouxe, aos poucos, televiso, um som novo e sempre um agrado para Elzinha.
O amigo Isidoro, que soprou a brasa, agora ficava de longe, na espreita, torcendo.
No deu outra, com seis meses Elzinha virou esposa do Seu Argemiro. Festo, alegrio e uma viagem para as guas Quentes de Gois.
Argemiro tesudo, animado, nos primeiros dias at que acompanhou a salincia de Elzinha. Mas aqueles banhos quentes e o bate-bola a toda hora estavam demais. As pernas afrouxaram, a presso despencou, o jeito foi pedir arrglo: Elza, meu bem, voc me desculpe, mas eu preciso de um descanso. V s compras, pega a o dinheiro que precisar.
No retorno, Elza encontrou o Argemiro escornado, roncando pesado. Dormindo continuou at o amanhecer. Caf tomado, de volta para o quarto, Elzinha j passou a soprar o cangote do velho. Vai daqui, vai dali, olha os dois embolados de novo nos lenis. A noiva buliosa apresentou umas novidades, umas variedades. Seu Argemiro animou e entrou em cancha. No decorrer da peleja, Elzinha foi empurrando carinhosamente a cabea do marido corpo abaixo, seios... umbigo e depois mais para baixo ainda. O velho delicadamente resistia e ela firmava sua cabea, at que Seu Argemiro refugou de vez e disse envergonhado: Elzinha, meu anjo, me perdoe, eu fao qualquer coisa proc, mas o problema que meu istmogo fraquim, fraquim!
A lua de mel encerrou mais cedo, sob a desculpa da necessidade de resolver umas pendengas urgentes. Voltaram direto para a fazenda. L, talvez gemada, catuaba, ovo de codorna e a tal da novidade do viagra dessem um jeito no fogo de Elzinha. Mas que nada, o vapt vupt continuava direto e reto. O homem j estava trpego, embolando as pernas.
Seu Argemiro, para fugir do campo de batalha, passou a ficar mais no curral, nos pastos, ir para a cidade com desculpas de negcios, mas ao chegar em casa tinha que conferir.
No desespero, procurou seu mdico amigo, Dr. Maurcio, e desabafou: Compadre, compadre, eu estou num calvrio sem fim. Elzinha est me matando. Ela no se contenta com coisa alguma. O pior que se eu afastar demais, corro o risco de chifre. Ai, Meu Deus! Imagine, chifre nesta idade! Estou tomando viagra igual se come pipoca. Voc acredita, que ontem, ela me laou de manh, depois do almoo quis de novo e eu, com medo de mais uma investida, fui deitar no lusco-fusco da noite, sem bala na carabina. Veja bem o constrangimento, eu sem sono, deitado, de olhos fechados, fingindo de morto e ela a rodear a cama espreita de um vacilo para me por na rinha. Para o meu azar, um fidumagua dum mosquito posou na minha boca e ficou todo serelepe, zunindo as asinhas, ora nos meus lbios, ora na entrada do meu nariz. Zummmm. Aquele desespero todo sem eu poder fazer nada. Ave Maria! Estou numa situao de dar d. Imagine, um homem que no pode matar nem um mosquito! Me ajude, compadre! Pelo amor de Deus!
Dr. Maurcio, vendo o desespero do companheiro, mandou recado para Elzinha vir cidade consultar fazer um check up. Afinal, os parentes dela eram todos chagsicos e a maioria tinha morrido antes dos quarenta anos.
Na semana, veio Elza acompanhada do Seu Argemiro. Consulta demorada, exame de tudo quanto jeito, eletro, eco, esteira e a cara do mdico cada vez mais preocupada. Chamou a secretria, pediu para cancelar umas consultas da tarde para poder dar ateno aquele caso raro, sujeito a todos os cuidados.
Ao final alertou: Dona Elza, a senhora tem um problema hereditrio! O corao de vocs uma bombinha fraca, delicada, qualquer esforo desliga os fios e bau-bau. A senhora no pode fazer fora, agitar, carregar peso, tomar susto. Qualquer movimento brusco um perigo, pode ser fatal. Os exames esto dizendo que seu coraozinho est por um triz. At mesmo as obrigaes do casal, da mulher, devem ser relevadas, pois a senhora corre um srio risco de vida. E o senhor, Seu Argemiro, faa-me o favor de no provocar a Dona Elza. Ela tem que passar longe de sexo, porque seno ela morre. Ouviu? Mor-re! Estou receitando um remediozinho para Dona Elza tomar todos os dias, para o calor passar e ela ter uma vida mais mansa, mais sossegada.
De volta para a fazenda, foi aquele muxoxo. Quartos separados, janelas fechadas, casa largada, rdio mudo. A alegria de outrora bateu asas. Os dias passavam, Elzinha olhava com olhar pido e o marido Argemiro s alertava: Elza, Elza, lembra do doutor! para o seu bem, meu amor!
Passados mais uns dias, tarde da noite, o Argemiro escutou os passos da patroa beira do quarto. Pra l e pra c. At que ela bateu na porta. Toc! Toc! Argemiro ento, perguntou: Qu que c quer, Elzinha?
E ela: Eu quero morrer!


67937
Por Ucho Ribeiro - 13/6/2011 15:35:16
Viagem com Maro

Vambora! Vambora! T ficando de noite, gente!
Era assim, aos gritos e buzinando, que Maro, meu pai, chegava em casa, convocando a trupe toda para viajar. Podia ser para o Penturea, para a Jaba, Rio ou Uruguai. S viajava com o carro entulhado. Quando decidia fazer alguma viagem, levava todo mundo, parentes e aderentes. Nunca o vi preocupado se havia lugar, ou no, no carro para os convidados ou convocados. Sempre chegava com pressa: Vambora, Vambora! Todo mundo fazendo xixi agora, para no pararmos -toa na estrada! A, era um corre-corre danado para catar as tralhas e brucutu dentro do carro. Ele sempre perguntava mame: Maria, voc se lembrou de trazer a minha tesourinha? Para ele, sua bagagem resumia-se numa tesourinha de unha das mais vagabundas e uma mala james bond fubenta e desbotada, onde guardava sua farmcia e o dinheiro. Hoje, desconfio que minha me j deixava uma malinha mais ou menos arrumada para as incertas de Maro. Com roupa nunca se importou. Ao rever as fotografias antigas, d para v-lo usando as mesmas camisas por dcadas. Gostava mesmo era de ficar pelado, mas a uma outra estria.
Ele e o motorista iam na frente com mais um ou dois meninos e o resto se amontoava nos bancos de trs da Kombi. O resto era a filharada, amigos, aderentes, convidados e a pobre da Maria Jacy. Uns nos colos dos outros e empilhados no bagageiro, junto com as malas.
Antes de partir, no esquecia de catar todas as amostras grtis de remdios que tinha, mais as que pedia aos colegas, para medicar durante a viagem. A, dizia para o chofer: Benjamim, passa na casa de Dona Terezinha para pegarmos uma paoca e depois no mercado, para comprarmos andu, farinha e carne de sol, pois temos que adular fulano. O fulano era um dos muitos amigos que iria encontrar.
No mercado, era Dot Mauro. Ao descer do carro o povo frechava. De estalo consultava uns trs, mandava outros procur-lo no consultrio, receitava em papel de aougue, distribua remdios e pomadas, alertando tem que friccionar bastante, seno no sara. Dava palpite em tudo que via, rubricava pedacinhos de papel autorizando a meninada assistir de graa a matin em um dos cinemas que era scio, gritava Galooo quando via um atleticano e comprava tudo num exagero sem fim. Nunca o vi comprar nada unitrio, eram sempre dzias, feixes, sacos, caixas, e quase sempre arrematava: Quanto voc quer por tudo? Mame alertava-o: Mrio, onde ns vamos levar tudo isto? Ele retrucava: ooo, no carro, Jacy!
O que no cabia no porta-malas ou no cho do carro, cabia em cima da gente. Mame at hoje no consegue viajar sem colocar uma sacola, uma caixa, no colo, mesmo se o carro estiver vazio. viciadinha num embrulho.
Na viagem, o compra-compra continuava. Maro no podia ver nada beira da estrada que mandava o carro parar e da janela gritava: menino, quanto voc quer pelo feixe de galinhas? O saco de pequi t quanto? Voc vende o resto da bandeja de quebra-queixo? Se fizer por tanto eu levo tudo! Repassava o que comprava para os bancos de trs e ns, empoleirados, tnhamos que nos virar para agasalhar as compras. Dava carona para deus e o mundo. Viajvamos amontoados e tagarelando. Adorava polemizar e para tanto cobrava opinio de todos que estavam dentro do carro. Ficava instigando a gente a debater com ele. Muitas vezes defendia uma posio distinta da sua pelo simples prazer de polemizar. Tinha gosto em colocar seus galinhos na rinha, v-los argumentar. Ora apoiava uns, ora outros. Tnhamos que ter opinio sobre tudo.
Durante o exlio de Tio Darcy, amos para o Uruguai, nos anos 65 a 68. Papai, alm de levar alguns filhos e Vov Fininha, convidava um casal ou um amigo. Lembro-me de Tio Enio e Tia Marlene, de Sinval Amorim e Tita, da prima Mariazinha e Mnia de Tio Maurcio. Na volta de Montevidu, sempre trazia uns guerrilheiros camuflados no meio da numerosa famlia. Em 1966, Vov, Mariazinha, Fred, onze anos, e eu, com dez, tivemos de voltar os 3.000 km de nibus, porque na nossa Kombi vieram alguns canhotos amigos de Darcy e Brizola. Na ida, era um deus-nos-acuda, Maro carregava uma amostra de tudo que havia no mercado municipal, mais os doces, os biscoitos e as compotas de Vov Fininha. Lembro-me at de um papagaio falador, chamado Brasil, que levamos para o tio matar as saudades. Afora a gente, os convidados, os presentes e as comidas, ele ia dando carona para todo mundo. De Minas ao Uruguai, os caroneiros que entravam no carro eram sabatinados por ele: Voc trabalha, com qu, para quem, c estudou, quanto ganha, cativo ou livre, c vota em quem, o que d dinheiro aqui, como voc enrola o seu patro, voc sindicalizado? Depois que chupava todas informaes do sujeito, trocava o carona. Se o cara no gostasse de conversar, dava um jeito de terminar logo a ponga, aqui est bom para voc, no t?, colocava um outro ou uma outra no lugar e continuava a perguntao em portunhol: A senhorita s donde? Tens marido? Quantos hijos? Tomas pilulas? Trabajas o dia todo fora de su habitacion? Ac as mujeres ganham iguale a los hombres? As escolas son em tiempo integral?
Papai era a caricatura dele prprio. Espalhafatoso em pblico e introspectivo, pensativo, quando sozinho. Uma vez ele me disse: Filho, muita gente pensa que eu sou doido, fao que sou, pois posso ser do jeito que eu quiser. Eles arranjam as desculpas para mim. No preciso de ficar me justificando, cheio de dedos. Eu tenho pressa, no tenho pacincia para formalidade, hipocrisia, nhm-nhm-nhm e disse-me-disses.
Ao arrancar o carro, Mame sempre fazia a chamada: Pat? Presente! Ucho? Presente! Marquim? Presente! Mnica? Presente!... Para no se esquecer dos seus filhos pelo caminho, como aconteceu com Fred, deixado na ermo Livramento. Maro sempre reclamava: Para com esta ladainha, Jacy! Basta cont-los!
Nas paradas, Papai repetia: Lembrem-se de fazer xixi. Durante a viagem, se ficssemos apertados, tnhamos de urinar numa garrafa. O difcil era colocar a pingolinha no buraquinho com o carro sacolejando. A mira tinha de ser boa nas estradas de terra, seno respingava nos outros e era uma chiadeira s.
Numas das voltas do Uruguai, acompanhados de um simptico casal de guerrilheiros, Fred perguntou ao homem: Voc trouxe sua garrafinha? Ele olhou para sua parceira, sem entender, e ela ressabiada questionou: Que garrafinha? Fred, ento, respondeu: A de fazer xixi, porque Papai no pra no!
Bertha, minha irm, sempre enjoava e comeava a chorar, porque sabia que iria tomar injeo. Maro, com o carro em movimento, abria a maleta james bond, sacava uma ampola de Dramin, preparava a velha seringa e aplicava em Bertinha, aos esperneios. Ela era pequena e tomava a metade da dose para adulto. Papai, ento, aplicava em Marcinha o resto que sobrava na seringa. Mrcia, coitada, chorava e reclamava eu no estou enjoada, eu no precisava tomar injeo. Ele, em sua praticidade e economia, justificava: Vai desperdiar? Vai desperdiar?
Quando parvamos para almoar, ocupvamos vrias mesas. Era aquele barulho, juntava gente. Na confuso Maro distribua comida e bebida para todos que aproximavam. Recordo-me de uma vez que um menino engraxava o seu sapato, enquanto Maro almoava. Dava uma garfada para o menino, outra para ele, uma garfada para o menino, outra para ele. At que Mame ralhou: Mrio, tenha modos!. Ele de pronto argumentou: Maria, Maria, e se este menino for Jesus Cristo?


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Por Ucho Ribeiro - 5/6/2011 11:09:15
Senhor, escutai a nossa prece.

Ucho Ribeiro

Todo sbado, tnhamos que confessar os mesmos pecados. Antes da confisso, Fred, o mais velho, distribua os pecadilhos. Dizia: - Marquim, c fica com desobedeci mame e briguei com meus irmozinhos; eu, com falei coisas feias e pensei bobagens; e Ucho com magoei meus coleguinhas e fiz indecncia. A, eu chiava: - Cruz credo, de novo no, Fred, sacanagem! No vou ficar novamente com as indecncias!
O severo Padre Dudu iria perguntar novamente de dentro daquele confessionrio inquisidor: - Voc fez indecncias sozinho ou acompanhado? E eu, tremendo de medo, pequenino, borrando as calas, vendo as trevas do inferno, iria responder baixinho: - Sozinho!
Depois de um humilhante sermo, Padre Dudu nos mandava rezar uma meia dzia de Ave Marias para incinerar os pecados, que eram recitadas na rapidez de uma locuo de uma corrida de cavalo avmarichedgrasenhconvoscbendisovs...
Ns, livres daqueles pecados, zeradinhos de tudo, tnhamos de segurar a onda e a santidade at a comunho do dia seguinte. Teramos de nos manter ocupados e pios, contentar-nos com brincadeiras e leituras pudicas para no deixar que as nossas cabecinhas virassem oficina do diabo. Muito cuidado, pois existia o vicio do pensamento, que nos pegava na curva ou num descuido. Indecncias, cinco contra um e palavres... nem pensar. A apimentada revistinha Catecismo do Zfiro tinha que ficar no mais fundo da gaveta. Qualquer vacilo, aiai, no poderamos comungar na missa do dia seguinte.
Eu fazia de tudo para sair logo da igreja ao final da confisso, porque seno comeavam as vises das imagens das Santas levantando as saias e piscando os olhos, para me atentar e pecar. Sabia que tentao era coisa do demo, no podia prestar ateno naquela pouca vergonha. Se acontecesse de cometer um pecadinhozinho de nadica de nada, estava ferrado, pois no poderia comungar na missa de domingo e toda a igreja saberia que eu era um pecador. Se comungasse com pecado, a sim, a tragdia seria completa. Quando o padre colocasse a hstia na minha boca, uma cachoeira do sangue de Jesus comearia a jorrar. Vexame e vergonha maior no poderiam existir. Imagine voc todo tingido de vermelho l na frente da Igreja, podia despedir-se de todo o mundo e pegar o caminho do inferno. Se pecssemos no sbado, depois de confessar, a estratgia era acordar cedinho no domingo e comer qualquer coisa, fingindo ter esquecido do jejum. S podamos comungar em jejum. Mesmo assim era uma ttica manjada e a famlia toda sabia que algum pecadinho voc tinha cometido e estava se safando.
Na missa de domingo, o povo se juntava calado, lustroso, nos trinques, cada um vestia sua melhor roupa, a domingueira. Ao chegar perto da igreja, parvamos para limpar a poeira do calado, esfregando o rosto do sapato na perna da cala. Os pais cumprimentavam-se formalmente, srios e mudos. Os meninos se amontoavam em bolinhos para falar com excitao do faroeste em cartaz, que seria visto logo aps a missa.
Reunido o povo, sino batido, todos entravam na igreja. O sacerdote se dirigia ao altar enquanto se executava o cntico de entrada, fazia uma genuflexo, beijava o altar e iniciava a missa, de costas para todo mundo: In nomine Patri et Fli et Spiritus Sancti. E todos, em p, respondiam: Amen. Logo em seguida vinha o ato penitencial, quando o sacerdote exortava todos para arrepender dos pecados: Conifiteor Deo omnipotenti et vobis ... E todos batiam com a mo no peito ao confessar a culpa: mea culpa, mea culpa, mea maxima culpa. Era uma culpa sem fim.
Eu no entendia porque o padre celebrava a missa de costas e em latim. Jesus no falava esse idioma. Falava, com certeza, aramaico e possivelmente um pouco de hebraico, lnguas da sua regio. Depois me explicaram que a igreja se estabeleceu com sede em Roma e o latim era lngua do Imprio Romano, o que permitiu a expanso da igreja por todos os domnios romanos. Pela regra, hoje, a igreja deveria adotar o ingls. Tentaram me explicar tambm que o celebrante ficava de costas para os fiis para estar de frente para o sacrrio, para Deus. Mas, para mim, a liturgia se reduzia a um espetculo repetitivo, triste e sonolento. A toda hora recebia um belisco para sentar, um belisco para levantar, outro para ajoelhar. Boiava mais que tudo, a cabea e os sentidos estavam no tiroteio do faroeste. As coisas mais alegrezinhas que tinha na missa eram: Saudai-vos uns aos outros, o sininho que tocava duas ou quatro vezes trilim-trilim e as trs cruzinhas na fronte, na boca e no peito, quando o padre dizia: Dominus Vobiscum, e ns, Et com Spiritu tuo.
Na poca em que acabou o latim, nossa famlia j frequentava a parquia do Padre Quirino na Santa Casa. Ir missa melhorou demais. J dava para acompanhar o senta e levanta: Oremos, levanta; Irmos e Irms, senta; Senhor tem piedade de ns, abaixa a cabea; Minha culpa, minha culpa, as batidinhas com a mo no peito; Trilim-trilim, ajoelha; Jesus tomou o clice em suas mo, trilim-trilim, continua ajoelhado; Felizes os convidados ceia do Senhor, levanta; Eu no sou digno que entreis em minha morada, ajoelha. At que chegava no Ide em paz e o Senhor vos acompanhe.
Deo Gratias! Ad Finite! Agora podamos ir para o cinema. Missa de novo, s domingo que vem. Urgh!
Quando surgiu o Escutai as nossas preces, foi o mximo. Os paroquianos passaram a poder dar um pitaco naquele monlogo montono de s o padre falar, falar, dar broncas e puxar as nossas orelhas.
Mame uma vez me deu um papelzinho para eu ler na hora das oraes espontneas e eu orgulhosamente li: Pelo reestabelecimento da sade de Irm Dulce e dos enfermos da Santa Casa, rezemos ao Senhor. E todos repetiram, unssono: Senhor, escutai a nossa prece. Senti-me o mximo. Mas meu orgulho no durou muito, porque Eninho, meu primo menor, que h domingos estava bombando coragem para falar tambm na hora do Escutai a nossa prece, tomou nimo, entusiasmou se e resolveu se manifestar tambm. Ele tinha aprendido umas palavras novas e estava todo encantado com uma palavrona bonita e grande. Logo em seguida minha prece, ele, altivamente, engatilhou a dele e disparou: Para que o Padre Quirino e as Irms da Santa Casa tenham mais PERSONALIDADE, rezemos ao senhor!
E todos, querendo morrer de rir, responderam baixinho: - Senhor, escutai a nossa prece!


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Por Ucho Ribeiro - 31/5/2011 14:55:34
Sobre o bvio

Nenhuma grande novidade acontecer na prxima eleio municipal de Montes Claros.
Para que surja algo novo haveria que despontar uma liderana nova.
At o momento no surgiu ningum com carisma e liderana para conduzir um processo de renovao na poltica de Montes Claros. Tampouco h um cidado ou um grupo de cidados com um projeto poltico-social ambicioso para o porvir desta cidade.
Pelo visto, nada de novo no front.
Uma candidatura para ser construda deve seguir as determinaes e as exigncias da lei eleitoral e se pautar em alguma obviedades.
Entretanto, quase a totalidade da populao, que no se envolve com o processo eleitoral, e at mesmo os polticos novatos desconhecem o protocolo e os procedimentos essenciais participao na vida pblica. J os os polticos tarimbados, conhecem, legislam e usufruem das regras e das normatizaes eleitorais e inclusive das suas entrelinhas. Estrategicamente eles no alardeiam os ritos e os prazos exigidos pela lei eleitoral com o discreto propsito de perpetuarem no poder e de continuarem no domnio de seus partidos.
Vamos, ento, tornar pblicas algumas regras e obviedades eleitorais:
Primeira: S pode ser candidato a prefeito, vice-prefeito, vereador e at presidente da repblica, quem for filiado em um partido poltico. Sem filiao no h nova candidatura (art. 11 da Lei 9.504/97).
Segunda: O prazo para a filiao s prximas eleies municipais 01/10/2011 (art. 9 da Lei 9.504/97). Isto mesmo, quem no filiar a uma legenda at o dia 1 de outubro deste ano no pode ser candidato nas prximas eleies municipais de 2012. O tempo implacvel, faltam apenas 4 meses para o prazo final de filiao. Se Lula, o Papa, Pel ou Padre Henrique quiserem ser prefeito de Montes Claros e no filiarem at a mencionada data, bau-bau, no podero ser candidatos.
Terceira: No adianta filiar e no ter o domnio do partido. A simples filiao no d o direito de candidatar-se. A candidatura dever ser homologada pelo diretrio do partido at o dia 30 de junho do ano da realizao das eleies (art. 8 da Lei 9.504/97). Assim, se o novo candidato no tiver a maioria dos delegados pode desistir de se lanar a um cargo majoritrio. Vai nadar e morrer na praia.
Cabe alertar que atualmente os partidos j tm donos. Todos os diretrios municipais j esto ocupados pelos conhecidos polticos de Montes Claros e seus correlegionrios. Seno, vejamos: DEM (Jairo Athayde e Ruy Muniz), PSDB (Ana Maria), PMDB (Tadeu Leite), PPS (Humberto Souto e Athos Avelino), PP (Gil Pereira), PTB (Arlen Santiago), PT (Paulo Guedes), PDT (Carlos Pimenta), PV (Antnio Henrique e Ariosvaldo Melo). Restam basicamente os nanicos, que tambm, em sua maioria, j esto ou estaro controlados pelos experimentados caciques polticos.
Donde se conclui que nas condies atuais ser difcil um candidato novo conseguir um espao numa grande legenda para se lanar a eleio majoritria. Os polticos de planto no daro trincheira, munio e facilidades para um eminente adversrio.
Volto a afirmar que no basta apenas a pura filiao para surgir uma candidatura nova. O pretenso candidato ter que filiar-se numa legenda juntamente com um exrcito de companheiros irmanados no compromisso de disputar e ganhar a conveno partidria, para ento lanar oficialmente sua candidatura. Parada dificlima.
Quarta: Candidato em partido pequeno, sem coligao, no ganha eleio em cidade que tem programa eleitoral na televiso. Candidatura com pouco tempo de televiso no decola. J dizia Duda Mendona as 3 coisas mais importantes numa eleio so: Televiso, Televiso e Televiso".
O eficiente uso da web pode ser suplementarmente importante numa candidatura, mas o carro chefe de uma campanha eleitoral ainda ser um criativo programa na TV.
Sendo assim, se nos prximos quatro meses no surgir um meteoro poltico, um fenmeno eleitoral, o que pouco provvel, nenhuma grande novidade acontecer na poltica de Montes Claros. E tudo estar como dantes no quartel de Abrantes.
Trata-se de uma leitura fria e bvia do cenrio poltico montesclarence.


67675
Por Ucho Ribeiro - 23/5/2011 11:20:03
AULA DE DICO

ramos oito filhos barulhentos. Cada um mais estridente que o outro. Se um de ns quisesse dar alguma opinio tinha que elevar a voz, seno ningum escutava, pois todos falavam ao mesmo tempo. Quem no estava acostumado, ao chegar l em casa, achava que era briga. Eu tinha o apelido de Hermnia, nome da lavadeira, que falava igual uma taquara rachada. A exceo era Marquim, famoso Z do Grilo, que no era de muita conversa. Por muito, entrava mudo e saia calado. Gostava mesmo era de ir para o stio Tira-Teima, ficar com vov Pacfico caa de passarinhos, pescar e cuidar dos bichos de estimao.
Para diminuir aquela zoeira, esvaziar a casa e ter uns momentinhos de paz, Mame decidiu matricular a ninhada quase toda nos mais diversos cursos do recm criado Conservatrio Lorenzo Fernandes. Pat, dez anos, foi fazer acordeom; Fred, que tinha nove, foi dedilhar piano; Mnica, com seis, se deu bem, foi lambuzar-se nas tintas do curso de arte. J eu, oito anos, e Z do Grilo, sete anos, fomos alistados para estudar DICO. Os outros, Paulim, Mrcia e Berta eram pequenos demais para cursar qualquer coisa. Ficaram com as babs. O triste que sobrou logo pra mim e Marquim aquela tal de Dico que no tnhamos a mnima idia do que seria.
Segundo Mame, a professora era tima, perfeita. Tratava-se da renomada educadora e artista, Dona Felicidade Tupinamb, que vivia para o Conservatrio e tinha todos os alunos como filhos. O curso com certeza ajudar-me-ia a expressar mais pausado, civilizadamente, sem destramelos e estridncia; e a Marquim a falar, desembuchar, pois vivia emudecido, na dele.
A notcia foi um xarope, imagine estudar naquele ambiente mais feminino, cheio de frescuras e tric-trics. Queramos mesmo ficar soltos, sem horrios, na larga, com a meninada no campo do Cassimiro.
Fomos arrastados, macambzios, para o primeiro dia de aula. Parecia que amos para forca. Um suplcio.
Ao chegar, Dona Felicidade estava porta espera dos alunos, com um grande sorriso. Era alta, e mais alta ainda por causa dos seus saltos de sapato imensos e finos e do seu coque, dourado, empinado, no alto da cabea.
De homens, ou seja, de meninos, s tinha Marquim, eu e um garoto mais novo, de nome Jos. Este foi para corrigir sua fala rouca, grave e retumbante. Ainda hoje, ouo os seus rururus. O resto da sala era s de meninas, umas doze, todas animadssimas, fresqussimas, com vestidos de renda, frufrus, lainhos nos cabelos, bolsinhas e um desprezo enorme pelo trio troglodita - ns trs, Marquim, Jos e eu. A vergonha que sentamos e o desprezo das meninas nos fizeram sentar l atrs, na ultima fila. Sentamos, baixamos a cabea e no abrimos a boca. As meninas, entretanto, comandadas por Ireninha, repetiam os trava-lnguas no compasso das mos da renomada Dona Feli Tupinamb: O RAA-TO ROO-EU A ROOU-PA ROO-XA DO REEI DE ROO-MA. O PE-LO DO PEI-TO DO P DO PE-DRO PRE-TO.
Como no abriamos a boca, a professora resolveu chamar-nos frente para desenhar alguma coisa no quadro, no intuito de conseguir a nossa participao na aula. Fui o primeiro a ser convocado. Envergonhado e sob o olhar crtico das meninas, desenhei duas bobaginhas ridculas. Ao terminar, de cabea baixa, calado permaneci. Ento, Dona Feli perguntou-me: - Ucho, que desenho este?
Eu respondi: - uma casa. E ela de novo me arguiu: - E aqui do lado da casa, o que ? Eu, ainda cabisbaixo, falei: - Uma rvore. Ela, ento, me cobriu de elogios, que eu tinha certeza de que eram falsos, ainda mais aps assistir saraivada de caretas da dzia de meninas que ficavam na frente.
Marquim foi o segundo a ser chamado. Mas Z do Grilo no levantou, s balanou negativamente a cabea. Empacado ficou. Foi quando a professora convidou Jos para ir frente e ele saiu do nosso lado em direo ao quadro, na maior pompa. Todo empinado.
Z pegou o giz e j saiu de cara riscando uma linha horizontal de uma ponta outra do quadro negro. Em seguida, voltou ao comeo da lousa e riscou uma paralela que distava uns trinta centimetros da primeira. Ao final das paralelas, fez uma bola e um corte na ponta.
Eu, ento, j comecei a estranhar aquilo e a pensar besteira. Veio a culpa de pecar por pensamento e a certeza que teria de confessar ao Padre Dudu, no sbado.
Pois no que o Z Mendes foi ao outro lado do quadro e fez mais duas bolonas no comeo das paralelas? A, eu tive a convico mesmo do que tinha imaginado, pois, pela cara da fessora, ela tambm teria de confessar ao Padre Dudu.
Dona Felicidade Tupinamb, azulada, esverdeada, furta-cor, toda sem rosca, escorou na mesa e perguntou: - Jos, Jos, voc desenhou um drago, no foi?
Ele, posudo e orgulhoso, disparou com a vozona grossa, retumbante e inocente:
NO, ISTO A RLA DO HOMI!
O mundo parou. O silncio tomou conta de tudo. Ficamos abestalhados, estupefados. Meu Deus do cu, de onde Z tirou essa sandice mais doida? Depois de uns segundos de espanto e inrcia, olhando para o vaidoso e pomposo Z, Marquim partiu em disparada, a mais de mil, e eu, sem saber o que fazer, sa tambm, a toda, esbarrando nas cadeiras vazias e tropeando nele. Pegamos a Rua Coronel Prates desembestados e rumamos para nossa casa no bairro Todos os Santos. Corramos, corramos, sem saber o porqu, afinal, no tnhamos nada a ver com a doidice de Z, mas corramos. Sinto-me como se estivesse correndo at hoje, sem culpa, mas culpado, pois eu tinha visto e ouvido aquela doidice.
Em seguida, veio o medo de Dona Feli contar o ocorrido Mame e nos culpar de ter arquitetado aquilo, pois Jos s tinha seis anos.
Passamos a semana espera de uma sova daquelas, que nunca veio. S sei que jamais voltamos aula de dico. Ficou o dito pelo no dito.


67617
Por Ucho Ribeiro - 17/5/2011 14:09:09
Irineu

Acordei turvo, sem vontades de cidade. Permaneci nos travesseiros, entocado, na tentativa de fugir dos ermos da conscincia. Aps relutncias, arrastei-me at o refgio do banheiro. Opaco, sem ideia, fiz acareaes no espelho, contorcendo em embrulhadas caretas. Refugava o asco impregnado das urbes. A custo, esguiei pela casa, desviando da TV e de suas imprestveis notcias, ensurdeci para os rudos do rdio da cozinha. Sigilosamente, engoli o caf, peguei as chaves, parti timidamente para enfrentar a ofuscante luz do dia. Em busca de sombras, confuso, fui despertado pelos latidos do meu cachorro Angus, convocando-me para um passeio, um devaneio.
Entrei no carro. Abri a porta para o parceiro e sa desviando do centro, dos buracos, dos sinais e trfego. Num ufa! peguei a estrada, escapuli. Montes Claros ficou para trs. Desliguei o ar, abri as janelas para a brisa azul. Cu matutino, temperatura branda, horizonte longnquo, nuvens em bolas e bolos, enfim sossego nas vistas.
Apaziguei, baixei a velocidade e senti o vento na cara. Angus, de cabea para fora, refrigerava sua lngua. Easy rider.
Relutava em no pensar em nada, mas o trnsito at Bocaiuva me laava a realidade. Muitos carros, caminhes. Um azucrino. Resolvi, ento, safar rumo ao Jequitinhonha. A estrada outra, vazia, boa para divagar em bobeiras, lembranas, branduras. Pois foi o que aconteceu, remexi o ba das memrias, resgatei carinhos, gestos, delicadezas, reuni perdas e encontros. Borbulhei nos meus caldos. Adociquei meus recordos. O sorriso desabrochou, relaxei, desamarrotei. Olhei para o lado e Angus virou a cabea, com a cara estalando gratido.
Ao passar por Olhos D`guas, os meus marearam em cumplicidade.
O caminho por instinto era Rio Preto, antiga Sapucaia, Felisberto Caldeira, hoje, So Gonalo do Rio Preto. No parei na cidade, fui direto para o mato, para casa de Irineu.
Pronto, estava no porto das calmarias. Bom dia para c, bom dia pra l, meninos e patroas boas. Cumprimentos formalizados, a conversa ento foi tomando os rumos da natureza, das perplexidades.
- Ucho, o Jequitib incorpou, taludou, mas os Ips num firmaram, to carecendo dgua.
- Molha ento, Irineu!
- Num dianta gua molhada, bom mesmo as guas da misericrdia.
Papo vai, papo vem, espaado por pitos de cigarros de palha, tomamos a serra pela trilha ao fundo da casa.
- E carrapato, Irineu?
- Preocupa no, eles s vm com a friagem, no orvalho. Maio ainda num t frio pra tanto.
Esbaforido, Angus nos seguia dando tibuns nos crregos d`gua, refrescando-se. Eu com inveja, mergulhei tambm e caninamente refrigerei-me. Irineu, s riu. Da a pouco, assuntando, profetizou: - Olha Ucho, hoje vai morrer um l pelos lados do Alecrim.
-Como voc sabe?
- Num t ouvindo o canto do Coan(*) vindo de l? batata! No rumo que o Coan canta, nego espicha as pernas.
- Ah, no sabia!
Subimos mais serra, pulamos crregos, contornamos rvores, atravessamos cheiros de assa-peixe, capim gordura, gabiroba, sapucaia. Os passarins melodiavam toda a subida. E Irineu sanava minhas ignoranas.
- Essa gua corre o ano inteiro?
- Ucho, seca e verde. Dagora em diante, ela imida, mngua, mas num corta.
- E estes peixinhos, Irineu? Nessas alturas, como eles vieram parar aqui, bem perto da nascente?
- Ucho, peixe microbi dgua. Eles vm com o arco iris.
Pronto, j tava bom. Fisguei o puro encanto. A poesia.
Bendito.


(*) Coan ou Acau (herpetotheres cachinans) pertencente famlia do gavio, habita o Cerrado, a Caatinga e as florestas midas.


67213
Por Ucho Ribeiro - 11/4/2011 21:17:07

(Na foto da direita para esquerda - agachados e sentados: Tio Enio, Costa, Joozinho, Emerson, Genesco, Marcelo, Ucho, Da Roa, Roy, Demerval, Eustquio. Em p: Carlinhos, Deisy, Etienne, Marcelo, Maro, Tola, Pancho, Helio, Claudio, Marcos Brito e Salvador)

SEM NEM

Hoje o cu abaixou. De joelhos, agachou para resgatar Nem e sua alegria.
Tinio, tio Enio, tio de todos ns, passarim de pedra azul que h muito sentou pouso nos montes claros, foi-se, bateu asas, voou, subiu aos cus. Encantou-se.
Ficamos a deus-dar. Ss, com ns no peito. Saudade sem voz, atroz. Sem rumo, prumo, sem canto, cantos - desamparados. Estamos rfos de singeleza e afeto.
Os pssaros desapareceram de cantar, os butecos emudeceram em minutos de silncio, os peladeiros penduraram suas chuteiras, os pescadores recolheram suas linhas e os amigos se aninharam para suportar a ausncia do Nem de todas as horas.
desse jeito! Foi-se o melhor de todos ns.


66920
Por Ucho Ribeiro - 21/3/2011 17:44:15
Consternado recebo a triste noticia do falecimento do Dr. Konstantin.Fica a saudade do mdico, do artista e do amigo Konsta que mais parecia um personagem de um romance russo. Um papo bom, diferente. Uma alegria inteligente, com ironia e humor fino.Na juventude, sentvamos nos bares da vida para ouvi-lo contar suas longnquas lembranas da Bulgria, a longa travessia do Oceano Atlntico, a pequins de nossa Montes Claros na sua infncia e a boemia de Belo Horizonte nos anos 50.Irreverente, sempre cobrava indignao e ousadia da nossa juventude.Mestre das cores, do desenho, nosso maior artista fazia charge da vida. Retratava e ironizava o grotesco mundo a partir de suas ateias crenas, de seus amigos e das personalidades do sculo XX. V, Konta, feliz e em paz, encontrar com os seus: Andrey, Maro, Mauricinho, Mozart. Dr. Haroldo e Darcy.Um terno abrao a Dona Yede, a Rayu e a Igor.


64233
Por Ucho Ribeiro - 1/12/2010 16:22:43
Conterrneos desterrados!

Vocs, que a muito, vivem longe da terrinha, vo morrer de inveja, vo ficar "aguano"!
Comeou a safra do nosso velho e saboroso pequi. O aroma e as cascas j esto por toda parte. O povo est rindo de pana cheia.
Ao passar pelo mercado municipal, a caminho do meu trabalho, esbarro no movimento dos carrinhos de mo, transportando e espalhando o fruto amarelo para todos os cantos da cidade. Carregam-no, debulhado, a cu aberto, a exalar cheiros e desejos. Levam o riso solto, o contentamento dos monteclarences. Como dizem alguns: a "Flor de Zaco".
At semana passada, s encontrvamos a falsa fruta amarela do longnquo Gois. Estvamos sujeitos a um pequizinho chocho, sem gosto e sem polpa. Agora no, cada bitelo, de dar gua na boca. Alguns parecem uma manga ub, da cor da gema caipira. No precisa nem roer, d at para morder.
Os vendedores os separam pela cor e pelo tamanho e barganham no preo: "melhor no tem, s quando chegar os de Campo Azul". Outros j retrucam, "bom mesmo so os de Ibia.
O programa comea j nas compras. Tudo motivo para tomar uma e mais outra nos preparativos do arroz com pequi. No mercado, ao comprar a carninha de sol, o tomatinho pocan, o coentro verdinho, a pimenta de cheiro, inevitvel o convite de um conhecido para uma talagada da boa. Ora, ningum de ferro!
Em casa, na hora do almoo, um cheiro s, o aroma vem tambm das casas vizinhas, a alegria que reina ao redor da panela amarela.
Alguns de vocs, talvez por estarem a muito tempo fora destas terras norte mineiras, esqueceram a receita do arroz com pequi. Cada famlia tem a sua, mas de qualquer forma, segue abaixo uma receita supimpa - da alegria e da satisfao.
MODO DE PREPARO
Primeiro abra uma cerveja. Ponha no copo e prove. T gelada? Ento, d um ou mais goles para encarar a empreitada. servio srio e voc precisa estar atinado.
Em seguida, em uma panela, cozinhe por uns dez minutos os pequis, com bastante gua e sal a gosto. Lembre-se, os pequis que vo a panela no podem ficar completamente cozido.
Bem, mas alguns pequis devem ser preparados, em separado, como tira-gosto, para ser comido com a senhora farinha de Morro Alto. Afinal, somos filhos de Deus e no vamos ficar esperando o arroz est pronto para comer um pequizinho.
Passado o primeiro passo, mais um golinho na loira e um didal na pinga. Roa uns pequis, conte umas potocas e vanglorie o seu arroz. Isto far bem pra voc e para o prato. Ele gosta de elogios.
A, ento, corte a costelinha e a carne de sol em pequenos cubos e refogue em outra panela grande com corante (muito pouco porque o pequi vai colorir o arroz), alho, cebola e sal. Tome mais uma cervejinha e d um trisca na pinguinha. Caiu na raia certa? timo, tome ajuizadamente outra pequetita. Acrescente o arroz e frite sempre mexendo, at comear a pregar no fundo da panela. A, cuidado, tome uma rapidinho e despeje o pequi pr-cozido juntamente com sua gua na panela do arroz. Prove o sal e acrescente o tomatinho pocan e a pimenta de cheiro.
Misture, coloque tampa na panela e pronto. Teremos 15 a 20 minutos para tomar uma e outras, sossegado, enquanto o arroz com pequi cozinha em fogo brando.
Quando estiver cozido o arroz, salpique o tempero verde por cima da panela e sirva quente.
Pronto, est feita a festa! Sucesso garantido!
E a, aguaram ou no aguaram?
Ateno, Ateno! Cuidado com as atividades mais faceiras, pois o bicho, embora restaure as foras geradoras, remoso e pode dar uma indigesto daquelas. Quem sabe at d congesto, ai, ai...
Caso interessem, segue abaixo a lista dos ingredientes:
4 dzias de pequi de Campo Azul (dos graudos);
4 copos de arroz;
1 quilo de carne de sol;
quilo de costelinha;
1 xcara pequena de leo de cozinha;
1 cebola grande;
1 cabea de alho;
quilo de tomate pocan (regateiro) aquele pequeninho, redondinho;
1 colher sopa de corante;
Coentro verde em bolinhas;
Pimenta de cheiro;
Tempero verde picado;
Sal;
Farinha de Morro Alto;
Cerveja a rodo e pinga a revelia.
Se eu fosse vocs, e estivesse apartado a tempo, aproveitaria este dezembrozinho chuvoso e daria um pulinho aqui na terrinha para matar a saudade do arroz com pequi.


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Por Ucho Ribeiro - 20/8/2010 16:10:13
Meninos e meninas,

Agosto me traz a lembrana redemoinhos empoeirados, que bailavam pela cidade. Densas cirandas de ventos que eu pulava dentro, de um p s, ressabiado, a procura do Saci Perer e de suas estripulias. Era o ms dos ventos soprantes de araras, papagaios e pipas. Alsios que alavam minha sureca (arara sem rabiola), vermelhamarela, losangular, saliente e atrevida. Raia que coroava o azul morno dos cus.

Os ventos chegavam sorrateiros, sem avisar, soprando devagarzinho, brisazinhas. Com o decorrer dos dias, iam engrossando, tomando corpo, e brotavam os redemoinhos. A meninada no tinha conscincia cronolgica dos ritos da natureza, agia instintivamente. Ventou, ento estava na hora de soltar pipa.

Assim, a primeira semana de agosto era gasta no gosto de manufaturar araras e manivelas, de providenciar, no escondido, o p de vidro e a cola de madeira para o cerol. De arranjar as taliscas de bambu no Pequi de Joani e descolar uns trocados para comprar os papis de seda coloridos e os carretis de linha 40 na lojinha do Seu Tamiro, na Travessa Cnego Marcos.

A chegada dos ventos levava a crianada para os finais das ruas, para os mangueiros, onde no havia postes de luz, nem os inimigos fios, ladres dos artefatos de alegria. Ventanias que embicavam pelas ruas soprando catops e embaralhando suas fitas de cores vivas. Poeira e brancura. Puras.

Ns, meninos, s queramos olhar para os cus e ver nossas araras nas maiores alturas, sublimes, como um gavio reinante caa de uma presa. Ficvamos de butuca a procura de outra pipa, iada por meninos de outros bairros. Os territrios e domnios da garotada eram demarcados pelos limites das ruas, mas o cu no era de ningum. L em cima, no campo de batalha, valia tudo. Ento, se vssemos uma arara empinada o desafio era certo e a conquista era resgat-la com classe. A manha era dar fortes toques na linha, fazendo a pipa mergulhar lateralmente, em velocidade, at alcanar e laar em 360 a outra linha descuidada. Fisgada, enlaada, com ligeireza recolhamos a presa na manivela e ficvamos no aguardo do envergonhado dono a procura da sua arara derrotada. O orgulho espirrava de satisfao. Aqui pra ns, pretritos tantos anos, confesso: perdi a maioria das batalhas. Eu gostava mesmo era de Cabaspar, que meus primos de Belo Horizonte chamavam de Pentes Altas.

Passados os ventos de agosto, a poeira, os catops, os amarelos e roxos dos ips, setembro surgia mais quente e trazia chuvas espordicas. O p sumia, a terra dura amolecia, os riscos das fincas e as bilias apareciam. A meninada descala, sem nem bem saber, esquecia as pipas, e furava o cho macio com o dedo. Estava na hora de desentocar as bolinhas de gude.

Dum dia para outro, no havia uma esquina que no tinha um bolo de meninos no Gute please, todos. Era assim mesmo, com essa mistura de ingls e portugus, que iniciava a partida de bolinha. Da, um o garoto dizia: bolol na minha, no dou nada e quero tudo. Nada mais ditatorial. Quem gritasse primeiro esta frase, alm de no poder ser alvejado, mesmo estando no jeito, tinha direito a todas regalias, mandingas e favorecimentos, tais como: mo quieta, mos nos peitos, rondas... Cada um tinha sua bolinha sorteira (da sorte), o bolofofo (bolinha grande da cor de caf com leite), a esfera minscula e as olho de gato de matar de inveja.

E quem no brincou de Guerau, que traduzido ao Far West de outrora queria dizer Get yours hands up.

Bem, meninos e meninas de antigamente, deu saudade, n? Ento, mate-a!

Neste sbado, dia 21/08, s 20 horas, no Skema Kent, estaremos reunidos para relembrar a nossa infncia, quando ramos Felizes e Sabamos.

Aparea l, e vamos reviver nossa Montes Claros Criana!


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Por Ucho Ribeiro - 1/7/2010 14:52:46
MENINICES

Sentados na cozinha da nossa casa, Marcinha e eu, garotos, ouvamos embevecidos a prosa do tempo do ona de nossa av Eny com a antiga cozinheira Joana. Recordavam conhecidos, distantes a muito: comadres, sinhs, agregados...
Joana coava um cafezinho e vigiava os biscoitos no forno. Vov, aposentada a pouco do Dnocs, balanava a perna, pitava e soltava a fumaa em rodopios. Volta e meia entrelaava os dedos e rodava os polegares em crculo. Para frente e para trs. Pressa? Nenhuma. A conversa ia maneira, parecia uma pescaria. Silncio, silncio, at que uma fisgava na memria um relembramento: Ih, e S Joaquina? Passava roupa que era uma beleza. Tudo engomadinho, limpinho, alvim, alvim... Ouvi falar que uma neta dela, uma dos olhos gateados, amigou com um policial e mudou l pros lados do batalho. Mas num t gostando no, dizem que o homem bate nela.
Papo vai, papo vem, volta e meia pintava um pedinte para receber sua concha de feijo, que meus pais costumavam doar aos necessitados. Na cozinha, ficava um saco de mantimento, no seco e verde, que era distribudo no decorrer dos dias, ordeiramente, sem atropelos. Quando acabava, Benjamin, um empregado amigo, repunha um novo saco ao p da porta.
Os mendicantes chegavam a nossa casa, que no tinha os altos muros de hoje, entravam pela garagem, punham a cara na porta da cozinha, davam um boa, estendiam seu embornal, ganhavam uma poro de feijo, deixavam um Deus lhes abenoe e iam embora providos. Uns, mais ntimos da cozinheira, eram adulados com caf, po e at prato de comida. Retribuam o donativo com as novas da cidade, o disse-me-disse, um fuxico: O menino de Leonel Beiro brigou l nos Morrinhos, teve facada e tudo mais.
Conversa vai, conversa vem, de sbito, surgiu um tipo horrendo, sujo, esfarrapado. A feira e o rompante foram tais que nos deram um grande susto. A pequena Marcinha, assombrada, abriu a boca. Num timo, eu disparei: tira a mscara, homem, tira a mscara, que ela pra de chorar. Foi uma gargalhada s.
Passado o susto, os risos, as desculpas e a falta de graa, logo que o feioso foi embora, vov Eny consolou minha mancada contando uma outra de sua filha Maria Jacy, minha me, quando menina.
Relembrou que outrora os viajantes a cavalo pousavam nas fazendas de conhecidos que ficavam nas ermas travessias. Normalmente, um cavalariano vinha na frente, avisando que fulano ou fulana com mais sicrano e beltrano iriam chegar ao final da tarde e solicitava pouso. O aviso evitava que o proprietrio fosse pego desprevenido, dava tempo para lustrar a casa, esticar as roupas de cama, preparar uma comidinha e providenciar gua quente para o banho tcheco. Ou melhor, tcheco, tcheco.
Pois bem, Vov avisada da vinda da Sinh Tiana, deixou escapulir, na frente da filha Jacy, a seguinte observao: Oh, gente, a comadre Sebastiana to boa, to prendada, mas d pena a feira dela.
Cici, pois, pequetita, ouviu aquilo e ficou esperando a chegada do estrupcio. L pelas tantas, j entardecendo, foram para porta da fazenda aguardar o cortejo. Chegaram, desapearam. A menina Cici observava tudo, tanta gente nova, o cumprimenteiro geral, e no tirava os olhos da Sinh Tiana, at que destramelou: U, me, a comadre feia, mas no to hor-ro-ro-sa assim como a senhora fal!


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Por Ucho Ribeiro - 26/6/2010 20:14:46
Cansado, fugi hoje pela zona rural para tomar umas e saborear um franguinho, se possvel, com abbora e quiabo. Nem to distante da cidade, encontrei um boteco com as portas viradas para o nascente, ventilado, debaixo de um frondoso pau-d`leo. O cu estava azul junho, os cavalos amarrados ao redor e o povo curtindo o solzinho fresco. Entrei, cumprimentei apoucado uns e outros, pedi uma cerveja, encomendei o frango, avisei a falta de pressa e sentei numa mesa de madeira, ao canto. No princpio, fiquei assuntando a pouca conversa que girava sobre temas locais. Na parede do fundo, a copa era transmitida pela TV. O som baixinho.
Depois de ter tomado umas duas, desinibi, enturmei e ca aos poucos numa prosa amistosa e descompromissada com os moradores. L pelas tantas do segundo tempo, um deles me argiu: Oh, moo, esta Coria e Uruguai so times de So Paulo ou do Rio de Janeiro?.
Senti at alma que estava no lugar certo.


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Por Ucho Ribeiro - 12/6/2010 09:21:06
MONTES CLAROS LHE DEVIA PAIXO.

Ray Colares, que o consagrado Helio Oiticica vaticinou, na dcada de 70, ser o grande jovem gnio brasileiro, ressentia profundamente no ser reconhecido pelos montesclarenses. Lembro-me, no Rio de Janeiro, Baixo Gvea, Ray inconsolvel, em pranto, lamentoso por seus conterrneos no o conhecerem e nem valorizarem seu trabalho.
Entre um chopp e uma lamria, sofejava: E ms que vem eu vou de trem pra Montes Claros.... Para logo em seguida, retrucar: No tenho nada com isso nem vem falar. Eu no consigo entender sua lgica...
Cara, eu no entendo a lgica deles! Querem que eu seja artista e careta? No d! O Hlio que dizia: Seja marginal, seja heri... Bicho, eles acham que eu aspiro o abismo?
J com um chopp na mesa, levantava, pedia alto ao garom outro e mais um usque. Ao sentar, com os olhos brilhando, jurava que ainda iria pintar o teto de sua imaginvel Igreja de Nossa Senhora de Montes Claros, onde danaria fitado com os catops e marujos. Pensativo, silenciava por um tempo e questionava: Ser que os riscos dos meus nibus, dos meus quadros, so inspirados nas fitas dos catops? Nisso batucava na mesa o som dos tambores e dava um sorriso de criana. Felicssimo Colares.
Ciclotmico, alternava momentos de depresso e excitao. Cantava Amo Te Muito para nossa Moczinha e em auto-reverse se dirigia aos desconhecveis comensais das mesas ao lado, lamentando que ele no era querido em na sua cidade. L, gente, imagine, eu s sou marginal, no sou artista.
Da, num susto, abria o JB na mesa do bar e repudiava os elogios do jornal s suas exposies nas galerias Paulo Klabin e Sarramenha no Shopping da Gvea. Olha, Ucho, o Morais - referindo-se ao crtico Frederico Morais - ao invs de se conter em comentar apenas meus trabalhos, est dizendo que a minha vida trgica. TRGICA? Trgica a fome! Trgico operrio cair de andaime! Trgico office boy morrer eletrocutado em trilho de metr! Minha vida no trgica porra nenhuma!. Eu no entendo a lgica deles!
Ray s queria ser amado, ser reconhecido. Era puro amor... no correspondido.
Pois bem, passados 24 anos do encantamento de Ray, enfim Montes Claros, tutorada por Viviane, Feli, Caco, Fabiola e Andra, resgatar a dvida de reconhecimento com o homem e o artista Colares. Cem criativos montesclarenses foram convidados e se dispuseram a prestar um tributo ao nosso gnio das artes. Receberam um guarda-chuva, como um substrato, para interferirem artisticamente em homenagem a Ray Colares e sua obra.
Os trabalhos de alta qualidade, esto divertidssimos, bonitos de se ver numa exposio que acontecer do dia 14 a 20 de junho, no Montes Claros Shopping Center.
bom lembrar que a mostra tem carter filantrpico.
Portanto, nesta segunda feira, dia 14, Ray receber a maior demonstrao de amor da sua cidade Montes Claros. Ele, agora, com certeza, estar encantado e em paz.
RAYMUNDO ETERNAMENTE FELICSSIMO COLARES.


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Por Ucho Ribeiro - 24/5/2010 17:10:21
Existe uma pequena fbula conhecida e transmitida pelos apaixonados por cachorros, que sobre a fidelidade do co de Mozart. a seguinte:
Wolfgang Amadeus Mozart, o grande compositor, nasceu em 1756, em Salzburgo, na ustria. Foi compositor do sculo XVIII e considerado um dos maiores msicos do mundo. Foi em Paris que suas primeiras obras publicadas apareceram, quando Wolfgang tinha apenas sete anos.
Mozart foi reconhecido por reinados de toda Europa. Entretanto, nunca soube lidar com dinheiro. A explorao de sua bondade e genialidade musical logo surgiu por parte de grandes oportunistas. Com poucos anos de casado, comeou a ver sua vida desabar. A mulher abandonou-o. A me, que adorava, adoeceu gravemente. Mozart, sem dinheiro, vendia composies em troca de remdios para sua genitora, que morreu aps alguns meses. Abatido e desesperanoso, Mozart caiu enfermo.
O seu fiel cachorro, o nico amigo, foi quem ficou ao seu lado at o dia do seu falecimento, em 5 de Dezembro de 1791. Mozart foi enterrado numa vala comum, em Viena. Sua mulher, Constanze Weber, que residia em Paris, ao saber da morte de Mozart, voltou a Viena a fim de visitar o tmulo do marido. Ao chegar, entrou em desespero ao saber que Mozart havia sido enterrado como indigente, sem que lhe dessem nem uma placa com seu nome como lpide.
Era dezembro, em pleno inverno europeu, fazia frio e chovia em Viena. Constanze resolveu vasculhar o cemitrio procura de alguma pista que pudesse dizer onde Mozart fora enterrado. Procurando entre os tmulos, viu um pequeno corpo, congelado pelo frio, em cima da terra batida. Chegando perto reconheceu o fiel cachorro de Mozart.
Hoje, quem visitar Viena, ver um grande mausolu, onde est o corpo de Mozart e de seu cachorro. Foi por causa do amor desse animal de estimao que Mozart pode ser achado e removido da vala comum onde fora enterrado. Ele permaneceu com seu dono at depois do final. Morreu junto ao tumulo de seu dono porque, sem ele, no poderia mais viver.


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Por Ucho Ribeiro - 20/8/2009 17:08:05
SER CATOP

Ucho Ribeiro

Desde muito as cores das fitas e os sons das caixas dos Catops me entorpecem.
Quando criana, ao final da aula do Grupo D. Joo Pimenta, segui atordoado aquele tum-trum-tum estonteante, ouvindo encantado o espocar dos foguetes e o bem-vindo sininho da antiga Igreja do Rosrio. Fiquei ali horas, boquiaberto, me deliciando com o enlevo dos movimentos e das saudaes ao So Benedito. Estava em transe com tanta glria e encanto quando fui puxado pelas orelhas e esculhambado pelo meu sumio. Vexado por ter causado preocupaes aos mais velhos - e com receio de uma sova - careci de coragem para inquirir o que era aquilo to alegre e to comovente. Cresci desejando pular para dentro daquela roda, daquele cordo de contentamento, mas as voltas da vida me afastaram para longe. Do distante s restou saudade dos matizes vivos das fitas arco-ricas e o pesar de no ter-me misturado em meia-luas com os Catops.
Ao voltar terra, a carranquice e o cotidiano sintonizaram-me s coisas menos importantes. O rito do dia a dia baixou a chama do menino, censurou seu fascnio e desejo catopico. Vivi durante muito tempo um torpor para as coisas intangveis, uma impassibilidade s ocorrncias habituais, na busca peregrina do amplo acontecimento e da grande mudana.
Entretanto, os trancos e arrancos da vida, aos solavancos, me ensinaram que o ritmo tem que ser outro. O segredo est na simplicidade. Temos que perceber que tudo um milagre e nosso maior poder a capacidade de sempre agradecer a Deus. a gratido.
Resolvi, ento, afrouxar. Frouxar a vida, as rdeas, os quereres e as rigidezes. Deixar estar. Procurar a humildade, que a f na sua expresso mais sublime.
Este desaperto do esprito somado aos incitamentos do Paulo Narciso, de Raquel e do meu padrinho Paulo Estevo, foram terminantes para tornar-me um Catop. Paulo levou-me at Mestre Joo Faria, e o seu filho, o veterano PA, abenoou minha calorice. Raquel cuidou das minhas alegorias, emoldurando afetuosamente meu cocar com lantejoulas, miangas e plumas de pavo.
Na quarta-feira a noite, estava pronto para altear o mastro de Nossa Senhora do Rosrio e misturar o tum-tum-tum do meu corao com o tum-trum-tum das caixas, surdos, tamborins e pandeiros dos Catops. A emoo transbordava por todo lado, por todos os poros, e mais ainda porque Tavinho, meu filho, sairia tambm no terno. Iria viver o que no pude viver na minha infncia.
Ao chegar, Rubim e eu ouvimos o meu Mestre Joo Faria dizer: Oh, os meninos, a alma precisa de festa. E retrupicar : Onde tem alegria no tem pecado. Aquelas palavras bateram forte e de forma sagrada. Naquele momento decidi exercitar-me na f e na alegria. Catopecizar na f. Lembrar que a f o poder mgico. Isto no uma coisa fcil, exatamente porque muito simples. Procurei, ento, esvaziar-me, deixar espao para ela entrar. A alegria viria junto. Como veio. Ali, mais uma vez, aprendi que jamais devemos subestimar a simplicidade.
Chegou a hora. Concentramo-nos em uma rua quieta e escura. Os Catops, para mim annimos e desconhecidos, fizeram uma fogueira para afinar seus instrumentos de batuque. Aproximaram os tamborins e as caixas de folia junto do fogo para esticar o couro e apurar o som. Eu a tudo observava, sem entender bem o sentido das coisas. Receava tambm no dar conta de acompanhar o ritmo. Virgnia, filha do historiador Hermes de Paula, dissera-me que acreditava que a palavra Catop era um vocbulo africano que significava batuque e eu, pobre de mim, jamais soubera batucar.
Partimos. Os danantes me receberam como um deles e riram do meu desajeito. Ensinaram-me a batida de um toque lento e dois rapidinhos. Tum-trum-tum. Percebi que, alm da f, o riso a nica coisa que levam realmente a srio. Creio que por isso que eles falam brincar o Catop.
Frouxei-me ao ver Tavo ao meu lado, saltitando e batendo seu pandeirinho. A respirao ficou ofegante. Os olhos marearam. A face deixou escapar um sorriso longo e verdadeiro como todos os sorrisos deveriam ser. Da em diante, relaxei de vez, mergulhei inteiro nas festas, a gosto, passei a quinta e sexta-feiras; o sbado e o domingo em desatino, em desvario.
Voltei minha menina Montes Claros, senti sua poeira e o seu calor, sua alegria. Experimentei o frescor da noite e o luar. Percebi, a cada passo, o lusco-fusco das luzes entrelaar nas minhas fitas coloridas; senti o cheiro de manga rosa e do pequi. Ouvi os gritos alegres das crianas; o silncio quieto das missas de Padre Quirino; vi em passeata as castas beatas irms imaculadas; o murmurejar dos mantras das novenas e dos teros. Relembrei o medo dos pecados e as pernas nas soltas camisolas das meretrizes da Rua de Baixo, prostitutas midas expulsas de casa pelo descuido no amor. Vesti-me dos redemoinhos poeirentos e voei alto em cor com as pipas e papagaios nos ventos do meio do ano. Senti o gosto dos infinitos biscoitos de Fininha, dos cocos e dos melados dos quebra-queixos de Mazaropi, dos tintos pirulitos em cone enfiados simetricamente na tbua pendurada ao pescoo de Pacfica. Ouvi em orao a sublime lamria D uma esmola a pobre cega que no pode caminhar... Dilui-me em gostosos delrios.
Andei fitado, colorido, em rodopios pelas antigas ruas de Montes Claros, ao lado da alegria de Leonel e sua boneca; da singeleza e inocncia de Tuia e seu bico alvo; dos faniquitos de Requebra que Eu Te Dou Um Doce; da obsesso de Joo Doido com Terezinha minha; da solido do nmade Galinheiro e sua enorme tralha em mudana; da beleza e jovialidade de Lena, quando era doida; dos invertidos Olhos Dessa Muquia e o seu caminho paramentado; e de Manoel Quatrocentos com Gina Lolobrigida e seus Lalaica toquei minha caixa de folia carinhosamente para cada um deles. Eu os vi e os ouvi, graas ao transe que vivi nestes dias. Viver Catop no passa despercebido, no deixa ningum inclume. Ningum que foi tocado por aquelas tentculas fitas continua o mesmo.
Dentro daquele turbilho de emoo, percebi que alm de f e alegria, o que havia era solidariedade, generosidade e a mais terna amizade. S consigo me lembrar dos brilhos dos nossos olhos e da frouxura dos nossos risos.
Assim aconteceu comigo. E nada mais posso fazer agora do que agradecer por ter tido tamanha oportunidade de ser Catop. Ser Catop para mim um doce que derrete lentamente na boca e que no se gasta nunca.
Cada vez que os meus ps tocaram a calada da Igrejinha do Rosrio, ao lado de onde o sininho sada a chegada dos Catops, Marujos e Caboclinhos, e depois de testemunhar pelas ruas de Montes Claros as lgrimas, sorrisos e promessas dos meus conterrneos, reafirmei o compromisso de devoo ao Divino, para sempre.

Para o ano eu voltarei para cumprir nova misso.

Viva os presentes. Viva os ausentes. O Catop no tem fim...

Ai!




Selecione o Cronista abaixo:
Avay Miranda
Iara Tribuzi
Iara Tribuzzi
Ivana Ferrante Rebello
Manoel Hygino
Afonso Cludio
Alberto Sena
Augusto Vieira
Avay Miranda
Carmen Netto
Drio Cotrim
Drio Teixeira Cotrim
Davidson Caldeira
Edes Barbosa
Efemrides - Nelson Vianna
Enoque Alves
Flavio Pinto
Genival Tourinho
Gustavo Mameluque
Haroldo Lvio
Haroldo Santos
Haroldo Tourinho Filho
Hoje em Dia
Iara Tribuzzi
Isaas
Isaias Caldeira
Isaas Caldeira Brant
Isaas Caldeira Veloso
Ivana Rebello
Joo Carlos Sobreira
Jorge Silveira
Jos Ponciano Neto
Jos Prates
Luiz Cunha Ortiga
Luiz de Paula
Manoel Hygino
Marcelo Eduardo Freitas
Marden Carvalho
Maria Luiza Silveira Teles
Maria Ribeiro Pires
Mrio Genival Tourinho
Oswaldo Antunes
Paulo Braga
Paulo Narciso
Petronio Braz
Raphael Reys
Raquel Chaves
Roberto Elsio
Ruth Tupinamb
Saulo
Ucho Ribeiro
Virginia de Paula
Waldyr Senna
Walter Abreu
Wanderlino Arruda
Web - Chorografia
Web Outros
Yvonne Silveira